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que celebram as - _.!

T esmofórias
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Aristófanes

•• Introdução. versão do grego e notas de

Maria de Fátima de Sousa e Silva


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2,'\ EDlç.~O

•• CORRIGlDA E At.~~IE:\'TADA

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Instituto Nacional de Investigação Científica


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Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos da Universidade de Coimbra
COIMBRA
I 988
8 4L U" .j_h~:W;L .jf .
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TÍTULO
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AS .\fULfIERES OCE CELEBRA.lf AS TE,.lfOrO','/AS
~. " edição em português : Jancii o de
S érie -- T exros Clássic ...-s:
19~~
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AUTOR
\1aria de F átima Sousa e Silva
INTRODUçAo ••
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CAPA
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Dernéter (Ccres) Tesmófora
Desenho de L()I.~R" F,):,\SEC.\. inspirado numa ;,ir.tura de Pornpcios

CO~tPOSIC\O
I ~IPRE:-;S~
[ l\ iPR[SS.~ O
Dl' COI~:b R"\ , L.UA

Co ntr ibuin re 11.° ,-.oO\j ; 6:25
Largo de S, Salvado r.

[)ISTRIBL:I(.~O
1- ~ ,- ~OOO Coimbra

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'\IPRE:"SA :"AUO:" ,\I . - C\SA DA ~tOED ...

R. Marquês de S á da Bandeira. 16-1000 Lisboa ••


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Depósi to Legal n.' 19271 'Si

Copyright ©' ~lARIA DF. FÁTIMA SOUSA E sn.v«

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AS ,HULHERES QUE CELEBRA .H .-!S TES.\fOFÓRIAS
E A SC:\ INSERÇÃO ~A PRODUÇÃO
DE A.RlST()F,\~·<ES
DR ...\. \ í..\Tl C-\

Esta comédia. de que possuímo- UIi1~i .:é.;ü única no manus-


crito de Ravcna. foi apresentada por Ar ist ófanes em 411 a. C. I.
no festival das Grandes Dionísius ~. CI:1 .-\ t ': : 1 J ~ . C,1m que êxito.
nrro sabemos. .
Depois de uma fase de produ ção dr am ática voltada sobretudo
para as questões 'políticas' do momento _.- o envolvimento de
Atenas na ' Guerra do Peloponeso, a necessidade urgente de paz.
a degradação total da vida social e pol ítica da cidade -, Aristó-
fanes dedica. pela primeira vez, toda llr:i;l r~ç:l ao tema da crí-
tica literária. Vários motivos terão pesado nesta sua opção.
-Antes"'de-·rnais. a crítica Iiiedria surge como uma alternativa à
~,tir~'p~lít~~~. quando a instabilidade social a esta .não ,er a favo-
rávcl; além de procurar proteger-se ~ de eventuais sanções legais.
o poeta proporciona ao seu público algum desanuviarnento perante
a conturbação geral. Mas As mulheres que celebram as Tesmo-
[árias resulta igualmcn~ um esforço r ~ r:, i 5 t e n.t e do come-
diógr~fo. no sentido d~~J'1 produção trágica e desvendar
os segredos da arte patrocinada por Dioniso. Desde os seus
primeiros passos no teatro, Aristófane s participara do entusiasmo.
generalizado entre os cômicos. pelo tem i (i:'. critica literária . e

Cf. infra nota 123.


Cf. infra nota 103.
~ Cf. Plat ónio, Dif]. Com ., C. G. F. K \IE r;. r' . 5. que detecta, já na
comédia antiga, esta prática. que S~ tornou CO:r;U~1 rol «êcr,

AS
'..: ~.:.: .•:.:..' §.

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mostrara-se um homem de letras consciente e atento ao fluir


permanente do género dramático. A crítica literária segue, na .:
de 411 a. C. encerra um conteúdo mais profundo, reveiador
de um período de maturidade na carreira do homem de letras .•;
produção do comediógrafo, um progresso árduo , qüe·se·lrudac~-~
Celebrantcs do banquete c atinge o seu clímax em Rãs, ainda que
que era Aristófanes, que vamos partir consideração de As mulhe-
à

••
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res que celebram as Tesmofôrias .
o terna regresse n3.S últimas produções do poeta . Basicamente.
o comediógrafo lança .mão de dois processos no tratamento desta
temática: a paródia primeiro. a discussão critica mais tarde.
Ainda que um tanto primária, a paródia literária é um meio
eficaz de fazer crítica, que se coaduna bem com o carácter jocoso
da comédia. Pressupõe a recriação de cenas ou versos signifi-
cativos, que identifiquem um determinado autor. capazes de
denunciarem processos e efeitos. que são oferecidos. de uma
REALIZAÇÃO DA CRÍTICA LITERÁRIA
EM AS MULHERES QUE CELEBRA.'.! AS TES:\fOFÓRIAS

É, antes de mais, de Eurípides e da SU:l tragédia que se trata


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forma directa. à capacidade crítica do auditório. Foi este o em ÃS ·~llllheres que celebram as Tesmo fôrios. E, da- -arte do
modelo empreendido por Aristófanes nas abordagens que fez trágico, dois aspectos sobressaem na presente caricatura~o gosto e~
do lema nas produções anteriores a 41 I (Cetcbrantcs do banquete. obsessivo de Eurípides pela criação de personagens teff1ininas. .,~
Peças, Acarnenses. Nuvens, Proagôn, Pa: e Al'es). As mulheres motivo des~adeador de violenta polémici entre o poeta e as ;
que celebram as Tcsmofôrias representam. 110 progresso .~esta mulheres, ~ . produção de intrigas complexas. guiadas pelos
tcnuuica . um marco aussinalar. Se o processo critico utilizado percalços imprevisíveis da sorte, q U~ vieram substituir-se ao
continua a ser a paródia, o poeta atinge agora uma profundidade
caracter mais estático da tragédia antiga .
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Numa época marcada pela cr ítica e reflexão. c, ao mesmo
até então desconhecida . Definidas as grandes linhas de an álise.
tempo, pela derrocada constante dos ideais másculos do passado.
que visam a temática e estrutura das tragédias, o comediógrafo
, em que o sofrimento causado pela guerra despertou a atenção
volta-se para o particular c considera os aspectos cénicos e esti-
para essa esquecida vítima do status quo, a mulher, não sur-
lísticos mais salientes naquele que é o protagonista da sua peça.
Eurípides. Além dos efeitos visuais c exteriores, o cómico pene-
preende que a psicologia feminina tenha ganho um relevo até el
tra agora no âmago do estilo da sua vítima e procura a reprodução,
então desconhecido. Dentro da produção trágica é em Eurípides
que vemos assimilado o interesse pela problemática feminista.
et
quanto possível fiel. dos processos e vocabulário mais caracte-
'. ( ~

A mulher revela-se, no seu teatro, em toca a riqueza de cam- .;


rísticos. Os prólogos, a mon ódia, a csticomitia. a métrica. a ~_l/I/ . ~
biantes de ~1,?1a personalidade complexa. susccptlvcl de encarnar ~ . t ( ...;
música, a terminologia, são testados com finura noc:§~ da
comédia.
os mais variados sentimentos. Da reacção do público perante ..-
esta novidade euripidiana nos dão conta as próprias Mulheres que
et
1\ ras, para al é:n da paródia. Aristófanes ensaiava. desta feita. . . ,A; celebram as Tcsmofárias. Segundo a perspectiva da comédia. ! .
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pela boca de ..\ptun. o segundo poeta visado na peça. algumas -J'
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Eurípides é o poeta que traz a mul her i cena para dizer mal
(.
reflexões de carácter mais teorético, a antecipar um modelo { ' .(' .~. ' i dela ('1;'\'. 390sq.). O seu interesse em ~=-rl;1car a ateniense do
que Reis, justamente considerada o momento da plena realiza- C\~ ; ( 'j ;, ._. , _ \.
L . -canto recatado da sua casa, para lhe desvendar os escaninhos .~
ção da reflexão literária em Aristófanes. · não faria ,túais que
sublimar.
<,> mais profundos da alma, só pode justificar-se por um objcctivc:
maledicência. Naturalmente que a caricatura insiste no vicio. •e i
•;
É, portanto. com a con sciência de que, para al ém do aparato na malformação da personalidade feminina. que se encarná n:1S
lúdico salien te no aproveitamento do terna feminista . a peça figuras simbólicas de Fcdra c Melanipa (·.T . 546-548). mulheres

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.adúlterasc pçr,iU[(lS. . Ainda quc objectivamen_~e_parcial _ porque
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dos poetas trágicos I. A sua descendência helênica, as circuns- ;~ /'1
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J :,.,,// ,_.-- (,~ ornissa _q~a?to_,.às ,,:i~~,de.~das Alcestes, Ifigéni~s" -õ'ü'-Andróm;"
• tãncias que o levaram a ocupar o trono da Mísia e o converteram . I ni \ . ,
. '( í { ) d j I I das _ , esta caricatura concilia a modernidade de um 't~~~ ~~;i"- em
. inimigo dos Aqueus a caminho de Tróia; o conflito com esses \! \ / \j / :~t ·,.:)() -I \
_ pidiano com a tradição-da sátira feminista. tão velha 'quanto invasores da Mísia, .causa do terrível sofrimento infligido por i ~ • .\~
., Hesíodo. Aquiles, que só a espada do rei da Ftia teria poder para curar; _
• 7 --~~ralelamente à exploração da sentimentalidade, Eurípides pbr fim, os errores de Télefo a caminho de Argos, para solicitar \
_ ,~nvere~~..u por ~um outro processo de dinamização da acção, 'e m dos Aqueus o remédio para os seus males: eis os dados essenciais 'I

... que a dimensão humana- é, em certa "'medida;" dirnhluíCli! em que ' o velho mito associava à figura do herói. E se a tradição-'
• favor da valorizaçã.~__d~? .Eo..~oeEdo destino. Surgem, no teatro dó destino de Télefo havia sido já um motivo 'explorado na poesia \
• grego, .::s:p_:.~n1.eiras _pe,ç~sqç intríi~q~~' tanto ....~~~e · viriam épica, foi sobretudo a atenção que lhe foi concedida pelos três
a encontrar, mais tarde. entre os poetas da Comédia Nov 7 S trágicos a razão da sua enorme popularidade.
e.. ..!!.elena e Al1drómeda, as tragédias com que Eurípi es nndar~ . .~, :.JV'J
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'Mas do conjunto de episódios que constituíam o mito.
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o público no ano anterior, ofereciam-se à caricatura cómica
o.) ' I ~ c 5 ~como n:a~anciais s,ignificativos .d ~ romanesco ue. se_ ins:alara
~ tra12edla desta fase., Mas, rnars do que n ecnaçao dirccta
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J ?){{\ nenhum foi alvo de tão grande interesse como aquele que se
ocupava do ferimento causado por Aquiles e da vinda de Télefo
li Argos , ao acampamento aqueu, em busca da cura. Embora

I.
_ (\'1 . ~ ' . O -\: . de ce?as daquela~ ~uas p,eças euripidianas,~paródia ao nôvo' C\·'5.·' ~~.': ~ ;(~p.J.~j:'i:' os testemunhos conservados a respeito das produções dedicadas
I e _\ .;,. . conceito de tragédia esta patente na propna contextura de / ' .c · .s c., 'S'J. "«.; Q~~: ao tema de Télefo sejam escassos, não é especulativo afirmar
I ,(\.o. .Jr:: r ·' Q~; .-IçAS mulheres que celebram as Tesmofôrias. Aí vamos encontrar
J que, apresentado em 438 a. c., o Têlefo de Eurípides revestia
r . i-( Q Ç9 0l , herói . ( ' . ) .
eroi em pengo 'IV. 76sq.), ironrcarnente Eurípides em pessoa, ( ~ aspectos originais, que definitivamente cunharam o velho terna.
e
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! v pcy {to, (~ ) qu~ ~usca a salvação com o auxílio de um velho Parente, tonto ? v"c' ( ,ÕL .) ' \ v "{ ...--. ,}<---- Esta sem dúvida a razão pela qual Aristófanes, jovem espectador
I. _ , { c- o . e ridículo. O par em perigo na comédia é formado por dois ( c. C " , ~ o j \--r.:>",." c. S ~ ti '>JQ do festival de 438, se deixou seduzir pela novidade daquele drama
,ee t. .__
velhos, Eurípides barbudo e-cabcludo, coadjuvado por Mneslloco, \'J, U-.R. \) c~, ( . c 5 Iy Ooj Ir)ic- í Ç o converteu em constante motivo de citações e paródias, ora
II _
no papel da heroín~ durante a maior parte da p'eça. É este par ç ,.. , ,'; : ir-..~ F '--l' \ <:- 0
cu .rxcJ ; <o.. •,.;w gro~co o p:otago~sta de toda uma série de aventuras, marcadas 0) i ; , \ J
ocasionais 2, ora mais extensas, como é o cuso de Acarnenses
: <:'- ) tZ-) (vv.
r. \ 280-571) e As mulheres que celebram as Tesmofária:
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~ 5.k-v . . ~, ,_ . ) .:' i pela exaltaçao sentimental, a quem compete recriar momentos '" . -
e( O "rv') C/,. .c; j ( .Q.. de patético trágico. Wcenário da acção, ainda que não o ~ ..
'I . C · f
r:.., !
(vv. 466-738).
Na generalidade, é esta a sequência que a caricatura capta "
S' ~\ ?
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~é (" ;o ~ a:n?iente in~sp.ito de u:n país distante e estranho, mas o Tesmo- ;;' ( <-> d c ,_ ') êf> . do original: apresentação de uma personalidade disfarçada, ( i _. qUC)i
GJ;, .(' . . . . C (J X:> Iórion, nos limites da CIdade de Atenas, é, apesar disso, território .A ,' ~. ) v' ._ L~ J • I :.::.. ', se introduz num a. nl.b.i.e.l1te... a.dvcrso,-Para defender _y~us~llte~ l ( se;·

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j \ t -.)

_ (0 I. . V .P:-~. l ~ . ,vedado aos homens pelas regras do culto, onde a sua presença . ' ~ '-"- c-.» ./ '.... ~ . ~...>0 r 1lª.ra~~lJ~~.~~~.P..9~ .ÇQn.Çili'lt... ªLbº.ª-~-Kraças dos que a rodeiam.

t'~' f:, ~~~?rá fatal~lcnte hos~ilizada por ímpia. Estão definidas as condições) ..;... j . --0 j J e':. ,\ 'J f Com esse objectivo pronuncia um discurso. que é acolh1éf(}com .
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i ·, .,-.:c \ , c: { -. A~.J. .l.VI cque permitem recriar, em traço carregado, as tramas arrojadas v- on ) I
e ' rei. "" \ <:.:> ) de várias tragédias. . _ - - - - - .. v\!\ .~( ,;, : \ .:. , r
I e . ,,,':., Antes de m~i~, ~'lnesíIoco, que penetra em domínio hostil / ~'A...l.-v"" ; ") 1 Ésquilo dedicou-lhe as tragédias Alísios ~ Té/efv; Sófocles, a tetra- ~
'
I. p~ra defel~der O inimigo. assume-se como um novo Tékf(l, tam- logia que se compunha de A/éades, Mísíos, Assemb/da dos Aqueus e Té/efo :
a
. .. bem ele dIsfarçado em farrapos de mendigo. para advogar. entre finalmente EurípiJ~, Augl' e Tdtfv. No mes menores (u mo o de ÁgJton,
" . Iofonte e Mósquion contavam-se entre os que, em Atenas, abordaram o tema.
-. os .'"\queus, a sua própria causa. '
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A .
nstótcles (Po. 1453a 17-22) inclui o mito de Télefo entre
um pequeno número dos que considerou como temas predilectos
2 Ach. S, Eq. 813,1:40, SIl . 891, Lys. 706, Pax 528, Ra . 1400, PI. 601. .......--o C O , ro Sv... ~.
De resto, são os textos de Aristó~a~c~ a nossa fonte principal para os fragmen. / ' :~ :. '- ( I { \
tos conserv3dos desta peça eunpldJaoa .
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tf_~;:;d ; \>: . ~ , / /" 0::)0 iJ .i .ç ...., i . j ') S Ov\loc ,
~~~---~~~~--~.~~~--=~fia~~~~ -. _..~~~~~~~~~~_~~~~~~~~~-~~---~
.... .. -.u . .- . ~-_~~~~7~~..~.~.~.~-- ~ ~:!~.~~~ .. c . " ~ ~. ... ... . _-' . . ': ". i . . u .i l t li"j ........ ~
animosidade pelos oUvintes. Quando, por fim, se vê perseguido. no famoso discurso do Télefo de Euripides. Arnt- -s se empe-
.'-
e.
o orador prOClICjl prot"gCt-SC com a ajuda de um refém. nham, desde as primeiras palavras que proferem, numa captatio e~
Tanto quanto é possível inferir dos fragmentos conservados, beneuolentiae, ao justificarem a audácia da argumentação que vão ej
1
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o disfarce havia sido um motivo novo no tratamento euripídiaao
,. do tema 1, que viera substituir. à dig~ da condição real do
'deseDv'o l~er e ao reconhecerem a validade dos motivos responsá-
.~
veis pela cólera dos ouvintes (v. 466). Para que uma maior
herói, o poder invcntivo e a actuação ~'à~CÂuri~outrõfflêt<>. ~C\ aproximação com o auditório se estabeleça, ambos afirmam a sua .~
Aristófanes não dcscura este pormenor, que insere na caricatura
de As mulheres que celebram as Tesmofârias : é com o auxílio de
participação empenhada nessa inimizade (vv. 469sq.; cf. fr. 70S N1) .
Porém, o momento .é propício a uma reflexão, agora que não há e;
_~~-E.?.:ta trágico que Mnesíloco, à vista dO"'p~.º.!iç2J.jE~.~cultar estranhos presentes, o circulo é restrito a amigos (v. 472). Bem ei
a sua identidade sob os traços de uma respeitável matrona, . Cõ'ii~,
qetiZado o..di.sf~-·lêlliQ.P.are-n.te..está_.p+~n.to..parà~piQ.~~~iar
em consciência, será ao inimigo atribuível toda a culpa dos agravos
que os separam (v. 473)? E o orador parte para uma análise

Q.tào,.temido.-d.is.c.ill.so. ~-- , das responsabilidades e culpas mútuas. Será que a Eurípides, er
Para além da originalidade da situação em que Télefo pro-
nunciara a sua ~i;(il'; - a pleitear, sob andrajos de mendigo, a sua
própria causa -, as palavras por ele proferidas eram susceptíveis ~ ..
no conflito mortal que o separa do clã feminino, cabe efcctiva-
mente toda a culpa? De modo nenhum. Basta recordar uma •
.~

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longa série de episódios do quotidiano, de que a reputação da
de produzir profunda repercussão na sensi bilidade helênica. l~.s ; b r)\c<~
O que T élefo pretendia era justificar a validade das razões que o
o ' , ....
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mulher sai profundamente denegrida, para ver quanto o poeta [oi
moderado, parco até, nas suas invectivas. Como esse outro •
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levaram, ele, o rei de uma terra bárbara, a opôr um obstáculo à , Télefo, ·támbém .Eurípides fez apenas o que as circunstâncias lhe
famosa expedição dos Aqueus nos reinos de Príamo. Do seu impunham e não pode, em justiça, ser penalizado. E, como
discurso saía justificada a legitimidade de um bárbaro defender Télefo, também Mnesllcco amontoa argumentos, avulta as culpas
a integridade da sua terra, mesmo que o invasor fosse, como no próprias, reduz as alheias, faz apelos à compreensão e à justiça ,
caso em questão, o povo heleno. Nesta defesa entusiástica da - , I) ~
igualdade entre Gregos e Bárbaros reside sobretudo a surpresa t
que o discurso não deixaria de exercer sobre os Gregos. ainda.-J ~\.
"i \.t \o
' \0 '1
i
I apresentando-se como um modelo hábil do orador moderno,
. consciente das potencialidades da arte que domina. _:
e,
pouco afeitos às novas ideologias contemporâneas. r s{v.(..\ Como decerto aconteceria na sequência trágica, no momento
em que a situação atinge o ponto climático, uma nova persona-
e~
Mas, para além do carácter polérnico do discurso de Télefo, r( Q.) f """ do-- V:.f O'J ice 010
\ o crítico aproveita para dar relevo a um aspecto formal na criação ~ iz J ~ ./-h . h:
gem vem contribuir decisivamente para a revelação da identidade
do orador. É Clístenes, que vem denunciar a presença de um
-:-
e
.f l qi' ~ 'fVV\o..\ euripid~ana . .T~lefo e o, "" discurs? .são mais um exemplo da ~ ",-I óof I' a.. 'DÀo ~.Io -{ 1"-'<;,. espião na assembleia das Tesmofórias (vv. 584-591). O procura-
~ , ; IQ Q,.1v"\ form~çao soflstICa e retonca d~ Eur~pldes, do se.u 705to sem~e CJ..o ~V[ lo f +-rés i '0 dor de Eurípides é desmascarado e a sua vida posta em perigo. e
~~. ( l ~ \
~, .
~,ntuslasta por confrontos verbaiS e discussões polemlcas. E Aris- A . ~ C/ ~ ·r
téfanes cria, em As mulheres que celebram as Tesmofôrias. uma
Resta-lhe uma tentativa desesperada: arrebatar um refém ~
procurar o refúgio do altar. ••
réplica da assembléia dos Aqueus em Télefo, preenchida por
longos discursos, em que Mnesíloco e as mulheres se debatem
num tema particularmente delicado: Eurípides, o antifeminista.
Esta famosa cena do rapto, que fazia já parte do mito de
Télefo 1, parece ter ganho em Eurípides uma dinâmica nova, com
o acréscimo do factor risco a que se expunha o indefeso Ores tes.
.e-
••
A éljOL; de Mnesíloco evidencia um inegável paralelismo com
a de Diceópolis, em Acarnenses (vv. 496sqq.). ambas inspiradas

14
I Cf. Se/IU/. Nu . 919 ,
1 o Se/IV/. Ach . 332 menciona-a como utilizada também po r Ésquil o,

na sua tragédia T élefo .

15 .'_:
e!
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Na cena curipidiana, Télcfo não se limitava a tomar a criança Pl1Xu)'aí~ o poeta das peças de intriga. que trouxe a IL\~~dia ao
nos braços como um elemento de reforço a uma súplica pacifica, nível do quotidiano.
como talvez fosse o caso em Ésquilo: antes a usava, ao ameaçá-la Este espírito novo, que preside à criação de Télefo , faz desta
de morte, como um argumento poderoso para o sucesso do seu tragédia a expressão de um passo em frente na evolução do
pedido. A cena ganha em patético, que resulta do perigo con- gênero . Um patético intenso de figuras e situações. um apelo
creto a que se expõe uma vítima indefesa, entregue ao espírito mais dírecto aos sentidos e ernotividade do público. uma pintura
perturbado de um perseguido. de caracteres mais real, golpes de teatro de grande deito. con-
O episódio do refém de Télefo de Eurípides é retomado em ferem-lhe uma vitalidade que largamente a compensa de uma
As mulheres que celebram as Tesmofôrlas (vv. 689-764) com uma certa restrição à austeridade do passado . Mas, em contrapartida.
cornicidade vibrante e um movimento cénico notável. Mnesíloco, foram estes mesmos elementos, que muito surpreenderam o
em risco de vida, arrebata, dos braços de uma das mulheres, o público e os críticos, os fundamentos do prestígio de uma peça
seu bebé e refugia-se com ele no altar. A mãe solta doloridos que deixou o seu rasto através da antiguidade.
lamentos, à maneira trágica (vv. 690sq.). Indiferente àquela dor Com o desfecho infeliz deste episódio. a situação de Mnesí-
maternal, o Parente ameaça a criança com palavras, por certo loco não melhora, antes se abre o caminho a novas paródias de
retomadas de Télefo (vv. 694sq.). O coro alia-se à pobre mãe. Eurípides.
os lamentos misturam-se de invectivas. Aos pés de Mnesiloco Na necessidade de enviar ao poeta um apelo de socorro.
eleva-se a pira funerária, castigo supremo para a sua audácia . Mnesiloco identifica-se com Éax, o irmão de Palarnedes, que
Por fim, o desespero determina-o: o refém pagará com a vida utilizara as pás dos remos para enviar ao pai, em Náuplia, a notí-
(vv. 731sq.). Despe o prisioneiro; mas - surpresa das surpre-
cia funesta da injustiça infligida àquele herói pelos Gregos, durante
sas! - em vez do esperado bebé, é um odre disfarçado que tem
a sua estadia em Áulis. Do ajustamento das duas cenas nos dá
nas mãos. Por ele, 'a desditosa mãe' nutre um carinho verda-
conta o Parente: com a substituição dos remos por tabuinhas
deiramente maternal - a comédia empenha-se em salientá-lo.
votivas, que lançará aos quatro ventos, ja que não tem o mar à
Inacessível à súplica, Mnesíloco executa ·a criança. O altar
sua disposição, o nosso herói está apto a parodiar a monódia
tinge-se de rubro .. , do vinho novo que se derrama. De maneira
que Éax entoava na tragédia Palamedes. No seu canto predo-
feliz, Aristófanes combina com a caricatura do motivo euripi-
diano a tradição antifeminista. A opção, feita pelo comediógrafo, mina já um estilo emotivo, todo ele feito de apelos, lamentos.
desta sequência de cenas tem por objectivo pôr em .evidência repetições e jogos de palavras. No entanto, este canto não
algumas das facetas características do teatro de Eurípides. A pri- revela ainda a exuberância que é apanágio da esticornitia de
. meira impressão que dela colhemos é a de uma grande variedade Helena ou da monódia de Andrômeda. O sentimento que o dita,
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de situações, de um fluir rápido de episódios, que têm a sua con- apesar do empenhamento da personagem pelo destino fraterno. '. ~r
trapartida num movimento cénico intenso. O herói depara-se está longe da exaltação a que é sujeita a sensibilidade feminina,
com sucessivas dificuldades que lhe permitem pôr à prova os seus pressionada pela iminência do perigo. Não surpreende que o
muitos talentos. A multiplicidade de aventuras que vive é o público, familiarizado com os arroubos habituais em Eurípides.
processo de desvendar, traço a traço, a riqueza psicológica da tenha ficado frio (v. 848) perante a peça de 415. Em As mulhc-
personagem, que se desvincula da condição real que o mito lhe res que celebram as Tesmofôrias, a paródia a este momento baixo
atribuía, para encarnar um ser humano comum, que: sob . os na produção de Eurípides funciona apenas como um termo de
andrajos de um mendigo, empreende a difícil luta pela sobrevi- confronto com as paródias seguintes, com o propósito de evi-
vência. No Télefo se revela já o Eurípides obreiro 'de inúmeras denciar a sua riqueza emotiva.

16 17
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Comprovada a ineficácia do Palamedcs, Mnesíloco volta-se
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prisioneiro, que permcia o patético da cena de constantes incom-
para a produção mais recente de Eurípides, para buscar nela preensões e informações sobre a realidade dos factos. Na cena
um meio eficaz de atrair o comparsa e tirar-se de apuros. Helena que os novos 'Menelau e Helena' recriam, essa mulher figurará
e Andrômeda, duas tragédias apresentadas no ano anterior 1, como uma outra Teónoe, não já a colaboradora indispensável
oferecem-se, pela profusão de novidades que proporcionam. à na realização do plano de fuga, mas a denunciadora inabalável
paródia de Aristófanes. ' que a situação em Aristófanes exigia.
A situação de Mnesiloco, protegido pelo altar do Tesmo-
fórion, é grotescamente sugestiva da abertura de Helena de
Eurípides. Solitária. perseguida. a heroína surgia aos olhos do
O brilho, ainda tênue. da esperança penetra no negrume do
desespero, e o coração da heroína sobressalta-se, tomado de um ••
••
presságio de bom agoiro. Enquanto a alma se lhe concentra
público sentada sobre o túmulo de Proteu, de quem implorava numa prece, os olhos repousam num estranho que se aproxima.
protecção 2. A sensibilidade do público era estimulada por este envolto nos andrajos de um náufrago (v'1. 934sq.), para implorar

.'.'•
espectáculo, no sentido de um progressivo adensar de patético.


a dádiva da hospitalidade (vv. 871-873). As palavras que este
que. explorado através de uma sucessão de episódios marcados Eurípides cómico pronuncia, no diálogo seguinte, combinam
pelo suspense. desfechava num retardado happy end. citações com versos de Aristófanes, de uma forma que põe em
A paródia de Helena inicia-se com a recitação, feita por evidência o estilo retórico e algo barroco do trágico, engalanado
Mncslloco em trajos femininos, das palavras da heroína no com uma adjectivação preciosa. O encontro da heroína abando-

.'.'•
\( , prólogo da tragédia. Por esta forma, o comediógrafo põe em nada com o herói mendigo prepara uma cena de reconhecimento,
destaque o monólogo expositivo, que constitui uma abertura que, com todas as potencialidades psicológicas que a caracteri-
quase permanente nas tragédias de Eurípides, com as suas com- zam, se tornou um lugar-comum no teatro de Eurípides. Um pro-
ponentes tradicionais: localização da acção (vv. 855-857), prove- gressivo, interrogatório, em círculos cada vez mais estreitos em
niência e ascendência da personagem (vv. 859sq.), e, por fim, torno de uma das figuras, prepara a identificação e aproximação

•.;
a sua identidade (v. 862). Sucedem-se os antecedentes próximos dos dois intervenientes. Insiste-se na estranheza do lugar onde
da acção ('1\'. 864sq.), a focalização breve do presente (v. 866)
e o lamento pela suposta morte do herói (vv. 866sq.). Este
lamento constitui, juntamente com a interrogativa dolorosa que
se encontram (vv, 877-879), destaca-se a presença do túmulo do
rei local (v. 886), onde o sofrimento da heroína se enquadra
naturalmente. E agora é já não o mundo envolvente que suges-
. 1;
se lhe segue, a nota emotiva a quebrar o teor meramente informa-

•.•,
tiona o recém-chegado, mas a sua interlocutora, essa mulher de
tivo desta abertura. rosto velado, entregue à protecção de um morto. O porquê
De um modo geral, o carácter descritivo e sóbrio do prólogo está na pureza da heroína, essa Helena fatal revestida de urua
contrasta com a contextura fortemente emotiva da , esticomitia personalidade nova, cujas facetas cômicas Aristófanes não perde
parodiada a seguir, o que demarca com nitidez duas facetas do o ensejo de explorar. Agora que o reconhecimento está imi-
estilo euripidiano.
Para frisar a semelhança da situação das duas heroínas,
, nente, o diálogo esticomitico instala-se entre as personagens, para
marcar o ritmo da cena. A tradicional 'cadência verso a verso
••
•.;
Helena c Mncsíloco. Aristófanes recorre à mulher de guarda ao enriquece-se, na tragédia euripidiana, de recursos de grande
efeito - pausas, silêncios, expressões melodramáticas, senten-
I Cf. infra nota 123. ças -, que fazem dela um processo estilfstico poderoso na reve-

."
.;
2 Esta abertura, que caracteriza a situação de um perseguido em busca lação do sentimento É da valorização excessiva desses compo-
de protecção, repete-se em Andrámaca (vv. 42-44), Hércules Furioso (vv. 44-54). nentes que Aristófanes nos dá conta na sua paródia de um passo
Cf. P. AR~OlT. Greek Scenic Conventions, pp. 45sqq., 57sqq. esticomítico de Helena. Consumado o reconhecimento. a exalo
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18 19
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tação expande-se em manifestações físicas, de que o abraço . Como na. tragédia, também Aristófanes confia a sua rnonódia
" ."
acompanhado de uma profusão de repetições, é um processo caro a uma personagem feminina - falsamente feminina, no caso de
a Eurípides 1. A paródia aprofundá-se agora, susceptível de Mnesíloco -, dotada de uma sensibilidade mais atreita às grandes

•• recriar os grandes temas e efeitos cénicos do original, mas sensível


também aos aspectos formais, que, como elementos de série.
são suporte constante dos momentos patéticos da tragédia euri-
vibrações sentimentais. Da boca âas heroínas euripidianas, pelo
menos numa dada fase, jorram cantos. ditados por uma imagi-
nação vibrante , em que se sente um desajuste evidente entre as

•• pidiana.
Tanta felicidade é frustrada pela resistência da mulher de
guarda ao prisioneiro: vencido, o falso Menelau retira-se. para
emoções descritas e o estilo demasiado florido que lhes dá
expressão. No requinte poético dessas criações, Eurípides pres-
cinde da justa medida e. no dizer sugestivo de S. BARLOW 1.

e•
que novas invenções sejam ensaiadas. 'o seu estilo ornamentado mais parece uma concha lustrosa
É a ocasião de recriar as primeiras cenas de Andrômeda. uma vazia por dentro '.
das mais belas tragédias de Eurípides . a julgar pelo teste~unho
i .";
Na caricatura que Aristófanes arquitecta desses momentos

•• extremos da criação monódica de Eurípides, o constante flutuar

.•
da própria antiguidade (cf. scliol, Ra. 53). Uma donzela exposta.
nas alturas de um rochedo, à voracidade de um monstro, que dos níveis da linguagem - ~t dignidade da linguagem trágica.
há-de surgir da fúria da procela; o terror que lhe dita doloridos lado a lado com o mais rasteiro coloquialisrno - constitui o
: lamentos: a vinda de um libertador, que se comove perante tanta principal factor de cômico. A própria situação dramática o
~. beleza e infortúnio; e finalmente a ternura que brilha após o favorece. Mnes ílcco, no papel de improvisada donzela, intercala

•• desespero: eram estes os ingredientes de uma história que trouxe


ao trágico um vibrante sucesso.
os lamentos trágicos de vítima inocente com alusões à sua verda-
deira situação de velho prisioneiro, sujeito à canga sob a vigilância

•• A abertura da peça exibia, perante o público, a donzela soli-


tária, exposta ao perigo, envolta no negrume da noite, como
protagonista de um quadro de mistério c horror. Aristófanes
de um Cita. c dominado pelo desejo impossível de se escapar
para casa.
Mas, para além deste procevso mais saliente na realização
. ~ . J ~!

•• aproveita o velho Mnesíloco, vestido de mulher e preso à canga,


para ressuscitar, em traços grotescos, a famosa cena.
De acordo com o empolamento emotivo deste prólogo,
paródica, h~'t outros aspectos mais subtis que SI: apresentam <~1.\h'
uma caricatura da estilística euripidiana. Assim. por exer~~10 .
a insistência num determinado vocabulário revelou-se. na rnonódia

••
Eurípides optou por uma monódía para a abertura da peça, de Eurípides, como o veiculo natural para exprimir os pensamcn-
como o elemento formal mais capaz de exprimir a tortura interior tos obsessivos da personagem > A paródia dá a réplica a este

•~- de Andrómcda. Ainda neste particular, a paródia acompanha


de perto o original: Aristófanes cria também um lamento monó-
motivo. Mnesíloco prisioneiro é dominado, na exaltação do
perigo, por duas id éias exclusiv2.' e conflituosas -- prisão e fuga - -

:"..••
dico para pôr na boca de Mnesíloco (vv, l015sqq.). que, a cada passo, se impõem na cxpansâo da sua dor. Como
Semelhantes, do ponto de vista estilístico, às canções do coro, uma heroína trágica , o Parente apela à compreensão humana e
as monódias converteram-se em veículos de emoção, que, em divina. multiplica as intcrjcicóes e 1.1~ lamento s, busca a catar-c

:.
momentos de tensão dramática, extravasam o caudal do senti-
mento, que domina para além da razão .
Tire iniagery o/ Euripides. Lcndon, 1971, p. 55.
Evadne, por exemplo, na mon édia que entoa em Surp. 990-1O.' tl,
insiste no vocabulário relacionado cc:n a ídeia de luz. cuja prc;:c;cnça para
I Cf., l' , g ., H . F. 1376sq., 140Ssq.• /011 14..tO-1453, t. T. 795sqq., ela significa vida c felicidade, O ~I ::'.:' ::: 0. se con cret izada nas chamas de urna

I.i-
331-844, 902-906, Oro 262sqq., 1042-1050. pira, o adeus à vida e a porta aberta para o mundo das trevas .
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I.
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---•

••
no mundo perdido da felicidade passada, para logo retomar a
consciência dolorosa do irremediável.
A paródia da tragédia Andr ômeda prossegue com a explora-
No entanto um happy end era obrigatório na comédia,
e será ainda Eurípides a assegurá-lo. Se os estratagemas lite-
rários se mostraram ineficazes perante a desconfiança e estupidez
••
ção cômica da intervenção de Eco, única testemunha, oculta no ,. do Cita, ainda assim o talento do velho poeta, apurado no cadinho
••
••
seu antro, do sofrimento da donzela. Invisível. à distância, Eco dos Sofistas para resolver todas as situações, o não abandona
repetia-lhe os gemidos, contribuindo para criar uma atmosfera na hora da provação.
de profundo patético (cf. Til. 1060sq.), na abertura da peça trágica. Pragmático, Eurípides forja uma derradeira f.l.111.al-'l1 , adaptada
Coadjuvada por uma outra Eco, a falsa Andrômeda recomeça
o seu canto, com uma monódia que o escoliasta identifica com o
início do prólogo da tragédia (= fr. 114 N2). Logo, porém.
ao adversário concreto: onde a poesia falhara, uma jovem baila-
rina, dotada das graças de Afrodite, obtém pleno êxito.
Feito um «pacto de não agressão» futura com as mulheres,
••
Aristófanes abandona este tema já suficientemente explorado.
para se voltar agora para a caricatura fácil da cena de Eco. que
lhe oferece um grotesco imediato. apenas reforçadas as tonalida-
Euripides encontra, no entusiasmo baboso do guarda pela sua
«bela protegida», o ensejo para, enfim. arrancar ~t nesíloco das
mãos do inirnizo. Cumpre-se a regra c ômica do desfecho feliz
••
des. A Ninfa. converte-se numa velha tagarela c intrometida.
que rapidamente irnpacienta Mnesíloco com a insistência das suas
repetições. A conscquência natural é que a falsa Andrômeda
e acr~sc~nta-se- à figura do Eurípides IOil. w oo;rou5:; um último
traço.
E talvez seja este o momento propício para retomar a questão
••
esqueça por um momento o papel que lhe cabe, para extravasar.
no mais vulgar coloquialismo, a ira que a domina. A cena
para a qual os estudiosos de Aristófanes não encontraram ainda
uma resposta definitiva: qual 'seria, na realidade, a posição do ••
••
alonga-se com a intromissão do Cita, que vem substituir a pri- comediógrafo em' relação ao trágico? De animosidade e censura,
sioneira: as perguntas surpreendidas e ameaças que formula. 53.0 ou de , apreço e simpatia? Pessoalmente julgo que, acima de
invariavelmente repetidas por Eco. mesmo quando em fuga, numa tudo, a reflexão madura e o profundo conhecimento das tragédias
causa já perdida.
Chega, enfim, o salvador, Eurípides, na pele de um cômico
Pcrscu, Ele é o herói jovem c desconhecido, que aperta a país
de Eurípides que Aristófanes revela, são testemunho de sedução
. e encantamento, embora não de adesão integral. Apesar de se
colocar na atitude conservadora que é própria da comédia, o poeta
•e.
remoto, descido das alturas do firmamento, em resposta ao grito
desesperado de uma vítima indefesa. Os seus olhos pousam no
espectáculo de infortúnio e beleza que se lhes oferece, e o coração .
de As mulheres que celebram as Tesniofôrias assimilou de tal
modo a arte de Eurípides, participou tão claramente no mundo
cultural em que ambos os poetas se inseriam, que mereceu de UI:1
••
exultá-lhe de piedade, cavalheirismo e ... amor, chama poderosa
que se atiça no momento. Todo este impulso esbarra, todavia.
na incompreensão e resistência do bárbaro, os protestos amorosos
outro comediógrafo contcmpor:lneo. Cratino. o epíteto de eun-
pidaristofanizante. É, POi5, SCli1 reservas, que me coloco ao :? ••
••
lado daqueles (~ll'RRAY, STE\'E\S, ' \VYCHERLEY) para quem a .~:
não resistem aos comentários grosseiros do guarda. Vencido. atenção constante de Aristófanes. voltada para Eurípides e suas '-!'
o herói reconhece-se impotente para salvar a sua dama, e vê-se
novidades, é o espelho da consideração de um crítico sagaz por

••
forçado a abundon á-la ao peso dos grilhões. No seu conjunto.
um poeta talentoso. em voga num dado momei1to.
a cena cômica resulta na inversão completa do original trágico;
com o conscqucntc efeito de ridicularizar os seus aspectos mais Não é, no entanto, apenas Eurípides o motivo da crítica
salientes. Da paródia ressalta, enfim, esse Eurípides que se
vinha revelando, nas produções mais recentes, um mestre hábil
na arte de criar sentimentalismo e melodramático .
literária descnvolvida em As 111111heres que celebram as Tesmofõrtas.
Um outro poeta. Ãgaton, cuja carreira se iniciara poucos anos ••
22
23
••

" , ..
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••
a trás (417-416 a. C.), sob os melhores auspícios 1, para evoluir retira todas as dúvidas. Mncsíloco esfrega os olhos, para apagar
numa trajectória rápida e segura a caminho da glória, proporcio- a miragem. Ágaton... ou Cirene, a famosa cortesã das mil e
nava ao nosso poeta bons motivos de comicidade. Bem conhe- uma artes amorosas.': O trajo que Ágaron envcrga é um primor
cido c bem relacionado na sociedade ateniense, homem de gostos de requinte oriental, exuberante de colorido. inexcedível de ele-
requintados e luxuosos, integrado nas mais modernas correntes gância, rico em acessórios femininos. As potencialidades córni-
de pensamen~o e cultura, inovador entusiástico do género a que cas do guarda-roupa do trágico são de imediato exploradas num
se dedicou, Agaton reunia as melhores condições para se consa- questionário copioso, revelado r da surpresa de ~rnesíloco e, mais
grar, a breve prazo, como o quarto nome na produção trágica tarde, numa cena em que o Parente recorre J Ãgaton para se
ateniense. A Ágaton é concedido, em As mulheres que celebram disfarçar de mulher. de modo a representar. oculto, o seu prote-
as Tesmoforias, Um lugar de relevo, ao longo de uma cena feita gido na assembléia das Tesmofórias. Err todo este retrato paró-
de ataques violentos à vida privada do poeta e de paródias ao dico, a comédia mais não faz que engrossar o traçado de um
seu estilo trágico e lírico >. perfil bem conhecido nos círculos sociais e culturais do tempo.
Se tomarmos. como ponto de partida, a teoria que o próprio pela elegância e esbelteza pouco máscula da sua apresentação. . .;.
Ágaton emite em As mulheres que celebram as Tcsmofôrtas Também a casa onde esta personagem se movimenta , a que
(vv, 149sq.). de que um poeta deve conformar os seus hábitos à o texto dá foros de templo ou palácio (cf. VY. ~I. 58), é o reduto
obra que produz. as duas facetas exploradas por Aristófanes ideal, que convém :1 solenidade de um grande senhor. Um criado .
- vida priv-ada e produção literária - congregam-se natural- imbuído já da finura rebuscada do estilo do patrão, precede o
mente. aparecimento de Ágaton sobre o h-!%t:%i.7j,lla. numa .atitude pas-
A crítica faz-se eco das muitas vozes que se ergueram em siva, rodeado dos acessórios do guarda-roupa. como alguém que
uníssono para louvarem os atractivos físicos de Ágaton 3, que. transpôs para o quotidiano o brilho dos trajes da cena.
na sua pureza e :;;lgilidade, fizeram dele um elemento distinto Este homem, tão dotado pela natureza e pela fortuna. encon-
dos efebos %ai.o{ que Platão imortalizou nos seus diálogos . A cami- trou na tragédia um caminho aberto para .1 ~k'r i.\. t\ sua poesia
nho da casa do poeta, Eurípides e Mnesíloco dialogam sobre o tornou-se a herdeira de modelos - Íbico. Anacrconte c Alceu -,
famoso Ágaton, apesar disso um desconhecido para o Parente. conhecidos pela forma como condimentaram a poesia com o
Num esforço de memória (vv. 31-33), Mnesíloco evoca vagamente requebro e graça iônicos (vv. 160-163). O pr óprio Eurípides.
'um tipo moreno, fortalhaço , barbudo', em oposição ao verda- com o seu espírito inovador e inconforrnista. parece extasiado
deiro poeta. delicado nos seus traços finos, alvura da pele" que a perante esse jovem cultor das Musas, o único que julga capaz de
barba não ensombreia, de uma fragilidade quase feminina. advogar a sua causa (v. 187). Também Aristófanes, na carica-
No contra ste entre a personagem real e a imagem .que dela cria tura que faz da arte polida e trabalhada. da música, sinuosa de
alguém que a não conhece, encontra a comédia um meio eficaz ambos os poetas, parece convencido de reais afinidades a apro-
de provocar o riso. Mas eis que a aparição do próprio poeta ximá-los. Os dois se movimentam na mesma atmosfera cultural.
a que o saber sofístico imprimiu uma marca neva e revolucionária.
Os passos que Eurípides dera na reestruturação da arte pros-
I A vitória alcançada por Ágaton neste primeiro concurso a que se seguem agora pela mão de Ágaton com maior vigor. Por trás
habilitou é o motivo do banquete que Platão escolhe como cenário para
o seu Simpósio (cf. 1;3a). da violência da crítica, a comédia pronuncia. enfim, o elogio do
2 Cf. outras referênc.as ao trágico na comédia de Aristófanes: poeta, ao associá-lo' às novidades de Eurípides. o mesmo é dizer.
Ra. 83-85, fr. 3~6K, schol. Lucianurn 222 lACOB • ao familiarizá-lo com os poetas dignos de ocuparem o trono
.I ·Cf. PI. Prl. J15d, Smp , 174a. 212e. 213c. da tragédia.

24

~; §~~

~:I
.\.;,
.;
Como novidade na exploração do tema da crítica literária,
pela primeira vez é emitida, pela boca de Ágaton, uma teoria
sobre a criação estética: entre o artista e a obra é forçoso que
exista conformidade. O poeta é livre de escolher as suas cria-
ções conforme as tendências naturais que o distinguem. Mas a
as habituais grosserias córnicas ; ele é o critico dirccto do escravo,
na forma distorcida como põe em relevo a linguagem sclecta
por ele usada.
Chamado à realidade, o servo dialoga agora com os intrusos ,
fiel ao estilo poético que é o seu, e justifica a vinda próxima do
.'.:. :
. :1

••
esse impulso íntimo e cong ênito da rf':v/ ,:. pode acrescentar-se a patrão: a um poeta que articula versos e os molda em cera, o
intervenção da pt'Jl1]VL;, como um esforço deliberado para suprir trabalho torna-se impossível com os rigores do inverno; é-lhe
a insuficiência da natureza. .U/p.r;a,; é aqui entendida como a
representação sugestiva de um estado físico ou psicológico, que
se pretende recriar. A arte já não é apenas espontaneidade,
mas a TÉ/7'1 indispensável converte-a num acto racional e cal-
culado. A Ágaton. de acordo com o retrato córnico do homem,
sobejam dotes como cultor de i't'l'al%êi'a '~t}(i..uaTU.: será para a
então necessário o calor fecundo do sol, que lhe facilite a utili-
zação dos materiais.
A porta que se abre dá, enfim, passagem a Ágaton, que surge
em plena produção. E antes mesmo que possa pronunciar as
primeiras palavras, a introdução musical, na sua sinuosa com-
plexidade, desperta em Mnesíloco estranhas sensações (v. 100),
v
c,

. .

..-•,,
.••:
criação dos àv6QEia que o poeta se ver::i forçado a recorrer à Pseudo-Plutarco (!tforalia 645e, 1I37e-f) informa a propósito que
imitação. Na concepção de Aristófanes, mimesc não como
é, foi Ágaton o introdutor, na tragédia, do gênero cromático. que
na definição aristotélica (Po . l448b 5-9). uma componente congê- adquirira, na poesia ditirâmbica, um vigoroso sucesso. Através de
nita da natureza humana. mas antes um subsidio onde a rpvat; uma fragmentação cada vez maior dos tons da escala harmônica.
se revela insuficiente. E essa posição teórica encontra em Ága- o novo género 'musical apresentava-se carregado de cambiantes

.'•.•:

tono autor de um trabalho insano de técnica e aperfeiçoamento emotivos. próprio para a expressão da potência sentimental.
(cf. vv. 52-57), o interlocutor apropriado ' . Provados os dotes de Aristófanes como crítico literário, não será
Mas não apenas' o retrato pessoal e social do homem. também especulativo pensar - mau grado a escassez de testemunho s
a imagem objectiva da sua arte interessa Aristófanes; a paródia conservados da produção de Ágaton - que o poeta c ômico
prossegue com a caricatura da sua obra e estilo. O primeiro logrou reproduzir com finura as possibilidades do cromático.
contacto com o mundo poético de Ãgaton estabelece-se por via como as explorava o tragediógrafo.

.'•••
indirecta, através de um escravo que, fora de casa. pretende Terminado o canto, Mnesiloco acrescenta à impressão ini-
silenciar a natureza, paralisar os seres vivos, criar o ambiente cial, despertada pela irregularidade da melodia, uma' sensação
quase sacro onde o artista fará ouvir a sua voz inspirada. Estas de languidez erótica, que traduz em palavras fortes e ricas de
palavras do servo são já um modelo do estilo rebuscado, forte sentido (vv, 130-133). O seu comentário é tanto mais estranho
em aliterações e homeotelcutos. que produzem o efeito de um quanto todo este exibicionismo melódico é o suporte de uma .:~
cicio, criterioso no vocabul ário épico e lírico a que faz ardo . composição destinada a louvar os deuses, facto que parece acar- "<::
E enfim. quando a surpresa dos seus ouvintes atinge o ponto
máximo. o semideus. %ai.i.Ié:;o;,: ·.-l;.á Sr .; : · . faz urna imponen te
aparição , Refeito da surpr esa. ... l nc-i loc , ;1I:,1:, t:l um simulacro
retar uma noção de irreverência e impropriedade no ajuste d ~ .:,,"::' ,
melodia às palavras. Igual paradoxo resulta do facto de.
~\ estrutura elaborada da música. corresp ondt:r uma tonalidade
•e
do mesmo tom poético, a que não faltarn. por gostosa ironia. poética insossa e recheada de lugares-comuns . Este desequilí-
brio é. no fundo, a prática da nova escola, que tende :1 valorizar
e
as potencialidades expressivas da música, em detrimento da e:
Cf. P. Agathon, Annales de l'U niversité de Lyon,
poesia. Toda a composição é um hino às di\'indadc s, em estilo e)
·"r
I L ÉVÊ.Qt:E,
Pa ris. 1955. puramente convencional. A neutralidade do assunto. que per-

26 21

.'
e .j

.•1
=
•• mitiria uma inserção natural do canto em qualquer contexto,
denuncia um modelo de embolima, que corresponde à última fase
tendo os ~:)quem"b rnuis untigos do gênero. E se é mscnsato
atribuir às criticas de Aristófanes o peso de um testemunho fiel

•• das intervenções corais, já então completamente desligadas da


intriga, à maneira de interlúdios 1.
Terminado o canto, instala-se o diálogo entre o trágico e os
e rigoroso, insensato será igualmente repudiá-las como mera
bufonaria. De Eurípides c de Ágaton, Aristófanes falava com
o conhecimento que dão uma análise e uma reflexão maduras.

e seus visitantes, onde o estilo de Ágaton continua a ser motivo


Os motivos estilísticos, musicais e métricos foram estudados em

•:•.
profundidade e reproduzidos com toque de perito. E não tenha-
de paródia. O nosso anfitrião é ainda o artista que bebeu na
mos dúvida, que só um talento verdadeiro podia justificar esse
retórica gorgiãnica uma vasta gama de efeitos estilísticos, com
interesse por parte do comediógrafo, que é, no fundo, a homena-
que ornamentou o estilo trágico 2. Um primeiro sintoma dessa
gem a dois artistas que saíram do anonimato, para brilharem
influência percebe-se no uso das antíteses (cf. v. 55), que o

"•
poeta utiliza para comentar a catadupa de interrogações entre os eleitos.
maliciosas com que é brindado por Mnesíloco (vv. 146sq.).
e E quando, mais adiante, Ágaton insiste, o Parente caricatu-

•• ra-lhe a figura, com uma réplica a que não falta a nota


obscena (vv. 198-201). Talvez não seja por acaso que Ágaton

•-
faça uma censura à inveja que julga entrever no ataque de
Mnesíloco. Embora escassos, os fragmentos conservados brin-
dam-nos com três referências à inveja (frs. 23-25 N2), objecto de


reflexão para um espírito tão afeiçoado à análise dos sentimentos
l~umanos. Dentro de uma preocupação de nobilitar o estilo,
Agaton usa a perífrase para traduzir, em termos rebuscados e
eufemísticos, as realidades mais banais. É escudado na perífrase

,ie que o poeta se recusa à solicitação de Eurípides, para que o


represente nas Tesmofórias. E fá-lo de uma forma tão obscura
que o Parente, irritado, lhe converte as palavras numa versão
coloquial (vv. 204-206). Jogos de palavras (cf. vv. 165-170)

e e o rigor na emissão de conceitos universais ou sententiae (cf. vv. 55,.

••
177sq.) rematam o perfil literário do último expoente da produção
trágica de Atenas. .
Da crítica literária à tragédia, como ela é feita em As mulheres

•• que celebram as Tesmoforias, ressalta a surpresa do' conservador


perante as novidades que se vão instalando na tragédia e perver-

;,,..-
I. • 1 Aristóteles (Po. 1451b 9 e 1456a 18) atribui a ..\gaton duas inovações
Importantes na tragédia: a criação de temas de pura imaginação, preferindo-os
3?S te.mastradicionais buscados no mito, e a composição de. odes corais
dissociadas do conteúdo da peça.
1 Cf. PI. Smp. 198c.
.

I:1-
28

Lt__ -....=.._ ,.......... ='''''''''..".,.,..,.,.".......... ............''''"''"''''' ..."c~


.....",.,...--...."........a.....,...,
• •. . ....... "'''''''f'2:.l,_'-MlEIlIaD'lI5'.il1'lll::L· p,.:.. .t<.1I'., .Ó: , .
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••-
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---
AS MULHERES QUE
AS
CELEBRAM
T E S ~v1 O F Ó R I A S
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••
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•,.•
ARGU ~'l ENTO

o coro J de mulheres que celebram eis Tcsmoforias. Esta


é também uma das peças composta con tra Eurípides. Das Tes-


:,,~
mofôrtas foi-lhe dado o título de 'As mulheres que celebrem as
Tesmofárias> : e sôo elas que constituem o coro. A mulher de

:.- Eurípides é Curila .. e a mãe, C/ito. Pronuncia o prólogo Mnesiloco,


parente de Eurípides.

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••
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••

PERSONAGENS DA PEÇA
-
••

-••
PARE~TE DE ECRipIDES

EURÍPIDES

SERVO DE ÁGATO~

ÁGATQ~
UMA ~lcLHER

CORO DAS MCLHERES QUE CELEBRA~I AS TES~IOFÓRIAS

Duxs M CLHERES
••

-•
CLjSTE~Es

PRiTA~E

GUARDA e
•.1
e
••
••
35 ••

--;
. .'. "·., 'f't"..~r:· ~ 'i.' • · .'.~lc •
. " "'<...\

I'.'
•-
~

e

•• PARENTE, que pára . extenuado da caminhada

•• I
Ó Zeus, será que algum dia as andorinhas acabarão por
chegar? 1 Dá cabo de mim, este fulano. numa aflição desde
manhãzinha. Posso saber, antes de deitar 0S bofes pela boca 2.
e
•-
para onde me levas. Eurípides?

~
,E UR ÍPID ES

Não há necessidade de ouvires tudo aquilo que vais já ver ~


com os teus próprios olhos. ~

!,-
:_

;
f
PARENTE

.
Como dizes?
')
OUVIr ....
Repete lá isso outra vez! Não preciso de

•.--i_
EURÍPIDES

Não. aquilo que vais já ver.

;. PARENTE

•e
Nem preciso de ver:

EURÍPIDES
~

Não. aquilo que tens de ouvir.

'J7
' ,'

\ ..r
PARENTE EURÍPIDES
••••.
~

10
Que recomendações são essas que me fazes? Lá paleio tens
tu. não há dúvida ~ Dizes então que eu não preciso nem de
Destas hás-de tu aprender muitas comigo!
••
••
ouvir nem de ver:
PAR8':TE

El'RÍPIDES

São. de facto. duas coisas distintas por natureza.


Não descobrir eu, para além destas maravilhas. a maneira
de aprender a ser coxo das duas pernas ~

.•• •

.;•.
:

PARE:--:lE

o quê ? Nem oUVIr. nem ver:


ECRipIDES

Chega-te cá e presta atenção! •e


EL'RÍPIDES PARE~TE
:
Pronto! e·
P.\R E:" n ••
••
EL"RÍPIDES. que aponta para a casa de Ágata"
Distintas como :
Vês ali aquela portinha?

ECRÍPIDES

Aqui tens como foram separadas um dia: o Éter 4, quando. PARE:"TE


•e i

15 logo no principio. se separou e gerou em si animais dotados


de movimento, para quem devia ver, fabricou logo um olho. à
Sim. por Hércules. pelo menos penso que sim.
••
••
semelhança da roda do sol. e para ouvir, esburacou um funil.
as ·orelhas.
ECRipIDES

·P·\RE:--:n
Então está calado.

••
20
É então por causa do funil que cu nem posso ouvir nem
vcr ? Cos diabos. estou encantado por ter aprendido mais essa!
Isto é que é uma conversa de nível ~
PARE:"TE

Guardo segredo sobre a portinha. .'


••
e:
38 39

..::
<r: .• '::-~'I

'•.•! EURÍPIDES
EURíPIDES, que corre a esconder-se com o Parente

•• Ouve cá!
E já o ... espetaste, embora talvez não saibas. Mas toca a
agacharmo-nos longe daqui! Vem ali um escravo dele a sair
3S

• PARENTE
de casa, com o rogo c os rnirtos. para sacrificar, ao que parece.
pela sua poesia. ~
1.
~
Estou a ouvir e guardo segredo sobre a portinha.

~. SERVO

!. ECRÍPIDES Quede-se a multidão silenciosa. de boca cerrada. AqUI 40


~.
!. Acontece que é aqui que vive o célebre Ãgaton, o poeta
tr ágico.
dentro, sob os tectos 6 do meu senhor, encontra-se um tíaso
de Musas a compor cantos. Retenha os seus sopros o calmo
éter. não ressoe a onda cerúlea do mar...
1.
•• 30
PARE~TE

Qual Ágaton ? Há um A' gaton


_.. : . x:'
PARE?'TE

Purn ~
i e f ortalhaço?
- ,
~ ao sera um moreno,

1.
i EURí PlDE:"

I-
••
E CRÍPIDES
Cala-te ~ O que e que ele está a dizer"
Não. é outro.

e SERVO

•• PARENTE

Então nunca o VI. Não será um fulano barbudo?


...mergulhem no sono as raças aladas, não se deslacern o"
pés das feras selvagens que correm nos montes..


1-
E URÍPIDES
PARE!'TF

••• Nunca o viste?


Catapum ~

,-
e SERVO
PARE:--;TE

... porque Ágaton de belas palavras. o nosso senhor . se 50


N'ao, caramba, nunca na vida, pelo menos que eu saiba.
. prepara para ...
i 40
41
, . ....
fl149ià}
.~ . ~ y.\.
I '. '
t!;w;;n';f.Ff"':d}P@+';';%f.~.4+~U }l.,:-'::'+·

.'.•:
PARliNIT

Para fazer amor. não será:


EuRÍPIDES

Ó meu valente, deixa lã o tipo em paz! E tu. trata de


..J•;
•.":
me chamar aqui o Ágaton. seja de que maneira for.

~t ."

SERVO

I
:,j
~~
Quem é que fez ouvir a sua voz: SERVO

Escusas de pedir. Ele já aí vem. É que vai começar a ••


~ ..
PARESTF.

o calmo éter ~
compor um canto: e. como estamos no inverno 7. não é fácil
articular as estrofes sem vir cá para fora. para o sol.
••
~i
SER\'O
•."
.-
E.URÍPIDES

I; . v.co loca r as traves, suportes de uma tragédia: Articula Então que hei-de fazer? 70

••
novas junturas de versos, torneia uns, cola outros, ora martela
55 sentenças, ora cria palavras novas. ora funde. ora arredonda.
,t ora molda ...

.'•
SER\'O

~ PARESTE
Espera aí. porque ele já ali vem. ••
,~
Ora V:lI a casa das pegas ~

SERVO

Quem é o pacóvio que ronda este recinto?


EURíPIDES

Ó Zeus, o que é que tencionas fazer hoje de mim?


.-.•:
.~

PARE~TE

60 Um fulano disposto a moldar este vergalho que aqui vês.


redondo c teso. no teu recinto c no do teu poeta de belas palavras .
Cararnba, eu quero saber que história é esta. Porque gemes?
Porque te irritas? Não deves fazer caixinha comigo. já que és
meu parente .
•••
SER\'O ••

EURÍPIDES
Olha o velho!.. . Nos teus tempos de rapaz devias ser cá um

."
descarado ~ Andam a cozinhar uma grande trama contra mim. 75

42 4J
.,'

tf '"
. ..~~

PARE:-;n EURíPIDES

Que trama ~ Convencer o Ágaton, o poeta trágico. 2. ir às Tcsmofónas .

EL"RÍPIDES PARE:-:TE

É hoje mesmo que se vai decidir se Eurípides é vivo ou Fazer o quê ? Diz-me lú'
morto. li

EURÍPIDES
PARE~TE
Para tomar parte na discussão, no meio das mulheres, e. 90
Mas como'? Agora que nem os tribunais estão a julgar. se for preciso, dizer uma palavra em meu favor.
80 nem há reunião do conselho. porque estamos no meio das Tes.
rnofórias .. . iJ

EtJRÍPIDES
PARENTE

Às claras ou disfarçado ~ .•
. .~

Por isso mesmo, estou a ver que vou ser liquidado. É que
EURÍPIDES
as mulheres andam a conspirar contra mim e hoje, nas Tesrno-
Iórias, vão reunir-se para discutir o meu caso. É a minha morte! Disfarçado, vestido com roupa de mulher.

PARE~TE

-:.
PARENTE
I Mas porquê?
Uma ideia engenhosa, mesmo só da tua cabeça. Lá quanto
a expediente, levamos a palma. 10
te
J.

EURÍPIDES

EURíPIDES
Porque as apresento nas tragédias e digo mal delas.

r•.
Cala-te! 95

PARE~IE

ie PARENTE

••
Ora toma, é o que estás mesmo a pedir! E então, tens
algum expediente para escapares? O que é?

.45

Fi===-
\fo.• . 4
,- - - - - , ..". ,Ir. ,

(, . .•
.t -. ". $~ ~'Ji@&!t.!!iSUt"·f ... e:~.::;.::~~ ::.!~::~ : · ,·:< ~~:b;:;··~··::-:·:,~,~ :·±$. ~ :~: ..: ::': "" ~ -. '!f?::z:·~:~!± :::± ".z;:4S::"" ·"~"~ : ~'· ~y·y~:~€E %!+;a.' .

EURíPIDES

o Ágaton vem a sarr.


arcos doirados, Febo, que erigiu as muralhas do pais em
terras do Simoente. 15 110
.'.,.:.,:
.
fazendo de Coro

P."RESTE

~la~ onde é que ele está '!


Regozija-te, Febo, com a beleza dos cantos, tu que, entre os
hinos melodiosos, ofereces o prémio sagrado. Cantai também
Ãrtcmis, a jovem caçadora nas montanhas cobertas de carvalhos.
fazendo de Coro
Continuo celebrando aaugusta e feliz filha de Leto. Árternis
! 15
.'••
e::

t
EURíPID~ de leito inviolado.
E Leto e as melodias da Ásia, descompassadas e compassadas 120 •
e:
I
Onde é que ele está? É aquele que ali vem a rolar cá para na dança. rodopios das Graças frígias.
fora. 11
fazendo de Coro
Venero a soberana Leto e a cítara. mãe dos hinos notáveis •.'

.-
por seu másculo clamor. 125
P .-\REl'TE
Uma luz refulgiu nos seus olhos divinos, e penetrou o nosso
Estou cego ou quê? Cá por mim não vejo aqui nenhum fugaz olhar. Por isso exalta o soberano Febo.
homem ~ É Cirene IZ que cu vejo.
Salve, ó
fazendo de Coro
feliz filho de Leto! ••
EURÍPIDES

Cala-te! Ele prepara-se para cantar.


PARENTE •e :
PARENTE
Que doçura de canto, poderosas Genetílides 16, a saber a 130
ó

mulher, lascivo como um beijo, sensual! De o ouvir já sinto cóce- ••


.'
gas aqui nos fundilhos. E tu, meu rapaz - seé que és rapaz!-,
100 Carreiras de formigas ou quê, aquilo que ele está para ali
a gargantear ? U
quero fazer-te umas perguntas como Ésquilo na Licurgia: 17 135
Donde vens, meu maricas? Qual é a tua terra? Que fatiota é essa? 1S
Que trapalhada de vida é esta? O que tem que ver uma lira 19

com uma túnica cor de açafrão? 20 . E uma pele com uma redi-
nha? 21 E um lécito com um corpete? 22 Não diz nada uma
coisa com a outra. Que aliança é essa de um espelho com UIl1:J. , 140
•e
Empunhai, donzelas, a tocha consagrada às deusas infernais
e, de coração liberto , executai a vossa dança ao som dos brados.
espada? E tu, meu rapaz, será que és mesmo homem? Então
onde está o teu membro? E o teu manto? 2J E os teus sapatos ••
.'.:

espartanos? 24 Ou és mulher? Mas então onde estão as tuas
fazendo de Coro
maminhas? O que dizes? Porque te calas? Será que vou ter de
105 . . A que divindade é dedicada esta festa? Diz-me qual. . Sou investigar, pelo teu canto, quem tu és. já que tu próprio nâo 145
dócil em venerar os deuses. Vamos. Musas, celebrai o archeiro dos mo queres dizer?
.~
46 47 e.;

•e ·
.,
" '-~-n

'~
"

ÁGATOt' PARENTE

Ai meu velho, meu velho! O que te faz falar é a dor de Então por isso é que Fílocles 30, que era feio, compunha
cotovelo! Masnão me atingiu a picada. Cá por mim trago uma peças feias, e Xénocles :1, que era mau, compunha peças más,
roupa conforme à minha maneira de pensar. É preciso que e Teógnis 32. que era frio. compunha peças frias. 1iO
150 o poeta actue de acordo com as suas peças, que lhes adapte o
seu tipo de vida. 2~ Por exemplo, se se fazem peças com mulhe-
res, é preciso que o corpo participe dessa natureza. ÁGATü!'

Forçosamente ~ E é por saber isso que eu passei a cuidar


PARENTE
da minha pessoa.

Então... cavalgas. quando compões uma Fedra't ze


:.
PARENTE

ÁGATOi\
Hornessa! Como'?

Se se fazem peças com homens, tem-se no corpo essa carac- .


155 terística. E aquilo que não possuímos, consegue-se pela imitação. EURÍPIDES

Acaba com csse-, latid os ! "\l~ cu cru a:;silll. tal ~ qual.


na idade dele, quando comecei a escrever.
PARENTE

Então quando fizeres sátiros, chama por mim, para cu


te dar uma ajuda por trás, em erccção, PARE:-.ITE

Cum raio! Não te invejo esses princípios 33. 175

ÁGATO!"

160 Aliás é contrário às musas ver um poeta grosseiro e peludo. EURfPIDES


Repara que o famoso Íbico e Ana~reonte de Teos e Alceu 27,
que tanto condimentaram a música, usavam turbante is e levavam Mas deixa-me dizer porque é que aqui vim.
uma vida efeminada, à iónica. E Frínico 29 - decerto já ouviste
165 falar dele - era um bom pedaço de homem .e vestia com bom
gosto. Por isso é que as peças dele eram também boas: É uma PARENTE

•••
necessidade compor de acordo com a própria natureza .

-- 48
Diz Já!

4
~----- - -- - --- - -----


EURíPIDES

Ázaton «homem sábio é aquele que é capaz de resumir em


palavr~s br~ves,
tens um paiminha de cara, és pálido. bem barbeado, com voz
de mulher, franzino, uma boa figura.
."
.:."
mas. claras, um longo discurso». 34 Eu fui
180 atingido por uma desgraça inaudita e por isso aqui venho ter
contigo como suplicante.
ÁGATO:"

Eurípides .. .

••
ÁGATOS e
Mas o que é que tu queres?
EURÍPIDES

Que é? •e
ECRÍPIDES
ÁGATON
••
••
As mulheres \":10 dar cabo de mim hoje. nas Tesrnofórias .
Uma vez escreveste o seguinte : «Gos tas de ver a luz; não
porque Jigl' mal delas.
te parece que o teu pai também gosta ?,) 36

e
••
[UR!PlDES
E nós, que podemos fazer por ti?
De facto escrevi. 195

185
EURíPIDES

Tudo. Se te instalares no meio das mulheres, às escon-


ÁGATON
••
didas, de maneira a pareceres mulher, e disseres uma palavra
Então não esperes que seja eu a aguentar com a tua desgraça.
e
••
Só se estivesse maluco! Os teus problemas pessoais, resolve-os
em meu favor, de certeza que me salvas. És o único capaz
tu! A má sorte não é com artifícios que se pode aguentar. é
de dizer qualquer coisa digna de mim.
com paciência.

••
.-i
ÁGATOl" PARE~TE

Mas então porq ue não vais lá tu defender-te pessoalmente? Portanto tu, meu invertido, se ten s o rabo largo. não é das 200
palavras, é da paciência.

EURÍPIDES

Vou-te explicar. Em primeiro lugar, sou conhecido. 35


EURÍPIDES ••
190 Além disso, tenho cabelos brancos e barba. Tu , pelo contrário,

50
Mas porque é que tens medo de lá ir?
•ta
••e)
51

':"', ', , ,
ÁGATO~
EURíPIDES
Ainda havia de ter um fim pior do que tu.
Então o que é que eu hei-de fazer:

EURÍPIDES
PARE?'TE
Como?
Esse fulano ai, manda-o para o raio que o parta! Aqui
me tens. Faz de mim o que quiseres.
ÁGATO:-i

205 Como? Por parecer que ia roubar o trabalho nocturno El~RÍPIDES


das mulheres e arrebatar a Cípris feminina. 3i
Bom. já que te pões à minha disposição. tira essa roupa.

PARENTE
PARE~TE. dcspiudo-s»
Ora vejam lá, roubar! E esta?! Fazer amor, isso sim!
Está-se ' mesmo a ver que é um pretexto, caramba! Já está no chão . Mas o que é que tu me vars fazer: 215

...
~

EURÍPIDES El'RÍPIDES
.~.._~

Então? Fazes-me esse favor? Fazer-te a barba aqui c queimar-te por baixo. )S

PARENTE
ÁGATON

Bem, faz lá isso. se te parece. Ou eu não devia ter-me posto


Nem penses nisso!
à tua disposição.

EURÍPIDES ·.T '


. . :-'- El'RÍPIDES : : .~
Ai, que desgraça a minha! Estou perdido!
Ãgaton, deves trazer sempre uma navalh a contigo.
Empresta-nos a navalha por um bocado. :~
PARENTE

210 Eurípides, meu caro amigo. meu parente, não te dês por
vencido.
Tira-a tu mesmo daqui. do estojo. ;; ; l íi! 220
52
:53
, i
-zg ·, ~~!!..t2. ~>:pe{1Sh?·,- ,;!.:A!E\J4f1~
. ' '. j'f'f'SEp'S'ea.?L ,:;;:.§,};{(h.,a:h~dM" 0"·'· ' h'; *@
,
c#§

.: ; ,: . ~~~ .
~il.l~': ' · · J
.•.
EURÍPIDES, (/ Âgaton e depois ao Parente
.~ . .

EURÍPIDES ••
És muito amável. Senta-te . Sopra a bochecha direita . Não, por favor. não me abandones. Anda cá .
••
PARENTE

Ai. ai ~
PARENTE, voltando
••
••
.'
Ai, que desgraça a minha!

EURÍPIDES
EURÍPIDES .-
.'.'.-

Porque é que estás a gritar? Enfio-te já um batoque. se
não te calas. Não te mexas, levanta a cabeça. Para onde te estás a virar? 230

PARE~TE :': ;.: PARE:-"'TE

Ai. ai ~ Ai. ai ~ Mu. mu'


e
I

f' EliRÍPIDES. ao Parente que foge a correr

Ei, tu aí ~ Para onde vais a correr:


EURÍPIDES

Que mu é esse? Está pronto, Óptimo ~


••e ,
PARE:-;TE PARE~'TE
•_1
~.
i' 225 Para o templo das deusas sagradas. 39 Com mil demônios! Ai. que desgraça a minha! Vou para o combate desarmado! 40
4t'
Não vou ficar aqui à espera que me façam em postas , e
ECRÍPIDES
EURÍPIDES, estendendo-lhe um espelho •e
Não te preocu pes ESt;1:, mesmo urna beleza! Queres-te ver? e
••
:'
PARE~TE

Pouco me importa.
PARE~TE

Como queiras . Dá cá! .:



.;.'
55 e'
" .:~

'" 'í.:- ,'.:..." .


I• EL"RÍPIDES EURÍPIDES

••
I
235 Estás-te a ver ? Pronto, já passou. O pior está feito

•• PARE~TE PARENTE

:•. :\ mim não. cararnba ! Ao Clistenes ! ..j I .Puf! Ai que chamusco!


volta da rabadilha.
Tenho ISto tudo queimado. à 245 1·

-
EL"KÍPIDES
EURÍPIDES


Levanta-te para cu te queimar. Põe-te para a frente.
Não te preocupes. O Sátiro .1': passa-te ai uma esponja.
i

.e P."RE~TE. vergando-se
PARENTE
Ai. que d~sgraça a minha! Vou ficar um leitãozinho.
Há-de arrepender-se. se me vem lavar o traseiro

E L"RÍPIDES
EURÍPIDES

Trasarn-me aí de dentro uma tocha ou uma vela. Põe-te


Ágaton, já que não estás disposto a prestares-te tu próprio
para baixo. Cautela com a ponta do rab,iosque!
a esse papel, ao menos empresta-nos um manto O e um corpete. 250
para este tipo vestir. Não me vais dizer que não tem.
PAReaE

ÁGATO~
240 Cuidado tenho eu. cos diabos! Mas estás-me a queimar.
Ai, ai, que desgraça ~ Água, água. vizinhos, antes que me comece Peguem lá; Sirvam-se! Não digo que não
a arder a rabadilha.

PARE?'TE
ECRÍPIDES
Em que hei-de pegar'?
Coragem ~

EURÍPIDES
PARE:\TE
Em quê? Primeiro esta túnica cor de açafrão... pega,
Qual coragem! Estou mas é a arder. veste-a.

56 57
••
PARENTE, vestindo a túnica ÁG~TO:"
••
. 255
Por Afrodite, que rico cheirinho à... coisa! Aperta-ma. des-
pacha-te ' Passa cá o corpete! •
Pega nela. aqui no sofá.
••
EURÍPIDES
EUR!PIDES
••
••
Faltam os sapatos. 4~

Torna ~

PARE~TE
ÁGATO~

Aqui tens os meus. pega lá! ••


Vamos. arranja-me ISSO aí à volta das pernas.

PARE~TE. experimentando os sapatos


••
EURíPIDES

É preciso uma redinha c um turbante.


Vão-me ficar bem? Estou a ver que não gostas deles largos.
••
, ÁGATO:"
••
••
ÁGATOl'\
Tu lá sabes! Bom, já tens o que te é preciso. Depressa. 265
Aqui tens este barrete que eu uso de noite. rodem-me lá para dentro! 4fi

e
Et:RÍPlDES

Sim. cararnba. está mesmo a matar.


EL"RÍPIDES
•Cá temos o nosso homem com ar de mulher. Se falares. ••
••
dá à' voz um tom bem feminino. que convença.

PARE~TE, pondo o barrete

260 Fica-me bem 'J


PARE>'IE

Vou tentar. ••
El:RírIOES El'RiplDES ••
Se fica! Uma maravilha! Passa cá uma capa. 44 Vamos. põe-te a andar.
•e
••
58
PARE NTE PARENTE, que arança para o Tesmofárion
-',i:

.'. . ~·t·
- ~.~- . - .
..
270 Não. cararnba. se não me Jurares... Por aqui, Trata, vem comigo. 50 Ó Trata, olha os archotes 280
. a arderem e tanta gente que vem a subir debaixo daquela fuma-
rada. E vós, belas Tesmofórias, acolhei-me em boa hora
EURÍPIDES aqui e no regresso a casa. Ó Trata, pousa a cesta no chão.
o que: tira o bolo ~l e dá-mo cá, para eu o sacrificar às duas deusas. 285
Verierada Deméter, senhora digna de todas as honras, e tu,
Perséfone, tenha eu muitas e muitas vezes de te fazer sacrifí-
PARENTE
cios, se escapar desta despercebido. Que a minha filha, que
tem -uma passarinha de truz, arranje um marido rico, e, além
Que me salvas por todos os meios. se me vir em apuros. disso, estúpido e parvo, e que eu tenha tento e juízo na pilinha. 190
Mas onde, onde está um bom lugar para me sentar e ouvir as
oradoras? E tu, Trata, põe-te a mexer, desaparece daqui. Aos
EURÍPIDES escravos não é permitido ouvir os discursos. 52

Juro pelo éter. morada de Zeus.


.;:..
MULHEll
PAREl'TE Silêncio! Silêncio! Invoquem as Tesmofórias, Pluto, a Cali- 295
;~,.;~

genia ~3, a Ama da Juventude Sol, Hermes e as Graças. Que esta 300
E porque não antes pela casa de Hipócrates? 47
assembléia, que este conselho hoje aqui decorra com aprumo e .,

com acerto, com vantagem para a cidade dos Atenienses, e de


bom augúrio para nós. E aquela que, por netos e palavras, 305
EURÍPIDES
se impuser ao povo dos Atenienses e das mulheres, essa será a
Juro pelos deuses todos sem excepção. vencedora. Sejam estas as vossas preces, e pedi também pela 310
vossa felicidade. Eh Péan! Eh Péan! Eh Péan! Haja alegria!

PARENTE
CORO SS
;t: I
275 _ ~ntão lembra-te disto: foi o espírito que jurou, ma~' a língua"

.-'I
I •. .. ,
nao Jurou. eu não empenhei a minha palavra. ~8

EURÍPIDES
; j
Assim seja! Suplicamos à estirpe divina que nos mostre
o seu regozijo com as nossas preces. Zeus glorioso, e o deus 315
da lira doirada, senhor da sagrada Delos, e tu, virgem toda
poderosa, de olhos garços, de áurea lança, que habitas uma
cidade invejada, vem até nós; e tu, deusa de muitos nomes, 320
~ .i
Deixa lá isso! Despacha-te, depressa! Já se vê o sinal da : .' .
~
caçadora de feras, rebento de Leto de olhos doirados S6; e tu, deus
assembleia no templo das Tesmofórias. Vou-me embora. 49 do 'mar, venerável Posídon, senhor das águas marinhas, deixa

60 61

...........I0Io- ... . ~ _'___


••
as revoltas profundezas piscosas: e vós, filhas de Nereu, o deus MULHER •. ;
.:
.,:
325 marinho, e vós, Ninfas, que vagueais nas montanhas. Que uma
lira doirada acompanhe as nossas preces. E, enfim, dêmos início Oiçam todas! Eis a decisão do conselho das mulheres, que
330 à nossa assembléia, ilustres mulheres atenienses . teve como presidente TimocIeia, como secretária Lisila e ora- 375
dora Sóstrata 61: que se faça uma assembleia na manhã do
segundo dia das Tcsmofórias, em que temos mais tempo, para
.,'
\1CLHER
se deliberar, primeiro que tudo. sobre Eurípides, que castigo
se há-de dar a esse cavalheiro. Que ele é culpado, estamos
todas de acordo. Quem quer tomar a palavra?
••
••
f nvocai os deuses e deusas olímpicos, os deuses e deusas
335 píticos, os deuses e deusas délios, e os outros deuses. E todo
aquele que tramar algum ataque contra o povo das mulheres;

.'.:

ou que entre em negociações com Eurípides e com osMedos S7 PRl MEIRA MULHER
em prejuízo das mulheres; ou que tenha intenção de ser
tirano
Eu! 380
ou de contribuir para repor o tirano; ou qu~'~~~~~n.si~, :~~a
340 mulher que tenha um filho suposto 58; ou a escrava.iquecorrcmpa
a senhora, e vá contar tudo ao patrão; ou aquela' que:" .quanpo
a encarregam de levar uma mensagem, só diga" ' inenti!~~ ; :,9t( :o
•• ' , ,..., .
~ • ." .. .
~J k. ' ;" • ·.l
MULHER e!;
amante que engane uma mulher com falsas palavras . ' . :,,

345 o que promete: ou a velha que dê presentes ao amante; cu.tam-


e :!tão,_ '
. dê
,, '
Então, antes de falares, põe esta coroa na cabeça. 62
e l

bérn a cortesã que os receba e vá trair o amigo; ou o taberneiro


t · . ,; .
s" ~

e!
ou taberneira que roube a medida legal da canadaou dó-cop~'S9: " CORO e i
350 fazei votos que todos rebentem de má morte, eles' e a família.
E vós. suplicai aos deuses que vos concedam as maiores venturas. Silêncio! Calem-se! Atenção! Já está a pigarrear como
•e,e!
•..'.,:
fazem os oradores. Grandes coisas tem para dizer, com certeza.

CORO
PRI~iEIRA MULHER ~
Assim seja! Que se cumpram plenamente esses votos

.'.'.:•
355 a cidade e para o povo. ' Que os melhores prêmios caibam Pelas duas deusas, não foi por ambição - nem por som-
àquelas que vencerem pela eloquência. Mas as que usarem de .. bras! - que me levantei para falar, mulheres . Mas há já muito
falsidade e violarem os juramentos rituais em seu proveito .e tempo que eu - pobre de mim! - fervo de nos ver enxova- 385
360 prejuízo nesse: ou as que tentarem revolucionar os decretos lhadas por Eurípides, esse filho de uma hortaliceira 63, e de
e a lei e revelarem os segredos aos nossos inimigos 60;, ou as ouvir toda a casta de injúrias. Haverá algum insulto com que
365 que fizerem avançar os ~ ledos contra o país, em prejuízo .nosso: esse tipo nos não tenha brindado? E calúnias? Seja onde for, 390
essas são ímpias e culpadas para com a cidade. E que tu, Zeus desde que haja uma meia dúzia de espectadores, actores e coros,
370 todo-poderoso, patrocines estes votos, para que os deuses nos lá começa ele a chamar-nos levianas, doidas por homens, bêba-
sejam propícios. apesar de sermos mulheres. das, traidoras, tagarelas, uns zeros, a desgraça completa dos .~
...... \ -
maridos. De tal maneira que eles, mal saem do teatro 64, põem-se 395
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a olhar para nós com desconfiança e logo a ver se descobrem que, Xénocles, filho de Cárcino 69, comparado com ela quando
algum amante escondido em casa. Já não podemos fazer nada fala, vos havia de parecer a todas, penso eu, incapaz de dizer
do que fazíamos dantes, tais foram as misérias que esse fulano uma de jeito.
400 ensinou aos nossos maridos. Assim, se uma mulher entrelaça
uma coroa, pensam que está apaixonada 65; se, na lida da casa,
deixa cair qualquer coisa, o marido põe-se a perguntar: «Em SEGUNDA MULHER
quem estavas tu a pensar, quando deixaste cair a panela? No
405 hóspede de Corinto, não pode deixar de ser!» Adoece uma Vim aqui para dizer apenas algumas palavras. Tudo o
rapariga e logo o irmão começa a dizer: «A cor desta rapa- mais já ela o expôs e muito bem. Mas o que eu própria sofri, 445
riga não me agrada». Adiante! Uma mulher sem filhos quer é isso que vos quero contar. Morreu-me o marido em Chipre
arranjar um suposto, e já nem isso pode esconder. Os homens e deixou-me cinco filhos pequenos, que eu li ia sustentando.
410 agora andam sempre de olho em cima delas. Os velhos que como podia, a fazer coroas no mercado das flores. 70 E. desde
dantes se casavam com raparigas, difamou-os, de maneira que então, lá 6,sfui sustentando menos-mal. Mas agora esse fulano. 450
nenhum velho quer casar com uma mulher por causa deste verso: em
'qti{ttâba'lhl;l.' tragédias 71, convenceu os homens de que não
«Velho que de amores se abrasa, patroa tem em casa» E mais: i 'h:á' déü~ei. 72 'De maneira que já não vendemos nem metade.
415 por causa desse fulano agora põem ferrolhos e trancas nos quartos :;'EporiSsà que neste momento quero recomendar e dizer a todas
das mulheres, para nos guardarem, e, além disso, criam cães que~:'pot .muitas:razões, esse cavalheiro tem de ser castigado.
molossos, o papão dos amantes. Mas, enfim, isso ainda passa. 'É"bràvioâ' atacar-nos, mulheres, como bravias são as hortaliças 455
Mas tudo aquilo que nos competia antigamente, governar a casa, enlque foi' criado. 73 Agora vou-me embora para a ágora,
420 ir à despensa buscar a farinha, o azeite, o vinho, já não nos é 'Tenho 'de entrelaçar vinte coroas de encomenda para uns
permitido. Agora são os homens que trazem umas chavezinhas "homens. 74
I'.:
secretas - malditas chaves! - , da Lacónia 66, com três dentes.
Antigamente ainda podíamos mandar fazer,' por três óbolos, um
425 aro 67 para abrir a porta às escondidas. Mas agora, esse Eurí- CORO
pides, a desgraça das nossas casas, ensinou-lhes a trazerem con-
sigo uns sinetes de pau carunchoso. Por isso, parece-me que Ora aqui está outro espírito decidido, que se mostrou ainda 460
430 temos de arranjar maneira de dar cabo do fulano, seja lá como mais sub til do que o anterior. Não foi a despropósito todo,
for, ou com veneno ou por qualquer outro processo que arrume aquele paleio: falou com senso e espírito arguto, sem arrebiques,
com ele. Era isto que eu queria dizer publicamente. O resto mas de modo convincente. Temos de aplicar a esse homem um 465
vou escrevê-lo aqui com a secretária. 68 'castigo que se veja, pelo seu desaforo.

CORO , PARENTE

435 Nunca ouvi mulher mais engenhosa do que esta, nem mais Mulheres! Que vocês, depois destas barbaridades que ouvi-
hábil a falar. Tudo que ela diz é justo. Examinou todos os mos, estejam irritadas de sobra contra Eurípides, a ferver até.
aspectos da questão, ponderou tudo e, com inteligência, soube não é de admirar. Pela minha parte - pela f~licidade dos
440 encontrar argumentos subtis, bem arquitectados. A tal ponto ~.; .' meus filhos! - detesto esse tipo, só se me passasse alguma pela 470

65
5
·• ....MAS. ~ _ .: ~ . -.__"- ~ __h ..L:e:+lRr.JiQl!i+.··..4 . ,M'!t _ Pi$liL4it:aÊ&ilÚ

.•
• :

cabeça. No entanto, temos de trocar impressões umas com as


outras. Estamos sós, nem uma palavra sai daqui. Como é que
é um leão que te nasceu! E o teu retrato chapado! Além de
tudo o mais, até a pilinha é parecida com a tua; redonda como 5 i 5
••
475
vamos acusar o sujeito e ficar irritadas, lá porque disse duas ou
três das nossas patifarias, quando ele bem sabe que as fazemos
aos milhares? Eu própria, em primeiro lugar, para não falar
urna pinha.» Não fazemos nós estas patifarias? Sim, co s
diabos, se fazemos! E depois viramo-nos contra Eurípides.
quando não estamos a levar mais do que merecemos. 7S
••
de mais nenhuma, bem conheço as minhas tratantadas, que são
muitas. Há uma então que é a pior de todas: estava eu casada
há três dias e o meu marido dormia ao meu lado. Mas eu tinha
••
••
CORO
480 um amante, que me tinha desflorado aos sete anos. Com o desejo,
veio-se pôr à minha porta e começou a esgadanhar. Dei logo Isto é de pasmar! Onde é que se foi desencantar semelhante 520
coisa? Em que terra terá nascido uma atrevida assim? Dizer

••
por ela. Saltei da cama pé ante pé e o meu marido perguntou:
«Onde vais»? «Onde vou? Estou com uma dor de barriga, coisas destas - a safada - em público! É o cúmulo do des- 525
485 homem, sinto-me mal. Tenho de ir à retrete.» «Vai lá, vai.» caramento l Nunca pensei que se atrevesse a tal, na nossa frente.
Mas tudo pode acontecer! Já estou como aquele provérbio
E pôs-se logo a esmagar uns grãos de zimbro, endro e salva.
Eu deitei água nos ferrolhos 75 e fui ter com o meu amante.
Plantei-me à beira do altar do Agieu, e curvei-me, encostada
antigo: «Debaixo de cada pedra é preciso espreitar. para não
se ser mordido por um ... orador.» 79 Pior do que as mulheres 530 ••
••
490 ao loureiro. 76 E isso, vejam bem, nunca o disse Eurlpides. descaradas por natureza, não há nada. mesmo nada. a não ser
Nem que nos entregamos a escravos e almocreves, quando a própria mulher.
não temos outra coisa, lá isso também não. diz. Nem que,

495
quando andámos a noite inteira na grande pândega com um
qualquer, de manhã nos pomos a mastigar alho, para o marido,
quando voltar da sentinela, não desconfiar, pelo cheiro, que tenha-
PRIMEIRA Mt.:LHER
••

-•
Não, por Aglauro 80, vocês não estão a ver bem as coisas.
mos feito algo de mal. Isto, vejam bem, também ele não
mulheres! Ou foi bruxedo ou vos aconteceu outra desgraç a
disse. Se insulta Fedra 77, que é que isso r.os importa? Também
qualquer! Deixar esta peste insultar-nos assim. a todas nós! 535
ainda não contou aquela outra história da mulher que se pôs a

f:·"
500 mostrar ao marido a capa, para ele a ver à luz do dia, e entretanto
fez escapar o amante, embuçado. Essa também ele não contou.
(Dlrtgíndo-se aopúblico) Se há algum de vocês que..; Se não há,
vamos nós mesmas e as nossas escravas arranjar, em qualquer lado.
umas cinzas para lhe tirarmos os pêlos das vergonhas, para ela
••
E outra mulher conheço eu que, durante dez dias, andou a dizer
que estava com dores de parto, até comprar um miúdo. O marido
dava voltas a ver se encontrava qualquer coisa para acelerar o
aprender, já que é mulher. a não dizer mal das mulheres daqui
em diante.
••
••
505 parto. Uma velha lá o trouxe, o miúdo, numa panela, com uma
rolha de cera para não gritar. A um sinal da velha que o trazia, PARE~!E
a mulher põe-se a berrar: «Sai daqui, sai daqui, homem, depressa!

510
Parece que vou dar à luz.» É que o miúdo tinha dado um
pontapé no bojo da panela . Ele sai a correr todo contente e
ela vá de tirar a rolha de cera da boca .do miúdo, que começou
Isso não, as vergonhas não, mulheres! Se h1 liberdade de
expressão, se todas nós, cidadãs aqui presentes, podemos falar.
pois então eu disse o que me pareceu justo acerca de Euríp i-
5~ (1

••
I' ~ .. :

\i.
a gritar. Logo o estafermo da velha, que tinha trazido a criança,
corre para o marido, toda sorridente, e diz-lhe: «É um ' leão,
des: e por isso mereço que vocês me arranquem os pêlos de
castigo?
••

t1
i;t: 66 6i

I:~.~ ..
ta

PRIMEIRA MULHER PRIMEIRA MULHER

Não mereces um castigo? Tu, a única que se atreveu a Má morte te leve!



545 defender um homem, que tanto mal nos fez, que se pôs de pro-
pósito à procura de argumentos em que aparecia uma mulher
perversa, e a criar Melanipas e Fedras? Mas Penélope 81, PARE~TE

nunca ele fez nenhuma, só porque parecia ser uma mulher sensata. .Nem que as carnes das Apat úrias 83 as damos às alcovi-
teíras, e depois dizemos que a doninha ... 84

PARE~TE
PRIMEIRA MULHER
Eu sei a razão disso. É que, hoje em dia, Penélope não se
550 pode apontar uma única entre as mulheres. mas Fedras são Pobre de mim ~ Que disparate ~
todas sem excepção.

PARE~"TE

PRI~IEIRA ML'LHER
Nem que uma outra matou o marido à machadada, isso 560
também não disse. Nem que outra enlouqueceu o marido com
Vocês estão a ouvir, mulheres, o que esta safada disse de
mezinhas. nem que. uma vez, debaixo da banheira ...
todas nós outra vez?

PR1~IElR'\ M CLllER
PARENTE
Raios te partam !
Sim, cum raio, e ainda não disse tudo o que sei. Querem
que eu diga mais?
PARENTE

PRnlElRA MULHER ... uma acarnense 85 enterrou o pai.

Já não tens mais nada para dizer. O que sabias, já dei-


taste tudo cá para fora. PRntElRA ~v1ULHER

Pode-se aturar uma coisa destas?

PARENTE

PARE~TE
555 Não, poça, nem a milésima parte do que fazemos. Por
exemplo, não disse que pegamos num raspador 82 e sugamos Nem que tu, quando a tua escrava teve um filho, um rapaz,
° vinho.. . . te apropriaste dele e lhe deste em troca a tua filha. 86 565

68 69

-:. :i~ • •'


?f~ • ep
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' ~ ..'._,.
· ·A ~

- I ~~. o: . ••
~ .'.
.
PRI ~tElRA M L;LHER, ameaçadora CORO •. :'
••
: .. :

Pelas duas deusas, hás-de pagar-me o que estás para aí a Deixem-se de insultos! Vem aí uma mulher ao nosso
encontro, . toda apressada. Calem-se antes de ela cá chegar.
dizer. Vou-te arrancar essas crinas. 87
para ouvirmos, em boa ordem, o que vai dizer.
••
••
PARE~TI

Não, nem penses. não me hás-de pôr a mão em cima.


CLÍSTENES 88. que chega apressado
••. ;
Mulheres, minhas caras amigas, parentes minhas por afi-

•..;
e.;
j,o :"

nidade de costumes, que sou vosso amigo, logo se me vê na cara. .~j

PRI~IElR .., \tU.HER. batendo 110 Parente Sou doido por mulheres, sempre fui o vosso protector. Ainda
há pouco ouvi falar de uma questão grave que vos diz respeito. ;

.'•.:
Então toma! nas tagarelices da ágora, e cá venho eu para vos trazer a notícia
e prevenir-vos de que estejam atentas c vigilantes, para não serem 580
apanhadas de surpresa num caso terrível, de monta.
PARE:"TE. que devolve a pancada ~

Toma !
CORO
o que é, rapaz?
•••
••
É melhor chamar-te rapaz. j á que tens

..::
PRI~:E I R.-\ \1 L Ll-tER
assim a cara rapada.
Segura-me aí na capa . Filisra.

CLíSTENES
PARE:-'IE

Experimenta só tocar-me . e. palavra <;C eu


Diz-se que Eurípides mandou cá um parente dele. um homem
de idade, hoje.
585

••
e.
PRBIEIRA ~ lCLHER

••
... :<:J
CORO
Para fazer o qu ê? Com que inten çã o?

P.\RE:"TE CLÍSTE~ES

570 ... esse bolo de sésarr.o que enfiaste na goela . faço-to deitar Para espiar. nos vossos discursos , as \OSS ~s decisões c

cá para fora . deliberações. . ,ç


70 71
·-.::ji
.~

" ~
. ~j
.
~ . t '

,; . , , '

CO~O CUSTENES

E como é que ele. um homem. conseguiu passar desper- Vocês têm de ser revistadas .
cebido no meio das mulheres?

CLÍSTENES PARENTE

590 Ai que desgraça a minha!


Foi Eurípides que o chamuscou e depilou e, quanto ao
resto. vestiu-o de mulher.

PRIMEIRA MüLHER
PARE:\TE
Estavas a perguntar quem sou eu? A mulher de Cleónirno. 89 605
Vocês acreditam no que ele diz? Haverá um homem assim
tão estúpido que se deixe depilar? Cá por mim acho que não.
pelas duas deusas muito veneráveis.
CLisTENES

Vocês conhecem esta mulher?


CLÍSTENES

595 És parva! Não era eu que cá vinha trazer a noticia, se


não a tivesse ouvido de quem sabe muito bem o que está a dizer. CORO 1-~

...:;,~
Conhecemos. sem dúvida . lnspecciona as outras .
CORO

É grave o assunto que ele nos comunica. Mulheres, o que


CLfsTENES
é preciso é não ficar de braços cruzados, mas espiar esse indi-
600 víduo e investigar onde ele se escondeu para continuar disfar- E quem é esta com uma criança ao colo?
çado no meio de nós. E tu, ajuda-nos a procurá-lo, para mere-
ceres duplamente os nossos agradecimentos, tu, o nosso protector.
PRI ~IEIRA MULHER

CLíSTE~ES (à Primeira Mulher ) É a minha ama. cararnba !


"

Bem . vejamos, lU primeiro. Quem és tu? .~

PARE~TI, que tenta afastar-se ..


,~

P:\RE~TE, que olha em volta. assustado


Estou perdido!
Para onde é que se pode escapar?

72 73

L'
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-;'"_ ...... __ .. __ ...
~ - ~- ~ --:- ~- ~ . . .-
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I
•• > ·'·',--·:;· -:i· .i

.;.'i
.:;
610
CLÍSTEl'--rs

Tu aí. onde é que vais? Espera lá! O que é que tens?


CLÍSTENES

Diz-me lá! Quem é o teu marido?


..:
.;
;

.=
PARE?'TE , que se afasta. seguido de Clistenes PAREKrE
••
••
Deixa-me Ir fazer chichi , Atrevido! 90 É o meu marido que queres saber ? É um fulano. tu 620
conhece-lo. um da freguesia de Cotócides? 91

Bem. vai li fazer. Fico aqui à espera.


CLisTE~ES

Um fulano? Qual ~
.'

••
CORO

Espera , espera e de olho bem aberto. É esta a única. meu


PAREXTE
É um fulano. que uma vez com outro fulano. filho de outro .-"

.:.:
e.
amigo, que nó" não conhecemo"
fulano .. .

CLÍSTE~ES
e-
CLÍSTEr-.·ES
615 Muito tempo demoras tu a fazer chichi.
Cheira-me a disparate ! Já cá tinhas vindo alguma vez antes ': e·
PAREl\TE

Li isso é, meu caro amigo, estou com retenção de urinas.


PARE~TE •e
É que ontem pus-me 3 comer agriões .
••
CLÍSTE~ES, agressivo, a empurrar o Parente CLÍSTE1'o"E5 ••
beira"
QUl: histórin ~ c... ":l de agriõc-.' E se III vicsvc-. aqui :1 minha r quem 0 a t ~1:1 companheira de tenda? C),'

•e ·
P.\RE:'-.JE
PARE~TE

É uma fulana que est á comigo... Ai que desgraça a minha ~ 625


••
Porque é que me empurras'? Não vês que estou doente?

74 75

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C LÍSTE1'\ES '~::~~ .;
PARENTE

Não dizes nada de jeito. o que é que hei-de fazer? 635


~

~ .:-
,
PRI~lI:IRA MULHER. que se dirige a Clistenes PRIMEIRA MULHER
~. J

.- Sai daí! Quem lhe vai fazer um interrogatório em forma, .Despe-o ! Não diz uma com pés c cabeça .
sobre as cerimônias do ano passado, sou eu! E tu sai da minha
beira para não ouvires, visto que és homem. 93 Tu. diz-me lá.
qual foi o primeiro ritual que nos mostraram? PARENTE

Então vocês vão despir assim uma mãe de nove filhos?


PARE~TE

630 Ora deixa cá ver então ... qual era o primeiro? Bebemos!
CLlsTE~ES

Desaperta esse corpete, depressa , descarado!


PRnlEIRA ?\'lULHER

E o segundo?
PRI~IElRA ?V1ULl-IER, que olha o Parente despido

PARE~TE Que mulher forte! Que atleta! Cararnba, mas não tem 640
Fizemos brindes . marninhas como nós!

PRI~IEIRA ~'IULI-IER PARENTE

Ouviste isso a alguém. E o terceiro? É que sou estéril, nunca estive grávida.

PARE~TE
PRIMEIRA MULHER
A Xenila pediu uma cscudcla : é que não havia.
Ai, agora}!' Ainda há pouco eras mãe de nove filhos.

PRI~IEIRA ~[CLHER
CLisTE~ES
Não dizes nada de jeito! Anda cá, anda cá, Clístenes!
É este o homem que dizes. Põe-te direito! Onde é que metes o leu membro ai em baixo?

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76
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""E rir_
~_~ ..'_•
. ...-......; .S .1'5

.'•••

PRIMEIRA MeUIER

Olha-o ali a espreitar!


coitadinho!
E- que linda cor que ele tem,
PRIMEIRA MüUIER

Bom, ,o que é que havemos de fazer: .••:


CLtSTfu'lB
CLlsTENES, ames de se retirar
••
••
645 Onde é que está'! Esse tipo, guardem-no bem, para de se não escapar daqui.
Pela minha parte vou comunicar tudo isto aos prítanes. 95

••
•.:
PRIMEIRA rVICLHER
.~
CORü
Escapou-se outra vez para a frente.
E nós, depois de uma destas, temos de acender já as tochas. 6"

,t ·- CLlSTE~E.s

Não está deste lado.


apertar as túnicas como deve ser, à homem, tirar o manto e
investigar se algum outro homem se terá cá metido 96, correr
a Pnix 97 de uma ponta à outra e revistar as tendas e os carni- ••e·
nhos. Vamos! Antes de mais, é preciso andar com pé ligeiro
e esquadrinhar tudo, em silêncio. O essencial é não per-
der tempo, porque o momento não é para hesitações. Que a
660
••
•e
PRnlElRA r-.:füLHER
primeira corra já a fazer a ronda! Vamos! Depressa! Segue
Cá está ele outra vez aqui . todas as pistas, rebusca tudo, a ver se não há outro, bem escon-
dido nestes lugares. Deita uma olhadela por todo o lado, e 665
vigia tudo bem vigiado, por dentro e por fora . Porque se alguém
••
.'
CL1STENES cometeu um sacrilégio sem eu saber, há-de sofrer o castigo, e
mais, há ser para os outros homens um exemplo do que
É um istmo que ai tens, homem. Andas com o teu membro. acontece aos atrevidos, aos injustos e impiedosos. Há -de dizer. 6iü
para cima e para baixo, mais vezes do que os Coríntios. 94 alto e bom som, que os deuses existem, há-de ensinar todos os
mortais a venerarem as divindades 98, a cumprirem, como deve
ser, as leis dos homens e dos deuses, preocupados em fazerem 675 ••

PRI~IElR.-\ ?\'!liLHER o
. ~ .... o bem. Se não agirem assim, já sabem: que todo aquele que
for apanhado a cometer impiedade, arda em delírio e se cnfu- 680

."
Ai o estafermo! Era então por isso que ele defendia Euri-

.:••
650 pides e nos insultava! reça de raiva, para fazer ver a todos , homens e mulheres. que

PARENTE
o deus castiga de imediato as ilegalidades e impiedades. Parece
que inspeccionámos tudo devidamente. Não vemos mais homem
nenhum entre nós.
6S5

.;
Ai que desgraça a minha! Em que sarilhos cu me vim meter!

•.;:
.•
7S .; 1)

-.
,; . ;~

I-
'l:..
• PRI ~IEIRA MULHER. ao Parente que tenta fugir CORO

I.• Ei! Para onde te vais sumir? Tu aí, tu, paras ou não
690 paras? Ai de mim, que desgraça! Que desgraça! Arran-
cou-me o meu bebé do peito e escapou-se.
Que mais se há-de dizer, quando o fulano tem o topete de
fazer uma destas?

PARENTE

••• PARE~TE, que se refugia no altar

Berra para aí! A este nunca lhe hás-de tu dar a papinha,


E ainda não acabei.

•• se me não libertarem. Mas aqui mesmo, em cima destas víti-


CORO

''..
mas. com um golpe desta faca, há-de encharcar de sangue o altar.
Mas, quando voltares para donde vieste, depois de te esca- 710
pares com toda a facilidade, não hás-de ir dizer que fizeste uma
PRl ~tEIRA MULHER
tratantada destas e que te puseste a mexer. Hás-de apanhar um

•• 695 Ai de mim! Que desgraça! Ó mulheres, vocês não me castigo.


acodem? Nem celebram a vitória em grandes gritos? O meu
único filho, deixam-mo roubar assim?

•• PARENTE

t•. 700
CORO

Ai! Ai! Ó poderosas Parcas 99, que novo horror é este


que vejo? Afinal tudo isto não passa de .ousadia e descara- CORO
Isso é que não, de maneira nenhuma! Livra!

'•
mento. Fazer-nos uma destas, amigas, uma' destas!
Mas qual, qual dos deuses imortais havia de tomar o teu 715
partido e aliar-se a uma injustiça dessas?
e
•• É assim que eu hei-de acabar com essas' vossas peneiras!
PARENTE, agarrado ao beb«

•• Perdem tempo com esse paleio, Esta é que eu não largo!

•,•!. 705
CORO

Não é isto uma desgraça terrível, ou uté mais do que isso?


CORO

:.i.
e
'je
PRnfEIRA MULHER

80
É terrível mesmo, ter-me roubado assim o meu bebê.
Pelas duas deusas. talvez dentro em pouco te não fiques a
rir com os teus insultos e blasfêmias. Às tuas impiedades 720
havemos de dar resposta. como é justo. Bem cedo a sorte se

6
81

__ .. _.' . • ".,_ " ",.. ',,:;"""'" ' .... . /" .... . iIJ.'", .•.,,:<!•. ,','ÜS\\,i\Ii';'.:':l'ii!imn:"""'·,')f;·!!('":il::&n.fili!Illll._itmmmr.J
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~,,,.'f!'#·*""""'J!;g_,b", ,·C'·,>',·""",.".''''" .:'' . . ' •.:


725 pode tornar adversa e mostrar outra face. E tu já devias ter
ido com estas mulheres apanhar lenha, para queimar este patife
PRI ~IEIRA MULHER ••
e o reduzir a cinzas o mais depressa possível. Homessa! Claro!
•••
PRI ~IEIRA M L'LHER

Vamos
mesmo .
à lenha. Mânia, H~i-de fazer-te em carvão hoje
PARENTE

De três quartilhos ou quê? ••


e
PARE:-:TE
PRIMEIRÀ MULHER

Que é que fizeste'? Despiste-mo, descarado. o meu bebê.


••
730 .Acende: Queima ~ E tu, toca a tirar essa roupa cretcnse IDO,
depressa. Pela tua morte, minha menina, acusa uma única
tão pequerruchinho ~ 745
••
.••:
mulher : a tua mãe. Mas que é isto? A miúda transformou-se
num odre cheio de vinho: c era isto que usava botas à persa 101 PARENTE
735 e tudo ! Ó mulheres danadas, perfeitas esponjas, capazes de
todas as engenhocas para emborcarem uma pinga! Sois a felici- Tão pequerruchinho? Pequeno, isso sim! Quantos anos
dade dos taberneiros, e a nossa desgraça, e a desgraça da casa tem ele? Três' côngios ou quatro?
e do tear .
PRIMEIRA MULHER ••
••
PRl!o{EIRA M VLHER À · volta disso, fora o tempo das Dionísias 103 para cá.
Põe muita lenha, Mânia. Vamos, dá-mo.

e

PARENTE

.'
PARE:-':TE

740 Põe mais! E tu, responde-me cá a uma coisa. Este aqui, Não, por Apolo aqui presente ~

••
dizes tu que o deste à luz?

PRIMElRA MULHER

PRnlEIRA M L"U-fER
Então vamos-te queimar.

••
E andei grávida. dez meses. 1O~

PARE:-:TE

Grávida? Tu?
PARENTE

Muito bem! Então queimem.


cortar as goelas e é para já .
Mas esta aqui , vou-lhe 750 .•:
82 83
••
. ::
I,!
- -- - · - .,. · _ u - ' _ . _

----
. : :\~

-•
e
e
PRHIElRA MULHER

Isso não, por favor! Faz de mim o que quiseres. mas


salva-a!
~
SEGUNDA MULHER

Ó Mica, desgraçadinha, quem te tirou a tua flor? 107


ó

Quem te roubou a tua rica filha?


760
,.. -.

•e PARE>iTE

Lá mãe dedicada és tu por natureza!


deixo de lhe cortar as goelas.
Mas nem por isso PRIMEIRA MULHER, que se prepara para sair

•• Este malandro! Enquanto aqui estás. guarda-o bem, para


eu ir buscar o Clístenes e dizer aos prítanes o que este tipo fez.


PRl~lElRA ML:LHER

-•-
!

!e
Ai de mim! A minha filha! Dá-me cá o vaso sagrado
755 Mãnia, para eu ao menos aparar o sangue da minha filha.
104.
PAREKTE

Vejamos, que trama hei-de arranjar para me tirar de apuros?


Que é que eu posso tentar? Que hei-de inventar: O culpado
disto tudo meteu-me neste sarilho e agora não aparece. Bem,
765

• Põe-no por baixo. Faço-te esse favor, mas só esse. 10~ que mensageiro hei-de fazer chegar até ele? Sei de um recurso,
tirado do Palamedes. lOS Faço como ele: escrevo nos remos 770

•I

ie PRB1EIRA ML1.HER, que vê o Parelite despej~r o odre no chão


c atiro-os ~ úgua. [t\tas aqui não l\i\ remos,1 Onde' 1,' que he i-de
ir arranjar uns remos? [Onde? Onde?) E se. em vez dos
remos, eu escrevesse nestas tabuinhas que aqui estão e as ati-

I. Raios te partam! És mesmo um invejoso, um malvado. rasse aos quatro ventos? É muito melhor. Pelo menos sempre
são de madeira , como de madeira eram também os remos.
775

-'.
:~
_. PARENTE

E apele, esta, é da sacerdotisa. 106


Ó minhas mãos, tendes de meter mãos à obra, nesta difícil tarefa ~
Vamos, tabuinhas de madeira polida, recebei os traços do esti-
lete, mensageiros da minha desgraça. Ai de mim ~ Este R
está complicado. Pronto, pronto! Que risco hei-de fazer
agora? Vão-se embora, espalhem-se por tod o" os lado s, por
780

•• SEGL:~DA ML1.HER

o que é da sacerdotisa?
ali, por aqui. Mas depressa!

e CORO
:e PARE~TE, que atira fora o odre Vimos agora aqui JUlHO de vó-, para dizer qualquer coisa 785
ie Isto. Torna!
em nosso abono. É que não hú quem não diga o pior possível

I. do sexo fraco: que somos a ruína completa dos homens. as

85

._.~. .;~ : .~ ' ~. :i;: '~~~\


~ . . ~ '.. .~ . ' . ... .-,.':..: ':,
• : '," .' I · . : : '. :.

. icSioicitÚniocl". ·~:4:it~.~iqÇ,;iGéa:in(':niNLwi& ;n.•L""~""7.c1 ' ~'l7~.t_ ·. ·J • . . . i. .. ~n:.KSi . ~~. ':~ '_. ;-J'7''i' ;-:-:{~~~5~J· ~ ~-.--- .
B •
~. .... - ..:...:...
-~ _ ~ -,'.

••.}
-
!'

790
culpadas de tudo, das discórdias, das questões, de divergências
terríveis, do sofrimento, da guerra.X Ora bem: se somos uma
peste, porque é que vocês se casam connosco, se de facto somos
mesmo uma peste'? Porque é que nos proíbem de sair, de pôr
estão, desapareceu de casa a travessa com a sua própria lança,
e muitos outros, nas suas campanhas, deixaram cair dos ombros
a sombri~ha. 116 Muitos defeitos poderíamos nós, mulheres.
com tod~ a razão, censurar aos homens, um então de categoria ,
825

830 .••:
o nariz de fora e em vez disso se empenham em guardar a peste Seria justo que, se uma de nós dá à luz um homem útil à cidade.
um taxiarco ou um estratcgo 117, recebesse uma homenagem, e
•e
.''..';.
" com tanto cuidado? Mal a pobre mulher sai. e vocês descobrem
que ela está fora de portas, ficam completamente doidos; quando lhe fosse dado um lugar .de honra 118 nas' Est énias e nos
deviam mas era fazer libações e esfregar as mãos de contentes Ciros 119 e em todos os outros festivais que nós realizamos. Pelo 835
i'!
por saberem que realmente a peste se tinha ido embora e já não ' co ntrári~, se uma mulher dá à luz um cobarde ou um criminoso .
" .:,
795 a encontrarem lá dentro. Se passamos a noite em casa de urna um trierarco 120 criminoso ou um mau piloto, devia sentar-se

.:••
~: atrás da outra, da que deu à luz o varão, com o cabelo cortado
amiga, cansadas de uma festa, não há quem não venha rondar
'fJl , os leitos, à procura dessa peste. Se nos debruçamos à janela. à tigela. Ó cidade, que é que iria parecer sentar-se a mãe SJ,O
lá andam vocês a tentar ver a peste: e se. por 'vergonha, nos de Hipérbole. vestida de branco e com os cabelos soltos, junto
< metemos pura dentro. ainda mais desejosos ficam todos de verem da de Lãmucc, e pôr-se a emprestar dinheiro a juros? 121 Se ela
emprestasse dinheiro a alguém e tirasse lucro, ninguém lhe devia
a peste debruçar-se outra vez. Em resumo: é evidente que nós
e\
.!•
800 somos muito melhores que vocês. E pede-se tirar a prova. dar esse lucro. mas pelo contrário, arrancar-lhe à força o dinheiro
Façamos a prova a ver quem são os piores. Nós dizemos que
são vocês, vocês dizem que somos nós. Ora consideremos c
e dizer-lhe: «..Aqui tens o fruto que mereces, já que produziste
semelhante fruto.» 122 845
e i

",;j
~ ...

ponhamos frente a frente , para os confrontarmos, o nome de


cada mulher e de cada homem. Carmino é inferior a Nau-

.'

~;. " .

~ " ~O5
t J
simaca. 10Q Isso é claro! E também Cleofonte, sem dúvida
f>ARE~TE
que é de longe pior do que Salabaco. 110 Desde há muito tempo
que a Aristórnaca, aquela de Maratona, e a Estratonica 111. Já estou vesgo, de tanto esperar! E ele, nada! Que é
nenhum de vocês se atreve a fazer frente. E Eubule? 11:2 Haverá que o terá impedido de vir? Não há dúvida, tem, vergonha . do e
810
algum dos membros do conselho do ano passado, dos que cede-
ram o lugar a outro, que seja melhor do que ela? Nem Ânito 11~
seria capaz de o afirmar. Em conclusão: bem nos podemos gabar
Pa/amedes, por ser frio. Mas então com que peça e que o hei-de
fazer vir? Já sei! Vou imitar a Helena que ele compôs há 850
pouco tempo. 123 Tanto mais que estou vestido com roupa
••
de sermos muito melhores que os homens. Não se encontra
uma só mulher que, depois de roubar cinquenta talentos do erário
públic?, se escape para a cidade num carro de cavalos. 114 Mas se
de mulher.
••
surripiou , pelo muito. um cesto de trig o ao marido. devolve-lho no
••
..:.;:
próprio dia . ( vir.u.do-sc para o público) Destes aqui presentes. SEGC~D .-\ ~1ClHER
SI5 quantos não poderíamos nós apontar que: fazem dessas coisas:

820
E mais, que nos ultrapassam em gulodice , rapinagcm, vigarice e
tráfico de escravos . Sem dúvida que também o património ', defen-
dcm-no pior do que nós. Cá pelo nosso lado. ainda vamos
conservando por enquanto o tear, a traves-a 115. os cestinhos .
Que é que tu estás para aí a engendrar outra vez? Po:-
que é que arregalas os olhos dessa maneira? Boa Helena vais
já tu ver. se não te portas em termos. até que apareça Um elos
prítanes.

a sombrinha . Mas a muitos dos nossos maridos. que aqui


---
R7
86
PARENTE, fazendo de Helena SEGU1'iDA MULHER

855 Estas são do Nilo as águas de belas Ninfas, do rio que, em Oxalá te tivesse acontecido ..o mesmo. a ti também!
vez da chuva divina, rega a planície do alvo Egipto para o povo
de caudas a arrastar. 124
PARENTE

Eu estou aqui; mas o meu infeliz esposo. Menelau, não


SEGUNDA MULHER chega mais. Qual a razão da minha vida?

Um trapaceiro é o que tu és. por Hécate luminosa! 1~


SEGUNDA MULHER

A culpa é dos corvos.


PARU':TE

860 Tenho por pátria um país não obscuro. Esparta. e o meu pai
PARENTE
é Tíndaro. 126
Mas há qualquer coisa que me faz palpitar o coração. Não
me iludas, Zeus, com esta nova esperança. 870
SEGUNDA MULHER

Com que então, patife, esse é que é o teu pai: Frinondas, EURÍPIDES. fazendo de Mcnclau
esse sim ~ 127
Quem é o senhor destas sólidas mansões? Oxalá acolha os
hóspedes extenuados do mar salgado. no meio da tempestade
PARENTE
c do naufrágio.

Helena foi meu nome.


PARENTE

É Proteu 129 o senhor deste palácio.


SEGUNDA MULHER

Já te estás a fazer passar outra vez por mulher, ainda antes SEGUNDA MCLHER
de receberes o castigo do teu disfarce de há bocado? .
Que Proteu, ódesgraçado"! Ele é um mentiroso. pelas 87~
duas deusas! Proteu já morreu há dez anos.
PARENTE

EURÍPIDES
865 Muitas almas, por minha causa, pereceram nas margens do
Escarnandro, 128 Que país é este. a que aportárnos no nosso navio'?
í
88 i ~

.... ).."-'&.RIU "'.r.g.............,.,._'"•• ~ ' ' ' ~ ', ' .'N.' X;~: oX' i'Sl. '(~f~--~~~~~~ - ~.,:.':<:"'C,-,:v,.~·«lI
... p'''.'''n.. . _ _....... .• _ _mlII. •
2I1J& . . .
I
4 ·A$,:.:.?:?E....);.• 4f4J .}§(;".... ~':f?1'SO·~·:~':':±:1! i.J;q@ ti


PARE='U SEGUNDA MULHER
.'
-e ·1i
e
Raios te partam! - c hão-de partir ~
••
••
o Egipto.

Atreveres-te a chamar
túmulo ao altar! ...

ECRÍPIDF.S

Que desgraça ~ Onde nós viemos ter ~


EuRÍPJDES

Mas porque. é que te sentas nestes lugares sepulcrais. coberta


de véus., estrangeira?
8~0 .•: .,1 ~

--~
•.,
PARE~tE

880 Tu acreditas numa só palavra das patetices que este raio

.:•
Sou forçada a partilhar o leito com o filho de Protcu, como
deste homem - raios o partam! -- te impinge? É o Tesmo- sua esposa. .~:
rl'rior. isto aqui .
!
I

SEGUNDA Mut.ass
El'Rif'IDES
O quê, desgraçado'! Continuas a enganar este estrangeiro:
E Protcu, está lá dentro ou ausente? Este malvado. estrangeiro. meteu-se cá. para roubar o ouro :'1" .~
··· mu lhe rc~ ..

SEGl;-:DA ~fL'LHER
...
e~

•e
PARE~TE

Deves estar ainda muito enjoado, estrangeiro! Depois de Podes rosnar à vontade e cobrir-me de injúrias. 895
ouvires dizer que Proteu morreu. ainda perguntas: «Está lá dentro
ou ausente":
EURÍPIDES
••
S8~
EL'RiplDE~

v : ,
E~t.í. morto ~ Onde é que foi sepultado?
Estrangeira. quem é esta velha que está aqui

PARE~TE
J insultar-te:

•e
••
....1 .

Esta: É Tc ónoc 130, filha' de Proteu.

PARE~TF.

E aqui mesmo o seu túmulo. é sobre ele que estamos


SEGU='DA MULHER
••
sentados . Pelas duas deusas. sou Critila, filha de An titco. da freguesia
de Gargeto 131. nem mais! E tu és um aldrabão. '
..'
.:.'
_.~
90 91
.~. . .
,.~~~

:.-
:.
";r-< ..

:~ :1
PARENTE

e PARENTE
E eu em ti o de Menelau, aquele... da alfazema. 13: 910

.
• ~
900 Podes dizer tudo o que quiseres. . Não me caso com o teu
irmão. não hei-de trair Menelau. o meu esposo que está em Tróia .

•e
EUR1PlDES

Reconheceste bem um homem profundamente infeliz. ' -,:: ~


EURÍPIDES

e Mulher, que disseste? Vira para mim os teus olhos brilhantes.


-•
PARESTE

Oh! Quanto tardaste a vir para os braços da tua esposa.


PARE:\TE toma-me, toma-me, marido, envolve-me nos teus braços. Vamos,
quero beijar-te. Não percas tempo, toma-me e leva-me. leva-me. 915
Sinto vergonha. diante de ti. porque me lançaram em rosto
e leva-me, leva-me!l!


um ultraje.

:-.
'e
905
EURÍPIDES

Mas o que se passa? Faltam-me as palavras.


que é que eu estou 'a ver? Quem és tu. mulher?
Ó deuses.
SEGt;"NDA Ml'LHER

Há-de gemer quem te levar, olá se há-de!


a tocha em cima.
Prego-lhe com

:- e
'.
EUR!PIDES
PARE;-;TE
Tu queres impedir-me de levar a minha mulher, a filha de
E tu, quem és? É essa também a minha pergunta. Tindaro, para Esparta?

:e
-
~.
e
e-
EURÍPIDES

És grega ou és uma mulher deste país:

PARENTE
SEGUNDA ~lL'LHER

Ai que me estás a parecer jambérn um trapaceiro, feito 920


com esse fulano! Por alguma razão é que, há já urna data de
tempo, vocês estão para aí a falar do Egipto. Mas este tipo

:e Sou grega. Mas quero saber ,também quem tu é!'.


vai apanhar um castigo. Já lá vêm o pritane c: o guarda .

e
e ElJRÍPlDES
EL'RÍPIDES

e Que sarilho este ! Tenho mas é de me raspar.

••
~.e 92
Vejo em ti o retrato de Helena. mulher.
93

'e
~-
,j~,:.: .;':..' : ~' "
.~á~:·Ú{;::: ';: ;', ; :.. -- .... , ~"".~ •. ~-----,-.--------,--.- ---
-:-
- .... ....-......~
e_:
P.-\.R.f.STE
PARENTE
e :':
925 E eu, desgraçado de mim. o que hei-de fazer? ..
como
. Dá ordem ao guarda til'"
~ .
.
a canga,' para cu, com c~ta I,' ",/, d",p'11 todo
IIdl rI 111. r :-
souvnao fazer rir 11', " .
1
antes de me amarrar 940
,:t ruo e este turbante, velho
.-
eJ . ;)

.'

. ' " li,. II .
, quem vou servir de almoço.
EcRÍP lDES, que Si! escapu

fica tranquilo. Não te abandonarei nunca , enquanto · P RiTANE


tiver um sopro de vida. a não ser que me faltem os meus mil ~
' Foi com essa w~tllll"liI ., '11/' e.·
um artifícios.
fosses amarrado: para '11'" 'li,. 'I conselho decidiu que tu e
.,
e1
que tu és. . l';,:::;c fique a saber o patife
1/1

e'i
Saiu-me o negócio furado! 133

:, ' Ai Ai! Ai! I111 li' .. -i.


-1
•e
ó
PRÍTASl
meteste., . E nao
- VCJll
' . all\lLt
. ' : I',.d r;l ()
, .. J.i. ,,,,; ;,
.
em que snrílho me 945
930 É este o patife de que nos falava Clístenes? Tu ai, porque ';spcrança de me safar. 134
j
é que baixas a cabeça? Leva-o lá para dentro, guarda, e amarra-o
à canga: depois põe-no aqui e vigia-o, não deixes que ninguém
se aproxime dele. Usa mesmo o chicote. rapaz. se alguém se
aproximar.
CORO

Vamos, é a hora da ;/ j ' ~I ••• • , •


mulheres, quando l:eh:I>I ;I/J." -, ~· "11', e da praxe aqui entre us
••
. e·
duas deusas, nos dias ~:I"t ;1.". " "".. / ' ,,1'>

••
"
orgias, cru honra das
SEGUSDA MULHER
e faz jejum, e muitas Vt::,,~ ,~~. I -l/:.bém Páuson 1J5 as venera
connosco, que ano aplJ~ a~j' ....':,1,.,. :" duas deusas, juntamente 950
, .04. ',' •. ,. I r
935 Sim, cararnba, porque mesmo agora um SUJeito, um tra- ' . Vamos, avanccm 1.:0111 l": ~ ; -' ""1 (C( icar a estes ritos.
paceiro qualquer. por pouco se me safava com ele. ). li', t.,(." d d'
marquem todas o ritn«. '; ;1 ,. . . ... 111 ro a, cem as mãos, 955
f'
e
passo leve. É preciso qw' '. :;"·:".~::%rada. !)(j Avancem com .~

'.-
drinhe com os olhos. ., , ;'.: :na(b a roda, tudo esqua-
PARISTE ~'
Ao mesmo tempo Clt :','.: :. , ' .
a raça dos deuses olllllp ;,." , , . ,~ ' i: "' :1 1 toda,;, COIll a vossa voz. 960
Ó prítane, pela tua mão direita, que bem gostas de estender
está à espera de que cu . 1,<,:':.::"," ': .'%".::1"" .<.I anç a. E se alguém
aberta a quem te dá dinheiro , faz-me um favorzinho, mesmo que
neste recinto sagrado, Cl1i~:: :.; ; ' .' . •. .s : ~ "; 1 d.llcr .mal dos homens 965
eu tenha de morrer.
já, antes de mais, fOrJlI;1/ , ., ~ i' ( CC I ~o . e um dever, desde e·

»Ó,
, ': : - ÓÓ,

Avancem entoando os '(",. :,':: :," ;.:/. %:;H.jO :iO de dança de roda.
PRirAsE
Que favorzinho'?
lira, e . de Ártcmis, Pl)fl :':':;'~;' '~,~ " ." . "':n honra du deus de bela
6 deus que atira ao IUII''': ~ . . ...1, . a deusa casta. Salve. 970
~- '/"" ,'.:'-. " .!.': a vit óri.r. E Hera, pro- •••
94
95
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e:J .~

.. _ ".11 . . . •• ~
c .~

r""" "" ~

õ.
. ~.

••
tectcra das núpcias, havemos de celebrá-la como é devido, ela PARENTE
975 que participa em todas as danças e guarda as chaves do casa-

-
mento. Suplico a Hermes, senhor dos pastores, a Pã e às Ninfas Ai. que desgraça a minha! Ainda a enterras mais.
veneradas, que nos sorriam com benevolência e se alegrem com
980 as nossas danças. Iniciem agora, com entusiasmo, o passo
~. dobrado, o encanto desta dança. Haja alegria. mulheres, como GUARDA

•• 985
é de regra. Estamos em jejum absoluto.
Vamos, saltem, rodop iem com passo ritmado. Cantem com voz
bem cheia. Conduz-nos tu, Baco, senhor coroado de heras. E eu
Tu querer rnai ainda? 1005

•• 990 te hei-de celebrar com cortejos dançantes. E tu , Dioniso Brómio.


filho de Zeus e de Sé mele, que corres pelas montanhas, alegre com
PARENTE

.' os doces hinos das Ninfas - evoé! evoé! evoé ! - e toda a noite Ai, ai ~ A i, ai ~ Um raio que t e í-' ~l r u ~

995 prossegues na dança. 137 Ao redor ressoa a voz do Citéron 138.

:.
'.•• ecoam as montanhas de folhagem negra e os vales rochosos.
1000 Ao envolver-te. a hera de bela folhagem. entrelaçada, floresce. GUARDA. que roi lá dentro em

Cala-te. velho maldito!


bUSCLl de uma est eira

Bam05. cu ir trazer esteira para

-• ~.
GCARD A, ele regresso com o Parente amarrado à canga

Aqui agora tu poder gritar prós céus! 139


guardar tu .

PARI:Sn

.''.ie
PARE~TE

Ó guarda, por favor ...


Oru aqui está a nca ajuda qUI: me deu 1.,1 l.uripidc, ~ El!
Ó deuses, ó Zcus salvador, há uma esperança. Parece que o
tipo não me vai abandonar; deu-me sinal, ao aparecer no papel
de Perseu, de que tenho de me transformar em Andrômeda.
Pelo menos, preso com cadeias estou cu. Uma coisa é certa:
1010

••• Tu não pedir favores a mim.


vem para me salvar. Senão não voava para aqui. 140
(No papel de Andrámeda) Queridas donzelas, minhas amigas 1.H,
como hei-de escapar, às escondidas , do Cita? Ouves-me, tu que
nos antros ecoas as minhas palavras? Dá-me o teu consenti-
1015

1020

••
mento, deixa-me ir ter com a minha mulher. Implacável é o
PARE~TE homem que me acorrentou, a mim. o mais infeliz dos mortais .

•• ,..alarga a cavilha. Com que custo escapei a essa velha caruncho sa! E hei-de mor -
rer mesmo assim?!! E esse guarda cita. aí especado há que
tempos, foi ele que me pendurou, infeliz. sem amigos, para servir
1025

•• GUARDA

É mesmo isso que eu fazer!


de jantar ~os corvos. Estás a ver. não estou aqui para tomar
parte nas danças nem para levar a urna de sufrágio, com jovens
da minha idade. Estou presa por cadeias apertadas c exposta .
1030

•• 96

'•.
. . .~
97
7

~. , ~4°t;;
~"': :. : ,~
,..'
..
'lfà~Jt:tA
~" .
.in...! ; ~.
o" 4. . ~ ,i Üf.SW..t2msZ.t.•,J JtZ·ltilOt.u .iliJ ..:i:: Ji.• EilWU::.nu:iu'lC "..,S.C ..L .nwwl,,:!a:It"1 :a:'L=.. ~-S~wn;r~·
como alimento. ao monstro Gláucetes. Lamentai a minha PARE~TE
1035 sorte, não com um péan 142 nupcial, mas de cativeiro, mulheres,
porque. infeliz. sofri a infelicidade - ai que desgraça! que Ó noit~ "divina, como corres na tua longa cavalgada, condu- 1065
desgraça! -, as dores criminosas impostas pelos parentes. A um rindo o seu carro pela abóbada estrelada do éter sazrado. atra-
mortal agora dirijo as minhas súplicas, inflamada num laÍn~nto vés do venerando Olimpo! ...
1040 plangente, fúnebre - ai. ai! ai. ai! -, esse homem que primeiro
me depilou. esse que me enfiou esta túnica amarela. Depois
1045 enviou-me para este lugar sagrado. onde estão as mulheres.
Ah! O espírito inflexível do meu destino! Ó maldito que eu Do Olimpo,
sou! Quem, perante tais desgraças. não lançará um olhar para
o meu sofrimento indesejável? Que ao menos o astro do céu, PARE~n
1050 portador do fogo. me an iquilasse na minha infelicidade. Já não
me é grato olhar a luz imortal , aqui suspenso. atenazado de dores Porque havia de ser a mim. Andrômeda, a caber em sorte
1055 que me cortam a garganta. em curso veloz para a terra dos mortos. esta desg~~ça suprema? 10iO

EURÍPIDES. fazendo de Eco 143 EcRÍPIDEs

Caber em sorte esta desgraça suprema '?


Salve, querida donzela! O teu pai Cefeu, que te expôs assim,
que os deuses o exterminem ~
P.-\RESTE

PARENTE Da morte, infeliz.


Quem és tu que te apiedaste do meu sofrimento?
EURÍPIDES

EURíPIDES Da morte, infeliz .".


Sou Eco. Repito. em tom de mofa, tudo o que ouço, e,
\060 110 ano passado. fui eu que, neste mesmo lugar, me bati por P.o\.RESTE
Eurípides no concurso. 144 Vamos. filha, tens de fazer o teu
papel. chora de modo lamentoso. Acabas comigo, ó velha, com essa arenga toda.

PARES!" !.' EtTRÍPIDES

E tu repetes o meu choro depois. "Com essa arenga toda .

EURíPIDES PARE~TE

Eu trato disso. Vamos. começa tu. Poça, que aborrecida, sempre a interromper ! 1075

98 99
!~ .".-.: ' ,.0
. ... .,.
e
••
•• EURíPIDES

É demais!
EURÍPIDES

Lamenta-te!

•• PARENTE

Meu caro amigo, deixa-me dizer a minha monódia, é um


PARDolE

•• favor que me fazes. Acaba com isso!


Geme !

•• EURÍPIDES

Acaba com isso!


EURÍPIDES

Geme!

•• PARENTE

-
GUARDA
Vai-te enforcar!
Tu. aí ! Que paleio é esse?

•• EURlpIDES

Vai-te enforcar! EURÍPIDE.5

•• PARENTE
Tu. ai! Que paleio é esse?


-
1080 Que tens?
GUARDA

Eu chamar os pritanes.
EURfl'IDES

'e Que tens?

•• PARENTE
EURÍPIDES

Eu chamar os pritanes.

•• Só dizes disparates!

GCARDA

••
EURtFIDES
Quem te fez mal ':' \085
Só dizes disparates!

e PARE xr E

••
EURÍPIDE.5

Lamenta-te! Quem te fez mal '?

•• 100 101


......
''
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•••
~ --- ~. '.- -

GL'.\RDA GUARDA
•. >:
Donde he-m esta boz ? · '1'
.1
Onde está essa malbada ','
ei
E L·p.i?IDE~ PARENTE

Donde bem esta boz ? Vai ali a fugir.


••
É, tu que falas ? . Para onde tu ruges? Para onde? ••
~: .
EURÍPIDES

Para onde tu fuges? Para onde? .'



.~
e!
" Não bais ficar a rir ~ ••
EURÍPIDES

Não bais ficar a rir ~


••
G:.:.-\RDA GUARDA 1095
••
El'RipIDES
Tu gozar comigo: Ainda rosnas?
••
••
Et:RÍPIDES

T..
••
O'

Ainda rosnas ':'

..,;
••
GliARD\

1090 Eu !1J.0. ('l1J breca, é esta mulher aqui ao lado ~ Agarra a malbada '

El·RipID::S. que st' prepara para escapar

102
Aqui ao lado!
EURÍPIDES

Agarra a malbada ~

103
.'
•.!
er
.1
,.,
-••
i.;'..
I

I.
G UARDA

Raio de mulhé. tagarelo. maldito!

EVRÍPIDE.'i , fazendo de Perseu


..~~ . ',:
GUARDA

Nem um pio. tu!


bais morrer?
Maldito. atrever-te a piar agora que

••
EURÍPIDES

Ó deuses. a que terra bárbara cheguei eu, com as minhas Ó donzela . sinto piedade ao ver-te aí suspensa . 111:0
sandálias velozes? Através do éter, encurtando caminho, aqui

•• 1100 pouso o meu pé alado, eu, Perseu, que viajo rumo a Argos,
portador da cabeça da Górgona . 145 GUARDA

Não. donzela não. velho aldrabice. ladrão. trafulha

•• G L'ARD A
EURÍPIDES

• Que ele diz'? D6 Gorgo. do escriva. tu lebar a caveca'?


Que disparate. Cita! Ela é Andr órneda. a filha de Ccfcu.

ie -- E URÍPIDES

.-

••
Da Górgona, pois. foi o que eu disse ~

G UARD A

Pois do Gorgo, também foi o que eu diz!


GUARDA,

EURíPIDES,
levantando a veste ao Parente

que se aproxima do Parente (' lhe estende a mão

•• ECRÍPIDES
Dá-me a tua mão, donzela, deixa-me apertá-la . Vamos, 1115
Cita! Fraquezas. todos os homens as têm. A minha é estar

••
apaixonado por esta jovem.
1105 Oh! q ue penedo é este que vejo? E esta donzela. seme- '...."

lhante às deusas . amarrad a qual navio ao porto?

••
GUARDA

Não invejar tu! Se ele virasse o rabo para aqui. não tenho
P:\RE:\TE dúbidas tu fazer amor com ele. 1120

• e
Ó estrangeiro, tem piedade de mim, da minha desgraça!
Liberta-me destas cadeias. EURíPIDES

•i_
-
Porque não me deixas libertá-Ia, Cita , para me deitar com
ela no leito nupcial?

104 105

~
•••
••
.:

...
~:
GUARDA GUARDA

Se tu quer mesmo fazer amor com o velho. tu fura a tábua Tu ainda querer apanhar com o chicote: 1135
por trás e faz amor .

:; .f CoRO -
••
_.
.'
••
EURÍPIDES
'

i·'t'f~~'f''r
1125 Raios! Hei-de libertá-la das cadeias. É Palas. amante dos coros, que aqui costumo invocar para a
dança, a :donzela liberta dojugo, senhora da nossa cidade, a 1140

'..'_!:
GUARDA. ameaçador '. 'ii , ',' 'ú clcá' dé inegável poder, a. quem chamam 'guardiã das chaves'.
Aparece, tu que odeias os tiranos, como é de justiça. Invoca-te 114~
e;
a multidão das mulheres. Que venhas e nos tragas a paz amiga
E u dar-te com o chicote . das festas. Vinde, ó deusas, benévolas, propícias, para este
bosque que é .vosso, para mostrar, à luz das tochas, os ritos

EURÍPIDES, decidido

Mesmo assim. é o que vou fazer.


sagrados das duas deusas, que aos homens é vedado contemplar.
visão imortal. Vinde, aproximai-vos. nós vo-lo suplicamos .
,,'ó ião -veneradas Tesmofórias. ' Se já antes acorrestes ao nosso
apelo, vinde também agora. nós vos suplicamos. aqui. até junto
de nó,..
1150

1155
.:.:
e;
,. ;

GUARDA
••
••
;1
Esse caveça, eu cstoirar-te com ele. com este espada ' aqui . EFRÍPIDE5. de volta
Mulheres, se quiserem, daqui para o futuro, fazer as pazes 1160
EuRipIDES. que se afasta pensativo

~i, ai! Que hei-de fazer? Que argumentos hei-de arranjar?


~
;

L
comigo, é agora a: ocasião. E doravante nunca mais me hão-de
ouvir dizer mal de vocês. São estas as minhas condições. ••••
t"
1130 É que os não aceita uma natureza bárbara como esta! A brutos

••
, I

aprçs~ntar teorias novas, é tempo perdido. Tem de se arranjar \ CORO


outra estratégia mais conveniente para ele. , Que necessidade tens tu de vires agora com essa proposta?

G~ARD:\ ••
.:
EURÍPIDES
Raposa 111;1I\·Jcb. aarmar-se em macaco !J ó comigo! Esse tipo que está aí preso na canga é meu parente. Se cu 11 0~

.'.,
.',
o recuperar, nunca mais me hão-de ouvir dizer mal de ~oc~s.
Mas se não chegarem a acordo comigo, todas aquelas patifarias
PAdl;:~'T.!::
.. { que vocês agora fazem às escondidas dos vossos maridos, hei-dc-
Lembra-te de mim. Pcrscu, que aqui deixas entregue à desgraça. -lhas contar. quando voltarem da tropa .
\ '
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rr.
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''.. 1170
CORO

Cá por nós, podes ter a certeza, concordamos com tudo.


;\'1as esse bárbaro. trata tu de o convenceres.
EURíPIDES, ao f/autista

Tu, toca depressa ~ Ainda tens medo do Cita?


"'-"

•• E CRÍPID ES, acompanhado de uma bailarina e de um flautista


GUARDA

Linda rabinho! Raios te partam , se não ficas lá dentro!

•• Eu trato disso. E tu, minha bichinha, não te esqueças de !


fazer aquilo que te disse pelo caminho. Primeiro, passa para
Bom, . coisa linda esta pilinha ~

••
1175 ali. com leveza. E tu. Terédon. toca aí uma pérsica. 147
EURíPIDES, à bailarina

Está bem. Pega na roupa. Já é altura de nos irmos embora. 1190


:'.•
GUARDA

Que barulha é esta? Uma tropa fandanga 148 me vir acordar? -· ·o,!

GUARDA

Tu não dar beijo a eu primeiro?

:i'..
EURÍPIDES , fazendo de velha

A garota vai ensaiar. guarda. É que ela tem de dançar ai EURípIDES .,


para uns tipos.

'.••
Claro! Dá-lhe um beijo.

GUARDA, que aprecia a bailarina a dançar


GUARDA
1180 Dançar. ensaiar. eu não empatar. É lebe como uma pena . 1019
Ai, ai, ai! Que doce o teu língua! Nem mel da Ática. Por-

••
• '1
que não vens para a cama conugo :
EL'RÍPIDES

•• Vamos, filhinha, tira-me essa roupa! Senta-te nos )oelhos


do Cita e di cá os pés para eu te descalçar.
EURÍPIDES

Adeus, guar da. 1"'......' ' 0 e' que não pode ser.

e
,e
• 1185
GCARDA

Sim, senta, senta, sim, sim, filhinha. Ui, que peitinho


GUARDA

:.•• ·
Sirn, .
sim, velhinha, fazer-me esse Iaborzinho tu. 1195
duro. corno um nabo .

108
109


~.
_U_;
,: " . ,1'·

.~

EURÍPIDES PARENTE -'••


e\
E tu dás-me uma dracma '?
j
Disso .trato eu, se me vejo à solta de uma vez por todas.


.~
GU.-\.RDA EURíPIDES

••
.i
Sim, Sim. eu dar. És livre! Agora é contigo . Escapa-te antes que o guarda

EtJRÍPIDES
volte e te .apanhe.

PARENTI, que sai a corra



.,;
Então passa para cj li rnassinha .
É isso mesmo que vou t~lzer. ·
••
GUARDA

Eu não ter. \la~ pega lú o aljavo. Depois dar-te outra


GUARDA, que volta com a bailarina
,
.•:
vez. Barnos lá. filhinha. E tu, vigia aqui esta homem, velhinha.
1200 Como é que te chamas?
Ó velhinha, que mocinha maravilhosa tu ter, arisca não, 1210
muito amável. Onde está o velhinha? Ai de mim! Estar
perdido! Onde estar a velho que estava aqui? Ó velhinha.
ó '::'-yelÍia !: Isto nao está · bem; velhinha. Artamúxia ! Pre-
gou-ma, a velha. Desaparece daqui, -tu, depressa! Por isso
.-
.:
e:-

."
EURípIDES
tu seraljavo, porque fazer amor comigo, IS\ Ai de mim! Que 1215
Arternísia . lSl.'


fazer? Onde se raspar ovelhinha? Artarnúxia!

GUARDA

Lembrar-me bem do nome : Artarnúxia .


CORO

É a velha que procuras, aquela que levava a harpa'!



.-
.~

EURíPiDES. que despede oflautista, para de seguida libertar o Parente GUARD."


••
Ó Hermes, manhoso, por enquanto estás-te a sair desta às
mil maravilhas. E tu, meu menino, põe-te a ,mexer e leva isso.
Sim, sim. Tu Viste-o'!
••
1205 Eu vou soltar este fulano. E tu, mal te apanhes solto, raspa-te
o mais depressa possível, sem hesitações, e desanda para casa,
para junto da tua mulher e dos teus filhos.
CORO
Foi por aqui que ela se safou, ela e um velho que ia com ela.
••
•.•;
'. o'

.J
110 111

,]

í' .. : '
GUARDA

1220 Uma velha com uma túnica amarela?

CORO

Isso mesmo. Ainda os agarras se meteres por aqui.

GUARDA, correndo em rodos os sentidos

Ó maldi to velha! Por que caminha eu ir'? Artamúxia !

CORO

Mele por aí acima. Onde é que tu vais'? Não metes outra NOTAS
vez por aí, pois não? Assim vais pelo lado contrário.

GUARDA

1225 Que desgraça! Mas eu correr. Artam úxia l

CORO

Corre mas é para um raio que te parta e bons ventos te


levem! Quanto a nós, já nos divertimos que chegue. É altura
1230 de ir cada uma para sua casa. E que as Tesmofórias nos recom-
pense~ com as suas boas graças .

112
8

_Q hU4 4&&J ..&.. _ . =-ZZ:=, bLl', P .' " .t •.JA.iU&UL .


.:.-
.1
~

."••.:
••
A invocação do Parente a Zeus traduz o cansaço provocado por
toda aquela caminhada; e para inquirir sobre o momento em que verá o fim
dos seus males, o velho pergunta: «será que algum dia as andorinhas acabarão
por chegar?», A andorinha é o símbolo da primavera, que anuncia o fim
dos dias negros do inverno.
.: •••
2 O grego diz literalmente «antes que lance fora completamente a
bílis». A expressão aplica-se a quem se sente oprimido por grande cansaço.

3 No diálogo que vai seguir-se é parodiada a sofística, personalizada


•.;ei
em Euripides.. As subtilezas retóricas do trágico merecem a Aristófanes
';':larga par,ódia em Rãs, de que os vv. 775sq.,818-82I, 971-974 são talvez alguns
dos passos mais significativos.
••
•.:
.. O Éter é citado várias vezes na obra de Eurípides (cf., e.g., Hipp. 178,
Oro 1087) e a sua importância no pensamento cosmogónico do trágico justifica
as várias alusões que lhe são feitas na comédia: cf. v. 272, Ra. 100. Sobre
a concepção de a1Orí!2 em Eurípides, cf. P. DÉCHARME, Euripide et I'esprit de

.'••
son théâtre, Paris, 1893, 83sqq.

. 5 Cf. Ra. 871sqq., em que, na presença de Dioniso, Ésquilo e Eurípides


fazem idênticos sacrifícios, antes de se dar início ao certame literário,

Cf. Introdução, p. 25. ••


7 . A acção da comédia decorre na época de Outubro-Novembro. altura
em que se realizava o festival das Tesmofórias (cf. infra nota 9).
••
••
11 O tom trágico desta frase adapta-se ao teor da revelação que Euri-
pides está a fazer ao Parente: é agora a vida do poeta que depende de uma
decisão que será tomada naquele mesmo dia, como uma personagem trágica
cuja existência está sujeita aos percalços do destino: cf. Hipp. 369, Hec, 285,
H. F. 510. Cf. J. DE RO~lILL '1', Le temps dans la tragédie grecque, Paris, 197I,
106-109.
9 As Tesrnofórias eram um festival religioso, realizado com a par.
••
ticípação exclusiva de mulheres, em honra de Perséfone e Dernéter. Nurne-

115
••
••
.~ "o

', '.".-r'. " ~,,

•• t "

•• rosas são em TIz. as invocações às duas deusas (cf., e.g., vv , 3ll3, 897, 916).
Este elemento, associado à época em que se realizava o festival, Outubro-
•Novembro, aponta para lima relação evidente com a fertilidade do solo
sença do público.
s
Tal é o caso da exibição de Ágaton na intimidade da
ua casa. Para ser possível a apresentação desta cena, o autor tem de recorrer
• .
ao lxxvxi.TjJLa para trazer e levar Agaton (vv, 96 e 265. respectivamente .
)

•• e com as sementeiras. O festival tinha raízes fundas no tempo e propa-


gou-se por toda a Grécia; parece revestir, no entanto, durante o longo período
em que foi anualmente celebrado, um carácter nitidamente conservador.
Comentando este passo em confronto com a cena de Acarnenses (vv. 407 sqq.) ,
em que é Eurípides a ser trazido a público pelo mesmo sistema , A. W. PtO~ÀRD­
.CAMDRIOGE (Tire theatre of Dionysus in Athens, Oxford, 1956, 101 sqq.)

••
Desenrolava-se durante três dias, designados por: KáOodoç xai "Avodo; afirma que, para qualquer uma das duas peças, seria sUfi~ie~te. u~ leito,
. Descida e Sub ida', X/icuía 'Jejum' e KaJ.i.Li'ÚELa 'Bom nascimento'. A desig- dispensando-se uma plataforma rolante. Uma segunda COlOclde.n~la entre
nação que coube a este fest ival, bem como o epíteto que Deméter usava essas duas cenas está em que, em ambos os casos, é um poeta tragico a ser.
de Tesmófora, estão sujeitos a várias interpretações na explicação do transportado no ixxvxi.1J/-la. Nota C. F. Russo (Arlstofane auto:c. dI

e seu significado : se entendermos OEa/LÓ; como 'lei, princípio estabelecido', teatro Firenze, 1962. 95-96) que não será por acaso que, nas duas uDl~as
cenas'em que é certo Aristófanes ter usado o Êxxt :xi.r;.ua, esteja envolvl~O

••
então Dernéter será a deusa que 'deu uma lei ' aos homens, segundo a qual
lhes cabia, à força de trabalho, arrancar da terra o seu sustento, e a desig- Eurípides, que deve ter usado largamente este tipo de _engenhos teatrais.
nação de Tesmof órias corresponderia ao festival realizado em homenagem Para esclarecimento mais profundo do problema. ct . A. W. PICKARO-
à deusa. Mas é igualmente possível relacionar Otajlóç com o verbo TlOrUIt: op. cit.. 100 sqq.

••
-CAMBRIOGE.
segundo esta interpretação, OEalLOi seriam 'as coisas acumuladas, enter-
radas', que eram transportadas (-9'0(20;) durante o festival. E assim o epí-
12 Cirene era uma famosa cortesã, também citada em Ra . 13~8, que
teto da deusa prov iria deste ritual. Embora os pormenores que compunham
Ágaton faz lembrar pela postura e trajas.

••
o cerim onial religioso sejam difíceis de reconst ituir, dado o sigilo que os
envolvia (cf. Th, 363-364 e 627-628), sabemos, no entanto, que as mulheres
depunham, em covas ou IlÉi'aQa, carne de porco, em homenagem aos animais 13 A expressão 'carreiros de formigas' alude a um canto .subtil e sinuoso,

de Eubuleu, engolidos pela temi juntamente com Perséfone, e depois a reti- sendo o seu valor pejorativo acentuado pelo predicado ·p~gantear'. De rest~.

•• ravam, já apodrecida; para a deporem em altares como elemento de fer-


tilidade. Parece ser este o ritual executado no primeiro dia da festa, desig-
nado precisamente por 'Descida c Subida'. No segundo, enquanto as
a imagem aqui usada não era já original. Ferécrates servira-se dela a propo-
sito da música de Timóteo (fr.145. 23K); Suda (s. v.) inform~ também que ·
Pllóxcno de Citcru recebera, pela !iiIlUllsil!aJe Jâ~ ~tlà~ ",c1\.'\llâ ~, il .\kunha

•• mulheres observavam um jejum absoluto, honrando a desolação de Dernéter


pelo rapto da filha, a carne sagrada estaria exposta, juntamente com grãos,
de 'formiga'.

'.
sobre os altares, para no terceiro ser espalhada pelos campos, como garantia 14 A respeito da natureza deste coro e da forma dramática que ~e·vestiu
de fertilidade. em As mulheres que celebram as Tesmofôrias, cí, ~tl'ECKE ('Thc arnst as a
A projecção do festival era tal que, no segundo dia das Tesrnofórias, , CQ 3' 198" 47) que após sumariar várias interpreta-
young '...· oman, -, ~' . ' . . . .,
nem os tribunais nem o Conselho funcionavam (cf. vv, 78-80). ções, opta pela teoria de que a Agaton cabiam, na comédia, os do~s papeis.
e Para uma informação mais precisa sobre o assunto, vide J. E. HARRlSON, Também DEARDE~ (Tlze stage of Aristophanes. London, 1976, .8 s~.~. e

•• Prolegomena lo lhe study of Greek religion, Cambridge, 1908, 120 sqq.; M .


NILSSOS . Greek fol k religion, Philadelphia, 1972, 24 sqq.
Russo (Ar ist ojane aut orc di teatro, Fircnze, 1962. ~ I) recatem a opimao
daqueles que defendem que Ãgaton vinha acomp:lnh:l~o de um coro, que
executaria o seu canto. Recordemos que o escravo deixara bem ~laro que

•• 10 A respeito da :'ta~'ovºi'ía de Eurípides, cf. Ra. 80, 1520. o canto se encontrava ainda em fase de elaboraç ão. o que exclui natural-
O grego , no v. 9~, diz literalmente: «Lá quanto a expediente, o bolo é mente a presença extemporânea de um coro.
nosso», expressão que ocorre também em Eq. 277. O :tv(!O/-loiJ;... bolo de
trigo e mel, era o pr érnio que cabia àquele que melhor aguentasse acordado IS Se undo a interpretação do escolias•a tupüJ J. \'AS 'L[[L'WE~,

•• uma :ral'l't'l.í;, ou seja, uma vigília nocturna. Portanto, a ideia de vitória


que a palavra contém, levou-me a preferir a tradução de <devamos a palma»,
mais natural em português.
,.
de Apolo.
g
TlzesmopllVria:/lsat', Lcid
el cn, 1963")
, -- , I'/l;
.
OQ ' ··l:a;·.l refere-se às muralha s
_ • i ·,' ·
t 'd"s""m terras banhadas pelo no Sirnocntc, sob a protecçuo
d c T rOia, cons rUI ... '" •
• :-

e Um dos problemas que se levantam ao dramaturgo é o da apresen- As Genetilidcs eram divindades femininas, protcctOras do nasci-
Ie

••
tI
ração de cenas de interior, que haja interesse em fazer desenrolar na pre- ,1 '(, que usava este mesmo ep ücio (cf. SII. 52. Lys. 2).
Afroui
menta como c, •

116 117

••
:,e .: .
~d~;;~~~~~~~~~~~~.BmB.d~~~B~~N~m~~~~~~~~I~'El~fID2~ 2~~~~ ~ ' L :; ..,, ~Z~i0!~2t~
.-, ... .,.> .~ ......"' .: .. · I~i

.'.•:
. :1
17 Segundo informação do escoliasta, a Licurgia era uma tetralogía
de Esquilo, formada pelas tragédias Edânlos, Bassârldes e Jovens, e ainda
pelo drama satírico Licurgo, As palavras que Aristófanes aqui adapta
jocosamente a . Ãgaton são da primeira das tragédias da tetralogia, Edánlos.
, .. .
~', ~
(cf. vv, 497, 547, 550, Ra, 1043). No entanto, em Hipôlito de Eurípides que
nós conhecemos, a actuação de Fedra de modo algum justifica esta idéia.
«Possivelmente Aristófanes tem em mente», diz STAMORD (The Frogs, New
York, 1968, 164), «uma versão mais antiga que se perdeu. o Hipôllto Velado.
que, segundo a Vida de Eurípides, chocou os Atenienses com a sua exibição
.:
-1
.~

••
18 O trajo de Ágaton é mais uma fonte de cômico. decerto pelas afia de falta de pudor feminino.»
nidades que teria com os h ábitos do poeta. conhecidos de todos. A primeira Desta tragédia perdida, a consulta dos poucos fragmentos conservados,
impressão que causa o seu aparecimento é a de um exterior vistoso e juntamente com a análise de outros textos dramáticos que estão na linha
requintado, capaz de trazer ao espírito a lembrança de Cirene, a famosa da peça euripidiana, nomeadamente a Fedra de S éneca, levaram a algumas
cortesã (v. 98): a túnica cor de açafrão (v. 138). o véu (v. 138), o corpete
(v. 139), o espelho (v. PO). Not ável é também o caracter feminino dos
objectos que o rodeiam: a navalha (\'.219), que na Antiguidade era sobretudo
tentativas de reconstituição. Vide, e.g., P. GRIMAL, 'L'originalit é de Sénêque
dans la tragédie de Phêdre', REL 41, 1963, 297-314: B. S:-'UL. Sanes
from Greek drama, Berkeley and Los Angeles, 1967, 23·46; W. S. BARRETT. ••
•. <
usada pelas mulheres. o barrete (v. 158), a capa (v. 261). os sapatos (v. 262). Euripldes' Hippolytus, Oxford, 1964, llsq., 15·22.
• Para a referência aos contrastes de trajo que definem o homem e a A súmula dos testemunhos disponíveis deixa entrever uma outra Fedra,
mulher. como fonte de comicidade. cf. Ra . 45 sqq. que se escuda na força de Eros para vencer todos os preconceitos (frs. 430.
433. ~3~ N2), que responsabiliza a ind iferença do marido pelo surgir da paixão
19 O Páef3tTO; ou {3áQf3tTO l' era uma lira de grandes dimensões, que
se usou nos séc. VII-V a.c. Era um instrumento da preferência dos líricos.
sobretudo de Anacreonte, que acabou por ser apontado como seu criador.
adúltera que a domina (Plut, Mor. 28 a), e que eventualmen te, num extremo
de audácia, se encarregaria, ela própria, da revelação a Hipó lito do seu amor.
Estes alguns dos traços mais salientes no carácter da heroína da primeira peça .~

zo O xQox(orú; (se, XmlH') era uma túnica cor de açafrão, usada pelas
mulheres e. naturalmente. pelos homens efeminados (cf. vv. 253. 941, 1220).
'dedicada por Eurípides ao tema de Hipólito, que o poeta, perante o escândalo
produzido ..entre os Atenienses. erradicou da segunda versão.
••
••
27 Ágaton aponta como modelos três liricos. Íbico, oriundo de Régio.
21 O XéXiJ v'Fai.o; era uma red inha com que as mulheres seguravam na. Magna Grécia, viria a fixar-se na corte de Polícratcs de Sarnos. Cultivou
o cabelo (cf. v. 257).
a lírica coral; entre os seus temas favoritos contam-se a pa ixão e a natureza.
Tanto Anacreonte como Alceu foram cultores da lírica rnonódica. A vida do
" O arl!,)!Jlol' era uma tira de pano, que podia ser ornamentada
com pedras preciosas, que as mulheres usavam sobre os seios (cf. vv , 251.
254. 638).
primeiro destes dois poetas (séc. VI) decorre em segurança na corte de Teos.
o que transpira da sua obra nas alusões a Eros c ao prazer, sem deixar. con-
tudo, de observar o tradicional equilíbrio helênico. Alceu, por seu lado, era
••

-.••'
de Lesbos e viveu nos séc. VII-VI a.c. A temática dos seus poemas reparte-se
23 A xi.aim era um manto de lã espessa, que se usava aos ombros.
entre as duas feições da sua vida : a do homem político, preocupado com a
preso com uma f'ibula. Era um trajo exclusivamente masculino.
orgânica da sua cidade. e a do homem privado. que aprecia a comodidade
2~ As .1axwl·lxai eram sapatos grosseiros de homem. à moda dos
e a bebida.
Espartanos.
28 A Illrga era um ornamento oriental para a cabeça. talvez uma
~ ~ Do mesmo modo. Euríp ides. em Ach. 410 sqq.• para compor per- espécie de turbante, usado pelas mulheres e denunciador tamb ém do efemi-
sonagens coxas e mend igas, veste-se de farrapos e senta-se com os pés sus- nado (cf. vv. 257, 941).

••
.-
pensos no ar.
2Q. Frinico foi um tragediógrafo anterior a Ésquilo. contempor âneo

26 O verbo r.Ei.liTI ~W é aqui tomado em sentido obsceno. Fedra, das Guerras Pérsicas. Uma das suas tragédias mais famosas intitulava-se
filha de Minos e Pasifae, casada com o rei de Atenas, Teseu, foi tomada de Fenícias e tinha como tema a derrota de Xerxes, ou seja. um assunto paralelo

.;
•.'
violenta paixão pelo enteado, Hip ólito. A repugnância que o jovem sente ao de Persas de Ésquilo. A comédia refere-se-lhe sempre corri adrniracão .
pelo amor. da madrasta será causa da sua morte, depois de Fedra o ter Os seus cantos continuavam a gozar de grande popularidade. e a merecerem
acusado falsamente ao marido de uma tentativa de ultraje. Em Aristófa- o elogio de um conhecedor tão exigente quanto Ágaton. Da produção dra-
ncs, lcdra ~ v;\rias VClCS tornada como protótipo da mulher de IlH1US costumes rnática de Frlnico conservavam os mais velhos uma grata recordação

.)-i
118 119
.~
.!~
1
'oi
••
•• (V. 269sq.); nos seus ouvidos, as melodias do poeta haviam deixado a marca
inesquecível de uma doce suavidade (Av. 748sqq.). Envolto em manifesto
requinte, Frínico parece mais integrado no mundo iónico. t-em condimentado
37 Parodiando o estilo rebuscado de Ágaton, Aristófanes atribui-lhe
frases empoladas, em contraste com a linguagem rasteira do Parente, que
reduz a palavras cruas o que o poeta dissera com eufemismos. Cf.Ar. fr. 599K,


do-tradicional requebro asiático (V. 219sq.).

:.
~.
I

••
.
30 FI I . .
oc es era sobnnho de Esquilo, e a sua categoria como trágico
I
e atestada pelo :acto de ter saído vencedor no concurso em que Sófocles
apresentou Rei Edipo. Apesar desta proeza, a comédia ridiculariza-o sempre
como um mau poeta. Cratino (fr. 292K) comenta o modo pouco hábil
como Filoc~es estruturava as suas intrigas. Como poeta lírico, a aspereza
'

das suas criações valeu-lhe as alcunhas de 'filho da salga' (schol, A~'. 281:
V. 461. sq.), ou de 'cotovia' (AI'. 1195). Em resumo, o parentesco com Ésquilo
(vv.
38 Estas eram práticas comuns entre as mulheres (cf. Ec. 12 sq., 65 sqq.).
Ágaton usava igualmente a lâmina para dar à pele uma suavidade feminina
218-219).

.39

40
Ou seja, para o templo das Eurnénides, protectoras dos suplicantes.

O Parente usa aqui um trocadilho, porquanto o adjectivo 'P,i.ó;


significa simultaneamente 'rapado' e 'armado à ligeira, sem escudo e sem

•• resumia-se aos laços de sangue, que não aos dotes das Musas (cf. Telecl. couraça'.
fr. 14K).
41 Clístenes é um efeminado largamente parodiado por Aristófanes:

O poeta trágico Xénocles, filho de Cárcino (cf. v. 441), é também cf., c.s;.. vv: 574-654; Ach. 117-121. Eq. 1374. A~·. 831, Lys. 1092, Ra. 48-57,

••
31

visado em ~a. 86 como mau poeta. Platão Cómico (fr. 134K) qualifica-o
de ÓWÓf%a/lrJl.al'O;, numa referência ao uso exagerado de máquinas que fazia 42 A palavra 'Sátiro'. que eventualmente poderia ser o nome próprio
no seu teatro, e também à arquitectura complexa das intrigas que criava de alguém conhecido na época, levanta dificuldades de interpretação. que

•• (cf. schol. Pax792). Apesar destes testemunhos depreciativos, Eliana levaram outros editores a preferirem lições diferentes,
(V. H. 2. 8) refere-se à vitória alcançada por Xénocles, em 415, sobre Troianas
de Eurípides. Além do teatro, o nome deste filho de Cárcino aparece Iizado 43 O i,uáTLOV era um manto. formado de um rectàngulo de tecido
pregueado e enrolado à volta do corro (cf', v. 567),

••
à oratória, que teria cultivado com bastante êxito (cf. vv, 440-442). -Por
fim, V. 1474-1537 parodia os novos esquemas coreográficos em que Xénocles,
juntamente com os irmãos, se exibia. -1·1 O t;'x"Xi.fJl' é lima pequena ~\II':' arredondada. ll\,Hb pelas rnulhc-
res (cf, v. 499; Lys. 113. Ec. 53(1),

•• nEste tragediógrafo, Teógnis, aparece ainda associado à mesma ideia


~e frieza artística em Ach, 138-140. Se comparado com o talento de um
Esquilo, a sua inferioridade é manifesta tAch, 10 sq.).
-15 Os ú;roô1j,llaTIJ eram sandálias presas ao pé por tiras cruzadas.
mas dava-se a mesma designação a um sapato que envolvia todo o pé.

ti 33 Eurípides, ao dizer-se próximo de Ágaton no início da sua carreira -I C> Cf. supra nota l l .

••
literária, refere-se à teoria exposta pelo poeta, mas o Parente interpreta o
comentário de Eurípides como se se tratasse dos hábitos de efeminado. -17 A jura de Eurípides é feita com um verso de uma das suas tragédias
A' tradução 'princípios', vaga no seu conteúdo, talvez pOSS.1 reproduzir esse perdidas. Melanipa (fr. 487 ~1). Cf. Ra. 100. 311. onde estas palavras do
trocadilho. trágico nos aparecem como modelos famosos de arroubos de estilo. revela-

•• .:\.tCorrespondendo à atitude 'trágica' que toma perante Ágaton,


Eurípides serve-se, para introduzir o seu pedido, de dois versos de. uma das
dores do talento congénito de Eurípides. Só por ironia a 'morada de Zeus'
sugere ao Parente 'a casa de Hipócrates' e os seus habitantes. porquanto.
secundo informação do escoliasta. os três filhos desse general ateniense tinham

•• fa~1a de estúpidos. J, \',.\:" Lru.» E' (Tlh'sn;0l'h,lfI·a:lIsm:. Lcidcn, 1968, 46)


suas tragédias, perdidas para nós, Éolo (fr. 28N2).
aventa a hipótese de se tratar de qualquer eJifkio insólito, capaz de atrair a
35 Na altura da representação de TIz., Eurípides tinha cerca de 70 anos: atenção dos cidadãos da época. e cita a propósito PI. 180, em que se faz refe-
podia, com razão, dizer que 'era conhecido'. No entanto, incoerentemente, rência a uma 'torre de Timóteo'. construção que este general dedicara

e ele vem a passar despercebido quando se apresenta no papel de Mcnelau 11 Fortuna.

••
(vv, 871 sqq.).
4S Estes dois versos contêm uma paródia de Eur. Hipp, 612.
36
Eurípides é desarmado com as suas próprias palavras de A/c. 691. Cf. Ra. 101-102. I·r: I, Dentro do contexto original. as palavras de Hipólito


.'
120 121

"I
,~
'··~'flf
•••
, ...::, .: ,... .

têm uma integração perfeita e nada encerram que seja susceptível de repro- 304 Segundo ' COULON (op. cit., 31), este epíteto refere-se, no caso
••
-
vação moral. Apenas Hipólito, perante a revelação que a Ama lhe fizera presente, à Terra; pode. no entanto ser igualmente aplicado a Afrodite.
da paixão culpada de Fedra, exprime repulsa em guardar segredo deste amor Ártemis e Hécate.
que o insulta. mesmo que a boca se lhe tenha comprometido num juramento.
De resto, apesar da revolta, Hipólito sofre em silêncio a maldição do pai e
caminha para a morte fiel à palavra dada. O aproveitamento que Aristófanes
33 o coro, formado por celebrantes das Tesmofórias, inicia o párodo .
Toda a cena quese segue é uma paródia da assembléia do povo, em estilo e
••
-
faz deste verso conduz. porém, à noção de perjúrio subjacente às palavras do formalidades. Com o corifeu no papel de sacerdotisa, a um momento de
herói, e é mais uma pincelada no retrato do Euripides impulsionador da imo. silêncio sucedem- se as tradicionais invocações aos deuses e imprecações con-
ralidade social. Cf. a interpretação inversa de H . C. AVERY ('My tongue tra 'os inimigos públicos. Mas se -a execração contra aqueles que pactuavam
swore, but my mind is unsworn', TAPhA 99, 1968, 19·35), que, contra.
riando a própria evidência dos textos, pretende reduzir a matéria literária o
, com os Persas ou defendiam a tirania fazia parte das preces oficiais da assem-
bleia(cf, COULON, op. cit., 32), jocosamente a comédia acrescenta, à cabeça
••
-
diferendo cômico entre Aristófanes e Eurípides. e
da lista em pé de igualdade com os inimigos de Atenas e da Grécia, o nome
de Eurípides, o principal adversário das mulheres. Terminados os prelirni-
49 A acção, a partir deste momento . decorre no Tesmofórion. nares com uma tirada cômica, em que são as próprias mulheres as primeiras

••
A. W. PICKARD-CA~IBRIDGE tThe theatre of Dionysus in Athens, Oxford, a reconhecerem a sua inferioridade (v. 371), d á-se início ao agôn, que se desen-
1956, 66) supõe que a construção murada do recinto teria uma entrada volve com discursos subordinados ao terna, isto é, o castigo a aplicar :I
central e devia erguer-se sobre uns degraus . Por volta do v, 280, um arauto Eurípides, inimigo incontestável das mulheres.

••
saía do Tesrnofórion, enquanto o coro e outras mulheres, munidas de tochas.
avançavam pelos párodos e tomavam lugar para a assembléia, em frente do ~6 Depois de Zeus são invocados. com as perífrases habituais. Apolo.
recinto sagrado. Por volta do v. 277, o manuscrito de Ravena regísta, à Atena e Ártemis.
margem, uma anotação cênica que diz: o).oi.v~ot'O't· rà íêQOl' wf)Eirat: 'as rnulhe-
res soltam o grito sagrado. Um altar é trazido para a frente'. 'Oi.oi.ú;OtV1t
explica a despedida apressada de Eurípides e do Parente ('1\'. 277·279), e .0
altar, que então sairia da parte central do Tesmofórion, devia ser o local em
37 Pretende Coct.ox (op. cit., 9) ver neste passo uma das raras aluo
sões políticas _da peça, a um possível projecto de acordo dos Aten ienses
com os' Persas, para obterem auxílio monet ário contra os Lacedcrnónios'" ••
••
que Mnesiloco vai depor as suas oferendas e onde mais tarde (v. 695) se refugia. " (cf. Th. VIII, 53). Porém, esta ajuda era muito onerosa para a cidade de
Ainda a propósito do v. 277, O escoliasta diz i~i<l'xi.Eirat i:ri TÔ l';w Atena, porquanto os Persas exigiam a substituição da democracia por uma

--.
ro e(1)109'ÓeIOI', O que leva n pensar que o altar fosse trazido sobre o i)()(ll. .: oligarquia no governo da cidade. É uma referência a este facto que
%i.'i,lla . Cf. PICKARD-CAMBRIDGE. op. cit., 104-106. K. J. DOVER (Aristophanic comedy, London, 1972, 171) entrevê nos
vv, 1143-1144, quando o Coro, invocando Arena, a refere como a deusa que
so COl:LO:" (Les Thcsmophories, 30) admite que Trata é uma serva justamente odeia os tiranos.
imaginária a quem o Parente finge dirigir a palavra . Mas K. J. DOVER
(Aristophaníc comedy, London, 1972, 28) vê em Trata um exemplo de ," : 58Dado o caracter convencional do casamento entre os Gregos e o
. 'â ~bito. )fmitado da _vida da mulher, poucos vínculos podiam ligar o casal.


personagens mudas. actores extra, que o texto denuncia .
'D aí agrande importância que os filhos tinham como garantia dos laços

••
~I O :ró:rm'ol' era uma espécie de bolo que se queimava nos sacrifícios. familiares, o que levava a mulher, se era estéril,a comprar uma criança que
fazia passar por sua (cf. vv, 407 sqq.. 502 sqq., 564 sq.),
~ : Segundo lseu (6. 50), 'os escravos não tinham dire ito de entrar no
templo. nem de ver o que lá se passava'. E efectivarncnte Mnesilcco manda O l.óo; era uma medida para líquidos, que equivalia a cerca de

•e
59
embora a escrava (\ v. 293·~94). quando as mulheres se reúnem para a ass~m. três litros e um quarto. A canada, que corresponde a dois litros. é, entre
bleia; mas algumas das participantes no festival têm escravas consigo (vv, 537, nós, a medida que mais se aproxima (cf. v. 746).
609. 728). A ;torto).1] era uma outra medida usada para sólidos e Iiquidos e cqui-

5~ [(a;.i.I;.·Él'flI1. é um epíteto de Dernétcr, que significa 'aquela que


produz coisas belas'. Era -esta a designação do terceiro dia do festival das
valia a cerca de um quarto de litro (cf, v. 743).
Para o tema da'> mulheres bêbedas, a que Aristófanes alude com Ire-
quência, cf. vv , 393, 556 sq.. 630 sqq.. 733 sqq.. Lys, 113sq., 195-239,465 sq.. ••

Tesrnofórias (cf.Sl/pra nota 9). Ec. 14, 132 sqq.

-
122 123
~,

l i'l
p
~.
~
•• 60 Era grave e criminoso revelar os segredos das duas deusas (cf.
Ec. 442-443) . Cf. supra nota 9. ~ :,
00 A designaç ão que se dava a estas chaves, munidas de dois ou mais
dentes, provinha do lugar onde primeiro foram usadas.

•e 61 O decreto que proclamado de seguida parodia as fórmulas oficiais


é

da Assembléia. De notar que os nomes atribuídos à presidente, secretária


e oradora são comicamente falantes: Tirnoclcia, 'nobre e ilustre', Lisila,
67 Segundo informação de COULO:-< (Les Thesruophories, 36), este
ard era uma espécie de selo em forma de anel, que imitava o sinete com que
o marido fechava as portas. Os selos de madeira carunchosa. corroídos.

•• 'a que resolve as questões'. e S óstrata, 'a que salva o exército'.

6~ Este procedimento era comum entre os oradores públicos (cf.


Eq. 1227, Av. 463, Ec. 148, 163); usavam ainda a coroa as vítimas nos sacri-
eram mais difíceis de imitar do que aqueles que habitualmente se usavam.
de cera.
68 O discurso encerra-se com uma fórmula caracter.suca daqueles

•• fícios (Nu . 256sq.) e os part icipantes em banquetes e orgias (cf. Ach , 551,
Ec. 691. 844).
que faziam publicamente uma acusação, para dizer que é prefer ível registar
por escrito factos demasiado graves para serem expressos verbalmente.
69 Cf. supra nota 31.

••
63 Cf. v. 456; Ach. 4i8.Ra. 840, 946-947. Não sabemos se é falsa
ou verdadeira esta alusão à mãe de Eurípides, Clito, porquanto os teste- 70 Em ático, era habitual usar o nome dos artigos vendidos para
munhos são discordantes: Teopompo confirma esta referência, ao passo que
designar os locais onde se realizava esse comércio, o que lev a à conclusão
Fil ócoro a refuta, atribuindo a Clito nascimento ilustre. No entanto, parece

••
de que as lojas ou tendas, que vendiam a mesma mercadoria. se agrupavam
que, para atingir o seu fim cômico, o gracejo deve ter qualquer fundamento real.
no mesmo lugar (cf., e.g., Eq. 1375, Ec, 303).

''..
6~ Em data muito recuada, principios do séc, \' a.c., começaram a
71 Esta forma de dizer popular caracteriza a pessoa que fala; a sua
usar-se no teatro assentos de madeira, apoiados em estrados que se designa-
vam por i%(]ía (como diz o texto). No entanto, A. W. PICKARO-CAMBRIDOE comicidade está no facto de pôr em pé de igualdade Eurípides. que trabalha
«em tragédias», com a própria florista que trabalha «em flores».

• tThe thcatre of Dlonysus in Athens, Oxford, 1956, 11 sqq.) chama a atenção


para que, em dois passos da Comédia Antiga (TIt. 395 e Cratino, fr. 323 K),
se atribui essa mesma designação aos lugares ocupados pelos espectadores, . 72Para um ataque semelhante à impiedade de Eurípides, cf .
Ra. 889-894. Dentro da comédia, Eurípides, juntamente com Sócrates

'.
e não já apenas aos suportes da construção. A deterioração destas bancadas

• de madeira levou posteriormente. em data incerta. à construção de teatros


de pedra.
(cf, Nu. 247 sq., 264 sqq.), tornam-se símbolos da impiedade e ateísmo con-
temporâneos, e responsáveis pela propagação das novas teorias entre .as
camadas mais jovens. À afirmação simplista e radical desta vendedeira

••
6S J. VAN LEEUWEN (Thesmophoriazllsae, Leiden, i1968, 58) comenta, de flores reduz Aristófanes a complexidade da reflexão critica a que Atenas
a respeito deste passo, que nada haveria de cômico nestas palavras se não assistia no momento, e que não estava, obviamente, no âmbito da comédia
parodiassem cenas da tragédia euripidiana, que nos são, no entanto, difíceis explorar.
de localizar. A única que podemos identificar com certeza é aquela a que

•• aludem os vv, 403sq., onde 'pelo hóspede de Corinto' são palavras de Este-
nebeia, tomada de amor por Belerofonte , na peça do mesmo nome (fr. 664 N2).
Ateneu (427e) explica-nos o sentido destas palavras: seguindo o uso de com.
H
7J Cf. supra nota 63.

Se o negócio de coroas está em crise em relação aos deuses,


mantém-se florescente no que toca aos homens (cf. supra nota 62).

••
partilhar com os mortos toda a comida que caía 'da mesa, Estenebeia, con-
vencida_da morte de Belerofontc, a cada passo revelava a recordação' do 7S Para evitar que os ferrolhos chiem, sem deixar ·vest.gios, a pérfida
homem que trazia no coração , A frase banalizou-se, a ponto de vir a apli- mulher teria deitado água nas dobradiças, em ..ez de azeite (cf. PI. Cur o 160)
car-se no jogo do c ótabo (cf. Hesiquio, s. r, l\Olj /l'OIO; ~ivo; : Cratin . fr: 273K).

•• Note-se ainda que o v. 413 pertence à tragédia Fénix de Eurípides (fr. S04N2).
A situação córnica das mulheres encarceradas no gincceu recorda a criação .
que Eurípides fez de Dánae, também ela prisioneira numa torre. Finalmente,
o processo dos venenos, a que a oradora dá relevo no v. 430, não pode deixar .
70 Apolo Agicu era o 'deus das ruas', e nesta acepção era frequente-
mente homenageado, tal como Hermes e Hécate, defronte das casas. com
um altar ou com um pilar. O altar que, no teatro, se ..i a em cena, repre-

.e de lembrar o caso famoso de Medeia. Não há dúvida, portanto, que Aris-


sentava habitualmente este culto a Apolo Agieu ivide PolI. 4.1:3). Cf., e.g ..
v. 748, V. 875; Men. Dysc. 659. No caso presente, o altar DC'.lVa junto de


.
tófanes sugere neste passo uma série de cenas criadas por Eurípides. que
um loureiro, a árvore consagrada a Apolo.
gozavam de grande popularidade entre os Atenienses.

• :
124 125


~~-" ,
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.

• ... 1

•7

18
Cf. supra nota 26.
Paródia de Eurípides, Têlefo (fr. 711 N2). Cf. Introdução, pp. 14-15.
' ao Dada a situação inferior da mulher na sociedade e os encargos
que representava a manutenção e casamento de uma filha. todo o grego
aspirava a ter filhos varões . Dai que a mulher recorresse a estratagemas
--
~
1

••
.. . ., 1 ; '

vários, entre os quais a troca, para obter o filho que não tinha (cf. supra
79 Aristófanes usa neste momento uma ãYogà :r(!oot3oxíov: em vez nota 58). ,
do esperado 'escorpião', o perigo é o 'orador', adequando o provérbio às
circunstâncias . Segundo o escoliasta (apud J. VAS LEEl;WES. Thesmopho- n O verbo ix:tox{Ce.u, criado por Aristófanes para servir este passo,
riazusae. Leiden, 1968, 70), o comediógrafo está a parodiar uma frase
proverbial que dizia: hei navt] i.iO/:) a%')rrriol', W éxolçc, 'ft·i.áaaEO: 'debaixo
de cada pedra há sempre um escorpião. Amigo. cuidado'.
, é formado do substantivo :toxá; 'crina', que se refere ao pêlo dos animais.
e só pejorativamente aos cabelos humanos .
•e
80 Aglauro era o nome .de uma das filhas de Cécrops, rei mítico de
as .Cf. supra nota 41 .
e
Atenas. cuja memória se mantinha viva no culto da deusa Palas. Vide R. GRA-
VES. The Grcek myths, Bucks, reimpr. 1977, 96-100.

81 Melanipa e Fedra, tal como são apresentadas na cena euripidiana,


···1* "t""
I
89 Possivelmente Aristófanes está a referir de passagem o nome de
umá figura que é largamente atacada nas suas comédias mais antigas . O papel
histórico desta figura é apagado. No entanto, Aristófanes ataca-o como ••
glutão (e.g., Eq. 957-958, 1292-1293), gordo (e.g.• Ach, 88, V. 592). efeminado

••
I
converteram-se, na perspccti....a da comédia, em modelo de mulheres perversas,
por oposição à dignidade tradicional que é apanágio de Penélope, fiel esposa (Nu. 673 sqq.) e o que é mais grave, como cobarde, por ter abandonado o
de Ulisses. Ambas transgrediram o código social aceite para a condição escudo no campo de batalha, o que era considerado como punível legalmente

••
feminina. Melanipa, vitima do amor divino de Posidon , dá à luz dois gêmeos, (cf.• e.g, Eq. 1369-1372, V. 19-27,822-823, Pax 444-446. 673-678,1295-13(4) .
que se vê compelida a abandonar. Perante a decisão de seu pai de matar as
crianças, Mclanipa empreende, num caloroso discurso, a defesa das vítimas, 90 O Parente finge contorcer-se, donde a pergunta de Clíster:es. Obtida
que culminará com a revelação da sua verdadeira progenitura. Tal era o a autorização para se ausentar. Mnesíloco censura Clístenes como atre vi do.
tema desenvolvido por Eur ípides na tragédia conhecida por Jfúal'í:r:tT] 7)
l:olf7'J. Sobre Fedra, cf. supra nota 26.
.""! ' l - ~~' :
por vê-lo no prop6sito de o acompanhar.

..· 91 ' Cot6cides é um r5iipo; da Ática. Como circunscrição administra-


••
A aTi.e/yí; era um raspador com que se esfregava a pele depois

••
82 ;. <J'
;~ ! ;:,:1 tiva. podemos fazê-lo equivaler à nossa' 'freguesia'.
do banho ou no ginásio. Por vezes este raspador tinha um cabo oco, para
!
deixar correr o suor que se raspava. Deverá ser este o tipo de objecto aqui
referido, mas parodicamente usado em situação diferente, de modo a acentuar ,i 9~ ...Tanto nas Tesmofórias como em Elêusis, quando ha via .... igilias em

a atracção das mulheres pelo vinho (cf. supra nota 59).

83 As Apat úriaseram um festival anualmente realizado em homenagem


.L '
I1
I
1
homenagem às duas deusas, as mulheres pernoitavam em tendas.

93 Clístenes é convidado a afastar-se, já que a festa era vedada aos


home~s e secretos os rituais que nela se desenrolavam. Cf. surra nota 9.
••
••
a Zeus Frátrio e Atena Frátria pelos membros das fratrias, uma espécie de
i
confrarias que tomavam a seu cargo determinados cultos. Num dos dias
do festival, as fratrias admitiam a inclusão de novos elementos, que eram 94 Para facilitar a passagem entre os golfos Sarónico e de Corinto, os
os filhos dos cidadãos. Segundo se depreende deste passo de Th., havia

••
antigos levavam os navios por uma estrada , atra ....és do istmo de Corinto,
então distribuição de carne aos participantes nos sacrifícios rituais. Para de um mar para o outro (cf. Th. VIII. 3).
além dos ritos religiosos, sabemos por Platão (Timeu 21 b) que este festival
incluía também um concurso de recitação . I
115 Em Atenas. os prítancs eram os cinquenta delegados, anualmente
54 A doninha era considerada na época como um animal doméstico,
no papel equivalente ao que actualrnente tem o gato.
i
I

I
escolhidos por cada uma das dez tribos que compunham a cidade, para
formarem o conselho dos quinhentos ou Senado. A presidência dessa assem-
bleia era rotativa, sendo sucessivamente ocupada pelos representantes de cada
••
8.5 Acarnas era a maior freguesia (15'1110;) da Ática.. A sua população
de carvoeiros, grande vítima na guerra do Peloponeso. foi protagonista de
uma das comédias de Aristófanes. Os Acamcnses.
uma das tribos, que dirigiam os assuntos públicos durante 35 ou. 36 dias.
Para melhor informação, cf. G. GLOTZ. La ci": grecque, Paris, 1963.
198-200. ••
126 127
••
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••
9<> Cf. Acli. 204-236, cena em que também Diceópolis é procuradu. 10 7 A tradução 'quem te tirou a tua tl or ?' pretende salvaguardar o
por ter feito, por conta própria, uma trégua com os Espartanos. Sobre a sentido equi voco do original, onde a pergunta significa simultaneamcnte
inserção de ambas as cenas na paródia de Télefo de Eurípides, cf. Intro- 'quem te roubou a tua filha?' e 'quem te dcstlorou?'.
d ucã o. pp. 13·15.

e 97 A Pnix é uma colina de Atenas, a ocidente da Acrópole , onde


l OS Cf. Int rodução. p. 17.

•• se re.:l lizavam as asscmbleias do povo e onde decorria igualmente o festival das


T esrnof órias.

9~ Talvez se possa ver aqui nova alusão ao ateísmo de Eurípides


Ill'l Carmino, cstratego ateniense. que nessa altura fora derrot ado no
mar (cf. Th . VIII.
combate no mar' .
JO.~: I. ~ rO~IO em paralel o com Nausim aca. 'aquela que

•• (cf, supra nota 72), ou simplesmente , ao racionalismo generalizado na época.

99 As J/oieat, muito invocadas em juramentos, identificam-se com as


l lll Clcoforue era um pcl itico aten iense em evid ência na época de
Aristófanes. Já com certa experi ência da vida pública, tornou-se chefe do

•• Parcas latinas, porque também elas, e este facto já vem referido em povo após a restauração do sistema democr ático em 410 a.C; e esteve à frente
OJ. VII. l l i-IIS, fiam, desde o nascimento, a linha da vida. Em Tcogo-
das finanças atenienses. Foi um dos grandes lutadores contra um acordo
nia (vv. 9~- 906). Hcsiodo dá-as como filhas de Zeus e Témis e aponta o seu
de paz com Esparta, o que o expôs :lO S ataques de Aristófane s. Veio a ser
julgado e condenado por uma que st ão de cidadania. dada a sua or igem tr.icia

••
nome : Cloro, Láqucsis e Átropo. Mais tarde, Platão refere-se-lhes em
R. 617 b 3. considerando-as como filhas da '.·há}'%l], 'Necessidade'.
pelo lado materno (cf. RJ. 679. ( 85). O ataque a esta figura é aqui sa lientado
pela inferio ridade que o comed i ógrafo lhe atribui em relação com uma famosa
cortesã da altura. Sa labaco (.:I". Eq . i (5) .
10U O Y-Qlj Tl %ÓI' (se. í,lI(íTlOI ') era uma espécie de roupa curta e ligeira.

•• segundo a moda que vigorava em Crera .

101 As itrçoixa! (se . :<[1I)."1i&;) eram uns sapatos brancos que traziam ,
111 Os nomes destas duas mulhe res lembram os glor iosos guerreiros
de outrora, que agora não têm rival entre os Aten ienses presentes no teatro :
Arist órnaca. 'a mel hor no c o m bate' . e Estr.u o nica, 'a vit ória d o C'\LTCito' .

••
na An tiguidade , as mulheres em Atenas .

J O~ Os antigos contavam o tempo da gravidez pelos meses lunares 112 Sem d úvid.r q ue Eu bulc, "a t'll.' ;l conselhe ira'. ~ superior ao grupo
(cf. Vcrg. EcI. IV. 61), cerca de 280 dias entre a concepção e o parto. Dai cessante do conselho 1.1 0 :t1~1.) anter io r.

•.0 a diferença em relação nossa cont agem , que se baseia nos meses solares .

103
à

Este importante festival destinava-se a honrar Dioniso Eleutereu


e. já no séc, \1 a.c., gozava de grande projecção. Nestes festejos, abertos a
113 Quanto ao v. S09 , os cornent ad ores n:10 esteio de acordo . J. VA:"
LEEU\\'E:'o1 tThesmophoriazusae, Leiden, 1968. 105) omite-o . C.o\:-''TARELLA
(Le Commedie, IV, Milão. s.d., 492) lê at~TÓ; em vez de v.-tl't'To,;. Adaptando
e todo o mundo hel énico, Atenas patenteava a sua supremacia no campo da a versão de COl;LO:", te,,10S aqui uma referência a um atenien se ligado ao

•• arte dramática e da poesia lírica. O certame realizava-se no mês de Março. partido democrático, cuja actuação política é moderada, mas que veio a ser
Para informação mais completa, vide A, PICKARD-CAMBRlDGE. The dramatic um dos principais acusadores de Sócrates (cf, Pl. Ap. ISb), cujas cr íticas
[estivals of Athens, Oxford, 1953, 55 sqq. aos chefes políticos do séc, \' a.c. Ãn ito achava perigosas (PI. .\fl'll. 90 sq.).
Decerto por isso Arist ófanes o refere aqu i como orador h ábil, mas de argu-


e
1O~ O Gg:a;/ciov era o vaso em que se recolhia o sangue da vítima
degolada , nos sacrifícios.
mentação pouco honesta .

114 Supomos (cf. I ', 669 sqq .) que o Coro se está a referir a e xigências

•• 10~ O Parente consente em deitar algum vinho no vaso. Mas enquanto


a Primeira ~Iulher o bebe, de entorna o resto no chão, o que motiva o comen-
de dinheiro que os po li.ices de Atenas faziam às cidades do império ate-
niense, com a ameaça de as sobrecarregarem de impostos ou de tomarem

.i-_
i.
tário irado daquela 'mãe dedicada ' .

106 O velho está a parodiar uma prática comum no ritual do sacri-


fício, em que a pele do animal era a gratificação que cabia à sacerdotisa que
celebrava a ccrimónia.
quaisquer outras medidas igualmente repressivas.

us O tiniul' é propriamente o 'cilindro do tear', sobre o qual os tece-


lões rolam a teia. Quanto ao xQn,).·, é um pau redondo com que se separam
os fios pares dos ímpares, na trama .

I. 128
. .129

• 9

.~
.;
110 Ironicamente a sombrinha alude ao escudo. Lãrnaco foi um general ateniense que Aristófanes largamente parodiou
•••
.'
em Acarnenses, como símbolo daqueles militares que pugnavam pela continua-
Ii 7 O taxiarco é o chefe de uma divisão no exército: o estratego é o ção da guerra, esperando tirar dela alguns proventos (cf., e.g., Ach, 619 sqq.).
general. o chefe do exército. Lãmaco viria a morrer em 414 a.c. numa campanha na Sicília: como herói

••
é recordado neste passo de Til.
Ii S A :TeoefJeía e a refeição no edifício do Pritaneu eram as honras
habitualmente concedidas aos cidadãos beneméritos da pátria. '122 Aristófanes faz um jogo com a palavra T,jxO;, que significa simul-
taneamente 'filho' e 'lucro'.
119 Segundo o próprio texto, trata-se de dois festivais de mulheres.
A designação de Esténias assenta no verbo atnvuuu 'insultar, dizer gros-
serias', aludindo ao momento em que as mulheres se insultavam, ritual este
de valor apotropaico, Rituais idênticos se verificavam nas Tesmofórias.
123 A tragédia Helena foi representada em ~12 a.c. Efectivarnente.
em Th. -1060, Aristófanes afirma que, no ano anterior, Eurípides levara a
concurso a tragédia Andrômeda. que, através dos escólios a Lys, 962 eRa. 53,
••
sem esquecermos os "IfrPl'QIG,Itoí de Elêusis. As Esténías celebravam o sabemos ter sido representada em 412 a.c. Ora o escoliasta do v. 1012 ei

.'
•.;
regresso ("...11'0<50;) de Dernéter e realizavam-se em Atenas. três dias antes de Th. diz-nos. que Andrômeda foi representada juntamente com Helena.
das Tesrnofórias. isto é, que as duas peças faziam parte da mesma trilogia. Apesar de muito "\
Sobre os Ciros há muitas lacunas no nosso conhecimento; segundo controversa, esta trilogia parece ter assegurado a Eurípides um grande êxito.
alguns testemunhos, ligavam-se estreitamente às Tesmofórias, das quais A cena que se segue, está cheia de citações e paródias de Helena.
deviam até ter feito parte; seriam, portanto, uma homenagem a Deméter e
Perséfone. Há, porém. outra informação que as considera um festival I Cf. vv, 855-856, que são a transcrição de Hei. 1-2, mas o v. 857 é um desfecho
cómíco da autoria de Aristófanes. Cf. ainda, e.g., TIt. 859 sq. e Hei. 16 sq.,
e:.
I
à parte, em honra de Arena. O que poderá significar a designação de Clros? Til. 864 sq, e Hel. 52 sq., Til. 866 e Hei. 49, Th. 871 e HeI. 68. Sobre o alcance
Segundo o escoliasta de Aristófanes. axlçov é 'sombrinha', que o sacerdote
levava durante o festival 'das duas deusas'. Porém o escoliasta de V. 925 diz
literário desta paródia, cf. Introdução, pp. 18-20.
ei
que GX;Q01' é uma terra branca. corno gesso, e que Atena é designada por

••
.j••
124 Após dois versos transcritos de Hei. (1-2), Aristófanes junta um
LXlf2Q'Í.; por estar pintada de branco. Pergunta-se HARRISO~ (Pro/ego-
terceiro, paródico. Aos Egípcios é atribuído o epíteto de ,uêi.lll'oO'vQ,uaiol,
mena, 135) se não será de supor para os Ciros um ritual semelhante às
atendendo ao uso que faziam de uma planta purgativa, a auquoia, 1\'0 entanto.
Tesrnofórias, em que os objectos enterrados nos IlÉi'aQa seriam modelados
Aristófanes faz um jogo de palavras, aludindo às longas caudas (ave,uam)
em gesso. Torna-se, no entanto, impossível Uma resposta decisiva.
dos seus trajes, O primeiro elemento, pÊi.a;, é vulgar em compostos euri-

.•:
Para a discussão deste assunto, cf. J. E. HARRISO~, Prolezomena 10
pidianos. cr, e.r., A/c. 427, 843, Hcc. 71, 153, iDS, 1106.
lhe study of Greek religion, Cambridge, 1908, 134 sqq.

120 O trierarco é o comandante de uma trirreme. 12S Na época clássica, Hécate é a divindade que preside à magia e

.-:
aos encantamentos. Anda ligada aos infernos e revela-se aos feiticeiros com
121 Dentro da teoria acabada de expor, para o Coro seria absurdo ver
sentadas lado a lado a mãe de Hipérbolo, de trajo festivo e no papel de usu-
rária, e a mãe de Lârnaco, o herói da Sicília.
I uma tocha em cada mão. Como rnaga, Hécate preside às encruzilhadas que
são, por excelência, os lugares de magia. Daí que a sua representação seja fre-
quente nesses locais, sob a forma de uma mulher com três corpos ali com
Hipérbole é frequentemente atacado na obra de Aristófanes e ainda três cabeças.
por Tucídides (VIII. 73.3). Era rico, mas a sua fortuna parece ter sido
I t26 Tindaro, rei de Esparta e herói dos Lacedernónios, foi, depois
e:
••
obtida por meios duvidosos (cf. Nu. 1065-1066), como negociante de tochas.
A fama adveio-lhe, no entanto, do seu talento corno orador, faculdade essa . 'de casar com Leda, o pai adoptívo de Helena. Cliternnestra e dos Dioscuros.
que o tornou responsável por várias condenações no tribunal (cf. Ach. 846-847, I Depois da divinização de seus filhos, Castor e Pólux, veio a ceder o trono
Eq. 1363, Nu. 8i6). O mesmo poder de retórica fez dele a figura dominante a seu genro Menelau, marido de Helena.
na assembléia, depois da morte do político Cléon em 421 (cf. Pax.679 sqq.).
Veio a ser perseguido por Nícias e Alcibíades e sofreu pena de ostracismo
em 417 a.c. Apesar de todos os ataques de que foi vítima, deve ter gozado
127 .Ao nome ilustre de Tíndaro, a Segunda Mulher substitui o de:
Frinondas, um patife muito conhecido em Atenas, no séc. v a.C. ••

de uma certa popularidade que possa justificar o seu papel na assembleia,
depois de Cléon, 128 O Escarnandro é o rio que corre na planície de Tróia.

;-'
130 131
••
•• 129 A falsa Helena refere-se a Proteu, rei do Egipto no tempo em que
Par is e Helena ai aportaram. Por exigência deste rei, Helena permanece
no Egipto , enquanto o seu raptor regressa a Tróia, segundo a versão de
137 O Coro refere o epíteto dc Drómio 'Fremente'. que foi atribuído
a Dioniso pela agitaç ão com que os tíasos celebravam o seu culto. em correria

e Helena de Eurípides . Só dep ois da tornada de Tróia, os Aqucus se puderam


louca pelas montanhas agreste s, brandindo tochas nas trevas da noite. dei-
xando-se levar ..no êxtase da dança. Uma menção cabe à hera. planta sim-

-••
certificar de que a informação de Priarno, de que Helena ficara no palácio
e de Proteu, era verdadeira, e portanto aí vão tentar recuperá-la .
Porém, na sua ignorància , a Segunda Mulher associa o nome de Protcu
bólica da vitalidade eterna da natureza e insígnia do deus. De passagem
alude-se ainda à genealogia da divindade, fruto dos amores de Zeus com uma
mortal. S érnele. Sobre os aspectos rituais do culto de Dioniso. vide Eur í-
a qualquer figura conhec ida na época , que tinha rnorrido há dez anos. J. VA:--t
pides, Bacantes.
LE [U\v E:-I (Thesn:opilOria:llsae, Leidcn, 1968, 11~) põe a hipótese de que
se tra te de um Protcu que foi cstratcgo em ~31 (cf. Th . r. 45. 2 e 11. 23.2). D8 O Cir éron é uma montanha situada entre a Ática c a R:: l1~·iJ .

•• 130 Teónoc a filha de Protcu, a quem. em Helena de Eurípides, é


é

atribuído o pape l de conselhe ira sensata. a quem a ascendência divina confere


poderes de adivinhação. É ela que auxilia a fuga de Helena, a esposa casta
139 O tiro de defeitos de linguagem que o Cita comete é de certo modo
incoerente, pois as suas faltas de aspiração, troca de gêneros, deficiênc ias
de conjugação e outros erros não ocorrem sistematicamente, S50. no entanto.
largo motivo de c órnico. Procurei resolver as dificuldades, fazendo equivaler

••
e fiel, que chora sobre o túmulo do rei falecido. vítima da cupidez de seu
filho. o sucessor de Proteu no trono do Egipio . Este auxilio expõe-na à ira ao grego determ inados defeitos de linguagem no português: uns que ocorrem
do novo rei; só a intervenção LIas Dioscuros a pôde salvar. Para maior ironia, como regionali smos, como seja a troca do b e do r em v cz da falta de asp i-
a falsa Tc únoc é a guardiã agressiva da sua 'prisioneira' , ração do grego, outros como cstrangcirisrnos. a rncsmn troca de g énerris e

•• 131 Gargeto é uma freguesia (Ô'/,HO;) da Atica .


a preferência pelo infinitivo na conjugação.

1..\0 Dá- se início. neste momento. à paródia de Andr ômeda de Eurípides


(cf. Introdução. pp . 20-22). Parece não haver dúvidas (cf. PolI. 4. 128)

•• 132 Esta é mais uma alusão. frequente em Aristófanes, que visa a


profissào de hortaliceira que a mãe do trágico exerceria (cf, supra nota 63).

133 A tradução literal deste verso é 'esta linha não pescou nada'.
sobre o facto de o herói Pcrseu, na cena trágica, aparecer sobre a máquina
de voo. Mas se é verdade que Aristófanes confere ao seu falso Pcrseu os
tradicionais atributos da figura - asas nos pés e o escudo com a cabeça de

••
Medusa -, C duvido so que tenha adopt.ulo Ixu. I a slIa Irpl c'(,llt ;\,;.Il' II I'l l'-
expressão sugestiva a que substituímos a portuguesa. também coloquial,
'sa iu-me o negócio furado' . cesso euripidiano da ll'il.W ·,j. O argumento principal a fundamentar estas
dúvidas reside na inexistência de uma paródia frontal ao processo, de um
modo idêntico àquela que é feita em Pax 82-176: tratando-se de um recurso


1).1 Enquanto o Guarda arrasta o Parente para fora de cena, para
cumprir as ordens do Pr ítane, o Coro executa uma dança acompanhada de habitual no teatro de Eurípides e estando Aristófanes em plena paródia do
saudações aos deuses. Segundo K. J. DO\'ER (Aristoplra/lic comedy; Lon- trágico, esperar-se-ia que a comédia aproveitasse todas as potencialidades
e don, 1972, 22), tanto o v. 930 como adiante o Y. 1007 denunciam a exis- deste motivo. Da entrada do seu herói em cena, o comediógrafo diz apenas.

•• tência no cenário, para além da porta da casa de Ágaton e possivelmente


de uma correspondente ao templo, que o texto não refere, de uma porta
não localizada, que servia apenas de passagem para o interior da ay.11v~ .
pela boca do Parente, 'ao sair a correr na figura de Perseu' (llEQfJEt'; b:!J(!<lIlc!J~'.
v. 1011). embora adiante o vocabulário se refira concretamente a voo (;raQÉ-
:TTETO, v. 101~ ; 1·(lI.'(1TOi.(~Jl·, v. 1101). Talvez seja mais conforme com a

••
De facto, o templo não seria o local indicado para o guarda amarrar o Parente sobriedade do texto nesta matéria pensar que o Euríp ides c ômico adoptasse
à canga e menos ainda para procurar uma esteira onde descansar durante a uma entrada grotesca, sugestiva da sua natureza alada, qu~ jJ texto apoiaria
vigilância. Diz ainda DOVER que, em casos destes, a porta da aX1]l", é ape- com a menção do voa. Sobre o assunto, cf. DlARor:-l. Tire st age of Aris-
nas um ponto de transição para um interior não definido . topltcnes, 82-S": .

•• 135 Só por ironia o Coro cita neste momento o nome do pintor Páuson,
que, dada a SUa pobreza. estava condenado a jejuar o ano inteiro (cf. Ach, 854,
PI. 602). .
l~ l Na trJJ;~J ía AlIiln illl ú/.l. ;IS 'queridas donze las, minhas :Imip . .
eram as joven s companheiras de Andr ómcda, que constitu íam o Coro
No caso presente. este vocativo é ridículo, porquanto as únicas mulheres

e 136 A dança de roda vem já mencionada na descrição do escudo de


presentes s10 as respons:lvcis pelo suplício da falsa donzela.

e Aquiles (11. XVIII. 599-601).


1';2 Um p éan era inicialmente um canto em honra de Apolo. embora


viesse depois a executar-se em homenagem a outras divindades.

132
e D3


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•.-
Mr.?Ofwttz:t.p,··..· "}II!!'IIIiI.lIilll"'IftI"'~o.;a....... ~

A Icnda não é uniforme ao referir o destino desta ninfa, para ten-


143
•_.
~
e
tar explicar a origem do eco: ora faz dela uma paixão do deus Pã, que Eco
não retribui, levando esse deus, para se vingar, a decidir que ela fosse destro-

••e
çada pelos pastores: ora a torna a amante não correspondida de Narciso,
De qualquer modo, para além da morte, a sua voz permanece para repetir
as últimas sílabas das palavras que ouve.
Ao que parece, a tragédia de Eur ípides abria com uma cena em que a
ninfa Eco, embora invisível, desempenhava importante papel, porquanto
era ela a única a responder aos lamentos de Andrômeda perdidos na noite.
BIBLIOGRAFIA
~
•~.
1.14 Cf. nota 113.

145 Embora houvesse, na mitologia, três Górgonas, geralmente esta


designação simples cabia a uma delas, a principal, Medusa. Eram monstros Edições :
que habitavam no Ocidente; eram representadas com a cabeça cercada de
serpentes e o seu olhar, de tal modo era penetrante , que petrificava quem as
encarasse, Só Perseu, graças à ajuda de Atena, foi capaz de decapitar a ; ~. . I '~ '"
R, CANTARELLA, Le Commedle, IV, Milano, 1949-1964.
V,. COULON. Aristophane, IV, Paris, Les Bel1es Lettres, reimpr. 1967.· •li•
Medusa, depois de neutralizar o efeito do seu olhar, servindo-se do escudo
como de um espelho.
Os conhecimentos mitológicos do Cita não vão, no entanto, tão longe.
O nome de G órgona lembra-lhe antes a figura de um escriba, por certo conhe-
J,

Estudos: ··
VAS LEEUWE:'\, Aristophanis Comoediae, Leiden, reimpr. 1968.

••
.'-•.-
cido em Atenas. Recordemos idêntica confusão que é feita pcla Segunda P. ARSOTT, Greek scenic conventions in the fifrb cent ury h. c..
Mulher em relação a Proteu (vv, 87';'-876).
K.
Oxford, 1962.
BRIZI, 'li mito di Telefo nei tragici greci", A&R 9, 1923, 9 5· 1~5 .
-I
O macaco é tomado como símbolo de astúcia e esperteza,
140 Para
R, CA:-'-rARELLA, 'Agatone ei1 prologo delle Tesmoforiazusae", in Komo i-
a referência aos dois animais, cf. Esopo. Fábulas 38 e 39.
dotragemata, Amsterdarn, 1967, 7·15.

147 A pérsica era uma dança efeminada e voluptuosa. Enquanto o D, .J. CONACHER, Eurlpldean drama: myth, theme aliei SIrl/CIU(C.
flautista acompanha a bailarina, Eurípides disfarça-se de velha. Toronto, 1967.

14~ O ;!W/lo; era o nome dado a um grupo festivo, que caminhava pelas
ruas ruidosamente. no meio de cantos e danças.
V. CRESCISI, 'Di Agatonc poeta trágico'. Rivista di Storia Antica 9.
1904, 7-30.
C. W. DEARDEJ', Thc stage of Aristoplianes, London , 1967. ••
Literalmente o texto grego diz : 'como uma pulga sobre lã' . A tra-
\49
dução que lhe fiz corresponder. embora seja um pouco descolorida em relação
K, J, DOVER, Aristophanic comedy; London, 1972.
V. EUREs8ERG, Tlie people o/ Aristophanes, Oxford, z1951. •e
••
3 cxpressividade do original, tem, no entanto. a vantagem de ser muito colo- G. M. A. GRUDE, Tire drama o/ Eurípides, London , reimpr. 1961.
quial em portugu ês.
R. HARR10TT, 'Aristophanes' audiencc and the pla~ s of Eur ipides.
150 Artcrnísia é o nome de urna rainha da C ária, conhecida pela sua
eics 9. 196~ . I-S.
inteligência e tacto . De novo esta alusão não é entendida pelo Cita , que
comicamente deturpa o nome. '
Foi este o texto por nó s utilizado para a tradução . ••
••
I ~I De um modo muito popula r. o guarda estabelece entre as duas As abreviaturas usadas, para autores e obras da Antigu idade grcg3. são
palavras, (1I'píl"j e y.uraflt{1iJ"jGo, uma falsa etimologia. de que resulta um as de LIDDELL-SCOTT, A GrLek-Englislr Iex icon; para a latina. as de LE W I ~
gracejo 1:1~) ao ~ osln do público de Atisr ófuncs. and SHORT, A La/in dictionary.

134 135
e
-j
. .•.ii '" " ." ..

r~;'
:e
•• R. HARRJOn, Aristophanes. Poet and dramatist, London, 1986.
W. J E:'-·5. Die Bauformen des gricchischen Tragõdie, M ünchcn, 1971.
e P. l[\'fQLT , A.;'(/thf11, Paris, 1955.

-
e

••
K.

H. W.
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Ar istopha ncs, CP;, 43, 1948, 17-1-183 .


\IILLE R,
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'Some tragic influcnces in the Thesmophariazusac of


Ari srophancs', TAPhA. 77, 19-t6, 171-182.

•• F. \l u C:"E, .A portrait oi lhe artist as a young \\,0111an', CQ 32. J. 1982.


-l1-55 .
G. \ll'RR.-\Y, Aristoplianes, A study; Oxford, rcimpr. 1968,
ÍNDICE

•e \1. !'\IL~50:-;. Grcek folk religion, Philadelphia, 1972.

G. P.~D l\ :" O. 'Le Tcsmoforia::us(1c : arn biguità dei


n. s. I!. 19S2, I 03- 1~ : .
fare teatro ', QUCC
lNTRODUÇ..\O

••
As mulheres que celebram as Tcs mofor ia s e a 5 ''::1 inserção na
A . W . P; n: .~RD·C\\IURlDGE , The dramauc festivais of Atltens, 2nd eu. produção drarnárica de Ar ist ófanes Q

revised by J . GOl"LD and D. L. LEWIS, Oxford, 1968.


Realizaç ão da crítica literária em As mulheres que celebram

•e
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Cara/do Parisio Slculo - Duas orações. Prólogo, tradução e notas de


MARIA ~lARG..\RlDA BRA:-;DÃO GO~IES DA SILVA. Introdução e revisão
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