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Sortant «de la bouteille» :

raisons et dynamiques des émeutes au Mozambique

A 5 de Fevereiro de 2008, Maputo acordou com as principais vias de acesso à


“cidade de cimento”1 bloqueados por barricadas de pneus em chamas e apedrejamento
das viaturas que as tentassem atravessar. Através de mensagens nos telefones celulares,
reencaminhadas e discutidas entre vizinhos nos vários bairros pobres, tinha sido
proposta nos dias anteriores uma “greve aos chapas” (carrinhas privadas que asseguram
o transporte colectivo), cujo preço sofreria nesse dia um forte aumento.
As barricadas foram-se alargando a ruas distantes dos itinerários dos chapas,
incluindo em bairros centrais, com o propósito declarado de “paralisar a cidade”.
Pontualmente, foram também apedrejados automóveis estacionados e montras de lojas.
Quando as forças policiais atacavam uma barricada (utilizando quer balas de borracha,
quer kalashnikovs), os manifestantes dispersavam; mas, mal elas eram chamadas para
acorrer a outro local, eram de novo espalhados pneus e contentores de lixo.
À tarde, os automóveis que se tinham vindo a acumular nas entradas da cidade
passaram a ser escoltados em colunas pela polícia, que disparava aleatoriamente para as
bermas da estrada, onde à sua passagem se escondiam homens, mulheres e crianças.
Entretanto, o porta-voz da Frelimo, o partido que conduziu a luta de libertação nacional
e governa o país desde a independência, há 35 anos, declarou que os desacatos eram
resultado da manipulação dos «pacíficos moçambicanos» por parte de uma «mão
invisível» externa, intimando-os a regressarem às suas casas. Os hospitais
contabilizavam 6 mortos por baleamento e mais de 100 feridos.
Finalmente, de madrugada, o governo anunciou a manutenção do anterior preço
dos transportes, compensada por subsídios ao gasóleo. À excepção de pontuais acções
policiais, os confrontos terminaram – embora, nos dias seguintes e noutras cidades, se
pareçam ter transmutado sob a forma de linchamentos de ladrões acusados de conluio
com polícias (Granjo, 2009).
Quase de imediato, nasceu algures no “caniço” e foi rapidamente adoptada pela
população uma frase que ficou como marco do que se passara: «o povo saiu da garrafa».

1
Na capital de Moçambique, Maputo, é habitual dividir a cidade entre o «cimento» (os bairros de prédios
e vivendas) e o «caniço», correspondente aos bairros pobres de auto-construção.
P. Granjo - Sortant «de la bouteille»: raisons et dynamiques des émeutes au Mozambique. Alternatives Sud, 17 (4): 179-185

A frase é todo um manifesto sócio-político que, como pude confirmar, pouco


tinha de críptico para quem a reproduzia nos bairros pobres. Remete para a crença de
que, quando um marido tem um comportamento caseiro, submisso e considerado
impróprio de um homem, isso não é “natural” ou opção sua, mas resultado de um feitiço
que a esposa encomendou e o “meteu na garrafa”, tornando-o amorfamente submetido a
quem não deve (a mulher), que assim o domina de forma abusiva e ilícita. Só ao “sair da
garrafa” por decisão própria – após reconhecer a sua situação e através de um contra-
feitiço – voltará a ser um homem digno e completo (Granjo, no prelo). Assim, aquela
frase afirmava que “o povo” estava amorfa, indigna e ilicitamente submetido a quem
abusava da sua posição (os governantes), mas tinha quebrado esse “feitiço” através da
“greve”, recuperando com isso a dignidade que lhe era devida.
Esta utilização simbólica do feitiço para falar da política poderá ser curiosa, mas
não é surpreendente. De forma bem menos metafórica, a feitiçaria serve um pouco por
todo o país de linguagem para expressar a obrigação de os governantes protegerem os
governados (West, 2009), criticar os abusos de poder e de apropriação de riqueza (Israel,
2009; West, 2008), ou punir a avidez económica e o distanciamento social (Serra, 1996;
Serra, 2002; Granjo, no prelo 2). Não admira por isso que, conhecendo as pessoas esse
referente cultural, uma frase com esta fórmula simultaneamente heróica, jocosa e
camuflada tenha obtido tanto sucesso e adesão.
Contudo, para compreendermos plenamente o que ela nos diz acerca das razões
e sentidos da “greve”, é necessário termos em conta a visão do “contrato social” que é
dominante entre a população periurbana.
Essa visão ideal dos direitos e deveres de governantes e governados assenta em
dois pilares na aparência contraditórios, mas que se contrabalançam mutuamente. Por
um lado, considera-se que um poder instituído e legitimado só muito excepcionalmente
poderá ser atacado e questionado enquanto tal, pois fazê-lo seria atacar a própria
estabilidade social. Em contrapartida, o poder instituído tem a responsabilidade e
obrigação de assegurar aos seus governados um nível básico de subsistência, dignidade
e bem-estar. Isto não quer dizer que o governante não possa retirar vantagens do seu
estatuto. É aliás esperado que ele «coma mais»; mas é ilícito que ele «coma sozinho»,
não redistribuindo parte da riqueza – e sobretudo que coma muito à custa da fome dos
restantes.
Estamos, então, perante um modelo que possui uma vertente de submissão, mas
justificada por uma outra vertente de exigência de desempenho e atitude, cujo carácter
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paternalista (e relevância para a eclosão da “greve” de 2008) é sublinhado pelo facto de,
ao discuti-la, os meus interlocutores recorrerem sistematicamente a um lugar-comum
local: «o problema é que o governo não é mais pai; agora, é padrasto».
Mas esta visão popular do “contrato social” implica também que uma decisão
governativa não é automaticamente legítima por ser tomada de acordo com as
competências legais de um poder legítimo. Se ela fere a tal obrigação básica que os
governantes têm para com os governados, torna-se ilegítima e atacável, embora isso não
ponha em causa a legitimidade de poder que a tomou.
Contudo, as expressões de descontentamento são condicionadas pelo facto de a
acelerada liberalização do país, em curso desde o fim da Guerra Civil (1992), não ter
trazido apenas desemprego, economia de serviços, enormes fluxos financeiros
internacionais e o enriquecimento das elites políticas e seus associados (Sumich, 2008;
West, 2008). Trouxe também um estreito controlo partidário sobre as organizações da
chamada “sociedade civil” (a começar pelos sindicatos e com poucas excepções), a par
do esvaziamento das anteriores estruturas locais de controlo socio-político que, se
frequentemente reprimiam, também canalizavam problemas e queixas populares para
escalões superiores. Em virtude disto, reproduz-se nos bairros pobres um outro lugar-
comum, céptico quanto à possibilidade de fazer chegar as preocupações aos governantes:
«na democracia, você diz o que quer; mas ninguém liga ao que você diz».
Assim, a população pobre do Grande Maputo não recorreu ao protesto violento
por o preferir a formas de intervenção mais pacíficas; adoptou-o por sentir que não
existiam ao seu dispor nem instituições nem outras formas de protesto eficazes. E, a par
dos aumentos de preços, o que mais indignava os manifestantes era que tais decisões
fossem tomadas sem consideração pelas suas dificuldades e pelo impacto que elas
teriam sobre a sua precária subsistência. Não protestaram apenas contra decisões
económicas, mas também contra uma forma de exercício do poder que não cumpre
aquilo que consideram ser as suas obrigações básicas.
Apesar disso, e reproduzindo a referida diferenciação entre a legitimidade das
decisões e do poder que as toma, cerca de 80% dessa mesma população votou, em 2009,
na Frelimo e no seu candidato presidencial.
Não obstante, a 1 e 2 de Setembro de 2010 voltaram a viver-se acontecimentos
muito semelhantes aos de 2008. A “faísca” foi, desta vez, o anúncio de aumentos
substanciais e quase simultâneos da água, electricidade, pão e arroz.
P. Granjo - Sortant «de la bouteille»: raisons et dynamiques des émeutes au Mozambique. Alternatives Sud, 17 (4): 179-185

Houve, no entanto, diferenças. As tentativas de desfilar e montar barricadas na


“cidade de cimento” foram paradas a tiro pelas forças policiais, que tinham como ordem
principal impedir que os confrontos alastrassem para lá do “caniço”. Registaram-se
alguns saques de bens alimentares. Desta vez, as primeiras reacções governamentais não
classificaram os manifestantes como pessoas manipuladas, mas como «aventureiros,
malfeitores e bandidos». Não tendo o governo cedido de imediato (o que só viria a
acontecer dia 7), os confrontos duraram dois dias, findos os quais os manifestantes e os
seus vizinhos, sem reservas de alimentos ou dinheiro, acorreram aos mercados
populares durante o fim-de-semana. O número de mortos ascendia entretanto a 13 e os
feridos a várias centenas. A continuação dos protestos foi objecto de uma “guerra de
mensagens” a favor e contra, até que as empresas de telecomunicações bloquearam os
seus serviços de SMS por ordem estatal. Houve tentativas de réplicas noutras cidades do
país, rapidamente dominadas através de prisões “preventivas” e intervenções policiais.
Uma outra particularidade é que se tornaram mais explícitas as características
que em 2008 só eram detectáveis através de análises aprofundadas.
O seu carácter auto-organizado e sem centros de liderança tornou-se evidente
por, não existindo agora pontos específicos a bloquear (como, antes, os eixos de
transportes), os potenciais manifestantes terem ficado horas na expectativa, só se tendo
multiplicado as barricadas depois de serem conhecidos os primeiros e tardios casos.
Verificou-se também que a população dos vários bairros assumiu claramente os
manifestantes como representantes da comunidade, quer ao indignar-se com os epítetos
governamentais que lhes foram dirigidos, quer ao relatar o que se passara. Neste caso,
mesmo quem não estava presente ou discorda de algumas acções se me referiu a quem
as fez dizendo «nós», e não «eles». Na verdade, embora os mais activos fossem jovens
sem emprego “formal” e mulheres com responsabilidades domésticas, o protesto não foi
de um grupo social específico, mas das pessoas que partilham a situação largamente
maioritária no Grande Maputo: a daqueles que vivem em famílias numerosas, em que
poucos estão empregados e os restantes lançam mão de quaisquer actividades pontuais,
para contribuírem com algum dinheiro para uma casa onde se vai comendo e custeando
os bens essenciais, mas sempre no fio da navalha e na incerteza sobre se isso irá ser
possível na semana que vem, ou amanhã.
Por fim, no decurso das conversas sobre os protestos, há três pontos que tomam
ascendente sobre os aumentos de preços: a revolta por se matar quem se manifesta; o
desagrado por se ver cada vez mais ostentação de luxo, sem que nada venha aliviar as
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dificuldades do “povo”; a perplexidade por os governantes «não perceberem» que,


continuando a aumentar os preços, as pessoas não conseguirão subsistir.
Neste quadro, o potencial de protesto violento não pode ser neutralizado apenas
com preços subsidiados e investimento económico em áreas produtivas, por necessárias
que tais medidas sejam. Resolver as razões económicas que lhe subjazem implicaria
tornar o modelo de distribuição da riqueza menos chocantemente assimétrico e
concentrar políticas redistributivas nos bens e serviços de primeira necessidade.
Implicaria também a instauração e estímulo de uma cultura política de consulta e
participação, capaz de convencer a população de que, afinal, não é irrelevante para os
governantes.
Temo, contudo, que tais medidas se choquem com os interesses imediatos das
elites político-económicas e com as suas concepções e hábitos de exercício do poder. O
que, na ausência de mecanismos de negociação e canalização do descontentamento, faz
prever futuras reedições dos confrontos sangrentos de 2008 e 2010.

Paulo Granjo
Instituto de Ciências Sociais – Universidade de Lisboa
P. Granjo - Sortant «de la bouteille»: raisons et dynamiques des émeutes au Mozambique. Alternatives Sud, 17 (4): 179-185

Bibliografia:

Granjo, P. (2008), “Gémeos, albinos e prisioneiros desaparecidos: uma teoria moçambicana do poder
político”, Travessias, 9: 9-32.
Granjo, P. (2009), “O linchamento como reivindicação e afirmação do poder em Moçambique”, Revista
Angolana de Sociologia, 3: 31-44.
Granjo, P. (no prelo), “Homens na Garrafa e Mulheres Poderosas: limites à masculinidade e feminilidade
em Moçambique”, in Família, “Tradição” e Lei em Moçambique. Lisboa, ICS.
Granjo, P. (no prelo 2), “Julgamentos de feitiçatia e hegemonias locais”, in A Dinâmica do Pluralismo
Jurídico em Moçambique, Maputo, CESAB.
Israel, P. (2009), “The War of Lions: Witch-Hunts, Occult Idioms and Post-Socialism in Northern
Mozambique”, Journal of Southern African Studies, 35 (1): 155-174.
Serra, C. (1996), “Mudança Social e Crenças Anómicas em Moçambique”,
http://www.aps.pt/cms/docs_prv/docs/DPR492ebade1d547_1.pdf
Serra, C. (2002), Cólera e Catarse. Maputo, Imprensa Universitária.
Sumich, J. (2008), “Construir uma nação: ideologias de modernidade da elite moçambicana”, Análise
Social, 187: 319-345.
West, H. (2008), “«Governem-se vocês mesmos!» Democracia e carnificina no Norte de Moçambique”,
Análise Social, 187: 347-368.
West, H. (2009), Kupilikula: O poder e o invisível em Mueda, Moçambique. Lisboa, ICS.

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