Você está na página 1de 1

EM SUAS MÃOS

O novo "milagre econômico" brasileiro - aquele sobre o qual conversávamos antes de a crise nos interromper - criou uma massa de consumidores
que até então só via tudo pela vitrine. Há quem tenha apontado uma diminuição da desigualdade, há quem reclame que tudo não passou de uma ilusão. Mas
foi justamente um símbolo do status econômico que permitiu a esses novos consumidores colocarem em prática sua cidadania: o telefone celular. Essa
ferramenta popularizou de fato a internet entre a classe C, o grupo mais populoso do país, dando um megafone para pessoas até então sem voz. É o que
mostra a 15ª edição do estudo F/Radar, sobre democracia e consumo, realizado em parceria entre a agência de publicidade F/Nazca S&S e o instituto de
pesquisa Datafolha.
Essa mudança permitiu à classe C fazer valer o seu tamanho e colocar o foco do ativismo digital em questões próximas, como o conserto das
calçadas do bairro. Só depois vêm as mais abrangentes, como reforma política e maioridade penal. Esse movimento mostra que, hoje, é tão legítimo querer
mudar o mundo quanto querer mudar o SEU mundo. E a explosão na quantidade e variedade de causas - aquelas que pipocam na timeline do Facebook - deu-
se junto a outro boom, o da internet móvel. Hoje ela está disponível para 87 milhões dos 107 milhões de brasileiros conectados (53% do total de acessos,
contra 26% há apenas dois anos, segundo a F/Radar). "É difícil identificar causa e consequência. Mas o ativismo digital aumenta proporcionalmente e
paralelamente ao crescimento da internet móvel no país", afirma José Porto, diretor geral de planejamento da F/Nazca S&S. "Já tínhamos mídias de massa e
agora passamos também a ter massas de mídia", completa. [...]
Esse grupo social (a classe C) é o mais atuante entre ativistas online e presenciais: 45% e 41% dos manifestantes, respectivamente. "Eles têm um
pragmatismo muito maior que as classes A e B. Preocupam-se mais com aquilo que afeta diretamente seu cotidiano. NÃo é o efeito estufa, mas sim a
enchente no bairro. não é a reciclagem, mas como ganhar dinheiro com a latinha de alumínio", explica Renato Meirelles, presidente do instituto de pesquisa
Data Popular. "A classe C quer participar, pertencer. Isso também explica o fenômeno das selfies, tão forte entre esse grupo. Ele quer se ver, deixou de ser um
cidadão invisível", analisa.
Os dados apontados pela pesquisa contradizem o preconceito de que a classe C, menos escolarizada, seria menos engajada sobre o seu entorno.
"Mesmo que a educação formal seja menor entre este grupo, a internet lhes dá acesso à informação. Isso gera um poder de articulação e participação que
essas pessoas antes não tinham", explica José Porto. Diante das possibilidades, os ativistas digitais optam principalmente por causas que não ganhavam
destaque na mídia tradicional - a principal curadora e porta-voz dos assuntos que mereciam atenção. O internauta pode brigar pela proteção das baleias e
também por questões mais práticas de seu dia a dia. "Quanto maior o nível de complexidade dos assuntos, mais distantes eles ficam. E muitos perdem a
crença de que, nessa esfera, poderão causar mudanças e ver resultados concretos em suas vidas", completa.
O australiano Jeremy Heimans começou a vida de ativista em 1986, aos 8 anos, alertando os políticos de seu país sobre os problemas do Terceiro
Mundo. Em 1991, organizou via fax uma campanha contra a guerra no Iraque. Em 1999 estagiou na ONU (Organização das Nações Unidas) e, desde então,
vem ganhando importância em sua área de atuação. Cofundador da plataforma de petições Avaaz, ele define o movimento que hoje testemunhamos - e do
qual muitas vezes participamos - de "novo poder". Segundo Heimans, trata-se da coordenação compartilhada e participação em massa para criar mudanças ou
alterar os resultados esperados. Na base desse movimento, entram a transparência, a participação e a iniciativa de cada um dos membros.
Essa postura já rendeu cerca de 15 mil vitórias em 196 países só no site Change.org - atualmente, a média é de uma vitória por hora. Nessa lista
tem de tudo: a jovem que conseguiu incluir jogadoras mulheres no game Fifa, a companhia aérea que deixou de transportar troféus de caça, a brasileira que
impediu a cobrança de taxas extras para alunos deficientes, o casal gay que mudou a definição de casamento em um dicionário em português ("união legítima
entre homem e mulher") e o aplicativo de táxi que adotou uma medida para dificultar o assédio às passageiras. Isso sem contar as muitas iniciativas que você
vê - e até adere - via e-mail e redes sociais. As inimigas dirão que é ativismo de sofá. Mas que funciona, funciona.
"Transição" define este momento, segundo o especialista Augusto de Franco, criador da Escola de Redes. Ele explicou que, com sociedades cada
vez mais conectadas, o padrão de conexão ficou menos centralizado. A consequência é um nível de interatividade jamais visto e também a redução nos graus
de separação entre as pessoas. Esse formato viabiliza mobilizações sem convocações centralizadas, como as realizadas em diversas partes do mundo desde
o início do século. As manifestações de junho de 2013 no Brasil, por exemplo, não tiveram um líder ou entidade hierárquica. O movimento baseou-se em
processos P2P (ponto a ponto), originados por um alto grau de conectividade e disponibilidade de mídias interativas em tempo real. "O telefone celular tem um
grande papel, mesmo quando não havia conexão móvel. a convocação para o março de 2004 na Espanha [manifestação após atentado em Madri] espalhou-se
basicamente por SMS", lembra Franco. [...]
Para que as manifestações tragam mudanças, Pretti destaca a importância de se fazer pedidos concretos para as pessoas certas. Não adianta, por
exemplo, mobilizar a internet pedindo que todos os políticos corruptos sejam presos (spoiler: isso não vai acontecer). Nem pedir para a presidente mais linhas
de ônibus em seu bairro, considerando que ela não cuida disso. Mas adiantou, sim, entregar à Anvisa um abaixo-assinado pedindo a liberação de um remédio
até então proibido, que reduz e ameniza crises de epilepsia - isso aconteceu com o enfermeiro Valdir Francisco Vaz, que precisava da medicação para o filho,
Lorenzo. "Relatando sua história, ele conseguiu um benefício para muitas outras pessoas que enfrentam o mesmo problema", analisa o diretor da Change.org
no Brasil. Para Rosemary Segurado, cientista política e professora da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), o indicador de sucesso no
ativismo não se resume a atingir o objetivo final - isso muda, é claro, de acordo com o que for pleiteado. Ela cita como exemplo o movimento das Diretas Já,
em 1984, que defendia o direito de o povo escolher o presidente. "A reivindicação não foi atendida naquele momento, mas não conheço ninguém que
considere aquele movimento derrotado. Foi extremamente vitorioso, porque conseguiu rearticular forças políticas importantes, proporcionou o desenvolvimento
de partidos e movimentos sociais", compara. A derrota pode ser uma análise simplista, reducionista, considerando outros tipos de ganhos. "Esses processos
são importantes para a construção da cidadania", completa.
A especialista chama atenção para outro ponto importante das manifestações, desta vez negativo. Num momento em que a democracia vive uma
crise de representatividade em todo o mundo (#nãomerepresenta), Rosemary alerta para o surgimento de grupos com discurso fácil, sem consistência, que se
apresentam como alternativa às lideranças tradicionais. "Aqueles que não conhecem a dinâmica da política podem facilmente cair no canto da sereia. Na
política não existe vácuo e alguém sempre ocupará o espaço vazio", analisa. Na esteira da Primavera Árabe, por exemplo, muitos tunisianos acabaram sendo
recrutados pelos terroristas do Estado Islâmico para lutar na Síria e no Iraque. [...] A ferramenta contra o lado B do ativismo pode estar justamente na internet:
na busca de mais informações, na análise da origem do conteúdo, na replicação apenas daquilo que pode ser confirmado. Para o filósofo francês Pierre Lévy,
especializado em cibercultura, os riscos de manipulação são maiores quando o cidadão tem acesso a alguns poucos jornais e canais de TV. "Quanto mais
fontes, menores são as possibilidades de manipulação absoluta", afirmou durante uma palestra em São Paulo no ano passado. Muitos tentarão fazê-lo, claro,
mas o cidadão tem a possibilidade e o dever de pensar, comparar, aprender e praticar o pensamento crítico. "Há riscos na ciberdemocracia. mas nada que é
orgânico segue sem risco: se eles não existem, é porque aquilo já está morto", afirma. Ele lembra que IBM e Microsoft já ocuparam o papel de lobo mau hoje
pertencente ao Google e Facebook, mas isso passou: "todo poder é mortal".
Enquanto essas duas empresas dão as cartas, é preciso estar ciente sobre como elas usam algoritmos para mimar seus internautas, entregando
sempre aquilo que eles já gostam - um mecanismo que pode dar uma falsa força ao ativismo, indicando que "todos" estão de acordo com sua causa. "Se você
tem alguma tendência feminista e clica nesse tipo de conteúdo, começa a receber mais informações relacionadas até estar cercada delas. É como se amanhã
abrisse a 'Folha' e 70% das reportagens falassem sobre feminismo. Isso não acontece, é um retrato distorcido da realidade", compara Radfahrer, da ECA.
Em outras palavras, o engajamento passa também por conhecimento e busca de mais informação - que certamente estão na internet, mas não
apenas no feudo do Facebook. "Chega a ser contraditório. A internet abriu espaço para aprofundarmos no conteúdo, mas a gente segue a lógica da timeline:
rolar a tela para baixo de forma infinita, esperando o que vem em seguida. O conteúdo passa e já cai no esquecimento", conclui Porto, da F/Nazca. Cabe a
cada usuário, hoje com o poder nas mãos, decidir o que vai fazer: realmente engajar-se nas causas que acredita ou restringir seu ativismo à ação de um
clique.
Por Juliana Carpanez Fonte: https://tab.uol.com.br/ativismo-digital/ Acesso em: 16 fev 2019.