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2 | novembro 2010   

NO TRABALHO, A LÓGICA DO LUCRO MATA

Produção primeiro, segurança depois


O
s dois acidentes laborais vez de pararem para efectuar a repara-
mais mediáticos dos últi- O que têm em comum a refinaria de Sines, a Hidroeléctrica de Cahora Bassa, a plataforma ção.
mos anos – o derrame do Deepwater Horizon da BP ou a mina chilena de San José? Todas elas conhecem a realidade da A razão para isso era o facto de uma pa-
poço petrolífero da British ragem técnica custar 700 dólares por mi-
Petroleum (BP) no golfo
subalternização da segurança dos trabalhadores, e das populações, às lógicas da produção e do nuto e de a perfuração estar atrasada várias
do México e os célebres lucro. E lançam dramáticos gritos de alerta para a urgência de impor novas práticas. semanas, o que vinha custando à BP alguns
33 mineiros resgatados em San José, no milhões de dólares. Mais uma vez, então, a
Chile – vieram dar visibilidade, junto do ● Por PAULO GRANJO * segurança foi grosseiramente subalterni-
grande público, a um problema que os zada em relação aos objectivos de produção
estudos especializados tendem a ignorar: a e ao lucro.
frequente subalternização da segurança O mesmo aconteceu, ainda, naquela que
aos objectivos de produção e ao lucro, na é hoje a mais célebre mina do Chile. Muito
gestão corrente de indústrias perigosas. foi escrito acerca das deficientes condições
Em curioso contraste com o quase silên- de segurança em San José, começando pelo
cio a nível internacional, o assunto tem facto de a mina só ter uma saída. A lista é
sido abordado em estudos sobre Portugal longa e abrange muitas «poupanças» por
e Moçambique, embora nada indique que parte da empresa proprietária que consti-
tal se devesse a algum particularismo local tuem, por si só, formas de subordinação da
ou cultural. Estes novos acidentes (cujo segurança ao lucro. No entanto, o resgate
impacto mundial tornou inevitável a divul- dos mineiros para o exterior trouxe consigo
gação das suas causas e circunstâncias) uma outra informação, que a empresa tenta
vêm demonstrar que, a existir um particu- compreensivelmente negar: três horas antes
larismo, ele não se situa na prática das da derrocada que os haveria de isolar du-
empresas, mas no olhar que sobre elas é rante 69 dias, os mineiros soterrados ti-
lançado por quem as estuda. nham alertado a direcção da mina para
Os acidentes vieram também colocar na barulhos estranhos e muito fortes que esta-
ordem do dia interrogações inquietantes. vam a ouvir, tendo pedido para abandona-
Podemos continuar a considerar um caso rem o local e saírem para a superfície. Não
pontual cada novo desastre em que a segu- foram, no entanto, autorizados a abandonar
rança tenha sido subordinada a critérios a produção.
economicistas ou estamos perante um pa- Não sabemos que papel terá jogado esta
drão sistemático? Que podemos fazer para subalternização da segurança nos dois mor-
contrariar essa tendência empresarial, tais acidentes mineiros, na China e no Equa-
com isso protegendo a vida dos trabalha- dor, noticiados depois deste. Tal como não
dores, o meio circundante e as demais sabemos o seu papel, ou só podemos de-
pessoas que podem ser afectadas por cada tectar os seus indícios, nos registos que nos
desastre? foram deixados acerca de outros grandes
Um estudo presencial de longa duração, acidentes passados. Provavelmente, porque
desenvolvido na refinaria de Sines durante não lhe foi dada atenção e importância, ou
a segunda metade da década de 1990, foi encarada como um particularismo per-
viu-se confrontado com uma prática que, verso, entre inúmeros factores organizacio-
sendo inesperada numa empresa de tal nais e técnicos.
dimensão, era tudo menos surpreendente Não obstante, estes dois casos da BP e de
para os operários que aí trabalhavam. San José, que foram objecto de um maior
Tratava-se do facto de, naquela fábrica escrutínio público, vêm demonstrar que a
obrigada a laborar em continuidade, ocor- NUNO BARRACAS | Las economías se estiman en dinero... (2010) subordinação da segurança à produção e
rerem com frequência pressões hierárqui- ao lucro não é pontual nem um desvio per-
cas para que os trabalhadores executassem fety first, production second» (a segu- foi agravada pela tardia e desastrada infor- face a afluências hídricas que, para com- verso de uma qualquer empresa, país, cul-
operações e adoptassem procedimentos rança primeiro, a produção depois)2. mação pública acerca dos níveis, riscos e plexificar a situação, têm visto a sua mag- tura ou sector de actividade, nem uma
mais expeditos, mas menos seguros. Tais Além de figurar em cartazes alusivos, a qualidade destas novas emissões que não nitude e calendário ser influenciados por maldição linguística «lusófona». Aquilo que
pressões não aconteciam em qualquer al- frase é um livemotiv da formação profis- passam pelos filtros, que a empresa afirma incontornáveis alterações climáticas. eles nos mostram é a existência de um pa-
tura, mas quando era necessário manter sional dos trabalhadores, a par do ensino serem negligenciáveis e situarem-se abaixo Afinal, as mortes, as colheitas perdidas, drão sistemático, não de negligência, mas
ou aumentar os volumes de produção em de pormenorizadas medidas de segurança dos valores internacionalmente exigidos, os custos de salvamento, evacuação e de consciente subordinação da segurança a
situações técnicas adversas, quando se ten- e da publicitação de que não devem acei- embora acima daqueles que ela própria se ajuda alimentar, o reassentamento das po- critérios economicistas, em indústrias e
tava evitar uma paragem de emergência da tar trabalhar de forma perigosa. Esses impõe. Justifica-se, contudo, a sensação de pulações ribeirinhas em locais que não actividades produtivas perigosas.
maquinaria que seria sensato realizar ou princípios foram até plasmados num car- que o primado da segurança e da cautela, conhecem, nem são aptos para a agricul- Trata-se de um padrão que só será domi-
se tentava acelerar a sua reposição em fun- tão de uso obrigatório, dizendo que «qual- aplicado internamente, poderá ter sido tura, foram o preço a pagar por mais uns nável quando (conforme sugere o caso
cionamento, recomeçando a produzir mais quer pessoa tem o dever de interromper o subordinado a considerações económicas milhares de Kilowatts/hora de electrici- positivo que referi) as más experiências
cedo. Em suma, ocorriam quando estava trabalho, se acredita que o que está a fazer e a uma lógica de «risco aceitável», dade. E tudo poderia ser evitado, diz-nos anteriores e a capacidade de delas tirar ila-
em causa melhorar os índices de produ- não é seguro» e permitindo parar o traba- quando se tratou de equacionar o impacto José Lopes, com uma diminuição dos vo- ções conduzam uma empresa a uma polí-
ção, seja acelerando-a ou mantendo-a. lho de um colega, caso se considere que externo de uma reparação onerosa. lumes de espera e restrições ao regime de tica activa de combate a essa tendência, ou
Os resultados de tais pressões, que as ele o está a executar de forma insegura. A Estes casos com impacto sobre o am- descargas. quando (como demonstram todos os ou-
próprias chefias se sentiam compelidas a isto se junta a garantia de que o trabalha- biente e a população circundante são, tros) as empresas sejam a isso obrigadas,
fazer, não eram automáticos. Quando dor não será penalizado caso, após a pa- compreensivelmente, os mais detectáveis Poços petrolíferos através de regulamentação e controlo exte-
consideravam a situação demasiado peri- ragem, se concluir que o procedimento pelos cidadãos. No entanto, muitas vezes rior.
gosa, os trabalhadores podiam confrontar afinal não era perigoso. não é fácil descortinar o primado do lucro e minas mediáticas No entanto, a decisão e a tomada de me-
as chefias, resistir às pressões de forma No entanto, este caso não se limita a ser por detrás das calamidades que vão ocor- didas que combatam esta prática de subor-

E
passiva ou lançar mão de truques profis- um exemplo de uma boa prática. A grande rendo – e que podem até parecer natu- sta sensação de desmesura entre um dinação da segurança ao lucro só se tornará
sionais que as inviabilizavam. Outras ve- preocupação e insistência no princípio de rais. desastre público e o acréscimo de possível após se darem dois outros passos.
zes, as repercussões negativas (salariais e que a segurança se sobrepõe à produção O engenheiro moçambicano José Lopes lucros privados que teria sido obtido Há, antes de mais, que reconhecer que o
de carreira) de que suspeitavam poder demonstra que é bem real (e esperado) o tem vindo a analisar e a partilhar a sua caso ele não tivesse ocorrido (e que muitas problema existe e é fulcral para a segurança
ser vítimas caso se recusassem levavam- perigo de que o contrário aconteça. Com- informação e conclusões acerca de uma vezes é na mesma obtido) deverá ter cho- dos trabalhadores envolvidos e para a segu-
nos a fazer o que era pedido. Outras vezes bate-se aqui, no fim de contas, aquilo que dessas calamidades aparentemente natu- cado os norte-americanos atingidos pela rança de todos nós. Há, depois, que o tor-
ainda, nem chegavam a ser necessárias se espera que possa facilmente acontecer; rais, as cheias no vale do Zambeze3. Se as maré negra que resultou do derrame da nar visível e explícito, como problema e
pressões, pois os trabalhadores em causa mas também, provavelmente, algo que a célebres cheias de 2000 seriam virtual- plataforma Deepwater Horizon, explorada como situação inaceitável, para as empre-
assumiam que era isso o que era espe- experiência da empresa demonstra ter mente indomáveis em qualquer rio mo- pela BP. Talvez por isso se recorra tanto às sas e para a sociedade.
rado de si1. acontecido com frequência e ter condu- çambicano, os seus dados indicam que já palavras «negligência» e «inconsciência»
Apesar dessa diversidade e do discurso zido a resultados trágicos e onerosos. De as de 2007 e de 2008 se teriam ficado a quando ocorrem casos afins, embora na * Antropólogo, Instituto de Ciências
politicamente correcto acerca da segu- facto, o maior accionista desta Mozal, a dever tanto às chuvas fortes quanto ao mo- verdade não seja disso que se trata. Sociais da Universidade de Lisboa
rança, a fábrica vivia afinal, quanto a esse multinacional de registo britânico BHP delo de exploração da Hidroeléctrica de A explosão deu-se, recordemo-lo, de- (ICS – UL).
aspecto, numa situação de geometria vari- Billiton, resulta da fusão da empresa mi- Cahora Bassa. vido a uma falha do mecanismo de segu-
ável: quando a produção decorria de neira australiana BHP e de parte da sul- A relação entre os dois factores é tão rança (blowout preventer – BOP), que na 1 Acerca deste fenómeno e dos restantes fac-
acordo com o desejado, a segurança era -africana Gencor, ambas com um largo simples quanto aterradora: mantendo esmagadora maioria das plataformas se- tores sociais de potenciação ou minimização
uma prioridade; mas passava para segundo historial de acidentes e insegurança. É por quotas de água elevadas até aos meses melhantes existe em duplicado, como do perigo laboral, veja-se Paulo Granjo,
plano quando os níveis de produção eram isso plausível que esta ênfase na segu- anteriores à época das chuvas (a fim de forma de segurança redundante – o que «Trabalhamos Sobre um Barril de Pól-
vora»: homens e perigo na refinaria de
ameaçados, subordinando-se a eles. rança, que chegou a Moçambique vinda da maximizar a produção eléctrica), a única seria particularmente necessário neste Sines. Imprensa de Ciências Sociais, Lisboa,
Alertados para este fenómeno, vários casa-mãe, tenha tanto de preocupações forma que a barragem tinha de gerir a poço, devido à elevada concentração de 2004.
investigadores vieram entretanto a detec- humanitárias e de racionalidade econó- subida das águas a montante, quando cho- gases. Existiam dúvidas quanto à segu- 2 Paulo Granjo, «A Mina Desceu à Cidade – me-
tá-lo noutras empresas portuguesas. mica como de ruptura com uma prática veu, foi realizar descargas em larga escala rança desse mecanismo e duas peritagens mória histórica e a mais recente indústria
passada e bem conhecida, que lhes trouxe e muito concentradas, que fizeram trans- (encomendadas pela empresa) salienta- moçambicana», Etnográfica, vol. VII, n.º 2,
dissabores, prejuízos e má imagem. bordar rapidamente o rio a jusante e afec- ram os riscos existentes, sem que tivessem 2003, pp. 403-428 e «Dragões, Régulos e
Entre o «safety first» Fábricas – espíritos e racionalidade tecnoló-
Tal não impede que essa mesma em- taram 300 000 pessoas. Ou seja, tudo in- sido tomadas medidas. Até aqui, podería-
e cheias evitáveis presa se veja actualmente envolta numa dica que essas duas cheias se deveram, em mos estar ainda no terreno da negligência. gica na indústria moçambicana», Análise
Social, n.º 187, 2008, pp. 223-249. A língua
polémica em torno de um by-pass aos grande medida, a uma gestão hidrológica Contudo, poucas semanas antes da explo-

E
de trabalho na empresa em questão é o in-
m contraste, a fundição de alumínio filtros de tratamento de fumos de uma sua da albufeira de Cahora Bassa tão centrada são, falhou um dos comandos do BOP glês.
Mozal – situada perto da capital subfábrica, que opera nas mesmas instala- em maximizar a produção hidroeléctrica (que possui um eléctrico e outro hidráu- 3 Veja-se http://zapper.xitizap.com/xiti-
moçambicana, Maputo – coloca ções da fundição, para corrigir um defeito que acabaria por diminuir substancial- lico) e a direcção da empresa decidiu zap%2037 e também, no mesmo sítio, #31,
uma particular ênfase no princípio de «sa- estrutural. Trata-se de uma polémica que mente a margem de encaixe da barragem continuar a perfuração mesmo assim, em #32, #33, #34 e #43.

p02-03_diplo49 2 11/1/10 5:54:48 PM

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