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E JESUS DESCEU PARA O MEIO DE NÓS

Fevereiro 16, 2019

1. Conta-nos São Lucas que Jesus saiu (exérchomai) para a MONTANHA para ORAR, e estava
(ên: imperf. de eimí) a passar (dianyktereúôn: part. presente de dianyktereúô) a noite
inteira em ORAÇÃO (Lucas 6,12). Note-se que Jesus se separa para rezar. E a expressão
usada (imperfeito do verbo «ser» seguido de particípio presente) indica que Jesus rezou,
sem parar, a noite inteira. O Evangelho de Lucas recorda-nos que Jesus reza sempre nos
momentos importantes da sua missão. Quando amanheceu, continua São Lucas, Jesus
chamou os discípulos e escolheu «Doze» a quem chamou Apóstolos, seguindo-se logo a lista
dos seus nomes (Lucas 6,13-16). De notar que também Mateus 10,2 e Marcos 6,30 sabem
que os Doze são Apóstolos, mas apenas Lucas refere que foi o próprio Jesus a dar-lhes este
nome (Lucas 6,13). Notemos ainda que o Apóstolo é o enviado autorizado, que fala em
nome de quem o envia. Não está autorizado a dizer palavras suas ou a expressar a sua
opinião. Fica totalmente vinculado àquele que o envia. A primeira nota que o caracteriza é a
fidelidade.

2. Depois desta introdução, parece-me oportuno, pela sua importância, inserir o texto do
Evangelho que hoje será proclamado (Lucas 6,17.20-26), sem o corte dos vv. 18-19:

«Tendo descido com eles, ficou de pé num lugar plano, e um grupo numeroso dos seus
discípulos e uma multidão numerosa do povo (laós) de toda a Judeia e de Jerusalém e do
litoral de Tiro e de Sídon, que tinham vindo para o escutar e fazer-se curar das suas
doenças. E aqueles que eram atormentados por espíritos impuros eram curados, e toda a
multidão procurava tocá-lo, porque uma força saía dele e curava todos. E tendo levantado os
seus olhos para os seus discípulos, dizia:

Felizes vós, os pobres,

porque vosso é o reino de Deus;

Felizes vós que tendes fome agora,

porque sereis saciados;

Felizes vós que chorais agora,

porque rireis;

Felizes sois vós, quando os homens vos odiarem, e quando vos expulsarem e insultarem e
rejeitarem o vosso nome como mau por causa do Filho do Homem.

Mas ai de vós os ricos,

porque tendes a vossa consolação;


Ai de vós, que estais saciados agora,

porque tereis fome;

Ai de vós, que rides agora,

porque andareis aflitos e chorareis;

Ai de vós, quando todos os homens disserem bem de vós:

era assim que os seus pais tratavam os falsos profetas» (Lucas 6,17-26).

3. O Evangelho deste Domingo VI do Tempo Comum começa com esta descida para um
lugar plano, que não tem de ser necessariamente a planície ao nível do mar da Galileia; pode
muito bem tratar-se de um planalto acessível a uma grande multidão, doentes incluídos. Vê-
se e compreende-se bem que o Discurso de Jesus é, em Lucas, mais breve e apresentado
num cenário plano (Lucas 6,17-7,1), bem diferente do Sermão da Montanha de Mateus, mais
longo e encenado nas alturas (Mateus 5,1-7,19). Se Lucas quer pôr Jesus em contacto com
toda a gente, inclusive com os doentes, é fácil compreender que Jesus tem de descer ao
nível deles, e não os pode obrigar a subir à Montanha.

4. É significativo que o evangelista descreva esta grande multidão como POVO (laós) oriundo
de toda a Judeia, Jerusalém, Tiro e Sídon (Lucas 6,17), que veio para escutar Jesus e ser por
Ele curado (Lucas 6,18). Ao contrário dos outros evangelistas que praticamente o ignoram,
Lucas introduz este POVO (laós) profusamente no seu Evangelho. Este POVO (laós) tem
conotação religiosa: é o Povo de Deus que o II Concílio do Vaticano consagrará. O que faz e
define este POVO (laós) não é nenhum elemento étnico, nacionalista ou histórico, mas a
eleição e a graça de Deus. Qualquer pessoa, de qualquer língua, nação, raça, cultura, que
oiça a Palavra de Deus e lhe responda passa a fazer parte deste Povo. Neste sentido, esta
multidão pode ter no seu seio elementos estrangeiros (Tiro e Sídon), mas não deixa, por
isso, de ser um POVO (laós), o Povo de Deus. É igualmente significativo que todos tenham
vindo ouvir Jesus! Aos olhos dos Apóstolos, que Jesus acabara de escolher, está ali indicado
proleticamente o caminho da futura evangelização.

5. Então, Jesus, de pé, e «tendo levantado os olhos» como um profeta (em Mateus «sentou-
se» como um mestre), declarou de forma direta e incisiva, em 2.ª pessoa, como fazem os
profetas (Mateus usa a 3.ª pessoa, estilo sapiencial, sereno e pedagógico), bem-aventurados
por Deus os POBRES, os FAMINTOS de agora, os que CHORAM agora, os REJEITADOS ou
DESCARTADOS de agora. Lucas é mais radical e direto do que Mateus. Às quatro bem-
aventuranças junta, em contraponto, quatro mal-aventuranças, declarando malditos por
Deus os RICOS de agora, os FARTOS de agora, os que RIEM agora, os que RECEBEM
APLAUSOS agora. As mal-aventuranças são introduzidas por um «Ai», fórmula técnica para
introduzir anúncios de desgraça no discurso profético.

6. Lucas esclarecerá mais à frente, quando for contada a história do RICO FARTO e do
POBRE LÁZARO (16,19-31), que os FARTOS não são demovidos pelos profetas nem tão-
pouco por um morto que ressuscite! E esta parábola do homem Rico e do pobre Lázaro, que
escutaremos no Domingo XXVI, é também o melhor comentário ao texto das bem-
aventuranças e mal-aventuranças de hoje.

7. Jeremias 17,5-8 faz boa companhia ao Evangelho de hoje. O profeta expõe em discurso
profético, abrindo com a clássica fórmula do mensageiro que soa: «Assim disse o Senhor»,
um refrão de tipo sapiencial que percorre toda a Escritura de lés a lés: «MALDITO o homem
que confia no homem, afastando-se do Senhor;/ BENDITO o homem que confia no Senhor,
pondo nele toda a sua confiança». O primeiro assemelha-se ao tamarisco do deserto,
mirrado e amargo, que mora numa terra salitrada e estéril; o segundo é como uma árvore
viçosa plantada junto da água boa.

8. A mesma temática e até as mesmas imagens vegetais enchem o Salmo Responsorial de


hoje (Salmo 1): o homem que recita a instrução do Senhor dia e noite é como a ÁRVORE
plantada e que dá fruto; o malvado é como a PALHA que o vento dispersa. A ÁRVORE
plantada está de pé, respira o vento, como o homem, e dá fruto; a PALHA não respira o
vento, mas é levada pelo vento; e não dá fruto, mas é a casca do fruto. É também fácil
entender que é a mesma lição que encontramos na antítese das «bem-aventuranças / mal-
aventuranças» do Evangelho de hoje.

9. A leitura semi-contínua do Apóstolo (1 Coríntios 15,12.16-20) prossegue hoje com a


temática fundamental da ressurreição, tratada de forma notável em 1 Coríntios 15, cuja
primeira parte foi lida no Domingo passado. Aí, Paulo expunha o acontecimento da
Ressurreição de Jesus Cristo como centro da pregação apostólica e da fé das comunidades
cristãs.

10. Hoje, Paulo começa por constatar que alguns membros da comunidade de Corinto não
dão ouvidos aos conteúdos da pregação apostólica e negam simplesmente a ressurreição. E
fazem-no em nome da mentalidade platónica, que considera a «carne» como elemento mau
e desprezível, condenado à destruição, sendo a «alma» um elemento divino que, libertado da
«carne», voltará a formar uma espécie de deus cósmico. Vê-se bem que segundo esta
conceção errónea, a criação é má, ao contrário da declaração de Deus, que lhe apõe, por
sete vezes, o carimbo de «boa» (Génesis 1). Paulo reage vigorosamente contra esta
mentalidade instalada na comunidade, e prega aquilo que os Padres chamarão a «Economia
da carne». «Cristo ressuscitou, primícias dos que adormeceram». Ele é, portanto, o primeiro
Homem a ser ressuscitado. E se é o primeiro, então constitui certeza para os «outros»
depois dele, que abre a série. Nele a morte foi vencida para todos. A esperança fundamenta-
se na certeza deste Acontecimento principal da Vida do Senhor, que dá significado a todos os
outros acontecimentos da sua Vida, ao inteiro Antigo Testamento, à Igreja e à vida dos
homens.

11. É este acontecimento fundante que a Igreja Una e Santa, Esposa do Senhor, celebra
jubilosamente Domingo após Domingo. Também hoje, portanto.

Há dois mil anos Jesus subiu ao monte,

E lá passou a noite em oração.

Quando se fez dia,

Escolheu os Doze,

E com eles desceu para o meio do povo,

Que de toda a parte tinha vindo

À procura da Palavra,
Que sabiam carregada de Luz e de Esperança.

Jesus desceu,

Ficou no meio deles,

Pertinho deles,

Ao alcance de muitas mãos que o tocavam.

Havia lá muitos doentes:

Claro que não podiam subir ao monte.

Desceu Jesus,

Como sempre desce Deus

Ao encontro dos seus filhos,

E declarou felizes

Os pobres,

Os famintos,

Os que tinham lágrimas nos olhos e na voz,

Os descartados.

Mas advertiu os ricos,

Os fartos,

Os que riam,

Os que iam de sucesso em sucesso,

Sem que os seus olhos vissem

E os seus ouvidos ouvissem

As lágrimas dos pobres e doridos.


Os Apóstolos estavam lá

E viram tudo

E ouviram tudo,

E nós também hoje com eles

E Jesus no nosso meio.

Ficamos todos a saber

Como fazer acontecer o Evangelho.

António Couto