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MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL

Procuradoria da República no Estado do Piauí


Avenida João XXIII, n. 1390, Teresina/PI
http://www.mpf.mp.br/pi e-mail: prpi-cojur@mpf.mp.br

Exmo(a). Sr(a). Juiz(a) Federal da ____ Vara da Seção Judiciária do Estado do Piauí

Ref.: Inquérito Civil MPF/PR/PI nº 1.27.000.000348/2011-69

O Ministério Público Federal, ante as provas do inquérito civil de


número acima indicado, que segue anexo, e com fundamento no art. 129, incisos III e IX,
da Constituição da República; nos art. 5°, inciso III, alínea “b”, e 6º, inciso VII, alínea “b”,
da Lei Complementar 75/1993, e no art. 1º, inciso VIII, da Lei 7.347/1985, vem propor

AÇÃO CIVIL PÚBLICA


para ressarcimento de danos causados ao patrimônio público

em face de1

Federação das Associações de Moradores do Estado do Piauí


- FAMEPI, associação privada, CNPJ 23.498.769/0001-87,
representada por seu presidente, Raimundo Mendes da Rocha;

Raimundo Mendes da Rocha, CPF 150.848.333-72, RG 241.732


SSP/PI, com endereço na Rua Elizeu Martins, n. 1.161, Centro,
Teresina/PI, podendo também ser encontrado no Conjunto Dirceu
Arcoverde II, Quadra 253, Casa 23, Teresina/PI;

P. S. Souza & Cia Ltda. - Total Distribuidora, pessoa jurídica de


direito privado, CNPJ 03.477.139/0001-19, representada pelo
sócio-administrador Paulo André Cardoso de Souza; e

1 De já fica requerida a aplicação das regras dos §§ 2º e 3º do art. 319 do Código de Processo Civil (Lei
13.105/2015).
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Procuradoria da República no Estado do Piauí

Paulo André Cardoso de Souza, sócio-administrador da P. S.


Souza & Cia Ltda. - Total Distribuidora, com endereço na Rua
Miguel Furtado, n. 33, São Miguel do Tapuio/PI.

I – Da origem das provas que ensejam o ajuizamento desta ação

O Inquérito Civil MPF/PR/PI nº 1.27.000.000348/2011-69 foi


instaurado com base em notícia veiculada no Jornal “O Estado de São Paulo”
(www.estadao.com.br) que relatou suposta malversação de recursos públicos federais do
Programa Segundo Tempo – Ministério do Esporte repassados à Federação das
Associações de Moradores do Estado do Piauí (FAMEPI) por meio do Convênio nº
725057/2009-ME.

De acordo com a notícia veiculada no periódico, os núcleos


supostamente implantados para o desempenho das atividades esportivas custeadas
pelos recursos do convênio funcionavam de forma totalmente precária, tanto em termos
de estrutura física quanto em relação aos equipamentos para o desempenho das
modalidades esportivas e à alimentação que era servida às crianças e adolescentes
beneficiados com o projeto (fls. 18/192).

No curso da instrução do procedimento, foram apresentados pela


CAIXA extratos e documentos da movimentação da conta específica do Convênio nº
725057/2009-ME (Ag. 1989, Op. 003, C. 1.382-5, CAIXA), incluindo a identificação dos
beneficiários das operações de débito (fls. 44/89, 95/97 e 105/107). Em seguida, o
Ministério do Esporte encaminhou documentação referente à execução e fiscalização do
convênio (fls. 112/232). Após, o Secretário Nacional de Esporte enviou documentos e
mídia digital com a íntegra do Processo nº 58701.001986/2009-64, relativo ao convênio
investigado (fls. 259/283).

Na sequência, foram determinadas as diligências elencadas no


despacho de fls. 293/300, dentre as quais se destaca a requisição ao Coordenador-Geral
de Prestação de Contas do Ministério do Esporte de informações quanto ao julgamento
da tomada de contas especial do Convênio nº 725057/2009-ME, bem como o
encaminhamento de peças que instruíram a prestação de contas do ajuste. Em resposta,
foram enviados os documentos de fls. 326/393. Posteriormente, em complemento, foram
juntados os documentos de fls. 494/532. A Receita Federal do Brasil e a Secretaria da

2 Referências nesta petição às folhas dos autos conforme a numeração original aposta nesta Procuradoria
da República (sigla PR/PI), salvo expressa indicação em sentido diverso.

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Fazenda do Estado do Piauí também apresentaram documentos úteis ao esclarecimento


dos fatos (fls. 400/411 e 422/485).

Os documentos encaminhados pelo Ministério do Esporte, acima


mencionados, relativos à tomada de contas especial do convênio (parecer técnico,
parecer financeiro e relatório de tomada de contas especial), analisados em conjunto
com os relatórios das vistorias contemporâneas à execução do projeto, remetidos pelo
mesmo órgão (CD-R de fl. 283), demonstram que os recursos federais repassados por
força do Convênio nº 725057/2009-ME não foram aplicados em sua inteireza para a
consecução dos objetivos fixados no projeto básico, tendo sido desviados dessa
finalidade, assumindo destino desconhecido, visto que não devolvidos aos cofres
públicos.

II – Dos fundamentos do pedido

O Convênio nº 725057/2009-ME, firmado em 30/12/2009, teve


por objeto a implantação de 126 Núcleos de Esporte Educacional no Piauí, na capital e
interior, para atendimento de 12.600 crianças e jovens, conforme cláusula primeira do
instrumento do ajuste (fls. 123/141). De acordo com a proposta aprovada, os núcleos
funcionariam em espaços físicos cedidos em virtude de parcerias firmadas pela
convenente (FAMEPI), a exemplo de escolas, sedes de associações, dentre outros.

Em virtude de tal convênio, a União, por intermédio do


Ministério do Esporte, repassou à FAMEPI a quantia de R$ 4.210.800,00, em duas
parcelas iguais de R$ 2.105.400,00, creditadas em conta específica (Ag. 1989, Op. 003,
C. 1.382-5, CAIXA) nas datas 04/06/2010 e 04/01/2011 (fls. 96/97). Destaca-se que o
valor total de recursos para execução do projeto era de R$ 4.597.350,00. A diferença de
R$ 386.550,00 corresponderia à contrapartida a cargo da convenente, na forma de bens
e serviços economicamente mensuráveis, nos termos da cláusula quarta do convênio (fl.
129).

A proposta orçamentária aprovada detalhou os seguintes


gastos para a execução do convênio (fls. 537/5453):

3 Cf. CD-R de fl. 283 (pp. 87/95 do arquivo “I volume.pdf”).

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O convênio, após a devida fase de estruturação do projeto,


teve o início de sua execução (atendimento aos beneficiários) autorizado para o dia
25/8/2010 (fl. 5464), com efetivo início em 27/08/2010 (fl. 499), permanecendo vigente até
29/8/2011 (fls. 547/5495). As contas deveriam ser apresentadas no prazo de 60 dias após
o termo final de vigência, prazo esse estendido até 25/12/2011, conforme comunicação
de fl. 231.

Ao fim do prazo estipulado, a entidade convenente


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encaminhou ao Ministério do Esporte a prestação de contas (fl. 550 ). Entretanto, foram
detectadas pendências que impossibilitaram a emissão de parecer conclusivo sobre o
cumprimento do objeto. Tal fato ensejou diligência consistente na notificação do
representante da convenente para apresentar justificativas/documentos complementares
(fl. 5517). A inércia no cumprimento dessa diligência provocou a reprovação das contas,
nos termos do Parecer Financeiro nº 106/2014 – CPREC/CGPCO/DGI/SE/ME (fls. 271-
v/272), e a inscrição da FAMEPI e do seu presidente como responsáveis solidários pelo
débito de R$ 5.905.512,84, valor atualizado dos recursos repassados pela União para a
execução do convênio (fls. 272-v/280).

Sobre a correta aplicação dos recursos financeiros


repassados, é importante destacar que, embora não tenha havido, quando do julgamento
das contas, acima mencionado, a análise do cumprimento do objeto conveniado pelo
órgão concedente, em razão da ausência de documentos essenciais, foram realizadas,
por ensejo do acompanhamento e fiscalização da execução do convênio, análises
pontuais, visitas e vistorias por equipe técnica do Ministério do Esporte, cujos relatórios
trouxeram informações importantes sobre a execução do objeto pactuado, os quais,
4 Cf. CD-R de fl. 283 (p. 184 do “III volume.pdf”).

5 Cf. CD-R de fl. 283 (pp. 67/69 do “V volume 2ª parte.pdf”).

6 Cf. CD-R de fl. 283 (p. 125 do “VII volume 2ª parte.pdf”).

7 Cf. CD-R de fl. 283 (p. 126 do “VII volume 2ª parte.pdf”).

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inclusive, forneceram os elementos para a reanálise da tomada de contas especial,


consoante Parecer Técnico nº 42/2015 (fls. 497/512).

Quanto às vistorias, entre os dias 21/2/2011 e 5/3/2011


foram visitados os núcleos da Federação Piauiense de Judô, Amarante II, Campo Maior
IV – Comercial Esporte Clube, Floriano II – Colégio Municipal Antônio Nivaldo, Campo
Largo do Piauí I, Marcos Parente, Palmeirais I – Colégio Maria Marinheira Veloso,
Cajueiro da Praia II, Parnaíba II, Alagoinha I, Isaías Coelho, São João da Canabrava II,
São José do Piauí II, Mocambinho, Areias, Barão de Itararé e Alto da Ressurreição (fls.
552/5558). No período de 2/3/2011 a 4/3/2011, para averiguar as irregularidades
apontadas em matéria do jornal “O Estado de São Paulo”, foram realizadas vistorias em
11 núcleos do projeto, a saber: Núcleo Mocambinho, Núcleo 8º Batalhão Tia Júlia,
Núcleo Areias, Núcleo Campo Maior I Cruz Azul, Núcleo Campo Maior I Nossa Senhora
de Fátima, Núcleo Campo Maior IV Comercial Esporte Clube, Núcleo Campo Maior III
Esporte Clube, Núcleo Barão de Itararé, Núcleo Barão do Itararé II e III Tia Júlia Mello,
Núcleo Boa Esperança e Núcleo Dom Helder (Relatório de Vistoria Técnica nº 05/2011 -
fls. 190/209). Entre os dias 20/6/2011 e 13/7/2011, foi realizada a segunda visita aos
núcleos do projeto, cujo roteiro contemplou São José do Piauí, Marcos Parente,
Beneditinos, Vila Santa Helena, Curralinhos, Piçarreira, Portal do Sul, São Gonçalo do
Piauí, Campo Maior IV, Federação Piauiense de Judô, Tanque do Piauí, Isaías Coelho,
São João da Canabrava I, Várzea Grande II, Oeiras II, Cajueiro da Praia II, Campo Largo
do Piauí, Nossa Senhora dos Remédios, Parnaíba II, Pedro II I, Inhuma, Amarante II,
Paulistana III, Floriano II, Palmeirais e Pimenteiras. O relatório dessa última visita
encontra-se nas fls.556/5949.

Os relatórios das vistorias e visitas acima destacadas


descrevem constatações de inúmeras irregularidades na execução do objeto do
convênio, que consubstanciam a inobservância de diversos aspectos do plano de
trabalho. Com efeito, foram verificados problemas quanto à ausência de identificação
visual dos núcleos por meio da pintura da logomarca do projeto na parte externa dos
prédios onde se desenvolviam as atividades; núcleos implantados em locais diversos dos
informados no plano de trabalho; atraso do início das atividades em alguns núcleos;
ofertas de menos atividades do que as previstas no plano de trabalho; deficiência no
controle de frequência dos beneficiários nas atividades dos núcleos; falta de qualificação
adequada dos prestadores de serviço; falha na atuação dos coordenadores de alguns
núcleos, que não desenvolvem atividades esportivas junto com o monitor ou que sequer
8 Cf. CD-R de fl. 283 (pp. 24/27 do “V volume 2ª parte”).

9 Cf. CD-R de fl. 283 (pp.19/57 do “VII volume 2ª parte”).

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compareciam ao núcleo; ausência de planejamento pedagógico e planos de aula, dentre


outros.

Além das impropriedades acima elencadas, sobressaem-se


nos relatórios de visitas/vistorias dados que indicam que não houve a boa e regular
aplicação dos recursos do convênio, especialmente aqueles reservados à remuneração
dos prestadores de serviço e ao pagamento dos gêneros alimentícios adquiridos
para o reforço alimentar das crianças e adolescentes beneficiários do projeto.

Como visto, a proposta orçamentária do Programa Segundo


Tempo, a ser executado pela FAMEPI entre os anos de 2010 e 2011, previu um montante
de R$ 2.421.600,00, correspondente ao gasto com “recursos humanos”, que se
destinava à remuneração de 1 coordenador-geral (R$ 1.200,00 mensais), 1 coordenador
pedagógico (R$ 2.400,00 mensais), 6 coordenadores setoriais (R$ 1.100,00 mensais) e,
em cada núcleo, 1 coordenador de núcleo (R$ 900,00 mensais), 1 monitor de atividades
esportivas (R$ 450,00 mensais) e 1 monitor de atividades complementares (R$ 225,00
mensais), consoante o projeto básico (fls. 595/596) 10. O pagamento do monitor de
atividades complementares seria arcado pela convenente, a título de contrapartida em
bens e serviços economicamente mensuráveis, conforme cláusula quarta do convênio (fl.
129) e projeto básico (fl. 59711).

De acordo com o Relatório de Vistoria Técnica nº 05/2011 (fls.


190/209), em nenhum dos onze núcleos visitados 12 havia a figura do monitor de
atividades complementares, ao qual, segundo o plano de trabalho, caberia dialogar com
as crianças sobre atividades orientadas à saúde e atividades ambientais, consoante
projeto básico (fl. 59813). No lugar do aludido profissional, foi encontrado um auxiliar que
desempenhava a função de serviços gerais, atuando na limpeza e preparo de
alimentação. A contraprestação por esse serviço, em vez de custeada pela convenente,
era paga pelo coordenador do núcleo, que descontava do seu salário de R$ 900,00 a
importância de R$ 250,00 para remunerar o referido “auxiliar”, em claro desrespeito aos
termos do convênio e ao projeto básico, que previu a remuneração do monitor de

10 Cf. CD-R de fl. 283 (pp. 39/40 do “I volume.pdf”).

11 Cf. CD-R de fl. 283 (p. 45 do “I volume.pdf”).

12 Núcleo Mocambinho, Núcleo 8º Batalhão Tia Júlia, Núcleo Areias, Núcleo Campo Maior I Cruz Azul,
Núcleo Campo Maior I Nossa Senhora de Fátima, Núcleo Campo Maior IV Comercial Esporte Clube,
Núcleo Campo Maior III Esporte Clube, Núcleo Barão de Itararé, Núcleo Barão do Itararé II e III Tia
Júlia Mello, Núcleo Boa Esperança, Núcleo Dom Helder.

13 Cf. CD-R de fl. 283 (p. 35 do “I volume.pdf”).

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atividades complementares com o valor da contrapartida a cargo da convenente. A


justificativa apresentada pela FAMEPI para essa situação faz referência à solidariedade
entre os profissionais, que os levam a repartir o valor que ganham (fls. 599/600 14). Essa
irregularidade é reafirmada no Parecer Técnico de Avaliação de Cumprimento de Objeto
nº 42/2015 (fls. 497/512), no qual se considerou cumprido parcialmente o item “recursos
humanos”.

No que se refere ao gasto com alimentação, para o


fornecimento de gêneros alimentícios destinados ao reforço alimentar previsto no
projeto foi contratada pela FAMEPI a empresa P. S. Souza & Cia Ltda. - Total
Distribuidora, vencedora do Pregão Presencial nº 001/2010 – FAMEPI, sendo-lhe
adjudicado o objeto descrito na tabela abaixo (fls. 147/148):

Item Descrição Unid. Quant. Valor


Unit.
1 Biscoito salgado tipo cream cracker kg 45.000 5,25
2 Achocolatado em pó instantâneo kg 35.000 7,60
3 Macarrão tipo espaguete sem ovos kg 18.400 5,00
4 Rapadura natural em tabletes kg 8.000 7,50
5 Sardinha em óleo, lata de 130g kg 12.700 17,20
6 Suco concentrado de frutas, sabores variados l 9.000 5,20
7 Banana prata, em pencas cento 5.000 20,50
8 Carne bovina, moída kg 12.000 6,20
9 Doces de diversos sabores kg 8.000 7,70
10 Cajuína 500 ml garrafa 18.000 2,50
11 Iogurte, saco com 1.000ml l 30.000 2,75
12 Pão massa fina kg 30.000 6,80
13 Queijo tipo coalho kg 8.000 13,20

No ensejo do fornecimento, a contratada emitiu as notas fiscais


ns. 087, 112 e 117, nos dias 7/6/2010, 5/11/2010 e 4/1/2011, com valores de R$
799.140,09, R$ 263.650,00 e R$ 536.102,25, respectivamente (fls. 601/609 15). Os
documentos fiscais mencionados contemplam a venda de todos os produtos alimentícios
descritos no termo de adjudicação, com uma pequena diferença em relação às
quantidades e valores pactuados, consoante Parecer Técnico de Avaliação de
Cumprimento de Objeto nº 42/2015 (fls. 497/512). Observe-se que o referido parecer

14 Cf. CD-R de fl. 283 (pp. 65/66 do “VI volume.pdf”).

15 Cf. CD-R de fl. 283 (pp. 39/47 do “V volume 1ª parte”)

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técnico registra também a existência da Nota Fiscal nº 118, não localizada nos autos,
emitida no dia 3/2/2011 pela P. S. Souza & Cia Ltda. - Total Distribuidora, conforme
tabela de discriminação dos itens e quantitativos adquiridos16 (fls. 506/508).

Contudo, na primeira visita aos núcleos realizada pela equipe


técnica do Ministério do Esporte ficou constatado que no núcleo de Marcos Parente/PI
era ofertado apenas suco e biscoito (fls. 552/555). Demonstrando não se tratar de um
caso isolado, na segunda visita, a principal reclamação dos alunos era a de falta de
diversidade e qualidade da alimentação oferecida. Em vários núcleos, localizados em
municípios distintos, os alunos informaram que o lanche servido era suco de caju e
biscoito todos os dias (fls. 556/594). Na vistoria realizada entre os dias 2 e 4/3/2011
constatou-se que alguns itens do cardápio (rapadura, pão de queijo, carne desfiada e
fruta) jamais tinham sido servidos nos núcleos visitados (Relatório de Vistoria Técnica nº
05/2011 - fls. 190/209). Ainda sobre o item “reforço alimentar”, cumpre consignar, em
ratificação ao já exposto nos relatórios acima mencionados, a conclusão de procedência
parcial dos fatos noticiados na imprensa, confirmando a divergência entre o reforço
alimentar pactuado (e adquirido pela convenente) e o efetivamente ofertado (Informação
nº 01/2011 – fls. 610/61617).

O Parecer Técnico de Avaliação de Cumprimento de Objeto nº


42/2015 (fls. 497/512) também consignou as impropriedades detectadas nas visitas e
vistorias acima mencionadas, relativas à ausência de determinados itens do cardápio,
que não foram oferecidos nos núcleos visitados. Em decorrência, a ação “reforço
alimentar” foi considerada parcialmente cumprida.

Ainda com relação aos gêneros alimentícios adquiridos para o


lanche dos beneficiários do projeto, a Receita Federal do Brasil encaminhou relatórios
das notas fiscais emitidas entre janeiro de 2009 e janeiro de 2011 por fornecedores da P.
S. Souza & Cia Ltda. - Total Distribuidora (fls. 400/411) nas quais constam produtos
iguais ou semelhantes aos discriminados nas notas fiscais nº 087, 112 e 117, de onde
se infere que os produtos vendidos à FAMEPI não guardam compatibilidade em
termos de quantidade com os produtos adquiridos por aquela empresa para
posterior revenda. Ademais, alguns itens do cardápio (queijo, rapadura, pão, iogurte e
cajuína, por exemplo) não constam nas notas fiscais emitidas pelos fornecedores da P.
S. Souza & Cia Ltda. - Total Distribuidora. Os relatórios elaborados pela Gerência de

16 De acordo com a soma dos itens descritos na tabela de fls. 506/506, extrato da conta bancária (fls. 96/97e
106/107) e Relatório SEFAZ/PI de fl. 448, o valor da NF 118 foi R$ 64.300,00.

17 Cf. CD-R de fl. 283 (pp. 91/97 do “V volume 2ª parte.pdf”)

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Auditoria Fiscal da SEFAZ/PI (fls. 448/483) também demonstram uma discrepância


significativa entre as operações de compra da P. S. Souza & Cia Ltda. - Total
Distribuidora e os itens revendidos à FAMEPI. Essas informações reforçam as
constatações obtidas nas vistorias e visitas realizadas pelo Ministério do Esporte nos
núcleos do projeto, concernentes à ausência de gêneros alimentícios previstos no
cardápio.

No que se refere ao item material esportivo e suplementar,


embora não tenha sido detectada a ausência desses materiais nos núcleos visitados, o
Parecer Técnico de Avaliação de Cumprimento de Objeto nº 42/2015 (fls. 497/512)
consignou que houve uma sobra de recursos, tendo em vista que o valor orçado para
esse item foi de R$ 126.000,00 e os materiais adquiridos alcançaram apenas o montante
de R$ 81.560,00, sem que a convenente tenha solicitado a aplicação do saldo restante
ou a sua devolução aos cofres públicos.

A situação acima descrita indica o descumprimento do


Convênio não apenas no seu aspecto formal, mas também no que se refere à correta
aplicação dos recursos públicos federais, caracterizando prova de desvio do dinheiro
destinado à remuneração dos prestadores de serviço, à alimentação das crianças e
adolescentes envolvidos no projeto e ao material esportivo/suplementar, situação que
faz surgir o dever de ressarcir aos cofres públicos o valor não aplicado nas ações
do programa.

Note-se nos extratos de fls. 96/97 que a quase totalidade do


valor do convênio foi debitado da sua conta específica, remanescendo apenas a
pequena quantia de R$ 607,56. Registre-se, ainda, que após o processamento da
tomada de contas especial do Convênio (fls. 514/521), houve aprovação parcial da
prestação de contas final (fl. 530), fundamentada no Parecer Financeiro Complementar
nº 002/2016 (fls. 522/529), tendo sido o processo respectivo enviado para julgamento do
TCU, ainda pendente de análise, consoante extrato de consulta de fl. 617.

O prejuízo decorrente do manejo irregular das verbas do


convênio deve ser atribuído de forma solidária aos requeridos Federação das
Associações de Moradores do Estado do Piauí – FAMEPI e Raimundo Mendes da
Rocha, os quais deverão ser condenados ao ressarcimento do dano provocado ao erário
federal. De acordo com o art. 47 do Código Civil, “obrigam a pessoa jurídica os atos dos
administradores, exercidos nos limites de seus poderes definidos no ato constitutivo”.
Assim, as pessoas jurídicas, que têm existência própria, respondem pelas obrigações

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assumidas perante terceiros, desde que regularmente representadas por


administradores que ajam no limite dos poderes que lhes foram outorgados. Por outro
lado, no caso específico em que o Estado transfere recursos para uma entidade privada,
para a consecução de um objetivo público, a situação do administrador da pessoa
jurídica equivale à do agente público, em razão do múnus que recebe. Em tal situação, é
indiscutível que as decisões tomadas pelo administrador da entidade privada é que
determinam o destino a ser dado aos recursos públicos recebidos, o que faz com que ele
seja pessoalmente obrigado a comprovar, mediante prestação de contas, a correta
aplicação dos recursos públicos18. Pela mesma razão, está coobrigado junto com a
pessoa jurídica que administra a ressarcir o prejuízo decorrente do manejo irregular de
tais valores.

Os requeridos P. S. Souza & Cia Ltda. - Total Distribuidora e


Paulo André Cardoso de Souza também devem ser condenados, em solidariedade
com os demais requeridos, a devolver ao erário a quantia abaixo apurada, recebida a
título de pagamento pelos itens constantes nas notas fiscais de venda dos gêneros
alimentícios que não foram efetivamente fornecidos aos beneficiários do projeto,
conforme provas coligidas aos autos. Os atos ilícitos perpetrados em nome da empresa
podem ser reconhecidos com excesso de mandato (teoria ultra vires), autorizando a
aplicação da teoria consagrada no art. 50 do Código Civil - embora sem prejuízo, no
caso, da responsabilização solidária da pessoa jurídica que recebeu o pagamento
indevido.

III – Da estimativa do dano material ao erário

Como visto, para a execução do Convênio nº 725057/2009-ME, a


União, por intermédio do Ministério do Esporte, repassou à FAMEPI a quantia de R$
4.210.800,00, em duas parcelas iguais de R$ 2.105.400,00, creditadas na conta
específica do convênio (Ag. 1989, Op. 003, C. 1.382-5, CAIXA) nas datas de 4/6/2010 e
de 4/1/2011 (fls. 96/97).

Os fatos apurados demonstram que não houve a regular


aplicação dos recursos federais recebidos. As irregularidades detectadas na execução
do Convênio permearam as três ações previstas no projeto básico, a saber, "recursos
humanos", "reforço alimentar" e "material esportivo e suplementar", o que se infere dos
dados coletados nas inspeções in loco do Ministério do Esporte, mediante visitas aos

18 STF-MS n° 21.644 - DF - Rel. Min. Néri da Silveira.

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núcleos do projeto. Essa situação faz surgir, por si só, o dever de reparar o dano
provocado ao patrimônio público.

A verificação da correta aplicação dos recursos públicos é


viabilizada por meio da prestação de contas dos recursos recebidos, dever fundamental
a que se submete toda pessoa física ou jurídica, pública ou privada, que utilize,
arrecade, guarde, gerencie ou administre dinheiros, bens e valores públicos, nos termos
do art. 70, parágrafo único, da Constituição da República. O dever de prestar contas,
também previsto na legislação específica, é corolário dos princípios constitucionais da
publicidade e da legalidade, que informam toda a atuação da Administração Pública no
País. Nessa perspectiva, a omissão na prestação de contas e a ausência ou insuficiência
de documentos exigidos compromete o exame da boa e regular aplicação dos recursos,
eis que impossibilita o órgão responsável pelo julgamento da contas de averiguar a
compatibilidade entre os pagamentos custeados com os recursos públicos e as ações
executadas. Na verdade, a omissão da prestação de contas e a insuficiência dos
documentos apresentados é um artifício comumente utilizado com a intenção de fazer
prevalecer a dúvida em favor do responsável por malversação de recursos públicos.

No caso específico do Convênio nº 725057/2009-ME, o requerido


Raimundo Mendes da Rocha, presidente da FAMEPI, responsável pessoal pela
prestação de contas dos recursos federais recebidos por força do aludido ajuste, deixou
de instruir a prestação de contas final com documentos obrigatórios, que eram
essenciais para a verificação da aplicação dos recursos na consecução dos objetivos
traçados no projeto básico. Com efeito, de acordo com os documentos de fls. 262/272,
especialmente o Parecer Financeiro nº 106/2014 (fls. 271-v/272), o requerido não inseriu
os dados da prestação de contas no Sistema de Gestão de Convênios e Contratos de
Repasse (SICONV), conforme dispõe o art. 3º da Portaria Interministerial MP/MF/CGU nº
507, de 24 de novembro de 201119, que revogou a Portaria Interministerial MP/MF/CGU
nº 127, de 29 de maio de 2008.

Tal situação levou à reprovação total da prestação de contas do


convênio em relação aos recursos federais repassados à convenente (R$ 4.210.800,00),
resultando no registro da inadimplência do valor atualizado de R$ 5.905.512,84 e na
inscrição dos requeridos Federação das Associações de Moradores do Estado do

19 Art. 3º Os atos e os procedimentos relativos à formalização, execução, acompanhamento, prestação de


contas e informações acerca de tomada de contas especial dos convênios e termos de parceria serão
realizados no Sistema de Gestão de Convênios e Contratos de Repasse - SICONV, aberto à consulta
pública, por meio do Portal dos Convênios.

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Piauí – FAMEPI e Raimundo Mendes da Rocha como responsáveis pelo débito (fls.
272-v/282), culminando, ainda, na instauração de tomada de contas especial.

O tomador de contas, no primeiro relatório da tomada de contas


especial, também entendeu que o dano ao erário perfazia o montante total dos recursos
federais transferidos para a execução do convênio, ou seja, R$ 4.210.800,00, devido à
ausência da inserção da prestação de contas no SICONV, a ser ressarcido pela
convenente e por seu presidente, ora requeridos.

Contudo, após a avaliação da Controladoria-Geral da União


(CGU) o processo foi devolvido para uma reanálise acerca do cumprimento do objeto.
Nesse contexto, foram produzidos o Parecer Técnico de Avaliação de Cumprimento do
Objeto nº 42/2015 (fls. 497/512), o Parecer Financeiro Complementar nº 002/2016 (fls.
522/529) e o Relatório de TCE Complementar nº 002/2016 (fls. 514/521). Tais
documentos, aliados aos dados coletados in loco durante a execução do convênio,
servem de orientação para uma quantificação, por estimativa, do dano provocado ao
erário, haja vista que a ausência da correta prestação de contas inviabiliza aferir com
exatidão o destino dado aos recursos públicos.

Conforme antes destacado (cf. tabela acima), o orçamento do


convênio contemplou a execução de três ações para serem custeadas com os recursos
oriundos do orçamento da União. Para a ação “material esportivo e suplementar” foi
previsto o valor de R$ 126.000,00; para o item “recursos humanos”, o valor de R$
2.241.600,00; e para a etapa “reforço alimentar”, a quantia de R$ 1.663.200,00.

O Parecer Financeiro Complementar nº 002/2016 (fls. 522/529),


elaborado para subsidiar a reanálise da tomada de contas especial do convênio,
considerou como efetivamente executado apenas o montante de R$ 447.861,26,
referente a uma parcela do valor destinado para o item “reforço alimentar”. Em
relação aos demais itens previstos no orçamento, houve reprovação integral das contas,
tendo em vista a ausência de documentos na prestação de contas que permitissem
avaliar os gastos realizados. Nesse contexto, considerando o valor total repassado (R$
4.210.800,00), apontou-se um prejuízo de R$ 3.762.938,74.

Para chegar ao montante de R$ 447.861,26, valor reputado como


executado, a área técnica do órgão concedente realizou a comparação entre os valores
das notas fiscais apresentadas, referente ao gasto com alimentação, e os débitos
constantes nos extratos bancários da conta específica do convênio. Nessa análise, tendo

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em vista que foram juntados aos autos da prestação de contas apenas as notas fiscais
ns. 087, 112 e 117, datadas de 7/6/2010, 5/11/2010 e 4/1/2011, com valores de R$
799.140,09, R$ 263.650,00 e R$ 536.102,25, e o extrato bancário do período
compreendido entre 03/11/2010 e 03/03/2011, foram desconsideradas as notas fiscais nº
087 e 118, a primeira porque emitida em período não compreendido no extrato bancário
juntado e a segunda porque não anexada aos autos da prestação de contas. Assim,
foram consideradas apenas as notas fiscais ns. 112 e 117, com valores de R$
263.650,00 e R$ 536.102,25, totalizando a quantia de R$ 799.752,25. Ainda, tendo em
vista que a área técnica atestara que houve atendimento de apenas 56% dos
beneficiários do projeto, esse percentual foi aplicado sobre a quantia supra, chegando-se
ao montante de R$ 447.861,26, conforme tabela abaixo:

Valor da Nota Fiscal Percentual de 56% considerado Valores nominais glosados das
notas
R$ 263.650,00 R$ 147.644,00 R$ 89.006,00
R$ 536.102,25 R$ 300.217,26 R$ 235.884,99
Total R$ 447.861,26 R$ 324.890,99

Contudo, tendo em vista os documentos juntados aos autos do


inquérito civil, e valendo-se do mesmo critério utilizado pela concedente, que considerou
como executados os valores das notas fiscais que apresentavam nexo de causalidade
com os débitos da conta corrente específica do convênio, também devem ser
considerados no cálculo os valores das notas fiscais ns. 087 e 118. Isso porque o
valor da Nota Fiscal nº 087, emitida no dia 07/06/2010, embora não conste no extrato
juntado na prestação de contas, já que este contemplou apenas o período de 03/11/2010
e 03/03/2011, encontra-se nos extratos bancários e planilhas encaminhados pela CAIXA
(fls. 95/97 e 105/107), em que se verifica a exata correspondência entre o valor do
aludido documento fiscal e o débito de R$ 799.140,09, realizado no dia 09/06/2010.
Quanto à Nota Fiscal 118, conquanto não localizada nos autos, verifica-se que os itens
constantes no referido documento fiscal foram considerados no Parecer Técnico de
Cumprimento do Objeto nº 42/2015 (item 5.4. Do reforço alimentar – fls. 506/508),
alcançando a soma de R$ 64.300,00. Ademais, o referido documento fiscal consta em
relatório encaminhado pela SEFAZ/PI, tendo sido emitida no dia 03/02/2011 (fl. 448). Por
último, o valor da referida nota fiscal coincide com o débito de R$ 64.300,00 feito na
conta corrente do convênio, consoante extratos bancários e planilha de fls. 95/97 e
105/107.

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Por outro lado, no que se refere ao item “reforço alimentar”,


embora devam ser considerados no cálculo todas as quatro notas fiscais emitidas pela P.
S. Souza & Cia Ltda. - Total Distribuidora (notas fiscais 087, 112, 117 e 118), é preciso
levar em conta que nem todos os produtos constantes nas notas fiscais foram fornecidos
aos beneficiários do projeto, nem constam na relação de produtos que ingressaram no
estoque da empresa, conforme relatórios das notas fiscais emitidas pelos fornecedores
da P. S. Souza & Cia Ltda. - Total Distribuidora.

Com efeito, de acordo com o relatório produzido pela equipe


técnica do Ministério do Esporte, em decorrência da primeira visita aos núcleos do
projeto, ficou constatado que no núcleo de Marcos Parente/PI era ofertado apenas suco
e biscoito (fls. 552/555). Na segunda visita, a principal reclamação dos alunos era a de
falta de diversidade e qualidade da alimentação oferecida. Em vários núcleos,
localizados em municípios distintos, os alunos informaram que o lanche servido era suco
de caju e biscoito com gosto desagradável todos os dias (fls. 556/594). Na vistoria
realizada entre os dias 2 e 4/3/2011 constatou-se que alguns itens do cardápio
(rapadura, pão de queijo, carne desfiada e fruta) jamais tinham sido servidos nos núcleos
visitados (Relatório de Vistoria Técnica nº 05/2011 - fls. 190/209).

As informações acima coadunam-se com os dados encaminhados


pela Receita Federal e pela SEFAZ/PI (fls. 406/407, 410/411 e 449/461), que não
lograram localizar notas fiscais emitidas pelos fornecedores da P. S. Souza & Cia Ltda. -
Total Distribuidora contemplando os seguintes produtos: rapadura (8.308kg), doce
(9.310kg), cajuína (18.513 garrafas), iogurte (30.230l), pão massa fina (27.230kg) e
queijo tipo coalho (19.658kg).

Dessarte, tendo em vista as informações coletadas in loco e os


dados obtidos dos órgãos fazendários federal e estadual, devem ser considerados
como não fornecidos os seguintes itens constantes nas notas fiscais: rapadura,
banana, carne bovina moída, doce, cajuína, iogurte, pão e queijo.
Consequentemente, os valores concernentes a esses produtos devem ser tidos como
não executados. Ademais, considerando que o percentual de atendimento dos
beneficiários ficou muito aquém da meta prevista (item 5.2. Dos Beneficiados – fls.
500/503) e que a quantidade de alimento adquirido tinha por base o número de crianças
e adolescentes a serem atendidos, consoante declaração de fl. 149, é de se reputar que
apenas cerca de 50% dos demais produtos constantes nas notas fiscais foram
efetivamente destinados para o reforço alimentar previsto. Diante disso, tem-se que do
valor total previsto para o reforço alimentar, houve a correta aplicação de apenas

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R$ 428.784,17, que corresponde a 50% do valor dos produtos biscoito salgado,


achocolatado em pó, macarrão, sardinha, suco e biscoito doce, constantes na tabela de
fls. 506/508.

Quanto ao item “material esportivo e suplementar”, para cuja


aquisição foi destinado o valor de R$ 126.000,00, sendo R$ 56.700,00 para o pagamento
de 1.000 quimonos e R$ 69.300,00 para o pagamento de 2.772 abadás, observa-se que
a compra foi realizada pelo preço de R$ 81.560,60. Ou seja, houve uma economia de
recursos. Contudo, embora a ação tenha sido considerado cumprida, nos termos do
Parecer Técnico de Avaliação de Cumprimento do Objeto nº 42/2015, a entidade
convenente não devolveu a sobra de valores aos cofres públicos e nem solicitou a
utilização do saldo em prol de outras ações (item 5.5. Dos Materiais Suplementares –
509/510). Assim, em relação ao item material esportivo e suplementar, deverá ser
considerado como executado o valor de R$ 81.560,60, remanescendo a quantia de
R$ 44.439,40 para ser devolvida aos cofres públicos.

Quanto ao item “recursos humanos”, não houve a inserção no


SICONV de contratos, recibos de pagamento ou quaisquer comprovantes relativos aos
prestadores de serviços vinculados às atividades do projeto, tendo sido anexados na
prestação de contas alguns poucos comprovantes de pagamento, consoante Parecer
Técnico de Avaliação de Cumprimento de Objeto nº 42/2015 (item 5.3. Dos Recursos
Humanos – fls. 503/505). Nos termos do Parecer Financeiro Complementar nº 002/2016
(parágrafo 9 – fl. 524), a convenente não encaminhou os relatórios de pagamentos
efetuados, de receita, de despesa, de conciliação bancária e relatório financeiro do plano
de trabalho, em que deveriam constar os valores efetivamente movimentados e quais
despesas foram realizadas em relação às metas pactuadas. Nesse contexto, uma vez
inviabilizada a verificação da correta aplicação das verbas públicas reservadas ao
pagamento de prestadores de serviço (recursos humanos), por conta da ausência
da devida prestação de contas dos recursos recebidos, reputa-se como não
executado o montante de R$ 2.421.600,00.

Dessa forma, nos termos acima explicitados, estima-se um


prejuízo ao erário federal no valor original de R$ 3.700.455,23 (R$ 1.234.415,83 + R$
44.439,40 + 2.421.600,00), correspondente ao valor não aplicado no cumprimento do
objeto do Convênio nº 725057/2009-ME.

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IV – Da legitimidade ativa do Ministério Público Federal

A presente ação é ajuizada com a finalidade de que os requeridos


sejam condenados ao ressarcimento de parte do valor repassado pelo Ministério do
Esporte, por força do Convênio nº 725057/2009-ME, para a implantação de núcleos de
esporte educacional no âmbito do Programa Segundo Tempo. O montante a ser
devolvido corresponde à parcela dos recursos recebida pela primeira requerida e não
aplicada nas finalidades do convênio.

A legitimidade para o ajuizamento da presente ação tem


fundamento no art. 129, inciso III, da Constituição da República, que atribui ao Ministério
Público a função de promover, mediante ação civil pública, a defesa do patrimônio
público e social, bem como de outros interesses difusos e coletivos.

Da mesma forma, o preceito inscrito no art. 5º, inciso III, alínea


“b”, da Lei Complementar 75/1993, que inclui, dentre os bens e interesses a serem
defendidos pelo Ministério Público Federal, o patrimônio público e social.

Infere-se dos dispositivos acima mencionados que é função


institucional do Ministério Público a promoção das medidas cabíveis para a
recomposição do patrimônio público, o que não exclui a legitimidade das próprias
entidades lesadas, por meio dos seus órgãos de representação, de promoveram as
ações cabíveis com o mesmo objetivo. Nesse sentido, a Súmula 329 do STJ 20 e o
entendimento consolidado do Supremo Tribunal Federal, consoante ementas de
acórdãos abaixo transcritas:

Recurso Extraordinário. Processo Civil. Ação civil pública ajuizada


por membro do Ministério Público estadual julgada extinta por
ilegitimidade ativa e por se tratar de meio inadequado ao fim
perseguido. 1. O Ministério Público detém legitimidade para o
ajuizamento de ação civil pública intentada com o fito de
obter condenação de agente público ao ressarcimento de
alegados prejuízos que sua atuação teria causado ao erário.
2. Meio processual, ademais, que se mostra adequado a esse
fim, ainda que o titular do direito, em tese, lesado pelo ato não
tenha proposto, em seu nome próprio, a competente ação de
ressarcimento. 3. Ausência de previsão, na Constituição Federal,
da figura da advocacia pública municipal, a corroborar tal
entendimento. 4. Recurso provido para afastar o decreto de
extinção do feito, determinando-se seu regular prosseguimento”

20 Súmula 329 do STJ: “O Ministério Público tem legitimidade para propor ação civil pública em defesa do
patrimônio público”.

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(RE 225.777, Relator o Ministro Eros Grau, Redator para o


acórdão Min. Dias Toffoli, Plenário, DJe 29.8.2011).

AGRAVO REGIMENTAL NO AGRAVO DE INSTRUMENTO.


PROCESSUAL CIVIL. AÇÃO CIVIL PÚBLICA. LEGITIMIDADE
DO MINISTÉRIO PÚBLICO. ART. 129, III, DA CONSTITUIÇÃO
FEDERAL. PROTEÇÃO AO PATRIMÔNIO PÚBLICO.
ELETROPAULO. CONTRATAÇÃO DE MÃO-DEOBRA.
AUSÊNCIA DE PROCEDIMENTO LICITATÓRIO. EMPRESA
PÚBLICA À ÉPOCA DA ASSINATURA DO CONTRATO.
PARTICIPAÇÃO MAJORITÁRIA DO ESTADO DE SÃO PAULO
NO CAPITAL SOCIAL. LEI N. 98.666/93, ART. 24, I E XXVI.
NECESSIDADE DE LICITAÇÃO. ALEGAÇÃO DE AFRONTA AOS
ARTIGOS 5º, LIV e LV, 37, § 5º, II e XIX, 127, caput, e 129, III e
IX, DA CARTA FEDERAL. OFENSA REFLEXA. MATÉRIA
FÁTICA. SÚMULA N. 279/STF. DECISÃO QUE SE MANTÉM
POR SEUS PRÓPRIOS FUNDAMENTOS. 1. (...) 2. Legitimatio
ad causam do Ministério Público à luz da dicção do art. 129,
III, da C.F/1988, que o habilita a demandar em prol do
patrimônio público. Precedentes: RE 459.138-AgR, Rel Min.
GILMAR MENDES, 2ª Turma, DJ 25.4.2008; RE 262.134-AgR,
Rel. Min. CELSO DE MELLO, 2ª Turma, DJ 2.2.2007; AI 495.632-
AgR, Rel. Min. SEPÚLVEDA PERTENCE, 1ª Turma, DJ
16.6.2006;AI 244.217- AgR, Rel. Min. EROS GRAU, 1ª Turma, DJ
25.11.2005” (AI 837.555-AgR, Relator o Ministro Luiz Fux,
Primeira Turma, DJe 29.3.2012).

Agravo regimental no agravo de instrumento. Prequestionamento.


Demonstração. Defesa do patrimônio público. Ação civil pública.
Via processual adequada. Legitimidade ativa do Ministério Público
para seu ajuizamento. Precedentes. 1. A jurisprudência da Corte,
em tema de prequestionamento, posiciona-se no sentido de que,
para aferir sua ocorrência, não é necessário que o acórdão
recorrido tenha tratado explicitamente dos dispositivos
constitucionais invocados pelo recorrente, bastando que tal
decisão tenha versado inequivocamente sobre a matéria neles
abordada. 2. O Supremo Tribunal Federal pacificou o
entendimento no sentido da legitimidade do Ministério
Público para a propositura de ações civis públicas em defesa
do patrimônio público. 3. Agravo regimental não provido. (AI
730.619-AgR, Relator o Ministro Dias Toffoli, Primeira Turma, DJe
1º.8.2013).

A sujeição do repasse efetivado por meio do Convênio nº


725057/2009-ME ao controle interno do Poder Executivo Federal e ao Tribunal de
Contas da União caracterizam o interesse da União e, por consequência, a atribuição do
Ministério Público Federal. Nesse sentido, o Enunciado nº 16 da 5ª Câmara de
Coordenação e Revisão do Ministério Público Federal, aprovado em 02/06/2011, destaca
que “em havendo transferência de recursos da União, inclusive fundo a fundo, a
fiscalização federal atrai a atribuição do Ministério Público Federal”.

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Por fim, ante a legitimidade do Ministério Público Federal,


considerando a lesão ao patrimônio material da Administração Pública Federal, a
competência para o julgamento do feito é da Justiça Federal, independentemente da
participação da representação judicial da União no processo21.

V – Da indisponibilidade dos bens dos requeridos

A medida cautelar é o mecanismo adequado para evitar os efeitos


nocivos do tempo, apto a propiciar a necessária efetividade processual exigida para a
proteção dos bens jurídicos tutelados pela ação civil pública.

Sobre o tema, José dos Santos Carvalho Filho, citando Humberto


Teodoro Júnior, destaca que “se os órgãos jurisdicionais não contassem com um meio
pronto e eficaz para assegurar a permanência ou conservação do estado das pessoas,
coisas e provas, enquanto não atingido o estágio último da prestação jurisdicional, esta
correria o risco de cair no vazio, ou de transformar-se em providência inócua”22.

A concessão de medida cautelar em ação civil pública encontra


previsão legal expressa no art. 4º, caput, da Lei 7.347/1985, podendo ser deferida
inclusive em caráter liminar, conforme autoriza o art. 12 da mesma lei, in verbis:

Art. 4o Poderá ser ajuizada ação cautelar para os fins desta Lei,
objetivando, inclusive, evitar dano ao patrimônio público e social,
ao meio ambiente, ao consumidor, à honra e à dignidade de
grupos raciais, étnicos ou religiosos, à ordem urbanística ou aos
bens e direitos de valor artístico, estético, histórico, turístico e
paisagístico.
(...)
Art. 12. Poderá o juiz conceder mandado liminar, com ou sem
justificação prévia, em decisão sujeita a agravo.

Ante a ausência, no referido diploma legal, de previsão expressa


acerca dos requisitos para o deferimento da cautelar, aplicam-se as regras do Código de
Processo Civil atinentes à tutela provisória de urgência:

21 “Em ação proposta pelo Ministério Público Federal, órgão da União, somente a Justiça Federal está
constitucionalmente habilitada a proferir sentença que vincule tal órgão, ainda que seja sentença
negando a sua legitimação ativa (..)”(STJ - CC 40. 534, Rel. Min. Teori Albino Zavascki, DJ de
17/05/2004).

22 Ação Civil Pública: comentários por artigo. 7. ed. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2009. p. 107.

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Art. 300. A tutela de urgência será concedida quando houver


elementos que evidenciem a probabilidade do direito e o
perigo de dano ou o risco ao resultado útil do processo.

No presente caso, encontram-se presentes os requisitos legais


exigidos para a concessão da tutela de urgência pretendida.

A probabilidade do direito vem demonstrada pela exposição fática


feita nesta petição inicial. Com efeito, extrai-se da narrativa acima, subsidiada em
elementos concretos de convicção, devidamente referenciados, que os requeridos
provocaram um dano de grande monta ao patrimônio público, com valor original
estimado em R$ 3.700.455,23, decorrendo disso o dever de recompor o erário.

O periculum in mora é manifesto e deflui do risco de dilapidação


dos bens dos requeridos no curso do processo, ratificado por elementos de convicção
que instruem os autos.

Com efeito, os documentos acostados aos autos revelam que a


requerida Federação das Associações de Moradores do Estado do Piauí - FAMEPI
encontra-se atualmente em lugar incerto (fls. 277/279). Além disso, é notório que
entidades sem fins lucrativos sobrevivem, em regra, à custa de recursos públicos
transferidos pelo Estado. Não têm um patrimônio que possa suportar uma condenação
por ressarcimento de danos causados ao erário. Já a requerida P. S. Souza & Cia Ltda.
- Total Distribuidora, de acordo com as informações prestadas pela SEFAZ/PI,
encontra-se com situação fiscal irregular e com situação cadastral cancelada (fls.
482/483). Ou seja, não apresenta higidez legal e econômica que possa garantir a
reparação pretendida. Por sua vez, os requeridos Raimundo Mendes da Rocha e Paulo
André Cardoso de Souza, em nome das pessoas jurídicas que administravam,
praticaram atos que provocaram um prejuízo milionário aos cofres públicos, inclusive
mediante documentação inidônea (notas fiscais), a denotar a sua intenção de encobrir o
desvio de verbas públicas federais. O primeiro requerido, especificamente, na condição
de presidente da FAMEPI, ainda deixou deliberadamente de apresentar documentos
essenciais da prestação de contas do Convênio nº 725057/2009-ME, embora tenha se
comprometido a fazê-lo. Além disso, uma vez intimado, deixou de devolver aos cofres
públicos os valores não aplicados na execução do objeto do convênio (fls. 275/282).

Tais circunstâncias demonstram, concretamente, o risco ao


resultado útil do processo. O periculum in mora emerge, ademais, da gravidade dos fatos
e do montante do prejuízo causado ao erário. Em casos desse jaez, a probabilidade de

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supressão dos bens garantidores da eficácia de ulterior sentença condenatória é


extremamente considerável.

Portanto, é fundado o receio de que a pretensão reparatória que


constitui o objeto desta ação civil pública restará sobremaneira prejudicada acaso não
sejam determinadas providências urgentes para resguardar a utilidade e eficácia do
provimento final almejado. O quanto antes sejam aplicadas medidas garantidoras da
efetividade de eventual sentença de procedência do pedido, menos risco se correrá da
total ineficácia dessa medida, que é a regra vivenciada em tantas outras situações
semelhantes.

Dessa forma, uma vez demonstrada a presença dos requisitos


legais necessários, é premente a concessão de tutela provisória de urgência de natureza
cautelar, em caráter liminar, para a indisponibilidade dos bens dos requeridos até o
montante que se pretende ressarcir (R$ 3.700.455,23, com juros e atualização
monetária de lei), a fim de viabilizar o cumprimento do futuro mandamento judicial para
reparação dos cofres públicos.

Ressalta-se que a indisponibilidade dos bens dos requeridos P. S.


Souza & Cia Ltda. - Total Distribuidora e Paulo André Cardoso de Souza deverá
observar o limite de R$ 1.234.415,83 (nominal), que correspondente ao valor dos
produtos constantes nas notas fiscais emitidas pela empresa e que não foram
efetivamente entregues para compor o reforço alimentar das crianças e adolescentes
beneficiários do Projeto Segundo Tempo.

VI – Dos pedidos

Diante do exposto, o Ministério Público Federal vem requerer:


1) liminarmente, sem a audiência das partes contrárias, seja
determinada a indisponibilidade dos bens dos requeridos (art. 12 da Lei 7.437/1985 e art.
301 do CPC/2015), até o montante de R$ 3.700.455,23 (valor estimado do prejuízo ao
erário federal), observando-se o limite de R$ 1.234.415,83 para os demandados P. S.
Souza & Cia Ltda. - Total Distribuidora e Paulo André Cardoso de Souza, acrescidos de
juros e atualização monetária, que deverá recair sobre todos os bens (móveis e
imóveis), direitos e ações de propriedade dos requeridos, inclusive os ativos
financeiros (aplicações financeiras, depósitos, créditos, títulos, valores mobiliários,
ações, moeda estrangeira) que sejam encontrados em seus nomes, depositados ou
custodiados a qualquer título em instituições financeiras no País ou no exterior,

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determinando-se o imediato bloqueio dos saques, resgates, retiradas, pagamentos,


compensações e quaisquer outras operações que impliquem em liberação de valores,
devendo ainda os saldos porventura existentes, bem assim os que vierem a existir,
serem transferidos para a Caixa Econômica Federal, para que fiquem à disposição desse
Juízo, ressalvada a liberação das verbas alimentares (salários, vencimentos e/ou
proventos) mediante decisões ulteriores. Para conferir efetividade à medida de
indisponibilidade de bens, o Ministério Público Federal requer, ainda:

1.1) seja realizado por esse douto Juízo, por meio do sistema
BACEN-JUD, o bloqueio dos ativos financeiros existentes em nome dos requeridos ou de
seus cônjuges, quanto aos réus pessoa física, até o limite do dano ao erário que se quer
ver ressarcido;
1.2) seja requisitado:
1.2.1) da Receita Federal, as declarações de Imposto de
Renda dos demandados, assim como de seus cônjuges, dos últimos 5 (cinco) anos,
bem como os dossiês integrados com informações de todas as bases de dados para
pessoas físicas disponíveis no referido Órgão (Extrato DW, Cadastro CPF, Ação Fiscal,
Cadin, CC5 Entradas, CC5 Saídas, CNPJ, Coleta, Conta Corrente PF, Compras DIPJ
Terceiros, DAI, DCPMF, Derc, Dimob, Dirf, DIRPF, DOI, ITR, Rendimentos DIPJ,
Rendimentos Recebidos PF, Siafi, Sinal, Sipade, Vendas DIPJ Terceiros etc.);;
1.2.2) dos cartórios de registro de imóveis de Teresina/PI,
que sejam expedidas certidões acerca da existência de bens imóveis em nome dos
requeridos ou de seus cônjuges; e, acaso sejam identificados imóveis em nome dos
mesmos, que não seja efetuada nenhuma transferência ou oneração até segunda
ordem judicial, registrando-se na respectiva matrícula o bloqueio;
1.2.3) emissão de ordem de sequestro via Central
Nacional de Indisponibilidade de Bens (CNIB) para os bens imóveis encontrados em
nome dos réus, nos termos do Provimento nº 39/2014 do Conselho Nacional de Justiça
(CNJ);
1.2.4) do Departamento de Trânsito do Estado do Piauí,
que não efetue nenhuma transferência ou oneração de veículos acaso existentes ou
que vierem a existir em nome dos requeridos (permitindo apenas eventuais
transferências de veículos de terceiros para o requerido, as quais deverão ser
imediatamente comunicadas ao Juízo), e para que forneça os dados completos dos
veículos registrados em nome deles e de seus cônjuges, de modo a possibilitar a
indisponibilidade desses bens;
1.2.5) da Receita Federal, após consulta ao Cadastro de
Imóveis Rurais - CAFIR (Lei nº 9.393/1996), informações acerca da existência de imóveis

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MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL
Procuradoria da República no Estado do Piauí

rurais, no país, em nome dos requeridos e de seus cônjuges, para viabilizar a efetivação
da medida judicial nos cartórios de imóveis;

2) A citação dos demandados, sendo a FAMEPI e a P. S. Souza &


Cia Ltda. no endereço dos seus representantes legais23, para, querendo, apresentarem
contestação;

3) A condenação dos requeridos a pagar à União, solidariamente,


a quantia de R$ 3.700.455,23, com juros e atualizações na forma legal, a título de
recomposição do patrimônio público lesado, observando-se que a responsabilidade dos
demandados P. S. Souza & Cia Ltda. - Total Distribuidora e Paulo André Cardoso de
Souza limita-se ao montante nominal de R$ 1.234.415,83;

O Ministério Público Federal requer, ainda, a intimação da União,


no endereço da Advocacia-Geral da União neste Estado (PU/PI), para, querendo,
ingressar no presente feito.

O autor pede, ainda, a condenação do requerido nos ônus


decorrentes da sucumbência.

Em atenção ao preceito do art. 319, VII, do Código de Processo


Civil, informa que não tem interesse na realização de audiência de conciliação, tendo em
vista a necessidade de reparação integral e imediata do patrimônio público lesado.

Protesta, finalmente, pela produção de todas as provas admitidas


em Direito, notadamente a oitiva de testemunhas, a requisição de documentos bancários
e fiscais, a produção de perícias e o depoimento pessoal do demandado, tudo a ser
especificado após a formação do contraditório e o destaque dos pontos controvertidos,
quando será possível analisar as necessidades respectivas.

Atribui-se à causa o valor de R$ R$ 3.700.455,23.

Teresina, 15 de março de 2017

Marco Aurélio Adão


Procurador da República

23 A Federação das Associações de Moradores do Estado do Piauí – FAMEPI não se encontra mais
estabelecida no seu endereço oficial (fls. 277/279 e 314), não havendo informações sobre endereço
atualizado. A P. S. Souza & Cia Ltda. - Total Distribuidora está desativada, conforme informação de fls.
534/535.

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