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I Simpósio Nacional de Comunicação Política, Eleições e Campanha Permanente

Faculdade de Comunicação - Universidade Federal de Juiz de Fora


27 a 28 de março de 2019

O MOVIMENTO FEMINISTA E A ENTRADA DOS AFETOS NO


CAMPO POLÍTICO NA ESFERA PÚBLICA AMPLIADA DO
CIBERESPAÇO1

Daniela Mendes Ferreira de Sousa2


Universidade Federal de São João del Rei

Resumo

O artigo traz como proposta discutir o movimento feminista, a partir do conceito de


afetos e de esfera pública ampliada, concebida a partir das redes sociais. Estas são as
investigações do trabalho de iniciação científica, intitulado “Movimento feminista no
ciberespaço: a conciliação entre a emancipação política e as sociabilidades sob o prisma dos
afetos”, desenvolvido no curso de Comunicação Social – Jornalismo da UFSJ.
Levy (1996, p. 33) aponta que o leitor em tela é mais ativo do que o em papel. Toda
leitura em computador se torna uma edição, uma montagem singular de cada um, como se a
digitalização estabelecesse um imenso plano semântico em que leitor e autor não são mais
categorias distintas. É o que ele chama de “efeito moebius”. Pois estamos falando de um texto
desterritorializado e que passa do interior ao exterior (vice/versa), como a curva de moebius.
Da mesma forma, o conhecimento tem um ciclo curto devido às novas técnicas e
configurações sócio econômicas. O saber não se prende ao fundamento, é móvel (idem, 1995
[1996], p.54). Ele ganha cada vez mais um formato de informação, ou seja, é estocado,
armazenado (codificado) e reconvertido num segundo momento (decodificado) (MARTINO
in FRANÇA, HOHLFELDT e MARTINO org., 2004); fixa-se no movimento, é da ordem da
transmissão (RODRIGUES, 1990).
Muda-se também a lógica da acumulação capitalista em relação a este saber. Agora,
não é quem retém o saber que tem o poder, mas quem o distribui. Levy (p. 63, 1996) cita a
ideia da economia da abundância, em que detém mais informação quem mais a compartilha e
mais a utiliza.

1 Trabalho apresentado no GT 6 - Pesquisas no âmbito da Graduação, I Simpósio Nacional de Comunicação


Política, Eleições e Campanha Permanente, 27 a 28 de março de 2019.
2 Psicóloga, formada pela Universidade Federal de São João del Rei, Especialista em “Psicanálise,

Subjetividade e Cultura” pela Universidade Federal de Juiz de Fora e graduanda em Comunicação


Social/Jornalismo, onde participa do Projeto de Iniciação Cientifica intitulado “Movimento feminista no
ciberespaço: a conciliação entre a emancipação política e as sociabilidades sob o prisma dos afetos”. E-
mail: dani.mfsousa@gmail.com.
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Donde concluímos que, sem especialistas para transmitir o saber, emerge o individuo.
E sem mediadores, ou pelo menos diminuídas sua hegemonia, para transmitir esse saber,
emerge o afeto.
A consciência, para selecionar e produzir uma linearização, depende de uma
afetividade. Levy chega a afirmar que à afetividade a consciência deve tudo. “um afeto é, de
maneira mais geral, uma modificação do espírito” (Levy, 1996, p. 105). O autor traça uma
imagem do psiquismo, a que também chama de inteligência viva, de forma a identificá-la com
o mundo virtual.
O modelo de relação dos seres humanos com o ciberespaço coincide com as novas
configurações a que Eva Illouz (2011) chama de “capitalismo afetivo”. Uma substituição da
retórica da racionalidade moderna por um novo léxico de relações humanas. Embora aborde
as relações interpessoais, a autora faz um retrato da forma como a comunicação é usada na
contemporaneidade para ligar, não apenas desejos, mas também ideologias e culturas baseada
na instrumentalização psicológica dos afetos.
Curioso para esta pesquisa foi observar que o feminismo já desenvolvia em sua
história de ativismo esta lógica ao politizar as relações interpessoais e amorosas entre homens
e mulheres, envolvendo desde as práticas mais corriqueiras da vida a dois até questões
políticas mais complexas que envolvia economia, sociologia, relações de trabalho e etc. E
supomos que, por isso, a estratégia só veio a se popularizar mais ainda quando os debates
ganharam as redes sociais. O que nos levou a observar o papel do afeto nestes tipos transações
sociais e políticas no ciberespaço.
Quando as feministas buscaram a origem da condição feminina, encontraram o sexo, a
própria capacidade reprodutiva. Ou seja, tiveram que rever as relações que elas tinham com
pais, companheiros e amigos, mudando o paradigma do pensamento político ao inserir o
elemento emocional (ALVES E PITANGUY, 1985).
Illouz (2011) diz que “O que faz o afeto transportar essa “energia” é o fato de ele
sempre dizer respeito ao eu e à relação do eu com o outro culturalmente situados”. (p.9) Uma
característica muito cara ao campo de atuação político, que de acordo com a definição de
Soares (1976), ao explicar seu sentido amplo, é a “atividade cotidiana de todos os elementos
da sociedade na realização dos seus interesses individuais ou coletivos”.
Ora, queremos dizer com isso, que o feminismo agindo nesse sentido amplo da
política, encontra e realiza seus interesses, no dia a dia das mulheres mais do que de forma
centralizada, instituída e restrita à instâncias governamentais (o que não exclui esta última
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forma). Assim, uma vasta dimensão dos afetos é introduzida nas reivindicações políticas e
isso passa a ser mais evidenciado na escrita cotidiana do ciberespaço.
Contudo, apesar das fanpages (objeto de observação) serem tão importantes para
configurar com êxito o feminismo da terceira onda, agora elas já conhecem seu declínio
devido às mudanças na política de compartilhamento e manutenção de páginas do Facebook e
ao advento do whatsapp.
A informação, como o bem de mercado mais valioso na nova configuração capitalista,
entra num esquema de obtenção e gerenciamento de informações dos mais variados assuntos.
Empresas começaram a adquirir e administrar a maior quantidade possível de dados pessoais
dos cidadãos com intuito de se tornar um ‘fornecedor’ concorrido. O que gera riqueza, pois
tais informações permitem uma manipulação direcionada de campanhas publicitárias e
políticas. (MATOS, 2005, p. 5)
Hoje, há uma filtragem por algoritmos de tudo que é postado e compartilhado pelas
pessoas nas redes. Assim nem tudo aquilo postado por terceiros aparece no feed de notícia,
timeline ou página pessoal. O que proporcionou filtros-bolha (Branco, p. 52, 2017) e implodiu
a ideia de horizontalidade no uso das redes sociais para ativismo virtual. Comprar dados e
manipulá-los para formar bolhas favoráveis a determinado projeto tornou o processo menos
espontâneo. Resta agora descobrir novas formas de afetar as pessoas sem monetizar a ação.
Palavras-chave: Feminismo, política, psicologia, redes sociais, ciberespaço, rede sociais.

Referências

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