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«Trabalhamos sobre um barril de pólvora»

«Creio que nós, antropólogos sociais, como os astrónomos


ptolomaicos medievais, passamos o tempo a tentar encaixar os
factos do mundo objectivo no quadro de um conjunto de
conceitos que foram desenvolvidos a priori, em vez de serem
resultantes da observação. (...) O problema da Astronomia
ptolomaica não foi o de estar errada, mas o de ser estéril.»
(LEACH, 1974 [1961], 49)

II. Teoria, tautologia e prática antropológica

A legitimidade de uma prática antropológica em contexto fabril terá ficado demonstrada


nas páginas anteriores. Torna-se ainda, contudo, necessário aquilatar a sua pertinência.
Claro que bastará a viabilidade (epistemológica e prática) da abordagem de um
determinado terreno por parte da Antropologia para que ela o possa estudar, mesmo que esse
terreno seja habitualmente reivindicado como seu por outras áreas do conhecimento social.
De facto, esta reivindicação seria intrinsecamente abusiva e vazia de sentido se
baseasse a sua legitimação na “tradicional” divisão de terrenos entre disciplinas, ou na
antiguidade da sua abordagem por cada uma delas.
Em primeiro lugar, a construção enquanto problema da divisão de terrenos entre as
disciplinas de conhecimento social, ou mesmo das designações disciplinares das pesquisas
efectuadas, é ela própria conjuntural e dependente das condições sociais de produção
1
científica.
Por outro lado, ter chegado primeiro a um determinado terreno e estar habituado a vê-
lo como seu não constitui, em si, qualquer argumento válido para o reclamar como reserva.
Procurar fazê-lo seria, afinal, o mesmo que pretender impedir o acesso de outras áreas de
conhecimento social às produções culturais de cariz popular, devido à existência em muitos
países de uma legião de folcloristas que, há quase dois séculos, se sucedem no seu estudo.
No entanto, a “invasão” pela antropologia dos contextos fabris seria merecedora de
justas críticas se, apesar da sua exequibilidade e legitimidade, constituísse uma experiência
que nada de significativo viesse acrescentar às abordagens de outras disciplinas, possuidoras,
para o efeito, de quadros teóricos e metodológicos específicos e bem rodados, conducentes a
resultados eficazes e exaustivos.
Por outras palavras, essa abordagem antropológica não seria pertinente, mesmo sendo
possível, se se revelasse diletante e redundante.
Esse não é, em minha opinião, de forma alguma o caso.

1
Para além das peculiaridades metodológicas da demarche sociológica da “Escola de Chicago” (implícita ou
explicitamente reclamada também pela Antropologia), os antropólogos da chamada Escola de Manchester não só
apropriaram terrenos e metodologias complementares com origem na Sociologia e na Demografia, como poucos ou
nenhuns pruridos tinham de que os designassem por “sociólogos “ (veja-se WERBNER, 1984), por a questão não lhes
surgir, simplesmente, como pertinente. No polo “oposto”, diversos sociólogos têm, nas últimas décadas, apropriado
com elevada qualidade a observação participante ou seus sucedâneos, em sociedades ou grupos sociais
habitualmente “pertencentes” à Antropologia, sem que sintam questionada a identidade disciplinar da sua demarche ou
essa apropriação de terrenos.

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Teoria, tautologia e prática antropológica

Para sustentar esta afirmação, não apelarei aqui para o recorrente argumento da
multiplicidade de olhares possíveis na abordagem do social, nenhum deles capaz de o
apreender na sua totalidade, mas cada um deles contribuindo para que, do seu conjunto,
2
decorra um aprofundamento do conhecimento.
Equivaleria isto a dizer que, pela conjugação das suas especificidades metodológicas
(entretanto reapropriadas por outros) e do seu substracto teórico próprio, a Antropologia é
passível de produzir uma visão única dos objectos, com a mais-valia específica da sua
observação e análise a partir de perspectivas diferentes das aplicadas pelas restantes
disciplinas.
Esse argumento, embora correcto, nem me parece situar-se no centro da questão, nem
poderia basear, por si só, a pertinência da prática antropológica em contexto fabril - pois
apresenta, para esse efeito, três limitações imediatas. Por um lado, a validade do argumento
pressupõe, a limite, um enclausuramento no quadro das especificidades disciplinares, pouco
consentâneo com o seu objectivo final e com as potencialidades de diálogo e reapropriação de
apports de outras disciplinas, que constitui exactamente uma das potencialidades de
abordagens não clássicas deste tipo de terreno. O argumento pressuporia, por outro lado, uma
posterior síntese e confrontação entre os diferentes olhares produzidos, que nada faz prever
num quadro temporal razoável. Por fim, e sobretudo, negando embora a redundância de uma
tal demarche, este argumento não exclui o seu eventual carácter diletante.
A questão coloca-se de uma forma bem diferente, e que só numa leitura superficial se
insere na linha anterior, na argumentação com que Pierre Bouvier (1991) procura sustentar a
emergência daquilo a que chama Sócio-antropologia do trabalho.
Neste caso, serão as alterações verificadas no âmbito do trabalho, das empresas e da
sua inserção no mundo e no social a requisitar novas abordagens, que vão buscar a sua
inspiração à prática e tradição antropológicas. Explicitando, a conjugação da blocagem na
expansão económica e industrial com a introdução dos automatismos no processo produtivo
deslocará os centros de interesse e pertinência; estes, que antes se localizavam nas condições
de organização, nas atitudes colectivas e nas relações entre trabalho e contexto extra-laboral,
passam agora a situar-se nos novos sentidos emergentes, em resultado das profundas
alterações verificadas. Para os poder abordar, será necessária uma «interrogação fundamental
3
sobre as práticas mais usuais e sobre as atribuições de sentido que elas subentendem» (idem, 140), que
corresponde àquilo que se torna necessário fazer quando se aborda, conforme é clássico na
Antropologia, um objecto “exótico”. A criação desse distanciamento só será, por seu lado,
viável se o sociólogo deixar de abordar os objectos de estudo sob a forma de um

2
Esta perspectiva recorrentemente reproduzida é, em si própria, correcta. Deverei contudo acrescentar que, quando a
concebo, incluo também, entre esses “olhares” passíveis de contribuir para o aprofundamento do conhecimento,
aqueles a que não é reconhecida – ou sequer a buscam – cientificidade. Concomitantemente, sou incapaz de restringir
a validade do conhecimento social ao reconhecimento do carácter científico (por critérios positivistas, ou por outros) da
demarche que o produz. Por essa razão, é-me pouco pertinente a polémica acerca da cientificidade das disciplinas
académicas de análise social; tal não contradiz, contudo, que atribua a maior importância à legitimidade lógica e
epistemológica da sua prática, particularmente no que concerne a análise dos fenómenos a partir das suas próprias
características e dinâmicas, e não enquanto objectos de projecção de quadros teóricos pré-definidos.
3
No original, «(...) interrogation fondamentale sur les pratiques les plus usuelles et sur les allocations de sens qu’elles sous-
entendent.».

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«Trabalhamos sobre um barril de pólvora»

questionamento sectorial, temático e parcial, a partir de uma grande variável, passando a


aplicar uma «aproximação com multiplicidade de variáveis visando, ao nível teórico, o facto social total
e, ao nível metodológico, instrumentos específicos» (idem, ibidem).
Por outras palavras, o sociólogo deverá agir, perante a temática do trabalho, como um
antropólogo - construindo embora a partir de si próprio a distância relativamente ao objecto que
o “exotismo” forneceria à partida.
Esta argumentação parece-me correcta e pertinente, apresentando aliás alguns dos
pontos salientados por Bouvier paralelos significativos com questões que me foram impostas
pelo confronto com o terreno, e que expus no capítulo anterior.
No entanto, perante ela, a dúvida que de imediato me assalta é “Porquê só agora?”.
Ou, reposicionando a questão, em que medida é que os reparos e preocupações expressos
por este autor derivam de situações novas, e não tinham já razão de ser na fase de ascenso
das sociedades industriais? Em que medida a deslocação dos centros de interesse e
pertinência a que a sua proposta pretende dar resposta deriva fundamentalmente das
alterações no trabalho e no mundo, ou antes radica na percepção dos limites das abordagens
sociológicas “clássicas”? O que é que realmente se alterou de forma determinante; a realidade
a observar ou o olhar do sociólogo?
As respostas a estas dúvidas não alteram a minha ausência de objecções
fundamentais à leitura feita por Bouvier, ou o agrado suscitado pela sua demarche. Não
obstante, estou convicto de que a pertinência do “assalto” antropológico às fábricas (ou a
outros terrenos que lhe têm sido menos habituais) se coloca sobretudo num outro âmbito,
centrado essencialmente na reduzida legitimidade epistemológica das abordagens
“tradicionais” e na criação de condições para a sua superação.
Efectivamente, a desconstrução do empiricismo trouxe consigo a instituição, nalgumas
disciplinas do conhecimento social, do dogma que pretende opor-se ao da ‘neutralidade dos
dados’: o do chamado ‘papel condutor da teoria’ sobre a pesquisa. Pese embora a grande
diversidade interna da Sociologia, teremos que reconhecer que, na prática e particularmente
em Portugal, este princípio se mantém hegemónico no ensino e socialização dos sociólogos
(ALMEIDA & PINTO, 1986), tendo incontornavelmente que se confrontar com ele os olhares críticos
que os mesmos lançam sobre a sua área de saber (SANTOS, 1989). À imagem do(s) discurso(s)
dos antropólogos acerca do etnocentrismo, poderemos mesmo falar do princípio do ‘papel
condutor da teoria’ como de um elemento fundamental da cultura profissional dos sociólogos -
mesmo que não universal, e sendo questionado e reformulado por muitos.
Mas, mais importante para a questão em discussão, será o facto de a esmagadora
maioria das abordagens do trabalho industrial se regerem por esse princípio,
independentemente das diferenças intradisciplinares a esse respeito e da disciplina em que se
4
insere o investigador.

4
Entre as relativas excepções que conheço conta-se o sociólogo Denis Duclos - que por sua vez refere (1991) como
observou o centramento da análise, por um psicólogo social, em conceitos como ‘sofrimento’ e ‘prazer no trabalho’,
depois destes serem induzidos no discurso das pessoas entrevistadas, que não os manipulavam ou referiam antes
dessa indução. Conforme adiante discutirei, a ausência de institucionalização do ‘papel condutor da teoria’ numa
disciplina (como, por exemplo, na Antropologia) tão pouco impede que investigações o sigam, na prática.

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Teoria, tautologia e prática antropológica

Ora o princípio do ‘papel condutor da teoria’ introduz na pesquisa evidentes obstáculos


epistemológicos.
Procurando evitar a contaminação dos dados pelas noções de ‘senso comum’ do
investigador, pelas teorias não-académicas e não-explícitas que ele integrou no seu processo
de socialização, esse princípio substitui-as, na forma como se olha e questiona o terreno, por
teorias académicas, explícitas e explicitadas; mas, pela posição e cronologia que estas
assumem no processo de investigação, apresentam todas as condições para se
transformarem, elas próprias, em teorias apriorísticas. Ou seja, uma aplicação efectiva do
institucionalizado ‘papel condutor da teoria’ corresponderia, em rigor, a substituir uns
pressupostos a priori por outros, academicamente mais aceites e postos em destaque pelo
5
investigador.
Um segundo obstáculo epistemológico radica no facto de, sendo assumido que a
“objectividade” se demonstra impossível na sua acepção positivista, a mera explicitação do
quadro teórico e do modelo interpretativo impostos ao objecto passar a constituir a base de
legitimação de algo semelhante a uma “objectividade possível”. Por outras palavras, é a limite
mantido como fantasmagórica referência o arquétipo que foi negado – pois esta “nova”
objectividade surge, inconfortavelmente, como uma versão mitigada daquela que foi declarada
6
inviável.
Necessariamente, a investigação ressente-se do postulado e da prática que temos
vindo a discutir. Ressente-se, correspondendo à observação de Feyerabend de que «as
descrições observacionais, os resultados experimentais, as declarações “factuais”, ou contêm
considerações teóricas ou as afirmam pelo modo como as usam.» (FEYERABEND, 1993 [1988],37); mas
ressente-se, também, de uma forma mais grave e profunda do que a mera contaminação dos
dados pela teoria – que corresponde, apenas, a um dos níveis de leitura da frase citada.
De facto, a aceitação e prática do ‘papel condutor da teoria’ equivale a olhar para o
terreno seleccionando a priori as instâncias (e relações entre elas) consideradas pertinentes e
negligenciando todas as outras. Equivale, afinal, a olhar para o terreno indo "à procura de" - e,

5
Essa substituição não é apenas tomada como desejável, mas também como necessária à exequibilidade e
reconhecimento da cientificidade de uma investigação. De facto, à luz do princípio do papel condutor da teoria, só se
pode falar da existência de um ‘objecto’ quando, ao terreno e às questões que lhe sejam aprioristicamente colocadas, é
adicionada a definição do quadro teórico que irá ser aplicado.
6
Desenvolvendo a questão que se segue em nota de rodapé por forma a evitar desvios passíveis de fazer perder o fio
condutor da argumentação que pretendo transmitir, creio valer a pena salientar algumas estranhas particularidades da
construção desta alternativa epistemológica à falência do empiricismo, eventualmente merecedoras de estudos mais
aprofundados.
Assim, por um lado, uma mudança concebida e apresentada como tão radical e como atingindo a legitimação dos
dados e da própria demarche científica joga-se, essencialmente, em torno das teorias apriorísticas reconhecidas como
admissíveis (ou, a partir duma posição “academicocêntrica”, reconhecidas tout court como teorias) e mantém
irresolvido o problema de partida. Ou seja, desenrola-se apenas no âmbito daquilo a que Imre Lakatos chamou
‘cinturão protector’ das teorias – veja-se LAKATOS & MUSGRAVE, 1974.
Por outro lado, as alternativas são implicitamente apresentadas como um sistema fechado, com base numa assunção
quase maniqueísta do binómio empiria/teoria, construído segundo o modelo das taxonomias mutuamente exclusivas
que é típico da vertente da tradição intelectual ocidental - e, no mundo, quase apenas dela - não consideradora das
propostas hegelianas.
Apesar disso, a resultante necessidade de imposição, aos dados observáveis, de um quadro explicativo que lhes é
autónomo e extrínseco mas lhes assegura, à partida, coerência interpretativa e explicativa (ou seja, a necessidade de
imposição da teoria pré-definida), suscita irresistivelmente a um antropólogo paralelos e isomorfismos com o papel
heurístico da bruxaria (enquanto princípio que assegura um segundo – e superior - nível explicativo às relações causais
e à aleatoriedade, observáveis e reconhecidas, atribuindo-lhes coerência e integrando-as em termos lógicos), tal como
é interpretado e apresentado por Evans-Pritchard (1978 [1937]).

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«Trabalhamos sobre um barril de pólvora»

consequentemente, correndo sérios riscos de encontrar o que se procura, por pouco pertinente
que seja para a compreensão do fenómeno em estudo, ou por muito árduo que seja o trabalho
necessário para «encaixar os factos do mundo objectivo» no «conjunto de conceitos que foram
desenvolvidos a priori».
A crítica de Leach ao estrutural-funcionalismo antropológico que apresentei em
epígrafe de capítulo (e de que foram repegadas estas expressões) aplica-se, assim, às
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demarches que mantenham e reproduzam o dogma que temos vindo a discutir, mesmo que
originalmente tenha sido apontada a pesquisas que o praticaram no contexto de uma disciplina
que nunca o formalizou explicitamente. Repegando a analogia de Leach com a astronomia
ptolomaica, poderíamos dizer que, também no caso das pesquisas subordinadas ao ‘papel
condutor da teoria’, o problema essencial não será o de estarem erradas (e em muitos casos,
certamente, não estarão), mas o de constituírem demarches potencialmente tautológicas,
redundantes e, por consequência, ilegítimas.
Alargando este olhar às questões metodológicas, dever-se-á salientar que,
particularmente sensíveis à tendência tautológica e redundante acima referida, são sobretudo
as metodologias de investigação “duras”, de tratamento quantitativo e extensivo – aquelas que
são típicas, embora não sejam de forma alguma únicas, na Sociologia. Neste contexto e a esse
8
respeito, o conceito e eventual prática da ‘serendipidade’ não constitui, obviamente, mais do
que um paliativo ocasional para um obstáculo epistemológico que radica na própria concepção
(academicamente aceite e reproduzida de forma hegemónica) que a disciplina tem da relação
entre o investigador e aquilo que investiga.

Uma alternativa epistemológica e metodológica

Perante este quadro, uma abordagem antropológica do contexto industrial só seria


redundante se ela própria se submetesse a esta lógica de redundância e tautologia – limitando-
se, por isso, a juntar novos olhares redundantes e tautológicos aos já existentes, deles
diferentes apenas e exactamente por possuírem diferentes pontos de partida.
Esta questão - que extravasa, afinal, a da pertinência de um tipo específico de terreno
antropológico para atingir as disciplinas académicas de conhecimento social na sua
legitimidade - parece-me, contudo, ser um nó górdio com uma solução que não passa pelo fio
da espada.
Efectivamente, não descortino qualquer razão válida para que fiquemos agrilhoados à
opção por um dos termos exclusivos do binómio “ilusões empiricistas/indução de tautologias
pela teoria”.

7
Não me refiro, obviamente, apenas à Sociologia, nem me refiro a esta e à prática sociológica como um todo
indiferenciado, mas às partes (hegemónicas) de disciplinas que reproduzem e aplicam o ‘papel condutor da teoria’
como princípio orientador.
8
Basicamente, o conceito prevê e aconselha a re-elaboração e alteração dos quadros teóricos e/ou das hipóteses
básicas, durante a realização da pesquisa (ou seja, uma reformulação do objecto e um relançamento da mesma),
quando os dados empíricos se revelam contraditórios ou desadequados relativamente ao ponto de partida.

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Teoria, tautologia e prática antropológica

Não sendo certamente aqui necessária uma reposição da já histórica crítica ao


empiricismo, dever-se-á salientar que a construção do ‘papel condutor da teoria’ e deste
binómio antagónico radicam numa separação artificial e artificiosa de supostos “momentos” da
percepção e conceptualização da realidade – “momentos” esses que constituem, de facto,
elementos coexistentes e dialécticos de um mesmo processo. Concretizando, radicam na
«distinção entre um contexto de descoberta e um contexto de justificação, entre termos observacionais e
termos teóricos», cuja abolição Feyerabend sustenta e sugere, ao demonstrar que «nenhuma
destas distinções desempenha qualquer papel na prática científica» (FEYERABEND, 1993 [1988],194).
Não sendo estes “contextos” e “termos” fases separadas, distintas e subsequentes do
processo de investigação, mas elementos que nele coexistem de forma dialéctica, é como tal
que deverão ser assumidos e vividos, até às últimas consequências. Ou seja, deverá ser
praticado um tipo de investigação que procure explorar essa interacção permanente e
corresponder a ela, recusando tanto a noção de transparência neutra do objecto, quanto outros
pressupostos apriorísticos, reconhecidos ou não como teorias académicas.
Concretizando, proponho que a indução de tautologias e da negligência de
instâncias relevantes do terreno observado só pode, no campo do conhecimento social,
ser evitada ou limitada por uma postura de pesquisa que, negando simultaneamente o
"papel condutor da teoria" e as ilusões empiricistas, mantenha uma permanente relação
dialéctica entre, por um lado, a descoberta e clarificação do objecto (o que é pertinente) e,
por outro, a emergência e opção por técnicas, processos heurísticos e enquadramentos
teóricos (de que forma é pertinente apreender e analisar aquilo que se revela pertinente no
objecto).
A preocupação que preside a esta proposta é, afinal, semelhante à que levou Edmund
Leach a afirmar que «os factos etnográficos serão muito mais fáceis de entender se deles nos
aproximarmos livres de todas as suposições a priori» (LEACH, 1974 [1961], 50) - mesmo se o corolário
que cada um de nós retira desta tese, de que partilho, apresenta características diversas.
Realmente, a solução que proponho não passa pela substituição da comparação pela
generalização (embora a sugestão me agrade), mas antes por um primado não empiricista do
objecto sobre o observador e as teorias que este reapropria para o aperceber de forma
pertinente. Por outras palavras, a solução que proponho passa por um processo de
progressiva e interactiva clarificação do objecto e selecção e construção de ferramentas
teóricas e metodológicas, que pressupõe a audácia e liberdade intelectual do investigador e,
simultaneamente, a sua modéstia perante a realidade exterior que observa.
Esta proposta pressupõe também, conforme terá já ficado claro, o recurso (ou, pelo
menos, a sua possibilidade) a uma diversidade de referentes teóricos e metodológicos (seja
sob a forma como foram concebidos, seja reapropriados de forma pertinente), em função das
suas potencialidades heurísticas e operativas relativamente ao objecto concreto que se
pretende estudar.

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«Trabalhamos sobre um barril de pólvora»

Pressupõe, ainda, que seja a observação do objecto a requisitar a pertinência desses


referentes e que seja a clarificação do objecto, resultante da aplicação destes à observação e à
análise, a cartografar-lhes as limitações.
Pressupõe por fim, obviamente, o conhecimento das propostas teóricas e
metodológicas existentes e a abertura de espírito suficiente para recorrer a elas, se pertinentes
(pelo menos nalgumas das suas partes e sugestões), independentemente da antipatia que nos
possam merecer no seu todo, ou nas formas como foram antes aplicadas.
O recurso a uma metodologia pluralista e a uma multiplicidade teórica, que defendo
num tipo de investigação como o que acabei de propor, não se baseia nos argumentos de que
«Algumas das propriedades formais mais importantes de uma teoria são descobertas por contraste, e não
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por análise.» (FEYERABEND, 1993 [1988],36), ou de que «Tanto a relevância como o carácter de refutação
dos factos decisivos só podem ser estabelecidos com a ajuda de outras teorias que, embora factualmente
adequadas, não concordam com o ponto de vista a demonstrar.» (idem, 46), embora ambas as
afirmações recolham a minha concordância.
Baseia-se, antes, nas exigências intrínsecas da própria proposta e do seu carácter não
tautológico, por um lado, e, por outro, na pragmática e trivial observação de que, se nenhum
quadro teórico disponível, fornecido pela Antropologia ou por outras áreas do conhecimento
social e humano, permite aperceber e compreender o social na sua totalidade (e, por vezes, de
forma pertinente); se em quase todos eles é fácil detectar incoerências e/ou premissas
incorrectas ou duvidosas; nem por isso deixam de ter potencialidades heurísticas ou
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inspiradoras na clarificação pertinente de facetas do terreno estudado, ou são de tal forma
inconciliáveis que inviabilizem processos de síntese entre partes que os constituam.
Por outras palavras, se hoje não existem, aparentemente, condições para a construção
de grandes teorias gerais e globais, nada impede o recurso pertinente à vasta e diversificada
panóplia teórica e metodológica das chamadas ciências sociais para a construção de
processos de síntese analítica e teórica delimitada, suscitados pelas especificidades do objecto
– mas com eventual valor de matéria-prima para futuras sínteses mais gerais.
Restará, ainda, clarificar (se não o estiver já para o leitor) que a prática que proponho
não corresponde, de forma alguma, à justaposição de diferentes operacionalizações de
quadros teóricos – que implicitamente decorreria da assunção de que cada um deles pretendeu
apreender uma faceta do “real social”, permitindo percepcioná-la e analisá-la da melhor forma
possível e, no conjunto das diferentes abordagens, compreender ou explicar a totalidade social
com que se é confrontado(a).
Uma perspectiva desse tipo seria a negação dos pressupostos holistas de que parto e
a sua concretização pouco poderia avançar, nas suas virtualidades e limitações, relativamente
à demarche de Gregory Bateson em Naven (BATESON, 1958).

9
O corolário desta afirmação é que «Um cientista que queira maximizar o conteúdo empírico dos pontos de vista que sustenta e
pretenda compreendê-los tão claramente quanto lhe seja possível, deverá portanto introduzir outros pontos de vista, quer dizer,
deverá adoptar uma metodologia pluralista.»
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Note-se que mesmo a leitura de autores da área da neurologia, como António Damásio (1995) ou Oliver Sacks
(1985), teve por vezes uma capacidade inspiradora indirecta - enquanto ponto de partida para a associação de
raciocínios - na clarificação dos dados desta pesquisa, embora os temas por eles abordados e as teorias transmitidas
não tivessem qualquer aplicação directa ou indirecta.

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Teoria, tautologia e prática antropológica

Não que a comparação tivesse alguma coisa de deslustroso, para o meu trabalho ou
eventualmente para o de qualquer um dos meus colegas. Naven é uma obra brilhante, bela e
estimulante, anacrónica por uma abertura e avanço epistemológicos que justificam uma
notoriedade e um destaque na história da Antropologia bastante superiores àqueles de que já
dispõe. Não obstante, a sua construção apresenta duas características merecedoras de reparo
e contraditórias com a proposta que apresento, sendo que pelo menos a segunda delas coloca
limitações tanto às potencialidades da inovação estabelecida pelo autor, quanto aos resultados
por si obtidos.
Em primeiro lugar, Bateson, ao pressupor à partida a aplicabilidade global dos quadros
teóricos a que recorre, mantém em aberto a potencialidade de indução de tautologias por parte
da teoria – mesmo se, por um lado, a aplicação desses quadros teóricos foi requisitada
pertinentemente pelas características do objecto e, por outro, a sua operacionalização é por
vezes mais interessante e exigente do que aquela que haviam realizado os seus criadores
11
iniciais.
Em segundo lugar, a metodologia utilizada acaba, afinal, por dividir o objecto em
“gavetas” analíticas estanques e apenas apresentadas em sequência, sem nunca chegarem a
interagir entre si, numa busca de síntese totalizante – e perdendo, por esse facto,
potencialidades heurísticas.
Dessa forma, se Naven assumiu certamente um papel inspirador de particular
importância na progressiva construção da proposta que apresento, os pontos de partida, os
pressupostos e as práticas são, em cada um dos casos, significativamente diversos.
Trata-se agora de, sob o domínio de princípios anti-tautológicos, construir a acção de
observação e análise e a selecção e manipulação de eventuais inputs teóricos como um
processo permanentemente dialéctico, que procura apreender uma realidade exterior que é ela
própria apenas compreensível no conjunto do quadro de interacções que lhe dão existência,
continuidade e mutabilidade.
Por fim, será altura de repegar uma questão que inicialmente relacionei com a
pertinência de abordagens não tradicionais (como é o caso) dos contextos fabris: a de um
eventual carácter diletante das alternativas.
Criativa, em frequente mutação e apelando a um grau não negligenciável de
oportunismo teórico, uma demarche como a que sugiro nada tem, não obstante (pelos seus
princípios epistemológicos, pelo permanente confronto com a empiria e pelas exigências de
formação e legitimação teórica que pressupõe), de experiência ou prática diletante.
Já poderá ser justo, contudo, apontá-la como um processo com um desenvolvimento
tendencialmente anárquico - uma característica que não consigo encarar como um perigo, nem
como um factor que deva ser assustador para quem opte por praticá-la, em alternativa a
formas de pesquisa mais ortodoxas, reguladas e pré-ordenadas (e, consequentemente,
seguras).

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A conjugação destes dois factores poderá contribuir significativamente para o facto de não serem sensíveis, na obra,
induções de tautologias por parte dos quadros teóricos, com a eventual excepção de alguns aspectos dispersos
relacionados com a operacionalização do conceito de “ethos”.

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«Trabalhamos sobre um barril de pólvora»

Pelo contrário, confrontando as consequências destas últimas - ao nível epistemológico


e da relevância da investigação - com essa característica tendencialmente anárquica, não
resisto, agora sim, a recorrer ao nome de Feyerabend para, apropriando-me das suas palavras,
reforçar aos olhos do leitor uma legitimidade e necessidade de abordagem que, penso-o,
estará já suficientemente afirmada nas páginas anteriores:
«A ciência é um empreendimento essencialmente anárquico: o anarquismo teórico é mais
humano e mais susceptível de encorajar o progresso do que as alternativas respeitadoras da lei e da
ordem» (FEYERABEND, 1993 [1988], 24).

Feito este longo desvio, que constitui afinal, em minha opinião, uma deslocação ao
centro do problema, poderemos repegar de forma diferente (e dar resposta) à questão da
pertinência da pesquisa antropológica em contexto fabril.
É evidente que a prática mais habitual da Antropologia não corresponde, pelo menos
de forma assumida, ao modelo de investigação que proponho. É igualmente evidente que os
sociólogos (e a Sociologia, enquanto disciplina) não estão impedidos de o praticar, podendo
mesmo alguns deles aproximar-se das posições que sustento, ou desenvolver pesquisas com
uma dinâmica semelhante a esta.
Contudo, aceitando-se como correcta e útil a minha proposta de que um a alternativa
viável à indução de tautologias (por teorias apriorísticas ou pelo seu inquestionamento
empiricista) é um tipo de pesquisa em que a descoberta e clarificação do objecto mantenha
uma permanente relação dialéctica com a emergência e opção por técnicas, processos
heurísticos e enquadramentos teóricos, não será polémico afirmar que a Antropologia é, de
entre os saberes sociais academicamente reconhecidos, aquele em que este tipo de
processo é mais exequível.
Isto é verdade por duas razões diversas.
A menos importante, mas nem por isso negligenciável, é o grau de liberdade teórica
que actualmente existe no seu contexto académico (pelo menos em Portugal e em vários
espaços lusófonos), com a consequente liberdade de práticas de investigação, mas também
com a coexistência, contacto, conhecimento mútuo e ensino ecléctico de uma multiplicidade de
tendências teóricas. Ou seja, a inexistência de um paradigma dominante e hegemónico, a
confusão e anarquia que aparenta quando olhada a partir do exterior, mas que é internamente
encarada como normal, facilita e potencia o desenvolvimento pela Antropologia do tipo de
processo que proponho.
A razão mais importante para a particular adequação da Antropologia a esse tipo de
processo de superação da tautologia é, contudo, o seu maior "pecado" quando encarada por
olhos positivistas. De facto, uma permanente relação dialéctica entre objecto e quadros
teóricos pressupõe uma elevada flexibilidade do processo de investigação, uma particular
sensibilidade e capacidade de decisão por parte do investigador, e um alargado espaço de
manobra teórico e metodológico para que este as possa aproveitar e exercer. Dessa forma, o
centramento da aproximação ao terreno na observação participante, por um lado, e, por outro,

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Teoria, tautologia e prática antropológica

o peso que na pesquisa e produção antropológica assume a relação subjectiva entre


observador e objecto (o “pecado” a que acima me referi) constituem exactamente a maior
vantagem da Antropologia para a prossecução de uma praxis de investigação que corresponda
às exigências que apontei.
Consequentemente, aceitando-se (repito-o) a necessidade do modelo de pesquisa que
proponho, e revelando-se a Antropologia a área de conhecimento social particularmente apta a
concretizá-la, a pertinência da abordagem por esta disciplina de contextos fabris (ou em rigor,
de quaisquer outros contextos sociais) não se coloca propriamente ao nível das contribuições
específicas ou das vantagens comparativas que possibilite, mas da necessidade
epistemológica que permite suprir.
Uma necessidade epistemológica que se mantém pertinente, mesmo que se prefira
encarar as disciplinas académicas de conhecimento social como artes do que como ciências,
ou ainda como produtos híbridos das duas. Efectivamente, em qualquer dos casos se deverá
sempre colocar o objectivo último de conhecer e compreender o que é observado, na
relevância que tenha, e não apenas de projectar sobre ele as idiossincrasias do observador e
as teorias produzidas pelo seu grupo social.
Neste quadro e nestas condições, que a antropologia aborde o espaço industrial
não constitui um sucedâneo de outras abordagens até agora mais correntes, mas antes,
sem renegar o que de positivo estas já produziram e estabelecendo um diálogo com
elas, uma sua superação.

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