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A “CASA” NO TEMPO DE JESUS


INTRODUÇÃO
No que diz respeito à unidade e organização familiar as interferências do tempo
e do espaço onde se inserem os grupos humanos acabam por ser marcantes. A este
respeito a antropologia nos mostra que a ideia geral de família sofreu grandes
metamorfoses durante os séculos. A concepção de família que temos hoje, por exemplo,
caracterizada por “nuclear” – ou seja, constituída de pai, mãe e filhos – nem sempre foi
assim, mesmo levando-se em conta a necessidade humana natural que os indivíduos
recém-nascidos têm de serem criados e educados, em seus primeiros anos de vida, por
ao menos um dos progenitores. Sem falar em outro elemento importante a se considerar
ainda, que é o fato de praticamente todas as culturas e povos, por mais primitivos que
sejam, apresentarem características de grupos familiares comuns em sua constituição.

Por sua vez, observando mais especificamente a ideia de família em Israel nos
tempos de Jesus, com mais precisão na região da Palestina, e de modo especial se
compararmos em relação às famílias nucleares ocidentais de hoje, perceberemos
nitidamente que as “unidades familiares nos dias do Antigo Testamento eram grandes
e incluíam todos os membros da mesma – tias, tios, primos e servos” (GOWER, 2002,
p. 57). O que Gower chama de famílias extensas, onde o chefe de família era o pai,
enquanto que chefe de um grupo de famílias recebia o nome de xeque. (2002, p. 57).

À primeira vista, uma incomensurável riqueza salta aos olhos do estudioso


quando este se debruça sobre os usos e costumes dos tempos bíblicos. Isto porque a
experiência do povo de Canaã, ou povo da palestina, constitui-se do resultado de uma
vasta história de relações, encontros e desencontros com outras nações e culturas que,
aos poucos, acabaram por contribuir com a construção de um arcabouço moral, religioso
e sapiencial solidamente estruturado. Pode-se ter uma ideia disso se observarmos que
o território ocupado pelos judeus da segunda metade do século VI a.C. à primeira
metade do século II d.C., o qual recebe o nome de Judeia, passou sucessivamente,
pelos domínios persa (538-331 a.C), helenístico em três fases – macedônico (331-301
a.C.), da dinastia Lágida (301-200 a.C.) e da dinastia selêucida (200-164 a.C.) – , judaico
– dos irmãos Macabeus (Judas, Jônatas e Simão, 164-142 a.C.) – e sua descendente,
a dinastia dos Asmoneus (142-63 a.C.) –, e por último os domínios romanos indireto (63
a.C. – 6 a.C.) e direto (6-135 d.C.) (PAUL, 1983, pp. 22-62). Isto sem contar as
influências dos impérios egípcio, assírio e mesopotâmicos.

Típicos da cultura hebraica são sobretudo o monoteísmo e a


transcendência de Deus, mas também a concepção evolutiva,
orientada e não cíclica da história, que espera ser completada e
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superada (com o advento do Messias), embora se trate de uma história


própria do povo de Israel apenas, e o profetismo que também é, talvez,
o traço pedagogicamente mais original da experiência político-cultural
de Israel. (CAMBI, 1999, p. 70)

Deste modo, afirmar que “Israel foi um povo privilegiado, pois nasceu entre
culturas bastante desenvolvidas, que lhe serviram de berço” (LINDEZ, 2011, p. 32) não
seria engano, principalmente se levar-se em conta que o profetismo, efervescente com
teor moral e formativo, representa algo grandioso em nível educativo e formativo para o
povo. isto principalmente se levar-se em conta que, para o judaísmo “conhecer a Iahweh
é praticar a justiça e a retidão e defender os pobres e necessitados” (MCKENZIE, 1993,
p. 180). Tal condição favoreceu o incremento de sua sabedoria e mística, onde o povo
de Canaã foi capaz de “filtrar a sabedoria estrangeira segundo sua própria identidade
nacional e religiosa” (LINDEZ, 2011, p. 33), subjugando ou miscigenando as mitologias,
e tradições, assimilando costumes e construindo sua própria teologia e tradição,
firmadas num Deus-único a partir das experiências coletivas e pessoais vividas com
este mesmo Deus por meio da união intrínseca entre religião e moral social.

Outro elemento norteador para se refletir a partir desta pesquisa é que a


mudança no estilo devida do povo – em nível de macro História – que aos poucos deixou
o nomadismo tribal para se organizar nas cidades, acabou por afetar os costumes do
mesmo. Fato interessante é que isto não alterou totalmente a forte constituição familiar,
mas acabou por diminuir a amplitude e o poder ilimitado do patriarca, com membros
familiares que outrora se reuniam em torno de um antepassado comum, com seus
deuses e costumes específicos de cada clã, mas acabaram por deixar um pouco de lado
estas práticas tribais. Nota-se que, progressivamente, foi crescendo certa consciência
de interesses pessoais, cada vez mais particularizados, e o grupo familiar precisou se
adaptar a estas mudanças, haja vista que leis apareceram em favor do indivíduo,
profetas que lembrassem constantemente o povo da necessidade de se voltar ao
cuidado do órfão e da viúva (Is 1, 17; Jr 7,6; 22,3) começaram a atuar, enfim, algo bem
diferente da organização tribal, onde as normas de cuidado dos membros do clã por
todo o clã eram explícitas (cf. VAUX, 2003, p. 44-5).

Deste modo, nosso estudo visa analisar, ainda que não de modo minucioso, os
elementos que envolvem a “casa” judaica nos tempos de Jesus de Nazaré. Observando
alguns costumes e práticas cotidianas que influenciavam a educação, o trabalho e a
religiosidade domésticas da época. Vale mencionar que a religiosidade e o “modus
vivendi” construídos sobre o alicerce da Lei – Torá – são características essenciais
daquele povo. Deste modo, praticamente todos os costumes familiares firmavam-se em
torno da moral religiosa e da tradição dos patriarcas.
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I- A CASA NOS TEMPOS DE JESUS

a) A GEOGRAFIA PALESTINA E A VIDA NOS TEMPOS DE JESUS


Embora o clima e a pluviosidade em determinados períodos do ano dificultem
a sobrevivência da população, a região onde vivei Jesus de Nazaré apresenta
características peculiares. Sua importância se dá pelo fato de ser localizada na região
de alcance dos grandes impérios da época. A respeito da localização geográfica,
extensão, características físicas, a Palestina nos tempos de Jesus apresenta as
seguintes características:

O país tem a forma dum trapézio, cujas bases medem 50 e 100


quilômetros, para uma altura de 220 quilômetros. O Mediterrâneo o
limita a oeste e o vale do Jordão, muito apertado, a leste; esse rio, cujo
nome significa sem dúvida o descente, tem suas fontes nas faldas do
Hermon; no lago Hulé, está a 68m acima do nível do mar, uns quinze
quilômetros abaixo, no lago de Tiberíades, já está a 212 abaixo do nível
do mar e se lança no mar Morto a 392m abaixo do nível do mar. Entre
o Mediterrâneo e o Jordão, uma cadeia de montanhas forma a espinha
dorsal do país: com 600m de altitude em média, ela tem seus pontos
mais altos na Alta Galiléia e em Hebron (1000 m) e apresenta uma
depressão na fértil planície de Jezrael, a Meguido do AT (50 m). A leste
do Jordão, sobe-se mui rapidamente para o planalto da Transjordânia
(a Peréia), que se eleva entre 900 e 1200 m: a diferença de nível entre
o Jordão e esse planalto é comparável à que existe entre o Dedo de
Deus (1320 m) e a cidade do Rio de Janeiro! (SAULNIER; ROLLAND,
1983, p. 22).

No que diz respeito à terra enquanto propriedade privada,

Em meados do século I, calcula-se entre 50 e 80 milhões os habitantes


do Império Romano, dos quais cerca de 90% viviam no campo. Porém
a terra, a principal fonte de sobrevivência para a população do Império,
inclusive aquela da Palestina, era muito mal distribuída. Na península
Itálica e nas Províncias a maioria das terras produtivas estava nas
mãos de uma minoria. No Egito encontramos o caso de 42 agricultores
partilhando de uma mesma casa. Sêneca indica que os pobres
constituíam a maior parte da população e que a situação tinha poucas
chances de ser mudada (ROCHA, 2004, p. 245).

Ainda que as agitações camponesas viviam oscilando entre os líderes


messiânicos e os bandidos – os primeiros insurgindo-se contra o domínio romano e os
segundos devido à opressão e à fome por conta dos latifúndios crescentes na época –
a agricultura era a certo modo extensa. O trigo, que constituía a base para a
alimentação, a cevada, as figueiras, a vinha (cf. SAULNIER; ROLLAND, 1983, p. 23).

Entre as outras frutas ou legumes, citam-se sobretudo lentilhas,


ervilhas, alface, chicória, agrião; há tal abundância de frutas e de
legumes de toda espécie, que se costuma dizer que o peregrino tem
certeza de encontrar tudo que precisa em Jerusalém. Plutarco afirma
que todo dia chegam produtos da Palestina à mesa do imperador; entre
eles, há certamente romãs e tâmaras de Jericó ou da Galileia, produtos
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célebres no mundo inteiro. Há ainda as maçãs da Galileia e as nozes,


os bombons da antiguidade (SAULNIER; ROLLAND, 1983, p. 23)

Por sua vez, a criação de animais de pequeno porte era a opção que o povo
palestino tinha. “A pecuária é certamente o setor mais deficitário da Palestina. Josefo
fala sem dúvida do leite muito abundante da Judéia-Samaria, o que supõe animais, mas
de fato a estepe não produz senão pouca forragem” (SAULNIER; ROLLAND, 1983, p.
24). Importante destacar ainda que, “é o Templo o principal consumidor de carne, bem
como as camadas abastadas da população: parece que o povo miúdo só come carne
na Páscoa ou por ocasião dos sacrifícios de comunhão (Lv 3)” (SAULNIER; ROLLAND,
1983, p. 25), merecendo a nota de que o “outro elemento importante para o culto (já que
muitos pobres não podem oferecer senão isto em sacrifício) são as pombas: são pegas
na rede nas árvores e culturas da montanha da Judéia” (SAULNIER; ROLLAND, 1983,
p. 25). Importante destacar que o grupo social que mais se opunha à dominação romana
era a classe baixa rural.

Esta se diferenciava da classe baixa urbana pelo fato de não ter nenhuma
vantagem de nada, a ponto de se afirmar que “na Judéia e no Egito a situação da
população rural ‘livre’ era mais desfavorável que a dos escravos nas propriedades de
senhores romanos” (ROCHA, 2004, p. 245). Deles eram cobrados altos impostos e as
dívidas eram cobradas com maltratos e inclusive mortes. Estas classes inferiores,
insurgentes ao Império e sua forma de domínio, marcaram a realidade judaica nos
tempos de Jesus. Tudo isto está fortemente registrado em obras como as de Flavio
Josefo, que em seus relatos faz uma leitura crítica dos movimentos sociais, haja vista
que escreve a partir da ótica da elite (ROCHA, 2004, p. 248). Mas, no quesito economia
e produção, a coisa não para por aí, além dos comércios interno e externo, a

Fiação e tecelagem ocupam uma mão-de-obra sobretudo feminina (...).


A indústria do couro, alimentada sobretudo pelas peles das vítimas
oferecidas no Templo (...). A cerâmica, importante em todos os tempos
para o vasilhame e para guardar alimentos ou objetos preciosos (...).
O betume, "substância viscosa e colante que, em certa época do ano
bóia sobre as águas de um lago da Judéia chamado Asfáltico" (Plínio,
His. Nat. VII, 13,3) é cuidadosamente recolhido e exportado sobretudo
para o Egito (...). Em Jerusalém concentra-se todo um artesanato de
luxo, quer para o Templo (perfumes), quer para os peregrinos que já
naquele tempo apreciavam os bibelôs-lembranças da Cidade Santa!
(...) padeiros, carregadores de água, barbeiros e até mesmo um serviço
de limpeza urbana, para manter a pureza nas vizinhanças do Templo
(SAULNIER; ROLLAND, 1983, p. 26).

Tamanha era a exploração sofrida pelo povo, que a região ao redor do templo,
e toda a Palestina, sofria com a fome e a pobreza. Os muitos impostos nada mais faziam
do que aumentar o descontentamento e a miséria do povo. Com imensos conflitos e
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destruição das famílias. Tanto que a entrega ou tomada de filhas dos judeus endividados
para a prostituição acabava acontecendo. O mesmo se diga dos trabalhos forçados de
crianças com apenas seis anos de idade.

O pão fazia parte da refeição básica, comer pão era fazer uma refeição. “o pão
devia ser então tratado com respeito: era proibido colocar carne crua sobre um pedaço
de pão, ou um jarro de água ou um prato quente, sendo também proibido jogar fora as
migalhas (...). E o pão não devia ser cortado, mas partido” (ROPS, 1983, p. 131). Cabia
às mulheres moer, amassar e servir os pães. O leite de cabas e o mel também eram
apreciados, especialmente o leite talhado, já o mel era muito mais utilizado, inclusive
sendo até exportado (ROPS, 1983, p. 131).

Os vegetais e grãos eram utilizados, como o feijão, a lentilha, o pepino e as


cebolas. As verduras, como a alface, a chicória, a alcachofra (cf. ROPS, 1983, p. 132).
A carne era pouco consumida, “considerada como comida de luxo, os ricos a comiam à
vontade, parte para exibirem-se, parte por gostarem dela. Os mais pobres jamais
matavam um animal para comê-lo” (ROPS, 1983, p. 133). Mas, não se pode deixar de
mencionar que, para o povo comum, o peixe era o prato mais popular e um dos mais
consumidos. Somado ao consumo de pão, o peixe estava em todas as mesas e
alimentava muita gente. Também se pescava muito, chegando até mesmo a exportá-lo;
isto sem falar no óleo – que era utilizado desde a liturgia no Templo até a cozinha
popular e as lâmpadas – azeitonas, gafanhotos, vinagre, farinha de trigo ou de cevada
e as frutas. Claro que tudo isto aliado aos condimentos e feitos aos mais variados
molhos ou assados na brasa (cf. ROPS, 1983, p. 134-5).

Sobre as bebidas comuns nas casas destaque-se a água pura das fontes, o
vinho caseiro, sucos de romã ou de tâmaras meio fermentado, a shechar – espécie de
cerveja leve, de cevada e painço (ROPS, 1983, p. 135-6).

Quanto ao local das refeições, não se pode dizer que havia um refeitório ou
lugar específico. As refeições eram tomadas no pátio e, em geral o lugar era posto e
retirado a cada momento em que fosse preciso. O horário variava de acordo com a fome
e a oportunidade, nada sendo pré-estabelecido, sendo uma refeição cedo, antes de sair
para o trabalho e outra à noite, depois de chegar. Ao meio dia comia-se pouco, com
exceção dos sábados, quando o almoço era mais farto (cf. ROPS, 1983, p. 137). Comia-
se sentado no chão, ou assentado numa cadeira. Também era necessário respeitar uma
precedência rigorosa à mesa, sem tomar o lugar do chefe da casa ou do hóspede.
Geralmente estes últimos eram servidos pelo dono da casa ou anfitrião por primeiro
(ROPS, 1983, p. 138).
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Outro elemento importante da cultura familiar era o banquete. “Os judeus os


apreciavam muito, considerando-os como o melhor meio de fortalecer os laços
familiares e o sentido de comunidade” (ROPS, 1983, p. 139). E sobre isto considere-se
que os rabinos faziam recomendações de moderação nas festas e banquetes.

b) A FIGURA PATERNA E A CASA


Para se ter uma ideia, o conceito hebraico bêt, geralmente utilizado para
designar “casa” ou “agregação familiar” – ou bêt·ab·mišpaḥâh – possui características
fortes que remetem não apenas a laços consanguíneos, mas também a posses,
escravos, parentes agregados, que giram em torno de um “patriarca” e possuem laços
de dependência deste para sobreviverem. Algo complexo em sentido sociológico, pois
a “família é uma ‘casa’, e ‘fundar uma família’ se diz ‘edificar uma casa’” (VAUX, 2003,
p. 42). Isto se deve ao fato de que, na tradição israelita, é impossível se manter uma
vida solitária, isolada dos laços familiares e, quando isto acontece forçosamente, o
indivíduo acaba por ficar marginalizado, excluído da vida social por completo, sem
qualquer referencial. Deste modo, pode-se afirmar que “a família compõe-se daqueles
elementos unidos ao mesmo tempo pela comunidade de sangue e pela comunidade de
habitação” (VAUX, 2003, p. 42). Henri Daniel-Rops faz uma interessante observação da
“casa” nos tempos de Jesus:

A habitação comum na Palestina não era entretanto nem ampla nem


esplêndida. (...) Por muito tempo a diferença entre a vila e a cidade era
que a última possuía um muro atrás do qual os camponeses das vilas
vizinhas se escondiam em tempos de perigo: na época de Cristo a
diferença era puramente administrativa, a cidade tinha seu tribunal e
juízes” (ROPS, 1983, p. 144).

Sendo inclusive um termo capaz de abarcar um povo inteiro, estudar esta


relação social dentro de uma “casa” pode oferecer uma gama de temas e conteúdos
relacionados entre si – como as relações internas de convivência, educação, hierarquia,
religião etc. – ou não relacionados entre si – como as relações interclãs, diferenciações
entre modos de vida e religião, subsistência do clã ou mesmo relativas semelhanças e
diferenças entre patriarcados dentro de uma mesma cidade. Isto se deve também ao
fato de que,

Em sentido amplo, família se confunde com clã, a mišpaḥâh. Esta


habita em um mesmo lugar, ocupa uma ou várias aldeias segundo sua
importância. (...) O clã tem interesses e deveres comuns e os membros
têm consciência dos laços de sangue que os unem: se chamam
‘irmãos’ (VAUX, 2003, p. 42).
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A divisão do país – os dois reinos –, as invasões sírias, egípcias, por parte dos
assírios – com as migrações cruzadas – e da Babilônia – cananeus – e posteriormente
os domínios persa, grego e romano, acabaram por imprimir marcas profundas no modo
de ser familiar do povo israelita, ou melhor dizendo, do povo da terra de Canaã. De
qualquer maneira, seja nos tempos tribais, seja no período monárquico e citadino, a
“casa” consistia num lugar que tinha o poder de solidificar os princípios e exercer as
virtudes e “a família era a entidade básica da vida, em termos econômicos, etc., de modo
que mal se podia imaginar uma vida isolada de um indivíduo só” (GERSTENBERGER,
2002, p. 84). Era ali que o indivíduo recebia toda a formação necessária para sua vida
e, muitas das vezes, com a herança e o nome passado de pai para filho, passava a vida
inteira. O professor Isidoro Mazzarollo ressalta o cuidado que as sociedades primitivas
tinham com a família, e afirma que “os primeiros passos do casal eram dados sob a
tutela dos pais e o casamento era uma aliança entre famílias, não apenas uma proposta
entre duas pessoas”1. Na família, central é a autoridade do pai, que educa com
severidade os filhos: "Quem economiza o porrete, odeia o próprio filho", dizem os
Provérbios; subalterna, porém, é a condição da mulher (CAMBI, 1999, p. 71).

Além da garantia de proteção individual, estar ligado à uma família era a forma
mais garantida e concreta de se defender o clã, subentendendo-se que o mesmo se diz
acerca das tradições e costumes, aliados à própria garantia da Aliança com o Deus
Javé. Por sua vez,

A família distingue-se de outros grupos sociais por suas funções: a


determinação de um lugar comum de residência, a satisfação de
necessidades sexuais e afetivas, o estabelecimento da unidade
primária de cooperação econômica, a procriação e a socialização de
novas gerações. Essas atribuições descrevem bem a tribo, o clã ou a
família extensa (MALDONADO, 2003, p. 12).

As cidades eram simples e não apresentavam elementos artísticos ou


arquitetônicos muito destacáveis, suas casas, fosse no campo ou nas cidades, eram
nada mais do que “um cubo caiado com poucas aberturas” (ROPS, 1983, p. 145).Outro
elemento a mencionar é que “a família israelita antiga é de tipo patriarcal” (MORIN,
1982, p 55), sendo todo o círculo relacional compreendido ao redor do pai.

Sobre este aspecto, destacamos a importância de se considerar aquilo que nos


aponta Jose Vilchez Lindez: “nas sociedades de estrutura familiar pré-urbana, o pai ou
o cabeça do clã, do grupo, da família é o responsável por tudo: nele concentra-se todo
o poder”; e o mesmo, ao relacionar a figura paterna à religiosidade do povo, afirma que
este “é o depositário da tradição e transmissor dela a seus descendentes (cf. Tb 4)”

1
MAZZAROLLO, I. Alguns princípios na educação familiar no cristianismo primitivo.
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(Lindez, 1995, p. 32). Algo sempre relacionado ao ethos judaico, onde “o significado
mais próximo e de fácil apreensão de sabedoria/sábio é descoberto nas atividades
manuais do homem em sua tarefa diária e normal, em sua habilidade no trabalho ou
ofício que desempenha (cf. Sl 58, 6; Ecl 9, 11)” (LINDEZ, 1995, p. 40).

Nesta estrutura familiar, “o pai goza de total autoridade sobre a ‘casa’,


comunidade de sangue e de habitação. Sobre todas as pessoas ligadas à família, sobre
todos os ‘irmãos’. O marido é o senhor (ba’al) da mulher” (MORIN, 1982, p. 55). E vale
destacar que

A coesão das famílias judaicas se enraíza também em sua orientação


para o templo. Cada dia, nos momentos de oração, o israelita se volta
para o lugar “que Deus escolheu para fazer habitar seu Nome”. Desde
o século VII a.C. o templo se tomará o único local, onde se ofereciam
os sacrifícios e se recolhiam os dízimos e as oferendas. Três vezes,
por ano, o santuário atraía as famílias para Jerusalém: Páscoa,
Pentecostes e festa das Tendas. E não se podia ir de mãos vazias.
(MORIN, 1982, p. 55).

Sendo a figura de maior autoridade dentro do seio familiar, “os filhos eram
criados de modo a aceitar a sua autoridade” (GOWER, 2002, p. 57). Em tempos mais
antigos, a desobediência do filho ao pai podia receber a punição de morte. Some-se a
isto o fato de que a herança do pai era sempre passada para o filho mais velho,
salvaguardando-se as questões particulares.

Outro elemento importante para a sobrevivência era a terra, que era um bem
limitado, e consistia em uma unidade básica de produção. Sendo patrimônio familiar por
excelência, havia leis que favoreciam a posse da mesma pelos parentes mais próximos.
Vale mencionar que o forte laço familiar – clã – é característica da organização tribal do
povo de Canaã. Sendo a fonte de renda e subsistência – seja para criação de animais
de pequeno porte, ou mesmo para cultivo – ter um espaço de terra, ou mesmo herdar
um, acabava sendo questão de honra.

A economia permanece baseada na agricultura, cujos principais produtos são


os cereais e os legumes, aos quais se deve somar a vinha e a oliveira nas regiões
mediterrâneas; a pecuária é orientada para o corte (ou a conserva, salgando as carnes),
mas os animais servem também para os transportes (animais de tração ou de carga),
para a agricultura, a guerra e seu couro é curtido. Além dos produtos de primeira
necessidade, as bases do artesanato são a tecelagem, a metalurgia, a cerâmica bem
como os trabalhos de arquitetura. As permutas locais não são muito conhecidas, pelo
fato de dependerem das iniciativas individuais; ao contrário, o comércio em grande
escala transparece mais claramente (SAULNIER; ROLLAND, 1983, p. 12).
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Com base nesta ideia,

A sociedade palestina podia ser dividida, naquele período, em quatro


grandes grupos: os ricos, grandes proprietários, comerciantes ou
elementos provenientes do alto clero; os grupos médios, sacerdotes,
pequenos e médios proprietários rurais ou comerciantes; os pobres,
trabalhadores em geral, seja no campo ou nas cidades; e os
miseráveis, mendigos, escravos ou excluídos sociais, como ladrões.
Contudo, as diferenças sociais na palestina não se pautavam somente
na riqueza ou pobreza do indivíduo, mas em diversos outros critérios,
como sexo, função religiosa, conhecimento, pureza étnica, entre
outros. Em meados do século I, calcula-se entre 50 e 80 milhões os
habitantes do Império Romano, dos quais cerca de 90% viviam no
campo (BASTOS, 2009, 107)

c) AS CARACTERÍSTICAS FÍSICO-HABITACIONAIS DE UMA CASA


Enquanto estruturas física e habitacional, a casa onde vivia uma família israelita
nos tempos de Jesus, bem diferente das antigas famílias dos tempos dos patriarcas
bíblicos, eram construções citadinas simples, práticas. Sobre a vida cotidiana, “o pão
era assado em fornos de barro; os tios tocavam seus instrumentos na área; e à noite,
as casas eram iluminadas pela luz mortiça das lamparinas de azeite. A vida familiar era
caracterizada por muita atividade e carinho, e regida por tradições sólidas” (COLEMAN,
1991, p. 13).

Coleman afirma que, “as casas comuns eram constituídas de apenas um


cômodo, com pouquíssimo mobiliário, e quase nenhum adorno. Muitas delas mediam
cerca de 3,5 metros quadrados; tinham somente duas ou três janelas, e o assoalho era
de terra batida” (1991, p. 14). Seu telhado era resistente, exatamente porque os judeus
mantinham uma vida intensa sobre os telhados (Mt 24, 16-17; At 10, 9; Mt 10, 27). As
atividades nos telhados eram muito comuns, tanto que até mesmo a Lei mosaica (Dt
22,8) exigia a construção de um parapeito para que ninguém caísse de lá. O telhado era
uma espécie de “sala de estar”, armado com vigas de madeira, com varetas
entrelaçadas, postas sobre as vigas e cobertas com uma massa de barro misturada com
palha picada (cf. COLEMAN, 1991, p. 15). Por sua vez, as famílias mais abastadas os
decoravam com ladrilhos coloridos.

Também eram comuns os retoques feitos por conta da erosão causada pelas
chuvas; havia, inclusive, quem plantasse grama nos telhados para diminuir o calor e
mantê-lo firme (Sl 129, 5-6). “Grande parte das reuniões de família e atividades sociais
era realizada no telhado ou no quintal” (COLEMAN, 1991, p. 14). Entre as famílias mais
ricas era comum uma leve construção sobre o teto, ao invés de uma tenda, o que foi
12

gradativamente se transformando num outro andar superior, onde se acendia uma


lamparina que acabava por iluminar a casa toda (ROPS, 1983, p. 145).

Nas tardes quentes era comum as mulheres trabalharem nos telhados fazendo
tecidos de linho, amassando pão ou fazendo a secagem de frutas como o figo e a
tâmara, ou ainda catando cereais. Ali também eram estendidas as roupas lavadas para
secar. Junto à porta haviam pequenos locais onde se fazia uma plantação de hortaliças
e geralmente eram construídos pequenos canais que captavam água das chuvas para
uma cisterna interna na casa (cf. ROPS, 1983, p. 144-5). Ainda do lado de fora havia
um pequeno espaço para se lavarem as roupas. Vale mencionar ainda que “os telhados
planos da velha cidade de Jerusalém eram ótimos lugares para se orar (At 10.9), e era
dos telhados também que se faziam as proclamações e comunicações (Mt 10.27; Lc
12.3)” (COLEMAN, 1991, p. 14). Calcula-se hoje uma média de cinco a vinte pessoas
habitando numa mesma casa, de acordo com a situação histórica e as particularidades
do clã (GERSTENBERGER, 2002, p. 84).

Entrando na casa, deparamos com um pequeno páteo onde ficava a “cozinha”


e também onde se criavam alguns animais. Um pouco mais elevado do chão
encontrava-se o “cenáculo” (ceia, local onde se faz refeição), que era coberto e servia
como lugar protegido do sol para se fazer uma refeição familiar. No interior da casa
havia um único cômodo, onde o pai e todos da família se deitavam para dormir durante
o inverno. Nos tempos de mais calor todos dormiam no telhado da casa.

Neste ambiente interno, uma única lamparina era suficiente para iluminar a
casa toda (Mt 5,15). O interior era todo de chão batido, escuro e constantemente
limpado pelas mulheres. Não eram raras as casas onde se mantinha um “quarto de
hóspedes”, uma hospedaria, onde se recebiam os visitantes.

Em alguns lugares, as casas eram ligadas umas às outras, como casas


de parede-meia, E os telhados, unidos uns aos outros, formavam uma
verdadeira passarela. Os rabis chamavam a isso "rua de telhados", e
muitas vezes o povo a utilizava mesmo como uma via de trânsito.
(COLEMAN, 1991, p. 16).

Quanto ao cotidiano, como a higiene e o cuidado de si, muito do que era


vivenciado foi inscrito no Talmude, e isto vale para situações que acabaram sendo
influenciadas, posteriormente, a partir do próprio Talmude. A limpeza e higiene eram
prioridades, e as casas de banho estavam espalhadas em diversos ambientes. É preciso
considerar que “a medicina da época era rudimentar e que em muitos aspectos se
aproximava mais da magia do que da ciência” (ROPS, 1983, p. 211) e muitos remédios
eram mais ligados à superstições do que à medicina. Havia produtos de higiene pessoal
– como as cinzas vegetais misturadas com soda e um certo tipo de gordura – e era
13

recomendado que se barbeassem os homens – “a Bíblia menciona este hábito com


tanta frequência que somos tentados a crer que se tratava de uma prática comum”
(ROPS, 1983, p. 196) – inclusive tirando todos os pelos do corpo em determinadas
festas (cf. ROPS, 1983, p. 196-7).

Por sua vez o cabelo recebia muito cuidado, “os jovens depravados, declara
Josefo, o aspergiam com ouro para torna-lo mais brilhante. Os mais velhos como
Herodes, ainda segundo Josefo, tingiam o cabelo” (ROPS, 1983, p. 197). O cabelo nem
tanto comprido era comum aos homens do povo, e em momentos de feriados eram
usadas tranças (cf. ROPS, 1983, p. 197). Em contrapartida, “o cabelo mal tratado
mostrava tristeza, ainda mais usar a cabeça raspada ou arrancar os cabelos” (ROPS,
1983, p. 197). Havia espelhos feitos de metal polido e com cabo, utilizado para
responder à vaidade humana.

As mulheres também se embelezavam, pintavam-se e cuidavam dos cabelos.


Eram comns os apetrechos e foram encontrados pelos arqueólogos vários potinhos, que
acredita-se, sejam de essências e cremes para pintura do rosto (cf.ROPS, 1983, p. 198).
Sem falar dos perfumes, largamente utilizados. Tudo isto denota grande importância às
relações sociais:

O cuidado com que as pessoas se lavavam, escovavam e perfumavam


mostra a grande importância dada por elas às relações sociais, pois
dificilmente nos perfumamos para nosso próprio deleite. Os israelitas
eram, de fato, uma nação muito sociável. (...) As razões religiosas e
sociais também tinham a sua parte, pois a reunião do povo, a
comunidade, a “sinagoga”, ocupava uma posição fundamental no
relacionamento dos judeus com Deus (ROPS, 1983, p. 199).

Mencione-se ainda o cuidado e atenção dadas às amizades, aos hóspedes, às


hierarquias religiosas – os Rabis, Anciãos – sociais e políticas. Os passeios de mãos
dadas pelas ruas eram comuns entre os amigos; também eram comuns os
cumprimentos por beijo no rosto e, havia ainda momentos onde as relações de amizade
eram reconhecidas com sua importância, como nos casamentos, onde o “amigo do
noivo” fazia sua vez (cf. ROPS, 1983, p. 199).

Por fim, a morte era sempre celebrada com manifestações ruidosas e com
muito barulho. Havia momentos fortes de despedida do morto, que tinha seus olhos
fechados, recebia beijos e demonstrações de afeto, era vestido e perfumado. A começar
pelo velório, na casa do defunto, seguindo pelo féretro, onde as mulheres iam à frente
do esquife chorando e lamentando, o defunto recebia as honras devidas. “Todos os
anos, em datas predeterminadas, era costume visitar os túmulos, especialmente no mês
de Adar, o último do ano litúrgico, quando a ‘família caiava o sepulcro’” (ROPS, 1983, p.
14

216). Este processo de caiamento era feito porque acreditava-se que o contato com a
morte provocava uma impureza ritual severa, logo, a brancura “advertia os vivos para
que não se aproximassem” (ROPS, 1983, p. 216). A morte era seguida de um luto de
oito dias, como se o defunto estivesse morrido em cada um destes oito dias novamente.

d) A BUSCA PELA SOBREVIVÊNCIA FAMILIAR


A família desde o antigo Israel, era sobretudo patriarcal e as genealogias eram
representadas, sobretudo, a partir do pai. A própria designação bet abb – casa paterna
– já nos demonstra esta reverência à figura do patriarca do clã (cf. Ex 20,12; Ex
21,15.17; Eclo 3,2.8.16). Vale ainda mencionar que o supracitado termo, além de referir-
se ao progenitor imediato de alguém, correspondia ao hall de antepassados do clã;
indivíduos que tinham sua memória perpetuada na vida dos descendentes. Deste modo,
gerar filhos consistia muito mais num modo de perpetuar-se na história do que
simplesmente manter-se relações de afeição familiar. Por meio da tradição transmitida,
dos ritos familiares, da cultura e religião transmitida de pai para filho os israelitas
mantinham perpétua a memória dos antepassados. Importante mencionar que,
enquanto o pai estivesse vivo, as terras seriam de propriedade deste, podendo somente
passar para os filhos após a morte do pai – como herança.

Quanto ao modo de vida pode-se dizer que, de modo geral, as famílias


mantinham-se como agricultores e pastores, na região hoje denominada de Palestina.
Para a época o termo religioso e histórico utilizado era “País de Canaã”, que ocupava
um território menor do que o Estado do Espírito Santo, possuindo uma superfície de
cerca de 34.000 Km² e cerca de 650 mil habitantes. Segundo Leonardo Boff (1972) a
economia palestinense subsistia, basicamente, da agricultura e da atividade pesqueira.
Também há que se ressaltar o fato de ser um território cortado por rios e lagos, onde
não é de se estranhar a abundância nas pescas. Também existia, “nas pequenas
cidades um comércio local (feiras), onde se fazia troca de produto (escambo). Embora
a economia monetária, ou seja, a circulação de dinheiro fosse muito reduzida,
coexistiam grandes mercados, como o de Jerusalém, com controle de grandes
comerciantes” (BASTOS, 2009, p. 106), e mencione-se ainda o forte comércio exercido
por outros reinos da região.

Outro elemento importante consistia na questão de honra familiar, onde todos


convergiam para um mesmo núcleo com ideais, patrimônio, cuidados e garantia de
subsistência de uns para com os outros. O sentimento de pertença era imperativo e a
necessidade de se honrar a memória paterna tornava-se algo inquestionável a ponto de
15

os filhos varões serem mantidos em estreita relação com a figura dos pais – e aqui
retome-se a ideia de amplitude desta figura – a todo custo. As mulheres e crianças, por
sua vez, acabavam por depender do elemento masculino paterno para sobreviver. A
precariedade em que se encontravam, muitas vezes, as figuras da viúva e do órfão
acabam por demonstrar que a ausência do “pai” podia ser desastrosa no que se diz
respeito à qualidade de vida.

Quanto aos profetas, deve-se lembrar que eles são os educadores de


Israel, inspirados por Deus e continuadores do espírito de sua
mensagem ao "povo eleito": devem educar com dureza, castigar e
repreender também com violência, já que sua denúncia é em razão de
um retorno ao papel atribuído por Deus a Israel. Eles constituem sua
consciência inquieta e seu impulso inovador. São educadores de todo
o povo, mas falam a cada indivíduo, com palavras solenes e brutais,
que pretendem sacudir o espírito e transformá-lo. E são educadores
inspirados, previdentes, que falam contra e além de seu próprio tempo
(CAMBI, 1999, p. 70).

Por sua vez o ambiente político apresentava tensões e, ainda que o comércio
interno e externo fosse bem praticado, o sistema de impostos servia de exploração e
dominação do povo (BOFF, 1982). Em seu artigo “Dominadores e dominados na
Palestina no século I”, Ivan Rocha aponta que

O domínio romano sobre a Palestina iniciou-se por volta de 62 a.C.,


após a anexação da Síria por Pompeu.37 Seguindo a prática de utilizar
lideranças locais para governar os territórios dominados, os romanos
nomeiam Herodes, um idumeu, rei da Judéia, que ficaria no trono entre
37 a.C. e 4 d.C.38 O período de seu governo é fortemente criticado
internamente. Alguns o acusam de torturar membros da comunidade
judaica; o próprio Flávio Josefo diz que a Palestina, antes próspera, foi
transformada por Herodes num país de miseráveis e de injustiças (GJ
2,86). Devemos antecipar que é esta deterioração da situação social
dos judeus da Palestina que se constituirá no principal motor da guerra
civil e da revolta contra os romanos, mesmo que Flávio Josefo quisesse
dar-lhe uma outra interpretação (ROCHA, 2004, p. 244).

e) A VIDA FAMILIAR DE CRIANÇAS E MULHERES


Sobre a constituição de uma nova “casa”, tem-se que “a idade mínima legal
para o casamento dos rapazes era 13 anos. Na realidade só se casavam por volta dos
18 anos. Para as moças, a idade mínima era 12 anos. Mas, citam-se casos de meninas
casadas aos 6 e aos 10 anos” (MORIN, 1982, p 58). Tudo era combinado previamente
pelos pais, que recebiam dotes em troca do casamento.

Havia o “extra-dote”, oferecido pelo pai da noiva, que o marido tinha usufruto;
o “dote”, oferecido também pelo pai da noiva, mas o marido reservava caso a noiva era
dispensada em caso de separação; a “fiança de casamento”, uma quantia que retornava
à mulher em caso de viuvez desta ou separação. Por sua vez o noivo e seus familiares
16

também ofereciam bens e joias à noiva (fc. MORIN, 1982, p 58-9). Vale destacar aqui
leis como o “Levirato”, garantia de sucessão por meio do matrimônio do parente próximo
do falecido; a figura do “go’el”, com o direito de resgate da esposa e dos bens do
falecido, geralmente um parente, mesmo distante, que pode requerer o matrimônio com
a viúva; e o repúdio, um dureito apenas do homem, que lhe permitia devolver a esposa
à sua família acusando-a de algum dano – adultério.

Sobre as mulheres “Flavio Josefo escreveu em seu livro Contra Apião: ‘A


mulher, diz a Lei, é inferior ao homem em todas as coisas. Ela deve obedecer, não para
se humilhar, mas para ser dirigida, pois foi ao homem que Deus deu o poder’” (MORIN,
1982, p 56). As mulheres eram subservientes aos maridos, servindo-o como a um dono,
há relatos que afirmam serem elas igualadas aos escravos e às crianças, e tal condição
era ligada a um dever religioso, fundado sobre a Lei. Os pais tinham total domínio sobre
as filhas, e os deveres destas eram em pé de igualdade aos dos filhos, no entanto, sem
gozar dos mesmos direitos. Um claro exemplo disso era a herança, sempre precedência
dos varões.

Em princípio, a mulher não participava da vida pública. Pelo menos na cidade


e, sobretudo, no meio de pessoas importantes, as mulheres só podiam aparecer
cobertas com um véu. Um homem não devia olhar para uma mulher casada, nem
cumprimentá-la. Um homem, sobretudo um aluno dos escribas, não devia falar em
público com uma mulher. Nos meios populares, na roça, estas normas quase não eram
respeitadas. Contudo, mesmo na roça, um homem não falava a uma mulher estrangeira
(MORIN, 1982, p 56).

Em sentido religioso, as mulheres eram educadas a somente adentrarem até o


átrio do Templo, ou ao lugar reservado às mulheres, junto ao átrio dos gentios. A elas
era proibido oferecer qualquer ensino, e mesmo a conversação com mulheres era
considerado um desperdício de tempo. Deste modo, o acesso ao estudo era permitido
unicamente a umas poucas jovens da nobreza. Sobre isto lê-se:

Nos textos antigos que sobreviveram e foram escritos por


autores do sexo masculino, a percepção que se tem é que as
mulheres eram responsáveis pela maioria dos pecados (todos?),
especialmente pela tentação e pelos pecados sexuais. No
entanto, há claros indícios, provenientes de fontes escritas e não
escritas, de que as mulheres também desempenhavam papéis
positivos (REID, 2012, p. 948).

Dentre as fontes que chegaram até a atualidade, todas escritas por autores
masculinos, encontra-se forte discrimação de gênero. Sem incorrer aqui em
anacronismos indevidos, é possível perceber tais diferenciações nos discursos de
17

“Josefo, historiador judeu do século I, [o qual] declara que a Lei considerava as mulheres
inferiores em todas as questões e que, por isso, deviam ser submissas (Josefo, Co Áp,
2.25, § 201)” (REID, 2012, p. 948); de “Filo, comentarista bíblico e filósofo judeu do
século I, residente em Alexandria, [que] refere-se às mulheres e às características
femininas em seus escritos como exemplos de fraqueza (e.g.. Filo, Op mu, 151 e 152;
Qu Gn, 1.33)” (REID, 2012, p. 948). Este último ainda vai mais longe afirmando que
seria recomendável às mulheres que sequer saíssem de casa, vivendo à reclusão
doméstica (Filo, Sp le, 3.169-77; Fl, 89). Vale mencionar que havia inclusive orações
judaicas onde o homem agradecia por não ter nascido mulher (REID, 2012, p. 948).

Enquanto os homens deviam observar os mandamentos a serem cumpridos,


em tempos determinados (por ex.: peregrinar a Jerusalém em tal ou tal festa), as
mulheres eram dispensadas desta obrigação. Elas não eram obrigadas a aprender a
Lei: “ Aquele que ensina a Lei à sua filha, ensina-lhe a devassidão”. Alguns mestres
julgavam que era preferível queimar a Torá (Lei) que ensiná-la às mulheres (MORIN,
1982, p 56).

Em contrapartida pode-se afirmar que havia, dentre os judeus, quem


valorizasse as mulheres. Apesar da falta de textos escritos por mulheres, “há indícios
substanciais de que, no judaísmo, as mulheres exerciam papéis positivos, ainda que
limitados” (REID, 2012, p. 948). Exemplos disso encontram-se aos montes nas novelas
de Judite, Ester, Rute. “Embora na Idade Média as sinagogas tivessem galerias
separadas para as mulheres, não há sinais dessa prática nas sinagogas antigas. No NT,
a presença de mulheres na congregação é confirmada pelo fato de que Jesus curou
uma mulher aleijada enquanto ensinava em uma sinagoga (Lc 13.10-17)” (REID, 2012,
p. 948). Claro que isto não muda a ideia de que havia sim uma distinção,

Na sinagoga, na parte reservada ao serviço litúrgico, as mulheres


ocupavam ura espaço separado, por uma barreira, do lugar dos
homens. Em nenhum caso, uma mulher tinha acesso à parte da
sinagoga reservada para os escribas. Nos atos litúrgicos do templo,
não impunham as mãos sobre as vítimas, à mesa, não pronunciavam
a bênção. Seu testemunhei não era válido (Gn 18,15), salvo em
pequenos casos, em que se levava em conta até o testemunho do
escravo pagão. Aliás, mulheres e escravos pagãos são comparáveis
no seguinte: eles e elas eram dispensados do cumprimento de
mandamentos ligados a um momento determinado (MORIN, 1982, p
56).

Mesmo que imperava a monogamia, ao homem rico e aos reis era permitido ter
mais de uma esposa. A respeito da descendência: “A sobrevivência de Israel levava a
considerar todo nascimento como uma bênção. A chegada de um menino suscitava
muita alegria: o nome da família será perpetuado e seu patrimônio conservado” (MORIN,
18

1982, p 58-9). As crianças e adolescentes, quando não pertencentes às famílias mais


favorecidas, estavam entre os grupos mais frágeis da sociedade. Boa parte das crianças
eram encaminhadas para o trabalho no campo ou no seu próprio distrito desde os seis
anos de idade. Enquanto houvesse sol encontravam-se no trabalhando e o salário era,
na maioria das vezes, apenas uma refeição, ou mesmo o pagamento de dívidas dos
pais. Isto se devia ao fato de a infância ser vista como mero período de transição entre
o abandono da imaturidade e a idade suficiente para assumir os compromissos e a
responsabilidade em relação à Lei Divina.

II- O MÉTODO EDUCATIVO FAMILIAR: A SINAGOGA E O ENSINO


Sobre o sistema de ensino palestino há que se considerar alguns elementos
importantes, como o fato de que

Foi Fílon de Alexandria ou o Judeu (25 a.C. -50 d.C.), que tentou
conjugar hebraísmo e platonismo, desenvolvendo alguns aspectos
educativos: valorizou as artes liberais como instrumentos da virtude;
artes a aprender desde a infância como "estudos preliminares" para a
aquisição da madura "sapiência", que é "luz arguétipa divina". Se o
platonismo de Fílon permaneceu estranho à cultura hebraica, seu
pensamento foi, porém, central para a formação da cultura cristã, até
mesmo pedagógica, justamente pelo seu aspecto de mediador entre
Escrituras e tradição helenística (CAMBI, 1999, p. 71).

O grande objetivo era formar para a correspondência às exigências da Lei


divina e obedecer às mesmas acabava sobrepondo-se até mesmo à inserção na
realidade social em que viviam. Tal processo pautava-se na educação oral e familiar,
sob responsabilidade do pai, muitas vezes firmado sobre a severidade e aplicação de
castigos. Obedecer e ser subserviente atraía para si as bênçãos de Deus, enquanto
desobedecer acabava por despertar a ira de Deus e trazer males e desgraças à família.
Sendo fruto de bênção, o filho era protegido e zelado pelo pai como um bem. Repudiar,
ou abandonar uma criança era um verdadeiro crime. Após a circuncisão e apresentação
no Templo (depois de quarenta dias) a criança era inserida na comunidade judaica,
sendo responsabilidade de todos.

As filhas eram educadas pela mãe. Os filhos, depois de uma primeira


educação materna, aprendiam, oralmente, a sabedoria do pai, também
sua profissão e os fundamentos da religião. A sociedade
desempenhava uma função na formação, mas é discutível a data de
implantação da escola, em cada vilarejo. Uns julgam que foi a partir do
ano 63 d.C. (MORIN, 1982, p 56).

Quanto ao modo como se educava na cultura judaica, vale ressaltar alguns


aspectos importantes. O primeiro deles é a diferença gritante entre a forma e o conteúdo
do ensino masculino e feminino. Nos tempos de Jesus isto chegava a ser gritante,
19

inclusive com leis religiosas que legitimavam a “inferioridade” da mulher. Se por um lado,
de forma belíssima, encontravam-se linhas educativas firmadas no monoteísmo e na
figura de um Deus que se ocupa com a vida e a moral humanas, por outro lado estas
leis e preceitos emperravam quaisquer meios de revolução espiritual ou transformação
social dentro da religião judaica. Ainda mencione-se o fato de, mesmo Qunrã, que
valorizava imensamente a presença de crianças no grupo para formação e continuidade
da seita, excluía das mesmas do culto por as julgar incapazes de compreender os ritos.

Conforme a sabedoria bíblica e judaica, a criança não era considerada,


especialmente, inocente. Pensava-se, até, o contrário (Qo 10,16; Pr
22,15). Os rabinos se interessavam pelas crianças porque viam nelas
o futuro de Israel, seus futuros alunos e futuros sujeitos da Lei. Mas,
enquanto menor de doze anos (qatan), a criança pertencia a uma
categoria inferior, incapaz em matéria religiosa. Os textos a colocam
na mesma categoria dos surdos, dos mudos, dos cegos, dos
deficientes mentais, dos pagãos, das mulheres e dos escravos
(MORIN, 1982, p 56).

Franco Cambi desenvolve algo interessante a este respeito: “A escola em Israel


organiza-se em torno da interpretação da Lei dentro da sinagoga; à qual ‘era anexa uma
escola de exegese’ que, no período helenístico, se envolveu em sérios contrastes em
torno, justamente, da helenização da cultura hebraica” (CAMBI, 1999, p. 70). É preciso
deixar claro que “as únicas escolas no sentido próprio da palavra, no antigo Oriente
Médio, eram as escolas de escribas; estes eram os centros onde a sabedoria e a
literatura se desenvolveram. De fato, os escribas eram os possuidores e os
transmissores de toda a cultura do mundo Antigo” (MCKENZIE, 1993, p. 291).

A partir dos treze anos o jovem rapaz era levado no Templo, onde passava por
uma cerimônia de iniciação à fase adulta. Ele era tornado “filho da Lei”. As sinagogas,
espalhadas por toda a Palestina, iam muito além de um centro religioso e espiritual. A
vida do judeu orbitava ao redor do Templo de Jerusalém – até este ser totalmente
destruído no ano 70 d.C. Mas eram comuns as chamadas Sinagogas – Casas de
Oração – que espalhavam-se por toda a Palestina, na tradição judaica posterios à queda
do Templo, “a sinagoga era designada de diversas maneiras: bêt tépillâ ( “casa de
oração”); bêt midrash (“casa de estudo”); bêt kénêsset ( “casa da assembleia”)” (REID,
2012, p. 1219). E mais,

Por ser o prédio mais importante da comunidade, a sinagoga não era


usada apenas para os cultos dos sábados, segundas-feiras, quintas--
feiras e dias de festa, mas também para diversas atividades da
comunidade. Ah, o hazzãn ensinava as crianças. Os valores eram
guardados em uma tesouraria comunitária existente na sinagoga. (...)
Os transgressores podiam ser julgados na sinagoga, na presença dos
anciãos, e castigados pelo hazzãn com quarenta açoites menos um
(Mc 13.9; 2Co 11.24) (REID, 2012, p. 1220).
20

Estas eram frequentadas por judeus piedosos que, impossibilitados de


frequentar o Templo constantemente, reuniam-se ao redor dos Rabinos para estudos
das Escrituras – a Lei, os Profetas e os Escritos – e para o estudo. Ali eram ensinadas
as Escrituras e os frequentadores recebiam a devida formação religiosa.

Além de centro de oração e de vida religiosa e civil, a sinagoga se torna


também lugar de instrução. A instrução que ali se professava era
religiosa, voltada tanto para a "palavra" quanto para os "costumes". Os
conteúdos da instrução eram "trechos escolhidos da Torá", a partir
daqueles usados nos ofícios religiosos cotidianos (...). Nos séculos
sucessivos, os hebreus da diáspora fixaram-se, em geral, sobre este
modelo de formação (instrução religiosa), atribuindo também a esta o
papel de salvar sua identidade cultural e sua tradição histórica (CAMBI,
1999, p. 71).

Cabia aos pais ensinarem tudo o que diz respeito à tradição familiar e
conhecimento acerca das leis divinas. Era na família que se aprendia um trabalho, os
modos de relacionar-se com o meio e manter vivas as tradições do povo. Quanto aos
métodos pode-se dizer que a leitura, a repetição e a memorização da Lei formavam o
conjunto básico para o ensino. “A fim de treinar a memória os alunos eram obrigados a
decorar passagens enormes, que precisavam repetir sem qualquer omissão, sem
acréscimo ou modificação de uma só palavra” (ROPS, 1983, p. 176). Cabia à família
introduzir, desde cedo, a criança nos saberes necessários para que, a partir da idade
de treze anos, esta pudesse responder às exigências da Lei. Sendo a maioridade
completada aos treze anos, até esta data a família era quem acompanhava a criança
em todas as inserções sociais existentes; completada a maioridade, cessava a
educação familiar, iniciando-se a responsabilidade social.

Esta memorização de textos, geralmente trechos das Sagradas Escrituras,


além de servir de instrução, acabava por favorecer um bom arcabouço teórico acerca
dos Escritos, criando imagens e saberes de situações e personagens na mente do fiel
(ROPS, 1983, p. 177). Utilizando-se do hebraico e do aramaico, escrito em rolos de
papiro ou pergaminhos, o fiel lia as Escrituras e, na Sinagoga, apreendia acerca dos
valores de fé. Lembrando que a musicalização e o ritmo na leitura era elemento comum
e, por vezes, necessário à recitação dos textos sagrados. “Não havia uma única
cerimônia ou rito em que ela não tomasse parte” (ROPS, 1983, p. 188).

III- O CONTEXTO RELIGIOSO – UMA PRÁTICA DE TODA A FAMÍLIA

O contexto religioso do tempo de Jesus era fortemente presidido pelos


sacerdotes, que eram divididos, como no tempo de Davi, em 24 classes, cada qual
dirigida por um chefe, revezando-se periodicamente nos serviços do tempo, conforme
21

vemos escrito 1Cr 24,3-19; cf. 2Rs 11,9; Lc 1,5-8.23. A tarefa dos sacerdotes, recebido
pela Lei, era formar o povo para o conhecimento das escrituras (cf. Dt 17,8-12; 31,9-
13). Estre os sacerdotes havia também os levitas, que os ajudavam nos serviços do
Templo. O mais alto grau do sacerdócio era o sumo sacerdote, que desempenhava a
função de coordenar os sacerdotes e levitas, e também desempenhava o serviço de
chefiar a nação, concentrando sobre si o poder religioso e o poder civil. Era ele o curador
do culto e da Lei. Era ele que, no tempo de Jesus, coordenava a assembleia judaica, o
sinédrio.

Mas, o que era mesmo o sinédrio? O sinédrio foi citado nos Evangelhos
sinóticos (cf. Mt 27,41; Mc 11,27; 14,43.53; 15,1; Lc 20,1 etc.). Conforme os relatos,
faziam parte deste conselho os anciãos, os escribas e os pontífices, chegando todo o
conselho ao número de 70 (cf. Ex 24,1.9; Nm 11,16). Este conselho exercia sobre a
nação uma função diretiva, cuidando de assuntos de natureza religiosa, moral, judiciária
e administrativa.

No tempo de Jesus era difícil pensar numa cidade sem sua sinagoga; todas
tinham a sua. A sinagoga tem sua origem ainda no exílio, quando o povo se reunia em
grupos pequenas nas casas para rezar e ouvir a Lei. Era obrigatório ir à sinagoga nos
dias festivos e aos sábados, e também em outros dias, conforme a devoção. Toda a
família participava da oração, inclusive as mulheres e crianças. Conforme o Pe. Paulus
Seeanner, o culto sinagogal compreendia esta ordem:

oração que consistia na recitação do “ouve ó Israel” e do “dezoito


bênçãos”2; leitura de um trecho da Lei e dos Profetas”3, seguida da
tradução em aramaico, acessível ao povo que já não compreendia o
hebraico; sermão, feito habitualmente por um escriba ou então por
algum dos presentes convidado pelo arquissinagogo (cf. Lc 4,15; 6,6;
Jo 6,59); seguia uma breve oração, depois da qual era dada (se estava
presente um sacerdote) ou invocada (mudando o “vós” em nós) a
bênção de Nm 6,24-26.

Para além da sinagoga, também era bastante comum as oblações, as taxas e


os dízimos entregues ao Templo. Por exemplo, como prescrito na Lei (cf. Ex 13,2), todo
o primogênito oferecido ao Templo, tanto o homem como os animais; também a oferta

2
A primeira oração constava dos seguintes trechos bíblicos combinados com três bênçãos: Dt
6,4-9; 11,13-21; Nm 15,37-41; todo varão israelita devia recitá-la cada dia, de manhã e à tarde. A
segunda, verdadeira oração que todo israelita era obrigado a recitar três vezes por dia (manhã,
tarde, noite), chegou até nós em duas recensões: uma breve ou palestinense, uma cumprida ou
babilônia.
3
Cf. Lc 4,17; At 13,15. Para tal finalidade, a lei estava dividida em 154 seções preenchendo um
ciclo de três anos; assim também os profetas (isto é: de Josué a 2 Reis e os profetas maiores e
menores) eram subdivididos com o fim de oferecer para três anos uma leitura correspondente à
lei.
22

dos primeiros frutos da terra (cf. Ex 34,26); os animais (cf. Lv 27,32s); e até mesmo o
dízimo das pequenas coisas da terra, como da hortelã, da erva-doce, do cominho,
condenado por Jesus no Evangelho (cf. Mt 23, 23).

Deus e a Lei estavam na boca e no coração dos fiéis, através da recitação do


“Ouve, Israel! Javé é nosso Deus, Javé é um só!” As crianças, desde cede, eram
educadas para a Lei, conforme indica Josefo:

As primeiras lições eram fornecidas pelos pais; ensinavam-lhes as


proezas dos antepassados, a lei [...]; parece que antes da destruição
de Jerusalém cada cidade tinha seus mestres e os pais tinham a
obrigação de levar os seus filhos de 6 a 7 anos.

Toda a vida religiosa das famílias deste tempo se dava ao redor do Templo
renovado por Herodes, centro do judaísmo. Antes de ingressar no Templo, havia os ritos
de purificação. Alguns sacrifícios comuns eram feitos duas vezes por dia, em nome de
todo o povo, como o holocausto do cordeiro, em expiação dos pecados, acompanhado
de outras ofertas (cf. Ex 29,38ss; Lc 1,9). Outros sacrifícios eram feitos em dia de
sábado, na Lua nova, ou em outros momentos fortes.

Algumas feste religiosas eram de suma importância para as famílias, eram


celebradas em Jerusalém. Eram a festa da Páscoa, celebrando a libertação do Egito; o
Pentecostes, em agradecimento pelas boas colheitas; e a festa dos Tabernáculos, para
recordar a estadia em tendas no deserto, e agradecer a Deus pelos frutos da terra.
Conforme vimos acima, as crianças tinham seus mestres que lhes iniciavam no
conhecimento da Lei e dos profetas. A partir dos 13 anos elas eram obrigadas a cumprir
toda a Lei. Por isso, Maria e José levam Jesus para estes momentos, a fim de ele já ir
se acostumando, como vemos em Lc 2, 41-52. Além disso, o sábado e a circuncisão
era muito bem observado. A circuncisão era praticada entre o oitavo e décimo dia depois
de nascido. Esse ato era tido como um sinal da aliança com Deus.

A oração era algo muito presente na vida das famílias que, duas vezes por dia,
faziam suas orações. Rezava-se no amanhecer e entardecer, quando se fechavam as
portas do Templo, antes e depois das refeições. O jejum também fazia parte da vida
religiosas. A esmola e a caridade eram revelavam o comprometimento moral da religião
com a sociedade.

REFERÊNCIAS
A BÍBLIA DE JERUSALÉM. São Paulo: Paulinas, 1985.
23

BASTOS, P. R. S. Jesus de Nazaré e a Palestina de seu tempo: uma análise do Jesus


histórico em relação à opressão econômica, social e política. Disponível em:
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