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UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS

INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS

CAMILO ANTÔNIO SILVA LOPES

Vaqueiros, seleiros, carreiros e trançadores:


uma etnografia com coisas, pessoas e
signos.

CAMPINAS
2016
UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS
INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS

A comissão julgadora dos trabalhos de Defesa de Tese de Doutorado, composta


pelos Professores Doutores a seguir descritos, em sessão pública realizada em
01 de julho de 2016, considerou o candidato CAMILO ANTÔNIO SILVA LOPES
aprovado.

Profª Dra. Maria Suely Kofes – Orientadora

Profª Dra. Fabiana Bruno – Unicamp

Profª Dra. Mariana Miggiolaro Chaguri – Unicamp

Profª Dra. Carmen Silvia Andriolli – UFRRJ

Profº Dr. Luzimar Paulo Pereira – UFJF

A ata de Defesa, assinada pelos membros da Comissão Examinadora, consta no


processo de vida acadêmica do aluno Camilo Antônio Silva Lopes.
Dedicatória

À minha Mãe, eternamente presente, que sonhou comigo este sonho.


Ao Théo, benção divina.
Agradecimentos

Ser grato, mais que obrigação, é questão de princípio. Saber


reconhecer a importância de pessoas que se fizeram especiais em nossas
trajetórias cada vez mais nos tornam pessoas melhores. O reconhecimento da
importância do Outro em nossas vidas é parte elementar na nossa travessia.

Nessa travessia, agradeço primeiramente a Deus por permitir-me


discernir os bons e maus caminhos. E os caminhos sempre nos levam a algum
lugar. Aonde chegar, depende sempre das escolhas da gente. Saber escolher é o
começo das nossas liberdades.

Faço um agradecimento especial à professora Maria Suely Kofes.


Elegante, sincera, discreta, prestativa e atenciosa, conduziu-me com paciência
até o final desta travessia. Suas palavras acolhedoras e suas leituras sempre
precisas e pontuais foram essenciais na compreensão de alguns desafios que se
apresentaram ao longo do caminho. Obrigado por permitir-me sonhar.

Agradeço à professora Mariana Miggiolaro Chaguri pelas análises e


contribuições durante a qualificação e, posteriormente, na banca de defesa final.
Sempre atenta, suas sugestões foram cruciais para a fase final da escrita.

Aos professores Carmen Silvia Andriolli e Luzimar Paulo Pereira pela


participação na defesa final. As conversas sobre bichos, gentes e sertão foram
importantes para o entendimento da relação homem / bicho no sertão mineiro.

À professora Fabiana Bruno pela gentileza e disponibilidade para


participar da banca.

Agradeço, também, os funcionários da secretaria do Programa de Pós-


Graduação em Ciências Sociais da Unicamp, especialmente Reginaldo
Nascimento e Beatriz Tiemi, sempre disponíveis a esclarecer todas as dúvidas.

À Gisele Soares Ferreira, companheira em todos os momentos dessa


travessia. És uma quantidade extraordinária de mulheres, sem as quais sou
quase nada. Agradeço a compreensão durante os momentos de angústias
vividas. Mais alegrias estão por vir e as viveremos intensamente.
Ao meu primo Gilson Carlos, sua esposa Terezinha e seu filho Gustavo
Rocha que me acolheu de maneira especial em Campinas. Sem vocês, creio que
se tornaria mais difícil essa caminhada. Serei eternamente grato pela
demonstração de afeto e carinho.

À minha amiga Dayana Barbosa de Quadros, presença constante em


minha vida. Obrigado pelo apoio de sempre. São tantos, que nem preciso
mencioná-los.

À Vanessa Siqueira agradeço pela amizade e companheirismo. Sua


ajuda foi essencial durante o processo de escrita do texto final.

Fernanda Raquel, presença amiga, mesmo de longe, contribuiu para


que fosse efetivada essa pesquisa.

Agradeço também a Rafael Soares Ferreira pela ajuda na confecção


dos croquis das comunidades rurais de Coração de Jesus e pelas conversas
sobre as gentes e bichos do lugar. Outras ajudas foram constantes. Obrigado.

Um agradecimento especial faz-se necessário ao Manoel Freitas,


espetacular fotógrafo que registra gentes, bichos e coisas no Norte de Minas.
Gentilmente, permitiu-me utilizar algumas imagens suas para abrilhantar ainda
mais este trabalho.

Agradecimentos especiais devem ser feitos às pessoas que


contribuíram de forma efetiva para a realização e consolidação dessa empreitada.
Sou grato aos portadores de saberes tradicionais que me permitiram
compreender esse universo plural de conhecimentos e vivências. Os carreiros,
seleiros, vaqueiros e trançadores aqui ouvidos são peças importantes dessa
engrenagem.

Agradeço aos vaqueiros e carreiros de São Leandro, representantes de


categorias profissionais imprescindíveis para a vida no campo. Jorge Fonseca, Zé
de Vita, Tone Ferro, Domingos Afonso e Marcos Antônio, obrigado pela
contribuição, pelas conversas estabelecidas e, também, pelas risadas
inesquecíveis.

Em Poço Verde, agradeço ao senhor Ilton Santos pelas informações


relevantes para o entendimento do ofício de trançador.
Seu Zé Miranda, sertanejo acolhedor, abriu-me as portas do seu
estabelecimento em Juramento para conversarmos sobre a vida e as coisas do
sertão.

Ao senhor Luiz Galdino e seus filhos que me recebeu diversas vezes


para conversarmos sobre as coisas do sertão. Um aprendizado constante
conviver com uma pessoa tão iluminada.

Agradeço, também, aos seleiros que contribuíram com esta pesquisa.


Ao senhor Paulo Oliveira, excepcional seleiro que me recebeu para falarmos
sobre o ofício que aprendeu em terras baianas. Ao seu filho Paulo Allan e Aline
Veloso pelas conversas sobre a arte de confeccionar selas sempre
esclarecedoras.

Ao meu pai, sempre presente e contribuindo à sua maneira.

Um agradecimento especial faz-se necessário à Terezinha e Dico. O


apoio e compreensão durante esse tempo de aprendizado tornou-me mais
sensível às coisas da vida. A Arthurzinho, criança abençoada que alegra, agita e
torna festa os dias dessa gente guerreira.

Por fim, agradeço ao CNPq pela concessão de bolsa de estudo que


permitiu a realização dessa pesquisa.
Epígrafe

Não pode me entender


Quem nunca sentiu o cheiro
De terra molhada
Quando a chuvarada
Molha as terras do gerais
Não pode entender
Quem nunca matou a fome
Com raiz de macaxeira
E com a fruta do ananás
E a minha terra
Fica na ponta dessa estrada
Uma picada vara o verde e leva lá
Não chega a ser, um pontinho preto no
mapa
Mas quando a gente se afasta
Coração pede para voltar
E pra lá chegar, você tem que
atravessar
Sete cancelas, treze porteiras
E uma pinguela sobre o ribeirão
Não chega a ser, um pontinho preto no
mapa
Mas quando a gente se afasta
Coração pede para voltar
(Ildeu Braúna e Pedro Boi – Ponte
Cigana)
Resumo

Nesta tese é apresentado o Norte de Minas Gerais como sertão. A categoria


sertão e seus desdobramentos permite mostrar nesta tese uma sociedade
alicerçada em atividades pastoris que se consolidaram com o passar do tempo. É
analisado, também, alguns saberes e fazeres considerados tradicionais no Norte
de Minas Gerais que se encontram em processo de atualização. As trajetórias
sociais de carreiros, seleiros, vaqueiros e trançadores de couro são narradas a
partir das falas de personagens que fazem a vida acontecer no sertão mineiro.
Adquiridos ancestralmente ou a partir de necessidades cotidianas, esses saberes
tradicionais traduzem as formas de vida e de pertencimento a grupos sociais
distintos que articularam e ainda articulam a vida através do trabalho do e com o
gado no campo. Os processos de modernização do campo norte mineiro a partir
dos anos 1960 propiciaram o desmantelamento de uma estrutura social baseada
no trabalho do campo. A transformação de fazendas em empresas rurais com o
estabelecimento de grandes áreas de pastagens culminou com o esvaziamento
do campo e, posteriormente, colocaram em risco alguns ofícios que eram
praticados no meio rural norte mineiro. Os carreiros, seleiros, vaqueiros e
trançadores passaram a ter seus ofícios ameaçados pela maquinaria moderna e
pelos meios de transportes como caminhões e tratores que executam com
rapidez os trabalhos antes feitos a partir da montaria em animais de serviços,
como os cavalos. Esses saberes foram atualizados e ainda são desenvolvidos por
várias pessoas na região norte mineira.

Palavras-chave: Sertão, vaqueiros, carreiros, seleiros, trançadores.


Abstract:

This thesis presents the North of Minas Gerais as backwoods. The consequences
arising from the category backcountry allowed the emergence of a society based
on pastoral activities that have been consolidated over time. It also analyzed some
knowledge and practices considered traditional in the North of Minas Gerais that
are in the updating process. Social trajectories of paths, saddlers, cowboys and
leather plaitind are counted from the speeches of characters that make life happen
in the mining hinterland. Ancestrally acquired or from everyday needs, these
traditional skills translate forms of life and belonging to different social groups, who
articulated and yet articulate life through work with cattle in the field. The northern
mining field modernization processes from the 1960s led to the dismantling of a
social structure based on the work of the field. The transformation of farms in rural
enterprises with the establishment of large areas of pastureland led to the
emptying of the countryside and later put at risk some crafts which were practiced
in rural northern mining environment. The carters, saddlers, cowboys and plaitind
now have their work threatened by modern machinery and transport means such
as trucks and tractors which execute the work at a more rapid rate than what was
done before from the mount on service animals, such as horses. This knowledge
has been updated and is still being developed by several people in the mining
north.

Keywords: Hinterland, cowboys, carters, saddlers, plaitind.


Lista de figuras
Figura 01: Mapa do Norte de Minas Gerais ......................................................... 26
Figura 02: Localização dos municípios pesquisados ........................................... 76
Figura 3: Municípios de Juramento, Itacambira e áreas de chapadas ................. 84
Figura 4: Tiras de couro cru utilizadas no processo de trançagem ...................... 89
Figura 5: Seu Zé Miranda mostra um chicote em fase de construção ................. 90
Figura 6: Corda de relho e laço. ........................................................................... 95
Figura 7: Argolas usadas em laços e chicotes ..................................................... 96
Figura 8: Bruacas sendo reformadas ................................................................... 98
Figura 9: Ferramentas utilizadas no durante o trabalho com o couro ................ 100
Figura 10: Placa anunciando a comunidade de Poço Verde .............................. 102
Figura 11: Croqui da comunidade rural de Poço Verde ..................................... 103
Figura 12: : Chicote elaborado pelo senhor Ilton ................................................ 107
Figura 13: : Vista do Morro do Frade em período de seca / agosto de 2015 ..... 111
Figura 14: Vista do Morro do Frade durante o período chuvoso / janeiro 2016 . 111
Figura 15: Comunidade de Capivara vista do alto.............................................. 113
Figura 16: Estrada de acesso à comunidade de Capivara ................................. 114
Figura 17: Croqui da comunidade rural de Capivara .......................................... 116
Figura 18: Sede da Associação dos Moradores de Capivara ............................ 119
Figura 19: Senhor Luiz Galdino .......................................................................... 124
Figura 20: Luiz Galdino mostra dois objetos feitos por ele ................................. 127
Figura 21: Modelo de cordas torcidas ................................................................ 128
Figura 22: O trabuco possui o cabo de madeira................................................. 130
Figura 23: O chicote possui o cabo trançado ..................................................... 130
Figura 24: Vaqueiro tocando gado ..................................................................... 138
Figura 25: Croqui da comunidade rural de São Leandro .................................... 139
Figura 26: Boiada sendo tocada pelas estradas do sertão mineiro ................... 147
Figura 27: Ilustração de vaqueiro tocando gado ................................................ 162
Figura 28: Carro de boi abandonado.................................................................. 188
Figura 29: : Carro de boi abandonado ................................................................ 189
Figura 30: Bois de cabeçalho bem aparelhados ................................................ 194
Figura 31: Tenda pertencente ao senhor Domingos Afonso .............................. 196
Figura 32: Os bois alinhados para o trabalho. .................................................... 198
Figura 33: Bois aguardando a partida para o trabalho ....................................... 205
Figura 34: Carreiro carregando cana com apenas dois bois na carroça ............ 206
Figura 35: Cavalgada da comunidade de São Leandro ..................................... 217
Figura 36: Competição de team peanning ......................................................... 218
Figura 37: Entrada da Selaria Montes Claros..................................................... 220
Figura 38: : Senhor Paulo com seu filho Paulo Alan e sua nora, Aline. ............. 222
Figura 39: : Modelo cutiano com cabeça ............................................................ 226
Figura 40: Modelos de cabeçadas ..................................................................... 227
Figura 41: : Selas penduradas ........................................................................... 229
Figura 42: Aline mostra uma sela já pronta que ajudou a confeccionar ............. 232
Figura 43: Modelo de sela dos mais procurados para passeios......................... 234
Figura 44: Modelo luxuoso de sela..................................................................... 235
Figura 45: Espichando a sola ............................................................................. 236
Figura 46: Modelo cutiano de sela ..................................................................... 238
Figura 47: Modelo luxuoso de sela..................................................................... 239
SUMÁRIO

CAPÍTULO I ......................................................................................................... 25
O SERTÃO NO PENSAMENTO SOCIAL BRASILEIRO ...................................... 25
CAPÍTULO II ........................................................................................................ 42
SURGIMENTO E CONSOLIDAÇÃO DA SOCIEDADE PASTORIL NORTE
MINEIRA .............................................................................................................. 42
SEGUNDA PARTE............................................................................................... 63
CAPÍTULO III ....................................................................................................... 64
GADO E GENTE: Couro e identidades no sertão mineiro ................................... 64
3.1 Vida biográfica do couro de boi .................................................................. 65
3.2 Saberes locais e as gentes do sertão ........................................................ 69
CAPÍTULO IV ....................................................................................................... 75
TRANÇANDO A VIDA: Trajetória social e cultural de trançadores de couro na
região Norte de Minas Gerais............................................................................... 75
4.1 Conhecendo as moradas da vida ............................................................... 76
4.2 Remoendo o passado: trajetórias sociais, saberes e fazeres sertanejos ... 79
4.3 Juramento: morada da vida, encantos e desencantos ............................... 83
4.4 Artista-trançador: trançando a vida e a esperança em Juramento ............. 87
4.5 Poço Verde de esperança: laços que unem homem e natureza .............. 102
4.6 Guardando a memória: cordas, trabucos, chicotes e piratas .................... 111
4.7 Tornando-se trançador ............................................................................. 121
CAPÍTULO V ...................................................................................................... 137
SEM COMITIVA, SEM BERRANTE E SEM BOIADA: A SINA DOS VAQUEIROS
NORTE MINEIROS ............................................................................................ 137
5.1 São Leandro como lugar da vida: vaqueiros e suas trajetórias ................ 138
5.2 Fechando as porteiras: será o fim dos vaqueiros? ................................... 147
CAPÍTULO VI ..................................................................................................... 177
NO ENCANTO DA POEIRA: Carros, bois e carreiros ........................................ 177
6.1 Histórico do carro de boi no Brasil ............................................................ 178
6.2 A vida carreira no sertão mineiro .............................................................. 186
6.3 Restos de um passado glorioso................................................................ 187
6.4 Montando o terno: escolhendo os bois e formando carreiros ................... 191
6.5 Pegando o estradão ................................................................................. 198
CAPÍTULO VII .................................................................................................... 213
NA GARUPA DO DESTINO: Os seleiros do sertão mineiro............................... 213
7.1 Revisitando os couros: cavalgadas, vaquejadas e team peanning........... 214
7.2 As selas como objeto de arte.................................................................... 220
7.3 A vida em Montes Claros: desafios e resistências.................................... 222
CONSIDERAÇÕES FINAIS ............................................................................... 243
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ................................................................... 247
14

INTRODUÇÃO

Apresenta-se nesta Tese o resultado da busca pelo entendimento de


um sistema de conhecimento tradicional que se encontra em processo de
desaparecimento ou atualização no Norte de Minas Gerais. Conhecedores dos
benefícios e prejuízos oriundos da modernização do campo e das relações sociais
e de trabalho, as pessoas ouvidas nesta pesquisa informam os processos sociais
que passaram e que estão passando dentro de seus grupos e comunidades
afetadas.

Esta Tese se divide em duas partes. A primeira parte é a ampliação de


uma discussão iniciada na dissertação de Mestrado em Desenvolvimento Social
defendida na Universidade Estadual de Montes Claros em 2010. Algumas
categorias de entendimento e conceitos foram revistos ou tiveram sua discussão
estendida a fim de facilitar a compreensão da temática. A primeira parte discute a
categoria sertão no pensamento social brasileiro e seus desdobramentos. Os
signos e significados do sertão são postos em evidência e compreendidos a partir
de vasta literatura existente sobre essa temática. Nesta parte, litoral e sertão são
pensados como matrizes civilizacionais e, portanto, indispensáveis para o
processo de entendimento do Brasil.

O sertão pensado e o sertão vivido são contrastados e interpretados a


partir das relações sociais existentes no universo do sertão. Por sertão pensado
compreendo como sendo aquele sertão visto na maioria dos ensaios e na
literatura até a década de 1950, quase sempre remetido a um lugar distante de
tudo e avesso aos bons modos. Foi com João Guimarães Rosa que o sertão foi
universalizado, “o sertão está em toda parte” (ROSA, 1986, p.1). O
reposicionamento do olhar sobre o sertão se fez necessário para aprofundar os
entendimentos sobre as mais variadas características e significados a ele
remetidos. Já o sertão vivido é o lugar prenhe de significados, sentidos,
sentimentos e afetos, lugar onde as sensações e percepções vividas informam as
relações de topofilia presente nas diversas gentes que nele habita. São gentes
variadas e grupos sociais distintos que englobam a identidade genérica de
15

sertanejos e vivem suas vidas de forma intensa e recheada de símbolos e


significados.

A segunda parte desta Tese está voltada para a compreensão dos


processos que envolvem alguns saberes e fazeres entendidos como tradicionais
no Norte de Minas. Vários ofícios, dentre eles, os carreiros, os vaqueiros, os
seleiros e os trançadores de couro são partes importantes de um grande mosaico
cultural que é a região sertaneja mineira. Surgidos e reforçados a partir do e com
o trabalho no campo, esses ofícios utilizam o couro de boi como matéria prima
para a elaboração dos mais variados itens utilizados na vida rural brasileira, e, a
saber, no Norte de Minas, e que foram constituintes e constitutivos de um modo
de vida baseado no trabalho com o gado nos campos.

Os saberes e fazeres materiais do homem do campo habitante da


região sertaneja mineira – especificamente o Norte de Minas – nos dias atuais
encontram-se em processo de atualização e, para muitos, com o advento da
modernidade, noção que precisa continuar a ser problematizada radicalmente,
aliás, como já o fizeram Geertz1 e Latour2, estão fadadas ao desaparecimento.
Entretanto, eles são constituintes e constitutivos de um sistema de conhecimento
vinculado a uma formação sociocultural histórica agropastoril que predominou na
região e moldou um tipo de sociedade que tinha como base elementar o trato com
o gado. Com as transformações ocorridas no sistema de produção regional pela
emergência e a hegemonia do sistema de produção e de conhecimento ocidental,
os sujeitos sociais regionais, detentores de saberes e fazeres materiais passaram
a reelaborá-los pela expertise construída ao longo do tempo e elevaram os bens
construídos à condição simbólica de saberes e fazeres tradicionais.

Para alguns estudiosos do Norte de Minas, o rápido processo de


transformação das relações sociais e de produção contribuiu para o
desaparecimento de saberes e fazeres construídos coletivamente ao longo do
tempo no Norte de Minas (Dayrell, 1998; Luz de Oliveira, 2005; Costa, 2005; Brito,
2006). Esses saberes são técnicas herdadas dos seus ancestrais que permitiram

1
GEERTZ, Clifford. After the fact. Two countries, four decades, One
Anthropologist. Cambridge:Harvard University Press, 1995.
2
LATOUR, Bruno. Jamais formos modernos. Ensaio de Antropologia
simétrica. São Paulo: Editora 34, 1994
16

a elaboração e difusão de uma cultura específica que teve na criação de gado sua
base de sustentação.

A região norte mineira que até meados dos anos 1960 teve sua
economia vinculada a um sistema de produção agropastoril com a produção
agrícola alavancando a economia regional gerou e concentrou riquezas após a
anexação dessa região à área de atuação da SUDENE3 no início da década de
1960. A partir desse momento passou a ocorrer um rápido e intenso processo de
desarticulação do sistema de produção bem como uma pulverização de pessoas
inseridas no campo culminando com a ida de suas famílias para as cidades que
começavam a polarizar o processo de incrementação industrial gerando, dessa
forma, um esvaziamento populacional na zona rural norte mineira, e, sobretudo,
transformações culturais profundas.

A anexação do Norte de Minas à área de atuação da SUDENE inseriu a


região no espaço compreendido como semiárido brasileiro. Por apresentar forte
concentração de sua produção no mundo rural, ações políticas desencadeadas
pelo Governo Federal vinculou o Norte de Minas ao contexto econômico brasileiro
que necessitava de incentivos para entrar no processo de produção considerado
moderno. Esta ação do Governo Federal no Norte de Minas veio modernizar o
sistema de produção agropecuário regional favorecendo a criação de modernas
fazendas de gado e financiando grandes projetos de fruticultura irrigada e,
também, plantações de florestas exóticas de eucalipto e pinus para suprir de
carvão vegetal as usinas siderúrgicas mineiras localizadas no entorno de Belo
Horizonte.

Esta ação patrocinada pelo Estado brasileiro proporcionou o


desmantelamento da estrutura social e material construída ao longo do tempo,
3
Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste. A área de atuação da SUDENE, ou
“Polígono das secas”, foi definida em 1936 (Lei 175/36), não incluindo o Norte de Minas. Isso só
ocorreria em 1946 pelo Decreto-Lei 9857. O mesmo seria ampliado pela Lei 1.348 de 1951.
“Quando a SUDENE foi criada em 1959 (Lei 3692), seu espaço de atuação foi definido como o
Nordeste e a área mineira do Polígono das Secas – AMPS”, contando também com o apoio do
Banco do Nordeste. Posteriormente, a área mineira da SUDENE sofreu modificações onde foi
incluído os novos municípios criados por desmembramento com a Lei de 1951, bem como
declarando que as áreas da margem esquerda do Rio São Francisco, dos municípios de São
Francisco, Manga e Januária não pertenciam ao Polígono e à região da SUDENE. Depois estes
municípios foram incorporados. A partir de 1998 (Lei 9.690) a região mineira da SUDENE passou
também a incorporar mais 54 municípios do Vale do Jequitinhonha (COSTA FILHO, 2005, p. 15).
17

principalmente pelas populações inseridas no campo que, em partes, são


atualmente conhecidas e reconhecidas como tradicionais. Os saberes e fazeres
que reelaborados marcam a tradicionalidade dessas populações começaram a
ser atacados pelo processo de modernização do campo permitindo a
desarticulação dos mesmos e que, hoje, mesmo com a modernidade espalhada
por este sertão, ainda podem ser encontrados.

Com a implantação da industrialização no Norte de Minas, vários


setores da economia regional entendidos até então como cruciais para a
reprodução do homem do campo foram marginalizados ou desapareceram
totalmente graças à instituição da produção fabril. No crescimento e
desenvolvimento econômico que se iniciava, ofícios profissionais tradicionais
como trançadores de cordas, carreiros, vaqueiros, seleiros bem como outras
técnicas sertanejas iniciaram um processo de desaparecimento ao longo do
tempo. Diversas técnicas de produção artesanal, individual ou coletiva, foram
forçadas a entrar no modo tecnológico de produção propiciando um abandono
forçado das tecnologias tradicionais de produção que eram utilizadas como
garantias de sustentação familiar.

Desse modo, as várias práticas tradicionais encontradas no sertão


mineiro com o tempo foram sucumbindo-se ao modelo de produção atualmente
vigente. Para que os saberes e fazeres tradicionais dessa região permaneçam
ativos e possam no futuro servir as novas gerações, haja vista que o Norte de
Minas possui grande parte de suas terras concentradas nas mãos de poucas
pessoas e de grandes empresas rurais, torna-se necessário a realização de um
inventário social dos saberes e fazeres tradicionais que construíram a rica cultura
do Norte de Minas e permitiram a emergência e consolidação de uma sociedade
que se afirma diferente no modo de fazer e pensar suas relações sociais e
econômicas (LOPES, 2010).

Com a consolidação dessas mudanças é possível considerar que esses


saberes e técnicas ainda permanecem e os detentores desses conhecimentos
tradicionais podem ser encontrados em diversas cidades e comunidades rurais
norte mineiras. Estes estão vinculados ao sistema pastoril que se caracterizou
18

como crucial no processo de afirmação da sociedade aqui fundada no século


XVII.

O interesse em pesquisar e compreender os saberes e técnicas


existentes no mundo rural norte mineiro e as trajetórias sociais dos seus
portadores justifica-se pela violência imposta às técnicas consideradas
tradicionais pelo sistema capitalista de produção vigente onde a produtividade e
agilidade proporcionada pelos novos meios de produção e transportes tentam
colocar à margem da sociedade os que ainda sobrevivem vinculados a sistemas
de produção diferenciados e a sistemas de conhecimentos tradicionais.

A inspiração para realizar o entendimento do entendimento de um


sistema de conhecimento tradicional a partir de trajetórias pessoais nasceu da
leitura de Tuhami: Portrait of a Maroccan de Vincent Capranzano (2002). Ao ler o
texto percebi que o autor, trabalhando com narrativas não ocidentais as
compreende como “construções culturais que refletem pressupostos
fundamentais sobre a natureza da realidade, incluindo a natureza da pessoa e a
natureza da linguagem” (CRAPANZANO, 2002, p. 7)4. Ao transportar esta
perspectiva para a realidade social do sertão mineiro vejo que é possível
apreender pelas narrativas de vaqueiros, carreiros, seleiros, trançadores de
cordas, dentre outros, os pressupostos fundamentais que organizam o sistema de
conhecimento tradicional sertanejo norte mineiro.

A compreensão das trajetórias sociais dos detentores de saberes


tradicionais é possível, também, a partir dos estudos de Claude Dubar (1998), que
toma como análise os processos sociais de identificação. Para a compreensão
das trajetórias sociais, segundo o autor, é necessário dividi-las em categorias
distintas. Para ele há a existência de trajetórias sociais objetivas e subjetivas. Por
trajetória objetiva entende-se como a sequencia de posições sociais ocupadas por
um indivíduo ou sua linhagem na escala social e, por trajetória subjetiva, pode-se
entender a mesma como relatos biográficos por meio de categorias inerentes

4
Livre tradução de “They are cultural constructs and reflect those most fundamental assumptions
about the nature of reality, including the nature of the person and the nature of language”
19

remetendo a mundos sociais e condensável em formas identitárias heterogêneas5


(DUBAR, 1998, p.1). Aqui o foco será a trajetória subjetiva de vaqueiros, seleiros,
trançadores, carreiros, dentre outros, que compreendo como intelectuais nativos
do sertão mineiro. Intelectuais nativos são os membros de uma sociedade que por
construir e conhecer suas culturas permitem ao pesquisador apreender as
interpretações que são construídas sobre a vida social e os processos sociais
vividos.

Desta forma, podemos perceber o quanto o estudo e entendimento de


trajetórias sociais ultimamente têm ganhado destaque na teoria social. Se antes
apenas os historiadores se preocupavam em construir ou reconstruir trajetórias
sociais e, posteriormente os biógrafos, há a abordagem de cientistas sociais que
tomaram para si a responsabilidade de desvendar os significados de trajetórias
individuais ocultadas em sujeitos sociais e de direito no interior de sociedades ou
comunidades.

Neste caso, considero os portadores da arte tradicional, rústica, e que


são vistas por algumas pessoas como atrasadas e primitivas, como intelectuais
nativos, produtores de um conhecimento singular e crucial para sua sobrevivência
e que propicia apreender o sistema de conhecimento tradicional agropastoril que
predominou no Norte de Minas.

Quando escreveu sobre o saber local Clifford Geertz (2001) sugeriu aos
pesquisadores que ao tentar descortinar uma realidade social devemos realizar
um entendimento do entendimento de um sistema de conhecimento. No caso do
sertão norte mineiro, o sistema de conhecimento tradicional encontra-se em
constante processo de atualização. Para apreendê-lo, recorri a sujeitos
tradicionais locais com quem trabalhei diretamente e com autores locais e não
locais para decompor os significados desse processo do saber e do fazer
sertanejo que se organizam como parte de um complexo sistema de
conhecimento. Compartilhando a perspectiva de Geertz (1989), considero que é
possível apreender, por meio do eidos e do ethos informados e vividos pelos
sujeitos da pesquisa a cultura regional norte mineira, mas o foco aqui é o sistema

5
Por formas identitárias heterogêneas Dubar (1998, p. 9) entendo-as como sendo tipos ideais
construídos pelo pesquisador para dar conta da configuração dos esquemas de discurso
(identidade de empresa, identidade de rede, etc).
20

de conhecimento tradicional que, pela resistência, processa-se em constante


atualização.

Faço aqui um exercício de compreensão da arte de trançar cordas de


couro, moldar selas de couro para se montar a cavalo, o uso do carro de boi como
meio de transporte de cargas bem como sua importância para a vida regional com
seus carreiros, homens encarregados do transporte das mais variadas cargas.
Nos tempos atuais, parece difícil entender esse processo, haja vistas as dores
provocadas pela marginalização desses saberes que modelaram modos de vidas
e construíram caminhos para se viver a vida no interior do Brasil.

Não muito diferente, mas talvez a mais atingida das técnicas seja a do
ofício de vaqueiro. Como o Norte de Minas teve seu processo de ocupação e
territorialização vinculado à criação de gado, os vaqueiros sempre desenvolveram
um importante papel na consolidação e afirmação da diferença no Norte de
Minas. Com a chegada dos novos meios de transportes como os caminhões
gaiolas ou jamantas e o empresariamento das fazendas houve um forte impacto
no trabalho desses profissionais. Houve uma diminuição significativa na
quantidade de vaqueiros no sertão mineiro. E como o sertão, o boi e o vaqueiro /
boiadeiro se imbricam, o desaparecimento do vaqueiro tende a enfraquecer um
sistema de conhecimento que resistiu ao tempo e que, agora, está quase se
sucumbindo à modernização do campo. Esta temática será desenvolvida no
decorrer do texto onde será possível elencar as causas e os efeitos dessa
modernização do campo no Norte de Minas.

A região Norte de Minas Gerais foi tomada por Costa (2003, 2005,2007,
2008) como objeto de estudo e esse autor lembra que, com o tempo, em todo o
mundo, diante da perversidade das relações vividas sob a égide da modernidade
e o não cumprimento das promessas de que todos seriam modernos e viveriam
no paraíso do consumismo, as pessoas em seus grupos começaram a
demonstrar cada vez com mais força que se é globalizado, mas a vida é vivida
aqui no pé da serra não sei das quantas, entre as famílias tais e quais e que a
nossa cultura envolve outras dinâmicas que não a da mercantilização das
relações.
21

Mas, como é sabido, as culturas são dinâmicas e as alterações que


surgem com o passar do tempo propiciam à sociedade aceitar ou não as
mudanças imbricadas nessas novas dinâmicas culturais. Dessa forma,
compreendo as dinâmicas culturais como eixos de ações que propiciam aos
indivíduos viverem seus processos sociais e, dentre as novas dinâmicas do sertão
mineiro, destaco o imbricamento do urbanismo – como modo de vida – com o
rural.

Aqui no Norte de Minas nossas coisas afirmam os vínculos de


pertencimento a uma região pastoril e essas são expressas tanto na produção de
uma corda de couro quanto no artesanato de barro das beiradas do rio São
Francisco ou do Jequitinhonha, ou mesmo no modo de aboiar o gado pelo sertão.
São características que afirmam a existência de uma diferença sem que seja
necessário acionar a identidade norte mineira.

O meu interesse por esta temática nasceu do desejo de compreender


os processos sociais que estão levando ao desaparecimento dos ofícios aqui
mencionados. Afirmo, também, que sou nativo do sertão mineiro e vivi minha
infância e adolescência no campo onde fui iniciado nos ofícios de vaqueiro e
carreiro. Trata-se de um passado inesquecível e esta experiência tornou-se
fundamental para compreender os desdobramentos desse passado no trabalho
com o gado. Agora, tento compreendê-lo à luz do pensamento social e, para que
essa compreensão seja eficiente e eficaz, requer que eu faça um exercício de
profundo estranhamento, sem, entretanto, obliterar o conhecimento que constituiu
a minha experiência.

Desde que ingressei na academia me interessei pela temática do


sertão e, como afirmou Guimarães Rosa “o sertão é dentro da gente”, a cada
novo passo tive que me submeter ao método para de uma forma objetiva e
distanciada poder entender aquilo que está impregnado em minha trajetória
pessoal de vida. Como sertanejo vivi os processos aqui descritos, como tocar
boiadas, ser guieiro e também carreiro. Meu avô era carreiro e vaqueiro e meu pai
também o foi. Eles quiseram que eu aprendesse tais ofícios e que desse
prosseguimento a esse saber que era tão importante para a reprodução material
e social do homem do sertão mineiro. Mas a vida me proporcionou outros
22

caminhos e decidi caminhar nesses outros caminhos. Mas o sertão não sai de
mim e decidi retornar ao que me foi tão familiar para entender as novas dinâmicas
que são vividas no sertão mineiro. E como as coisas mudaram. A vida agora é
mais rápida, mais agitada, requer agilidade para desenvolver determinadas
funções que antes não requeriam muita rapidez, como as viagens com os carros
de boi e a marcha das boiadas.

Para a felicidade dos defensores da alta tecnologia e maquinaria, no


campo foram inseridos equipamentos e máquinas que inicialmente favoreceram
apenas os detentores de recursos suficientes para comprá-los. E para a desgraça
do trabalhador desprovido de muitos recursos restou apenas o que um dia já foi
tido como essencial para a sobrevivência sua e de sua família, apenas seu saber
e fazer tradicional.

Forçados pela modernização à marginalização, profissionais como


vaqueiros, seleiros, carreiros, trançadores de cordas evidenciam a desarticulação
do sistema de produção do modelo tradicional existente. As expressões desses
conhecimentos estão restringidas a poucas pessoas, pois como será informado
mais adiante, “não há com quem deixar esses saberes” haja vista que, nos
tempos atuais, não há interesse dos jovens em adquirir os saberes de seus pais e
avós para garantir a sobrevivência de um saber fazer que foi constituinte e
constitutivo da sociedade regional.

O método utilizado para coleta e apreensão dos dados nesta pesquisa


recai sobre o trabalho de campo. Durante os anos de 2014 e 2015 percorri as
comunidades rurais de Poço Verde e São Leandro, no município de Coração de
Jesus, e Capivara, no município de Montes Claros. Foram visitas repetidas e
diálogos extremamente proveitosos além de um aprendizado intenso com essas
pessoas. Esse intenso aprendizado com os vaqueiros, carreiros e trançadores
dessas comunidades me fez voltar a minha infância. Tempo de alegrias,
carreanças e montarias a cavalo para campear nos pastos. Minhas idas à cidade
de Juramento foi ao local de trabalho do senhor José Miranda, simpático
trançador, pois este reside no centro da cidade. Em Montes Claros, minhas idas à
selaria Montes Claras foram várias. Conversei com o senhor Paulo Oliveira, o
23

baiano que se tornou norte mineiro e seu filho Paulo Allan com sua esposa Aline,
todos trabalhadores do couro.

Os processos de sistematização dos dados e a escrita do texto foram


feitos a partir do ano de 2015. Neste tempo dediquei-me a segunda parte da tese
que abriga os saberes e fazeres tradicionais elencados aqui. Foram feitas
consultas ao material bibliográfico bem como a transcrição de entrevistas e
separação de material fotográfico. Foram feitos, também, os croquis e mapas que
envolvem tantos as comunidades rurais pesquisadas quanto a região Norte de
Minas Gerais que é objeto de estudo. Os croquis foram construídos a partir da
percepção dos moradores sobre o espaço e ambiente que ocupam e onde
ocorrem os diversos tipos de relações estabelecidas e reforçadas ao longo do
tempo. Foram levadas em consideração as áreas de uso de cada família
apontada no croqui bem como os recursos de uso comum, como as chapadas
para extrativismo, os córregos e os rios.

Por fim, as transformações ocorridas nas vidas das pessoas bem como
das comunidades as quais pertencem são mostradas aqui com a finalidade de
direcionar o leitor para o universo rural norte mineiro. Mudanças significativas
apontam para novos tempos vividos no campo a partir da chegada da
modernidade. Tradição e modernidade dialogam sistematicamente no Norte de
Minas e fazem do lugar um importante mosaico cultural onde é possível ler as
continuidades e descontinuidades geradas pelo processo de modernização das
relações sociais e de trabalho no campo.

Violências, rompimentos e desmantelamentos de estruturas sociais já


estabelecidas são constantes entre as gentes do sertão mineiro. Temerosos
quanto ao futuro dos ofícios aprendidos no passado, os portadores de saberes e
fazeres tradicionais ouvidos nesta pesquisa tentam articular internamente nos
grupos aos quais pertencem a permanência desses saberes ancestralmente
adquiridos. A resistência à modernização pode ser entendida como um dos
marcadores sociais dessa gente que faz da vida um balaio de lutas constantes
pela manutenção de um sistema cultural secular e que se encontra ameaçado de
extinção pela modernidade.
24

PRIMEIRA PARTE
25

CAPÍTULO I

O SERTÃO NO PENSAMENTO
SOCIAL BRASILEIRO
26

1.1 Conhecendo o sertão mineiro

Figura 01: Mapa do Norte de Minas Gerais

01 Águas Vermelhas 31. Itacambira 61. Patis


02. Berizal 32. Itacarambi 62. Pedras de Maria da Cruz
03. Bocaiúva 33. Jaíba 63. Pintópolis
04. Bonito de Minas 34. Janaúba 64. Pirapora
05. Botumirim 35. Januária 65. Ponto Chique
06. Brasília de Minas 36. Japonvar 66. Porteirinha
07. Buritizeiro 37. Jequitaí 67. Riachinho
08. Campo Azul 38. Josenópolis 68. Riacho dos Machados
09. Capitão Enéias 39. Juramento 69. Rio Pardo de Minas
10. Catuti 40. Juvenília 70. Rubelita
11. Chapada Gaúcha 41. Lagoa dos 71. Salinas
Patos
12. Claro dos Poções 42. Lassance 72. Santa Cruz de Salinas
13. Cônego Marinho 43. Lontra 73. Santa Fé de Minas
14. Coração de Jesus 44. Luislândia 74. Santo Antônio do Retiro
15. Cristália 45. Mamonas 75. São Francisco
16. Curral de Dentro 46. Manga 76. São João da Lagoa
17. Divisa Alegre 47. Matias Cardoso 77. São João da Ponte
18. Engenheiro 48. Mato Verde 78. São João das Missões
Navarro
19. Espinosa 49. Mirabela 79. São João do Pacuí
20. Francisco Dumont 50. Miravânia 80. São João do Paraíso
21. Francisco Sá 51. Montalvânia 81. São Romão
22. Fruta de Leite 52. Monte Azul 82. Serranópolis de Minas.
23. Gameleiras 53. Montes Claros 83. Taiobeiras
24. Glaucilândia 54. Montezuma 84. Ubaí
27

25. Grão-Mogol 55. Ninheira 85. Urucuia.


26. Guaraciama 56. Nova 86. Vargem Grande do Rio
Porteirinha Pardo
27. Ibiaí 57. Novorizonte 87. Várzea da Palma
28. Ibiracatu 58. Olhos-d'Água 88. Varzelândia
29. Icaraí de Minas 59. Padre Carvalho 89. Verdelândia
30. Indaiabira 60. Pai Pedro
Figura 01: Mapa do Norte de Minas Gerais
Fonte: IBGE, 1990. Org.: SILVA, F. G. Julho, 2014.

Apresento aqui a região norte mineira como sertão. Para isso, recorro
ao pensamento social brasileiro para compreendermos a noção de sertão e seus
desdobramentos com o passar dos anos no Brasil. Inicialmente, tomo o sertão
como categoria social e sociológica e um lugar passível de ser apreendido e
compreendido na sua especificidade regional e no âmago das suas diferenças.
Limito apenas ao espaço compreendido como sertão mineiro, e não o sertão
entendido em sua totalidade nacional. Para isso, trago como modelo de análise a
perspectiva antropológica interpretativa na qual “os fenômenos sociais são textos
para serem interpretados e não enigmas, como definidos na perspectiva
estruturalista” (PEIRANO, 1992, p.150).

A abordagem desta temática busca compreender o espaço situado no


estado de Minas Gerais e compreendido como sertão mineiro, espaço de
transição ecogeográfica, social, cultural, econômica e simbólica que compreende
nas suas interfaces a articulação de vários biomas que são constitutivos da
paisagem norte mineira, como a caatinga, o cerrado, faixas de Mata Atlântica,
Mata Seca, Veredas e Chapadas que abrigam e diferenciam várias culturas e
processos civilizatórios (COSTA, 2005). Assim, desenvolvo uma análise
sistemática dos processos sociais que ocorreram nesta região. Processos que
consolidaram tantos encontros diversos como também rupturas violentas por
parte dos membros da sociedade regional que criaram e ocuparam essa parte do
país. Aqui, trato o sertão como um fenômeno social, pois o mesmo é um espaço
construído socialmente e um lugar onde sua população criou regras e códigos
culturais que estruturaram a vivência social local.

Tendo como biomas principais e dominantes os cerrados e a caatinga,


vários estudos realizados por pesquisadores interessados em conhecer a
28

realidade socioambiental norte mineira informam que os cerrados localizam-se


nas regiões da Serra do Espinhaço que corta o território regional no sentido
longitudinal englobando a denominada Serra do Cabral com suas encostas e
chapadas apresentando altitudes de 600 a 1200 metros. Está presente, também,
nos planaltos do São Francisco com altitudes de 550 a 1200 metros e, em ambas
as áreas, o relevo variando entre forte-ondulado, montanhoso e suave-ondulado.

Para Marli Sales (2007, p. 68) o fato de situar-se na porção central do


país confere ao cerrado uma característica crucial que é a interação com quase
todos os outros domínios morfoclimáticos do país, constituindo áreas de transição
entre estes outros domínios. A grande extensão deste domínio (o segundo maior
em extensão do país, superado apenas pela Floresta Equatorial) também
contribui para esse papel.

Já na superfície de aplainamento da depressão Sanfranciscana


encontra-se a caatinga, caracterizada pelas grandes superfícies rebaixadas ao
longo do rio São Francisco e seus afluentes que se estendem como um plano
ligeiramente inclinado desde os sopés das encostas dos planaltos e das serras,
até os planaltos e planícies fluviais (COSTA at all, 2008, p. 65).

No século XVII o encontro de bandeirantes paulistas que percorriam o


vale do rio São Francisco em busca de índios para escravizá-los em São Paulo,
com os criadores de gado baianos que subiam o São Francisco, consolidou-se
como o marco fundante da região norte de Minas. A partir desses encontros deu-
se a formação das primeiras famílias e também a consolidação das primeiras
fazendas de gado na região.

No sertão mineiro, assim como no restante do Brasil, os grupos


étnicos e culturais que aqui se encontraram foram complementares uns dos
outros. A distância entre eles era demarcada hierarquicamente num sistema de
relações sociais concretas que definiam as posições diferenciais dos grupos
existentes. Para Costa (2008), o tipo híbrido de sociedade que aqui se formou,
como em todo o Brasil, afirmava cada vez mais uma diferenciação hierárquica .
Grandes fazendeiros instalados na região e os diversos quilombos formados não
digladiavam entre si pela ocupação da terra que permitia a reprodução dessas
sociedades porque os negros aquilombados tinham como estratégia de
29

sobrevivência a invisibilização e o não estabelecimento de relações estruturais a


partir de fora. As relações eram esporádicas apenas para a comercialização de
produtos. O conflito pela terra só se tornou realidade em meados do século XX
quando ocorreu o processo de cercamento das propriedades.

Se compreendermos sociológica e historicamente os processos que


ocorreram na ocupação do sertão mineiro, este território sempre constituiu uma
grande fazenda com vários donos e os mesmos deveriam cumprir várias regras
para ter acesso às mesmas. Inicialmente, apesar de pertencerem ao Rei de
Portugal, as terras eram livres e ninguém possuía o direito de propriedade, e sim
de exploração, ou seja, todos poderiam ser considerados ocupantes, inclusive os
negros aquilombados que foram os que mais sofreram com o processo de
expropriação das terras.

Há que ressaltar que não foi sempre assim. Vários negros tiveram
liberdade, se enriqueceram e outros foram potentados. Importante lembrar que
um destes negros chegou a ser Barão, Cypriano de Medeiros Lima, conhecido
regionalmente como Barão de Jequitaí, que se tornou à sua época, o homem
mais rico do Norte de Minas, tendo comprado de D. Pedro II concessão para
construir uma estrada de ferro na região. Só depois que a terra adquiriu valor de
troca, sendo potencialmente mercantilizável, é que começou o processo de
expropriação no Norte de Minas.

Considerando as relações existentes entre os abastados que aqui se


instalaram, é possível compreender que apenas pessoas que mantinham uma
relação mais próxima com a Coroa portuguesa eram consideradas proprietárias
ou posseiras legítimas da terra. A partir desse entendimento das relações de
proximidade com a Coroa portuguesa é possível perceber o motivo pelo qual os
negros foram escorraçados pelos ocupantes que se consideravam fazendeiros.
Posteriormente é que os negros passaram a estabelecer moradias próximas às
milhares de lagoas que havia no território norte mineiro, como informa Costa
(2005).

Apreender o sertão mineiro em sua totalidade exige não apenas


mergulhar e decompor cada um dos significados de sua teia, mas concebê-lo
antes de tudo como uma estrutura de pensamento que manifesta suas ideias e
30

símbolos, assim como a imediata apreensão de sua visão de mundo e o seu


ordenamento da realidade. Para realizar isto é necessário entrar na intimidade do
sertão e compreendê-lo nas suas diferenças e peculiaridades. Caso contrário,
considerar o sertão como um todo indistinto seria proceder como os viajantes do
passado que viam o sertão como um lugar uniforme e vazio. Para esses viajantes
estrangeiros o lugar da civilização era o litoral, enquanto o sertão era o lugar do
atraso.
Enquanto no litoral os modos europeus ditavam o comportamento da
sociedade ali fixada, a civilização do sertão não foi marcada pelo negro, como
informa Bastide (1979). No sertão mineiro ocorreu a ocupação de uma ampla área
que Costa (2005) denominou de território negro da Jahyba onde se destacou
várias lutas quilombolas pelo território, uma vez que a criação de gado no sertão
não exigia uma mão de obra abundante.

Bastide lembra que no sertão, o escravo, quando existia, era o escravo


doméstico que cultivava roças ou trabalhava na cozinha dos seus donos. O índio,
em compensação, foi quem demarcou com o seu sangue os espaços e costumes.
Uniu-se ao branco e gerou uma raça mestiça entre vaqueiros e domadores do
espaço. Mulheres silenciosas e resistentes ao trabalho e homens adaptados a
uma terra ingrata, porém amada. Mulheres que se alimentavam de mandioca e
carne seca e não, como as mulheres do litoral, de doces, de geleias e
sobremesas açucaradas (BASTIDE, 1979 p. 71).

Desse modo, ao tentar compreender o espaço do sertão mineiro bem


como as particularidades da sociedade que aqui se estruturou, coloco minha
argumentação em torno deste signo. Assim, a categoria espaço pode ser
compreendida como o produto da interação entre os elementos naturais e
imateriais, pois o espaço é mais amplo que o território, dado que ele comporta
vários meios que estruturam a existência da população dentro deste espaço.

Ao tomar o sertão como lócus de estudo é importante lembrar que a


existência do sertão requer, impreterivelmente, a existência dos sertões. O lugar
sertão constitui um amplo e heterogêneo espaço onde múltiplas e diversas
relações sociais, culturais, econômicas e políticas se imbricam e conjugam
diferentes lógicas e modos de ser, viver, sentir e pensar, que fazem do sertão o
31

lugar dos sertões. Conhecendo o sertão adentro e a fundo é permitido afirmar a


existência de diversos lugares fundados por gentes diferentes e que agregam as
inúmeras populações sertanejas espalhadas no interior dos mesmos.

Recentemente, a categoria sertão e seus desdobramentos passou a


ocupar um lugar de destaque no pensamento social brasileiro. Desde a metade
do século XX ele passou a ser analisado de forma diferente. Deixou de lado o
regionalismo encontrado principalmente na literatura e, também, certa
discriminação por parte de alguns estudiosos que tomaram para si a
responsabilidade de pensar o sertão e explicar o Brasil6. Euclides da Cunha ao
lado de outros escritores e estudiosos para explicar o Nordeste brasileiro e João
Guimarães Rosa para o Norte de Minas exerceram papéis importantes para o
entendimento do signo sertão.

Willi Bole (2004) ao analisar os pilares do sertão nas obras de Euclides


da Cunha e Guimarães Rosa lembra que Os Sertões e Grande Sertão: Veredas
são recriações da realidade na língua convidando o leitor a redescobrir com os
sentidos despertos o centro do país [...] (2004, p.47). Para o autor, foi com estes
autores que no século XX o sertão irrompeu com força total no cenário da
historiografia e da literatura universal.

Desde a chegada dos portugueses ao Brasil o sertão é a categoria


espacial mais relevante para se entender o próprio Brasil (AMADO, 1995). Além
de ser um dos únicos espaços transregionais do Brasil, o sertão é onde se
defronta uma diversidade de modos de vida e saberes particulares que se
articulam com modelos importados de outras regiões do país ou do mundo e,
onde, segundo Lambert (1971), as subculturas brasileiras se encontravam7.

Para Custódia Selma Sena (2003), o país considerado arcaico ou a


sociedade tradicionalista são caracterizados por uma estrutura social simples e
hierarquizada, por ser rural e composta de pequenas comunidades isoladas
apegadas a vínculos tradicionais e rotinas resistentes a mudanças. Nessas áreas

6
Vide Vidal e Souza (1997).
7
Essas sub-culturas relacionadas pelo autor, são populações que ocupavam
faixas territoriais ao longo do espaço compreendido como sertão e estabelecem
modos de vida peculiares.
32

predominam os grupos primários e as relações pessoais de favor, de lealdade, de


proteção e patronagem8. Dessa forma, é possível entender que, primeiramente, o
sertão era compreendido como o lado arcaico do país por intelectuais do
pensamento social brasileiro. Euclides da Cunha em sua imersão no sertão
nordestino como correspondente de guerra lembra que “sertão é tudo aquilo que
está fora da escrita da história e do espaço da civilização: terra de ninguém, lugar
da inversão de valores, da barbárie e da incultura” (VENTURA, 2000, p.112).

Até a publicação de Os Sertões, as únicas fontes de conhecimento até


então conhecidas sobre o sertão provinham dos viajantes estrangeiros e também
dos documentos oficiais elaborados durante o período colonial. O olhar de alguém
“de fora” sobre uma realidade até então desconhecida deveria gerar dúvidas, mas
as informações dos viajantes não eram uniformes, o que permitiu uma elaboração
de diversos olhares e sentidos sobre o sertão brasileiro. Dessa forma, o olhar de
alguém “de dentro” talvez pudesse ter mostrado outra imagem do sertão.

Para Willi Bole (2004), o sertão estende-se sobre uma superfície de


aproximadamente 2,5 milhões de quilômetros quadrados, do Trópico de
Capricórnio até perto do Equador, ou seja, desde o interior do estado de São
Paulo passando por Minas Gerais, Goiás e Bahia até Pernambuco, Piauí e Ceará,
e, no sentido leste-oeste, desde a faixa agreste atrás da Mata Atlântica até Mato
Grosso, constituindo, assim, o “interior”, a interlândia ou miolo do território
brasileiro, entre a velha zona canavieira do nordeste, as metrópoles do Sudeste e
a Floresta Amazônica, o sertão inspirou escritores como Euclides da Cunha e
Guimarães Rosa a construírem um retrato alegórico do país.

Dos vários viajantes que aqui estiveram Saint-Hilaire afirma em seus


relatos, sob forte orientação positivista, que o sertão designava “áreas
despovoadas do interior do Brasil. Quando digo despovoada, refiro-me
evidentemente aos habitantes civilizados, pois de gentios e animais bravios está
povoada em excesso” (SAINT-HILAIRE, 1937, citado por AMADO, 1995, p.147).
Desse modo, o sertão se constituiu desde cedo, por meio do pensamento social,
uma categoria de entendimento do Brasil, inicialmente na condição de colônia

8
Sena (2003) lembra que comunidades rurais, bastante homogêneas e estáveis culturalmente,
abrigavam a maioria da população do país e formavam uma simbiose com o meio onde vivem,
adquirindo novas formas de reprodução.
33

portuguesa e, após o século XIX, como nação, como um lugar vazio de


civilização, vide a afirmação de Saint-Hilaire, há gentes não civilizadas (os
gentios) e os animais.

A categoria sertão foi construída primeiramente pelos colonizadores e


estava vinculada a sentidos negativos, sendo conhecido pelos lusitanos como
espaços vastos, desconhecidos e pouco habitados (AMADO, 1995). Assim, uma
concepção dualista dividia um Brasil civilizado, dominado pelos brancos, um
espaço da cristandade, da cultura, com bons modos e uma gente polida e
avançada, situada no litoral e que encontrava no ethos europeu o modelo de vida
a ser seguido, priorizando a urbe, versus um sertão, lugar desconhecido,
inacessível, isolado, perigoso, dominado pela natureza bruta e habitado por
bárbaros e hereges infiéis, onde as benesses da religião, da civilização e da
cultura ainda não haviam chegado.

Essas duas categorias, sertão e litoral, são complementares


porquê, como em um jogo de espelhos, uma foi sendo construída
em função da outra, refletindo a outra forma invertida, a tal ponto
que sem seu principal referente (litoral), [o] sertão esvaziava-se
de sentido, tornando-se ininteligível, e vice-versa (AMADO, 1995,
p.149).

Ao analisar as categorias sertão e litoral no pensamento social


brasileiro, Sena (2003) afirma que a questão do dualismo no Brasil após a
independência de Portugal tornou-se um mal estar e tal dilaceramento passou a
caracterizar a experiência intelectual brasileira. Para a autora, uma dualidade
existente no pensamento social brasileiro não é nem transitória, nem resultado da
imitação, mas a expressão do modo estrutural de incorporação dos países
colonizados – econômica e socialmente – atrasados ao mundo moderno, como
parte integrante do processo de reprodução do moderno.

Na tentativa de mostrar a localização do sertão brasileiro, Amado


(1995) afirma que para os portugueses o Brasil todo era um grande sertão. Para o
habitante do Rio de Janeiro no século XVI ele começaria logo além dos limites da
cidade, no obscuro e desconhecido espaço dos indígenas. Para o bandeirante
paulista do século XVII ou XVIII, o sertão abrangia os atuais estados de Minas
Gerais, Mato Grosso e Goiás, interiores perigosos, mas “dourados”, fonte de
mortandade e de riquezas. O sertão representava liberdade e esperança:
34

liberdade em relação a uma sociedade que os oprimia, esperança de uma vida


melhor e mais feliz. Desde o início da História do Brasil o sertão foi configurado
dentro de uma perspectiva dual, contendo em seu interior uma virtualidade, a da
inversão. Inferno ou paraíso, tudo dependeria do lugar desde onde se estava
falando.

Importante lembrar ao leitor que nesse período ninguém se assumia


como sertanejo, dado que o sertão nunca era onde se estava, vide informação de
Richard Burton (1977). O sertão estava sempre além, distante. Assim, não havia a
possibilidade dessa leitura de fora e de dentro, a de dentro replicava a de fora.

Avançando sertão adentro descobre-se que o espaço do sertão agrega


em seu interior valores resultantes dos encontros que anteriormente aqui se
deram. Encontros culturais e econômicos que constituíram a região e que são
elementos fundantes da sociedade que ocupa esta faixa territorial que é o sertão
em sua totalidade. Modos de interação ímpares, tipos de vestimentas e também a
culinária constituem fatores cruciais no processo de afirmação e pertencimento ao
lugar, pois a partir desses elementos culturais regionais torna-se possível o
reconhecimento da identidade sertaneja que se vincula à sociedade norte mineira.

As práticas sertanejas realizadas ao longo do tempo constituíram-se


em estratégias estabelecidas pelas gentes dos sertões para se organizarem e se
estruturarem enquanto sociedade. As relações estabelecidas entre os membros
dessa sociedade tornaram-se cruciais no processo de reprodução dos mesmos,
pois os tipos aqui estabelecidos visam sempre o fortalecimento dos laços que
estreitam as relações. São as relações de parentesco e também as relações
vicinais como compadrio, amizades e irmandade fraterna que inicialmente
constituíram e constituem essa sociedade, e que ainda hoje permanecem fortes
no processo de consolidação e afirmação das gentes do sertão.

Se antes o sertão compreendia um complexo de circunstâncias


descritas, hodiernamente, o sertão tornou-se um lócus privilegiado para se
analisar os grupos sociais que ocupam esta vasta faixa territorial no interior do
Brasil, e, também, de explicação da nação, do projeto de construção da nação
brasileira.
35

Com o refinamento dos estudos elaborados pelos estudiosos do


passado, principalmente os de tendência evolucionista que afirmavam que o
sertão deveria ser incorporado ao restante do Brasil e a difusão de métodos
criados por ciências como a Antropologia e a Sociologia, novas e possíveis
interpretações foram surgindo ao longo do tempo, o que possibilitou a
compreensão do por que o mundo do sertão foi deixado à margem e
estigmatizado no passado, e as sociedades que habitavam essa região tornaram-
se invisíveis ou foram marginalizadas pela sociedade urbanizada, localizada
preferencialmente no litoral no país.

Neste sentido, Deleuze e Guatari (1997), ao analisar os espaços e


suas relações lembram que existem os espaços lisos e os espaços estriados que
proporcionam aos humanos organizarem-se e situarem-se na arena de disputa
instituída. Para estes autores, nunca nada se acaba. A maneira pela qual um
espaço se deixa estriar, mas também a maneira pela qual um espaço estriado
restitui o liso com valores, alcances e signos eventualmente muito diferentes.
Talvez seja preciso dizer que todo progresso se faz por e no espaço estriado, mas
é no espaço liso que se produz todo devir. Desta forma, é possível compreender
que o espaço liso, que seria a percepção do espaço como matriz de movimento,
espaço, portanto, ocupado por acontecimentos, constituído de afetos; e o espaço
estriado, organizador de matérias, ordenador de medidas e propriedades. Espaço
intensivo em oposição ao extensivo.

Já Froehlich e Monteiro (s/d)9 lembram que o espaço liso é direcional,


apenas trajeto, deriva, enquanto o espaço estriado é dimensional, métrico,
passagem, movimento de um ponto a outro. Como consequência desta distinção,
o espaço liso é ocupado por acontecimentos – é háptico, relacionado com os
gestos e a continuidade do movimento, espaço de afetos (intenso), enquanto o
espaço estriado está formado por propriedades, é ótico (distante), mensurável,
extenso.

9
FROEHLICH. José Marcos; MONTEIRO, Rosa Cristina. Reconstrução social do espaço rural
no contexto de transição para a sustentabilidade. (sd).
http://www.anppas.org.br/encontro_anual/encontro1/gt/dimensoes_socio_politicas/Rosa%20Cristin
a%20Monteiro.pdf Acessado em 23/11/2009
36

Para Albuquerque Junior (2007), os espaços são construções humanas


e os recortes espaciais são feitos pelos homens e estes são produtos não apenas
das diferentes formas dos homens se organizarem econômica e politicamente,
são resultados não apenas das relações econômicas e de poder que dividem os
homens e com eles os territórios, os lugares, os espaços, mas também são frutos
da imaginação humana e estão impregnados de seus valores, costumes, formas
de e dizer o mundo, as coisas e as pessoas.

Ao afirma que a identidade norte mineira é derivada da agregação de


diversos modos, valores, comportamentos e ações, Costa (2003) propicia aos
norte mineiros uma melhor compreensão de sua condição e importância que os
mesmos tiveram e têm na formação do estado de Minas Gerais. Para este autor,
enquanto na região das minas a exploração do ouro e a ampliação do escopo
administrativo colonial propiciou o estabelecimento de uma sociedade complexa,
com diversificação das funções urbanas e a gênese de uma estratificação social,
no norte sertanejo, o isolamento do sertão sanfranciscano tornou propícia a
consolidação de uma sociedade distintamente hierarquizada, possibilitando a
instauração de dinâmicas sociais específicas pela ausência da administração
colonial que aí se faz presente apenas em momentos de tensões sociais.

Os signos identificatórios iniciais tornam explícitos os diferenciais de


poder que cada região passa a deter em suas trajetórias históricas. Enquanto na
região das minas os seus moradores tornam-se os mineiros, na região
sanfranciscana seus habitantes retrocedem à condição de sertanejos. Nomes que
enunciam, por um lado, o sentimento de status superior para um grupo,
vinculando-o ao seu carisma grupal, e implicações de inferioridade e desonra para
o outro grupo. Nesse rebaixamento de criadores de gado a sertanejos, os norte
mineiros foram lançados numa condição de inferioridade que para Elias e Scotson
(2000) gera a desonra para o grupo estabelecido (p. 296).

O contraste entre mineiros e norte mineiros transparece não apenas


em ideais regionalistas, mas também em práticas políticas, sociais e culturais.
Para as gentes do sertão, a terra, a cultura regional, um modo próprio de vida
constitui-se em uma estratégia de sobrevivência e reprodução social e material
garantindo uma particularidade social que é composta pelas gentes dos sertões,
37

constituindo, desta forma, um dos elementos identificadores da gente sertaneja


norte mineira.

Ao realizar um estudo comparativo entre as minas e os gerais, Costa


(2003), ao discutir em suas pesquisas a ideia de paisagem mental10, sugere que
se perguntarmos a um brasileiro o que vem à sua mente quando se fala em Minas
Gerais ele lembrará as montanhas, as cidades históricas da região aurífera e
também o barroco mineiro. Nesse sentido de paisagem mental, se perguntarmos
a um mineiro habitante da capital ou da região das minas o que ele pensa sobre o
espaço compreendido como o sertão mineiro o mesmo afirmará que o sertão é
um lugar de atraso, de fome, de seca e de miséria, afirmando distância da região
e do povo que nela habita.

A dualidade de visões da região compreendida como sertão remete ao


que foi afirmado anteriormente. O significado do signo sertão depende sempre de
onde o enunciante está localizado. Neste sentido, há aqui uma visível dualidade
sugerida que, para a gente do lugar, o sertão é o paraíso, e, para os “de fora”, o
sertão é o inferno aqui na terra11.

Dessa forma, o sentimento de pertencimento que a sociedade


sertaneja afirma torna-se instrumento de luta, não apenas política, mas também
de resgate da importância renegada a essa gente que contribuiu para a afirmação
do estado de Minas Gerais. O signo identitário vinculado às gentes do lugar
constitui-se em importante dispositivo discursivo que permite às mesmas
expressarem os ideais e angústias de uma sociedade vista e afirmada pelos de
fora como periférica, marginalizada.

Costa (2008) lembra que o sentimento de pertencimento é construído a


partir de relações vividas em espaços e por processos que nasceram da atuação
de indivíduos que marcaram a vida de uma localidade. Os fluxos relacionais
vinculam parentes a outros parentes distanciados no território regional, fiéis aos

10
Ver também Simon Schama (1990)
11
Mas a imponência mineira frente aos norte mineiros é desconstruída atualmente de várias
formas. Uma das variantes que tentam alavancar o imaginário norte mineiro diante da importância
que a região demonstrou na consolidação do estado de Minas Gerais é o Movimento Catrumano,
idealizado e organizado por intelectuais e representantes políticos da região que busca constituir
poder simbólico para a região e que, posteriormente, poderá ser transformado em investimentos.
38

santos protetores nos centros de peregrinação, ouvintes e cantores nas rodas de


cantigas e nas serestas. É vivendo que os norte mineiros sabem que
compartilham um modus vivendi próprio que é refletido na maneira de se
comunicarem, na linguagem, pela diferença de sotaques e por expressões
regionais, nos simbolismos tirados de sua conduta solidária e cordial oposta à
conduta polida, contida e individualista do homem que lhe é seu contraponto, o
mineiro.

Portanto, procuro fazer uma análise dos diversos significados do signo


sertão. O sertão pensado e o sertão vivido. O sertão pensado, enquanto categoria
social é compreendido como aquele lugar divulgado na literatura existente sobre o
tema, assim como nas pesquisas realizadas por estudiosos que o veem tanto
como um lugar atrasado quanto um lugar promissor, onde a intervenção humana
condicionará melhores alternativas de sobrevivência para a gente da região. O
sertão vivido, enquanto categoria sociológica, ao contrário, é compreendido como
as práticas aqui estabelecidas, e os múltiplos e diferenciados encontros que aqui
se deram resultaram na formação de uma sociedade impar, resistente às
intempéries da natureza e a ação exploradora dos forasteiros que aqui se
estabeleceram explorando os recursos naturais e humanos.

Faz-se necessário lembrar que vários autores que se debruçaram


sobre o sertão e tentaram encontrar explicações sobre ele sempre destacaram os
aspectos mais adversos do mesmo, como a seca, a fome e a violência. O sertão,
na maioria das vezes, é lembrado pelas adversidades, como lugar inóspito, uma
terra ignota, onde a esperança era centrada na fé, nos deuses e santos que
figuravam na vida das pessoas sertanejas.

Como forma de preencher os imensos vazios populacionais do sertão


bem como o vazio econômico, a partir dos anos 1940 o Estado brasileiro adotou
política de incentivo à penetração no interior, principalmente o Oeste, onde, para
muitos, estaria localizado o sertão. Desta forma, a política de ocupação do sertão,
provavelmente com o intuito de incorporar as gentes sertanejas no interior da
nação propiciou a entrada no interior do país dos ideais ocidentais de produção
em larga escala. Com um discurso inovador, afirmando que onde não se colhia
nada a partir daquele momento se colheria, e com o incentivo ao uso de insumos
39

que corrigiriam a acidez dos solos e a irrigação das terras consideradas inférteis,
o Estado impôs o modelo que impera até hoje nos diversos sertões do Brasil12.

Guimarães Rosa ao ficcionalizar o sertão norte mineiro no livro Grande


Sertão: Veredas enuncia uma imagem e ideia de sertão enquanto o cerne da
nação brasileira. Ele enfatiza, também, o choque entre duas culturas e dois tipos
de discurso. O discurso dos donos do poder e o discurso do povo humilde do
sertão. Nesse sentido, lembra Bole (2000), é exercido o poder pelo poder: poder
de impor o medo, de matar, roubar, entre outros.

A obra de Guimarães Rosa é considerada um retrato do Brasil e toma o


sertão como síntese da nação brasileira. Não é por ser ficcional que o seu
enunciado não contenha fundamentos reais. Podemos dizer que o discurso
literário é um campo preferencial de realização do imaginário, comportando,
também, a verossimilhança. A ficção não seria, pois, “o avesso do real, mas outra
forma de captá-lo, em que os limites da criação e fantasia são mais amplos que
os permitidos”, afirma Pesavento (1998, p.21). Neste sentido, a autora lembra que
“o discurso ficcional é quase história” na medida em que os acontecimentos
relatados são fatos passados para a voz narrativa como se tivessem realmente
ocorrido.

Ao analisar o Grande Sertão: Veredas Bole (2000) toma-o como um


discurso do sertão vivido e lembra que o sertão é percebido como um labirinto,
como uma arena de guerra onde os códigos culturais e as estruturas de poder
ganham forma. O termo labirinto empregado pelo autor ganha o significado de
aprendizagem, pois, para ele, o sertão roseano é mais que um espaço geográfico,
é o mapa de uma mente por onde podemos pensar a nação13.

12
Martins (2008, p. 47) lembra que o Brasil é um país extenso e uma das últimas regiões do
mundo em processo de ocupação marcada por uma fronteira viva e conflitiva. É um país marcado
por uma longa história de lenta ocupação territorial que chega até nossos dias e que foi e tem sido
ao mesmo tempo, a história da subjugação dos povos indígenas, seja mediante sua submissão à
escravidão, seja mediante seu extermínio, seja mediante sua adaptação à sociedade dominante. A
partir da revolução de 1930, esse processo ganha uma orientação nova. A ocupação do território
pelo Estado Nacional passa a se dar como parte de um programa especificamente orientado
nesse sentido, tendo em vista o exercício da soberania nacional e as necessidades do
desenvolvimento econômico do país.
13
É importante lembrar que o sertão como labirinto, ou seja, um lugar onde um estranho se perde
com facilidade, é cunhado por Bole (2000) justamente por ele não ser do sertão, pois um sertanejo
40

Desde o final dos anos 1970, informa Sena (2003), a reflexão sobre
região e espaço vem se afirmando progressivamente por meio dos estudos de
geógrafos e historiadores. Entre os geógrafos a contribuição vem, sobretudo, da
geografia crítica, que entende o espaço como uma construção social prenhe de
historicidade. Nessa perspectiva, a região define-se como uma categoria espacial
que expressa uma especificidade, uma singularidade dentro de uma totalidade.
Deste modo a região configura-se como um espaço particular dentro de uma
organização social mais ampla com a qual se articula. Sena lembra, ainda, que no
processo de construção da nação brasileira algumas espacialidades definiram-se
como o lócus da nação, coincidente com o nacional, enquanto o termo região
passou a designar os espaços geoeconômicos decadentes ou marginais [Norte,
Sul, Sudeste, Centro-Oeste, Nordeste] gerando diferentes visões da ideologia da
nacionalidade e das identidades regionais (2003, p.46).

Ao abordar o sertão norte mineiro enquanto categoria social e


sociológica faz-se necessário percorrer criticamente as obras literárias que tratam
do sertão enquanto categoria social, ou seja, trabalhos que foram escritos sobre o
território sertanejo norte mineiro e que evidenciam dimensões da realidade
sertaneja, e revelam, por outro lado, o sertão enquanto categoria sociológica
dando ênfase ao ethos sertanejo. Na tentativa de compreender os diversos
sertões recorro a estudos regionais de pesquisadores que classificam os sertões
e suas gentes para que possamos conhecer a realidade social tal como vivida e
pensada pelos sertanejos bem como outros autores que pensaram os processos
identitários e territoriais.

Ao realizar um estudo sobre o homem no Vale do São Francisco nos


anos 1950, Donald Pierson (1972) já mencionava a existência de populações
rurais identificadas ecológica e culturalmente pelo seu habitat. Este autor
encontrou na bacia média sanfranciscana, e não em todo o vale, a existência de
populações de veredeiros, de geralistas ou geraizeiros, agricultores de vazante ou
beira-rio, que, segundo ele, conheciam intimamente o lugar onde ocupavam e
utilizavam para se reproduzirem.

jamais compreenderá o sertão como um labirinto onde ele possa se perder, uma vez que sempre
existiu uma simbiose entre o homem sertanejo e lugar onde habita.
41

Para compreendermos tal situação, tomo como base os estudos


teóricos e etnográficos sobre estas populações elaborados por Costa (1999,
2003, 2005) que analisou grupos quilombolas, Luz de Oliveira (2005) que estudou
grupos vazanteiros, Dayrell (1998) analisou populações geraizeiras, Dangelis
Filho (2005) realizou pesquisa junto aos caatingueiros da Serra Geral, Brito
(2006), que tomou como objeto de análise o impacto do eucalipto entre as
populações geraizeiras do alto Rio Pardo, Araújo (2009) que analisou populações
vazanteiras negras no médio São Francisco. Importante salientar que alguns
destes autores se debruçaram sobre as temáticas na tentativa de compreender,
inicialmente, os processos de expropriação dos territórios destas populações e,
posteriormente, apropriaram da realidade dos mesmos e proporcionaram a
criação de alternativas que possibilitasse melhorias no cotidiano dessas gentes.
42

CAPÍTULO II

SURGIMENTO E CONSOLIDAÇÃO DA
SOCIEDADE PASTORIL NORTE MINEIRA
43

Como já afirmado anteriormente, o Norte de Minas Gerais possui uma


formação social, cultural e histórica especifica e teve na atividade pastoril a base
a partir da qual as múltiplas populações construíram suas culturas especificas.
Em momentos distintos da historicidade regional e com racionalidades
diferenciadas, indígenas, quilombolas, paulistas, nordestinos, mineiros, europeus
– imigrantes e missionários – desenvolvimentistas e o agrobussiness
conformaram e conformam uma realidade social singular (COSTA, 2008, p. 29).

Composta por oitenta e nove municípios, a região Norte de Minas


limita-se a nordeste com o rio Jequitinhonha, a norte-noroeste-nordeste com a
Bahia, a noroeste com Goiás e o Distrito Federal e a sudoeste-sul-sudeste com a
região central do estado, tendo, em seu interior uma população aproximada de
dois milhões de pessoas.

Como região cultural, o Norte de Minas sempre compartilhou a


atividade pastoril com as demais regiões que a circundam e nunca tomou para si
a exclusividade de tal atividade. Neste texto, trato o Norte de Minas como uma
região cultural a partir da perspectiva apresentada por Manuel Diegues Junior
(1980), que fundamentou uma síntese acerca da formação brasileira tanto nos
aspectos étnicos quanto culturais. Para este autor, uma região cultural é
caracterizada pelo processo de ocupação aliado às atividades desenvolvidas que
dão especificidades e sentidos às mesmas. É uma relação entre o meio físico e
as condições econômicas que o homem desenvolveu através do processo de
ocupação do território. Pode ser considerada, também, como um conjunto
ecológico de pessoas aproximadas pela unidade das relações espaciais da
população, da estrutura econômica e das características sociais dando-lhe, em
conjunto, um tipo de cultura que, criando modo de vida próprio a difere de outras
regiões.

A partir dos anos 1980, ganhou força no pensamento acadêmico


mundial a ideia que o conceito de região não pode ser definido apenas como um
conjunto de pessoas bem como de características geográficas. Neste sentido,
Albuquerque Junior (2007) lembra que as regiões devem ser pensadas como
construções históricas e que se dão não apenas a partir das questões políticas,
das divisões e conflitos políticos entre diferentes parcelas das elites nacionais e,
44

consequentemente, entre os territórios que estas dominam ou do processo de


diferenciação das áreas econômicas, mas também se dão no plano cultural,
pensando os regionalismos e as regiões que estes definem, defendem e realizam
como fruto de um embate de ideias, de símbolos, de imagens, de definições e
descrições do que seja cada realidade regional e sua população, sem esquecer
que a produção cultural está ligada também a interesses políticos e econômicos.

Este autor que tomou o Nordeste brasileiro e sua diversidade cultural


como objeto de estudo afirma que, o surgimento de uma região e de uma
identidade para seus habitantes é feito a partir da elaboração de uma forma de
ver e dizer o espaço, e este povo que vai se impregnar na cultura brasileira que
vai ser veiculada por várias atividades artísticas, culturais e intelectuais,
construindo verdades, estereótipos e preconceitos dos quais é muito difícil fugir
na hora de se falar sobre eles (ALBUQUERQUE JUNIOR, 2007, p. 34).

A impressão que vem à mente quando alguém se refere ao Norte de


Minas Gerais é a de um lugar diferente e com várias peculiaridades. Alguns se
assustam ou se encantam quando cruzam as imensas planícies e chapadas,
quando sobem e descem as imponentes serras, quando cortam bibocas e grotas
ou mesmo quando penetram os diversos pequenos vales que compõem a
paisagem norte mineira. Na maior parte do ano a aridez dos solos impressiona
principalmente pela forma como as gentes sobrevivem ao clima castigador da
região. A convivência com a seca e os desdobramentos oriundos dela como a
perda de plantações, morte de animais e falta d’água para beber em algumas
localidades são algumas das agruras vividas pelo sertanejo mineiro. São lugares
diferentes e especiais que propiciam ao imaginário do viajante o situar-se, ao
mesmo tempo, em vários lugares. Aqui é o lugar onde os bons e maus espíritos
digladiam-se. Lugar onde um sol impiedoso e inclemente castiga a terra e a gente
que sobre ela pisa.

Quem penetra pela primeira vez a região é bom lembrar que a


paisagem da mesma já é ela própria uma imensa área de fronteira. Ao sul com os
campos verdes e também resquícios de mata atlântica. Ao Norte, a caatinga seca
do nordeste estabelece o fim da região norte mineira indicando a existência, a
partir daí, dos sertões nordestinos descritos magistralmente por Euclides da
45

Cunha. Importante elucidar que a própria região constitui-se uma área de


transição entre os biomas cerrado e caatinga, mas uma caatinga arbórea, e não
arbustiva como a caatinga nordestina.

Distante dos grandes centros urbanos nacionais e cravado nos rincões


dos sertões brasileiros, o Norte de Minas com suas gentes, seus saberes, fazeres
e sabores se afirma como uma região diferenciada devido aos processos de
ocupação e territorialização impostos pelos primeiros desbravadores, as
bandeiras anônimas paulistas que aqui chegaram e fundaram a sociedade norte
mineira (COSTA, 2003). Entretanto, a diferença não foi dada apenas pelos
bandeirantes, mas pelo contrário, foi pela articulação de projetos civilizatórios
diferenciados que propiciou instituir a diferença.

Diferentes biomas e culturas fazem do lugar um mosaico de valores e


hábitos ímpares permitindo a diferenciação e ao mesmo tempo a afirmação de
uma gente com um ethos14 diferente das demais regiões do país. Aqui, o cerrado
e caatinga se imbricam e formam, juntamente com as diversas veredas e
chapadas, bem como as faixas de mata seca15, uma paisagem não encontrada
em nenhum outro lugar do planeta. Paisagem esta que oferece ao nativo diversas
possibilidades de sobrevivência, principalmente no meio rural.

Na paisagem norte mineira conhecida, entendida e compreendida


como paisagem sertaneja mineira, na verdade - sob a gerência de um “cerrado
sem fim” – existem diferentes variações no bioma e diversos cenários naturais
que, ocupados por grupos humanos, criaram diferentes formas de socialização da
natureza e diferentes modalidades de trabalho produtivo e, portanto, a diversas
identidades sociais. Dessa forma, a diferenciação nos processos de
territorialização e ocupação permitiram o surgimento de identidades sociais
diferenciadas, deslocadas a partir da situação de diáspora vivida.

14
A partir dos estudos de Clifford Geertz (1989), é possível compreender que o ethos de um povo
expressa necessariamente seu jeito de viver, seu espírito, seu entendimento do mundo no qual
está inserido.
15
Encontrada na zona de transição entre a Mata Atlântica, o Cerrado e a Caatinga, a Mata Seca é
assim chamada pela aparência que adquire durante o período de estiagem, quando suas árvores
perdem quase completamente as folhas como forma de se preservar diante da pouca chuva e de
solos em sua maioria muito pobre em nutrientes. Mas, assim que se aproximam as chuvas, a Mata
Seca transforma-se em uma floresta tropical exuberante, revelando, mais do que nunca, suas
extremamente ricas flora e fauna.
Fonte: http://www.revistaecologico.com.br/noticia.php?id=209 acessado em 24/02/2016.
46

Ao colocar em relevo o Norte de Minas é preciso primeiramente


compreendê-lo como um espaço e um lugar onde diferentes modos de vida, bem
como a conjugação diferenciada de ideias, lógicas e práticas, permitem que o
saber norte mineiro seja enunciado como um patrimônio cultural ao mesmo tempo
uno, o dos sertões norte mineiro, e múltiplo, o que traduz os seus diferentes
modos de vida.

A etnoclassificação dos diversos grupos sociais aqui existentes que


articulam diferentes estratégias de reprodução cultural, social e material, é
indispensável no processo de compreensão da vivência social dessas gentes que
vivem na fronteira, que habitam, ao mesmo tempo, um sertão de sertões e,
também, os sertões de um sertão.

Com modos de vidas singulares, mas não homogêneos, a sociedade


norte mineira apresenta no seu interior elementos culturais que conformam uma
pluralidade de saberes metamorfoseados em comportamentos e símbolos. Esses
saberes expressam as dinâmicas e vivências de um povo que se vê “às margens”
da civilidade mineira, e englobada pela ideologia da mineiridade que classifica e
estigmatiza o povo dos gerais como diferentes em comportamentos e atitudes,
atrasados (COSTA, 2003)16. Esta forma de preconceito alimentado pela
sociedade mineira coloca nos norte mineiros a certeza que os mineiros realmente
não os conhecem na sua totalidade.

Albuquerque Junior (2007), ao estudar as origens do preconceito


geográfico e de lugar no Brasil, mas tendo o nordeste brasileiro como ponto de
partida, lembra que as definições prévias, definições ou descrições que não
advêm do conhecimento do outro, mas que nascem da hostilidade, da distância
ou do desconhecimento do outro é o que chamamos de preconceito. Para o autor,
a palavra preconceito é um conceito prévio, um conceito sobre algo ou alguém

16
A ideologia da mineiridade foi analisada por Costa (2003) em tese de doutoramento em
Antropologia pela Universidade de Brasília. Para este autor que toma as minas e os gerais como
objeto de análise e utiliza a teoria da hierarquia de Louis Dumont, onde ela se caracteriza e se
define como o englobamento do contrário, as minas – lugar onde se encontra a capital do estado
engloba o restante do estado, subordinando a sociedade norte mineira à ditadura ideológica
mineira denominada como ideologia da mineiridade. Nesta ideologia, o poder do horror é
encontrado no vasto, plural e atrasado Norte de Minas, visão estigmatizadora que tenta excluir a
sociedade norte mineira das tomadas de decisão política e, também, simbólica da Unidade
Federativa de Minas Gerais.
47

que se estabelece antes que qualquer relação de conhecimento ou de análise se


estabeleça.

É um conceito apressado, uma opinião, uma descrição, uma


explicação, uma caracterização, que vem antes de qualquer
esforço verdadeiro no sentido de entender o outro, o diferente, o
estrangeiro, o estranho, em sua diferença e alteridade. O
preconceito quase sempre fala mais de quem o emite do que
daquele contra o qual é assacado, pois o preconceito fala dos
conceitos da sociedade ou grupo humano que o utiliza
(ALBUQUERQUE JUNIOR, 2007, p. 11).

Dessa forma, podemos compreender os sentidos que ganham o


preconceito da sociedade mineira ao entender o sujeito norte mineiro como
atrasado, desigual, pobre, pois seria ela a demarcadora da fronteira simbólica
entre "os de cá e os de lá". Para Albuquerque Júnior (2007, p. 11), o preconceito
marca alguém pelo simples fato de pertencer ou advir de um território, de um
espaço, de um lugar, de uma vila, de uma cidade, de uma província, de um
estado, de uma região, de uma nação, de um país, de um continente considerado
por outro ou outra, quase sempre mais poderoso ou poderosa, como sendo
inferior, rústico, bárbaro, selvagem, atrasado, subdesenvolvido, menor, menos
civilizado, inóspito, habitado por um povo cruel, feio, ignorante, racialmente ou
culturalmente inferior (...) os preconceitos quase sempre estão ligados e
representam desníveis e disputas de poder e nascem de diferenças e
competições no campo econômico, político, cultural, militar, religioso e no campo
dos costumes e das ideias.

Para Lopes (2010), a compreensão do Norte de Minas enquanto


região cultural e de fronteira permite evidenciar as várias formas que as gentes do
Norte de Minas expressam no cotidiano bem como nos diversos rituais que
veiculam mensagens que realizam simbolicamente processos sociais ocorridos,
como as diversas festas religiosas regionais da religiosidade local, bem como a
solidariedade do povo norte mineiro. As festas no Norte de Minas, principalmente
as festas religiosas onde são festejados os santos padroeiros das comunidades
festejantes, em sua maioria, expressam em seu interior não apenas a
religiosidade das sociedades, mas, também, uma forma de demonstrar e afirmar o
pertencimento dos indivíduos às essas sociedades, haja vista que, vários sujeitos
residem fora da região e retornam à mesma justamente no período das festas,
48

reforçando, dessa forma, os seus vínculos comunitários bem como de


pertencimento. Diante disso, os ritos e as festas são também fontes cruciais para
pensar o sertão e sua gente. Essas festas e ritos são eventos de significação da
experiência sertaneja em sua multiplicidade, abundância e fartura. As festas de
santos, folias, congadas, dentre outras, se constituíram como ritos de resistência
e expressão da territorialidade sertaneja.

Para compreendermos o Norte de Minas como uma região de fronteira


faz-se necessário compreendermos alguns dos sentidos da noção de fronteira. A
noção de fronteira passou a ser definida por Frederick Jackson Turner no início do
século XX quando analisou a expansão dos Estados Unidos em direção ao Oeste.
Para Turner (1921), a concepção de fronteira era o limite entre a civilização e a
barbárie. Já Hannerz (1997), ao analisar a noção de fronteira em Turner sugere
que a fronteira em expansão tinha sido uma região de oportunidades, terras
selvagens que se transformariam em terras livres, onde os pioneiros eram
independentes, mas também podiam se unir a partir do momento que eram
liberados dos entraves das tradições e das desigualdades que haviam deixado
para trás, isentos da carga de uma herança.

A fronteira para Turner representava um movimento na direção do


tempo futuro, do novo, do porvir, mesmo sendo pensada a partir de uma
perspectiva evolucionista, ensejou uma mudança de perspectivas e prioridades
nos estudos sobre a formação dos estados nacionais, sendo este termo
remetente a vários significados. Essa definição com viés puramente econômico,
onde o objetivo era fomentar a ocupação de uma região com baixo índice
demográfico, sobreviveu por muitos anos no pensamento social ocidental. Era a
forma mais reduzida de explicar as constantes forças sociais que impulsionavam
os deslocamentos humanos para as novas áreas a serem exploradas.

Com o passar dos anos e com o refinamento conceitual por qual


passou a noção de fronteira, variadas significações foram dadas à mesma
permitindo um enumerado de definições que orientou e orienta vários trabalhos
acadêmicos. Dos vários significados que o termo fronteira passou a representar
podem-se destacar dois deles, tal como afirma Nogueira (2007), sendo o primeiro
de teor político e, o segundo, de um significado acadêmico. Este autor informa
49

que como confins, limites, margens, periferia e outras referências espaciais que
se contrapõem a um centro, há uma centralidade construída a partir do domínio
territorial, em sua origem, o conceito de fronteira remete ao latim ‘front’, in front,
às margens. (...) a fronteira é, regra geral, um espaço definido por “um Outro” que
está num centro (etnocêntrico), sendo, portanto subordinado (NOGUEIRA, 2007,
p.29). Para Reboratti (1990) a fronteira deve ser vista como um fenômeno
complexo e múltiplo que influiu no passado e continua influindo no presente sobre
o desenvolvimento dos países. Este autor lembra que a fronteira marca a
diferença entre duas ou mais regiões. O lado de lá da fronteira é o lugar do
diferente.

Nos últimos tempos o conceito de fronteira passou a receber maior


atenção e vários pesquisadores defendem que este conceito, assim como os
conceitos de cultura e tradição, que tem passado constantemente por
refinamentos teóricos e possibilitando a aplicabilidade do mesmo em diversas
temáticas de forma eficiente e eficaz. Hoje em dia, os estudos sobre fronteira
desenvolvidos pelo antropólogo argentino Alejandro Grimson (2005) focalizam a
perspectiva simbólica da fronteira e seus desdobramentos, uma vez que ela é
resultante dos processos dinâmicos iniciados pelas ações humanas.

Para Grimson (2005, p. 9)17 a fronteira tornou-se um conceito chave


nos relatos e explicações dos processos culturais contemporâneos. As análises
econômicas e simbólicas da chamada “globalização” se referem, uma e outra vez,
aos limites, às bordas, às zonas de contato. Para este autor, uma das
características da fronteira é a duplicidade. Fronteira foi e é, simultaneamente, um
objeto-conceito e um conceito-metáfora. De um lado parece haver fronteiras
físicas, territoriais, e de outro, fronteiras culturais e simbólicas.

Vista de um ângulo diferente a partir dos estudos culturais, Homi


Bhabha (2001, p. 27) lembra que para compreender o lugar fronteiriço da cultura
exige-se um encontro com "o novo" que não seja parte do continuum de passado
e presente. Ele cria uma ideia do novo como ato insurgente de tradução cultural.
Essa arte não apenas retoma o passado como causa social ou precedente
estético, ela renova o passado, refigurando-o como um entre-lugar contingente,

17
Tradução minha.
50

que inova e irrompe a atuação do presente. O "passado-presente" torna-se parte


da necessidade, e não da nostalgia de viver.

Para Hannerz (1997,) o uso do mesmo tornou-se corrente como uma


tentativa de compreender os diversos processos por que passaram as sociedades
que se estruturaram além “da” ou “na” fronteira, constituindo-se em uma palavra-
chave na antropologia moderna ou transnacional. Mas há que considerar que a
fronteira sempre constituiu um local onde a imposição e a fuga encontrou seu
lugar. Imposição dos mais fortes ou bem armados que se julgavam soberanos no
espaço que estava centrada a disputa. A fuga, geralmente, era e continua sendo
feita para garantir a sobrevivência dos mais fracos.

Dos muitos significados atribuídos à fronteira, a ressignificação do


conceito é constantemente elaborada. Para Oliveira Filho (1979, p. 111) a
fronteira não é um objeto empírico real, uma região, ou ainda, uma fase na vida
de uma região, mas sim uma forma de propor uma investigação. A listagem
habitual das áreas de fronteira não significa, portanto, uma enumeração de
referentes concretos subsumidos no conceito de fronteira, mas tão somente a
indicação de objetos empíricos qual a aplicação de uma análise em termos de
fronteira pode ser altamente rentável do ponto de vista da aplicação do
conhecimento.

Nesta perspectiva podemos considerar a fronteira como produto de um


processo histórico que pode ser atribuído à dominação. Se fronteira está
relacionada à subordinação, à margem da outra face do centro, onde o outro se
estabelece, o conhecimento da fronteira é pertinente para conhecermos a nós
mesmos, uma vez que ao cruzar a fronteira em busca do próximo estamos indo
ao nosso próprio encontro.

Em termos sociológicos a fronteira constitui-se como o lugar ideal para


pensar e entender as sociedades que ali se estabeleceram. Lugar social de
conflitos, a fronteira, segundo Martins (1997), tem caráter puramente sacrificial,
pois só quem domina é capaz de “prosperar”. O autor afirma que na fronteira a
figura central é a vítima. É a partir da vítima que é possível conhecer os estragos
que a fronteira, na figura do conquistador, do desbravador, do aventureiro impôs
sobre as sociedades.
51

Dentre essas dinâmicas, a simbólica passou a ser aplicada nos


processos de entendimento, principalmente das chamadas sociedades de
fronteira, como aponta Alejandro Grimson em seus diversos estudos sobre esta
temática. Para este autor argentino, uma nova dinâmica foi dada aos estudos
socioculturais a partir do momento que novas conceituações foram dadas a
termos que predominaram nas ciências sociais como identidades, fronteiras e
territórios. Estes, segundo Grimson (2005), converteram-se em metáforas que se
tornaram recorrentes no pensamento social.

A nova forma de ver a fronteira, segundo Grimson (2003), é olhá-la a


partir da perspectiva simbólica, pois a mesma é resultado de construções
humanas contextualizadas que condicionaram dinâmicas diferenciadas. Dessa
forma,

as fronteras son espacios de condensación de procesos


socioculturales. Esas interfaces tangibles de los estados
nacionales unen y separan de modos diversos, tanto en términos
materiales como simbólicos. Hay fronteras que sólo figuran en
mapas y otras que tienen muros de acero, fronteras donde la
nacionalidad es una noción difusa y otras donde constituye la
categoría central de identificación e interacción. Esa diversidad, a
la vez, se encuentra sujeta a procesos y tendencias.
Paradójicamente, cuando se anuncia el “fin de las fronteras”, en
muchas regiones hay límites que devienen más poderosos
(GRIMSON, 2005, p. 3).

A visão de fronteira conceituada por Turner representa uma noção de


progresso, de futuro, de oportunidades para os seres humanos abnegados que
viam nos novos horizontes possibilidades infinitas de uma nova vida baseada em
uma dinâmica que prevalecia a ocupação de terras a qualquer preço a fim de
garantir a estabilidade dos instauradores do progresso, uma verdadeira válvula de
escape, como lembra Velho (1979). A não preocupação com populações
autóctones que povoavam as densas e vastas áreas que viriam a ser ocupada
tornou-se uma força propulsora do imaginário dos novos “donos” do espaço em
que se instalariam.

Em tempos não muito remotos a noção de fronteira ainda era, para


muitos, um lugar de oportunidades somente para os ocidentais que não se
importavam com as sociedades que porventura seriam dizimadas ou
ocidentalizadas, tornando-se vítimas da violência do homem branco disseminador
52

de guerras e tragédias. O mesmo levou o ódio e destruição às sociedades


autóctones que possuíam diferentes modos de vida e que viviam sob uma lógica
simbólica que regulava a vivência coletiva das comunidades.

Lembro o leitor que as bandeiras paulistas que se deslocaram para o


vale do rio São Francisco com seu aparato de guerra expulsaram, mataram e
escravizaram as populações indígenas que ocupavam as terras onde se localiza o
Norte de Minas. Essa violência era justificada pela necessidade de ocupar o
interior da nação, missão dada aos bandeirantes que rasgaram o sertão e
estraçalharam as estruturas já organizadas pelos indígenas, culminando com um
extenso processo de vitimização desses indígenas.

Os indígenas da bacia do rio São Francisco em terras mineiras tem


suas origens vinculadas ao tronco linguístico Macro Gê (Melatti, 1997). Para
Costa (2007, p.28) os estudos sobre indígenas evidenciam a constituição de
sociedades que desenvolveram uma cultura guerreira e uma linguagem
vinculando todos ao tronco linguístico Macro Gê. O território de ocupação
indígena é identificável pela presença de cerâmicas mortuárias que eram usuais
entre as sociedades indígenas Macro Gê. A articulação das sociedades entre si
bem como uma interdependência com a natureza para viabilizar a reprodução
material de cada agrupamento humano, as correrias nas chapadas com
deslocamentos das aldeias, a articulação entre sedentarização e nomadismo são
marcas desses grupamentos Macro Gê.

Dentre as sociedades indígenas que ocupavam as áreas no vale do


São Francisco mineiro havia os Abatirá, os Bokeré, os Catiguaçu, os Catolé, os
Dendy, os Goiano e os Guayba, os Pataxós, os Piripiri, os Rodela, os Tupinaen e
os Kururu. Há que considerar que no vale do rio São Francisco houve vários
deslocamentos de indígenas que fugiam dos bandeirantes e, por isso, viviam
correndo as chapadas e atravessando lagoas que existiam em abundância na
região (COSTA & LOPES, 2007).

Após as investidas ao sertão feitas pelos bandeirantes e os abusos


cometidos pelos mesmos, processou-se o desaparecimento de quase todas as
sociedades indígenas que aqui habitavam. Das sociedades indígenas descritas
aqui, restou apenas a sociedade Xakriabá que ocupa a margem esquerda do rio
53

São Francisco no município de São João das Missões. Diante do extermínio dos
indígenas nativos, a perspectiva de rompimento da fronteira assemelha-se ao
raciocínio de Martins, uma vez que o simples descaso com o outro situado além
da fronteira já constitui uma ação criminosa.

A noção de fronteira jamais pode ser dissociada de interesses


puramente capitalistas. Sergio Buarque de Holanda (1986) em “O Extremo Oeste”
afirma que o interesse em expandir-se para o Oeste justificava-se da seguinte
maneira: os infelizes que receberam a missão de percorrer o interior do país para
aprear índios eram pessoas preguiçosas que não aceitavam ordens de ninguém e
nem tinham coragem de se submeter a qualquer serviço. Para Holanda (1986),
tudo indica que os bandeirantes eram pessoas pobres que percorriam o sertão
em busca de índios para servirem como escravos domésticos, pois os mesmos
eram pobres e não se sujeitavam ao trabalho servil ao menos um dia.

A causa [...] estava no serem aqueles homens – briosos, valentes,


impacientes da menor injúria – adversos a todo ato servil, de sorte
que não podendo os mais pobres ter serviçais, “sujeitam-se a
andar anos a fio pelo sertão em busca de quem os sirva, do que
servir a outrem um só dia” (HOLANDA, 1986, p. 28).

Tal como nos Estados Unidos, a história do Brasil é a história do


avanço ao interior. Encontros locais feitos em busca de novos espaços a
conquistar. Até hoje o Brasil é ainda um lugar de fronteira a conquistar. Tomamos
como exemplo as fronteiras agrícolas que se expandiram pelo interior do país
consolidando a lógica capitalista de produção e, recentemente, no Norte de
Minas, a fronteira mineral.

Quando se fala sobre o Norte de Minas é impossível não se remeter às


diversas fronteiras que envolvem e cercam esta região, não apenas no sentido
geográfico do termo, mas, tanto no sentido político, quanto econômico também. A
diferença entre as Minas e os Gerais já foi apontada em estudo elaborado por
Costa (2003), quando o mesmo elencou diversos momentos e processos sociais
da região em que os conflitos de fronteira foram elementares na constituição da
mesma enquanto uma região cultural.

Os diversos projetos civilizatórios impostos a sociedade norte mineira


desde o século XIX permitiram a criação de uma elite que hoje se vê cindida entre
54

o moderno e o tradicional. Luiz Tarlei de Aragão (2000), ao realizar estudos sobre


o Norte de Minas afirma que o mesmo pode ser caracterizado como uma “placa
tectônica” onde os projetos civilizatórios nordestinos e paulistas se chocaram e
criaram uma cultura específica, cujo substrato possibilita à população regional
portar uma identidade própria diferenciada, nem paulista nem baiana e nem
mineira, que em Minas Gerais é chamada de baianeira.

Para Costa (2006), foi na articulação dos diversos processos


civilizatórios nos quais passou a partir dos anos 1830 que se deu o processo de
estruturação do Estado no sertão sanfranciscano. Para o autor, nesse período,
famílias mineiras se deslocaram para a região como funcionários do império e os
arraiais foram transformados em vilas com legislativo, tendo, também, o poder
executivo e organismos militares. Desta forma deu-se a penetração dos mineiros
na sociedade norte mineira que até então era puramente baiana e pernambucana.

Já no final no século XIX chegaram à região os padres


premonstratenses, conhecidos também como “padres de batina branca”, que
vieram para a região com a finalidade de amansar e adestrar o povo norte mineiro
dando-lhes bons modos e ensinando-os, também, a serem civilizados. Este foi um
dos principais processos na ampla e densa cruzada civilizatória direcionada ao
Norte de Minas. Mas há que considerar, também, que nesta mesma época
chegaram à região os imigrantes italianos que se fixaram na região da Serra do
Espinhaço e introduziram uma racionalidade diferenciada das relações já
existentes. A vinda dos imigrantes europeus teve como finalidade maior promover
o branqueamento da população regional, haja vista que, teorias evolucionistas da
época pregavam que as raças brasileiras estariam fadadas ao desaparecimento.

Nos anos 1960 a região foi tomada de assalto pelo processo


desenvolvimentista brasileiro ao ser anexada a área de atuação da SUDENE.
Neste período, a implantação de infraestrutura de apoio ao capital modernizou as
fazendas que foram transformadas em empresas rurais e consolidou no campo
norte mineiro as relações capitalistas de produção. Como consequência desse
violento processo ocorreu um intenso êxodo rural e, consequentemente, iniciou-se
o crescimento das cidades regionais com a migração da população expulsa do
campo após perder violentamente suas terras.
55

O Norte de Minas por ser uma ampla região e agregar diversas


populações com saberes, fazeres, pensares e festares diferentes, os códigos e
condutas variam de população para população, principalmente no meio rural,
onde as relações sociais são pautadas principalmente na solidariedade, na
reciprocidade, no compadrio e também em interações face a face regidas por
amizade e conflito. Costa (2003) lembra que nas cidades do Norte de Minas os
códigos de conduta são díspares com relação à modernidade e às Minas.

Com uma extensa área que tem como limites os estados da Bahia,
Goiás e também o Distrito Federal, é impossível pensar a realidade social e
cultural norte mineira sem a influência das sociedades vizinhas. Com modos de
vida oriundo de trocas econômicas e culturais com estados vizinhos, a sociedade
norte mineira vê-se amparada e alicerçada em tradições configuradas através do
contato com as demais sociedades e suas culturas.

Costa (2008),afirma que a comunidade imaginada norte mineira não se


formou pela interação entre produção e relações produtivas, por tecnologia de
comunicação e pela linguística, mas pelas relações de parentesco e compadrio
que articularam, na historicidade regional, membros de uma mesma parentela em
diversas localidades do território norte mineiro. Neste sentido, foi a partir das
tramas e dessa rede que se processou a construção, ao longo da história
regional, do sentimento de regionalidade tão caro ao norte mineiro.

O distanciamento geográfico dos grandes centros nos séculos


anteriores permitiu às gentes que ocupavam os mais diversos e distantes rincões
do país construir modos de vidas diferenciados que permitiram a elaboração e
também a agregação de diversos elementos culturais que se tornaram
marcadores da cultura norte mineira. Na tentativa de compreender a diferença
mineira, Costa (2003), lembra que a diferenciação se dá pela formação
diferenciada apoiada em uma economia privada e não monopolizada por
Portugal, além da perspectiva de ser uma economia voltada para o mercado
interno e não externo. Há que considerar, neste caso, como exemplo, a culinária
regional herdada dos encontros aqui ocorridos e que tem como base alimentar a
carne bovina, haja vista a ecologia da região que propiciou a instalação das
56

fazendas de gado bem como a extração de frutos nativos fornecidos pelo bioma
cerrado.

Se para conhecer e domesticar os diversos lugares da colônia era


preciso cruzar os diversos obstáculos que impediam a chegada dos “bons modos”
vindos principalmente da Europa para as vilas até então povoadas por gente
branca que se reconhecia como responsável por “fazer o Brasil”, mas “infestadas”
por negros que se amontoavam nos quintais e eram os responsáveis por
proporcionar os louros que os seus donos gozavam, a saída encontrada pela
Coroa de Portugal foi enviar seus aventureiros para transpor a fronteira que nesta
época era constituída principalmente pelas densas florestas “infestadas” de índios
que representavam os maiores perigos para a investida rumo ao interior.

Sergio Buarque de Holanda pensou o passado colonial como modelo


explicativo do Brasil dual. Para este autor, que definiu as fronteiras como território
de transição e ligação, e que, posteriormente, substituiu os termos por trabalho e
aventura, veio caracterizar o tipo de gente a quem coube a exploração e
povoação dos longínquos e perigosos interiores do Brasil.

(...) o fato é que essa própria mobilidade (...) irá (...) condicionar a
situação implicada na ideia de “fronteira”. Fronteira, bem
entendido, entre paisagens, populações, hábitos, instituições,
técnicas, até idiomas heterogêneos que aqui se defrontavam, ora
a esbater-se para deixar lugar à formação de produtos mistos ou
simbióticos, ora a afirmar-se, ao menos enquanto não superasse a
vitória final dos elementos que se tivessem revelado mais ativos,
mais robustos ou melhor equipados. Nessa acepção a palavra
“fronteira” já surge nos textos contemporâneos da primeira da fase
da colonização do Brasil e bem poderia ser utilizada aqui
independentemente de quaisquer relações com o significado que
adquiriu na moderna historiografia, em particular na historiografia
norte-americana desde os trabalhos já clássicos de Frederick
Jackson Turner (...) (HOLANDA, 1975, p. 8 citado por
VANGELISTA, 2005, p.117. Grifos da autora).

É possível compreender o Norte de Minas como um grande


emaranhado de significados para as gentes do lugar. Para Geertz (1989, p. 32-
33), a cultura é melhor vista não como complexos de padrões concretos de
comportamento – costumes, usos, tradições, feixes de hábitos –, como tem sido o
caso até agora, mas como um conjunto de mecanismos de controle – planos,
receitas, regras, instruções (o que os engenheiros de produção chamam
57

‘programas’) – para governar o comportamento. A segunda ideia é que o homem


é precisamente o animal mais desesperadamente dependente de tais
mecanismos de controle extra-genéticos, fora da pele, de tais programas
culturais, para ordenar o seu comportamento. Assim,

quando vista como um conjunto de mecanismos simbólicos para


controle do comportamento, fontes de informação extra-
somáticas, a cultura fornece o vínculo entre o que os homens são
intrinsecamente capazes de se tornar e o que eles realmente se
tornam, um por um. Tornar-se humano é tornar-se individual, e
nós nos tornamos individuais sob a direção de padrões culturais,
sistema de significados criados historicamente em termos dos
quais damos forma, ordem, objetivo e direção às nossas vidas. [...]
O homem não pode ser definido nem apenas por suas habilidades
inatas, como fazia o iluminismo, nem apenas por seu
comportamento real, como faz grande parte da ciência social
contemporânea, mas sim pelo elo entre eles, pela forma em que o
primeiro é transformado no segundo, suas potencialidades
genéricas focalizadas em suas atuações específicas. É na carreira
do homem, em seu curso característico, que podemos discernir,
embora difusamente, sua natureza, e apesar da cultura ser
apenas um elemento na determinação desse curso, ela não é o
menos importante. Assim como a cultura nos modelou como
espécie única – e sem dúvida ainda nos está modelando – assim
também ela nos modela enquanto indivíduos separados. É isso o
que temos realmente em comum – nem um ser subcultural
imutável, nem um consenso de cruzamento cultural estabelecido
(GEERTZ, 1989, p. 37-38).

Se a cultura pode ser vista como uma teia de significados que o


homem teceu, do mesmo modo a definição do signo fronteira carrega em si uma
inesgotável carga de possíveis interpretações. A mesma informa não apenas
marcos físicos de separação entre estados ou regiões geográficas, mas, também,
a ampliação de formas exploradoras de acumulação, além de ser simbólica.
Portanto, o termo fronteira, em suas fímbrias, traz imbricado em si uma
quantidade de interpretações que permite ao pesquisador utilizá-la para definir ou
demonstrar uma variedade de situações.

O que se revela ao olhar de quem percorre o território norte mineiro é a


paisagem que Guimarães Rosa se apoiou para ficcionalmente situar seus
personagens em sua obra. Ela se apresenta ante a visão do viajante como uma
sucessão de chapadas ondulantes, às vezes cercadas por elevações maiores,
serras, morros, rios e veredas que juntos, formam a paisagem sertaneja.
58

Ao apresentar a paisagem norte mineira ao leitor, Guimarães Rosa


descreve sua sensação da seguinte maneira:

a vista se dilatara: léguas e léguas batidas, de todos os lados:


colinas redondas, circinadas, contornadas por fitas de caminhos e
serpentinas de trilhas de gado; convales tufados de mato
musgoso; cotilédones de outeiros verdecrisoberilo; casas de
arraiais, igrejinhas branquejando; desbarrancados vermelhos;
restingas de córregos; píncaros azuis, marcando no horizonte uma
rosa-dos-ventos; e mais pedreiras, tabuleiros, canhões, canhadas,
tremembés e itambés, chãs e rechãs” (Guimarães Rosa, 1984, p.
197).

Como muitas outras organizações sociais, embora nem todas, há no


Norte de Minhas formações que, sob distintas perspectivas, se abre para o
exterior, para outros, abrindo-se a novas, breves ou duradouras relações que vão
se estabelecendo. O que é também uma característica de sua diferença.

A economia norte mineira sempre foi sustentadora da sociedade


mineira e nosso lugar de margem é na perspectiva da simbologia e da ideologia,
mas não do político e nem do econômico. A noção de sociedade de margem ou
excluída permite compreender os diversos processos que a sociedade regional
veio passando ao longo de sua trajetória. Neste sentido, recorro à argumentação
sobre marginalidade regional, apresentada por Costa (2003) para com ele refletir
sob a existência de uma obliteração da historicidade e do lugar histórico da região
na consolidação da unidade mineira.

Essa obliteração do Norte de Minas começou a ser rompida com a


construção da estrada de ferro nos anos 1920 e, principalmente, com a anexação
da região à área de atuação da Superintendência de Desenvolvimento do
Nordeste (SUDENE) nos anos 1960. Inicialmente, a região esteve vinculada pelo
rio São Francisco ao Nordeste e pelas chapadas ao Centro-Oeste do Brasil com
quem manteve intenso comércio. O ciclo do algodão no século XVIII e XIX e do
látex de mangaba no início do século XX permitiu à região manter-se vinculada
economicamente a outras regiões. O isolamento político não é permitido afirmar,
haja vista que, desde que se constituíram no império as câmaras de deputados e
senado, a região sempre foi representada.

Costa e Lopes (2007, p. 41) lembram que as relações que subordinam


o Norte de Minas em Minas Gerais e que o exclui não apenas da identidade
59

mineira, mas, também, de projetos e de políticas públicas, são produtos de uma


hierarquização da diferença, da concentração de poder simbólico na região das
minas pelo obliteramento discursivo da formação histórica dos currais do São
Francisco e pelo poder de criar carisma para os “mineiros da gema”. O ponto
crucial para a compreensão dessa relação diz respeito aos recursos de poder,
onde, através dos mesmos, as diferenças são hierarquizadas pelos mineiros que
afirmam sua superioridade apoiados no monopólio das fontes de poder, na
identificação coletiva e no carisma grupal. Os dois polos da configuração
possuem tais recursos de poder, podendo, desta forma, afirmarmos a existência
de dois grupos com carisma que se confrontam.

A fronteira expansionista agrícola aberta com os investimentos da


SUDENE operacionalizou a criação de uma elite norte mineira cindida entre o que
seriam os modelos do moderno e do tradicional. Alguns empresários entraram
nos trilhos da modernização buscando e aplicando novas técnicas, maquinários e
insumos, principalmente na agropecuária, enquanto outros permaneceram ou
foram forçados a não entrar na locomotiva da modernização devido a não
apresentação de garantias que subsidiassem os investimentos estatais.

Enquanto isso, o preço maior desse excludente surto de progresso foi


pago pelas populações ocupantes das pequenas propriedades na região onde
viviam da terra e do extrativismo nas áreas comunais encontradas nas chapadas
existentes, sendo forçadas a deixarem suas terras e migrarem para as cidades.
Cidades estas que nesta época já iniciavam o processo de explosão demográfica
devido à chegada de trabalhadores rurais com suas famílias que foram expulsas
das diversas áreas rurais da região, criando, desta forma, um excedente
populacional nas cidades que se tornavam polos industriais, como Montes Claros,
Pirapora, Várzea da Palma, Capitão Enéas e Bocaiúva.

Observando a marginalidade simbólica do Norte de Minas em relação


às demais regiões do estado, Costa (2003) lembra que a parte mais preciosa do
sertão norte mineiro recriada por Guimarães Rosa em sua obra foi colocada às
margens da mineiridade desvalorizando-a.

Para este autor, no imaginário social mineiro a desvalorização do


sertão norte mineiro propicia a criação de sentimentos de aversão para sua
60

paisagem, para sua cultura e para a sua gente. A aversão expressa, por outro
lado, a discriminação, a exclusão e a estigmatização e, em nível mais profundo, a
antinomia entre as duas formações fundantes de Minas Gerais. O fortalecimento
do simbolismo das minas gerais para os mineiros esvaziou o sertão norte mineiro
de seu poder simbólico como construído no discurso nacional. E sua realidade
social, cultural e paisagística transforma-se, para os mineiros, na fonte poluente
da imagem de Minas (COSTA, 2003, p. 68).

Às margens da mineiridade, a região norte mineira configura-se como


um potente mosaico cultural onde é possível ler as mensagens que a sociedade
regional informa através de suas ações e comportamentos. O sentimento de
pertencimento ao lugar é visível de diversas formas como na culinária, onde
predomina a carne bovina, no artesanato que exprime nossas caras em nossas
coisas e que são mostradas aos outros, e nas festas de santos que representam
a religiosidade da sociedade norte mineira.

O entre-lugar da mineiridade, conforme discutido por Costa (2003) é


estar situado entre duas identidades poderosas que se imbricam – a mineira e a
baiana. Entretanto, como venho evidenciando, considero que os sertanejos e os
sertões estão fora de lugar, dado que tais categorias sociais e espaciais não são
constitutivas da nacionalidade brasileira e sim das ideologias da mineiridade e da
baianidade. Neste sentido, a partir do entre-lugar – estar entre a modernidade e o
atraso ou diante da possibilidade da finitude do Nós – as identidades são
enunciadas por meio de uma forte experiência territorializada e pelo senso de
lugar que contribui para a emergência de novos sujeitos sociais no cenário
nacional que, articulados em um movimento social regional, lutam por uma
reterritorialização.

Diversos viajantes estrangeiros que percorreram o sertão norte mineiro


descreveram-no como um lugar vazio de civilização, de cultura, de gentes com
bons modos. Um viajante que esteve no sertão norte mineiro, mas precisamente
na região de São Romão, na margem esquerda do rio São Francisco, foi George
Gardner. Este autor afirmava-se impressionado com o vazio que encontrou na
região.
61

Viajamos toda a tarde e todo o dia seguinte antes de


encontrarmos uma habitação. Anoitecia quando a avistamos e não
foi sem certa dificuldade, devida ao mal estado da estrada e à
nossa ignorância sobre a trilha a tomar, que finalmente chegamos
a essa fazenda, chamada Caisara. Fiquei muito desapontado ao
verificar que essa parte da província era tão escassamente
povoada, exibindo apenas poucas indicações de operosidade
nativa. E muito embora muitos trechos parecessem igualmente
bem adaptados para a criação de gado, raramente vimos
quaisquer animais distribuídos pela superfície. Parecia haver
abundância de excelentes pastagens e abrigo para o gado e, não
bastante a parte superior das colinas apresentar-se
ocasionalmente destituída de vegetação, os vales pareciam bem
florestados (GARDNER, 1846, citado por PIERSON, 1972, p. 8).

Como já afirmado, a diversidade de culturas e modos de vida que aqui


existiram e ainda existem permite afirmar que esta sociedade sempre foi
heterogênea nas ações e comportamentos e possibilitou a emergência de sujeitos
sociais que construíram um ethos diferenciado das demais sociedades existentes
em Minas Gerais. A visão de mundo do sertanejo norte mineiro se difere e muito
do seu semelhante mineiro. Colocando sempre no futuro promissor suas
esperanças, a população considerada tradicional do sertão mineiro se realiza ao
estabelecer relações sociais com outros grupos que a reconhece como sendo
sujeito não periférico, mas um sujeito portador de peculiaridades que o torna
indispensável à sociedade regional.

No período colonial ações bandeirantes marcaram com sangue a


expansão da fronteira rumo aos então chamados currais de gado (COSTA, 2003),
fixando na região um modo de vida baseado na criação do gado que era utilizado
como moeda de troca bem como meio de alimentação e também de transporte
para os homens que corriam o sertão. Essa expansão da fronteira teve como
vítimas iniciais as sociedades indígenas existentes e que foram dizimadas, sendo
boa parte delas apreadas e vendidas nas vilas de São Paulo e Salvador, ou
mesmo forçadas a trabalharem nas terras ocupadas por homens vindos de fora.

O etnocídio colonial favoreceu a emergência de novos grupos étnicos


resultantes do entrecruzamento das poucas sociedades indígenas que
sobreviveram ao ataque colonial com negros escravos trazidos pelos
bandeirantes em suas investidas sertão adentro. A eliminação do “Outro” por
62

forças coloniais tinha como objetivo maior garantir a expansão colonial e fixar os
currais de gado (LOPES, 2010, p. 42).

Antes da anexação do Norte de Minas à Capitania de Minas essa


região era conhecida como currais do São Francisco. A margem direita do rio São
Francisco era conhecida como currais da Bahia e a margem esquerda como
currais de Pernambuco. Somente no ano de 1720 os currais da Bahia foram
anexados à Capitania de Minas.
63

SEGUNDA PARTE
64

CAPÍTULO III

GADO E GENTE: Couro e


identidades no sertão mineiro
65

3.1 Vida biográfica do couro de boi

A criação de gado no sertão se deu primeiramente nas proximidades


de Salvador e após a conquista de Sergipe na margem direita do rio São
Francisco. Outro movimento idêntico partiu de Pernambuco na margem esquerda
do rio. Capistrano de Abreu lembra que “ao romper da guerra holandesa estavam
içadas de gado as duas bandas do rio” (2000, p.151).

Capistrano de Abreu ao contar a trajetória percorrida pelo gado no


interior da colônia afirma que,

os currais da parte da Bahia estão postos na borda do rio São


Francisco, na do rio das Velhas, na do rio das Rãs, na do rio
Verde, na do rio Paramirim, na do rio Jacuípe, na do rio Ipojuca,
na do rio Inhambupe, na do rio Itapicuru, na do rio Real, na do rio
Vasabarris, na do rio Sergipe e de outros rios, em os quais, por
informação tomada de vários, que correram este sertão, estão
atualmente mais de quinhentos currais (2000, p.157).

Ao denominar essa região como currais, a Coroa Portuguesa deixava


claro que no lugar, o que prevalecia depois de muito tempo sob domínio dos
índios era o gado. A criação de gado vacum foi favorecida pelo clima e pelo fato
da região possuir bons pastos, evitando dessa forma o emprego de muita mão de
obra no pastoreio dos mesmos.

O gado vacum dispensava a proximidade da praia, pois como as


vítimas dos bandeirantes a si próprio transportava das maiores
distancias, e ainda com mais comodidade, dava-se bem nas
regiões impróprias ao cultivo da cana, quer pela ingratidão do
solo, quer pela pobreza das matas sem as quais as fornalhas não
podiam laborar, pedia pessoal diminuto, sem traquejamento
especial (ABREU, 2000, p. 151).

Com extensos criatórios de gado essas áreas depois de ocupadas


foram transformadas em fazendas que disponibilizavam grandes quantidades de
gado que eram vendidos paras as regiões das minas, conforme os estudos de
Capistrano de Abreu e também de Mafalda Zemella (1990). O gado levado para
as regiões das minas era utilizado na alimentação dos trabalhadores nas minas e
também como animais de cargas. Nesse período, os currais do São Francisco
foram garantidores de gêneros alimentícios que permitiram a continuidade dos
trabalhos na mineração facilitando, dessa forma, a reprodução do sistema
escravista que predominava nesse período da história brasileira.
66

Pelo dito rio ou pelo seu caminho, expõe um documento pouco


posterior a 1705, lhe entram os gados de que se sustenta o
grande povo que está nas minas, de tal sorte que nem de uma
outra parte lhe vão nem lhe podem ir os ditos gados, porque não
os há nos sertões de São Paulo nem nos do Rio de Janeiro. Da
mesma sorte se provem pelo caminho de cavalos para suas
viagens, de sal feito de terra no rio São Francisco, de farinhas e
outras cousas, todas precisas para o trato e sustento da vida
(ABREU, 2000, p. 159).

A ligação estreita com Salvador permitia encaminhar parte do gado


criado na região dos currais da Bahia à capital baiana e lá a carne era processada
e encaminhada aos mercados. Mas nesse comércio de gado que marcou essa
faixa territorial do Brasil uma das partes mais valorizadas dos animais aqui
criados era o couro. Era do couro que os criadores se valiam para elaboração de
utensílios que eram utilizados nas fazendas.

Após serem abatidos os animais tinham o couro retirado e após um


período de curtição18 ganhava contornos nas mãos de pessoas que eram
especializadas no manuseio dos mesmos. Estes eram transformados em cordas,
arreios para os cavalos e demais animais de cargas e também era utilizado como
colchões ao ser estendido no chão, tanto nas residências quanto nas estradas
durante o período que se deslocava o gado para lugares mais distantes. Além
disso, utilizava-se o couro para a construção de chapéus, chicotes, chibatas,
bruacas, bainhas, etc.

A utilização do couro é milenar e antecede a era cristã, como informa


os estudos acerca do couro desenvolvidos por José Alípio Goulart (1966). Este
autor lembra que o uso de couro, especificamente do boi e de cabras, antecede
aproximadamente dois mil anos antes de Cristo, no velho e misterioso Oriente nas
áreas do “fértil crescente” banhada pelos rios Nilo e Eufrates. Goulart afirma na
sua “historiografia do couro” após mergulhar em estudos bíblicos cristãos, que

cinco séculos antes de Abraão, no comércio de importação e


exportação que florescia nas costas de Canaã, a terra do Nilo já
permutava ouro e especiarias da Núbia, cobre e turquesas das
minas do Sinai, linho e marfim por prata de Tauro, artefatos de

18
Após ser retirado do animal o couro precisa ser curtido. Nos tempos passados e também nos
atuais, nas áreas menos urbanizadas do país o couro ainda é curtido com sal. Depois de salgado
o mesmo é exposto ao sol por alguns dias e posteriormente é amaciado à base do porrete. Nesse
processo o couro é macetado a pauladas para tornar-se macio.
67

couro de Biblos e vãos vidrados de Creta (GOULART, 1966, p.


12).

O trato e refino do couro de animais começou a ser parte permanente


da vida humana desde a pré-história. “O couro foi uma das primeiras matérias
primas de que se valeu a criatura humana para abrigar o próprio corpo. Com
peças de couro cobria sua nudez o caçador neolítico” (GOULART, 1966, p. 12).
As formas de utilização do couro de animais para abrigo e vestimenta dos
homens ganharam refinamentos com o passar dos anos e permitiu que o homem
começasse a amansar e domesticar cada vez mais os animais de couro.

Com o avanço do povoamento do litoral brasileiro para o interior, e


também com o aumento do gado nas áreas povoadas, a chamada civilização do
couro ganhou forma devido à ecologia que disponibiliza áreas favoráveis às
pastagens. Para C.J da Costa Pereira (1957), que analisou o avanço da pecuária
no interior do Brasil e também a utilização do couro como elemento da cultura
brasileira no Nordeste do país, por influência de fatores ecológicos, iniciou-se
determinado ciclo pastoril que foi classificado como civilização do couro por ter
sido essa matéria-prima responsável pela origem e existência de um dos mais
singulares e predominantes aspectos da cultura material sertaneja que até os dias
atuais se verifica sua integridade e suas características.

Porém, a chamada civilização do couro que representou a ocupação do


interior do país a partir do Nordeste brasileiro com o estabelecimento de grandes
contingentes bovinos não apenas foi motivo de celebração. Para alguns autores,
esse período que marcou essa porção territorial do país, após muitos anos,
passou a ser entendida como área estagnada, atrasada, carente de progresso.
Esse entendimento é percebido a partir dos estudos socioeconômicos
empreendidos por Wilson Lins sobre as populações do vale do São Francisco.

O médio São Francisco vive ainda a idade do couro, com um


atrazo de vários séculos em relação ao progresso universal dos
povos. Quando toda a humanidade já completou o seu ciclo
evolutivo, passando a viver uma etapa de progresso que pode se
classificar de “idade da onda” ou “era atómica”, o vale do São
Francisco, uma das mais importantes zonas do continente,
continua estagnada na idade do couro, ou seja, na mais recuada
etapa da de uma civilização pastoril (LINS, s.d, p. 147, citado por
GOULART, 1966, p. 18).
68

Tanto Capistrano de Abreu quanto C.J. da Costa Pereira afirmavam a


existência de uma civilização do couro no vale do São Francisco que marcou
culturalmente as populações nele estabelecidas tanto pela criação de gado
quanto pelo papel que o couro desempenhou nessa região. Porém, Goulart
(1966) é um dos críticos dessa civilização do couro no vale do São Francisco.

Uma civilização do couro, como querem alguns, isso porque as


“civilizações” propriamente ditas, para serem assim
caracterizadas, não só demandam milênios para o assedimento
de seus padrões como firmam-se, ao longo do tempo, pelo
império da tradição, aspectos que sem dúvida escapam àquilo
que, em nosso país, talvez se possa classificar como mais
propriedade de ciclo do couro ou de época do couro (GOULART,
1966, p. 18)

Hoje em dia podemos afirmar que o ciclo do couro não é mais tão
intenso quanto foi no Norte de Minas em outras épocas. As vestimentas feitas de
couro poucas vezes são vistas nos rincões sertanejos, apenas em vaqueiros que
se embrenham em matas xerófilas atrás de alguma rês perdida. O próprio cavalo
que até então era o grande companheiro do homem que abria os sertões está
sendo marginalizado e está se tornando “artigo de luxo”, haja vista o aumento das
vaquejadas e cavalgadas na região. O que se vê hoje no sertão norte mineiro é a
substituição do cavalo pelas motocicletas, principalmente nas pequenas
comunidades e fazendas, haja vista a facilidade de aquisição destes aparelhos. O
uso do cavalo, por sua vez, está se resumindo apenas a passeios e poucos
trabalhos no interior das propriedades.

Mas no Norte de Minas existem fazendas e vários confinamentos que


criam milhares de bovinos para a produção de carne destinada principalmente ao
mercado externo. O que há em abundância são monoculturas de florestas
homogêneas de eucalipto e pinus, bem como grandes projetos de fruticultura
irrigada implantados através da expansão da fronteira agrícola puxada por
investimentos estatais e que permitiu, principalmente, a explosão do fenômeno do
eucalipto. E nos últimos anos a região tem se tornado alvo da especulação devido
aos trabalhos de prospecção mineral desenvolvido por empresas transnacionais,
principalmente chinesas. Essa última expansão da fronteira econômica em terras
sertanejas preocupa os habitantes das chapadas onde se encontram essas
jazidas, pois como já ocorreu em momentos anteriores recentes com as
69

plantações de eucalipto e pinus, as populações do campo serão forçadas a


abandonar suas terras e partir para novos lugares à procura de uma vida decente.

3.2 Saberes locais e as gentes do sertão

Com a velocidade de transformação das coisas e dos comportamentos


humanos, faz-se necessário repensarmos a nossa condição nas cidades e nos
obriga a voltar o nosso olhar para o mundo rural, lugar onde estão localizadas as
populações guardadoras e protetoras do ambiente e também dos saberes
tradicionais adquiridos ao longo do tempo e, fazendo saber-se que, o Norte de
Minas é um polo efervescente de populações conhecidas e reconhecidas como
tradicionais.

Ao realizar estudos sobre sistemas de produção, Marx (1971) informou


a existência de duas lógicas de produção a partir das quais os homens
historicamente instituíram suas economias. Para este autor, enquanto uma lógica
tem como finalidade última a “produção do Homem”, a outra objetiva
excepcionalmente a produção da riqueza. Para ele, a primeira lógica é
encontrável nas formações não capitalistas ou pré-capitalistas, enquanto a
segunda é inerente ao sistema econômico ocidental pós-mercantilista, centrada
na exploração do homem pelo homem com a finalidade de acumular bens e gerar
riquezas.

Por outro lado, numa perspectiva antropológica, Marcel Mauss (1974)


procurando compreender como os homens organizam suas vidas sociais afirma
que existem duas formas de contrato a partir das quais os vínculos sociais são
estabelecidos e reforçados propiciando a coesão social e a existência de grupos
sociais, comunidades ou sociedades. Segundo ele, há sociedades que organizam
suas vidas a partir do princípio da mutualidade e outras que se organizam a partir
do princípio de mercantilidade. Assim, enquanto na primeira os vínculos criados
perduram no tempo porque os contratantes são pessoas morais, compreendidas
como redes de relações, na segunda, o vínculo entre os contratantes se encerra
após o atendimento dos interesses de cada uma das partes por serem
compreendidos como indivíduos atomizados e focados em si mesmo.
70

A partir do conhecimento da realidade sertaneja e suas gentes, tendo


como referência as diversas categorias socioculturais – ribeirinhos ou
vazanteiros19, veredeiros20, geraizeiros21, apanhadores de flor22, quilombolas e
indígenas – é possível construir uma interpretação articulando os processos
sociais em curso na região norte mineira. Num cenário de transformações
provenientes de diferentes processos de modernização do Norte de Minas, as
populações tradicionais historicamente existentes e os novos sujeitos se
entrelaçam e entretecem suas culturas provocando a interação inevitável de
antigos e novos saberes e formas de interagir com o meio ambiente.
Nesses cenários, a pluralidade de sujeitos e grupos sociais estabelece
o fundamento das características dos diversos modos tradicionais e
modernizados de viver. São essas diversidades que transformam os modos
patrimoniais de vida que por séculos caracterizaram os sertões norte mineiros.
São permanências e transformações entre o moderno e o tradicional que
produzem espaços de monoculturas e agriculturas comerciais e delimitam e
destroem os espaços de comunidades, grupos e famílias de trabalhadores rurais.
As ameaças e conflitos fundiários existentes na região decorrem em grande parte
das modalidades de apropriação dos recursos naturais dos sujeitos envolvidos.
As expropriações dos recursos naturais, de tradições, de hábitos,
costumes, religiões, são permeadas não apenas pela chegada do "estranho", mas
também pela surpresa e vontade de apropriar-se do novo, do moderno, conhecido
e entendido como desenvolvimento: maquinas agrícolas, caminhos para as
cidades, barcos a motor para a pesca, televisões e antenas parabólicas em casas
simples sem banheiro, equipamentos de sons no retorno das migrações mostram
a "simulação" da modernidade entre as gentes sertanejas.
Nas pesquisas nas ciências humanas, no trabalho de campo,
atualmente, os pesquisadores devem tratar as pessoas com quem conversa não
19
Esses grupos estão inseridos nas margens do rio São Francisco e utilizam as vazantes, áreas
alagáveis durante as cheias, para desenvolver a agricultura.
20
Estes grupos costumam ocupar áreas nos declives internos de chapadas onde nascem os
cursos d´água e ali estabelecem suas moradias, e com sua agricultura e seu extrativismo,
construíram um mundo voltado e regulado pela ecologia da vereda, responsável diretamente pela
reprodução dos sertanejos inseridos neste espaço.
21
É no lugar “gerais” que estão concentradas as maiores populações sertanejas, principalmente
as rurais, haja vista a extensão dos gerais e também a imensidão de significados que este espaço
gera para os nativos.
22
São grupos extrativistas que extraem flores sempre vivas nos altos das serras.
71

como simples informante, mas como intelectuais que desenvolvem leituras sobre
sua própria sociedade. A interpretação a ser desenvolvida posteriormente, se não
considerar essas interpretações nativas, pode estar descolada da realidade social
em estudo, porque parte de conjecturas hipotéticas apoiadas apenas na teoria
social.
Essa perspectiva de tratamento dos membros de uma sociedade deriva
da definição de cultura como sendo uma teia de significados que os humanos
tecem para si e nela se enreda, como definido por Geertz (1989). Se a cultura é
uma articulação de significações, o sentido das mesmas só pode ser apreendido
se se considera os construtores dessas significações como sujeitos que pensam,
que agem e que interpretam os seus próprios símbolos, ou seja, como
conscientes da vida social em que se encontram inseridos e dos processos
sociais vividos. Assim, a tarefa da interpretação da realidade social se desenvolve
na perspectiva de uma dupla hermenêutica em que, primeiramente, há que se
apreender a interpretação dos membros da comunidade em que se desenvolve a
pesquisa e, posteriormente, desenvolver as interpretações possibilitadas pelas
teorias antropológicas e sociológicas.
O autor afirma que a construção do conhecimento bem como as
manifestações culturais se diferencia nos locais em que ocorrem e se distinguem
das demais. Apesar de apresentar aspectos comuns e características sociais que
as une em conjuntos denominados étnico, nação, região, território, o
conhecimento se realiza e se manifesta em seu cotidiano localmente, ou seja,
opera também em escala macro, distinguindo-se, mesmo que em pequenos
gestos, ações e fazeres cotidianos organicamente comuns, das outras culturas
próximas, especificidades entendidas como “saber local”. “(...) remexendo na
maquinaria de ideias passadas, as formas do saber são sempre locais,
inseparáveis de seus instrumentos e de seus invólucros” (GEERTZ, 2001, p. 11).
Para Stuart Hall (2006), hoje em dia, o “meramente” local e o global
estão atados um ao outro, não porque este último seja o manejo local dos efeitos
essencialmente globais, mas porque cada um é a condição de existência do
outro. Antes, a “modernidade” era transmitida de um único centro. Hoje ela não
possui um tal centro. As “modernidades” estão por toda parte; mas assumiram
uma ênfase vernácula. O destino e a sorte do mais simples e pobre agricultor no
72

mais remoto canto do mundo depende dos deslocamentos não regulados do


mercado global – e, por essa razão, ele (ou ela) é hoje um elemento esse de cada
cálculo global. Os políticos sabem que os pobres não serão excluídos dessa
“modernidade” ou definidos fora dela. Estes não estão preparados para ficar
cercados para sempre em uma tradição imutável. Estão determinados a construir
seus próprios tipos de “modernidades vernáculas” e estas são representativas de
um novo tipo de consciência transcultural, transnacional, até mesmo pós-nacional
(HALL, 2006, p. 44-5). Portanto, a afirmação de que agora somos globais vem
colocar mais luz sobre a arena de disputa que se tornou o Norte de Minas. O
imbricamento do local e do global permitiu aos sertanejos do norte de Minas
estarem amarrados à teia da globalização, no seio da modernidade. É um
processo que arrasta todos, e com os lutadores sertanejos não poderia ser
diferente.
Joan Frigolé (2006, p. 52) ao analisar o fenômeno da globalização bem
como da localização dos sujeitos no mundo moderno lembra que, autores como
Fridman e Appadurai, evitam conceitos de cultura como a que a identifica com
uma substância dividida ou com um segmento bem delimitado de um mapa ou um
mosaico cultural. No contexto da globalização, as concepções culturais alimentam
o medo global do desaparecimento das diferenças, da perda da identidade
cultural considerada única.
A totalidade de sujeitos sociais e populações diferentes em modos,
cultura e comportamento permite afirmar que este conjunto eclético de
populações existentes no norte de Minas constitui um importante imperativo
categórico, haja vista que, no Norte de Minas, diversos sujeitos se reconhecem
puramente como sertanejos. Mas, há também, as populações que se identificam
perante a categoria social ou população na qual as mesmas estão inseridas, o
que permite aos diversos sujeitos sociais do Norte de Minas se identificarem
como geraizeiros, caatingueiros, veredeiros, barranqueiros, vazanteiros,
quilombolas e outras, mas, nem sempre e exclusivamente como sertanejos.
A complexidade norte mineira é justificada pela diversidade de sujeitos
que evidenciam em seu cotidiano uma multiplicidade de relações em respostas à
reivindicação de direitos. Há casos que alguns sujeitos se identificam como
vazanteiros e ao mesmo tempo quilombola. Essa multiplicidade de sujeitos,
73

muitas vezes combinados ou desdobrados, deslizam-se para garantir ao portador


da mesma, direitos até então negligenciados. A negociação e politização de
reconhecimentos fazem-se necessárias a indivíduos historicamente marcados
pela marginalidade e que veem na possibilidade de afirmação de uma nova
identidade uma oportunidade de se afirmar diante da sociedade que o inclui, mas
ao mesmo tempo o exclui.
Os vínculos dos moradores com a coletividade e as várias localidades
são explicitados pelo apego que demonstram pelo lugar onde vivem, as técnicas
que utilizam para trabalhar a terra e o fato de terem seus ancestrais enterrados
sacralizando a terra. Alguns são enterrados nos quintais das casas, o que
obrigatoriamente reforça o vínculo do morador com o local que habita, pois parte
de si está enterrado no lugar, o que permite fazer da coletividade um grupo
corporado, como conceituado na Antropologia.
Nos estudos antropológicos sobre o parentesco, Radcliffe-Brown
(1978) ao analisar as relações entre diferentes grupos africanos que tomou como
objetos de análise, afirma que nas diversas relações estabelecidas entre
diferentes grupos destacam-se os grupos corporados. Para o autor um grupo é
considerado corporado quando possui uma das seguintes características:
se seus membros, ou seus membros masculinos adultos, ou uma
proporção considerável deles, se reúnem ocasionalmente a fim de
empreender alguma ação coletiva – por exemplo, a execução de
ritos; se tem um chefe [líder] ou conselho e que se considera
como representante do grupo como um todo; se possui ou
controla propriedade coletiva como quando o clã ou linhagem é
um grupo dono de terras (RADCLIFFE-BROWN, 1978, p. 108).

Amparado na afirmativa de Radcliffe-Brow, é permitido afirmar a


existência de grupos corporados no interior da região estudada. Estes grupos
compostos por sujeitos atuantes expressam em seu cotidiano as vivências e luta
pela consolidação de direitos usurpados por grupos de fora, como as empresas
que ocuparam as terras que antes eram de uso comum. Portanto, para dizer
como Radcliffe-Brown (1978, p. 110), há inúmeras atividades sociais que só
podem ser eficientemente empreendidas por meio de grupos corporados.

Ao analisar os processos de territorialização por que passou as


populações sertanejas vêm à tona processos sociais vividos, tendo como
dinâmica estruturante a ligação com o lugar em que se habita, pois nele se
74

encontram os lugares e as coisas consideradas sagradas pelos moradores. Para


se considerar os processos de territorialização há que considerar a transformação
de um espaço da natureza em um espaço social onde são incorporados
significados pela população que por meio do trabalho culturaliza a natureza.

Os espaços utilizados para a estruturação do sistema de produção no


Norte de Minas articula uma variedade de terras, aquelas conhecidas localmente
como terra de cultura que serve para cultivo agrícola, pois as mesmas estão
localizadas principalmente nas áreas planas e férteis às margens dos rios e
favorece o plantio de variadas culturas em diferenciados espaços da terra de
cultura, demonstrando, desta forma, o seu conhecimento do solo e das
possibilidades de usufruir suas potencialidades em favor do homem. Nessa terra
os membros costumam plantar a roça em sistema de consórcio, aproveitando o
mesmo espaço para cultivarem duas ou mais variedades diferentes de alimentos
como, o milho e o feijão que são plantados juntos, o milho, a fava e o amendoim
etc. Cultivam diferentes alimentos como, feijão, milho, amendoim, batata,
mandioca, abóbora, quiabo, arroz que ultimamente, devido ao clima seco da
região, tem sido evitado, feijão andu e fava, além de outras culturas como
mamona e algodão.
75

CAPÍTULO IV

TRANÇANDO A VIDA: Trajetória


social e cultural de trançadores de
couro na região Norte de Minas
Gerais.
76

4.1 Conhecendo as moradas da vida

Neste capítulo são apresentadas as trajetórias sociais de alguns


trabalhadores rurais guardiões de saberes tradicionais que utilizam o couro de boi
e também de outros animais, como o bode, para desenvolverem seus ofícios e
construírem suas artes. Refiro-me ao trabalho e ao resultado desse trabalho como
uma arte, pois, para desenvolver tal atividade é necessário, além de habilidade e
paciência, muita perícia da pessoa que o desenvolve. Essa arte que atravessou
gerações é posta em contraste nos tempos atuais onde a invasão de produtos
industrializados deixam preocupados os detentores de saberes e fazeres
tradicionais que fazem com e do couro seu modo de ganhar a vida.

Os diálogos com os detentores desse saber tradicional, trançar couros,


foram estabelecidos nos municípios de Montes Claros, Coração de Jesus e
Juramento. Esses três municípios norte mineiros sempre tiveram, desde o
processo de povoamento e ocupação da região no século XVII suas atividades
vinculadas à vida pastoril e, consequentemente, os produtos utilizados para
sustentação e balizamento da vida eram oriundas do boi.

Figura 02: Localização dos municípios pesquisados


Fonte: IBGE, 2010. Org.: SILVA, F. G. Jan, 2016.
77

Nesses municípios visitei diferentes comunidades rurais que abrigam


essas gentes que fazem da arte de trançar couros um dos caminhos de acesso à
cultura local. Com diferentes visões de mundo, os guardiões do saber tradicional
foram colocados em evidência quando ocorreu o processo de modernização do
campo. A entrada de produtos industrializados no campo golpeou bruscamente a
arte de trançar couros. As evidências dessa violência são vistas no cotidiano
dessas pessoas que se mostram preocupadas quanto ao futuro. Incertezas e
desconfianças marcam a vida dos trançadores do sertão norte mineiro, pois a
continuidade de seus ofícios depende do interesse de outras pessoas que, na
maioria dos relatos dos trançadores ouvidos nesta pesquisa, não se mostram
interessados em dar prosseguimento a tal atividade.
No município de Coração de Jesus visitei a comunidade rural de Poço
Verde, distante vinte e cinco quilômetros da sede municipal. Lá, encontrei um
senhor bastante animado e disposto a fornecer material informativo acerca do
ofício que desenvolve muito bem. Instalado próximo às margens do rio Pacuí, o
senhor Ilton Santos recebeu-me para algumas conversas em diversos momentos
para falarmos sobre o universo dos trançadores e os desdobramentos que a
atividade sofreu após a modernização do campo.

Diminuição do trabalho, valorização, extinção. Afinal, o que os


trançadores têm a nos contar sobre esse ofício tão caro à sociedade norte
mineira? É a partir dessa imersão no mundo dos trançadores de couro que iremos
nos deslocar para outros municípios e localidades sertanejas a fim de encontrar
as junções e disjunções da arte de trançar couro no Norte de Minas.

O percurso em busca dos trançadores continua e chegamos ao


município de Juramento. Lá encontramos um senhor de média estatura sentado à
porta de sua casa com um par de óculos pendurado no pescoço e um pequeno
bigode pintado com tinta preta. Ali estava o senhor José Miranda, localmente
conhecido como Zé Miranda.

Atento a tudo que acontecia na rua e com pequenas facas bastante


afiadas em punho, este senhor levou-me para dentro de sua casa onde
estabelecemos um diálogo sobre a vida no campo do Norte de Minas. Como era e
como é que está a vida foi a nossa primeira conversa. Ali, o passado e o presente
78

do Seu Zé Miranda se encontraram e, a partir desse momento, foi possível


perceber a sensibilidade existente no humilde senhor. Franco, Seu Zé Miranda
contou-me sua trajetória de vida desde os tempos de criança no município vizinho
de Itacambira. Foi um conversa enriquecedora que me transportou para um
universo recheado de sensibilidades, luta, resistência e sobrevivência diante da
modernidade instaurada no campo.

Seguindo ao encontro de outros profissionais do couro retornei ao


município de Montes Claros e fui a uma de suas centenas de localidades rurais.
Fui à comunidade rural conhecida como Capivara, distante aproximadamente
cinquenta e cinco quilômetros da sede municipal. Essa localidade está fixada no
vale do rio Verde Grande e está rodeada por belíssimas serras que percorrem
todo o vale e se encerram em território baiano.

Em Capivara encontrei-me com o senhor Luiz Galdino. Com 86 anos e


muita sabedoria acumulada ao longo da vida, esse senhor é muito conhecido na
região por suas habilidades com o couro. Dono de um saber notável, o senhor
Luiz Galdino recebeu-me várias vezes pra conversarmos e mostrar-me como é
vivida a vida na localidade de Capivara. Demonstrando muita calma,
tranquilidade, e, principalmente paciência em relação ao assunto que domina,
esse guardião do “saber dos couros” conduziu-me pelo seu mundo. Explicou-me
os sabores e dissabores da vida dedicada ao trabalho com couro.

Com múltiplas habilidades e conhecedor de sua cultura estimulou-me


ao diálogo me propondo que fizesse uma pequena trança com palhas de milho.
Aceitei o desafio, e, naquele momento, percebi que minha habilidade com as
tranças de aproximava de zero. Entre risos, sugeriu-me que procurasse seguir
outro caminho, não o das tranças. Agradeci seu conselho e passei a dar mais
atenção às suas falas.

Impressiona qualquer pessoa não conhecedora do mundo rural as


habilidades deste senhor com os couros. “Faço tudo”, afirmou-me ele. Rédeas,
cabeçadas, laços, chicotes, carros de boi, selas. Com qualidades e habilidades
múltiplas, seu Luiz Galdino carregou-me para baixo de um pé de manga, seu
cantinho preferido, e começou a mostrar-me suas habilidades e contar sua
história.
79

O objetivo do capítulo é mostrar as trajetórias sociais de três guardiões


dos saberes tradicionais do couro no Norte de Minas. Importantes na manutenção
de tradições ancestralmente construídas, esses trabalhadores foram cruciais no
processo de elaboração de uma cultura amarrada ao couro. São trajetórias que se
distanciam no tempo e espaço, mas se aproximam na importância da manutenção
de um modo de vida entendido como tradicional e que se encontra ameaçado
pela modernização da vida no campo e, também, pela maneira distante e
superficial que os jovens veem essas atividades tipicamente sertanejas.

4.2 Remoendo o passado: trajetórias sociais, saberes e fazeres sertanejos

As especificidades da vida norte mineira em todos os campos informam


a existência de práticas sociais e ofícios que foram determinantes dos modos de
vida familiar e também cultural dessa sociedade. A divisão do trabalho nas
famílias norte mineiras bem como em outras regiões do Brasil começa desde a
infância e, com o passar dos anos, os filhos dessas famílias, a partir dos
processos de desenvolvimento cognitivos assumem, ou pelo menos tentam
assumir, algum ofício ensinado pelo pai ou algum parente próximo, principalmente
os filhos homens, haja vista a necessidade de, no campo, os homens assumirem
funções no universo do trabalho desde bem cedo.

Gentes consideradas invisíveis por alguns setores do poder público,


essas pessoas que povoam o sertão mineiro passaram a ser temas de estudos e
pesquisas sociais cuja finalidade é dar visibilidade a essas gentes. Com formas
peculiares de trabalhar e ganhar o sustento seu e de suas famílias, os
trabalhadores do mundo rural norte mineiro, em sua maioria, exceto aqueles
vinculados ao agronegócio, movimentam uma economia que também é invisível
aos olhos do Estado. Nunca aparecem nas estatísticas oficiais.

A invisibilidade econômica desse universo rural composto


principalmente por trabalhadores pobres que vendem o excedente de sua
produção não aparece nas estatísticas oficiais dos governos. Essa invisibilidade
das gentes e de suas economias acaba sendo maquiada pelos números
80

conseguidos pelo agronegócio onde os incentivos e a disponibilidade de recursos


oficiais é inúmeras vezes maiores que a dos pequenos produtores e
trabalhadores rurais. A estes, restam o contentamento com programas oficiais de
financiamentos agrícolas com pequeno valor de crédito financiado, como o
PRONAF23.

Seja na produção agropecuária ou nos demais campos da vida


econômica norte mineira, a invisibilidade não se torna um empecilho para a
atualização de relações sociais e de produção. Vale lembrar que ofícios tidos
como tradicionais e que geram trabalho e renda local não aparecem nas
estatísticas econômicas oficiais, haja vista a atividade dos carreiros e vaqueiros,
dos trançadores e seleiros. São autônomos, mas não significa que devem ser
deixados de lado no processo produtivo e marginalizados pelo Estado.

Trabalhadores artesanais que eram e muitos ainda continuam sendo


economicamente invisíveis como seleiros, carreiros, trançadores e vaqueiros,
produzem em pequena escala produtos que dão sentido a vida no campo e nas
cidades. O não aparecimento nas estatísticas oficiais não significa nada para eles
em termos econômicos, mas simbólico sim. Para eles, o que mais importa é o
valor simbólico que as coisas produzidas revelam para a vida e a história.

Ao estudar as economias consideradas invisíveis Manfred Max-Neef


(1986) afirma que os setores "invisíveis" para a história são praticamente os
mesmos que são "invisíveis" para a economia. Estes "invisíveis" são da maior
importância e o fato deles permanecerem como tal por tanto tempo não é
acidental. As razões estão nas nossas tradições e evolução cultural (1986, p.41).

Para este economista chileno, muitas vezes os invisíveis não são


reconhecidos como um componente estrutural do sistema. As estratégias de
desenvolvimento atuais tendem não só evitar estes setores, mas muitas vezes
piorar suas condições econômicas. Na maior parte do mundo subdesenvolvido
estilos de desenvolvimento impostos tendem a aumentar a marginalização dos
camponeses, sem gerar alternativas de emprego. Além do mais, a crescente
"industrialização da agricultura" tende a destruir habilidades tradicionais

23
Programa nacional de apoio a agricultura familiar vinculado ao Ministério do Desenvolvimento
Agrário.
81

existentes. O resultado final desta situação é que, enquanto a classe dominante


projeta a sua própria estratégia de desenvolvimento, o mundo invisível é deixado
para desenvolver as suas próprias estratégias de sobrevivência (MAX-NEEF,
1986, p.134).

Importante ressaltar que algumas atividades de trabalho que foram


balizadoras da vida no campo norte mineiro encontram-se em processo de
marginalização e quase desaparecimento. Os processos produtivos modernos
passaram a sufocar e estrangular os saberes tradicionais que foram constituintes
e constitutivos da sociedade norte mineira. Para alguns portadores de saberes
tradicionais, a modernização do meio rural veio instaurar aquilo que na Sociologia
Anthony Giddens (1991) chamou de descontinuidades. Essas descontinuidades
provocaram o desmantelamento de uma estrutura criada ao longo dos anos e que
era ordenadora da vida em sociedade. A velocidade imposta à vida no campo é
uma das consequências dessa ruptura ou descontinuidade imposta a partir da
imposição do processo de modernização. Fim de tradições seculares, migração,
esvaziamento do campo, todas essas variáveis atingiram as formas de vida na
região que passaram a fazer parte apenas da memória coletiva dos povos tidos e
entendidos como tradicionais no Norte de Minas Gerais.

Quando analisou os processos de descontinuidades no período


moderno, Giddens (1991, p. 14) mostrou que os modos de vida produzidos pela
modernidade nos desvencilharam de todos os tipos tradicionais da ordem social
de uma maneira que não têm precedentes. Este autor aponta, ainda, que tanto na
extensionalidade quanto na intensionalidade, as transformações envolvidas na
modernidade são mais profundas que a maioria dos tipos de mudança
característico dos períodos precedentes (p.9).

Se para alguns – principalmente os admiradores do evolucionismo


social – as descontinuidades abruptas significavam a cristalização de um novo
modo de vida moderno, para Giddens, a partir do reposicionamento do olhar, seja
do sujeito pesquisado ou do pesquisador, o caráter descontinuísta da
modernidade não deve ser tão apreciado. Uma característica que deve ser levada
em conta nos processos de análise da vida é o ritmo da mudança, os
82

movimentos. Estes sim, são eficientes e eficazes no processo de entendimento da


vida.

Dos ofícios aqui apresentados todos são vinculados às atividades


pastoris. Considera-se de fundamental importância a compreensão que, em todos
os ofícios, a vivência com animais, coisas e signos norte mineiros, é imperativa.
Para que um ofício seja desenvolvido na sua integralidade e funcionalidade faz-se
necessário uma apropriação de elementos de outros ofícios que coadunam a vida
social no Norte de Minas. Assim, podemos afirmar que o vaqueiro que tocava, e
ainda toca seu gado pelas estradas poeirentas do sertão, para que seu trabalho
se torne eficiente, utilizava e utiliza peças que compõem sua indumentária como
laços, selas e chicotes que são produzidos por outros profissionais, artistas que
trabalham o couro bovino e, deste, elaboram as peças cruciais para o bom
desenrolar dos trabalhos do vaqueiro. É como um jogo de espelhos onde um
ofício reflete a imagem do outro.

Podemos afirmar que há um imbricamento, ou uma rede de saberes


que, oriunda dos trabalhos com couro bovino construíram elementos que fazem a
cultura sertaneja mineira se assemelhar à nordestina. É fato que herdamos
elementos culturais dos vaqueiros nordestinos que subiram o rio São Francisco e
ajudaram a povoar a região, o que permitiu o aprimoramento e refino de técnicas
pastoris que culminaram com a afirmação da cultura local como pastoril.

A dependência do gado, especificamente do couro para a produção de


peças que são utilizadas no cotidiano dos vaqueiros e carreiros criou por todo o
norte de Minas uma quantidade extraordinária de trabalhadores do couro,
verdadeiros artistas que criavam e produziam peças e artefatos que favoreciam o
desenvolvimento do trabalho, seja tocando boiadas ou carregando cargas em
carros de bois pelo sertão. Esses trabalhadores do couro, aqueles que faziam e
ainda fazem laços, chicotes e demais arreios para o trabalho no campo são
regionalmente conhecidos como trançadores.

E são as trajetórias de alguns desses trançadores que conheceremos


agora. Sensibilidade, paciência e técnica apurada são constitutivas e constituintes
dos bons trançadores. São as sensibilidades que os fazem perceber o quanto
seus trabalhos são relevantes e reveladores de uma sociedade que, rapidamente,
83

está perdendo seus trançadores de couro para os tempos modernos que tem na
industrialização a locomotiva que puxa a extinção dos trançadores.

4.3 Juramento: morada da vida, encantos e desencantos

Encravada próximo ao pé da serra do Espinhaço que leva à cidade de


Itacambira e rodeada por uma vegetação de cerrado raleada pelo desmatamento
para cultivo de florestas homogêneas de eucalipto está a cidade de Juramento.
Como a maioria das cidades norte mineiras, Juramento apresenta baixo índice
populacional e a maior parte da população está fixada na sede do município. O
Censo Demográfico do IBGE24 informa que a população do município é formada
por 4.325 pessoas que desenvolvem diversas atividades como o comércio e o
trabalho nas propriedades rurais onde praticam a agricultura e pecuária e, em
alguns lugares, o extrativismo de frutas, flores, lenha e mel. Além disso, a
prefeitura municipal é a grande geradora de renda, pois emprega boa parte da
população local.

Distante aproximadamente trinta e cinco quilômetros da cidade de


Montes Claros, polo regional do Norte de Minas, Juramento faz divisa com os
municípios de Itacambira, Glaucilândia, Bocaiúva e, consequentemente, Montes
Claros. Rodeada por serras imponentes e chapadas no alto das serras que
guardam uma grande biodiversidade que inclui plantas, flores, animais e
gramíneas, esta pequena cidade também possui um balneário urbano que atrai
diversos turistas, visitantes e também a população local que adora se refrescar
nas águas que descem das serras e vai irrigando plantações ao longo do seu
percurso até chegar à barragem da Copasa construída no rio Juramento25.

24
http://www.cidades.ibge.gov.br/xtras/perfil.php?lang=&codmun=313680&search=minas-
gerais|juramento
25
Companhia de Saneamento de Minas Gerais
84

Figura 3: Municípios
unicípios de Juramento, Itacambira e áreas de chapadas
Fonte: Google maps

No mapa acima, localizo


localizo, especificamente, os municípios de Montes
claros, Juramento e Ita
Itacambira. Os círculos feitos informam os locais das
chapadas onde as populações locais realizam o extrativismo. O círculo maior, na
parte alta do mapa, informa o planalto itacambirense, lugar onde se encontram as
chapadas da comunidade rural de Congonhas e que pertencem ao município de
Itacambira. Os demais círculos informam, também, as localizações de outras
chapadas nos municípios de Juramento e Guaraciama.

Conhecida por abrigar uma grande barragem no rio Juramento de onde


é retirada boa parte da água que abas
abastece
tece a cidade de Montes Claros, essa
cidade sertaneja possui uma gente hospitaleira que sabe receber bem os
visitantes e demais pessoas que chegam à cidade. Não é por acaso que nos
finais de semana há grandes contingentes de pessoas que chegam ao município
para descansar. Gente que sai
sai, principalmente de Montes Claros,
Claros a procura das
belezas e do sossego quase duradouro de Juramento.

A caminho da serra do Espinhaço, mais precisamente nos municípios


de Itacambira e Botumirim, vários viajantes passam por Juram
Juramento
ento e se encantam
com as potencialidades turísticas que o município apresenta, mas, por falta de
85

vontade e empenho político aliados à desconfiança de investidores, esse


potencial ainda não foi desenvolvido na sua totalidade e integralidade. Mesmo
assim, os moradores do lugar acreditam que a atividade turística será melhor
desenvolvida no município, o que propiciará um aumento na geração de renda
para as gentes do lugar.

Vale ressaltar que a cidade conta com diversos restaurantes com


pesqueiros26 que recebem vários visitantes, principalmente nos finais de semana.
A principal atração desses restaurantes localizados no entorno de Juramento é a
culinária sertaneja e a pesca esportiva. Quem frequenta esses espaços costuma
solicitar, de preferência, o prato principal que é o frango caipira servido com feijão
tropeiro, arroz branco, quiabo e pirão. E os frequentadores não costumam
reclamar da comida, é o que me relatou um casal que havia acabado de se servir
em um dos restaurantes da cidade.

Quem vive em Juramento sabe bem das características que distinguem


esse município dos demais norte mineiros, a começar pela tranquilidade. Pacata,
com gente simples e que adora conversar com visitantes, as praças da cidade
são pontos de encontro entre nativos e visitantes, lugares onde os vínculos
comunitários e de pertencimento são renovados e reforçados diariamente,
permitindo aos moradores cada vez mais afirmarem-se como juramentenses. E se
orgulham disso. Afirmam-se como uma sociedade ordeira e aberta para o novo,
sempre. É o que informam os moradores ouvidos durante minha estadia na
cidade.

Entre os bancos das praças e as cadeiras dos botecos da cidade muita


gente se aproxima e tenta de alguma forma estabelecer uma relação de amizade.
Essa característica é peculiar ao povo norte mineiro, de ser aberto ao outro, ao
novo, ao diferente, como afirmou Costa (2003), quando comparou e analisou a
sociedade norte mineira diante da sociedade mineira, das minas. Para este autor,
essa característica da sociedade norte mineira, de ser aberta ao outro, é um dos
principais marcadores sociais da diferença entre mineiros e norte mineiros.
26
Pesqueiro ou pesque e pague é um estabelecimento comercial localizado preferencialmente no
meio rural e próximo às cidades. Nesses locais são construídos tanques e colocados peixes,
nativos ou exóticos. Os visitantes que desejam realizar a prática da pescaria podem exercê-la
mediante o pagamento de um valor pré-estabelecido. Normalmente cobra-se pelo quilo do peixe
pescado e o valor varia de acordo com a espécie.
86

Nos tempos atuais a economia da cidade é movimentada pelo


comércio e pela agropecuária. Mas, no passado a atividade agropecuária foi mais
intensa. Com as mudanças climáticas que a região tem sofrido nas últimas
décadas milhares de famílias abandonaram o campo no Norte de Minas e
mudaram-se para as cidades, principalmente Montes Claros, que possui uma boa
estrutura educacional e de saúde.

O fenômeno da migração proporcionado, também, pelas grandes secas


que assolam a região desde o final dos anos 1980 foi crucial no processo de
esvaziamento do campo norte mineiro. Diversos municípios sofrem com a seca
acentuada na região obrigando-os, em sua maioria, a decretarem estado de
emergência ou de calamidade pública para terem acesso rápido a programas que
beneficiam as populações afetadas e que são oferecidos pelo Governo Federal.

Além da explosão das plantações de eucalipto, como já mencionado


anteriormente, a seca contribuiu bastante para a diminuição e a quase extinção
de alguns cultivos e ofícios há muito tempo praticados na região. Com a escalada
crescente da seca, vários processos sociais e produtivos viram-se forçados a se
atualizarem para não se extinguirem de vez. Dos cultivos atingidos pela seca, o
de arroz foi o mais afetado em todas as áreas do Norte de Minas. Para não
dizermos que este se extinguiu de vez da área sertaneja mineira, pouquíssimas
áreas às margens de lagoas ou rios ainda cultivam esse cereal.

A leitura desses processos sociais e produtivos afetados pela seca


pode ser realizada a partir das andanças que qualquer observador fizer à região.
O abatimento das populações é visível, mas a resistência é um marco definidor da
personalidade do homem do sertão, a saber, a célebre afirmação de Euclides
Cunha em Os Sertões, “o sertanejo é antes de tudo um forte”.

A força que por anos imprimiu o ritmo de vida no sertão já não é mais a
mesma. É o que se houve pelos cantos aonde se vai, seja na cidade ou mesmo
em comunidades e localidades rurais. Remoer o passado é comum entre as
gentes do sertão. É uma forma de atualizar a vida pela memória, seja individual
ou coletiva. Conforme afirma Pierre Nora (1993, p. 9), a memória é a vida, sempre
carregada por grupos vivos e, nesse sentido, ela está sempre em permanente
evolução, aberta à dialética da lembrança e do esquecimento, inconsciente de
87

suas deformações sucessivas, vulnerável a todos os usos e manipulações,


susceptível de longas latências e de repentinas revitalizações.

4.4 Artista-trançador: trançando a vida e a esperança em Juramento

Alocado em um pequeno quarto em meio a muitas tiras de couro,


facas, argolas, cordas, chicotes e um pequeno banquinho, está o senhor José
Miranda. Aos 75 anos, o alegre sertanejo abre a porta e convida-me a adentrar
em meio àquela “bagunça organizada”, onde conhece cada canto e, mesmo no
escuro, segundo ele, “é capaz de encontrar um pequeno botão”. Num primeiro
momento é possível perceber que somente ele domina aquele pequeno espaço.
Nada de novo para um sertanejo acostumado a experienciar desde cedo as
agruras e entreveros da vida. Tornar-se forte para enfrentar a vida.

Seu Zé Miranda é um homem de estatura baixa. É magro e usa calça


social com cinto bem apertado, camisas de botão, além de chinelos de dedos. É
possuidor de um fino bigode preto e, pela aparência, costuma pintar,
frequentemente, tanto os fios do bigode quanto os cabelos da cabeça. Vaidoso,
está sempre alegre e é bastante educado e receptivo com as pessoas que o
visitam.

O local de trabalho do seu Zé Miranda é um cômodo anexado à sala da


casa. Próximo à esquina da principal avenida da cidade onde o movimento de
pessoas e carros é maior está o espaço ocupado pelo experiente trançador que é
conhecido por todos na pequena cidade. Ali, passa seus dias observando a cena
urbana com seus “agitos e buchichos” e é, também, o lugar onde fica sabendo
das novidades e de tudo que acontece na cidade. “Sou um cidadão bem
informado”, afirmou.

Habilidoso com os couros, seu Zé Miranda ficou conhecido por realizar


trabalhos que utilizam o couro de boi como matéria-prima principal para a
realização dos bens oriundos do mesmo. São diversos objetos feitos pelo artesão
no pequeno espaço que dispõem para suas atividades. Mas é possível perceber
que nesse pequeno espaço brota e cresce formas diversas e utilitárias de objetos
indispensáveis ao trabalho no campo.
88

Com muita disposição, seu Zé Miranda não tem hora certa para iniciar
os trabalhos. Mas, afirmou-me que prefere trabalhar à tarde, pois pela manhã
prefere “dar umas voltas” pela cidade, seja para rever pessoas ou mesmo realizar
alguma compra para seu “escritório”. “Tenho 75 anos que fiz no mês de agosto.
Tive problema de catarata, mas fiz cirurgia agora no mês de agosto, mas enxergo
bem, muito bem mesmo” (Zé Miranda).

Entre um grito e outro com alguma pessoa que passa na rua em frente
a sua casa, pois o pequeno cômodo onde trabalha é junto a casa onde mora, o
artesão trançador, com seus óculos já na face parte para o trabalho com diversas
tiras de couro já preparadas anteriormente. São dessas tiras de couro de que são
produzidos os objetos feitos por seu Zé Miranda. São chicotes, cordas,
cabeçadas, trabucos, bainhas e mais alguns outros objetos que, com o passar do
tempo e o refinamento de suas habilidades passaram a dar maior sentido à vida
do trançador.

Casado pela segunda vez é pai de dez filhos. Como afirma, “todos os
meus filhos estão esparramados pelo mundo”, nenhum dos filhos aprendeu e quis
dar prosseguimento ao trabalho do pai. Mas, segundo ele, “não me desanima.
Cada um sabe o que faz da vida. Não tem nenhum que aprendeu. Só aprendeu
outras coisas. É pedreiro, outros trabalham para a Cemig, barbearia. Mas ser
trançador, ninguém quis ser”.
89

Figura 4: Tiras de couro cru utilizadas no processo de trançagem


Fonte: LOPES, C.A.S. 2014

Nascido no mato, em Congonhas – comunidade rural pertencente ao


município de Itacambira – como gosta de afirmar, nas terras altas de Itacambira,
município vizinho de Juramento, o trançador norte mineiro sempre volta ao seu
passado para explicar sua atuação como trançador. Sua realização enquanto
profissional é feita cotidianamente a partir da satisfação do freguês ao ver o
produto que solicitou antecipadamente já pronto.
90

Figura 5: Seu Zé Miranda mostra um chicote em fase de construção


Fonte: LOPES, C.A.S. 2014

Para entendermos o presente de seu Zé Miranda devemos retornar ao


passado, mais precisamente à sua infância e adolescência para compreendermos
os processos sociais pelos quais passou para se tornar um trançador reconhecido
na região. Como a maioria dos sertanejos, a trajetória de seu Zé Miranda foi
marcada pelo trabalho desde criança.

Quando eu era menino eu aprendi a trançar rasgando folhinhas de


coco com uns tios meu. Aprendi com eles, também, a tirar as
correias do couro e trançar. Eu era menino pequeno e a gente ia
para roça vigiar arroz, porque a gente trabalhava na roça. Meio dia
a gente tinha uma folguinha. Tinha um tio meu que era profissional
nisso, e aí eu já levava as folhinhas de coco e lá eu rasgava elas,
fazia a quantidade de “tentos”27 e ele me ensinava. Aí eu fui
aprendendo. Depois que eu cresci e virei rapaz aí eu aprendi a
fazer uma trancinha e vendia pro povo. Mas tem muitos anos que
eu mexo com isso. Cinquenta e tantos anos (Zé Miranda).

27
Na linguagem nativa, “os tentos” são as tiras de couro cru cortadas finas e que são utilizadas
nas tranças
91

Ainda sobre seu tempo de menino, o trançador narra partes de seu


passado. Excetuando as dificuldades da época, que são inúmeras, a começar
pelos acessos em trilhas e estradas muito esburacadas, seu Zé Miranda vai de
encontro ao seu passado e, sorridente, narrou com alegria e felicidade o seguinte
fato:

Eu era um menino muito inteligente. Antigamente só se usava


isso, coisas de couro. Lá em Congonhas tinha muito disso, eu sou
de lá. Lá, naquela época, tinha umas dezesseis pessoas que
mexiam com isso. Aí ele [seu tio] me ensinava naquelas horas
vagas que a gente ia pra roça trabalhando, meio dia tinha aquelas
folguinhas, aí eu já ia naquelas chapadas e tirava as folhinhas de
coco, lascava, e ali ele me ensinava quantos tentos a gente
colocava. Era um tempo muito bom. Foi o começo de tudo que
aprendi, com as tranças. E eu gostava. Cada vez mais eu
começava a gostar e daí fui gostando, gostando e não parei mais
(Zé Miranda).

Com o passar do tempo seu Zé Miranda e sua família se mudaram para


Juramento, cidade onde vive até hoje. Afirma não ter interesse em se mudar para
nenhum outro lugar do mundo, nem mesmo a Congonhas onde nasceu. “Lá
mudou muito [Congonhas]. Agora mesmo estão querendo construir uma
barragem imensa. Vai acabar com tudo. Vai tirar água do rio para levar para
Montes Claros”.

Com águas limpas e cristalinas, o rio Congonhas é alvo de projeto de


construção de barragem para captação de água para abastecer a cidade de
Montes Claros. A obra já foi licitada e espera apenas emissão da ordem de
serviço do Governo Federal via DNOCS28 para que sejam iniciados os trabalhos.
Assim como em outros casos e lugares, a construção de grandes barramentos em
rios gera preocupação e ansiedade entre os moradores que poderão ser
atingidos. Os símbolos e significados construídos e reafirmados ao longo da vida
podem ser imersos pelas águas, assim como lugares sacralizados pelos
moradores, como os cemitérios familiares e coletivos. O risco é iminente e mesmo
as pessoas que nasceram lá, mas que não vivem, como Seu Zé Miranda,
demonstram preocupação com o que pode acontecer no futuro.

A trajetória de seu Zé Miranda foi construída a partir do seu trabalho braçal.


Aliado a outras formas de ganhar a vida, como a lavoura, o trabalho com o couro
28
Departamento Nacional de Obras contra a Seca
92

preencheu a quase totalidade da vida desse sertanejo. Acostumado a enfrentar a


vida no campo para sustentar sua família, o sertanejo, ao se fixar na cidade,
passou a dedicar a vida exclusivamente ao trabalho de trançar. A arte aprendida
com o tio na adolescência, ao se mudar para a cidade passou a ser a forma de
ganhar a vida e sustentar sua família.

Seu Zé Miranda lembra que no passado a busca por produtos de couro


para a lida no campo era maior. “Tinha muitas fazendas e muitos camaradas para
mexer com os bichos. Hoje diminuiu muito”. Há que considerar que por toda parte
que se vá ao Norte de Minas a queixa dos moradores é quase sempre a mesma.
Afirmam, sem rodeios, que a vida no passado era melhor e que, hoje em dia,
diante do quadro de seca que se agravou a partir da década de 1980 vários
modos tradicionais de ganhar a vida foram marginalizados ou mesmo esquecidos.
Como afirmado anteriormente, vários cultivos foram extintos, principalmente o
cultivo de arroz que se tornou restrito às beiras de lagoas em pouquíssimos
lugares, e a cotonicultura, que durante a década de 1970 movimentou a economia
da região através de subsídios estatais.

Mas o trabalho nunca parou e nem acabou. Atualmente, seu Zé


Miranda não se queixa da vida. Perguntei se hoje em dia ele ainda vive
exclusivamente da arte de trançar couros, e ele foi pontual em sua resposta.
“Não! Hoje eu sou aposentado. Isso aí é um quebra galho, um passa tempo”.
Assim como outros trabalhadores do couro no Norte de Minas seu Zé Miranda
trabalha apenas com encomendas. Não costuma fazer os produtos e deixá-los
guardados a espera de um comprador. “É uma forma de não perder tempo”,
afirma ele. Porque se você faz muitas coisas e deixa guardada pode ser que não
vende. E se não vender, onde eu vou usar essas coisas?”.

O saber fazer construído ao longo da vida fez do seu Zé Miranda um


homem especial. Portador de um saber e fazer diferenciado e que se encontra em
processo de atualização, o experiente trançador, assim como outros ouvidos
durante o processo de coleta de dados para esta pesquisa, mostra-se receoso
quanto ao futuro dos trançadores. Essa preocupação é recorrente, motivo pelo
qual a pesquisa foi pensada. Estes saberes tradicionais que pareciam fadados a
93

desaparecer estão adquirindo fôlego devido a novas formas de atuação no


universo rural do Norte de Minas.

Assim como os seleiros, que atualmente alegram-se com os esportes


rurais que oxigenaram o mercado de produtos artesanais de couro, os
trançadores também se veem inseridos nessa nova janela de oportunidades que
se abre no sertão mineiro: as cavalgadas e vaquejadas já mencionadas em outra
parte desse texto tornaram-se importantes no processo de soerguimento desses
ofícios tradicionais.

Com a habilidade adquirida durante os anos, seu Zé Miranda passou a


produzir vários objetos úteis à vida norte mineira. Além dos já citados laços,
cordas, cabeçadas, chicotes, trabucos, há, também a confecção de alforjes,
embornais e bainhas para facões e canivetes, todos feitos exclusivamente, sob
encomenda.

A matéria-prima para os produtos feitos pelo trançador é o couro de


boi. Mas afinal, de onde vem o couro do boi e como ele é preparado? Essas
foram perguntas que fiz ao trançador que, pacientemente, narrou o processo de
compra, preparo e corte do couro. Seu Zé Miranda informou que o couro utilizado
por ele é comprado em açougues clandestinos da cidade de Juramento, pois a
cidade não possui um matadouro licenciado.

A gente compra o couro do boi fresco na mão dos açougueiros.


Depois a gente estica ele no chão com uns tocos para ele não
encolher e nem ficar enrugado. Daí quando ele seca a gente tira
e apronta ele. O couro eu compro ele fresco e deixo secar lá na
beira do rio, tem um lugar lá que eu estico ele. Não precisa salgar.
Salga o couro apenas para curtir. Para as coisas que eu faço eu
uso é o couro cru. O couro curtido é para fazer a sola, aí já é o
couro curtido. Agora o couro cru é para trançar (Zé Miranda).

Perguntei ao trançador os valores que são pagos pelos couros na


região. Para ele, houve um aumento exagerado no preço do couro. “Ele já teve
baratinho, mas hoje custa sessenta contos (reais). Ele ficou uns seis anos com o
preço de dez reais e ninguém queria. As exportações tinham acabado, mas agora
voltou” (Zé Miranda).

Pela fala do meu interlocutor é possível perceber que, mesmo distante


dos grandes centros urbanos onde as transações econômicas são feitas muito
94

rápidas, o sertanejo está atento às movimentações financeiras, onde, por um


determinado período o couro de boi teve suas exportações diminuídas tendo
apenas o mercado interno como comprador permitindo, dessa forma, uma
manutenção do valor do preço do couro em seis reais. Com a volta das
exportações o preço disparou no mercado interno, é o que alega o seu Zé
Miranda. Essa análise do meu interlocutor reforça o discurso da glocalidade
apresentada por Stuart Hall ou seja, o seu Zé Miranda, atento à movimentação do
mercado de couros sofre a influência dessa glocalidade pois, aos mesmo tempo
que está em sua cidade pequena (aldeia) sua produção influencia e é influenciada
pelos preços do mercado internacional.

Depois de seco e recolhido da beira do rio, o couro está pronto para ser
utilizado. Pela resistência e espessura específica, os couros apresentam imensas
dificuldades para cortá-los. É necessária uma nova técnica que facilite o
manuseio do mesmo para que as tiras de couro fiquem “aparelhadas”, com
mesma forma e tamanho. Para que esse procedimento seja feito adequadamente,
seu Zé Miranda faz a seguinte afirmação:

Quando o couro já está seco e pronto, na hora de trabalhar a


gente molha o couro na água para ele amaciar e ficar melhor de
cortar. Aí a gente tira as correias, a gente enfia ele dentro d’água.
Depois que tira da água acaba de trançar. Agora a gente passa
um sebo nele para ele amaciar. Aí já fica pronto para trabalhar (Zé
Miranda).

Perguntei ao seu Zé Miranda se o pai dele também trabalhava com


couro. Em sua resposta afirmou que o pai também fora trançador, mas não de
couro. Trançava palhas e tiras de bambu.

Meu pai fazia muito era balaio, cesta, esteira para samboeiro
[carro de boi] com folha de coco e também com bambu. Meu avô
mexia com carro de boi demais, carro samboeiro, com os cocões,
onde a gente lubrificava com azeite para não pegar fogo, pois ia
esquentando (Zé Miranda).

Os balaios e cestas bem como as esteiras são construídos no Norte de


Minas especificamente com o bambu Bambusa vulgaris. Há uma cosmologia
nativa que afirma que o bambu, assim como a madeira, deve ser cortado na lua
fraca, como a minguante. Esses objetos eram e ainda são utilizados nos
transportes de cargas, principalmente as feitas por carros de boi e carroções. As
95

esteiras ou caniças são usadas para fechar o carro ou carroção para que os
produtos transportados não caiam durante o transporte. Já os balaios e as cestas
são usados para encher com os produtos os carros de bois e carroções. São
usados de várias formas e servem também como unidade de medida. Lembro ao
leitor que no Norte de Minas é comum às pessoas do meio rural utilizarem a
expressão “um carro de milho” para se referir ao grão comprado ou vendido. Um
carro de milho equivale a trinta balaios de dez medidas. Cada “medida” constitui
dois quilos, portanto, quando se compra um carro de milho com palha e sabugo,
que equivale a trezentas medidas, está se comprando seiscentos quilos de milho.

A arte de trançar não se aprende da noite para o dia. É um aprendizado


demorado e requer muita atenção e dedicação do aprendiz. As formas de tranças,
quantos fios se usam, tudo depende do objeto a ser produzido e também da
habilidade do trançador. As habilidades dos trançadores variam de produto para
produto. Alguns se especializam e dedicam a apenas um objeto, como os
chicotes, por exemplo. Outros preferem os laços, que são mais “custosos”
exigindo uma maior experiência e habilidade. Quanto maior o número de tiras ou
fios trançados em um objeto maior é a habilidade do trançador.

Figura 6: Corda de relho e laço.


Fonte: LOPES, C.A.S (2014).

A afirmação do trançador de Juramento é de que a produção de um


laço é a parte mais delicada dos trançados que produz. Demanda bastante tempo
e a quantidade de tiras de couro fica a critério do cliente. Há laços que são feitos
até com vinte tiras. Usa-se no início do laço uma argola de ferro ou aço
inoxidável. Mas os clientes, em sua maioria, preferem as argolas de aço
96

inoxidável, pois, além de não enferrujarem também dão um melhor acabamento


ao laço, além de facilitar o manuseio do mesmo. São mais caras e nas lojas
especializadas são encontradas pelo preço que varia entre sete e dez reais. Já na
confecção do laço seu Zé Miranda cobra cento e trinta reais por um laço de seis
metros.

Há argolas grandes, pequenas e médias. A colocação das argolas no


“pé do laço” depende da vontade do cliente. Uma argola maior costuma ser mais
resistente, mas as menores também são colocadas e costumam durar muitos
anos. Seu Zé Miranda lembra que o tempo de duração de um laço depende do
“capricho” do dono com ele. Se for mantido em local seco e não deixar molhar no
período de chuvas um laço pode durar até trinta anos.

Figura 7: Argolas usadas em laços e chicotes


Fonte: LOPES, C.A.S (2014).

No processo de elaboração dos chicotes é comum o seu Zé Miranda


utilizar muitos tentos.

Um chicote a gente faz até com vinte e quatro tentos para ele ficar
largo. Não pode ser ímpar, tem que ser os pares. Pode se fazer
com doze, quatorze, dezesseis. Só é possível trançar, nesse caso,
os pares. Cada fio é um tento. E é desses tentos que a gente vai
puxando a trança até o final. Depois a gente faz o arremate e
apara as pontas para ficar bem acabado.
97

Os chicotes são usados como complemento dos arreios dos cavalos,


burros, éguas, jumentos, ou seja, dos animais de monta. Antigamente, lembra seu
Zé Miranda, o chicote era conhecido também como “tala” e era usado no
processo de amansamento de burros bravos. Além da tala usava-se também o
“trabuco” que se assemelha ao chicote, mas este tem o cabo de madeira e é mais
rústico. Já o chicote possui o cabo todo trabalhado, trançado, por isso tem maior
procura principalmente nos eventos equestres.

O chicote tem o cabo todo trançado, e aqui tem uma argola, onde
fazemos os acabamentos, vem até aqui assim (...) depois dele
feito ele fica muito bonito. Em são Paulo tem uns lugares que
fabricam isso, porque uma vez me trouxeram uns retratos para eu
ver, mas quando chegou aqui eu conferi e era a mesma coisa do
que eu faço (Zé Miranda).

Os chicotes servem para “despertar” o animal para que este obedeça


aos comandos de quem esteja montado nele. Mas nem sempre é usado para
agredir o animal. Atualmente, os chicotes tem uma função quase que “somente
estética” no trato animal. Utiliza-se mais as esporas para “despertar” o animal.

Seu Zé Miranda lembra que, atualmente, quem encomenda um chicote


pede um mais trabalhado, rico em detalhes, com tranças diferenciadas e argolas
reluzentes que brilham quando expostas ao sol. São usados como acessórios nos
diversos passeios e cavalgadas que são realizados em todos os lugares da região
norte mineira. Os preços variam de acordo com a dificuldade do trabalho.

No desenrolar do assunto perguntei ao seu Zé Miranda qual o preço de


um desses chicotes mais detalhados feitos por ele. Perguntei, também, como ele
enxerga o ofício de trançador nos tempos atuais. Sua resposta vai ao encontro de
diversos apontamentos já feitos nesse texto, como as mudanças proporcionadas
pela modernização da vida no campo e as novas oportunidades aberta nas
cidades para os jovens com ancestralidade rural.

Ah, mudou sim. Hoje em dia não tem nem quem faz isso mais.
Aqui só tem eu nessa região que faz laços, chicotes, cabeçadas,
esse tipo de serviço com couro. E só faço por encomenda. Um
chicote eu faço por setenta reais. Mas quando eu vim de
congonhas eu mexia com roça. Depois que eu me aposentei eu
dediquei mais ao ofício. Quem aposenta não aguenta mais
trabalhar, e ficar parado é ruim, né? Mas nessa arte, com a idade
de dezoito anos eu já sabia mexer com isso (Zé Miranda).
98

As habilidades de seu Zé Miranda vão além de laços e chicotes. “Tudo é


por encomenda. Faço também rédeas com cabelo de boi e cavalo. Eu mexo com
uns porcos ali e por isso estou trabalhando somente as horinhas”.

Além de confeccionar objetos que são utilizados na vida rural, e agora no


mundo urbano, esse sertanejo também faz consertos em bruacas e guaiacas.

Agora mesmo estou consertando essas bruacas aqui para um


médico de Montes Claros. Ele tem uma fazenda aqui perto e pediu
para consertar essas bruacas. Pediu para colocar um novo forro e
fazer uns arremates. Esse tipo de serviço hoje em dia você não
encontra mais quem faz. Mesmo assim é pouca gente que tem
esses negócios. É mesmo para enfeite, para guardar alguma
coisa dentro de casa porque tudo hoje é transportado de carro e
caminhão (Zé Miranda).

Figura 8: Bruacas sendo reformadas


Fonte: LOPES, C.A.S 2014.
99

As bruacas durante muito tempo foram utilizadas para transportar as


mais variadas cargas sobre os lombos de burros e mulas. Desde a entrada das
bandeiras paulistas pelo interior do Brasil as bruacas eram utilizadas no
transporte de cargas. Na região norte mineira quando da tocada de grandes
boiadas por longas distâncias, o uso de bruacas era necessário para transportar
os alimentos que seriam consumidos durante essas viagens. Os mais diversos
mantimentos como feijão, carne seca, toucinho e farinha, além de água para
beber e usar no preparo de alimentos. Costumava-se levar mais de um burro ou
mula com bruacas carregadas de mantimentos. Esses animais eram conhecidos
como cargueiros.

Mas, com a modernização dos meios de transporte no campo brasileiro


e, nesse caso, norte mineiro, as bruacas foram esquecidas, e quando
encontradas são utilizadas como relíquias em casas das famílias que as
possuem. Hodiernamente, é difícil encontrar alguém que faça bruacas no Norte
de Minas. Com o fim das grandes boiadas que rasgavam o sertão berrando e
fazendo poeira, as comitivas foram desfeitas, os burros de carga deixaram de ser
amansados e preparados, e as bruacas foram esquecidas. Atualmente, utilizam-
nas como objetos de decoração no interior de residências e, em muitos casos,
foram deixadas ao relento e com o passar do tempo apodreceram e levaram
consigo parte da história do sertão.

No imaginário social, as bruacas ainda existem, principalmente em


função de poesias e da música caipira que dão sentido e valor à existência
dessas. É comum que os compositores e poetas que revisitam o sertão
mencionem as bruacas em suas músicas e poemas e, assim, continuam sendo
cantadas e louvadas com as devidas glórias que sempre mereceram.

No trabalho com o couro, seu Zé Miranda utiliza-se de várias


ferramentas. As mais usadas são pequenas facas bastante afiadas que ficam
guardadas na gaveta de uma pequena mesa. O fato de serem pequenas facilita o
manuseio do couro. São usadas para tirar o pelo do couro e também para cortar
as tiras.
100

Figura 9: Ferramentas utilizadas no durante o trabalho com o couro


Fonte: LOPES, C.A.S, 2014

Durante as conversas com seu Zé Miranda, foi possível perceber um


lamento nas falas dele. Há uma tristeza em perceber que não há interesse de
pessoas mais jovens a prosseguir com o ofício de trançador. Quando questionado
se durante todo esse tempo de atuação com os couros houve pessoas
interessadas em aprender o ofício, sua resposta foi em tom negativo, de
decepção.

Aqui eu tentei ensinar a um rapaz. Quando ele começou a


aprender ele teve um desacerto com a família e foi para Montes
Claros, não dedicou. Teve outro que eu ensinei, ele começou a
trabalhar, mas sofreu um derrame. Hoje vive, mas não faz nada
(Zé Miranda).

Quando decidiu partir de Congonhas e se fixar em Juramento, seu Zé


Miranda não imaginava, provavelmente, que conseguiria desenvolver uma arte
que permitisse complementar a vida no campo norte mineiro. Entre facas, couros
e tranças, criou um modo de saber fazer que está se tornando raro. Ao agregar a
necessidade de trabalhar e a curiosidade de aprender a fazer as primeiras tranças
com folhinhas de coco na sua infância, não imaginaria que ali estava nascendo
um artista do couro.

É nesse desenrolar que o saber tradicional construído e elaborado


tempos atrás vai sendo reforçado. A incerteza maior está no futuro. Quem serão
os novos trançadores? Essa resposta só o tempo poderá dizer. Enquanto isso, na
101

cidade de Juramento, bem pertinho da serra do Espinhaço ainda encontramos


seu Zé Miranda com sua arte e sua coragem. Arte para encantar e ajudar a viver
a vida no campo norte mineiro. E coragem, porque, como diz Guimarães Rosa, o
que a vida quer da gente é coragem.
102

4.5 Poço Verde de esperança: laços que unem homem e natureza

É tempo de seca no sertão mineiro. Aqui a seca reina absoluta por oito
meses todos os anos e, quando chove, as chuvas nos últimos tempos estão
caindo abaixo da média histórica. Aves passam voando no céu azul sem
nenhuma nuvenzinha que traga esperança de chuva para o sertanejo. Sofrência
que parece não ter fim. Somente a esperança de dias melhores pode acalentar
tamanho sofrimento.

Enquanto a chuva não chega, a comunidade rural de Poço Verde


apresenta uma paisagem cinzenta e com o arvoredo empoeirado. Parece
desanimador, mas não é. Aqui se vive a vida sem pressa, em ritmo ainda lento,
cortado apenas pelo barulho que se ouve ao longe dos motores de motocicletas
que infestam o mundo rural. Para quem gosta é uma formosura de invenção. Para
quem não gosta é um inferno essas motocicletas.

É mês de julho em Poço Verde. Festas juninas e julinas coletivas são


comemoradas internamente e em outras comunidades. Há ainda festas familiares
que reúnem muita gente que se encontra nesses eventos para afirmar e reforçar
seus vínculos de pertencimento ao lugar. Estouros de fogos de artifício são
ouvidos durante o dia e a noite, anunciando que ainda tem festa.

Figura 10: Placa anunciando a comunidade de Poço Verde


Fonte: LOPES, C.A.S. 2015
103

Figura 11: Croqui da comunidade rural de Poço Verde


Fonte: LOPES, C.A.S. 2015
104

Tempo seco, vento, muita poeira e estradas ruins. Os chapadões


anunciam que estamos em área de cerrado. Mesmo com um imenso plantio de
eucalipto em grande parte do seu território, o município de Coração de Jesus
ainda mantém grandes franjas de cerrado bem preservadas. São pequizeiros,
cagaiteiras, mangabeiras, jatobazeiros, muricis, araçás, pau terra, tinguizeiros,
favelas, pau santo, grão de galo, maçambezeiros,barbatimão, e uma infinidade de
árvores, frutíferas ou não, que compõem a paisagem sertaneja do município. Há
gados perambulando pelas estradas a procura de algum capim para alimentar-se.

Distante aproximadamente vinte e cinco quilômetros da sede municipal,


o viajante interessado em chegar a comunidade deverá partir de Coração de
Jesus no sentido à cidade de Brasília de Minas. Ao sair da cidade deverá pegar
uma estrada vicinal de terra que margeia o aeroporto da cidade e seguir em
direção ao distrito de Luiz Pires de Minas, também conhecido como Lapinha.
Após passar por uma imensa plantação de eucalipto haverá uma bifurcação em Y
e o viajante deverá dobrar à direita e seguir direto até cruzar o rio Pacuí. Após
atravessar o rio já se está na comunidade rural de Poço Verde.

Cheguei à comunidade rural de Poço verde no município de Coração


de Jesus no mês de julho, auge da seca na região. Fui ao encontro de um
interlocutor com quem dialogaria sobre a arte de trançar couro. Como em outras
áreas do Norte de Minas, poucas pessoas dominam a arte das tranças com
couro, e nem sempre elas estão disponíveis para conversar, pois, em sua maioria,
desenvolvem outras atividades que complementam a renda familiar. Nessa
comunidade várias famílias plantam hortas irrigadas onde cultivam pimentões,
tomates, pepinos, abóboras, jilós e quiabos que são vendidos em uma grande
feira na cidade de Montes Claros.

Essa comunidade rural está localizada ao norte do município de


Coração de Jesus a aproximadamente vinte e cinco quilômetros da sede
municipal. Várias famílias de agricultores ocupam a área e cultivam, além das
hortas, pequenas lavouras de milho e feijão, principalmente no período das
chuvas que na região vai de novembro a março. Além disso, criam animais como
gado bovino e cavalos.
105

Na comunidade de Poço Verde fui ao encontro do senhor Ilton Santos,


conhecido na região por realizar trabalhos com couro de boi. Somente ele produz
alguns objetos como chicotes, selas, piratas, cordas e laços. Não diferente de
outras áreas investigadas na região, aqui, também, houve uma diminuição
violenta na produção de artefatos de couro, haja vista a não reprodução do ofício
por pessoas jovens que possuem algum talento para tal ofício.

Ao chegar à residência do senhor Ilton deparei-me com uma casa


rodeada por plantas muito bem cuidadas e um terreiro muito bem varrido.
Roseiras e algumas orquídeas enfeitam o quintal. Além disso, há outros tipos de
flores que não sei explicar o nome nem a origem. Nem mesmo o anfitrião soube
me explicar as tais flores. Mas eram muito bonitas.

Ao redor da casa pude perceber um curral e um enorme pátio onde as


vacas leiteiras passam a noite e se alimentam com ração e bebem água em um
bebedouro instalado sob a sobra de um limoeiro. Havia cavalos e vacas no
momento da minha chegada, pois ainda era cedo e não havia terminado a
ordenha das vacas leiteiras. Enquanto não era encerrado o trabalho com as vacas
passei a observar o quintal que possuía muitas arvores frutíferas como
mangueiras, goiabeiras, laranjeiras, bananeiras, abacateiros, e até mesmo um
parreiral de uvas. Tudo encantador aos olhos deste observador. Fiquei
imaginando por um momento como seria agradável para aquele “mundaréu” de
plantas receberem uma boa chuva para oxigena-las e melhorar a produção. Puro
devaneio. A chuva ainda demoraria a chegar ao sertão mineiro.

Durante a observação do quintal fui despertado por um grito de alguém


que solicitava a minha presença. Era o senhor Ilton me chamando para adentrar a
sua casa para conversarmos. Ao entrar em sua casa assentei-me em um banco
colocado ao lado de uma janela que dava para o pátio em frente a casa. Ali,
esperei por alguns minutos e comecei a conversar com ele. “Espero que você
goste do meu cantinho”, disse-me com uma voz calma e tranquila. “Então é o
senhor que tá querendo conversar sobre essas coisas de sertão?” Disse a ele que
sim, que era eu mesmo que estava a fim de conversar sobre as coisas do sertão,
especificamente sobre a vida humana e dos animais.
106

Entre saudações e conversas dispersas ordenou que me servisse de


um café preparado por sua esposa Maria Antônia. Sem recusar parti em direção à
garrafa onde se encontrava o café e me servi. Houve acompanhamento de
biscoitos e bolos, mas preferi ficar somente no café. Coisa melhor para se servir
ainda estaria por vir e não queria bater de frente com meu apetite que já
espreitava o almoço. Coisa de sertanejo.

Ilton Santos tem cinquenta e sete anos e desde os doze anos trabalha
no campo e com os couros. É casado e tem cinco filhos. Mas em sua propriedade
mora somente com sua esposa, pois seus filhos foram morar e estudar em
Montes Claros. Nenhum deles quis permanecer no campo e trabalhar com
lavoura ou em fazendas “mexendo” com gado. Preferiram partir para a cidade a
procura de uma melhor formação e de um futuro mais promissor que o trabalho
no campo.

Eu nasci em Tamboril, município de São João da Ponte. Tem uns


tios meu que também fazem isso. Eles moram em olhos D´água.
Eu vim aqui para Coração de Jesus em 1981. Vim trabalhar. Eu
trabalhava na Ourovil, perto de Agreste, que pertencia ao finado
Ildeu Athayde. Quando ele morreu aí ficou para mulher dele.
Depois eu e outros camaradas saímo de lá e, daí, cada um
procurou seu rumo. Eu vim parar aqui e daqui não saio nunca
mais (Ilton Santos).

Observando cautelosamente a forma como retirava um chicote que


estava pendurado em um prego afincado na parede de um cômodo fora da casa,
perguntei ao senhor Ilton como ele aprendeu a confeccionar esses objetos.
Perguntei se alguém o ensinou ou se, pela necessidade do trabalho no campo,
aprendeu sozinho a arte. “Eu faço corda, faço cabresto, chicote, pirata, faço tudo.
Como aprendi eu nem sei explicar. Foi com o tempo mesmo”.
107

Figura 12: : Chicote elaborado pelo senhor Ilton


Fonte: LOPES, C.A.S. 2015

Na verdade eu aprendi tudo foi sozinho, nem lembro se alguém


me ensinou. Eu sempre trabalhei em fazenda. Às vezes a sela
quebrava e tinha que emendar. Até o patrão mandar outra a gente
tinha que se virar. O patrão ia à fazenda de mês em mês e até a
gente mandar pra consertar demorava demais. E, nisso aí, eu
aprendi a fazer (Ilton Santos).

Assim como os demais trançadores mencionados nesse texto, o


senhor Ilton confecciona esses objetos apenas por encomenda. Não costuma
estocar os objetos, pois nem sempre há fregueses para comprar os produtos, haja
vista o esvaziamento do campo e a diminuição dos trabalhos nas fazendas de
criação de gado da região. “Aí não compensa eu fazer esses negócios e deixar
aí”.

Com o trabalho realizado em suas horas vagas e somente sob


encomenda, o senhor Ilton vive sua vida de forma bem tranquila na comunidade
rural de Poço Verde. Sempre que pode costuma sair para visitar amigos e uns
parentes que moram do outro lado do rio Pacuí. Não costumar demorar muito,
pois a propriedade não pode ficar sozinha, informou ele.
108

Em relação ao trabalho com os couros e a confecção de produtos, o


meu interlocutor informou que também confecciona selas. É raro confeccionar
uma sela, pois segundo ele, “não tá compensando”. Essa habilidade ele aprendeu
e desenvolveu quando, por um determinado tempo em sua juventude, foi morar
em Montes Claros com um irmão e alguns primos. Durante o tempo que
permaneceu por lá disse ter aprendido várias coisas, entre elas, a fazer selas.

Eu também trabalhei numa selaria um bocado de tempo lá em


Montes Claros. Hoje ela nem existe mais. Essa selaria era ali no
centro mesmo. Não tinha o mercado velho? Era ali pertinho,
subindo aquela rua pro lado da Catedral. Dois quarteirões depois
do mercado a gente virava. Trabalhei lá bem tempo. Foi lá que
aprendi a fazer selas (Ilton Santos).

Mas o trabalho com as selas raramente é feito pelo senhor Ilton.


Influenciado pela desaceleração dos trabalhos nas fazendas bem como um
desinteresse dos mais jovens pelos cavalos, a produção de selas nem faz mais
parte da vida desse sertanejo. “Não compensa”, afirmou ele.

Agora a sela tem bem tempo que eu não faço. Nem tenho ideia de
quanto cobrar. Eu faço mais é cabeçada (...) para mim a sela
mesmo não compensa. Hoje não compensa porque se você for
reformar uma sela eles cobram de cento e sessenta a duzentos
reais para fazer a reforma. Enquanto você pode comprar uma sela
nova até por trezentos reais. Então não compensa mais mexer
com isso. Tem coisa que se você for colocar na caneta você não
faz mais nada. Então o trem hoje não tá bonito (Ilton Santos).

Em compensação, o trabalho com pequenos objetos sempre é feito.


Basta alguém encomendar que o artesão parte para mais uma tarefa. Seja
confeccionar um chicote, uma pirata ou um laço, a paciência e a habilidade para
as tranças devem ser colocadas em prática. “Com essas coisas não se pode ter
pressa. Se errar uma puxada de um fio o serviço tem que ser recomeçado”.

Uma das maiores lamentações do trançador Ilton é não existir mais


pessoas que desenvolvam a arte de trançar na comunidade de Poço Verde e nas
proximidades. Há pessoas que trabalham com couro na cidade de Coração de
Jesus, mas não na comunidade. Trocar experiências com outros trançadores
seria importante, pois permitiria a troca de saberes e de modelos de objetos
confeccionados. “Mas tudo tem explicação”, afirmou Ilton.

Esse tipo de serviço está acabando. Aqui mesmo em Poço Verde,


que eu sei que mexe com isso, é só eu mesmo. Aqui não conheço
109

ninguém mais que faz. Aqui nessa beira, somente eu que mexo
com couro, não tem mais ninguém mesmo. É uma pena (Ilton
Santos).

Rapaz, as vezes eu me pergunto o que acontece com essa turma


mais nova. Se você procurar uma pessoa para trabalhar um dia de
serviço você não acha. Esse tipo de coisa mesmo, de couro, pelo
jeito que tá indo vai chegar um tempo que não vai existir mais.
Porque ninguém quer fazer isso. Ali tem um menino que sabe
fazer cabresto, mas é só com corda comprada, dessas
industrializadas. Com couro mesmo ele não mexe. Ele leva jeito,
mas fazer o quê? Tem muita gente que precisa desse tipo de
coisa ainda, mas vai acabar. Eu te confesso que minha parte eu
faço. Tentei ensinar meus filhos, mas eles não quiseram mexer
com isso. Hoje eles fazem outras coisas em Montes Claros e não
querem nem saber disso (Ilton Santos).

A representação do mundo rural e da cultura norte mineira através de


signos e símbolos permite às gentes da região atualizar seus modos de
expressão e também de conhecimento. Incorporada em símbolos e materializada
em comportamentos, a cultura é sempre imperativa. É ela que ordena e modela
as formas de pensar e viver a vida. Tanto os saberes quanto os fazeres
tradicionais do Norte de Minas estão fortemente vinculados à influência da cultura
nordestina. Desde os primeiros vaqueiros baianos que subiram o rio São
Francisco tocando gado e criando vilas, os modos e significados das coisas foram
transferidos paras as gentes que surgiram com as andanças desses vaqueiros.
Seja no trato com o gado e no aproveitamento do couro para a confecção de
objetos usados no trabalho nos campos ou mesmo na culinária, pois a carne
bovina, principalmente salgada, sempre foi apreciada pelas populações que
tiveram suas culturas vinculadas à nordestina.

Essa vinculação, além de aproximar gentes fez também surgir uma


sociedade entendida como pastoril em todo o vale do rio São Francisco que fez
do gado o grande signo de sua cultura, vide os trabalhos de Costa (2001, 2003).
Boiadas, bois e vaqueiros sempre foram imbricados e, por isso, o
desmantelamento de uma estrutura vinculada ao couro do boi, a saber, os objetos
usados no trabalho das fazendas ou mesmo a carne bovina, preocupa a todos.
Seja no campo ou na cidade, a influência do modo de vida pastoril sempre
permeará a vida das gentes do Norte de Minas. Entre um e outro lugar, por onde
110

se vá aqui no Norte de Minas há sempre uma história a contar sobre bois, boiadas
e boiadeiros/vaqueiros.

Antigamente isso aqui tinha muito gado nessas fazendas. Ali do


outro lado rio ainda tem muitas fazendas, mas emprega pouca
gente. Antes isso era cheio de vaqueiro que vivia perambulando
nessas chapadas gritando e tocando gado. De longe a gente
escutava os aboios. Era bonito demais. Vinha gente tocando gado
de todo lado. Era pra levar pra Montes Claros ou tocando de uma
fazenda pra outra. As vezes tinha até dez vaqueiros tocando uma
boiada de trezentos bois. Porque aqui não tinha estrada e se uma
rês entrasse no mato tinha que pegar. Tinha serviço demais.
Então, daí precisava de muita coisa. Era corda, cabrestos,
cabeçada, qualquer tipo de arreio. E era o povo daqui da região
que tinha que fazer porque tudo era longe. Hoje não, qualquer
coisa você pega um telefone e liga onde for, seja em Coração de
Jesus ou Montes Claros e pede uma pessoa pra comprar e
colocar no ônibus. Aí de tarde você vai no ponto de ônibus e pega.
Tá vendo como a coisa tá mudada? Hoje acabou aquele negócio
de você ficar esperando semanas ou até mesmo um mês pra
receber uma coisa que compra. A diferença é muita. É outro
tempo agora. Quando eu vim de São João da Ponte isso aqui
tinha muito mais gente. Mas as pessoas ainda não tinha
descobrido esse negócio de cidade. Hoje todo mundo corre pra
cidade, até parece que nem tem um pé na roça (Ilton Santos).

A manutenção do saber fazer entendido aqui como tradicional reforça


as formas e modos de vida existentes na região. Esses modos fazem parte de um
contexto de vida que aproxima homens e gado. Essa relação, além de ser
constitutiva e constituinte da cultura norte mineira é marcadora dos processos
sociais que atualizam a vida das gentes do sertão. É um atacado de
circunstâncias que coloca frente a frente a cultura e o saber local. O
fortalecimento dos vínculos de pertencimento ressurge robustamente e faz
emergir entre os detentores desse tipo de saber os sentimentos mais diversos,
sejam eles de afeto ou desconfiança.
111

4.6 Guardando a memória: cordas, trabucos, chicotes e piratas

Figura 13: : Vista do Morro do Frade em período de seca / agosto de 2015


Fonte: LOPES, C.A.S. 2015.

Figura 14: Vista do Morro do Frade durante o período chuvoso / janeiro 2016
Fonte: LOPES, C.A.S. 2016

Quem segue de Montes Claros em direção ao distrito de São Pedro


das Garças passando pela estrada de Santa Rosa de Lima, ao descer a serra que
112

separa o bioma cerrado da caatinga arbórea do vale do Verde Grande logo se


depara com um vale suntuoso que cobre toda a extensão desses dois distritos. A
povoação encontra-se localizada em uma área entre serras, como uma abertura
ou garganta onde tem um pequeno curso d’água correndo em direção ao rio
Verde Grande quando o boqueirão se abre para as suas amplas planícies
anunciando as belas paisagens ali existentes.

As serras que rodeiam o vale do Verde Grande são imponentes e


apresentam ao chegante ou viajante, paredões esplêndidos de rochas e
vegetação nativa onde se destacam os enormes embarés e as barrigudas ou
paineiras. À época, suas flores são vistas de longe e a beleza nelas contidas é
encantadora. Essas serras são extensões da serra do Espinhaço, mas localmente
conhecidas como serra da Capivara, serra do Jatobá, serra do Santo Inácio. Além
disso, há um enorme monte localizado no meio da planície que é conhecido como
Morro do Frade. Tempos atrás, o Morro do Frade foi lugar de peregrinação de
nativos católicos pagadores de promessas que subiam até o topo para fazer suas
orações e agradecer as graças alcançadas. Informações coletadas junto aos
moradores locais apontam para a existência de um cruzeiro afixado no alto do
morro pelos pagadores de promessas e que ainda permanece lá. Infelizmente,
não tive a oportunidade de subir o morro para apreciar a vista do vale do Verde
Grande que, vista do alto, deve ser deslumbrante.

Ao longo dessa planície, desde a descida da serra até os municípios de


São João da Ponte e Capitão Enéas há várias comunidades rurais espalhadas
com grupos sociais distintos que mantêm relações sociais e econômicas, além de
culturais, que articulam entre si esses elementos que, juntos, tornam-nos bem
organizados socialmente. Dentre as várias comunidades rurais, seja dos
municípios de Montes Claros, São João da Ponte ou Capitão Enéas, apresento
aqui a comunidade de Capivara, pertencente ao município de Montes Claros, que
é composta basicamente por quatros troncos familiares que se apresentam como
capivarenses e, ao longo dos anos, tornaram-se importantes sujeitos na
composição da sociedade local que vive da agricultura e pecuária.

A comunidade rural de Capivara está localizada às margens de um


pequeno rio, que oficialmente não possui nome, mas localmente é conhecido
113

como o rio da Capivara. Situada logo abaixo do distrito de Santa Rosa de Lima,
aproximadamente cinco quilômetros, essa comunidade traz em sua trajetória lutas
intensas pela sobrevivência, principalmente contra a seca que, como me afirmou
moradores locais, “a cada ano se apresenta mais intensa”.

Figura 15: Comunidade de Capivara vista do alto


Fonte: LOPES, C.A.S. 2015.

Nas terras baixas ou vazantes do rio, como são conhecidas essas


áreas, as famílias locais plantam lavouras de milho e feijão e, até um passado
recente costumavam plantar, também, o arroz. A mão de obra familiar é usada
para execução das tarefas diárias dos plantios, pois, dessa forma, economizam-
se recursos financeiros para serem usados posteriormente em outras situações.

Ao chegar à comunidade rural de Capivara fui recebido pela família do


meu interlocutor, o senhor Luiz Galdino. Gente simples, alegre e bastante
receptiva e que transborda alegria quando recebe visitas. Situada a beira da
estrada que leva a outras propriedades, a casa da família parecia um local de
festa tamanho era o agito. Quando da minha primeira visita havia um intenso
barulho de adultos que conversavam, crianças correndo ao redor da casa,
cachorros latindo e, ainda, havia um rádio ligado em alto volume onde se podia
ouvir um programa católico comandado por um famoso padre.
114

Figura 16: Estrada de acesso à comunidade de Capivara


Fonte: LOPES, C.A.S. 2015

Quando me aproximei da cancela do acesso ao terreiro da casa fui


anunciado pelo latido da cachorrada. Acuado, armei-me com um pedaço de
madeira, pois, como me disse um dos filhos do senhor Luiz Galdino, “cuidado,
pois cachorro não é gente”. Esse anúncio colocou-me ainda mais em posição de
defesa caso fosse atacado pelo infeliz bicho. Mas nada disso aconteceu. Entre
um grito e um xingamento do dono do bicho, adentrei-me a casa e estabeleci um
primeiro contato com a família.

Cheguei cedo, por volta das oito e meia da manhã e a essa hora o
almoço da família já estava quase pronto. “Assenta aí que daqui a pouco o de
comer sai”, falou o senhor Luiz Galdino. O cheiro que vinha da cozinha da casa
era muito bom e animador e, a partir desse momento, passei a preparar-me para
o almoço junto com eles. Não demorou muito e logo veio à porta de acesso à
cozinha a dona Maria, esposa do senhor Luiz Galdino comunica-lo que a comida
estava pronta. Almoçamos juntos e, logo em seguida, fomos para baixo de uma
mangueira sombrosa que fica bem em frente a casa para conversarmos sobre
vários assuntos, mas o principal assunto era a arte de trançar couro que o
anfitrião domina muito bem e há muito tempo.

A comunidade rural de Capivara onde vive o senhor Luiz Galdino é


composta por troncos familiares e, desses troncos, há o tronco familiar vinculado
115

ao seu Neco Fonseca, já falecido, que agrega em torno de sua propriedade os


filhos herdeiros que permaneceram na terra e deram sequencia ao trabalho na
agropecuária iniciado pelo antecessor. Na propriedade partilhada entre os
herdeiros é praticada, hodiernamente, a agricultura e a criação de gado bovino.
Há, também, a criação de cavalos em baias – cômodos construídos para servir de
moradia aos cavalos – que são utilizados em esportes rurais como as cavalgadas
e vaquejadas. Geralmente são montados pelos descendentes mais jovens do
patriarca Neco Fonseca, como netos e bisnetos.
116

Figura 17: Croqui da comunidade rural de Capivara


Fonte: LOPES, C.A.S. 2015
117

Confinante com os herdeiros de Neco Fonseca está o tronco familiar de


Luizinho Fonseca que ocupa uma área ao norte da propriedade apresentada
anteriormente. Estabelecido há décadas nas terras herdadas de seu pai, Luizinho
Fonseca é um pequeno sitiante que também desenvolve a agricultura e cria gado
bovino. Vive com sua esposa no lugar, pois seus filhos casaram e foram morar
em Montes Claros onde trabalham e estudam.

Também na Capivara há a propriedade de Joaquim Ferreira da Silva,


alcunhado de Quinca Fonseca. Latifundiário, sempre teve boa relação com seus
vizinhos pequenos proprietários. Em suas terras pratica-se a pecuária extensiva
com gado de corte criado em quantidade, além de alguns bons cavalos de raça. A
propriedade adquirida há décadas, mais precisamente nos anos 1960 foi
aumentando a partir da aquisição de novas terras compradas de pequenos
agricultores que decidiram abandonar o campo.

Com isso, estendeu sua propriedade ao outro lado do pequeno rio que
corta a comunidade rural de Capivara indo até à estrada que vai até São Pedro
das Garças. Além disso, é possuidor de vários imóveis urbanos e apresenta um
elevado padrão de vida, mesmo desenvolvendo modos simples e rústicos de vida.

Para completar os quatro troncos familiares existentes na comunidade


há o tronco familiar vinculado ao senhor Luiz Galdino. Sertanejo simples e bem
humorado, este senhor está com oitenta e seis anos de vida e vive em sua
propriedade com sua esposa. Ao lado de sua residência, três filhos construíram
casas e vivem com suas famílias. Desenvolvem diversas atividades que dão
sustentação a vida material e cultural da família, como a agricultura, a pecuária de
leite, e realizam, também, atividades artesanais vinculadas ao couro bovino,
sendo estas aprendidas com o patriarca Luiz Galdino.

Em uma parte da propriedade vive seu filho mais velho Manuel de


Jesus, localmente conhecido como Zuzão. Este, por algum tempo em sua
juventude, viveu na cidade de Montes Claros e trabalhou na indústria têxtil. Mas,
segundo ele, alguma coisa o incomodava e não se sentia à vontade na cidade.
“Um calorão, um trem ruim, uma vontade de voltar pra roça que não me dava
sossego”. Foi aí que “decidi fechar as portas do meu barraco e voltar pra roça.
Aqui é meu mundo, me sinto feliz”.
118

No seu retorno limpou um terreno e construiu sua casa. Casou-se e


teve quatro filhos. Todos moram em Montes Claros e já constituíram famílias. Ao
lado da casa do pai cultiva roças de feijão e milho na beirada do rio que corta a
comunidade e, nas horas vagas, costuma ajudar seu pai com as coisas de couro,
ofício este que aprendeu ainda criança, mas não o utilizou como forma de garantir
sua sobrevivência e, posteriormente, de sua família.

Vale lembrar que dos vários filhos do senhor Luiz Galdino apenas
Zuzão aprendeu a arte de trançar peças de couros. Mesmo assim, a vida lhe deu
caminhos e opções diferentes. Indagado se seria capaz de desenvolver um
trabalho com o couro mostrou-se prontamente para tal atividade: “só não faço
sela, mas essas outras coisas eu sei fazer. Só nunca vivi disso”.

Eu sou o filho mais velho dele. Mas na sabedoria e na paciência


eu tiro o chapéu pra ele. Desde eu pequeno, hoje ele tem 86
anos, ele tem as vistas melhor que todos os filhos. Desde
pequeno aprendi vendo ele fazer. Preparava o couro na água, ele
tirava a corda e eu tecia. Fazia as cordas. Aí comecei a trançar de
quatro, de seis, de oito tiras. Quando eu tava na cidade ia ao
mercado e vendia tudo, mas o povo não dava valor. E aqui
quando alguém encomenda alguma coisa eu chego aqui e falo: ô
pai, faz isso aqui pra fulano que ele tá precisando. Aí ele faz. É um
servicinho que ele faz na sombra. Quem é eu pra ter a habilidade
dele! (Zuzão).

Vizinho e irmão de Zuzão, José vive com sua mulher no terreno ao


lado. Bastante respeitado na comunidade e em outras comunidades vizinhas por
seu trabalho religioso e comunitário através da Associação de Moradores,
Bornega, como é conhecido, também é agricultor e divide com sua esposa uma
casa confortável na propriedade do pai Luiz Galdino. Esclarecido sobre todos os
assuntos, seja político, econômico, cultural e religioso, Bornega traz em sua
trajetória um trabalho social e religioso vinculado a Igreja Católica. É
evangelizador e também dirige a Associação dos Moradores de Capivara. Em sua
gestão, informa ele, várias coisas foram conseguidas para a comunidade como,
poço artesiano e água encanada em todas as propriedades, construção da sede
da Associação, cisternas de polietileno fornecidas pelo Governo Federal para
acumular água das chuvas e manter a residência abastecida durante o longo
119

período de estiagem e maior facilidade de acesso aos serviços oferecidos pela


EMATER29.

Figura 18: Sede da Associação dos Moradores de Capivara


Fonte: LOPES, C.A.S.2015

Ainda na propriedade do patriarca Luiz Galdino está a família de João


Hélio. Também agricultor, vive com sua esposa na propriedade e desenvolve
trabalhos apenas na atividade agropecuária. Vez em quando faz trabalhos de
carreiro para alguém que o contrate ou mesmo para a família, mas sua atividade
principal é agricultura. Informo ao leitor que na região a família do senhor Luiz
Galdino é conhecida por ser bastante ordeira e constituída de pessoas
trabalhadoras. O prestígio da família foi sendo construído a partir do trabalho e do
comportamento do pai, sempre respeitoso e guardador das boas maneiras e
regras impostas pela sociedade.

Dono de um saber fazer diferenciado, o senhor Luiz Galdino é


referência em toda a região quando se fala em trabalhos com couro. Os muitos
anos de serviços prestados à família e a comunidade o colocou como importante
guardião da cultura local. Por muitos anos foi membro de um terno de folia do
distrito de Santa Rosa de Lima, mas, com o passar dos anos e a morte de vários
membros o terno se desfez e cada um, quando pode, acompanha a folia de Reis

29
Empresa de apoio a terra de Minas Gerais.
120

em outras comunidades ou mesmo na cidade de Montes Claros. Acompanham as


folias natalinas, de Santos Reis e São Sebastião em Janeiro e de São José, em
março.

Como guardião da memória local e portador de um saber diferenciado


que atualmente é entendido como tradicional exatamente por nos levar de volta a
um passado quase caído no esquecimento devido a velocidade que a vida no
campo ganhou em função da modernização do campo, o senhor Luiz Galdino
cada vez mais se firma como um bastião da cultura local. Entre saberes e fazeres,
traz consigo marcos de uma vida e passado dedicados à manutenção do modo de
vida tradicional norte mineiro.

Seja na arte de trançar, tecer ou cortar couro, o velho sertanejo


apresenta em sua trajetória social diversos aspectos que o vincula a um passado
de trabalho não exclusivamente com o couro, mas o teve sempre como
companheiro inseparável. Seus produtos são vendidos e divulgados por todos os
cantos do vale do Verde Grande e tornou-se referência quando se fala em
confeccionar produtos de couro.

Desde os áureos tempos do carro de boi na região o senhor Luiz


Galdino desenvolve seu ofício de trançador. Segundo ele “ao começar a entender
de gente” iniciou seus trabalhos e desenvolveu, a partir do refino constante, a
técnica de trançar couros e elaborar verdadeiras obras de artes. São cordas,
laços, relhos, chicotes, trabucos, bainhas para facão e canivete, rédeas para
cavalos e os mais variados tipos de coisas que são usadas na lida do campo e
que são constituintes e constitutivas da vida no campo.

Luiz Galdino nasceu na comunidade rural de Crispim no ano de 1929.


Quando jovem mudou-se para a antiga fazenda Capivara. Foi na Capivara que o
velho trançador se criou e se consolidou como um importante difusor da arte de
trançar couros, arte essa que o consagrou como o grande trançador de couro e
referência para outros trabalhadores do couro na região.
121

4.7 Tornando-se trançador

É comum às famílias norte mineiras que viviam e vivem no campo a


iniciação dos meninos no meio rural através dos atos de montar a cavalo e laçar
bezerros. Ainda pequenos os meninos começam a manusear os laços e conhecer
os prazeres e perigos originados com o trabalho no campo, principalmente com o
gado. Quedas, coices e chifradas são os perigos básicos que estão submetidos
quem se aventura no trabalho com o gado desde cedo. Essa é uma das formas
de iniciar os meninos na vida rural norte mineira.

Os perigos e agruras da vida no campo são compensados pelas


alegrias propiciadas pelo manuseio com os animais e também pela liberdade
vivida. Planícies e chapadas sempre foram conjugadas pelos sertanejos para
fornecerem-lhes o que há de melhor em cada espaço. Prazer e perigo eram e são
relativos e dependem do ponto de vista de cada um acerca dos mesmos. As
correrias nas soltas de gado nas chapadas eram motivos de reuniões de
vaqueiros que partiam acompanhados de uma cachorrada “pé duro” responsável
por farejar os animais e indicar os rumos que os bichos estavam. Era uma festa.
Depois de juntos eram tocados para as fazendas e entregues ao dono da boiada
que costumava recompensar os vaqueiros com comilanças e bebidas.

Essas ações no mundo rural inspiravam qualquer menino que nascia e


crescia nesse habitat. Diante da imposição familiar, principalmente do pai e de
tios, os meninos deveriam desde cedo aprender a montar a cavalo e lidar com o
gado sempre existiu no Norte de Minas. É uma forma de perpetuar o domínio
exclusivamente masculino sobre as ações e os trabalhos com os bichos.

Quando procurei o senhor Luiz Galdino na fazenda Capivara já sabia,


há tempos, do trabalho feito pelo trançador. Receptivo e alegre, o sertanejo abriu
as portas de sua casa para conversarmos sobre diversos assuntos, mas o
principal era mesmo o trabalho com o couro que aprendeu ainda cedo na lida do
campo.

Para Luiz Galdino, o despertar para o ofício deu-se ainda cedo quando,
em companhia do pai saía para o trabalho no campo retornando somente no final
do dia. As conversas no decorrer do dia foram importantes para moldar a
122

personalidade e o caráter do artista dos couros que estava brotando naquele


corpo ainda franzino de menino judiado pelo trabalho. O senhor Luiz Galdino ao
longo das nossas conversas rememorou momentos importantes de sua infância e
se emocionou quando questionado sobre o futuro do ofício de trançador. “As
pessoas que aprenderam a fazer essas coisas estão acabando. Não existe mais
gente interessada nesse tipo de trabalho”.

Os desdobramentos do passado trazidos pela memória são


interpretados e ganham significados que informam o vivido pelo interlocutor. Para
Cunha (2013), a memória desempenha o papel de trazer ao presente a vivência
passada, não apenas para rememorar, mas para construir através da
aprendizagem adquirida, um presente mais seguro, edificado pela experiência
apreendida e refletida. É através da e pela memória que podemos compreender
as reminiscências do passado vivido.

Pierre Nora (1993) lembra que a memória é um fenômeno sempre


atual, um elo vivido no eterno presente (...) porque é afetiva e mágica, a memória
não se acomoda a detalhes que a conforta, ela se alimenta de lembranças vagas,
telescópicas, globais ou flutuantes, particulares ou simbólicas, sensível a todas as
transferências, cenas, censuras ou projeções (NORA, 1993, p. 9).

Trabalhar o couro e manuseá-lo com perfeição requer tempo,


habilidade e paciência. Não se especializa em um ofício rico em detalhes em
pouco tempo. Para o trançador, “o tempo é a melhor escola pra fazer bem feito”.
Juntar as tiras de couro e seguir a linha antes pensada é parte constituinte da
complexa arte de trançar.

Nos tempos atuais, os trabalhos feitos por trançadores foram


diminuídos, mas não acabaram. Os trançadores ainda são encontrados nos mais
diversos e distantes lugares do sertão mineiro operando sua cultura e reforçando
os valores adquiridos com seus ancestrais. A resistência às investidas da
modernização é reforçada constantemente. Mesmo competindo com a
industrialização de alguns produtos que são produzidos por eles, seus produtos
tem grande aceitação e a demanda, para surpresa de todos, aumentou com o
surgimento, consolidação e maior divulgação de esportes equestres no meio rural
norte mineiro. São novas portas que se abrem a uma categoria de trabalhadores
123

que se via ameaçada e marginalizada pela aceleração dos processos produtivos


criados e impostos pela vida moderna.

Os esportes equestres não são exclusivamente rurais. Tendo como


público potencial as pessoas que vivem na cidade e procuram no campo um lugar
onde possam reunir para divertir e apreciar as belezas naturais, coisas que a vida
na cidade nem sempre permite, partem para o campo e se organizam para
diversos passeios a cavalo. A chegada desses esportes ao meio rural,
principalmente o team penning, esporte equestre oriundo dos Estados Unidos que
consiste na separação de bois por cavaleiros e amazonas com tempo
cronometrado, várias pessoas que demonstram habilidade com os cavalos
tornaram-se grandes incentivadores e apoiadores do esporte. A partir disso, da
explosão dos esportes equestres no meio rural, aumentou de forma intensa a
procura por produtos de couro, a saber, selas, chicotes, laços, cabrestos e os
mais variados tipos de arreios para animal de sela.

A existência de novas formas de elaboração e processamento de


couros, como os industrializados, propiciou um desmantelamento das estruturas
que davam sustentação aos trabalhadores do couro. Não somente os trançadores
perceberam esse desmantelamento. Outros trabalhadores do couro como os
seleiros e sapateiros foram afetados pelo intenso e violento processo de
industrialização que abarrotou as prateleiras das lojas de produtos feitos com o
couro.

Esse processo de esfacelamento das atividades profissionais


vinculadas ao couro não foi suficiente para acabar de vez com os artistas do
couro. Espalhados pelo interior do Brasil, e, no nosso caso, nos lugares mais
recônditos do Norte de Minas, esses trabalhadores tentam cada vez mais
oxigenar o ofício que passou a ser sufocado pela industrialização. Nos diálogos a
seguir estabelecidos com o experiente trançador do Norte de Minas é possível
perceber os dissabores vividos e os anseios que relata quanto ao futuro.
124

Figura 19: Senhor Luiz Galdino


Fonte: LOPES, C.A.S. 2015

Como forma de compor um inventário social de ofícios tradicionais que


se encontram em processo de atualização frente à modernização do campo e a
consequente marginalização ou invisibilização dos trabalhares do couro que não
aparecem nas estatísticas oficiais, apresento aqui a trajetória social do trançador
Luiz Galdino da Silva.

Quem conhece o senhor Luiz Galdino o admira cada vez mais pela
simplicidade e paciência que explica e desenvolve seu trabalho. Sentado embaixo
de uma mangueira de aparência cinquentenária com uma exuberante sombra
onde estica seus couros e faz suas tranças, o experiente trançador relata
experiências vividas ao longo dos anos que desenvolveu a arte de trançar.

Os trançadores de couro do Norte de Minas ouvidos nesta pesquisa


informam que a necessidade vivida no dia a dia no passado os focou a aprender o
trabalho com o couro. Nas fazendas onde iniciaram os trabalhos sempre que
precisavam fazer um remendo ou confeccionar cordas e cabrestos nem sempre
era possível esperar o patrão aparecer para trazer o material necessitado. De um
couro de boi estendido em um paiol retiravam as tiras e, rusticamente, iniciavam a
125

confecção do objeto que serviria para uso imediato. Somente com passar do
tempo e o refino das habilidades constituídas é que esses profissionais passaram
a se afirmarem como trançadores de couro.

Eu aprendi sozinho. Eu mudei pra cá em 1958 e aqui aprendi


sozinho. Precisava de um pedaço de corda eu pegava um pedaço
de couro ali e trançava de quatro e de seis fios e por aí afora.
Tudo de couro cru. Olha, eu vou te contar, aqui mesmo eu fazia
muita coisa, mas depois que arruinei da coluna quase parei. Eu
fazia muita corda, açoiteira, trabuco, chicote, cabresto, fazia tudo.
Corda de relhos, de cinco metros, de dez metros, de acordo a
pessoa pedia eu fazia. Hoje ainda faço, mas a coluna me
atrapalha demais. Com esse negócio de coluna, de ficar sentado,
doía demais, e agora com esse negócio de problema nos rins tive
que parar (Luiz Galdino).

É evidente que com o passar do tempo o corpo de qualquer pessoa ou


trabalhador sente as consequências da repetição de movimentos. Ficar sentado
por horas raspando couro, tirando fitas e trançando torna-se cansativo com o
passar dos anos. Afetado por fortes dores na coluna o experiente trançador sente
falta de algumas coisas que fazia até bem pouco tempo. “Tem anos que não
monto a cavalo. Mesmo de carro não estou aguentando, tá doendo tudo”.

Autodidata no ofício que desenvolveu a vida inteira, o senhor Luiz


Galdino rememora um fato que, segundo ele, foi marcante em sua trajetória de
trançador de couro. O fato refere-se a uma visita que fez a um antigo trançador,
bem experiente e que era referência na região quando o assunto era objetos
trançados de couro.

Trata-se de um questionamento que recebeu quando ainda não estava


consolidada sua atuação como trançador e trabalhador do couro. Como informa o
experiente trançador, “ninguém nasce sabendo, tudo se aprende”. As tranças,
com seus detalhes quase imperceptíveis para olhares inexperientes e o
posicionamento dos fios de couro no objeto construído requer atenção. Talvez
esteja aí o grande segredo dos trançadores de couro.

Teve uma parte de uma trança que um homem me ensinou. Um


velho chamado Donato Rapadura, que era pai daquele Mané
Rapadura lá da Malhada. Eu trançava de um jeito. Eu cheguei lá
com um trabuco de seis fios e ele falou assim: tá faltando uma
bobagem de nada. Perguntei o que era. Ele falou: essa trança sua
tá boa, mas não é assim não, tá parecendo com a barriga de uma
cobra. Mas ai eu falei: então nós vamos ver como ‘nós trança’ a
126

barriga dessa cobra. Ele pegou uma palha de milho grande,


rasgou seis tiras e falou comigo assim: segura aqui que eu vou te
ensinar onde é que tá o erro. Eu segurei, ele trançou e depois me
falou: o jeito de trançar tá aqui. Aí eu falei, então rasga outra aí
que eu vou fazer. Ele rasgou outra e segurou. Eu trancei e daí ele
falou: uai, você já aprendeu? (Luiz Galdino)

Após o encontro com o velho Donato Rapadura o senhor Luiz Galdino


afirma nunca mais ter errado uma trança. Nos anos seguintes, diversos e variados
objetos foram construídos pelas habilidosas mãos do sertanejo. Objetos que
foram e que ainda são úteis para a vivência do homem do campo. Vale lembrar
que, se bem cuidado, os objetos feitos com couro costumam ter duração de vários
anos.

Os signos que compõem e regulam a vida no sertão são variados e


suas interpretações também são. Em todos os campos da vida, principalmente a
vida vivida no mundo rural, há uma cosmologia significativa que costuma
organizar e regular determinados tipos de ações dos homens. Seja na caça ou na
pesca, no plantio e colheita das lavouras, os entendimentos nativos sobre o
universo que os rege deve sempre ser respeitada.

Nas conversas com o senhor Luiz Galdino sobre os procedimentos


com o couro, este relatou-me importantes formas de entendimento da vida
sertaneja e que não são percebidas por pessoas externas a esse universo. Para
ele, há várias explicações para determinadas coisas que são feitas e vividas no
mundo rural e que devemos considerá-las caso queiramos ter sucesso naquilo
que desejamos e fazemos. Essa sabedoria local aliada a observações diárias
feitas ao longo dos anos permitiu ao meu interlocutor absorver elementos e
comportamentos tanto da natureza quanto do universo. Na fala a seguir, Luiz
Galdino mostra que a cosmologia vivida por eles são elementares no processo de
entendimento das formas de ações e reações dos objetos manuseados.

Não sei se você sabe, mas o couro de boi tem outra coisa: couro é
igual a madeira. A rês que é morta na lua forte o couro fica fraco.
Tem lua boa e lua ruim para matar gado. A lua que não é boa pra
isso, pros couros, é a lua nova. A lua governa a madeira e o couro
também. Por exemplo, se a lua for cheia hoje, amanhã você pode
pegar seu couro que é bom. Ele fica macio e fácil de mexer
Quando a lua é nova nem o couro nem a madeira ficam
prestando. Aqui nessa casa tem madeira branca que eu mandei
tirar na lua minguante e tá aí há não sei quantos anos. Mas se
127

você tirar na lua forte não leva tempo nenhum tá carunchada (Luiz
Galdino).

Figura 20: Luiz Galdino mostra dois objetos feitos por ele
Fonte: LOPES, C.A.S. 2015

Ao continuar sua demonstração dos conhecimentos cosmológicos e


também socioculturais o senhor Luiz Galdino partiu para a explicação dos tipos de
gado que fornecem um melhor couro para se trabalhar. Das muitas raças
zebuínas existentes na região o trançador foi categórico ao escolher seu tipo de
gado preferido para utilização do couro. “Sobre couro de gado, o curraleiro é o
melhor. É um couro mais macio, fácil de trabalhar”.

O gado curraleiro é conhecido por ser bom produtor de leite, ter uma
carne saborosa e possuir um couro macio, além de ser mais dócil e manso. Mas,
nos tempos atuais, após os intensos processos de melhoramento genético do
rebanho nacional e regional, o gado curraleiro foi diminuído drasticamente em
função das exigências do mercado de carnes que prefere o gado branco, de
preferência nelore, haja vista o tipo de carcaça e a precocidade na produção de
carnes. Este foi um dos fatores que influenciaram no processo de esvaziamento
das propriedades do gado curraleiro. Se antes esse tipo de gado foi o garantidor
128

de reserva de capital para os possuidores destes, agora, o gado curraleiro


raramente é encontrado.

A maciez do couro do gado curraleiro pode ser constatada a partir de


informações dadas pelo senhor Luiz Galdino quando do fazimento de cordas
torcidas. Para ele, as cordas torcidas são resistentes e de fácil confecção, não
exigindo muito trabalho do trançador, apenas força e saber trançar.

Há a corda somente torcida. Essa sim é uma corda forte. Pode


amarrar qualquer boi que não quebra. Essas cordas se fazem
quando o couro é muito grosso. Faz para aproveitar ele, pra não
jogar fora. Porque do couro você aproveita tudo, ou melhor, quase
tudo (Luiz Galdino).

Figura 21: Modelo de cordas torcidas


Fonte: LOPES, C.A.S. 2015

A intensidade da produção de artefatos de couro já foi maior. Em


tempos passados a demanda pelos produtos foi mais intensa, pois, a quantidade
de serviços no campo que dependia do trabalho braçal era maior. Com a
mecanização e a modernização das fazendas, vários tipos de trabalho foram
suprimidos pela agilidade das máquinas bem como a diminuição dos produtos
usados no campo como selas e arreios, além das coisas usadas nos transportes
feitos por carros de bois e carroças de burro.

Os relhos, um tipo de corda feita basicamente com as tiras de couro


sem trançar era bastante usado para amarrar cargas transportadas em carros de
boi e carroças. Mas a demanda por esse tipo de amarrador também diminuiu,
129

haja a vista o esvaziamento dos transportes em carro de boi. Sobre os relhos,


vejamos a afirmação do senhor Luiz Galdino.

Eram usados no serviço de carro de bois. Mas esse serviço


acabou também. Agora só tem carroção. Em todo canto tem um
carroção que é usado no serviço. Os carros de boi hoje em dia é
só pra fazer um enfeite. Não é fácil não. De vez em quando o
vizinho aqui, o Quinca vem aqui e fala assim: vai lá em casa pra
você fazer um serviço prá mim. Chego lá e pergunto o que é ele
responde: é procê cortar um couro, fazer uns relhos, fazer umas
brochas30, uns, tambueiros, canga, pra cabeçalho. Era pro carro
de boi dele.

Outro fator que contribuiu de forma significativa para diminuição da


demanda por cordas de couro cru foi o surgimento das cordas industrializadas de
nylon e seda. Para o trançador, hoje em dia ninguém procura pelas cordas de
couro pelo fato das cordas industrializadas serem mais duradouras e os preços
acessíveis. Além disso, há outros fatores que contribuíram para tal diminuição,
como afirma o próprio trançador.

A fazeção de corda de couro diminui sim, porque com esse


negócio de corda de nylon o povo parou com esse negócio de
corda de couro. A corda de couro é o seguinte, presta atenção:
porque a corda de couro se você deixar ela na chuva é ruim, ela
molha e não fica prestando. Se largar no chão, cachorro come.
Tem cachorro que não pode ver uma corda que come ela.
Conforme o lugar que você guardar os ratos comem, roem ela
toda. E a de nylon não. Você chegou, jogou ela no chão ou em
qualquer lugar, nada come e não tem perigo de molhar. Aí o povo
danou a comprar só corda de nylon e deixou de comprar de couro.
Mas hoje já tem também a corda de seda. Se você amarrar um
“trem brabo mesmo” ele não vai embora. É muito forte a corda de
seda. As fazendas hoje só usam ela. Além disso, ela fácil de
enrolar e amarrar na sela do cavalo. Pode ir pra qualquer lugar
com ela (Luiz Galdino).

Dos acessórios utilizados nos trabalhos do campo os mais utilizados


eram e ainda são os chicotes e os trabucos. No braço de cada pessoa que
utilizava o cavalo como trabalho sempre havia um trabuco ou chicote pendurado
no punho, senão, uma pirata. É acessório quase obrigatório para todos, pois,
além de assustar o cavalo com a chicotada, o mesmo era utilizado como objeto
de defesa diante de outros animais como cachorros e vacas paridas que sempre

30
Brochas, cangas e tambueiros são partes importantes do conjunto que envolve boi e carros. As
brochas são feitas de couro trançado e servem para amarar a canga no pescoço do boi. O
tambueiro faz parte da canga e é o local onde se amarra o carro na canga para ser puxado pelos
bois.
130

constituiu perigo para o vaqueiro. “O chicote é diferente do trabuco. A diferença


está no cabo, principalmente. O chicote tem o cabo trabalhado, bem tratado,
muito bonito” (Luiz Galdino).

Figura 22: O trabuco possui o cabo de madeira Figura 23: O chicote possui o cabo trançado
Fonte: LOPES, C.A.S. 2015 Fonte: LOPES, C.A.S. 2015

Antes de iniciar o processo de construção de qualquer objeto faz-se


necessária a preparação do couro, como informa o senhor Luiz Galdino.

Eu enrolo ele e coloco na água. Na hora que ele amolece eu tiro e


coloco para ensombrar. Hora que ele fica ensombrado já tá bom
pra trabalhar e para cortar fica maciinho. Mas se na hora de cortar
ele ainda tiver duro eu dou outra molhada nele e vou mexendo,
amarro uma correia num pau e vou amaciando, mexo daqui, dali,
até ele ficar no ponto que eu gosto (Luiz Galdino).

O trabalho de confeccionar chicotes e trabucos começa na preparação


do couro e na tirada das fitas ou tiras. É um processo demorado que começa,
como afirmado anteriormente, no recebimento do couro. A maciez deste, segundo
a cosmologia nativa, depende da fase da lua em que a rês foi morta.
Posteriormente, há o trabalho de esticar o couro e deixá-lo secar. Essa fase,
segundo o senhor Luiz Galdino, é das mais importantes, pois é no modo de
esticar o couro, de afincar os tornos e não deixar rugas grandes que se extraem
as tiras de boa qualidade.

Para ele, nos últimos tempos, mesmo com a diminuição dos trabalhos
no campo que exigem artefatos de couro, houve um aumento na procura por
chicotes e trabucos em função do fenômeno das cavalgadas na região e em todo
o Norte de Minas.
131

De um tempo pra cá aumentou a procura por um trabuco mais


trabalhado, com uma trança mais detalhada. Chicote é muito caro.
Precisa de muita trança, de argola, da muito trabalho pra fazer
porque o chicote tem que ser bem feito, bonito, porque ele fica
pendurado no braço. Quando você estende o braço para
cumprimentar alguém você já mostra seu chicote bonito. A gente
trança a pá dele, trança o cabo. É uma trabalheira só (Luiz
Galdino).

Ressalto aqui que o fazer o produto ou a arte é mais importante que o


valor mercantil dado a ela. Nesse caso, o valor venal é o que menos importa para
o trançador, haja vista que os produtos são vendidos por valores quase
simbólicos. Para os trançadores, o mais importante é fazer de sua arte um
estandarte de sua cultura. O saber fazer não tem preço. O reconhecimento e a
satisfação do comprar revigora o artista trançador do couro que não busca o lucro
em seus produtos, pois todos os trançadores possuem outras atividades que
garantem a renda sua e de sua família.

Perguntei ao meu interlocutor se com o passar dos anos e depois de


ter feitos milhares de peças deu para ganhar muito dinheiro com o ofício, recebi a
seguinte resposta:

Não deu para ganhar dinheiro porque eu faço é pra aproveitar as


horas vagas e porque eu gosto de fazer. Mas dinheiro não dá.
Quando eu fico muitos dias sem fazer um negócio desse eu fico
assim [...] sentindo aquela falta. Agora que eu não estou podendo
trabalhar na roça, um servicinho desse assim, uma corda, uma
pirata, um cabresto, um chicotezinho eu ainda faço. Mas não faço
pelo dinheiro. Um chicote eu vendo por uns 20 reais ele prontinho
(Luiz Galdino).

Há que compreender que a relação entre trançador e objetos


produzidos não passa necessariamente pelo dinheiro. Mais importante que o
dinheiro é a manutenção e divulgação de um saber fazer adquirido anteriormente
e que sobrevive diante das relações capitalistas de produção. Basta olhar para o
lado na casa simples onde mora que qualquer observador percebe o tipo de vida
vivida no ambiente. O conforto desfrutado pela família do trançador é resultado do
trabalho, mas não de vaidades vendidas no mercado e que são facilmente
adquiridas por pessoas que pretendem estar sempre inseridos e atualizados com
as benesses da modernidade.
132

Por outro lado, a cultura local vivida e revivida pelos portadores de


saberes e técnicas diferenciadas afirma cada vez mais diante da modernidade o
modo de vida baseado na simplicidade produzida pela vida no campo. Em todos
os aspectos da vida da família do senhor Luiz Galdino os traços da cultura são
reforçados. Na culinária baseada em produtos orgânicos produzidos na
propriedade bem como no consumo de carnes de porco e aves reforçam e
atestam um pertencimento a uma comunidade local que se afirma
constantemente como tradicional.

A partilha do território em que vive o trançador e sua família traz


imbricada em si laços de afetividade, solidariedade e reciprocidade que fazem
dessa gente importantes defensores da cultura do couro. Se no passado a
atividade pastoril predominou na região Norte de Minas, no presente, mesmo com
o esfacelamento das relações de trabalho no campo proporcionado pela
modernidade, ainda há focos de resistência cultural, como os trançadores da
comunidade rural de Capivara e de outras comunidades onde foram ouvidos
outros trançadores.

No caso dos trançadores, a manutenção do saber e a atualização


forçada pela emergência de novas formas de relações sociais, como as
vaquejadas e cavalgadas que se tornaram fenômenos na região deram fôlego aos
trançadores que pretendem continuar com sua arte. Tradição e modernidade,
juntas e articuladas, são fundamentais para a manutenção desse saber fazer que
se encontra ameaçado de extinção. O surgimento de um novo nicho de mercado
para os produtos de couro, além de tranquilizar os trançadores, também
preocupam, pois, nem todos os descendentes desses trançadores se interessam
pela continuidade do ofício.

No caso do senhor Luiz Galdino apenas um dos filhos, Manuel de


Jesus aprendeu a arte de trançar, mas a desenvolve somente vez ou outra, não a
tendo como fonte de renda constante. Para o experiente trançador aqui
apresentado, dos vários netos e bisnetos que possui nenhum deles se mostrou
interessado na arte. Ele demonstra tristeza quando perguntado sobre a relação
dos netos com as tranças e os couros. Nem os demais trabalhos da vida rural
133

foram capazes de segurá-los na propriedade da família, afirma o senhor Luiz


Galdino.

Tá tudo pra cidade estudando e trabalhando, seguiram outro


rumo. Nenhum dos netos quis mexer com isso. Hoje a pessoa
nova não quer roça. Só quer a cidade. Daqui mais uns tempos se
você caçar uma pessoa para encavar uma enxada aqui na roça
você não acha. O povo novo hoje não sabe de nada. Vai pra
cidade e não volta pra roça mais. Tantas vezes que eu cheguei na
cidade, na casa do povo meu e alguns amigos deles falam
assim...será que seu pai não pode encavar uma enxada pra mim?
Qualquer ferramenta eu encavo. Fala com ele que eu vou pagar
ele. Mas eu não vou cobrar por isso. Aqui na roça tem umas
pessoas que estão aí trabalhando, quebra um cabo de enxada e
eles correm aqui para eu ou um dos meninos encavar pra eles! É
uma vergonha (Luiz Galdino).

Os 86 anos de vida não impedem o senhor Luiz Galdino de trabalhar


na lavoura. As fortes dores na coluna aliadas às complicações renais relatadas
por ele não são capazes de segurá-lo em casa. É comum suas idas à beira do rio
para fazer pequenos trabalhos, seja consertar uma cerca ou mesmo capinar
pequenas partes das lavouras que os filhos plantam. Há, também, o cultivo de
horta familiar com diversas espécies de hortaliças.

As mudanças ocorridas no campo no Norte de Minas trouxeram


benefícios e facilidades para a vida humana, mas também proporcionou o
desmantelamento de estruturas sociais e produtivas que eram garantidoras da
permanência do homem no campo. Velocidade, agilidade e mobilidade são
algumas das mudanças que agora fazem parte da vida do sertanejo.

Para o senhor Luiz Galdino essas transformações ocorridas no campo


permitiram a instauração do desemprego no campo. Quantidade significativa de
pessoas migrou para a cidade a procura de novas formas de vida, pois no campo,
com a chegada da mecanização, o espaço destinado a eles na estrutura produtiva
e de trabalho foi dilacerada. A seguir, vejamos a análise do atual contexto em que
se encontra o homem do campo na atualidade. A análise feita pelo nativo traz
imbricada em si uma série de fatores e análises sociológicas que, trazidas à luz
de teorias sociais revela a atual situação vivida nos campos norte mineiros.

É difícil de acreditar, mas a tradição tá acabando. Poucas pessoas


tem interesse em dar sequência nisso. Você chega nas fazendas
e o carro de boi velho tá encostado, largado, abandonado. Até a
carroça de burro está sendo usada muito pouco. Os bois já foram
134

‘pro pau’ há muito tempo. A grade que os bois trabalhavam com


ela já está encostada, não aram mais a terra. Quando chegou o
trator acabou com tudo. Apareceu primeiro o trator, depois do
arador, que é o tombador antigo. Depois do tombador veio a meia
tomba, que era pra trabalhar com burro, porque era mais leve. Ai a
gente ensinava o burro trabalhar com a meia tomba, e a gente ia
atrás dele dentro da roça. Depois apareceu o trator com a grade
para arar. O cara chega com o trator e faz tudo. Ara, roça, limpa,
bate veneno. Chegou a motosserra. Hoje ninguém trabalha mais
de machado. A lenha é tirada e cortada de motosserra. Depois
apareceu o caminhão pra levar a boiada. O gado não anda mais a
pé, por isso vaqueiro não trabalha mais tocando boiada. Pra
limpar uma roça ou uma manga bate é veneno, não limpa de
enxada nem de foice. Antigamente, a gente colocava até dez
camaradas pra limpar uma roça e hoje não, acabou tudo. Tem
umas coisas que facilitaram demais a vida da gente. Quantas
vezes eu roçava essas pontas de mato cortando de foice os paus
finos e depois voltava de machado derrubando os mais grossos.
Até hoje eu passo a mão no machado e se precisar eu derrubo um
pau desses aí. Aí o povo fala, parece que derrubou foi de moto-
serra, porque eu era muito bom no machado. Hoje tem roçadeira
puxada no trator e tudo mais. Mas desempregou muita gente.
Depois estudaram o agrotóxico pra matar o mosquito do gado.
Tem veneno que mata o capim e o milho fica. Tem outro que mata
tudo e deixa o feijão. Agora repara, quando chegou aquela
bombona de veneno, imagina quantos trabalhadores de enxada
não ficaram sem serviço? Uma terra de feijão que iria pagar dez
camaradas de enxada se limpa num dia. Tá tudo mudado! (Luiz
Galdino).

Essas mudanças bruscas e intensas na vida do homem do campo bem


como nos modos de produção da vida apontam para as descontinuidades
afirmadas por Giddens (1991). O surgimento de um novo modelo de gestão das
coisas e da vida influenciada pela rapidez da vida moderna coloca em confronto
tradição e modernidade. Por um lado, a modernidade abriu caminhos para a
inclusão das gentes do campo no mundo fragmentado onde novas identidades
são afirmadas constantemente e, por outro lado, vista como sinônimo de atraso
por alguns nichos populacionais, a tradição cada vez mais ganha força num
cenário desafiador marcado por diferenças econômicas e sociais cada vez mais
acentuadas.

A percepção dos nativos acerca da necessidade de conservação e


preservação do seu universo de saber abre novas perspectivas. Para Zuzão,
trançador e filho de senhor Luiz Galdino, esse trabalho de inventariar saberes
135

para que seja mantida a essência de uma cultura ameaçada torna-se


fundamental.

Esse trabalho que você faz é importante demais. Aqui ninguém


nunca veio saber como a gente vive. E tem mais, essas coisas
que você tá vendo aqui tá tudo acabando. Vai chegar um tempo
que isso aqui vai existir só em fotografia ou na lembrança. Agora,
vejam bem, quantas famílias já sobreviveram desse tipo de
trabalho? Quantas famílias ainda guarda essa tradição? Tá
acabando. Pouca gente encara esse trabalho com couro. Seja por
conta do cheiro do couro ou por outras coisas, mas ninguém tá
querendo isso. Aqui mesmo só tem pai que faz isso. Ali nos Matos
(comunidade) tem umas pessoas que ainda faz um chicotinho e
um cabresto, mas é só isso. Tá difícil (Zuzão).

As afirmações do filho do senhor Luiz Galdino, Zuzão, vão ao encontro


das informações colhidas junto a outros trançadores de diferentes lugares do
Norte de Minas. Em todos os casos há uma intensa preocupação com o
desaparecimento do ofício devido a falta de interesse de pessoas jovens
interessadas em aprender tal ofício. Mesmo com a atualização deste ofício em
função da nova dinâmica vivida no campo proporcionada pelas atividades
esportivas rurais, poucas pessoas se interessam por aprender a trançar e dar
sequencia a um trabalho iniciado em tempos passados.

Lembro ao leitor, novamente, que a transmissão desses saberes e


fazeres que são entendidos como tradicionais, em sua maioria, acontece dentro
do núcleo familiar. Mas há casos relatados de pessoas de fora que se aproximam
do núcleo familiar detentor do saber para aprender e perpetuar tal ofício. Mas os
aprendizes que se mostram interessados são poucos. Raras exceções podem se
encontradas para fornecer depoimentos sobre o processo de aprendizagem do
saber fazer trançar. Na comunidade rural de Capivara a perpetuação do saber
fazer tradicional desenvolvido pelo senhor Luiz Galdino é passada adiante apenas
dentro do núcleo familiar. Essa é uma das preocupações do experiente trançador,
pois, após a sua vida aqui na terra há a incerteza sobre quem dará continuidade
ao trabalho.

Por fim, o que se pode perceber a partir dos diálogos estabelecidos


com o guardião do saber tradicional de trançar couros, senhor Luiz Galdino, é que
a continuidade do ofício depende constantemente da atualização dos novos
trançadores. Caso isso não aconteça, está fadado ao desaparecimento e
136

consequentemente decretado o fim dos artigos de couro trançado feitos no


campo. Isso não significa que não haverá mais produtos de couro trançado. Os
produtos industrializados continuarão inundando a vida das pessoas que
dependem e necessitam desses artigos de couro para desenvolverem suas
atividades, sejam esportivas ou laborais.

Independente de acabar ou não, as trajetórias dessas pessoas já foram


escritas na história. As linhas que separam homens e objetos são as mesmas
costuradas pela cultura que une homem e couro, homem e animal. Há, portanto,
um intenso processo de troca registrado no tempo que foi crucial para a
consolidação de uma cultura e sociedade moldada a partir da relação de
dependência do homem com couro. No Norte de Minas, nas chapadas sem fim e
nos vales suntuosos, a cultura do couro ainda permanece viva, mesmo com
tantas incertezas surgidas a partir da modernização do campo e da vida no
campo, as práticas cultivadas ao longo do tempo permanecerão e poderão ser
renovadas caso haja interesse, desejo e vontade de pessoas que se apresentem
como novos sujeitos de ação e da história.
137

CAPÍTULO V

SEM COMITIVA, SEM BERRANTE E SEM


BOIADA: A SINA DOS VAQUEIROS
NORTE MINEIROS
138

5.1 São Leandro como lugar da vida: vaqueiros e suas trajetórias

Figura 24: Vaqueiro tocando gado


Fonte: FREITAS, M.2014

Localizada às margens do rio Pacuí, importante afluente da margem


direita do rio São Francisco, a comunidade rural de São Leandro pertence ao
município de Coração de Jesus – MG. Teve e tem, atualmente, a atividade
agropastoril a base de sustentação das famílias que ocuparam e ocupam essa
comunidade. Os moradores locais informam que no passado a atividade pastoril
foi mais intensa na região, pois haviam fazendas voltadas exclusivamente para a
criação de gado e, nesse tempo, exigia-se uma demanda maior de vaqueiros para
tanger o gado e tocar as boiadas. Várias famílias tinham seus chefes como
vaqueiros e era através dessa atividade que conseguiam garantir sua reprodução
social e material. Hoje em dia outras atividades passaram a completar a vida
social na comunidade, principalmente o cultivo de hortas irrigadas.
139

Figura 25: Croqui da comunidade rural de São Leandro


Elaboração: LOPES, C.A.S . 2015
140

A comunidade de São Leandro está localizada na porção Norte do


município de Coração de Jesus. Vivem atualmente na comunidade vinte e sete
famílias que praticam diversas atividades que garantem a reprodução social e
material. Destaca-se na comunidade a agricultura familiar e a agroindústria de
rapaduras. Assim como a comunidade vizinha de Poço Verde, várias famílias
plantam tomates, pepinos, pimentões, jiló, abóbora e quiabo e vendem na feira de
hortifrutigranjeiros na cidade de Montes Claros todas as quartas-feiras.

A irrigação utilizada nas lavouras é do tipo mecanizada e utiliza a água


do rio Pacuí para tal finalidade. Mesmo em tempo de seca prolongada o milagroso
rio nunca secou e fornece água para irrigação das lavouras e para a
dessedentação de animais criados pelas famílias locais como gado bovino e
cavalos. Há, também, a pesca de pequenos peixes que servem de complemento
à dieta alimentar de algumas famílias.

São Leandro é uma comunidade acolhedora e é reconhecida pelas


pessoas de outras comunidades vizinhas como detentora de tal qualidade. O tipo
de organização social está baseado no parentesco, no compadrio e também na
irmandade fraterna, igreja evangélica e católica. Apresentando um alto nível de
coesão social, a comunidade de São Leandro se mostra sempre aberta ao outro,
ao novo, ao diferente, e traz em sua trajetória a luta pela melhoria da qualidade de
vida de cada família que vive no lugar. As relações sociais são reforçadas
cotidianamente com as comunidades vizinhas que também desenvolvem
atividades agropastoris. Há relações mais intensas com as comunidades de Poço
Verde, Gameleira, Malhada, Vacarias, Retiro, Mato Verde e Lapinha. Situadas no
alto das chapadas, essas comunidades vizinhas também desenvolvem a atividade
extrativista de frutas e pequi que servem tanto para completarem a dieta familiar
quanto para a venda em feiras de Montes Claros e Coração de Jesus.

A criação de gado na comunidade já foi mais intensa no passado e


atualmente se resume, para a maioria das famílias, como reserva de valor. Há
famílias que criam bastante gado de corte e outras criam vacas leiteiras que são
utilizadas para o fornecimento de leite para os filhos pequenos bem como para a
produção de queijos artesanais. Quase todas as famílias criam porcos para serem
utilizados na alimentação da família e também como reserva de valor.
141

Outra importante atividade desenvolvida pelas famílias da comunidade


de São Leandro é a criação de galinhas e frangos. Essas aves são utilizadas na
alimentação das famílias através do fornecimento de ovos e carnes. Há a venda
de ovos e frangos por pessoas que vão às cidades realizar as vendas, mas a
maioria utiliza essas galinhas para elaboração de saborosos pratos. Nas
chapadas praticam o extrativismo de frutas, ervas medicinais, lenha e mel. Mas o
tipo de coleta mais intensa é o pequi que é utilizado na culinária regional e
também é vendido em feiras livres tanto em Montes Claros quanto em Coração de
Jesus.

O município de Coração de Jesus de acordo com o Censo


Demográfico de 201031 possui uma população de 26.033 pessoas sendo que,
destas, 14.766 habitam a área urbana e 11.267 habitam a zona rural. O Censo
Agropecuário com estatísticas do ano de 2012 informa a existência de um
rebanho bovino composto por 74.900 animais. As principais atividades
econômicas do município estão concentradas no comércio local e também na
produção agropecuária oriunda de diversos distritos que compõem o município
como Luiz Pires de Minas, São Joaquim, Esporas e Ponte dos Ciganos.

Localizado em uma importante região criadora de gado no Norte de


Minas, o município de Coração de Jesus, com alguns distritos localizados na
bacia do rio Pacuí, sempre apresentou vocação agropecuária e suas gentes se
identificam com essa atividade. Seja na lida com o gado realizada pelos homens
ou no preparo dos derivados de leite, como queijos e requeijões realizados pelas
mulheres, a atividade pastoril foi determinante na consolidação das estruturas
sociais que balizam a vida humana nas beiradas do Pacuí. Essas gentes, com o
passar dos anos foram incorporando às atividades pastoris outras atividades que
passaram a ser complementares na vida da comunidade, conforme apontado
anteriormente, o cultivo de hortas familiares.

Conformando a identidade de sertanejos, os moradores dessa


comunidade constantemente afirmam sua identidade por meio das diversas
formas de pertencimento instituídas ao longo dos anos. As relações de
parentesco e de compadrio, bem como as fraternidades religiosas estabelecidas

31
http://cidades.ibge.gov.br/xtras/perfil.php?lang=&codmun=311880
142

na comunidade são formas de demarcar as fronteiras étnicas e religiosas


permitindo, dessa forma, estabelecer o pertencimento e também a exclusão de
membros da comunidade. Intimamente ligados ao ambiente composto pelo
cerrado e também por faixa de caatinga arbórea composta por árvores
caducifólias, a comunidade de São Leandro bem como as inúmeras comunidades
espalhadas pelo sertão mineiro tem sua atividade principal vinculada ao trabalho
agropastoril.

Inseridos num universo que para muitos parece distante do mundo


moderno – mas não é, pois a modernidade, com seus benefícios e malefícios está
presente na vida dessas pessoas – os sertanejos da beira do Pacuí vivem e
revivem fatos do passado que foram e que são constituintes e constitutivos do
atual modo de vida. Os modos de fazer e de saber adquiridos ancestralmente por
práticas pedagógicas localmente instituídas, como o olhar, aprender, repetir e
fazer sobreviveu aos anos e encontram-se na encruzilhada da modernidade.

Alguns moradores se mostram preocupados com o futuro,


principalmente com os saberes que estão prestes a desaparecer por falta de
interesse dos filhos mais jovens, haja vista as facilidades que a vida moderna
expressam em seu dia a dia. Essas são angústias locais, principalmente das
pessoas mais velhas que são donas de saberes e fazeres conhecidos como
tradicionais e que, para muitos, representa o atraso, a parte mais arcaica e
marginal do Brasil.

Isso para quem não compreende e nunca compreendeu o ethos e a


cosmologia sertaneja que informam um modo de vida simples formado pelas
relações sociais estabelecidas com parentes, compadres e amigos, mas sempre
aberto para o outro, para o novo, para o diferente, o que permite afirmarem-se
partícipes de todos os processos em curso, principalmente a modernidade tão
ilusória aos olhos de quem não conhece as gentes locais.

Para conhecermos melhor a vida dessa coletividade estabelecida no


médio Pacuí recorro a informações levantadas junto às pessoas nativas,
especificamente a partir da memória de antigos vaqueiros e carreiros para
desvelar alguns saberes e fazeres que foram cruciais no processo de reprodução
social na região. Esses vaqueiros e carreiros que percorreram o sertão tocando
143

boiadas e transportando cargas por locais quase intransitáveis sendo possível


apenas aos homens corajosos e destemidos enfrentar tamanho desafio. Como
informantes e portadores de saberes e fazeres necessários à reprodução da vida
na região, os vaqueiros fornecem informações que permitem lermos a gramática
social e cultural que predominou nos campos do Norte de Minas por várias
gerações.

Como qui analiso um ofício que está em processo de desaparecimento


ou de atualização nos tempos atuais, a memória dos informantes torna-se
importante mecanismo de acesso a um passado que foi marcado pelo trabalho
com o gado. Velhos vaqueiros podem ser compreendidos, também, a partir do
entendimento do trabalho de Ecléa Bosi (1998) sobre memórias de velhos. Essa
autora afirma a importância que os velhos têm não apenas para lembrar-se das
coisas, mas, de forma simbólica, reviver um passado que parece profundo, mas
que na verdade encontra-se na superfície da memória. É essa memória que abre
as portas para o entendimento de um saber fazer que, durante muitos anos ou
séculos foi ordenador e determinante das condições de vida que foram criadas no
interior do Brasil, especificamente no vale do São Francisco no Norte de Minas.

A partir do trabalho de Ecléa Bosi (1998) acerca das memórias de


velhos é possível compreender a partir de suas interpretações que as lembranças
do passado e seus desdobramentos são constitutivos do presente vivido. Essa
autora afirma que a pessoa madura deixa de ser um membro ativo na sociedade,
deixa de ser um propulsor da vida presente em seu grupo: neste momento de
velhice social resta-lhe, no entanto, uma função própria, a de lembrar. A de ser a
memória da família, do grupo, da instituição, da sociedade (BOSI, 1998, p.63).
Assim, a memória social de determinada coletividade quando acionada traz a tona
não somente coisas do passado, mas também um presente que se revigora a
partir do discurso.

Importante trabalho realizado por Maurice Halbwachs (2006) acerca da


memória coletiva e os de Ecléa Bosi (1998) sobre memória de velhos auxiliam no
processo de compreensão do passado dos vaqueiros do Norte de Minas que
percorreram o sertão levando gado e também abrindo caminhos para um
posterior progresso que viria num futuro breve a partir do aumento das
144

comunicações e abertura de estradas que permitiram a chegada dos caminhões


que levariam o gado e desmantelaria as estruturas fundantes da região criadas
pelos vaqueiros desde o tempo das bandeiras paulistas e dos criadores baianos.

Para Simone Silva (2009, p. 13), que analisou uma comunidade


ribeirinha do São Francisco, a memória deve ser entendida como um fenômeno
coletivo e ou social, como um fenômeno construído coletivamente e submetido a
flutuações, transformações, mudanças constantes, isto é, algo mutável. Se
destacarmos essa característica flutuante, mutável da memória tanto individual
quanto coletiva, devemos lembrar também que na memória existem
acontecimentos relativamente imutáveis. Não há uma obediência cronológica dos
fatos narrados fazendo da memória um importante instrumento de compreensão
da vida social de determinado grupo ou comunidade.

Conforme Emilia Pietrafesa de Godoi (1999) que desenvolveu estudo


acerca do trabalho e da memória em comunidades rurais do Piauí que tiveram
seus territórios pressionados, para guardar e permanecer em seus territórios a
coletividade estudada por ela passou a ativar uma memória coletiva. Para essa
autora, diante desses momentos de tensão interna a memória passa a atuar como
criadora de solidariedade, produtora de identidade e portadora de imaginário,
erigindo regras de pertencimento e exclusão que delimitam as fronteiras dos
grupos sociais (PIETRAFESA DE GODOI, 1999, p.15).

A partir da perspectiva apresentada pela autora acima, ao narrar o


passado os vaqueiros atualizam um saber-fazer que parece fadado ao
desaparecimento. Ao lembrar momentos vividos intensamente nas estradas do
sertão, os vaqueiros propiciam, via memória coletiva, uma emergente
compreensão da vida nas estradas do Norte de Minas. A arte de tocar boiada
transmitida de geração em geração, com o advento dos tempos modernos, com a
velocidade das comunicações e também dos deslocamentos caminha a passos
longos para o desaparecimento. Mas as lembranças dos portadores desses
ofícios permitem um “reviver” ou “uma volta ao passado” para atualizarmos esse
ofício. Não somente o ofício de vaqueiro, mas também de outros que tiveram e
tem no boi o seu esteio ou pilar, como os carreiros, os seleiros e também os
trançadores de couros.
145

A região norte mineira, bem como outras regiões do vale do São


Francisco viveu períodos intensos em sua história que foram conhecidos como a
época do couro ou período do couro. Nesses períodos, o gado desempenhou um
importante papel social na formação regional, seja para aquisição de carne para
consumo familiar ou como animais de carga utilizados nos mais diversos
trabalhos no campo, o boi foi e ainda é uma importante figura na vida do homem
sertanejo do Norte de Minas.

Diante da tarefa de compreensão dos papéis desempenhados tanto


pelo boi quanto pelos vaqueiros que os tangiam, descrevo e analiso a seguir a
trajetória de vaqueiros que tiveram suas vidas marcadas pelo trabalho com o
gado e, também, os desdobramentos resultantes do processo de modernização
do campo brasileiro onde houve um desmantelamento das estruturas sociais e
materiais a partir do momento que iniciou a diminuição dos trabalhos dos
vaqueiros, diminuição que é resultado da modernização das fazendas do Norte de
Minas. Esse processo de modernização ocorreu também em outras regiões do
Brasil, como afirma Silva (1999), e pode ser entendida como uma modernização
trágica, pois nesse processo de modernização houve a expropriação, a
exploração-dominação e a exclusão.

Para análise dos rumos que tomaram o ofício de vaqueiro recorro às


trajetórias dos vaqueiros aposentados, e que ainda atuam em suas propriedades,
Jorge Fonseca e Zé de Vita. Recolhidos em suas pequenas propriedades, hoje
em dia, esses vaqueiros guardadores de saberes herdado de seus antepassados
e também adquiridos ao longo da vida levam suas vidas na tranquilidade e
calmaria que a comunidade proporciona. Sob as sombras de generosas árvores
frutíferas quase centenárias, e tendo como companhia constante o canto de
diversos passarinhos que povoam essas árvores e quintais, esses guardiões de
um saber fazer diferenciado informam em suas trajetórias momentos de
felicidades e de tristezas, afinal, como lembra os personagens desse texto, “nem
só de alegrias e felicidades é feita a vida humana”.

Surpreendendo a mim, pois imaginava que quando estabelecesse


diálogo com esses vaqueiros iria provocar dores por induzi-los a voltarem ao
passado, os vaqueiros, orgulhosamente falaram do passado, da poeira da
146

estrada, dos acampamentos, das festas regadas a muita comida e bebida que
participaram em suas viagens pelo sertão. Acompanhadas por belas risadas, as
conversas com os vaqueiros propiciaram momentos quase festivos para eles, pois
a partir das lembranças do passado foi possível perceber em suas faces a alegria
que demonstravam por estar ali, diante de um curioso que mais perguntava que
falava e que estava disposto a registrar as conversas e fazer anotações sobre o
passado do outro.

O olhar atento e curioso dos velhos vaqueiros às minhas


argumentações acerca do passado deles me impressionou. Cada um pretendia
afirmar-se com mais robustez acerca do ofício que vivenciou a vida inteira. Ainda
apegados ao modo de vida tradicional, principalmente às viagens, os vaqueiros
relataram episódios marcantes da vida sertaneja mineira, aquela vida que foi
marcada pelo calor, pela poeira, pelo desejo de uma nova viagem, pois a cada
viagem uma nova história haveria para contar.

Ao narrar suas histórias desde a infância, os vaqueiros norte mineiros


traduzem um saber-fazer que é caro ao homem sertanejo: a habilidade com o
cavalo e com o gado. Estes formaram o esteio da vida rural no sertão mineiro e se
consolidaram como símbolo de uma sociedade que se afirmou como pastoril e
que, atualmente, se vê diante de novas formas de vida que os obriga a buscar
novas alternativas para se manterem no meio onde sempre viveram, o campo.
147

5.2 Fechando as porteiras: será o fim dos vaqueiros?

Figura 26: Boiada sendo tocada pelas estradas do sertão mineiro


Fonte: FREITAS, M. 2014.

Jorge Fonseca tem setenta e um anos e mora na comunidade rural de


São Leandro. Zé de Vita tem sessenta e sete anos e é vizinho de Jorge.
Companheiros por longos anos nos caminhos tortuosos do sertão, os dois
vaqueiros hoje aposentados do ofício tocaram incontáveis boiadas para grandes
criadores de gado da região. Como guardiões da memória dos vaqueiros eles
informam que “isso foi no tempo que as boiadas cobriam o céu do sertão de
poeira, o incenso do sertão”. Tangendo bois pelos sertões, os vaqueiros
representam a essência do homem sertanejo que habitou e habita o vale do São
Francisco mineiro. Esses vaqueiros têm em comum em suas trajetórias a partilha
do trabalho com o gado desde muito cedo.

O que é necessário para ser um vaqueiro? Coragem! Essa é a palavra


que descreve a vida de trabalhadores rurais que pegavam a estrada sobre o
lombo de cavalos, burros e mulas e se embrenhavam mata adentro campeando
gado. Vaqueiros! Tocadores de gado que enfrentam situações distintas na vida,
que esperam o tempo das águas para “botar o gado na estrada” a procura de
outros pastos. Amam a si mesmos e ao gado. É o gado que sustenta sua família,
148

pois do trabalho com o gado que advém os recursos financeiros para vestir e dar
de comer à família.

A história de vaqueiros sertanejos é permeada de situações que


ilustram o tipo de vida itinerante vivida. Vida errante. Não! Vida de luz, sob o sol
impiedoso do sertão e o incenso da poeira. É no calor do sol e debaixo da nuvem
de poeira que a boiada pega passo e segue sua sina / destino. Homens e bichos
se imbricam e a comitiva segue em frente. Travessia!

A cada viagem uma nova história para contar. Isto foi me afirmado
pelos vaqueiros ouvidos. A partida e o encontro com o desconhecido revigora a
sina dos vaqueiros que percorreram e percorrem o sertão. Afinal, sertão sem
vaqueiros não é sertão. Para os vaqueiros, a companhia das boiadas que partem
em direção ao desconhecido rompe com qualquer intempérie e insatisfação.
“Tocar boiada é cumprir a sina de quem nasceu para viver na estrada” (Jorge
Fonseca).

Fixado em um sitio rodeado por uma área pequena de mata virgem que
margeia um também pequeno córrego e pastagens cultivadas por ele, o velho
vaqueiro Jorge Fonseca esbanja vitalidade quando fala de sua vida e,
principalmente de seu passado. Dono de um humor fascinante, o vaqueiro Jorge,
como é conhecido localmente, traz no corpo as marcas de um passado de muita
lida nos campos do sertão mineiro.

Jorge não estudou. É um autodidata e é muito bem informado sobre as


“coisas da modernidade”. Vê os jornais televisivos em companhia de sua esposa
Dona Tucha diariamente. Entende de história e geografia e disse que ainda gosta
de ler de vez em quando. Com cabelos e barba branca e mãos já enrugadas pelo
tempo, Jorge mostra o seu recanto e apresenta a este pesquisador o universo
onde se esconde do barulho. Saudoso, mas muito contente com a vida que leva
nas beiradas do rio Pacuí, o sertanejo sorridente e sempre alegre convida-me
para uma roda de conversa, ou como ele prefere dizer, “vamos ter um dedinho de
prosa” sobre a vida. Afinal, “quem nasceu pra ser tatu morre cavacando” (Jorge
Fonseca).

Dono de um saber fazer reconhecido pelos moradores da comunidade


e também do município, Jorge é um afamado vaqueiro da região de Coração
149

Jesus. É casado e tem sete filhos, mas um é falecido há mais de dez anos.
Conhecedor dos caminhos do sertão, seja pelas bandas do rio São Francisco ou
mesmo pelas bandas do rio Verde Grande, Jorge afirma ter sido abençoado pela
vida que levou no passado e, principalmente pela vida que leva hoje em dia.
Criando seu gado nas terras que herdou quando se casou em 1966, o vaqueiro
sertanejo afirma ter tudo que precisa. “Hoje em dia, graças a Deus eu estou muito
bem. Mas já sofri demais, você vai ver quando a nossa conversa for andando”.

Inveterado tocador de boiadas pelo sertão, o vaqueiro apresenta-se


como um homem que já trabalhou demais. Criado de casa em casa, pois os pais
morreram muito cedo, o vaqueiro informa que começou a trabalhar desde os seis
anos de idade. “Quando eu tinha sete anos de idade eu já me sustentava”.
Nascido na Caiçara, uma localidade que fica próxima ao distrito de Brejinho,
também pertencente ao município de Coração de Jesus, o vaqueiro, desde
pequeno começou suas andanças pelo sertão. Criado por famílias diferentes,
formou seu caráter com o trabalho. Após ter trabalhado para várias famílias
quando ainda era uma criança, Jorge afirma,com sua simplicidade catrumana,
que já foi escravo.

Eu já fui escravo dessas famílias. Eu trabalhei demais,


porque naquela época não tinha esse negócio de menor de
idade não poder trabalhar. Não tinha esse negócio, a gente
tinha que ir pra lida logo cedo, senão não comia. Era
trabalhar pra comer, ou então morrer de fome. Eu fui criado
pela mão do povo. Naquele tempo não existia justiça. O
menor não tinha valor. Aí quando escapulia um menor o
povo passava a mão. Você sabe que era meio no tempo da
escravidão, colocava era pra trabalhar, porque hoje, o menor
não trabalha e nem pode trabalhar. O menor daquela época
(...) às vezes a pessoa falava assim, eu vou pegar esse
menino para criar. Muitas das vezes ele não pegava pra criar
e sim pra explorar. Aí colocava ele pra olhar arroz, pois o
povo plantava muito arroz naquela época. O menino não
aguentava trabalhar aí colocava ele pra vigiar arroz, depois
ele ia pra enxada, pra foice, pro machado. Aí ia amansar o
boi carreiro, fazer a guia dos bois, moer cana, fazer
rapadura, tinha que se virar, senão não tinha jeito (Jorge
Fonseca).

Quando se refere à escravidão, o vaqueiro Jorge com sua simplicidade


mistura a escravidão propriamente dita com o termo moderno exploração do
150

trabalho infantil. Por ter nascido num período onde a escravidão já tinha sido
abolida no Brasil, a fala do vaqueiro remete-se à exploração do trabalho infantil,
haja vista que o mesmo foi criado por várias famílias tendo que se submeter às
mais diversas situações para sobreviver, conforme atesta o mesmo. Mas, há que
considerar que, no interior do Brasil, durante muito tempo era comum às crianças,
principalmente os meninos, começarem a trabalhar bem cedo na propriedade da
família. Quando os pais não tinham condições necessárias de criar os filhos,
alguns recorriam aos padrinhos para “acabar de criar” seu filho. Esse padrinho,
em função do favor feito ao compadre, geralmente colocava o afilhado nos mais
diversos tipos de serviço, conforme pode ser afirmado a partir da fala anterior do
vaqueiro Jorge.

Os cavalos sempre despertaram os mais profundos e sensíveis


sentimentos em Jorge. Desde muito cedo Jorge informa que começou a montar a
cavalo, mas tudo começou por necessidade.

Eu acordava ainda de madrugada para ir no pasto pegar o cavalo.


Encarar o ‘aruvalho’ de madrugada não é pra qualquer um. Tinha
época do ano que o trem chegava encinzentar de frio. Mas tinha
que ir. E foi a minha vida inteirinha fazendo isso. Levantava de
madrugada, arreava o cavalo e saía para campear. Quando não
era na estrada era dentro das fazendas. Em todo o lugar que eu
fui criado foi mexendo com gado. Eu fui criado numas quatro
propriedades e a profissão minha sempre foi mexer com gado,
amansar boi, amansar burro, cavalo, égua, tudo isso eu já fiz.
Em suas memórias, que a cada dia parecem mais vivas, o vaqueiro
recorda com saudade do tempo que “corria o sertão”. Ao longo da conversa o
velho vaqueiro emocionou-se por diversas vezes e queixou-se dos tempos atuais,
do fim das estradas cavaleiras, da chegada do asfalto e dos caminhões e,
principalmente, da invasão das motos no campo. “Moto hoje virou praga por aqui
(Jorge Fonseca)”.

Jorge Fonseca aponta os percursos que por muitos anos fez tocando
boiadas com seus companheiros. O período narrado por ele foi marcante aqui no
Norte de Minas. Trata-se de um período subsequente ao processo de cercamento
das fazendas regionais que teve início na década de 1940, período este que
várias famílias vinculadas às elites norte mineiras cercaram grandes quantidades
de terra e passaram a afirmar como suas. Nisso, houve o cercamento de terras
151

que pertenciam a populações remanescentes de quilombo e que se viram


forçadas a abandonar suas terras e procurar outras em locais distantes de onde já
haviam constituído suas estruturas materiais e simbólicas. Esse foi um período
marcante na história do Norte de Minas, conforme pode ser percebido nos
trabalhos de Costa (2008).

Levar boi daqui pra Montes Claros eu levei demais para esses
Athayde. A gente passava com a boiada dentro da cidade. Só
tinha uma casinha dentro do bairro Major Prates quando a gente
levava gado lá. Isso foi na década de cinqüenta, sessenta e
setenta. De oitenta pra cá já foi entrando os caminhões
devagarzinho, já foi diminuindo o serviço dos vaqueiros. Hoje você
vê que não dá mais pra levar um gado a cavalo em Montes
Claros. Hoje, daqui pra Coração de Jesus o gado já é conduzido
de carro. Era na década de 60, eu lembro que eu busquei uma
boiada para Ildeu Athayde no Rio Verde. Em 1966 nós trouxemos
ela do Rio Verde pra cá e depois nós fomos levar uma daqui pra
Montes Claros. A de lá trouxe boi pra pasto e daqui levou boi pro
abate. Eu lembro que nós passamos em Antonio Augusto
Athayde, dormimos lá com a boiada. A que nós pegamos no Rio
Verde, era perto de Capitão Enéas. A fazenda chamava
Camará...e pegamos uma parte na fazenda das Garças, pegamos
135 bois. Hoje tem a estrada da produção e nós entramos na
estrada de Santa Rosa de Lima e viemos. Chegamos aqui e
fomos pegar uma pra levar pra Montes Claros. Pegamos em
Antônio Augusto Athayde. Ele chegou lá de tarde e daí ele
arrumou a manga com o irmão dele, Ildeu, pra nós colocar a
boiada, mas tinha uma travessia de uma barroca e ele não queria
que o gado atravessasse pro outro lado, daí teve que dormir dois
peões dentro da barroca pro gado não atravessar pro outro lado
(Jorge Fonseca).
As boiadas por muitos anos foram vistas fazendo poeira no sertão
mineiro. As comitivas a cavalo com seus aboios e outros apetrechos colocavam o
gado na estrada e seguiam viagem. Para as viagens os vaqueiros equipavam-se
com suas roupas preparadas para enfrentar os desafios que poderiam ser
encontrados nas estradas, principalmente quando um boi deixava a estrada e se
embrenhava nas matas sujas e espinhentas. Para isso, cada vaqueiro tinha sua
roupa preparada com couro de boi cru e também outros apetrechos que
formavam o arreio do animal. As vestimentas eram preparadas tanto para o
vaqueiro quanto para o animal com a finalidade de protegê-los de espinhos ou
mesmo de chifradas de bois bravos32.

32
As roupas usadas pelos vaqueiros tanto nordestinos quanto norte mineiros são iguais em função
da vegetação ser bastante parecida. Usavam-se gibões, perneiras, luvas e chapéus. Os gibões
152

Para o cavalo era construído um peitoral de couro cru ou guarda peito,


como é conhecido localmente, e este era colocado bem na frente do mesmo, na
altura do peito. Dessa forma, caso algum animal bravo avançasse de frente sobre
o cavalo para atacá-lo este já estava protegido da chifrada. Foram relatados
casos de cavalos atingidos no peito e mortos por chifradas de bois. O uso do
peitoral era obrigatório quando o trajeto a ser percorrido já era conhecido pela
densidade e perigo das matas existentes pelo caminho. O vaqueiro Jorge informa
que já viu “companheiro acabar a viagem a pé porque o cavalo dele foi morto por
uma chifrada de boi”.

Os apetrechos que compunham a vestimenta de um vaqueiro do Norte


de Minas são os mesmos utilizados pelos vaqueiros nordestinos e que foram
descritos por Luis da Câmara Cascudo (1976) no estudo das vaquejadas
nordestinas. José Alípio Goulart (1966) também descreve magistralmente as
indumentárias e vestimentas dos vaqueiros nordestinos que enfrentavam as
caatingas para “pegar bois”. As semelhanças nas vestimentas entre vaqueiros
dessas duas regiões, a norte mineira e a nordestina têm como origem comum no
Brasil o trabalho com o gado nas fazendas durante o período colonial brasileiro,
mas essas vestes têm suas origens iniciais nas lides pastoris de Portugal33, como
afirma Goulart (1966). Com uma vegetação hostil à sua frente, o vaqueiro
nordestino desenvolveu uma vestimenta diferenciada com a finalidade de protegê-
lo dos espinhos da caatinga arbustiva nordestina formada por árvores baixas e
espinhentas, traiçoeiras e fatais a um despercebido ou iniciante no ofício.

Para Goulart (1966, p. 66) é na vestia do vaqueiro, notadamente


aqueles das áridas regiões sertanejas nordestinas, dos carrascais e das caatingas
dos caminhos pedregulhados, das estradas cegantes de poeira e de luz, que, no
Brasil, o couro mais se destacou no particular da indumentária. Essas
indumentárias, cuja finalidade era a defesa contra as intempéries e as agressões
do meio tornaram-se indispensáveis aos vaqueiros das regiões pastoris

são como jaquetas de couro e são bastante resistentes a espinhos e arames. As perneiras são
postas sobre as calças do vaqueiro para protegê-lo e também suas roupas. As luvas evitavam
calos e espinhos e o chapéu aliviava parte do sol sobre o rosto do vaqueiro.
33
Luiz Chaves (1943), ao analisar as vestimentas dos vaqueiros portugueses dos séculos XVII e
XVIII faz a seguinte observação: “o vestuário dessa gente é a utilização inteligente dos recursos
do homem (gado) contra as intempéries e contra o mato, no seu habitat, a sós com o gado.
153

brasileiras. Para esse autor, não é possível dizer exatamente a época em que
essas vestes foram introduzidas no Brasil. O certo é que essa indumentária
tornou-se característica das populações ligadas não só à vida como ao meio
pastoril sertanejo, fossem vaqueiros, passadores de gado, criadores ou tropeiros.

Se compararmos as vestimentas da época colonial com as do final do


século XX pode-se afirmar que elas não sofreram muitas alterações. Essa
também é a afirmação de Goulart acerca dos vaqueiros do Nordeste. As
mudanças, se ocorreram, foram mínimas e quase que imperceptíveis. Herman
Lima (1958), ao relembrar fatos do passado dos vaqueiros de sua terra natal
lembra que:

três séculos depois, são ainda de couro, na maioria, os ainda


toscos utensílios de sua moradia pobre, é de couro ainda que êle
se veste para a faina do campo, que é aqui a violação do mato
obrigando-o como um cavaleiro medieval tardio, a conservar a
rude armadura de couro (LIMA, 1958, p.74, citado por GOULART,
1966, p.69).
Henry Koster (1942) ao se deparar com um vaqueiro nordestino em
meados do século XIX descreu a vestimenta que cobria o seu corpo da seguinte
maneira:

Sua roupa consistia em grandes calções ou polainas de couro


taninado, mas não preparado, de côr suja de ferrugem, amarrados
da cinta e por baixo víamos as ceroulas de algodoes onde o couro
não protegia. Sobre o peito havia uma pele de cabrito ligada para
traz com quatro tiras, e uma jaqueta, também feita de couro, tinha
a fôrma muito baixa e com as abas curtas. Tinha calçado os
chinelos da mesma cor e as esporas de ferro eram sustidas nos
seus pés nus por umas correias que prendiam os chinelos e as
esporas (KOSTER, 1942, p.33).
A partir das descrições das indumentárias dos vaqueiros nordestinos
de séculos atrás é possível, assim como afirma Goulart (1966) em meados do
século XX, que as vestimentas dos vaqueiros norte mineiros praticamente se
mantiveram como as de antigamente. Esse conjunto de acessórios que compõem
a “armadura” do vaqueiro ainda pode ser facilmente encontrado nos locais onde
os vaqueiros ainda podem desenvolver seu trabalho sem a interferência das
“coisas modernas” como o caminhão boiadeiro.

Essas indumentárias para o trabalho diário com o gado eram e ainda


são compostas por acessórios diversos como o chapéu, o peitoral, o gibão, as
154

perneiras, as alpercatas, luvas, chicotes, bainhas e esporas. O chapéu é


preferencialmente construído de couro macio, sendo possível “quebrar sua aba”.
A quebra ou não da aba do chapéu varia de região para região. Diferente do
chapéu do vaqueiro nordestino cuja aba é quebrada para cima, os chapéus dos
vaqueiros do Norte de Minas raramente tem suas abas quebradas e possui uma
alça de couro que permite prendê-lo junto ao queixo para que não caia durante
uma perseguição a alguma rês. No Nordeste brasileiro essas alças são
conhecidas como barbicacho conforme mostra Goulart (1966), mas no Norte de
Minas são conhecidas regionalmente como barbelas.

O gibão é um casaco de couro cru curto com mangas compridas e não


possui gola. Pensado e elaborado para proteger os membros superiores do
vaqueiro contra espinhos e também ataques de cobras que costumam se
esconder sobre as árvores. Goulart (1966) lembra que no Nordeste, fora dos
trabalhos com o gado o vaqueiro costuma trazê-lo jogado displicentemente ao
ombro. As perneiras cobrem da virilha até os pés do vaqueiro. Protegem os
membros inferiores deixando livres as nádegas. As alpercatas são localmente
conhecidas como precatas. É um calçado forte e resistente, constituído de uma
sola de couro grossa tendo tiras cruzadas em X que as firmam nos pés. Algumas
costumam ser presas nos calcanhares por fivelas. Goulart (1966) lembra que
Henry Koster (1942) um viajante estrangeiro – assim como outros que
percorreram o Brasil no século XIX e construíram uma visão preconceituosa dos
homens do interior – que se refugiou em Pernambuco no século XIX para
tratamento de saúde referia-se às alpercatas como sendo “pedaços de couro de
uma dimensão pouco maior que a sola dos pés das pessoas. Eram presas por
duas correias. São as sandálias dos brasileiros que residem longe das cidades”.

O chicote é um instrumento indispensável na lida com o gado.


Confeccionado localmente com tiras de couros trançados e presas a um pedaço
de madeira lisa, os chicotes costumam “estalarem” quando utilizados. Um bom
chicote permite ao vaqueiro utilizá-lo tanto no animal que está montado quanto
para agredir um boi em fuga. As luvas de couro são confeccionadas sem dedos,
apenas o polegar é mantido permitindo o vaqueiro não perder a sensação tátil.
São utilizadas como proteção contras as queimaduras provocadas pelas cordas e
155

também como proteção contra espinhos. As bainhas são utilizadas para guardar o
facão. Geralmente os vaqueiros utilizam o facão em suas jornadas para, caso
necessite, desgalhar arvores, descascar fruta ou pedaço de cana para matar sua
sede. É utilizado também para defesa pessoal, caso necessite. As esporas
constituem um importante acessório para a lida com o gado. Indispensável para
um vaqueiro que se mostra astuto, as esporas, com o passar do tempo, teve seu
papel aumentado. Sem ela, com suas rosetas arredondadas, o vaqueiro não pode
controlar a agilidade do cavalo. Utilizada para furar o animal e despertá-lo para
um arranque brusco e rápido, as esporas com seu tilintar fino arremata a
vestimenta dos vaqueiros.

Depois de preparadas as vestimentas e arreados os animais, os


vaqueiros que irão tocar a boiada se preparam para pegar a estrada. O vaqueiro
Jorge informa que “as saídas acontecem sempre de manhãzinha,
preferencialmente antes de o sol sair, pois assim o “gado pega passo” mais fácil
sem aquele calorão logo cedo”. Assim, a comitiva formada por vaqueiros e o
cozinheiro, que sempre vai à frente do gado, pega o rumo da estrada para mais
uma jornada de trabalho.

Normalmente, há uma data pré-estabelecida para entrega do gado,


mas nem sempre era possível cumprir esta data, pois poderia ocorrer algum
atraso na viagem. Era regra entre os integrantes da comitiva dar o máximo de si
para cumprirem o tempo estabelecido. Jorge lembra que quando sua comitiva
saía da região de Coração de Jesus tocando gado para os frigoríficos de Montes
Claros a viagem durava até três marchas34. Nessas viagens, o ritmo do gado
deveria ser respeitado para evitar que algum animal cansasse e ficasse pelo
caminho. Há casos de animais serem deixados para trás e, quando a comitiva
passava pela fazenda onde o animal ficou, este era novamente colocado na
estrada. Sem contar os casos de animais de “ribada35” que era recorrente nas
boiadas.

A ribada” é o boi que vai embora e você não vê. Por exemplo,
você sai com uma boiada aqui, aí você vai passar numa fazenda

34
Cada marcha representa um dia de viagem.
35
Categoria êmica recorrente entre os vaqueiros do Norte de Minas para designar o animal que
saía da boiada e entrava no mato. Boi de ribada, garrote de ribada, bezerro de ribada. Refere-se
ao animal indisciplinado, velhaco, roceiro, arisco, difícil de tocar em bando.
156

grande demais e suja, aí você facilita. A boiada é muito grande e o


boi fica pra traz. Quando você sai daquela fazenda pra outra aí
tinha uma pessoa autorizada a contar o gado. Sempre tinha o
contador. Nem todo mundo dá conta de contar uma boiada de 250
bois. Quando ele contava e faltava um boi aí um vaqueiro tinha
que voltar para caçar o boi. E muitas vezes se tivesse jeito rodava
o gado até o vaqueiro recuperar o boi que foi embora. E se não
tivesse jeito a boiada seguia em frente e você tinha que trazer o
boi até onde você alcançasse a boiada. Isso era chamado de
ribada. Geralmente achava o boi. Se ficasse pra traz, aí quando
localizava ele, quando viesse outra boiada a gente passava e
pegava. O dono do gado entrava em contato com o dono da
fazenda e ele avisava: o boi tá aqui. As vezes demorava dois ou
três meses, mas quando passava uma boiada do mesmo dono a
gente colocava ele no meio. E se não achasse de jeito nenhum aí
era o dono da boiada que ficava no prejuízo. Mas isso era difícil
de acontecer.
Aqui há que se fazer uma consideração importante entre duas
categorias que parecem se confundir, mas no Norte de Minas são distintas.
Refiro-me às categorias de vaqueiro e boiadeiro. Essa distinção foi descrita pelo
vaqueiro Zé de Vita que por muitos anos foi companheiro de Jorge Fonseca nas
andanças pelo sertão. Em algumas regiões do Brasil, essas categorias se
misturam e expressam o mesmo significado informando a existência de pessoas
que lidam com gado.

Mas, no Norte de Minas há dois significados distintos, porém, ambos


também se referem a pessoas que tem no gado sua fonte de recursos para a
sobrevivência ou lucro. Por vaqueiro compreende-se aquela pessoa que trabalha
com o gado, que tem a lida diária envolvida com os animais. Aquele que é
responsável pelos animais, por todo tipo de trato. Especificamente remete-se ao
trabalhador, ao empregado. Já por boiadeiro entende-se como o proprietário do
gado, o comprador, o dono da boiada, por fim, o patrão. Essa distinção faz-se
importante por facilitar a compreensão da posição que os sujeitos aqui descritos
ocupavam e ocupam no cenário regional que tinha o gado como figura central.

Essas distinções permitem compreendermos as posições ocupadas por


cada um na arena do trabalho. As relações entre vaqueiros e boiadeiros sempre
foram marcadas pela categoria trabalho e envolvia na maioria dos casos não
apenas os homens, os vaqueiros, mas também as famílias destes que muitas
vezes trabalhavam e moravam na propriedade do patrão. Eram agregados nas
fazendas e tinham como obrigação o trabalho diário dividindo ou não a produção
157

do que cultivavam. Mas nem todos os vaqueiros tinham esse tipo de relação.
Alguns eram autônomos e atuavam como diaristas para os boiadeiros recebendo
por cada dia trabalhado.

Eduardo Ribeiro (2003, p. 6) ao discutir as relações entre agregados e


fazendeiros no mundo rural afirma que, embora a agregação seja um sistema
quase desaparecido no final do século XX, sua influência e traços continuam a ser
marcantes. A tradição fazendeira é baseada em autonomia produtiva,
independência política da fazenda e força pessoal. Num mundo rural que se
acreditava agreste e adverso, a glória da fazenda foi dominar a mata, e a glória do
fazendeiro foi usufruir deste domínio e, por meio do domínio da terra, subordinar
outros homens. (...) O começo da destruição da relação de agregação ocorreu
entre as décadas de 1950/1970. Sua decadência é indicadora, junto com outros
indicadores, do conjunto de transformações que aconteceram no mundo rural. É
sinal do desaparecimento das reciprocidades que ligavam fazendeiro e
trabalhador, sinal de desagregação de relações costumeiras de troca, produção,
uso da terra e de sistemas agrários. Associa-se ao esgotamento dos recursos
naturais e às modificações do mercado nacional de trabalho.

Nas andanças pelo sertão mineiro, os vaqueiros sempre traziam uma


história para ser contada posteriormente. Se passado e presente se imbricam no
cotidiano dos tocadores de gado do sertão, as lembranças a cada dia parecem
mais vivas. É como se o passado voltasse à tona, sempre. O vaqueiro Jorge
lembra constantemente passagens de sua vida mesmo em momentos que
deveriam ser de descanso: “até hoje eu sonho que estou tocando gado. De vez
em quando eu acordo fazendo aboio e minha mulher pergunta se eu estou
endoidando”. Essas coisas são recorrentes na memória dos vaqueiros, pois no
sertão, boi, boiada, boiadeiros e vaqueiros se misturam e tornam o viver diário
cada vez mais intenso. Quando se tenta dissociar um do outro aparece sempre
uma contradição. São esses marcadores que tornam o ofício de vaqueiro mais
que uma profissão. “É uma paixão, um estilo de vida”, afirma o vaqueiro Jorge
Fonseca.

Na região Norte de Minas bem como todas as regiões do Brasil durante


os séculos anteriores ao XX, mas também durante o século XX, as posições que
158

patrão e empregado ocupavam eram claramente definidas. No trabalho com o


gado, por se tratar de uma atividade rústica, alguns fazendeiros donos de
boiadas, por serem brancos, letrados, proprietários e bem nutridos utilizavam-se
da posição econômica e social que ocupavam para demonstrar superioridade em
relação aos demais, principalmente os trabalhadores. Aqui, o vaqueiro Jorge
recorda uma passagem em sua vida de vaqueiro um caso que vivenciou com o
um senhor latifundiário que se julgava superior. Reconhecidamente arrogante
pelas pessoas que o conheceu, este fazendeiro representou durante sua vida o
típico senhor de escravos.

Trata-se de uma festa onde o fazendeiro seria homenageado por seus


“feitos” por outros fazendeiros. Mas os vaqueiros estavam presentes e um deles
deveria representar o patrão. Vejamos o motivo:

Tinha uma festa no Calhau e Antonio Augusto Athayde não


gostava de gente simples. Na verdade ele não gostava de pobre
nem de preto. Onde tinha gente fraca pra ele não fazia diferença,
ele não aparecia. E aqui o encarregado dele, um tal Zé Luiz Preto
sabia dirigir e ele chamou nós. Ele chegou no lugar onde a gente
tava arranchado com a boiada. Ele (Antonio Augusto Athayde)
chamou o Zé Luiz Preto e falou: eu quero que você vá ali fazer
uma apresentação pra mim. E tinha outro camarada dele que
morava lá na frente: é pra você pegar esse carro, passar na casa
de João de Lázaro e pegar ele. Você vai dirigir só até João de
Lázaro. De lá prá lá quem vai dirigir é João de Lázaro, e você
pode levar dois peões desses com você. E aí o Zé Luiz perguntou
quem queria ir. Um queria, outro não queria, aí eu disse assim....o
homem só tratava os caras muito grosseiramente, porque naquele
tempo quem trabalhava não tinha muito valor, e o Antonio Augusto
era muito chucro, bruto demais, não gostava de preto e nem de
pobre. Ele é era filho de Antonio Athayde. O João Alencar era
irmão de Antônio Augusto. Mas o Antônio Athaíde casou e a
mulher ganhou o João e morreu no parto. E aí criaram o João
Athayde e o Antônio tornou se casar e daí nasceu cinco ou seis
filhos e depois que veio o Antônio Augusto. E eu toda vida sempre
fui muito oferecido... era uma festa, tinha muito churrasco, muito
gole...e daí outro vaqueiro falou: se Jorge for eu vou também. E
ele ficou lá. Na hora de montar no carro, eu lembro como se fosse
hoje moço, era um pick-up Willys, zerinha, nem placa tinha. Ele
mandou o Zé Luiz montar no carro e falou assim: os dois peões
você leva na carroceria. Ele tinha chegado com a mulher e dois
filhos. Aqueles meninos eram dois pivetes, chegava com laço e
iam laçar bode pra lá. Ele falou pra Zé Luiz que era pros peões
irem em cima, na carroceria. Como ele tinha chegado com a
mulher e os dois filhos... decerto pra gente não sentar lá porque o
orgulho era demais, e carro naquele tempo era difícil...pra você
montar num carro...você tinha vontade de montar num carro mas
159

não conseguia porque naquele tempo não existia o carro na


região. Isso foi em 1966. Aí eu peguei e montei no carro, mas ele
já veio de lá pra cá e marcou o lugar de pisar: você não sobe no
carro aqui do lado que você vai estragar a pintura de meu carro. O
carro tinha um estrivozinho assim no para-choque. Aí o outro
também montou. Aí passamos no João de Lázaro. Naquele tempo
o que falava era ordem. O João de Lázaro falou: você que já veio
dirigindo você pode continuar até o Calhau. Aí o João de Lázaro
falou: se quiser passar um aqui pra cabine pode passar. Eu falei:
sou eu. E lá o trem foi bão! A festa era no calhau, perto de são
João da Vereda... fica ali perto, pertinho de Montes Claros, entre
Coração de Jesus e Montes Claros, saída do posto Barral. Ali
você entra. Teve uma palestra e esse João de Lázaro subiu no
palanque no lugar do Antônio Augusto Ataíde e quando ele
desapeou e chamou lá pro churrasco que a coisa foi boa. Os
camaradas de Antônio Augusto faziam parte do churrasco, e era
nós. Aí nós fomos a linha de frente. Aí agora nós falamos: daqui
nós não saímos. E foi carne, frango, cerveja e o trem correu solto.
No outro dia nós arrancamos com a boiada, era pra dormir na
fazenda de Antônio Augusto que tinha no carrapato. Aí a gente
passava no major Prates, saía ali naquele posto, no bairro Morada
do Parque, saía ali na serra, bem no fundo do Parque Municipal e
aí passava no Major Prates e voltava por traz do parque, atrás da
BR que vai pra Belo Horizonte. Ali tinha uma fazenda de nome
Pau Preto. Passava com a boiada ali e descia, entrava no bairro
Santa Rita e entrava dentro da cidade. Levava o gado na balança
que tinha no Alto São João. Lá só pesava o gado. O gado que era
abatido na cidade eles pesavam e levavam pro frigorífico. E a
maioria das boiadas, como as de Antônio Augusto que eram
boiadas grandes e boas elas eram apanhadas no trem de ferro,
porque não tinha caminhão, não tinha os caminhões gaiolas, os
trans-bois. Tinha os trens boiadeiros que vinha de Belo Horizonte.
Aí pesava e enchia os trens e esse trem sumia aí no mundo. Aí a
gente voltava. Pesava, entregava e vinha embora a cavalo até
chegar aqui na beira do Pacuí (Jorge Fonseca).
Jorge afirma que a vida no Norte de Minas nunca foi fácil,
principalmente para quem dependia exclusivamente do seu esforço para se
reproduzir social e materialmente. Com um sol inclemente que predomina
praticamente o ano inteiro e com temperaturas que beiram os 40 graus, a vida
parece ser mais sofrida por aqui que em outros cantos do país. Mas as virtudes
dos homens do sertão são maiores que as dificuldades e estes fazem do lugar um
paraíso. Os vaqueiros são símbolos da sociedade pastoril que se formou no Norte
de Minas e estes recordam os tempos da juventude onde coragem e disposição
abundavam.

As andanças e correrias pelo sertão sejam do lado de lá ou de cá do rio


São Francisco já foi magistralmente registrada, mesmo que ficcionalmente, por
160

João Guimarães Rosa na obra Grande Sertão: Veredas. Nela, vaqueiros e


jagunços se misturam e constroem o Norte de Minas como sertão e, como tal,
uma metáfora da nação brasileira onde a luta pela vida baseada na violência,
margeada sempre pela paixão pelo lugar, fazem do mesmo um Éden aqui na
terra, ou o inferno, dependendo sempre de quem se posiciona para falar do lugar.
Nessa arena, homens livres e jagunços, com o auxílio dos espíritos, percorriam o
sertão ouvindo os berros de bois que ocupavam os “fazendões de fazendas” aqui
existentes. Para Guimarães Rosa, e também para os vaqueiros, não somente as
beiradas do rio Urucuia, mas todo o Norte de Minas, “é lugar onde tanto boi
berra”.

Há que considerar que na obra de Guimarães Rosa os vaqueiros e


jagunços dialogam o tempo todo tornando perceptível o tipo de sociedade que
aqui existia: a pastoril. Os campeios, a expansão de fazendas, o desejo de
explorar e dominar faz parte de um discurso surgido nos primórdios da ocupação
norte mineira feita por bandeiras paulistas. Essa necessidade de expansão e
também de justiça social permeou a obra roseana aqui citada. As guerras entre
jagunços e fazendeiros são posteriores. Há que considerar que aqui a guerra
sempre existiu. A utilização da guerra foi a primeira forma de territorialização do
Norte de Minas. A guerra contra os índios que ocupavam o vale do São Francisco
e que foram dizimados para a implantação de fazendas e, consequentemente, a
preferência pelo gado ao ser humano.

E é a partir do berrar do boi que muitos homens se fizeram ricos e


também exploradores de mão de obra na região. Nessa disputa, os vaqueiros
emergiram como elementares no processo de expansão da pecuária bovina
desde o encontro de bandeirantes paulistas com criadores de gado baianos que
subiram o rio São Francisco para estabelecimento de fazendas criatórias ou
gadeiras. Desse encontro que se originou a sociedade pastoril norte mineira que
até hoje se vê, mesmo que de forma diminuída, ainda amarrada ao boi.

Sob a poeira vermelha dos estradões que cortavam tanto a parte de cá


quanto a de lá do rio São Francisco, os vaqueiros aqui ouvidos saiam para
cumprir suas jornadas com suas comitivas sem dia certo de voltar para casa.
Certo mesmo era o dia de saída da boiada e levavam consigo a certeza de que o
161

gado deveria ser entregue ao seu dono o mais rápido possível. A volta dependia
sempre de como o gado se comportava nas estradas e também o tamanho do
trajeto a ser percorrido em cima dos cavalos.

As comitivas que percorriam o sertão eram formadas por vaqueiros


conhecidos uns dos outros. Geralmente eram amigos e também moravam
próximos, o que facilitava os deslocamentos juntos. Cada comitiva, segundo o
vaqueiro Jorge, variava o número de integrantes. Muita coisa dependia do
tamanho da boiada que deveria ser tocada e também a distância que seria
percorrida. Cada marcha era cumprida com todo cuidado para não cansar o gado
e nem machucar os animais de sela, e nem o cargueiro. Jorge lembra que cada
comitiva tinha seu cargueiro e o cozinheiro responsável pela alimentação “da
turma”.

As estratégias utilizadas pelos tocadores de gado do sertão mineiro


eram discutidas anteriormente pelos responsáveis pelo trabalho. Nesses
encontros de vaqueiros era acertado o horário de saída da boiada e também
estipulado prazo para entrega do gado ao comprador. Também eram
providenciados os mantimentos que iriam ser preparados nas refeições dos
vaqueiros durante o percurso. Geralmente o chefe dos vaqueiros que ficava
responsável por providenciar tais mantimentos, como o arroz, o feijão, o toucinho
e a carne seca. Os temperos e os utensílios como panelas, colheres e copos era
responsabilidade do cozinheiro da comitiva providenciar.

A gente já levava o cargueiro. Um burro ou um cavalo arreado


com uma cangalha. A gente carregava no surrão36. Ali iam as
panelas, o arroz, o feijão, a carne. A gente chegava no pouso de
tardezinha e não dava tempo de cozinhar o feijão. Tudo era
cozinhado a lenha e ai fazia um arroz com carne de sol. Sempre ia
um pra tomar conta do cargueiro, da cozinha. Ele dividia o surrão
em três partes. Uma parte de feijão e arroz, uma de toucinho e
outra de carne de sol. Ele colocava a noite na panela e deixava o
trem pipocar. No outro dia amanhecia com três dedos de gordura.
A gente comia só a feijoada cedinho. A gente saía o dia clareando
e arrancava do pouso. Tinha vez que a gente andava o dia
inteirinho e chegava no outro pouso de noite. Só daí comia de
novo (Jorge Fonseca).
A história de vida dos vaqueiros do Norte de Minas é recheada de
sentidos econômicos e culturais, além de simbólicos. Tendo sua força de trabalho
36
Bolsas grandes de couro que eram colocadas sobre o lombo do animal.
162

como fonte de sustento sua e de suas famílias, os vaqueiros do sertão partiam


desde tenra idade para os campos em busca dos animais bovinos que seriam
tocados pelo “mundo afora”, conforme afirma os sujeitos aqui elencados e que
permeiam a discussão dessa temática. Como as fazendas de criação de gado
foram marcantes no processo de territorialização da região Norte de Minas, e
ainda continua sendo, as famílias que eram criadas ou que trabalhavam em
fazendas, necessariamente, colocavam desde cedo seus filhos homens no
trabalho com o gado.

Figura 27: Ilustração de vaqueiro tocando gado


Fonte: OLIVEIRA, Tamires. 2015
163

Sob influência da atividade pastoril as famílias do campo norte mineiro


durante os processos de socialização primária dos filhos tinham como costume
incentivá-los a apropriarem-se dos costumes do pai. Tendo o pai como figura
central familiar, os meninos, desde pequenos observavam as atividades diárias
deste e, tão logo era permitido, passavam a reproduzir os comportamentos que

lhe eram ensinados. Seja nos trabalhos nos quintais em volta das
casas, ou mesmo acompanhando o pastoreio de animais nos campos, os
meninos eram iniciados na atividade pastoril assim que começava a caminhar e
entender as coisas da vida.

As particularidades e peculiaridades culturais regionais permitiram que


desde pequenos os meninos homens do sertão recebessem como primeiros
brinquedos dos pais pequenos animais construídos com frutas como manga
verde, jatobás e buchas do mato. Com essas frutas construíam-se pequenos
animais como vacas, bois e bezerros para os meninos brincarem e logo estes
passavam a dominar o processo de criação desses brinquedos e, rapidamente,
tinham “uma boiada de brinquedo nos quintais”. Essas formas de iniciação e
socialização dos meninos com o gado permitiam que os mesmos despertassem
desde cedo o apreço e interesse pela atividade pastoril.

Posteriormente, quando os meninos começavam a crescer eram


construídos rusticamente pequenos cavalos de pau por onde esses meninos
iniciavam seus “campeios” nos quintais em volta das casas. Tanto as mães
quanto os pais tinham o costume de incentivar os filhos homens a se interessar
pelo trabalho no campo com esses pequenos mimos. Sob o olhar rígido e
autoritário dos pais, esses meninos tão logo se desenvolviam fisicamente eram
colocados nos currais para brincar de vaqueiro com bezerros novos. Era costume
o pai ensinar o menino a laçar bezerros para que este pudesse desenvolver
desde pequeno suas habilidades com o laço e também ajustar as afinidades com
os animais.

Há que considerar, também, que desde pequenos os filhos homens


eram ensinados a montar a cavalo. Essas habilidades eram trabalhadas com o
passar do tempo e, em poucos anos, o menino já podia se declarar como
vaqueiro, desde que cumprisse algumas obrigações que eram atribuídas antes. A
164

iniciação era feita nos currais, nas ordenhas matinais e na apartação no final do
dia das vacas que deveriam ser ordenhadas na manhã seguinte. Era costume,
após a apartação dos bezerros no final do dia, o menino realizar treinamentos de
laçadas com os pequenos animais. Muitos, a partir desse treinamento iniciado
desde cedo se tornaram exímios laçadores e puderam usufruir de tais habilidades
em sua vida de vaqueiro.

Se fosse filho de vaqueiro a tendência era que o filho também se


tornasse vaqueiro. Diante de tantas impossibilidades e dificuldades que antes
existiam em abundância no Norte de Minas, como comunicação, escassez de
escolas, ausência de vizinhos para facilitar os processos de socialização das
crianças, a melhor forma era ensiná-la a trabalhar desde cedo. Essas estratégias
familiares eram recorrentes nos rincões do sertão mineiro e prevaleceu até o final
do século XX, período em que começaram as mudanças estruturais na região e,
consequentemente, o aumento das comunicações a partir da abertura de
estradas que levavam até as fazendas que eram quase inacessíveis por um
desconhecido.

Dentro do curral o menino cercava os bezerros pequenos e logo


tentava laçá-los. Ariscos, os animais esperneavam e saltavam berrando e
esquivando-se das cordas que caiam sobre suas costas. Extasiados pelas
brincadeiras e frustrações pelos erros nas laçadas, os meninos passavam os
finais de tarde nos currais tentando aperfeiçoar a prática da laçada. Quando
conseguiam comemoravam sozinhos ou com alguém que estivesse presente nos
arredores dos currais apreciando tal estripulia. As famílias do meio rural do Norte
de Minas viveram essas experiências, mesmo quando não possuíam gado nem
curral, os vizinhos ou amigos possuíam e permitiam a prática dessas brincadeiras
dos meninos com os bezerros.

Essa familiarização do menino com os currais e com o gado no Norte


de Minas foi fundamental no processo de afirmação do ofício de vaqueiro. Tendo
na figura do pai o exemplo a ser seguido, o aspirante a vaqueiro logo ansiava
pelos apetrechos que constituíam a indumentária dos vaqueiros. Botinas de couro
cru, esporas, chicotes, rédeas trabalhadas, e necessariamente, uma boa sela
para se montar o animal. Preparado o animal, o pequeno vaqueiro já estava
165

quase pronto para começar as mais intensas jornadas nas lidas com gado na
região.

Criado desde pequeno junto aos bezerros nos currais, o menino do


Norte de Minas tornava-se cada vez mais precoce um vaqueiro para acompanhar
o pai nas jornadas. Nesse processo, o rito que determinava a passagem de
menino à condição de vaqueiro era colocá-lo em cima de um bezerro, segurando-
a pelas orelhas e soltá-la dentro do curral para que saltasse bravamente com o
menino em cima. Nesse momento, o menino para mostrar que já se tornava
responsável, capaz de trabalhar com o gado, deveria ficar em cima dela algum
tempo sendo proibido chorar, gritar e esbravejar. Esse rito era determinante na
passagem para a condição de vaqueiro. Caso “não fosse aprovado no teste” este
deveria continuar o processo de aprendizagem nos currais, mas não podia
acompanhar o pai nas jornadas com as boiadas, pois estes ficavam vários dias
fora de casa enfrentando a estrada e o sol inclemente que sempre predominou na
região.

Transmitido de geração em geração, o ofício de vaqueiro com o passar


do tempo foi ganhando refinos e os detentores desses saberes tornaram-se
importantes sujeitos nos processos que hoje permitem compreendermos a vida no
campo brasileiro. Com semelhanças e também inúmeras diferenças em relação
aos vaqueiros de outras partes do país, os vaqueiros norte mineiros com suas
astúcias e intrepidezes criaram formas de socialização que inseriam suas famílias
na lida do trabalho diário, principalmente aqueles que envolviam o trato do gado.
Por toda a parte que se percorre na região é possível encontrar famílias que
tiveram suas bases de sustentação no trabalho com o gado. Seja para capitalizar-
se e garantir a reprodução social e material de suas famílias ou mesmo criando
animais para consumo de carne e leite bem como para o trabalho diário, como os
“bois carreiros”.

Os papéis que o gado e os vaqueiros representaram e ainda


representam são constituintes e constitutivos do modo de vida que imperou por
séculos na região. Voltada inicialmente para o trabalho nas fazendas de gado,
onde o trabalho existia em abundância, a sociedade norte mineira apropriou-se de
técnicas adquiridas a partir de experiências com outras sociedades do país,
166

principalmente as nordestinas, de onde aperfeiçoou algumas como o manejo do


gado que eram praticadas nessa região brasileira. As formas de amansar,
adestrar e domesticar os animais passaram por constantes transformações e, nos
tempos atuais, existem formas muito diferentes das iniciais de se lidar com o
gado. Isso será explicitado mais adiante neste texto.

Importante relembrar que a origem dessas aptidões regionais é


decorrente dos encontros que aqui se deram entre bandeirantes paulistas com
vaqueiros baianos e pernambucanos que criavam gado no vale do São Francisco,
conforme afirma Costa (2003). Com a subida do rio São Francisco pelos
vaqueiros nordestinos formou-se uma sociedade exclusivamente pastoril na
região norte mineira ou o sertão mineiro. Os processos de territorialização
oriundos desses encontros de gentes portadoras de diferentes saberes foram
vividos intensamente durante séculos na região e foram os marcos fundantes da
sociedade que se formou a partir do trabalho com o gado nas fazendas, ou nas
antigas sesmarias.

Se as bases de sustentação da sociedade norte mineira estava no


sistema pastoril, estas dependiam de complementação para se sustentarem.
Como complemento do trabalho nos campos com o gado é essencial que o
vaqueiro possua um animal de confiança. No Norte de Minas, nas rodas de
conversas com vaqueiros e boiadeiros, quando se referem a “ter um bom animal”
estão referindo-se a ter cavalos, éguas, burros ou mulas de boa qualidade e que
são essenciais para o trabalho com o gado. Caso o vaqueiro não possua um bom
animal, este pode ter seu serviço de campo comprometido pela inabilidade do
animal. Animais hábeis são muito valorizados nos campos do Brasil,
principalmente aqueles que não exigem muito trabalho no processo de
adestramento e desenvolvem rapidamente as habilidades necessárias para o
trabalho no campo com o gado. “Animais bons de campo” não costumam dar
muito trabalho no processo de amansamento e adestramento.

Cavalos e éguas são bons nas lidas com gado, principalmente nos
pastos e em volta dos currais, mas a preferência dos vaqueiros que tocam
boiadas é pelos burros e mulas. Os vaqueiros afirmam que burros e mulas são
mais resistentes ao trabalho, principalmente ser for para tocar boiadas para
167

grandes distâncias. Estes não costumam se cansar nas viagens e nem


estropiam37 como os cavalos.

O burro ele tem uma preferência de fortaleza. O burro aguenta muito


mais que o cavalo, tem mais resistência. Mas o cavalo é mais habilidoso. Então
no caso do gado você dependia do cavalo porque às vezes o burro não dava
conta. Por exemplo: pra você sair daqui pra ir na beira do rio São Francisco num
burro você tinha muito mais confiança na estrada. Ele não iria cansar. Mas numa
“ribada” o cavalo era melhor, tinha preferência (Jorge Fonseca)

E o velho vaqueiro continua descrevendo os modos de amansamento e


adestramento de animais para o trabalho no campo. Para Jorge Fonseca, o que
mais mudou nesses tempos, da década de 1960 para cá, foi a forma como as
pessoas passaram a lidar com os animais de montaria. A brutalidade, a gritaria e
o espancamento deram lugar às conversas, ao diálogo com os animais, pois para
ele “os animais são muito inteligentes” e entendem perfeitamente o ser humano,
desde que educado com ele.

Naquele tempo para domar um animal você não tinha muito


recurso e nem conhecimento. Era na brutalidade, na coragem e
no porrete. Hoje se gritar com um cavalo ele vai apavorar mais
ainda. Esses tempos eu fiz três cursos aqui em casa pelo Senar38.
Um de cerca, um de doma e um de rédea. E lembro, conversando
aqui, sentados naquele banco, e o instrutor falou assim: mas eu tô
notando aqui, seu Jorge nessa idade e animado pra fazer o curso.
E eu falei com ele que eu não tava fazendo o curso pra domar
cavalo mais não. Eu tô fazendo pra incentivar os jovens a mexer
com cavalo e mexer de uma maneira que não foi como eu mexi.
Porque as vezes eu até machucava com o animal. E na técnica
você não machuca. Eu não mexo que eu não aguento. Ali no
curral que eu fiz você pode colocar um potro brabo lá dentro que
eu com trinta minutos eu coloco o cabresto nele sem laçar. Só no
jeito. Ele vai me entregar a cabeça sem eu precisar por o laço. E
funciona. Às vezes em cada dez cavalos brabos pode ter um ou
dois que você não consegue colocar o cabresto. Mas mesmo
assim você consegue laçar ele num recanto sem ele mexer. Mas

37
O termo estropiar é recorrente no mundo rural e se refere a feridas ou machucados nos pés dos
cavalos. Nesses casos, quando percorrem longos trechos onde há pedras e cascalhos, estes
acabam furando os cascos desses animais impossibilitando-os de pisar normalmente, tornando-se
mancos e frágeis. Geralmente são os cavalos e éguas que se estropiam quando percorrem
grandes distâncias.
38
Serviço Nacional de Aprendizagem Rural. Hoje em dia o Senar dispõe de diversos cursos de
curta duração voltados para o atendimento ao homem do campo, cujo objetivo é aprimorar as
técnicas utilizadas por eles nos trabalhos dentro de suas propriedades. Há diversos cursos tanto
na área de trato animal como de agricultura.
168

eu vou rodando ele e conversando. O cavalo depende muito do


dialogo, tem que ter muita conversa. Você tem que ter, segundo o
instrutor, comando de voz. Eu já tenho o comando de gritar o
cavalo, aí ele vai me entender. O instrutor falou que não há cavalo
brabo: todo cavalo é manso. E todo cavalo pula e todo cavalo não
pula. Depende de você usar a técnica. O que faz o cavalo pular?
O que faz o cavalo pular é ele ter medo do cavaleiro. E o cavaleiro
já vai mexer com o cavalo com medo. Todo mundo tem um
medozinho sim. Isso chama doma racional. Há a doma de baixo e
a doma de cima. Você vai lidar com o cavalo quatro dias no chão
sem montar nele. Essa é a doma de baixo. A doma de cima é o
dia que você vai montar no cavalo. Aí o que acontece: você pega
um cavalo chucro, laça ele, ele afoga na corda. Você amarra ele
no pau, vai lá orelhar ele pra colocar o cabresto. O cavalo já tá
assombrado com o que você fez com ele. Aí imediatamente você
torce a orelha dele, põe a sela, aperta e monta. Aí tem duas
coisas: o cavalo tá com medo de você porque você agrediu ele.
Você apertou a barriga dele ele sente cócegas. Você apertou a
barrigueira dele, ele não tá acostumado com ela. Aí você monta
em cima e solta. O cavalo olha pra cima e vê aquela inhaca em
cima dele. E aí qual a defesa dele? Saltar e tirar o cara lá de cima.
E pra ele tirar ele tem que pular. O cavalo tem muita inteligência.
É um bicho muito inteligente. Eu tô quase falando com você que
tem cavalo que tem mais inteligência que certas pessoas. Eu falo
porque depois que eu fiz os cursos que eu fui ver a inteligência
dos cavalos. Aí você pega o cavalo sem laçar ele, você vai
falando com ele, rodando, mexendo, tapeando ele até deixar
colocar o cabresto. Na hora que ele deixa você colocar o cabresto
é porque ele já descobriu que você não vai bater nele. O cavalo já
tá acabando o medo de você. E no que ele deixa você colocar o
cabresto nele você também ta acabando o medo do cavalo. É
uma troca. Aí você coloca o cabresto nele, aproveita a cócega
dele para ensinar ele a caminhar. Aí você tem que tirar proveito
disso. Você ensina um cavalo caminhar no cabresto sozinho. Sem
ninguém precisar tocar. E com vinte minutos ele tá pisando no
calcanhar seu. As vezes você conta o caso e muita gente duvida,
mas funciona. Depois que você ensinou caminhar no cabresto aí
você vai tirar a cócega dele. Vai alisar a cabeça, vai ter o
comando de voz, alisa a mão dele até embaixo. Depois você vem
de lá pra cá, pega a mão dele e levanta. Toda vez que o cavalo
aceitou você fazer alguma coisa com ele você alisa o pescoço
dele. Você nunca doma um cavalo batendo nele. Volta na perna,
vai alisando, até você pegar na barriga dele, na capanga dele. Vai
indo até você pegar a perna dele e levantar. Tem que ter a técnica
e os macetes pra coisa funcionar. Na brutalidade hoje você não
leva animal em lugar nenhum (Jorge Fonseca).
Nessa fala do vaqueiro é possível perceber as doçuras e os dissabores
que o mesmo viveu em sua intensa vida no campo. Primeiramente, apoiado na
certeza que lidava de forma errada com os animais ao utilizar-se de métodos
agressivos para domá-los. Esses animais agredidos que posteriormente viriam a
ser utilizados nos trabalhos diários. Essa é a primeira grande mudança percebida
169

a partir do momento que a estupidez que era intrínseca ao homem sertanejo, a


violência tida como código de conduta (cf. Franco, 1997) passou a dar lugar à
racionalidade. Essa mudança de comportamento do homem em relação aos
animais foi decisiva no processo de mudança que já estava em curso no meio
rural. Se antes imperava a brutalidade, agora, nos últimos tempos, a delicadeza
com os “bichos” tornou-se essencial no que o vaqueiro chamou de “troca” entre
homem e animal.

Outro vaqueiro ouvido foi Domingos Afonso, também conhecido como


Dico. Este vaqueiro mora do outro lado do rio Pacuí, quase na chapada. Afamado
localmente por suas habilidades com os animais seja tocando boiadas ou
amansando bois carreiros, o experiente vaqueiro narra como modificou as formas
de aperfeiçoamento do processo de amansamento de animais. Velhas técnicas
baseadas na violência foram substituídas por técnicas que privilegiam o diálogo
com o animal.

Agora em termo de amansar animal, antigamente você montava


num burro ou num cavalo só dava chicotada. Hoje não, tem a
doma, o curso de doma, quando você monta num cavalo ele falta
conversar. E eu acho que vai conversar ainda. Porque
antigamente a gente batia pra ele pular, mas hoje não, você
conversa com o animal e já monta nele e ele sabendo de tudo já.
Mudou tudo, hoje tem muito curso de doma de animal.
Antigamente você montava num animal e tinha vontade de bater
nele. Uns amansavam fácil, outros ficavam assombrados de tanto
apanhar (Domingos Afonso).
Nesse sentido de agressividade do homem do campo do Norte de
Minas em relação aos animais, faz sentido recordar que Maria Sylvia de Carvalho
Franco (1997) em seu clássico estudo sobre os homens livres na sociedade
escravocrata informa que, entre os diversos códigos que existiam no sertão, a
violência era um desses códigos. A violência era vivida tanto no seio familiar
quanto fora deste. Daí a agressividade com os animais ter sido recorrente em um
longo período da história brasileira, principalmente nas partes do país que teve no
sistema pastoril a base da ocupação e do povoamento.

A violência sempre se constituiu como ordenadora das condutas nos


mais variados espaços utilizados pelo homem sertanejo, seja no ambiente de
trabalho – nas roças – ou mesmo dentro da própria casa. Franco (1997, p. 60)
lembra que da situação de violência surge uma moralidade que incorpora a
170

violência como legítima e a coloca mesmo como um imperativo, tendo efetividade


e orientando constantemente a conduta nos vários setores da vida social. Para
essa autora, a violência está incorporada como uma regularidade, eclodindo de
circunstâncias que não comprometem as probabilidades de sobrevivência e
apresentando um caráter costumeiro suficientemente arraigado para ser
transferido a situações que apresentam pelo menos alguns sinais de mudanças
(FRANCO, 1997, p. 30).

O senhor Domingos Afonso é conhecedor de vários lugares do sertão.


Suas histórias se remetem sempre à vida campeira, perto da família e dos
amigos. Sempre fez o que gostou, mexer com gado. Se for pra amansar uma
junta de boi é com ele, tocar boiada também. Das suas histórias utilizo algumas
falas que representam os sofrimentos vividos pelos tocadores de gado no
passado. A carência de estrutura como estradas e pontes representavam riscos
para os vaqueiros e para os animais. Comenta, também, sobre as novas formas
de manejar o gado nos tempo atuais. Com chuva ou sol a boiada tinha que pegar
a estrada.

Eu saí daqui pra Francisco Sá uma vez que eu coloquei uma capa
de chuva aqui na saída. Eram cento e vinte cinco vacas, algumas
paridas. Eu tirei a capa lá e quando eu cheguei aqui de novo. As
botinas iam molhando e virando aquela coisa feia. A gente dormia
em qualquer canto. Hoje o cara apanha um gado hoje, ele separa
os bezerros na carreta de dois andares. Os bezerros em cima e as
vacas embaixo. Antigamente era pegando bezerro na cabeça da
sela. Chuva, porque antigamente chovia bastante. O tempo
mudou demais, mas tá melhor que antigamente. Fome eu nunca
passei, mas antigamente comer uma comida boa demais igual a
gente come hoje era mais difícil. Minha mãe não sabia aproveitar
o que a gente tinha. Uma comida muito gostosa, com angu,
porque a gente tinha milho demais. Galinha. Naquele tempo
galinha era igual formiga, tinha demais. Galinha chegava do mato
era com vinte pintinhos. Hoje se elas chegarem é com cinco
pintos. Mas não sabia aproveitar tudo que tinha ao redor da casa,
no quintal principalmente. Tem muita coisa que a gente come hoje
que é plantada no quintal que antigamente a gente não conhecia.
Nisso a vida melhorou demais (Domingos Afonso).
Em suas jornadas tocando gado, alguns vaqueiros contam que
costumava carregar junto um cachorro. Mas Dico afirma que nunca foi de carregar
cachorro, mas reconhece o valor e a inteligência desses animais.

Eu nunca gostei de cachorro pra mexer com gado não. Se bem


que o cachorro é um vaqueiro bão. Cachorro é um dos melhores
171

vaqueiros que existe. Cachorro ele tem aquela batida certeira. Se


você deixar a rês ir embora ele localiza ela e te leva lá (Domingos
Afoson).
Quanto ao uso e trato dos animais de serviço usados no passado, Dico
lembra as mudanças que ocorreram no tratamento dos animais. Assim como
houve a mudança de tratamento no processo de amansamento dos animais, seu
uso no trabalho também ficou mais racional e menos cruel.

Eu já mexi com cavalo bão de serviço demais. Esse que eu fui em


Francisco Sá, quando eu tirei a sela dele o couro dele veio junto.
Tava chovendo e aí esquentava demais debaixo da sela. Hoje
ninguém monta em cavalo mancando, estropiado e nem com
pisadura. Hoje, se tiver um cavalo mancando você vai pra cadeia
na hora. Antigamente tinha que ir era com o que tinha. Hoje não,
as coisas mudaram demais. Era muito sofrimento pros animais.
(Domingos Afonso).
Companheiro de longas viagens de Jorge Fonseca e Domingos
Afonso, o vaqueiro Zé de Vita lembra que durante sua vida como vaqueiro,
quando ainda era bem jovem, foi muito agressivo com os animais. Essa violência
e agressividade com os animais, de todos os tipos, sejam eles domésticos ou
não, foi direcionadora de comportamentos sociais adquiridos no cotidiano e que
transformavam os homens do campo, do sertão, em quase feras. Agressivos,
guerreiros, mas também sensíveis em várias situações de sua vida.

Antigamente se o bicho fizesse hora com a gente a gente


quebrava ele no pau. E se deitasse e não levantava a gente
mordia o rabo dele, colocava cachorro no focinho, chegava fogo,
mas o bicho levantava e caminhava. Hoje não, as coisas
mudaram demais. Hoje você não pode judiar de um animal porque
senão você se torna um criminoso. Mas antes não, podia fazer
qualquer coisa com os bichos que o povo não tava nem aí. Hoje a
lei também mudou muito (Zé de Vita).
É recorrente a afirmação entre os vaqueiros ouvidos que o mesmo não
pode ter medo de enfrentar o mato, deve ser destemido ante a vegetação hostil.
Entrar em locais sujos, com vegetação xerófila arbustiva e espinhenta é
recorrente no trabalho dos vaqueiros. Se um animal se desgarra dos demais e
insiste em entrar na mata suja, logo um cerco é feito a este animal e o mesmo é
recolocado na estrada.

Constituído em sua maioria pelos biomas cerrados e caatinga arbórea,


o Norte de Minas era coberto por uma densa vegetação nativa que rapidamente
foi raleada pela chegada de novas formas de exploração da terra a partir dos
172

anos 1960 quando ouve o início dos grandes reflorestamentos de eucalipto. Ao


invés de vegetação de árvores retorcidas, típicas do cerrado, passou a ocorrer a
formação de grandes áreas de pastagens para criação de gado nelore.

Mas nesse processo, durante as conversas com os vaqueiros, estes se


mostraram preocupados e também desapontados com a atual situação do ofício
de vaqueiro no campo. Os tempos modernos trouxeram outros modos de produzir
e viver a vida o que, segundo Jorge, destrói um passado que representa a
essência do homem sertanejo do campo. Essas novas formas de ver a vida pelos
mais jovens entristecem o velho vaqueiro obrigando-o a prever um futuro triste
para os vaqueiros.

Eu acho que a profissão de vaqueiro tá desaparecendo. E além de


desaparecer tá acabando o interesse do jovem. O jovem não tá
tendo o interesse de ser vaqueiro igual tinha antigamente.
Antigamente, quando o menino era novo... a tendência dele era
de mexer com gado, ele trabalhava até de graça só pra poder ir
aprender. E hoje esses novos, nem pagando eles querem ir. Tem
hora que você paga eles e não vão. Mas não querem aprender.
Eu acho que o que tirou o interesse do jovem com a área de
vaqueiro, que área de vaqueiro tem que ser a cavalo, e hoje a
maioria dos jovens nem andar a cavalo quer. Querem andar é de
moto e de carro. Porque tem pra tudo quanto é canto. Em todo
lugar hoje tem uma moto. O cavalo você precisa de pasto para
criar. E a moto você cria ela dentro de casa. Não precisa sair pra
pegar no mato. Ganhou tempo com a moto. Essa é a diferença do
cavalo para a moto e do jovem que não quer a profissão porque
ele não quer ficar perdendo tempo em cima de cavalo. Hoje se
não fosse a cavalgada, cavalo nem valor tinha. O valor do cavalo
hoje ta na cavalgada. O cavalo hoje virou motivo de festa. E o
cavalo é utilizado somente dentro da fazenda. E tem gente que
coloca um gado numa manga aí e vai lá olhar ele de moto (Jorge
Fonseca).
Dono de um pequeno bar à beira da estrada logo após a ponte sobre o
rio Pacuí na comunidade de São Leandro, onde vende a moradores e transeuntes
bebidas como cerveja, cachaça e refrigerantes, Zé de Vita remói seu passado e
expõe constantemente os dissabores que a vida moderna sofre no campo. Ponto
de encontro noturno de moradores – somente homens – que tomam cachaça e
discutem assuntos do cotidiano e também falam da vida alheia, o bar representa
hoje o universo do vaqueiro aposentado nas beiradas do Pacuí.

Afastado dos animais e das boiadas, esse vaqueiro, assim como tantos
espalhados pelo sertão mineiro, criou sua família com seu trabalho diário com o
173

gado. Magro e alto, dono de um bigode imponente, esse vaqueiro passa os dias
debruçado sobre mesas colocadas sob a sombra de árvores em seu quintal. Para
ele, “é a forma de ver a vida passar, sentar aqui e ficar falando da vida dos
outros”. Melancólico, afirma estar desiludido com a vida no campo e com as
novas gerações de pessoas que não mais se interessam pelo pesado trabalho no
campo.

Eu vou te falar uma coisa aqui. Hoje em dia essa molecada que tá
aí não quer saber de vida dura não. Não quer trabalhar. Só
querem saber de festa e ficar em cima de moto. Se você precisar
de um rapaz pra ajudar você levar um gadinho de um pasto pra
outro você não encontra. A coisa desandou de um jeito que não
sei como que será. Cavaleiro hoje você só é visto em festa, em
vaquejada. Antigamente, isso aqui, estrada aqui era entupida de
cavaleiro. Tinha movimento demais. Era gente indo pra festa, indo
trabalhar, tocando gado. Hoje, você só escuta o barulho dessas
encrencas dessas motos que atormentam a vida da gente. Tem
vez que de madrugada passa um sem o que fazer na estrada
buzinando e fazendo arruaça. É uma coisa que é boa, mas faz
muita raiva a gente essas motos (Zé de Vita).
Ao demonstrar sua insatisfação com as motos no meio rural, o velho
vaqueiro faz uma confidência, apenas para mim era confidência, mas para os
vizinhos e amigos tornou se motivo de piadas e gozações.

Há um tempo aqui atrás eu também comprei uma moto. Mas eu


me desfiz dela logo. Aquilo não é coisa pra gente velha não. Eu
comprei de um neto meu, mas me arrependo demais. Quando eu
montei nela a primeira vez eu tomei uma queda e arranquei uma
unha do pé. Xinguei demais aquele trem. Depois eu tentei montar
de novo, mas vi que aqui não era pra mim, daí vendi aquela
carniça. Eu me arrependo demais disso. Eu sou homem de andar
é a cavalo, não nessa coisa que inventaram e trouxeram pra cá
(Zé de Vita).
As profecias dos vaqueiros sobre a atual e futura situação dos
vaqueiros são desanimadoras. A partir do momento que não há o interesse de um
jovem em reproduzir aquilo que foi deixado por seus ancestrais há uma forte
tendência ao desaparecimento de tal herança. Tristes dias estão por vir. Esta é a
posição dos velhos vaqueiros. Temeroso quanto a entrada das motocicletas no
meio rural, haja vista as facilidades de aquisição das mesmas, o vaqueiro teme
não apenas pelo fim do ofício de vaqueiro, mas também pelo desaparecimento
dos cavalos. O cavalo que sempre justificou a existência dos vaqueiros e a
manutenção social do ofício e material de suas famílias, nos tempos atuais,
174

encontra-se “ameaçado”. Ameaçado de ser marginalizado, roubando-lhe o


importante papel que este desempenhou na vida rural brasileira.

Os acontecimentos da vida no campo atualmente são diferentes. Essa


afirmativa é encontrada na fala dos vaqueiros e também dos demais moradores,
como as mulheres. São categóricos ao afirmarem a insegurança que tomou conta
da vida deles, principalmente com o advento das motos no meio rural. Rápidas,
ágeis, essas motos são meios que facilitam a atuação de delinquentes no campo
onde realizam assaltos e atormentam a vida das pessoas.

Alguns hábitos e práticas que foram construídas socialmente ao longo


dos anos estão sendo postas de lado devido à insegurança instaurada no campo.
Hábito de deixar portas e janelas abertas ao sair para visitar um vizinho já não é
mais tão comum. Os efeitos disso são o afastamento dos vizinhos e uma
crescente individualização da vida no campo que até pouco tempo era baseada
na solidariedade. A vida no sertão mineiro está cada dia mais diferente de tempos
atrás, é o que se apura das conversas com os moradores.

Nos dias atuais é recorrente no discurso dos vaqueiros aqui ouvidos a


preocupação com o amanhã. Com o advento da modernização do campo e o
desmantelamento das estruturas estabelecidas ao longo do tempo houve uma
mudança violenta tanto no uso da terra por quem a possuía quanto pelos demais
trabalhadores do meio rural. As justificativas apresentadas pelas pessoas aqui
ouvidas informam um conteúdo cultural e econômico que se esvaziará em Breve.
Se antes, como afirmou Oliveira Vianna, a vida no sertão pulsava em ritmo forte,
atualmente processa-se um desaceleramento dos modos de trabalhos.

Com a instituição das empresas rurais a partir dos anos 1960 na


região, a partir da implantação de grandes áreas de pastagens, processou-se
também o inicio da decadência do ofício de vaqueiro. A partir dos anos 1990
houve uma intensificação da atividade pecuária no Norte de Minas, mas a
pecuária empresarial, com a construção de grandes confinamentos bovinos e a
implantação de fábricas de ração internas às empresas rurais culminando com a
diminuição dos postos de trabalho e, consequentemente, um maior esvaziamento
populacional do campo.
175

Grandes conglomerados de empresas rurais39 instalaram modernos


confinamentos bovinos a fim de aproveitar o clima quente e as grandes extensões
de terras adquiridas onde planta milho, sorgo e variadas espécies de capins que
são processados para a produção de ração animal. Há fazendas de
confinamentos com dez mil animais. Não há muita geração de emprego, pois o
trabalho é todo mecanizado não dependendo de mão de obra local pra tocar os
trabalhos. Além disso, a elite rural norte mineira se empenhou em reativar um
antigo frigorifico na cidade de Janaúba que absorve todo esse rebanho bovino
disponível para o abate.

Nesse caso, não há trabalho para os vaqueiros tocarem os bois para o


frigorifico. O gado é transportado em carretonas e entregue em pouco tempo no
frigorifico. Para os vaqueiros, essa velocidade imposta a vida no campo pela
modernização foi elementar na diminuição do trabalho dos vaqueiros.

Se antes uma comitiva gastava quatro dias para levar uma boiada
de trezentos bois em Janaúba, hoje, em cima das carretas esse
gado gasta é três horas de viagem. E aí, vamos fazer o quê? Nós
não podemos fazer nada. A vida é assim, para que uns se deem
bem outros tem que se lascar. E nesse caso sobrou foi pros
vaqueiros. Hoje tem servicinho pra vaqueiro. É tirar um leitinho de
poucas vacas numa fazendinha, porque nas grandes só entra boi
cuiudo pra ir pro pau depois no frigorifico. Eu acho que nesse
resto de vida que eu ainda tenho eu não vejo mais uma boiada
grande rasgar essas estradas. Primeiro porque a seca tá muito
grande e não deixa as fazendas durarem muito tempo. E só quem
tem muito recurso é que pode fazer ração e irrigar um capim. Aí
fica muito difícil pra nós! (Jorge Fonseca).
Os fatores que inquietam os vaqueiros aqui ouvidos se consolidam
cada vez mais no campo norte mineiro. A concentração da terra na mão de
grandes empresas rurais, sejam elas de criação de gado ou plantio de florestas
homogêneas de eucalipto e pinus para serem usadas nas indústrias siderúrgicas
e moveleiras de Minas Gerais golpeou bruscamente os povos que viviam
exclusivamente da atividade rural. Sem trabalho, vivendo exclusivamente de sua
mão de obra interna em suas pequenas propriedades ou trabalhando como
diaristas para parentes e familiares, o trabalhador rural do Norte de Minas cada
vez se vê mais acuado pela modernidade do campo.

39
Grandes empresas rurais estão instaladas na região e criam gado para abate e, também, para
melhoramento genético, objetivando alta fertilidade e produtividade. Destas, pode se destacar a
Fazenda Colonial, Sisan, Agropeva, Géo Agropecuária e Baluarte.
176

Alguns trabalhadores procuraram novas formas de vida mudando para


as cidades, principalmente Montes Claros, cidade polo do Norte de Minas que
abriga um grande contingente de pessoas oriundas do campo que tiveram suas
terras expropriadas pelas grandes empresas ou por não terem mais condições de
sobreviver do seu trabalho no campo.

As incertezas são constantes para os vaqueiros do Norte de Minas. Em


conversa com um vaqueiro conhecido localmente como Antônio Azeite, o velho
vaqueiro fez uma afirmação que se aplica ao cotidiano dos vaqueiros.
“Antigamente o carro ia atrás dos bois. Hoje não, o carro vai na frente dos bois.
Hoje o boi é carregado de caminhão. Isso acabou com o trabalho nosso”. Essas
mudanças que ocorreram na vida dos trabalhadores do campo, especificamente
aqueles que tinham no gado além da sua fonte de trabalho uma grande paixão
passou a deixar marcas indeléveis na vida social das comunidades onde estavam
fixados. A reestruturação produtiva das atividades vinculadas ao campo foi
decisiva no processo de marginalização dos ofícios tradicionais. É essa
reestruturação que levou maior velocidade à vida no campo impondo maior
eficiência na produção e aumentando a escassez de trabalho.

As consequências dessa desarticulação das estruturas no meio rural


norte mineiro foram vários problemas como os apresentados aqui. Desemprego,
abandono do campo, alcoolismo. Há que considerar que, entre os trabalhadores
rurais do Norte de Minas, principalmente os que “mexiam” com gado, há uma
grande incidência da bebida alcoólica. Não é o foco principal da pesquisa essa
variável, mas ela se tornou preocupante nas comunidades percorridas para
levantamento de dados para a pesquisa. Descontentes com a situação em que se
encontram, alguns deles encontraram no alcoolismo uma válvula de escape para
as mágoas, para sinais visíveis de depressão que foram causados pelo dissabor
de ver a mudança brusca nas estruturas da vida cotidiana.
177

CAPÍTULO VI

NO ENCANTO DA POEIRA:
Carros, bois e carreiros
178

6.1 Histórico do carro de boi no Brasil

O homem é um feixe de nervos. Possui, como os rádios,


capacidades receptoras e transmissoras. Os centros
nervosos são constantemente influenciados pelos fatores
externos, não só de ordem física, como de ordem
psicológica. Ora, o carro de boi com tôda a sua organização
material não podia deixar de influenciar nos centros
nervosos do carreiro e do guieiro. Sobretudo o seu canto, de
musicalidade tão enternecedora e comovente. Pois como é
sabido, o canto e a música, especialmente, exerceram
profunda e salutar influência na vida dos povos primitivos
(MELO, 1954, p. 214).

Desde o surgimento e consolidação da sociedade patriarcal brasileira


no século XVI, o carro de boi foi o principal meio de transporte para o avanço
econômico da Colônia. Inicialmente utilizado na fundação dos primeiros engenhos
de açúcar no Brasil de 1526 a 1545 nas capitanias de Itamaracá, pertencente a
Pedro Capico, São Vicente, pertencente a Martim Afonso, Bahia que pertencia a
Afonso Tôrres, Pernambuco que pertencia a Duarte Coelho e Paraíba do Sul que
pertenceu a Pero Góis, o carro de boi também foi essencial no processo de
construção da cidade de Salvador em 1549 (SOUZA, 2003, p 104).

Posteriormente foi inserido nos lugares mais recônditos do interior da


Colônia a fim de propiciar cada vez mais o acúmulo de riqueza aos senhores
coloniais, o carro de boi deu uma grande e importante contribuição à formação
social e econômica do Brasil a partir do momento que aportou em terras
brasileiras. Para Bernardino José de Souza (2003, p. 153) o carro de boi
apareceu no Brasil juntamente com os primeiros engenhos de açúcar que foram
os centros da primeira indústria criada pelos portugueses na terra que haviam
descoberto do outro lado do oceano.

A literatura brasileira dispõe de alguns títulos que tem no carro de boi


importante sujeito da história brasileira. Considerado o principal estudioso do
carro de boi no Brasil, Bernardino José de Souza (2003) analisou a trajetória
histórica e a importância econômica que o carro de boi teve na formação e
consolidação do Brasil.
179

Na consolidação do patriarcado rural brasileiro o meio de transporte


rústico, movido por tração animal, tornou-se elementar e atravessou os séculos
até o início de sua decadência nas proximidades das áreas urbanas a partir da
construção das estradas de ferro ligando o Rio de Janeiro a outras regiões do
país e, também, a partir da implantação de estradas rodoviárias que brevemente
seriam movimentadas com a chegada dos caminhões.

As estruturas existentes permitiam apenas que as cargas mais


variadas fossem transportadas em lombos de burros e mulas ou por carros de
bois. Estes rasgaram os lugares mais inóspitos com seus cantos e propiciaram às
famílias pertencentes à elite rural formarem verdadeiros impérios no interior do
Brasil, impérios estes que foram alicerçados no latifúndio e na monocultura
canavieira e, posteriormente, na criação de gado.

Outro autor que tomou a importância do carro de boi no processo de


consolidação deste como principal meio de transporte no Brasil, e que alavancou
a economia de base agrária foi Manuel Rodrigues de Melo. Para ele,

O carro de boi é fruto da monocultura e do individualismo


econômico. Sem êle o senhor rural não teria existido. O
patriarcalismo não teria florescido e dado aquela falange
numerosa de “homens bons” que foi a maior glória da Colônia e
do Império. Entre ele e o combôio foi feita toda a historia da
riqueza e da economia brasileiras, durante tresentos e tantos anos
de trabalho. Surgiu, talvez, com o ciclo do páu Brasil e de lá vem
acompanhando tôdas as fases da nossa vida econômica, a tôdas
emprestando o maximo de energia e dedicacao. As minas não o
dispensariam nunca. Os engenhos pior. O comercio em geral
deve-lhe tudo. Serviu até nos trabalhos de penetração do
hinterland brasileiro quando foi preciso avançar a civilização.
Couto de Magalhães serviu-se dele para levar os primeiros navios
ao rio Araguaia. Na guerra holandêsa os exércitos de sua
Magestade Católica utilizavam-no para carregar armas e
apetrechos de guerra. Em que não serviu o carro de boi? Em mil e
um mistéres entrou êle como elemento indispensável e
necessário. Como distribuidor de riqueza foi importantíssimo o seu
papel. Basta dizermos que tôda a imensa zona do interior do país,
onde os rios não corriam, tinha que ser batida a casco de burro e
de cavalo ou a pata de boi (MELO, 1954, p. 197-8).
Trazido de Portugal a época de Tomé e Souza, então Governador
Geral (MELO, 1954), esse meio de transporte rústico e quase medieval cortou as
matas densas brasileiras e foi levando o desenvolvimento às áreas mais distantes
do país que se iniciava lento, perigoso e com vícios insanáveis herdados dos
180

patrícios portugueses. Conforme afirmação de Melo (1954), o carro de boi, com


seu ritmo lento, penetrou na história brasileira e se consolidou ao longo dos anos
de trabalho, inicialmente nos engenhos do Nordeste e, posteriormente, nas
demais áreas produtoras rurais que tiveram no patriarcado rural o esteio da vida
social como o mais importante meio de transporte de cargas até a chegada das
estradas de ferro no século XIX.

Importante lembrar que a paisagem rural brasileira conformou em seu


interior um tipo de sociedade baseada no domínio do latifúndio e exploração do
trabalho escravo por quase toda sua existência. Seja na exploração de índios e
negros e, mais tarde, de trabalhadores rurais que viviam nos engenhos de cana
do Nordeste e nas fazendas de gado espalhadas pelo Brasil, esse tipo de relação
foi predominante. Nesse momento da vida brasileira o carro de boi era necessário
e indispensável no regime escravocrata do trabalho rural e continuou sendo no
regime do trabalho livre após a abolição da escravidão em 1888.

Manuel Rodrigues de Melo (1954) ao analisar na década de 1940 o


patriarcado rural no Nordeste brasileiro, especificamente no Rio Grande do Norte,
e a vida dos trabalhadores rurais que usavam o carro de boi, os carreiros, informa
que,

se em verdade o caminhão enxotou-o das estradas gerais do país,


auxiliado pelo automóvel e pela estrada de ferro, uma coisa
porém, não conseguiu fazer: arredá-lo dos milhares de verêdas e
estradas que cruzam o nosso imenso interior. Aí está o porque o
nosso remanescente de três séculos continua a figurar entre os
meios de transporte, sem mêdo de ser definitivamente excluído,
pelo menos daqui a cinqüenta anos (1954, p.194).
Nesse período, a vida no meio rural brasileiro constituía-se em
subsistência para o trabalhador e em acúmulo de poder econômico e político para
os donos dessa massa de mão de obra que dourava sob o sol impiedoso das
áreas setentrionais do continente e enfrentava as maiores dificuldades para
sobreviver, dentre essas, a tirania e arrogância dos senhores de engenho fixados
na região do nordeste brasileiro.

Utilizado no transporte das mais variadas cargas, desde madeira para


construção, lenha para as casas e engenhos, cana para alimentar as moendas e
também no transporte dos senhores com suas famílias para festas, missas ou
181

eventos realizados fora de suas propriedades, o carro de boi com seu canto
monótono deixou marcas indeléveis na sociedade brasileira. Entendido de uns
tempos pra cá por parte da sociedade nacional como sinônimo de atraso, de
pobreza, o carro de boi por muito tempo representou status e foi gerador de
prestígio para seus donos nos períodos que antecederam a modernização do
campo brasileiro.

O carro de boi serviu também como carruagem no século passado


para a nobreza rural. Era no carro de boi que andava a nobreza
rural e a burguezia das cidades. Era nele que andavam as
sinhazinhas de antanho para encanto dos rapazes enxeridos e
pelintras. As matronas pesadas e gordas, faiscando ouro por todo
canto, cheias de braceletes, grampos e marrafas e encandiando o
povo com seus brilhantes. As meninas dengosas e cheias de
cachos, parecidas com o louro Nazareno. O carro de boi foi
contemporâneo dessa grandeza material e ajudou-a mesmo a
crescer, espalhando seus tentáculos por tôda a vasta extensão de
nosso país. Nele andavam pobres e ricos, desde o escravo ao
senhor (MELO, 1954, p. 206).
Elevado à condição de símbolo de um patriarcado rural que tornou-se
decadente a partir da construção dos sobrados coloniais imponentes nas vilas
que surgiam em diversas partes do interior da Colônia e das estadias temporárias
ou permanentes de seus donos nesse casario confortável, o carro de boi
representou um período de cristalização das elites rurais brasileiras assentadas
sob o manto da monocultura e o véu do trabalho escravo.

Quem se debruçou para compreender o período de transição do


patriarcado rural e consequentemente o surgimento de áreas urbanas com
imponentes sobrados construídos pelos senhores de engenho foi Gilberto Freyre
em Sobrados e Mucambos. Gilberto Freyre (2004, p. 105) lembra que com a
chegada de D. João VI ao Rio de Janeiro, o patriciado brasileiro que havia se
consolidado na casa grande e nas fazendas começou a perder a majestade dos
tempos coloniais e passou a ocupar áreas urbanas que posteriormente se
tornariam grandes aglomerados.

Pesado e rústico, sendo necessários vários bois para arrastá-lo


carregado com as mais variadas cargas, os carros de bois, não necessariamente,
precisavam de boas estradas para transportar as cargas. Além disso, o custo e
182

manutenção do mesmo eram menores que os comboios de burros e mulas,


conforme estudo de Melo (1954).

Para este autor, a afirmação do carro de boi como o mais importante


meio de transporte do período colonial e imperial brasileiro representava, também,
a vocação pastoril das famílias assentadas nas áreas produtoras do Brasil, como
a canavieira no Nordeste e posteriormente de mineração na faixa mais ao sul.
Esse autor lembra, ainda, que a proeminência do carro de boi sobre os comboios
se explica pela largueza e comprimento de sua mesa que pode ser duplicada pela
altura dos fueiros, o carro de boi transportava a carga de quinze ou vinte animais.
Além disso, as despesas com o carro eram menores que com o comboio de burro
e mulas, mesmo este sendo mais ligeiro. O comboio exigia mais gente, maior
número de cangalhas e arreios, mais trabalho com os animais, onerando, dessa
forma, o valor dos carretos.

O carro de boi do período colonial assim como dos tempos atuais era e
é formado por três partes: as rodas, o eixo e a mesa. Construído de madeira e
ferragem que cobre as rodas, o carro de boi era pesado e possuía rodas finas
cobertas por ferragens que eram resistentes a pesos e buracos bem como tocos
que existiam dentro das roças onde as cargas deveriam ser apanhadas.

Conduzido geralmente por duplas, o carreiro e o guieiro40, o carro de


boi carecia de pouca mão de obra. O carreiro era o encarregado do trabalho e
cabia a ele preparar os bois e o carro e decidir o caminho a ser percorrido. Era
parte do trabalho do carreiro administrar a viagem evitando buracos nas estradas
e árvores pelos caminhos. O trabalho do guieiro, como o próprio nome informa, é
guiar os bois pelo caminho escolhido, principalmente quando não havia estrada.
Normalmente no interior de roças para recolhimento das colheitas ou nas florestas
para apanhar lenha os bois deveriam ser orientados e guiados. Além disso,
competia a esse trabalhador abrir porteiras, cancelas e colchetes, mas, na maioria
das vezes, quando os bois já eram mansos e acostumados com o trabalho, o

40
Em algumas partes do Brasil o guieiro também é conhecido como candeeiro.
183

guieiro poderia viajar sobre a carga transportada evitando o cansaço e desgaste


físico.

Vale ressaltar que os carreiros do tempo dos colonizadores foi quem


despertou nos brasileiros os fundamentos da atual política de transportes voltada
para o progressivo desenvolvimento interno. Essa é a afirmativa de Melo (1954)
que viu na política de transportes do carro de boi a primeira forma de sustentação
da vida patriarcal brasileira, além, claro, do latifúndio e do trabalho escravo.

A vida carreira era e ainda é permeada por riscos intensos. O fato de


lidar com animais que precisam ser amansados, adestrados e domesticados
informa a periculosidade do trabalho com os bois. Os acidentes sempre
ocorreram e ainda ocorrem. São, coices, chifradas e pisões os riscos mais
constantes, mas, se o carreiro e o guieiro forem experientes esses riscos quase
inexistem desde que sejam mansos os animais.

O passado e o presente da vida carreira, principalmente aqui no Norte


de Minas, informam em seu conteúdo a existência de alguns acidentes
envolvendo carreiros e seus pesados carros. Há relatos de quedas do carro,
coices, e vários outros pequenos acidentes. Os informantes locais acerca da vida
carreira local informaram desconhecer acidentes fatais envolvendo carreiros, mas
afirmaram já terem “ouvido falar” de acidentes fatais.

Um dia eu estava no piloto do carro, amansando dois bois fortes e


os bois de cabeçalho muito bons. Se gritasse para eles paravam
na hora. O carro estava com a caniça e o carro desceu no buraco
e ele deu aquele “vai-e-vem” e a caniça bateu nas minhas costas
e me jogou no chão. Aí eu caí debruçado e o carro subiu no meu
quadril e passou em cima de mim. Ainda bem que eu tirei o
pescoço fora, e, na hora, e o carro estava vazio (Zé Preto).
Os casos de acidentes com carreiros e carros de bois no Brasil
ganharam destaque no imaginário popular a partir do momento que algumas
histórias trágicas foram contadas em forma de poesias e canções. Há várias
histórias que se tornaram músicas, principalmente a partir do momento que a
música caipira tomou para si a responsabilidade de positivar a identidade caipira,
do homem do campo, visto até então como um sujeito a margem da sociedade,
principalmente pelos viajantes estrangeiros que percorreram o Brasil na primeira
184

metade do século XIX, como Auguste de Saint-Hilaire, que em seus relatos


construiu o pior retrato possível dessas gentes (cf. BRANDÃO, 1983).

Há no universo da música caipira o mítico personagem Pai João.


Carreiro de profissão e descrito como um preto velho de extrema habilidade e
delicadeza, bastante querido pelo patrão, em uma de suas andanças pelo sertão
com seu carro de bois, o Pai João sofreu um acidente caindo debaixo do carro.
Nesse acidente, narrado pelos compositores Tião Carreiro e Lúcio Rodrigues de
Souza houve a morte do preto velho Pai João.

Caminheiro, quem passar naquela estrada


Vê uma cruz abandonada como quem vai pro sertão
Há muitos anos neste chão foi sepultado
Um preto velho e erado por nome de pai João.
Pai João na fazenda dos coqueiros
Foi destemido carreiro querido do seu patrão
Sua boiada o chibante e o brioso
No morro mais perigoso arrastava o carretão.
Numa tarde pai João não esperava que a morte
Lhe rondava lá na curva do areião
E numa queda embaixo do carro caiu
Do mundo se despediu preto velho pai João.
Caminheiro aquela cruz no caminho já contei
Tudo certinho a história de pai João, resta saudade daquele tempo que
foi do velho carro de boi no fundo do mangueirão.
(Tião Carreiro / Lúcio Rodrigues de Souza)

A partir da narrativa do compositor acerca do acidente que vitimou o


carreiro Pai João, novas formas de ver e pensar a vida no campo, não somente a
vida dos carreiros passou a ser construída. Como trabalhador braçal, o carreiro
também tem a capacidade e afinidade de dialogar não somente com gente, mas
com os animais. Além disso, o mito do Pai João ganhou as rádios de todo o Brasil
e a música caipira cada vez mais passou a ser vista como uma janela para a
afirmação da identidade caipira, do homem do campo que lavra a terra e enfrenta
a poeira e o perigo das estradas.

Para Brandão (1983), que analisou a construção da identidade dos


caipiras de São Paulo e abriu novas possibilidades de estudos e compreensões
do mundo rural brasileiro,
185

de alguns anos para cá o rádio e o disco, o cinema e a televisão


multiplicam tipos sertanejos que às vezes quase tornam modernos
e acostumados com a cidade os lavradores caipiras do passado.
Entre Sérgio Reis, Milionário e José Rico e os velhos violeiros de
“moda” e “cururu” há uma distância muito grande. Assim como a
que, às avessas, existe entre o relato apressado que viajantes e
cronistas escreveram a respeito dos habitantes (...) e os estudos
recentes que com menos pressa e preconceitos procuram agora
compreender não só os trabalhadores caipiras, como também
outros tipos de sujeitos subalternos de enxada e arado que
primeiro os acompanharam e, depois, começaram a substituí-los:
o sitiante, o camarada, o colono, o boia-fria (BRANDÃO, 1983, p.
7).
Retornando ao sertão mineiro e a luta diária dos carreiros que
enfrentam as adversidades sociais e climáticas para sobreviverem, essa região
bem como as demais áreas pastoris do Brasil com o passar do tempo foi
adequando-se às variadas formas de transportes impostas pela elite rural.
Afincados nos lugares mais recônditos e de difícil acesso, os carreiros e seus
carros partiam para viagens transportando as mais variadas cargas,
independendo das condições climáticas, faça sol ou faça chuva, lá estava o
carreiro com seu carro na estrada.

O afeto com os bois e o respeito a eles tornam-nos “quase parentes”, é


o que afirma um antigo carreiro que será descrito aqui. “Se você não gostar da
vida que leva e não ser carinhoso com os bois que te sustentam, você não pode
ser um bom carreiro” (Tone Ferro).

Mas afinal, quem são os carreiros e por que a vida carreira é carregada
de sentimentos? Essa pergunta foi respondida por carreiros experientes, alguns
aposentados, outros ainda continuam o trabalho com seus carros modificados e
adaptados, conhecidos atualmente como carroças ou carroções, mas se afirmam
como carreiros. O mais óbvio seria responder que carreiro é aquele trabalhador
rural que transporta as mais variadas cargas com seu carro de boi. Mas aqui a
resposta vai além dessa obviedade. “Ser carreiro é um estado de espírito”,
confessa o velho carreiro estabelecido nas margens do rio Pacuí.

Eu nunca deixei de ser carreiro, mesmo aqui, aposentado,


sem quase conseguir andar. A gente nunca esquece o que a
vida ensinou e eu aprendi com meu pai foi mexer com gado,
amansar boi, carrear. A minha vida inteira foi trabalhando
com carro de boi (Tone Ferro).
186

Há que considerar que, assim como outros elementos que se associam


ao mundo rural, o carro de boi foi exaustivamente retratado em poesias e na
música. A música sertaneja, tal como é conhecida àquela que retrata o homem do
campo com seus saberes, fazeres e valores, repetidamente invoca a vida do
homem do campo para cristalizar-se. Nos dias atuais, a música sertaneja trata o
homem do sertão e o sertão em si mesmo como algo distante, mas ao mesmo
tempo próximo.

6.2 A vida carreira no sertão mineiro

Com minha junta de bois


Eu pego o rumo da estrada
Reconheço que sou velho
Estou no fim da jornada
Soberbo vou resistindo
O transporte da pesada
Somente o implacável tempo
Vai forçar minha parada
Eee boi, eee boi
Meu avô era carreiro
O meu pai também já foi
A herança deles carrego
No velho carro de boi
Eu vou cumprir esta sina
De uma longa geração
Embora os tempos mudaram
Mas mantenho a tradição
Eee boi, eee boi
Meu carro já carcomido
Simboliza um passado
Os seus cocôes rangem triste
Protestam muito magoados
Do progresso que destrói
Nossa estrada carreteira
O asfalto vai apagando
Todo o encanto da poeira
Eee boi, eee boi
Enquanto existir estrada
Que o carro possa rodar
Sou o último dos carreiros
Bravo herói a candear
Quando eu for pra eternidade
Este carro vai parar
A profissão de carreiro
Não tenho pra quem deixar
Eee boi, eee boi
187

(José Bétio e Wilson Roncatti)

O poema acima foi musicado há bastante tempo e tornou-se um


clássico da música caipira no Brasil. Reflete o lamento de um velho carreiro que
se pergunta, após rememorar o passado, com quem ficará a profissão que o fez
um importante sujeito da história. Essa indagação extremamente delicada feita
pelos compositores é facilmente constatada quando aplicada aos velhos carreiros
que estão no fim da vida. O fim da vida para os carreiros é apartar-se dos bois.

Não somente os questionamentos sobre o aguentar a lida ou não nas


estradas com o carro de bois, os carreiros se posicionam e sempre se
posicionaram como importantes sujeitos da história desde o período colonial. Sem
eles a história teria outro final e sentido. As memórias de um tempo são
revisitadas e narradas por trabalhadores rurais que criaram uma estrutura e
estabeleceram diferentes formas de convívio entre homens e bichos. Ser carreiro,
mais que ofício, é amar intensamente um tipo de vida que parece não existir sem
os companheiros, os bois, que sustentam a família e ajudam a construir mais que
relações econômicas e sociais com outras famílias, pessoas e comunidades.
Constroem um universo. E é este universo dos carreiros que percorremos nesta
sessão.

6.3 Restos de um passado glorioso

As referências aos carros de bois neste texto são feitas sempre no


passado. Durante o percurso aos municípios onde levantei os dados de campo
procurei em várias comunidades rurais algum carro de boi que ainda estivesse em
uso. Mas não os encontrei. As pessoas ouvidas informaram que apenas em
festas comemorativas ou em alguma exposição é possível ver um carro de boi
sendo puxado. Diferente dos carreiros que são facilmente encontrados, os carros
de bois estão presentes apenas no imaginário dos carreiros ou abandonados,
como veremos.

Nas comunidades percorridas, os lamentos dos carreiros são os


mesmos. A modernidade trazida para o campo marginalizou os carros de bois.
188

Esquecidos em algum lugar da propriedade esse poderoso meio de transporte


representa um passado recheado de glórias e que não existe mais.

Figura 28: Carro de boi abandonado


Fonte: LOPES, C.A.S. 2014

O tempo passou e na memória dos velhos carreiros o carro de boi


continua presente. Foi ele o grande transportador de cargas que impulsionou a
vida das pessoas. Lento e pesado, o carro de boi representa um universo de
carreiros que são portadores de sentimentos que o tempo não é capaz de apagar.
A migração forçada para as carroças e carroções provocou um rompimento total
com o carro de boi no sertão mineiro.

A marginalização do carro de boi foi proporcionada pela velocidade


imposta à vida no campo. Lento e pesado, foi facilmente substituído pelas
carroças e carroções que são vistos ainda em boa quantidade. Leves e fáceis de
serem puxados pelos bois, esses carroções e carroças de pneus e com
rolamentos nas rodas passaram a representar um novo tempo no campo.
Empurrando os carros de bois para o esquecimento, as carroças e carroções são
usados no transporte de cana, lenha e outros tipos de cargas que podem ser
transportadas com o uso de animais.
189

Para os carreiros, simbolicamente, o carro de boi representa um marco


definidor da cultura regional. Mesmo abandonado, como as imagens mostram, o
carro de boi como símbolo de uma cultura informa o tipo e o modo de vida que se
organizou nessa área de Minas Gerais entendida como sertão. Forte e robusto,
enfrentou as dificuldades da natureza e a escassez de recursos materiais
encontrada pelos carreiros no principio.

Figura 29: : Carro de boi abandonado


Fonte: LOPES, C.A.S (2014)

Lembrança de um tempo bom para os carreiros, onde as viagens


pareciam intermináveis devido à lentidão do carro, o velho carro de boi ainda
inspira paixões. Incorporado de vários significados, os carros de bois
atravessaram gerações demarcando espaços e fundando lugares. Nesse sentido,
o carro de boi pode ser entendido a partir da perspectiva de Pierre Nora (1993)
como criador de lugar de Memória. Para esse autor, “os lugares de memória são,
antes de tudo, restos (...) os lugares de memória nascem e vivem do sentimento
que não há memória espontânea, que é preciso criar arquivos” (NORA, 1993,
p.12-13). A partir dessa perspectiva é possível entender o carro de boi como um
arquivo onde estão guardados os sentimentos, prazeres e perigos dos carreiros.
Para Nora (1993) certas coisas da vida são marcos testemunhas de outra era.
190

O lamento dos carreiros sobre a extinção dos carros de boi é profundo.


Apresentado às novas gerações apenas em festas e exposições, os carros de
bois permanecerão guardados na memória dos carreiros por toda a vida. Seu
canto, as ferragens das rodas, os cocões gemendo e os bois abanando rabos
para arrastá-lo, a poeira levantada com as pisadas dos bois jamais serão
esquecidos. Essa afirmativa foi-me confidenciada pelo carreiro Tone Ferro, de
setenta e cinco anos. A profundeza da relação entre carreiros e carros só é
medida e entendida por quem viveu essa relação. O simples fato de narrar uma
trajetória, seja de coisas ou de pessoas não é suficiente para compreender esse
processo de entendimento entre carreiros e carros.

Nesse sentido, aproprio-me do entendimento e do significado que as


coisas ganharam a partir do entendimento de Tim Ingold (2012, p. 29) sobre as
coisas. Para este autor, a coisa tem o caráter não de uma entidade fechada para
o exterior, que se situa no e contra o mundo, mas de um nó, cujos fios
constituintes, longe de estarem nele contidos, deixam rastros e são capturados
por outros fios noutros nós. Numa palavra, as coisas vazam, sempre
transbordando das superfícies que se formam temporariamente em torno delas.

A rememoração do passado do carro de boi é essencial para o


entendimento do tipo de vida vivida no interior do Brasil. O tempo potencializado
propiciou uma nova visão de mundo dos carreiros do sertão mineiro. Extenuados
pelo trabalho intenso sob o sol inclemente do sertão, esses trabalhadores e seus
carros deixaram marcas que jamais serão apagadas. Não apenas marcas
produzidas pelas ferragens dos carros de bois que rasgavam o sertão e que o
tempo apagou. São marcas de um tempo que se foi e que agora é rememorado.

A atualização do ofício de carreiro a partir da migração do carro de boi


para as carroças e carroções no final do século XX ainda mantém viva a tradição
de carrear. Mesmo diminuída, a função dos carreiros na vida social é vivida e
revivida. Os carreiros não desapareceram com a modernização do campo, eles se
adequaram às novas formas de trabalho, mais rápido, eficiente e eficaz. O carro
de boi enquanto meio de transporte de cargas está num rápido processo de
extinção, mas os carreiros, não. Os carreiros estão cada vez mais atualizados e
inseridos na modernização do campo, mesmo tendo no passado o esteio que
191

sustenta a vida corrida nesses tempos onde os veículos motorizados são


responsáveis por transportar quase todas as cargas no campo.

6.4 Montando o terno: escolhendo os bois e formando carreiros

Para a execução do serviço de carreiro é necessário que haja três


coisas: primeiramente o carro de boi. Depois os bois e, por fim, o carreiro. É essa
trinca que rasga os estradões transportando cargas e estabelecendo trocas
diversas tanto econômicas quanto culturais na região norte mineira. Considera-se,
também, de fundamental importância a presença dos carreiros nos engenhos de
cana não somente no Nordeste brasileiro, mas em outras regiões como o Norte
de Minas. Estes desempenharam papel crucial na produção e reprodução da vida
material no sertão.

Domingos Afonso tem sessenta anos e vive com sua esposa na


beirada do rio Pacuí. É genro do velho carreiro Tone Ferro e mantém com seu
sogro intensas relações, não somente de parentesco. Seus filhos foram morar em
Montes Claros onde estudaram e exercem diversificadas profissões. Por algum
tempo seu único filho homem trabalhou como carreiro na região, mas preferiu
migrar para São Paulo em busca de novas oportunidades. Bem quisto na
comunidade por ser uma pessoa extremamente alegre e prestativa, o carreiro
Domingos Afonso nasceu e se criou na beira do rio. Tomava banho de rio e
montava em bezerros. Diz que foi uma criança alegre e feliz demais até ser
colocado no serviço por seu pai, o velho Gentil Fonseca.

Carrancudo com os filhos e demais pessoas, o velho Gentil iniciou seus


filhos no trabalho do campo ainda cedo. Fosse na lavoura ou no engenho, mal o
dia clareava as crianças eram colocadas de pé para iniciar os trabalhos.
Domingos narra sua trajetória iniciada ainda na infância e durante seus
depoimentos viaja por vários ofícios já exercidos por ele, principalmente o ofício
de vaqueiro e carreiro.

Atualmente se considera um adepto da modernidade e afirma não


aguentar muita coisa. Faz pequenos trabalhos de carreiro apanhando cana e
lenha que são usados no processo de fabricação de rapadura realizado pela
192

família. Alegre e festeiro, afirma-se um defensor da tradição, mas também informa


que a modernidade é necessária, pois segundo, ele, “tudo muda, e por que nós
não podemos mudar?”.

Meu pai tinha umas 40 vacas paridas aqui na terra dele e a


gente levantava de madrugada pra tirar o leite. Mas ele não dava
certo com meu irmão mais velho. Eu tinha treze anos e eu já era
carreiro. Naquele tempo colocava era seis bois no carro e quatro
no engenho. Como eu não aguentava encher o carro, o dono do
milho que eu ia buscar enchia o carro pra mim. Uma vez meu pai
fez um carro grande, sambueiro, e eu fui carrear. Daí quando
estava parado enchendo o carro um dos bois pisou numa cobra.
Ele dava um coice assim e pisava na cabeça dela, ela virava. Ela
tinha uns quatro metros de comprimento. O pé que o boi tava
pisado na cabeça da cobra que matou ela. Depois nós passamos
pro engenho, engenho de pau. Na época do engenho de pau eu já
estava com uns dezesseis pra dezessete anos. Quando eu tinha
uns dezoito anos pai comprou um engenho de ferro. Aí já
melhorou, já facilitou demais. Era um sofrimento danado, pois pai
bebia demais e ficava valente, querendo atirar na gente. Era uma
bagunça danada e a gente era um tanto de irmão, uns
trabalhavam e outros não. Eu não estudei em lugar nenhum. Não
tive tempo de estudar. Com treze anos eu já era carreiro. Era
sofrimento. Até que eu tenho saudade, porque antigamente eu
chegava e pulava num cavalo de qualquer jeito. Hoje não, estou
velho e as vezes tenho que encostar o cavalo num lugar alto pra
eu montar. Antigamente eu não tava nem aí mesmo (Domingos
Afonso).
Os bois carreiros constituem a parte mais elementar do processo, pois
são eles que arrastam o carro ladeira acima e o segura ladeira abaixo. Esses
bois, quando escolhidos ainda bezerros passam por um longo processo de
preparação para posterior colocação no carro. E é esse processo que apresento
agora para facilitar o entendimento do leitor.

O tipo preferencial de boi carreiro no Norte de Minas é o curraleiro.


Conhecido em outros lugares também como “gado pé duro”, esse tipo de animal
apresenta maior potencial para o serviço pesado na roça. É dócil, resistente e fácil
de amansar. Seu tipo físico e carcaça variam e depende do tratamento alimentar
recebido. Se for um animal bem cuidado e bem tratado com fartura de alimento, a
tendência é que estes atinjam um grande porte e podem ser usados
posteriormente como bois de cabeçalho.

Quando nascem os bezerros machos em determinada propriedade


rural e o dono do animal pretende transformá-los em bois carreiros estes são
193

amamentados aproximadamente por seis meses. Após o desmame, o animal é


colocado separadamente da mãe e começa a viver junto de outros animais. Esse
processo de desmame torna-se importante para a formação da carcaça do
animal, pois no futuro ela será determinante para a posição que o boi ocupará no
carro.

Nas propriedades e fazendas que criam gado é comum, desde cedo,


quando o bezerro é escolhido para o serviço, que comece a procura por outro
animal que possa fazer dupla com ele, ou seja, que forme uma boa junta. Essa
escolha começa pelo aparelhamento dos animais que consiste na comparação
destes. É observado se possuem tamanhos e pesos iguais ou parecidos, se
caminham bem, se tem a mesma cor, se os chifres se equivalem ou se são
mochos41, se as orelhas possuem o mesmo tamanho. Tudo isso é observado
antes que sejam amansados para que formem uma boa e bonita junta de bois.
Caso em sua propriedade os bezerros nascidos machos, apenas um serve para o
serviço, o companheiro deste é procurado fora da propriedade com outro criador.

Ao formar a junta de bois o dono começa o processo de amansamento.


Inicialmente os garrotes42 são atrelados um ao outro e soltos no pasto. Este é um
importante processo, pois consiste na observação de vários aspectos que são
importantes numa boa parelha de bois. É observado como caminham, se possui a
mesma passada ou se um caminha na frente do outro. Observa se há preguiça
por parte de algum dos animais, se há estranhamento entre eles ou com outros
animais. Estes comportamentos, desde que observados fielmente pelo dono que
irá amansá-los poderá definir se terá uma boa junta de bois ou não.

Mas afinal, o que é uma boa junta de bois? Para o carreiro Domingos
Afonso, uma boa junta de bois deve agregar vários fatores, mas dentre esses
fatores a força e habilidade da junta de destacam. A beleza dos bois é importante
para que a tenda se apresente de forma atraente para outros carreiros e demais

41
Boi mocho é aquele que não possui chifres.
42
Garrotes são bois jovens e não castrados. Quando o garrote não é castrado é chamado também
de inteiro ou cuiudo (colhudo). Depois de castrado o garrote se torna boi. Somente bois castrados
são usados como animais de carga. As informações levantadas junto aos carreiros dão conta que,
os bois devem ser castrados para ficarem mais calmos e ganharem força. Se estiverem cuiudos,
ao conviverem com vacas, estes não amansam e nem deixam se aproximar no pasto.
194

pessoas. Essa junta deve apresentar bom aparelhamento, força e ser bem
adestrada, ou seja, atender fielmente aos comandos do carreiro para que não
haja risco de acidentes. Outro aspecto observável em uma boa junta de bois é a
confiança. Para Domingos Afonso “o boi que não é confiável não pode ser de
cabeçalho”. Essa confiança é baseada nos quesitos coices e chifradas. Os bois
coiceiros são perigosos e podem machucar o carreiro ou alguém que passe perto
do carro, portanto, não são confiáveis. E os bois que chifram são traiçoeiros e
merecem toda a atenção do carreiro.

Os bois pra colocar no carro tinha que ser aparelhado, parecido


um com o outro. E o gado melhor de mexer era o curraleiro. Essas
coisas de raça não prestam. Tem o nelore manso, mas não é
confiável. Eles cismam muito (Domingos Afonso).
Feitas essas observações e, por certo período de tempo a junta tiver
caminhado igual e não se estranhado é iniciado o processo de amansamento.
Lembro ao leitor que não se usam bois sem amansar sozinhos no carro, muito
menos em um engenho tocado a bois. Pode ser uma combinação perigosa e fatal
bois bravos, engenho e carro.

Figura 30: Bois de cabeçalho bem aparelhados


Fonte: LOPES, C.A.S. 2015

O processo de amansamento dos bois é demorado e feito por etapas.


A primeira etapa já foi narrada aqui e consiste na escolha e separação dos bois
bem como na observação destes. A segunda etapa consiste na castração e, após
195

o período de cicatrização são colocados no carro. Mas o processo de castração


pode antecipar o de amansamento, também. Até pouco tempo costumava-se usar
seis bois no processo de amansamento. Usavam-se duas juntas já mansas e a
novata no meio destas. Atualmente, em algumas localidades, já se amansam bois
apenas com uma junta no cabeçalho. A justificativa para a mudança se deu em
função de, segundo o carreiro Tone Ferro, “o gado de hoje ser mais manso”.

Antigamente a gente amansava boi era com seis. Tinha os do


coice, que é os do cabeçalho, pra segurar os outros. Mas era boi
de cinco anos que a gente amansava. Era boi grande. Os da guia
eram treinados também. Os de trás seguravam e eles não
deixavam os brabos correr. Hoje já tem uma forma diferente de
amansar bois. A gente coloca um brabo para andar com um
manso. Aí o manso educa o brabo. O boi manso é malandro, ele
ensina o outro trabalhar. Porque se colocar os dois brabos eles
batem desencontrados e com o manso não, o manso aguenta a
pancada de segurar o outro. Aprende num instante só. E aprende
mesmo (Domingos Afonso).
O senhor Domingos Afonso continua narrando suas habilidades com os
animais:

Agora em termo de amansar animal, antigamente você montava


num burro ou num cavalo só dava chicotada. Hoje não, tem a
doma, o curso de doma, quando você monta num cavalo ele falta
conversar. E eu acho que vai conversar ainda. Porque
antigamente a gente batia pra ele pular, mas hoje não, você
conversa com o animal e já monta nele ele sabendo de tudo.
Mudou tudo, hoje tem muito curso de doma de animal.
Antigamente você montava num animal e tinha vontade de bater
nele. Uns amansavam fácil, outros ficavam assombrados de tanto
apanhar. Agora eu sempre fui muito jeitoso com as coisas, com
cavalo e boi. Hoje eu não amanso boi porque eu já estou com
sessenta anos. Eu vejo esses meninos modernos mexendo com
as coisas e eu fico até com pena deles. Porque eles não têm
aquele carinho, jeito pras coisas. Antigamente eu tinha o dom de
mexer com as coisas, de tirar leite, amansar bois (Domingos
Afonso).
Segurando o carro vão os bois mais fortes também conhecidos como
bois de cabeçalho. São eles que sustentam o carro na canga e obedecem
primeiramente aos comandos do carreiro. Costumam ser muito mansos e é quase
uma extensão da família em muitos casos. Na frente do cabeçalho, ou no meio
do terno, são colocados os bois bravos que serão amansados. E, completando o
terno, na frente dos bois bravos vão os bois de guia. São animais já mansos que
ajudam a arrastar o carro e a segurar as investidas dos bois bravos.
196

Eu estou com esses boizinhos aqui, mas não fui eu que amansei.
Eles vieram com meio caminho andado. Mas eu amanso eles do
meu jeito. É porque eu nunca gostei de mexer com boi já
experimentado, que alguém já pôs a mão. Eu mesmo que gosto
de amansar, de educar do meu jeito, porque aí ele já acostuma
com a gente. Cada um tem um sistema (Domingos Afonso).

Figura 31: Tenda pertencente ao senhor Domingos Afonso


Fonte: LOPES, C.A.S. 2015.

Alguns carreiros relatam que antigamente era uma festa a primeira vez
que se colocavam garrotes no carro para amansar. Alguns pulavam, outros
deitavam e não caminhavam com a canga no pescoço, outros viravam43 a canga
para cima e quebrava os canzis44. Era um momento tenso, pois havia a
possibilidade de morte do animal por enforcamento com a brocha45 apertada no
pescoço. Alguns carreiros utilizavam os mais variados meios para fazer o boi
amuado se levantar. Alguns chegavam fogo nas ventas, outros mordiam o rabo,
outros furavam com ferrões. Enfim, esse tipo de comportamento por parte do
carreiro não é mais usado. Primeiramente, o dono dos bois quando pede algum
carreiro para amansá-los não aceita que os machuquem e, também, a

43
O animal que vira a canga é considerado um animal ruim de serviço. O ato de virar a canga
consiste no boi colocá-la para baixo do pescoço, quando o correto é ela ficar sobre o pescoço.
44
O canzil é feito de madeira e é colocado na canga para segurar o pescoço do boi. Uma espécie
de gancho que permite amarração da brocha.
45
A brocha é feita de couro cru trançado. É amarrada nos canzis e serve para prender a canga no
pescoço do boi.
197

mentalidade dos carreiros foi mudada a partir da percepção e da necessidade de


mais diálogo com o animal ao invés de violência.

Quando um boi deitava pra gente levantar ele era na maldade


pura. Aqui colocava até fogo. Eu não fazia isso. Tinha gente que
afogava o boi amarrando uma correia nas ventas dele pra ele
sufocar. Aí na ânsia da morte ele levantava. Mas o boi é
inteligente, muito inteligente. O cavalo eu acho que é mais
inteligente que o boi, mas o boi, ele não fala, mas que ele sabe
das coisas isso ele sabe. Se você chamar o boi pelo nome onde
ele tiver ele vem, encosta pra colocar a canga, faz o que você
quiser. Tem boi ignorante, mas a maioria é ativo demais. Volta
fulano, volta cicrano. A gente conversa com o animal e ele sabe o
que tá acontecendo (Domingos Afonso).
Se tudo desse certo e os bois caminhassem tranquilos o processo de
amansamento duraria pouco. A duração do tempo de amansamento de uma junta
de boi depende da forma como o carreiro trabalha os animais e também da
intensidade do serviço. O tempo médio de amansamento é de aproximadamente
seis meses. Informações coletadas junto aos carreiros de São Leandro informam
que, antigamente, “boi brabo era amansado no cacete, no ferrão”, mas que
atualmente as técnicas violentas e de agressão aos animais não são usadas.
Além disso, não funcionam, pois deixam os animais ariscos.

Antes amansava era boi grande mesmo. Hoje o bezerro já sai do


peito da vaca você pega ele até pelo cabelo. Hoje já amansa o
animal com um ano e meio a dois anos. Antigamente era com
cinco anos. Tudo modernizou, até a gente mesmo. Antigamente
uma menina para ser uma moça ela tinha que ter dezoito anos,
hoje em dia é com onze, doze anos já virou moça (Domingos
Afonso).
198

Figura 32: Os bois alinhados para o trabalho.

Quando estão praticamente mansos os animais são colocados para


trabalhar sozinhos ou em companhia de mais uma junta. Geralmente se trabalha
com quatro bois no carro no Norte de Minas. Mas em pequenos trabalhos e
cargas leves costuma se usar apenas dois bois.

Para sair com a tenda46 o carreiro precisa se certificar que pegou todas
as ferramentas e acessórios que possa necessitar em sua viagem. Há a
necessidade de um machado que vai sempre sobre a mesa do carro, pois pode
precisar cortar alguma coisa como lenha ou algum tronco deitado que impeça a
passagem do carro. Uma corda para amarrar a carga transportada, um facão e
uma cabaça com água. Geralmente a corda e o facão seguem pendurados em
um dos fueiros47 do carro.

6.5 Pegando o estradão

Assim como no Nordeste brasileiro, a vida carreira no Norte de Minas


sempre foi e ainda é recheada de vários sentidos. Sejam eles socioeconômicos
ou culturais, esses sentidos trazidos à tona pela memória de velhos e novos
carreiros, quando observados pacientemente à luz das teorias antropológicas
46
A tenda é formada pelo carro e pelos bois. É comum na região norte mineira quando alguém
não tem carro nem bois e precisa carregar alguma carga pedir emprestada a tenda a alguém.
47
São pedaços de madeira colocados sobre a mesa do carro que ajudam a prender a carga e
permitem a aumentar a capacidade de transporte do carro.
199

permitem desvelarmos os perfis mais ocultos dos sujeitos observados e


analisados que dão forma à vida carreira no sertão. Seja solitário nas viagens ou
acompanhado por um guieiro, o carreiro brasileiro é encantado pelo ofício que
realiza e, orgulhosamente se afirma constantemente como tal.

O carreiro aposentado Tone Ferro vive com sua família em sua


propriedade às margens do rio Pacuí na comunidade rural de São Leandro no
município de Coração de Jesus. Viúvo, atualmente vive com seu filho caçula e
sua esposa na mesma casa antiga. Jura que só sai da velha casa, morto. Com
cabelos e bigode branco o velho carreiro vive sua vida no sossego das beiradas
do Pacuí e, raramente, deixa sua propriedade para ir de encontro ao agito nas
cidades de Coração de Jesus e Montes Claros.

Acometido por um problema de saúde que o deixou com dificuldades


de caminhar, este senhor ainda trabalha bastante com enxada e foice. Aos
setenta e cinco anos ainda planta uma grande roça de milho que cuida sozinho.
Não costuma colocar ninguém para ajudá-lo a limpar nem colher, apenas para
carregar a colheita pede ajuda ao filho caçula que mora com ele.

Conhecido localmente por “ser sistemático” com suas coisas, o velho


carreiro costuma se virar sozinho. “Eu mesmo gosto de fazer minhas coisas. As
vezes a gente coloca um camarada e ele não faz nada, só come o dinheiro da
gente”. É admirado pelos vizinhos por ser dedicado ao trabalho, mesmo com a
locomoção limitada, pois depende de uma pequena bengala para se manter de
pé.

O tempo passou e o velho carreiro teve que se adaptar à velocidade


imposta a vida no campo. Defensor dos saberes tradicionais e das formas antigas
de relacionamento, como honrar com o combinado e prometido, o velho carreiro
em conversas estabelecidas comigo por várias vezes afirmou-me que não está
entendendo como as coisas estão mudando rapidamente. “É carro, é moto, é
ônibus, é caminhão. Tudo hoje tá rápido e a gente não pode perder tempo”.

Com as mudanças na vida, o velho carreiro já impossibilitado de


carrear por problemas físicos decidiu juntamente com seu filho comprar um
pequeno trator para realizar os serviços da propriedade. É uma forma de
200

aumentar a produção da propriedade sem abrir mão da tradição e do apego aos


bois carreiros.

Olha, eu comprei esse trator aqui pra fazer esse serviçinho nosso.
Arar uma terra, buscar uma lenha mais longe. Mas eu não abro
mão dos meus bois. Sem boi eu nunca fiquei e não vai ser agora
que vou ficar. Até porque o trator é muito bom, mas tem lugar que
ele não vai. Só os bois passam. Se a carroça não for a gente da
um jeito de arrastar com os bois. É o tal negócio, tem coisa que é
pra ajudar a gente, e se for pra ajudar é claro que eu quero! Por
exemplo, uma viagem longa se você fizer com o trator é melhor, é
mais ligeiro. Os bois vão também com o carroção, mas demora
muito. E hoje em dia tem coisa que não pode esperar senão
perde, não é? (Tone Ferro).
O processo de modernização da propriedade com a aquisição de um
trator já usado, mas em bom estado de conservação, colocou o velho carreiro na
rota do desenvolvimento e produção mais intensa. Mas o ritmo do velho carreiro
ainda é o antigo. Sem pressa, organiza suas coisas e recomenda aos filhos
sempre ter cuidado com os perigos da modernidade. Volta e meia é flagrado
olhando pensativo para o trator. “Mas o que será que passa na cabeça desse
velho?”, perguntou-me seu filho caçula Wagner durante conversa ao lado da
cancela que da entrada para o quintal da casa.

Assim como outros ofícios e profissões, esse também é um saber


transmitido de pai para filho que ainda é visto no Norte de Minas, mesmo em
tempo de modernização do campo onde os caminhões e tratores realizam com
maior eficiência os transportes de cargas. Mas não significa que o trabalho do
carreiro não produza eficácia. Mais lento que os tratores e os caminhões, o carro
de boi com seu carreiro bravio penetra em locais e lugares onde os veículos
motorizados são impossibilitados de entrar. Essa expertise legada ao carro de boi
aliada à intrepidez dos carreiros que permitiu que esse meio de transporte não
desaparecesse totalmente nos tempos atuais.

Eu explico ao senhor que naquela época, na época do meu pai


não existia caminhão. O transporte do povo era feito através do
carro de boi e meu pai era considerado um caminhoneiro com seu
carro de boi. Ele colocava seis bois no carro, ou seja, um terno.
Um terno de boi era formado por três juntas de bois que eram
selecionadas para o trabalho. Meu pai tinha dois ternos de bois.
Quando ele chegava de uma viagem ele soltava o terno que
estava trabalhando e pegava o outro que ficou descansando
(Tone Ferro).
201

Era comum a quem possuía mais de uma junta de bois no tempo das
águas, onde não há muito serviço, soltá-los na larga para descanso e engorda. A
larga era um espaço de uso comum ou coletivo e que atualmente é ocupado por
empresas reflorestadoras que plantam eucalipto para a produção de carvão
vegetal. Era usado para extrativismo de frutas, ervas medicinais e lenha pelas
famílias das comunidades próximas, mas, diante da proibição da solta e também
do desmatamento, essas atividades foram extintas. Ainda há lugares onde
algumas pessoas soltam seu gado para pastar algum capim dentro das
plantações de eucalipto.

Nesse processo de atualização dos saberes que atualmente são


conhecidos como tradicionais e que para muitos ainda está vinculado a um
passado de atraso, arcaico, que deve ser imediatamente superado, o ofício de
carreiro parece ser um dos que ainda resistem. Como afirmado anteriormente,
esse saber “carrear” é aprendido ainda cedo pelo filho que acompanha o pai nos
trabalhos com carro de boi desempenhando inicialmente a função de guieiro.

Meu Deus! Eu desde a idade de doze anos até a idade que adoeci
foi amansando boi e carreando. Deixava os bois atrelados por uns
dias até eles acostumarem e depois a gente colocava no carro, no
meio dos outros bois já mansos. Porque funciona assim: tem os
bois do cabeçalho que são aqueles que ficam perto do carro, que
aguentam o carro no pescoço, e tem também dos bois da frente
que arrastam o carro. Assim você coloca os que estão amansando
entre essas duas juntas de bois que já são mansas (Tone Ferro).
Em seu cotidiano e ao acompanhar o pai no trabalho, o menino
apreende a intimidade que se deve ter com os animais e com o carro, tidos pelos
carreiros como grande paixão, motivo até mesmo de ciúmes em suas famílias,
como afirma o carreiro aqui ouvido.

Eu era moleque e era o guieiro dos bois de meu pai e eu guiava


os bois para ele. Cortávamos direto desse jeito, desde meu tempo
de criança. E quando começou a diminuir o transporte com o carro
de boi, a função dele era amansar bois, pegava aqueles “boião”,
que naquela época amansava bois grandes. Hoje em dia só
amansa bezerros. Antes era boi de cinco anos, colocava a canga
e começava a trabalhar. Então a profissão do meu pai era essa,
carreiro. Criou a família. Criou doze filhos, todos com essa
profissão (Tone Ferro).
No silêncio da paisagem rural sertaneja era comum, hoje menos, ouvir-
se ao longe sob a poeira das estradas esburacadas do sertão o som triste,
202

gemido e melancólico de um carro de boi. Estridente ou chocho, o canto dos


carros de bois subindo as ladeiras ou sendo arrastados nos areões das chapadas
foi por muito tempo um dos sons que se ouvia no sertão. Antes, as famílias que
habitavam as margens das estradas carreiras quando ouviam o som triste do
carro de boi logo imaginavam que uma carga qualquer ou algo importante estava
sendo transportado. São muitas, inúmeras, diversificadas. Eram riquezas que
circulavam e faziam da paisagem sertaneja um grande comércio onde trocas
eram realizadas e relações sociais construídas e constantemente afirmadas. O
som do carro de boi exprimia e ainda exprime paciência, dedicação, coragem. É
um som para ser apreciado pelos ouvidos mais adestrados ao canto das estradas,
para os olhos que nunca se cansam de olhar o horizonte e para as mentes que
não refugam o passado.

O velho carreiro, nostálgico, mas que ainda ensina a arte de carrear


aos seus filhos emociona-se ao relatar umas das coisas que mais gostava de
fazer em seu tempo de “carreança”, ouvir o som do carro.

A coisa que eu mais gostava era “afinar um carro pra cantar


bonito”. Eu enchia o carro, colocava peso nele e quando ele
começava a cantar e eu achava que não estava do jeito, então eu
entrava debaixo dele, colocava as cunhas e fazia ele cantar
direitinho. No carro de boi tem os “cocões” e você coloca as
cunhas para ele cantar do jeito que você quer. Afinar carro é igual
afinar viola, tem que saber. Quando o carro cantava sanfonado
todo mundo parava para escutar (Tone Ferro).
Os sentidos produzidos ao longo da vida pela atividade carreira
permanecem no imaginário dos carreiros. Como afirmado pelo velho carreiro, o
saber aprendido com os ancestrais permanece para vida toda e vai sendo
transmitido às outras gerações, como fez o carreiro Tone Ferro com seus filhos
que aprenderam tal ofício.

Morador das barrancas do rio Pacuí, esse carreiro mora em seu sítio
que nos últimos tempos passou a ser lugar de morada de alguns filhos que se
casaram e fixaram novas moradias no terreno. Criando gado em suas terras e
cultivando lavouras de milho e feijão, o carreiro ainda possui algumas juntas de
bois, sobras de um passado glorioso de muito trabalho para os carreiros. Essas
juntas de bois são utilizadas por seus filhos em pequenos trabalhos tanto em sua
propriedade quanto fora dela. São usadas, agora com menos intensidade,
203

também, em um engenho com moendas de madeira que necessitam ser tocadas


por animais.

Nos tempos atuais o trabalho com os bois na propriedade e também na


região do médio Pacuí se resume a pequenos serviços, coisa rápida, como afirma
Marcos Antonio, filho do velho carreiro Tone Ferro e que também se declara
carreiro.

Hoje em dia o serviço de carro de boi diminuiu demais. A


gente pode falar que acabou. Se o cara for sustentar sua
família com o trabalho de carreiro ele vai passar é fome.
Hoje qualquer coisa que a gente for carregar tem trator, tem
caminhão. Nós temos esses bois aqui é para o serviço
nosso aqui, da família. E pai também não gosta de ficar sem
uma junta de boi. Mas serviço mesmo de carreiro não tem
mais. E ninguém também quer mexer com isso mais não. Eu
levo esse menino meu filho comigo para aprender, mas eu
quero mesmo é que ele estude (Marcos Antonio).
Na fala desse carreiro da nova geração é perceptível a preocupação
com o futuro do ofício de carreiro. Quando afirma que “ninguém quer mexer com
isso mais não” o mesmo profetiza o esquecimento do ofício. Com a reestruturação
produtiva advinda com a modernidade, novas formas de transportes foram
inseridas no meio rural e, antes o sertão visto como atrasado passou a reproduzir
as coisas da modernidade. Inegavelmente mais ágil e eficiente, mas eficaz como
o lento carro de boi, a nova estrutura de transportes de cargas tem nos
caminhões e tratores seus representantes mais robustos. Produzidos para agilizar
a vida moderna, esses veículos quando penetraram no sertão mineiro, bem como
em outras regiões do Brasil, iniciaram o desmantelamento das estruturas
econômicas e sociais construídas ao longo do tempo e que tinham como esteios a
atividade pastoril e os ofícios oriundos dessa atividade como os vaqueiros e os
carreiros.

A inauguração do novo tempo no campo brasileiro foi compreendida


por Maria Aparecida de Moraes Silva (1999) como uma modernização trágica.
Para essa autora, que analisou a vida de moradores do vale do Jequitinhonha em
Minas Gerais que migravam para os canaviais de São Paulo a procura de
trabalho, os mecanismos que foram impostos à vida rural brasileira com os
financiamentos e subsídios para criação de grandes florestas de eucalipto e pinus
204

concedidos pelo Governo Federal a partir da década de 1960 desestruturaram


bruscamente a vida do trabalhador levando a tragédia ao campo. Essa
modernização é trágica porque alia expropriação, exploração-dominação e a
exclusão. Sem trabalho em sua região, pois as grandes florestas não requerem
muita mão de obra por muito tempo, os “deserdados da terra” como afirma Moura
(1988) foram forçados a abandonar o sertão mineiro a procura de novas
alternativas de vida.

Nos campos brasileiros, especificamente no Norte de Minas, o que há


é uma atualização dos ofícios. Essas atualizações podem ser percebidas no
próprio instrumento de trabalho dos carreiros que são os carros de bois. Antes
pesados, robustos, com rodas de madeiras e ferragens, hoje em dia os carros
foram transformados em carroças ou carroções com rodas de rolamentos e
pneus. Essa modificação é oriunda dos processos de modernização que
passaram a ocorrer no meio rural brasileiro e atingiu profundamente a vida dos
carreiros.

A diferença entre as carroças e os carros de bois é perceptível a


qualquer observador. Primeiramente, as carroças não cantam. Isso já é, em si,
uma tragédia para os velhos. A justificativa para essas modificações é afirmada
pelos carreiros atuais como sendo necessária.

A carroça é mais maneira. As rodas com pneus deixam ela mais


leve, facilita pros bois. E também não precisa de muitos bois pra
puxar ela, apenas uma junta, dependendo do terreno, da pra
arrastar. Ela também facilita nas estradas, os bois caminham mais
rápido (Marco Antonio”).
205

Figura 33: Bois aguardando a partida para o trabalho


Fonte: LOPES, C.A.S. 2015

Mas para os velhos carreiros essa modernização significa o


rompimento com o passado. Mais que o rompimento com as estruturas
consolidadas há uma questão simbólica importantíssima que está vinculada ao
uso dos carros de boi no sertão mineiro. Tido como gerador de status para o dono
que o possuía completo, com os bois e os demais apetrechos, o carro de boi
juntamente com os bois representam um passado de prestigio e também de
solidariedade.
Hoje em dia quase não tem mais isso. Quase não tem carro de
boi. Hoje em dia é só carroção. Mas antigamente era só carro de
boi. Os carros de bois acabaram porque com o carroção você
trabalha apenas com dois bois. Já o carro de boi pra puxar ele
cheio tinha que ser seis bois. Já o carroção tem rolamento na
roda, é leve, por isso apenas dois bois conseguem puxar. O carro
de boi era apertado no cocão pra andar. Muito mais pesado que o
carroção. Por isso que o carro canta, porque é muito apertado nos
cocões. Mas o carro de boi era melhor porque você passava em
qualquer lugar e com o carroção já não é assim (Tone ferro).
206

Figura 34: Carreiro carregando cana com apenas dois bois na carroça
Fonte: LOPES, C.A.S. 2015

Carreiro afamado na região onde mora, as beiradas do Pacuí, o


carreiro Domingos Afonso sempre trabalhou com carro de boi e localmente é
conhecido por suas habilidades em amansar bois carreiros. Vaqueiros de outras
comunidades se referem a ele como o melhor amansador de boi carreiro da
região, pois, como informou em outra parte deste texto o vaqueiro Jorge Fonseca
“ele não deixava os bois com manias ruins”. Mas esse mesmo vaqueiro que o
elogia como grande carreiro e amansador de boi critica-o ferozmente por
incorporar bens da modernidade em sua vida. “Hoje em dia ele não quer mais
mexer com amansar boi e nem carrear. Ele agora só fica em cima de moto, pra
cima e pra baixo” (Jorge Fonseca).

Domingos Afonso lembra que seu pai, o velho Gentil Fonseca,


afamado localmente por sua solidariedade e valentia possuiu no passado várias
juntas de bois carreiros e afirma, orgulhosamente, “os bois de pai criaram muitas
famílias por aqui”. Para ele, que também possuía várias juntas de bois e agora
possui apenas duas, “ajudar quem precisa sempre é uma qualidade e faz bem.
Esses bois meu eu sempre emprestei para quem precisasse. Eles ajudaram a
criar muitas famílias também”.

Olha, eu sempre mexi com boi, desde pequeno eu carreava com


pai. Aprendi com ele. Aprendi a arrear os bois muito cedo. A gente
fazia todo tipo de trabalho. Moía cana, arava terra, carreava lenha,
207

areia, todo tipo de serviço. Mas é uma pena que isso ta acabando.
Pouca gente hoje tem boi carreiro. O serviço que boi faz hoje é
pouquinho. Eu não amanso mais boi porque não tem boi pra
amansar e estou velho, porque se tivesse eu botava eles no carro
na hora (Domingos Afonso).
Há que considerar que no discurso do carreiro é possível perceber a
influência dos novos tempos na diminuição dos bois carreiros e
consequentemente dos carreiros. Quando afirma que “não tem boi pra amansar”
nos tempos atuais nos leva a pensar nas grandes fazendas ou empresas rurais
que foram montadas com financiamentos públicos e criam grande quantidade de
gado nelore branco. Como já mencionado, esse tipo de gado não é apropriado
para o trabalho, pois é um animal difícil de amansar e domesticar, diferentes de
outras raças bovinas como a gir ou o gado mestiço, misturado. “Antigamente tinha
de toda raça, mas eu gostava mesmo era dos bois curraleiros porque eles
ficavam melhores depois de amansados” (Tone Ferro).

Quando questionados sobre a vida carreira que levavam os carreiros


foram unânimes em afirmar a paixão pelo que faziam. Diferente dos carreiros
atuais que são temerosos quanto ao futuro do carro de boi devido às influências e
transformações que sofreram, os carreiros antigos se consideram trabalhadores
abençoados. A arte de prover a vida em condições desconfortáveis seja pelas
intempéries da natureza como a chuva ou o sol ou mesmo pela ação do homem
que não se preocupava em melhorar as condições das estradas, os carreiros se
mostram felizes.

O serviço de carreiro acabou mesmo foi por causa do “transporte


de gasolina” que aumentou muito. É ônibus, é caminhão, esse tipo
de transporte. Como se diz, o povo mais novo não quer mais
saber disso não. Quer uma coisa mais fácil. O povo mais novo só
quer moleza, não quer mais saber disso. Agora hoje tudo
modernizou. Nem carro velho o povo quer ter mais. Antigamente
era cavalo e burro. Pai trabalhou doze anos indo a Montes Claros
com carro sambueiro. Era tanta chuva que o couro usado pra
cobrir a carga pegava bicho. A lona do carro sambueiro era o
couro de boi. Assim pai contava, mas eu não vivi isso não. Eles
arrancavam toda a sola dos pés andando descalço (Domingos
Afonso).
As histórias dos carreiros e também dos demais trabalhadores do
couro, assim como o passado são constantemente rememorados e os vinculam
cada vez mais a um tempo de sofrimento nas estradas do sertão. Importante
208

lembrar que esses portadores desse saber fazer produziram a vida material e
social longe dos confortos que a vida moderna oferece hoje. As viagens
intermináveis, a solidão e o cansaço eram superados pela determinação, mas
também pela necessidade de se reproduzirem material e socialmente. Conforme
aponta o velho carreiro em sua fala, as incertezas do ofício eram muitos e os
riscos também.

Antigamente meu pai levava pra Montes Claros era dez ou doze
capados gordos grandes, de sete arrobas acima. Primeiro levava
no carro de boi. Depois passaram a ir a pé porque não tinha
estrada passando pelo Rebentão. Eles iam com umas cuias de
milho chamando os porcos. Daí o porco andava dez metros e
tinha que esperar ele. Ele ia hora que ele queria. Isso é vida? Isso
não é vida não! Eles faziam um cigarro de palha da grossura de
uma pamonha, levava cabaça d’água. Os porcos pra subir uma
ladeira dava trabalho demais. Tinha porco que rachava de tão
gordo, aí tinha que barrear o local da rachadura, pois o toucinho é
morto, é muito fraco (Domingos Afonso).
Ao herdar dos pais esse saber fazer, os carreiros se colocam como
construtores de uma vida itinerante. Transportando cargas para fazendeiros e
comerciantes locais, além do trabalho interno nas propriedades, o canto dos
carros de bois cortavam o sertão e chegavam às cidades. Mas voltavam logo.

O meu pai carreava tanto para ele quanto para os outros. Mais era
para os outros. Porque esses comerciantes pequenos aqui da
roça, esses comércios pequenos, não tinha caminhão para
transportar a mercadoria para eles e daí eles tinham que arrumar
o carro de boi. Meu pai mesmo ele corria para a cidade para já
voltar com a mercadoria deles. A gente ia a Montes Claros e trazia
as mercadorias para esses “comercinhos” aqui da Lapinha, de
Alvação. Esses comerciantes que tinham por aqui era o meu pai
que trazia as mercadorias para eles todos. Tudo era transportado
no carro de boi. Não tinha estrada por aqui, aí a gente jogava “os
trem” dentro do carro. Mas meu pai era caprichoso mesmo era
para “lonar” um carro de boi. Abria um couro de boi por cima dos
“fueiros” do carro para não molhar nada em tempos de chuva. Ele
fazia isso sempre. Chegava numa semana e voltava na outra.
Vivia no trecho direto, ou como dizem, era o caminhoneiro desse
tempo (Tone Ferro).
A fala do carreiro nos remete ao princípio da discussão acerca do papel
do carro de boi e dos carreiros desde a chegada dos portugueses ao Brasil no
século XVI, aquela de que o carro de boi serviu inicialmente às elites rurais para
acúmulo de riquezas e também como gerador de prestígio entre essa elite rural.
Os trabalhadores que serviram às primeiras elites rurais, os escravos, e também
209

os trabalhadores livres que sucederam os escravos continuaram por muito tempo


amarrados aos membros dessas elites rurais, fossem eles fazendeiros ou
comerciantes, estes, sempre dispunham de um carro e mantinham influência
sobre boa quantidade de trabalhadores.

A arte de carrear, como é citada pelos carreiros aqui ouvidos,


atravessou gerações e chegou ao século XXI sofrendo modificações impostas
pelos tempos modernos. Com as carroças, ao invés do velho e pesado carro de
boi, os carreiros modernos herdaram a tradição, mas a atualizaram e a atualizam
constantemente a fim de diminuir as dificuldades do ofício. Mas a paixão pelo
ofício e também pelos bois supera as modificações forçadas frente ao carro de
boi. Carreiros e carros, parceiros inseparáveis agora parecem viver um litígio
devido às novas formas de fazer a vida no sertão. Mas é preciso se reinventar,
sempre, é o que se pode apreender ante a perplexidade que alguns carreiros
enxergam esses tempos, principalmente os mais velhos.

Representante de uma velha geração de carreiros que percorreu o


sertão mineiro com as mais diversas cargas, Tone Ferro informa que jamais irá se
afastar da vida carreira. Hoje com dificuldades de locomoção devido à um
derrame cerebral que sofreu há alguns anos, o carreiro revive o passado e vive o
presente trabalhando em sua propriedade capinando e plantando sua roça de
milho no período chuvoso que vai de novembro a março. Indagado sobre o que
mais sente falta hoje em dia, ele é categórico ao responder: “do meu tempo de
carreiro”.

Lembro ao leitor que, a partir das conversas estabelecidas com


diferentes carreiros, a relação entre carreiros e bois é quase parental, é o que
afirmam os carreiros do Norte de Minas. Melo (1954) ao estudar a vida carreira
potiguar também informa a relação de afeto que sempre existiu entre carreiros e
seus bois.

São incontáveis aos labôres de carreiros. A diferença entre a vida


carreira e os suasórios trabalhos da enxada, era evidente. De
maneira que aos pesados rojões dos roçados de algodão, o
carreiro preferia a vida meio livre e ronceira do carro de boi. Livre,
sim, porque não vivia preso às imposições da gleba, plantando
batata na areia do rio, algodão e milho nas várzeas. Tinha um
roçadinho pequeno, um pedaço onde plantava o milho, o feijão e a
melancia. Tinha-o não como base, mas como complemento. A
210

base era o carro. Eram os bois, gôrdos, possantes que lhe davam
de comer e de vestir. Que criavam os seus filhos, alimentavam
sua mulher e lhe davam alegrias que o roçado não compensava.
Por tudo isso era natural o seu apêgo ao carro de boi. Aquele
canto macio, penetrando a vida tôda pelos ouvidos, impregnando
os espíritos daquela ressonância bôa e adormecente; a lealdade
dos bois, a mansidão, e até a cavilação de muitos dêles, olhando
compassivamente o seu dono, cheirando-lhe a roupa numa atitude
de reconhecimento; a inteligência distintiva de todos,
especialmente da junta do pé do carro, tudo isso contribuía para
tornar o carreiro cada vêz mais prêso aos mistéres da profissão,
desdenhando qualquer tentativa de lucro na lavoura ou na
vaqueirice (MELO, 1954, p. 213).
Essa preferência pela vida itinerante do carreiro não foi
percebida apenas nos estudos do autor acima sobre a vida do carreiro potiguar.
Ela se aplica, também, aos carreiros do Norte de Minas cujo modo de vida se
assemelha ao descrito pelo autor. Sinônimo de liberdade, as viagens
representavam sempre o novo para o carreiro, independente da viagem que iria
realizar. Além disso, havia sempre a companhia dos seus parceiros, os bois,
como informa o carreiro abaixo.

Os bois de carro são como parentes da gente, como membros da


família, por isso damos nomes a eles e também tratamos com
muito carinho. O boi carreiro tem mais carinho que o ser humano.
Porque o boi carreiro se você começar dar carinho a ele o mesmo
pega amor em você igualzinho um ser humano. Aonde você
chamar pode ter certeza que ele vai. Eu tinha uns bois aqui que se
chamava Palanque e Português. Eu não precisava ir longe buscá-
los. Era só chegar ali na porteira e gritar eles que eles vinham
certinho. Eles berravam e vinham até encostar em mim para
colocar a canga para ir trabalhar (Tone Ferro).
Questionado se pela intensa relação estabelecida os bois poderiam ser
parentes do carreiro, a reposta dada pelo velho carreiro foi taxativa:

O boi é quase um parente sim. Os bichos compreendem


tudo. Quando você coloca nome num boi, o bicho é tão
compreendido que com poucas vezes que você grita pelo
nome ele já sabe que é com ele a coisa. Quando você grita
pelo nome ele já sabe que é com ele e também o que é pra
fazer. Tudo que você pede um boi ele faz. Se pedir para ir
pra frente ele vai. Se for pra afastar e faz também. Então o
bicho é muito entendido. Por isso que damos nomes aos
bois. Eu tinha dois boizinhos aqui que quando eu vendi eles
eu peguei a chorar. Os meninos morriam de rir de mim. Eles
se chamavam Navio e Navegante. Chorei como uma criança
porque eu tinha amor nos bichinhos (Tone Ferro).
211

As relações de afeto entre homem e animal, como afirmado aqui,


dependem também da vocação do sujeito que se inicia. Assim como ocorre com
os vaqueiros que são iniciados no ofício desde criança, os carreiros são iniciados
como guieiros e durante o processo de aprendizado desenvolvem essa relação de
afinidade, principalmente se os bois já estão na família há bastante tempo. Essas
estratégias usadas nas relações diárias com os bois são cruciais no que podemos
chamar de “reciprocidade” entre carreiros e bois. Essa troca depende sempre da
vontade do carreiro em lidar, amansar, e adestrar o animal escolhido, permitindo
assim, fortalecer a relação de proximidade que se dá no início do processo de
amansamento dos bois. Além disso, o carreiro deve saber escolher as juntas,
nunca devendo colocar um animal mais forte que outro, devendo sempre tentar
equipará-los no tamanho e na força.

Com a modernização do campo brasileiro e no Norte de Minas através


da implantação de florestas homogêneas de eucalipto e pinus houve a construção
e melhoria de estradas que cortam fazendas e comunidades o que permitiu a
chegada cada vez mais frequente de caminhões, o que, diretamente,
marginalizou o trabalho dos carreiros e consequentemente do carro de boi. O
avanço dos meios de transportes modernos sobre o sertão abriu um fenda entre o
tradicional e o moderno. Essa fenda representa o afastamento quase que
definitivo dos carreiros das estradas poeirentas do sertão.

Se para muitos o carro de boi representa o atraso e os carreiros os


portadores desse atraso, para os que dependem desse meio de transporte isso
nada mais é que o preconceito contra o homem do campo daqueles que se
julgam civilizados e modernos. A transferência simbólica do poder do horror que
os carros passaram a representar em pleno século XXI rompe com o papel social
que estes representaram na história brasileira. Primeiramente como símbolo de
status e prestígio para os senhores rurais e, posteriormente, como único meio de
transporte capaz de transportar maior quantidade de carga durante muitos anos
no Brasil, o carro de boi foi fundamental na consolidação da elite rural brasileira e
na afirmação dos carreiros como portadores de saberes que hoje são entendidos
como tradicionais.
212

Mas essa tradicionalidade corre sérios riscos de desaparecer. O


progresso imposto verticalmente ao campo brasileiro aterra um passado vinculado
à vida pastoril e ao trabalho no e do campo. Hoje, a perspectiva dos velhos
carreiros é de que em poucos anos seja decretado o fim dos carros. Ultimamente,
os carros de boi são vistos apenas expostos em fazendas e museus, relegados,
cabendo a estes o papel de símbolo de um passado e não coisa do presente, da
modernidade.
213

CAPÍTULO VII

NA GARUPA DO DESTINO:
Os seleiros do sertão mineiro
214

7.1 Revisitando os couros: cavalgadas, vaquejadas e team peanning

Quem é santo neste mundo? Eu, não, felizmente! Se Deus


me quisesse para santo, me domava com rédea curta: com
firmeza no frio do freio de ferro, dentro de minha boca; com
esporas sangrando minhas virilhas. Assim entregue a mim,
como vim vivendo, montado de cabresto e calcanhar nu,
meu reino era daqui. Tinha de ser (Darcy Ribeiro, O Mulo).

Aqui, apresento uma análise acerca das trajetórias sociais de alguns


trabalhadores do couro na região norte de Minas Gerais e as descontinuidades
impostas pela modernização das relações socais e de trabalho. Importante
criatório de gado desde o princípio do povoamento da região do vale do rio São
Francisco, a região atravessou o tempo e se consolidou como um dos melhores
lugares do país para a atividade pecuária, haja vista o clima quente que favorece
a criação de gado bovino bem como áreas planas propícias ao estabelecimento
de áreas de pastagens.

Há tempos que o ciclo do couro não é mais preponderante na região. A


industrialização, advinda a partir da modernização do Brasil, precipitou inúmeras
atividades produtivas que partiam da vida no campo e se complementavam com a
mão de obra especializada de trabalhadores que viam na sua força de trabalho a
alavanca que daria partida para sua reprodução social, cultural e material. Os
trabalhadores do couro, aqui entendidos como seleiros e trançadores, sempre
desenvolveram importante papel na “sociedade pastoril aqui fundada” (COSTA,
2003). É certo que esses trabalhadores foram criados e formados a partir da
manutenção e expansão de um modo de vida baseado no trabalho do campo que
cada vez mais exigia pessoas capacitadas para desenvolverem atividades com o
couro. Seja o couro, cru ou curtido, este necessitava de habilidades para
manuseá-lo, pois, assim como qualquer material utilizado para elaborar uma arte,
o couro requer atenção e disciplina em seu processo de transformação.

Com o couro do boi, esses trabalhadores desenvolveram peças


importantes para a reprodução da vida no campo. Do couro eram e ainda são
feitos os arreios para animais de serviço48 como selas, cabeçadas, cabrestos e

48
No meio rural a categoria “animal de serviço” refere-se aos bois carreiros, cavalos, burros,
mulas e jumentos. Esses animais são amansados e posteriormente utilizados cotidianamente na
215

rédeas, bem como chicotes, alforjes, bruacas e guaiacas que passaram a fazer
parte da vida do trabalhador rural, seja para o trabalho diário ou para transporte
de cargas. Desse modo, a vida no campo passou a ser regulada pelo trabalho
com a pecuária e, assim, cada vez mais essa sociedade passou a afirmar-se
como pastoril, pois prevalecia sempre a atividade pecuária e a criação e
ampliação de formas de saber-fazer a partir da criação do gado bovino.

Já foi afirmada em outras partes deste texto que a área de análise é a


região norte mineira conhecida como sertão mineiro. Importante área de transição
eco-geográfica que traz em sua trajetória desde seu processo de ocupação
realizado por bandeirantes paulistas o trabalho com o gado. Afinal, foi do gado
que Minas Gerais se consolidou, pois o gado criado nos geraes ou gerais era
enviado para a região das minas de ouro para alimentar os trabalhadores e
também serem utilizados como animais de carga (cf Costa, 2003; Zemella, 1990).

Os trabalhadores do couro, diante do processo de modernização do


campo e pelas incertezas climáticas, encontram-se em uma situação delicada.
Estão na encruzilhada criada pela industrialização que teve como consequência o
esvaziamento do campo que, consequentemente, diminuiu a procura por produtos
elaborados por seleiros e trançadores. Mas eles ainda são encontrados no sertão
mineiro. Parecem esvaziados de produção e sentidos, mas estão na ativa
produzindo e disseminando seu saber entre os mais jovens, mesmo com a
desconfiança destes que preferem ofícios mais modernos ao trabalho duro com o
couro.

O trabalho com o couro no início do século XXI passou a ser oxigenado


pelo aumento de eventos esportivos equestres no universo rural como
vaquejadas, cavalgadas e team penning. Esses eventos tornaram-se cotidianos e
tem no público jovem admirador da vida no campo seus maiores adeptos. Essas
pessoas passaram a recorrer aos seleiros e trançadores da região para
produzirem selas que expressam em si as características do comprador, seja no
modelo de tranças ou no formato da sela, propiciando, dessa forma, uma
atualização no ofício de seleiro e trançador.

execução das mais diferentes tarefas. Sejam no pastoreio do gado ou como animais de cargas,
estes, sempre estão presentes no universo rural norte mineiro.
216

Se antes quem mais procurava os trabalhos desses profissionais eram


os produtores rurais que requisitavam as selas para os empregados nas
fazendas, agora, o público urbano que aprecia e admira os eventos vinculados à
vida no campo tornou-se potencial cliente dos trabalhadores do couro no Norte de
Minas permitindo a estes enxergarem novas perspectivas para atualizarem seus
saberes.

Para Luiz da Câmara Cascudo (1976), inicialmente, a vaquejada


consistia num processo de apartação e derrubada do gado que era criado solto
nas fazendas ainda sem cercas no Nordeste Brasileiro. Cascudo (p.14) afirma
que, posteriormente, a vaquejada, de fórmula de serviço de campo, anulada pelos
impositivos do gado raciado e limitação de pastagens com o advento do arame-
farpado, constitui uma exibição esportiva, espalhando-se pelo Brasil no
saudosismo funcional dos nordestinos emigrados.

Hoje em dia, as vaquejadas consistem em uma disputa formada por


duplas de vaqueiros que enfrentam outros vaqueiros em uma pista construída
especificamente para essa atividade. Essa pista consiste num corredor de
aproximadamente duzentos metros de comprimento por uns vinte de largura onde
os vaqueiros montados a cavalo correm atrás de uma rês com o objetivo final de
derrubá-la dentro de uma área demarcada na pista. Caso o animal não caia na
faixa marcada, é atribuída à dupla corredora a nota zero.

As vaquejadas atuais costumam colocar bons prêmios em disputa. São


motocicletas, automóveis e, também, há premiação em dinheiro. Diante disto,
cada vez mais há um número maior de corredores que se profissionalizam para
entrar na disputa dos prêmios. As vaquejadas consideradas nacionais, como a da
cidade de Coração de Jesus, costumam atrair corredores de várias partes do
Brasil.

Mais que uma simples apartação de gado como foi no princípio, as


vaquejadas onde elas acontecem tornaram-se verdadeiros espetáculos. Há uma
intensa movimentação nas cidades e localidades onde elas ocorrem, pois a
economia local é fortalecida com a presença de visitantes e vaqueiros em busca
das premiações. É um importante evento divulgador da cidade bem como da
cultura que estão inseridas essas populações.
217

Figura 35: Cavalgada da comunidade de São Leandro


Fonte: LOPES, C.A.S.2015

As cavalgadas são passeios a cavalo praticados por um coletivo de


pessoas. Geralmente são combinadas em tempo hábil para que cavaleiros e
amazonas se preparem para o evento. O percurso a ser realizado é estabelecido
anteriormente e todos os participantes disponibilizam recursos financeiros que
serão utilizados para compra de comidas e bebidas que serão servidas no término
do percurso. No Norte de Minas, é caracterizada como festa, pois, na maioria das
vezes o evento se estende até a noite com shows musicais. Na região norte
mineira, os gêneros musicais mais tocados nas festas de cavalgadas e
vaquejadas são o sertanejo e forró.

Cada vez mais essas cavalgadas são praticadas no Norte de Minas.


Vista pelos praticantes como meros passeios, as cavalgadas, assim como as
vaquejadas, costumam mobilizar as cidades e comunidades que as realizam.
Diferente das vaquejadas, nas cavalgadas não há prêmios em disputa. Essas
funcionam como instrumento de fortalecimento dos vínculos comunitários e de
pertencimentos, pois em grande parte das cavalgadas os presentes são
moradores das comunidades e cidades que estão ausentes e se encontram
durante o evento. São vistas com louvor por todas as pessoas e comunidades
que participam e organizam, pois consiste num momento de reaproximação de
pessoas e comunidades.
218

As cavalgadas se constituem num momento excepcional onde os


frequentadores costumam usar os arreios e acessórios feitos pelos trabalhadores
do couro. Selas, chicotes, cabeçadas, trabucos, peitorais e rabichos são
colocados nos animais para serem mostrados aos demais participantes da festa.

Outra importante prática esportiva que ajudou a revigorar os ofícios de


pessoas que trabalham com couro na região é o Team Penning. Este é um
esporte equestre criado nos Estados Unidos que trouxe para as pistas a mesma
situação vivida pelos peões nas fazendas. Trata-se de apartar um lote de bois e
confiná-los no curral para que fossem tratados. Hoje, tornou-se uma competição
de ritmo acelerado e excitante para os participantes e que dá a uma equipe de
três cavaleiros de 60 a 90 segundos (dependendo da categoria) para separar três
bovinos numerados de um rebanho de trinta, sendo dez grupos de três bois
numerados. No Brasil, este tempo, hoje, não é mais de 90 segundos e sim de 120
segundos. O tempo começa a ser contado quando o focinho do primeiro cavalo
cruzar a linha de partida e termina com a rês no curral49.

Figura 36: Competição de team peanning


Fonte: DUARTE, Marli. 2015

49
Informações acessadas em http://www.equinocultura.com.br/2014/09/team-penning.html.
219

Em Montes Claros, o team peanning passou a ser praticado em vários


Haras do município. A maior incentivadora do esporte na região é a Rede Intertv,
afiliada da Rede Globo de televisão que costuma organizar um circuito regional de
team peanning e divulgá-lo constantemente em sua programação regional. Com
essa divulgação o esporte passou a ser desenvolvido e praticado pela população
admiradora dos esportes equestres na região.

Essa atualização do ofício de trabalhador do couro, seja seleiro ou


trançador, tornou-se importante para a manutenção de um modo de saber-fazer
que se encontra ameaçado pelo processo produtivo industrial que chegou ao
mundo rural. Esperançosos por dias melhores, os sertanejos caminham para o
futuro tendo como muletas o passado na lida com o couro. Esse passado voltado
para a produção destinada ao homem do campo é que sustenta e revigora os
detentores desses saberes plurais também conhecidos como tradicionais.

Por fim, é possível afirmar que a vida no campo norte mineiro está
cada vez mais urbanizada. São condomínios de chácaras criados, e também,
grandes plantações homogêneas de eucalipto que culminaram com o
parcelamento das terras e também com a diminuição da população rural. O
caminho inverso parece estar acontecendo nos tempos atuais. A ida de pessoas
com melhor poder aquisitivo ao campo fez explodir o fenômeno dos
chacreamentos rurais e, consequentemente, a instalação de um modo de vida
urbano na zona rural sertaneja mineira. Mas há ainda os rincões, as grotas, onde
o sertanejo pode manter seu modo de vida tradicional baseado na
interdependência com o ambiente que está inserido onde é possível plantar
pequenas lavouras e hortas e manter viva a chama da vida no campo.
220

7.2 As selas como objeto de arte

Segunda-feira, sete e meia da manhã. Como a maioria dos dias do


ano, a expectativa é de mais um dia de sol escaldante no Norte de Minas. Proteja-
se quem puder. Não é novidade para o sertanejo despertar-se para o dia com sua
sentença já definida. O calor, como se costuma dizer por aqui “é de lascar o
cano”. Então, amparado em mais um ditado que comumente é utilizado no sertão
mineiro, aqui há três tipos de clima. O clima quente, o muito quente e o Deus me
livre!

Em um pequeno cômodo localizado à Rua Antônio Rodrigues no bairro


São José em Montes Claros, o senhor Paulo Oliveira abre seu estabelecimento
comercial. Trata-se da Selaria Montes Claros. É um estabelecimento antigo e
bastante conhecido por produtores rurais e demais pessoas que habitam o campo
norte mineiro e que, frequentemente, procuram o proprietário em busca de
produtos que possam facilitar os trabalhos e a vida no campo.

Figura 37: Entrada da Selaria Montes Claros


Fonte: Cortesia da selaria Montes Claros
221

O Seu Paulo Seleiro, como é conhecido, "é um seleiro de mão cheia”.


Habilidoso e, principalmente, cumpridor dos prazos combinados para entrega das
mercadorias comercializadas, trabalha em sua selaria na companhia de dois filhos
homens e uma Nora. Concentrado em sua arte e também no movimento de
pessoas e carros que passam pela rua, o artesão do couro recebeu-me diversas
vezes para falarmos sobre o ofício de seleiro no Norte de Minas.

Em meio a couros, solas, facas, canivetes, sovelas e demais


ferramentas, um pequeno passarinho canta e observa tudo de dentro de uma
gaiola. Parece um companheiro de longos anos do senhor Paulo. Nas paredes,
há várias coisas penduradas. Folhinhas de calendário, cordas, cabrestos, rédeas
e todo tipo de bem e acessório que possa ser utilizado no processo de construção
das selas. Parece bagunçado, mas o velho seleiro sabe onde está cada prego ou
grampo que necessita em seu trabalho.

Com desconfiança em relação ao futuro da profissão, o seleiro é


profético em diversos momentos de sua fala como “esse trabalho aqui vai
acabar”, “ninguém quer mexer com couro” e por aí afora. Mas resiste e se atualiza
na sua profissão. Com o passado, ele dialoga constantemente para afirmar-se no
presente, no tempo da modernidade como detentor de um saber secular que está
em processo agudo de desaparecimento caso não haja a atualização e, também,
a renovação dos trabalhadores do couro.

Para falar sobre sua trajetória o artesão do couro recorre à memória


para localizar-se pari passu e, dessa forma, lentamente, descrever os processos
vividos durante os anos que viveu na Bahia e também em Montes Claros. Há que
considerar que quando recorremos à memória para descrever determinados
processos estamos criando imagens e cenas que vão sendo desanuviadas a
partir do momento que os fatos são narrados. Esta forma de narrativa que tece
lembranças e esquecimentos permite imaginarmos cenas e descrever ações que
foram vividas e que estão cristalizadas na memória do informante.

A trajetória social do senhor Paulo seleiro remete-nos a um passado


distante, mas que, ao mesmo tempo, a partir do momento que começa a ser
descrito parece-nos familiar e presente. São as sensações e percepções vividas
222

que, quando atualizadas criam na nossa imaginação o sentimento de presença,


de vivência intensa

E, assim, é a vida do seu Paulo. No jeito de falar e explicar cada


movimento repetido várias vezes percebe-se a sutileza das mãos hábeis que
rasgam as tiras de couro, e sobre uma mesa velha inicia a construção de mais
uma sela encomendada por um cliente de Francisco Sá, cidade vizinha a Montes
Claros.

7.3 A vida em Montes Claros: desafios e resistências

Estabelecido na cidade há mais de cinquenta anos, Seu Paulo é baiano


de nascimento e informa que veio da Bahia para Montes Claros em 12 de janeiro
de 1960. Viajando em um caminhão, ele afirma que

a viagem demorou quase uma semana, pois não existiam


estradas, apenas caminhos que mais se pareciam com picadas
abertas no meio da mata por onde o caminhão passava. Era muito
sofrimento naquele tempo da Bahia. Era um carrancismo só
(Paulo Oliveira).

Figura 38: : Senhor Paulo com seu filho Paulo Alan e sua nora, Aline.
Fonte: LOPES, C.A.S (2015)
223

Com semblante fechado, mas se mostrando uma pessoa calma e bem


humorada, “seu Paulo” começa mais um dia de trabalho na selaria. Isso acontece
há muitos anos, sempre atendendo pedidos de clientes das mais diversas
condições sociais. O trabalhador do couro, como podem ser conhecidos os
seleiros, lembra que a vida de seleiro foi iniciada quando ainda era adolescente e
precisava ajudar a família nas despesas domésticas.

Das terras baianas o hoje veterano seleiro lembra-se da infância, dos


tempos difíceis, da pobreza e, principalmente, dos mandos e desmandos dos
coronéis locais, a quem ele afirma, “não davam valor aos pequenos e pobres”.
Castigado pela pobreza extrema vivida na Bahia, o retirante conseguiu “rumar”
para o Norte de Minas no inicio do ano de 1960. Empolgado com os novos
tempos que se abriam com a chegada em terras mineiras, o viajante decidiu fincar
moradia em Montes Claros. Na cidade, logo começou namoro com sua atual
esposa casando-se logo em seguida.

Eu aprendi trabalhar com couro em Itapetinga, com meu pai. Eu


saí de Caculé com a idade de seis meses. Depois fui trabalhar
com meu pai na roça. Ele trabalhava com roça, plantando milho e
feijão na Bahia. Mas, desde aquele tempo que roça não dava
nada. A terra era pouca. O povo de lá da Bahia não era igual o
daqui não. Lá tinha aquele “carrancismo”. Cheguei aqui e casei
(Paulo Oliveira).
A necessidade e vontade de fazer produtos diferentes, úteis e de
qualidade colocou o seleiro na rota do desenvolvimento que chegava ao norte de
Minas com a anexação da região a área de atuação da SUDENE. Novas
perspectivas se abriam para a região e as pessoas, principalmente para a cidade
de Montes Claros com as dezenas de indústrias que se instalavam e com a
modernização das fazendas que se iniciava através dos incentivos concedidos
pelo Governo Federal.

Uma coisa que chamou a atenção do seu Paulo logo quando chegou a
Montes Claros foi o trem de ferro. Com a chegada da estrada de ferro que corta a
região e que, nessa época, vivia o auge do transporte de passageiros devido a
ausência de estradas rodoviárias, o “trem baiano” rasgava a caatinga arbórea
norte mineira e deixava polvorosa vilas e comunidades rurais que foram
construídas ao longo da estrada de ferro e que tinham sua vida econômica
vinculada a existência dessa estrada. A parada em cada estação era como festa
224

para essas comunidades. Era uma gritaria só. Mulheres com crianças de colo
chorando, velhos acendendo e fumando seus imensos cigarros de palha,
verdadeiras chaminés a céu aberto, homens negociando algodão, queijos,
farinha, rapadura e todo tipo de produção existente no lugar. O trem de ferro que
fazia a ligação entre Belo Horizonte e Salvador na Bahia ficou conhecido como
“trem baiano”. Novas perspectivas se abriam para o Norte de Minas, um mundo
novo que se iniciava.

Ao chegar a Montes Claros na estação, o vai e vem de gentes que


desciam do “trem baiano” para fazer trocas de produtos em Montes Claros e
também comprar produtos era intensa. Relações sociais eram estabelecidas e
fortalecidas a partir do desenvolvimento que vinha nos trilhos que ligavam a Bahia
a Belo Horizonte ou vice-versa. Parecia festa aquele povão todo em volta da
estação de trem. Nessa época, a região da estação de trem abarrotou-se de
comércios variados e cabarés que atendiam a todos os públicos que ali
compareciam, lembra seu Paulo Oliveira.

Nos relatos do seleiro, havia homens com chapéus na cabeça,


canivetes na cintura e pedaços de fumo nos bolsos pronto para serem picados e
enrolados, mulheres com crianças escanchadas nas cinturas amamentavam os
recém nascidos e alimentavam seus filhos maiores por ali mesmo, comerciantes
vendendo os mais diversos produtos, prostitutas oferecendo seus caprichos e
recebendo juras de amor, outras apanhando na rua de seus amantes, mascates
que tentavam comprar a preços menores os produtos recém-chegados. Todos se
misturavam e faziam daquele lugar o paraíso dos negócios.

Em meados dos anos 1960, a cidade passou a apresentar o maior


crescimento econômico da região. Todos queriam fazer parte daquele processo
que contagiava a cidade e a fazia interessante para os mais diversos públicos.
Este era o clima de Montes Claros nessa época. Mas depois mudaria, e muito.

Como vimos, Montes Claros viveu uma época agitadíssima nas


décadas passadas. Seu Paulo informa que, os primeiros anos na cidade não
225

foram fáceis, e afirma ter comido do “pão que o diabo amassou"50. Divertiu-se
bastante nas proximidades da estação, afirmou ele. Este, primeiramente trabalhou
por vinte e três anos na secretária municipal de saúde de Montes Claros, e sua
esposa trabalhou como professora na rede municipal de ensino e, também, na
rede estadual. Mas o ofício aprendido na infância ainda estava impregnado em si
e, nas horas vagas, fazia e consertava selas para alguns fregueses que
encontrava ao caminhar pelas ruas ou mesmo quando o procuravam em sua
casa. Gostava do que fazia, mas não era o bastante. Decidiu se desligar do
serviço público e dedicar-se exclusivamente à arte que mais amava. Fazer selas.
Isso sim, o tornava feliz, senhor do seu destino, pois comandava sua alma e suas
habilidosas mãos de onde tirava e ainda tira o sustento de sua família.

O senhor Paulo afirma que desde criança admirava as artes produzidas


com o couro e desejava aprender manuseá-lo. Quando cresceu e se
profissionalizou fez do couro seu eterno companheiro. Aquela parte do boi, dura e
de difícil manuseio, que se mostrava cruel às mãos de pessoas inábeis, diante de
si tornava-se instigadora e desafiante. Cada vez que se deparava com um couro
de boi, o aprendiz abria-se para novas possibilidades, pois o encontro com o
novo, com o desconhecido, o desafiava e, aos poucos, foi descobrindo e
lapidando sua habilidade.

A possibilidade de criar e construir produtos que pudessem facilitar a


vida do trabalhador do campo tornava o novo trabalhador do couro encorajado a
mostrar, diante das dificuldades vividas, os conhecimentos aprendidos com o pai
e parentes baianos deixados para trás na Bahia, mas estes estavam sempre
presentes no plano da memória. Vale ressaltar que até meados dos anos
sessenta do século XX, a economia norte mineira esteve vinculada
exclusivamente a atividades agropastoris, permitindo, dessa forma, uma grande
demanda por produtos e serviços destinados aos trabalhadores da zona rural,
principalmente aqueles que “mexiam com gado”.

O trabalho no e do campo com o gado desde os primeiros vaqueiros


nordestinos que subiram o rio São Francisco para se fixarem sempre teve no

50
A expressão “comer o pão que o diabo amassou” é conhecida nacionalmente e informa em seu
significado a existência de dificuldades extremas em todas as formas. Refere-se a sofrimento,
penúria, algo que leva a pessoa que enfrenta tal situação a situação de desespero.
226

couro do boi a base de sua existência e reprodução. Arreios e acessórios, como


selas, chicotes, cabeçadas, rédeas, cabrestos, alforjes, e bruacas eram feitas de
couro e são indispensáveis para a monta em animal de sela.

Figura 39: : Modelo cutiano com cabeça


Fonte: LOPES, C.A.S.2015

A sela é indispensável em montarias, principalmente para os trabalhos


no campo. É a parte principal do arreio do animal e é colocada sobre as costas
dele. Como será explicitado no decorrer do texto, há vários modelos de selas,
mas o mais utilizado nos trabalhos diários no campo é o modelo “cutiano”. Além
disso, é o modelo com preço mais em conta, pois há modelos de luxo que são
vendidos com preço bem mais alto.

O chicote também é um acessório importante utilizado por vaqueiros no


trabalho diário. Há vários tipos e modelos, mas o mais comum é constituído por
couro trançado colocado em uma argola com um cabo trançado onde o vaqueiro
costuma pendurá-lo no braço. É usado para “despertar” o animal, seja cavalo,
égua, burro ou mula, para que estes fiquem espertos e aumentem o passo. Este
acessório é apresentado com mais detalhes no capítulo sobre “os trançadores do
couro”.

A cabeçada é parte do arreio principal. Costuma ser bem trabalhada e,


nos tempos atuais, ganhou refinamentos e mais detalhes, pois, assim, é uma
forma de demonstrar a condição social de quem monta. É na cabeçada que está
o controle do animal, pois as rédeas são amarradas nela, permitindo, desta forma,
227

que o montador determine a direção a ser seguida pelo animal. As cabeçadas


mais procuradas nas selarias são aquelas que recebem tranças especiais e
argolas cromadas de aço inoxidável. As rédeas também fazem parte do arreio. É
por ela que o cavaleiro controla o animal, bem como sua direção.

Figura 40: Modelos de cabeçadas


Fonte: Selaria Montes Claros

O Cabresto costuma ficar anexado à cabeça do animal. É utilizado para


amarrar o animal em árvore ou algum poste de cerca quando o vaqueiro não está
montado. Serve, também, para prender o animal no pasto e também para puxá-lo
a pé. Quando colocado junto com os demais arreios e acessórios, este durante a
montaria, sua ponta fica amarrada na cabeça da sela.

Os alforjes são bolsas pequenas feitas de couro e são utilizadas para


armazenagem de pequenas quantidades de cargas ou mercadorias. Geralmente
são geminadas e costumam ser colocadas na sela e cada bolsa fica de um lado
do animal. Em viagens e passeios mais longos os alforjes são indispensáveis aos
cavaleiros e vaqueiros, pois neles podem ser colocados alimentos e água que
serão consumidos durante o trajeto.
228

As bruacas são grandes cestas, uma espécie de mala. Durante muito


tempo foram utilizadas em tropas de burros e mulas para fazer o transporte de
quantidades maiores de cargas. Vale ressaltar que as bruacas tiveram um
importante papel na formação econômica e social do Brasil, pois abrigaram os
mais variados tipos de carga em todas as regiões do Brasil. As bruacas eram
colocadas em cada lado do animal e, dependendo da distância percorrida e da
força do animal, eram colocados até mais de cem quilos de mercadorias para o
animal carregar. No capítulo sobre os trançadores de couro há imagens de
bruacas sendo consertadas pelo senhor José Miranda da cidade de Juramento.

A utilidade e resistência do couro, além da impermeabilidade em caso


de chuva, tornou-o indispensável na vida do vaqueiro e essencial na formação da
cultura pastoril. Essas afirmações foram usadas em importantes obras de
conhecimento e explicação do Brasil, como em Capistrano de Abreu e Donald
Pierson que estudaram a vida humana no vale do São Francisco, importante área
criatória de gado do Brasil.

Há que considerar que os arreios usados nos animais de montaria no


vale do São Francisco são formados por todas as partes e peças usadas no
animal. Assim, os arreios se diferem dos acessórios por sua funcionalidade.
Arreios são essenciais em montarias, seja para eficiência e eficácia da ação de
montar e executar o serviço de pastoreio e, também, para a segurança do
vaqueiro. São os arreios que permitem a agilidade do vaqueiro sobre a sela e o
animal permitindo a este fixar-se com segurança. Já os acessórios, como o
próprio nome afirma, apenas auxiliam as jornadas e comitivas servindo para
levarem comidas, cargas e outras bugigangas que os vaqueiros costumam
carregar em suas idas a campo.
229

Figura 41: : Selas penduradas


Fonte: Selaria Montes Claros

Criado no sertão baiano e alimentado pelo desejo de mudança, sair da


pobreza extrema que sua família era acometida, o senhor Paulo foi moldado pela
cultura pastoril baiana que fez do menino um artesão habilidoso que,
posteriormente, influenciaria outros aprendizes e, principalmente, seus filhos, que
herdaram o saber e o fazer desse trabalhador do couro. Nada mais importava
para o artesão do que o couro e os produtos que poderia fazer com eles.

Nessa mudança tanto de ambiente quanto de relações sociais surgiu o


espírito empreendedor do já adulto Paulo. Capaz de negociar a matéria-prima
utilizada no seu trabalho diretamente com curtumes e com vendedores de couro,
com o tempo articulou-se e construiu uma extensa rede de clientes por todo o
território norte mineiro que, posteriormente, expandiu-se para outras regiões do
país.

Nessas mudanças vividas através do trabalho com o couro de boi, as


articulações criadas pelo senhor Paulo permitiu que este criasse um emaranhado
de relações sociais e econômicas produzidas pelas atividades desenvolvidas
baseada em sua trajetória de vida que é marcada na luta pela sobrevivência e
pela consolidação do saber adquirido. A atualização do saber aliado à boa
condição de articulador e negociador fez do Seu Paulo uma importante figura no
cenário dos trabalhadores do couro no norte de Minas.
230

Conhecido e reconhecido como importante seleiro da região de Montes


Claros onde há outros trabalhadores que se destacaram e se destacam pela
habilidade na confecção de selas e arreios, o informante aqui apresentado traz
em sua trajetória desafios e perspectivas que são definidores para o futuro dos
seleiros do norte de Minas. Em primeiro lugar, o informante afirma que a
diminuição dos trabalhos de seleiros e, consequentemente, a diminuição da oferta
dos produtos, selas, dá-se pela falta de chuvas na região.

O trabalho com selaria diminuiu porque a chuva faltou no campo.


Os fazendeiros vieram todos pra cidade. Quem tem fazenda vai lá,
mas não mora na fazenda. O tempo mudou. Tudo hoje eles fazem
com trator. Quem tem vaqueiro tem um ou dois apenas. Então, aí
diminui (Seu Paulo).
Com baixos índices pluviométricos anuais as lavouras não produzem e
nem os pastos desenvolvem. Por sua vez, os trabalhos no campeio do gado e
patrulha das propriedades rurais diminuiram. O número de trabalhadores rurais foi
drasticamente reduzido pela modernização do campo que desmantelou uma
estrutura secularmente baseada no trabalho braçal e utilização da família nos
trabalhos.

Eu atribuo à seca a diminuição dos trabalhos, das encomendas


nas selarias, pois, muitas pessoas migraram para a cidade,
permitindo o esvaziamento do campo e, consequentemente, a
diminuição dos trabalhos de seleiro (Seu Paulo).
Prosseguindo com sua descrição acerca do produto que confecciona, o
informante descreve as partes que compõem uma sela, sua estrutura e demais
partes que a tornam propícia para o uso cotidiano.

O eixo central da sela é o casco. A armação principal é o casco. Alguns


são feitos de madeiras outro de ferro. O cutiano mesmo é feito de ferro. Outros
são feitos de fibra. Com a modernidade, agora tem fibra. Mas as selas que a
gente faz aqui geralmente são de ferro revestido de couro, ou de madeira
revestida de couro, que é pra aguentar. São feitas de couro cru (Paulo Oliveira)

Durante a descrição do senhor Paulo sobre a confecção das selas, seu


filho Paulo Allan que também trabalha com sua esposa Aline na selaria, lembra
que,

dos componentes da sela, o principal é a armação. Aí tem a


arreata que é composta por loros, paralamas, estrivos, barrigueira,
231

travessão e ponta. E tem a sela em si, que é o lugar do assento.


Tem também a baldrana. A baldrana é utilizada quando a sela é
dura, daí a gente coloca por cima pra ficar mais macio. É um
acessório que fica em cima da sela (Paulo Allan).

Paulo Allan é o filho mais velho do senhor Paulo seleiro. Desde criança
acompanhava o pai na selaria e ficava observando o processo de corte e
processamento do couro. Depois, começou a observar as tranças e perceber o
universo que envolvia aquela atividade desenvolvida pelo pai que gerava renda e
sustentava a família. Decidiu que, assim como o pai, iria ser seleiro. Cursou o
ensino médio e decidiu ganhar a vida trabalhando na selaria da família.

Já estabelecido na selaria, depois de algum tempo casou-se e levou


sua esposa para trabalhar na selaria. Aline Veloso afirmou-me que “no início eu
não entendia muita coisa do que se passava aqui dentro. Era muita coisinha que
tinha que ser feita. Mas aos poucos aprendi como funciona o sistema aqui”. Paulo
Allan lembra que a renda de sua família é adquirida apenas com o trabalho na
selaria.

Paulo Allan hoje é um seleiro experiente. Este, do fundo do pequeno


cômodo procura por sua esposa Aline e a questiona sobre a costura de alguns
acessórios solicitados por ele anteriormente. Prontamente, ela responde que o
trabalho já está pronto para ser anexado à sela em fase final de acabamento
Tratava-se de algumas costuras feitas em um dos paralamas que seriam
anexados à estrutura da sela. Nesse momento, pergunto a ele o motivo de sua
esposa, ainda jovem, trabalhar com couro num ambiente tipicamente masculino.
E ele foi direto ao ponto: “Aqui não acha ninguém pra trabalhar. Ainda não acha.
Ela veio, começou ajudando a lavar uma sela aqui, outra ali, e foi ficando. Ela
gostou e está até hoje trabalhando aqui” (Paulo Allan).

Inserida na conversa, a jovem Aline discorre sobre os trabalhos feitos


na selaria e a curiosidade que despertou nela quando se viu diante daquela
atividade tipicamente masculina. Pergunto a ela se é capaz de fazer uma sela
sozinha e tive a seguinte resposta: “Quase tudo. Só não sei as coisas mais
complicadas, mas as outras sei tudo. Geralmente, o acabamento eu faço, as
costuras, os detalhes” (Aline).
232

Questiono se a mulher é mais detalhista que o homem durante a


realização do trabalho e esta afirma o seguinte:

Tem muito serviço que é pesado e a mulher não aguenta fazer. O


acabamento é um serviço leve, aí da pra fazer. Polir uma peça, dar acabamento,
costurar a mão. Todo o sustento da família é tirado daqui, da selaria. Não tem
outra fonte, tudo daqui (Aline).

A partir desse momento estabeleço um profícuo diálogo com o seleiro


Paulo Allan sobre a vida dos seleiros em Montes Claros e na região norte de
Minas. E me surpreendo com as respostas, anseios e preocupações que o seleiro
demonstra em relação a sua profissão.

Figura 42: Aline mostra uma sela já pronta que ajudou a confeccionar
Fonte: LOPES, C.A.S. 2014

Pergunto a ele quantos seleiros acredita que possa existir em Montes


Claros e, sensivelmente, demonstra sua preocupação com o futuro.

Olha, eu não tenho nem base! A maioria dos seleiros trabalha em casa,
possuem empregos e não vivem apenas da profissão. Trabalham fichados em
alguma firma e, nas horas vagas, fazem suas selas e vendem para lojas
especializadas que as revendem. Aqui na nossa selaria é tudo produzido por nós.
Deve ter uns oito que vivem apenas de selaria. Os outros fazem bicos para
complementar a renda familiar. Tudo que fazemos aqui, vendemos aqui. Os
233

demais fazem e vendem para a Casa do Cavalo que as revende por um preço
muito maior (Paulo Allan).

Prosseguindo a conversa, pergunto como fazem para vender seus


produtos, se saem para vender ou não, e me surpreendo com a resposta. “Não! O
pessoal vem aqui ou liga encomendando. É que a gente também não dá conta”
(Paulo Allan). Na sequência, pergunto se há muita demanda por selas, mesmo
em tempos difíceis para os profissionais do couro. “Tem sim. Tem mercado. Hoje
tem muita cavalgada, essas coisas assim, que precisam de selas e arreios”
(Paulo Allan).

Neste momento, o seleiro toca em um assunto que ganha cada vez


mais força no sertão mineiro que são as cavalgadas e vaquejadas. Nesses
eventos há cada vez mais a inserção de jovens que procuram por arreios e selas
mais detalhadas, mais refinadas e que costumam ser vendidas por um preço
maior.

As selas mais trabalhadas têm saídas também. Grandes


empresas aqui em Montes Claros possuem fazendas. O Villefort,
Bretas, Cross, Caparaó. Então a gente vende mais pra eles que
tem vários vaqueiros, muitas terras. Para o pequeno produtor fica
mais difícil, vendemos muito pouco. Por exemplo, o cara trabalha
na roça, uma sela dura pra ele 15 anos (Paulo Allan).
Mas é para serem utilizadas nas cavalgas e vaquejadas que as selas
mais ricas em detalhes são vendidas. É para o público que participa desses
eventos que são vendidas e estes expõem o nome do seleiro para os demais
pares. Se gostarem do produto costumam procurar pelo seleiro que a fez,
permitindo, dessa forma, que o boca a boca sirva de divulgação para o autor da
arte, no caso a sela.
234

Figura 43: Modelo de sela dos mais procurados para passeios


Fonte: Selaria Montes Claros

Entre vaquejadas e cavalgadas pergunto aos trabalhadores do couro o


que costumam colocar nas selas que cativam os clientes, o que os clientes mais
pedem e por que pedem.

Pedem uma ferragem em aço inoxidável, umas tranças bem feitas.


As tranças são feitas à mão e não são utilizadas agulhas.
Dependem exclusivamente da habilidade e da força do trançador
para que haja perfeição no trabalho. Na arte de trançar eu
também faço bainhas de facão. Hoje mesmo acabei de entregar
uma que ficou maravilhosa (Aline).
235

Figura 44: Modelo luxuoso de sela


Fonte. LOPES, C.A.S. 2014

A compra do couro e o preparo do mesmo foram expostos pelo seleiro


Paulo Allan a partir de uma indagação feita sobre a industrialização do mesmo.
Há, também, o modo artesanal de preparar o couro cru comprado diretamente do
abatedor do animal.

A sola industrializada, que é o couro limpo, curtido e trabalhado, a


gente compra em Teixeira de Freitas, na Bahia. E o couro, a gente
compra cru e coloca pra secar. Geralmente trazem da roça e a
gente compra. Esticamos o couro e colocamos pra secar. Em
alguns casos a gente já compra o couro trabalhado, em tiras, que
são usadas para trançar e também para costurar (Paulo Allan).
Como demonstrado, é possível perceber a existência de vários
modelos de selas bem como uma variedade de preços por unidade. Para
confeccionar uma sela, o tempo de produção varia de um modelo para outro.
Paulo Allan lembra, ainda, que “

o modelo mais básico é o cutiano. Para produzi-lo, o tempo


necessário é de três a quatro dias. Isso apenas uma pessoa
trabalhando nela. Aqui, cada um faz uma sela. Mas, também,
depende do clima. Se estiver muito seco o tempo, aí fica mais
complicado”.
Quanto à interferência do clima na produção de selas o seleiro afirma
que “a sola vem bruta, cheia de rugas, aí você molha e faz o processo de
alisamento. A gente chama de espichar a sola”. Nesse processo de espichamento
236

da sola é usado um pedaço de madeira liso que é colocado sobre a sola e


aplicada uma força para retirar as rugas da mesma.

Figura 45: Espichando a sola


Fonte: LOPES, C.A.S. 2014

Paulo Allan informou que o trabalho de seleiro não é apenas


habilidade, paciência e delicadeza. É preciso muita força no braço para fazer a
coisa acontecer.

As vezes, para espichar uma sola bruta até ficar no ponto para
sela você tem que suar muito. Meio de sola, aí você vai
moldando, cortando e dando acabamento. Cada sela tem o molde
diferenciado. Nós temos os moldes separados para cada sela. Há
o cutiano duro e o macio. O macio tem uma espuma em cima e o
coxim. E o duro é só a peça de cima (Paulo Allan).
Trabalhar com couro depende da vontade, habilidade e,
principalmente, necessidade do trabalhador. O reconhecimento do trabalho pelos
clientes e a valorização da mão de obra torna o seleiro, trabalhador do couro,
cada vez mais uma pessoa disposta a enfrentar os desafios da profissão. Entre
conversas e risadas perguntei ao seleiro Paulo Allan se ele se sentia valorizado
pelo trabalho que desenvolve. “Eu gosto da profissão. Financeiramente não dá
pra enriquecer”.

A produção de selas já foi mais intensa no passado, mas os seleiros


informam não terem sentido de forma agressiva a diminuição da procura diante do
237

esvaziamento do campo. Os fatores mencionados aqui contribuem para a


manutenção desse saber fazer tão caro ao homem do sertão mineiro.

Atualmente, na Selaria Montes Claros, são produzidas várias peças por


mês. Contrariando minha expectativa, pois acreditava inicialmente que a
produção era mínima, fui surpreendido pela quantidade de selas produzidas pela
família Oliveira. É um nicho de mercado que parece adormecido, mas, na
verdade, sempre esteve ativo e movimentando produtos e recursos financeiros
que garantem a manutenção e sustento familiar. É uma atividade necessária, haja
vista o histórico da sociedade regional que teve o trabalho no meio rural como
sustentador das relações.

Pra gente aqui tem muita demanda porque já temos o nome


consolidado na praça por meu pai. Mas diminuiu sim. Tem gente
que não faz nada por mês. Fazemos por encomenda, mas tem
seleiro que faz pra vender e às vezes seu produto fica encalhado.
Devemos fazer de vinte e quatro a trinta selas por mês, mas
quatro pessoas trabalhando (Paulo Allan).
A fala do seleiro Paulo Allan reflete a realidade vivida por alguns
profissionais seleiros da região. Nem todos conseguem colocar sua produção no
mercado. Alguns fatores são relevantes no processo de análise da selaria Montes
Claros. Primeiramente, o nome consolidado há bastante tempo no mercado de
selas pelo senhor Paulo Oliveira. Em segundo lugar, a baixa procura pelos
produtos de outros trabalhadores desestimula-os a continuar produzindo sem ter
onde e para quem vender. E, por ultimo, algumas grandes lojas de produtos
agropecuários que vendem selas e demais arreios para montaria e trabalho no
campo compram esses produtos de outras regiões do Brasil, preferencialmente
do interior de São Paulo.

Após mostrar-me vários modelos de selas, os seleiros da selaria


Montes Claros explicou-me quais os modelos mais procurados para serviço e
passeio, bem como os valores cobrados por cada modelo. Há uma variedade de
modelos e preços que se ajustam às condições de cada interessado comprador.
“Tem para todos os gostos e bolsos” afirmou Paulo Allan.

Pergunto ao Paulo Allan qual o modelo que mais tem encomendas na


selaria. Ele me responde que os modelos que mais saem são os duros, aqueles
que são feitos para serviços nas fazendas. São usados pelos empregados no dia
238

a dia do campo, e não pelo patrão. Desses, o modelo cutiano é o mais procurado,
pois é mais rústico, apropriado para o trabalho, além de ter o preço mais em
conta.

Figura 46: Modelo cutiano de sela


Fonte: LOPES, C.A.S. 2014

Na conversa, perguntei quais são os modelos considerados de luxo e


os valores de cada um.
Os modelos mais luxuosos são aqueles ricos em detalhes, que
demora mais tempo para ser construído. Tem o modelo quarto de
milha e o australiano. São as melhores. Aqui na região são as que
mais vendem. A australiana é mais para uma vaquejada. É a sela
do patrão. E o cutiano é para serviço. Pra colocar carga. Custam
em média seiscentos reais. As selas mais caras custam entre mil
e duzentos e mil e oitocentos reais, e o tempo de elaboração do
modelo com todos os acabamentos demora em média quinze dias
para ficarem prontos (Paulo Allan).
239

Figura 47: Modelo luxuoso de sela


Fonte: LOPES, C.A.S. 2014

Além da escassez de chuvas já apontadas anteriormente que


influenciou na diminuição da procura por produtos de selaria, outro fator que foi
impactante nos processos apontados pelo seleiro Paulo em suas explicações
sobre a diminuição dos seleiros e a consequente falta de mão de obra capacitada
para a execução de tal ofício está na modernização do campo. Para ele, a
modernização das fazendas trouxe melhorias e agilidade para os donos das
fazendas e propriedades rurais, mas, para os trabalhadores, trouxe a incerteza e
o desemprego.

Antigamente, havia dez camaradas que trabalhavam de vaqueiro nas


fazendas. Trabalhavam em tudo. Depois veio a evolução, o trator. Roçar manga
de foice ninguém faz mais, roçar é com o trator. A cerca de arame é feita no trator
que abre os buracos. O camarada faz apenas socar os postes e esticar o arame.
É uma coisa sem limite o que acontece hoje em dia (Seu Paulo).

As considerações e análises dos processos sociais que se deram no


campo norte mineiro chamam a atenção pela clareza de argumentos bem como
pela segurança em diagnosticar e cravar o futuro dos seleiros. Para ele, o
trabalho de seleiro tende a desaparecer com o passar dos tempos. Um dos
motivos para tal desaparecimento é percebida na seguinte afirmativa apresentada
240

por ele: “hoje todo mundo tem moto”. Para o seleiro, as facilidades de aquisição
de motocicletas e a praticidade que as mesmas apresentam no meio rural fazem
delas o principal inimigo dos trabalhadores do couro. São as motocicletas que, no
entendimento dele, levam o caos e o desemprego à zona rural e, praticamente,
decretam o fim dos animais de sela.

Hoje todo mundo na roça vive em cima de uma moto. Cavalo


raramente você enxerga um. Só quando há cavalgada ou vaquejadas. Somente
em festas desse tipo. Tirando isso, cavalo tá sumindo do mapa e as motos
tomando conta do mundo (Seu Paulo).

A afirmação do seleiro de que as motocicletas estão por toda parte


pode ser confirmada a partir de visitas às comunidades rurais norte mineiras.
Impressiona a qualquer visitante a quantidade de motocicletas que são utilizadas
pelas pessoas, seja para irem ao trabalho ou mesmo para um simples
deslocamento.

Por um lado, a chegada de bens automotivos no meio rural deu


velocidade e agilidade à vida no campo. A calmaria, antes quebrada apenas pelo
trotar dos cavalos deu lugar ao ronco de motores que levantam poeira nas
estradas do sertão e fazem a alegria dos adeptos dessa novidade. Os perigos são
muitos e constantes. As imprudências são percebidas a cada motocicleta que se
cruza pelas estradas, pois são pilotadas por todos os tipos de pessoas, crianças,
adolescentes, mulheres, homens e até por pessoas idosas.

Fáceis de adquirir devido aos preços populares e financiamentos


facilitados, as motocicletas, por outro lado, estão marcando território e
marginalizando os cavalos que por muito tempo foram soberanos nas estradas
poeirentas. Atualmente, poucos andam a cavalo. Apenas pessoas de idade
avançada que ainda não se renderam à comodidade e agilidade das motocicletas
se aventuram a andar a cavalo nas estradas que hoje recebem um número
grande de carros e motocicletas. Alguns, mais apressados, colocam em risco a
vida de pedestres e cavaleiros que transitam pelas estradas despertando, desta
forma, a ira dos adeptos das montarias.

Mas há que considerar que os cavalos ainda existem e resistem no


sertão mineiro. E são muitos. São usados nos trabalhos internos das pequenas
241

propriedades e fazendas tanto como montaria quanto para puxar carroças. Em


número reduzido em relação à décadas passadas, os cavalos adestrados e
mansos ainda tocam boiadas em pequenas distâncias, entre fazendas próximas,
e fazem a alegria de crianças e jovens que se deliciam com passeios sobre esses
quadrúpedes.

Com a diminuição do uso do cavalo no meio rural, a consequência


maior foi a diminuição de clientes para comprar os produtos dos seleiros. Dessa
forma, é inevitável que os seleiros existentes trabalhem apenas com
encomendas, haja vista a demanda diminuída. Mas, se por um lado “a coisa anda
feia”, como diz o senhor Paulo, por outro, abrem-se novas possibilidades com a
crescente divulgação de cavalgadas e vaquejadas.

Como estamos inseridos na região do couro, como definiu Capistrano


de Abreu, seria normal a utilização de cavalos, burros e mulas para além dos
trabalhos. Visto como elementar na vida rural brasileira, o animal de sela, com o
passar do tempo, foi sendo reinventado e ganhou elementos de requinte a partir
do seu desempenho. Para tanto, com o desenrolar de novas atividades esportivas
no meio rural brasileiro, principalmente as vaquejadas, os animais que se
destacam em seus respectivos esportes ganharam status de estrela e recebem os
mais variados mimos e caprichos, desde uma alimentação balanceada e seletiva
até banhos e demais tratos estéticos.

As pessoas ouvidas nas comunidades rurais visitadas e também os


seleiros da Selaria Montes Claros afirmam que, depois do fenômeno das
cavalgadas e vaquejadas, houve uma revalorização dos cavalos. Além disso, a
diminuição da criação contribuiu bastante para o aumento dos preços desses
animais. Houve, também, uma procura por melhores cavalos para fazer
cruzamentos com éguas gerando expectativas de nascer um bom animal de sela
e posteriormente ser mais valorizado. Caso isso ocorra, o dono do animal pode,
no futuro ganhar um bom dinheiro com a venda desse animal.

O papel social do cavalo no Norte de Minas vai além das porteiras das
fazendas. Ele é um marcador da diferença entre as minas e os gerais, como já
afirmados em outras partes deste texto. Atualmente, tanto cavalos quanto éguas
são vistos, também, como bom investimento financeiro, pois, com a abertura de
242

novas possibilidades de uso desses animais, os criadores tornaram-se mais


exigentes no processo de seleção dos animais, seja por cruzamento natural ou
por compra de animais de fora com genética diferenciada.

Atualmente, ocorre uma reelaboração do uso do cavalo no meio rural


norte mineiro. Do trabalho ao lazer, o cavalo demarca novos espaços permitindo a
inserção de outros atores em outros espaços, a saber, os jovens urbanos
passaram a ocupar o meio rural através das práticas equestres dando, dessa
forma, uma ressignificação dos espaços utilizados anteriormente para o trabalho
no campo.

Por fim, essa ressignificação do cavalo e do meio rural abriu novas


possibilidades para entendimento do universo rural norte mineiro. Antes entendido
como lugar apenas de trabalho, o campo abre-se para novos empreendimentos
tanto esportivos quanto econômicos, pois, além de propiciar entretenimento aos
participantes de variadas modalidades esportivas praticadas com o uso do cavalo,
permite, também, a entrada de recursos financeiros que dinamiza cada vez mais
a economia local e regional que era baseada no trabalho rural.

Novos atores em novos espaços. Essa dinâmica provocada pela


diversificação dos espaços rurais aliada a práticas tradicionais que foram
reelaboradas a partir da modernização do meio rural propiciou o surgimento de
um novo modo de vida baseado na interação mais profunda entre atores rurais e
urbanos. A apreensão de novos modos de vida propiciada pela emergência e
consolidação das novas relações sociais faz do mundo rural norte mineiro um
espaço dinamizado construído a partir de saberes tradicionais e formas modernas
de relacionamento e comunicação, permitindo, desta forma, uma constante
atualização dos processos sociais vividos.
243

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Nesta pesquisa foram apresentadas trajetórias sociais de pessoas


portadoras de saberes e fazeres considerados tradicionais no Norte de Minas
Gerais. Tomamos como análise o passado e o presente dessas pessoas que a
cada dia lutam para conservar e preservar um saber que, em sua maioria, foi
ancestralmente adquirido e que, com o advento da modernização do campo,
passaram a ser ameaçados de extinção. A rápida transformação da vida no
campo e a velocidade impressa pela modernidade a partir dos novos meios de
transportes e comunicação agregados à vida rural, fizeram das pessoas
portadoras de saberes tradicionais importantes sujeitos no processo de
manutenção de uma estrutura secularmente instalada no sertão mineiro.

Os processos sociais analisados a partir das trajetórias sociais


informam a existência de uma estrutura que por muito tempo foi alicerçada pelo
trabalho no campo tendo no couro de boi a matéria prima para a elaboração de
diversos produtos utilizados no dia da dia do campo. Selas, chicotes, cordas,
laços e arreios eram construídos a partir do aprendizado adquirido na lida diária.
Esses processos de aprendizagem foram feitos de diversas maneiras e variavam
de comunidades. Alguns aprenderam com o pai e parentes nas propriedades
familiares. Outros tiveram que aprender seus ofícios sozinhos, durante o trabalho,
haja vista as várias necessidades surgidas e que, quase sempre, não eram
resolvidas se não desse um jeito ali mesmo, pois nem sempre podia aguardar por
muito tempo o objeto utilizado no trabalho diário. Alguns informaram em suas
narrativas que aprenderam com quem já sabia o ofício e com o passar do tempo
foram refinando seus saberes. A assimilação e apreensão desses saberes
culminavam com a cristalização do ofício na vida da pessoa que passava a
desenvolver tal técnica aprendida.

As conclusões que chegamos durante os levantamentos e análises dos


dados é que os ofícios analisados não desapareceram da vida no sertão mineiro.
Eles foram atualizados e inseridos no contexto da modernidade. Vejamos, a
seguir, as observações encontradas na manutenção dos ofícios tradicionais de
carreiros, seleiros, vaqueiros e trançadores.
244

Desses ofícios analisados os mais violentados pela modernidade foram


os carreiros e os vaqueiros. Os carreiros existem em quantidade pelo sertão, mas
os carros de bois, não. Os carros foram marginalizados, substituídos pelos
carroções que são mais leves e necessitam menos bois para arrastá-los. Ao
contrário, o carro de boi somente é visto em feiras e exposições ou em
propriedades cujas funções atribuídas a ele são apenas decorativas. Tornaram-se
lugares de memória, impregnados de sentidos e significados que marcaram
tempos e épocas no Brasil. O desaparecimento do carro de boi leva imbricado em
si o passado glorioso do mesmo e de milhares de famílias que tiveram no carro de
boi o esteio do trabalho no campo. É um passado que aos poucos vai caindo no
esquecimento até seu desaparecimento total,

Os vaqueiros, cujo ofício foi fundante da sociedade regional,


encontram-se restritos aos trabalhos internos nas fazendas. Campear o gado,
tratar, tirar leite, são os fazeres dos vaqueiros na atualidade. Houve uma grande
diminuição do número de vaqueiros. Fazendas que antes empregavam vários
profissionais, nos tempos atuais, colocam apenas um vaqueiro. Caso necessite,
outro vaqueiro é contratado como diarista para a execução dos serviços. As
grandes boiadas não são mais vistas fazendo poeira nas estradas. No lugar dos
vaqueiros que tocavam boiadas com centenas de bois entrou os caminhões-
gaiolas. Esses caminhões marcaram seus lugares a partir da construção de
estradas e pela modernização das fazendas. A agilidade e rapidez propiciada
pelos caminhões permite o rápido deslocamento de boiadas até o destino final.

A principal consequência da chegada dos caminhões no meio rural foi


a diminuição da mão de obra dos vaqueiros e a consequente migração para as
cidades. Vários vaqueiros manifestaram descontentamento com a situação atual
em que se encontram. Forçados pela modernização do campo a procurarem
outros rumos, esses profissionais rememoram o passado e narram suas
trajetórias a fim de serem compreendidos como importantes sujeitos que
marcaram a história do Norte de Minas.

Os trançadores de couro aqui apresentados demonstram preocupação


quanto ao futuro do ofício. Há pouco interesse dos jovens em desenvolver as
habilidades de trançar tiras de couro propiciando, dessa forma, uma diminuição
245

drástica das pessoas que fazem produtos trançados de couro cru. Entre chicotes,
cabeçadas, laços, cabrestos e outros objetos, os trançadores de couro do Norte
de Minas são importantes guardadores de um saber ameaçado de
desaparecimento. A industrialização, também, é multiplicadora das preocupações
dos trançadores haja vista que, as cordas de nylon e seda avançaram
violentamente sobre os produtos de couro. Além disso, a durabilidade dos
produtos industrializados propicia aos usuários preterirem os objetos feitos de
couro.

Os trançadores são encontrados espalhados pelo Norte de Minas, mas


foi enfatizado que está em processo de desaparecimento o ofício aprendido no
passado. Argumentam que com a chegada dos esportes equestres no meio rural
houve uma melhora significativa na procura por produtos trançados de couro. Mas
não é suficiente. O principal temor das pessoas que fazem objetos trançados de
couro ouvidos durante esta pesquisa é o risco de desaparecimento do ofício. A
falta de interesse em dar sequência ao ofício que sustentou famílias por muito
tempo traz agarrada em si o grande temor dos portadores desse saber. O fim do
ofício parece distante, mas a atualização dos contingentes profissionais torna-se
essencial para garantir que esse importante saber permaneça vivo não somente
na memória, mas na vida das famílias que abrigaram e abrigam esse saber.

Os seleiros ouvidos durante as idas a campo para coleta de dados


informam, também, que houve uma diminuição drástica na procura por selas e
demais produtos feitos nas selarias, como cabeçadas e rédeas. Afirmam que, no
Norte de Minas, o principal causador da diminuição da procura por selas para
serviço no campo é a seca. Nos últimos tempos a densidade pluviométrica na
região não tem ultrapassado os 600 milímetros, o que provocou um rápido
esvaziamento do campo bem como a diminuição dos processos produtivos
vinculados a essa forma de trabalho.

Os seleiros informam que a modernização das fazendas também foi


causadora da diminuição dos serviços de seleiro. Alguns profissionais mudaram
de profissão para garantirem o sustento de suas famílias propiciando a diminuição
dos seleiros. Há que considerar que os seleiros no Norte de Minas ainda existem,
246

poucos, mas existem. Nem todos os municípios dispõem desse profissional que
produz e conserta selas.

Mas ultimamente a profissão de seleiro foi oxigenada com o incremento


de esportes equestres na região. Grande parte das encomendas feitas nas
selarias é para pessoas praticantes de cavalgadas ou vaquejadas que buscam
bons arreios para serem usados e mostrados nesses eventos. Essa oxigenação
do ofício de seleiro permite compreendermos que esse ofício tão caro às
sociedades que tiveram na criação de gado ainda permanece vivo. Os
apontamentos feitos pelos seleiros estão voltados, assim como os demais ofícios
aqui apresentados, para o futuro. A incerteza da manutenção e continuidade
desse importante saber deixa os portadores desse saber fazer preocupados.
Poucos jovens se interessam nos trabalhos com o couro e, com isso, cada vez
mais vai ficando escassa a mão de obra especializada na produção e conserto de
arreios tanto para o trabalho quanto para o lazer no Norte de Minas.

Por fim, as trajetórias sociais de pessoas que tem suas vidas


vinculadas às atividades pastoris e outras que se originaram dessas atividades
traz a tona diversas incertezas que permeiam a vida dessas pessoas.
Desemprego, expulsão do campo, violência, alcoolismo, são sintomas que
afirmam o esgotamento de um sistema produtivo baseado na agropecuária e que
foi desmantelado pela modernização do campo.
247

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