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Terreno, teorias e complexidade

como não descobrir só o que se espera descobrir

Paulo Granjo

Na década de 1990, um magnata norte-americano surpreendeu os meios


académicos, ao declarar que desistira de contratar sociólogos para estudarem os
problemas da enorme empresa que dirigia, passando a recorrer a outros cientistas
sociais.
Não se tratava de uma qualquer antipatia para com essa ciência, mas de uma
decisão pragmática que tinha a ver com a sua experiência acerca da forma como eram
feitas as pesquisas sociológicas que encomendara. Dizia o tal senhor que, com o passar
do tempo, já lhe bastava conhecer a universidade em que estudara o sociólogo que
contratasse para ficar a saber, à partida, qual o tipo de problemas que ele diagnosticaria
na sua empresa, quais as explicações que daria para a sua existência e quais as soluções
que proporia para os resolver. Por outras palavras, o conjunto de teorias que cada
sociólogo fora ensinado a aplicar (e aplicava no estudo de qualquer terreno)
determinava quer aquilo a que dava atenção, quer as conclusões a que chegava, sem que
a própria pesquisa viesse acrescentar nada de novo ou de útil.
Esta visão é, claro está, injusta para a sociologia no seu conjunto. Na verdade,
embora os seus praticantes mais ortodoxos insistam em estruturar as suas pesquisas a
partir de teorias definidas a priori de qualquer contacto com o terreno e as suas
especificidades, muitos outros sociólogos não o fazem - ao mesmo tempo que outros
cientistas sociais também caem nesse pecadilho, apesar de o “papel director da teoria”
nunca ter sido instituído como dogma nas suas próprias disciplinas.
Não obstante, a acutilante crítica que expressa está apontada ao fulcro de um
importante problema que se coloca a qualquer pesquisa de ciências sociais.
Uma vez assumido que a observação e a recolha de dados não são neutras, que
na ausência de teorias explícitas outras implícitas ocuparão o seu lugar, como podemos
utilizar a teoria sem limitarmos a nossa capacidade de descobrir coisas novas? Como
podemos evitar que, ao fazermos uma pesquisa, as nossas conclusões dependam mais da
teoria através da qual olhamos para o terreno do que do próprio terreno?
A estas perguntas fulcrais junta-se, nas minhas preocupações, uma terceira:
sendo os fenómenos sociais complexos, como é que podemos compreender e dar conta
1
dessa complexidade quando os investigamos, evitando produzir simplificações
caricaturais daquilo que observamos?
São estas as questões que me proponho partilhar com o leitor, procurando
respostas para elas que pouco têm de ortodoxas.
Elas constituem, para mim, a resposta mais fundamental a essa outra pergunta
que dá razão de ser a este livro: O que é investigar?

Só vemos o que estamos preparados para ver

A ciência abandonou há muito a ilusão de que “a realidade se mete pelos olhos


dentro”, de que percepcionamos e interpretamos os fenómenos que se passam à nossa
volta “tal como eles são”, ou mesmo de que cada um de nós se possa aperceber deles da
mesmo forma, “objectiva”.
A questão começa logo nos nossos sentidos. Na verdade, nós vemos, ouvimos,
cheiramos, saboreamos e tacteamos apenas uma pequena parte daquilo que os nossos
olhos, ouvidos, nariz, língua e pele percepcionam. Existem duas boas razões para isso.
Se o nosso cérebro processasse e nos fizesse sentir todos os estímulos que os nossos
sentidos recebem do mundo à nossa volta, o trabalho e tensão a que ele estaria sujeito
seriam insustentáveis. Por outro lado, o próprio mundo deixaria de fazer sentido, pois as
informações que podem ser importantes para a nossa vida (e mesmo sobrevivência)
estariam perdidas no meio de uma infinidade de outras sensações irrelevantes.
No entanto, essa selecção do que é importante e do que não é, daquilo que
sentimos e daquilo de que não nos chegamos a aperceber, resulta de um processo de
aprendizagem e é, por isso, social e variável de contexto para contexto. É dessa forma
que, por exemplo, os povos que vivem no gelo diferenciam e reconhecem dezenas de
cores diferentes naquilo que para os outros é apenas «branco» - uma diferenciação de
que pode depender a sua subsistência e sobrevivência. Essa capacidade e especialização
acarreta no entanto o custo de, tal como acontece connosco para o branco, perderem
acuidade para distinguir nuances nas restantes cores, menos importantes para as suas
vidas.
Por outro lado, aquilo que percepcionamos só faz sentido para nós porque
aprendemos a classificar, a “encaixar” pedaços da realidade à nossa volta em categorias
que, sendo claras para nós, podem incluir coisas aparentemente muito diferentes – como
quando dizemos «cão» e nos podemos referir a um animal minúsculo ou enorme, de
2
pelo comprido ou curto, das mais variadas cores. Até aquilo com que nos confrontamos
pela primeira vez só ganha sentido (e existência pertinente para nós) quando o
classificamos de acordo com a nossa experiência e com as categorias que conhecemos -
seja integrando essa realidade desconhecida numa das categorias conhecidas, seja
classificando-a como uma mistura ou como o contrário de algo que conhecemos.
Isto quer também dizer que percepcionar, classificar e interpretar aquilo que nos
rodeia não são fases separadas e autónomas da nossa relação com o mundo. Embora nos
seja fácil concebê-las como categorias distintas, constituem elementos em interacção
num mesmo processo; aquilo que percepcionamos depende da forma como vamos
interpretando esses estímulos, o que por sua vez corresponde, em grande medida, a uma
manipulação das categorias de classificação de que dispomos e que vamos construindo.
Dessa forma, quando “paramos para pensar”, quando deliberadamente
procuramos interpretar e analisar a posteriori alguma coisa que observámos ou de que
nos chegou informação, essa própria coisa acerca da qual reflectimos não é já uma
“realidade objectiva”, mas um resultado selectivo dos nossos processos de interpretação
e classificação não consciencializados. Um resultado selectivo que, caso a informação
nos chegue através de terceiros, é filtrado não apenas por nós, através desse processo,
mas também pelos processos semelhantes que ocorreram com outras pessoas.
É por isso que um mesmo acontecimento, observado com atenção por pessoas
diversas, pode ser factualmente diferente para cada uma, mantendo elas a convicção de
que é acerca de “factos objectivos” que discordam, e não acerca de diferentes selecções
e interpretações dos factos, ocorridas no próprio processo de observação.
Contudo, se é já assim no que diz respeito à “matéria-prima” factual que
pretendamos interpretar, as classificações e lógicas de interpretação que conhecemos e
partilhamos passam a ocupar o centro do palco quando procuramos analisar um
determinado acontecimento ou fenómeno.1
Se “a realidade não se mete pelos olhos dentro” quando a apreendemos, muito
menos tal acontece quando reflectimos acerca dela. Não somos folhas em branco, mas
pessoas que, na sua experiência de relacionamento corrente com os outros, fomos
aprendendo e integrando pressupostos, valores, pré-conceitos e interpretações do mundo
que nos permitem viver nele em sociedade, dentro daquilo a que chamemos “a nossa

1
Para aprofundar as questões que se seguem, veja-se Almeida, J. F. & J. M. Pinto, “Da teoria à
investigação empírica. Problemas metodológicos gerais” in Silva, A. S. & J. M. Pinto (orgs.),
Metodologia das Ciências Sociais. Porto: Afrontamento, 1986: 55-78.
3
cultura”, mas que correspondem a interpretações fragmentares, socialmente particulares
e frequentemente distorcidas e enganadoras da realidade social.
Para utilizar o jargão sociológico, todos somos dotados de “senso comum”, que
assume dois impactos na forma como compreendemos o mundo. Por um lado, faz com
que olhemos o que nos rodeia prestando atenção àquilo que esperamos faça sentido à
luz desse senso comum. Dessa forma, os próprios dados de que nos apercebemos e
acerca dos quais iremos reflectir não são neutros, mas condicionados pelos nossos
pressupostos; ou seja, só vemos o que estamos preparados para ver. Por outro lado, na
ausência de alternativas, iremos analisar os dados com base nesses preconceitos
socialmente partilhados e em grande medida correspondentes aos interesses dominantes
na nossa sociedade.
Por isso a ortodoxia sociológica assume que a sua própria existência enquanto
disciplina de saber se funda numa ruptura auto-reflexiva com o senso comum, que o
procure detectar e erradicar ao longo de todo o processo de observação e análise, e na
sua substituição pelo chamado “papel director da teoria”.
Este corresponde, sinteticamente, à prática de definir e explicitar a priori os
conceitos e princípios teóricos que iremos utilizar quando estudamos um fenómeno,
fazendo com que os nossos instrumentos de análise não permaneçam ocultos (como no
senso comum) e com que a teoria escolhida vá enquadrar e dirigir a definição do
problema que queremos estudar, as hipóteses que colocamos para lhe dar resposta e a
recolha e análise dos dados.
À primeira vista, então, o problema causado pela ilusão da “neutralidade dos
dados” pareceria ficar resolvido pela aplicação do papel director da teoria sobre a
pesquisa, assumido como princípio na sociologia (embora não para todos os sociólogos)
e utilizado, na prática, por outras disciplinas científicas que nunca o chegaram a
instaurar como dogma. No entanto, essa forma de investigar deixa problemas por
resolver e cria outros novos.
É verdade que, procurando evitar a contaminação dos dados pelas noções de
senso comum do investigador, pelas teorias não-académicas e não-explícitas que ele foi
integrando na sua visão do mundo, esse princípio as substitui, na forma como se olha e
questiona o terreno, por teorias académicas, explícitas e explicitadas – e, por isso,
consciencializadas e passíveis de debate. Não obstante, pelo facto de essas teorias serem
definidas antes do início da pesquisa e conduzirem quer a forma como ela é feita, quer
os dados que se procuram e a maneira como eles são interpretados, apresentam todas as
4
condições para se transformarem, elas próprias, em teorias apriorísticas. Ou seja, uma
aplicação total e efectiva do “papel condutor da teoria” corresponderia, em rigor, a
substituir uns pressupostos a priori por outros, embora academicamente mais aceites e
postos em destaque pelo investigador.
Necessariamente, a investigação ressente-se disso.
Ressente-se, antes de mais, através de uma contaminação dos dados pela teoria,
correspondendo à observação de Paul Feyerabend (1993: 37) de que «as descrições
observacionais, os resultados experimentais, as declarações “factuais”, ou contêm
considerações teóricas ou as afirmam pelo modo como as usam.» Ou seja, tanto os
dados que conseguimos ver na realidade que observamos, quanto as classificações que
deles fazemos para nós próprios e para os outros, serão determinados pela teoria que
escolhemos utilizar. Uma teoria que, afinal, irá direcionar e limitar (de forma só em
parte consciente e deliberada) os processos cognitivos de percepção, classificação e
interpretação que comecei por expor.
Mas, talvez mais importante, a investigação ressente-se também quanto à própria
natureza do processo de descoberta e análise, quanto aos objectivos da pesquisa e
quanto à sua validade e utilidade.
Se, ainda antes de contactarmos com o terreno e com as particularidades de um
fenómeno que pretendemos estudar, definirmos de forma rígida o quadro teórico que
iremos aplicar e as hipóteses explicativas cuja validade pretendemos verificar, iremos
olhar para esse terreno selecionando a priori as instâncias, dinâmicas e variáveis que
são consideradas pertinentes por essa teoria e negligenciar todas as outras, por centrais
que possam ser naquele fenómeno específico. Iremos, afinal, olhar para o terreno (que
desconhecemos em profundidade, e que por isso estudamos) indo à procura de
variáveis, relações e explicações pré-definidas e, consequentemente, correndo sérios
riscos de encontrar o que procuramos, por pouco relevante que seja para a compreensão
do fenómeno em estudo.
Numa situação como esta, poderão ocorrer três diferentes resultados:
Pode ser que tenhamos a imensa sorte de o fenómeno que estudamos ser, de
facto, totalmente explicável pelas teorias e variáveis que escolhemos, sem que nenhuns
outros factores sejam relevantes nas suas dinâmicas, ou necessários à sua cabal
compreensão. Neste caso, pouco poderemos aprender para além do que já sabíamos,
mas acontece-nos pelo menos a felicidade de termos acertado.

5
Pode, por outro lado, dar-se o caso de as variáveis que seleccionámos terem uma
relação efectiva com o fenómeno que estudámos, quando as interpretamos à luz da
teoria que escolhemos, mas que na verdade elas sejam secundárias ou marginais às
dinâmicas e lógicas do fenómeno. Neste caso, nunca poderemos saber em que medida a
nossa explicação acertou no alvo ou é pouco relevante, pois não demos atenção a muitos
outros factores pertinentes; reforçámos as nossas convicções, mas produzimos
conhecimento que é, afinal, irrelevante e enganoso – pois apontámos como causa de um
fenómeno um factor que afinal lhe é secundário, embora esteja relacionado com ele.
Pode, por fim, acontecer que as hipóteses e interpretações teóricas não se
adequem à compreensão daquela realidade, mas que ou nem nos apercebamos disso por
elas pressuporem factores que sabemos existirem nesse contexto, ou que façamos um tal
esforço para interpretar os dados à luz da teoria escolhida que o consigamos fazer de
forma convincente, embora errada. Neste caso, por muito brilhantes e intelectualmente
honestos que possamos estar a ser, estaremos a fazer aquilo de que Edmund Leach
acusou a antropologia estrutural-funcionalista do seu tempo: estaremos a «tentar
encaixar os factos do mundo objectivo no quadro de um conjunto de conceitos que
foram desenvolvidos a priori, em vez de serem resultantes da observação».2
Dessa forma, a rígida e total assunção do “papel director da teoria” limita o
nosso olhar e a nossa capacidade de descobrirmos o que desconhecemos, reduzindo
afinal aquilo que estamos preparados para ver. Por outro lado, pode dar origem a
pesquisas redundantes, irrelevantes, ou mesmo tautológicas – isto é, em que as
conclusões estejam já pressupostas no ponto de partida, seja porque as hipóteses
definidas a priori não possam ser infirmadas, seja por a observação e a análise serem de
tal forma condicionadas pelos quadros teóricos que a conclusão já esteja neles implícita.
São problemas suficientes, parece-me, para que tomemos consciência deles e
procuremos encontrar-lhes alternativas.

Desenrolar a pescadinha

Uma metáfora eloquente e adequada à noção de “tautologia” é um prato


tradicional em Portugal: a pescadinha-de-rabo-na-boca. O pequeno animal é frito depois
de a cauda lhe ser entalada entre os dentes, sendo servido na forma de uma
circunferência em que o princípio e o fim coincidem, só os conseguindo nós distinguir

2
Leach, E., Repensando a Antropologia. S. Paulo, Perspectiva, 1974 [1961]: 49.
6
por imaginarmos como o peixe deveria ser (e era) quando estava vivo. Tirando esse
esforço, o nosso olhar poderia andar infinitamente às voltas na pescadinha, sem nunca
sair do mesmo sítio.
De que forma poderemos nós evitar que as nossas pesquisas sejam conduzidas à
situação de tal prato, pela ilusão de que a “realidade se mete pelos olhos dentro” ou por
apriorísticos sensos comuns ou teorias académicas?
Na verdade, não descortino qualquer razão válida para que fiquemos agrilhoados
à opção por um dos termos exclusivos do binómio “ilusões empiricistas/indução de
tautologias pela teoria”.
Afinal, a construção desse binómio radica numa separação artificiosa entre
supostos “momentos” da percepção e da conceptualização da realidade, numa
«distinção entre um contexto de descoberta e um contexto de justificação, entre termos
observacionais e termos teóricos», embora se verifique que «nenhuma destas distinções
desempenha qualquer papel na prática científica».3 Mais do que isso, tais momentos ou
termos constituem de facto, conforme antes expus, elementos coexistentes e dialécticos
de um mesmo processo, que não têm existência autónoma e que só a um nível abstrato
podemos diferenciar.
Ora não sendo a percepção, classificação e interpretação, a observação e o
pensamento acerca dela, fases separadas, distintas e subsequentes do processo de
pesquisa (mas antes elementos que nele coexistem de forma dialéctica), sugiro que esse
facto deve ser assumido por nós quando nos perguntamos «o que é investigar?» e de que
forma o devemos fazer. Em vez de o negar ou ignorar, deverá ser praticado um tipo de
pesquisa que procure explorar essa interacção permanente e corresponder a ela,
recusando tanto a noção de transparência neutra do objecto, quanto outros pressupostos
apriorísticos, sejam eles reconhecidos ou não como teorias académicas.
Concretizando, proponho que quer a indução de tautologias, quer a negligência
de instâncias relevantes do terreno observado, só podem ser evitadas ou limitadas por
uma postura de pesquisa social que, negando simultaneamente as ilusões empiricistas e
o papel condutor da teoria, mantenha uma permanente relação dialéctica entre, por um
lado, a descoberta e clarificação do objecto a estudar (numa progressiva delimitação
daquilo que é nele pertinente) e, por outro, a emergência e opção por técnicas, processos

3
Feyerabend, P., Contra o Método. Lisboa, Relógio D’Água, 1993 [1988]: 194.
7
de interpretação e enquadramentos teóricos - delimitando de que forma é mais
pertinente apreender e analisar aquilo que se revela pertinente no objecto.
Afinal, conforme já sugeria Edmund Leach (idem: 50), «os factos etnográficos
serão muito mais fáceis de entender se deles nos aproximarmos livres de todas as
suposições a priori». No entanto, isso implica que investigar seja assumido como um
processo de progressiva clarificação do objecto e de selecção de ferramentas teóricas e
metodológicas (se necessário, construídas exclusivamente para ele), que exige audácia e
liberdade intelectual do investigador e, simultaneamente, a sua modéstia perante a
realidade exterior que observa.
Não se trata de uma solução fácil. Pelo menos, não é mais fácil do que o clássico
caminho de, antes de ir a terreno, definir de forma rigorosa a questão que se vai estudar,
as hipóteses que lhe poderão dar resposta e o quadro teórico que nos irá guiar.
Isto porque um tipo de dinâmica de pesquisa como aquele que proponho
pressupõe que provavelmente teremos que recorrer a uma multiplicidade de referentes
teóricos e metodológicos, em função das potencialidades que eles revelem para a
observação e compreensão do objecto concreto e específico que se pretende estudar.
Este critério implica, por seu lado, que essas diversas teorias e metodologias tanto
poderão ser aplicadas da forma como foram concebidas, como exigir adaptações
criativas que nos permitam reapropriá-las de forma pertinente.
Uma pesquisa desse tipo pressupõe, também, que seja a observação do objecto a
identificar e requisitar a pertinência desses instrumentos teóricos e metodológicos, e que
seja a clarificação do objecto, resultante da aplicação destes à observação e à análise, a
cartografar-lhes as limitações. Embora potencie a descoberta do que é inesperado e a
capacidade de o analisar, uma pesquisa como este torna-se, assim, mais exigente quanto
ao sentido crítico e auto-crítico do investigador e menos estável, requerendo dele tempo
para remodelar a sua abordagem sempre que necessário e a confiança de que não
acabará perdido a meio do processo.
Pressupõe, por fim, um conhecimento extensivo das diversas propostas teóricas
e metodológicas existentes, necessário para que se possam reconhecer as suas
potencialidades à medida que se desenvolve o conhecimento acerca do terreno, a par da
abertura de espírito suficiente para recorrer total ou parcialmente a elas quando se
revelem pertinentes, independentemente da simpatia ou antipatia que essas propostas ou
a forma como antes foram aplicadas suscitem ao investigador. Este aumento de
exigência de erudição teórica parece-me, contudo, particularmente importante para
8
quem se proponha pesquisar em Moçambique - um pais onde, de forma mais intensa do
que em muitos outros lugares, se torna difícil compreender cabalmente qualquer
fenómeno sem recorrer, em simultâneo, a instrumentos, teorias e conceitos oriundos da
antropologia, da história e da sociologia.
Dessa forma, um formato de pesquisa marcado pela auto-reflexividade e
construído através da interacção entre observação e teoria acaba por contribuir, também,
para dar resposta a uma observação pragmática que é trivial nas ciências sociais: a de
que nenhum quadro teórico disponível, fornecido por qualquer uma das disciplinas do
conhecimento social e humano, permite aperceber o social na sua totalidade – ou
sequer, por vezes, de forma pertinente.
Embora minoritárias, tão pouco as tentativas de superar este problema são muito
recentes. É exemplo disso Gregory Bateson que, confrontado com um importante
cerimónia que diversas vezes observou numa região da Nova-Guiné,4 verificou que
nenhuma teoria existente permitia compreendê-la na sua totalidade, complexidade e
pluralidade de sentidos. Decidiu então aplicar três diferentes quadros teóricos a três
diferentes facetas da cerimónia e do contexto social em que ela se insere, conseguindo
com isso compreender e transmitir-nos os seus sentidos e lógicas.
O livro resultante, Naven,5 é uma obra brilhante, inspiradora e capaz de nos
surpreende quer pelo seu pioneirismo e atrevimento teórico, quer pela forma como daí
resulta uma compreensão clara e lógica dos aspectos fulcrais de uma cerimónia que
parece, à partida, tão estranha e exótica. Não obstante, a sua construção apresenta duas
características que serão, hoje em dia, merecedoras de reparo.
É verdade que a aplicação dos quadros teóricos escolhidos por este autor lhe foi
requisitada de forma pertinente pelas características que reconheceu no objecto que
estudava, sendo também verdade que a utilização que deles faz se torna mais
interessante e exigente do que aquela que haviam realizado os seus criadores originais.
Contudo, ao pressupor à partida que as teorias a que recorre são aplicáveis de forma
global, Bateson mantém em aberto a potencialidade de que elas induzam tautologias na
sua análise.
Por outro lado, a forma de análise fragmentar que foi utilizada acaba, afinal, por
dividir o objecto em “gavetas” analíticas estanques, que se limitam a ser apresentadas

4
Trata-se de um tipo de cerimónia em que o tio materno celebra, sob a forma de dramatizações
constrangedoras e transgressoras dos comportamentos quotidianos, os feitos socialmente marcantes que
vão sendo realizados pelo seu sobrinho uterino.
5
Bateson, G., Naven. London, Cambridge University Press, 1936.
9
em sequência, sem nunca chegarem a interagir entre si, numa busca de síntese
totalizante. Aquilo que foi estudado não corresponde, afinal, à totalidade do fenómeno,
mas a uma soma das suas partes.
No entanto, dado esse primeiro passo há mais de 75 anos, não temos que
restringir-nos a repeti-lo, inclusive nas limitações que apresenta. As ciências sociais
possuem hoje um enorme e diversificado património teórico e metodológico. Se
nenhum quadro teórico permite aperceber e compreender o social na sua totalidade, nem
por isso deixam, quase todos eles, de ter potencialidades para a clarificação pertinente
de facetas do terreno estudado. Tão pouco são de tal forma inconciliáveis que
inviabilizem uma utilização conjunta de, pelo menos, partes que os constituam. Assim,
nada impede o recurso a essa vasta panóplia teórica para a construção de processos de
síntese analítica e teórica delimitada e direccionada, suscitados pelas especificidades do
objecto que se estude.
Para que isso seja plenamente frutuoso e restrinja ao máximo quaisquer
possibilidades de tautologia, tratar-se-á então de construir a observação e a selecção e
uso dos apports teóricos mais pertinentes como um processo permanentemente
dialético,6 procurando apreender fenómenos que, eles próprios, só são cabalmente
compreensíveis quando os olhamos no quadro das múltiplas interacções que lhes dão
existência, continuidade e mutabilidade.

Como não caricaturar o que é complexo?


Diria que o tipo de problemas que acabei de enunciar resulta, em grande medida,
do facto de nos termos habituado a lidar com os fenómenos complexos (e de termos
desenvolvido ferramentas teóricas para isso) seguindo uma proposta filosófica de René
Descartes7 que assumiu um peso fundamental na construção da ciência moderna.
Refiro-me à ideia de que, quando somos confrontados com um problema, o devemos
dividir nos problemas menores que o compõem e resolver esses problemas mais
simples. Que devemos, afinal, analisar o todo através da análise da soma das partes.
Acontece que esse tipo de abordagem só é realmente adequado à compreensão
de fenómenos complicados – ou seja, de fenómenos que têm muitas variáveis mas com
relações lineares entre si, levando a que a alteração de uma delas provoque uma

6
No sentido que atribuem à expressão Hegel e Marx. Veja-se, para uma apresentação sintética da
questão, Foulqué, P., A dialéctica. Lisboa, Europa-América, 1874 (1949).
7
Descartes, R., Discurso Sobre o Método. Lisboa, Edições 70, 2008 (1637).
10
alteração proporcional numa ou em várias outras variáveis, de uma forma estável e
repetitiva que se torna previsível.
Contudo, os fenómenos sociais apresentam quase sempre (se não sempre) uma
outra natureza: são complexos. Quer isto dizer que, para além de envolverem muitas
variáveis, elas não se relacionam entre si de acordo com sequências estáveis de causa e
efeito, mas segundo contínuas interacções entre todas elas, que vão provocando
modificações quer nas próprias variáveis envolvidas, quer na forma como elas vão
interagir nos momentos seguintes. Por isso, aquilo que podemos observar em cada
momento é um quadro de relações (não-lineares) entre variáveis, que se modificou em
função do seu historial de interacções anteriores e que se virá a modificar em função das
que agora ocorrem, de formas em grande medida imprevisíveis.
Penso que estas características nos obrigam a assumir que a compreensão de um
fenómeno social que pretendamos estudar não pode ser obtida através de um mero
somatório da análise das suas partes. Afinal, ela depende de conseguirmos compreender
quer todos os factores relevantes que estão envolvidos nesse fenómeno, quer a forma
como eles se relacionam entre si – que está para lá da compreensão de cada um deles.
Mas, assim sendo, de que forma poderemos tentar evitar que, ao pesquisarmos
esses fenómenos complexos, acabemos por produzir acerca deles meras simplificações
caricaturais, que os apresentem como o resultado estável de algumas variáveis?
Sugiro que, para o conseguirmos, deveremos antes de mais atentar naquilo que
outras ciências descobriram e aprenderam acerca da complexidade. Afinal, para
construírem os seus modelos de pensamento e análise, as ciências sociais já foram
buscar inspiração à biologia, à linguística, à cibernética; talvez seja altura de olharmos
para a física.8
Para esta última ciência, os sistemas complexos são também caracterizados pelo
facto de uma pequena diferença nas variáveis e relações existentes no passado poderem
conduzir a desenvolvimentos muito diferentes – ou seja, de serem sistemas “sensíveis às
condições iniciais”, conduzindo esse facto à conhecida metáfora de que o bater de asas
de uma borboleta pode contribuir para causar um furação numa zona distante do mundo.
Por outro lado, tanto podem atravessar fases de aparente estabilidade como, devido a
uma rápida sucessão de pequenas alterações nas suas condições, entrar numa situação

8
Para uma primeira aproximação sintética às questões que irei enunciar em seguida, veja-se Ruelle, D., O
Acaso e o Caos. Lisboa, Relógio d’Água, 1994. Para algumas tentativas da sua aplicação às ciências
sociais, veja-se Mosko, M. & Damon, F. (eds.), On the Order of Chaos – social anthropology and the
science of chaos . New York, Berghahn, 2005.
11
de desequilíbrio e mudança que representa uma ruptura com a situação anterior.
Contudo, revelam também capacidade de “auto-organização”, tendendo em seguida a
atingir uma nova fase de aparente estabilidade, marcada por novas condições. Nas suas
dinâmicas, podem ainda ser influenciados por factores que normalmente não são
concebidos como fazendo parte do seu sistema de relações, e cuja existência e
relevância só podem vir a ser detectadas através dos efeitos inesperados que produzem -
factores a que o jargão físico chama “atractores estranhos”.9
Se pensarmos um pouco, verificamos que estas características, referidas sob
outros nomes, também existem nos fenómenos e dinâmicas sociais. A sua mera
enunciação já nos sugere, então, um conselho valioso para a pesquisa social: quando nos
confrontamos com um efeito inesperado, que não parece fazer sentido à luz da análise e
dos princípios teóricos que escolhemos utilizar, esse efeito nunca deve ser ignorado, ou
descartado como uma anomalia casual e sem sentido; pelo contrário, deve ser objecto da
nossa especial atenção, pois muito provavelmente será o indício de que, no nosso
processo de observação e análise, não detectámos um factor relevante que, interagindo
com os restantes, está na origem dessa aparente anomalia.
Os sistemas complexos são igualmente vistos como “sistemas dissipativos”, ou
seja, como estruturas que não estão isoladas do exterior, mas pelo contrário mantêm
com ele uma permanente interacção - no caso da física, de trocas de energia - que é uma
componente essencial do seu funcionamento. Podem, para além disso, estar ou não num
estado ”longe do equilíbrio”.
Se estiverem perto do equilíbrio, mantêm uma dinâmica relativamente estável
que os faz parecerem sistemas lineares e repetitivos. Nessas alturas, são regulados
sobretudo por estímulos negativos (como seria o caso de um termostato ou, tratando-se
de sociedades, dos mecanismos de controlo social e da repressão), mas mantêm sempre
o potencial de evoluírem para um comportamento instável e imprevisível.
Isto porque mudanças internas e/ou externas nos factores e relações que
compõem a sua estrutura afastam, por vezes, os sistemas complexos dessa aparente
estabilidade, tornando-os particularmente dinâmicos e longe do equilíbrio. Nesta
situação, os sistemas passam a ser regulados por estímulos positivos (como seriam,
socialmente, as vantagens comparativas entretanto obtidas ou que se espera obter),
podendo a sua sensibilidade às condições iniciais e as rápidas mutações sofridas pelos

9
Note-se que foi um mecanismo semelhante a permitir a descoberta e conceptualização dos chamados
“buracos negros”, na astrofísica.
12
seus elementos e relações conduzir a resultados muito distintos. De entre eles, pode
acontecer que o sistema atinja pontos de não-retorno onde várias alternativas são
possíveis mas progressivamente menos numerosas (o chamado “branching”), até um
ponto em que a única possibilidade é o desenvolvimento de um novo estado, com uma
diferente estrutura de relações e de elementos.
Embora mantenha curiosos paralelos pontuais com alguns conceitos já existentes
nas ciências sociais, esta interpretação científica dos sistemas complexos (correntemente
conhecida por “teoria do caos”) foi, no entanto, concebida para aplicação ao estudo de
partículas elementares em movimento, e não ao de pessoas dotadas de consciência,
vontade e capacidade de agir para lá dos constrangimentos que lhes são impostos pela
sociedade. Para que a possamos utilizar enquanto inspiração para a pesquisa em ciências
sociais, ela terá por isso que ser adaptada a essas especificidades humanas e aos
consequentes particularismos dos fenómenos sociais.
Creio que existem vantagens evidentes em fazê-lo. Tais vantagens revelam-se,
antes de mais, nos instrumentos analíticos que uma visão como esta nos fornece de uma
forma coerente.
Assim, se os fenómenos sociais complexos apresentam uma dependência
sensível das condições iniciais (isto é, se diferenças quase imperceptíveis nas variáveis e
interacções passadas podem conduzir a resultados muito diferentes), isso não quer
apenas dizer que todo o quadro de interações entre as condições e variáveis existentes é
relevante para a análise. Significa igualmente que as conjugações locais e as variações
particulares de condições gerais devem ser assumidas como elementos imprescindíveis
à análise causal – incluindo-se nessas variações aspectos como a experiência, a memória
e a interpretação de factores passados por parte dos vários agentes envolvidos nos
fenómenos presentes, ou como as motivações e intencionalidades da sua acção.
Por outro lado, se os fenómenos sociais complexos são sensíveis à acumulação
de mudanças nas interacções entre variáveis, e se essas interacções são tanto ou mais
relevantes do que as próprias variáveis, deveremos mudar significativamente a forma
como habitualmente encaramos e analisamos esses fenómenos. Antes de mais,
deveremos ter consciência de que as mudanças na forma como as variáveis do sistema
se relacionam, ou mesmo a introdução de uma variável nova, tanto podem ser pouco
relevantes como alterar profundamente o sistema, induzindo a ruptura de estados
aparentemente estáveis. Ainda mais importante é o facto de, nessa perspectiva, não
existirem variáveis ou instâncias que, a priori, se possam considerar determinantes ou
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secundárias. Uma variável que se revele essencial num quadro de interações particular,
ou numa fase particular de um processo, pode tornar-se pouco relevante num outro
quadro ou período (e vice-versa), visto que o estatuto e relevância de cada factor não
depende dele próprio mas da sua rede de relações não-lineares com os restantes, em
cada estado e momento da dinâmica do sistema. Dessa forma, deverão ser ultrapassadas
as clássicas dicotomias hierárquicas entre factores necessários e suficientes,
constrangimentos sociais e agência individual, micro e macro, factores estruturais e
conjunturais, deliberação e acaso, ou infraestrutura e superestrutura.
Para além disso, a adopção da visão e princípios que tenho vindo a expor
apresenta potenciais vantagens a um nível mais estritamente teórico (que remeto para
nota de rodapé por não ser esse o objectivo deste livro),10 das quais a menor não seria,
certamente, o facto de um quadro teórico construído com base neles constituir
simultaneamente uma teoria da acção e uma teoria da estrutura, numa perspectiva
sistémica.

Um exemplo
Mas em que medida é que a adopção destes princípios altera o que é investigar,
e não apenas a forma como se analisam os dados?
Diria que altera muito, e que essa é mesmo uma das suas mais importantes
potencialidades. Isto porque, ao assumirmos que os princípios que enunciei são os mais
adequados para observar e analisar fenómenos sociais complexos, somos obrigados a
alterar as nossas expectativas, prioridades e exigências, quando nos aproximamos do
terreno para pesquisar um fenómeno específico. Habitualmente, vamos em busca de
variáveis relevantes, que tratamos como se fossem lineares e cujo número restringimos
tanto quanto possível, esperando poder concluir que é de uma variável específica, ou de
um número reduzido delas, que depende o fenómeno; teremos, em vez disso, que passar
a prestar prioritariamente atenção às relações não-lineares entre essas variáveis e que
pressupor, até prova em contrário, que todas as variáveis e interacções que estejam
directa ou indirectamente envolvidas no fenómeno estudado podem ser relevantes para
10
Entre essas potenciais vantagens, destacaria: permitir uma visão mais clara da relação entre individual e
colectivo, grupos e sub-grupos; possibilitar uma melhor compreensão dos acontecimentos e rupturas a
nível macro, em consequência de processos micro; constituir um quadro adequado para suprir lacunas
teóricas relativas aos processos de ruptura e reorganização social (como sejam as interacções entre
dinâmicas expontâneas e acção planeada, ou entre a subversão da ordem e as tentativas para a
neutralizar); constituir um quadro potenciador do aprofundamento analítico das dinâmicas de mudança
cultural em contextos onde interagem múltiplos modelos culturais e múltiplos mecanismos de controlo
social.
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a sua compreensão. A própria expectativa acerca do tipo e diversidade de factores que
podem ter influência sobre o fenómeno estudado também se alarga bastante.
Julgo que estes aspectos ficarão mais claros se utilizarmos como exemplo um
fenómeno que deverá ser familiar à maioria dos leitores: os protestos violentos (e
violentamente reprimidos) que ocorreram na região de Maputo no início de Setembro de
2010.
O que é investigar estes acontecimentos?
Na verdade, pode ser muitas coisas diferentes.
No próprio dia 1 de Setembro, surgiram diversas interpretações acerca dos
factores que estariam na origem daqueles confrontos. O rápido surgimento dessas
propostas interpretativas tornava-se possível pela anterior ocorrência de um fenómeno
muito semelhante, em 5 de Fevereiro de 2008, que entretanto tinha sido objecto de
reflexão ou mesmo de pesquisa, por parte de cientistas sociais. No entanto, não
constituíam investigações (nem o pretendiam ser) e apontavam basicamente variáveis
fulcrais, mesmo quando procuravam relacionar várias delas entre si, como no caso de
um texto que escrevi para o jornal Público.11
Quando se tratou de investigar o fenómeno, a primeira pergunta que se
justificava fazer era acerca das motivações mais profundas dos protestos (para lá do
anúncio de aumentos de preços, que depressa se compreendia ter sido sobretudo um
rastilho para uma insatisfação mais geral) e por que razão eles tinham assumido uma
expressão de violência pública.
Responder a esta pergunta deverá passar por uma extensiva recolha das opiniões
e descrições dos participantes e dos seus vizinhos (o que pode corresponder, para
muitos investigadores, à própria pesquisa), mas não se deve restringir a ela. Os vários
factores que são referidos pelos actores dos acontecimentos deverão eles próprios ser
objecto de pesquisa, quer quanto às suas lógicas internas, quer quanto à forma como se
relacionam com os restantes.
Efectuado esse percurso, poder-se-à apresentar uma resposta. Muito
sinteticamente, aquela a que cheguei num artigo que aguarda publicação é que, num
quadro geral de condições de vida marcadas pela incerteza e a precariedade, a decisão
governamental de aumentar os preços dos artigos de primeira necessidade veio ameaçar
o equilíbrio instável de uma subsistência precária, sendo interpretado como uma

11
http://www.buala.org/pt/da-fala/a-razao-e-o-sentido-de-dois-motins
15
violação dos deveres do poder para com os governados e da própria visão popular do
contrato social - de uma forma que se tornou ainda mais chocante para as pessoas em
virtude da evidência e ostentação de grandes assimetrias sociais e económicas. Na
ausência quer de diálogo entre o poder e os governados, quer de instituições mediadoras
que possam canalizar de forma credível o descontentamento, a amotinação impôs-se aos
seus participantes como a única forma possível e eficaz de expressar o protesto – sendo
essa avaliação popular reforçada pelo facto de o 5 de fevereiro de 2008 ter sido eficaz
nos seus objectivos explícitos. Este conjunto de factores e de relações entre eles (que
surgem sublinhados na figura anexa a este capítulo) justificam entretanto que os
acontecimentos de Setembro de 2010 não sejam encarados como um motim económico,
conforme é habitual apontar-se aos fenómenos violentos espoletados por aumentos de
preços, mas antes como protestos de natureza política, dirigidos não tanto aos
governantes mas, sobretudo, à forma como estes exercem o poder.
Um conjunto de conclusões deste tipo poderia, também, constituir o ponto final
de uma pesquisa. Seria, aliás, habitual que tal acontecesse. No entanto, nem os
manifestantes foram os únicos actores deste fenómeno, nem as perguntas acerca dele se
devem restringir àquela que antes enunciei.
Justifica-se também perguntar, antes de mais, como se pode compreender que os
governantes tenham decidido um aumento simultâneo e tão elevado dos preços de
artigos de primeira necessidade, sem revelarem preocupação com o seu impacto sobre a
vida e subsistência da maioria da população urbana, e quando tinham, também eles, a
anterior experiência do 5 de Fevereiro. Justifica-se perguntar, depois, como é que o
confronto entre as visões, os valores e as formas de acção a que os manifestantes e os
governantes podiam recorrer (enquadrado por factores exteriores a ambos, mas que
afectam cada um deles e as suas opções) conduziu a um desenlace do conflito sob a
forma que este assumiu.
Neste caso, os factores relevantes e as relações entre eles multiplicam-se
rapidamente, assumindo a multiplicidade e complexidade de interacções que está
representada graficamente na figura anexa. Alguns desses factores (como por exemplo
as razões que subjazem ao aumento de preço dos cereais nos mercados internacionais)
podem ser considerados pouco relevantes para a análise do fenómeno em estudo, já que,
embora inseridos numa sucessão de relações de causa e efeito, não são necessários à
compreensão do próprio fenómeno. Mas quase todos os restantes se afiguram como

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imprescindíveis para compreender a actuação das duas partes em confronto e a evolução
da interacção que entre si mantiveram.
Mesmo chegados a este ponto, contudo, a pergunta “o que é investigar?” ainda
pode obter respostas diferentes. A figura anexa pode ser encarada como uma mera
formalização das variáveis detectadas e de relações de causa e efeito que as unam ou,
em alternativa, as setas que ligam entre si os vários factores podem ser lidas (conforme
o faço) como interacções mutáveis que apresentem uma evolução semelhante àquela
que expus, ao falar de complexidade.
No primeiro caso, a pesquisa pode terminar por aqui, constituindo-se como o
estudo de um caso particular, ou tendo como corolário a sugestão de uma série de
variáveis propícias à ocorrência de protestos violentos, onde quer que seja.
No segundo, novas perguntas se justificam.
Se a presença das mesmas variáveis - por forte que seja - não conduz
necessariamente aos mesmos resultados, sendo fulcral a forma como evolui a relação
entre elas, o que é que existe de particular no quadro de interacções de Setembro de
2010 para que os violentos protestos tenham ocorrido?
Se as variáveis que se revelam mais fulcrais neste acontecimento específico
também estão presentes noutros locais (como, por exemplo, no actual Portugal
atravessado pela crise financeira), porque é que nesses países elas não deram origem a
massivos protestos violentos, apesar dos evidentes e generalizados sentimentos de
revolta? Quais são as diferenças, na forma como essas variáveis interagem entre si nos
vários países, que nuns casos conduziram a fenómenos violentos e noutros não? Que
mudanças no quadro de interacções actualmente existentes nos países ainda marcados
por protestos pacíficos podem potenciar fortemente a erupção de violência pública?
É a essa pesquisa que me dedico neste momento.
E é este processo progressivo e dialético de descoberta e questionamento que,
para mim, constitui a resposta à questão «O que é investigar?».

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