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TERAPIA COGNITIVA COMPORTAMENTAL E A INTERAÇÃO FAMILIAR


COMO UM FATOR DE RISCO PARA O USO DE SUBSTÂNCIAS PSICOATIVAS:
ESTUDO DE CASO

Simone Muniz de Kaisekamp1


Michele Thaís Fávero2
Erica Conceição Barbosa Barbosa3
Miguel Furtado Menezes4

RESUMO: Atualmente os casos de dependência química apresentam números alarmantes e tendem a


crescer rapidamente, como demonstram um grande número de trabalhos publicados nesse sentido. O
aumento de casos de pessoas que tornam-se dependentes de substâncias psicoativas, devido a
influência das interações sociais, principalmente familiar estando intrinsecamente interligado com esse
aumento. Diante disso, fora utilizado a Terapia Cognitivo Comportamental (TCC) aplicada à
dependência química para o tratamento. A partir de tais observações é que este estudo de caso tem por
objetivo analisar a eficácia da Terapia Cognitiva Comportamental (TCC) no tratamento da
Dependência química (DQ) com uma adolescente internada em uma Comunidade Terapêutica (CT).
Esse estudo foi de suma importância, devido aos poucos estudos de caso relacionados a dependência
química e o uso da Terapia Cognitiva Comportamental na fase da adolescência. Para tanto, foram
utilizados alguns instrumentos de avaliação, como a escala URICA e as escalas de Beck (BAI,
BDI,BSI, BHS). Inicialmente as técnicas aplicadas foram a Psicoeducação, a Entrevista Motivacional,
Técnicas Comportamentais, Reestruturação Cognitivo Prevenção. Os resultados foram satisfatórios,
pois mesmo se tratando de adolescente, que apresentava constante ambivalência para a decisão de
mudanças de comportamento do uso de drogas e comportamentos impulsivos, houveram avanços
significativos a respeito do quadro de saúde e o uso de drogas. Desta forma, o estudo de caso ora
apresentado, proporcionou subsídios para possíveis estudos mais aprofundados, dentro de uma
perspectiva de avanços e conquistas quanto a evolução do tratamento assistido.

Palavras-chave: Terapia Cognitivo Comportamental. Interação familiar. Dependência química.


Adolescência.

1
Pós-Graduada em Terapia Cognitiva Comportamental Tem experiência no setor educacional com enfase em
psicologia com crianças e adolescentes, atendimento em Comunidades Terapêutica - atendimento individual e
terapia em grupo.
2
Doutora em Ciências Fisiológicas pela UNESP/UFSCar; graduada em Fisioterapia- Docente dos cursos da área
de saúde da Faculdade Panamericana de Ji-Paraná – UNIJIPA. E-mail: michelemenezesmarina@gmail.com
3
Pós-Graduanda em Psico-Oncologia Fase Final na Faculdade Unyleya -Águas Claras, Distrito Federal.
4
Pós-doutor em Ciências Fisiológicas pela UNESP/UFSCar; graduado em Educação Física- Docente dos cursos
da área de saúde da Faculdade Panamericana de Ji-Paraná – UNIJIPA. E-mail:
miguelfurtadomenezes@hotmail.com.
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1 INTRODUÇÃO
O uso de substâncias lícitas e ilícitas vem se tornando um problema grave para a
saúde pública na sociedade em geral, uma vez que este fenômeno vem preocupando a
sociedade há algum tempo e tem atingido todas as classes sociais, escolaridade e faixa etária.
Para Paz e Colossi (2013), são muitas as consequências causadas na vida do sujeito e de sua
família, além de prejuízos físicos, neuropsicológicos e psiquiátricos.
Muitos são os fatores que podem motivar as pessoas a fazerem uso de drogas, como:
a busca de prazer, efeito ansiolítico, devido a sensação de relaxamento, tensão, medos, aliviar
as dores físicas, outro elemento importante que contribui, é a interação social, como
demonstrado no trabalho de BARDIN, FIGLIE E LARANJEIRA, 2004.
Em um estudo realizado por Tavares; Béria e Lima (2004), identificaram que o uso de
álcool e drogas está associado a interação familiar, onde os filhos muitas vezes são criados
somente com um dos pais, quando eles têm baixa percepção de apoio dos pais ou até mesmo
quando a família já faz uso de algumas substâncias lícita e ilícita, podendo estimular e/ou
potencializar o uso recreativo e a dependência dessas substâncias.
Atualmente, diversas abordagens na psicologia que buscam compreender os
fenômenos e causas envolvidas com a DQ, dentre essas abordagens, uma que tem apresentado
bons resultados é a Terapia Cognitiva Comportamental (TCC).
Este estudo de caso tem por objetivo analisar a eficácia da Terapia Cognitiva
Comportamental (TCC) no tratamento da Dependência química (DQ) com uma adolescente
internada em uma Comunidade Terapêutica (CT).
Esse estudo fora de suma importância, devido aos poucos estudos relacionados a
dependência química e o uso da Terapia Cognitiva Comportamental na fase da adolescência.

2 MATERIAL E METODOS

Trata-se de uma pesquisa qualitativa, pois estuda a relação complexa do sujeito e o seu
ambiente de interação, segundo Guinther (2006).
Para a realização desta pesquisa foi utilizado como método de investigação o estudo
de caso, que no contexto deste trabalho se trata de um caso único. Para Yin (2015, p.17) se

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caracteriza como “uma investigação empírica que verifica um fenômeno contemporâneo (o


caso) em profundidade e em seu contexto de mundo real”.
Ressalta-se que a metodologia escolhida também se caracteriza como uma importante
ferramenta para a otimização e reflexão dos atendimentos realizados, uma vez que ao atender
para descrever um caso, o pesquisador está colocando seus argumentos a respeito da
intervenção e planejamento que deverá ser feito.
A respeito do caso investigado, foram realizadas 22 sessões de atendimento em
Terapia Cognitivo Comportamental (TCC) com uma adolescente com o diagnóstico de
transtorno por uso de substâncias psicoativas. Os atendimentos ocorreram em uma sala de
psicologia da Comunidade Terapêutica (CT) localizada no interior do Estado de Rondônia
que tem mais de 13 anos de funcionamento.
Após uma escuta avaliativa das queixas para elaboração do histórico de vida e
familiar. Utilizou-se de instrumentos como os inventários de Beck (BAI, BDI, BSI, BHS) 5∗ e
também a Escala avaliativa de motivação (URICA)6∗7∗, na sequência passou para as seguintes
técnicas e estratégias: Motivação para mudança, Psicoeducação, Terapia cognitivo
comportamental, reestruturação cognitivas e prevenção de recaída.
À paciente fora assegurada o sigilo e convidada a assinar um termo de consentimento livre e
esclarecido (TCLE), assim também como a Comunidade Terapêutica.

3 DESENVOLVIMENTO

3.1 História pregressa da paciente

O estudo de caso descrito neste trabalho se refere a uma adolescente de 15 anos, que
cursou até o 7º ano do Ensino Fundamental (incompleto), solteira, que será chamada por
Samanta, para resguardar seu nome verdadeiro. Samanta fora encaminhada pelo Juizado da
Infância e da Juventude para a Comunidade Terapêutica para o tratamento de dependência
5
O Inventário de Beck (1996), tem por objetivo avaliar a nível de ansiedade (BAI), nível de depressão (BDI),
verificar a desesperaça (BHS) e a escala de ideação suicida (BSI).
6
A Escala Urica é uma escala que foi adaptada no Brasil para avaliar o estágio motivacional em que o paciente
se encontra para o tratamento

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por uso de substâncias psicoativas. O plano de tratamento da CT é de nove meses, podendo


ser estendido para mais três meses caso a equipe técnica avaliar a necessidade. Na CT a
paciente é acompanhada por uma equipe multiprofissional, como psicólogo, psiquiatra,
enfermeiros e demais profissionais. A paciente passou por psicoterapia individual e em
grupo por quatro meses consecutivos, sendo as sessões semanais.
Os pais biológicos de Samanta também apresentam problemas com uso de
substâncias psicoativas. Sua mãe ao constatar a gravidez tentou o aborto por várias vezes,
mas Samanta nasceu aparentemente sem nenhuma sequela orgânica ou mental, como a mãe
não tinha suporte e nem queria o nascimento de Samanta aos três meses de idade ela passou
a morar com uma mulher conhecida da sua mãe. Depois de algum tempo a mãe biológica fez
um documento de guarda compartilhada.
Samanta passou a chamar de mãe a cuidadora e a considerar essa sua família. Até os
12 anos Samanta cresceu em um ambiente sem drogas. No entanto na adolescência passou a
ter contato mais próximo com a mãe biológica que continuava sendo dependente química.
Oferecendo e apresentando para Samanta as substâncias psicoativas. Iniciando assim seu uso
compulsivo por drogas.

3.2 Interação social e o uso de substâncias psicoativas na adolescência

A interação social familiar é considerada por alguns autores (Medeiros, Katruccy


Tenório et al, 2003; Marcon et al, 2015), como um fator de proteção no início do uso de
substâncias psicoativas por adolescentes. Assim sendo, a família é responsável por transmitir
valores morais e éticos. No entanto, alguns estudos vêm trazendo que a família também pode
ser considerada um fator de risco para o início do uso de drogas por adolescentes, pois
adolescentes que tenha alguém da família que faz uso ou é dependente químico tem a
possibilidade de ter seu primeiro contato com drogas lícitas e ilícitas como veremos em
alguns estudos a seguir.
Estudos estão sendo realizado para descobrir como a interação familiar pode levar
adolescentes ao uso de substâncias psicoativas. Os autores Marcon, Sene e Oliveira (2015),
realizaram uma pesquisa no CAPS AD da cidade Cuiabá MT, onde encontraram resultados

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significativos com relação a interação familiar e adolescentes que estavam em tratamento,


comprovando que 70,3% dos adolescentes tinham alguém da família que fazia uso de drogas.
Tavares e Cols (2004) encontraram em seu estudo que adolescentes de pais separados
estão propensos a se envolver com algum tipo de droga lícita e ilícita com 50% de chance se
comparado com adolescentes que os pais vivem juntos, outro dado importante de se ressaltar
nesta pesquisa fora que 95% dos sujeitos que tinham alguém da família que fazia uso de
álcool e drogas se tornaram usuários de drogas.
Figlie e cols (2004), observaram que a presença de um dependente químico na família,
aumenta a chance de 41%. Também puderam encontraram um resultado significativo quando
o pai era dependente químico de álcool chegando à 67%. Essas pesquisas apresenta uma
preocupação com relação a interação familiar de filhos de dependentes químicos.

3.3 Comunidade terapêutica

As comunidades terapêuticas (CT) existem desde 1979, e tem como objetivo ajudar
pessoas que tem problemas provenientes da dependência química, pois a mesma possui um
ambiente onde o paciente está livre das drogas e também onde o paciente passa ser o principal
protagonista de sua cura. As CTs ajudam o indivíduo a ter limites precisos e funções bem
delimitadas, regras claras e afetos controlados, através de horários e responsabilidades, assim
definem Pozas (1996) apud Sabino e Cazenave.
Monte Serrat (2002) apresenta dados estatísticos mundiais de pessoas que se
recuperam da dependência química em comunidades terapêuticas que variam entre 30% e
35%. Esses resultados ainda são muito baixos, se comparado com a demanda da procura por
esse tipo de tratamento.
Em um estudo feito por Scaduto, Barbieri e Santos (2014) em uma CT para avaliação
de possíveis mudanças ocorridas no funcionamento psicológico de pessoas usuárias de
drogas. Os resultados desse estudo demonstraram que os pacientes apresentaram melhoras
positivas quando comparado as fases pós e Pré-CT, com relação a socialização e a redução de
sofrimentos psíquicos.

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3.4 Terapia cognitiva comportamental (TCC) aplicada à dependência química

A Terapia Cognitivo Comportamental (TCC) tem apresentado bons resultados no


tratamento da Dependência Química (DQ), pois a mesma pode ser aplicada em psicoterapia
individual, psicoterapia de grupo, terapia familiar e, também em ambientes cognitivamente
orientados (unidades hospitalares, escolas terapêuticas, hospitais-dia e comunidades
terapêuticas). (KNAPP ET AL, 2004; WILLIAMS E PECHANSKY, 2006; WILLIAMS E
PECHANSKY, 2007; CIRIBELLI et al. 2008).
Segundo, Bardin, Figlie e Laranjeira (2004, p.191), a terapia cognitiva e o abuso de
substâncias psicoativas foram desenvolvidos ao longo de muitos anos. Após várias
observações e discussões com pacientes dependentes químicos formulou-se um Modelo
Cognitivo do Desenvolvimento do Abuso de Substância que teve como embasamento o
trabalho de Leise e Franz. Esse Modelo se apresenta de seguinte maneira.
O estímulo eliciador são sugestões ou gatilhos que ativam no sujeito crenças e/ou
pensamentos automáticos relacionados as drogas, levando ao desejo de usar (fissura) a
substância psicoativa. Neste momento se ativou dois tipos de crenças relacionadas a drogas,
são elas: Antecipatória e de alívio. A crença antecipatória tem a ver com previsões de
gratificações, de aumento de eficácia e de exaltação da sociabilidade seguido do uso da
substância. Conforme esse sujeito vai se tornando dependente, começa a desenvolver a crença
de alívio que envolve o uso para afastar ou diminuir estados emocionais ou físicos
desagradáveis.
Ativada a crença, iniciam-se os pensamentos automáticos facilitadores que justifica o
motivo de porque se deve usar a droga. O craving ou fissura começa a se manifestar como
sensações físicas. A crença facilitadora está relacionada às cognições distorcidas que o sujeito
faz com relação a droga, nesse instante ele começa a planejar as maneiras as estratégias e
instrumentos para conseguir a droga. Logo vem o uso continuado ou recaída. Com esse
modelo se consegue perceber o ciclo do vício, e começa a se pensar nas maneiras em como
quebrar/interromper o ciclo.
A Terapia Cognitivo Comportamental (TCC) irá trabalhar na modificação das
situações e interpretação do indivíduo em relação as situações e estímulos, ajudando-o a
questionar os pensamentos automáticos e crenças disfuncionais com relação ao seu uso de

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drogas, treinar o paciente a ser seu próprio terapeuta. Habilitá-lo a desenvolver novos estilos
de vida sem drogas. (KNAPP, 2004 p.282).
Nas pesquisas feitas com relação as técnicas mais utilizadas da terapia cognitiva
comportamental para tratamento de pessoas dependentes químicos pode se encontrar:
identificação de pensamentos automáticos (PA), avaliação e questionamento de Pensamentos
Automáticos (PA), registro diário de pensamentos automáticos disfuncionais (RPD),
identificação de crenças, avaliação e modificação de crenças, seta descendente, solução de
problemas, exame das vantagens e desvantagens, distração, agendamento e monitoração,
exposição gradual e dificuldade crescente, experimentos comportamentais, cartões de
enfrentamento, relaxamento, exercício físico, dramatização, treinamento de assertividade e
prevenção de recaída. (KNAPP, 2004; BARDIN, FIGLIE E LARANJEIRA, 2004; SILVA E
SERRA,2004; RANGÉ E MARLATT,2008).
Pode se perceber que a Terapia Cognitiva Comportamental no tratamento da
dependência química irá ajudar o sujeito em todos os âmbitos biopsicossocial.

3.5 Motivação para mudança

A palavra motivação tem o significado de “mover se”, trata se de uma tentativa de


compreender o que nos movimenta ou porque fazemos o que fazemos, ou seja, é o que faz a
pessoa se mover em direção ao seu objetivo (BORDIN, FIGLIE; LARANJEIRA (2004).
Prochasca e Diclemente (1983, apud CASTRO; PASSOS, 2005), descrevem o modelo
transteórico de motivação em estágios de mudança comportamental onde o indivíduo transita
de maneira linear para a mudança. Os autores apresentam ainda os estágios: Pré-
contemplação, contemplação, preparação, ação e manutenção. A recaída não é um estágio,
mas é vista como algo natural no processo de mudança.
No estágio de Pré-contemplação, o paciente não apresenta disposição e nem considera
a mudança, já que não acredita que seu comportamento seja problemático. Neste estágio
geralmente o paciente procura os serviços de acolhimento devido, se sentirem pressionado por
sua família, parceiro, pelo empregador ou por seu médico. Já na contemplação o paciente
reconhece que tem alguns problemas com relação ao seu uso de drogas, nesse momento o
profissional ajudará o paciente avaliar os custo e benefícios para sua mudança. No estágio de

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Preparação a pessoa apresenta comportamentos de que está pronta para mudar e


compromissada com suas mudanças, momento onde se deve fazer planos de curto e a longo
prazo. Na ação o paciente começa a colocar em prática seus projetos para alcançar uma
mudança. No estágio da manutenção o paciente que teve sucesso na sua tentativa de mudar
continuará pensando e fazendo coisas para manter esse seu comportamento. Nesse momento
pode ser que o paciente tenha uma recaída, mas isso não impede que o mesmo continue as
suas mudanças em relação ao vício. (BORDIN, FIGLIE E LARANJEIRA, 2004, p. 215-
222).
A motivação para mudança é um dos principais fatores que ajudam o paciente a se
manter firme no propósito de mudança.

3.6 Resultados e discussão

As sessões foram estruturadas de modo que todos os protocolos para um bom


atendimento dentro da TCC fossem contemplados, assim como sugere Beck (1997). A
estrutura pode ser visualizada na Tabela 1, a seguir.

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Estratégias Procedimentos e Técnicas


Diagnóstico e avaliação psicopatológica Após a realização de duas sessões,
utilizando os instrumentos de avaliação de
sintomas de Beck chegou-se ao
diagnóstico de ansiedade e depressão.
Também foi utilizado a escala URICA
para verificar o estágio de motivação para
mudança de comportamento com relação
as substâncias psicoativas.
Psicoeducação Foi realizado uma sessão para os
esclarecimentos dos efeitos causados por
uso de substâncias psicoativas na
adolescência.
Entrevista Motivacional Quatro sessões para se trabalhar a
motivação para o não uso de drogas.
Técnicas comportamentais/ativação Uma sessão para ensinar a paciente como
comportamental controlar a ansiedade e raiva.
Reestruturação cognitiva Durante sete sessões se trabalhou
identificação das crenças, pensamentos
automáticos negativos por meio de
registro de pensamentos e exame das
evidências, técnica de seta-descendente e
do RPD, diálogo socrático. Exame de
evidências de crenças, resolução de
problemas. Pensamentos disfuncionais em
relação a drogas.
Prevenção de recaídas Durante seis sessões se realizou o trabalho
de prevenção como identificação dos
fatores de risco de recaída/fatores de
enfrentamento. Cartões de enfrentamento.
Role-play. Revisão e reavaliação das
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técnicas que pareceram ser mais eficazes.


Tabela 1. Estrutura das sessões

3.7 Diagnóstico e avaliação psicopatológica

Nesta etapa, se utilizou da escala URICA, a qual tem por objetivo avaliar o estágio de
motivação para mudança do indivíduo, sendo que a paciente já havia, demonstrado em sua
fala oscilações para mudanças com relação ao comportamento de parar de usar substâncias
psicoativas. A mesma apresentou escore mais altos no estágio de pré-contemplação.
Conforme afirmam Andretta e Oliveira (2008), nesse estágio o sujeito irá demonstra não ter
consciência suficiente de que apresenta problemas com relação as drogas, embora outras
pessoas do seu convívio possam estar cientes disso.
Através da utilização dos instrumentos de avaliação dos sintomas de ansiedade (BAI),
depressão (BDI), desesperança (BHS) e ideação suicida (BSI) de Beck, pode se verificar que
a paciente apresentava ansiedade e depressão graves, para desesperança, moderado e para
ideação suicida o escore foi zero (0), demonstrando a necessidade de um trabalho direcionado
para ansiedade e depressão. Também nas entrevistas iniciais a paciente trouxe numerosos
pensamentos e crença disfuncionais, como as que seguem: “Tudo que eu pegar vou destruir”,
“eu não terei sucesso na vida” e “tudo que acontecer de errado eu sempre serei a culpada
mesmo não tendo feito nada”, “eu sou incapaz de conseguir ficar sem usar drogas quando sair
da comunidade terapêutica”, “realmente eu sou um fracasso”.
As intervenções realizadas com a paciente no início foram para ajudá-la a entender o
quanto o uso de drogas lhe causava prejuízo à saúde, pois a paciente não acreditava estar
fazendo mal a si mesma.

3.8 Psicoeducação

Segundo Farina cols (2013, p.177), educar o paciente sobre seu transtorno: é
importante para que o terapeuta forneça informações ao paciente de seu transtorno, de modo
que o paciente possa começar a atribuir alguns de seus problemas ao transtorno, através dessa
psicoeducação. ”
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Para aplicação dessa técnica, pode utilizar muitas maneiras de psicoeducar o paciente
que poderá ser através de uma explicação verbal sobre seu problema, e também com ajuda de
revistas, livros, sites, panfletos entre tantos outros. A psicoeducação aumentará a motivação
para a mudança de comportamento, pois estimula o paciente a participar ativamente na sua
recuperação, (KANPP, 2004. COLOM; VIETA, 2004).

Nesse momento se realizou a Psicoeducação através de vídeos e panfletos que


mostravam o prejuízo físico, psicológico e social que o uso de substâncias psicoativas pode
causar na vida de um ser humano. A Psicoeducação foi importante, pois Samanta acreditava
que o uso de drogas só oferecia prejuízos para as pessoas mais velhas ou para quem usava
bastante, além de achar que por não ter problemas mais aparentes, ela estaria imune a ter
sequelas.
Pôde se verificar que Samanta ainda encontrava resistência em mudar o
comportamento, alegando (sic) “meus pais biológicos são usuários e mesmo assim se
encontram vivos”, mas durante a sessão as vezes apresentava realmente vontade de parar de
usar drogas, porém acreditava ser muito difícil, pois não conseguiria dizer não se alguém lhe
oferecer, demonstrando assim dificuldade de habilidade social.

3.9 Entrevista motivacional / modelo transteórico

Como a paciente se encontrava no estágio de Pré-contemplação, fora trabalhado as


possíveis dificuldades e problemas que era causado pelo uso de substâncias psicoativas
através da “balança decisória” (ver Tabela 2). Conhecida como balança das vantagens e
desvantagens de se usar drogas. A partir dessa análise a paciente começou a conscientizar-se
das desvantagens de usar drogas. No entanto em outras sessões, em alguns momentos tentava
buscar estratégias para continuar seu uso esporadicamente. Encontrava-se em conflito interno
(quero/ não quero) uma ambivalência, o que era bom, pois seria melhor do que a negação do
problema. (BORDIN, FIGLIE E LARANJEIRA, 2004).

Vantagens de se usar drogas Desvantagens de se usar drogas


Fico mais calma A memória começa a esquecer algumas
coisas

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Não me importo com que as pessoas Brigas recorrentes com minha família
falam de mim quando uso droga
Vou a festa Começo a mentir e a roubar
Esqueço os meus problemas É humilhada e desprezada pela família e
sociedade
Fico feliz, corajosa, eleva minha As pessoas não confiam mais em mim,
autoestima perdi o respeito
Me ajuda a ser popular Ver minha mãe adotiva triste
Deixei de estudar

Não conclui o curso de balconista de


farmácia que é oferecido gratuito para
quem tem notas boas na escola
Não posso conseguir serviço, pois ninguém
dá emprego a um “drogado”
Posso ser morta a qualquer momento
Estou acabando com minha saúde
Tabela 2. Balança Decisória.

Para ajudar Samanta a pensar em mais motivos para continuar sem o uso de drogas e a
pensar em maneiras de enfrentamento de situações de risco, se utilizou do jogo terapêutico
desenvolvido por Williams e cols (2007), o “jogo da escolha”. Durante o jogo a paciente
apresentava comportamentos adequados diante das situações proposta pelo jogo.
Depois de quatro sessões trabalhando a motivação para o tratamento, iniciou-se o uso
das técnicas da Terapia Cognitiva Comportamental (TCC).

3.10 Técnicas comportamentais/ativação comportamental

A respeito dessas técnicas, foi trabalhado com a paciente Samanta o manejo da


ansiedade e raiva. Para o manejo da ansiedade se utilizou das técnicas de respiração
diafragmática e relaxamento muscular progressivo. No manejo da raiva se explicou para a
paciente que é normal essa emoção, que esse sentimento vem acompanhado das sensações
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físicas e emocionais que antecedem a expressão da raiva. Não é a situação em si que gera o
sentimento de raiva mais sim as interpretações distorcidas. (KLEINHANS, 2010. CABALLO,
1996).

3.11 Reestruturação cognitiva

Depois de algumas sessões pode se identificar a crença central e os pensamentos


disfuncionais que a paciente apresentava sobre si, o outro e sobre o mundo. Então se iniciou a
reestruturação cognitiva, com o uso das técnicas; registro de pensamentos disfuncionais
(RPD), seta-descendente, questionamento socrático, exame de evidências de crença, resolução
de problemas. (BECK,1997).

Ao se explicar para Samanta como é que funciona os pensamentos automáticos e


como os pensamentos ativavam sua crença central de ser “sem valor”, e como ela de maneira
inconsciente se comportava e se relacionava com pessoas que confirmavam que ela não tinha
valor. A crença central de não tem valor começou a ser construída quando Samanta era
criança pela sua mãe biológica ao verbalizar que a filha não deveria ter nascido, que era uma
menina que não sabia fazer nada certo, que nunca seria alguém na vida. A mãe também
culpava Samanta de tudo o que estava dando de errado em sua vida.

Diante da crença central de desvalor iniciou-se o questionamento Socrático:

T: Samanta quais foram os atos que você fez que não deram certo, pois você acredita
não saber fazer nada certo, que nunca será alguém na vida?

P: Bom, acho que ter me envolvido com drogas.

T: E você acredita que se quisesse mudar teu comportamento de usar drogas


conseguiria?

P: acho que sim, mas é bem difícil mudar.

T: Você já parou para pensar no pior que poderia acontecer com você se continuar
fazendo o uso de drogas em sua vida?

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P: Bom, acho que vou cada vez mais me destruir e confirmar para mim mesma que
nunca serei alguém na vida.

T: E se você parasse de usar droga o que de melhor poderia acontecer na sua vida?

P: Eu poderia voltar a estudar, ser uma pessoa normal, respeitada por minha mãe
adotiva, pois ela sempre quer o meu melhor, sempre faz o possível e o impossível por mim.

Para facilitar a visualização da crença central e dos pensamentos automáticos


disfuncionais (PADs) fora construído na sessão uma tabela para explicitar a Samanta quais
eram os pensamentos que ela tinha sobre si, e como ela passou a pensar quando começou a
questionar seus PADs.

Antes da identificação da crença Depois que começamos a trabalhar sua


crença
Não aguento desaforo das pessoas, não Estou aprendendo a controlar minha raiva
tenho paciência. quando as pessoas me desaforam
Eu nunca serei alguém na vida Eu posso provar para mim e para as outras
pessoas que sou capaz
Não consigo dizer não as drogas quando Eu sou capaz de ficar no CERNA e
oferecem terminar meu tratamento e aprender a
dizer não.
Sou incapaz de obedecer minha mãe Estou aprendendo a ser uma pessoa
melhor, e ouvir os conselhos da minha
mãe
Tabela 3. Antes e depois da identificação da crença central

Para a paciente ter uma melhor compreensão de sua história e de seu comportamento
de usar drogas e perceber como a mesma se deixa ser levada por sua crença central de
desvalor. Se construiu um diagrama de conceitualização cognitiva, demonstrada na Tabela 4.

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CONSTRUÇÃO DA CONCEITUALIZAÇÃO COGNITIVA


Nome da Paciente: Samanta Data: 23/06/2016
Diagnóstico: CID-10 F19 dependente de substâncias psicoativas
Dados relevantes da infância:
Os pais biológico de Samanta são dependentes químicos, sua mãe ao constatar
a gravidez tentou o aborto por várias vezes. Samanta nasceu aparentemente sem
nenhuma lesão física e cerebral. Aos três meses de idades, Samanta passou a morar
com uma desconhecida. Segundo narra a adolescente sua mãe passava até um mês
sem visitá-la. Ao completar um ano de idade, passou a guarda compartilhada da
menor para esta pessoa, tornando-se as duas responsáveis pela educação da mesma.
Crenças Centrais:
Sobre si: Eu não deveria nem ter nascido. Sou um fracasso. Sou feia e ansiosa. Sobre
os outros: As pessoas não são de confiança e podem me abandonar. Sobre as Drogas:
acredito que a vida não tem sentido sem usar drogas, pois a melhor maneira de
conseguir um bom entrosamento social e ficar relaxada e também é o melhor remédio
para minha ansiedade e timidez. Quando eu uso drogas consigo esquecer meus
problemas.
Suposições Condicionais/crenças/regras:
Se eu sou um fracasso na vida, então o melhor que eu faço é ser igual minha mãe
biológica. Se não sei me relacionar de maneira adequada com as pessoas, então o
melhor que eu faço é usar drogas para me sentir mais alegre. Se meus pais biológicos
fazem uso de drogas e não morreram ainda, então não tem problema eu usar também.

Estratégia (s) Compensatória (s)


Usar drogas.
Situação 1 Situação 2 Situação 3
Tentativas de aborto e Se relacionar com outras Relacionamento com a
abandono da mãe pessoas/fazer novas mãe adotiva
biológica amizades.

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Pensamentos automáticos Pensamentos automáticos Pensamentos automáticos


Minha mãe não me não me Eu não sei conversar Sei que ela me ama, mas
ama. Não tenho valor na direito. não consigo confiar nela,
vida dela. Preciso usar pois ela também pode me
drogas para esquecer os abandonar.
problemas
Significado do P.A Significado do P.A Significado do P.A
Sem droga eu não sou Com a droga pelo menos Antes que ela me abandone
nada. eu me sinto corajosa. também é melhor eu sair de
Sem droga a vida não tem Pelo menos com os amigos casa e morar na rua, pelo
sentido que usam drogas não menos na rua ninguém me
preciso me preocupar com perturba com relação ao
meu jeito de falar meu vício.
Emoção Emoção Emoção
Angústia, ansiedade Raiva, tristeza, Medo, raiva, ansiedade
preocupação
Comportamento Comportamento Comportamento
Usar drogas Usar drogas Continuar a usar drogas.
Tabela 4. Construção da Conceitualização Cognitiva

Nas últimas sessões a paciente já conseguia se questionar quando percebia que sua
crença de desvalor estava sendo ativada e controlar os pensamentos automáticos. Pode ser
percebido que Samanta começava a ter consciência de que depois que sair da comunidade
terapêutica ela será responsável por suas decisões e para cada decisão existirá consequências
cabendo a mesma escolher o que será melhor.

3.12 Prevenção de recaídas

A prevenção de Recaídas representa uma permanência e modificação importante de


procedimentos de autocontrole, segundo CABALLO (1996). A seguir apresentaremos as
técnicas utilizadas para a prevenção de recaída na dependência química. A utilização da
técnica para identificação dos fatores de riscos e fatores de enfrentamento, ajudou a paciente a
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pensar em como evitar algumas situações geradoras de riscos. “Os cartões de enfrentamento”
contribuirão para que a paciente mantenha o comportamento de não uso de drogas sentindo-se
encorajada quando se perceber em uma situação ameaçadora. (BORDIN, FIGLIE;
LARANJEIRA, 2004).

T: Samanta, quais são os fatores de risco que te levariam a ter uma recaída?

P: Amizades, festa nos finais de semanas com minha família, ouvir músicas que me
faz lembrar do passado.

T: Quais são as Estratégias para você enfrentar essas situações de risco?

P: Em relação aos amigos: evitar o reencontro de amigos que são usuárias de drogas e
os boqueiros. Festa no final de semana com a família: conversar com minha família para
evitarem fumar e beber em minha frente, posso também sair de perto quando alguém estiver
bebendo e fumando. Tenho que controlar meus pensamentos e comportamentos me
lembrando das consequências que terei se voltar a usar drogas. Ouvir músicas que não me
faça lembrar do meu passado, evitar ir em festas que tocam músicas que elicia a vontade de
usar drogas, posso me lembrar das técnicas aprendidas com o terapeuta.

Durante algumas sessões fora feito encenações (role-play) com a paciente, onde a
mesma se encontrava em uma situação em que alguém lhe oferecia droga. Ela deveria pensar
em estratégias para sair dessa situação. No entanto observou-se que a paciente encontrava
muita dificuldade mesmo em se tratando de uma encenação. Diante dessa constatação iniciou-
se um treino de habilidade social, apresentando a ela as diferenças entre agressivo, passivo e
assertivo, e o direito de se dizer “não” quando os seus direitos forem violados (KNAPP,
2004).

Na prevenção de recaída a paciente começou a pensar em possíveis atividades que a


mesma poderia fazer para encontrar prazeres sem a droga, tais como ir ao cinema, sorveteria,
exercícios físicos, ir à igreja, conversa com amigos que não seja usuários e ouvir músicas.
Também se fez uso da técnica de se imaginar como estaria depois de quatro meses e um ano.

T: Como você se imagina depois quatro meses?

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P: Recuperada dos vícios, transformada espiritualmente e fisicamente, mudar meus


comportamentos, aprender a perdoar a confiar nas pessoas e controlar minha raiva.

T: Como você se imagina depois de um ano sem drogas?

P: Estudando no CEEJA, trabalhando, fazendo cursinho de estética e quando terminar


o ensino médio fazer uma faculdade de biologia.

T: Como se sente, quando pensa na possibilidade de ter um futuro sem o uso de


drogas?

P: Estou me sentindo mais confiante, me ajudou a pensar em como posso ser alguém
de valor, se posso sonhar então posso realizar.

Nas revisões e reavaliação das técnicas aprendidas por Samanta pode-se observar que
a paciente possui um novo repertório que poderá ser utilizado diante das situações de risco e
fissura, porém nas últimas sessões a paciente ainda continuava apresentando uma
ambivalência quanto ao uso de drogas.

Neste caso, o ambiente familiar para onde a adolescente terá que voltar quando
concluir o tratamento, se configura como um fator de risco, devido a facilidade de se obter
drogas. Em estudo feito por Marlbergier et al. (2012), o consumo de drogas ilícitas entre
adolescentes que têm dificuldades no relacionamento familiar aumenta 3 vezes mais e de 3 a
5 vezes mais a chance quando tem algum membro da família que faz uso de maconha ou
cocaína.
A recaída faz parte do processo de recuperação, pois o sujeito passa a entender que
terá que fazer mudanças no seu comportamento, cognições e afetividade. Bardin, Figlie e
Laranjeira (2004) descreve o modelo de Prochaska e DiClemente mesmo o sujeito tendo uma
recaída não significa que voltará no estágio inicial, pois esse processo de mudança acontece
de forma espiral.

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3.13 Considerações

Foram necessárias 22 sessões para esse processo, por mais que se trabalhou a
motivação para mudança e seus pensamentos disfuncionais para o uso de substâncias
psicoativas, a paciente continuou apresentando oscilação em relação ao seu comportamento
de uso de drogas. Acredita-se que esse comportamento está relacionado ao fato da mesma ter
sido internada na comunidade por interferência judicial e não por vontade própria. No
entanto, foi possível constatar melhoras no comportamento de Samanta durante o período em
que se encontrava na Comunidade Terapêutica (CT), tais como: melhor controle da raiva,
ansiedade e dos pensamentos disfuncionais.
A prevenção de recaída dentro da TCC ajuda o paciente ter consciência do problema
e se tornar responsável por suas escolhas, o que torna eficaz essa abordagem. Porém, o fato
dela estar inserida numa Comunidade Terapêutica (CT) distante das situações de risco
impediu que a mesma pudesse testar sua aprendizagem e estratégias de enfrentamento. O que
não invalida as intervenções terapêuticas realizadas pelo psicólogo.
Como foi trazido no referencial teórico estudos que mostram que filhos de pais
usuários ou dependentes químicos tem uma grande chance de se tornar dependentes, o caso de
Samanta não fora diferente, a mesma apresentava diversas dificuldades de relacionamento
com a família biológica. O que contribuiu para que a paciente não se apresenta um
comportamento adequado com relação à para de usar drogas.
Ressalta-se ainda, como fator de risco e influência no resultado a falta de um trabalho
terapêutico realizado com a família (mãe adotiva, irmãos e padrasto) a fim de 214repara-los
para dar suporte a Samanta no seu restabelecimento. Somando se a isso o que a torna mais
vulnerável é o fato de ser uma adolescente sem renda própria e com tantos prejuízos sociais e
baixa escolaridade.

4 CONCLUSÃO

Conclui-se que a abordagem da TCC aplicada a pacientes que fazem usos de


substâncias psicoativas apresenta resultados positivos no que se refere a tomada de
consciência das crenças e motivação subjacente a esse comportamento por parte do paciente,

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promovendo o autoconhecimento para que o mesmo desenvolva estratégias pessoais e


singular de enfrentamento do problema.
A Terapia Cognitiva Comportamental aplicada na dependência química para sujeitos
que se encontram em tratamento em comunidades terapêuticas em abstinência e no estágio
motivacional de manutenção e ação será de grande ajuda, pois ajudará o paciente concretizar a
mudança e a pensar nas maneiras de se continuar com o comportamento de não uso de drogas.
Esta foi uma experiência muito rica e importante por trazer a possibilidade de
atuação do profissional psicólogo em uma Comunidade Terapêutica com a abordagem
Terapia Cognitivo Comportamental (TCC) para a recuperação de dependência química.

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