Você está na página 1de 25

« • • • . .

*—a——f___-_

\NNO I S Ã O PAULO, 2 DE MAIO DE 1921 NUMERO I

ANOVELLA
EMANAL

COLLECÇAO de pequenos livros de versos a CADA volume, caprichosamente confeccionado,


se publicar sob a direcção de Amadeu Ama- impresso a duas cores em excellente papel,
ral (da Academia Brasileira) e destinada a com artísticos ornatos e solidamente enca-
vulgarizar as obras dos poetas novos de dernado, será vendido a 2$500.
grande merecimento, ainda pouco conhe- Na NOVA PLEIADE somente serão publica-
cidos do publico. das obras de verdadeiro valor.
iniciaremos a collecção com o primoroso livro M A N H A do poeta paulista Graccho Silveira
SOCIEDADE EDITORA OLEGARIO R I B E I R O - Rua Dr. Abranches, 43 — Caixa, 1172 - ] S . Paulo

XXEXHTORAOIJ3GAraORroEIRO-RI>?AB^
VELLA SEMANAL
DlRECTOR BRENNO FERRAZ

PUBLICA-SE AS SEGUNDAS-FEIRAS
Para os 30 milhões de brasileiros, mesmo desconta- VELLA SEMANAL se propõe a salvar do olvido as me-
dos os analphabefos,- MS tiragens dos livros naeionaes lhores paginas esgotadas e as sepultadas em collecções
são ridículas. E as edições pequenas encarecem o li- de jornaes e revistas — preciosidades que representam
vro, limitam-lhe a expansão, impedem a razoável remu- um opulento thesouro literário quasi de todo desconhe-
neração dos auctores. Vivemos, assim, num circulo vi- cido e inaccessivel. Das obras ainda em extracç.ão no
cioso : o livro não se diffunde entre nós porque é caro mercado livreiro, destacará — a exemplo do que se faz
e é caro porque não se diffunde. Isto succede com o em vários paizes, em anthologias de grande e pequeno
livro bom, pois dos de fancaria se tiram por ahi deze- tomo, didacticas e populares, e em publicações periódicas
nas de milhares e s e esgotam edições sobre edições . . . — as que sejam a melhor mostra do livro e do auctor,
de sorte a despertar nos leitores o desejo de ler os li-
Esta situação, de tão funestas conseqüências para o vros que, sem esse reclame, muitos provavel-
paiz, suggeriu a iniciativa cia ereação oeste periódico, mente nunca-leriam. E isso fará fornecendo ao mesmo
que representa um esforço no sentido de vulgarizar a tempo todas as indicações precisas, para que qualquer
boa literatura. pessoa possa-fazer encommenda, ao seu livreiro ou di-
Popularizar o iivro, tornal-o accessivel a todos, sem rectamente ao editor, da obra da qual se apresentou
descuidar de o fazer ao mesmo tempo o mais a t t r a h e n t e aqui uma pequena amostra e das outras obras do mes-
possível pela escrúpulos» escolha da matéria e pela ar- mo auctor. Esta publicação' constituirá, .portanto, ao"
tística confecção de cada volume, e depois usar de to- mesmo tempo que uni-abundante" repositório de infor-
dos os meios para o diffandir em todo o território na- mações bibiiographicas, uma selecta de pequenas obras
cional, de fronteira a fronteira, e entre todas as classes exeellentes, organizada com o fito de cornar melhor co-
sociae.s, desde as mais cultas ás menos letradas — eis nhecida a nossa literatura, dentro das nossas próprias
ahi,, resumido em poucas palavras, todo o nosso -pro- fronteiras.
gramma.
Não viveremos, porém, de alheia seiva. Teremos a
Participando ao mesmo tempo da natureza do livro nossa collaboração especial, de um punhado dos mais
e da revista, A NOVELLA SEMANAL pretende reunir notáveis escriptores contemporâneos e acolheremos com
as vantagens desta e daquelle : como a revista, será de prazer — e remuneraremos — todos os trabalhos ' inte-
leitura leve e variada, será vendida a preço Ínfimo, será ressantes que nos sejam enviados por auctores conheci-
apregoada nas ruas, nas estradas de ferro, em toda par- dos e desconhecidos, consagrados e estreantesjcomtanbo
te, a toda gente'; mas não será lutil e de interesse e- que taes obras tenham valor e sejam conformes eom a
phemero como pila : pelo fundo — pela qualidade e pela feição d'A NOVE!LA, isto é, que tenham pequena ex-
extensão da matéria — constituirá uma verdadeira série tensão e possam ser lidas por toda gente.
de pequenos livros, que se encadernarão no fim de cada
trimestre, em bellos volumes com os quaes se formará Preferimos dar maior desenvolvimento' á edição do
u m a bibliotheea literária realmente preciosa. conto e da novella nestes volumes, por serem "esses os
gêneros que contam, entre o publico, maior numero de
Pretendendo ser lida, muito lida, lida por homens apreciadores. Mas não nos restringiremos a elles, em-
e creanças, senhoras e moças, ricos e pobres, letrados e bora delles tenhamos tirado o titulo desta irablicação.
curiosos, pela totalidade, emftm, da população ledora, Todos on outros gêneros terão o seu logar no nosso
procurará nos auctores a vida, a acção, o interesse, de supplemento, verdadeira gazeta literária de pequenas
modo a constituir o verdadeiro livro popular. proporções, onde se encontrará um pouco de tudo e só
Destinando-se a se tornar um instrumento de pro- tio melhor.
' pagahda das boas letras — dos melhores auctores e dos Eis ahi ao q u e d e m A NOVELLA SEMANAL, que
melhores livros naciõnaes — não se limitará a publicar se colloca á disposição do publico, dos auctores e dos
trabalhos inéditos. Não-seria este o melhor mejo de se editores, aos quaes deseja servir e dos quaes espera re-
cumprir esta parte do programma traçado, havendo por ceber um acolhimento sympathico.
ahi, esquecida e ignorada da maior parte do publico,
t a n t a cousa optima a pedir um editor. Assim, A NO- O s ÊOITOUES.

Aos auctores
Acceitaremos com prazer toda col- queiram nos auxiliar neste trabalho
laboração interessante para qualquer
Aos leitores que nos enviem relações de auctores
das secções deste periódico, A NOVELLA SEMANAL ambicio- e de livros publicados, de modo a nos
Os auctores devem nos remetter os na ser lida em toda parte : cidades, habilitar a adquirir os volumes para
seus trabalhos, declarando o seunome, villas, povoações. estradas de ferro, os examinar.
endereço e o preço pelo qual nos of- navios, hotéis, clubs, bibliothecas, e t c ,
ferecem a sua collaboração. estando porisso organisando u m ser- Importante
Os originaes devem ser escxiptos de viço de distribuição que será o mais Toda pessoa que angariar três assi-
um só lado do papel, em ealligraphia completo possivei, de sorte a não ha- gnaturas d'A NOVELLA SEMANAL,
bem legivel e de preferencia dactylo- ver ponto do território nacional onde enviando-nos adeantadamente a res-
graphados. " ' '' não tenha leitores e não seja encon- pectiva importância, .terá d i r e i t o - a
Toda a correspondência deve ser trada, á venda. Para obter este resul- uma assignatura gratuita.
endereçada á Sociedade Editora Ole- tado contamos com o auxilio dos A toda pessoa que angariar qual-
' gario Ribeiro — Caixa postal n. 117'2 nossos leitores, aos quaes pedimos que quer numero de assignaturas d'A NO-
— S. Paulo. nos indiquem endereços de livrarias, VELLA SEMANAL offereceromos a
agencias e vendedores de jornaes e titulo de brinde, livros, escolhidos no
Aos editores pessoas e instituições que possam se
interessar pela venda ou leitura des-
catalogo de qualquer livraria do Bra-
A NOYELLA SEMANAL publicará sil, no valor de 20 o,'o sobre o preço
com prazer, e gratuitamente, o titulo, te periódico em qualquer localidade, total das assignaturas angariadas.
nome do auctor, preço e nome e en- por iirsignincante que seja.
dereço do editor, de todas as obras -Interessados também em conhecer
editadas no Brasil, bastando para isso os escriptores e poetas de mérito, do Assignaturas
que os editores lhe enviem aquellas todos os Estados e de todas as épocas, Anno 20$000
indicações. afim de lhes poder divulgar a obra,
De todas as obras das quaes lhe for muito agradeceremos qualquer indi- Semestre . r 10$000
remettido um exemplar, publicará a- cação que a este respeito nos seja Trimestre 5$000
lém dis.^o uma noticia critica. fornecida, rogando a todos quantos Numero avulso . $400

SOCIEDADE EDITORA OLEGARIO RIBEIRO - R. Dr. Abranches, 43 - Caixa Postal, SI72 -Teleph.: Cidade, 544! - S, PAULO
NUMERO 1

FILHO PRÓDIGO —
SUMMARIO deu Amaral — Curio-
sidades literárias - Auto-
biographia de MONTEI-
RO LOBATO — O s n o s -
PARÁBOLA — Léo Vaz sos poetas - Os sonetos
O TOIRO NEGRO - Alui- Baptista Júnior SUPPLEMENTO - A . vida de A D O L P H O ARAÚJO
. . _ MfcW,tV _„ ___ _,,-^„ anecdotica e pittoresca — Leituras - Negrinha -
zio A z e v e d o N A T A L D E FREI GUIDO Aos grandes escriptores Coivára - Dialecto caipira
A MATTA MALDICTA — - M a g a l h ã e s de A z e r e d o OLAVO BILAC - Ama-

O 22 DA * 6
MARAJÓ 9 9

Esse delírio que por ahi vae pelo futebol tem assistir-se a espectaculo mais revelador da alma
seus fundamentos na própria natureza humana. humana que os jogos de futebol em que disputam
O espectaculo da luta sempre foi o maior encanto a primasia paulistanos e italianos, em S. Paulo.
do homem; e o prazer da victoria, pessoal ou do Não é mais esporte, é guerra. Não se batem;
partido, foi, é e será a ambrosia dos deuses ma- duas equipes, mas dois povos, duas nações, duas
nipulada na terra. Admiramos hoje os grandes raças inimigas. Durante todo o tempo da luta,
philosophos gregos, Platão, Sócrates, Aristóteles; 40, 50.000 pessoas deliram em transe, extacticas,„
seus coevos, porém, admiravam muito mais aos na ponta dos pés, coração aos pulos e nervos
athletas que venciam no estádio. Milon de Cro- tensos como cordas de viola. Conforme corre o
tona, campeão na arte de torcer pescoços a tou- jogo, ha pausas de silencio absoluto na multidão
ros, só para nós tem menos importância que seu suspensa ou deflagrações violentíssimas de enihu-
mestre Pythagoras. Para os gregos, para a massa siasmo que só a palavra delírio classifica. E gente
popular grega, seria inconcebivel a idéa de que pacifica, bondosa, incapaz de sentimentos exalta-
o mestre pudesse um dia bffuscar a gloria do dos, sae fora de si, torna-se capaz de commetter
lutador. os mais horrorosos desatinos.
Em França o homem verdadeiramente popular A luta de 22 feras no campo transforma em
é George Carpentier, mestre em soccos de pri- feras os cincoenta mil espectadores, capazes todos
meira classe. Se derem nas massas um balanço de se esfaquearem mutuamente num conflicto
sincero, verão que elle sobrepuja em prestigio horrendo, caso um incidente qualquer funda em
aos próprios chefes supremos vencedores da guerra. corisco as elèctricidades psychicas em ponto su-
Nos Estados Unidos ha sempre um campeão de premo de concentração.
boxe tão entranhado na idolatria do povo, que O jogo do futebol teve as honras de despertar
está em suas mãos subverter o regimen político. o rtosso povo do marasmo de nervos em que vi-
Entre nós ha o exemplo recente de Friedenreich, via. Antes delle só nas classes médias a luta po-
um pé de boa pontaria pelo qual milhares de lítica tinha prestigio necessário para uma exal-
creaturas, sobretudo creanças, são capazes de sa- taçãosinha periódica.
crificar a vida. E isso porque de todos os esportes tentados no
E os delírios collectivos provocados pelo em- Brasil só o futebol conseguiu acclimar-se, como
bate de dois campeões em campo ? Impossível o café. Hoje, alastrado de norte a sul, transfor-
A NOVELLA SEMANAL

mou-se quasi em praga, conseguindo só elle, in- dissimas, como façanhas de Rolando. E taes fez
teressar vivamente, exaltadamente, delirantemente, que o governo,íncommodado, deportou-o para o
ao nosso povo. norte, a servir no Alto-Amazonas em canhoneira
No Estado de São Paulo não ha recanto, vil- da flotilha estacionada no Pará. A mudança de
loca, fazenda, bairro onde se não veja num chão clima regenerou-o e o rapaz, resolvendo tirar
plaino e batido os dois rectangulos oppostos, as- partido de seus dotes plásticos, ferrou namoro
signaladores dum groand. Pelas regiões novas, com a mulher de um shipchandkr, da qual se tor-
de virgindades só agora atacadas pelos invasores, nou logo amante.
é commurrt topar-se, de súbito, em plena matta, Pouco durou o trio.
uma clareira aberta e limpa onde, nas horas de O shipchandler morreu e o 22 casou-se com a
folga, os derrubadores de páo vêm bater bola. viuva, herdeira dum paço de quatrocentos contos.
já assistimos um match em certa fazenda. Tu- Pediu baixa, obteve-a e foi com a esposa em
do muito bem arrumado; os players uniformisa- viagem de nupcias á Europa, onde permaneceu
dos, de meia grossa e botinas ferradas, tal qual como dois annos. Ao cabo, regressou á pátria, elegendo
nos clubs das cidades. E falando em corners, goals, o Rio de Janeiro para residência definitiva.
hands, halfs-times, a inglezia inteira dos termos Mas quanto mudara ! Transformado num per-
technicos. Ao nosso lado um fazendeiro explicava: feito gentleman, embasbacava a rua do Ouvidor
— Aquelle goal-keeper é carreiro; amanhã de com seu apuro de trajes, suas polainas, suas lu-
madrugada está de pé no chão puxando lenha. vas, sua cartola clara.
O center-half é madeireiro; está me lavrando — Quem é ? Quem é ? Ninguém sabia.
umas perobas na roça velha. Os full-backs são tro- — Algum fidalgo, certamente, cochichaVam.
peiros e os forwards, simples puxadores de enxada. Não vêem que modos distinctos ?
Era assombroso! Estávamos deante da maior E o 22 impávido, petroneando, de monoculo
revolução de costumes operada em terras de Santa no olho, a olhar de cima para homens e coisas.
Cruz desde o dia de Cabral. E tudo por arte e obra Tinha hábitos certos, e todos os dias passava pe-
de uma simples esphera de couro estufada de ar!... lo largo de S. Francisco, como paca pelo carreiro.
Antes do futebol só a capoeira conseguiu um Aconteceu, porém, que ali era ponto de uma
cultozinho entre nós e isso mesmo só nas classes roda de rapazes chiques, fortemente despeitados
baixas. Teve seus períodos áureos, produziu seus ante a esmagadora elegância do desconhecido, ri-
Friedenreichs, afinal, acabou, perseguida pela poli- val perigoso, sem duvida. Os quaes rapazes, de-
cia, com grande magua dos tradicionalistas que viam pois de inuito cochicho, deliberaram quebrar a
neíla uma das poucas coisas de creação indígena. proa ao novo concurrente, aguardando para isso
Infelizmente não se guardou memória escripta apenas a opportunidade.
desse esporte, cujos annaes se encheram de ma- Certa vez em que o Petronio passava mais im-
ravilhosas proezas. Não teve poetas, não teve ponente que nunca, coincidiu approximar-se da
cantores, não teve sábios que a salvaguardassem roda chique um capoeira, mordedor que se ga-
do olvido; e de todo o nosso rico passado de bava de ser mestre em "soltas".
capoeiragem só restam impressões esparsas, em Quem sabe hoje o que é "solta", nesta época
via de se diluírem, na memória dos velhos con- de kikes eshootes ? "Solta" era uma cabeçada sem
temporâneos. hands, isto é, sem encostar a mão no adversário.
Que bellos themas a nossa literatura deixa á mar- Mas o capoeira chegou e mordeu-os em cinco
gem, victima que é da eterna fascinação franceza ! mil réis.
Que se fixe pois, em letra de forma ao menos — Perfeitamente, responderam os rapazes, mas
o caso do 22 da "Marajó", com tanto chiste nar- primeiro nas de sapecar uma solta naquelle fre-
rado pelo maior humorista brasileiro, esse pro- guez que ali vae de monoculo ! . . .
digioso Marck-Twain inédito que é o senhor — E' já! exclamou o capoeira gingando o cor-
Felinto Lopes. po. E tirando o chapéo foi. postar-se na calçada
O 22 da Marajó era um imperial marinheiro, por onde vinha o 22, de cartola e monoculo,
mestre em desordens e amigo de revirar de per- sacudindo passos de lord, muito esticado dentro
nas para cima kiosques de portuguez. Rapazinho do seu croisé cortado em Londres.
bonito, esguio, branco de côr, bigode espetado, Um, dois, t r ê s . . . Quando Petronio defrontou
imperava na Saúde, onde suas proezas de capoeira o capoeira, despejou-lhe este uma formidável e
excepcional andavam de boca em boca, discuti- primorosa cabeçada.
A NOVELLA SEMANAL

O desconhecido, porém, quebrou o corpo, e a


cabeçada do atacante foi de encontro á parede,
ao mesmo tempo que um pé bem manejado plan-
tava-o no chão com elegantíssima rasteira. O mor-
dedor, tonto e confuso, mal ergueu-se e já desa-
bou de novo, cerceado por outra gentil rasteira.
Passara, imprevistamente, de aggressorja aggre-
dido e, desnorteado, deu sebo ás canellas, indo O FILHO PRÓDIGO
apalpar o gallo a cem passos de distancia. (PARÁBOLA)
Emquanto isso o Petronio, concertando a gra- Certo Absaul, de Babylonia, homem a quem o
vata, com grande calma, dirigiu a palavra aos Senhor abençoara nas obras das suas mãos, ac-
moços elegantes, assombradissimos: crescentando-lhe as riquezas sem conto, tinha
— Só uma besta destas dá soltas sem negaças! dois filhos. E' possível que tivesse tido outros;
Já dizia o Cincinato Quebra-Louças: soltas sem é mesmo muito provável, dado o seu gênio; mas
negaças só em lampeão de esquina. Se grampeas- a Historia, não se sabe porque, só menciona es-
se, inda vá lá. O- Trinca-Espinhas, o Estrepolia, tes dois privilegiados, e a ninguém é dado tor-
o Zé da Gamboa e outros praxistàs admittem-n'a cel-a ao sabor das próprias conjecturas. A Histo-
neste caso, e isto mesmo só quando o semovente ria é a Historia.
não é firme de letra. Ora, destes dois filhos do rico Absaul, Izar, o
E gyrando a bengala de unicornio entre os mais velho, era o modelo dos Izãfres. Trabalhador,
dedos annelados, finamente superior, concluiu, com honesto, pouco falante, leal e submisso, nunca ao
saudades: pae dera o menor aborrecimento. Todos os dias,
— Já gostei desse divertimento. Hoje, minha desde os seus sete ou oito' annos, ainda madru-
posição social e o meio em que vivo não m'o permit- gada nova, reunia o grosso das ovelhas paternas
tem mais. Vejo, porém, que a arte está decaindo... e lá focava com ellas para as planícies, a apas-
E lá se foi, imperturbável e superior, murmu- cental-as, até a noite, quando tornava ao redil,
rando comsigo: onde dormia, num palheiro, ao lado de duas ou
— Soltas sem negaças . . . Forte besta! três ovelhinhas favoritas. Era como se não
Os elegantes, passado o momento de estupor, existisse. Era mais: era um novo servo do pae,
planearam solenne desforra. e gratuito. As suas únicas ambições não iam
Contratariam o famoso Dente de Ouro, da Saú- mais alto do que o mendrugo que levava ao
de, para quebrar a proa ao prosa. pastoreio e a sopa que á noite partilhava com
Tudo ajustado, no dia marcado postaram-se no os criados.
carreiro, com o rompe-e-rasga á frente. Emfim, um optimo rapaz, o Izar.
— E' aquelle! disseram, quando repontou ao Já Balaad, o mais moço, era outra fazenda. Dez
longe a cartola clara do Petronio. annos mais novo que o irmão, desde a infância
Dente de Ouro avançou feito para o desconhe- que só trazia ao velho attribulações e cabellos
cido. Ao fronteal-o, porém, entreparou, e abriu-se brancos. Creançola ainda, já desencaminhava ca-
num grande sorriso palerma: chôpas, com graves desembolsos paternos, que
— O' 22! Você por aqui ? ! . . . só assim lograva a aquietação dos rendeiros sus-
— Cala o bico moleque, e toma lá para o ci- picazes e pães de filhas.
garro. Mas afasta-te, que hoje sou gente e não Mas ainda assim, isso era o de menos. Avan-
ando em más companhias, disse o Petronio, cor- çando em idade e em maus costumes, promove-
rendo-lhe uma pellega e seguindo caminho. ra-se Balaad a collaborador de lares alheios,
Dente de Ouro voltou ao grupo dos elegantes, escandalisando a sociedade babylonica em clan-
alisando a nota. destinas e escandalosas aventuras. E, mais, as-
— Então ? perguntaram elles, desnorteados com signava letras respeitáveis, que o bom do velho,
o desenlace imprevisto. temeroso de ver o nome da sua estirpe a figurar
— 'cês 'tão bestas! Pois aquelle é o 22 da em protestos e citações desagradáveis, ia resga-
"Marajó", corpo fechado para sardinha e pé quc~ tando, entre fundíssimos suspiros.
nunca malou saque. Estrompar o 22 ?! 'cês 'tão O diabo. Aquelle filho era realmente uma
bestas ! . . . immerecida penitencia para um tão fiel servidor;
MONTEIRO LOBATO de Jehovah. Já o velho pae se via privado de
A NOVELLA SEMANAL

certas excursões á noite, muito de seu gosto e


inclinação, pela certeza de topar infallivelmente E abalou satisfeito. O primeiro comboio trans-
com o filho nos mais abomináveis sitios e com- portou-o a Damasco, para onde de ha muito o
panhias. Nem á casa do seu amigo, o optimo chamava a fama dos seus vinhos e das suas mu-
Yozias, lhe era dada a antiga assiduidade, pois de lheres. E, uma vez alli, poz os capitães em con-
lá não sahia Balaad, que induzira a crime de la- ta-corrente no London Bank até que lhes achasse
pidação a linda esposa delle, a rochonchuda melhor e definitivo emprego.
Vitelia!... E foi o leão das rodas elegantes de Damasco.
*
Até que um dia mandou Absaul vir-lhe á pre- Mas não ha leão que sempre dure, nem cheque
sença o incorrigivel. E, .pousando o jornal, co- que nunca se acabe. O de Absaul extinguiu-se
meçou uma reprimenda, já muito surrada: ao cabo de alguns annos, e um dia, no "guichet"
— Os desígnios do senhor são altos e inattin- do bartco, um saque de Balaad foi polidamente
giveis á misera comprehensão dos homens . . . regeitado.
No que foi interrompido por Balaad, que, so- — Hein ? ! . . .
prando para a braza do charuto a baforada, e — Perdão, meu caro senhor; temos muito gos-
encostando as nádegas á borda da mesa, lhe cortou to em servir ao illustre dr. Balaad, mas devemos
para logo o fio ao sermão: advertil-o de que os seus fundos já estão exgot-
— Meu pae nasceu, innegavelmente para pregar tados. Faça o favor de conferir a sua caderneta...
na synagoga; o seu discretear é sempre magní- V e r á . . . O ultimo saque, de Talentos 2,50, a 19
fico, quer no fundo, quer na forma, não ha du- de Rhamadan, só em parte foi satisfeito... O dr.
vida nenhuma. Mas, porque diabo essa mania deve ter recebido o aviso... Faça o favor de
de m'o pregar a mim, que já o sei de cór e conferir a caderneta...
salteado? Ha por ahi tanta gente, meu velho, a Balaad conferiu a caderneta, que pela primeira
cuja ignorância muito mais aproveitaria a vossa vez abria. Estava limpo. Alheio de miudezas,
oratória . . . elle retirava toda a sua fortuna, em grossas par-
Absaul olhou-o alguns instantes por cima dos cellas, sem nenhum instincto de, conservação.
óculos e resolveu abandonar a rhetorica, por evi- Estava a nenhum.
tar remoques novos. E enfiou direito pelo" as- E logo naquella noite de prémière, em que tinha
sumpto: v • de ir cear com a divina Pitta! A z a r ! . . .
— Bem. Falemos claro. Mandei chamar-te para •
te dizer que isto não pode continuar assim. Tu Não havia que ver: era voltar.
não te emendas e eu já te não posso aturar por Empenhadas as ultimas andainas deixadas pelos
muito tempo nas minhas barbas... credores surprehendidos e inexoráveis, embarcou
— Perfeitamente. dias depois para Babylonia, sem saber muito bem
Após nova olhadela, Absaul continuou: o que iria lá fazer. Para evitar desagradáveis
— Tens direito a uma parte da fortuna cuja encontros com algum conhecido damasquino, de
guarda me confiou o Senhor, e ella tem de ir alto bordo, vestiu um fato de operário e tomou
ter ás tuas mãos, por morte minha. Pois bem: passagem na terceira classe.
Adeanto-te agora mesmo esses cabedaes, sob a Mas uma desgraça nunca vem só. A de Ba-
condição de deixares immediatamente Babylonia. laad também trazia no bojo outra. Pois eis que
Vae para Damasco, vae para Ninive, vae para o justamente o seu comboio, já nas proximidades
Egypto, vae para o Inferno... Estabelece-te alli, de Babylonia, abalrôa com um trem de cargas,
ou ènforca-te, mas cá nunca mais tornes, a en- que conduzia grandes manadas de porcos para os
vergonhar com tua presença as minhas cãs hon- frigoríficos de Ninive.
radas. Aqui tens o cheque. Suma! Foi um desastre horrendo. Muitas mortes e
— Sim, senhor! disse o rapaz, mettendo o che- muitíssimos feridos.
que na carteira; até que emfim, sempre ao meu Balaad, propriamente, não teve mais do que
pae occorreu uma idéia luminosa! Nunca sus- pequenas contusões e excoriações de somenos. O
peitei de proceder de tão intelligente creatura . . . acaso porém combinou as coisas por tal modo
Mas, vendo que o velho fingia engolphar-se de que elle, quando deu tento de si, estava encurra-
novo na leitura, despèdiu-se com um lado sob os escombros dum vagão, de parceria
— Até 8 ? vista! com uns poucoff bacoros immundos.
A NOVELLA SEMANAL

O serviço dos bombeiros deixou muito a dese- e inattingiveís á mísera intelligencia humana! Sou
jar. Pelo menos quanto á presteza, muitíssimo. um grande e desgraçado peccador, porque contra
Eis porque o bom filho, que assim tomava á o Senhor e contra o meu pae pequei! Já não
casa, como quer o brocardo, teve de permanecer sou digno da vossa inexgottavel complacência.
alli uns cinco dias naquella camaradagem humi- Já não mereço sequer o lugar de um dos vossos
lhante e, ao cabo dos primeiros dias, sobre hu- servos mais humildes ! . . .
milhante, perigosa. Se não fora aquella faquinha Ia juntando gente, o que não entrava nos gos-
que tiveia a idéia de trazer comsigo para o que tos do velho, que não augurava boa sahida para
desse e viesse, aquelles brutos esfaimados dar-lhe- aquelle exordio do filho. Assim, tratou de re-
iam com toda a certeza cabo do canastro. matar logo a scena:
Mas teve que contentai-se com a carne crua e, — Mas acaba com isso, homem! Que foi que
até certo ponto, faisandée. Uma perfeita miséria !.. te aconteceu?
Emfim, sempre deram com elle alguns bom- — Uma desgraça, meu pae, uma tremenda mas
beiros, que não deixaram de deitar piada, ao ver muito merecida desgraça, imposta por mãos de
surgir aquella face humana de onde só contavam Jehovah ao filho indigno e reprobo . . .
ver apontar as fuças de algum suino faminto. — Sei disso... Mas conta logo o caso...!
Mas'estava salvo, e isso era tudo para o forte — Aquelle cheque, que na vossa magnanimidade,
espirito do nosso Balaad. meu pae, me concedestes, quando daqui parti,
* com o coração orgulhoso e empedernido, deixan-
Immediatamente dirigiu-se ao ninho antigo. do o santo conchego do lar, aquelle cheque, rou-
Já de longe, percebendo certa animação extra- baram-m'o ladrões cruéis!... Fiquei na miséria
nha aos hábitos hocturnos da sua casa, sorriu. e nú que nem um cão. E por não macular o
Não havia duvida: era uma festa. vosso nome com a minha abjecção, pelo mundo
T— Hum! pensou o rapaz, meu pae vae ás mil andei erradio e desprezado. Servi, como clarivi-
maravilhas . . . Estará viuvo ? . . . dentemente o dizeis, feito guardador de pqrcos. a
Acertara, Dois annos antes morrera a mulher amos sem piedade, que até o sustento me ne-
de Absaul, levando comsigo para o seio de Abrahão garam, obrigando-me a compartil-o com a ali-
as ultimas peias que cerceavam ainda o gênio maria immunda para saciar a minha fome. Vede
alegre e folgazão do velho. E desde ahi foram como estou magro ! . . . Muito soffri pelo muito
festas, beberetes, patuscadas na cidade ou no cam- que pequei, Jehovah seja louvado . . . !
po, com côristas e senhoras equívocas, taes e A multidão era já compacta ante a porta de
tantas, que o povo de Babylonia já alcunhara o Absaul.
viuvo de Balthazar II. — Mas, afinal... ?
Parado em frente ao pórtico da xasa paterna, — Afinal, cançado de tantos soffrimentos, pen-
Balaad ouvia esses informes aos basbaques que sei que aqui em vossa casa encontraria um
no sereno espreitavam o festim. Até que, ba- canto onde morrer, e o perdão e a bençam do
tendo na testa a clássica palmada e piscando meu pae... Sinto que a chegada do impio venha
um olho, dirigiu-se ao saguão de entrada e man- em momento de perturbar as santas praticas com
dou annunciar-se ao pae. que certamente meu pae rendia ao Senhor o seu
O rico Absaul, ao ouvir que alli estava á porta culto, como homem justo e recto que é . . .
Balaad, de torna-viagem, não pôde compor de Aqui Absaul julgou prudente intervir, movido
prompto as idéias, que lhe andavam razoavelmente da risota que começava entre os circumstantes:
dispersas, mas abandonou precipitadamente os — Não, meu-filho, as graças ao Senhor, costu-
convivas e foi ter com o filho. Mas ao topar mo rendel-as, é certo, como manda a Lei... Mas
com elle naquelle estado lastimável em que sahira tudo tem seu tempo e opportunidade... Esta festa"
de sob os destroços feiroviarios, sentiu reviver não tem precisamente esse caracter que lhe dás.
no animo a humana e patefnal piedade: E' q u e . . . S i m . . . Como já estava informado de
— Que é isso ? Que maus fados te puzeram que finalmente te arrependeras e,- deixando o triste
nessa extremidade ? De onde vens, a estas horas, mister de guardador de porcos, procuravas o per-
assim immundo como um guardador de porcos ?... dão e a bençam de teu pae, mandei organisar
Ao que Balaad, apanhando a deixa no ar, pro- esta surpreza, afim de celebrar a tua volta e a
rompeu: nossa reconciliação. Anda dahi, pois; vae lá- dentro,
^ h ; meu pae! Jehovah tem desígnios altos banha-te convenientemente e vem para nossa
6 A NOVELLA SEMANAL

companhia, onde anciosos te aguardam os nossos publica pelo promettido règabofe, quando chegara
amigos... afinal o grande dia, deslumbrante ao vivo sol de
E descendo uns degraus, Absaul segredou aos agosto e acclamado ardentemente pelo povo como
ouvidos de Balaad, mas não com a prudência um dia de gloria nacional. Houve salvas e to-
sufficiente para que não fosse escutado pelos ou- ques de cometa ao romper d'alva. Das duas da
vidos mais afiados dos curiosos: tarde em diante, as principaes ruas da cidade, no
— E olha, meu filho, afim de honrar como meio de uma poeirada de cegar, transformaram-se
convém o teu regresso, mandei vir a Vitelia, em estrepitosas torrentes de carruagens, carroças,
sabes ? a viuva do Yozias, a Vitelia Gorda, como ginetes, e peões de toda espécie, que lá iam, em
lhe chamavas... Tu te lembras... ancioso alarido, desagiiar na praça de toiros.
* A entrada do circo, donde vinha um quente
E..emquanto, no banheiro, os servos lhe ungiam rumor de caldeira a ferver, homens de má cata-
os membros com óleos e essências finas, Balaad, dura, com grandes taboleiros amparados ao ventre
sorrindo, murmurava: e suspensos do pescoço por grossa correia de
— A Vitelia Gorda, hein ?... Este senhor meu coiro cru, offereciam aos circumstantes, não re-
pae é das Arábias!! A . frescos, frutas e flores, mas navalhas e facas de
LEO VAZ
todos os feitios e tamanhos. Mais adiante, viam-
se outros a vender, em vez de doces e confeitos,
chouriços, paios e lingüiças, e ouviam-se ainda ou-
tros, cercados de barris e garrafões, apregoar vinho,
azeitonas e aguardente. Em volta dos felizes que
entravam para assistir ao espectaculo, rilhava in-
vejosa a matilha dos que ficavam cá de fora sem
poder fazer outro tanto, e um enxame de mulhe-
O TOIRO NEGRO res, de lenço de cor á cabeça, doidejava em re-
A noticia de uma estrondosa corrida de toiros, dor dos sujeitos que se dirigiam aos corretores
que^se ia dar na velha cidade da Gallisa, onde de bilhetes, supplicando-lhes, a sorrir ansiosas,
nessa época me achava, assanhou o povo como uma senha de entrada em troca de tudo que ellas
por encanto, pondo-lhe o animo num estado de lhes pudessem dar com o corpo, e mendigos ber-
alegria do qual estava eu bem longe de o suppor ravam por outro lado, lanceando o espaço com
capaz. Viria como Primeiro Espada e Chefe da os dedos hirtos, a reclamar esmolas como quem
«cuadrilla» o guapo Torbellino, dono então por reclama justiça no meio de caiphazes, e atiravam
alguns instantes da cruenta alma espanhola, sem para o ar o nome de Deus e das virgens num
conseguir, está claro, com esse passageiro namo- intenso diapasão de pragas; ao passo que os
ro distrahi-la completamente da sua sádica paixão guardas-civis, sombrios debaixo do seu reluzente
por Lagartijo e Frascuello. chapéu de oleado em forma napoleonica e da sua
enorme capa, rondavam de um lado para outro,
A boa nova começou logo a chamar gente de
cruzando-se, com os chulos de facha encarnada e
todas as cidades e povoações vizinhas. Ninguém
as manolas de trunfa alta, que também rondavam,
por alli em volta resistia ao soffrego desejo de
mas com fins inteiramente oppostos.
vir buscar o seu quinhão de sensações violentas
que tão grata toirada promettia, e gosar o seu O corredor do amphitheatro estava ensalsicha-
bocado de sangue fresco, que havia tanto tempo do de espectadores até a boca, e lá dentro, tanto
já se não gosava por aquellas alturas. Dir-se-ia do lado da sombra como do sol, não havia lugar
que os restos da sacrosanta Espanha de Torque- vazio. Meu banco felizmente era á sombra, e eu
mada e de Philippe II, não se podendo saciar via palpitar no lado contrario, em plena luz, os
como dantes, nos bons tempos, com o capitoso leques de milhares de espectadores de ambos os
sangue dos heréticos e dos impios,- se contentava sexos, lembrando borboletas presas pelos pés e
agora, em falta de melhor, com o innocuo sangue doidas por voar; as sombrinhas de todas as cores,
de bois e de cavallos, sempre na esperança, to- as vistosas mantilhas e as roupas, clamas tinham,
davia, de qualquer acaso feliz, que viesse enrique- nessa vasta e illuminada banda do circo, um as-
cer a festa com o apreciável sangue de algum pecto tão allucinador, que parecia ser a expressão
toireiro desastrado. palpável daquella infernal algazarra, feita de rixa
E já não havia meio de conter a soffreguidão e riso, e da qual os palavrões obscenos se desta-
A NOVELLA SEMANAL

cavam, iguaes a esses estalos mais fortes que re- uma dura vida de trabalhos no campo ou nas
bentam por entre a constante crepitação de um cidades, para ser, em recompensa, dos seus bons
incêndio na floresta virgem. Ouviam-se de todos serviços, escorneadas por companheiros de mar-
os lados sonoras pragas e alegres exclamações de tyrio.
arrancar coiro e cabello; á minha esquerda, uma Feita a apresentação, separados da «cuadrilla*
família, em que havia meninas menores de quinze os toireiros que tinham de ficar na praça e cor-
annos, manifestava o seu enthusiasmo pelo mes- rer o primeiro toiro, fechado de novo o portão
mo depilatorio systema, e aquelles castos ouvidos por onde vieram, bem vendados os olhos aos
recolhiam palavradas capazes de fazer tremer a um cavallos dos picadores, para que não fugissem
soldado, que não fosse espanhol; á minha direita espavoridos ao perigo, a cometa deu novo signal,
o chefe de outra família, sem duvida não menos abriu-se daquelle mesmo lado uma cancella, e a
honesta que a da esquerda, empinava de vez em victima designada surgiu a galope, estacando logo,
quando uma formidável borracha de vinho, a que porém, em pleno circo, fascinada e aturdida n o
elle chamava «bota», e fazia também beber aos meio de toda aquella estrondosa berraria, a olhar
seus por igual sorte, entremeando os successivos perplexa para todc^ os lados, até que, como se
tragos corri tarâscadas de chou- só então desse pela presença
riço, partida rente da boca por dos capinhas, investiu contra
uma navalha, de inquietadoras Monteiro Lobato um delles.
proporções. Estava travada a pugna.
Cinco minutos antes das E começaram a repetir-se
quatro horas, momento marca-
do a rigor para começar a A Ond defronte
olhos
tes e
daquelles milhares de
ávidos
passes,
as estafadas sor-
que ha séculos a
funcção, a berraria recrude-
sceu, preparando-se já para
protestar, mas o Alcaide da
Ve r d e
JORNALISMO
Espanha
o mesmo
vê e revê sempre com
enthusiasmo, e que
cidade, pomposo nas suas in- sempre applaude com a mes-
sígnias, assomou logo no cama- ma convicção patriótica. Os
rote de honra, acompanhado Brochura 3$500, enca- capinhas, como ha cem annos,
pelo Presidente da corrida,
dernado, 4$500 pelo atormentavam a pobre besta,
correio mais 500 réis negaciando defronte delia com
cumprimentou cerimoniosa-
mente o publico, e uma vi- as suas irritantes e traiçoeiras
brante cometa militar, acolhida capas vermelhas, ou os ban-
Pedidos ã
com tumultuosos regosijos, M O N T E I R O L O B A T O ®» C . darilheiros lhe espetavam na
deu o signal de abertura. Rom- R . B o a V i s t a , 5 2 - S . P a u l o espadua e no pescoço farpas
peu então a banda de musica carregadas-de enfeites e, ás
a tanger uma marcha dobrada, escancararam-se vezes também de fogo, ou então os picadores lhe
as grades de um portão no lado opposto ao da apresentavam as ilhargas das suas deploráveis caval-
entrada de espectadores, e entre applausos geraes gaduras, para que o enfurecido animal as destri-
a «cuadrilla» fez a sua solenne apparição na liça. passe ferozmente, e também como ha cem annos,
se o misero cavallo não morresse logo á primeira
Vinha na frente, a cavallo, o Primeiro Espada, aggressão e ainda se pudesse equilibrar sobre as
o guapo Torbellino, todo agaloado, com chapéu patas, recolhiam-lhe de novo ao ventre os intes-
de plumas e botas de canhão, empunhando- se- tinos, cosiam-lhe o coiro com alguns pontos
nhorilmente o seu bastão de Chefe; seguiam-se apressados, e de novo o offereciam, sempre com
os bandarilheiros e capinhas, a dois e dois, numa a venda nos olhos, aos truculentos cornos, e afinal,""
vistosa ala de cinco pares, todos a gingar, bri- ainda como ha cem annos, quando o toiro se
lhantes nos seus bordados trajos de jaqueta curta achasse já bem cansado e exhausto, o Matador se
e calção justo, o braço esquerdo dobrado por apresentava defronte delles com a sua gloriosa
debaixo da capa vermelha e o direito solto, acompa- espada e lh'a enterrava no cerviz até matál-o.
nhando os requebros do corpo; fechavam o séquito Fidalgo gesto, que sempre teve o condão de ar-
os picadores, em numero proporcional, formados rancar do publico espanhol delirantes manifesta-
de três a três, com brutaes perneiras de chumbo ções de applauso, traduzidas não só em brados
e lanças formidáveis, cavalgando velhas alimarias, de louvor e em flores, alli mesmo arrebatadas do
tristes e alquebradas, que ali vinham, depois de
A NOVELLA SEMANAL

próprio collo ou do próprio toucado pelas mu- Mas o tremendo adversário não lhes deu tem-
lheres, mas muitas vezes também em ricos len- po para negaças, e de roldão foi investindo sobre
ços de renda, finos leques e até jóias preciosas, um dos picadores, que logo desabou da sella co-
que lá iam cair aos pés do triumphador de en- mo um S. Jorge, e ao qual era preciso acudir
volta com charutos, cigarros e moedas de prata antes de mais nadax e carregar promptamente
arremessadas pelos homens." dalli, se o não queriam ver num ápice acabar nas
Só a quinta e ultima corrida da toirada, gra- pontas do toiro. E para este distrahir e arredar
ças ao imprevisto das circumstancias que se deram daquella zona durante a subtracção do picador
nella, discrepou daquelle veneravel ramerrão, e em apuros, armou-se em volta delle uma agitada
por isso mesmo foi a única digna de ser contada. tropelia, emquanto os outros dois cavalkiros, bem
O toiro então a correr era um bello animal scientes do que os esperava, tratavam de chegar-
negro e reluzente, com os cornos curtos e atila- se á salvadora trincheira, contra a qual de facto
dos como os de um bufalo. eram em poucos segundos arrojados impetuosa-
Ao abrirem-lhe a cancella, elle invadiu a praça mente com as suas cavalgaduras, apesar de rece-
num formidável é insólito galope, centripeto e berem á ponta de lança o cornigero aggressor.
cerrado, e a circulou repetidas vezes, com tal Derreados os cavallos e eclipsados os picadores,
velocidade e tamanha fúria, atropelando tudo por o toiro fêz-se de todo para os capinhas, que aliás
tal modo, que foi logo uma debandada geral em não o conseguiram capear uma só vez e quando
toda a arena; os capinhas e bandarilheiros voa- muito só lograram o enraivecer ainda mais. De
vam por cima da trincheira, sem quasi lhe tocar cada feita que o quadrúpede arremettia sobre
com a mão, e os picadores, chumbados aos seus um delles, saiam-lhe os outros pelos lados, agi-
pretensos corseis, abeiravarh-se delia e eram ás tando as capas, sem lhe dar tempo a marcar alvo
pressas colhidos lá de dentro e carregados no ar, para o assalto. Todo o empenho dos toireiros era fa-
a pulso, como manequins de pernas tesas, entre- tigá-lo, a ver si desse modo alcançavam equilibrar
tanto que os expiatórios rocinantes, abandonados as forças em acção e obtinham, para decoro profis-
e ás cegas, iam recebendo cornadas por conta sional, realizar algumas sortes, embora das mais
própria e pela de todos os lidadores que deser- simples, como o passe da Verônica ou o da Navarra.
tavam o campo. Eram três os miseros, e os três O toiro, com effeito, apesar de sempre árdego
pouco tardaram a cair mortos, enchendo de sangue e rebelde, já dava mostras de cansaço e parecia
o chão, já coalhado de restos das capas, sombreiros, já não acommetter com a mesma vehemencia, tanto
lanças, bandarilhas e outros despojos, que o toiro assim que Torbellino, sem se poder conformar com
espezinhava com raiva, rugindo de cabeça erguida. aquella vergonhosa corrida composta só decorre-
O publico, a patear e a trapejar com as ben- rias de um para outro lado da praça e repetidas es-
galas, protestava em delírio contra a ausência dos caladas á trincheira, resolveu salvar a situação com
toireadores no lugar do perigo, e reclamava, a ber- um golpe de audácia, e declarou que ia executar
ros loucos, novos cavallos na praça, como estabelecia immediatamente a sua famosa sorte da cadeira.
o regulamento das corridas. E essa feroz reclamação O publico acclamou-o de novo, mas desde que
de «chair-au-taureau» encheu muitos minutos, que elle, com um par de farpas na mão direita e a
foram até ahi os mais estrepitosos da toirada. cadeira na outra, se pôs a bater com aquellas,
Era tal o fragor, que o toiro pela primeira chamando o toiro á cita, este, em vez de partir de
vez se mostrou atordoado e se pôs a correr á toa, cara, como era de esperar, torceu de banda, anteci-
procurando instinctivamente uma aberta qualquer', pando-se assim no ardiloso quebro que o toireiro
por onde fugir aquella diabólica tempestade que contava fazer, e repontou-lhe pela esquerda, sem
bramia em redor delle e parecia querer tragá-lo. lhe dar tempo senão para fugir. De sorte que
A tempestade se acalmou quando de novo se os papeis singularmente se trocaram, o toireiro
abriu o portão, para dar passagem a outra turma não toireou e o toiro toireara, e Torbellino lhe
de três picadores, desta vez precedidos por todos teria sentido o gosto dos cornos se não se livra
os toireiros da «cuadrilla», que foram entrando tão depressa, abandonando ao adversário as farpas
de cambulhada e dispostos para tudo. Torbelino, e a cadeira, que voou logo em estilhas pelos ares.
agora vestido de seda cor de esmeralda recama- O peor, porém, é que o demônio do animal se
da de galões de oiro, trazia comsigo uma cadeira, lhe ferrou no encalço, e começou a persegui-lo
£uja magistral sorte figurava no programma da a galope cerrado por toda a volta em redondo
corrida em letras garrafaes. da praça, sem fazer caso dos capinhas que tenta-
A NOVELLA SEMANAL

vam desviá-lo da porfia. Torbellino, afinal, com dade, esqueceu-se dos toireadores, para dar todo
inaudita destreza, agarrou-sè na carreira que le- o seu enthusiasmo ao toiro. Os applausos re-
vava á borda da trincheira e a transpôs de um bentaram do amphitheatro em peso mais deliran-
salto; o toiro, porém, não menos destro, galgou-a tes do que nunca, e o inconsciente heróe como
atrás delle, rastrejando-lhe â pista. se os comprehendera, sacou a-cabeça das entra-
E então é que foram ellas! No interior da nhas do cavallo para encarar orgulhoso a" multi-
trincheira havia como sempre refúgios e defesas, dão, apresentando-lhe uma hedionda mascara
mas a tudo levava o toiro de vencida, ameaçando vermelha e verde, feita de estrabo e de sangue.
até as primeiras filas de espectadores. O pavor Redobrou o enthusiasmo, e uma ânsia febril a-
não podia ser maior. Na inversão dos pontos de poderou-se dos espectadores.
perigo, via-se agora encher-se a arena com os — Que Io maten 1 Que Io maten !
que a invadiam, saltando a trincheira falsa em bus- E a- nuvem dos toireiros acudiu de novo á pra-
ca de segurança, e era lá para dentro que accor- ça. O toiro, ha sua immediata investida, viu-se
riam os capinhas em perseguição do intoirejavel bqi. logo cercado por todos os lados e, arquejante de
Ah I não havia duvida que a quinta corrida, se, pe- cansaço, já sem força para os .repellir, escarvava
lo seu imprevisto, ia bem para grande parte do pu- a terra com as patas deanteiras.
blico, ia positivamente muito mal para os toireiros: — Que Io maten ! Que Io maten 1
Das farpas e bandariínas destinadas ao feroz bicho, Um lugubre toque de cometa deu o signal de
nenhuma lhe chegara a picar o coiro; das lanças dos morte. Pela primeira vez, fêz-se no circo um
picadores que o attingiram, a nenhuma foi dado con- pouco de calma quasi silente, na qual se sentia
servar-se inteira, e dos últimos três cavallos sobre- resfolgar a velha alma espanhola.
vindos, só um vivia ainda, e esse mesmo já ferido E o guapo Torbellino, na sua linda roupa cor
nas costelas e mal se podendo ter nas pernas. de esmeralda, perfilou-se defronte do toiro, ex-
Agora, o que os espectadores reclamavam nos pondo-Ihe a capa vermelha, debaixo da qual se
seus implacáveis berros, era a presença do toiro escondia a lamina fatal. O adversário, de cabeça
na praça; felizmente, porém, já lá dentro tinham baixa, a arfar com o corpo todo, recuava defronte
conseguido encurralá-lo, e não tardou a que o delle, negando-se á provocação; mas os capinhas,
restituissem ao publico. tanto o instigaram e tanto o enredaram nos seus
Vinha cansado e vinha colérico. Mal surgiu, entre- mil ardis, que o condemnado foi afinal collocar-
tanto na liça, encapotou logo,ássestando para frente, se deante do Matador, em posição favorável para
cornos atilados, e desembestou, tal qual ao iniciai a receber o supremo golpe. »
corrida, no seu centripeto galope a que nada resistia. Torbellino não deixou fugir a vez. Aprumou-
A praça esvaziou-se inda uma vez, e o toiro> se, mediu o bote e, com um gracioso, salto de
bem senhor delia, como para completar a sua mestre, enterrou-lhe até os punhos a espada na
victoria, arremetteu contra o cavallo já- ferido de raiz do pescoço, por entre os cornos.
morte, único sopro de vida que alli respirava. A A arma ficou no corpo do ferido, e este esta-
pobre cavalgadura jazia encostada á trincheira, cou, como surpreso do que se passava por dentro
com os olhos sempre vendados, e com o sangue delle. O Matador approximou-se então da sua
a desfilar-lhe por entre as costelas partidas. Ao victima, puxou-lhe da cerviz a ensangüentada espa-
primeiro assalto caiu logo, mais de costa que de da e bateu-lhe com ella desdenhosamente na cara.
flanco, agitando as patas no ar. O toiro acom- O toiro deu ainda um arranco, que era já de •
metteu-o de novo, engolfando-lhe no ventre os moribundo, a cambalear, cruzando as pernas da
cornos por inteiro e revolvendo-Ihe as entranhas frente, e foi cair aò lado do ultimo cavallo morto.
que arrancou afinal de todo para fora. Levantou então a cabeça e abriu os seus olhos
O desviscerado escorjava-se, ululando, num tre- de animal vindo ao mundo para ser bom e forte.
mor de todo o corpo, e o toiro, a saciar nelle a Da boca escorria-lhe sangue, mugiu soturnamen-
sua tremenda cólera, só recolhia as armas para te, e nesse mugido ia toda a lamentação de sua
as cravar de novo com mais fúria. Depois, não alma simples pelos campos verdes e amigos, que
Conseguindo nella levantar a victima e arrojá-la, elle tivera de deixar para vir morrer alli tão
como um despojo vil, por cima da trincheira, se cruamente nas mãos de bárbaros.
desforrava em mergulhar de todo a cabeça no E poi fim, deixando pender a cabeça sobre o flan-
arrombado ventre do agonizante, esfocinhando lá co do companheiro de sorte, suspirou muito rèpou-
dentro na sagrenta lameira dos intestinos. sadamente como um ente humano quando adormece.
O publico, empolgado por tão cruenta feroci- (Nápoles, Agosto de 1910.) ALUIZIO AZEVEDO
10 A NOVELL A SEMANAL

ninguém ; mas não tinha medo de homem. Quan-


do estava no seu direito poderia vir quem viesse:
—achava gente I E depois, aquillo tudo era medo,
era bobagem da Belmira 1 O Zé Pedro vinha lá
nada 1 Estava, talvez, a uma hora d'aquella, esten-
dido na cama, lá em baixo, na cidade, a cozi-
nhar a.bebedeira, como era de costume. A Bel-
A MATTA MALDICTA mira, coitadinha, tinha razão... Ella" não queria saber,
de questões em casa, porque aquillo a desmorali-
i.
O Rosendo, num rompante, esbarrou a mula á sava. Mas Zé Pedro naquella noite? Zé Pedro vinha
porta da casinha da Belmira. Depois, dando um lá nada 1 E esteve conversando com a amante até
geito nas abas largas do chapéu molle, entrou tarde. Quando se foram deitar passava das onze.
para a sala e foi abraçar com ternura a rapariga. Para a madrugada, Rosendo acordou em so-
Mas recuou logo, espantado. Que era aquillo ? bresalto, ouvindo um ruido, fora, na rua, perto da
Que frieza era aquella? Pois elle viera de tão janella. Desconfiado, poz o ouvido á escuta. Era
longe, da fazenda, para encontral-a naquella tris- uma voz de regougo, desconnexa e arrastada.
teza? Dissesse... Num susto, reconheceu a voz grossa do Zé Pe-
dro. Segurou com força a garrucha debaixo do
Belmira foi levantar o pavio da candeia de azeite,
travesseiro e chamou baixinho a rapariga:
sem dar resposta. Mas' o caboclo insistia, já meio
maguado com aquella seccura. — Belmira, Belmira, o Zé Pedro está ahi...
— Que é que você tem, Belmira ? Belmira levantou-se de um pulo. Que horror I
A rapariga olhou-o, desapontada e medrosa: Ellá bem dizia 1 Ouviram-se pancadas na janella
— Eu acho bom você não ficar hoje aqui, Rosendo. e a voz do Zé Pedro estourou fora:
— Mas porque ? — Abre essa droga 1
Não! Não convinha!... Elle sabia: O Zé Pedro Belmira poz as mãos na cabeça:
quando bebia um pouco, ficava maluco. E ella — Ai 1 meu Deus !...
já soubera, que, desde a boquinha da noite, o Zé Estava perdida I E correu para a tozinha, es-
Pedro andava a fazer estrepolia pela cidade. Era tonteadamente, com a roupa debaixo do braço,
capaz de vir, pela madrugada, como costumava, a vesti-la atarantada, sacudida do choro e susto...
bater á janella. Se encontrasse homem, desfeiteava, No meio do quarto, só, tremulo, com a garru-
brigava, queria botar para fora... Se fizesse isso, cha na mão, Rosendo esperava.
já não seria a primeira vez: e ella, Belmira, não — Abre essa gronga, senão arrombo I
queria saber d'aquillo. Rosendo continuava calado. E as pancadas con-
Fora sempre uma rapariga bem vista das vizinhas: tinuaram mais fortes.
não queria dar motivo de queixas. Não ! Não con- — Abre!
vinha que o Rosendo ficasse!... Era para evitar... Então o caboclo de dentro respondeu para fora,
Viria outro dia, um dia qualquer em que o Zé Pe- num largo desabafo de peito.:
dro não estivesse com a cabeça cheia de cachaça. — Aqui não se abre nada!
O matuto relanceou, com orgulho, o olhar para a — Então, arrombo 1
garrucha e a faca, na cintura, e deu um muchôcho: — Arromba, se és homem 1...
— Ora, um homem é para outro! Um murro secco estalou e a janella franzina
Mas não 1 Ella não queria briga em casa... se escancarou ao luar! A cabeça do Zé Pedro
Rosendo cortou-lhe a palavra com um gesto de- appareceu, e logo um braço, e outro braço, nu-
finitivo : ma escalada furiosa.
— Eu vim e fico ! Se elle vier cá, peior para elle... — Pára ahi, ladrão! — trovejou Rosendo.
E ficou. O outro não respondia e bufava, esforçando-se
Tirou o chapéu, dependurou o pala no prego para transpor a janella, fungando, ancioso, roçando
do portal e foi ao quintal despejar num caixão o peito no peitoril, os olhos chammejantes de raiva.
dous litros de milho á mula Guariba. Que aquelle — Pára ahi, ladrão !
vagabundo viesse I Havia muito que já não se E levantava o braço, engatilhando a garrucha.
gostavam por causa da Belmira; pois acabava de Zé Pedro, num resfolegar continuo, num deses-
uma vez com as rixas... Que viesse! Não tinha a pero, galgava com os braços, com o peito...
fama de valentão do outro, porque nunca matara — Pára ahi, ladrão, senão te mato!...
A NOVELLA SEMANAL 11
Zé Pedro subia. Apoiou a barriga; num ar- fugir, correr para muito longe, chegar a uma
ranco poz um joelho, outro joelho, um pé... terra onde fosse desconhecido, e assim,- talvez
— Pára ahi 1 escapasse da cadeia.
...Outro pé... Ia pular...
A Guariba trotava largo, fazendo estalar as fer-
Um tiro atroou na vastidão calada da noite...
raduras no chapadão duro do caminho. O sol já
II. tinha subido,' numa gloria, para a esplendencia do
Rosendo montou rapidamente a Guariba e to- azul, e o caboclo tocava sem descanso. E fazia
cou a galope pela estrada poeirenta. Esporeou o trotar a mula, subindo comorps, descendo outeiros,
animal com fúria. Em breve as ultimas casinhas ora sumindo-se na curva ensombrada da estrada,
da cidade tinham desapparecido. ora sahindo para a amplidão desolada dos campos.
Meia légua de caminho já tinha ficado, quando, Deixou campinas louras rutilando ao brilho do
á sua frente, o horizonte foi tomando uma vaga sol ardente, varou mattas escuras, cortou o en-
coloração, o céu branquejou, os campos vastos trelaçamento espinhado das capoeiras, embrenhou-
em torno, foram apparecendo, as montanhas cre- se pelo coivaral dos cerrados, atravessou córregos
scendo ao longe, as arvores surgindo, aos poucos, e córregos, atirando ae passagem, na liquescencia
por entre a neblina da manhã. prateada, a binga de chifre para refrescar a gar-
Metteu a Guariba a trote, para rememorar o ganta, num gole suavisador.
que tinha feito. Como fora aquillo ? Porque ti- O sol, durante o dia inteiro, do alto, queimou
nha disparado a garrucha tão de repente ? Como como um castigo. A' tardinha, Rosendo entrou nos
é que tinha matado Zé Pedro? Que estupidez campos da Loanda, que ficavam a dez léguas da
tinha feito! Não podia esperar que elle entrasse, cidade, interminavelmente estendidos, intermina-
agarral-o, tomar-lhe a arma, dar-lhe muita pan- velmente verdes. Guiou a mula para uma bai-
cada e depois deixal-o com o corpo retalhado de xada, á beira de um brejo onde fluía o zig-
chicote, do lado de fora? Porque, então, não fi- zag fino de um fio de água. A's suas costas,
zera assim, elle que nunca pensara em matar ?! no poente, o sol já se tinha engolphado por
Mas que horror! Matara mesmo 1 Sentira a queda * traz das nuvens pardas, espirrando para ó alto
,do corpo cahindo pesadamente na rua. -E estava uns laivos de sangue vivo. Em breve as primei-
perdido! Era um assassino! ras sombras crepusculares começaram a envolver
E agora como havia de ser?- E sua mãi, que os campos, e uma grande tristeza baixou do céu
seria d'aquella pobre velha, lá naquelle ermo, ao sobre a terra silenciosa. Rosendo subiu a um cu-
abandono, sem poder trabalhar e sem ninguém pim e estendeu longamente a vista pela extensão
que lhe fosse levar um pedaço de pão ? Que seria morta d'aquellas paragens. A campina se esten-
agora da sua própria existência, agora, que vi- dia, ampla, arrasada e quieta. Nem uma voz es-
veria andando, errantemente, de terra em terra, tranha, nem o mais pequenino ruído para pertur-
de fazenda em fazenda, sempre perseguido pelos bar a immobilidade d'aquelle ermo. As arvores
soldados, sem descanso, sem um momento de so- se erguiam, recolhidas e tristes, sem o bulicio leve
cego? Sim, que seria? Na cidade, aquella hora, de uma folha. O céu era de uma tristeza infinita
já sabiam de tudo... O crime era fallado em to- e desamparada, arqueiando-se, como a derramar
das as esquinas; o seu nome, que fora sempre sobre a terra toda a angustia que enchia a solidão.
tão respeitado, já andava de bocca em bocca, Só então, Rosendo levantou os olhos para a es-
manchado com uma maldição! E os soldados já querda e viu, a meia légua, a estrada sombria
lhe haviam sahido á procura, farejando pelo ras- da Matta das Cruzes, d'aquella matta profunda e
tro fresco da Guariba na poeira da estrada, hu- maldicta, de uma légua cerrada de arvores e so-
medecida pelo sereno da noite. E vinham sem cavões, sem uma clareira, sem o alivio de um pe-
descanso, dous, três, quatro, de bonets, terríveis, daço de campo. Era a matta excommungada que
armados de carabinas, a perguntar, aqui, alli, "se o povo d'aquellas redondezas havia cercado de
não tinham visto passar o criminoso l" uma lenda apavorante e tenebrosa. Nunca houve
Para attestar o crime, o corpo do Zé Pedro lá_, um cabloclo, por mais valente e sarado, que ou-
ficara estendido no chão, com uma bala cravada^ sasse atravessal-a, á noite, sem rolar morto por
no peito. Podia ir para onde quizesse — encon- uma grota. Contavam de muitos que lá entra-
traria sempre a mesma perseguição... ram, em noites de lua, e nunca mais sahiram. E
E a esta idéa, Rosendo chegou mais as esporas d'ahi a dias, era nova cruz que se levantava, no
de prata no peito suado da Guariba. Era preciso sitio onde se presumia ter desapparecido o teme-
12 A NOVELLA SEMANAL

merario... Elle mesmo, Rosendo, sabia do Ma- Um frio de terror gelou-lhe as carnes. Levou
mede, d'aquelle caboclo decidido da Serrinha, que machinalmente a mão á faca, na cintura, mas fi-
escorara tantos homens na ponta da sua faca ma- cou sem acção. E sentiu distinctamente, horri-
tuta, e que um dia lá amanhecera, esfaqueado e velmente, que qualquer cousa grossa e asqueiosa,.
rígido, com os dentes arreganhados. Ouvira tam- com um bafo quente de sangue, pulara na ga-
bém fallar do Rabello que, perseguido pelos sol- rupa e o agarrava pelo paletot. Quiz voltar a
dados, certa noite quizera passar a matta, lá se cabeça, mas não pode. Estava estarrecido sobre
sumira e nunca mais voltara. o arreio, sem forças, transido, a cabeça ardendo,
E elle, Rosendo, d'alli a pouco tinha que rom- num pavor mortal, as mãos tremulas e frias, o
per pela matta sinistra fora, na escuridão da noite. corpo gelado... E fincava as esporas desespera-
Não podia ficar do lado de cá. Era uma noite damente, e queria avançar e avançava, queria li-
perdida, o mais que preciso para a policia chegar. vrar-se d'aquelle bicho sanguisedento e cruel, que
Era preciso romper, custasse o que custasse 1 ja lhe arranhava as costellas com as unhas afia-
Conhecia o caminho, já passara por'lá, de dia, das. Um suor glacial descia-lhe abundante da
três ou quatro vezes. Do outro lado, logo ao testa em fogo e o corpo lhe tremia todo, enre-
sahir ao campo, á raiz da matta, ficava a casa do gelado e duro, sem um movimento, fincado no
Liberando. Descansaria lá meia hora, para co- lombilho como uma estaca.
mer qualquer cousa, e em seguida, tocaria... Era E o medo crescia e o terror augmentava. E
preciso seguir: E Rosendo montou. A noite já o porco immundo já lhe penetrava as carnes com
tinha cahido, negra e profunda. O caboclo já as unhas ponteagudas e o estreitva já nas mãos
não via mais a Matta das Cruzes, que se sumira lamacentas ei cabelludas, roçando-o, roçando-o, fe-
na treva cerrada. Foi pensando na morte que rindo-o, num encarniçamento de gula allucinada»
tinha feito e teve medo: Tremeu. Sentia um pa- numa fome selvagem, num desespero feroz. E
vor horrível ao approximar-se á travessia perigosa. elle apertava furiosamente a mula, fincando no
Veiu-lhe á mente excitada a figura do Zé Pedro, sovaco, no peito que era já uma sangueira toda
bebedo e morto, com os olhos terrivelmente aber- a roseta da espora. E a Guariba iavançava, so-
tos a clamar por vingança. Tinha matado!... prando ruidosamente, avançava, tropeçando aqui,
Quem sabe se não seria atacado e morto na matta tropeçando alli, desvairada, sempre para a frente,
por um inimigo estranho ? sempre para sahir d'aquelle inferno. E fincava
Ao enfrentar a matta parou a mula um mo- sempre as esporas, rangia os dentes, apertava—
mento. Pensou. Mas era preciso seguir! De como um recurso supremo—o cabo da faca na
um arranco atirou o animal para a frente aper- cintura, porque queria arrancal-a da bainha, virar
tando-o com força nas esporas. o braço e espetar, socar, socar com a ponta, socar,
Cobriu-o uma abobada de arvores agigantadas escortaçar aquelle monstro estranho e pavoroso,
e sombrias. Mergulhou medrosamente pelos ca- que o agarrava e que o ia matar. E a mão,
minhos sulcados pelos carros de bois. Não enxer- segurando a faca, ficava immovel, ficava pesada
gava um metro á frente. A noite estava cada e não conseguia arrancal-a, não conseguia movel-a!
vez mais negra e mais soturna. A matta era um E atraz, o bicho insaciado enterrava as unhas
silencio intermino, desolado e lugubre. A mula com mais gana, com mais violência, já o abraço
tropeçou num galho secco, elle sentiu um arrepio maligno envolvia-lhe toda a cintura e, em breve,
percorrer-lhe todo o corpo. Já havia andado meia seria derrubado por terra, arrastado para o seio
légua seguramente. Cada vez se entranhava mais da matta, morto num ataque doloroso de que
no silencio e na treva, e cada vez apertava com não se podia defender. E o pouco de energia
mais anciedade o animal. Não podia olhar para que lhe restava empregava nas pernas, arquejante»
traz: parecia-lhe que qualquer cousa o perseguia, num esforço desvairado e supremo, a enterrar as es-
aquelle inimigo da lenda, para vingar a morte do Zé poras, para avançar, avançar sempre!... Mas sentiu
Pedro. Começou a suar frio... A Guariba resfole- que as pernas iam fraquejando, ammollecendo, bam-
gava, doida, tonta, cançada, a arquejar e a romper..- bas já do esforço continuo, e que a Guariba ia tam-
Vagamente, elle divisou na treva, de passagem' bém- afrouchando a carreira desenfreada, tropeçan-
os braços abertos de uma cruz. Era aquelle o do a todo o instante, como a querer cahir. E o suor
trecho assombrado. descia-lhe sempre da cabeça em braza, ensopando
a roupa, e o corpo era a mesma pedra inerte e
De repente, sentiu que o animal encolhia as
gelada, incapaz de um movimento. E para a
ancas, dando um estirão medroso para a frente :
A NOVELLA SEMANAL 13

frente era a espessura absoluta da treva e elle


não via nada do que o cercava, não sabia se es-
tava longe, se estava perto da sahida d'aquella matta
amaldiçoada e demoníaca. Sabia que ia cahir, ia ser
arrastado, esmagado, espedaçado e morto. E o bi-
cho atroz continuava, destruindo e ferindo. O bafo
era agora mais quente e mais vivo, mais irregu-
lar e mais forte. Era um cheiro nauseante de O NATAL DE FREI GUIDO
sangue que" sahiâ d'aquella bocca escancarada, que Isto foi no tempo de S.„ Francisco de Assis,
ia começar a comer d'alli a pouco, a comer, por- o doce asceta, o bardo contemplativo e lyrico, o
que era um monstro que estava louco de fome!... frei amante da natureza, que chamava o lobo
De repente como um allivio, sentiu na treva uma seu irmão e as aves suas irmãs"e suas irmãs tam-
vaga clareira; e, logo á frente, a dez metros, na bém as flores da terra e as estrellas do céo...
baixada, um fogo á porta da casa do Liberando. Num dos conventos, que elle fundara, hayia
Cambaleando em cima do arreio, já quasi mor- então um joven monge, de nome Frei Guido;
to, sentindo nas costas, a agarral-o sempre, o porco era um bello frade, alto e magro, de barbas
horrendo e sujo; num ultimo esforço, encostou a louras e figura suave; diziam-n'o sabedor de
Guariba á porta da casinha, e deixou-se cahir para muitas disciplinas, mas os seus ademanes eram
o chão, pesado e inerte. O Liberando e a mulher, modestos, quasi tímidos. Muito mettido com-
apavorados, correram, e levantaram o- corpo do sigo, só fallava quando era preciso; ás pales-
chão. O dono da casa conheceu logo o caboclo. tras da communidade preferia o commercio dos
Que significava aquijlo? livros na sua cella, e as longas meditações taci-
Rosendo, desvairado, febril, apontava para as an- turnas, em que êxtases divinos o vinham por
cas da Guariba, batendo o queixo:-Lá...lá... Liberan- vezes consolar. — E todos lhe queriam bem, os re-
do foi examinar. Mas que erá? Não havia alli nada! ligiosos pela sua piedade e brandura, a gente
Deitaram-o no quarto da sala, e a mulher cor- de fora pelas maneiras cortezes com que elle
reu para arranjar remédio. E toda a noite, deliran- tratava pobres e ricos, e pelas muitas obras de
do, foi aquella perseguição dolorosa! Via-se á beira caridade que fazia. Mas poucos lhe conheciam o
do brejo, no campo, do outro lado da matta mal- timbre da voz, e quando elle sorria era de modo
dicta, ao cahir da tarde triste, já medroso de atra- vago e distrahjdo; como de pessoa cujo pensa-
vessal-a. Depois a noite negra, como um pre- . mento anda por longe...
nuncio de desgraça, estendida pela terra... Depois E assim o iam deixando viver tranquillo, sem
a travessia sinistra... o ataque... a resistência deses- maiormente perscrutar os segredos da sua indole.
perada... o mesmo frio de morte e tranzir-lhe o Mas o superior do convento, o velho guardião,
corpo... E a perseguição do bicho cada vez mais que, preposto ao governo de tantas almas, devia
encarniçada, e as unhas a penetrar-lhe a carne... estudar mudamente cada uma del'as, levava não
e elle a debater-se, a querer livrar-se... Depois, a raras horas a fio scismando nesse gênio original
sahida súbita, na clareira, e as pessoas conhecidas... de Frei Guido. Por virtuoso o tinha de certo:
Em seguida, via-se de novo no seio mysterioso mas por que de ordinário era elle tão calado, e
e escuro da matta tenebrosa, na mesma anciedade, se apartava constantemente dos outros ? Dir-se-
no mesmo pavor. E, de repente, já não era o porco hia triste : e tristuras num bom servo de Deus
abjecto! era um cadáver ensangüentado, de rosto li- a que propósito vinham ? O Santo Patriarcha
vido, o cadáver do Zé Pedro, a perseguil-o também, queria discípulos que aceitassem com animo forte
com um riso atroz na bocca escancarada, e a gritar: o jugo do Senhor, alegres sempre, embora aus-
«— Abre esta droga! Abre esta droga!» teros. Não haveria alli fumos vãos de orgulho ?
E depois a mesma sahida, o mesmo fogo salvador. Que é commum derivar o homem negras melan-
Já manhã, não conseguira ainda dormir. Tinha colias da excessiva preoccupação de si mesmo.
o corpo moido, pôr certo ensangüentado, e a cabeça Ou seriam tormentos de concupiscencia, revolta
ardia-lhe na mesma febre devoradora. De repente, dos sentidos ainda não de todo domados ?
ouviu pancadas na porta da entrada. Levantou a ca- Pois tentações de tal ordem quando assaltam o
beça: no mesmo instante, viu o Liberando correr pa- justo, soem prostrar-lhe o espirito em grandes
ra abrir. Três homens entraram debonetse refles. desmaios e abatimentos...
Eram os soldados. Pôz as mãos na cabeça. Es- Varias provas ensaiara já o cauteloso guardião
tava perdido! BAPTISTA JÚNIOR. e de todas sahira victoriosa a virtude de Frei
14 A NOVELLA SEMANAL

Guido: mandara-o beijar o chão de braços, cili- de onde a fome sahe geralmente mal aplacada,
ciar-se e açoitar-se em publico, lavar os pés a vêem-se hoje iguarias finas, pão branco, pucaros
seus irmãos de habito, dormir sobre as lages do de leite e mel, e no meio o bolo tradicional, a
adro em noite de vento e chuva, fazer os ser- immensa torta dourada e fumegante.
viços mais rudes e materiaes da casa; a tudo Até Frei Guido, usualmente tão concentrado,
elle se submettera sem murmurar, simples, dócil, parecia ter abandonado com gosto a consultação
diligente. Mas o severo director daquellas cons- dos livros e a mudez das suas intimas cogitações,
ciências mais próximas da perfeição evangélica para tomar também parte na alegria commun.
que as da gente mundana, ainda não se dava por Já muito expansivo e animado, encetara calorosa
satisfeito ; havia de expor o moço frade á sua pratica com vários noviços e professos, discutindo
experiência ultima e decisiva. pontos subtilissimos de philosophia e dogma com
basto dispendio de distingos e ergos, emquanto
Ora, precisamente aquelle dia era véspera do
esperavam o signal de entrar para o refeitório.
Natal; era a noite feliz, Ia noche buena, como a
denominavam os castelhanos. Todos no convento Ora, exactamente quando ia começar a ceia,
e nos burgos visinhos se aprestavam a celebrar já rezado o Benedicite e posto cada um no seu lugar,
dignamente a festa popular e universal, uma o velho guardião chamou Frei Guido e lhe disse :
das poucas que não eram apanágio exclusivo dos — Irmão, tomai já o manto, e o bordão de
senhores e potentados mas traziam prazer tam- viagem, e ide de minha pai te ao Mosteiro prin-
bém aos corações humildes. A Igreja do mos- cipal de S. Bento, saudar o Dom Abbade e os
teiro estava adornada sumptuosamente a despeito seus monges. Vede se podeis chegar lá antes de
de serem pobres os religiosos, — pois uma cousa nado o sol.
era o exiguo interesse delles, a parca e insossa Os frades todos estremeceram de espanta-
alimentação, a estamenha grosseira e remendada, dos ; até o decano octogenário, acostumado ás
outra era a necessidade do culto, para cujo es- sorprezas da férrea disciplina, fez um gesto irre-
plendor nada havia demasiado. E para altares, flectido de assombro. A ordem do prelado era
paramentos e alfaias, fidalgos devotos e opulentos absurda ; tinha mais visos de zombaria que de
lhes offertavam dons de valia. A multidão en- cousa séria. O Mosteiro principal de S. Bento
chia o templo ; plebeus com as suas vestes gros- distava mais de cem léguas ; como havia o pobre
sas de valenciana e bifa, nobres, com seus gibões do Frei Guido chegar lá antes de nado o sol ?
e capeirotes de velludo, damas envoltas em man- E demais que idéa singularissima a de mandal-o
tos de seda com forro de branca armelina, todos jornadear penosamente numa noite como essa —
assistiam igualmente recolhidos aos- officios divi- na entre todas santa noite do Natal — pelos ca-
nos ; cânticos sagrados reboavam harmoniosa- minhos brancos de neve sob o luar mortiço !
mente de arcaria em arcaria em espiraes azuladas Só Frei Guido não proferio palavra, nem se
de incenso e centenas de ei rios ardiam por todos lhe alterou a placidez do semblante. Deixou o
os lados. seu lugar, foi inclinar-se ante o guardião, para
Deo gratias ! E, terminada a missa, dá o ór- receber-lhe a benção, e tomando o manto e o
gão os accordes finaes. Todos voltam jovial- bordão de viagem, partio.
mente para suas casas ; têm pressa de rir e fol- II
gar com parentes e amigos diante da ceia eopiosa Eil-o vai, açodadamente. Desertas são as es-
no conforto do lar bem aquecido — tanto mais tradas ; quem se atreve a affrontar tão damnado
que o inverno vai rude ahi fora e os caminhos a inverno ?
perder de vista estão brancos de neve sob o luar Eil-o vai. O vento gélido lhe corta as faces ;
mortiço. Nos castellos, nos palácios e nas her- as arvores despidas • de folhas reflectem triste-
dades de em torno começam os saráos de dansas mente sobre a neve os troncos encarquilhadoá e
e trovas que durarão até amanhecer: e nem nas tortos.
mais desmanteladas choças dos pastores serranos A principio Frei Guido vê ainda cá e lá a cla-
falta o ódre de vinho ou a marmita a rosnar so- ridade das casas onde se canta e se baila ; rumo-
bre as brasas crepitantes. Mesmo no convento, res festivos sahem dellas, e perdem-se na solidão
os rigores da disciplina se abrandam por algumas da noite. Mais além o monge viandante divisa
horas, os frades também são homens, mercê de no cimo dos montes as luzinhas escassas das chou-
Deus e o bom Jesus nasceu para todos. Tréguas panas de zagaes, e escuta virem de lá notas tre-
ao jejum e á penitencia ! No espaçoso refeitório, mulas e rústicas de flauta, cascalhar de adufos
A NOVELLA SEMANAL 15

trechos de trovas sentidas como suspiros. Os e quebrada, que excitam a fantasia e subjugam a
mastins de guarda ladram á sua passagem. De- vontade. Musicas taes pelas estradas desertas ?
pois, nem isso. Está'em pleno campo. Será algum bando de árabes ou de bohèmios ?
Faz uma hora que, caminha. Não encontra Frei Guido não cabe em si de assombrado.
viva alma ; mas, que ruidos extranhos são esses Trazem as lufadas do vento aromas penetran-
que lhe chegam aos ouvidos ? tes que embriagam ; não aroma simples como o
Dir-se-hiam murmúrios, cochichos como de quem das flores no campo ou nos jardins, mas compli-,
falia em segredo, risinhos abafados e malignos... - cados perfumes, intensos e raros, de sapiente
De súbito, cachinam-lhe em torno gargalhadas composição, como os que se respiram nas. salas
ásperas, estridentes, como as das bruxas nas or- dos paços.
gias do sabbat. Frei Guido pára sobresaltado, e E agora um sem numero de lâmpadas escarla-
vozes sinistras entram a dialogar ao pé delle, em tes, roxas, amarellas, de todas as cores, se agitam
tom de sarcasmo e desdém: *em círculos concentricos, e giram, e volvem, e
— E' louco ! é louco o pobre frade ! ah ! ah ! revolvem, approximando-se cada vez mais de
-=• Aonde vai elle tão de- frei Guido ;• e approximando-
pressa ? se cada vez mais vêm as mu-
— Vai ao grande convento A M A D E U AMARAL sicas de toada exquisita, e mais ,
(DA A C A D E M I A B R A S I L E I R A ) fortes, mais capitosas se tornam
dos Benedictinos, ah! ah! ah!
E as gargalhadas estrugem. as essências esparsas pelo ar...
— E diz que 'quer chegar E' sonho ? E' delírio da
amanhã, ah ! ah ! O DIÀLECTO mente
ta-se o
enferma?... — pergun-
moço frade ; e eis o
— Chegará... chegará... no
Natal do anno que vem ! CAIPIRA que elle
pasmar-se
vê ainda para mais
e benzer-se.
E as gargalhadas redobram. (PHONET1CA, LEXICOX.OGIA, MORPHOLOGIA.
SYNTAXE, VOCABUI..ARIO)
Mas, depois do primeiro mo- São mulheres, uma legião
mento de susto, frei Guido incalculável de mulheres as que
percebe de que se trata; sabe Preço 5$000, Pelo cor- sacodem essas lâmpadas de to-
reio, registrado, 5$500 das as cores ; e desse grupo
como são freqüentes estas his-
torias de trasgos e duendes que encantado, que sobre a neve
andam a perturbar no somno PEDIDOS Á
dansa em movimentos vertigi-
ou-nas viagens nocturnas o so- nosos, vêm as melodias e os
cego dos christãos; assim se
Casa Editora "O LIVRO,, intensos, raros aromas.
R. 15 NOVEMBRO, 32-S. PAULO E um momento, sem dar
vê a Dama branca, e o caval-
leiro renegado... O mesmo por isso, frei Guido se vê ro-
demônio apparece ás vezes sob a forma de um deado de todas ellas; bailam-lhe em torno com
aragão, como appareceu a S. Jorge e a S. Mau- tal rapidez que elle não pode distiaguir-lhes
rício, chefe da legião thebana. as feições. São apenas figuras indecisas, envoltas
Aquillo não era mais que velhacaria de Sata- numa sorte de nevoeiro, que volteiam, volteiam,
naz, que forcejava perversamente por despertar e não acabam de voltear. E os sons dos múl-
duvidas no espirito do monge, e ridicularizar a tiplos instrumentos se alteiam mais vibrantes e os
fidelidade com,que elle cumpria o voto da santa perfumes se condensam em nuvens como de incenso
obediência. A sua alma de crente desprezava e myrrha. E o joven monge sente-se aturdido e ton-
taes zombarias do grande blasphemo. Ah ! diabo to ; e vacilla como quem vai cahir sem consciência.
malvado e pícaro. Com um Padre Nosso e uma Cessa," porém, o bailado infernal. E então de
Ave Maria havia da fugir para o inferno, corrido entre aquella multidão sahe a mais formosa de todas
e envergonhado ! E as gargalhadas cessaram, e e, acercando-se do frade, lhe diz com voz maviosa:
as vozes emmudeceram. — Vem comnosco, vem, Guido. E's moço e
E frei Guido proseguio tranquillo pelos cami- estás perdendo sandiamente a tua mocidade. Eh !
nhos brancos de neve a perder de vista sob o Guido, deixa lá conventos e escapularios : deixa
luar mortiço. isso para mais tarde ; que sempre é tempo de
III raspar o cercilho na cabeça. Pois o mundo tem
Trazem as lufadas do vento musicas de toada tantos fulgores e deleites para dar-te, e tu te se-
exquisita ; musicas profanas, de cadência languida pultas em vida entre os muros frios de um
16 A NOVELLA SEMANAL

claustro. Anda, vem espairecer um tanto em li- arrastavam pelo chão ; o terceiro grossas chaves
berdade : cerra de vez com seus broches de pra- de prata sobre a almofada de terciopelo ; o ulti-
ta a theologia e o livro de Horas ! mo empunhava o baculo pastoral, ponderoso e
— Mulher, respondeu elle friamente, são moucos finamente lavrado.
meus ouvidos para as tuas propostas insensatas. E a procissão se dirigia para frei Guido que,
Vai-te de minha vista, somé-te com as tuas com- de admirado, não sabia que pensar ; e já o cer-
panheiras malditas ! Eu sei bem o que perdi e cavam, de um lado e de outro, as alas >das con-
o que espero ganhar. Não serás tu que me en- frarias e do clero; até a gente do pallio parou
sine o modo como me cumpre viver. Nem me deante delle. Então separaram-se da turba três
sobra tempo comtigo, que sou mandado ao mos- homens, que pelos trajes e ademanes se conhecia
teiro de S. Bento, e devo lá estar amanhã. serem de elevada graduação.
— Oh ! Guido ! pois podes tu crer em tama- — Eu sou o arcediago, desta veneravel Sé —
nha parvoice ? Não percebes que mofaram de ti disse um, apresentando-lhe a mitra e o baculo.
como de uma creança ? O mosteiro de que fal- A fama de vossas virtudes e de vosso muito sa-
las é tão remoto que necessitadas mais de um ber chegou até nós. Venho em nome dos pa-
mez para chegar lá, viajando a pé como viajas. dres e do povo saudar-vos como bispo desta
-O guardião quiz humilhar-íe com esse escarneo diocese. A eleição que fizemos foi approvada pelo
indigno. Vinga-te delle segundo convém ao pun- Summo Pontífice e o Imperador concorda. As-
donor de um homem que se preza ! Vem com- sim a vós prestamos obediência, e protestamos
nosco ! Serás feliz: tua existência correrá toda em defender-até a morte a vossa autoridade.
prazeres sem sombra de pensamentos merencórios. — Eu sou legado do Santo Padre de Roma, —
Mas frei Guido debateu-se heroicamente, re- disse outro, pondo-lhe ante os olhos o chapéo ver-
pellio de si as hetairas diabólicas e, invocando o
melho de largas abas. Elle vos tem ha muito
nome de Jesus, e persignando-se muitas vezes, em alto conceito, e determinou dar-vos a mais
correu espavorido pelo campo fora... valiosa recompensa que da sua munificencia de-
pende. Por isso, de sua parte vos offereço o
IV
chapéo cardinalicio e a magna capa de purpura.
Correndo a bom correr, divisou as torres es-
Ave, Príncipe da Igreja !
guias de um templo gothico, que se aprumavam
no fundo alvacento do céo. Os sinos tangiam, E o terceiro disse (esse, de idade provecta, era
tangiam lindamente no meio da noite. As tres- o vidama, ou Governador daquellas terras):
largas. portas da cathedral estavam de par em par — A mim me cabe, Dom Guido, entregar-vos
abertas ; por ellas e através dos vitraes ornados as chaves do castello visinho, — pois, conforme
de imagens e florões, viam-se brilhar milhares de deveis de saber, o Bispo desta Sé é Barão e Conde
tochas, dando uma claridade festiva como deve do Império, e exerce domínio feudal sobre o cas-
ser a do Paraizo. tello e as villas fronteiras, tendo a seu mando
E um cortejo immenso sahia do templo a pas- hostes numerosíssimas. Assim fallando, apontava
sos lentos, alumiado por muitos brandões e lan- para um vasto solar, que a pouca distancia da
ternas ; e entre as solemnes harmonias dos hym- cathedral demorava e tinha, com os seus muros
nos liturgicos, adeantava-se pelos caminhos bran- negros e ameiados, carrancudo aspecto, como te-
cos de neve sob o luar mortiço. Era um luzido merosa fortaleza que era. Dispostos ao longo das
e pomposo prestito. Vinham á frente as solitas barreiras, estavam servos e vassalos, donzeis, es-
confrarias com seus hábitos de differentes cores canções, estribeiras, bucellarios, monteadores com
e feitios ; vinham depois galhardas companhias seus falcões e nebris, lebreus e podengos. Nem fal-
de homens d'armas, arautos e passavantes ; se- tava o costumado jogral, agitando o seu sceptro de
guia-se numeroso clero secular e regular; e, fi- guizos, fazendo toda a sorte de momos e visagens.
nalmente, carregado por infanções e cavalleiros — Aqui vos juramos, senhor, preiio e home-
de mui fidalga nascença, o vasto pallio de tela nagem ! — ajuntou, curvando-se, o vidama.
d'ouro. Debaixo delle, quatro nobres varletes, -V Excusais de o jurar — disse frei Guido se-
magnificamente vestidos sustinham nas mãos os renamente. Eu não quero ser Bispo nem Car-
symbolos e emblemas da mais alta dignidade ec- deal, nem senhor de castellos e villas. Levai a
clesiastica ; o primeiro trazia, uma mitra crave- outrem taes cargos ; são rudes em demasia para
jada de gemmas ; o segundo um chapéo verme- os meus fracos hombros. Eu não passo de pobre
lho de largas abas com bordas pendentes que religioso, cuja só ambição é servir a Deus obscu-
A NOVELLA SEMANAL 17

ramente, e prestar obediência aos superiores. O tão excellente, eu pediria licença ao guardião
Santo Padre de Roma é assás bom para não que- para acompanhar-vos. Mas agora nãopossq, que
rer esmagar-me sob o fardo da mitra e da pur- devo ir para o mosteiro de S. Bento sem me des-
pura. Mas, se a todo o transe lhe aprouvesse impôr- viar desse rumo...
tne tão duto sacrifício, não a mim, mas ao guardião — Mas um dia só—que importa um dia?—des-
de meu convento, mandaria lettras ou mensageiros! cobrir os mysterios dos astros, as propriedades das
— Senhor! — exclamou o nobre vidama. Não plantas, os nunca vistos thesouros da alchimia —
é de monges rezadores que a Igreja e o Império não vos compensa isso tudo de tão pequena demora?
precisam hoje: é de Bispos guerreiros denodados, — Vós que tudo conheceis, lestes sem duvida
que defendam o Occidente e façam recuar a mou- a Escriptura Sagrada: Recordai-vos do que lá se
risma reféce de Mafoma. diz: O principio da sabedoria é o temor de
— Frei Guido — murmurou-lhe baixinho ao Deus. Initium sapientiae timor Domini. Eu vou
ouvido ó que se intitulava legado apostólico — ao mosteiro de São Bento...
aceitai, por quem sois, o chapéo e baculo! Lem- Numa encruzilhada, um grupo de vagabundos
brai-vos que podeis ser Papa um dia e reger assaltou o monge. Diísé-hiam ladrões, eram apenas
toda a Christandade ! mendigos.
— De tal sorte me guarde o Todo-Poderoso — Frei Guido ! r— disse um — vede como sou
— replicou o monge. Deixae-me ir que o meu coxo. Ja caminhei muito ; e preciso de, cami-
rumo é outro. Vou-me ao mosteiro de S. Bento, nhar ainda o dobro. Não tenho um bordão em
como me foi ordenado... que me arrime.
V — Fiei Guido deu-lhe o bordão de viagem.
Já ficavam muito para traz o solar e o templo — Frei Guido!—disse outro—soccorrei-me ! Te-
gothico, e frei Guido continuava em paz a sua nho os pés feridos de espinhos e cortados das neves.
jornada,/quando um desconhecido se chegou a Frei Guido desatou as correias das suas sandá-
elle, e puxou-lhe de leve a manga do habito : lias e calçou-lh'as.
— Quanto vos prezo e venero, varão insigne — Frei Guido!— disse outro ainda, estou tiritando
entre os insignes! Bem andastes em recusar e não tenho nem uma capa velha com que me cubra!
aquellas honrarias. Para homens de summo en- Frei Guido despojou-se do próprio manto e
genho como vós nada valem vaidades e ouropéis abrigou-o nelle.
e são cargos difficeis de levar, os grandes títulos. O frio era agudissimo; mas o bom religioso ia tão
— Quem sois vós ? — perguntou o frade, e abrasado de caridade e amor divino que não sentia.
da cabeça aos pés o mirava. Era um velho de — Frei Guido ! gemeram muitas vezes a um
barbas alvas, embrulhado numa espécie de túnica tempo — temos fome! dai-nos um boccado de pão !
cinzenta e grossa; escondia as cãs sob uma am- Ahi o monge, pela primeira vez nessa noite,
pla fota da mesma tela. tendo desprezado com alegria todas as grandezas
— Sou cultor da sciencia, frei Guido ; busco do mundo, ficou triste por não ter trazido com-
na terra e na esphera azul o segredo intimo das sigo nem um boccado de pão na sacola.
cousas. No estudo da natureza, ponderando os Os mendigos foram-se ; e frei Guido, tendo-se
factos e investigando as leis, eu attingi verdades sentado um momento para descansar numa pe-
nunca antes sonhadas. Sou perspicaz também em dra da estrada, adormeceu sem dar por isso.
penetrar o coração humano. Que é comparado Quando acordou, ia nascer o sol; biilhava
a mim ? Hermes, o egypcio ? Que é o rei Sa- límpido o céo, sem nuvem alguma, e as tintas da
lomão ? Que são os philosophos gregos ? Eu aurora o alindavam. Frei Guido olhou assom-
vou muito mais longe, muito mais longe. brado ao redor de si. Estava num leito de flo-
— Bella e nobre cousa é a sciencia, — disse res. Rosas hrahcas> vermelhas, amarellas, haviam
frei Guido como em sonho. E se ha bem que eu am- nascido no meio da neve. E andorinhas chilrea-
bicione após a Salvação da minha, esse é de certo... vam voando rápidas, em bandos. No cimo de
— Pois se desejais possuil-o, vinde commigo, umacollina próxima, o enorme vulto do mos-
fazei-vos meu discípulo, e num dia, num só dia, teiro de São Bento apparecia distinctamente.
eu vos transmittirei quanto aprendi. Então Frei Guido conheceu quanto a sua vir-
O diabo pensava com razão que essa tentação tude fora agradável a Deus, que assim o trouxera
era a mais forte, e por isso a deixara para o milagrosamente ao seu destino, e fizera florir
fim. Mas, frei Guido tornou muito calmo : junto delle a primavera em pleno inverno...
— Se em outra occasião me désseis conselho MAGALHÃES DE AZEREDO
A NOVELLA SEMANAL

EMENTO
ração e a sua vida. F a l a v a dos ta, sempre a encontrei presente
Avída&i\ecdotícdv seus negócios, dos seus proje- em suas palavras e em suas ma-
e pítíorfeSc«xdos:
torfeSc«xdos : ctos, dos seus sonhos, das suas neiras.
gm3\d<^ eácrípíoreS tristezas, com a simplicidade Na mesma occasião do episó-
lisa e clara de um bom rapaz dio aqui referido, elle esponta-
entre rapazes ; de tal modo que, n e a m e n t e nos confessou, com a
f OLAVO BILAC em pouco, quem quer que hou- mesma despreoccupação encan-
NOTAS, KEMINISCEN-
vesse merecido a sua afeição se tadora, que levara t r i n t a annos
CIAS E DOCUMENTOS sentia i n t e i r a m e n t e á vontade para descobrir que a palavra
na sua presença. A intimidade hetere, empregada n u m a das
D u r a n t e m u i t o tempo, apezar estabelecia-se mesmo sem que composições do seu primeiro li-
de todas as oportunidades, não se desse por isso. E , ás vezes, vro, varias vezes reeditado, era
desejei ser apresentado a Olavo depois de u m a hora de des- gallicismo crasso, desnecessário
Bilac. E u t i n h a por elle u m a preoccupada e alegre camarada- e indesculpável.
g r a n d e admiração, e sempre te- gem, em que a gente o ouvira
mi approximar-me das pessoas e se fizera ouvir sem a t t i t u d e s , Desses erros, todos os com-
que admirei... Afinal, h a poucos não se podia deixar de reflectir, mettem. Não h a quem fuja á fa-
annos, estando no Rio, a afeição a sós, com u m vago acanhamen- talidade inelutavel de algum
que me t i n h a o saudoso E milio to retrospectivo, que o interlo- t r i b u t o á soberana Tolice. Altos
de Menezes, — afeição que me cutor de quem nos havíamos engenhos t ê m roçado pela. mais
envolvia e a r r a s t a v a como u m separado momentos antes, baten- r a s t e i r a estupidez. Raros, porém,
rio impetuoso, •— me poz em con- do-lhe no ombro, era, afinal, u m são os homens que têm a virtu-
tacto com o grande poeta. J á dos mais altos espíritos que o de de confessar as fraquezas do
nos conhecíamos de v i s t a . Bilac Brasil tem engendrado. seu espirito e de revelar pelas
t r a t o u - m e desde logo como a u m próprias mãos, sem rodeios e
velho amigo, com u m a cordiali- Nunca vi joven literato, suan- sem ceremonias, os aleijões a
dade singela e distinota. P u d e do timidez e modéstia, falar da que deram existência. Bilac te-
então observal-o de perto e á própria obra com mais despreoc- ve, p l e n a m e n t e , essa virtude e
vontade. cupação e simplicidade. U m dia, essa coragem. E i s ahi, após ou-
N e n h u m a pose se lhe notava, eu, Roberto Moreira e mais al- tros, mais u m traço altamente
embora t a m b é m não fosse ho- guém, que não me recorda quem sympathico da sua physionomia
mem de fáceis e desmanchados fosse, lhe fazíamos p e r g u n t a s . moral.
abandonos. Sempre bem senhor E m vez de se remontar e for- AMADEU AMARAL.

de sua pessoa, compondo a toi- malizar como alguém que gosta


lette do seu espirito como a do de m o s t r a r que é um homem
seu corpo, sem j a m a i s esquecer complexo, com m u i t a s peças e
u m a conveniência (ou r a r a m e n t e m u i t a s molas, m u i t o cheio de
fCuríosíd&deSj
esquecendo-a) como não esquecia
n n n c a de acabar o laço irrepre-
considerações e de intencionali-
dades, atafulhado de t h e o r i a s e
de mistérios, — elle a tudo res-
líter&xíaLS11
hensivel da gravata.
pondia sorrindo sem hesitação e
A principio, desconfiei que a sem calculo, em poucas e rápi-
sua gentileza podesse não ser Aut obiographia
das palavras, naquella sua voz
^rnais do que uma doce hypocri- cheia e sonora. de MONTEIRO LOBATO
;
sia, confeitada expressamente a-
fim de manter os importunos á Indagou u m de nós qual o Pedindo-lhe u m amigo u m a
/distancia. H a uma boa maneira motivo porque elle dera certa noticia biographica, Monteiro
.le ser aberto e accessivel — sem forma a u m pequeno passo de Lobato forneceu-lhe as seguintes
p e r m i t t i r a entrada a ninguém, uma de suas mais celebres poe- notas, que achamos-interessante
sem mesmo p e r m i t t i r grandes sias ; e elle, immediatamente : publicar :
proximidades... Mas enganei-me. — " P o r t o l i c e . " E m seguida,
.Bilac cv.i, real e espontaneamente explicou que commetteu no re- «Nasceu em Taubaté, aos 18
Jkmavel. Sem se expandir nem ferido lugar u m a simples e- re- de Abril de... 1884. Mamou até
d e r r a m a r com o primeiro apre- donda asneira, sem outro nome 87. Falou tarde, e ouviu pela
aentado, era comtudo muito chão e sem n e n h u m a a t e n u a n t e ; as- primeira vez aos 5 annos um
e muito tratavel para com todos. neira que só corrigira muitos celebre dictado :
Com aquelles que sabiam to- annos depois de dada a publico Cavallo p a n g a r é
car-lhe o coração mais no fundo, pela primeira vez... Mulher que... em pé
aão hesitava èm escancarar, E s t a simplicidade, esta lisura Gente de T a u b a t é
lespreoccupadamente, o seu co- e esta modéstia singela e sensa- Dominus libera mé
A NOVELLA SEMANAL 19

Concordou. de ser productcr é synonimo de Mas, quaes são as âncoras e as velas


/
Depois, teve c a c h u m b a aos 9 que o coração levanta- ? As de um
ser imbecil e mudou de classe. navio ideal, creado para o effeito da
a n n o s . Sarampo aos 10. Tosse Passou ao paraizo dos interme- imagem: «levantar» âncoras», que é
comprida aos 1 1 . P r i m e i r a s es- diários. Fez-se negociante, ma- passar da irnmobilidade ao movimen-
p i n h a s aos 15. triculadissimo. Começou editan- to e «desfraldar velas», que é correr
offegante como um coração' ancioso.
Gostava de livros. L e u o " C a r - do a si próprio e acabou editando Nessas phrases predomina o subten-
los Magno e os doze p a r e s de aos outros. Escreveu u m a s t a n t a s dido sobre o expiesso. Com methodo,
França", o "Robinson Crusoé" lorotas que se vendem — FJru- absoluta clareza e precisão, diriamos:
«Vae, coração. Começa a navegar no
e todo o J ú l i o Verne. pês, gênero de grande saída, teu navio, como vim marinheiro,
Mettido em collegios foi u m Cidades Mortas, Idéas de Geca que és...-.
a l u m n o n e m bom nem máo — (sub-productos), P r o b l e m a Vital, «A onda corno uma houri de Stam-
apagado. Tomou bomba em exa- Negrinha, Narizinho. Pretende bul...» E a mesma arte, confundindo
os dois termos da comparação, diz—"
me de p o r t u g u e z , dada pelo Frei- publicar ainda u m romance sen- «Mole, se embala e ri». O qualifica-
re. I n s i s t i u . Formou-se em di- sacional que começa por u m tivo diz tanto da onda como da h e -
reito, com u m simplesmente no tiro : taira, mas quem Be embala é a vaga
e quem ri, a sultana de « requebro
h.° anno — merecidissimo. F o i — Pura ! E o infame caiu re- taful». Condensa e depois analysa.
promotor em Áreas mas não pro- dondamente m o r t o . . . Mas, j á a synthese fecha o quarteto:
moveu coisa n e n h u m a . Não ti- Nesse romance introduzirá u m a «E abre por te acolher os seios de es-
n h a geito para a chicana e a- novidade de g r a n d e alcance, qual meralda !» Quem ? Ambas — a onda
e a houri. «Os seios de esmeralda»
'bandonou o anel de r u b i (que seja a de s u p p r i m i r todos os do mar — perfeito logar commum —
nunca usou no dedo, aliás). pedaços que o leitor pula. Par- assume consistência de expressão le-
Fez-se fazendeiro. Gramou ca- gitima, porque «a onda é como u m a
ticularidades : não faz nem en- houri de Stambul...»
t e a 4.200 a arroba e feijão a tende de versos, nem tentou o «E se arqueia e soluça e desfolha a
4.000 o alqueire. raid a Buenos Aires. a grinalda de espumas e eoraes !»
Convenceu-se a tempo que isso Phvsico : lindo !» E' ainda a onda com attributos de
mulher.
Coração, vae, como um marinheiro
que se exila.
Os nossos «Borrascas? Nem signal! Céu a z u l !
Céu azul !»
Quanta significação neste extranho
verso ! Attico, apenas ostenta os ele-
Os sonetos de ADOLPHO ARAÚJO mentos essenciaes .da phrase. Uma
-só palavra para interrogar. Para res-
ponder, simples exclamações. E tudo,
CORAÇÃO EXILADO profundamente expressivo. E' como
velho marujo que interroga o espaço
Vae; coração, levanta as âncoras ! Desfralda e a si mesmo responde, em sua l i n -
As velas ! A onda como u m a houri de Stambul, guagem pittoresca e forte. Evoca u-
Molle se embala e ri, num requebro taful ma scena dramática.
E abre 1 por te acolher os seios de esmeralda !
Em seguida, expediente rhetorico,
E se arqueia e soluça e desfolha a grinalda um verso que se repete, invertido, .
De espumas e eoraes ! Vae, marinheiro exul ! com extraordinário effeito", trasbor-
Borrascas ? Nem signal ! Céu azul, céu a z u l ! dando do segundo quarteto para se
O ar é leve, o m a r é manso, o sol escalda... engastar nos tercetos:

O sol escalda, o m a r è manso, o ar é leve «O ar é leve, o m a r é manso, o sol


E a branca multidão das gaivotas descreve escalda...
G-yros em pós a náu que bem longe passou... O sol escalda, o' mar é manso, o ar
ó leve...»
^ V a e , coração, sem temer maus presagios,
Pois que não pode, emfim, receiar os naufrágios E como conclue o soneto ? ,
Quem, tanta vez no mar da vida naufragou ! Com u m a das mais arrojadas e mais -
bem acabadas imagens que se conhe-
Raros sonetos em, língua portugue- Impressionismo ? cem. Compara-se o coração com o
za se comparam a «Coração exilado», Poesia e eloqüência. Poesia, pelo próprio coração, em dois aspectos di-
de Adolpho Araújo. enoant'o da sensação que provoca; e- versos: — o que naufragou na vida e
Se ha inspiração, se é possível pos- loquenoia, pela força expressiva da o que — marinheiro que se exila —
suir-se um poeta do seu thema, de phrase. Os termos não são apenas não teme naufrágios. Um bellissimo
modo t a l que a poesia delle saia em precisos. Com a exacçâo do sentido, contraste, que se resolve, confinado
bloco, vigorosa e perfeita, animada e trazem acima delle u m complexo de dentro de u m a comparação... unila-
palpitante, eis aqui o exemplo. E ' associações e significações secunda- teral, cujo segundo termo não existe.
o inspirado -quem fala. O homem rias. São palavras especiosas, a que
que raciocina desappareoe. Encarna- o uso das multidões empresta u m a
se o propheta, de intuições súbitas, alma. Vejam-se: — «exilado», «cora-
revelações inconscientes. Não pensa, ção», «espumas», «âncoras», «esme- «Coração exilado» consagra u m poe-
imagina. Não raciocina, fala. E o seu ralda», «gaivota», «presagio» ... Pa- ta. Mas Adolpho - Araújo produziu
falar surprehende e maravilha, pelo drões cie poesia, chaves de eloqüência. também outros versos de'valor. As-
inesperado da phrase, pelo grandioso Magújas, dir-se-ia basta pronuncial- sim, os seguintes sonetos:
da imagem, peia eloqüência da pala- as... Longe, porém, de chavões, pois
vra, que luz e reverbéra. que falam intensamente. *
Mas, não fala, canta; nem diz por- - (*) Adolpho Araújo, natural do Sul
que apenas suggere. Não completa «Vae, coração, levanta as âncoras ! de Minas, cursou a Faculdade de Di-
as idéias. Elias se entresacham, en- Desfralda as velas !» reito de S. Paulo, onde se formou. Mi-
graxadas no mesmo fio, enbrozadas Coração que levanta as âncoras e litou na imprensa e fundou «AGazeta.
na mesma engrenagem. E' a arte de desfralda as velas é marujo que na- Eoi tido como dos melhores 'pole-
não dizer, de p a r a r a tempo e de pro- vega, com esperança de porto e sal- mistas de São Paulo. Morreu ha pou-
seguir sem voltar atraz. vamento. E ' como u m marinheiro. cos annos, sem deixar livro.
20 A NOVELLA SEMANAL

MODELO ALMA NOVA


E' boa B linda, e mais que linda e boa, Voltas de novo oom teu gesto amigo,
Nobre. A oorôa augusta das princesas Desafogando as nevoas de m i n h ' a l m a ;
Doura-lhe a fronte ao lado da coroa E a alacridade, o goso, o riso, a calma
Que provém das olympioas bellezas. Voltam de novo, par a par oorntigo.
Nobre . . . Não da nobreza que se cô» Bemdito sejas, astro que eri bemdigo;
E m veias d'ouro, n a opulencia presas, Pois me trazes do amor a mesma palma
Mas dessas puras, clássicas nobrezas, E o mesmo puro affecto, que se espalma
Cuja fama nos séculos ecoa. Dentro em meu peito, de teu nome abrigo.

Mas se- ella tanto é boa quanto bella Bemdita sejas, Luz astral,do riso,
E si ella é tanto quanto bella nobre, I m m o r t a l projecção do paraíso,
Sua nobreza cresce mais, quando ella Que transformas m i n h ' a l m a em céu aberto;
A sua alma puríssima descobre Que, como a flor na neve desabrocha,
E manda-me um sorriso da janella, Mettes um ninho dentro duma rooha
Como esmola que cae nas mãos dum pobre. E rasgas um jardim sobre u m deserto.

ALMA GÊMEA SENHORA


Seja fidalga ou simplesmente seja Mandae, emfim, senhora, que eu prometta
Plebéia vil; puríssima on devassa, Ser cavalheiro fino, lesto e brando ;
A sua sombra lubrica me beija, Seguir-vos-ei, captivo ao vosso mando,
Seu espirito cândido me abraça. Como u m planeta segue outro planeta.
Louco, sigo-a nos ares sem que a veja, E se a etiqueta impõe, preceituando,
E vejo-a, sem que a siga, quando passa Andar de luvas e casaca preta,
Num ruflo do azas de veloznarceja, Eu sou, senhora, escravo da etiqueta :
Cheia de timidez, cheia de graça. De luvas pretas e casaca eu ando.
Si é creatura nobre, creatura Serei modelo puro na calçada,
Nobre serei, pois quero ser, como ella, Mais brando, puro, lesto e prazenteiro—
De altiva raça, de ascendência p u r a . Que um cavalheiro nobre de embaixada ;
Mas, se em logar de aristocrata e nobre, E, em vos saudando de manha, primeiro
E' pobre e simples, sendo assim tão bella, Oscularei a vossa mão nevada,
E u quero ser também simples e pobre. Como compete a um nobre cavalheiro.

II

dineiro Timotheo», além de «O drama Vianna, collooa-se ao lado deste, oom*

LEITÜ da geada», pagina de effeito.


Em resumo, o autor de «Urupês»
offercceu ao publico um" bello livri-
nho. que vem augmentar a sua gran.
pletando-se ambos. Ao estudo histo-
rico-social das nossas populações, trou-
xe a inapreciavel contribuição philo-
logica, portadora de esclarecimentos
de nomeada como contista brasileiro. também históricos e sociaes.
«O dialecto caipira», além do copiosO'
repositório de expressões e termos
C01VA'RA — Gastão Cruls — Ed. consagrados pelo uso em São Paulo,
Livraria Castilhos — Rio, 1920. encerra o seu estudo summario, posi-
NEGRINHA — Monteiro Lobato — «Coivára», de Gastão Cruls, é um li- tivo e esclarecido, que projecta uma
Ed. da «Revista do Brasil» — S. Pau- vro de grande valor, que injustamen- luz nova sobre as nossas investigações
lo, 1920. te tem sido esquecido pela critica. O lingüísticas. Representa um caminho-
Monteiro Lobato publicou, sob o autor se revela um narrador, de^ex- novo, que se vem de abrir e que ha
titulo «Negrinha», u m a nova Berie de cepcionaes qualidades, ás quaes dá de ser pisado e repisado.
contos, dos quaes o primeiro dà nome largas em meia dúzia de contos, que
ao livro. Nelle ha de tudo, desde o se lêm com todo o interesse. J á ao nosso estylista não bastará —
sentimentalismo da pretinha que nun- «O nocturno n.o 13», «A noiva de depois de publicado este livro — ir
ca vira uma boneca e morre depois Oscar Wilde», «Noites brancas», «O ca- buscar aos clássicos da língua os en-
que a vê, até o ridículo estardalhante çador de pacas», «A morte do sacy» sinamentos do bem falar vernáculo.
de u m gramrnatico, victima de u m são trabalhos de invulgar mérito. Quem pretenda escrever com arte e
pronome mal collocado. Entre esses vida, com expressão e vigor, ha de
extremos, ha um logar 'para o pathe- agora, compulsando os mestres, cote-
tico e para o h o r r í v e l : — u m retiran- DIALECTO CAIPIRA — Amadeu jal-os com esse grande mestre rústico
te do Ceará, veterano do Paraguay, Amaral — Casa Editora «O livro» — que é o povo, de quem nos é dado o
cego e valetudinario, dá com os costa- São Paulo. código verbal. De facto, as tosca»
dos na Hospedaria dos Immigrantes Entre os livros de mór valia, ulti- phrases do vulgo, tocadas de toda a
de São Paulo, onde vem a reconhecer mamente publicados em São Paulo, sorte de contaminações e corruptelas,
com inaudita alegria o seu velho capi- figura «O dialecto caipira», de Ama- são u m inesgotável manancial de vida.
tão, que lhe restitue com a vista o deu Amaral. Livro de estudo serio, força e belleza, que só esperam o lo-
prazer de contemplar a filha, que * destaca-se entre os mais como traba- pidario que as trabalhe inteligente-
deixara no Ceará, para onde volta lho aturado, methodico e constante, mente, dando-lhes visos de cultura,
«nadando em felicidade»; e u m preto que não se faz n u m dia, mas em an- rutillações de jóia acabada, para 89
que, deitando olhos pouco respeitado- nos ; como observação sagaz e intel- engastarem, no phrasear urbano e
res á sra. fazendeira, é assado â or- ligente, fructo de leitura e reflexão ; letrado.
dem do sr., que assim pode offererer como, emfirn, a primeira tentativa de Quanto effeito de luz e de arte não
à mulher, todos os dias, um prato de coordenação dos elementos do falar tirará o artista daquelle barro bruto ?
«bugiu moqueado . . .» vulgar para comprehensão da historia O estylo se enriquecerá soberbamente
Como se vS, «Negrinha» é um livro da língua em nosso meio, tanto quan- e a lingua se plasticisará considera-
para todos os palaãares, dos mais fi- to da comprehensão da a-lma do povo. velmente. Aos nossos escriptores e
nos aos mais gastos, que exigem con- Assim, «O dialecto caipira», appare- poetas «O dialecto caipira» presta um
dimentos poderosos. cido quasi ao mesmo tempo que «Po- relevante serviço : — filiar a lingua
Ha nelle ainda uma jóia — «O jar- pulações meridionaes», de Oliveira vulgar ao perfeito vernáculo.
l ^ D I Ç O ^ S r>A.'

AMADEU AMARAL F. T. DE SOUZA REIS . i


A Pulseira de Ferro (novella), 1$000 A Divida do Brasil (estudo histórico) . . 4$000
Um soneto, de Bilac (critica) , 2$000
WALDEMAR FERREIRA
MONTEIRO LOBATO Manual do Commerciante . . . . . . 8$000
Os Negros (novella) . . . 1$000 Estudos de Direito'Commercial . . . . 10$0()0
A Hypotheca Naval no Brasil 3|Ò00
LÉO VAZ i

Ritinha (novella) . . . . •. No prelo AUCTORES DIVERSOS


O qüe todo o commerciante precisa saber
GUSTAVO BARROSO
(10.° milheiro) . • . 2$00D
Mula sem cabeça (novella) No prelo Almanach.Commercial Brasileiro de 1918 6$000
A. DE SAMPAIO DORIA NICOLAU ATHANASSOF
Os Suínos, manual do criador de porcos
O-que o cidadão deve saber (10.° milheiro) 3$000 (2.a edição, 8.° milheiro) 31000

OS PEDIDOS DO INTERIOR'DEVEM TRAZER MAIS 10 o/o PARA O PORTE

< S O O I B Í J 3 À I > E > E D I T O R A O X y E X ^ A í í r O R I B E I R O


l e t i e i . D a ? . A.1 4 3 =C a i x a r»osteil l l í r a = «S.A.O PAUIvO

EDIÇÕES D A
tt
vista do Brasil,,
Broch. Encad. - Brooh. Encád.
NEGRINHA, xontos por Monteiro DIAS DE GUERRA E DE SER-
Lobato 2$500 3$500 TÃO, interessante narrativa pelo
URUPÉS, contos por Monteiro Lo- Visconde de Taunay . . . . 4$0Q0 5$000.
bato, õ.a edição . . . . . . . 4$000 5$000 . MADAME POMMERY, íomance
CIDADES MORTAS, contos por satyrico, por Hilário -Tácito. . 4$000 ' ^~ ,
Monteiro Lobato, 2.a edição . . 4$000 5$000 BRASIL COM S OU COM Z, por
IDÈAS DE JECA TATU, critica F. Assis Cintra 3$000 —
por Monteiro Lobato, 2.a edição 4$000 5$000 VIDA .OCIOSA, romance por Go-
NARIZINHO ARREBITADO, li- dofredo Rangel 4$000 5$000
, yró. de historias para crianças, , OS CABOCLOS, contos por Val-
por Monteiro Lobato . . . . 3$500 domiro Silveira 4$000 5$00Ò
POPULAÇÕES MERIDIONAES HISTORIAS DA NOSSA HISTO-
DO BRASIL, estudo de sociolo- RIA, por Viriato Corrêa . . . 3$500 4$500
gia por F. /. Oliveira Vianna . 8$000, 10$000 . ESPHINGES, versos de Francisco.
PROFESSOR JEREMIAS, por Léo Julia 5$000 —'.'.
Vaz, 3.a. edição . . . . . . . 4$000 5$000 S C E N A S E PAISAGENS DA MI-
VIDA E MORTE DE GONZAGA NHA TERRA, versos caipiras de
DE SÁ, romance por Lima Bar- Cornelio Pires 5$000 —
reto 2$000 — CASA DE MARIBONDO, contos,
LIVRO DE HORAS DE SOROR João do Norte. . . . . . . 3$000 ' —
DOLOROSA, poesias por Gui- PAIZ DE OURO E ESMERALDA,
lherme de Almeida 5$000 — romance, J. A. Nogueira . . . . 4$000- —
ALMA CABOCLA, versos de Pau- PEDIDOS PARA O INTERIOR,
lo Setúbal, 2.a edição . . ., . 3$000 4$000 M A I S 10 0/Q p A R A 0 poRTE

P e d i d o s a o s E d i t o r e s : M On t e i r o L o b a t o (£L C , caixa 2-A - s. PAULO


A NOVELLA NACIONAL
'Volumes publicados: .
A. NOVELLA NACIONAL ó uma A Pulseira d e Ferro por
série de pequenos livros, nos quaes AMADEU AMARAL, o successor de
se mira ao seguinte escopo : offerecer Olavo Bilac, na Academia Brasileira.
a melhor leitura, sob a apresentação *'W no gênero uma verdadeira obra
mais artística, ao preço mais barato •prima,, — disse desta novella o grande
possível. Os objectivos desta publi- poeta Alberto de Oliveira.
cação, de que é clirector o gr. Amadeu O s N e g r o s por MONTEIRO LO-
Amaral (da Academia Brasileira) podem BATO, o celebre creador de Jeca Tatu.
assim, condensar-se no lemma — LI- Estão no prelo mais dois volumes:
VRO BOM E BONITO AO ALCAN- R i t i n b a por LEO YAZ, o fes-
CE DE TODOS. tejado auctor do : 'Professor Jeremias",
romance que obteve o maior successo
- Apparece approximadamente um vo- literário da actualiclade, alcançando três-
lume por mez, com. cerca de 80 pa- edições em poucos mezes.
ginas, no formato Itj >/2 X 12 </2 centí- M \ i l a s e m c a b e ç a por GUS-
metros, impresso em magnífico papel TAVO BARROSO, o famoso escriptor
e illustrado com numerosas e artísticas cearense, autor da T E R R A DO SOL,
gravuras, contendo uma obra completa H E R O E S E BANDIDOS e outras
de • auctor conhecido. jóias literárias já sobejamente conhe-
cidas e .apreciadas.
OS N E G R O S

A seguir novellas de :
Coelho Netto,
Afranío Peixoto,
Waldomíro Silveira
Cornelío Pires e outros.
Cada volume LfOOO em
todas as livrarias. Pelo
correio, registrado lf300.
Assignaturas com direito
a receber'todos os vo-
lumes registrados :
Série de três novellas
3$500; série de seis no- „»sr-
vellas 7|000; série de
doze novellas 14f000.
Pedidos á

Sociedade Editora
Olegarío Ribeiro
Rua Dr» Abranches N. 43
Caixa, 1172 - SA0 PAULO

Typ. " Revista de Commercio e Industria „ da


Soe. Ed. Oleprio Ribeiro, Abranches 43, S. Paulo — Lá, foges, acoijy.íhou-me um, t-fc






BRASILIANA DIGITAL

ORIENTAÇÕES PARA O USO

Esta é uma cópia digital de um documento (ou parte dele) que


pertence a um dos acervos que participam do projeto BRASILIANA
USP. Trata‐se de uma referência, a mais fiel possível, a um
documento original. Neste sentido, procuramos manter a
integridade e a autenticidade da fonte, não realizando alterações no
ambiente digital – com exceção de ajustes de cor, contraste e
definição.

1. Você apenas deve utilizar esta obra para fins não comerciais.
Os livros, textos e imagens que publicamos na Brasiliana Digital são
todos de domínio público, no entanto, é proibido o uso comercial
das nossas imagens.

2. Atribuição. Quando utilizar este documento em outro contexto,


você deve dar crédito ao autor (ou autores), à Brasiliana Digital e ao
acervo original, da forma como aparece na ficha catalográfica
(metadados) do repositório digital. Pedimos que você não
republique este conteúdo na rede mundial de computadores
(internet) sem a nossa expressa autorização.

3. Direitos do autor. No Brasil, os direitos do autor são regulados


pela Lei n.º 9.610, de 19 de Fevereiro de 1998. Os direitos do autor
estão também respaldados na Convenção de Berna, de 1971.
Sabemos das dificuldades existentes para a verificação se um obra
realmente encontra‐se em domínio público. Neste sentido, se você
acreditar que algum documento publicado na Brasiliana Digital
esteja violando direitos autorais de tradução, versão, exibição,
reprodução ou quaisquer outros, solicitamos que nos informe
imediatamente (brasiliana@usp.br).