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Análise Social, vol.

XXXIX (Outono), 2004

1880. De facto, esta alteração desen- aplicadas no ensino público, verifi-


cadeou a reacção das elites locais, cou-se a transferência, nos anos sub-
obrigando à activa intervenção dos sequentes a esta última reforma, de
deputados regionais, face à despro- grande número de alunos para os li-
moção dos liceus cuja área de in- ceus. Grande parte da polémica em
fluência coincidia com os seus cír- torno da reforma terá sido municiada
culos eleitorais. pelos interesses afectados.
Embora as primeiras 80 páginas
3.º Como referiu Cândida Proen- constituam uma excelente síntese
ça «a reforma de 1894-1895 não só interpretativa dos discursos contidos
surgiu ligada a um pedagogo, Jaime nas mais de 500 que compõem a 2.ª
Moniz, muito influenciado pela cultu- parte do livro, não esgotam as múl-
ra alemã, como ocorreu numa con- tiplas leituras que a paciente com-
juntura interna e externa favorável à pilação dos debates parlamentares
preponderância germânica»3. O afas- colocou ao dispor da comunidade
tamento de Portugal em relação à académica.
Inglaterra, na sequência do ultimato Este livro é importante pelos con-
de 1890, seguido de maior receptivi- textos que fornece para a leitura dos
dade em relação à cultura alemã, terá Discursos, é valioso pela documenta-
sido decisivo para a implementação ção que compila e sobretudo pelos
instrumentos que foram integrados
da reforma. A complexa situação
para a tornar mais acessível. O estu-
económica e política tornou difícil a
do do subsistema de ensino secundá-
aplicação do novo modelo, facto
rio oitocentista, vertente ensino
agravado pela clara afronta que a
liceal, passa a contar com uma im-
nova estrutura representava para os
prescindível ferramenta de trabalho.
interesses estabelecidos. Áurea Adão
dá relevo, uma vez mais, às relações
FERNANDO LUÍS GAMEIRO
entre os interesses do ensino privado,
dependentes do regime de exames, em
que assentava o funcionamento dos
liceus, e uma reforma que propunha
sem contemplações o regime de clas-
ses. Privilegiava, portanto, a frequên-
cia e a assiduidade, em detrimento do
até então omnipresente exame, do Chamberlain, Kathleen P., Under
qual, aliás, se alimentavam colégios Sacred Ground: A History of Nava-
privados e professores particulares. jo Oil, 1922-1982, Albuquerque,
Como corolário prático das reformas University of New Mexico Press,
que desde 1844 até 1894-1895 es- 2000.
tendiam ao ensino privado as normas

3
Cândida Proença, A Reforma de Jaime O primeiro aspecto a salientar
694 Moniz, Lisboa, Colibri, 1997, pp. 354-355. neste livro é o carácter enganador do
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título. De facto, a sacralidade da ter- proprietário último de todo o territó-


ra não é de forma alguma o seu rio nacional — pretendia, há cerca
centro, mas apenas um ponto referi- de cinco anos, saber de quanta terra
do de passagem nas primeiras pági- necessitavam os camponeses para
nas. Se é esse o tema que exclusiva- viver, por forma a concessionar a
mente interessa o leitor, será melhor «restante» a grandes empresas agrí-
procurá-lo noutras obras — sabendo colas, a fim de aumentar o PIB e
que com isso corre o risco de perder desenvolver o país. Recordando re-
uma leitura que vale bem o tempo ferências históricas locais, alguns
nela gasto. cientistas sociais moçambicanos te-
É, contudo, correcto o subtítulo, miam o surgimento de entidades
«Uma história do petróleo Navajo», com uma autonomia semelhante à
embora também pudéssemos dizer, das companhias majestáticas durante
de forma talvez mais exacta, que o parte do período colonial; a um es-
livro trata das relações de poder que
trangeiro, contudo, esses planos go-
envolveram e envolvem a exploração
vernamentais traziam mais à memó-
petrolífera na reserva Navajo — ou,
ria as reservas ameríndias.
em termos mais gerais, das limita-
A legitimação desses planos não
ções e abusos aos direitos indígenas
se baseava, neste caso, na vitória e
sobre a terra.
Visto a partir desta perspectiva, o conquista em guerras absurdamente
tema do livro é passível de interessar antigas e imorais, num auto-atribuído
quaisquer cientistas sociais que se direito enquanto «raça» dominante,
confrontem com situações em que numa suposta missão civilizadora ou
os direitos e controle dos «indíge- mesmo na protecção do status quo,
nas» ou da «população local» sobre a mas antes no «desenvolvimento» e
terra e o subsolo se vejam subordi- no «interesse nacional» — que impli-
nados a interesses mais fortes — se- citamente incluíam os próprios cam-
jam esses interesses os de grupos poneses. O abuso sobre direitos e
hegemónicos, os do «desenvolvi- posse de terra consuetudinários e
mento» ou os da «nação». não capitalistas tão-pouco seria se-
Este é, afinal, um problema muito quer efectuado contra pessoas con-
mais disseminado e contemporâneo cebidas como «o outro», mas exac-
do que é habitual supormos, não tamente contra as pessoas que
estando de todo restrito nem a con- justificam a existência e independên-
textos coloniais, «inter-raciais» ou de cia do país. Não obstante, o resultado
pós-conquista nem a situações em teria sido a deslocação e confina-
que a sobrevivência, cultura ou estilo mento dos «indígenas» (independen-
de vida das «populações locais» se- temente da sua opinião, desejo e
jam irrelevantes para os detentores crenças) com base em objectivos
do poder. «mais altos» e no pressuposto de
A título de exemplo, o governo que os camponeses seriam incapazes
moçambicano — formalmente, o de usar a terra «da melhor forma», 695
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ou talvez até de entender quão mais últimas sobretudo às actas das insti-
altos eram esses objectivos. tuições tribais criadas pelo Bureau of
No livro de Chamberlain encontra- Indian Affaires (BIA). A este nível, a
mos, assim, a história de um — entre pesquisa aparenta ter sido muito
muitos — contexto específico em completa e o seu resultado é bastante
que o abuso, manipulação e ambigui- impressionante.
dade dos direitos indígenas sobre a Kathleen Chamberlain consegue
terra resultaram na imposição dos fornecer-nos uma descrição muito
interesses económicos de empresas detalhada dos acontecimentos, intima-
e grupos sociais hegemónicos, em mente combinada com a análise dos
retribuições injustas e na sua ruptura interesses e objectivos envolvidos e
social, sem que reais alternativas com as estratégias e idiossincrasias
acabassem por emergir. individuais — tanto no concernente
Contudo, se a autora lida com um aos líderes navajo quanto às autorida-
contexto específico de um fenómeno des governativas e do BIA. Aquilo a
mais alargado, esse contexto é tam- que temos acesso é então uma apre-
bém particularmente eloquente e sentação geralmente harmoniosa do
arquetípico — na medida em que as que aconteceu, dos objectivos que lhe
presidiram e dos papéis desempenha-
reservas norte-americanas são, ao
dos pelas pessoas envolvidas.
mesmo tempo, instituições relativa-
Uma das virtudes do livro será
mente antigas e um modelo concep-
exactamente a bem conseguida inte-
tual e na medida em que o enjeu é, no
racção entre estes três aspectos, a
caso navajo, um signo de modernida-
par da vasta informação que nos é
de, como o petróleo, e não apenas
fornecida num estilo quase sempre
um qualquer produto subterrâneo va- ligeiro, agradável e fácil de ler — o
lioso. As ocasiões para reflectir e es- que certamente constituirá um parti-
pecular acerca de analogias com ou- cular motivo de agrado para a maior
tros contextos surgem, assim, com parte dos leitores que não tenham o
bastante frequência durante a leitura inglês por língua materna.
do livro. Em resultado disso, tornam-se
Gostaria, contudo, de sublinhar claros para o leitor:
fortemente o uso anterior da palavra
«história», porque é esse o contexto — Os constrangimentos económi-
disciplinar do livro e da démarche que cos e ideológicos que conduzi-
segue e porque é como um livro de ram (pelo menos quanto à
história (e não de antropologia, por década de 1920 e durante a
exemplo) que ele deverá ser entendido crise energética da década de
e lido. 1970) a concessões de explo-
O texto é, de facto, bastante des- ração petrolífera quase com-
critivo e essencialmente baseado em pulsórias;
fontes escritas, tanto bibliográficas — As pressões e manipulações
696 quanto primárias, correspondendo as políticas destinadas a garantir
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a aprovação dessas conces- «comuns» — que, conforme a auto-


sões, incluindo a criação de ra implicitamente demonstra, consti-
sistemas representativos nava- tui uma efectiva lacuna, e não apenas
jo, quando nem sequer assem- uma questão de preferência pessoal.
bleias tribais alguma vez ha- De facto, Chamberlain refere di-
viam existido antes; versas vezes que o conselho tribal
— A ambiguidade do quadro le- apenas representava uma pequena e
gal, que chegou a permitir, específica minoria, enquanto uma
entre outros casos, que as au- parte maciça da população navajo não
toridades jogassem com o re- partilhava as suas opiniões e decisões,
ceio de que a reserva pudesse nem sequer mantinha contactos com
ser retirada aos seus habitantes ele. Pelo que lemos no livro, isto pa-
se estes não se comportassem rece lógico e bastante credível; mas,
como «índios bons»; ao chegarmos à última página, conti-
— A interacção entre interesses nuamos sem saber quase nada acerca
externos e a oposição interna das posições e actos dessas pessoas,
entre «tradicionalistas» e «pro- sem que pareça plausível que elas se
gressistas» — ou, seria talvez tenham limitado a estar, durante déca-
mais correcto dizê-lo, «pró- das, passivas e queixando-se entre si.
-integracionistas»; Ao compararmos o pouco que deles
— A desigualdade de royalties e sabemos com o que ficámos a saber
rendimentos pagos dentro e acerca dos líderes navajo e dos polí-
fora da reserva Navajo; ticos e funcionários estadunidenses, o
— Algumas das tensões internas fosso revela-se enorme e não conse-
e rupturas sociais decorrentes guimos evitar a sensação de que algu-
da exploração petrolífera e da ma coisa importante se perdeu e de
utilização de royalties. que esta pesquisa se centrou bastante
mais nas elites económicas e políti-
Contudo, se esta é uma leitura cas do que aquilo que desejaríamos.
pertinente e enriquecedora para quem Talvez decorra igualmente desta
se interesse por processos envolven- opção um outro aspecto desconfortá-
do os direitos e acesso à terra de «in- vel no livro. Os «tradicionalistas»
dígenas» e «populações locais», algu- antiprospecção desaparecem das suas
mas outras características do livro páginas logo que, cronologicamente,
são pelo menos controversas quando se vêem afastados das novas institui-
o encaramos de uma perspectiva an- ções representativas navajo criadas
tropológica ou sociológica. pelo BIA. A partir desse momento, as
Algumas dessas características discordâncias internas parecem nunca
parecem decorrer da importância se centrar na continuidade das con-
central que foi atribuída às fontes cessões petrolíferas, mas apenas no
escritas. Suspeito ser essa a razão valor e tipo de utilização dos rendi-
para a sistemática ausência dos valo- mentos por elas originados — o que é,
res, opiniões e acções dos navajo contudo, uma questão importante, 697
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dado concentrar em si o confronto duzir — e outros dados corroboram


entre estratégias de integração e de essa ideia — que a agora chamada
auto-suficiência. É provável que tal nação navajo nunca realmente existiu
fosse o caso apenas ao nível do con- enquanto unidade política até o BIA
selho tribal; mas os dados apresenta- ter tido necessidade de a reunir
dos pela autora sugerem que já nos como tal, por forma a recolher o seu
primeiros e mais alargados debates, no assentimento à realização de conces-
início da década de 1920, as oposições sões petrolíferas. Se nos lembrarmos
à exploração petrolífera tiveram muito de vários contextos coloniais e pós-
mais a ver com a vinda de estranhos e -coloniais possíveis, podemos sentir-
a possibilidade de futuras expoliações -nos levados a pensar neste facto em
de terrenos do que com violações à termos comparativos; mas podemos
terra-mãe ou com o valor sagrado e igualmente sentir que, por si só, este
cosmogónico do solo da reserva. assunto mereceria um livro, ou pelo
Neste contexto, é bastante sur- menos o seu próprio capítulo.
preendente a importância atribuída a Contudo, este não é o objectivo ou
estas últimas questões no capítulo de a perspectiva do livro de Kathleen
abertura do livro e, especialmente, o Chamberlain, nem pretende sê-lo. So-
discurso do «bom selvagem» que é bretudo, podemos francamente dizer
nele utilizado. Restar-nos-á, neste que ocasionais frustrações do leitor,
caso, tolerar um deslize compreensível originadas por casos como este, se
em autores de áreas disciplinares em verão, sem dúvida, compensadas pe-
que o evitamento deste tipo de retórica las novas questões que o livro e a
não se tornou uma obrigação profis-
sua impressionante panóplia de da-
sional «instintiva», acrescentando que,
dos lhe permitirão levantar.
se esse tipo de discurso é passível de
irritar um leitor familiarizado com a an-
PAULO GRANJO
tropologia, não põe em causa os méri-
tos mais importantes da obra.
Finalmente, suponho que muitos
leitores prefeririam que, sem limitar a
vasta informação que nos fornece, o
livro fosse menos descritivo. Por ve-
zes, de facto, os acontecimentos pa-
recem pedir uma análise mais apro-
fundada; outras vezes, dados que Luísa Ferreira da Silva e Fátima
apenas são referidos de passagem Alves, A Saúde das Mulheres em
podem deixar a impressão de um Portugal, Porto, Edições Afronta-
filão inexplorado. mento, 2002.
Por exemplo, quando nos é dito
que «there is no indication that
Navajos met as a tribe prior to 1923» Nos países desenvolvidos, mu-
698 (p. 14), podemos legitimamente de- lheres e homens evidenciam, perante

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