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p02e03_diplo62_jornal segunda-feira, 5 de dezembro de 2011 13:01 Page 3

DEZEMBRO 2011 | 3

EM NOME DA SEGURANÇA

Medo, suicídio e eutanásia da cidadania


H
á cerca de dois meses, o marcada por um particular centramento
Diário de Notícias divul- Num quadro de recessão, de precariedade, de crescente desemprego e de discursos oficiais na questão da segurança. É um bom
gou partes de um relató- exemplo disso a velocidade com que,
rio elaborado por diri- prevendo tumultos e insegurança pública, o medo dos cidadãos não se limita a ser um sentimento mal Ulrich Beck cunhou essa expressão,
gentes da Polícia de Se- capaz de refrear a sua participação em protestos e de incentivar condições laborais antes impen- se espalhou a crença de que nos países
gurança Pública (PSP) e capitalistas desenvolvidos vivemos na
dos serviços secretos. Em virtude das po-
sáveis. É também um potencial instrumento para a destruição dos mais básicos direitos de cida- «sociedade do risco» 3. Ao aceitar e re-
líticas de austeridade e suas consequên- dania, em nome da segurança. O nosso medo pode tornar-se o nosso pior inimigo. petir essa ideia, contudo, não o fazemos
cias, os relatores previam a ocorrência no sentido que lhe atribuiu esse autor (o
dos «tumultos mais graves desde o PREC» ● Por PAULO GRANJO * de vivermos em sociedades que produ-
e apontavam várias medidas a tomar 1. zem ininterruptamente riscos tecnológi-
A par do reforço do treino e dos meios aos olhos dos órgãos policiais e de es- policiais retomaram violentamente o es- dose de ingenuidade da nossa parte para cos incontroláveis e de consequências
para contra-insurreição, tais medidas in- pionagem pelo facto de, precisamente, paço, foram feitas algumas detenções, e que partíssemos do princípio de que es- imprevisíveis), mas julgamos viver nas
cluíam a identificação e controlo dos gru- exercerem os seus direitos de cidadania. esse pouco relevante acontecimento pare- tamos, simplesmente, perante uma ca- sociedades mais perigosas de sempre.
pos contestatários, seus instigadores e ca- Contudo, baseando-se esses abusos no cia encerrado. deia de acasos e uma mera confluência Isto, mesmo se é difícil apontar, noutros
becilhas – um processo que o próprio pressuposto da violência futura, a reali- No entanto, depressa se verificou que de idiossincrasias corporativas. locais do globo ou momentos da histó-
documento indicava já estar em curso. dade e o carácter organizado desta têm os manifestantes mais incitadores e en- No seu conjunto, estes três aconteci- ria, sociedades onde os seres humanos
Talvez o único pressuposto do relató- de ser enfatizados e aceites pelos cida- tusiastas da ocupação da escadaria mentos e a forma como foram divulga- tenham estado mais salvaguardados da
rio que podia merecer o acordo de es- dãos, para que os abusos sobre os seus voltavam depois a ser vistos, fotografa- dos sugerem antes que – trate-se ou não violência aleatória, da fome, da doença,
pecialistas que não partilhem a mentali- próprios direitos (escutas, controlos de dos e filmados a efectuar detenções ou de uma estratégia deliberada, e tenham de acidentes trágicos e de outros perigos
dade policial dos seus autores fosse a movimentos, violações de privacidade, a conferenciar com os colegas farda- ou não os seus actores plena consciên- mortais ou muito graves.
consciência, por estes demonstrada, de escrutínio injustificado dos seus actos e dos. Nas imediações do local, grupos cia disso – vivemos um momento de po- Talvez não seja, por isso, surpreen-
que a actual situação social é de tal opiniões) possam ser tolerados. de outros jovens um pouco serôdios tenciais abusos sobre os nossos direitos dente que a utilização do medo para res-
forma violenta para os cidadãos que Dessa forma, cria-se um perigoso mas cuidadosamente vestidos «à revo- de cidadania mais elementares, cometi- tringir direitos – embora bem mais antiga
pode vir a suscitar reacções violentas. caldo de cultura política e social que, lucionário» eram também vistos e fil- dos e legitimados em nome da nossa – tenha atingido níveis extremos de efi-
No entanto, esse potencial de violên- tudo indica, já estaremos a viver. Com o mados a prender manifestantes, por ve- protecção contra a insegurança pública, cácia na sequência dos acontecimentos
cia não se situaria, aos olhos dos coman- intuito de controlar eventuais protestos zes com rara violência e recurso a que por sua vez nos é repetidamente de 11 de Setembro de 2001. Nesse caso,
dos policiais e de espionagem interna, violentos, atemorizam-se os cidadãos equipamento proibido. apresentada como uma ameaça que de- perante um ataque terrorista traumático
na indignação, revolta e desespero de ci- e perante a repetida enfatização de que
dadãos «comuns» subitamente precari- ele era apenas a ponta de um icebergue
zados, empobrecidos e espoliados dos de ameaça permanente e generalizada,
seus meios de subsistência, talvez des- uma sociedade retoricamente muito
cobrindo-se sem tecto nem comida para ciosa dos seus direitos individuais não se
dar aos filhos. Para essas chefias, o po- limitou a tolerar que eles fossem pontual-
tencial de violência residia, antes, em mente desrespeitados, nos casos em que
grupos que protagonizassem o protesto estivessem em causa assustadores suspei-
contra a situação criada. Por outras pa- tos de terrorismo. Aprovou e apoiou con-
lavras, não procuravam a ameaça de in- victamente, através do Patriot Act, a ins-
segurança na própria situação social; tauração de um estado de excepção em
aquilo que procuravam era «inimigos in- que qualquer suspeita por parte das au-
ternos». toridades policiais permite, arbitrária
Um centramento deste tipo não cons- mas legalmente, retirar a um cidadão os
tituía propriamente uma novidade, pelo mais importantes direitos, garantias e for-
menos no caso dos serviços secretos. Afi- mas de protecção de que este goza.
nal, por diversas vezes tinham sido de- Aquilo que esperam de nós é algo de
nunciadas escutas e tentativas de infiltra- semelhante, embora por certo mais mo-
ção em sindicatos e mesmo partidos derado, em virtude da enorme discrepân-
políticos com representação parlamen- cia entre os perigos que alegadamente
tar, que assim eram tratados como ini- ameaçam quem vive de um lado e do ou-
migos do Estado. Não obstante, a sua tro do Atlântico. Mas, afinal, se tolerámos
reafirmação num relatório que pretendia que cidadãos europeus fossem impedi-
estabelecer doutrina e era partilhado por dos de entrar no país devido ao crime de
comandos policiais suscitava justificadas trazerem consigo panfletos pouco agra-
preocupações. dáveis para a Organização do Tratado do
Confirmava, por um lado, que os co- Atlântico Norte (OTAN) ou para as forças
mandos dos serviços policiais e de espio- policiais, porque razão não deveremos, a
nagem interna vêem a sua missão de bem da nossa segurança nas ruas, acei-
uma forma que não corresponde, em tar que as pessoas suspeitas de poderem
sentido estrito, à defesa dos cidadãos e querer ser violentas sejam ilegalmente es-
da segurança pública que lhes está le- quadrinhadas, ou que o mesmo nos
galmente atribuída. Em vez disso, pare- aconteça a nós, caso o nosso desagrado
cem assumir que lhes cabe defender as também nos torne suspeitos? Não se jus-
políticas governativas e os governos con- tificará esse preço, para que possamos
tra quem se lhes oponha, com isso assu- ser protegidos do terrível caos dos «tu-
mindo como objecto legítimo da sua in- multos mais graves desde o PREC»?
tervenção as expressões públicas de Aquilo que se espera de nós, afinal, é
contestação e oposição a tais políticas, que esqueçamos a frase de Steve Biko
mesmo que elas se desenrolem dentro que lapidarmente concentrou páginas e
dos quadros de direitos, liberdades e ga- páginas de Antonio Gramsci: «A mais
rantias consignados legalmente. poderosa arma nas mãos do opressor
A justificação para essa peculiar ati- é a mente do oprimido».
tude residiria, neste caso, na violência TITO MOURAZ | Sem título (2010), Série “Leituras” | Cortesia MODULO Centro Difusor de Arte – Lisboa Porque, uma vez dado esse passo, uma
prevista pelas hierarquias dos organis- vez tolerado o desrespeito pelos direitos
mos de segurança. Mas, não existindo com a iminência do caos, que só será Em suma, esse acontecimento veio vemos temer. Nessa linha de ideias, de- de cidadania dos outros, por eles pare-
experiência recente de protesto violento evitável através de abusos sobre os seus mostrar que a preocupação com tu- veríamos, não apenas submeter-nos a cerem (às «autoridades competentes»)
por parte dos sindicatos e partidos polí- direitos, por parte dos especialistas em multos que é partilhada pelas direcções tais abusos, mas concordar com eles. suspeitos de poderem colocar em risco
ticos da oposição, o «inimigo interno» segurança. Sub-repticiamente, somos policiais e de espionagem não se limita a ordem pública, tudo se simplifica. Rá-
(que postulam existir) terá agora de ser colocados perante a troca de parte da a encontrar vazão na detecção e controlo O medo, nosso inimigo pida e facilmente acharemos normal que,
procurado, à falta de melhor, entre os ci- nossa liberdade por um possível reforço de «inimigos internos» suspeitos de quando nos assustam, percamos as nos-

E
dadãos que participam em voláteis e da nossa segurança – uma troca que, poderem vir a ser violentos. Tudo indica m si mesma, a manipulação do sas liberdades individuais. Os nossos di-
inorgânicas plataformas como aquelas segundo Benjamim Franklin, só é ade- que, na ausência de tumultos espontâ- medo como instrumento político reitos serão coisas para tempos normais;
que organizaram as manifestações de quada a quem não mereça nem uma neos, as próprias forças policiais ou nada tem de original. É, aliás, e os tempos de excepção serão de cada
12 de Março e de 15 de Outubro de coisa nem outra. elementos seus terão achado por bem quase um truísmo afirmar que o medo vez que nos convençam disso.
2011, ou entre os pouco relevantes gru- providenciá-los, dando razão às suas (seja pela nossa integridade física, seja O nosso medo de tumultos e insegu-
pos ou indivíduos que expressem o seu Fazer acontecer expectativas e ao difuso temor popular. de perdermos algo que consideremos rança, solicitamente instigado por quem
apoio a protestos violentos, mesmo que o que se teme A par disso, o mesmo jornal que ha- importante) é um dos elementos centrais de direito, tornar-se-á o instrumento do
em conversas de café. via dado a conhecer o preocupado rela- de qualquer relação de poder. suicídio da nossa cidadania.

E
ste processo parece ter sofrido um tório que comecei por comentar esco- Tão-pouco será original a manipula- Por isso, a intolerância para com abu-
«Espiões à rasca» desenvolvimento lógico, mas algo lheu para manchete, no dia seguinte a ção do medo da insegurança, para con- sos sobre os direitos de cidadania é,
descarado, durante a greve geral uma greve geral de grande impacto, o vencer os cidadãos a prescindirem dos hoje, mais necessária do que nunca.

E
sta curiosa situação de «espiões à do passado dia 24 de Novembro. peculiar título «Polícia teme mais confli- seus direitos (primeiro, em relação aos
* Antropólogo, Instituto de Ciências
rasca», por não terem propria- Conforme os meios de comunicação tos após incidentes na greve» 2. supostos agentes do perigo, depois, em Sociais da Universidade de Lisboa.
mente organizações a quem es- social profusamente se fizeram eco, houve É verdade que, nos acontecimentos e relação a si próprios), em benefício da
piar, sugere que as acções de «identifi- ao fim do dia um incidente frente à As- processos complexos, não podemos des- sua protecção. 1 www.dn.pt/inicio/portugal/interior.aspx?
cação e controlo» já assumidamente em sembleia da República, quando partici- cartar à partida a possibilidade de coin- É, pelo menos, já suficientemente re- content_id=2029985.
curso (de forma ilegal, visto não existir pantes na manifestação convocada pela cidências, ou sequer o papel que a inge- levante no século XVIII para justificar a 2 antropocoiso.blogspot.com/2011/11/
base possível para que estejam a ser le- plataforma que organizara a iniciativa de nuidade (jornalística ou outra) possa tal frase de Benjamim Franklin, tantas explendores-e-miserias-do-day-after.html.
gitimadas por mandados judiciais) ver- 15 de Outubro tentaram ocupar as esca- eventualmente desempenhar. Mas seria vezes citada. Mas torna-se, talvez, ainda 3 Ulrich Beck, Risk Society: Towards a New
sam cidadãos que se tornam suspeitos darias exteriores do parlamento. As forças necessária, por sua vez, uma razoável mais relevante na nossa época, que surge Modernity, Sage, Londres, 1992.

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