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COMPORTAMENTOS AUTOLESIVOS1: DESAFIO PARA UMA ANÁLISE MOLAR

HÉLIO JOSÉ GUILHARDI

Instituto de Terapia por Contingências de Reforçamento

Campinas - SP

Queixas sobre clientes, adolescentes ou jovens adultos em sua grande maioria, que têm se
autolesionado vêm aumentando de forma muito preocupante. Em geral, a queixa vem dos
pais, que se sentem desamparados diante da situação: “Não sabemos o que fazer!”; “Estamos
preocupados com o que ocorre com nosso filho!”; “Será esse um passo em direção ao
suicídio?”... São essas as perguntas mais comuns, quase sempre carregadas de profunda
preocupação. As autolesões mais frequentes são ferimentos com instrumentos cortantes, tais
como lâminas, tesouras, facas... As lesões são produzidas predominantemente nos braços e
pernas, áreas do corpo que tanto podem ficar à mostra, como podem ser mantidas ocultas. As
lesões podem ser relativamente superficiais – assim acontecem no início do problema – mas
vão se multiplicando e se aprofundando até o ponto de sangrar, chegando a cortes profundos
para os quais o estancamento de sangue se torna difícil. Quase todos os clientes que se
autolesionam não procuram psicoterapia por iniciativa própria e, quando levados pelos pais,
não relatam espontaneamente que estão se lesionando. Alguns procuram ajuda relatando
dificuldades afetivas, rejeição nas interações sociais, bullying etc. e não dão destaque à
autolesão. Uma cliente (19 anos) relatou que esteve envolvida por anos no processo
psicoterapêutico e nunca mencionou o padrão de comportamentos autolesivos para a
terapeuta. Nem mesmo os pais sabiam desta dificuldade específica da filha, pois ela emitia
comportamentos elaborados de esquiva, de tal maneira que as partes do corpo feridas
estavam sempre ocultas por camisas e blusas de mangas longas ou calças compridas. Outra
cliente (17 anos) só expôs à mãe sua prática de autolesões quando, assustada por não conter o
sangramento, foi pedir ajuda.

Tal problema não pode ser avaliado, analisado e conduzido sob uma perspectiva focada na
queixa. Questionar-se sobre que consequências – em geral atenção social – vêm mantendo o
comportamento autolesivo não basta. O terapeuta tem que dirigir suas ações para uma
avaliação mais abrangente; sem dúvida deve fazer uma análise molar, do comportamento em
foco, que inclua múltiplos aspectos da história de reforçamento do cliente (portanto, há
necessidade de se conhecer fatores históricos, remotos que antecedem o contexto atual) em
interação com as condições presentes na vida da pessoa. Numa linguagem técnica, os
comportamentos autolesivos são produto da interação entre a rede de contingências de
reforçamento, que prevaleceram durante o desenvolvimento do cliente, em interação com a
rede de contingências de reforçamento presentes atualmente.

As principais linhas de investigação e de intervenção devem se dirigir às seguintes áreas:

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Optei por usar o termo autolesivo em lugar de automutilatório ou autoestimulatório por ser mais
descritivo da queixa.

Janeiro/2017
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1. Função aversiva das interações sociais.


De que maneira as interações sociais no ambiente familiar e em outros contextos, tais
como escolas, condomínios, parquinhos etc. adquiriram funções aversivas para o
cliente? Assim, por exemplo, uma criança acima do peso, pode ser vítima de bullying
por causa do corpo, ou pode ser considerada uma formadora de opiniões e liderar seu
grupo para participar de brincadeiras na escola, em encontros lúdicos em sua casa; um
filho pode se sentir amado pelos pais e tomar iniciativas de interações com eles que
produzem reforços positivos, enquanto outro pode se sentir excluído, rejeitado
(“Gostam mais de meu irmão...”) e chegar a dificultar interações com os pais, até
mesmo quando as iniciativas partem deles;

2. Déficits de repertório comportamental para minimizar situações aversivas.


Identificar os déficits de repertório comportamental para solucionar situações
adversas por si próprio ou para buscar ajuda de outrem; falta de repertório
comportamental para emitir comportamentos que produzam reforços positivos sociais
e sócio-afetivos. Assim, por exemplo, uma pessoa tímida, ou que tem seus
comportamentos governados por regras disfuncionais (por ex., “Não devo iniciar
interação com o outro, pois posso incomodá-lo!”; “Devo evitar pessoas que têm ideias
diferentes das minhas...”) e que, como tal, se omite de tomar iniciativas de interação,
se recusa a aceitar convites para participar de encontros, festas etc. Em geral, são
pessoas que apresentam restrita variabilidade comportamental, o que restringe
drasticamente oportunidades para desenvolvimento social e afetivo;

3. Baixa tolerância à frustração.


Muitas vezes, as dificuldades que a pessoa apresenta nas múltiplas atividades
cotidianas, assim como realizar tarefas acadêmicas ou caseiras, isolamento social com
seus pares etc. têm a ver com baixa tolerância à frustração (são pouco resilientes).
Tudo e todos são fontes de dificuldades que levam à desistência, ao abandono, à
indiferença. Assim, em situações adversas se esquivam de enfrentá-las – são
dominadas por sentimentos de ansiedade, de medo, até mesmo apresentam reações
fóbicas de fuga da situação – e avaliam as situações como aversivas em si e não que
lhe são aversivas exatamente por elas não serem capazes de emitir comportamentos
funcionais na situação. Comportamentos funcionais em tais situações são aqueles que
minimizam a aversividade e garimpam com sucesso os reforços positivos disponíveis.
São em geral pessoas com pouca iniciativa, com dificuldades para tomar decisões, que
super valorizam as reações e avaliações (reais e imaginadas) do outro. Tais déficits de
repertório, que vão além das atividades sociais, podem ser fruto de ambientes
familiares excessivamente punitivos, ou nos quais houve excesso de reforço positivo
não contingente.

4. Déficits de repertório comportamental e de habilidades para realizar com sucesso


tarefas.
As pessoas podem descrever ou serem rotuladas como tímidas, quando na verdade
falta-lhes repertório comportamental para se engajar em brincadeiras, atividades
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físicas, realização de tarefas – escolares ou outras – próprias da idade. Assim, não


conseguem se manter por tempo razoável e necessário para completar uma tarefa,
não têm habilidades para brincar no pula-pula, têm medo de descer no escorregador
ou de entrar na piscina, têm dificuldades para correr, pular, têm limitada amplitude de
interesses (gostam de poucas coisas, consomem restrita variabilidade de alimentos, se
envolvem em poucas atividades de lazer...). Às vezes, a disciplina limitada é
interpretada como transtorno de déficit de atenção.... Em geral são pessoas que foram
negligenciadas no processo de aquisição de repertórios comportamentais básicos, tais
como auto-cuidados de higiene, de alimentação, de se manter em atividade que, uma
vez cumpridas satisfatoriamente, produzem reforços naturais, tais como brincar com
quebra-cabeças, ouvir histórias, brincar em parquinhos, em áreas livres, fazer lições da
escola por iniciativa própria até o fim etc. Todas estas atividades – e muitas outras –
devem ser instaladas e mantidas e não se deve esperar que a pessoa por si mesma se
vire para adquiri-las;

5. Déficits de comportamentos e sentimentos de autoestima e autoconfiança.


Tais repertórios são muito abrangentes e preparam a pessoa para enfrentar com
sucesso as dificuldades da vida. Sabemos que a vida exige vencer obstáculos
cotidiariamente, desde fazer uma simples escolha de qual doce vai escolher na
padaria, até se opor a uma autoridade prepotente... Déficits de autoestima e de
autoconfiança – principalmente quando ocorrem simultaneamente – limitam
gravemente o desenvolvimento comportamental e afetivo da pessoa. Tais limitações
propiciam o aparecimento de comportamentos de fuga-esquiva, de dependência do
outro, de fantasias exageradas sobre as dificuldades cotidianas, a supervalorização do
outro, quer como ameaça a ser evitada, quer como fonte de proteção e de afeto...
Todos esses déficits são resultantes de história de contingências de reforçamento, que
não privilegiou a aquisição dos repertórios de tais classes comportamentais e afetivas.
Não se trata de traços de personalidade e, como tal, inacessíveis ao processo
terapêutico. Superar tais limitações cabe como objetivo psicoterapêutico.

6. Comportamentos de auto-observação e de autoconhecimento limitados.


A auto-observação e autoconhecimento são comportamentos produzidos no contexto
sócio-afetivo-verbal em que a pessoa se desenvolveu. Se a comunidade verbal não
criou contingências de reforçamento para desenvolver o autoconhecimento, a pessoa
tem dificuldade de reconhecer quais são seus comportamentos desejados e
indesejados e de corretamente atribuir seus sucessos e insucessos a fontes confiáveis.
Tal déficit faz com a pessoa tenha tendência a:

a. Atribuir ao outro a origem de suas carências e déficits, não se responsabilizando


por assumir o processo de cuidar por si de sua vida;
b. Desconhecer seu potencial para adquirir os comportamentos necessários para
superar suas dificuldades e desdenhar possíveis recursos disponíveis para seu
crescimento comportamental (por exemplo, se engajar num processo
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psicoterapêutico, aproximar-se de grupos que possam promovê-lo, tais como


grupos de proteção a animais abandonados, grupos religiosos etc.)
c. Agigantar a aversividade de situações, de atividades, de pessoas etc., enquanto,
simultaneamente, miniaturiza suas possibilidades de enfrentar as oportunidades
(note que não uso o termo as “ameaças”) de reavaliar as funções adversas e
descortinar funções positivas naquilo que lhe parece ameaçador;

Como se pode avaliar pelo exposto, o processo psicoterapêutico assim proposto é abrangente
e complexo. Mas é melhor conceituá-lo como deve ser do que optar por simplificações
superficiais e enganosas! Em suma, cabe ao terapeuta identificar quais as dificuldades de seu
cliente em cada uma dessas áreas e programar contingências de reforçamento que modificam
os comportamentos, supram as deficiências comportamentais e promovam a generalização
dos comportamentos recém instalados para diferentes contextos.

Cada cliente é um ser único. Ao transitar pelas linhas gerais apresentadas acima, o terapeuta
vai discriminando em quais áreas um dado cliente sofreu mais danos e quais são seus
potenciais mais promissores, de tal maneira que dentro do espectro abrangente apresentado
do que precisa ser identificado, analisado e alterado, o processo terapêutico é único,
individualizado. A TCR não possui protocolos específicos do que fazer com um cliente em
particular, mas guia-se por princípios comportamentais, sobre o que deve observar, analisar e
onde intervir.

Com base em tais princípios, derivam procedimentos específicos para cada caso. Assim sendo,
cada cliente dá origem a um protocolo particular, que deve ser explicitado, de forma clara que
leve à compreensão do que foi feito e permita replicação.

A pergunta que se pode propor será: o que leva uma pessoa com todas as dificuldades
apresentadas a emitir comportamentos autolesivos?

Na verdade, comportamentos autolesivos são uma das possíveis maneiras de sobreviver


dentro de um quadro de existência tão tenebroso. Há outras formas: deprimir-se, tornar-se
dependente de drogas, tornar-se um delinquente, engajar-se em comportamentos de risco de
vida etc.

O padrão comportamental adotado tem a ver com contextos passados e presentes na vida da
pessoa: qual é seu círculo social, quais são as condições financeiras da família, qual o padrão
da escola que frequenta (se é que a frequenta), como é sua vizinhança, quais são os modelos
familiares prevalecentes, quais foram as consequências produzidas pelas primeiras
manifestações da classe comportamental da queixa (o padrão comportamental complexo e em
adiantado nível de inadequação, adversidade e risco que se apresenta na clínica, teve um
começo mais ameno, não obstante de preocupante prognóstico, mas, na maioria das vezes,
desdenhado ou ignorado), quais são as consequências sociais, inclusive familiares, atuais etc.

Pode ser necessário, então, associar à análise molar, um enfoque molecular. Assim, a pessoa
pode pertencer a um grupo que prática e valoriza autolesão. Pessoas que exibem suas lesões e
assim são valorizadas, pela intensidade dos ferimentos, podem encontrar uma razão para se
sentirem aceitas, admiradas... e quem sabe amadas! Não se pode desdenhar no processo
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psicoterapêutico a função de manutenção e fonte de reforço positivo social diferencial dos


comportamentos autolesivos. Há necessidade de desconstruir a função perniciosa (por um
lado), gratificante (por outro) de tal grupo e programar a inclusão do cliente em outros grupos
que lhe ofereçam os bônus positivos pela convivência próxima, desonerando a pessoa do ônus
patológico do pertencimento ao grupo disfuncional.

Um comentário final2: a autolesão produz sensações e gera produtos (sangramentos,


hematomas, tecido danificado etc.). Tais sensações e produtos são rotulados como aversivos,
dolorosos etc. Tais rótulos são arbitrários. Sensações e produtos das lesões podem adquirir
funções reforçadoras positivas. O evento-lesão não tem uma função determinada em si; a sua
função é adquirida no contexto de cada pessoa. A desconstrução de funções reforçadoras
destes eventos, ocorre com a instalação de repertórios comportamentais que produzem
outros reforços positivos, preferencialmente não associados a danos e perigos!...

Adicionalmente não se pode negligenciar o papel de controle de estímulos. O sofrimento e


comportamentos da classe de sofrer ocorreu sob controle de determinadas classes de
estímulos antecedentes, tais como sentir-se rejeitado, sentir-se incapaz, sentir-se em
desamparo... A lesão gera sensações e produtos que podem competir com aquelas classes de
estímulos e evocar outros comportamentos: observar a lesão, “curtir” as sensações corporais,
cuidar do ferimento, entrar na internet e estabelecer uma interação social com o grupo que se
autolesiona para comunicar e expor sua mais recente lesão... e produzir, desta maneira,
consequências sociais com função reforçadora positiva! Afinal, agora não está mais só, não se
sente rejeitada, descobriu comportamentos que lhe dão um sentido por existir, lhe dão um
passaporte para fazer parte, com sucesso, de um grupo. Na tempestade, qualquer porto!

Nota: Matos (1997, p. 50) exemplificou a distinção entre natureza molecular e molar de um
evento (distinção proposta por Rachlin, 1985) da seguinte maneira: “O choro do Joãozinho é
um evento molecular, tem começo e fim, é um evento discreto e pontual, que ocupa todo o
intervalo entre seu começo e seu fim e o ocupa sem interrupção. Dizer que uma criança é
chorona, já é colocar o fenômeno num nível molar. Isto é, de um fenômeno que se estende no
tempo, onde o começo e o fim (especialmente o fim do choro do Joãozinho, como diria a
empregada) estão a perder de vista. É um fenômeno que pode sofrer interrupções pela
ocorrência de eventos de outras categorias, mas que é recorrente, que é retomável e,
frequentemente, é de fato retomado.”

Matos, M.A. (1997). Com o que o Behaviorismo radical trabalha. In Roberto Alves Banaco
(Org.) Sobre Comportamento e Cognição, vol 1, p. 50. São Paulo: Editora ARBytes.

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Sobre este tema ler Guilhardi, H. J. (2011). Comentários adicionais sobre as automutilações de Nina,
disponível no site www.itcrcampinas.com.br