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$rr Mineração afirmar sua autoridade sobre a nascente


sociedade, expulsando os paulistas.
Os historiadores são quase unânimes em A exploração do ouro aluvional mostrou-se
reconhecer que a atividade mineradora do rapidamenre lucrativa. Em IT02,criou-se o
século XVIII resuhou numa forma específica de Regimento dos Superintendentes, Guardas-Mores e

colonização que a diferenciava do resto do OJiciais Deputados para as Minas de Ouro,


Brasil. Colonização enres de tudo ìnteriorizada, substituindo as cerras régias anteriores, porém
em contraste com a ocupação litorânea dos conservando os princípios gerais do livre
primeiros séculos, e baseada numâ sociedade comércio e o da reserve de I/ 5 do ouro extraído
urbana em grau até então nunca visto na pâra o erário régio. A principal inovação do
colônia. Colonização que, graçes às consranres Regimento de 1702 foi a criação dalntendência
remessas de ouro e diamantes parâ Portugal, das Minas em todas as capitanias em que
propiciou o soerguimento do Estado português houvesse extração de ouro, instituição dotada
e de seu erârìo, muito combalido nas décadas de funções múltiplas, sobretudo as de ordem
posteriores à Restauração de I64O. Durante o fiscale de repressão eo conrrebando.
reinado de D. João Y GZoe-So), a receita Compunha -se alntendência da direção de um
fiscal e outres rendas foram tão expressivas superintendente (o popular "inrendenre"),
que, segundo Charles Boxer, D. João V auxiliado por funcionários encarregados de
afirmou: "Meu avô temia e devia; meu pai devia; cobrar o quinto real, supervisionar o serviço de
eu não temo nem devo." A construção do mineração, resolver divergências entre
Aqueduto d", Ágtr". Livres, em Lisboa, a mineradores, coibir o contrabando, fomentar a
doação aos franciscanos do gigantesco produção, repertir os ribeiros de ouro em daras
mosteiro de Mafra ea promoção de magníficas (lotes distribuídos enrre os mineradores),
festas religiosas foram alguns exemplos da sorteando-se-es entre os pretendentes. O
prodigalidade de D. João V, que por isso tamanho dadata que cada um podia postular
terminou seu reinado carregado de dívidas. variava conforme o número de escravos
A data e o local exâros da descoberra de ouro -
concedendo-se 5,5 merros em quadra por
nas Gerais são incertos. Alguns historiadores escrevo, até o máximo de 66 metros (a "data
mencionam as descobertas de Antônio inteira"). Recebiam esta última o descobridor
Rodrigues Arzão (I691), ourros as de do veio, que podia escolher sua dara (livrando-
Bartolomeu Bueno da Siqueira (I696), e há os se do sorteio); a Fazenda real, representada
que ressaltam es de Borba Garo, em Sabará. pelo guarda-mor da Intendência; e os
Mas é certo que a descoberta dos veios possuidores de mais de 12 escravos. A data do
auríferos resukou das expedições dos paulisras, rei era arremarada em praça pública, cabendo ao
que por isso se tornaram, ao mesmo tempo, arrematente pagar uma quantia fixa para sua
figuras de interesse e de reprovação por parte exploração.
da Coroa. Nas minas de Pitangui, no início do Havia dois tipos de extrações auríferas: a das
século XVIII, os paulistas vereram o ingresso lavras (jazìdas organizadas em grande escala e
de emboabas (assim denominados reinóis, com aparelhamento para e lavagem do ouro) ea
baianos e demais "estrangeiros"), do que dosfaiscadores, que empregavam somente a
resultou a chamada Guerra dos Emboabas bateia, o rctumbê e ferramenras tosces, reunidos
(tZoZ-t7o9). Finda a guerra, a Coroa pôde num ponto franqueado a rodos, cada qual
mtneraça0
198 D!) DrcroNÁnro

trabalhando por si . Os faiscadores, muiro ocorreu em escala sem precedentes, causando


comuns na mineração, eram homens livres e
forte inquietação nas autoridades porruguesas,
pobres, havendo mesmo escravos entre eles, receosas do despovoamenro do reino. De fato,
que entregavam quanria fixa ao senhor e apopulação colonial de origem européia
guardavam o eventual excedente. duplicou no período do ouro e Sérgio Buarque
Geograficamente, a mineração expandiu
se diz queMinas era a região mais densamenre
entre Mantiqueira, na capitania de
e serra da
povoada do Brasil no final do século XVIII. A
Minas, e a região de Mato Grosso e Goiás, sem nzão de tamanho afluxo migrarório residia em
conter alguns veios insignificantes em São
que, sendo o ouro do Brasil aluvional, os
Paulo ou na Bahia. Mas nenhum deles superou investimentos pere sua extração eram mínimos,
os de Minas Gerais. Ali que se criou o maior em contreste com as minas de prata do peru e
número de "registros", postos fiscais do México socavões que exigiam
incumbidos de receber o "direito de entrada" -
investimentos altos para a extração. No Brasil,
dos produtos que passevem às Minas, fossem homens de escassas posses sentirem-se
originários do reino ou de ourres capitanias. atraídos pela possibilidade de explorar ouro
Criaram-se, também, estradas específicas para a sem grande cusro, razão pela qual Celso
região, como o Caminho dos Currais do Sertao, Furtado arribui uma grande diferença enrre e
para a Bahia; o Caminho Velho, que ligava o rio atividade mineradora e a açucareira, não só em
das Morres e o arraial de Vila Rica aos porros
termos de investimento de capital como no
de Santos ou Parari, passando pelo interior de tipo de mão-de-obnuúlizada. Apesar de
São Paulo; e oCaminhoMvo para o Rio de reconhecer que o escravo era a principal mão_
Janeiro, passando pelos rios paraíba, paraibuna, de-obra do ouro, afirma que ele jamais
Irajá e Iguaçu. constiruiu a maioria da população na capitania.
À dif..".rç" de ourras atividades, a mineração Acrescenta Furtado que as diferenças entre
foi gerida com disciplina férrea pela Coroa. As Minas nordeste açucareiro seriam ainda
eo
Intendências esravam sujeitas diretamente à maiores no tocanre à estratificação social,
pois
metrópole e não às autoridades coloniais. se nas regiões do açúcar os que não fossem
Abaixo delas vinham asCasas de Fundiçã0, onde senhores de engenho teriam escassa chance de
se deveria recolher, fundir em barras ,,quinrar,,
e ascensão, em Minas simples faiscadores
(retirar o quinto da Coroa) rodo o ouro
poderiam, com sorte, enriquecer.
extraído. Feito isso, o ouro podia circular à
Segundo Furrado, apesar de ter estimulado
vontade, e havia mesmo a possibilidade de
forte alta de preços nos gêneros e, portanto, a
circulação do ouro em pó, resrriro à capitania, fome, mineração rrouxe saldo positivo para
a
dada a impossibilidade de alguns mineradores
outras regiões coloniais, fomentando o
juntarem ouro suficienre para formar barra. Em
desenvolvimenro de áreas abastecedoras. A
1729, foram encontrados diamantes em Minas criação de gado no sul do Brasil foi estimulada,
e o Distrito Diamanrino seria administrado
por o mesmo acontecendo com a do nordeste.
um regimento inusitado na América colonial, no
Furtado e ourros afirmaram a inexistência de
qual procurou-se isolar o distrito do resto da um setor agrícola nas regiões mineradoras
colônia, só se permitindo o ir-e-vir de pessoas baseados na tendência metropolitana em coibir
com autorização escrita do intendente.
a formação de lavouras que concorressem com
A migração pere o Brasil, na "idade do ouro',,
a extração mineradora na utilização de
escravos.
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Mas, a despeito das proibições, a agricultura se pobreza e dos "desclassificados" sociais.


expandiu em Minas em face da inoperância da De todo modo, a produção do ouro reve
administração portuguesa. Sérgio Buarque crescimento positivo na primeira metade do
afirma que em meados do século XWII, ainda século XVIII, alcançando seu ponro máximo em
em pleno apogeu do ouro, os negócios com torno de t76o. O declínio foi relativamenre
metais e gemas preciosos ocupavam somente rápido e, em I/8O, a renda da mineração era
I/) dapopulação local. O exrenso mercado menos da metade do que fora no auge. A Coroa
consumidor em que a região se havia insiscia em atribuir a decadência da receita do
transformado ea possibilidade de negócios quinto ao contrabando, decerto efetivo, mas
internos com ouro em pó resultaram na pouco decisivo no decréscimo da extração. O
proliferação de mercadores, negociantes, que teria agido como atração inicial, um ouro
artesãos, boticários, prestamistas, taberneiros, facilmente extraído, acabou sendo a causa de
estalajadeiros, advogados, cirurgiões-barbeiros, sua decadência, pois se esgotave com rapidez.
burocratas, mestres-escolas, tropeiros. Traço Diante da crise mineratória, muitos
importante da atipicidade de Minas seria, historiadores visualizaram uma decadência
assim, a formação urbana, modelo szi g eneris de geral da capitania, a exemplo de Celso Furtado,
povoamento na América Portuguesa. pâre quem "em nenhume perte do continente
Minas se distinguiria ainda pela grande americano houve um câso de involução tão
mobilidade social, compreendendo mosaico rápida tão completa de um sisrema econômico
e
muito diversificado de "grupos e de raças", uma constituído por população sobretudo de origem
sociedade de meio "aluvial", nas palavras de européia". Interpretação discurível pois, se
Sérgio Buarque. A grande mobilidade social algumas regiões se despovoaram, a Capitania
seria o motivo da pouca sedimentação social e continuou a ser das mais populosâs, mesmo
da hierarquia fluida. Por ourro lado, a ausência quanto à população escreva, a contrariar a
de mulheres, em particular de brancas, teria imagem de uma sociedade estagnada ou
estimulado, mais que noutras partes, uma decadente. (SCF)
sociedade miscigenada, com muitos pardos e

mulatos enriquecidos alcançando cergos >; ReJerências BibliográJicas


administrativos, para desgosro dos portugueses BOXER, Ch. A idade do ouro no Brasil (1962).
recém-chegados. Também Celso Funado Trad. São Paulo, Cia. Editora Nacional, I969;
pressupõe maiores possibilidades para os CANO, W. "Economia do ouro em Minas
pobres e para a alforria de escravos que, arravés Gerais". São Paulo, Contexto, n. ), Í977;
do contrabando ou pela descoberra de grandes FURTADO, C. Rio de
Formação econômica do Brasil.
pepitas, conseguiam comprar sua liberdade. Janeiro, Fundo de Cultura, 1959; HOLANDA,
Mas a imagem de Minas como palco de úqueza S. B, de "Metais e Pedras Preciosas". ln: HGCB.
e dehierarquias sociais frouxas (quase 4u ed., São Paulo, Difel, 1977, v. 2, pp. 259-
"democráticas") tem sido contestada pela I lO; MAXWELL, K. A devassa da devassa.-lrad.
historiografia pós- I98o. A pobreza, mais do Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1978; PRADO Jr.,
que a riqueze, tetie marcado a sociedade C. Formação do Brasil contemporâneo (1942). I5u ed.,
mineradora, afirma Laura de Mello e Souza, São Paulo, Brasiliense, 1977; SOIJZA, L. de M.
para quem,se havia alguma "democracia" nas e. Desclassificados do ouro. Rio de Janeiro, Graal,
Minas, ela residiria na disseminação da I 986.

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