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Material de apoio pedagógico à disciplina Harmonia e Contraponto III - 2016 Prof. Gabriel Ferrão Moreira Universidade Federal da Integração Latino-americana (UNILA)

Das Equivalências de Trítono e meios de preparação: o Acorde de Dominante Substituta (SubV7), a Dominante Alterada e a Dominante Disfarçada.

Nesse texto trabalharemos o conceito de equivalência de trítono como ponto de partida para entendermos a ampliação do número de acordes possíveis para a função Dominante (D). Dentro dos postulados diatônicos da tonalidade Clássica, à função Dominante foi permitido possuir apenas uma acorde "real", o V7.

No ambiente harmônico com tendência à expansão cromática do Romantismo, a função Dominante foi privilegiada com estratégias diversas que possibilitaram aumento do número de sonoridades disponíveis para desempenhá-la. O conceito-chave para entendermos de que maneira processou-se essa ampliação é o da Equivalência de Trítono.

A característica principal da função Dominante foi ser aquela responsável

por inserir o intervalo relativamente instável do trítono [formado entre a 3ª e 7ª da tétrade do quinto grau] dentro do contexto diatônico (fig.1)

do quinto grau] dentro do contexto diatônico (fig.1) Figura 1 A expansão do número de acordes

Figura 1

A expansão do número de acordes que podem desempenhar a função

Dominante está relacionada ao reconhecimento de outras harmonias que podem conter o mesmo trítono ou outro que contenha as mesmas notas (

que seja equivalente). Ao estudarmos os acordes diminutos, reconhecemos já essa condição quando, por enarmonia nas cifras, entendemos que quatro acordes diminutos poderiam desempenhar a função de um acorde dominante (fig.2)

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Federal da Integração Latino-americana (UNILA) Figura 2 Acordes diminutos que equivalem a G7 Assim,

Figura 2 Acordes diminutos que equivalem a G7

Assim, observamos que os acordes diminutos que possuem o mesmo trítono de G7 [sí-fá], partilham da função Dominante com esse acorde. Entretanto, nesse texto, falaremos de outros acordes que compartilham a função Dominante na literatura musical sem participar das gamas diatônicas da escala maior ou menor (nesse segundo caso, a escala de onde vem o diminuto).

Acorde de Sexta Aumentada

O primeiro desses acordes é o classificado como Acorde de Sexta

Aumentada pela teoria da harmonia na música de concerto e de SubV7 pela teoria da harmonia na música popular (Jazz Theory e derivações). Apesar das distinções entre os termos e sua aplicação nos repertórios que aparecem, percebemos semelhanças funcionais suficientes para incluí-los nesse tópico de forma conjugada.

O Acorde de Sexta Aumentada aparece na literatura da música de

concerto no modo menor (preferencialmente, embora possa ser emprestado ao modo maior). O intervalo de sexta aumentada surge sobre

o sexto grau do modo menor antecedendo a cadência no V

(semicadência). Os intervalos que constituem essa harmonia típica do acorde são, com relação ao baixo, 3ª maior e 6ª aumentada caracterizando o primeiro tipo de Acorde de Sexta Aumentada, a Sexta Aumentada Italiana (fig.3):

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Federal da Integração Latino-americana (UNILA) Figura 3 6ª aumentada italiana. Em verde, o intervalo de

Figura 3 6ª aumentada italiana. Em verde, o intervalo de sexta aumentada.

Pela sua natureza cromática - como explicar a nota Si em Fá menor no exemplo anterior? - o acorde gera problemas teóricos evidentes. Entretanto, observemos a figura 4:

teóricos evidentes. Entretanto, observemos a figura 4: Figura 4 Localização do trítono Fá-Si no acorde de

Figura 4 Localização do trítono Fá-Si no acorde de Sexta Aumentada.

Ao reconhecermos o trítono do Acorde de Sexta Aumentada e sua resolução no acorde seguinte, fica evidente o porquê desse acorde ser interpretado como (V7/V). O trítono do Acorde de Sexta Aumentada sobre a nota Réb é o mesmo do acorde de G7 (Fá-Si) e sua resolução também é a mesma: a nota Fá resolve em Mi e a nota Si resolve em Dó.

Há outras variações do Acorde de Sexta Aumentada:

-Quando adicionado de um intervalo de 5ªJ é chamado Sexta Alemã (fig.5a); -Quando adicionado de um intervalo de uma 4ªaum é chamado Sexta Francesa(fig.5b);

intervalo de uma 4ªaum é chamado Sexta Francesa(fig.5b); Figura 5 Acordes de Sexta Aumentada Alemã e

Figura 5 Acordes de Sexta Aumentada Alemã e Francesa e notas diferenciais (5ªJ e 4ªaum respectivamente)

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SubV7

Se fossemos cifrar o acorde de Sexta Aumentada da figura 4 de acordo com sua apresentação na partitura (já que por sua função harmônica de V7/V será considerado um G7 alterado) o chamaríamos Db(6#) [Réb Maior com Sexta Aumentada]. Entretanto, essa dissonância é incomum nos tratados de harmonia na música popular e é enarmonizada como 7ª menor. Assim, Db(#6) é comumente chamado de Db7 e interpretado com um "Acorde de Dominante substituta" ou "SubV7". A enarmonização da 6ª aumentada em 7ª menor reinterpreta o trítono Fá-Si como Fá-Dób, que são sonoridades Equivalentes (fig.6).

Fá-Dó b , que são sonoridades Equivalentes (fig.6). Figura 6: "Db7" como dominante substituta de G7

Figura 6: "Db7" como dominante substituta de G7

Essa enarmonia (de #6 para 7) gera o seguinte enunciado: posso substituir

o Acorde de G7 por Db7, pois eles tem trítonos equivalentes (Fá-Si/Fá-

Dób). Dessa prática de substituição de acordes com trítonos equivalentes

surge que a afirmação posso "preparar" quaisquer acordes com "outro acorde" que não é seu próprio V7 mas que tenha o mesmo trítono [não apenas o V, como no caso da Sexta Aumentada].

A substituição de acordes de preparação se dá na distância de trítono

entre as fundamentais. Assim, Db7 substitui G7 e vice versa [já que um intervalo de trítono invertido é outro trítono], D7 substitui Ab7 e vice

versa e assim por diante (fig.7). Outra forma de pensar essa relação é a

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seguinte: o acorde de chegada está sempre meio tom abaixo do de preparação.

chegada está sempre meio tom abaixo do de preparação . Figura 6 Tabela de acordes dominantes

Figura 6 Tabela de acordes dominantes e seus substitutos no campo harmônico de Dó Maior.

Dominante Alterada

Consideremos agora o SubV7 como uma alteração do acorde dominante "legítimo" da progressão, mais do que como uma substituição. Nesse caso, abordaríamos o Db7 da figura 6, como um G7 modificado (com a b5 no baixo). Agora pense nesse mesmo acorde na posição fundamental (fig.7). Temos uma dissonância não-diatônica sobre o V grau, a

4ªaumentada.

dissonância não-diatônica sobre o V grau, a 4ªaumentada. Figura 7 O acorde com 7ª e quinta

Figura 7 O acorde com 7ª e quinta alterada (#11)

As outras notas possíveis para o acorde podem ser encontradas na escala formada pela Sexta Aumentada. As tensões sobre cada acorde (o V-alt ou o SubV7) dependerão da nota que estiver no baixo já que a coleção de notas é a mesma, em ordem distinta. Leia a descrição abaixo e verifique a figura 8:

- Tomando como referência o acorde de Sexta Aumentada/SubV7 "Db7" teremos a escala Lídio b7 (literalmente a escala do sexto grau do modo menor [bVI] com a 6aum/b7 no lugar da 7M);

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- Se tomarmos como referência o acorde substituído G7, teremos a chamada Escala Alterada;

substituído G7 , teremos a chamada Escala Alterada ; Figura 8 Opções de meios de preparação

Figura 8 Opções de meios de preparação derivados da Sexta Aumentada e suas escalas respectivas com eixo na fundamental do acorde real. [Toque no seu instrumento!]

Reconhecemos a preferência pela sonoridade alterada através de cifras que articulem as tensões disponíveis próprias da escala, como G7(#9), G7(#9,b13), etc. A cifra G7-alt também é usual. De todas as escalas estudadas até o momento a com maior tensão e dissonância concentradas é a Alterada.

Dominante Disfarçada

Uma estratégia para uma utilização mais 'suave' das notas da Escala Alterada se dá pelo ordenamento de suas notas a partir da b9 (no caso em questão, a partir da nota Lá bemol). O uso da escala Menor Melódica na função Dominante, apesar da sonoridade familiar, quebra dois paradigmas seculares a respeito da função:

1) A função Dominante se manifesta sempre através de acordes maiores (V7, SubV7);

2) A tensão característica da função Dominante é a 7ª menor.

Aqui, o acorde Abm6 (Lá bemol menor com sexta), por possuir o trítono Si-Fá em sua composição [enarmonia de suas notas Fá e Dób], poderá disfarçar o acorde G7-Alt (fig.9). Por isso, acordes Menores com 6ª aplicados à função Dominante são chamados na literatura da harmonia na música popular - lugar onde esse procedimento se desenvolveu de maneira franca - de Dominantes Disfarçadas.

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Federal da Integração Latino-americana (UNILA) Figura 9 Abm6 com o trítono de G7 por enarmonia. Observe,

Figura 9 Abm6 com o trítono de G7 por enarmonia.

Observe, na figura 10, o quadro que organiza as três opções de acordes e escalas que estudamos, tendo como referência o acorde G7, V7 de Dó Maior. Todos correspondem à função Dominante de forma distinta pela presença das notas Fá-Si e resolução sobre o acorde de Dó (Maior, Menor ou Maior com 7ª). São acordes possíveis dentro do espectro cromático romântico, não diatônicos, mas que foram incorporados à música popular e de concerto em diferentes medidas.

à música popular e de concerto em diferentes medidas. Figura 10 Quadro referência das opções dominantes:

Figura 10 Quadro referência das opções dominantes: SubV7, Dominante Alterada e Acorde menor com sexta e suas respectivas escalas.