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Capa

Mountolive

Lawrence Durrell

Editora Ulisseia
Contracapa

UM CASO ARRUMADO, CUJA ACÇÃO DECORRE NO CONGO EX-BELGA EM FOGO, É


CONSIDERADO POR GRAHAM GREEN COMO A SUA OBRA DEFINITIVA. NESTE
ROMANCE, QUE A EDITORA ULISSEIA PUBLICARÁ SEGUIDAMENTE, O CONFLITO
EMOCIONAL E RELIGIOSO SUBJACENTE A TODA A OBRA DESTE ESCRITOR
ENCONTRA A SUA EXPRESSÃO MAIS ACABADA.
Folha de rosto

LAWRENCE DURRELL

MOUNTOLIVE

TRADUÇÃO DE DANIEL GONÇALVES

EDITORA ULISSEIA

LISBOA
Se fosse possível, uma vez dissipado o sonho, recuperar o senso
comum, a coisa não teria grande importância ... é a história dos
desvarios mentais. Todos a conhecem e ninguém se molesta. Mas, ai, às
vezes a coisa é levada demasiado longe. Que seria — atrevemo-nos a
pensar —, que seria a realização da ideia se a sua forma puramente
abstracta nos abalou tão profundamente? O delírio maldito está
vivificado e a sua existência é um crime.

Justine (D. A. F. de Sade)


a CLAUDE
I

Na sua qualidade de aspirante excepcionalmente prometedor tinham-no


mandado por um ano para o Egipto a fim de aperfeiçoar os
conhecimentos da língua árabe, adido à Alta Comissão como uma espécie
de escriba enquanto esperava a nomeação para um primeiro lugar
diplomático; mas conduzia-se já como qualquer jovem secretário
perfeitamente integrado e consciente das responsabilidades que o
esperavam. Simplesmente, nesse dia era um pouco mais difícil
conservar a reserva habitual, tão excitado se encontrava com a
pescaria.

De facto não se importava nada com o vinco das calças de flanela nem
com o facto de a água que se infiltrava no fundo da canoa lhe manchar
os sapatos de lona branca. Era como se no Egipto pormenores desta
natureza fossem sistematicamente negligenciados. Abençoava a sorte
que lhe proporcionara uma carta de apresentação para os Hosnani, para
essa velha casa misteriosa erguida no meio de uma rede de lagos e
canais não longe de Alexandria. Sim!

A canoa de fundo chato que o levava agora, avançando lentamente sobre


as águas túrbidas, voltava para leste a fim de tomar posição no vasto
semicírculo de embarcações que se fechava progressivamente no espaço
delimitado pelas balizas das redes. E ao aproximarem-se, a noite
egípcia começou a cair: todos os objectos tomaram subitamente a
aparência de baixos-relevos sobre um fundo de ouro e púrpura.
14

A terra adensava-se como uma tapeçaria no crepúsculo lilás,


estremecendo aqui e além em revérberos que se reflectiam no nevoeiro
ascendente, horizontes que se expandiam e contraíam, como se o Mundo
se espelhasse sobre uma bola de sabão prestes a desfazer-se. As vozes
soavam, umas vezes mais graves, outras mais doces e claras, à flor da
água. O eco da sua própria tosse prolongou-se sobre o lago como um
bater de asas. Apesar de ser quase noite, a temperatura mantinha-se
elevada e a camisa colava-se-lhe às costas. Os raios de sombra que
avançavam para eles mal recortavam os perfis das ilhotas franjadas de
canaviais, pontuando a superfície das águas como grandes cabeças de
alfinetes, como patas, como maciços de vegetação.

Lentamente, num passo de procissão, o grande arco das embarcações ia-


se fechando, mas com a terra e a água a liquefazerem-se
simultaneamente ele tinha mais a impressão de viajar através do céu
do que nas águas aluviais do Mareótis. Ouvia o chapinhar de
invisíveis gansos, e às vezes num recanto do horizonte a água e o céu
separavam-se quando levantava voo uma esquadrilha de patos,
arrastando as patas à superfície do lago, como flutuadores de
hidroaviões grasnando estupidamente. Mountolive suspirou e pôs-se a
contemplar a água que lhe corria aos pés, o queixo entre as mãos.
Estava pouco habituado a sentir-se tão feliz. A juventude é a idade
dos desesperos.

Atrás dele ouvia o mais novo dos dois irmãos, Narouz, o que tinha o
lábio leporino, gemer de cada vez que a vara, impelindo a embarcação
para diante, lhe repercutia nos rins o impulso da canoa. A lama do
fundo, grossa como melaço, salpicava a esteira com um baque surdo,
enquanto a vara se afundava voluptuosamente na vasa. Era belo e mal
cheiroso; contudo, com grande surpresa, sentiu-se deliciado com os
odores pútridos do estuário. Rajadas de vento, vindas do mar,
fustigavam-nos de vez em quando refrescando-lhes a mente.
15

Nuvens de mosquitos evoluíam como uma chuva de prata nos reflexos do


sol moribundo. A teia de aranha da transição de luz inflamou-lhe o
espírito.

— Narouz, sinto-me muito feliz — disse ele escutando as pancadas


regulares do coração.

O adolescente soltou uma risadinha silvante e tímida, baixando a


cabeça:

— Bem, bem. Mas isto não é nada. Estamos a chegar.

Mountolive sorriu. «O Egipto», pensou, como se pensasse no nome de


uma mulher, «o Egipto».

— Para além — disse Narouz na sua voz rouca e melodiosa -— os patos


não são rusés. (O seu inglês era imperfeito e hesitante). São fáceis
de apanhar (é (apanhar» que se diz, não é?). Mergulha-se por baixo
deles e agarramo-los pelas patas. Mais fácil do que abatê-los a tiro.
Se quiser podemos voltar amanhã.

Gemeu novamente e apoiou-se à vara com todo o seu peso, soltando um


gemido.

— E as serpentes? — perguntou Mountolive.

Nessa tarde tinha avistado algumas, bem grandes, deslizando


lentamente nas águas.

Narouz meteu a cabeça entre os ombros possantes e desatou a rir.

— Não há serpentes — disse ele; e pôs-se de novo a rir.

Mountolive voltou-se para descansar a face no rebordo da amurada.


Pelo canto de um olho avistava o seu companheiro, manobrando a vara,
e observava-lhe os braços e as mãos cabeludas, as pernas robustas.

— Posso substituí-lo agora? — perguntou em árabe. Já tinha notado que


os seus hospedeiros ficavam radiantes quando ele se lhes dirigia na
língua nativa. As respostas que lhe davam eram afectuosas como um
abraço. — Quer?

— De maneira nenhuma — disse Narouz soltando o seu feio sorriso que


uns olhos magníficos e uma voz de profundas tonalidades redimiam. O
suor escorria-lhe das madeixas negras. E a fim de evitar que a recusa
fosse considerada indelicada, acrescentou: — A batida começa ao cair
da noite.
16

Eu sei o que é preciso fazer; a si compete descobrir os peixes.

Os dois apêndices de carne rosada que separavam o lábio fendido


estavam húmidos de saliva. Piscou o olho afectuosamente ao jovem
inglês.

As trevas corriam agora para eles e a luz extinguia-se. Bruscamente


Narouz gritou:

— Chegou o momento. Olhe lá para diante.

Bateu palmas violentamente e soltou um grito através das águas,


sobressaltando o companheiro, que levantou a cabeça para seguir-lhe a
direcção do dedo apontado.

— Para onde?

A resposta de um tiro disparado no barco mais distante chicoteou o


espaço, e a linha do horizonte foi novamente cortada a meio por um
novo voo, erguendo-se mais lentamente e dividindo céu e terra numa
ferida encarnada que alastrava como o recheio de uma romã a derramar-
se da casca. Depois, o encarnado cambiou para escarlate, e a abóbada
recaiu na superfície do lago numa chuva de neve branca que se fundia
ao tocar na água.

— Flamingos! — exclamaram ambos e riram, e a escuridão recaiu sobre


eles, extinguindo o mundo visível.

Ficaram por um momento imóveis, respirando pesadamente, enquanto os


seus olhos se acostumavam às trevas. Vozes e gargalhadas de barcos
distantes, flutuando na trilha que seguiam. Alguém gritou «Ya
Narouz», repetindo «Ya Narouz». O rapaz limitou-se a resmungar. E
veio então o som breve e sincopado de um tamborim, música cujos
ritmos se instalaram na mente de Mountolive de tal modo que este se
surpreendeu a tamborilar com os dedos no costado da embarcação. O
lago era agora invisível, a lama amarelada tinha desaparecido — essa
lama quebrada e macia das grandes fendas pré-históricas, ou essa lama
betuminosa que o Nilo leva adiante na sua marcha para o mar. O seu
relento impregnava a atmosfera. «Ya Narouz», ouviu-se uma vez mais, e
Mountolive reconheceu a voz de Nessim, o irmão mais velho, trazida
numa rajada de vento.
17

«Está... na... hora... de... acender». Narouz resmungou uma resposta


e soltou um grunhido de prazer procurando os fósforos.

- Agora é que vai ver — disse ele, com orgulho.

O círculo das canoas tinha-se cerrado em torno das redes e no


crepúsculo quente principiaram a flamejar as chamazinhas dos
fósforos; logo as lâmpadas de carbureto fixadas à proa das
embarcações começaram a emitir a sua luz trémula e amarelada,
vacilando antes de se acender, permitindo assim aos que não se
encontravam alinhados rectificarem as suas posições. Narouz passou
por cima do companheiro, desculpando-se, e dirigiu-se à proa. Mounto-
live surpreendeu o cheiro a suor do seu corpo atlético quando o outro
se debruçou para aspirar o tubo de borracha e agitar o reservatório
da lâmpada, cheio de pedaços de carbureto. Depois deu volta a uma
chave, acendeu um fósforo e por um momento ficaram ambos sufocados
pela densa fumarada que se dissipou rapidamente enquanto debaixo
deles florescia, como um imenso cristal colorido, um semicírculo de
água, radiante como uma lanterna mágica, revelando as formas
estranhamente nítidas dos peixes que se dispersavam e tornavam a
agrupar com estremecimentos de surpresa, de curiosidade, e,
porventura, até de prazer. Narouz expeliu o ar dos pulmões e
regressou à popa.

— Olhe para baixo — disse ele num tom imperativo; e acrescentou: —


Mas conserve a cabeça bastante baixa.

E como Mountolive, que não compreendera esta última recomendação, se


voltasse para o interrogar, explicou:

— Cubra a cabeça com o casaco. Os maçaricos enlouquecem com a


pescaria. Da última vez fiquei com um rasgão na face e Sobhi perdeu
um olho. Olhe baixo e para a água.

Mountolive obedeceu e ficou ali flutuando no poço de luz inquieta


cuja superfície era agora de um cristal incomparável onde passeavam
tartarugas, sapos e peixes - um mundo perturbado pela invasão dos
seus domínios.
18

O batel oscilou novamente antes de deslizar para diante. A água fria


lambia-lhe os pés. Com um canto do olho viu o semicírculo luminoso,
como uma corrente florida, fechar-se mais rapidamente; e, como para
dar às embarcações um ritmo e uma orientação, elevou-se um cântico,
acompanhado pelos tamborins, surdo e melancólico, mas imperativo.
Outra vez os sacões do batel se foram repercutir nas suas costas. As
sensações presentes eram inteiramente novas, não tinham precedente.

A água adensara-se, espessa como um caldo de aveia lentamente


remexido ao fogo. Mas, atentando melhor, compreendeu que essa
densidade não era devida à água mas à proliferação dos peixes, que,
excitados sem dúvida pela consciência do seu grande número,
deslizavam e saltitavam. O cordão fechara-se como um nó corredio, e
agora as embarcações não distavam entre si mais de sete metros. Os
homens lançavam gritos roucos e batiam a água, excitados também eles
pela presença dos cardumes cada vez mais densos no fundo macio do
lago, enquanto os peixes se enervavam num ritmo crescente ao
descobrirem-se cercados. Era um delírio de movimentos circulares e
fugas bruscas. Vagas silhuetas de homens começaram a desdobrar as
redes e a gritaria aumentou. Mountolive sentiu que o sangue lhe
corria mais vivo.

— Atenção! — gritou Narouz. — Não se mexa.

A água estava espessa como cola e corpos prateados começaram a surgir


saltando na escuridão para recaírem na amálgama lamacenta. Os
círculos de luzes encontraram-se, confundiram-se, e o cerco fechou-
se; houve então um chapinhar ininterrupto de formas obscuras que
remergulhavam na água efervescente, contorcendo-se, escapando-se das
redes agora reunidas e já transbordantes, como meias do Natal, com os
corpos nervosos dos peixes. O pânico começava a apoderar-se deles e
enrugavam a superfície da água com os seus saltos precipitados,
salpicando as lanternas balbuciantes e vindo cair finalmente dentro
dos batéis, colheita nervosa de escamas geladas e de caudas
palpitantes.
19

Os seus sobressaltos de agonia eram tão excitantes como o bater de


tambores. Partiam risos de todos os lados enquanto as redes se
apertavam. Mountolive distinguia os árabes, com o seu grande manto
branco apertado na cintura, segurando-se com as mãos às proas negras,
atirando lentamente para diante as redes entrelaçadas. A luz
iluminava-lhes as coxas morenas. A noite estava prenhe da sua alegria
bárbara.

E então produziu-se novo e inesperado fenómeno — o céu, tal como as


águas, começou a tornar-se espesso. As trevas povoaram-se de vultos
estranhos, pois os gritos e os ruídos tinham despertado os habitantes
das margens — pelicanos, flamingos, gralhas e maçaricos — que se
aproximavam em bandos desordenados, vindos dos canaviais para
participar no festim, lançando gritos agudos e descrevendo audaciosas
figuras aéreas para apanhar o peixe no voo. A atmosfera e a água
fervilhavam de vida enquanto os pescadores começavam a armazenar a
sua presa no fundo dos batéis ou voltavam as redes para despejar uma
catadupa de corpos prateados no fundo do barco. Os timoneiros
depressa ficaram com os pés ocultos por uma multidão de corpos
contorcendo-se numa agonia desesperada. Havia de sobra para os homens
e para as aves, e, ao passo que os maiores pernaltas do lago abriam e
fechavam as asas tímidas como velhas sombrinhas coloridas, os
maçaricos mergulhavam com a rapidez do raio, excitados pela fome e
pela carnagem, em voos suicidas, indo alguns quebrar o pescoço nas
tábuas dos barcos, indo outros enterrar o bico na carne morena de um
pescador, rasgando-lhe uma perna ou o rosto, na sua avidez
terrificante. Os salpicos da água, os gritos roucos, o bater dos
bicos e das asas e o matraquear frenético dos tamborins emprestavam à
cena um inesquecível esplendor que evocava no espírito de Mountolive
antigos frescos faraónicos

de luz e de trevas.

Alguns homens lutavam contra as aves, batendo o ar com bastões, de


tal modo que no meio do montão de peixes descobriam-se por vezes
penas de todas as cores, de magníficas cambiantes, e bicos quebrados
de onde pingava o sangue sobre as escamas prateadas.
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Em menos de uma hora os batéis ficaram cheios até à borda. Nesse


momento Nessim passou junto deles e gritou-lhes:

— Temos de nos ir embora!

Estendeu a mão apontando para uma lanterna que formava na margem uma
doce gruta de luz, no interior da qual se distinguiam os flancos
sedosos de um cavalo e o recorte denteado de palmeiras.

— A minha mãe está à nossa espera — acrescentou Nessim, sorrindo.

Debruçou-se e o seu belo rosto apareceu aureolado por um jacto de luz


que o envolveu. Era dotado daquela beleza bizantina de que se
encontram numerosos exemplos nos frescos de Ravena — rosto em forma
de amêndoa, olhos negros, feições puras. Mas Mountolive via através
do rosto de Nessim a face de Leila, sua mãe, que tanto se parecia com
ele.

— Narouz! — gritou o rapaz, porque o irmão tinha saltado à água para


prender uma rede. — Narouz! (Era difícil fazer-se ouvir naquela
confusão). Temos de nos ir embora.

E os dois batéis viraram de bordo e apontaram para o embarcadouro


onde Leila os esperava pacientemente com os cavalos, ouvindo o
zumbido persistente dos mosquitos. Um fino crescente erguera-se no
céu.

A voz de Leila atravessou afectuosamente as águas para censurá-los e


Narouz suspirou deliciado.

-— Apanhámos milhões de peixes — gritou Nessim.

Ela estava à beira do embarcadouro, silhueta apenas mais sombria que


a noite, e as suas mãos encontraram-se por um instinto perfeito e
inconsciente. O coração de Mountolive começou a palpitar
desordenadamente quando ela o ajudou a saltar. Mas apenas os dois
irmãos em terra, Narouz bradou:

— Vamos ver quem chega primeiro a casa, Nessim!


21

Precipitando-se para os cavalos partiram a galope, às gargalhadas, e


Leila soltou um grito de prudência:

— Tenham cuidado!

Mas já eles iam longe do molhe cujas tábuas elásticas deixaram a


vibrar. Narouz ainda respondeu com uma gargalhadinha mefistofélica.

- Que hei-de fazer? — disse ela com uma resignação irónica enquanto o
intendente se aproximava com dois cavalos.

Montaram e tomaram o caminho de casa. Mandando o intendente avançar


adiante com a lanterna, Leila aproximou o seu cavalo do cavalo de
Mountolive, para que os seus joelhos se tocassem e para que o
contacto dos seus corpos apaziguasse em parte a sede dos sentidos.
Eram amantes havia apenas dez dias, mas para o jovem Mountolive esses
dez dias tinham sido uma eternidade de alegria e desespero. A sua
educação inglesa não o tinha preparado para as subtilezas do
sentimento. A despeito da sua juventude tinha já assimilado
perfeitamente todas as preciosas lições que lhe haviam de permitir
viver em boa sociedade sem graves problemas; mas às suas emoções
pessoais tudo quanto podia opor era o silêncio taciturno de uma
sensibilidade nacional quase completamente anestesiada: uma educação
à base de reticências e falsos pudores. Educação e sensibilidade raro
se encontram a par, embora a lacuna se possa ocultar sob as regras do
bem viver e das conveniências. Da paixão tinha apenas conhecimentos
literários; enunciava opiniões quando o tema caía em conversa; mas
considerara-a sempre uma realidade estranha ao seu destino; e agora
lá estava ela, animando secretamente a sua vida de escolar
precocemente amadurecido, vivendo uma vida autónoma por detrás da
fachada de boas maneiras e das actividades quotidianas, das conversas
e das amizades do dia-a-dia. Nele o humano dera frutos antes de o
próprio homem interior ter florescido. Leila voltara-o do avesso como
se volta um velho saco espalhando o conteúdo em confusão. Mountolive
admitiria sem dificuldade não passar de um franganote que já tinha
entretanto esgotado todas as suas reservas.

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Descobria quase com indignação que tinha finalmente encontrado
qualquer coisa por que se sentia até capaz de morrer — qualquer coisa
cuja própria crueza continha em si uma mensagem alada que feria
vivamente o seu espírito. Mesmo nas trevas sentia-se corar. Era
absurdo. Amar era absurdo, era como ser derrubado. Que diria sua mãe,
pensava ele, se os visse assim cavalgando entre os vultos das
palmeiras, perto do lago onde se reflectia o crescente da Lua, de
joelhos colados?

— Sentes-te feliz? — murmurou ela, e Mountolive sentiu os lábios de


Leila acariciarem-lhe o pulso.

Os amantes não podem dizer nada que já não tenha sido dito e calado
um milhão de vezes. Os beijos foram inventados para traduzir esses
mil nadas em ferimentos.

— Mountolive — repetiu ela. — Meu querido David.

— Sim...

— Estás tão tranquilo. Julgava que dormias. Mountolive enrugou a


testa, pesquisando a sua natureza íntima.

— Estou a reflectir — respondeu. Sentiu novo beijo no pulso.

— Querido!

— Querida!

Continuaram assim, de joelhos colados, e depressa avistaram a casa,


solidamente construída no meio de uma rede de diques e canais de água
doce que fragmentavam o estuário. O ar pulsava agitado pelas asas dos
morcegos. Todas as varandas do primeiro andar se encontravam
vivamente iluminadas; o inválido, na cadeira de rodas, o olhar
ciumento cravado na noite, esperava-os. Atingido por uma doença
obscura que o ia matando aos poucos, o marido de Leila via a doença
agravar a grande diferença de idades que os separava; enquanto ela
tinha apenas quarenta anos — e ninguém lhos dava — ele ia para além
dos sessenta.
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A enfermidade encerrava-o num sudário de cobertores de onde emergiam


duas mãos longas e trémulas. As suas feições rudes e taciturnas
encontravam-se reproduzidas no filho mais novo, e tinha a cabeça
constantemente inclinada sobre a espádua; vista a certa luz lembrava
aquelas máscaras carnavalescas que são levadas na ponta de varas..
Resta acrescentar que Leila amava-o. «Leila amava-o». No silêncio da
sua mente, Mountolive nunca era capaz de pronunciar esta frase sem
guinchar como um papagaio. Como era possível? Interrogara-se mil
vezes. Como era possível?

Ouvindo o tropear dos cavalos no pátio, o marido fez rolar a cadeira


e aproximando-se da balaustrada perguntou timidamente:

— És tu, Leila? — A sua voz era a de uma criança muito velha, pronta
para ser ferida pelo sorriso quente que ela lhe lançou para o alto
pela bela voz de contralto que lhe respondia confundindo a submissão
oriental com aquela espécie de consolação que só uma criança é capaz
de compreender.

— Querido.

E subiu a correr a escadaria para beijá-lo.

— Aqui estamos, sãos e salvos.

Mountolive desmontava lentamente, ouvindo o suspiro de alívio do


doente. Demorava-se a apertar uma correia para não ver o beijo que
trocavam. Não era ciumento mas a sua incredulidade verrumava-o e
feria-o. Nessa ocasião odiava a sua juventude, a sua tacanhez e o
sentimento de ter sido violado. Como sucedera tudo aquilo? Sentia-se
a um milhão de quilómetros da Inglaterra. Separara-se do seu passado
como uma serpente após a muda. A noite estava cheia de aromas
fragrantes de jasmim e rosa. Mais tarde, se ela viesse procurá-lo ao
quarto, encontrá-lo-ia imóvel, mudo e incapaz de pensar, tomando nos
seus braços aquele corpo estranhamente jovem, quase sem desejo nem
remorsos; sentia os olhos fecharem-se como um homem imóvel debaixo de
uma cascata gelada.
24

Subiu lentamente a escada; graças a ela, sabia agora que era belo e
aprumado.

— Então gostou? — crocitou o inválido num tom onde flutuava (como uma
mancha de óleo à superfície da água) o orgulho e a suspeita.

Um criado negro, gigantesco, rolou uma mesa onde havia copos e uma
garrafa de whisky — estranha anomalia: bebiam o «pôr do sol» como
quaisquer coloniais, nesta velha casa inundada de tapetes magníficos,
em cujas paredes se ostentavam as zagaias tomadas em Omdurman e em
cujas salas se viam estranhos móveis Segundo Império fabricados na
Turquia.

— Sente-se — disse o velho, e Mountolive, sorrindo-lhe, sentou-se,


notando que mesmo aqui, nas salas de visitas, havia livros e
periódicos por toda a parte — símbolos da fome insaciável de Leila
pelas coisas do saber. Normalmente ela guardava os seus livros e
jornais no harém, mas acabavam sempre por inundar a casa. Seu marido
não participava desse mundo. Tanto quanto possível ela evitava torná-
lo consciente desse facto, temendo o seu ciúme que crescia à medida
que a doença se agravava. Os rapazes lavavam-se ali perto —
Mountolive ouvia sons de águas correntes. Dentro de alguns minutos
pediria licença e retirar-se-ia a fim de vestir um fato branco para
jantar. Bebia e falava com o inválido na sua voz baixa e melodiosa.
Parecia-lhe uma coisa terrível e imprópria ser o amante da sua
mulher; o facto de Leila ser capaz de dissimular tão facilmente
cortava-lhe a respiração. (A sua voz fria e doce, etc, etc; tentaria
não se deixar absorver tão completamente por ela. Estremeceu e sorveu
a bebida).

Tinha sido difícil encontrar o caminho do solar para onde se dirigia


com uma carta de apresentação; a estrada para carros não ia além do
rio e era necessário utilizar daí para diante cavalos para alcançar a
casa erigida no meio dos canais. Teve de esperar quase uma hora antes
de um transeunte amável lhe oferecer um cavalo que o levou ao seu
destino. Nesse dia não estava em casa ninguém além do inválido.
25

Mountolive notou divertido que ao ler a carta de apresentação,


redigida no estilo floreado dos árabes, o inválido murmurava as
tradicionais respostas que a delicadeza impõe aos cumprimentos que o
autor da missiva lhe endereçava, tal como se aquele se encontrasse
presente. Depois, levantando a cabeça, considerou o jovem inglês com
simpatia.

— Ficará connosco — é a única maneira de melhorar o seu conhecimento


da língua árabe. Dois meses, se assim desejar. Os meus filhos falam
inglês e terão muito prazer em conversar consigo; minha mulher
também. Para eles será uma alegria ver por aqui uma cara nova. E o
meu querido Nessim está no seu último ano de Oxford.

Orgulho e prazer brilharam fugazmente nos olhos afundados e depois


foi novamente o habitual olhar de dor e tristeza. A doença suscita o
desprezo. Um doente não ignora esse facto.

Mountolive aceitou, e renunciando ao gozo de uma licença na pátria


obteve permissão para ficar dois meses em casa deste cavalheiro
copta. Era um abandono de tudo o que lhe fora habitual este ingresso
numa existência familiar fundada e nutrida na pompa inconsciente de
um feudalismo que se ia filiar na Idade Média ou mais longe ainda. O
mundo de Burton, Beckford, Lady Hester... Será que então eles
existiam? Mas aqui, na posição vantajosa de alguém integrado na tela
que a sua própria imaginação pintou, o exótico pareceu-lhe
subitamente normal. A sua poesia vinha do facto de essa vida ser
vivida naturalmente.

Mountolive, que já dominava a língua, sentiu-se contudo pela primeira


vez penetrar num país estrangeiro com os seus estranhos costumes.
Sentiu o que se sente em casos análogos, nomeadamente o vertiginoso
prazer de perder uma personalidade antiga para ganhar outra nova.
Tinha por assim dizer a impressão de que os contornos da sua pessoa
se dissolviam. Estará nisso o verdadeiro sentido da educação? Tinha
começado a transplantar um enorme e intacto mundo da sua imaginação
para o solo da sua nova vida.
26

A família Hosnani era variada em espécies. O gracioso Nessim e sua


mãe pertenciam ambos ao mesmo mundo intenso da inteligência e da
sensibilidade. Ele, o filho mais velho, estava sempre pronto para
servir a mãe, fosse para lhe abrir uma porta ou levantar um lenço
caído. Falava perfeitamente inglês e francês, era impecável de
maneiras, e o seu corpo era elegante e potente. Em frente destes,
iluminados pela luz das velas, viam-se os outros dois: o inválido nas
suas cobertas e o filho mais novo, grosseiro e abrutalhado como um
mastim e com um ar indefinível de estar sempre pronto para lutar. De
compleição pesada e feio, era contudo gentil; mas pelo seu olhar de
adoração percebia-se perfeitamente que amava o pai acima de tudo. A
simplicidade brilhava-lhe nos olhos, era serviçal, e quando o
trabalho nas terras o não afastava de casa estava sempre pronto para
dispensar os serviços do criado silencioso que esperava por detrás da
cadeira de rodas, servindo ele próprio o pai com um orgulho radiante,
feliz mesmo quando o carregava nos braços, com uma espécie de avidez
ciumenta, para conduzi-lo aos lavabos. Reservava para sua mãe o mesmo
olhar de orgulho e maldade infantil que se descobria nos olhos do
enfermo. Contudo, embora os irmãos estivessem assim divididos como
ramos de oliveira, pertenciam ao mesmo tronco e amavam-se
profundamente, pois na verdade um era complemento do outro, sendo um
forte onde o outro era fraco. Nessim detestava o derramamento de
sangue, o trabalho manual e as maneiras rudes; Narouz sentia prazer
em tudo isso. E Leila? Mountolive considerava-a um belo enigma,
quando teria podido, se tivesse mais experiência, reconhecer na sua
naturalidade uma perfeita simplicidade de espírito e na sua natureza
extravagante um temperamento frustrado no seu desenvolvimento normal
e que tinha aceitado de boa mente uma solução de compromisso. Este
casamento, por exemplo, com um homem muito mais velho do que ela
tinha sido um casamento tratado pelos pais — um pormenor bem egípcio.
27

A fortuna da sua família tinha entrado em conflito com a fortuna dos


Hosnani, porque, como sempre nestes casos, um casamento era uma
espécie de associação entre duas grandes companhias. Mas ela jamais
se deu ao trabalho de pensar se era feliz ou infeliz. Sentia-se
faminta, é o termo, por esse mundo dos livros e das reuniões que
existia fora dos muros da velha casa e das terras que alimentavam as
suas fortunas. Era obediente e dócil, leal como um animal bem
educado. Somente a monotonia da sua vida lhe desorientava o espírito.
Em jovem fora estudante no Cairo e sempre nutrira a esperança de
prosseguir na Europa os seus estudos prometedores. Quisera ser
médica. Mas nesse tempo já era bem bom para uma egípcia conseguir
escapar à servidão do véu negro — para não falar de escapar dos
limites mesquinhos da mentalidade e da sociedade egípcia. A Europa
para os egípcios não passava de um mercado onde os ricos se iam
abastecer. Fora a Paris várias vezes com seus pais e apaixonara-se
pela cidade como sucede a todos, mas quando se tratou de quebrar as
barreiras do hábito nacional e de escapar da rede familiar —• para
ingressar numa vida onde a sua inteligência teria florescido — foi
quebrar-se contra o rochedo do conservantismo paterno. Devia casar e
constituir uma família no Egipto, responderam-lhe friamente, e
escolheram entre os homens das suas relações aquele que melhor lhe
podia servir, à beira do precipício dos seus sonhos, bela e rica (em
Alexandria era conhecida na sociedade pela «andorinha negra», Leila
sentiu que tudo se tornava incolor e insípido. Devia conformar-se.
Claro que poderia de vez em quando visitar a Europa na companhia do
marido, para fazer as suas compras... Mas a sua vida pertencia ao
Egipto.

Ela cedeu à existência imposta, primeiro com desespero, depois com


resignação. Seu marido era bom e criterioso, mas mentalmente
acanhado. Aquela vida corroía-lhe a vontade.
28

Mas a sua lealdade era tal que Leila mergulhou nos negócios do
marido, vivendo, para satisfazê-lo, longe da única cidade que
remotamente evocava a Europa - Alexandria. Havia anos portanto que
ela se tinha rendido aos torpores do Delta e à monotonia da vida nas
terras dos Hosnani. Vivia principalmente através de Nessim, que tinha
sido educado no estrangeiro e cujas raras visitas vivificavam a casa.
Mas para acalmar a sua curiosidade activa do mundo, Leila assinava
livros e periódicos nas quatro línguas que conhecia tão bem como a
sua própria, ou ainda melhor, porque ninguém pode pensar ou sentir no
idioma árabe, obsoleto e sem dimensões. Assim travava-se há muitos
anos uma batalha de resignações, na qual o elemento de desespero só
se revelava sob a forma de perturbações nervosas para as quais o
marido receitava um tratamento eficaz — dez dias em Alexandria,
findos os quais ela regressava com novo alento. Mas mesmo estas
visitas foram-se tornando com o tempo mais raras. Ela tinha perdido o
contacto com a sociedade e sentia-se cada vez mais estranha no
convívio das pessoas que conhecera. A vida na cidade aborrecia-a. Era
superficial como as águas do Mareótis; os seus poderes de
introspecção aperfeiçoaram-se, e, como os amigos se afastassem,
apenas ficaram alguns nomes e algumas feições: Baltasar, o médico,
por exemplo, Amaril e poucos mais. Mas em breve Alexandria tornar-se-
ia no universo de Nessim. Quando terminassem os seus estudos ele
entraria para a casa bancária com as suas ramificações subsidiárias —
navios, óleos, tungsténio — outras tantas raízes sedentas de água...
Mas quando esse momento chegasse ela seria virtualmente uma eremita.

Esta vida solitária tinha de certo modo contribuído para que não
estivesse preparada para receber Mountolive, um estrangeiro, no seu
meio. Nesse primeiro dia regressara tarde de uma cavalgada do deserto
e foi tomar o seu lugar entre o marido e a visita com um certo
estremecimento de prazer. Mountolive mal a olhou, porque a sua voz
vibrante despertava no coração do moço estranhos ecos que ele
registava mas não desejava interpretar.
29

Ela vestia calções brancos e uma camisa amarela com um lenço em torno
do pescoço. Nas suas mãos pequenas e tratadas não havia anéis. Nenhum
dos rapazes compareceu ao almoço nesse dia, e depois da refeição foi
ela quem se propôs mostrar-lhe a casa e os jardins, já agradavelmente
surpreendida pela correcção do jovem exprimindo-se em francês ou em
árabe. Tratou-o com a solicitude ligeiramente hesitante de uma mulher
para com o seu filho único, mas já homem. O genuíno interesse que ele
mostrava em aprender surpreendeu-a e comoveu-a. Era absurdo; mas
nunca tinha até então havido estrangeiro que se mostrasse tão
interessado em aprofundar o idioma, a religião e os costumes árabes.
E as maneiras de Mountolive eram tão perfeitas como era fraco o seu
domínio sobre si próprio. Caminharam lado a lado no jardim de rosas
ouvindo as suas vozes como em sonhos. O ar faltava-lhes como se
estivessem prestes a sufocar.

Quando nessa noite ele se despediu aceitando o convite de Hosnani


para voltar, Leila não se encontrava presente. Um criado informou que
ela sentira uma dor de cabeça e se tinha ido deitar. Mas esperou o
regresso de Mountolive com uma espécie de obstinada e apreensiva
concentração.

Naturalmente encontrou os dois irmãos na tarde da primeira visita;


Nessim chegou de Alexandria no decorrer da tarde e Mountolive
instantaneamente reconheceu nele um ser da sua espécie, uma pessoa
cuja vida era um código. Entre eles estabeleceu-se logo um acordo
tímido.

E Narouz?

— Onde pára esse velho Narouz? — perguntou Leila ao marido como se o


segundo filho fosse mais dele do que dela, o seu bordão de inválido.

— Fechou-se na incubadora há quarenta dias. Regressa amanhã.

Leila parecia um pouco embaraçada. Depois, voltando-se para o marido,


perguntou:

— Posso levar Mountolive para ver Narouz?


30

— Certamente.

— Você sabe, Mountolive, Narouz está destinado a ser o lavrador da


família e Nessim o banqueiro — explicou ela corando ligeiramente.

Mountolive ouvi-a encantado pronunciar o seu nome com um sotaque


francês que o tornava no mais romântico dos nomes — «Montolif». Era
também um pensamento novo. Ela tomou-lhe o braço e atravessaram o
jardim das rosas, cruzaram o palmar e dirigiram-se para o comprido
edifício de tijolo vermelho, enterrado no solo, onde se encontravam
as incubadoras. Bateram uma ou duas vezes numa porta baixa, mas por
fim Leila empurrou-a com impaciência e entraram num apertado corredor
onde havia dez fornos de barro alinhados uns em frente dos outros.

— Fechem a porta — gritou Narouz aparecendo no meio de um ninho de


teias de aranha para identificar os intrusos. Mountolive estava um
pouco intimidado pelo seu ar taciturno, pelo seu bico de lebre e
pelas entoações cavas da sua voz; tinha a impressão, a despeito da
juventude do outro, de se encontrar na presença de um anacoreta das
cavernas. A pele estava amarelada e os olhos engelhados pela longa
vigília. Mas quando os viu, Narouz pediu desculpas e parecia
encantado por se terem incomodado a procurá-lo. Estava ansioso e
orgulhoso por explicar o funcionamento das incubadoras e Leila
deixou-o com a palavra. Mountolive já sabia que a incubação
artificial dos ovos era uma arte famosa no Egipto desde a mais remota
antiguidade e foi com prazer que ouviu a explicação do processo
utilizado. Neste subterrâneo poeirento e cheio de teias de aranha
falaram de técnicas com os olhos negros e equívocos da mulher postos
neles, estudando os corpos, as maneiras e as vozes desses jovens tão
diferentes um do outro. Os belos olhos de Narouz resplandeciam de
prazer. O vivo interesse do visitante excitava-o também e ele
explicava tudo em pormenor, mesmo essa estranha maneira de reconhecer
se o ovo se encontra à temperatura conveniente pelo simples método de
apoiá-lo contra a órbita ocular.
31

Um pouco mais tarde, atravessando o roseiral ao lado de Leila,


Mountolive declarou:

— O seu filho é muito simpático.

Leila corou inesperadamente baixando a cabeça. Respondeu num


murmúrio, comovida:

- Pesa-nos na consciência não o termos mandado operar a tempo. As


crianças da aldeia provocavam-no, chamavam-lhe camelo, e isso feria-o
profundamente. Sabe que o lábio dos camelos é rachado no meio? Não?
Pois é! Foi muito duro para Narouz.

O jovem que ia a seu lado sentiu um aperto no coração pensando no que


ela própria devia ter sofrido também. Mas não disse nada. E depois,
nessa tarde, ela desaparecera.

De princípio Mountolive não conseguiu ver claro nos seus sentimentos,


mas era pouco dado à introspecção, pouco familiar por assim dizer com
a herança da sua própria personalidade — numa palavra, como era novo,
afastou-os sem grande dificuldade. (Ele recordava tudo isto a seguir,
evocando gravemente cada pormenor enquanto se barbeava diante do
espelho de moldura antiga, ou fazendo o nó da gravata. Retomava
incansavelmente toda a história, como para colocar à prova e assim
dominar por procuração toda a gama de emoções que Leila tinha
desencadeado nele. De vez em quando proferia uma praga («Raios»)
entre dentes como se estivesse a rememorar qualquer temeroso
desastre. Era desagradável ser forçado a crescer. Mas também que
excitante! Oscilava entre o temor e uma euforia grotesca.)

Muitas vezes iam cavalgar sozinhos para o deserto por sugestão do


marido, e certa noite de lua cheia, estendidos numa duna docemente
varrida pelo vento, Mountolive encontrou-se subitamente perante uma
nova versão de Leila. Tinham jantado e conversavam na claridade
espectral da noite.
32

— Espera — disse ela subitamente. — Tens uma migalha nos lábios.

E debruçando-se para ele retirou a migalha com a ponta da língua.


Mountolive sentiu a língua quente e pequenina de uma gata egípcia
pousar por um momento nos seus lábios. (Era neste momento que a sua
mente proferia sempre a palavra ((Raios».) Sentiu-se a ponto de
desmaiar e empalideceu. Mas ela estava tão perto, inocentemente
perto, sorrindo e franzindo o nariz, que tudo quanto ele podia fazer
era tomá-la nos braços, debruçando-se como um homem que se contempla
num espelho. As suas imagens murmurantes juntaram-se como reflexos na
superfície de um lago. O seu espírito estilhaçou-se num milhão de
fragmentos que se espalharam pelo deserto. O acto de se tornarem
amantes foi tão fácil e completou-se com uma tão aparente falta de
premeditação que durante um certo tempo ele mal teve noção do que
sucedera. Mas quando se recompôs e pôde pensar, denunciou a sua
juventude titubeando:

— Mas porquê comigo, Leila?

Como se ela pudesse escolher no vasto mundo! E surpreendeu-o ouvi-la


repetir a pergunta com uma espécie de desprezo musical; a puerilidade
daquela frase era com efeito embaraçosa.

— Porquê contigo? Ora... porque sim.

E então, com grande surpresa de Mountolive, ela pôs-se a recitar em


voz baixa uma passagem de um dos seus autores favoritos.

«Oferece-se-nos um largo destino — o mais alto jamais apresentado a


uma grande nação. A nossa raça mantém-se ainda viril; uma raça onde
se caldeia o melhor sangue nórdico. Não temos um temperamento
dissoluto, somos firmes no governar e sabemos obedecer. Aprendemos
uma religião de misericórdia que temos neste momento que salvaguardar
ou trair. E somos ricos de um património de honra legado por mil anos
de história heróica, que devemos ansiar por enriquecer diariamente, a
fim de que os ingleses, se for pecado ambicionar a honra, se tornem
nos maiores pecadores da terra».
33

Mountolive ouviu-a recitar com piedade, surpresa e humilhação. Era


evidente que Leila via nele um protótipo de uma nação que só na sua
imaginação continuava a existir. Ela abraçava e amava uma gravura
colorida da Inglaterra. Aquela era, para ele, a mais estranha
experiência do mundo. E enquanto ela continuava a citar a sublime
peroração, Mountolive, seguindo na sua voz clara a prosa de singular
melodia, sentia as lágrimas subirem-lhe aos olhos.

«Ou fareis outra vez, jovens da Inglaterra, do vosso país um trono de


reis, uma ilha coroada, uma fonte de luz para todo o Mundo, um núcleo
de paz; senhora das artes e da sabedoria; guardiã das grandes figuras
históricas no meio das visões irreverentes e efémeras; servidora fiel
dos princípios consagrados pelo tempo, entre as tentações e os
desejos licenciosos; e entre as cruéis e ruidosas invejas das nações
uma nação venerada pela sua inegável coragem e pela sua benevolência
para com os homens?» As palavras começavam a martelar-lhe o crânio.

— Basta! Basta! — gritou ele por fim. — Nós não somos já nada disso,
Leila.

Era um absurdo sonho literário que aquela copta tinha descoberto e


traduzido. E ele teve então o sentimento de que toda aquela
maravilhosa ternura era na realidade endereçada a uma imagem falsa —
como se os seus absurdos pensamentos estivessem reduzindo tudo,
diminuindo a sua escala até qualquer coisa tão sombria e irreal como,
por assim dizer, uma transacção com uma mulher das ruas. Pode uma
pessoa apaixonar-se pela efígie de pedra de um cruzado morto?

— Tu perguntaste porquê — disse ela ainda com desdém. — Porque — um


suspiro —, porque és inglês, creio eu.

(De todas as vezes que ele revia esta cena em espírito manifestava a
sua estupefacção soltando o seu habitual «Raios».)
34

E, como todos os amantes inexperientes do universo, não se contentou


Mountolive com deixar correr as coisas; precisava de sondá-las e
analisá-las em profundidade. As respostas que ela lhe dava
perturbavam-no. Se ele fazia qualquer alusão ao marido, ela irritava-
se e interrompia-o.

— Amo-o. Não consinto que se fale dele sem respeito. É uma alma nobre
e eu nunca faria nada que o pudesse magoar.

— Mas... mas — balbuciava Mountolive.

Então, perante o seu ar interdito, ela punha-se a rir e abraçava-o


exclamando:

— Doido, que doido! Foi ele que me disse que te tomasse por amante.
Pensa — não foi um gesto de certo modo inteligente? Ele teme
porventura perder-me mais completamente. Nunca sentiste fome de amor?
Não sabes até que ponto o amor é perigoso?

Não, não sabia.

Mas que podia fazer um inglês com esses singulares moldes de


pensamento, com essas confusas e contraditórias lealdades? Estava
perplexo.

— Somente, é preciso que eu não me apaixone por ti. Era então por
esse motivo que ela tinha escolhido amar a Inglaterra de Mountolive e
não este? Não encontrava nenhuma resposta satisfatória. A falta de
experiência emudecia-o. Fechou os olhos e teve a impressão de cair
para trás no espaço negro. E Leila, adivinhando isso, começou a
adorar a sua inocência: em certo sentido decidiu fazer dele um homem
utilizando todo o calor e candura de que era capaz. Ele era para ela
uma espécie de amante e simultaneamente um pupilo que ela podia
conduzir à maturidade. Simplesmente (ela devia ter feito muito
claramente esta reserva na sua mente) precisava acautelar-se a fim de
evitar que ele se revoltasse contra a tutela.
35

Assim ocultou-lhe a sua própria experiência e tornou-se para ele numa


companheira da mesma idade, partilhando uma cumplicidade que de certo
modo parecia tão inocente que mesmo o remorso quase desapareceu e
Mountolive começou a ganhar, graças à amante, mais confiança e
domínio de si próprio. Tinha igualmente decidido que devia respeitar
a reserva de Leila e não se apaixonar, mas esta espécie de
dissociação é impossível para os jovens. Não conseguia isolar as
diversas necessidades da sua sensibilidade, distinguir entre o amor-
paixão e a espécie de chama alimentada por uma imaginação narcisista.
O desejo comprimia-lhe a garganta mas não encontrava nome para
qualificá-lo. E a cada passo tropeçava na sua educação inglesa. Não
podia sequer sentir-se feliz sem sentir igualmente remorsos. Mas tudo
isto não o concebia ele com muita clareza: adivinhava, ou quase, que
tinha encontrado nela mais do que uma amante, mais do que uma
cúmplice. Leila não tinha apenas uma experiência maior; apercebeu-se
Mountolive com despeito de que ela tinha uma cultura muito mais vasta
do que a sua. Mas era uma amante e uma amiga perfeita e nunca lhe fez
sentir tal coisa. Uma mulher experiente dispõe de tantos recursos!
Leila refugiava-se sempre numa ternura que se exprimia através de
estímulos verbais que lhe denunciavam a ignorância e provocavam a
curiosidade. E divertia-se a observar os efeitos que a sua paixão
provocava nele — aqueles beijos que caíam escaldantes como saliva
sobre ferro quente. Através dos olhos dela Mountolive começou a ver o
Egipto uma vez mais — mas numa dimensão diferente. Agora percebia que
ter conhecimentos idiomáticos nada é, porque Leila lhe fez sentir
como era vazio todo o conhecimento despojado de compreensão.

Anotador inveterado, o seu pequeno diário estava agora pejado de


apontamentos inspirados nas longas cavalgadas que os dois faziam, mas
eram sempre observações respeitantes ao país, porque ele não ousava
falar dos seus sentimentos nem sequer pela simples menção «o nome de
Leila».
36

Eram deste tipo:

«Domingo. Atravessando uma aldeola infestada de moscas, a minha


companheira apontou-me as inscrições nas paredes das casas,
semelhantes a caracteres cuneiformes, e perguntou-me se eu era capaz
de decifrar. Respondi que não, como um idiota, sugerindo que
possivelmente se tratava de amirico. Gargalhada. Explicou-me então
que um venerável bufarinheiro, que passa por aqui todos os seis
meses, vende uma erva especial importada de Medina e muito apreciada
aqui pela sua proveniência da cidade santa. Como nem sempre as
pessoas lhe podem pagar imediatamente, ele concede crédito mas anota,
com um caco de barro, na parede do devedor, o montante da dívida para
que nenhum se esqueça do débito.

Segunda-feira. Ali afirma que as estrelas cadentes são pedras


lançadas pelos anjos para afastar os demónios que se aproximam do
Paraíso a fim de escutar as conversas onde se enunciam os segredos do
futuro. Todos os árabes têm medo do deserto, mesmo os beduínos. Que
estranho!

Quando cai um silêncio no meio de uma conversa, dizemos «Passou um


anjo». Aqui, se o silêncio se prolonga, alguém murmura: «Wahed Dhu»
(Deus é Único) e os outros respondem fervorosamente «La Illah Illa
Allah» (Só existe um Deus) antes de retomarem a conversa
interrompida. Considero estes usos encantadores.

O meu hospedeiro utiliza uma curiosa expressão quando fala de


«retirar-se dos negócios». Diz que vai «realizar a sua alma».

Também nunca tinha experimentado o café do Yemen com uma gota de


âmbar cinzento em cada chávena. É delicioso.

Outra coisa: Mohammed Shebab, quando me encontrou, perfumou-me com


uma gota de jasmim que derramou do seu frasquinho conta-gotas — como
na Europa se oferece um cigarro a um desconhecido.

E ainda: aqui adoram as aves. Num cemitério abandonado encontrei


túmulos de mármore onde há pequenos bebedouros para os pássaros, que
as mulheres da aldeia vêm encher todas as sextas-feiras.
37

Finalmente: Ali, o administrador negro, um imenso eunuco, disse-me


que acima de tudo temem, como sinais nefastos, os olhos azuis e os
cabelos ruivos. Os anjos caídos, no Corão, têm olhos azuis».

Assim escrevia e ponderava o jovem Mountolive sobre a gente entre a


qual tinha vindo viver, com aplicação, como convém a um estudante de
costumes bizarros; mas também com uma espécie de deslumbramento,
porque descobria uma certa correspondência entre o Oriente real e
aquele que a sua imaginação tinha forjado a partir das leituras.
Havia menos disparidade aqui do que nas imagens gémeas que Leila
aparentemente embalava — uma imagem poética da Inglaterra e o seu
modelo, o jovem tímido e pouco experiente que ela tomara por amante.
Mas não era um imbecil; aprendia agora as duas mais importantes
lições da vida: a amar honestamente e a reflectir.

Contudo, outros episódios e cenas sucederam que o comoveram e


excitaram de forma diferente. Certo dia atravessaram todos a
plantação para visitar a velha ama, Halima, que vivia agora numa
honesta aposentação. Tinha sido ama e companheira dos rapazes durante
a infância.

— Ela até os amamentou quando perdi o leite — explicou Leila.

Narouz pôs-se a rir e explicou na sua voz rouca:

— Era a nossa «mastigadora». Conhece o costume? No Egipto, nessa


época, havia criados cuja obrigação consistia em mastigar os
alimentos antes de passá-los para a boca das crianças.

Halima era uma negra liberta, oriunda do Sudão, e estava também a


«realizar a sua alma», numa pequena casita de lama seca entre os
canaviais, ditosamente rodeada por numerosa descendência de filhos e
netos. Era impossível dizer que idade tinha. A visita dos Hosnani
encantou-a, e Mountolive sentiu-se impressionado vendo-os desmontar e
correr a abraçá-la.
38

Nem Leila foi menos afectuosa. E quando a velha negra se recuperou da


emoção insistiu em executar uma breve dança para honrar os
visitantes, e, coisa singular, os seus movimentos eram graciosos.
Ficaram todos em volta dela batendo as palmas a marcar o compasso, e
quando a velha acabou correram de novo a abraçá-la afectuosamente.
Esta amizade espontânea e sem afectação encantava Mountolive e quando
olhou para a amante esta leu nos olhos do jovem não somente o amor
que ele lhe tinha como um acréscimo de respeito. Ele sentia-se morrer
no desejo de estar só com ela, de beijá-la; mas escutou com paciência
a história que a velha Halima contou das qualidades da família que
lhe tinha dado os meios de visitar por duas vezes a cidade santa como
prémio dos seus serviços. Enquanto falava, a sua mão conservava-se
meigamente pousada no braço de Narouz, olhando para ele de vez em
quando com a afeição de um animal. Depois, quando ele retirou da
poeirenta sacola de caça, que nunca o abandonava, os presentes que
trouxera para a ama, no rosto desta os sorrisos e a ansiedade
sucederam-se como eclipses lunares. Chorava.

Mas Mountolive testemunhou outras cenas, porventura menos saborosas


mas não menos significativas dos costumes do Egipto. Certa madrugada
testemunhou um breve incidente ocorrido debaixo da sua janela. Um
rapazinho de pé, embaraçado, diante de um Narouz diferente, e contudo
enfrentando-o com um fulgor de coragem nos seus olhos azuis.
Mountolive ouvira as palavras «Senhor, não é mentira» proferidas em
voz baixa e nítida, enquanto lia na cama; levantou-se e encaminhou-se
para a janela a tempo de ver Narouz, que repetia, numa voz silvante e
obstinada, as palavras «Estás a mentir outra vez», realizar um acto
cuja brutalidade carnal o arrepiou; chegou a tempo de ver o seu
hospedeiro retirar uma faca do cinto e cortar uma porção do lóbulo da
orelha do rapazinho, mas lentamente, suavemente, como se pode cortar
um bago de uva do cacho utilizando uma faca de fruta.
39

Um jorro de sangue caiu sobre o pescoço do servo, que se manteve


imóvel.

— Agora podes ir — disse Narouz com o mesmo silvo diabólico — e diz a


teu pai que por cada mentira te tirarei um pedaço de carne até
encontrarmos o pedaço verdadeiro, o pedaço que não mente.

O rapazinho partiu subitamente numa corrida desordenada e desapareceu


num ápice. Narouz limpou a faca nas calças e entrou em casa
assobiando. Mountolive estava siderado!

Era a variedade destes incidentes o que mais o confundia. Certa


tarde, indo em companhia de Narouz até aos limites do deserto,
chegaram junto de uma árvore sagrada onde se via toda uma variedade
de ex-votos, feitos de pedaços de pano que os aldeãos prendiam nos
ramos quando queriam solicitar qualquer favor transcendente. Perto
encontrava-se o santuário de um velho eremita morto há muito e de
cujo nome apenas raros aldeãos se recordavam. Mas o túmulo abandonado
era ainda um lugar de peregrinação e prece para os coptas e para os
muçulmanos; foi aí que, apeando-se, Narouz disse com a maior
naturalidade:

— Faço sempre aqui as minhas orações; quer rezar comigo?

Mountolive sentiu-se um pouco desconcertado, mas desmontou e ficaram


os dois lado a lado em frente do túmulo arenoso do santo. Narouz
elevou os olhos para o céu com uma expressão de demoníaca doçura.
Mountolive imitou-lhe todos os gestos e colocou sobre o peito as mãos
postas em forma de taça. Depois baixaram ambos as cabeças e rezaram
durante um longo momento, findo o qual Narouz expeliu o ar num silvo,
como que aliviado, e persignou-se. Mountolive imitou-o profundamente
comovido.

— Bem, já rezámos — disse Narouz num tom decisivo. Montaram de novo e


retomaram a marcha sob o sol através dos campos esmagados pelo
silêncio, salvo nos lugares onde as bombas assobiavam aspirando a
água do lago para lançá-la nos canais de irrigação.
40

No fim de uma série de plantações sombrias encontraram outro som,


mais familiar, o murmúrio da sakkia do Egipto, e Narouz apurou o
ouvido deleitado.

— Escute — disse ele —, escute as sakkias. Conhece-lhes a história?


Pelo menos a que os aldeãos contam? Sabe o que é? Alexandre o Grande
tinha orelhas de burro e só uma pessoa conhecia esse segredo: o seu
barbeiro, um grego. Mas para um grego é difícil guardar segredos!
Assim o barbeiro, para aliviar a alma, foi para o campo contá-lo a
uma sakkia. E a partir desse dia as sakkias segredam melancolicamente
umas para as outras: «Alexandre tem orelhas de burro». Não é curioso?
Nessim disse-me que no museu de Alexandria há uma estátua de
Alexandre com os cornos de Amon, e esta fábula é porventura uma
sobrevivência. Quem sabe?

Cavalgaram um momento em silêncio.

— Tenho muita pena de ter que vos deixar na próxima semana — disse
Mountolive. — Passei convosco umas férias maravilhosas.

Uma curiosa expressão formou-se no rosto de Narouz, uma mescla de


dúvida e satisfação embaraçada, e entre ambas uma espécie de
ressentimento animal onde Mountolive julgou descobrir ciúme — ciúme
da mãe? Examinou o perfil severo do outro, inseguro da interpretação
a dar-lhe. Afinal de contas o que Leila fazia não lhe dizia respeito.
A menos que a sua ligação tivesse ferido os sentimentos da família
Hosnani, tão estreitamente ligada por laços de afeição? Gostaria de
se poder abrir francamente com os dois irmãos. Nessim pelo menos
havia de compreendê-lo e ter-lhe-ia concedido a sua simpatia, mas
quanto a Narouz tinha as suas dúvidas. Era difícil confiar-se-lhe. O
prazer que inicialmente lhe parecia dar a companhia do hóspede fora
gradualmente diminuindo — embora nenhuma marca exterior de
animosidade ou reserva o traísse. A coisa era mais subtil, mais
indefinível. Talvez, pensou Mountolive, tudo se reduzisse a um
complexo de inferioridade do outro?
41

Pôs-se a observar de soslaio o perfil cruel e sombrio do companheiro.

O que preocupava Narouz — e que Mountolive ignorava — fora uma


pequena cena à qual não assistira e que se desenrolou certa noite,
havia algumas semanas. Às vezes o doente insistia em deitar-se mais
tarde, ficando na varanda, na cadeira de rodas, lendo qualquer livro
técnico de agronomia. O dedicado Narouz sentava-se então na sala
vizinha e esperava, pacientemente, como um cão fiel, que o pai lhe
fizesse sinal para ser transportado ao leito; mas nunca lia. Gostava
porém de ficar ali, na luz amarelada da lâmpada, escabichando os
dentes com um fósforo e reflectindo enquanto esperava que a voz rouca
e áspera do pai o chamasse pelo seu nome.

Nessa noite devia ter adormecido porque quando deu por si reparou que
se encontrava no escuro. A claridade da Lua inundava a varanda e
iluminava uma parte da sala, mas a mão de um desconhecido apagara a
lâmpada. Levantou-se bruscamente. Ninguém na varanda. Por um momento
Narouz supôs estar sonhando porque seu pai nunca se ia deitar só. E
enquanto ali estava, de pé e perplexo, pareceu-lhe ouvir no quarto do
inválido o deslizar das rodas do carrinho. Ali estava uma inesperada
quebra de rotina. Narouz atravessou a varanda e encaminhou-se para o
corredor na ponta dos pés. A porta ficara entreaberta. Espreitou. O
quarto estava banhado pelo luar. Ouviu as rodas do carrinho chocar
com a cómoda e os dedos trôpegos do pai procurando alcançar o
puxador. Depois ouviu abrir-se uma gaveta e foi tomado de pânico
recordando que era ali que seu pai guardava o velho revólver Call.
Sentiu-se paralisado quando ouviu abrir a culatra e o inesquecível
ruído de papel amassado — um ruído que a sua memória interpretou
imediatamente. Depois os estalidos precisos das balas que se
introduzem nas câmaras do tambor. Tinha a impressão de estar a sonhar
um daqueles sonhos em que se corre a uma velocidade louca sem contudo
sermos capazes de erguer os pés do solo.
42

Quando ouviu a pancada seca da culatra avançando para a posição


normal e compreendeu que a arma estava pronta a servir, Narouz
dominou-se e preparou-se para intervir mas descobriu então que estava
paralisado. Era como se lhe tivessem atravessado a coluna vertebral
com um milhão de agulhas. Tinha os cabelos em pé. Dominado por uma
dessas temerosas inibições da primeira infância, tudo quanto foi
capaz de fazer foi dar um passo em frente e ficar à porta com os
maxilares contraídos para evitar que os dentes batessem. A Lua caía
em cheio no espelho e ele viu então o pai sentado, muito direito na
cadeira, enfrentando a sua imagem com uma expressão que Narouz nunca
contemplara antes. A face espectral e impassível tomava na
luminosidade pálida que o espelho reflectia uma expressão de onde
fora banido todo o sentimento humano, expurgada pelas emoções que a
tinham incansavelmente minado. O jovem observava o pai como
hipnotizado. (Uma vez, na sua primeira infância, tinha visto qualquer
coisa de semelhante — não tão violenta, não tão gélida, mas parecida.
Foi quando ouviu seu pai descrevendo a morte de Mahmoud, o
administrador infiel, dizer sinistramente: «Então amarraram-no a uma
árvore. Castraram-no e meteram-lhe os apêndices na boca». Quando era
criança bastava-lhe recordar-se desta frase e da expressão de seu pai
para se sentir prestes a desmaiar. Este incidente voltou-lhe à
memória com uma sobrecarga de terror quando viu o inválido olhar para
a sua imagem no espelho inundado de luar e levantar lentamente o
revólver para o apontar, não à cabeça, mas ao espelho, repetindo na
sua voz crocitante: «E se ela se apaixonar já sabes o que tens a
fazer».)

Seguiu-se um silêncio quebrado por um pequeno soluço seco e cansado.


Narouz sentiu subirem-lhe aos olhos lágrimas de simpatia, mas
continuava paralisado, incapaz de se mover, de falar ou sequer de
chorar. A cabeça do pai caiu sobre o peito e a mão que empunhava o
revólver tombou inerte; Narouz ouviu o som produzido pela arma
batendo no chão.
43

Um longo silêncio angustioso pesou no quarto, no corredor, no balcão,


nos jardins, por toda a parte... silêncio de alívio que permitiu que
o sangue do jovem voltasse a circular. (Algures, suspirando no sono,
Leila voltou-se na cama procurando para os seus braços brancos e
desejados um lugar fresco entre as almofadas.) Um mosquito solitário
começou a zumbir. O encanto quebrou-se.

Narouz voltou à varanda e ficou um momento a lutar com as lágrimas


antes de chamar «Pai» com uma voz aguda e inquieta de rapazinho.
Imediatamente se acendeu a luz no quarto, uma gaveta fechou-se e
ouviu-se rolar a cadeira. O rapaz esperou um segundo e depois ouviu o
grunhido familiar que significava estar tudo a correr bem: «Narouz».
Enxugou o nariz na manga e dirigiu-se para o quarto do velho. Seu pai
estava voltado para a porta com um livro sobre os joelhos.

— Bruto preguiçoso — disse o velho. — Não consegui acordar-te.

— Peço desculpa.

Narouz sentiu-se bruscamente inundado de alegria; era tão grande o


seu alívio que desejou ser humilhado, injuriado, maltratado.

— Sou um bruto preguiçoso, um porco sem cabeça, um punhado de sal —


reconheceu ele com deleite, desejando provocar o pai e ouvi-lo
proferir contra ele injúrias ainda mais duras; desejava banhar-se
voluptuosamente na cólera do enfermo.

— Deita-me — ordenou o inválido secamente.

E o filho debruçou-se com uma ternura sensual para retirar da cadeira


o corpo martirizado, feliz por sentir que, apesar de tudo, ainda
respirava...

Mas como poderia Mountolive saber tudo isso? Reconhecia simplesmente


em Narouz uma reserva que não verificava em Nessim. No que respeita
ao pai perturbava-o francamente a sua cabeça frouxa de doente e a
autopiedade que se emanava de toda a sua pessoa.
44

Infelizmente havia um outro conflito que um dia ou outro acabaria por


se declarar, e desta vez foi Mountolive que o desencadeou
inconscientemente tendo uma dessas gaffes que os diplomatas temem a
ponto de perderem o sono. Foi um deslize bastante absurdo mas que
permitiu ao enfermo manifestar os seus ressentimentos de uma forma
que Mountolive considerou muito característica. A coisa deu-se à
mesa, à hora do jantar, e os convivas começaram simplesmente por rir
— no meio da sua alegria não houve nenhuma malevolência e apenas se
verificou o sorridente protesto de Leila: — Mas, meu caro David, nós
não somos muçulmanos, somos cristãos, como você.

Naturalmente ele não ignorava isso. Como pudera então proferir


semelhantes palavras? Fora uma dessas observações atrozes que, uma
vez lançadas, parecem não somente indesculpáveis, mas irreparáveis
também. Nessim parecia contudo mais encantado que ofendido, e com o
seu tacto habitual segurou no pulso de Mountolive para lhe fazer
sentir que se riam do seu lapso e não dele. Mas, quando o riso se
aquietou, ele teve a consciência nítida de ter ofendido o velho que
se mantivera austero e de pedra na sua cadeira de rodas.

— Não vejo onde está a graça — disse ele crispando os dedos nos
braços da cadeira. — Este lapso exprime o ponto de vista dos
ingleses, ponto de vista que nós, os coptas, temos de combater
incessantemente. Antes da chegada dos ingleses, os coptas e os
muçulmanos viviam em boa paz. Foram eles que ensinaram os muçulmanos
a odiar os coptas e a estabelecer uma distinção. Sim, Mountolive. Os
ingleses. Lembre-se disto que eu lhe digo. — Estou desolado —
balbuciou Mountolive tentando remediar a falta.

— Pois eu não estou — disse o inválido. — É bom que possamos falar


francamente dessas coisas, porque nós, os coptas, sentimo-las do
fundo do coração. Os ingleses convenceram os muçulmanos a oprimir-
nos. Observe a Alta Comissão. Fale dos coptas aos seus amigos e verá
o desprezo que nos votam.
45

E foi esse desprezo que eles inocularam nos muçulmanos.

- Sim, certamente, Sir! — disse Mountolive tentando desesperadamente


desculpar-se.

- Certamente — confirmou o inválido com solenidade. - Nós conhecemos


a verdade.

Leila fez um gesto breve, quase um sinal, para impedir o marido de se


lançar a fundo numa arenga, mas ele não lhe prestou atenção.
Recostou-se na cadeira mastigando um pedaço de pão e prosseguiu:

— Mas que sabe você, que sabem os ingleses dos coptas, se é que
alguma vez se preocuparam com conhecê-los? Uma obscura heresia
religiosa, pensam eles, uma linguagem alterada com uma liturgia
irremediavelmente mesclada de elementos árabes e gregos. Sempre foi
assim. Quando os primeiros cruzados tomaram Jerusalém, foi
expressamente proibido aos coptas penetrar na cidade — a nossa cidade
santa. Os cristãos do Ocidente nem sequer sabiam distinguir entre os
muçulmanos que os tinham derrotado em Askelon e os coptas — o único
ramo da Igreja que foi totalmente integrado no Oriente! E quando o
vosso bispo de Salisbury declarou abertamente que considerava esses
cristãos orientais mais execráveis que os infiéis, os vossos cruzados
massacraram-nos alegremente.

Uma expressão de amargura, traduzida num sorriso cruel, iluminou-lhe


brevemente a face. Depois, retomando aquele ar taciturno habitual e
passando a língua pelos lábios, mergulhou novamente numa discussão
que Mountolive compreendeu subitamente viver latente no espírito do
velho desde a sua primeira visita. Tinha ruminado desde sempre
aquelas palavras e só esperara o momento azado para soltá-las. Narouz
contemplava o pai com um olhar de adoração, tentando imitar-lhe a
expressão, radiante de orgulho ao ouvir pronunciar as palavras a
nossa cidade santa, encolerizando-se ao ouvir citar o bispo de
Salisbury. Leila, pálida, olhava para a varanda, como se estivesse
ausente; somente Nessim se conservava grave, sem perturbação.
46

Tinha os olhos fixos no pai, com simpatia e respeito, mas sem traço
de emoção. O rosto conservava-se ainda distendido pelo sorriso que
precedera o debate.

— Sabe como nos chamam os muçulmanos? — prosseguiu Hosnani, e a


cabeça oscilou-lhe de novo sobre o frágil suporte do pescoço. — Vou
dizer-lhe. Gins Pharoony. Sim, nós somos genus Pharaonicus — os
autênticos descendentes dos antigos, a própria essência do Egipto.
Nós próprios nos apelidamos de Gypt — os velhos egípcios. Somos
cristãos como você mas de uma linhagem mais antiga e mais pura. E
fomos sempre o cérebro do Egipto, mesmo nos tempos do quediva. A
despeito das perseguições, éramos merecedores de honras, e o nosso
cristianismo foi sempre respeitado. Aqui, no Egipto, e não lá, na
Europa. Sim, os muçulmanos, que odiaram os gregos e os judeus,
reconheceram nos coptas os verdadeiros representantes do Egipto
antigo. Quando Mohammed Ali chegou ao Egipto entregou todos os
assuntos financeiros nas mãos dos coptas. Ismail, o seu sucessor, fez
o mesmo. Se estudar o assunto descobrirá que o Egipto foi sempre
virtualmente governado por nós, os coptas desprezados, porque temos
mais inteligência e integridade que os outros. Quando Mohammed Ali cá
chegou encontrou um copta dirigindo todos os negócios do Estado e
nomeou-o grão-vizir.

— Ibrahim El Gohari — disse Narouz com o ar radiante de um aluno que


sabe a lição.

— Exactamente — disse o pai com ar não menos radiante. — Era o único


egípcio que tinha autorização para fumar o seu cachimbo na presença
do primeiro dos quedivas. Um copta!

Mountolive maldizia a leviandade que lhe estava valendo aquela


preleção, mas ao mesmo tempo escutava-a muito atento. Era óbvio que
aqueles agravos tinham produzido sulcos profundos nos seus
hospedeiros.

— E quando Gohari morreu quem foi escolhido por Mohammed Ali?

— Ghali Doss — disse Narouz orgulhosamente.


47

- Exacto. Como chanceler do Tesouro tinha acesso a todas as rendas e


impostos. Era um copta. Outra vez um copta. E seu filho Basílio foi
nomeado bey e membro do Conselho Privado. Esses homens governaram o
Egipto honradamente; e grande número deles recebeu altos cargos.

— Sedarous Takla em Enesh — disse Narouz —, Shehata Hasaballah em


Assiout, Girgis Yacoub em Beni-Souef.

Os seus olhos brilhavam enquanto recitava aquela litania de honras


coptas, e tinha o ar de uma serpente estendendo-se ao sol da
aprovação paterna.

— Sim! — bradou o inválido batendo com o punho no braço da cadeira. —


Sim! E mesmo sob Said e Ismail os coptas tiveram o seu papel. Em cada
província o procurador era um copta. Compreende o que significa essa
confiança concedida a uma minoria cristã? Os muçulmanos sabiam com
quem estavam tratando, sabiam que éramos em primeiro lugar egípcios e
só depois é que éramos cristãos. Egípcios cristãos — já alguma vez,
vocês, os britânicos, com as vossas ideias românticas a respeito dos
muçulmanos, haveis pensado no significado destas palavras? Os únicos
cristãos orientais completamente integrados num estado muçulmano?
Seria o sonho dos alemães serem capazes de descobrir uma tal chave
para o Egipto, não acha? Os cristãos em todos os postos de confiança,
nas posições-chaves, como mudirs, governadores, etc. O ministro da
guerra de Ismail era um copta.

— Ayad Bey Hanna — acrescentou Narouz.

— Sim. E sob Arabi o ministro da Justiça foi um copta. E o mestre das


cerimónias. Ambos coptas. E outros, muitos outros.

— E como se modificou a situação? — perguntou Mountolive calmamente.

O enfermo aprumou-se na sua carapaça de cobertores e apontou para o


seu convidado um dedo trémulo e acusador:

— Foram os ingleses que mudaram tudo com o seu ódio contra os coptas.
48

Gorst estabeleceu relações diplomáticas amigáveis com o quediva Abbas


e o resultado das suas intrigas foi que em pouco tempo não se
encontrava um único copta nem na corte nem na administração das
províncias. E quem falasse com a camarilha desse homem bestial,
corrompido pelo ouro inglês, ficaria convencido de que era na parte
cristã da nação que se encontrava o inimigo. Permita-me que lhe leia
uma coisa...

— «Quando os ingleses tomaram o Egipto, os coptas ocupavam postos


importantíssimos na gerência do Estado. Em menos de um quarto de
século quase todos os governadores provinciais coptas tinham
desaparecido. Antes dos ingleses, julgavam nos tribunais juízes
coptas, mas, pouco a pouco, o seu número foi reduzido a zero; o
processo de transferi-los e impedi-los de ocupar novos lugares
continuou até reduzi-los a um estado de desânimo, quase de
desespero!» Foi um inglês quem escreveu estas palavras, o que só o
honra.

Fechou o livro e prosseguiu:

— Hoje, sob o domínio inglês, o acesso aos postos de governador ou


mesmo de Mamur — o magistrado administrativo provincial — está
interdito aos coptas. Mesmo os que trabalham para o governo são
obrigados a trabalhar ao domingo, porque, por deferência para com os
muçulmanos, a sexta-feira é que foi considerada dia de descanso.
Nenhuma disposição foi tomada para que os coptas possam praticar o
seu culto. Nem sequer se encontram devidamente representados nos
conselhos do governo. Pagam impostos pesadíssimos para a educação mas
nem um cêntimo se destina a um estabelecimento de educação cristã. A
educação é inteiramente islâmica. Mas não desejo aborrecê-lo com a
enumeração de todas as nossas queixas. Quero simplesmente que
compreenda por que motivo sentimos que os ingleses nos odeiam e
perseguem.

— Não posso convencer-me de que seja assim — replicou Mountolive


frouxamente, oprimido pela virulência da crítica e não sabendo como
responder-lhe.
49

Todos aqueles problemas eram novos para ele, cujos conhecimentos se


limitavam aos colhidos na obra de Lane, considerada como o vero
evangelho do Egipto. O doente sacudiu de novo a cabeça, como para
fortalecer o seu ponto de vista. Narouz, cujo rosto reflectira os
diversos sentimentos daquela conversa, imitou-o. Depois o pai apontou
para o filho mais velho.

— Veja, olhe para Nessim. Um autêntico copta. Brilhante, reservado.


Não acha que o seu verdadeiro lugar seria na diplomacia egípcia? Como
futuro diplomata, você pode julgar melhor do que eu. Mas não. Será um
homem de negócios porque nós, os coptas, sabemos que é inútil,
inútil.

Bateu novamente no braço da cadeira e a saliva apareceu-lhe nas


comissuras dos lábios. Mas era esta a oportunidade que Nessim
esperava. Tomando a manga do pai beijou-a submisso, dizendo ao mesmo
tempo com um sorriso:

— Mas David aprenderá isso tudo de qualquer maneira. Por agora basta.

E voltou-se a sorrir para a mãe, que deu o sinal de paz ordenando aos
criados que prosseguissem no serviço.

Beberam o café num silêncio embaraçado, na varanda onde o inválido se


conservou de parte, o olhar perdido na noite, e todas as tentativas
feitas para generalizar a conversa falharam rapidamente. O doente,
seja feita justiça, sentia-se agora envergonhado da sua explosão.
Tinha jurado nunca levantar a questão na presença do seu convidado e
sentia que violara as leis da hospitalidade. Mas não via de que
maneira podia contribuir agora para restabelecer as relações cordiais
momentaneamente deterioradas.

Foi outra vez Nessim quem salvou a situação levando Leila e


Mountolive ao roseiral, onde todos três passearam um momento em
silêncio na noite embalsamada de perfumes que apaziguaram os seus
espíritos.
50

Quando se afastaram o bastante da varanda para não correrem o risco


de serem ouvidos, Nessim disse num tom casual:

— David, espero que as palavras de meu pai não o tenham ofendido. São
coisas que o atormentam bastante.

— Bem sei.

— E sabe — acrescentou Leila vivamente, desejando pôr termo àquilo e


restabelecer a atmosfera normal de cordialidade —, o que ele lhe
disse é justo, a despeito da maneira que utilizou para se exprimir. A
nossa posição está longe de ser invejável e deve-se inteiramente aos
ingleses. Agora formamos uma espécie de sociedade secreta, por certo
a mais brilhante, mas que foi outrora a comunidade essencial do nosso
país.

— Não consigo compreender isso — disse Mountolive.

— Não é difícil — disse Nessim com desenvoltura. — A igreja militante


dá-lhe a chave do enigma. Não lhe parece estranho que, para nós,
nunca tenha havido conflito entre a cruz e o crescente? Esse conflito
foi uma criação puramente ocidental, tal como a noção da crueldade
muçulmana. Os muçulmanos nunca perseguiram os coptas por motivos
religiosos. Pelo contrário, o próprio Corão respeita Jesus como um
verdadeiro profeta, um precursor de Maomet. Há dias Leila citou-lhe o
retrato do menino Jesus num dos suras... lembra-se. Insuflando a vida
nas avezinhas que modelava em terra na companhia de outras
crianças...

Recordo-me, sim

— E no túmulo de Maomet — disse Leila — existe uma câmara vazia que


espera o corpo de Jesus. Segundo a profecia ele deve ser enterrado em
Medina, a fonte do Islão, lembra-se? E aqui, no Egipto, os muçulmanos
respeitam e veneram o Deus cristão. Mesmo agora. Pergunte a quem
quiser. Pergunte a qualquer muezzin.

(Era o mesmo que dizer: (Pergunte a qualquer homem que fale verdade —
porque um homem impuro, um ébrio, um louco ou uma mulher não podem
ser investidos na dignidade de convocar os muçulmanos para a oração.)
51

— Vocês ficaram no tempo das cruzadas — disse docemente Nessim em tom


irónico, mas sempre com o sorriso nos lábios. Depois afastou-se num
passo ligeiro por entre as rosas deixando-os sós. Logo a mão de Leila
procurou a de Mountolive.

— Não te aflijas — disse ela em voz diferente. — Algum dia voltaremos


ao cume, com ou sem a vossa ajuda. Somos teimosos!

Sentaram-se juntos num banco de mármore falando de coisas diferentes,


agora que se encontravam sós.

— Que escuro! Não vejo senão uma estrela. É sinal de nevoeiro. Sabes
que no Islão todo o homem tem uma estrela que lhe pertence desde que
nasceu e o acompanha até à morte? Talvez aquela estrela seja a tua,
David Mountolive.

— Ou a tua?

— Brilha demais para ser a minha. As estrelas empalidecem à medida


que envelhecemos. A minha deve estar muito pálida. Já percorri mais
de metade do meu caminho. E quando tu partires ela empalidecerá ainda
mais.

Beijaram-se. Depois fizeram projectos de se encontrarem o mais


depressa possível; Mountolive declarou-lhe as suas intenções de
regressar sempre que tivesse uma licença.

— Mas tu não ficarás muito tempo no Egipto — disse ela olhando-o com
um sorriso fatalista. — Serás nomeado em breve. Só pergunto para onde
te mandarão. Tu hás-de esquecer-nos... mas não, os ingleses são
sempre fiéis aos velhos amigos, não é verdade? Beija-me.

— Não pensemos nisso agora — disse Mountolive; sentia-se desfalecer à


ideia da próxima partida. — Falemos de outra coisa. Olha, fui ontem a
Alexandria procurar prendas para oferecer a Ali e aos outros criados.

— E que trouxeste?

Tinha comprado água de Meca, nas garrafas azuis com o selo da fonte
sagrada de Zem-Zem. Pensava oferecê-las à despedida.
52

— Pensas que eles as aceitarão de um infiel? — perguntou ele


inquieto, e eia ficou encantada.

— Que bela ideia, David! Típica e delicada. Oh, que havemos de fazer
quando te fores embora?

Ele sentiu-se absurdamente satisfeito consigo próprio. Era possível


imaginar que um tempo viria em que eles não mais se poderiam beijar
assim ou permanecer sentados de mãos dadas, na noite, sentindo o
pulso do outro marcar o tempo que fugia em silêncio — os limites
mortos das experiências passadas? Afastou do espírito este pensamento
— resistia mal às verdades cruéis. Leila dizia agora: — Não receies
nada. Já pensei no plano das nossas relações para os anos que se vão
seguir; não rias... será talvez ainda melhor quando deixarmos de ser
amantes e começarmos... o quê? Não sei — quando pensarmos um no outro
numa posição neutra; como amantes, quero dizer, que foram obrigados a
separar-se; que talvez nunca devessem ter sido amantes; escrever-te-
ei com frequência. Será uma nova aventura que começará para nós dois.

— Peço-te que te cales — disse ele sentindo o desespero invadi-lo.

— Porquê? — disse ela; depois, voltando a sorrir, beijou-o suavemente


nas fontes. — Tenho mais experiência que tu. Veremos.

Sob a aparente leviandade de Leila ele reconhecia algo de forte,


resistente e duradouro — as próprias características de uma
experiência que lhe faltava. Leila era uma criatura valorosa e só os
bravos sabem conservar-se alegres na adversidade. Mas na noite que
precedeu a partida ela não veio visitá-lo ao quarto, quebrando a sua
promessa. Era bastante mulher para desejar aguçar as dores da
separação a fim de tornar mais prolongado o seu efeito. E a expressão
de Mountolive na manhã seguinte, ao pequeno almoço, encheu-a da mais
pura alegria; ele sofria evidentemente.

Acompanhou-o a cavalo até ao embarcadouro mas a presença de Nessim e


Narouz impedia qualquer intimidade, o que também lhe convinha.
53

Com efeito nada mais havia a dizer entre os dois. E ela desejava
acima de tudo evitar as repetições que acabam por degradar o amor.
Desejava que o rapaz conservasse dela uma imagem clara: porque Leila
via nesta separação uma amostra, por assim dizer, de uma separação
mais definitiva e fina], uma separação que, se estavam destinados a
só manter o contacto através das cartas, podia fazer-lhe perder
Mountolive. Não se pode escrever mais de uma dúzia de cartas de amor
sem sentir a necessidade de novos temas. A mais rica das experiências
humanas é também a mais limitada nos seus meios de expressão. As
palavras matam o amor como matam tudo o mais. Ela já tinha decidido
colocar as suas relações num outro plano, mais rico; mas Mountolive
era ainda demasiado jovem para aproveitar o que ela lhe podia
oferecer: os tesouros da sua imaginação. Devia deixar que o tempo o
amadurecesse. Ela sentia que o amava, embora se resignasse a não
tomar a vê-lo. O seu amor tinha já aceitado e dominado o afastamento
do seu objecto — a sua própria morte! Este pensamento, que se
apresentava no seu espírito com tão grande acuidade, dava-lhe sobre
ele uma prodigiosa vantagem, porque, enquanto ele se debatia ainda no
mar agitado das emoções e dos desejos, dos amores próprios e de todos
os ilogismos e de todas as angústias de um amor mordente, ela já
colhia forças e confiança na natureza irremediavelmente desesperada
do seu caso. O orgulho da sua inteligência emprestava-lhe novas e
insuspeitadas forças. E embora uma parte do seu espírito se sentisse
feliz por vê-lo sofrer e se preparasse para a ideia de não voltar a
encontrá-lo, ela sabia entretanto que já o tinha possuído e,
paradoxalmente, despedir-se dele era fácil.

Separaram-se no embarcadouro e todos os quatro se entregaram aos


demorados abraços do adeus. Era uma bela manhã, com farrapos de
nevoeiro a apagar os contornos do grande lago. Nessim mandara vir um
carro que o esperava na outra margem, debaixo de uma palmeira,
pequena mancha negra e trémula.
54

Subindo para o barco, Mountolive lançou em redor um olhar apaixonado,


como se desejasse encher a memória para sempre com os detalhes desta
terra e das feições que lhe sorriam desejando-lhe felicidades. «Até à
vista», gritou ele, mas na sua voz Leila descobriu toda a ansiedade e
dor que o oprimia. Narouz acenou com o braço curvado, sorrindo o seu
sorriso torvo; Nessim passou um dos braços em torno dos ombros de
Leila enquanto acenava com o braço livre, sabendo perfeitamente o que
ela sentia, embora fosse incapaz de encontrar palavras para
sentimentos tão equívocos e sinceros.

A barca desatracou. Estava tudo acabado.


II

A nomeação verificou-se nos fins desse Outono. Foi uma surpresa ver-
se afectado à Legação de Praga, pois tinham-lhe dado a entender uma
colocação no Consulado do Levante, onde a sua experiência do árabe
poderia ser útil. Mas, vencida a decepção, aceitou a sua sorte e
entregou-se à contradança que o Foreign Office pratica com uma
eloquente impersonalidade. A sua única consolação, bem fraca, aliás,
foi descobrir que nenhum dos seus colegas conhecia melhor que ele a
língua ou os costumes do país. A Legação contava com dois peritos em
assuntos japoneses e três especialistas em negócios da América
Latina. Todos crispavam o rosto com melancólica unanimidade perante
as singularidades da língua checa e contemplavam das janelas dos
gabinetes as perspectivas enevoadas de um solene e sinistro presságio
eslavo. Tinha finalmente entrado na carreira.

Só conseguira ver Leila uma meia dúzia de vezes em Alexandria — e


esses encontros tinham sido mais dolorosos que excitantes devido a
serem obrigados a guardar cada vez maior discrição. Devia sentir-se
feliz como um cãozinho — mas de facto convenceu-se de que era um
patife. Só voltou uma vez ao domínio dos Hosnani, onde passou três
dias maravilhosos de férias — e ali, pelo menos, a presença dos
lugares ainda quentes deu-lhe alento; mas foi muito rápido — como um
último e fugitivo lampejo da precedente Primavera.
56

Leila pareceu-lhe fenecer, a retirar-se da curvatura de um mundo em


movimento incessante, a separar-se das memórias que ele conservava da
amante. O proscénio da sua nova existência começava a povoar-se com
os brinquedos brilhantes e coloridos da sua vida profissional –
banquetes, aniversários, e todo um mundo de atitudes inteiramente
novo para ele. O seu espírito começava a dispersar-se.

Para Leila as coisas eram diferentes; estava já tão voltada para a


recriação da sua personalidade no novo papel que tinha escolhido –
que desejava diariamente, na intimidade do seu espírito – e com
grande surpresa sua verificou esperar com impaciência que a separação
fosse definitiva, que o laços de outrora quebrassem totalmente. Era
como um actor incerto do desempenho do seu novo papel mas que anseia
pelo momento de entrar no palco. Ela esperava o que mais temia: poder
finalmente pronunciar a palavra «adeus».

Mas a primeira e lúgubre carta que Mountolive lhe escreveu de Praga


despertou nela uma exaltação muito nova, porque finalmente se sentia
prestes a possuí-lo como desejava, com toda a avidez do seu espírito.
A diferença de idades, que o tempo acentuava cada vez mais, como as
fendas separam os campos de gelo, afastava os seus corpos para fora
de qualquer alcance. Não havia permanência em nenhuma das recordações
que a carne podia evocar na sua linguagem de promessas e de palavras
meigas, pois estas estavam já comprometidas por uma beleza cujo viço
se ia desvanecendo. Mas ela calculava que os seus recursos interiores
eram suficientemente fortes para guardá-lo para si, naquele sentido
especial mais querido à maturidade, se simplesmente tivesse a coragem
de colocar a mente no lugar do coração. Ela não tinha ilusões e sabia
que se pudessem entregar-se aos seus desejos, sem limitações, a
ligação não duraria mais de um ano. Mas a distância e a necessidade
de colocar as suas relações num novo terreno tiveram por efeito
renovar a imagem que guardavam um do outro.
57

Para ele, a imagem de Leila nunca se deformava, mas sofria uma nova e
perturbadora transmutação à medida que tomava forma no papel. Ela
acompanhou a sua evolução em longas e ardentes cartas que traíam
apenas uma fome tão devoradora como qualquer outra fome de carne: a
fome de amizade, o medo de ser esquecida.

De Praga, de Oslo, de Berna, esta correspondência prosseguiu, as


cartas aumentando ou diminuindo de tamanho mas sempre constantes ao
espírito que as dirigia — o vivo e delicado espírito de Leila.
Mountolive, amadurecendo, encontrou nestas cartas escritas em inglês
ou em francês um estimulante para o seu desenvolvimento. Ela plantava
ideias no solo macio de uma vida profissional que apenas reclamava
encanto e reserva — como um jardineiro planta estacas para uma
trepadeira. Se o primeiro amor se estiolou, um outro desenvolveu-se a
seu lado. Leila tornou-se no seu guia, na sua confidente, na sua
única fonte de coragem. Foi por ela que se obrigou a escrever num
francês e num inglês impecáveis. Que aprendeu a apreciar coisas que,
normalmente, teriam sido alheias à órbita dos seus interesses —
pintura e música. Informava-se para informá-la.

«Dizes que irás a Zagreb no próximo mês. Por favor descreve-me a


cidade...», escrevia ela, ou: «Que sorte ires a Amsterdão; existe aí
uma retrospectiva de Klee que recebeu uma crítica favorável da
Imprensa francesa. Por favor vai vê-la e dá-me as tuas impressões,
francamente, mesmo desfavoráveis. Nunca tive a sorte de ver um
original». Era esta a paródia do amor de Leila: um namoro intelectual
onde os papéis se tinham invertido; porque ela estava privada das
riquezas da Europa e se nutria das suas extensas cartas e dos livros
que ele lhe remetia com uma espécie de sofreguidão. O jovem
encontrava-se incessantemente sob pressão para satisfazer os pedidos
de Leila, e viu abrirem-se bruscamente de par em par todas as portas
da pintura, da arquitectura, da música e da literatura.
58

Ela forneceu-lhe assim uma educação quase gratuita num mundo onde ele
jamais se teria aventurado sozinho. E onde se afundava lentamente a
antiga dependência da sua juventude, crescia outra nova. Mountolive,
no sentido mais estrito do termo, tinha encontrado uma mulher a seu
gosto.

O antigo amor metamorfoseou-se lentamente em admiração até que o seu


desejo físico dela (tão irritante no princípio) se transformou numa
ternura despersonalizada e devoradora, que, em vez de diminuir, mais
se nutria com a ausência. No fim de alguns anos ela podia confessar:
«Sinto-me hoje mais perto de ti, sobre o papel, do que antes da nossa
separação. Porque será?» Ela sabia-o bem demais. Mas acrescentou por
um prurido de honestidade. «Este sentimento não é um pouco mórbido? E
estas extensas cartas, David — não se assemelham ao agridoce comércio
de uma Severina com o seu sobrinho Fabrício? Pergunto a mim própria
algumas vezes se eles não foram amantes — são tão íntimas e ardentes
as suas relações. Stendhal é omisso. Gostaria de conhecer a Itália.
Será que me tornei numa tia com o decorrer da idade? Não respondas a
esta pergunta, mesmo que saibas a verdade. Mas é uma felicidade, num
sentido, sermos ambos uns solitários, com grandes espaços virgens no
coração — como os primeiros mapas africanos — e que precisemos ainda
um do outro. Quero dizer, tu, como um filho único a quem só resta a
mãe, e eu... bem, eu tenho muitas preocupações mas vivo dentro de uma
gaiola apertada. A tua descrição da bailarina e da paixoneta que
sentiste divertiram-me e comoveram-me; estou-te muito grata por me
teres contado. Toma cuidado, meu querido, não te deixes ferir».

A confiança entre os dois era tal que ele se podia permitir confiar-
lhe, sem omitir um pormenor, as raras aventuras sentimentais que lhe
sucediam: a sua ligação com a Grishkin, que esteve para enleá-lo num
casamento prematuro; a sua paixão infeliz pela amante de um
embaixador que o expôs a um duelo e podia ter-lhe custado a carreira.
59

Se ela sentia ciúmes ocultava-os magistralmente e prodigalizava


conselhos e consolações com um desinteresse caloroso. A regra entre
os dois era a absoluta franqueza, e às vezes as liberdades
deliberadas de Leila chocavam-no, fundadas como eram nesses exames de
consciência que só se lançam ao papel quando não temos ninguém a quem
contar oralmente. Assim, por exemplo, ela escreveu-lhe. «Foi para mim
um choque ver repentinamente o corpo nu de Nessim flutuando no
espelho, de tal modo as suas costas e a sua cintura delgada me
recordaram as tuas. Sentei-me e, com grande surpresa minha, desatei a
chorar perguntando a mim mesma se o meu amor por ti não ia buscar as
suas raízes a qualquer desejo incestuoso profundamente oculto no meu
coração. Sou tão ignorante dos subterrâneos do sexo que os médicos
hoje exploram com tão grande minúcia! As suas descobertas assustam-
me. E depois pensei que talvez houvesse em mim um pouco de vampiro,
agarrando-me como me agarro a ti, que hoje deves ser muito mais
evoluído do que eu... Que pensas disto? Escreve-me para me
tranquilizar, mesmo que estejas a preparar-te para ir ter com a
pequena Grishkin. Remeto-te uma fotografia recente para que vejas a
que ponto envelheci. Mostra-lha e diz-lhe que muito me penalizaria se
ela sentisse ciúmes. Um olhar bastará para lhe devolver a paz do
coração. Não quero esquecer-me de te agradecer o telegrama no dia do
meu aniversário — acreditei por um momento ver-te sentado na varanda,
conversando com Nessim. Ele agora está tão rico e tão independente
que é raro vir fazer uma visita ao domínio. Ocupadíssimo com os
grandes negócios que o prendem na cidade. Contudo... sente muito a
minha falta, como eu gostaria que tu também sentisses; mais
fortemente ainda do que se vivêssemos juntos. Trocamos cartas
extensas e frequentes; os nossos espíritos completam-se
admiravelmente, mas guardamos a liberdade dos nossos corações. Graças
a ele espero que um dia os coptas voltem a encontrar o seu antigo
esplendor — mas basta por agora...».
60

Lúcidas, calmas, radiantes, as palavras corriam-lhe da pena, na sua


grande caligrafia espalhada sobre folhas de cores diferentes, cartas
que ele abriria com sofreguidão nos jardins de qualquer remota
Embaixada, lendo-as e formulando a meia voz a resposta que lhe
remeteria na volta do correio. Agora dependia inteiramente daquela
amizade que lhe ditava sempre, como uma fórmula, as palavras «Meu
amor querido» no topo de cartas que tratavam apenas de, por exemplo,
assuntos de arte, ou de amor (o dele), ou da vida (a dele).

Mountolive era também de uma escrupulosa honestidade para com ela —


como, por exemplo, quando lhe falava na bailarina: «É certo que me
passou pela cabeça a ideia de casar com ela. Devia estar muito
apaixonado. Mas ela curou-me a tempo. Como sabe, eu não falo a língua
da rapariga e isso impediu-me de descobrir a sua vulgaridade.
Felizmente ela arriscou por uma ou duas vezes certas familiaridades
em público que me gelaram; certo dia em que todo o corpo de baile foi
convidado para uma recepção, encontrei-me sentado ao lado dela e
pensei que se conduziria discretamente, dado que todos os meus
colegas ignoravam a ligação. Imagina o que ela se divertiu e o meu
horror quando a rapariga, a meio da ceia, resolveu dar-me uma
palmadinha na nuca, uma carícia grosseira e odiosa! O caso estava
arrumado para mim. Mas compreendi a tempo, e mesmo a sua desgraçada
gravidez pareceu-me uma habilidade demasiado transparente. Eu estava
curado».

Quando por fim se separaram, a Grishkin, em ar de troça, disse-lhe:


«Tu não passas de um diplomata! Não tens nem política nem religião!»
Mas foi a Leila que ele pediu para decifrar o sentido desta acusação.
E foi Leila quem discutiu o assunto com ele com a brilhante e
disciplinada ternura de uma velha amante.

Assim, habilidosamente, ela guiou-o ano após ano até que a sua
inexperiência juvenil deu lugar a uma maturidade comparável à dela.
61

Embora fosse apenas um dialecto de amor que eles falavam, bastava


para ela e absorvia-o a ele; e contudo Mountolive era incapaz de
classificá-lo ou analisá-lo.

E pontualmente, enquanto os anos se sucediam no calendário e ele


mudava de lugares, a imagem de Leila era projectada com as cores e as
experiências dos países que passavam diante dele: Japão constelado de
cerejeiras, Lima dos narizes aquilinos, Portugal melancólico e
insípido, Helsínquia afogada em neve. Mas nunca o Egipto, a despeito
de todos os seus requerimentos nesse sentido. Chegava a pensar que o
Foreign Office nunca mais lhe perdoaria ter aprendido o árabe, e até
que o colocavam deliberadamente em países que lhe tornassem difícil,
mesmo impossível, ir passar as licenças no Egipto. Mas o laço
continuava apertado. Encontrou duas vezes Nessim em Paris e foi tudo.
Ficaram encantados um com o outro e com as respectivas mundanidades.

Por fim resignou-se. A sua profissão, que valorizava apenas o bom-


senso, a frieza e a reserva, ensinou-lhe a mais cruel e paralisante
das lições: nunca devia emitir um juízo desfavorável. Ofereceu-lhe
também uma espécie de longo treino jesuítico na arte de apresentar ao
Mundo uma superfície polida sem aprofundar a sua experiência humana.
Se a sua personalidade não se diluiu completamente, foi unicamente
graças a Leila; vivia rodeado de colegas ambiciosos e aduladores que
só lhe ensinaram a ser excelente nas manhas da lisonja e das
complacências que aplanam o caminho da promoção. A sua vida real
tornou-se numa corrente subterrânea que raramente emergia nesse mundo
artificial onde os diplomatas vivem e onde ele se sentia sufocar.
Sentia-se feliz, infeliz? Não sabia. Sentia-se só, era tudo quanto
podia dizer. E várias vezes, animado por Leila, pensou em amenizar a
sua solidão de espírito (que atingia o egocentrismo) pelo casamento.
Mas, a despeito de todos os bons partidos que lhe apresentavam,
descobriu que só se sentia atraído por mulheres casadas e muito mais
velhas que ele.
62

As estrangeiras estavam fora de cogitação porque os casamentos mistos


eram um entrave à promoção. Na diplomacia, como nas demais
profissões, há bons e maus casamentos. Mas, à medida que os anos
decorriam, ele via-se a subir os degraus — mercê de expedientes,
compromissos e muito trabalho — que conduzem à antecâmara do poder
diplomático: o posto de conselheiro ou de ministro. Depois, o belo
sonho que ele tinha acabado por enterrar ressuscitou, emergiu do
passado, bem real, radiante como uma inesperada miragem: ergueu-se
certo dia, na força da vida, para saber que o título tão invejado de
Cavaleiro lhe tinha sido outorgado, bem como outra coisa ainda mais
desejável: ofereciam-lhe a Embaixada do Egipto, durante tanto tempo
recusada...

Mas Leila não seria mulher se não tivesse sido capaz de um momento de
fraqueza, que por um pouco ia sendo fatal a todo o edifício daquelas
relações. A morte do marido foi o pretexto. Mas um castigo romanesco
prevaleceu lançando-a numa solidão ainda mais profunda, que num
momento de euforia ela sonhara abandonar. E talvez fosse um bem,
pois, de outro modo, tudo se podia ter perdido.

Houve um longo silêncio depois do seu telegrama anunciando a morte de


Faltaus; depois uma carta, de natureza muito diferente das
anteriores, cheia de hesitações e ambiguidades. «A minha indecisão
está a transformar-se em autêntica tortura. Estou realmente perplexa.
Quero que penses muito maduramente na proposta que te vou fazer.
Estuda-a, e se a menor sombra de desagrado se levantar no teu
espírito, a mínima reserva, abandonamo-la e não pensamos mais nela.
David! Hoje, olhando para o espelho, friamente e objectivamente como
é meu hábito, descobri que acarinhava uma ideia que durante muitos
anos repelira firmemente: a ideia de tornar a ver-te. Simplesmente,
não vejo em absoluto em que plano situar esse encontro, nem as suas
condições. Quando tento imaginá-lo, o meu espírito cobre-se
imediatamente de nuvens.
63

Agora, que Faltaus morreu, toda essa parte da minha existência


desapareceu. Tudo o que me resta é o que partilho contigo: uma
existência de papel. Concordemos sinceramente que derivámos na
corrente dos anos e que envelhecendo nos afastámos um do outro.
Talvez eu esperasse inconscientemente a morte de Faltaus, embora a
não desejasse nunca. De outra forma como explicar esta esperança,
esta ilusão que se ergueu bruscamente dentro de mim? Esta noite
pensei que talvez nos restem seis meses ou um ano de felicidade
completa antes de as nossas relações se extinguirem para sempre.
Tolices, porventura? Sim! Seria para ti um embaraço ver-me
desembarcar em Paris, dentro de dois meses, como tenciono fazer? Pelo
amor de Deus responde-me sem demora e desengana-me, dissuade-me de
cometer tal loucura — pois reconheço que se trata de uma verdadeira
loucura. Mas... ter-te só para mim, durante algumas semanas, antes de
regressar ao Egipto para sempre... ah, como custa renunciar a tal
esperança! Arranca-a sem contemplações; de tal modo que quando eu
vier me encontre em paz, olhando para ti simplesmente (como tenho
feito em todos estes anos) como um pouco mais que o meu melhor
amigo».

Ela sabia que era desleal colocá-lo perante tal facto, mas não pôde
evitar. O destino não lhe permitiu executar tal projecto (foi talvez
um bem) porque a sua carta chegou às mãos de Mountolive ao mesmo
tempo que um telegrama de Nessim participando-lhe a doença da mãe. E
enquanto ele hesitava ainda na escolha de uma resposta, recebia um
bilhete postal, numa caligrafia informe, que o dispensou de tomar
qualquer decisão: «Não escrevas enquanto eu não estiver em condições
de poder ler; estou ligada dos pés à cabeça. Sucedeu-me qualquer
coisa de terrível e definitivo».

Durante esse longo e tórrido Estio, a varicela confluente — o remédio


mais cruel inventado contra a vaidade humana — prosseguiu na sua obra
e massacrou o que restava de uma beleza outrora célebre. Era inútil
conservar ilusões.
64

Toda a sua vida estava alterada. Mas como? Mountolive esperava numa
agonia de incerteza que a correspondência recomeçasse, e escrevia ora
a Nessim ora a Narouz. Debaixo dos seus pés abrira-se bruscamente um
abismo.

E finalmente: «É uma estranha experiência ver o nosso próprio rosto


crivado de craterazinhas e ranhuras, como uma paisagem familiar
depois de uma explosão. Temo ter de me acomodar à sensação de me
haver tornado numa velha feiticeira. Mas por minha própria vontade.
Provavelmente tudo isto fortalecerá outros aspectos do meu carácter —
como fazem os ácidos. Perdi a metáfora! Ah! Tudo isso são sofismas,
porque a verdade é que não há saída. Como me envergonho da minha
última carta. O meu rosto não ficou em condições de ser exibido na
Europa e nunca eu cometeria a afronta de aparecer com ele em público,
a teu lado. Encomendei uma dúzia de véus negros como ainda usam as
pobres mulheres da minha religião! Mas isso foi um acto tão doloroso
que mandei vir também o meu ourives para que ele tomasse as medidas
para novos brincos e novos braceletes. Se soubesses como emagreci! É
um presente pela minha coragem, como um bombom que se dá a uma
criança que tomou um remédio amargo. Pobre Hakim. Chorou enquanto me
mostrava as suas bugigangas. Senti as suas lágrimas caírem-me nos
dedos. E, todavia, eu tive a coragem de rir. Também a minha voz
mudou. O mais doloroso foi ter de ficar dentro de salas sem luz. Os
véus serão uma libertação para mim. Sim, e naturalmente também pensei
no suicídio — quem não faria o mesmo em tais circunstâncias? Mas se
resolvi viver não foi para me apiedar com o meu destino. Talvez a
vaidade feminina não seja tão duradoura como se julga? Quero ser
forte e confiante. Peço-te, não tomes um ar solene para me lastimar.
Escreve-me com a mesma alegria de sempre, sim?

Mas houve um grande silêncio antes de a correspondência entre os dois


retomar o ritmo habitual, e as cartas deles tinham agora uma
qualidade nova — de amarga resignação.
65

Ela tinha-se retirado novamente para o campo onde vivia na companhia


de Narouz. «A sua amável selvajaria torna-o no companheiro ideal.
Além disso, uma vez por outra, sinto perturbações mentais, e então
vou encerrar-me por uns dias para a pequena vivenda de Verão,
lembras-te? No extremo do jardim. Aí leio e escrevo na companhia da
minha serpente — o génio tutelar que hoje se transformou numa enorme
cobra poeirenta, mansa como um gato. Não preciso de outra companhia.
De resto, actualmente não tenho nem cuidados nem planos. Deserto em
torno de mim, deserto dentro de mim!

O véu é um belo e íntimo lugar,

Mas ninguém, penso eu, o quer beijar.

«Se te escrever coisas absurdas nos momentos em que o génio mau se


apodera de mim (como dizem os criados) não me respondas. Essas crises
não duram mais de um dia ou dois».

Assim se abriu uma nova era. E ela passou os anos como uma excêntrica
reclusa e velada em Karm Abu Girg, escrevendo aquelas extensas e
maravilhosas cartas, acompanhando-o mentalmente naquela Europa
perdida que ele continuava a percorrer. Mas o interesse que a movia
era agora diferente. Raramente procurava novas experiências,
voltando-se de preferência para o passado, como se sentisse a
necessidade de ressuscitar a recordação de pequenas coisas. Ouviam-se
as cigarras em Tour Magne? Os campos de trigo estavam verdes em
Bougival, nas margens do Sena? Em Pallio de Siena usavam-se roupas de
seda? As cerejeiras de Navarra... Ela queria verificar o passado,
olhar para trás, e Mountolive, pacientemente, tomou a seu cargo, em
cada viagem, tranquilizá-la. O macaquinho de Rembrandt — tinha-o
visto ou simplesmente imaginado nas suas telas? Não, com efeito,
existia, confirmou ele tristemente. Uma vez por outra voltava-se para
o presente.
66

«Interessei-me por alguns poemas publicados em Values (número sete) e


assinados por um Ludwig Pursewarden. Qualquer coisa de novo e de
rude. Se for a Londres na próxima semana saiba quem ele é, sim? Será
alemão? Será o autor desses dois estranhos romances sobre África?
Pelo menos o nome é o mesmo».

Foi este pedido que deu origem à primeira entrevista de Mountolive


com o poeta que havia de ter mais tarde um tão importante lugar na
sua vida. A despeito da devoção quase francesa que tinha pelos
artistas (uma atitude copiada de Leila), o nome de Pursewarden
pareceu-lhe mal soante, quase ridículo, quando lhe escreveu um postal
endereçado ao cuidado dos seus editores. No fim de um mês ainda não
tinha recebido nenhuma resposta, mas como estava em Londres por três
meses, a seguir um curso de instrução, podia permitir-se ser
paciente. Mas, quando a resposta chegou, não foi pequena a surpresa
verificando que vinha escrita em papel timbrado do Foreign Office; o
poeta de Leila era adido cultural! Telefonou-lhe imediatamente e
ficou bem impressionado com a voz calma e educada do outro! Esperava
encontrar-se com uma personagem grosseira e agressiva e foi um alívio
descobrir a nota civilizada de um sereno humor na voz de Pursewarden.
Combinaram encontrar-se nessa tarde no «Compasses», perto de
Westminster Bridge, e Mountolive desejava aquela entrevista tanto por
Leila como por si próprio, pois propunha-se escrever-lhe um relato
circunstanciado descrevendo-lhe pormenorizadamente o seu artista.

Nevava com uma fina persistência, derretendo-se a neve mal tocava o


solo mas conservando-se nas golas - erguidas dos abafos e nos
chapéus. (Um flocozinho sobre as pestanas faz explodir o Mundo e
fragmenta-o em cintilações prismáticas.) Mountolive avançou de cabeça
baixa e dobrou a esquina da rua a tempo de ver um jovem par
penetrando no bar do «Compasses». A jovem, que se voltou para o
companheiro para lhe fazer qualquer observação no momento em que a
porta se abria, trazia sobre os ombros um xaile escocês, de cores
vivas, preso por um grande broche branco.
67

A luz quente do revérbero iluminou por um instante a sua face ampla e


pálida sombreada por uma farta cabeleira negra e ondeada. Era de uma
notável beleza, mas o seu ar estranhamente plácido surpreendeu
Mountolive, que precisou de um bom segundo para compreender
finalmente que ela era cega. Ergueu o rosto para o companheiro mas um
pouco além da medida, à maneira daqueles cujas expressões nunca
atingem plenamente o alvo: os olhos dos outros. Ela ficou assim por
um momento esperando que o companheiro a ajudasse a entrar no bar
tomando-lhe o braço com ternura. Mountolive seguiu-os e quase
imediatamente se encontrou a apertar vigorosamente a mão de
Pursewarden. A jovem cega era irmã do poeta. Seguiu-se um momento de
embaraço enquanto se aproximaram da lareira onde ardia um fogo de
carvão no fundo da sala e encomendaram bebidas.

Pursewarden, embora não apresentasse nenhum traço notável, era


agradavelmente normal. De estatura mediana e de pele clara usava um
bem recortado bigode que formava uma sombra apenas perceptível sobre
uma boca bem desenhada. Contudo, os seus cabelos eram tão diferentes
dos da irmã que Mountolive concluiu que a magnífica cabeleira escura
da rapariga devia ser pintada, embora parecesse natural; as
sobrancelhas eram igualmente negras. Somente os olhos poderiam ter
traído o segredo dessa pigmentação mediterrânica, mas esses,
naturalmente, estavam ausentes. Uma magnífica cabeça de Medusa; a sua
cegueira era a cegueira das estátuas gregas — cegueira porventura
causada pela intensa contemplação, no decurso dos séculos, do sol
radiante e das águas azuis. Na sua pessoa não havia altivez, apenas
meiguice e encanto. Os seus dedos compridos e de extremidades macias,
como os dos pianistas, corriam ligeiramente sobre a mesa de carvalho,
como para tocar, confirmar, certificar — hesitando no sentido de dar
às tonalidades da voz de Mountolive.
68

De vez em quando os lábios da cega moviam-se docemente como se


estivesse a repetir para si própria as palavras dos outros, para lhes
descobrir o sentido; era como alguém seguindo a música com a sua
própria partitura.

— Liza, minha querida? — disse o poeta.

— Um brandy com soda.

Ela respondeu numa voz vaga e serena, clara e melodiosa, uma voz que
teria podido pedir no mesmo tom «Mel e néctar». Irmão e irmã estavam
sentados lado a lado, o que lhes dava um ar de se encontrarem na
defensiva, e ficaram um momento sem falar, embaraçados, enquanto se
serviam as bebidas. A jovem introduziu a mão no bolso do irmão.
Depois, um pouco hesitante, ela iniciou a conversa, que se prolongou
pela noite adiante e que Mountolive transcreveu fielmente, graças à
sua prodigiosa memória, na carta que escreveu a Leila.

«De princípio ele mostrou-se tímido e refugiou-se numa sorridente


modéstia. Fiquei surpreendido quando soube que ele tinha sido nomeado
para um lugar no Cairo, para onde irá no princípio do próximo ano;
falei-lhe dos meus amigos e prometi-lhe cartas de apresentação, em
especial para Nessim. O meu posto talvez o tenha intimidado um pouco
ao princípio, mas logo se mostrou à vontade; não aguenta a bebida e
ao segundo copo entregou-se com menos restrições; então começa a
revelar-se uma pessoa diferente — bizarra e equívoca, como é de
esperar de um artista —, mas com ideias bem acentuadas sobre certo
número de assuntos, algumas delas em oposição com as minhas próprias.
Mas tinham uma ressonância estranhamente pessoal. Sente-se que foram
para épater. Por exemplo, tem ideias reaccionárias, o que o torna mal
visto pelos colegas que o acusam de simpatias fascistas; repugnam-lhe
os esquerdistas — e com efeito detesta toda a espécie de radicalismo.
Mas exprime as suas opiniões sem rancor e sem paixão. Não consegui,
por exemplo, fazê-lo falar sobre a guerra de Espanha («Toda essa
gentalha que se vai fazer matar em nome do Clube do Livro da
Esquerda!».
69

Mountolive sentiu-se chocado com esta e outras saídas do seu


interlocutor, tanto mais que as suas simpatias iam para as ideias
igualitárias, embora atenuadas pelo liberalismo que nessa época
predominava entre os políticos ingleses. Os desprezos soberanos de
Pursewarden tornavam-no uma personagem quase temível. «Reconheço —
prosseguia Mountolive — que me sentia incapaz de classificá-lo dentro
dos quadros habituais. Mas o que ele exprimia eram antes opiniões que
atitudes, e devo dizer que pronunciou certo número de fórmulas
impressionantes que eu fixei para si, tais como: «A obra do artista é
a única relação satisfatória que ele pode estabelecer com os seus
semelhantes, porque os seus verdadeiros amigos deve procurá-los entre
os mortos ou entre os que ainda não nasceram. Por isso não deve
ocupar-se de política; é domínio que não lhe compete. Deve preocupar-
se mais com os valores do que com a política. Hoje tudo isso me faz
pensar num espectáculo ridículo de sombras chinesas, porque governar
é uma arte, não uma ciência, da mesma forma que uma sociedade é um
organismo e não um sistema. A sua unidade menor é a família e a
monarquia é a estrutura que realmente lhe convém, porque uma família
real é verdadeiramente o reflexo do que nela existe de humano, uma
legítima idolatria. Falo por nós, os britânicos, com o nosso
quixotismo essencial e a nossa preguiça mental. Nada sei dos outros.
Quanto aos erros do capitalismo, são todos remediáveis mediante uma
justa tributação. Não se deve procurar uma igualdade imaginária entre
os homens mas uma equidade decente. Os reis fabricariam então uma
vaga filosofia, como faziam na China; uma monarquia absoluta é
impossível nos nossos dias porque a filosofia da realeza está muito
por baixo. O mesmo se diga das ditaduras.

«Quanto ao comunismo, também não me parece capaz de resolver o


problema; a análise do homem em termos de comportamento económico
cerceia a alegria de viver e é uma loucura querer despojá-lo do
elemento pessoal». E assim por diante. Visitou a Rússia durante um
mês com uma embaixada cultural e não compreendeu nada.
70

Claro, defendeu-se com boutades deste género: «Judeus tristonhos em


cujos rostos se adivinhava toda a melancolia de uma aritmética
secreta».

«Durante todo esse tempo a irmã guardou um eloquente silêncio,


acariciando a beira da mesa com os seus dedos longos e macios, curvos
como gavinhas, sorrindo dos seus aforismos como de uma fraqueza
secreta. Em certo momento, quando ele se ausentou por alguns
segundos, ela voltou-se para mim e disse:

«— Na verdade, ele não dá grande importância a esses assuntos. A sua


única preocupação é aprender a submeter-se ao desespero».

«Essa sentença obscura que caiu daqueles lábios com tanta


naturalidade, impressionou-me profundamente e eu não soube o que
responder. Quando Pursewarden voltou, retomou a conversa como se
tivesse recapitulado intimamente todo o debate. Disse: «Não, os reis
são uma necessidade biológica. Talvez reflictam a própria
constituição da psique? Acomodámo-nos tão admiravelmente à questão da
sua divindade que eu não teria o menor prazer em vê-los substituídos
por qualquer ditador trabalhista com prisões e pelotões de execução».
Protestei diante daquele ponto de vista absurdo mas ele falava com
toda a seriedade. «Asseguro-lhe que é isso o que as Esquerdas
pretendem; a guerra civil é o seu objectivo, embora não dê bem por
isso, graças à forma hábil pela qual os puritanos ressequidos como
Shaw e companhia apresentam a causa. O marxismo é uma vingança de
judeus e irlandeses!». Tive de rir ouvindo aquilo, e justiça lhe seja
feita, Pursewarden riu-se também.

— Mas ao menos isto explica por que motivo eu sou mal visto — disse
ele — e por que motivo me sinto sempre feliz em sair da Inglaterra
para outros países onde não sinto qualquer responsabilidade moral nem
o menor desejo de me ocupar de fórmulas tão deprimentes. Afinal de
contas, com todos os diabos, eu sou um escritor!»
71

«Nesse momento ele já tinha bebido diversos copos e estava lançado:


«Deixemos esse terreno estéril! Ah, como desejo voltar a encontrar
essas cidades criadas pelas suas mulheres; um Paris ou uma Roma,
construídas para saciar os desejos femininos. Sempre que vejo o velho
Nelson, coberto de fumaça, em Trafalgar Square, digo para mim
próprio: a pobre Ema teve de ir a Nápoles para afirmar o seu direito
de ser bonita, vaporosa e resplandecente na cama! Que faço aqui, eu,
Pursewarden, no meio de gentes que vivem num frenesi de decoro? O meu
lugar é entre aqueles que se conciliaram com a sua obscenidade
humana, oculta no manto de invisibilidade do poeta. Quero aprender a
nada respeitar sem desprezar nada — tortuoso é o caminho do
iniciado!»

«— Meu querido, tu estás embriagado» — exclamou Liza encantada.

«— Embriagado e triste. Triste e embriagado. Mas alegre,


alegríssimo».

«Devo dizer que este lado novo e divertido do seu carácter me


aproximou muito mais do homem. «Para quê as emoções estilizadas? Para
quê o temor e o medo? Todos esses sinistros mictórios com os polícias
de impermeável a espreitarem para ver se o cidadão mija fora do
testo. Veja essa paixão da decência na indumentária, essas proibições
de caminhar sobre a relva: não é de admirar que sempre que regresso a
Inglaterra tome por engano a entrada reservada aos estrangeiros!»

«— Estás embriagado» — exclamou novamente Liza.

«— Não; estou feliz!» — Afirmou aquilo a sério. — «E a felicidade não


se pode improvisar. É preciso emboscar-se uma pessoa para apanhá-la
como se fosse uma codorniz ou uma rapariga de asas fatigadas. Entre a
arte e o engenho existe um abismo permanente!»

«E assim continuou; e devo confessar que eu me sentia fascinado por


aquele jogo sem esforço de um espírito que já não tinha consciência
de si próprio. É claro que uma vez ou outra eu tropeçava contra uma
expressão mais grosseira e lançava um olhar inquieto à rapariga, mas
ela sorria o seu sorriso de cega sem sombra de censura.
72

«Era muito tarde quando saímos juntos para Trafalgar Square, no meio
da neve que caía. Havia pouca gente na rua e os flocos que tombavam
cobriam as nossas pegadas. Na praça o poeta deteve-se para apostrofar
o Nelson Estilista. Esqueci-me das suas palavras mas foram
suficientemente espirituosas para me fazer rir. Depois, mudando
bruscamente de humor, voltou-se para a irmã:

«— Sabes o que me tem preocupado toda a noite, Liza? É hoje o


aniversário de Blake. Estás a perceber, o aniversário desse velho
Blake! Esperei ver sinais desse facto na expressão dos nativos deste
país, mas foi em vão que os procurei. Liza, minha querida, festejemos
o aniversário desse velho s....., sim? Eu e tu e David Mountolive
aqui presente... como se fôssemos franceses ou italianos, como se
isso tivesse qualquer sentido». A neve caía mais densa, as últimas
folhas mortas amontoavam-se em torno da praça e os pombos soltavam
gritos guturais e lúgubres. «Está bem, Liza?»

«Uma manchazinha rosada apareceu nas faces da rapariga. Os lábios


entreabriram-se. A neve caía-lhe sobre os cabelos negros e dissolvia-
se como pedras preciosas. «— Como vamos festejar isso?» — perguntou
ela. «— Vamos dançar pelo Blake» — disse Pursewarden com uma
seriedade cómica, e tomando a irmã nos braços pôs-se a valsar
trauteando o Danúbio Azul. Por cima do ombro, através dos flocos de
neve que caíam, Pursewarden brindou: «Por Will e Kate Blake».

«Sem saber bem porquê fiquei siderado e até um pouco comovido. Eles
dançavam num compasso perfeito, rodopiando cada vez mais depressa em
torno dos leões de bronze, quase tão leves como a poeirada húmida que
se escapava das fontes... Como seixos espalmados lançados sobre a
superfície lisa de um lago ou pedras deslizando num tanque gelado...
Era um estranho espectáculo. Observava-os fascinado, esquecido do
frio que me mordia os dedos e da neve que se derretia no meu
colarinho.
73

Descreveram assim uma elipse muito aberta em torno da praça,


levantando à sua passagem as folhas mortas e os pombos, a respiração
dos dois a elevar-se nos ares numa nuvenzinha branca. E depois,
docemente, sem esforço, descreveram um novo arco que devia conduzi-
los até onde eu me encontrava na companhia de um polícia que os
observava com um olhar intrigado.

«— Que se passa aqui?» — perguntou-me o agente, olhando para eles com


admiração e desconfiança.

«Eles valsavam com uma tal perfeição que eu cheguei a pensar que o
guarda estivesse impressionado. Acertavam maravilhosamente; a
cabeleira sombria da rapariga flutuava, e o rosto voltava-se para o
velho almirante sobre o seu pedestal negro de humidade.

«— Estão a festejar o aniversário de Blake» — expliquei num tom um


pouco comprometido e o agente pareceu-me mais satisfeito continuando
a segui-los com um olhar de admiração. Tossicou e observou voltando-
se para mim:

«— Para dançar assim, ele não pode estar embriagado. O que as pessoas
não são capazes de inventar para festejar o seu aniversário!»

«Finalmente acabaram por vir ter comigo, ofegantes e risonhos,


trocando beijos. Pursewarden parecia ter recuperado o seu bom humor,
e desejou-me boa-noite com a maior cordialidade, enquanto eu os
ajudava a entrar num táxi. Aqui tem! Minha cara Leila, não imagino
que conclusões tirará de tudo isto. Nada sei da sua vida nem do seu
passado, mas posso ir visitá-lo a casa; demais poderá conhecê-lo no
próximo ano quando ele for para o Egipto. Envio-lhe um livrinho de
versos que ele me ofereceu. Ainda se conserva inédito».

No calor doce do seu quarto do clube, Mountolive folheou o livrinho,


mais por dever do que por prazer. Não era apenas a poesia moderna que
lhe não interessava: aborrecia-o a poesia em geral. Nunca conseguia
sintonizar a sua disposição, por assim dizer.
74

Era obrigado a reduzir as palavras a paráfrases, no seu espírito,


para que parassem de dançar. Esta sua inaptidão (Leila ensinara-lhe a
considerá-la como tal) irritava-o. Entretanto, enquanto folheava o
livrinho sentiu-se bruscamente interessado por um poema que lhe
espevitou a memória comunicando-lhe um arrepio de inquietação. Era
dedicado à irmã do poeta e tratava-se indubitavelmente de um poema de
amor a «uma jovem cega de cabelos pintados de negro». Mountolive viu
imediatamente sair do texto a face branca e serena de Liza
Pursewarden.

Estátuas gregas de olhos vazados

Cegas como Eros por surpresa

Escondem os segredos do coração abandonado,

Amante e amado...

Havia uma espécie de imperícia selvagem e deliberada à superfície;


mas era o género de poema que podia ter sido escrito por um moderno
Catulo. Mountolive sentiu-se perturbado. Releu-o com um aperto na
garganta. Tinha a simples beleza do impudor. Ficou a contemplar a
parede demoradamente, antes de meter o livro num sobrescrito para
enviá-lo a Leila.

Não tornaram a encontrar-se durante esse ano, a despeito de


Mountolive ter tentado comunicar com Pursewarden pelo telefone.
Estava sempre ou de licença ou em serviço no norte da Inglaterra. Mas
conseguiu encontrar a irmã e levou-a mesmo diversas vezes a jantar,
encontrando nela uma companheira deliciosa, mesmo comovente. Leila
escreveu para lhe agradecer as informações, acrescentando de uma
maneira muito característica: «Os poemas são esplêndidos. Mas não
desejo, é claro, encontrar um artista que eu admiro. Penso que a obra
não tem qualquer relação com o autor. Mas agrada-me que ele venha ao
Egipto. Talvez Nessim lhe possa ser útil — e, quem sabe, talvez ele
possa ser útil a Nessim? Veremos».
75

Mountolive não compreendeu o sentido da penúltima frase.

No Verão seguinte as suas férias coincidiram com uma viagem de Nessim


a Paris, e os dois amigos visitaram juntos os museus e projectaram ir
plantar juntos os seus cavaletes na Bretanha. Ambos ensaiavam os
primeiros passos na pintura com o ardor dos verdadeiros neófitos. Foi
em Paris que encontraram por acaso Pursewarden que estava a gozar um
mês de férias antes de ir ocupar o seu posto no Cairo. Era um feliz
acaso porque poderia assim viajar com Nessim e Mountolive
congratulava-se por poder facilitar-lhe a vida mercê desta
apresentação. Pursewarden parecia também transfigurado e na melhor
das disposições, e Nessim pareceu gostar imensamente dele. Durante
cerca de três semanas foram inseparáveis, e quando se separaram
Mountolive tinha a genuína convicção de que uma amizade se
estabelecera e cimentara nessas semanas de bons petiscos e boa vida.
Foi despedir-se deles e nessa noite escreveu a Leila no papel de
carta do seu café predilecto: «Foi uma grande tristeza separar-me
deles e pensar que na próxima semana terei que voltar para a Rússia!
Agora sinto grande afeição por P. e compreendo-o melhor. Acho
presentemente que as suas maneiras rudes não traduzem grosseria mas
uma grande timidez e quase um sentimento de culpa. Desta vez a sua
conversação foi verdadeiramente apaixonante. Pergunte a Nessim. Creio
que este está verdadeiramente seduzido. E depois... que mais? Um
espaço vazio, uma grande jornada gelada, e três anos sem interesse
diante de mim. Ah! minha cara Leila, como sinto a sua falta. Quando
nos tornaremos a ver? Se tiver bastante dinheiro, na minha próxima
licença, tomarei o avião e irei visitá-la...».

Ele não adivinhava que antes de terminados esses três anos estaria de
viagem para o Egipto, o país bem amado ao qual a distância e o exílio
conferiam uma obcecante beleza, como uma tapeçaria. Poderia uma
memória tão rica enganá-lo? Mountolive nunca fez a si próprio
semelhante pergunta..
III

O aquecimento central lançava, no salão de baile da Embaixada, um


calor pesado, quase palpável, que tornava o ar denso como se já
tivesse sido respirado; mas o calor formava um agradável contraste
com a paisagem gelada de pinheiros que se avistava para além das
altas janelas. A neve caía infatigavelmente, não só sobre a Rússia,
mas, ao que parecia, sobre o mundo inteiro. Havia semanas que nevava
sem cessar. A sonolência do Inverno russo entorpecera-os a todos. O
som dos passos das sentinelas, entre as duas pequenas guaritas do
portão, tinham-se recolhido ao silêncio do grande Inverno. Nos
jardins, os ramos das árvores inclinavam-se cada vez mais sob o peso
de toda aquela brancura, até ao momento em que se distendiam
bruscamente, como molas, espalhando a sua carga de neve em explosões
silenciosas de cristais cintilantes; depois, a neve voltava a cair,
cobrindo-os lentamente, inexoravelmente, até que o peso se tornava de
novo intolerável. Cabia nesse dia a Mountolive a leitura do Serviço.
Levantando de vez em quando os olhos da estante, lobrigava as faces
indistintas dos colegas e do pessoal na penumbra do salão, seguindo o
texto; e, diante daqueles rostos incolores, teve a visão de um
rebanho de cadáveres flutuando, o ventre dilatado, num lago gelado,
como corpos de rãs encurraladas no interior de um espelho de gelo.
Tossiu atrás da mão, e o contágio propagou-se em ondazinhas de
tossidelas discretas, que se perderam finalmente no silêncio
sensaborão, apenas perturbado pelo crepitar dos cachimbos.
78

Toda a gente parecia doente e triste nesse dia. Os seis guardas da


Chancelaria tinham um ar absurdamente piedoso nas suas melhores
roupas, desajeitadamente vestidas, com os cabelos a cair para os
olhos. Eram todos antigos marinheiros e todos eles mostravam os
estigmas de um amor imoderado pelo vodka. Mountolive suspirou
interiormente ao declamar, na sua voz calma e melodiosa, os
esplendores — incompreensíveis para eles — da passagem do Evangelho
de S. João que ele encontrara assinalada por uma marca. A água
cheirava a cânfora — e ele não sabia porquê. Como de costume, o
embaixador ficara na cama; nos últimos anos desleixara-se no
cumprimento dos seus deveres e descarregava-os cada vez mais para
Mountolive, que se desempenhava deles com boa vontade e inteligência.
Sir Louis deixara mesmo de simular interesse pelo bem-estar físico e
espiritual do seu pequeno rebanho. E para quê? Dentro de três meses
seria definitivamente aposentado.

Era difícil substituí-lo nos negócios públicos mas Mountolive


considerava isso útil também. Dava-lhe a oportunidade de experimentar
as suas próprias capacidades. Era ele quem virtualmente dirigia a
Embaixada e, contudo...

Notou que Cowdell, o chefe da Legação, procurava captar-lhe à


atenção. Terminou a prelecção sem alterar o tom de voz, colocou
novamente a marca e voltou para o seu lugar. O capelão pronunciou
ainda uma breve frase catarrosa e, depois de um arrastar de páginas,
encontraram debaixo dos olhos o texto banal do «Avante, soldados de
Cristo», na undécima edição da «Colectânea de Cânticos para os
Serviços no Estrangeiro». O harmónio começou a gemer num canto, como
um homem gordo que corre para apanhar o autocarro; depois encontrou o
tom e, acompanhado de uma chiadeira nasalada, interpretou as duas
primeiras estrofes num tom de arrancar as entranhas.
79

Mountolive reprimiu um arrepio, esperando que o instrumento caísse no


dominante, como sempre fazia — como se estivesse para rebentar em
soluços demasiados humanos. O coro discordante elevou-se para
afirmar... o quê? Constituíam um enclave cristão numa terra hostil,
num país que se tinha tornado num imenso campo de experiências graças
a um simples desvio da razão humana. Cowdell deu-lhe uma cotovelada,
a que ele correspondeu, para indicar que estava disposto a receber
qualquer comunicação urgente desde que não fosse de carácter
especificamente religioso. O chefe da Legação cantava:

O dia de hoje é um dia feliz para aquele

Que se põe a caminho como se fosse para a guerra

(Fortíssimo — com fervor).

HA coisas mais urgentes a fazer

Como, por exemplo, receber mensagens cifradas

(Fortíssimo — com fervor).

Mountolive ficou aborrecido. Aos domingos havia, em geral, pouco


trabalho, embora os serviços de cifra ficassem abertos, com pessoal
reduzido. Porque não lhe tinham telefonado na véspera, conforme era
costume? Entoou o versículo seguinte numa voz lastimosa:

Deviam ter-me dito

Como podia adivinhar?

Quem está de serviço hoje?

Cowdell abanou a cabeça e franzindo o sobrolho acrescentou este


apêndice: «Ela ainda está de servi...i...ço». Retiveram as
respirações enquanto a música recomeçava e ribombava na sala.
80

Essa pausa permitiu a Cowdell voltar-se para explicar numa voz


constipada:

— Trata-se de uma missiva pessoal urgente. Ainda não foi


completamente decifrada.

Desenrugaram as faces e as consciências até final do cântico,


mergulhando Mountolive num abismo de perplexidade. Quando se
ajoelharam nos pouco confortáveis genuflexórios, com as mãos a
ocultar o rosto, Cowdell prosseguiu entre os dedos:

— Você foi proposto para Cavaleiro e nomearam-no embaixador. Deixe-me


ser o primeiro a felicitá-lo, etc.

— Cristo! — murmurou Mountolive num movimento de surpresa mais para


si próprio do que para o seu criador. Depois acrescentou «Obrigado».
Sentia os joelhos a tremer e teve de fazer um esforço para manter o
seu ar indiferente. Era ainda demasiado jovem. As divagações do
capelão, com o seu perfil de peixe-espada, irritavam-no mais do que
habitualmente. Apertou os maxilares. E no fundo do seu ser pensava:
«Vou sair deste Inverno permanente!», com uma alegria dolorosa. O
coração saltava-lhe no peito.

O serviço terminou finalmente. Abandonaram o salão num solene tropel


e atravessaram o soalho imaculado das salas da Residência com um ar
cansado e compassado, tossicando e murmurando. Mountolive conseguiu
adoptar um andamento lento e piedoso, mas o seu espírito corria à
desgarrada. Uma vez na Chancelaria, fechou devagarinho a porta
acolchoada atrás de si, ouvindo-a aspirar docemente o ar nas válvulas
e, retendo a respiração, desceu os três andares que conduziam à
poterna que marcava a entrada dos Arquivos. Um empregado de serviço
oferecia chá a dois correios, que batiam as pesadas botas e
esfregavam as luvas para se desembaraçarem da neve. Grossos sacos de
lona, espalhados pelo chão, esperavam que os enchessem com a
correspondência e os selassem. Os bons dias catarrosos acompanharam-
no até à porta da Cifra, onde ele bateu duas pancadinhas secas
esperando que Miss Steele o convidasse a entrar.
81

Sorriu ao visitante com um ar severo:

— Sei o que procura — disse ela. — Está aqui na bandeja a cópia da


Chancelaria. Coloquei o original na sua secretária e mandei outra
cópia ao secretário de Sua Excelência.

E mergulhou novamente nos códigos. Mountolive viu a frágil membrana


de papel rosa com a mensagem impressa, tomou uma cadeira, leu-a
atentamente, depois releu-a ainda mais lentamente. Acendeu um
cigarro. Miss Steele levantou a cabeça:

— Dá-me licença que o felicite, sir?

— Obrigado — respondeu Mountolive vagamente. Estendeu as mãos por


cima do calorífero e voltou a mergulhar nos seus pensamentos.
Começava a sentir-se uma personagem completamente diferente e essa
sensação tomava-o de improviso.

Passado um momento tornou a subir devagar a escada e dirigiu-se para


o seu gabinete ainda envolto nesse sonho voluptuoso e recente. Tinham
aberto as cortinas — isso significava que a sua secretária já tinha
chegado; ficou por um momento a observar o vaivém das sentinelas na
neve, diante do portão ornamentado pelos arabescos de gelo. E,
enquanto contemplava esse mundo imaginário através dos vidros, a sua
secretária entrou. No rosto dela abria-se um largo sorriso.

— Afinal — disse ela. Mountolive devolveu-lhe o sorriso.

— Sim; pergunto a mim mesmo se Sua Excelência não irá criar


dificuldades?

— Certamente, não — disse ela enfaticamente. — Porque havia de criá-


las?

Mountolive sentou-se na escrivaninha acariciando o queixo.

— Ele aposenta-se dentro de três meses — disse a rapariga.

Começou a olhar para ele com curiosidade, irritada por não ler no
rosto do seu chefe nem alegria nem satisfação.
82

Nem mesmo a boa fortuna era capaz de trespassar aquela armadura de


reserva cuidadosamente elaborada.

— Bem — disse ele lentamente, porque ainda se sentia paralisado pela


surpresa, pelo sonho voluptuoso de uma sorte imerecida —, veremos.

Depois outro pensamento, ainda mais vertiginoso, apoderou-se dele.


Escancarou os olhos e fixou-os na janela. Finalmente ia ter liberdade
de agir. Ia enfim cessar aquela longa disciplina que o obrigava a
apagar-se, aquela perpétua delegação de poderes? Era uma temerosa
perspectiva, mas que excitante também! Tinha a impressão de que a sua
personalidade ia finalmente encontrar campo onde se desenvolver; e,
levado por aquela maravilhosa ilusão, levantou-se, sorriu à rapariga
e disse-lhe:

— De qualquer maneira tenho de obter a concordância de Sua Excelência


antes de responder. Esta manhã ele ainda não veio à ponte. Ficará
para amanhã.

Decepcionada, ela hesitou um momento antes de tomar a bandeja e de


lhe estender as chaves do seu cofre privado.

— Como preferir — disse ela.

— Não há pressa — disse Mountolive. (Tinha a impressão de que a sua


verdadeira vida começava agora; estava a ponto de renascer.) Não
penso que o meu exequatur chegue antes de Junho.

Mas o seu espírito corria já numa pista paralela, dizendo: «Em Julho
toda a Embaixada se muda para Alexandria, para os quartéis de Verão.
Se eu pudesse fazer coincidir a minha chegada...».

Mas este sentimento de euforia foi empanado por um toque de avareza.


Mountolive, como a maior parte das pessoas que não têm outros seres
com quem partilhar os seus afectos, tendia para a mesquinhez em
assuntos de dinheiro. Embora fosse pouco razoável, sentiu uma onda de
depressão quando se lembrou do custo elevado do uniforme que a sua
nova categoria impunha.
83

Ainda na semana passada tinham recebido um catálogo de Skinners e


tivera oportunidade de verificar um considerável aumento de preço nos
uniformes diplomáticos.

Levantou-se e dirigiu-se ao gabinete vizinho para consultar o


secretário particular. Estava vazio. Um radiador eléctrico brilhava
na penumbra. Um cigarro aceso consumia-se lentamente no cinzeiro
entre as duas campainhas marcadas respectivamente S. Ex.ª e Senhora.
No bloco ao lado, o secretário tinha escrito com a sua caligrafia
feminina: «Não acordar antes das onze». Isso referia-se evidentemente
a S. Ex.ª, porque a Senhora, depois de seis meses em Moscovo, tinha
preferido ir aguardar a aposentação do marido no clima mais clemente
de Nice. Mountolive apagou a ponta do cigarro.

Era inútil acordar o Embaixador antes do meio-dia porque as manhãs


russas mergulhavam Sir Louis numa apatia neurasténica que o tornava
frequentemente inapto para qualquer actividade mental; e como ele não
podia, em plena consciência, apresentar reservas à boa fortuna de
Mountolive, era bem capaz de manifestar qualquer azedume por não ter
sido informado, como o costume exigia, pelo primeiro secretário
particular. Mountolive regressou ao seu gabinete e mergulhou num
número recente do Times, esperando, com uma impaciência mal
dissimulada, que o relógio da Embaixada anunciasse o meio-dia. Voltou
a descer, deslizou para a Residência, passando pela porta acolchoada,
e atravessou, com o seu passo ligeiro e levemente claudicante, os
soalhos reluzentes, manchados aqui e além pelas alcatifas de tons
neutros. Aquilo tudo cheirava a abandono e a cera; nas sanefas
pairava ainda o relento dos fumos de charuto. Em cada janela havia um
véu de trémulos flocos de neve.

Merritt, o criado de quarto, subia rapidamente a escada com uma


bandeja onde se via um misturador e um único cálice. Era um homem
pálido, entroncado, e que assumia sempre o ar grave de um sacristão
quando desempenhava as suas funções na Residência.
84

Parou diante de Mountolive e disse:

— Acabou de levantar-se e está a vestir-se para um almoço oficial,


sir.

Mountolive fez com a cabeça um vago sinal e ultrapassou-o subindo os


degraus a dois e dois. O criado voltou a descer à copa para colocar
um segundo copo na bandeja.

Sir Louis assobiava com ar enfadado, vestindo-se diante do espelho.

— Ah, meu amigo — disse ele vagamente, vendo aparecer Mountolive. —


Estou a vestir-me. Bem sei, bem sei. É o meu dia de pouca sorte. A
Chancelaria chamou-me às onze horas. Finalmente, você conseguiu.
Parabéns.

Mountolive sentou-se na beira da cama, aliviado por ver que a notícia


tinha sido bem recebida. O embaixador prosseguiu enquanto lutava para
fazer o nó da gravata:

— Imagino que você deseja partir imediatamente. Será uma grande perda
para todos nós.

— Se não vir objecção — confessou Mountolive lentamente.

— Que pena. E eu que esperava que você me visse partir. Enfim... —


disse ele com um gesto esvoaçante da mão livre — você merece. Do
tricórnio ao bicórnio, do punhal à espada... a apoteose final.
(Debateu-se um momento com os botões de punho e prosseguiu num ar
sonhador.) Evidentemente, você ainda pode cá ficar algum tempo; é
preciso esperar o agreement. Depois precisa ir ao Palácio, ao beija-
mão, e tudo o mais. Que tal?

— Ainda me há-de restar algum tempo de licença — disse Mountolive com


um muito débil traço de firmeza num tom onde faltava a confiança.

Sir Louis entrou no quarto de banho e começou a lavar os dentes.

— E a próxima lista das Honras? — gritou ele do pequeno espelho


pregado à parede. — Espera por isso?

— Suponho.

Merrirt entrou com a bandeja e o velho bradou:


85

— Ponha-a em qualquer lado. Dois copos?

— Sim, sir.

O criado retirou-se fechando suavemente a porta e Mountolive


levantou-se para servir os cocktails. Sir Louis monologava como se
resmungasse:

— Uma Missão não é nenhuma sinecura. E aposto que a sua primeira


reacção, quando teve a notícia, foi pensar: agora já tenho liberdade
de agir, não foi?

Soltou uma risadinha soturna e regressou à mesa de toucador com o ar


mais satisfeito deste mundo. O seu subordinado interrompeu-se no acto
de servir as bebidas, surpreendido por esta intuição inusitada. «Como
diabo adivinhou ele?», pensou franzindo a testa. Sir Louis emitiu
outro pequeno grunhido de satisfação.

— Todos pensamos o mesmo. A última ilusão. Você terá de passar por


isso, como os outros. É um mau momento. Você tem a impressão de que
está a fazer volume — e, quando mal se precata, está a cometer um
pecado contra o Espírito Santo.

— Que quer dizer?

— Em diplomacia isso significa estar a conduzir uma política sobre o


ponto de vista de uma minoria. É a fraqueza de todos. Veja as nossas
tentativas de fortalecer uma oposição aqui. Claro que é absurdo. As
minorias não servem de nada, a menos que estejam dispostas a lutar.
Aí está.

Aceitou nos dedos de rosa fanada o cálice, notando, com satisfação, o


nevoeiro que cobria levemente os copos gelados. Beberam à saúde um do
outro trocando um sorriso afectuoso. Nos dois últimos anos tinham-se
tornado bons amigos.

— Você vai fazer-me falta. Mas dentro de três meses eu terei saído de
tudo isto. (Pronunciava aquelas palavras com um entusiasmo que não
era fingido.) Basta de parvoíces sobre a Objectividade. Eles têm
bastantes boas cabeças saídas da Escola de Ciências Políticas de
Londres para lhes redigirem os relatórios.
86

Recentemente, o Foreign Office tinha-se queixado da falta de


equilíbrio dos relatórios das Missões. Isso enfurecera Sir Louis. A
simples lembrança dessa afronta bastava para encolerizá-lo. Pousando
o copo vazio, prosseguiu, dirigindo-se ao seu reflexo no espelho:

— Equilíbrio! Se o Foreign Office enviasse uma missão para a


Polinésia, naturalmente esperava que os seus relatórios começassem
assim (tomou um tom choramingas e obsequioso para enunciar aquilo):
«Se é verdade que os habitantes se comem uns aos outros, não é,
entretanto, menos exacto que o consumo de alimentos por cabeça é
notavelmente elevado». (interrompeu-se bruscamente e sentou-se para
laçar os sapatos): — Meu caro David, quando você partir, com quem
hei-de falar? Você vai pavonear-se, no seu grotesco uniforme, com uma
pluma de avestruz no chapéu, que lhe dará o ar de qualquer pássaro
bizarro do Amazonas, e eu... eu irei ao Kremlin visitar aqueles tipos
sombrios.

Os cocktails estavam fortes. Tomaram outro e Mountolive disse:

— Tenho estado a pensar que me podia vender o seu uniforme, a menos


que já o tenha prometido. Podia mandá-lo transformar.

— O uniforme? — disse Sir Louis. — Não tinha pensado nisso.

— Hoje, os uniformes custam muito caro.

— Bem sei. E aumentaram recentemente. Mas você tem de mandá-lo ao


empalhador, para reparação. Nunca ficam como devem ser as malditas
golas. E todos aqueles galões. Um ou dois alamares estão soltos.
Graças a Deus, isto aqui não é uma Monarquia. A sobrecasaca é muito
mais confortável. Bem, não sei que dizer.

Ficaram os dois em silêncio, a reflectir no problema.

Finalmente, Sir Louis perguntou: — Quanto me oferece?

Os seus olhinhos apertaram-se. Mountolive meditou um momento antes de


responder.
87

— Trinta libras — disse num tom enérgico e decidido que lhe não era
habitual. Sir Louis ergueu os braços em simulada indignação.

— Só trinta? Mas custou-me...

— Bem sei — disse Mountolive.

— Trinta libras — meditou Sua Excelência, sem saber se devia


escandalizar-se. — Creio, meu caro...

— A espada está um pouco torta — disse Mountolive com obstinação.

— Nem por isso — disse Sir Louis. — Foi o rei do Sião que a entalou
na porta do carro. Uma cicatriz gloriosa.

Sorriu e continuou a vestir-se trauteando. Aquele regateio dava-lhe


um prazer absurdo. Voltou-se bruscamente.

— Digamos cinquenta.

Mountolive sacudiu a cabeça com um ar sonhador.

— É muito caro, sir.

Mountolive levantou-se e começou a percorrer o quarto de um lado para


o outro, divertido com o manifesto prazer que o velho sentia naquele
jogo.

— Dou-lhe quarenta — disse ele por fim, sentando-se com ar decidido.

Sir Louis escovou o seu cabelo de prata, furiosamente, com as duas


pesadas escovas de cabo de tartaruga.

— Você tem alguma reserva de bebidas na sua cave?

— Sim, a falar verdade, tenho.

— Bem, nesse caso, cedo-lhe o uniforme por quarenta se você


acrescentar duas caixas de... vejamos, que tem você? Tem algum
champanhe decente?

— Sim.

— Muito bem. Portanto, duas... não, três caixas. Desataram os dois a


rir e Mountolive observou:

— O senhor é duro nos negócios.

O cumprimento encantou Sir Louis. Apertaram a mão para consolidar a


transacção e o embaixador preparava-se para tomar outro aperitivo
quando o subordinado lhe observou:
— Desculpe-me, sir. Esse é o terceiro.
88

— E que tem isso? — disse o velho diplomata num sobressalto de


surpresa perfeitamente imitado. Ele sabia muito bem o que o outro
queria dizer. Mountolive mordeu o lábio.

— Pediu-me expressamente que eu o prevenisse — disse ele com ar de


censura. Sir Louis empertigou-se tomando uma atitude teatral.

— Um copito mais, antes do almoço, que mal faz?

— Fá-lo trautear — disse Mountolive com ar sombrio.

— Que diz você?

— Digo que sim, sir.

Neste último ano, na véspera da sua aposentação, o embaixador


começara a beber um pouco imoderadamente — sem jamais atingir os
limites da incoerência. Nessa altura manifestou-se nele um novo
tique. Estimulado pelos cocktails frequentíssimos que ingeria, tinha
adquirido o hábito de trautear, no decorrer das recepções, o que lhe
valera uma reputação mais que duvidosa. Mas como não dava conta desse
facto, negou-o inicialmente com indignação. Acabou por descobrir,
para sua grande confusão, que trauteava sem cessar, em basso
profundo, uma passagem da Marcha Fúnebre de Saul. Ela resumia
bastante justamente uma vida de intenso tédio passada na companhia de
funcionários indiferentes e dignitários imbecis. De certa maneira era
a sua resposta a uma situação que ele tinha, desde há muitos anos,
considerado subconscientemente como intolerável; e estava grato a
Mountolive por ter tido a coragem de denunciar-lhe o hábito,
ajudando-o a vencê-lo. Mas não deixava nunca de protestar quando o
subordinado lhe recordava o facto. «Trautear?», resmungava ele agora,
fazendo uma careta de indignação, «nunca ouvi semelhante tolice». Mas
abandonou o copo e dirigiu-se ao espelho para uma observação crítica
e final da sua indumentária. «Enfim, de qualquer maneira, está na
hora». Tocou a campainha e Merritt apareceu com uma gardénia numa
salva. Sir Louis tinha um gosto bastante pedante em matéria de
flores, e insistia sempre em exibir a sua flor favorita na lapela
quando em ténue de ville.
89

A mulher mandava-lhe caixas delas, de Nice, por avião, e Merritt


conservava-as no frigorífico para serem religiosamente racionadas.

— Bem, David — disse ele dando uma palmadinha afectuosa no braço de


Mountolive. — Devo-lhe um favor. Hoje não vou trautear, por mais
apropriado que fosse para a circunstância.

Desceram lentamente a grande escadaria curva e penetraram no


vestíbulo, onde Mountolive ajudou o chefe a vestir o sobretudo e a
calçar as luvas antes de chamar pelo telefone o carro oficial.

— Quando pretende partir? — A voz trémula do velho traduzia uma


genuína tristeza.

— No dia um do mês que vem, sir. Para ter tempo de arrumar o


expediente e despedir-me.

— Não quer ficar até à minha partida.

— Se o exigir, sir.

— Bem sabe que nunca faria uma coisa dessas — disse Sir Louis
sacudindo a cabeça branca, embora no passado tivesse feito pior. —
Nunca.

Trocaram um aperto de mão caloroso enquanto Merritt se precipitava


para abrir o pesado portão, pois o seu ouvido tinha apercebido a
chiadeira dos pneus com correntes, na neve da entrada. Foram logo
assaltados por uma rajada de vento carregada de neve. Os tapetes
voaram sobre o soalho. O embaixador ajeitou o gorro de peles e enfiou
as mãos nos bolsos. Depois, curvado contra a borrasca, desapareceu da
tarde de Inverno. Mountolive suspirou e ouviu o relógio da Residência
pigarrear catarrosamente antes de dar a uma hora.

A Rússia ficava agora para trás.

Berlim estava também nas garras da neve, mas aqui a melancolia da


Rússia dera lugar a uma euforia maligna apenas menos deprimente.
Havia no ar uma incerteza sombria agindo como um tónico.
90

Sob as lâmpadas esverdeadas da Embaixada ouviu pensativamente o


balanço das últimas tropelias causadas pelo moderno Átila e um
apreciável sumário das comedidas predições que, no decorrer dos
últimos meses, tinham enegrecido as minutas do serviço alemão e as
colunas de impressos das previsões políticas. Seria agora evidente
que este exército, de um diabolismo político, à escala nacional,
acabaria por mergulhar a Europa num banho de sangue? A conclusão
parecia esmagadora. Mas restava uma esperança — esse Átila podia
voltar-se para Leste deixando o Ocidente pulverizar-se em paz. Se ao
menos os dois anjos negros que pairavam no subconsciente europeu se
destruíssem mutuamente... Sim, restava ainda essa esperança. «A única
esperança, sim, disse tranquilamente o jovem adido, e não sem um
certo alívio, porque, no fundo, há sempre num recanto do espírito a
esperança de uma destruição total, único remédio para o tédio que
consome o homem moderno. «A única esperança», repetiu. Opiniões
exageradas, pensou Mountolive franzindo a testa. Tinham-lhe ensinado
a evitá-las. Jamais comprometer-se mentalmente tinha-se tornado na
sua segunda natureza.

Nessa noite foi convidado para jantar de uma forma algo extravagante
pelo jovem encarregado de negócios, pois o embaixador encontrava-se
ausente e, depois do jantar, levaram-no ao moderno Tanzfest, um
cabaret. Na confusão de caves iluminadas por candelabros, com as
paredes forradas de damasco azul, cintilavam as pontas de centenas de
cigarros, como pirilampos, fora do círculo de luzes brancas, onde um
enorme hermafrodita, com cara de narval, marcava o compasso do «Fox
Macabre Totentanz». Ensopado no suor dos saxofones negros, o
estribilho prosseguia na sua histérica toada:

Berlin, dein Tanzer ist der Tod!

Berlin, du wuhlst mit Lust im Kot!


91

Halt ein! lass sein! und denk ein bischen nach:

Du tanzt dir doch vom Leibe nicht die Schmach.

denn du boxt, und du jazzt, und du foxt auf dem Pulverfass!

Ali estava um admirável comentário às deliberações da tarde e, sob a


licença frenética e apaixonada da canção, parecia-lhe aperceber
alusões mais antigas — quiçá passagens de Tácito? Ou bacanais de
guerreiros a caminho da Valhalla? Um odor pesado de matadouro
agarrava-se também à canção, a despeito das lantejoulas e das
serpentinas. Mountolive sentou-se pensativamente entre as volutas de
fumo dos charutos observando os movimentos indecentes e peristálticos
de um traseiro. Uma frase do estribilho perseguia-o: «Nunca
conseguirás sacudir, dançando, a vergonha do teu ventre», repetia ele
observando os dançarinos extenuados, e as luzes mudarem do cinzento
para o dourado e depois para o violeta.

Subitamente empertigou-se exclamando «Santo Deus!» Tinha descoberto,


num recanto da cave, a face familiar de Nessim. Estava sentado num
grupo de sujeitos de idade, em traje de cerimónia, fumando um charuto
e atento à conversa. Não pareciam dar atenção ao que se passava em
volta. Uma garrafa de champanhe guarnecia a mesa. Estava demasiado
afastado para tentar sinais e assim Mountolive decidiu remeter-lhe um
cartão e ficou à espera, até ver Nessim, que seguiu a indicação do
dedo do criado, sorrir e erguer o braço. Levantaram-se ambos, e
Nessim aproximou-se imediatamente da mesa com o seu meigo e aberto
sorriso; depois foram as habituais exclamações de surpresa e prazer.
Estava em Berlim numa viagem de negócios de dois dias.

— Tento vender tungsténio — acrescentou laconicamente.

Regressava de avião ao Egipto na manhã seguinte. Mountolive


apresentou-o ao seu hospedeiro e persuadiu-o a ficar alguns minutos
na sua companhia.
92

— É um prazer tão raro... e sobretudo agora. Mas Nessim já soubera da


sua próxima nomeação.

— Sei que a coisa ainda não é oficial — disse ele — ... mas correm
rumores... Bem, não vale a pena esconder-lhe que foi Pursewarden quem
mo disse. Pode imaginar a nossa alegria depois de tanto tempo.

Continuaram a tagarelar, Nessim respondendo com um sorriso às


perguntas de Mountolive. Mas nenhum deles ousou falar de Leila em
primeiro lugar. Depois, o rosto de Nessim tomou uma expressão
curiosa, uma espécie de pudor dissimulado, e disse hesitante:

— Vou fazer-lhe uma confidência. Estou para casar. Recostou-se na


poltrona tirando uma profunda fumaça do charuto. Mountolive formulou
as felicitações habituais onde havia uma nuvem de tristeza — porque o
casamento de um amigo é sempre um risco de sermos excluídos da sua
amizade.

— Pois é uma boa notícia! — repetiu ele calorosamente, esforçando-se


por ser cordial, sem reservas; e sentiu que finalmente podia
mencionar o nome de Leila. — Leila ficará encantada.

Nessim lançou-lhe uma olhadela dissimulada pelas longas pestanas


antes de afastar vivamente os olhos.

— Não estou certo disso.

Mountolive colocou-se numa atitude de polida interrogação.

— Para começar, a mulher em questão — disse Nessim friamente — é


judia, e bem sabe o terror absurdo que os coptas sentem pelos judeus.
Temos mesmo um provérbio que diz: «Se deixares a raposa judia entrar
na tua vinha, ela acabará por te devorar o coração».

— Bem sei — disse Mountolive — mas tenho a certeza de que os


Hosnani...

— Depois, ela não pertence à sociedade. Enfim, é divorciada...

Nessim enunciou estes três pontos com ar indiferente.


93

Apagou o charuto e lançou de novo a Mountolive um olhar equívoco.

— Desde que você goste dela — disse tranquilamente este último.

Mas, com grande surpresa sua, Nessim fez uma careta de desprezo e
esfregou o queixo na manga do casaco.

— Se gosto dela? — disse ele lentamente, como se sonhasse acordado. —


Bem, creio que sim.

Mas, levantando-se bruscamente, lançou um olhar inquieto aos seus


companheiros sentados na outra extremidade da sala.

— Tenho de deixá-lo — desculpou-se. — Mas peço-lhe que guarde


absoluto segredo do que lhe disse.

Estudaram a possibilidade de se encontrarem em Inglaterra antes de


Mountolive partir para o seu novo posto. Nessim não se achava
infelizmente em condições de formular projectos, pois não podia
prever, com antecedência, para onde o levaria o curso dos seus
negócios. Deviam entregar-se à sorte. Nesse momento o hospedeiro de
Mountolive regressou do vestiário, o que abreviou qualquer troca de
confidências. Despediram-se cordialmente e Nessim voltou lentamente
para a sua mesa.

— O seu amigo é negociante de armas? — perguntou o encarregado de


negócios quando partiam.

— Não, é banqueiro. A menos que o tungsténio tenha qualquer utilidade


na fabricação de armas... Porquê?

— Por nada de especial. Simples curiosidade. Sabe, as pessoas que


estão com ele pertencem todas à Krupp, e foi por isso que lhe fiz a
pergunta.
IV

Regressava sempre a Londres com a trémula impaciência de um amante


longamente separado da amada; voltava, por assim dizer, num ponto de
interrogação. Teria a vida mudado? Teria mudado tudo? Talvez, afinal
de contas, a nação tivesse acordado e começado a viver? A morrinha
negra sobre Trafalgar Square, as comichas incrustadas de fumaça de
Whitehall, o incessante vaivém dos pneus sobre o asfalto, as vozes
misteriosas de conspiradores que sobem do rio afogado no nevoeiro,
tudo aquilo era simultaneamente tranquilizante e ameaçador. Amava
aquilo intermitentemente, aquela melancolia, embora soubesse que não
poderia mais viver ali para sempre, pois a sua profissão fizera dele
um expatriado. Caminhava no meio da chuva miudinha em direcção de
Downing Street, abafado no seu pesado sobretudo, comparando-se de vez
em quando, não sem uma certa complacência, ao histriónico Grão-Duque,
que lhe sorria quando os seus olhos encontravam os anúncios dos
cigarros De Reske.

Sorriu recordando-se das saídas acerbas de Pursewarden sobre a


capital, repetindo-as mentalmente com verdadeiro prazer, quase como
se fossem elogios. Pursewarden passou a mão da irmã de um cotovelo
para outro a fim de completar um gesto vago endereçado à estátua
enegrecida de Nelson, sob um bando de pombos que agitavam as asas
para se defenderem do frio brutal. «Ah, Mountolive, olhe para isto.
96

Pátria de excêntricos e impotentes. Londres! A tua comida é tão


apetitosa como uma papa de bário, o teu desconforto, as ruas causas
não só perdidas mas ultrapassadas». Mountolive tinha protestado
rindo. «Pouco importa. É nossa, e é maior que a soma de todos os seus
defeitos». Mas o seu companheiro achara aqueles sentimentos
incompatíveis com a realidade. Sorria agora recordando o áspero
ataque do escritor contra a melancolia e o barbarismo sinistro da
Inglaterra. Essa melancolia satisfazia Mountolive; era uma espécie do
amor que a raposa sente pela sua terra. Ouvia com complacência,
sorrindo indulgentemente, enquanto o seu companheiro se fingia
encolerizado contra a sua ilha natal. «Ah, Inglaterra! Inglaterra
onde os membros da Sociedade Protectora dos Animais comem carne e os
nudistas comem frutos congelados. O único país que se envergonha da
pobreza».

O Big Ben tocou a sua melopeia plangente. As lâmpadas tinham começado


a despedir as suas linhas de luz prismática. Mesmo a despeito da
chuva havia o habitual magote de turistas e de curiosos diante do
número 10 (Nota 1). Mountolive afastou-se e penetrou nas silentes
abóbadas do Foreign Office, dirigindo os seus passos para a
repartição do correio, agora virtualmente deserta, onde se apresentou
e deu instruções para lhe enviarem a correspondência, deixando ordem
para que lhe mandassem imprimir novos e mais pomposos cartões de
visita.

Depois, num ar de certo modo mais solene, e num passo menos


despreocupado, trepou a fria escadaria que cheirava a teias de aranha
e alcançou o grande vestíbulo patrulhado por archeiros uniformizados.
Era tarde e a maior parte dos habitantes daquilo a que Pursewarden
chamava o «Pombal Central» tinha partido já. Aqui e além, no grande
edifício, havia oásis de luz atrás das janelas gradeadas. O tilintar
de chávenas de chá soou algures.

Nota 1 - O número 10 de Downing Street é a residência do Primeiro-


Ministro. (N. do T.).
97

Um sujeito tropeçou numa pilha de pastas encarnadas acumuladas num


corredor. Mountolive soltou um suspiro de prazer. Tinha
deliberadamente escolhido esta hora tardia para as suas primeiras
visitas porque tinha que se avistar com Kenilworth e... as suas
ideias não eram muito claras a esse respeito; mas poderia vencer a
antipatia que o homem lhe despertava e convidá-lo para vir tomar uma
bebida no seu clube? No decurso da sua carreira tinha concitado a
inimizade do outro, sem saber porquê, pois nunca houvera entre os
dois qualquer atrito concreto. Mas a coisa ali estava, como um nó na
madeira.

Tinham sido condiscípulos no colégio e na Universidade, embora nunca


fossem amigos. Mas, enquanto Mountolive tinha progredido, sem
sobressaltos, na ladeira das promoções, o outro tinha, de certo modo,
perdido constantemente o pé; derivara em lugares de menor
importância, recolhera os louvores rotineiros, mas nunca encontrara a
corrente favorável. A sua habilidade e valor eram incontestáveis.
Porque diabo nunca triunfara? Mountolive fazia a si próprio esta
pergunta com indignação, com irritação. Pouca sorte? De qualquer
modo, ali estava Kenilworth dirigindo a Repartição do Pessoal, um
lugar inofensivo, é certo, mas o seu fracasso embaraçava Mountolive.
Para um homem com os seus méritos era realmente uma vergonha estar a
dirigir um daqueles elos da cadeia administrativa que nenhuma
perspectiva abrem para o mundo da política. Um beco sem saída. E já
que não podia manifestar-se num sentido positivo, não tardariam a
desenvolver-se nele os poderes negativos da obstrução que sempre
provêm de um sentimento de fracasso.

Enquanto assim pensava, ia subindo lentamente ao terceiro andar para


visitar Granier, movendo-se no crepúsculo violeta em direcção das
altas portas de madeira creme, atrás das quais o subsecretário se
encontrava flutuando na luz fria de uma lâmpada verde, fazendo com um
canivete incisões no papel mata-borrão rosa. Os cumprimentos aqui
valiam o seu peso, pois eram temperados por certo ciúme profissional.
98

Granier era um homem esperto, brilhante e bem humorado, tendo herdado


da avó um pouco da agilidade mental dos franceses. Era fácil gostar-
se dele. Falava depressa e confiadamente, marcando as suas frases com
pequenos movimentos do pesa-papéis de marfim. Mountolive sentiu-se
vencido pelo encanto da sua oratória — um inglês de boa casta!

— Esteve na missão de Berlim, presumo. Bom. De qualquer modo, se tem


lido as «previsões políticas», verá o aspecto que os acontecimentos
podem vir a tomar e avaliar a extensão das nossas preocupações no que
respeita ao seu novo posto. Não é?

Não gostava de usar a palavra «guerra». Tinha um som melodramático.

— Se suceder o pior não preciso acentuar quanto nos preocupa o Suez —


e na verdade todo esse complexo de estados árabes. Mas uma vez que já
lá serviu não quero estar a dar-lhe conselhos. Mas aguardamos os seus
relatórios com interesse. Tanto mais que sabe o árabe.

— O meu árabe está enferrujado; pouco resta.

— Shut — disse Granier — não fale muito alto. Deve a sua designação
em grande medida a esse facto. Pode recuperar com rapidez os seus
conhecimentos?

— Se me derem a licença a que tenho direito.

— Naturalmente. De resto, agora que a Comissão acabou, temos de obter


o agreément, e assim por diante. E, naturalmente, o secretário de
Estado deseja vê-lo quando regressar de Washington. E depois a
investidura, o beija-mão e tudo o mais? Embora consideremos toda a
nomeação deste género como urgente... enfim, conhece tão bem como eu
a serenidade chinesa dos movimentos do Foreign Office. (Sorriu o seu
sorriso indulgente e malicioso, acendendo um cigarro turco.) Mas
talvez não seja má filosofia, pelo menos no plano político. Afinal de
contas, enfrentamos constantemente o inevitável, o irremediável;
quanto mais pressa, mais confusão! O pânico corrói a confiança.
99

Em diplomacia podemos propor, nunca podemos dispor. Isso pertence a


Deus, não acha?

Granier era um desses católicos mundanos que consideram Deus como um


digno membro do seu clube, cujos motivos são indiscutíveis. Suspirou
e guardou um breve silêncio antes de acrescentar:

— Bem, agora temos de preparar o tabuleiro de xadrez para si. Nem


todos consideram o Egipto um figo maduro. Felizmente para você.

Mountolive abria mentalmente um mapa do Egipto com a sua grande


artéria central flanqueada por desertos, as anomalias poeirentas das
gentes e dos credos; depois viu-o alastrar-se em três direcções numa
incoerência de desertos e de pradarias; para o Norte o Suez, como uma
operação cesariana rasgando, prematuramente, o Oriente; depois outra
vez o sinuoso complexo de montanhas e granito morto, pomares e
planícies distribuídas no mapa, ao acaso, fronteiras marcadas com
pontinhos... A metáfora do tabuleiro era adequada. No meio desta teia
de aranha ficava o Cairo. Suspirou e despediu-se preparando uma nova
expressão para saudar o infeliz Kenilworth.

Quando passou novamente junto dos archeiros do primeiro andar


descobriu, com terror, que estava atrasado dez minutos para a sua
segunda entrevista e pediu aos deuses que esse facto não fosse
interpretado como uma descortesia intencional.

— Mr. Kenilworth já telefonou duas vezes, sir. Eu disse-lhe onde o


senhor estava.

Mountolive respirou e dirigiu-se de novo para a escada, mas desta vez


para voltar à direita e percorrer diversos corredores frios mas
inodoros que levavam ao gabinete de Kenilworth, que o esperava
batendo com as lunetas sem aros no polegar forte e bem torneado.
Acolheram-se com uma grotesca efusão que, de facto, mascarava a
antipatia recíproca.

— Meu caro David.

Seria, pensava Mountolive, simplesmente uma antipatia inspirada pelo


aspecto físico do outro?
100

Kenilworth era de compleição forte e porcina, pesando para cima de


noventa quilos de sebo e snobismo. Estava prematuramente encanecido.
Os seus dedos gordos, bem tratados, sustentavam a caneta com tanta
delicadeza como se estivesse lidando com agulhas de fazer renda. —
Meu caro David.

Abraçaram-se calorosamente. Quando Kenilworth se levantou, toda a


gordura ficou pendurada em torno do corpo como um fato mal feito.

— Meu caro Kenny — disse Mountolive com apreensão e um certo desprezo


por si próprio.

— Que boa nova! E prezo-me — Kenilworth compôs uma expressão seráfica


— de ter muito modestamente contribuído para ela. O conhecimento do
árabe contava aos olhos do secretário de Estado e fui eu quem lhe
lembrou que você o falava perfeitamente! Isto é que é memória, hem? A
memória dos ratos de arquivo.

Soltou uma gargalhadinha e sentou-se apontando uma cadeira a


Mountolive. Trocaram banalidades e depois Kenilworth, juntando as
mãos num gesto contrariado, exclamou:

— Mas voltemos ao nosso caso, meu velho. Reuni toda a papelada


pessoal para você lhe deitar uma olhadela. Está tudo em ordem. É uma
legação muito afinada, verá. Tenho absoluta confiança no chefe da
Chancelaria, Errol. Claro, a sua opinião é decisiva. Verificará se a
estrutura do pessoal o satisfaz e depois me dirá, não é verdade?
Talvez queira um ajudante de campo? Quanto a uma secretária é melhor
escolhê-la na manada de dactilógrafas da legação. E como você é
celibatário há-de necessitar de alguém para o aspecto social, não é?
Não creio que a sua terceira secretária lhe convenha para esse fim.

— Creio que poderei resolver isso tudo quando lá chegar.

— Claro, claro! Só pretendo facilitar-lhe as coisas na medida do


possível.
101

— Obrigado.

— Há apenas uma alteração que eu considero pessoalmente


indispensável. Trata-se de Pursewarden, o primeiro conselheiro
político.

— Pursewarden? — disse Mountolive com um sobressalto.

— Vou transferi-lo. O seu contrato expirou e ele não serve para o


lugar. Uma transferência far-lhe-á bem.

— Foi ele que manifestou esse desejo?

— Não de forma expressa.

Mountolive estremeceu. Retirou do bolso a boquilha de que se


utilizava unicamente em momentos de perplexidade, e colocando-lhe um
cigarro, que escolheu na caixa de prata colocada sobre a secretária,
reclinou-se para trás.

— Você tem quaisquer outros motivos? — perguntou tranquilamente. —


Porque pessoalmente gostava de conservá-lo comigo pelo menos durante
algum tempo.

Os olhinhos de Kenilworth apertaram-se. O seu pescoço nédio pareceu


dilatar-se sob o efeito do rubor de contrariedade que procurava abrir
caminho para o rosto.

— Para ser franco, tenho.

— Então de que se trata?

— Você encontrará nos papéis que eu coligi para si um longo relatório


de Errol a respeito de Pursewarden. Não me parece que o homem nos
convenha. Depois, não se pode confiar nesses contratados da mesma
forma que se confia nos oficiais de carreira. Na generalidade, é
claro. Não quero dizer que o nosso amigo não seja fiel à firma, longe
disso. Mas é abelhudo e teimoso. Bem, seja! É um escritor, não é?

Kenilworth conciliou-se com a imagem de Pursewarden com um sorriso


breve de inconsciente desdém.

— Tem havido fricções constantes com Errol. Bem vê, depois que a
Comissão começou a desintegrar-se gradualmente, depois da assinatura
do Tratado, criou-se uma enorme brecha, um hiato; todas as agências
criadas depois de 1918, e que trabalhavam para a Comissão, quebraram
as amarras à medida que o navio-mãe começou a dar lugar a uma
Embaixada.
102

Você terá que tomar certas decisões radicais. Anda tudo à deriva. A
expectativa tem sido a nota dominante dos últimos meses — e uma
hostilidade latente entre uma Embaixada sem chefe e todos esses
organismos enjeitados lutando contra a sua própria extinção. Percebe?
Pursewarden pode ser muito inteligente mas arranjou uma série de
inimigos — não só na Legação; pessoas como Maskelyne, por exemplo,
que dirige o Serviço de Informações do Ministério da Guerra há mais
de cinco anos. Rosnam um ao outro como cães.

— Mas que relações temos nós com o Serviço de Informações?

— Nenhumas. Mas a Secção Política do Alto Comissário está na


dependência dos relatórios dos Serviços de Maskelyne que constituem o
núcleo de informações para todo o Médio-Oriente.

— E onde está a querela?

— Pursewarden, como político, sente que a Embaixada também herdou de


certo modo da Comissão a secção de Maskelyne. Este nem quer ouvir
falar em tal. Exige paridade ou mesmo completa autonomia para o seu
bando. Afinal de contas não passa de um tropa.

— Então é colocá-lo provisoriamente sob as ordens de um adido


militar.

— Muito bem, mas Maskelyne recusa-se a ficar ligado à sua Missão


visto que é mais antigo que o seu adido designado.

— Que tolice é tudo isso. Qual o posto dele?

— Brigadeiro. Bem vê, desde o fim da guerra de 18 o Cairo tem sido a


sede da rede de informações e toda a informação é filtrada por
Maskelyne. E agora Pursewarden tenta chamá-lo a si, metê-lo nas
baias. Desordem geral, é claro. O pobre Errol, que tem os seus lados
fracos, reconheço-o, anda a balouçar entre os dois como uma vela
solta. É por essa razão que eu penso que a sua tarefa seria
facilitada se Pursewarden fosse afastado.
103

— Ou Maskelyne.

— Bom, mas ele é um feudo do Ministério da Guerra. É impossível. Em


qualquer caso, está ansioso porque você chegue para arbitrar a
questão. Está persuadido de que você restabelecerá a sua completa
autonomia.

— Não posso tolerar uma agência autónoma do Ministério da Guerra num


território onde sou acreditado, não acha?

— Concordo. Concordo, caro amigo.

— E que diz o Ministério da Guerra?

— Sabe como são os militares. Aceitarão qualquer decisão sua. Não têm
outro remédio. Mas estão anichados lá há muitos anos. Têm os seus
quadros de pessoal e um transmissor em Alexandria. Penso que
gostariam de ficar.

— Mas sem autonomia. Eu considero isso intolerável.

— Exactamente. É o ponto de vista de Pursewarden. Bem, mas alguém tem


de partir no interesse da equidade. Não nos podemos dar ao luxo de
todas essas alfinetadas.

— Que alfinetadas?

— Bem: Maskelyne, retendo os relatórios e sendo obrigado depois a


despejá-los na Secção Politica; Pursewarden, criticando-lhe os
métodos e duvidando do valor das informações. Um verdadeiro fogo de
vistas. A coisa é séria. O melhor é afastar a personagem, que de
resto tem... companhias estranhas. Errol teme pela sua segurança.
Compreenda, não temos nada contra Pursewarden. Apenas ele é um
pouco... enfim, um pouco vulgar, por assim dizer. Não sei como
qualificar a coisa. Está tudo no relatório de Errol.

Mountolive suspirou.

— Tudo isso não passa de uma querela entre Eton e Worthing, não acha?

Ficaram a olhar um para o outro. Nenhum deles achou graça à


observação. Kenilworth sacudiu os ombros manifestamente vexado.

— Meu velho — disse ele — se você pretende bater-se com o secretário


de Estado por causa disso, não posso impedi-lo; você não aceita as
minhas sugestões.
104

Mas o meu ponto de vista já foi objecto de um relatório. Desculpe-me


se não o altero; é o meu comentário aos relatórios de Errol. Afinal
de contas tem sido ele quem tem conduzido todo o assunto.

— Bem sei.

— Seria injusto para com ele.

Agitando-se vagamente no seu subconsciente, Mountolive sentiu uma vez


mais apresentar-se aquele poder de que agora dispunha — o poder de
tomar decisões em factos destes que até então tinham sido deixados ao
destino, ou às decisões ocasionais de vontades subalternas; factos
que não mereciam os ressentimentos e as dúvidas cuja resolução
sumária se alcançaria com um simples acto de bom-senso. Mas se ele
pretendia afirmar a sua liberdade de agir, tinha de começar por
qualquer parte. Um embaixador tinha o direito de propor e garantir o
pessoal de sua escolha. Porque motivo havia Pursewarden de sofrer e
suportar os inconvenientes de uma transferência para qualquer lugar
incompatível devido aos mexericos administrativos dos tropas broncos
e pedantes?

— Receio que o F. O. o perca definitivamente se começa a brincar com


ele — disse Mountolive sem convicção; depois, como para reparar uma
declaração tão sinuosa, acrescentou num tom áspero: — De qualquer
forma, tenciono ficar com ele durante algum tempo.

O sorriso no rosto de Kenilworth não tinha neste momento qualquer


colaboração dos olhos. Mountolive sentiu o silêncio caindo sobre eles
como as portas de uma catacumba. Não havia mais nada a fazer.
Levantou-se com um ar exageradamente decidido, esmagou o cigarro no
horrível cinzeiro e disse:

— É esta a minha opinião, e sempre me poderei desembaraçar dele se


concluir que não me convém.

Kenilworth engoliu tranquilamente a saliva, como um sapo debaixo de


uma pedra, os seus olhos inexpressivos presos no papel da parede.
105

O som distante do tráfego de Londres elevou-se entre os dois.

— Tenho de ir — disse Mountolive, que agora começava a sentir-se


aborrecido. — Fico com todos os processos para os levar comigo para a
terra, amanhã à noite. Hoje e amanhã despacho as visitas oficiais e
depois... alguns dias de férias, pelo menos espero. Até à vista,
Kenny.

— Até à vista.

Mas Kenilworth não se levantou da secretária. Limitou-se a fazer um


aceno em direcção da porta quando Mountolive a fechou; depois
regressou, com um suspiro, para o memorando muito bem dactilografado
de Errol, numa pasta cinzenta marcada À atenção do Embaixador
Designado. Leu algumas linhas, depois levantou os olhos com ar
preocupado para a janela sombria, antes de atravessar o quarto para
abrir as cortinas e levantar o auscultador do telefone. «Os arquivos,
por favor».

Por agora, era mais hábil não tentar impor o seu ponto de vista.

Esta querela fútil fez contudo Mountolive renunciar ao seu projecto


de levar Kenilworth ao seu clube. Num certo sentido era um alívio. Em
lugar disso telefonou a Liza Pursewarden e foram jantar juntos.

Dewford Mallows ficava apenas a duas horas de Londres, mas, mal


saíram da cidade, verificaram que toda a província estava debaixo de
um denso lençol de neve. Foram obrigados a diminuir a marcha, o que
encantou Mountolive, mas enfureceu o motorista.

— Vamos lá chegar pelo Natal, sir — se é que lá chegamos.

Aldeias da era glacial, vivendas e granjas de tectos de colmo


polvilhados de neve, arrumadas como a montra de um pasteleiro
habilidoso; curvas lentas de pradarias imaculadas, onde se viam
impressas, em caracteres cuneiformes, as patas de uma ave ou as
marcas congeladas do gado.
106

As vidraças do carro estavam coladas pela neve. Não dispunham nem de


aquecimento nem de correntes. A cinco quilómetros da aldeia
encontraram um camião voltado na valeta; dois homens olhavam
indiferentes soprando os dedos entorpecidos. Os postes telegráficos
tinham sido derrubados aqui e além. Havia um falcão morto na neve
rutilante, em Newton Ridge. Nunca conseguiriam chegar a Parson's
Ridge e Mountolive apiedou-se do motorista e aconselhou-o a voltar
para a estrada principal atravessando a ponte.

— Moro ali em cima — disse ele. — Em vinte e cinco minutos de marcha


chego lá.

O homem ficou satisfeitíssimo por não continuar e aceitou


constrangido a gorjeta que Mountolive lhe ofereceu. Depois manobrou o
carro lentamente e arrancou outra vez para o Norte enquanto o seu
passageiro se afundava naquela brancura, com a respiração a
condensar-se diante dele numa espessa coluna de vapor.

Seguiu o carreiro familiar através dos campos, cada vez mais íngreme
à medida que se aproximava de uma linha do horizonte invisível, que
desenhava (a memória agia agora onde a vista era impotente) qualquer
coisa tão perfeita na sua simplicidade como o primeiro avião de
Cavendish. Uma paisagem ritual que tornava mais irresistivelmente
misteriosa a claridade de um sol fantasma, algures, lá em cima, por
detrás da cortina opaca de um nevoeiro pesadão que derivava diante
dele, afastando-se por um momento para depois de novo se cerrar. Esta
caminhada reavivava nele uma multidão de recordações, mas não podendo
vê-los era obrigado a imaginar os dois pequenos lugarejos na crista
da colina, os bosques de faias e o castelo normando. Os seus sapatos,
a cada passo, cortavam uma massa trémula de gotas de chuva nos tufos
de relva luxuriante e em pouco tempo as viras das calças ficaram
alagadas e os tornozelos começaram a gelar.

Um exército de carvalhos surgiu da sombra, e bruscamente houve um


crepitar seco, como se as árvores batessem os dentes de frio, e
pedaços de neve vieram esmagar-se no leito de folhas mortas a seus
pés.
107

Na crista, o espaço estava desembaraçado. Os coelhos deslizavam sem


ruído por todos os lados. As pontas das ervas altas, geladas pelo
frio, cintilavam como estiletes. Aqui e além apareciam lampejos de um
sol pálido brilhando através do nevoeiro como uma lâmpada de gás que
ilumina mas não aquece. Agora Mountolive ouvia o chapinhar dos seus
sapatos no macadame da estrada de segunda classe enquanto se
apressava em direcção dos altos portões domésticos. Aqui e ali viam-
se carvalhos ornamentados de brilhantes; dois pombos gordos fugiram
com um bater de asas sonoro, como se mil livros se fechassem ao mesmo
tempo. Mountolive sobressaltou-se mas depois sorriu divertido.
Avistou uma lebre na tapada, nas vizinhanças da casa. Dedos de gelo
caíam ao lado das árvores com um ruído de cálices quebrados. Procurou
a velha chave Yale e sorriu outra vez quando a sentiu dar a volta,
dando-lhe acesso a um ambiente morno e inesquecível que cheirava a
abrunhos e livros antigos, cera de soalhos e flores; tudo recordações
que o levavam infalivelmente até Piers Plowman, o pónei, à cana de
pesca e ao álbum de selos. Ficou no vestíbulo e chamou por ela
docemente. A mãe encontrava-se à lareira, tal como ele a tinha
deixado a última vez, com um livro aberto sobre os joelhos, sorrindo.
Tinham decidido tacitamente dispensar despedidas e boas-vindas
formais: proceder como se ele se ausentasse simplesmente por alguns
minutos daquele quarto acolhedor onde ela passava a vida, lendo,
pintando ou costurando diante da lareira. Ela sorria agora aquele
mesmo sorriso que a ajudava a cimentar o espaço e o tempo e a adoçar
o abandono que a empolgava quando o filho se encontrava ausente.
Mountolive desembaraçou-se da pesada mala de cabedal e aproximou-se
da mãe.

— Querida mãe! Vejo pela sua cara que já sabe. É que esperava fazer-
lhe uma surpresa!
108

Ficaram ambos desolados com o facto; e enquanto ela o beijava,


explicou:

— Os Garniers vieram tomar chá na semana passada. Oh, David, que


pena. Era tão bom se tivesses sido tu a fazer-me a surpresa. Mas
finjo tão mal.

Mountolive sentiu um absurdo desejo de chorar de despeito; tinha


composto antecipadamente toda a cena, imaginando todas as perguntas e
respostas. Era como rasgar o original de uma peça dolorosamente
trabalhada pelo autor.

— Diabo, eles bem podiam ter ficado calados! — exclamou.

— Eles quiseram dar-me uma alegria — e deram. Podes calcular, não é


verdade?

Mas a partir desse ponto ele remergulhou, ligeiramente e sem esforço,


na corrente de recordações que a casa evocava e que remontavam quase
ao seu undécimo aniversário, e um sentimento de bem-estar e de
plenitude invadiu-o com o doce calor do fogo.

— Teu pai vai sentir-se muito feliz — acrescentou ela um pouco mais
tarde, numa voz onde pairava, áspero, um tom inconsciente de ciúme,
restos de uma paixão que havia muito tempo se tinha transformado numa
submissão involuntária. — Coloquei toda a tua correspondência sobre a
secretária dele.

A secretária «dele»! Nunca seu pai a tinha visto, nunca lá


trabalhara. A deserção do pai estava sempre presente entre eles,
embora raramente aludissem à sua vida, à margem da família, numa
outra parte do mundo; e quem podia dizer se ele se sentia feliz ou
infeliz? «Para aqueles de entre nós que vivem à margem do mundo, sem
terem sido chamados por nenhum deus, não existe outra verdade senão
esta: o trabalho é o amor!» Estranha frase que o velhote tinha
incluído num prefácio erudito a um texto pali! Mountolive tinha dado
voltas sobre voltas ao volume verde, procurando penetrar o sentido
destas palavras, confrontando-as com a lembrança de seu pai, delgada
silhueta morena com a estrutura óssea de uma gaivota esfomeada e
levando na cabeça um incongruente chapéu colonial.
109

Agora usava a túnica dos faquires indianos! Era ridículo? Nunca mais
vira seu pai desde que saíra da Índia, quando fizera onze anos;
tornara-se como uma espécie de criminoso condenado in absentia por um
crime... inqualificável. Uma aposentação amigável no mundo da
erudição oriental a que se dedicara havia alguns anos. Era
desconcertante.

Mountolive pai pertencera a essa Índia desaparecida, à companhia dos


seus chefes cuja devoção comum à função os tinha transformado numa
casta; mas uma casta que se orgulhava mais de ver um dos seus membros
entregar-se à erudição budista do que conquistar honras civis. Tais
paixões desinteressadas acabam geralmente por uma identificação
apaixonada com o seu objecto — esse subcontinente como um
formigueiro, com as suas castas e as suas crenças, os seus
monumentos, as suas fés e as suas ruínas. Tinha começado por ser um
simples juiz, mas, em poucos anos, tornou-se um proeminente mestre de
induísmo, editor e tradutor de textos raros e esquecidos. O jovem
Mountolive e sua mãe tinham ido instalar-se confortavelmente na
Inglaterra partindo do princípio que ele se viria juntar mais tarde à
família; com este fim fora aquela bela casa recheada com os troféus,
livros e quadros de uma longa carreira de trabalho. Se agora havia
nela um certo ar de museu, era devido a ter sido abandonada pelo seu
verdadeiro autor, que tinha decidido ficar na índia para completar os
seus estudos, que (reconheciam ambos agora) lhe tomariam todo o resto
da vida. Este fenómeno não era raro entre os funcionários dessa
administração hoje desmembrada e dispersa. Mas a coisa operara-se
gradualmente. Ele tinha reflectido no assunto durante muitos anos
antes de chegar a uma decisão, e assim a carta em que ele a anunciava
tinha o ar de um documento longamente meditado. Foi, com efeito, a
última carta que qualquer deles recebeu do ausente. Contudo, de
tempos a tempos, algum viajante que tinha oportunidade de visitá-lo
no mosteiro budista, perto de Madras, para onde ele se retirara, era
portador de uma amável mensagem do antigo juiz.
110

E, é claro, os livros chegavam também pontualmente, uns atrás dos


outros, resplandecentes nas suas belas encadernações, com o selo
imponente das University Presses. Os livros eram de certo modo a sua
desculpa e justificação.

A mãe de Mountolive respeitara esta decisão e actualmente mal falava


dela. Somente, de tempos a tempos, o responsável invisível pelas suas
duas vidas nesta ilha enevoada emergia quando se falava da «sua»
secretária, ou quando de outras observações análogas que caíam sem
comentário e de novo se evaporavam no mistério de uma existência que
para eles nada evocava de comum ou concebível. Mountolive nunca pôde
trespassar a couraça de orgulho de sua mãe para saber até que ponto
essa deserção a tinha afectado. Mas uma timidez comum crescera entre
eles a este respeito, porque cada um pensava que o outro sofria.

Antes de se vestir nessa noite para jantar, Mountolive entrou na sala


cujas paredes se encontravam cobertas de livros e que servia
igualmente de armeiro, e tomou solenemente posse da secretária de seu
pai, de que aliás se utilizava sempre que se encontrava de visita a
casa. Arrumou cuidadosamente as pastas nas diversas gavetas e separou
a correspondência. Entre as cartas e os postais localizou
imediatamente a escritura inimitável de Pursewarden num volumoso
sobrescrito porteado de Chipre. Pensou que talvez se tratasse de um
manuscrito, e abriu o sinete com o dedo, algo perplexo. «Meu caro
David — principiava a carta. — Deve surpreendê-lo receber de mim uma
epístola tão volumosa. Mas acabo de saber que você foi nomeado para o
Egipto, e há muitas coisas que lhe convém conhecer sobre a situação
aqui reinante e que não lhe posso comunicar oficialmente na sua
qualidade de embaixador designado (confidencial: via aérea). Bolas!»

Teria tempo mais tarde para estudar aquele enorme memorando, pensou
Mountolive suspirando, e abriu uma gaveta para guardar a carta
juntamente com os outros papéis.
111

Ficou um momento sentado em frente da grande secretária, deixando-se


impregnar da calma do gabinete e pelas associações que aquele
bricabraque despertava: pintura mandalaica de algum santuário
birmane, estandartes Lepcha, gravuras emolduradas da primeira edição
do Livro da Selva, a caixa de mariposas, os objectos votivos deixados
em algum templo abandonado. Depois os livros raros e as brochuras —
primeiros escritos de Kipling, editados por Thacker and Spink,
Calcutá, fascículos de Edwards Thompson, Younghusband, Mallows,
Derby... Alguns museus seriam felizes se os possuíssem. Depois de
classificados regressariam ao anonimato.

Pegou no antigo moinho de orações tibetano colocado sobre a


secretária e deu-lhe uma ou duas voltas, escutando o débil atrito no
interior do tambor, abafado pelos pedacinhos de papel amarelado onde
penas piedosas tinham escrito havia muito tempo a invocação Om Mani
Padme Aum. Fora um presente de seu pai no momento da despedida. Antes
de o navio levantar ferro tinha atormentado o pai para que lhe
comprasse um avião de celulóide e tinham procurado um em todo o bazar
sem o menor sucesso. De repente, o pai parara diante do tabuleiro de
um ambulante e adquirira aquele moinho por um punhado de rupias.
Entregara-lho em substituição do desejado brinquedo. Era tarde.
Tinham que se apressar. As despedidas foram despidas de calor.

E depois? Um estuário lamacento sob um céu de chumbo, o reflexo do


calor enevoando os rostos, o fumo que subia das fogueiras
crematórias, os cadáveres dos homens, azulados e dilatados, que o rio
levava na corrente... Era tudo de quanto se lembrava. Pousou o pesado
cilindro e soltou um suspiro. O vento sacudiu a janela e um punhado
de neve veio colar-se ao vidro, como para lhe recordar onde se
encontrava. Procurou os seus manuais de árabe e o dicionário. Durante
alguns meses aqueles livros ocupariam um lugar na sua mesa de
cabeceira.
112

Nessa noite assaltou-o novamente o mesmo mal que sempre o afligia


quando regressava a casa: uma dor atroz nos ouvidos que o reduzia
rapidamente à sombra torturada de si mesmo. Era um mistério, porque
até então todos os médicos se tinham revelado incapazes de debelar ou
sequer diagnosticar esse fenómeno. Aquilo só lhe sucedia quando se
encontrava em casa. Como sempre, sua mãe surpreendeu-lhe os gemidos,
sabendo, por experiência, o que significavam: veio sentar-se à
cabeceira da cama para lhe fornecer o conforto de uma presença amiga
e do único remédio que desde criança ela utilizava para lutar contra
a dor do filho. Conservava-o sempre ao alcance da mão, num armário
que ficava ao lado da cama: azeite que aquecia numa colher de chá ao
calor de uma vela. Ele sentiu o calor do azeite penetrar-lhe no
cérebro, e ouviu a voz da mãe afugentar as trevas da dor e acalmá-lo
com a promessa de um rápido alívio. Ao fim de algum tempo, a maré
dolorosa recuou, para o deixar, como lavado, na praia do sono, um
sono ainda vagamente animado pelas benfazejas recordações das doenças
da infância que sua mãe sempre partilhara com ele — adoeciam juntos,
como por simpatia. Seria para poderem ficar ambos na cama, em dois
quartos contíguos, a falar, a ler um para o outro, a gozar o luxo de
uma convalescença comum? Não sabia. Adormeceu. Foi só uma semana mais
tarde que abriu de novo a gaveta onde tinha guardado os documentos
oficiais e que leu a carta de Pursewarden.
V

«Meu caro David.

«Deve surpreendê-lo receber de mim uma epístola tão volumosa. Mas


acabo de saber que foi nomeado para o Egipto, e há muitas coisas que
lhe convém conhecer sobre a situação aqui reinante e que não lhe
posso comunicar oficialmente na sua qualidade de embaixador designado
(confidencial: via -aérea). Bolas.'

«Uf! Que maçada! Odeio escrever cartas, como bem sabe. E contudo...
provavelmente já terei partido quando você chegar, porque já dei os
passos necessários para ser transferido. Depois de uma série de
calculadas iniquidades, consegui finalmente persuadir o pobre Errol
de que eu não convinha à Missão que honrei com a minha presença
nestes últimos dois anos. Dois anos! Uma vida! E o Errol é tão bom,
tão honesto, tão virtuoso; um homenzinho curioso que lembra uma cabra
tirada a ferros! Foi com a maior relutância que disse mal de mim no
seu relatório. Peço-lhe que nada faça para impedir a transferência
que daí resultará porque é justamente o que me convém. Rogo-lhe esse
favor.

«O factor decisivo foi o meu abandono do posto nas últimas cinco


semanas; isso causou grandes perturbações e decidiu Errol. Já lhe
explico. Não sei se se recorda daquele jovem e obeso diplomata
francês da Rue du Bac, um tal Pombal? Nessim levou-nos uma vez a
todos a tomar umas bebidas, algures no Mundo.
114

Pois bem, refugiei-me em casa dele; colocaram-no cá. É realmente


divertido chez lui. No fim do Verão, a embaixada acéfala retirou-se,
acompanhando a corte que foi passar o Inverno no Cairo, mas desta vez
sem o vosso servidor. Meti-me a monte. Levantamo-nos às onze horas,
pomos as pegas na rua e, depois de um belo banho quente, jogamos o
gamão até à hora do almoço; depois vem um arak no café Al Akhtar com
Baltasar e Amaril (que se recomendam) e jantar no Bar Union. Depois
visitamos Clea ou vamos ao cinema. Pombal faz tudo isso na
legalidade: está de férias. Eu estou em retirada. De vez em quando
Errol telefona, exasperado, do Cairo, tentando surpreender-me e eu
respondo-lhe imitando a voz de uma poule do Midi. Isso irrita-o
porque suspeita que sou eu, sem, contudo, ter absoluta certeza. (Um
antigo aluno de Winchester não pode correr o risco de ser descortês.)
Temos deliciosos colóquios. Ontem disse-lhe que eu, Pursewarden,
estava a tratar-me de uma doença glandular com o professor Pombal e
que me encontrava actualmente livre de perigo. Pobre Errol. Um dia
hei-de apresentar-lhe desculpas por tudo isto. Mas mais tarde. Nunca
antes de ter obtido a minha transferência para o Sião ou para Santos.

«Tudo isso é muito indecente da minha parte, bem sei, mas... o tédio
daquela Chancelaria com toda aquela tropa de atrasados mentais! Os
Errol são tão britânicos! Por exemplo, são ambos economistas. Porque
diabo ambos? Um deles deve sentir-se permanentemente a mais. Fazem
amor com uma aproximação de duas decimais. Os seus filhos têm todos o
aspecto de meras fracções!

«Bem. Os únicos simpáticos são os Donkins; ele é esperto e alegre,


ela puxando para o comum, forte, usa demasiado bâton. Mas... ela
resgata o facto de o marido ter deixado crescer a barba e adoptado a
religião muçulmana! Senta-se com um ar agressivo na secretária dele,
balançando as pernas e fumando sem cessar. A boca muito vermelha.
Como não é uma lady, expõe-se aos comentários.
115

O marido é um jovem esperto mas excessivamente honesto. Não me atrevo


a perguntar-lhe se ele pretende tomar o suplemento de esposas a que
tem direito.

«Mas deixe-me dizer-lhe, à minha maneira, o que se oculta debaixo


desta série de tolices. Fui mandado para aqui, como sabe, contratado,
e preenchi escrupulosamente a minha missão original — como o atesta o
gigantesco rolo de papel intitulado (em caracteres geralmente
utilizados para as inscrições tumulares) Instrumentos para uma
Convenção Cultural entre os Governos de Sua Majestade Britânica, etc.
De facto, uma boa idiotice — porque, que pode haver de comum entre
uma cultura cristã e uma cultura muçulmana ou marxista? As nossas
premissas são irremediavelmente contraditórias. Tanto pior! Mandaram-
me fazer aquilo e eu obedeci. E, por mais que aprecie o que aqui
fizeram, a verdade é nada compreender de um sistema de educação
baseado no ábaco e uma longínqua teologia ultrapassada por Santo
Agostinho e Tomás de Aquino. Pessoalmente considero que armámos uma
temerosa confusão, não tenho qualquer parti pris no assunto. Etc. Não
vejo o que o nosso D. H. Lawrence pode oferecer a um paxá com
dezassete esposas, embora julgue saber qual dos dois é mais feliz...
Em conclusão, consegui o pacto cultural. «Feito isto, fui rapidamente
alçado ao cume como perito político e isso permitiu-me estudar
documentos e avaliar todo o complexo do Médio-Oriente como um
conjunto coerente, uma aventura política. Bem, deixe-me dizer que
depois de um prolongado estudo cheguei à conclusão de que não existe
coerência nem existe política — em todo o caso uma política capaz de
resistir às pressões que aqui começam a despontar.

«Estes estados corrompidos, embora venais e atrasados, não devem


menosprezar-se; não podemos conservá-los submissos só com encorajar o
que de mais corrupto e mais fraco existe neles, como parece que
fazemos. Este esquema pressupõe outros cinquenta anos de paz e a
inexistência de elementos radicais no eleitorado metropolitano; dado
isto, o statu quo pode manter-se.
116

Mas, considerada a realidade prevalente, será possível que a


Inglaterra tenha vistas tão curtas? Talvez. Não sei. Como artista,
esses problemas não me dizem respeito; como político sinto-me
desconfiado. Acrescentar a unidade árabe a todas as outras correntes
que trabalham contra nós, parece-me uma doce loucura. Estaremos ainda
obcecados pelo lúgubre sonho das Mil e Uma Noites, que nos foi legado
por três gerações de victorianos lúbricos, cujo subconsciente reagia
à ideia de uma bigamia legal? Ou pela febre romântica e beduína dos
Bell e dos Lawrence? Talvez. Mas os victorianos que nos meteram esse
sonho na cabeça eram gente que se batia pela supremacia da sua moeda;
sabiam que o mundo da política é uma selva. Hoje dir-se-á que o
Foreign Office considera que a melhor atitude a adoptar em face da
selva é fazer-se nudista e domar as feras pela simples exibição da
sua nudez. Estou a ouvi-lo suspirar: «Mas porque diabo Pursewarden
não é mais preciso. Sempre estas boutades!»

«Muito bem. Falava de pressões. Distingamos as pressões internas e as


pressões externas, como faria o bom Errol. A minha opinião pode
parecer-lhe heterodoxa mas aqui vai despida e franca.

«Bem, em primeiro lugar temos o abismo que separa os ricos dos pobres
— cem por cento do tipo indiano. Neste país, hoje, seis por cento da
população possui três quartas partes das terras, o que deixa um
feddan por cabeça para a restante população. Bom! Depois, a população
duplica cada duas (ou cada três?) gerações. Suponho que você encontra
isto em qualquer estudo de economia. Entretanto cresce uma classe
média cultivada e activa cujos filhos são educados em Oxford entre os
nossos confortáveis liberalismos — e que ao regressar ao Egipto não
encontram emprego. O babu torna-se cada vez mais poderoso e repete-se
a velha história. «Escravos intelectuais de todos os países, uni-
vos!»

«A estas pressões internas acrescentamos graciosamente outras,


instigando directamente o rigor de um nacionalismo baseado numa
religião fanática.
117

Pessoalmente admiro-a, mas não deve esquecer que é uma religião


militante, sem metafísica, uma simples ética pragmática. A União
Árabe, etc... Meu caro, para quê magicar estes absurdos edifícios a
somar ao nosso descalabro — tanto mais que para mim nenhuma dúvida
subsiste de que perdemos o poder de agir, o único que nos permitia
manter a nossa preponderância neste sector? Estes feudalismos
reaccionários e oscilantes só se podiam manter pelas armas contra os
factores de desagregação inerentes à própria natureza das coisas dos
nossos dias; mas, para utilizar as armas, «para orar com a espada;),
nas palavras de Lawrence, é fundamental ter fé na nossa própria
ética, na nossa mística da vida. Em que acredita o Foreign Office?
Não sei. No Egipto, por exemplo, além de manter-se a paz, muito pouco
se tem feito; a Alta Comissão desaparece depois de uma regência de...
— desde 1888? — e não deixa para trás nem os vestígios de um serviço
administrativo capaz de estabilizar esta palhaçada grotesca a que
aparentemente chamamos um estado soberano. Durante quanto tempo a
oratória oficial e a evocação de nobres intenções deterão os frutos
do descontentamento maciço que lavra neste povo? O tratado assinado
por um rei só tem valor quando o povo confia no rei. Quanto tempo nos
resta até se verificar a explosão? Não sei — e para lhe ser franco
não me interessa muito. Mas afirmo que uma pressão externa
imprevisível —- uma guerra, por exemplo — derrubaria todos estes
principados como castelos de cartas. Pelo menos são estas as razões
que na generalidade me fazem desejar uma mudança. Creio que devíamos
reorientar a política e construir nos bastidores uma Judeia poderosa.
E depressa. «E agora o particular. Nos alvores da minha actividade
política fui chocar por acaso com um serviço do Ministério da Guerra
especializado em informações de todo o género, dirigido por um
brigadeiro que não admite a ideia de ver os seus serviços dobrar o
joelho aos nossos. Questão de posto, ou de prestígio, enfim bagatelas
desse tipo; a comissão dera-lhe mais ou menos carta branca.
118

Entre parêntesis temos aí uma sobrevivência do velho Bureau Árabe,


que desde 1918 se afunda docemente como um lagarto debaixo de uma
pedra! Evidentemente, no reagrupamento geral, o seu bando devia (pelo
menos, parece-me) ser integrado numa entidade. No Egipto só existia
uma Embaixada embrionária. Como ele tinha trabalhado outrora para a
Secção Política da Alta Comissão, pensei que podia trabalhar para mim
e, depois de uma série de breves escaramuças, se não quebrei, pelo
menos verguei esse Maskelyne — é assim a sua graça. É um sujeito tão
típico que tomei uma série de notas a respeito dele para aproveitá-
las no meu próximo romance. (Escreve-se para recuperar uma inocência
perdida!)

«Desde que o Exército descobriu que a covardia é essencialmente um


produto da inteligência, começou a produzir sistematicamente os
Maskelynes, educando-os em todas as virtudes da estupidez: uma
espécie de apatia turca. O desprezo pela morte transformou-se em
desprezo pela vida, e um tal tipo de homem só aceita a vida segundo
as suas normas. Só um cérebro completamente cristalizado permite a um
indivíduo curvar-se perante tão triste rotina. Maskelyne é magro,
enorme, e a sua pele tomou durante o tempo que permaneceu nas Índias
o tom de serpente fumada, ou então de crosta coberta de tintura de
iodo. A sua dentadura perfeita assenta nas gengivas como uma pena.
Tem uma maneira muito pessoal — gostava de poder descrever esse gesto
que me fascina — de retirar lentamente o cachimbo da boca antes de
falar, cravando no interlocutor os seus olhinhos negros e quase
murmurando: «Está convencido disso?», as vogais desenraizando-se com
uma infinita lassidão do silêncio enfadonho que o rodeia. Vive roído
pela circunscrita perfeição de uma educação que o faz sentir-se mal
em trajes civis, e assim passeia por toda a parte na sua bela farda
de oficial de cavalaria, com um ar muito Noli me tangere (a educação
especializada acarreta sempre anomalias de comportamento.)
119

O seu magnífico perdigueiro russo, Nell (talvez seja o nome da mulher


do brigadeiro), segue-o por toda a parte e dorme aos pés do amo tanto
em casa como na repartição. A casa é um quarto de hotel onde nada
existe de pessoal — nem livros, nem fotografias, nem papéis. Apenas
um jogo de escovas de cabo de prata, uma garrafa de whisky e o
jornal. (Imagino-o colérico diante do espelho a escovar o cabelo
negro e reluzente. Ah, agora está melhor... muito melhor!)

«Entra na repartição às oito horas depois de comprar o número do


Daily Telegraph da véspera. Nunca o vi ler outra coisa. Instala-se
diante da imensa secretária tomado de um sombrio desdém pelos seres
humanos que o rodeiam, porventura abrangendo toda a raça humana;
examina e classifica as suas diferentes corrupções, as suas doenças,
para descrevê-las minuciosamente sobre o papel oficial, rematando
sempre com a sua assinatura floreada e ilegível. A torrente do seu
desprezo escoa-se lentamente, pesadamente, através das veias, como o
Nilo em plena inundação. Está a ver que numero o sujeito é. A sua
vida processa-se inteiramente no plano da pura imaginação militar,
pois nunca chega a conhecer os objectos da maior parte dos seus
relatórios; as informações que recolhe chegam-lhe pelo canal de
empregados corrompidos, lacaios descontentes e criados despedidos.
Nada disso tem importância. Sente-se imensamente feliz, orgulha-se
das interpretações que colhe desse montão de mexericos como um
astrólogo debruçado sobre as cartas de um céu desconhecido.
Presunçoso como um califa, sagaz e inflexível. Para falar com
absoluta franqueza, admiro-o.

«Maskelyne fixou duas graduações extremas entre as quais (como num


termómetro) a temperatura da sua aprovação ou reprovação pode
oscilar; são as duas frases «Digno de um rajá» e «Indigno de um
rajá». E, sendo tão ingénuo, é absolutamente incapaz de imaginar
qualquer coisa verdadeiramente indigna desse estupor do rajá. Um tipo
como ele parece incapaz de abrir os olhos para o mundo que o cerca;
mas a profissão e a necessidade do segredo tornaram-no num recluso
que nenhuma experiência tem do mundo que deve submeter a juízo...
120

Sinto-me tentado a prosseguir neste esboço de retrato do meu caçador


de espiões, mas desisto. Leia o meu próximo romance, encontrará
também um retrato de Telford, o número dois de Maskelyne — um civil
imenso e melífluo cuja dentadura mal ajustada se desloca no meio das
suas gargalhadinhas nervosas. É maravilhosa a adoração que nutre pelo
tropa gelado como uma serpente. «Sim, meu general!», «Não, meu
general!», está ele a grunhir constantemente, levantando-se para
servir o dono; quase se pode afirmar que está loucamente apaixonado
pelo patrão. Maskelyne, imóvel atrás da secretária, observa friamente
aquela perturbação, o queixo escuro, com uma covinha, apontando como
um dardo. Ou então recosta-se na cadeira móvel e dá uma palmadinha
afectuosa na porta do enorme cofre colocado nas suas costas como um
guloso batendo na pança enquanto exclama: «Não me acredita? Tenho
tudo aqui dentro, tudo!» E a avaliar pelo seu gesto amplo e
superlativo, é de crer que os seus arquivos contenham matéria
suficiente para levar o mundo inteiro ao banco dos réus! E talvez

Sim!

«Bem, eis o que sucedeu: certo dia encontrei na minha mesa um


documento, estilo Maskelyne, intitulado Nessim Hosnani e
subintitulado; Conspiração copta, que me alarmou. Segundo esse
documento, o nosso Nessim era acusado de fomentar uma vasta conjura
contra a casa real egípcia. Conhecendo Nessim, considerei que a maior
parte daquelas notas estavam sujeitas a caução, mas o relatório
colocou-me num grande embaraço, pois recomendava a transmissão das
informações ao ministro dos Negócios Estrangeiros egípcio, via
embaixada! Estou a ouvi-lo suster a respiração! Supondo que tudo
aquilo era verdade, uma tal medida ia colocar a vida de Nessim em
grande perigo. Ainda não lhe disse que uma das características
essenciais do nacionalismo egípcio é um ódio crescente pelos
«estrangeiros» — ou seja, pelo meio milhão de não-muçulmanos que cá
vivem?
121

E que desde o momento em que foi proclamada a inteira soberania do


Egipto os muçulmanos começaram a maltratá-los e a expropriá-los? O
cérebro do Egipto, como sabe, é constituído pelas suas comunidades
estrangeiras. Os capitais que irrigaram o país, enquanto ele se
encontrou sob a nossa suserania, estão agora à mercê dos rotundos
paxás. E os arménios, os gregos, os coptas e os judeus começam a
sofrer os efeitos desse ódio; muitos acham mais inteligente partir
mas nem todos podem adoptar essa solução. Os enormes investimentos de
capitais nos algodões e no resto não podem ser abandonados de um dia
para o outro. As comunidades estrangeiras subsistem à força de
orações e de gorjetas de suborno. Esforçam-se por salvar as suas
indústrias, o trabalho de toda uma vida, da usurpação progressiva dos
paxás. Nós entregámo-los literalmente, para pasto dos leões.

«Li e reli portanto esse documento com inquietação crescente. Sabia


que, se o transmitisse a Errol, ele se precipitaria a entregá-lo a
Sua Majestade. Portanto, empenhei-me em descobrir os pontos fracos
das acusações — felizmente não é um dos melhores relatórios de Mas-
kelyne — e consegui estabelecer sérias dúvidas sobre um certo número
das suas afirmações. Mas o que o enfureceu foi eu ter bloqueado o
papel — era obrigado a fazê-lo para impedir que caísse nas mãos da
Chancelaria! O meu sentido do dever passou um mau pedaço mas não me
era dada nenhuma alternativa; que teriam feito esses imbecis dos meus
colegas se o lessem? Se Nessim era realmente réu do género de conjura
de que Maskelyne o acusava, bem, sempre se podia tratar do assunto
mais tarde com ele. Mas... você conhece Nessim. Precisava de ter a
certeza antes de passar semelhante relatório aos meus superiores.
«Mas Maskelyne estava naturalmente enfurecido, embora tivesse a
elegância de não deixar transparecer os seus sentimentos. A
temperatura do nosso diálogo manteve-se muito abaixo de zero durante
uma conferência que tivemos no seu gabinete e desceu ainda mais
quando ele exibiu a acumulação de provas colhidas pelos seus agentes.
122

A maior parte delas não eram tão sólidas quanto eu temia. «Subornei
Selim — grunhia Maskelyne — e estou convencido de que o secretário
particular desse copta não se pode ter enganado. Há esse grupinho que
se reúne regularmente. Selim espera-os no carro e leva-os de volta
para casa. Depois, há esse curioso criptograma que parte da clínica
de Baltasar e que circula por todo o Médio-Oriente, e as visitas aos
fabricantes de armamento da Suécia e da Alemanha...». Eu sentia
vertigens, pode crer! Via todos os nossos amigos estendidos nas mesas
de mármore da morgue com os «bufos» egípcios a tomar medidas para a
mortalha!

«Mas devo confessar que acessoriamente as conclusões de Maskelyne


pareciam manter-se. Tudo isso se me afigurava bastante sinistro; mas
felizmente alguns dos pontos essenciais não resistiram à análise —
coisas como as denominadas mensagens cifradas que Baltasar remetia de
dois em dois meses a destinatários escolhidos nas principais cidades
do Médio-Oriente, por exemplo. Maskelyne tentava ainda seguir essa
pista. Mas os resultados estavam longe de ser completos e eu insisti
nesse ponto com a maior energia e grande desgosto de Telford;
Maskelyne, esse, é uma ave de rapina demasiado fria para se deixar
vencer tão depressa. Contudo, consegui fazê-lo admitir a vantagem de
suspender a entrega do relatório até se obter um reforço substancial
das suas hipóteses. Ficou a odiar-me mortalmente, mas engoliu a
pílula, e compreendi que tinha conseguido para o nosso amigo um
adiamento de execução. Tratava-se agora de saber o que fazer em
seguida — como aproveitar aquela pausa? Naturalmente eu estava
convencido de que Nessim se encontrava inocente dessas grotescas
acusações. Devo contudo confessar que não podia fornecer explicações
tão convincentes como as de Maskelyne. Que andavam eles a maniganciar
por trás de tudo aquilo? Se pretendia atirar com Maskelyne de pernas
ao ar tinha que descobrir por mim próprio a resposta. Trabalho
maçador e profissionalmente pouco próprio — mas que fazer?

123
O pequeno Ludwig ia transformar-se num polícia-amador, num Sexton
Blake (Nota 1)! Mas por onde começar?

«O único fio directo, ligando Maskelyne a Nessim, passava por Selim,


o secretário infiel; graças a este, tinha reunido um número
impressionante, mesmo alarmante, de informações sobre as actividades
dos Hosnani nos diferentes domínios — banco, marinha mercante,
algodão, etc. O resto não passava de mexericos, alguns prejudiciais,
mas isoladamente nenhum deles era concludente. Contudo, amontoados,
davam ao nosso amável Nessim uma personalidade algo sinistra. Decidi
que tinha de estudar pormenorizadamente tudo aquilo. Em particular o
que respeitava ao seu casamento — ácidos mexericos de invejosos e
vadios —, tão típico de Alexandria ou de qualquer outro lugar. Nisto,
naturalmente, tomavam grande parte os juízos de valor ético dos
anglo-saxões — refiro-me aos juízos de valor de Maskelyne. Quanto a
Justine... bem, conheço-a um pouco, e devo reconhecer que admirava de
certo modo a sua beleza sombria. Ouvi dizer que Nessim a perseguiu
durante muito tempo antes de convencê-la a casar-se com ele; não
direi que tenha dúvidas a esse respeito, mas... nem mesmo hoje aquele
casamento parece definitivamente cimentado. Formam um casal perfeito,
e todavia dir-se-ia que nunca se tocam; um dia tive a impressão de
vê-la contrair-se ligeiramente quando ele lhe retirava um cabelo
caído sobre a gola do casaco. Provavelmente imaginação. Talvez se
esteja a formar uma tempestade por detrás das pestanas de cetim negro
dessa mulher? Excesso de nervos, certamente. Muita histeria. Muita
melancolia judaica. Reconhece-se nela vagamente a rapariga do homem
cuja cabeça foi apresentada numa bandeja... Afinal, estou a perder-
me. «Bem, Maskelyne diz com o seu ar de seco desdém: «Mal se casa,
torna-se amante de outro homem, um estrangeiro ainda por cima».

Nota 1 - Personagem de novelas policiais de fraquíssima qualidade.


(N. do T.).
124

Falava de Darley, o amável e míope compatriota que às vezes habita


nos aposentos de Pombal. Ganha a vida como professor e escreve
romances. Tem um crânio gentil e arredondado de bebé, como às vezes
se encontra nos intelectuais; ligeiramente curvado, cabelos louros e
aquela timidez que acompanha as grandes emoções imperfeitamente
dominadas. O perfeito romântico! Se o olhamos de frente começa a
balbuciar. Mas é um pobre diabo, doce e resignado... Concordo que o
material não parece aliciante para uma mulher tão ardente como a
esposa de Nessim. Será piedade ou um pervertido pendor para a
inocência? Farejo aí um misteriozinho. Como quer que seja, foram
Darley e Pombal que me deram a conhecer esse livre de chevet clássico
em Alexandria, uma novela francesa intitulada Moeurs (um estudo em
grande estilo da ninfomania e da impotência psíquica), cujo autor foi
o primeiro marido de Justine. Depois de ter escrito o livro, o
artista teve o bom senso de se divorciar e de sair da cidade, mas
agora toda a gente vê nela a heroína do romance e a sociedade dedica-
lhe uma grave simpatia. Se estiver tentado a pensar que toda a gente
aqui é polimorfa e perversa, lembro-lhe que não me parece grande
sorte uma criatura ser assinalada como personagem principal de um
roman vache. Mas tudo isto pertence ao passado e agora Nessim tornou-
a numa dama da sociedade onde ela se move com a simplicidade bárbara
que convém tanto ao seu tipo de beleza como à digna modéstia de
Nessim. E ele, é feliz? Mas, espere, deixe-me perguntar de outra
maneira. Foi ele alguma vez feliz? É agora menos feliz do que era
dantes? Hum! Penso que podia ter encontrado pior, porque a rapariga
não é nem demasiado inocente nem demasiado estúpida. Toca muito bem
piano, embora com uma ênfase sombria, e lê bastante. Direi mesmo que
os romances deste seu criado são muito admirados — com um entusiasmo
desconcertante. (Acertou! Sim, é talvez por isso que eu me sinto
inclinado a gostar dela.)

«Por outro lado, não compreendo o que ela encontra em Darley. O pobre
diabo fica todo trémulo quando ela se aproxima; mas ele e Nessim
andam sempre juntos, parecem muito amigos.
125

Esses ingleses, com um aspecto insignificante, será que escondem um


temperamento de turco? De qualquer maneira, esse Darley deve ter
qualquer encanto, porque também conquistou as graças de uma
artistazinha de cabaret chamada Melissa. Se o vir não acredita que o
rapaz seja do género de ter duas amantes ao mesmo tempo. Será uma
vítima dos seus bons sentimentos? Torce as mãos, e os óculos ficam
embaciados quando menciona o nome de alguma dessas damas. Pobre
Darley! Consigo enfurecê-lo recitando-lhe o poema do seu homónimo:

O blest unfabled Incense Tree

That burns in glorious Araby,

With red scent chalicing the air,

Till earth-life grows Elysian there

«Ele suplica-me, corando, que pare, embora eu não consiga saber por
qual das duas ele cora; mas prossigo, declamando em tom magistral:

Half-buried in her flaming breast

In this bright tree she tnakes her nest

Hundred-sunned Phoenix! When she must

Crumble at length to hoary dust!

«A coisa bem podia aplicar-se a Justine». — «Pare!», continua ele a


berrar.

Her gorgeous death-bed! Her rich pyre

Burn up with aromatic fire!

Her urn, sight-high from spoiler men!

Her birth-place when self-born again!


« — Por favor. Basta!»

« — Que mal tem isso? O poema não é mauzinho».


126

«E concluo com Melissa mascarada de pastorinha de porcelana de Dresde


do século XVIII:

The mountanainless green wilds among,

Here ends she her unechoing song

With ambar tears and odorous sighs

Mourned by the desert where she dies!

«Mas basta de Darley! Quanto a Justine, não compreendo o que ela


procurava nele, a menos que se aceite o epigrama que Pombal costuma
enunciar com uma gravidade obesa: «Les femmes sont fidèles au fond,
tu sais? Elles ne trompent que les autres femmes!» Mas não vejo
nenhuma razão para que Justine desejasse enganar a sua pálida rival,
Melissa. Atendendo ao lugar que ocupava na sociedade, seria uma
aspiração indigna dela. Percebe o que eu quero dizer?

«Então é sobre Darley que o nosso Maskelyne concentra os seus olhos


sinistros de furão; segundo Selim, é num cofrezinho dissimulado na
parede, em casa, e não no banco, que Nessim guarda todos os
documentos comprometedores. Só existe uma chave desse cofre, e Nessim
nunca a abandona. O cofre particular, pretende Selim, está cheio de
papéis cuja natureza ignora. Cartas de amor? Hum! Em todo o caso,
Selim cometeu uma ou duas tentativas infrutíferas para abri-lo. Um
dia, o audacioso Maskelyne decidiu ir examinar pessoalmente a coisa
para conseguir, se necessário, um molde de cera. Selim introduziu-o
no pátio e ele subiu a escada de emergência... e por um pouco ia
caindo em cima desse imbecil do Darley e de Justine que se
encontravam no quarto de cama! Ouviu-lhes as vozes a tempo. Não me vá
dizer, depois disto, que os ingleses são puritanos. Pouco depois
disso, li numa revista um conto de Darley, em que uma das personagens
exclama: «Nos braços daquele homem senti-me mutilada, mastigada, a
pele besuntada de saliva, como se me encontrasse entre as patas de um
gato superexcitado»; Senti uma vertigem.
127

«Bolas!», exclamei. «Já sei o que Justine faz a esse traste de


segunda ordem: come-o vivo!»

«Devo dizer que a coisa fez-me rir a bandeiras despregadas. Darley é


tão tipicamente inglês: snob e provinciano simultaneamente. E tão
bom. Falta-lhe um demónio. (Estou grato aos irlandeses e aos judeus
que cuspiram no meu sangue.) Mas por que diabo estou eu com
contemplações? Justine deve ser maravilhosa na cama; deve beijar como
um arco-íris e despedir chispas... Sim, mas Darley? A coisa não
combina. De qualquer maneira, «aquela fêmea pútrida», como lhe chama
Maskelyne, é objecto de toda a sua atenção ou, pelo menos, era da
última vez que estive com ele. Porquê?

«Todas estas ideias me atravessavam o espírito enquanto eu ia no


carro, a caminho de Alexandria; tinha direito a um longo fim-de-
semana, que mesmo o bom Errol considerou justo. Nem sonhava então que
menos de um ano decorrido você se encontraria no cerne de todos estes
mistérios. Tudo o que eu sabia era que queria, sendo possível,
demolir a tese de Maskelyne e impedir a Embaixada de levar o assunto
Nessim para diante. Mas depois disso não sabia mais que fazer. Afinal
de contas eu não sou nenhum espião; ia agora farejar pelas ruas de
Alexandria, com uma cabeleira postiça, dotada de auscultadores, para
tentar lavar o nome do nosso amigo? Não podia, por outro lado,
apresentar-me diante de Nessim e, depois de pigarrear, dizer-lhe com
desenvoltura: «E, a propósito, falemos daquela rede de espionagem que
você organizou aqui...». O carro rolava acelerado e eu reflectia. O
Egipto, chato como uma mulher sem seios, desfilava diante de mim. O
verde cambiava-se em azul, o azul em olhos de pavão, em castanho-
gazela, em negro-pantera. O deserto era como um beijo seco, um bater
de pálpebras contra o espírito. Hum! A noite florindo em estrelas
como um ramo de amendoeira. Entrei na cidade, depois de um ou dois
copinhos, debaixo de um crescente de Lua que parecia reflectir a luz
do mar alto. Tudo cheirava bem outra vez.
128

O círculo de ferro que o Cairo aperta em torno da cabeça (a


consciência de estar rodeado pelo deserto escaldante?) afrouxou,
desvaneceu-se para ceder à esperança de um mar largamente aberto que
pelo espírito nos aproxima da Europa... Perdão! Descarrilei outra
vez!

«Telefonei para a casa grande, mas eles tinham saído; um pouco


aliviado dirigi-me ao café Al Akhtar na esperança de encontrar alguns
conhecidos. Só lá estava o inefável Darley. Gosto muito dele. Aprecio
nomeadamente a sua maneira de sentar-se sobre as mãos, muito
excitado, quando se lança desvairadamente numa discussão artística,
coisa infalível se me apanha desprevenido — sei lá porquê? Respondo-
lhe o melhor que posso enquanto vou sorvendo o meu arak. Mas esse
género de debate arrasa-me. A arte é coisa que não existe para o
artista, da mesma forma que não existe para o público; é uma noção
que só tem sentido para os críticos. O artista e o público contentam-
se com registar, como um sismógrafo, uma carga electromagnética que
não se pode racionalizar. Tudo o que se sabe é que se produz uma vaga
transmissão, verdadeira ou falsa, com ou sem resultado, segundo o
caso. Mas pretender analisá-la, não conduz a nada. (E suspeito que
este conceito de arte c comum a todos os que se sentem capazes de se
lhe abandonar!) Paradoxo. Enfim, adiante.

«Darley estava em beleza nessa noite e ouvi-o palestrar com um prazer


sardónico. Na verdade, não é mau sujeito e tem muita sensibilidade.
Mas foi um alívio saber que Pombal não tardaria a vir juntar-se a nós
quando saísse do cinema onde tinha ido com uma conquista. Esperava
que ele me convidasse para sua casa, pois os hotéis são caros e
poderia, assim, beber todas as minhas ajudas de custo. Enfim, aparece
esse valente P., com o rosto tumefacto, devido a ter sido
surpreendido pela mãe da pequena quando se entregava a jogos
malabares num recanto do cinema. Foi uma noitada magnífica e ele
albergou-me em casa conforme eu esperava.

«No dia seguinte, levantei-me cedo porque, embora nada tivesse


decidido, aquela história preocupava-me.
129

Disse para mim próprio que nada me impedia de ir visitar Nessim ao


banco, como já tinha feito várias vezes, para palestrar e tomar um
café. Mas dentro da enorme gaiola de vidro do ascensor, que lembra um
sarcófago bizantino, senti-me perturbado. Não tinha ideia do que lhe
havia de dizer. Os empregados e os dactilógrafos acolheram-me
afavelmente e conduziram-me imediatamente à grande sala de tecto, em
forma de cúpula, onde ele trabalhava... Mas o mais curioso é que ele
não só tinha o ar de estar à minha espera como parecia ter adivinhado
as razões da minha visita! Parecia encantado, aliviado e tomado de
uma espécie de serenidade maliciosa. «Há meses que o espero)), disse-
me ele com um brilho malicioso no olhar; «perguntava a mim mesmo
quando me viria finalmente interrogar. Enfim! Que alívio!» Depois
disso toda a reserva se dissolveu e senti que lhe podia falar
abertamente. As suas respostas foram as mais espontâneas e inocentes.
Convenceram-me imediatamente.

«A denominada sociedade secreta», disse-me ele, «era uma célula que


se consagrava ao estudo da cabala e de todo esse misticismo de salão
que florescia na capital. A própria Clea renovava todas as manhãs o
seu horóscopo. Que havia de estranho no facto de Baltasar explicar a
sua ciência hermética a um grupo de discípulos? Quanto aos
criptogramas, eram simplesmente redigidos na antiga linguagem mística
cifrada — o boustrophedon —, que permite aos patriarcas de todas as
células cabalísticas, disseminadas no Médio-Oriente, manter os
contactos entre si. Não existe nisso nada de mais misterioso do que
nos cálculos da Bolsa ou na troca cortês de informações entre
matemáticos que trabalham no mesmo problema. Nessim mostrou-me um
criptograma e explicou-me por alto a técnica utilizada. Acrescentou
que tudo aquilo podia ser confirmado por Darley, que assistia às
reuniões com Justine, para libar o mel da ciência hermética. Ele
podia contar-me até que ponto essas reuniões eram subversivas! Até
aqui tudo bem.
130

«- Mas não quero ocultar-lhe a existência de um outro movimento, esse


realmente político, no qual me encontro directamente envolvido. É um
assunto puramente copta e que tem como único fim unificar os coptas —
e não impeli-los para a revolta (aliás impossível); o que queremos é
uma consciência unida que nos permita reconquistar um lugar ao sol.
Agora que o Egipto se libertou do ódio que os ingleses votavam aos
coptas, temos o pulso mais livre para disputar os altos cargos, para
eleger alguns dos nossos para o Parlamento, e assim por diante. Nada
disto pode inquietar um muçulmano inteligente. Não temos a intenção
de sair da legalidade ou de utilizar a violência; queremos
simplesmente recuperar o lugar que nos é devido no nosso país como a
minoria mais inteligente e mais competente». «E então fez-me a
história da comunidade copta e das suas reivindicações — mas não
pretendo fatigá-lo com uma soma de pormenores que provavelmente não
desconhece. Falou-me com uma paixão delicada, um tímido furor que me
surpreendeu pelo contraste que revelava do plácido Nessim que ambos
conhecemos. Mais tarde, quando encontrei a mãe, compreendi; ela é a
inspiradora deste sonho, pelo menos fiquei com essa impressão. Nessim
prosseguiu: «— Nem a França nem a Inglaterra têm nada a temer de nós.
Somos amigos de ambas. Devemos-lhe a nossa cultura moderna. Não
rogamos nem auxílio nem dinheiro. Consideramo-nos patriotas egípcios,
mas sabemos como o nacionalismo é estúpido e retrógrado, como é
fanático, e tememos que dentro de pouco tempo a diferença entre nós e
os egípcios se traduza em termos de violência. Eles andam já de
namoro com Hitler. Em caso de guerra... quem sabe? De dia para dia a
França e a Inglaterra vão perdendo cada vez mais o domínio no Médio-
Oriente. Somos nós, as minorias, quem começa a sentir os efeitos. A
única esperança para nós seria uma trégua, uma guerra por exemplo,
que nos permitiria regressar e retomar o terreno perdido. De outro
modo seremos despojados, escravizados. Mas ainda temos esperança nos
vossos países.
131

Desse ponto de vista, um pequeno grupo muito unido e extremamente


rico de banqueiros e negociantes coptas poderia exercer uma
influência extraordinária. Amigos cristãos, nós somos a vossa quinta
coluna no Egipto. Num ano ou dois, quando o movimento estiver
perfeitamente organizado, podemos impor o nosso peso na vida
económica e industrial do país — e nada poderá apoiar melhor a vossa
política. É por este motivo que eu desejava tanto falar-lhe de nós: o
que a Inglaterra deve ver nos coptas é uma testa de ponte para o
Oriente, um enclave aliado num sector que se torna cada dia mais
hostil».

«Deixou-se cair para o fundo da cadeira, esgotado e sorridente:

«— Mas compreendo muito bem — disse ele — que isto lhe cause
apreensões na qualidade de personagem oficial. Peço-lhe, em nome da
nossa amizade, que guarde segredo. Os egípcios ficariam encantados se
lhe déssemos um pretexto para confiscar os nossos milhões; talvez até
nos matassem. Portanto, nada devem saber de tudo o que lhe contei. É
por isso que as nossas reuniões são secretas e que a nossa
organização se constituiu lentamente, prudentemente. Não podemos
tolerar fugas, compreende? Contudo, meu caro Pursewarden, sei muito
bem que não lhe posso pedir que aceite a minha palavra cegamente, sem
provas. Por isso estou disposto a fazer uma diligência bastante
excepcional. Depois de amanhã é Sitna Damiana, e temos uma reunião no
deserto. Gostaria que viesse comigo a fim de poder ajuizar
directamente e assistir às deliberações, para que não lhe restem
dúvidas quanto às nossas intenções e às nossas pessoas. Mais tarde
poderemos tornar-nos muito úteis para os ingleses; vem?»

«Se ia!

Fui. Foi uma inesquecível experiência, que me ensinou até que ponto
eu desconhecia o Egipto, o verdadeiro Egipto que se não vê nas
cidades sufocantes e cheias de moscas, nos salões dos financeiros,
nas vilas dos banqueiros à beira-mar na Bolsa, no Yacht-Club, na
Mesquita...
132

Mas espere...

«Metemo-nos a caminho ao abrir da manhã, sob um céu frio cor-de-


malva, e seguimos por um momento a estradazinha de Aboukir antes de
obliquar para o interior, onde aos servimos dos caminhos poeirentos,
dos molhes desertos ao longo dos canais e dos carreiros arenosos que
os paxás de outros tempos tinham mandado rasgar para acesso aos seus
pavilhões de caça no lago. Por fim tivemos de abandonar o carro; o
outro irmão esperava-nos com cavalos, você sabe, Narouz, esse
troglodita de beiçola rachada. Que contraste, esse camponês de pele
curtida comparado com Nessim! E que corpo poderoso! Senti-me
subjugado pela personagem. Acariciava o chicote de coiro de
hipopótamo — o kurbash tradicional. Vi-o abater libélulas pousadas a
quinze metros de distância com uma chicotada; um pouco mais tarde, no
deserto, cortou literalmente em dois um infeliz cão selvagem com uma
saibrada daquele temeroso instrumento! Não trocámos mais de três
palavras durante todo o caminho que nos conduziu a casa. Você já lá
esteve há bastantes anos, parece-me? Tive uma longa entrevista com a
mãe: mulher estranha, autoritária, afogada nos seus véus negros,
falando um inglês correctíssimo numa voz ressequida, que se pressente
palpitar à beira da histeria. Uma bela voz, apesar de tudo, mas
estranhamente tensa — a voz de um pai ou de uma irmã do deserto? Não
sei. Os dois irmãos deviam conduzir-me a um mosteiro em pleno
deserto. Narouz seria o orador. Era a primeira vez que falava em
público. Confesso que não acreditava que aquele selvagem hirsuto
fosse capaz. Os maxilares perpetuamente em movimento salientavam os
músculos das fontes! Pensei para mim que ele devia ranger os dentes
durante o sono. Mas os seus olhos são de um azul cândido, como os
olhos das raparigas. E que cavaleiro, santo Deus!

«Na manhã seguinte metemo-nos a caminho com um punhado de cavalos


árabes e uma fila de camelos que Narouz se propunha oferecer à
populaça — para serem despedaçados e devorados.
133

Foi uma longa e incómoda expedição, atormentada pelas miragens de um


calor terrível e pela água morna e insípida dos cantis, com o vosso
amigo em mísero estado. Todo aquele sol na moleira! O cérebro
começava a fritar-se dentro do meu crânio quando avistámos o primeiro
bosquezinho de palmeiras — e logo a seguir descobrimos a imagem
tremeluzente e zumbidora do mosteiro, onde a pobre Damiana deixou que
lhe cortassem a cabeça para maior glória de Nosso Senhor. «Caía a
tarde quando chegámos lá; tinha-se a impressão de entrar
inopinadamente dentro de uma gravura a cores ilustrando... ilustrando
o quê? Vathek! Um acampamento imenso de tendas e barracas tinha
surgido ali por motivo das festas. Devia haver, bem contados, seis
mil peregrinos acampando nas cabanas de papel, de pano e de
tapeçarias. Erguera-se uma autêntica cidade com a sua iluminação e o
seu primitivo sistema de esgotos autónomos, onde nem faltavam os
bordéis, exíguos mas de primeira escolha. Ouvia-se por toda a parte o
rumor dos camelos nas sombras do crepúsculo onde a fumarada das
tochas fazia bailai vultos alucinantes. Os nossos servos prepararam-
nos uma tenda atrás de uma abóbada em ruínas onde conversavam dois
derviches graves e barbudos, sob pendões ondulando como asas de aves
majestosas, à luz de um grande lampião de papel, coberto de
inscrições. A obscuridade tornava-se mais espessa, os seres e as
coisas tomavam uma aparência mais insólita naquela atmosfera de
festa. Eu sentia-me impaciente por percorrer aquela cidade irreal e,
como tinham preparativos a fazer na igreja, Nessim considerou a minha
ideia excelente e combinou encontrarmo-nos na tenda familiar, dentro
de uma hora e meia. Mergulhei deliciado no dédalo de ruas
fantasmagóricas e nas compridas avenidas flanqueadas por lojecas de
lona, com os seus cabazes oferecendo ao clarão vacilante das
lanternas toda a espécie de guloseimas: melões, ovos, bananas,
caramelos. Todos os mercadores e vendedores ambulantes de Alexandria
tinham atravessado o deserto para vir comerciar com os peregrinos.
134

Nos recantos sombrios, as crianças brincavam e desapareciam como


ratinhos enquanto os pais cozinhavam à porta das tendas. Os
espectáculos e os jogos de azar estavam no auge. Numa tenda uma
prostituta cantava uma melopeia triste embalando-se na sua capa
recamada de cequins. A tarifa estava inscrita na porta. Era um preço
decente; a carne é fraca e eu comecei a amaldiçoar os meus deveres
sociais. Um pouco mais adiante, um rapsodo cantava os feitos de El
Zahur. Bebedores de canela e de sorvete ocupavam as cadeiras dos
cafés escalonados ao longo das artérias iluminadas e engalanadas. Do
interior do mosteiro subiam as cantilenas dos padres, enquanto nas
cercanias dois campeões do jogo de pau se entregavam ao desporto mais
popular entre os egípcios, rasgando a noite com as pancadas secas e
breves dos bastões, assinaladas pelo rugir da multidão que aclamava
os golpes mais felizes. Túmulos desaparecendo sob uma inundação de
flores, melancias espalhando uma claridade butirácea, salvas
carregadas com iguarias odorosas — salsichas, costeletas e tripas
crepitando no espeto. Tudo aquilo se fundia dentro do meu cérebro,
num amálgama buliçoso de som e luz. A Lua ascendia no céu,
lentamente.

«Nas tendas onde se dançava o «Ringa» grupos de sudaneses de um malva


brilhante ondulavam, o olhar perdido, ao som de uma estranha melopeia
saída de uma espécie de harmónio de teclas verticais, munidas de
cabaças pintadas, que faziam as vezes de caixas de ressonância; mas
quem marcava o compasso era um grande negro que batia num pedaço de
rail de caminho de ferro pendurado na estaca da tenda. Encontrei aí
um criado dos Cervoni que se mostrou encantado por me ver e me
ofereceu um pouco dessa cerveja sudanesa chamada tnerissa. Sentei-me
a observar aquela dança que roça pelo histerismo: lentas revoluções
em torno de um centro virtual, bruscamente interrompidas por
saltinhos laterais sobre os calcanhares, e depois o corpo eleva-se
sobre os dedos dos pés que se crispam...
135

Fui arrancado da espécie de torpor hipnótico onde começava a afundar-


me pelo bater de um tambor e vi aproximar-se um daroês carregando um
enorme tamborim de pele de camelo esticada sobre uma semiesfera de
cobre reluzente. Era um Rifiya, um preto de um negro belíssimo, e
como nunca os tinha visto caminhar sobre brasas, comer escorpiões e
fazer outras habilidades do mesmo teor, pensei que era essa a minha
única oportunidade e resolvi segui-lo. (Era comovedor ouvir os
muçulmanos entoar cânticos religiosos em louvor da mui cristã Santa
Damiana; ouvi as suas vozes agudas ulular incansavelmente «Ya Sitt Ya
Bint El Wali». Não é curioso? «Oh Senhora, Senhora do Vice-Rei».)
Acabei por localizar no meio da escuridão um grupo de daroeses;
acabava-se uma dança. Um deles estava literalmente transformado em
tocha humana, completamente coberto de velas. A cera fundente
escorria-lhe pelo corpo; o olhar do homem parecia petrificado. Um
velho daroês agarrou num comprido punhal e cravou-o no rosto,
atravessando-o de lado a lado; depois pegou em duas velas acesas que
fixou em cada uma das extremidades do punhal e, erguendo-se na ponta
dos pés, pôs-se a executar movimentos giratórios — dir-se-ia uma
árvore de fogo a rodopiar. Terminada a dança, retiraram-lhe
simplesmente o punhal do rosto, e o velho, humedecendo a ponta do
dedo com saliva, passou-o com indiferença pelas feridas. Um segundo
mais tarde sorria de novo, não tendo sentido aparentemente qualquer
dor. Mas agora parecia completamente desperto.

«E por detrás de tudo isto ficava o deserto branco, que, sob a Lua,
tomava o aspecto de um imenso campo de crânios e de pedras. Ouviu-se
um chamado de trombetas seguido de um ribombar de tambores, e um
grupo desordenado de cavaleiros, com ridículos chapeuzinhos cónicos,
apresentou-se brandindo espadas de madeira e soltando latidos de
mulher. Ia começar a corrida dos cavalos contra os camelos. Pensei
que ainda tinha tempo de assistir aquilo, mas de caminho presenciei
um espectáculo que teria evitado se pudesse. Procedia-se ao abate dos
camelos de Narouz para a festa.
136

Os pobres animais ajoelhavam mansamente, sobre as patas dianteiras


recolhidas, como fazem os gatos, enquanto a horda humana os atacava à
machadada. O meu sangue gelou-se e contudo não fui capaz de desviar
os olhos daquele horrendo espectáculo. Os animais não faziam um
movimento sequer para evitar os golpes, não soltavam um grito
enquanto os esquartejavam. Os machados mordiam aqueles grandes corpos
como se fossem feitos de cortiça e penetravam profundamente a cada
golpe. Separavam-se membros inteiros, sem esforço aparente, como
árvores que se desbastam. No meio de toda aquela carnagem corriam as
crianças, que depois de roubarem um bom pedaço de carne fugiam para a
cidade iluminada, apertando contra o peito uma posta sangrenta. Os
camelos olhavam fixamente a Lua, sem protestar. Cortavam-se as patas,
arrancavam-se as entranhas, e finalmente uma derradeira machadada
fazia rolar a cabeça, que ficava a jazer na areia com os olhos muito
abertos. Os magarefes riam e gracejavam no meio da sua tarefa.
Depressa o solo se encontrou empapado de um espesso tapete viscoso de
sangue negro, onde as crianças patinhavam e de onde partiam já
numerosas pegadas de pés nus que se iam perder nas inúmeras ruas da
cidade efémera. Senti-me bruscamente agoniado e fugi para tomar um
copo. Sentei-me num banco de um café ao ar livre e começava a
recompor-me quando avistei Nessim; regressámos juntos ao mosteiro,
passando diante de uma enfiada de celas chamadas «pentes». (Talvez
não saiba que todas as religiões primitivas se baseiam numa estrutura
celular, obedecendo assim, sabe Deus, a que lei biológica?...) E
finalmente chegámos à igreja.

«No santuário guardavam-se magníficas pinturas antigas e sobre as


estantes de ouro ardiam grandes círios de onde escorria a cera; as
luzes estavam ofuscadas por uma nuvem de incenso cor de pólen;
ouviam-se belas vozes graves correndo como um rio lento sobre o leito
de seixos da liturgia de S. Basílio.
137

Subindo e descendo, suspendendo-se e recomeçando, a melodia começava


abaixo de tom, para se elevar, com estremecimentos e batimentos de
asa, a alturas vertiginosas, através das gargantas e dos espíritos
desses homens de pele negra e brilhante. O coro passou diante de nós
como um sumptuoso cortejo de cisnes, com o seu grande barrete
escarlate, a túnica branca e o cabeção com a cruz vermelha. E a
fantástica claridade que pairava em redor daquelas faces inundadas de
suor e dos seus anéis de cabelo, negros e reluzentes! Aqueles olhos
enormes, como saídos de frescos irreais, de um branco resplandecente!
Tudo aquilo era pré-cristão; todos aqueles homens de barrete
escarlate se tinham transformado em Ramsés II. Os círios enormes
palpitavam e fumegavam enquanto se elevavam novas nuvens de incenso.
Lá fora ouvia-se o grito dos cavaleiros excitando os seus camelos de
corrida; cá dentro escutava-se apenas o murmurar do Universo. Havia
ovos de avestruz suspensos nos grandes lustres. (Foi uma coisa que
sempre me intrigou parecendo-me digna de estudo.)

«Pensei que era este o nosso destino, mas contornámos a multidão e


tomámos uma escada que nos conduziu a uma cripta. Eis-nos enfim
chegados. Uma série de câmaras espaçosas, dispostas como as células
de uma colmeia, caiadas de uma cor imaculada. Numa dessas câmaras,
iluminada pela luz de múltiplas velas, uma centena de pessoas
esperava-nos sentada sobre bancos de madeira branca. Nessim tomou-me
o braço e apresentou-me a um grupo de anciãos que me deu lugar entre
eles. «— Vou falar-lhes primeiro», segredou-me ele, «e depois será a
vez de Narouz». Por mais que olhasse em volta não consegui descobrir
a figura do irmão mais novo. Os homens que me rodeavam vestiam todos
eles túnicas, mas muitos deles traziam por baixo roupas europeias.
Alguns tinham a cabeça envolvida em escapulários. A ajuizar pelas
suas mãos e pelas unhas limpas, não se tratava de trabalhadores
manuais. Falavam árabe a meia voz. Ninguém fumava. «Nessim ergueu-se
e falou-lhes com o desembaraço de um homem habituado à rotina das
assembleias gerais.
138

Exprimia-se numa voz uniforme e, tanto quanto me foi dado


compreender, contentou-se em fornecer à audiência pormenores
relativos a alguns factos recentes, a eleição de certas personagens
para a direcção de diversos «comités»; depois apresentou-lhes um
relatório financeiro circunstanciado. Dir-se-ia que se dirigia a
accionistas. A audiência escutava gravemente. Fizeram-lhe calmamente
algumas perguntas às quais ele respondeu concisamente. Depois, disse:
«— Mas estes pormenores não encerram o assunto. Quereis certamente
ouvir a respeito da nossa nação e da nossa fé certas coisas que nem
mesmo os nossos padres vos podem dizer. O meu irmão Narouz, que bem
conheceis, vai falar-vos».

«Que lhes poderia dizer aquele gorila de Narouz?», pensava eu. E eis
uma coisa interessante. Da obscuridade de uma cela, vestindo uma
túnica branca, surgiu Narouz, pálido como cera. Tinha os cabelos
abrilhantinados e colados à testa como um mineiro que se dirige a um
baile. Não... tinha antes o ar de um cura aterrorizado, envolvido
numa sobrepeliz amarrotada; conservava as mãos fortemente apertadas
sobre o peito. Tomou lugar diante de uma espécie de estante de
madeira onde ardia uma vela e lançou à assistência um olhar
manifestamente aterrado, os ombros ligeiramente curvados pela emoção.
Dir-se-ia que estava prestes a cair. Abriu a boca crispada mas nenhum
som se produziu. Parecia paralisado.

«Houve um movimento na assistência e ouviram-se murmúrios; vi Nessim


olhar para o irmão com um ar angustiado, como se o outro se
encontrasse em perigo. Mas Narouz retesou-se como um dardo, o olhar
cravado na parede branca como se contemplasse aí qualquer espectáculo
temeroso. Começámos todos a sentir um certo embaraço. Finalmente, a
sua boca produziu um estranho movimento, como se a língua se
dilatasse ou como se fizesse um esforço para engolir e um grito rouco
escapou-se-lhe da garganta: «Meded! Meded!» Era a invocação à
potência divina que lançam as vezes os pais do deserto antes de
entrar em transe: os daroeses.
139

O rosto crispou-se-lhe. Depois, bruscamente, foi como se uma corrente


eléctrica começasse a penetrar no seu corpo, nos seus músculos e nos
seus rins. Toda a tensão nervosa caiu e lentamente, ofegando, ele
começou a falar, movendo os olhos, como se as palavras brotassem
involuntariamente dos seus lábios e ele fizesse um esforço para se
manter ao nível do que dizia... Era um espectáculo terrível e durante
um momento não consegui compreender nada, tão mal ele articulava as
palavras. Depois, de repente, rasgou-se o véu e a sua voz ganhou
potência, como um instrumento de música naquela claridade de
catacumba.

«— O nosso Egipto, a nossa pátria bem amada», dizia ele arrancando as


palavras da boca como se fossem pedaços de caramelo. Era claro que
estava a improvisar, como um ébrio que se lança numa torrente de
retórica porventura genial, como sucede com os trovadores e as
carpideiras profissionais que acompanham os cortejos fúnebres com
jactos de poesia profética sobre o Além. O poderio do seu verbo
espalhava-se pela câmara subterrânea; estávamos todos electrizados,
mesmo eu, que tão mal compreendo o árabe! O tom, a amplidão, o furor
e a ternura sufocada que as suas palavras arrastavam comoviam-nos e
atordoavam-nos como se ouvíssemos música. O sentido pouco importava.
Mesmo agora pouco importa em comparação com as suas implicações, e
seria impossível traduzi-las. «— O Nilo... o rio verde que corre nos
nossos corações, escuta os seus filhos. Eles voltarão. Descendentes
dos faraós, filhos de Ra, linhagem de S. Marcos. Encontrarão o berço
da luz». E assim por diante. De vez em quando o orador fechava os
olhos como para deixar as palavras correr mais livremente. Em certa
ocasião inclinou a cabeça como um cão que arreganha as beiçolas, os
olhos sempre fechados, até que a chama da vela lhe pôs a cintilar
todos os dentes. Que voz! Parecia independente do corpo, engrossando
num rugido, adelgaçando-se num murmúrio, tremendo, cantando, gemendo,
escandindo bruscamente as palavras como uma metralhadora ou adoçando-
as untuosamente de melaço.
140

Estávamos todos subjugados. Mas havia qualquer coisa de cómico no ar


desconcertado e inquieto de Nessim. Aparentemente, não era aquilo que
esperava, pois estava pálido e tremia como uma folha. Mas também se
deixava arrastar como os outros pela torrente de retórica e vi-o
conter furtivamente uma lágrima com um gesto quase irritado.

«Aquilo durou uns bons três quartos de hora, e bruscamente,


inexplicavelmente, a corrente secou, a chama do orador apagou-se.
Narouz ficou diante de nós, de boca aberta, como um peixe, como se a
maré de música interior o tivesse lançado numa praia desconhecida.
Foi uma coisa abrupta como um pano de ferro que desce — um silêncio
irreparável. As suas mãos voltaram a apertar-se. Emitiu um gemido de
surpresa e retirou-se no seu curioso passo claudicante. Um silêncio
enorme caiu sobre a assistência — o silêncio germinal onde se pode
ouvir crescer, na mente humana, as sementes que se esforçam por abrir
caminho para a luz da consciência. Eu sentia-me profundamente
perturbado e completamente esgotado. Fecundado!

«Finalmente, Nessim ergueu-se e fez um gesto vago. Estava igualmente


esgotado e caminhava como um velho; segurou-me na mão e, seguindo-o,
subi de novo à igreja, onde uma barulheira ensurdecedora de címbalos
e carrilhões acabava de rebentar. Atravessámos as nuvens de incenso
que pareciam agora provir do centro da terra, dessas regiões
inferiores habitadas pelos anjos e pelos demónios. Cá fora, ele
começou a balbuciar: «— Não esperava, nunca imaginaria uma coisa
daquelas de Narouz. É um pregador. Tinha-lhe simplesmente pedido para
falar da nossa História — mas ele...». Não encontrava palavras
adequadas. Ninguém até então, ao que parece, tinha suspeitado da
existência de tal orador entre eles... o homem do látego! «— Podia
empolgar um grande movimento religioso», disse para mim próprio.
Nessim, curvado, perdia-se nas suas reflexões. «— Sim, é um pregador
nato», repetia ele arregalado.
141

«Agora já sei porque é que ele se encontra com Taor». Contou-me então
que Narouz partia frequentemente para o deserto a fim de visitar uma
mulher santa muito célebre (dizia-se até que possuía três seios), que
vive numa caverna perto de Wadi Natrun; é famosa pelas curas
milagrosas que realiza mas nunca se mostra à luz do dia. «Quando ele
desaparece», disse Nessim, «é para ir pescar na ilha com a nova
carabina ou para visitar Taor. É sempre uma coisa ou outra».

«Quando voltámos para a tenda, o novo pregador estava deitado por


terra, e soluçava lançando gritos roucos como um camelo ferido.
Calou-se quando entrámos mas continuou ainda a tremer durante um
momento. Embaraçados, não sabíamos que dizer e instalámo-nos para a
noite no meio de um pesado silêncio. Acabávamos de viver momentos
inesquecíveis!

«Demorei muito tempo a adormecer, com o espírito perturbado. Na manhã


seguinte levantámo-nos de madrugada (um raio de um frio para uma
manhã de Maio — a tenda hirta devido ao cacimbo que durante a noite
congelara) e montámos quando o sol começava a despontar. Narouz já se
recuperara. Fazia estalar o chicote e divertia-se a lançar graçolas
aos intendentes. Mas Nessim conservava-se meditabundo. A longa
cavalgada despertou-nos o espírito, e foi com alívio que vimos
reaparecer finalmente as copas sombrias das palmeiras. Repousámos
nessa noite em Karm Abu Girg. A mãe não apareceu mas disseram-me que
podia receber-nos depois de jantar. Foi então que sucedeu uma cena
que me pareceu tão surpreendente para Nessim como para mim próprio.
Quando atravessávamos os três o pequeno roseiral que conduz à vivenda
de Verão, ela apareceu à porta com uma lanterna e perguntou: «Então,
meus filhos, como correram as coisas?» Nesse instante Narouz tombou
de joelhos estendendo os braços para a mãe. Nessim e eu sentíamo-nos
extremamente embaraçados. Ela aproximou-se e tomou nos braços aquele
campónio que fungava e soluçava, fazendo-nos sinal para que nos
afastássemos.
142

Confesso que me senti satisfeito vendo Nessim obedecer e segui-o com


alegria. «— Eis um novo Narouz», repetia ele docemente, realmente
desorientado. — «Ignorava que meu irmão possuísse tamanha força de
espírito».

«Mais tarde Narouz regressou a casa muito bem disposto, e jogámos as


cartas, bebendo arak. Mostrou-me com orgulho uma carabina que
encomendara expressamente em Munique. Era uma carabina de ar
comprimido que lançava um forte harpão debaixo de água. Falou-me
demoradamente no seu novo método de pesca submarina. Aquilo pareceu-
me ser um desporto apaixonante e convidou-me para passar um fim-de-
semana com ele na sua ilha, a fim de vê-lo operar. Não havia agora no
irmão mais novo o menor traço do pregador da véspera; a simplicidade
do seu espírito viera de novo à tona.

«Uf! Tento assinalar aqui todos os pormenores que me parecem notáveis


para que você os utilize quando para cá vier. Desolado se me
considerar enfadonho. No regresso tive uma demorada conversa com
Nessim a fim de esclarecer definitivamente o meu espírito. Pareceu-me
que, no plano político, o movimento copta nos podia ser de grande
utilidade; e estava certo de que se a coisa fosse correctamente
explicada a Maskelyne ele aceitaria esta interpretação dos factos.
Sentia-me cheio de esperanças!

«Assim regressei ao Cairo numa disposição de espírito excelente, a


fim de pôr de novo em ordem as peças do tabuleiro de xadrez. Fui
procurar Maskelyne para lhe anunciar a boa nova. Com grande surpresa
minha, o sujeito ficou lívido de cólera, o nariz afilou-se-lhe e as
orelhas caíram como as de um lebreu. A voz e os olhos conservaram-se
inalterados. «— Devo concluir que tentou obter um complemento de
informações relativo a um documento secreto consultando pessoalmente
o interessado? Não é isso contrário aos mais elementares princípios
de toda a polícia e de toda a política? E como pôde acreditar numa
encenação tão evidentemente preparada para ludibriá-lo?
143

Isso ultrapassa todo o entendimento. O senhor retém deliberadamente


um documento do Ministério da Guerra, lança o descrédito sobre os
meus serviços, insinua que nada percebemos deste trabalho, etc.».
Deixo ao seu cuidado imaginar o resto da tirada. A mostarda começava
a subir-me ao nariz. Ele repetia num tom cortante: «Há quinze anos
que me dedico a este trabalho. Garanto-lhe que me cheira a pólvora, a
subversão. O senhor não quer dar fé às minhas fontes mas eu garanto-
lhe que as suas são ridículas. Por que motivo não havemos de entregar
o processo aos egípcios e eles que se desembaracem uns com os
outros?» Naturalmente eu não podia consentir numa coisa dessas e ele
bem o sabia. Disse-me que tinha solicitado ao Ministério da Guerra
que protestasse em Londres e escrevera a Errol pedindo uma
«reparação». Não havia nisso nada de surpreendente. Ataquei-o então
por outro flanco.

«—Escute», disse-lhe, «estudei todas as suas fontes. São árabes e,


como tais, pouco dignas de fé. Que diz a um acordo entre cavalheiros?
Não há pressa — podemos investigar os Hosnani à vontade. Mas desta
vez convinha procurar outras fontes, fontes inglesas. Se as
interpretações concordarem, prometo abandonar a partida e retractar-
me inteiramente. Caso contrário, bater-me-ei até ao fim para
esclarecer este assunto.

«—-Em que espécie de fontes está a pensar?» «— Pois bem, há um certo


número de ingleses na polícia egípcia, que falam árabe e conhecem as
pessoas em questão. Porque não utilizar alguns deles?»

«Maskelyne considerou-me durante um momento. «— Mas eles estão tão


corrompidos como os árabes», respondeu por fim. — «Nimrod vende à
Imprensa as suas informações. O Globo paga-lhe vinte libras por mês
em troca de informações confidenciais.» «— Devem existir outros
também.» «— Ora se há! Só queria que você os visse!»
144

«— Há também Darley, que assiste a essas reuniões que tanto o


afligem. Porque não lhe pede que o ajude?»

«— Não quero comprometer o meu serviço introduzindo nele pessoas como


esse Darley. Não vale a pena e é muito perigoso.»

(— Porque não organizar então um serviço especial para este caso?


Telford poderia ajudá-lo? Um serviço complementar sem qualquer
ligação com os outros e nenhum contacto com a sua organização
principal. Pode fazer isso, bem sabe.»

«Olhou-me demoradamente.

«— Podia fazer isso, se quisesse», condescendeu. — «E se pensasse que


isso ia servir de alguma coisa. Mas a verdade é que não serviria de
nada.»

«— De qualquer maneira, porque não experimentar? A sua posição aqui é


bastante equívoca enquanto não houver um embaixador para arbitrar a
questão. Suponha que eu mando seguir este relatório e que todo o
grupo é apanhado?»

«—Sim; e depois?»

«— Suponhamos, como eu creio, que se trata de uma coisa susceptível


de ajudar a política britânica neste sector, ninguém nos vai
agradecer termos permitido aos egípcios meter o nariz no assunto. Se
assim for, acharia...»

«— Vou reflectir.»

«Ele não tinha a menor intenção de fazê-lo, bem o percebi, mas, pelo
menos, mudou de ideias; telefonou-me na manhã seguinte para me dizer
que ia fazer o que eu lhe sugerira, embora «sob todas as reservas»; a
guerra estava declarada entre nós. Talvez tivesse sabido da sua
nomeação e conhecesse os nossos laços de amizade. Sei lá!

«Uf! Eis quase tudo o que tinha para lhe dizer; quanto ao resto, a
terra continua aqui, no mesmo lugar. — Corri tudo o que é
heteróclito, tortuoso, polimorfo, oblíquo, equívoco, opaco, ambíguo,
ou simplesmente completamente maluco. Desejo-lhe as maiores
felicidades quando eu já tiver partido!
145

Estou certo de que a sua primeira Embaixada será um sucesso


retumbante. Talvez estes fragmentos de informação lhe sirvam de algum
proveito.

Seu Earwig van Beetfield (Nota 1)»

Mountolive estudou o documento com profunda atenção: considerou o tom


inconveniente e as informações perturbadoras. Mas era o destino de
todas as Legações serem teatro de disputas entre facções rivais. As
querelas pessoais, as divergências de opinião, estavam sempre à boca
de cena. Durante um momento perguntou a si próprio se não seria mais
conveniente conceder a Pursewarden a transferência solicitada; mas
pensou que se pretendia ter liberdade de agir não devia principiar
com hesitações — principalmente perante Kenilworth. Foi fazer um
grande passeio a pé no meio da paisagem de Inverno para dar tempo a
que os acontecimentos se precisassem. Finalmente redigiu uma carta
para Pursewarden depois de ter inutilizado numerosos rascunhos, carta
que remeteu pelo correio diplomático.

«Meu caro P.

«Agradeço-lhe a sua carta e as informações muito interessantes que


nela se contêm. É impossível tomar qualquer decisão antes de aí
chegar. Contudo resolvi conservá-lo como adido da missão por mais um
ano. Peço-lhe que observe nos seus serviços maior disciplina do que
aquela de que tem dado mostras até agora; e demais sei que posso
contar com o seu apoio, por mais desagradável que lhe pareça a
perspectiva de ficar no Egipto.

Nota 1 - «Earwig van Beetfield», a traduzir-se, ficaria assim:


«Insecto do campo de beterrabas», ou coisa semelhante. (N. do T.).
146

Há muito que fazer e tenho de tomar numerosas decisões antes de


partir.

«Sinceramente seu

David Mountolive»

Esta carta continha, assim o esperava, uma dose igual de incitamento


e de crítica. Mas era evidente que Pursewarden não lhe teria escrito
com tal desenvoltura se tivesse previsto a possibilidade de servir
sob as suas ordens. Contudo, se queria fazer uma boa carreira, tinha
que impor-se desde o princípio.

Fazia já em imaginação planos para a transferência de Maskelyne e a


nomeação de Pursewarden para primeiro-conselheiro político. Contudo,
um certo sentimento de mal-estar subsistia. Mas não pôde impedir-se
de sorrir quando recebeu um bilhete postal do incorrigível. «Meu caro
Embaixador», leu Mountolive. «A notícia não foi acolhida com um
transporte de entusiasmo. Há tantos etonianos barbudos que não teria
tido qualquer dificuldade em escolher um deles... Enfim! Conte
comigo...».
VI

O avião perdeu altura e iniciou a lenta descida no crepúsculo cor-de-


malva. Ao deserto moreno e à monotonia das dunas buriladas pelo vento
sucedia-se agora uma carta em relevo do delta que lhe avivava as
recordações. Os meandros preguiçosos das águas acastanhadas
projectavam-se na vertical, e pequeninas embarcações derivavam
lentamente. Estuários vazios e barras de areia — regiões desabitadas
do interior onde as aves e os peixes se reúnem em segredo. Aqui e ali
o rio abria-se como uma haste de bambu em torno de uma ilha onde
cresciam figueiras, um minarete e algumas palmeiras moribundas

— a doçura penugenta das palmas lançando na paisagem chata, sufocada


pelo calor, miragens e silêncios húmidos. Os talhões cultivados davam
ao país a aparência de um cobertor de lã laboriosamente remendado;
depois eram extensões de pântanos betuminosos limitados pelos
contornos lentos das águas morenas. Aqui e além afloravam ainda
algumas tiras de calcário rosa.

Fazia um tremendo calor na pequena cabina do avião e Mountolive


sofria mil tormentos dentro do seu novo uniforme. Os alfaiates tinham
feito prodígios — assentava-lhe como uma luva. Mas que peso! Sentia-
se cozer a fogo lento. O suor corria-lhe pelo peito. A mescla de
alegria e inquietação que o assaltava traduzia-se por um enjoo
permanente. Iria sucumbir à náusea da viagem pela primeira vez na sua
vida?
148

Esperava não ter de sofrer semelhante humilhação. Seria horrível


vomitar naquele imponente chapéu restaurado. «Aterragem dentro de
cinco minutos». Estas palavras escritas à pressa numa folha arrancada
de um bloco foram-lhe comunicadas pelo posto de pilotagem nesse mesmo
momento. Bem. Bem. Acenou maquinalmente com a cabeça e começou a
abanar-se com o lequezinho de papel. Afinal de contas, o uniforme
estava-lhe a matar. Ficara altamente surpreendido com a sua elegância
quando pela primeira vez se viu fardado diante de um espelho.

Desceram lentamente descrevendo largos círculos e o crepúsculo malva


subiu ao encontro deles. Era como se todo o Egipto se instalasse
docemente num tinteiro. Depois, quando surgiram os turbilhões
dourados lançados pelos demónios das areias errantes, Mountolive viu
florescer os botões dos minaretes e das torres dos túmulos célebres;
as colinas de Moquattam apareceram rosadas e nacaradas como unhas.

Um grupo de dignitários, delegados para a recepção, esperava-o no


aeroporto. Estavam ladeados pelos membros do seu pessoal,
acompanhados das respectivas mulheres — todas elas com chapéus e
luvas de garden-party, como se estivessem nos prados de Longchamp.
Entretanto, toda a gente transpirava sem constrangimento. Mountolive
sentiu a terra firme sob os seus sapatos de verniz e "soltou um
suspiro de alívio. Em terra estava quase mais quente que no avião;
mas o enjoo desaparecera. Deu um passo em frente e preparava-se para
estender a mão quando descobriu que ao vestir aquele uniforme tudo
tinha mudado. Apoderou-se bruscamente dele um sentimento de solidão
compreendendo que na sua qualidade de embaixador devia renunciar para
sempre à amizade dos seres humanos vulgares em troca da sua
deference. O uniforme isolava-o do Mundo como uma armadura de aço.
«Senhor», pensou ele, «passarei a vida a solicitar uma reacção humana
normal das pessoas que devem deferência ao meu posto!
149

Vou tornar-me como aquele horrível vigário do Sussex que praguejava


sempre em voz baixa para provar a si próprio que era ainda um ser
humano a despeito da coleira!»

Mas este ligeiro acesso de solidão dissipou-se depressa na alegria de


uma nova autoridade. Tudo quanto lhe cabia fazer agora era explorar
ao máximo o seu encanto: seria censurável reconhecer ele próprio que
era uma criatura elegante e digna do cargo? Deu as suas provas
dirigindo-se aos funcionários egípcios num excelente árabe. Em todos
os rostos floresceram sorrisos de aprovação e satisfação. Soube
também apresentar-se ligeiramente de perfil ao clarão das lâmpadas de
magnésio dos repórteres quando pronunciou o seu primeiro discurso —
uma teia de vulgaridades pronunciadas em árabe com uma encantadora
hesitação, o que lhe valeu os murmúrios lisonjeiros do grupo
indisciplinado dos jornalistas.

Uma orquestra atacou com convicção e tocante falta de conjunto


qualquer coisa de pavorosamente falso, uma espécie de melodia
europeia que Mountolive levou certo tempo a reconhecer como o hino
nacional inglês. Teve de fazer um esforço tremendo para não esboçar
um sorriso. O exército egípcio devia ter ensaiado à última hora o uso
do trombone. Mas o conjunto tinha um ar improvisado e descosido que
fazia pensar em qualquer forma rara de música antiga (Palestrina?)
executada numa bateria de cozinha. O embaixador imobilizou-se e
colocou-se na posição de sentido. Um velho bimbashi, com um olho de
vidro, conservava-se diante do grupo num sentido um pouco titubeante.
Quando aquilo terminou, Nimrod Pasha disse a meia voz:

— Estou desolado com a banda. Mas a maior parte dos músicos está
doente, e bem vê, sir, tivemos de recrutar uma nova formação à última
hora.

Mountolive abanou gravemente a cabeça para assinalar a sua


compreensão e encaminhou-se para a tarefa seguinte: passar em revista
a guarda de honra, o que fez com zelo e grande prazer.

150
Os homens cheiravam a óleo de sésamo e a suor e dois deles sorriram
afavelmente. Era delicioso e teve mesmo de reprimir o impulso de
retribuir os sorrisos. Depois, voltando-se, cumprimentou os senhores
do protocolo, todos sorridentes e perfumados, debaixo dos turbantes
vermelhos. Ali os sorrisos floresciam sem restrições, juncando o
lugar como pedaços de melancia mal madura. Um embaixador que falava o
árabe! Mountolive adoptou uma atitude de sorridente modéstia cujo
efeito aliciante não ignorava. Tinha aprendido aquilo. Observou com
orgulho que o seu sorriso convencional era atraente; até os membros
do seu próprio pessoal sucumbiam; mas sobretudo as esposas. Elas
apresentaram-lhe as faces descontraídas, que eram outras tantas
armadilhas de veludo. Teve uma palavra amável para cada um dos
secretários.

Enfim, o grande automóvel levou-o sem solavancos à Residência, nas


margens do Nilo. Errol fez-lhe as honras da casa e apresentou-lhe os
criados. As dimensões e a elegância do edifício eram notáveis e de
certo modo alarmantes. Tão grande número de salas à sua disposição
era o suficiente para intimidar um celibatário. «Enfim», pensou ele
melancolicamente, «para receber penso que tudo isto é indispensável».
Visitou os salões de gala, as estufas, os terraços, retardando-se um
momento a contemplar os relvados verdejantes que desciam até às águas
cor de chocolate do Nilo. Dia e noite os repuxos regavam a erva,
conservando-lhe uma cor verde esmeralda e uma deliciosa frescura.
Despiu-se ouvindo o doce murmúrio e tomou um duche frio na magnífica
casa de banho guarnecida de bugigangas opalinas; Errol tinha recebido
permissão para retirar-se, com um convite para se apresentar depois
do jantar para discutirem a situação. «Estou cansado», tinha-lhe
confessado Mountolive, «e desejo repousar um pouco e jantar sozinho.
Este calor... — devia recordar-me, mas a verdade é que já me tinha
esquecido».

O Nilo ia na cheia, impregnando o ar com a humidade estival das suas


inundações anuais, escalando, polegada a polegada, a parede de pedra
viscosa ao fundo dos jardins da Embaixada.
151

Mountolive estendeu-se na cama ouvindo o ir e vir dos automóveis e os


ruídos abafados das vozes e dos passos no vestíbulo. Todos os membros
do seu pessoal vinham assinar o belo livro dos visitantes,
luxuosamente encadernado em marroquim vermelho. O único que não se
manifestou foi Pursewarden. Conservava-se oculto. Mountolive decidiu
sacudi-lo um pouco na primeira oportunidade; não podia agora
continuar a permitir-lhe tolices que o colocariam numa situação
delicada em relação ao restante pessoal. Esperava que o amigo não o
forçasse a tomar medidas de autoridade desagradáveis — essa ideia
começava já a roê-lo. Contudo...

Depois de meia hora de repouso jantou só, num recanto do grande


terraço, sumariamente vestido com umas calças, camisa e sandálias.
Depois, descalçando-as, atravessou o relvado iluminado pelos
projectores e desceu à margem do rio, sentindo a frescura da relva
debaixo dos pés nus. Mas a erva era de uma espécie africana,
grosseira, de raízes ressequidas a despeito da irrigação constante.
Três pavões pavoneavam-se gravemente na sombra. O céu, de um veludo
negro, estava polvilhado de estrelas. Enfim, tinha chegado — em toda
a extensão da palavra. Recordou-se de uma frase de um livro de
Pursewarden: «O escritor, o mais solitário de todos os animais...».
Sentia o copo de whisky gelado na mão. Estendeu-se na relva, naquela
obscuridade, onde nenhuma brisa soprava, e contemplou o céu, não
ousando pensar em nada mas consentindo que um torpor se insinuasse
nele, polegada a polegada, como as águas do rio que subiam lentamente
ao fundo do jardim. Porque havia de sentir agora essa espécie de vaga
tristeza submersa, quando tinha alcançado o topo da carreira e se
achava tão rico em ideias? Não sabia dizê-lo.

Errol voltou à hora marcada depois de ter engolido o jantar à pressa


e ficou encantado encontrando o seu chefe espojado na relva como uma
estrela do mar, semi-adormecido.
152

Esta ausência de cerimonial era um bom presságio.

— Peça que nos tragam bebidas, faça favor — disse Mountolive com
benevolência — e venha sentar-se aqui. Perto do rio quase se pode
respirar.

Errol obedeceu e veio sentar-se na relva, depois de uma ligeira


hesitação. Falaram da situação geral.

— Sei — disse Mountolive — que todo o pessoal espera ansiosamente a


nossa instalação estival em Alexandria. Lembro-me de quando era jovem
adido à Comissão. Pois bem, sairemos desta estufa mal eu tenha
apresentado as minhas credenciais. O rei estará no conselho dentro de
três dias, não é? Sim, Abdel Latif disse-me no aeroporto. Bem. Amanhã
convidarei para tomar chá todos os secretários da Embaixada e
respectivas mulheres; e à noite reuniremos num cocktail o pessoal
mais jovem da Legação. O resto pode esperar até que você tenha
reservado o comboio especial e fechado as malas. E como vão as coisas
em Alexandria?

Errol teve um pálido sorriso.

— Está tudo em ordem, sir. Houve a habitual confusão mas os egípcios


foram perfeitos. O Protocolo encontrou uma excelente Residência com
um imóvel para os serviços de Verão, bem como diversos outros
gabinetes que foram postos à nossa disposição. Tudo esplêndido.
Elaborei uma lista do pessoal que permitirá a todos três semanas de
férias, um grupo de cada vez. Os criados podem partir adiante.
Suponho que tenciona dar algumas recepções? A corte porém só parte
dentro de quinze dias. Por aí não temos quaisquer problemas.

Não temos quaisquer problemas! Ali estavam palavras animadoras.


Mountolive suspirou e nada disse. Na obscuridade, do outro lado das
águas do rio, ouviu-se um rumor longínquo, como o crepitar de um
enxame de abelhas; risos e cânticos misturavam-se com o tinido
lancinante dos sistros.
153

- Já me tinha esquecido — disse ele com uma ponta de emoção. — As


lágrimas de Isis! É a Noite das Lágrimas, não é?

— Com efeito, sir — confirmou Errol prudentemente. Em breve no rio


fervilhariam os airosos faluchos e as vozes acompanhadas pelo canto
das guitarras. Isis-Diana ia brilhar nos céus; mas aqui o parque
estava isolado no seu cone de luz eléctrica e o firmamento parecia
mais obscuro. Olhou vagamente em volta tentando reconhecer as
constelações.

— Pois bem, é tudo.

Errol levantou-se imediatamente. Depois de pigarrear, disse:

— Pursewarden não compareceu porque está com gripe.

Mountolive pensou que este género de lealdade era de bom augúrio.

— Bem — disse ele sorrindo —, sei que ele lhe tem causado certas
preocupações. Velarei pessoalmente para que as coisas se componham.

Errol pareceu agradavelmente surpreendido.

— Obrigado, sir.

Mountolive acompanhou-o lentamente até casa. — Gostaria também de


convidar Maskelyne para jantar. Amanhã à noite, se lhe convier. Errol
aprovou lentamente.

— Ele estava no aeroporto, sir.

— Não reparei. Faz-me o favor de pedir ao meu secretário que lhe


envie um cartão para amanhã à noite? Mas telefone-lhe primeiro para
saber se lhe convém. Às oito horas, gravata preta.

— Fica ao meu cuidado, sir.

— Como temos de tomar um certo número de disposições novas, desejo


particularmente encontrar-me com ele e gostaria de assegurar a sua
cooperação. Disseram-me que é um oficial inteligente.

Errol pareceu hesitar.


154

— Ele teve alguns atritos bastante violentos com Pursewarden. Nestas


últimas semanas tem mais ou menos importunado a Embaixada. É
inteligente, mas... um pouco casmurro.

Errol era circunspecto; não desejava manifestamente arriscar-se.

— Bem — disse Mountolive — falarei com ele e verei. Penso que as


novas disposições serão de molde a satisfazer as duas partes, mesmo
Master Pursewarden. Desejaram-se mutuamente boas-noites. No dia
seguinte Mountolive reentrou na rotina que lhe era familiar, mas de
certo modo vista de um ângulo diferente, e de uma posição que punha
imediatamente toda a gente em movimento. Era muito agradável e ao
mesmo tempo excessivamente embaraçoso; mesmo quando tinha o posto de
conselheiro esforçara-se sempre por estabelecer relações amigáveis
com os jovens adidos. Sabia até colocar. à vontade esses broncos
fuzileiros navais da Guarda pelas suas maneiras simples, não fugindo
a trocar com eles algumas impressões quando a ocasião se
proporcionava. Agora todos compunham diante dele uma atitude de
reserva, quase de desconfiança. Ali estavam pois os frutos amargos do
poder, pensou ele aceitando com resignação o seu novo papel.

Os primeiros contactos foram entretanto muito animadores; e até a


recepção ao pessoal correu tão bem que todos pareciam relutantes em
partir. Estava atrasado para mudar de roupa antes do jantar com
Maskelyne e este esperava-o já há alguns minutos na saleta quando
Mountolive apareceu finalmente, depois de ter tomado um banho e
vestido roupas lavadas.

— Ah, Mountolive! — disse o soldado levantando-se e estendendo-lhe a


mão com uma inexpressiva secura. — Estava impaciente por vê-lo
chegar.

Mountolive sentiu-se algo contrariado pelo acolhimento tão pouco


formal desta personagem depois de todas as deferências que lhe tinham
prodigalizado durante a tarde.
155

«Diabo!», pensou ele, «serei no fundo assim tão provincial!»

— Meu caro general.

Pronunciou estas palavras com uma frieza apenas perceptível. Teria


aquele soldado querido simplesmente evidenciar que dependia do
Ministério da Guerra e não do Ministério dos Negócios Estrangeiros?
De qualquer maneira o seu procedimento denotava mau gosto. E,
contudo, Mountolive não pôde deixar de sentir uma certa atracção por
aquele homem magro, de olhos rasgados, voz fria, cuja pessoa, toda
ela, parecia trazer a marca de uma profunda solidão. A sua fealdade
não era desprovida de certa elegância. O smoking, escovado e engomado
sem excessivo apuro, traía-lhe a idade, mas era de boa fazenda e de
excelente feitio. Maskelyne, baixando com circunspecção o focinho de
lebreu para o copo, bebeu com calma e lentamente. Contemplava
Mountolive com a maior frieza. Trocaram durante um momento os
cumprimentos da praxe, e Mountolive teve de reconhecer que o homem
não lhe era antipático a despeito das suas maneiras um pouco rudes. E
bruscamente supôs reconhecer no militar um homem que, como ele
próprio, tinha hesitado a adoptar um estilo de vida determinado. A
presença dos criados excluiu durante o jantar, que foi servido no
parque, qualquer possibilidade de trocarem impressões particulares, e
Maskelyne não deu o menor sinal de impaciência. O nome de Pursewarden
foi pronunciado uma única vez e mesmo assim em tom casual: — Sim, mal
o conheço, fora das relações oficiais, é claro. O que é mais curioso
é que seu pai — o nome é tao pouco comum que não pode tratar-se de
outra pessoa — fez serviço na minha companhia durante a guerra de 14.
Ganhou a Cruz de Guerra. Recordo-me porque fui eu quem escreveu a
citação que lhe valeu ser condecorado: e naturalmente foi a mim
também que incumbiram das diligências habituais. O filho devia ser
uma criança nessa época.
156

Bem entendido, posso estar enganado — embora isso não tenha qualquer
importância. Mountolive estava intrigado.

— De facto, não se engana — disse ele. — Pursewarden falou-me uma vez


nisso. O senhor nunca lhe tocou no assunto?

— Não, santo Deus! Para quê? — exclamou Maskelyne como se tivesse


ficado ligeiramente ofendido. — O filho não é propriamente do meu
género — disse tranquilamente mas sem animosidade; estava
simplesmente a explicar um facto. — Ele... eu... enfim, li uma vez um
dos seus livros.

Calou-se bruscamente como se fosse desnecessário prosseguir nesse


terreno.

— Era sem dúvida um valente — disse Mountolive depois de um instante


de silêncio.

— Sim... ou talvez não — disse lentamente o outro, com ar pensativo.


— Nunca se sabe. Não era um verdadeiro soldado. São coisas que
acontecem com frequência na frente. Sucede que os actos de bravura
sejam cometidos com mais frequência pelos poltrões do que pelos
homens corajosos — é isso que é estranho. O seu acto, neste caso
especial a que me refiro, foi um acto não militar. Por paradoxal que
pareça...

— Mas...— protestou Mountolive.

— Deixe-me explicar. Há uma diferença entre o acto necessário de


bravura e o heroísmo gratuito. Se ele se lembrasse do seu código de
instrução militar não teria feito o que fez. Talvez isto lhe pareça
uma tolice, mas a verdade é que o homem perdeu completamente a
cabeça, agiu sem reflectir. Como homem admiro-o enormemente, mas não
como soldado. A nossa vida exige muito mais rigor — é uma ciência, ou
pelo menos devia ser.

Falava reflectidamente na sua maneira seca e enunciando bem as


palavras. Era evidente que aquele tópico tinha-o debatido mentalmente
com bastante frequência.
157

— Disso não tenho a certeza — disse Mountolive depois de pesar as


palavras do outro.

- Talvez eu esteja enganado — concedeu o soldado.

Os criados tinham-se retirado finalmente, deixando-os a sós diante


das bebidas e dos charutos, e Maskelyne sentiu que podia abordar
finalmente o objecto real da sua visita.

— Penso que já estudou todas as divergências que surgiram entre nós e


a sua secção política. A querela foi extremamente viva e nós
esperamos todos que a resolva.

Mountolive inclinou ligeiramente a cabeça.

— No que me respeita, as dificuldades estão já resolvidas — disse ele


com um ligeiro tom de contrariedade (detestava que o empurrassem).
Conferencie na terça-feira com o seu general e elaborei uma nova
combinação que estou certo lhe há-de agradar. Receberá esta semana
ainda uma ordem para transferir as suas actividades para Jerusalém,
que passará a ser o quartel-general e a sede dos seus serviços. Assim
se evitam todos os problemas de posto e de precedência. Poderá deixar
aqui uma agência sob a direcção de Telford, que é um civil, mas será
naturalmente um serviço subalterno. Para maior comodidade ele
trabalhará connosco e assegurará a ligação entre os nossos serviços.

Um silêncio caiu. Maskelyne estudou com atenção a cinza do charuto


enquanto a sombra de um sorriso lhe nascia ao canto da boca.

— Portanto, Pursewarden ganhou — disse ele muito calmamente. — Bem!


Bem!

Mountolive sentiu-se surpreendido e ultrajado pelo sorriso, embora


este parecesse na verdade perfeitamente inocente.

— Pursewarden — disse então tranquilamente – foi repreendido por ter


retido um relatório destinado ao Ministério da Guerra. Acresce que eu
conheço muito bem a pessoa que é objecto desse relatório e considero
ser necessário obter um suplemento de informação antes de tomar
quaisquer medidas.
158

— É o que estamos a fazer; Telford está em vias de estender a rede em


torno da personagem em questão, esse Hosnani, mas alguns dos
candidatos propostos por Pursewarden parecem inconvenientes... para
não dizer outra coisa. Entretanto, Telford tenta ser-lhe agradável
aliciando-os. Mas... enfim, um deles vende informações à Imprensa e o
outro é presentemente o consolador de M.me Hosnani. Enfim, há outro,
um tal Scobie, que passa o seu tempo a passear vestido de mulher pelo
porto de Alexandria — seria pura caridade supô-lo nessas ocasiões em
busca de informações secretas. Apesar de tudo terei o maior prazer em
confiar a rede a Telford e iniciar algo de mais sério. Que mundo!

— Dado que não conheço ainda os pormenores — disse Mountolive


calmamente — não posso fazer comentários. Mas estudarei a questão.

— Vou dar-lhe um exemplo da competência desse tipo — exclamou


Maskelyne. — Na semana passada, Telford designou esse Scobie para uma
missão de pura rotina. Quando os sírios se querem fazer espertos, não
utilizam o correio diplomático; confiam o saco a uma dama, a sobrinha
do vice-cônsul, que o leva para o Cairo no comboio. Quisemos examinar
o conteúdo de um desses sacos — continha pormenores relativos à
entrega de armas, ao que suspeitávamos. Entregámos a Scobie
chocolates, um dos quais, devidamente marcado, continha uma forte
dose de narcótico. Competia-lhe adormecer a dama durante duas horas e
trazer-nos o saco. Sabe o que sucedeu? Encontraram-no adormecido no
comboio, à chegada ao Cairo, e foram necessárias vinte e quatro horas
para despertá-lo. Fomos obrigados a mandá-lo para o hospital
americano. Mal o sujeito se sentara no compartimento da dama, um
brusco safanão do comboio misturou os chocolates. Incapaz de se
recordar de qual era o que tínhamos tão cuidadosamente marcado, na
precipitação comeu-o...
159

O olhar austero de Maskelyne parecia fuzilar enquanto ia contando a


sua anedota.

- Como quer que confiemos em semelhante gente? — concluiu num tom


acerbo.

- Prometo-lhe examinar a competência de todas as pessoas propostas


por Pursewarden; prometo-lhe também que, de futuro, não se
reproduzirão essas actuações abusivas.

— Obrigado!

Parecia sinceramente reconhecido quando se levantou para se despedir.


Recusou com um gesto a viatura oficial que o esperava diante da
porta, murmurando qualquer coisa a respeito de um «passeio
higiénico», vestiu um sobretudo ligeiro para dissimular o smoking e
afastou-se. Mountolive ficou no patamar a contemplar por um momento a
silhueta esguia do oficial atravessando os charcos de luz que caíam
dos lampadários. Suspirou, de cansaço e de alívio. A jornada fora
difícil. «Pelo menos este problema está resolvido».

Voltou ao relvado para tomar um último copo, calmamente, antes de se


deitar. No conjunto, o trabalho realizado durante esse primeiro dia
não fora insignificante. Tinha conduzido a bom termo uma dúzia de
tarefas, e, entre essas, a de informar Maskelyne do seu destino não
tinha sido a mais fácil. Merecia um instante de repouso.

Mas antes de subir a escada percorreu a casa silenciosa, reflectindo,


ruminando a consciência do seu acesso ao poder com todo o secreto
orgulho de uma mulher que descobre a sua gravidez.
VII

Uma vez completados satisfatoriamente os seus deveres oficiais na


capital, Mountolive pôde encarar a transferência do seu quartel-
general — antecipando-se à corte — para a segunda capital:
Alexandria. Em suma, tudo correra pelo melhor. O rei tinha elogiado o
seu domínio do árabe e a utilização judiciosa do idioma nativo em
público tinha-lhe valido a popularidade na Imprensa, distinção assaz
rara. Todos os jornais publicaram grandes fotografias onde se
salientava o sorriso modesto do embaixador. Enquanto separava aquela
pequena montanha de recortes, Mountolive exclamou, de repente: «Meu
Deus! Não estou simplesmente a caminho de me considerar eu próprio
sedutor?» Eram fotografias excelentes; ficava incontestavelmente
muito elegante com as fontes grisalhas e a linha bem desenhada do
perfil. «Mas a cultura é um hábito que não chega para nos defender
dos nossos próprios encantos. Corro o risco de ser enterrado vivo no
meio destas doçuras, destas facilidades estéreis de uma vida mundana
onde nem sequer sinto qualquer prazer». Com o queixo apoiado no
pulso, reflectia: «Porque será que Leila não me escreve? Talvez na
próxima semana, quando for para Alexandria, ela me mande notícias».
Mas ao menos podia deixar o Cairo satisfeito. As outras legações
estrangeiras roíam-se de inveja com o seu sucesso.
162

A mudança realizou-se com uma celeridade exemplar graças ao diligente


Errol e ao restante pessoal da Residência. Mountolive pôde permitir-
se vaguear preguiçosamente até à partida do comboio especial
carregado com todas as bagagens diplomáticas que lhe permitiriam
assegurar os serviços indispensáveis durante a ausência — malas,
maletas e caixas, tudo marcado com monogramas dourados. O calor
tornara-se intolerável no Cairo. Mas estavam todos bem dispostos
quando o comboio arrancou internando-se no deserto em direcção da
costa.

Era a melhor época para se instalarem em Alexandria, porque os


horríveis khamsins da Primavera tinham cessado de soprar e a cidade
revestira-se com o seu adereço estival: toldos raiados dos cafés da
Grande Comiche, embarcações multicolores arfando sob as torres
sombrias dos vasos de guerra ou pacificamente enfileiradas nas águas
tranquilas do porto em frente do Yacht-Club. Tinha também começado a
estação das recepções estivais e Nessim teve finalmente ocasião de
dar a prometida recepção festejando o regresso do amigo. Foi uma
festa sumptuosa e bárbara, e toda a Alexandria veio prestar homenagem
a Mountolive, como para festejar o regresso de um filho pródigo,
embora ele de facto pouca gente conhecesse além de Nessim e sua
família. Mas agradou-lhe reencontrar Baltasar e Amaril, os dois
inseparáveis médicos que estavam constantemente a implicar um com o
outro; e Clea, que conhecera em tempos na Europa. O sol, descendo
para o horizonte sobre a majestosa vertente da tarde, incendiava as
grandes vidraças enquadradas nos caixilhos de cobre, fazendo-as por
um momento parecer de diamante fundido, antes de esmorecer,
afundando-se no crepúsculo água-marinha do Egipto. Correram-se as
cortinas e centenas de candelabros fizeram brilhar a brancura
sumptuosa das toalhas e cintilar uma floresta de cristais. Era a
estação do lazer e da mundanidade, e davam-se os primeiros bailes, no
decurso dos quais se combinavam os próximos passeios a cavalo e os
cruzeiros pelo mar.
163

O vento fresco do mar alto mantinha uma temperatura agradável; o ar


estava leve e vivificante. Mountolive abandonou-se ao movimento
habitual das coisas com um sentimento de segurança, quase de
beatitude. Nessim tinha por assim dizer retomado o seu lugar, tal um
retrato num nicho rasgado por ele, e a companhia de Justine — a
beleza sombria e de porte real que o acompanhava — facilitava-lhe as
relações com as pessoas em vez de perturbá-las. Mountolive sentia
grande simpatia por ela; gostava da sua maneira de pousar sobre ele
os belos olhos de um negro profundo onde brilhava uma espécie de
curiosidade compadecida mesclada de admiração. Formavam um par
esplêndido, pensava ele, mesmo com uma ponta de inveja; davam a ideia
desses seres habituados a trabalhar em conjunto desde a infância,
respondendo instintivamente às necessidades e aos desejos não
expressos pelo outro, nunca hesitando em se reconfortarem mutuamente
com um sorriso. A despeito da sua beleza e da sua reserva, e embora
falasse pouco, Mountolive cria adivinhar uma sinceridade de bom
quilate em todas as suas palavras, como se proviessem de uma fonte
oculta de secreta ternura. Seria o prazer de encontrar alguém que
apreciava o marido tanto quanto ela própria? A franca e fria pressão
dos seus dedos autorizava tal suposição, da mesma forma que o frémito
da sua voz ao pronunciar estas palavras: «Há tanto tempo que ouço
falar de David, que me será difícil tratá-lo por qualquer outro
nome». Quanto a Nessim, nada tinha perdido do seu encanto durante o
intervalo da separação, e tinha por outro lado adquirido o peso de
uma experiência e de um juízo que o podia fazer passar por um
perfeito europeu num meio tão provincial. Mountolive apreciava em
particular o tacto com que ele evitava abordar assuntos que se
relacionassem com a sua posição oficial, e isto a despeito de irem
caçar, nadar ou pintar juntos. As informações de natureza política
que poderia ter para lhe comunicar eram sempre escrupulosamente
transmitidas por intermédio de Pursewarden.
164

Nunca comprometia a amizade misturando o trabalho com o prazer, ou


obrigando Mountolive a debater-se entre o dever e a afeição. Mas o
mais estimulante ainda era o ardor com que Pursewarden tinha assumido
as novas responsabilidades das suas altas funções. Duas minutas
peremptórias, redigidas na terrível tinta encarnada — cujo uso é uma
prerrogativa absoluta dos embaixadores — tinham-no apaziguado,
arrancando-lhe a promessa de «entrar no bom caminho», que ele
cumprira imediatamente. A sua resposta fora cordial e atenciosa e
Mountolive sentiu-se simultaneamente reconhecido e aliviado por ver
que podia finalmente confiar num juízo que estava bem decidido a não
se deixar invadir nem a sucumbir na facilidade das influências e das
dúvidas. E que mais? Sim, a nova residência estival era deliciosa e
estava situada no meio de um fresco jardim de pinheiros sobranceiro a
Roushdi. Dispunha de dois excelentes campos de ténis que estavam
constantemente em serviço. O pessoal da Embaixada estava satisfeito
com ele. Portanto... o silêncio de Leila continuava sendo um enigma.
E depois, certa tarde, Nessim estendeu-lhe um sobrescrito onde
reconheceu a letra de Leila. Mountolive guardou-o no bolso para lê-lo
quando se encontrasse só. «O teu regresso ao Egipto — e isto talvez
não seja surpresa para ti — perturbou-me e de certo modo perturbou os
meus planos. Estou estupefacta, reconheço-o. Vivi tanto tempo contigo
através da imaginação — e totalmente só aqui — que quase sou obrigada
a reinventar-te para te insuflar vida. Quem sabe se durante todos
estes anos eu não tenho estado a ser injusta contigo, criando um
retrato de ti que é verdadeiro unicamente para a minha pessoa? Talvez
que tu agora não passes de uma ficção, talvez não sejas esse
dignitário de carne e osso que vive no meio das pessoas, das luzes e
da política. Não tenho coragem de confrontar a verdade com a
realidade; tenho medo. Sê paciente com uma mulher estúpida e teimosa
que nunca sabe o que deseja. Bem sei que nos poderíamos já ter
encontrado há muito tempo, mas a verdade é que me retraio como um
caracol quando penso nisso.
165

Tem paciência. Espero que dentro de mim a maré mude. Fiquei tão
irritada quando soube da tua chegada que até chorei de raiva. Ou de
terror? Creio que no fim destes anos todos eu tinha acabado por
esquecer o meu rosto. E tornei a senti-lo de novo, como uma máscara
de ferro. Mas a coragem voltará breve, podes estar certo disso. Mais
tarde ou mais cedo havemos de encontrar-nos e de sofrer o golpe que
daí resultará. Quando? Não sei. Não sei».

Mountolive leu estas linhas no terraço, na doçura do crepúsculo, e


pensou tristemente: «Não tenho as ideias suficientemente claras para
lhe responder qualquer coisa sensata. Que posso fazer ou dizer?
Nada». Mas esta palavra produzia um som oco. «Paciência», disse
docemente para si próprio, revolvendo a palavra no espírito para
estudá-la melhor. Um pouco mais tarde, no baile dos Cervoni, por
entre o palpitar das luzes azuladas e das ondulações das serpentinas,
a paciência pareceu-lhe mais fácil. Evoluía de novo num mundo alegre
onde se não sentia já isolado dos seus semelhantes — um mundo povoado
de amigos com quem podia evocar a memória feliz das longas cavalgadas
com Nessim, apreciar a palavra de Amaril ou o prazer perturbador de
dançar com a loira Clea. Sim, aqui, ele podia ter paciência. O
momento, o lugar e as circunstâncias eram outros tantos elementos
favoráveis. Não pressentia qualquer desastre num futuro sem nuvens e
as premonições de uma guerra que se aproximava lentamente eram
lugares comuns que ele partilhava publicamente com os outros. «É
verdade que esses bombardeiros podem arrasar capitais inteiras?»,
perguntava Clea tranquilamente. «Sempre julguei que as invenções do
homem reflectem os seus secretos desejos e, no fundo, todos desejamos
o fim desta civilização, não é verdade? Sim, mas será doloroso perder
Londres e Paris. Que pensa?»

Que pensava ele? Mountolive enrugou a sua bela testa e sacudiu a


cabeça.
166

Pensava em Leila, velada de negro como uma freira, sentada na sua


vivenda de Verão, no poeirento Karm Abu Girg, entre as rosas
esplêndidas, na companhia da sua serpente...

O Verão arrastava-se assim, sem pressa, sem atritos. Agosto,


Setembro... e Mountolive não sofreu nenhum dissabor profissional numa
cidade tão propícia à amizade, tão vulnerável à menor delicadeza, tão
experiente no prazer. Dia após dia as velas coloridas palpitavam e
deslizavam sobre as águas espelhentas do porto, entre as fortalezas
de aço, e as vagas, de uma brancura sobrenatural, vinham bater num
ritmo eterno o litoral deserto calcinado pelo sol africano. A noite,
sentado sobranceiro a um jardim resplandecente de pirilampos, ouvia o
rugido grave e sufocado pela distância dos paquetes que saíam a barra
fazendo rumo para cidades longínquas do outro extremo do Mundo. No
deserto exploraram oásis de verdura tornados trémulos e
insubstanciais como sonhos devidos à miragem das águas, ou seguiram a
cavalo as extensas tiras de argila que atravessam as areias em todo o
perímetro da cidade, tendo o cuidado de levar alimentos e bebidas
para os cavaleiros tagarelas.

Visitou Petra e o estranho delta de coral, na costa do Mar Vermelho,


efervescente de peixes tropicais dotados de todas as cores do arco-
íris. As longas e frescas galerias da Residência de Verão ressoavam
todas as noites com o-chocalhar dos cubos de gelo nos copos, com o
eco dos lugares comuns e das vulgaridades que lhe comunicavam um
frémito de felicidade devido à sua situação no espaço e no tempo, e
ainda porque tais conversas se harmonizavam tão bem com uma cidade
que sabia que o prazer era a única razão das actividades do homem;
nessas galerias que dominavam o litoral azul repleto de História, na
quente claridade dos candelabros, essas amizades fragmentárias
desabrochavam em novos laços de afeição, cuja sinceridade lhe ajudava
a esquecer o isolamento onde ele temera cair devido à situação em que
se encontrava investido. Já adquirira uma grande popularidade e em
breve seria amado por todos.
167

Até a mórbida preguiça espiritual e o sibaritismo da cidade lhe


pareciam encantadores, a ele que, tendo uma renda assegurada, se
podia permitir o luxo de viver à margem dela. Alexandria parecia-lhe
uma estância de Verão muito desejável, acessível a todas as afeições
e a todas as xenofilias, no sentido grego da palavra. Porque não
havia ele de se sentir à vontade?

Os alexandrinos são também estrangeiros e exilados num Egipto que


existia por debaixo da superfície cintilante dos seus sonhos, cercado
pelos desertos escaldantes e sacudido por uma fé que renunciava aos
prazeres do Mundo: o Egipto dos farrapos e das pragas, da beleza e do
desespero. Alexandria era ainda a Europa, a capital da Europa
asiática, se um tal conceito é concebível. Nunca se assemelharia ao
Cairo, que descende de uma linhagem puramente egípcia e onde a língua
essencial é o árabe; aqui eram o francês, o italiano e o grego que
dominavam. A atmosfera, os costumes sociais, tudo era diferente,
moldado à europeia, onde os camelos, as palmeiras e os nativos de
túnica não passavam do pano de fundo de uma vida de origens variadas.

Depois chegou o Outono e os seus deveres chamaram-no para a capital


de Inverno; embora intrigado e até um pouco entristecido pelo
silêncio de Leila, voltou sem desprazer para as tarefas absorventes
da sua profissão. Havia os documentos a formular, os relatórios
tratando de assuntos económicos, sociais e militares a redigir. O seu
pessoal habituara-se já aos seus métodos e trabalhava com zelo; até
Pursewarden fazia o melhor que podia. A hostilidade de Errol, que
nunca fora muito viva, estava agora neutralizada, tendo dado lugar a
uma trégua a longo prazo. Mountolive tinha todas as razões para se
sentir feliz.

Depois, no carnaval, recebeu uma mensagem de Leila para lhe


significar a sua intenção de encontrá-lo — mas com a condição
expressa de vestirem ambos o tradicional dominó negro, a máscara de
orgia dos alexandrinos. Ele compreendeu.
168

Mas a perspectiva dessa entrevista encheu-o de satisfação e foi


calorosamente que aceitou o convite transmitido telefonicamente por
Nessim, decidindo transferir toda, a Chancelaria para Alexandria
durante o carnaval a fim de que os seus adidos pudessem aproveitar as
festas. Foram encontrar a cidade banhada por um sol de Inverno de um
azul muito vivo, apenas tocada durante a noite pelas geadas do
deserto.

Mas ali esperava-o uma nova decepção: quando Justine, no auge do


tumulto, em casa dos Cervoni, lhe pegou na manga para o conduzir ao
lugar da entrevista, entre as altas sebes do jardim, tudo quanto
encontraram sobre o banco de mármore vazio foi um pequeno retículo de
seda contendo um bilhete onde Leila garatujara: «Os nervos traíram-me
outra vez. Desculpa-me». Mountolive fez por ocultar o seu desgosto e
desapontamento na presença de Justine, que mal acreditava na
evidência: «Mas ela veio especialmente de Karm Abu Girg para
encontrá-lo! Não compreendo nada. Passou todo o dia com Nessim». Ele
sentiu a mão de Justine apertar-lhe o braço com simpatia enquanto
regressavam tristemente aos salões ruidosos e iluminados, passando
com impaciência diante das silhuetas mascaradas no jardim povoado de
risadas.

Perto do tanque descobriu Amaril, sem máscara, sentado junto de uma


delgada silhueta mascarada, falando a meia voz, suplicando,
debruçando-se para estreitá-la. E Mountolive surpreendeu-se
descobrindo que o invejava, embora já nada houvesse de carnal no seu
desejo de se reencontrar com Leila. Era que, de uma maneira bastante
paradoxal, o Egipto não ressuscitaria verdadeira e plenamente para
ele enquanto a não visse, porquanto ela representava uma espécie de
segunda imagem, quase mística, da realidade que ele vivia, que ele
expropriava dia após dia. Estava como o operador que tenta sobrepor
no telémetro as duas imagens gémeas que lhe permitirão regular a
objectiva. Enquanto não tivesse vivido essa experiência, sentir-se-ia
vagamente desamparado, incapaz de verificar as recordações que tinha
conservado dessa paisagem maravilhosa, e também de apreciar as novas
impressões que ela lhe comunicava.
169

Entretanto, aceitou filosoficamente os factos. Afinal de contas, não


havia qualquer razão para se alarmar. Paciência... de resto havia
muito espaço agora para a paciência, enquanto esperava que ela
tomasse coragem.

Em contrapartida outras amizades tinham vindo preencher o vazio:


Baltasar (que vinha com frequência jantar e jogar o xadrez), Amaril,
Pierre Balbz, a família Cervoni. E também Clea, que principiara a
fazer-lhe o retrato. Sua mãe pedira-lhe que lhe enviasse um retrato a
óleo e agora ele tinha a oportunidade de posar no resplandecente
uniforme que Sir Louis lhe tinha tão amavelmente vendido. Seria o
presente de Natal, pensava ele, e sentia um certo prazer vendo Clea
esmerar-se e retocar as partes que menos lhe agradavam. Através dela
(Clea nunca cessava de falar enquanto trabalhava para manter os seus
modelos interessados) aprendeu enormemente, durante esse Estio, da
vida e das preocupações dos alexandrinos, a poesia extravagante e os
dramas grotescos em que se comprazem esses exilados; as histórias
desses habitantes de uma moderna cidade lacustre e dos arranha-céus
de pedra que, por sobre as ruínas do Faros, se voltam para a Europa.

Um desses contos inflamou a sua imaginação: a história de amor de


Amaril, o elegante médico amado por toda a gente e a quem ele próprio
dedicava grande amizade. E Clea, ao falar dele, ao pronunciar o seu
nome, revelava também a sua afeição por esse homem tímido e gracioso,
que tantas vezes afirmara o seu desgosto por não ser amado por uma
mulher.

— Pobre Amaril! — dizia ela com um suspiro acompanhado de um sorriso,


retomando os pincéis. — Quer que lhe conte a história? É
extraordinariamente típica. Todos os amigos ficaram contentes porque
tínhamos chegado a pensar que ele ia passar neste mundo à margem do
amor — como quem perde um autocarro.

— Mas Amaril está de partida para Inglaterra — exclamou Mountolive.


170

— Pediu-nos um visto. Devo concluir que ele se encontra desesperado?


E quem é Semira? Por favor, conte-me.

Clea sorriu novamente o seu sorriso meigo e interrompendo o trabalho


entregou-lhe um cartão de esboços. Mountolive abriu-o voltando as
páginas.

— Tantos narizes! — exclamou surpreendido.

— Sim, tantos narizes. Passei perto de três meses a viajar e a


desenhar narizes para que ela escolhesse um; narizes de vivos e
narizes de mortos. Narizes do Yacht-Club, de l'Étoile, dos frescos do
Museu, de medalhas... Foi um trabalho ingrato reuni-los para fazer um
estudo comparativo. Acabaram por escolher o nariz de um soldado num
fresco de Tebas.

Mountolive estava estupefacto.

— Conte-me a história, Clea.

— Promete não se mexer?

— Prometo.

— Muito bem. Conhece Amaril, não é verdade? Pois bem, esse homem
encantador, tão romântico — esse amigo tão fiel e médico tão
competente — desesperou-nos durante muitos anos. Dir-se-ia que era
incapaz de se apaixonar. Era uma coisa que nos entristecia a todos,
enormemente. Não ignora que, a despeito da nossa aparente dureza,
nós, os alexandrinos, somos os seres mais sentimentais da terra e
desejamos sinceramente que os nossos amigos gozem a vida. Não que ele
fosse desgraçado, ele tinha quantas amantes desejasse, mas jamais uma
amie no sentido particular que damos a este conceito. Ele lamentava-
se muitas vezes, não para provocar a nossa piedade ou para nos
divertir, mas para se tranquilizar, para provar a si próprio que era
normal, e que as mulheres o achavam simpático e sedutor. E depois, no
ano passado, durante o carnaval, produziu-se o milagre: Amaril
encontrou um dominó esguio. Apaixonaram-se loucamente, ele foi mesmo
um pouco mais longe do que é costume com um amante tão prudente.
171

Essa experiência transformou-o por completo, mas... a jovem criatura


desapareceu, sempre mascarada, sem lhe querer confiar o seu nome.
Duas bonitas mãos brancas e um anel de pedra amarela era tudo quanto
Amaril tinha para se orientar — porque, a despeito da súbita paixão
que os empolgara, ela recusara-se a retirar n máscara, e assim ele
não conseguiu um único beijo, embora tivesse conseguido... outros
favores. Meu Deus, lá começo a mexericar! Enfim, tanto pior.

«A partir desse dia, Amaril tornou-se insuportável. O furor


romântico, estou de acordo, ia-lhe muito bem — pois ele é um
romântico até à ponta dos cabelos. Durante um ano inteiro percorreu a
cidade procurando aquelas mãos do seu sonho; procurava-as por toda a
parte, suplicava aos amigos que o ajudassem, esquecia-se do trabalho;
por um pouco se tornou no escárnio de toda a cidade. A sua desgraça
comovia-nos e divertia-nos ao mesmo tempo, mas que podíamos fazer?
Como encontrar a beldade? Esperou então o carnaval deste ano com uma
impaciência crescente porque ela tinha prometido voltar ao lugar onde
se tinham encontrado pela primeira vez. E é agora que a coisa se
torna ridícula. Eia apareceu e uma vez mais trocaram os mais ardentes
juramentos; mas, desta vez, Amaril estava bem decidido a não perdê-la
de vista — porque a rapariga insistia em não lhe dizer nem o nome nem
onde morava. Desesperado e pronto para tudo, insistiu em acompanhá-
la, o que muito alarmou a criatura. (Foi ele que me contou tudo isto:
apareceu-me no dia seguinte, cambaleando como um homem embriagado, os
cabelos desgrenhados, exaltado e apavorado ao mesmo tempo.)

«A rapariga tentou várias vezes escapar-lhe mas ele não se deixou


enganar e insistiu em acompanhá-la a casa numm desses velhos fiacres
que ainda continuam a rolar, ela estava de cabeça perdida e quando
atingiram o subúrbio leste da cidade, miserável e pouco frequentado,
com vastas propriedades abandonadas e jardins incultos, ela foi
pernas para que te quero. Amaril, a quem a paixão romântica tomara
furioso, perseguiu a ninfa e alcançou-a no momento em que ela ia
desaparecer num patiozinho obscuro.
172

Incapaz de se conter, arrancou o capucho no momento em que a


rapariga, finalmente desmascarada, se desfez em lágrimas, caída na
soleira da porta. A descrição desta cena por Amaril tinha qualquer
coisa de terrificante. Ela ali estava, encolhida, sacudida pelos
soluços e emitindo uma espécie de relincho silvante, cobrindo a face
com as mãos. A rapariga não tinha nariz. Durante um momento ele
sentiu-se tomado de um terror incontido, porque não há ninguém mais
supersticioso que Amaril, aliás conhecedor de todas as lendas a
respeito dos vampiros que aparecem nas noites de carnaval. Mas fez o
sinal da cruz e tocou na cabeça de alho que guardava no bolso — e ela
não desapareceu. Então, o médico retomou os seus direitos e,
arrastando-a para o pátio (ela desfalecia de medo e vergonha),
examinou-a cuidadosamente. Disse-me que quase sentia o cérebro
latejar enquanto tentava formular um diagnóstico o mais exacto
possível, ao passo que o seu coração como que cessara de bater,
sufocando-o... Num segundo, passou em revista todas as causas
possíveis de tal enfermidade, repetindo com terror as palavras
sífilis, lepra, lúpus, conservando entre os dedos aquele rostozinho
alterado. Gritou-lhe então num assomo de cólera: «Como te chamas?», e
ela balbuciou: «Semira... a virtuosa Semira.» Os nervos de Amaril
estavam tão tensos que soltou uma descomunal gargalhada.

«Mas eis o que sucede de mais estranho. Semira é filha de um velho


completamente surdo. A família, de origem turca, tinha conhecido uma
era de esplendor no tempo dos quedivas. Mas a falta de sorte
encarniçou-se sobre ela; os filhos enlouqueceram e viviam agora na
miséria e no esquecimento. O pai, meio louco também com a velhice,
conservava a filha sequestrada naquela mansarda, sem nunca tirar o
véu. Falava-se vagamente nos salões, uma vez por outra, de uma
rapariga que tinha tomado o véu e que passava a vida em orações, que
nunca tinha transposto o limiar da casa, que era uma mística; outros
diziam-na surda-muda, e paralítica ainda por cima.
173

Factos imprecisos e deformados de boca em boca. Mas se circulavam


vagos rumores sobre a dita virtuosa Semira, ela era-nos totalmente
desconhecida e a sua família tinha esquecido em absoluto. 0 carnaval
havia despertado nela a curiosidade do Mundo e, vestindo um dominó,
introduzira-se fraudulentamente nos bailes mais animados!

«Mas esqueço-me de Amaril. O ruído tinha atraído um velho criado que


apareceu no pátio com uma palmatória onde ardia uma vela. Amaril
pediu para ser recebido pelo dono da casa. Já tinha tomado uma
decisão. O velho dormia num vetusto leito de colunas, numa câmara
cheia de excrementos de morcegos, no sótão. Semira parecia agora
completamente inconsciente. Tomando a palmatória da mão do criado e
segurando o braço de Semira, Amaril subiu até ao quarto do velho e
abriu a porta com um pontapé. A cena deve ter tido por um instante um
aspecto bem irreal aos olhos do pobre homem sonolento, e Amaril
descreveu-a com a tocante chama do romantismo, comovendo-se de tal
modo com a sua própria descrição que as lágrimas lhe inundaram os
olhos. Deixava-se vencer pela magnificência da sua própria
imaginação, creio bem; devo confessar que também eu, que tanto gosto
dele, senti as lágrimas subirem-me aos olhos quando ele me contou
como, depois de colocar a vela perto da cama, se ajoelhou com Semira,
declarando: «Desejo casar com sua filha e restituí-la ao Mundo». Foi
necessário um certo tempo antes que o terror e a irrealidade desta
inopinada visita se dissipassem. Então o velho começou a tremer
diante daquela elegante aparição ajoelhada junto do seu leito,
segurando por um braço a sua filha sem nariz e propondo-lhe o
impossível com tanto orgulho e paixão.

«— Mas ninguém a quer — protestou o velho —, veja, ela não tem


nariz». Saiu da cama, na sua camisa de dormir suja, e aproximou-se de
Amaril, sempre ajoelhado, para estudá-lo como teria feito com uma
espécie entomológica.
174

(Estou a citar as próprias palavras de Amaril.) Depois tocou-lhe com


o pé nu para verificar se era de carne e osso, e repetiu: «Quem é o
senhor, que deseja casar com uma mulher sem nariz?» Amaril respondeu:
«— Sou um médico da Europa e posso dar-lhe um novo nariz», porque
esta ideia, esta ideia fantástica, tinha-se insinuado lentamente no
seu espírito. A estas palavras, Semira pôs-se a soluçar, voltando
para ele o seu belo e horrível rosto; Amaril proferiu então,
martelando bem as palavras: «Semira, quer ser minha mulher?» Ela
apenas conseguiu articular uma resposta, tão estupefacta como o
próprio pai. Amaril falou-lhes longamente e acreditou tê-los
finalmente convencido.

«Quando voltou porém no dia seguinte, o criado transmitiu-lhe uma


mensagem onde o informavam de que Semira não estava visível e que
aquilo que ele propunha era impossível. Mas Amaril não era homem para
se deixar repelir tão facilmente e foi novamente forçar a porta do
velho para o descompor.

«Aqui está a fantasia em que ele se lançou. Porque Semira, por muito
enamorada que esteja, não pode sair de casa enquanto ele não tiver
cumprido a sua promessa. Amaril queria casar-se imediatamente mas o
velho é desconfiado e quer primeiro assegurar-se da recuperação do
nariz. Mas que nariz? Baltasar foi chamado para uma conferência, e os
dois juntos examinaram Semira e persuadiram-se de que a enfermidade
não era devida nem à lepra nem à sífilis, mas a uma forma rara de
lúpus, uma tuberculose de pele muito pouco comum mas de que se tinham
assinalado alguns casos na região de Damieta. Não tinha sido tratada
e no fim de poucos anos o nariz fora completamente roído. Devo dizer
que é horrível: uma simples fenda, como os ouvidos dos peixes. Porque
eu também participei das deliberações dos dois doutores e fui
regularmente a casa de Semira para convencê-la e educá-la naquela
mansão sombria onde a rapariga passou quase toda a sua vida. Ela tem
uns magníficos olhos negros de odalisca, uma bonita boca e um queixo
bem modelado; e a estragar tudo aqueles dois buracos!
175

É demasiado injusto. Foi preciso muito tempo para convencê-la de que


a cirurgia podia reparar a sua desgraça. E também aí Amaril deu
provas de extraordinário bom senso, conseguindo interessá-la na
restauração do rosto, levando-a a vencer o desgosto que a sua própria
imagem lhe produzia e deixando-a escolher o nariz que lhe convinha,
discutindo com ela todo o projecto. Deixou-a escolher um nariz como
quem deixa à amante a escolha de uma jóia rara no Pierantoni. E era
isso precisamente o mais hábil comportamento, porque ela
presentemente começa a esquecer a sua vergonha e quase sente orgulho
por ter a liberdade de escolher esse presente inestimável — esse
elemento, o mais precioso do rosto de uma mulher, que desperta todos
os olhares e altera todas as significações, e sem o qual os mais
belos olhos, os mais perfeitos dentes e os mais sedosos cabelos não
passam de tesouros inúteis.

«Mas surgiram depois outras dificuldades, pois a restauração de um


nariz requer uma técnica cirúrgica apurada e, embora seja cirurgião,
Amaril não se quer expor a cometer o menor erro que possa comprometer
o resultado da operação. É que, compreende, ele vai de certo modo
criar uma mulher, a partir da sua imaginação, uma face que
corresponda a todos os desejos de um marido; uma possibilidade que
até hoje só foi concedida a Pigmalião! Amaril trabalha neste projecto
como se toda a sua vida dependesse dele — e creio que se fracassasse
morreria. «A operação deve ser feita em diversos escalões e levará
muito tempo antes de estar completamente concluída. Ouvi-os discuti-
la tantas vezes e com tantos pormenores que quase me sinto capaz de
realizá-la. Para começar corta-se um pedaço da cartilagem costal,
aqui, onde a costela se articula com o externo, e enxerta-se. Depois,
corta-se um triângulo de pele na face e cobre-se com ela o nariz (e
aquilo a que Baltasar chama a técnica italiana); mas debatem ainda a
questão de saber se devem levantar antecipadamente um fragmento de
pele e carne da face interna da coxa...
176

Pode imaginar como tudo isso pode ser apaixonante para um pintor e
para um escultor. Mas Amaril quer fazer um estágio prévio em
Inglaterra a fim de aperfeiçoar a sua técnica operatória junto dos
melhores especialistas. Foi para isso que lhe pediu um visto. Não
sabemos quanto tempo ele vai estar ausente, mas embarca no mesmo
estado de espírito de um cavaleiro que parte à conquista do Graal.
Porque tem a intenção de efectuar ele próprio a operação. Semira
espera-o aqui e eu prometi ir visitá-la para distraí-la, o que não é
difícil porque tudo o que se passa fora dos quatro muros da sua casa
lhe parece provir de um mundo estranho, cruel e fantástico. À parte o
pouco que conseguiu entrever nas épocas de carnaval, praticamente
nada conhece da nossa maneira de viver. Para ela, Alexandria é um
país de lenda, e as histórias mais banais maravilham-na como se
fossem contos de fadas. Levará muito tempo antes de ela conhecer bem
a cidade, com os seus contornos duros e insensíveis e os seus
habitantes constantemente na busca do prazer. Mas, afinal, está a
mexer-se!»

Mountolive desculpou-se e disse:

— Foi a palavra «insensíveis» que me surpreendeu, porque eu estava


justamente a pensar até que ponto Alexandria parece cheia de
sensibilidade aos olhos de um estrangeiro.

— Amaril é uma excepção. Há poucas pessoas tão generosas e


desinteressadas como ele, acredite-me. Quanto a Semira... não sei
ainda o que o futuro lhe reserva.

Clea suspirou e acendeu um cigarro.

— Esperemos — concluiu ela tranquilamente.


VII

— Já lhe pedi mais de cem vezes que se não utilize da minha navalha
de barba — exclamou Pombal numa voz lastimosa — e lá recomeça você. E
contudo não ignora que eu tenho medo da sífilis. Nunca se sabe quando
uma espinha pode começar a supurar quando recebe um corte.

— Meu caro colega — respondeu Pursewarden entre os dentes (estava a


rapar o lábio), e com uma careta que pretendia simular a dignidade
ofendida — que quer dizer com isso? Eu sou inglês. Hein?

Interrompeu a operação e, marcando o ritmo com a navalha de Pombal,


declamou em tom solene:

— Os ingleses, que aperfeiçoaram a viatura automóvel, estão


actualmente a afinar o casamento sem sexo. Dentro de pouco tempo
ninguém poderá ir para a cama sem o prévio acordo do seu sindicato.

— Você talvez tenha o sangue infectado — insistiu o amigo,


praguejando contra a liga que tinha acabado de quebrar-se quando
pretendia fixá-la à peúga; com um pé apoiado no bidé expunha a
barriga da perna muito gorda. — Afinal de contas nunca se sabe.

— Eu sou um escritor — disse Pursewarden com um ar de dignidade cada


vez mais ofendida. — Por consequência sei. Não existe sangue nas
minhas veias. Só plasma — disse ele com ar sombrio, secando a ponta
da orelha. — Aí tem o que me corre nas veias.
178

De outra maneira como podia eu fazer tudo o que faço? Pense bem. No
Spectator sou Ubique, no New Statesman sou Mens Sana. No Daily Worker
assino Corpore Sano. Sou ainda Paralysis Agitans no Times e
Ejaculatio Praecox no New Verse. Sou também...— Mas a imaginação
faltou-lhe.

— Mas eu nunca o vi trabalhar — observou Pombal.

— Trabalho pouco e ganho ainda menos. Se o meu trabalho me produzisse


mais de cem libras por ano, não me veria obrigado a procurar refúgio
na incompreensão — disse ele soltando um pequeno soluço.

— Entendido. Você esteve a beber. Vi a garrafa na mesa do corredor


quando entrei. Não acha um pouco cedo?

— Eu queria ser completamente honesto. Afinal de contas o vinho é


seu. Não queria esconder-lhe nada. Sim, bebi um ou dois copinhos.

— Está a celebrar qualquer coisa?

— Sim. Esta noite, meu caro Georges, vou fazer uma coisa bastante
indigna de mim. Derrotei um perigoso inimigo e avancei as minhas
posições através de uma larga brecha. No nosso serviço considera-se
geralmente que isso merece um pequeno cântico de vitória. Vou
oferecer a mim mesmo um jantar de homenagem.

— Quem paga a conta?

— Sou eu quem escolhe os petiscos, sou eu quem os come e serei eu


quem paga a conta.

— Bem, não é original.

Pursewarden dirigiu um sorriso exagerado ao espelho.

— Pelo contrário — disse. — Uma noite tranquila, eis o que me está a


calhar. Comporei um novo fragmento da minha autobiografia diante das
boas ostras do Diamantakis.

— Que título vai dar a esse capítulo?

— Não sei ainda. Quer ouvir o começo? «Quando encontrei Henry James
num bordel argelino, ele afagava duas huris nuas que se tinham
encavalitado sobre os seus joelhos».
179

— Henry James era invertido, foi o que sempre pensei. Pursewarden


escancarou a boca e bradou:

— Por amor de Deus, nada de crítica à francesa. Pombal passou um


pente pelos cabelos negros com uma paciência laboriosa e consultou o
relógio.

— Merde! — exclamou. — Lá volto a chegar «retardado» outra vez.

Pursewarden soltou um gritinho de alegria. Cada um deles se


aventurava livremente na língua materna do outro e divertiam-se como
garotos de escola com os erros que cometiam. Cada deslize era saudado
por vivas que se transformavam em gritos de guerra. Pursewarden
esboçou um passo de dança debaixo da torrente fumegante do chuveiro e
alvitrou:

— E se ficássemos a gozar uma pequena émission nocturne em «vagas»


curtas? (Fora assim que na véspera Pombal se referira a um programa
de rádio e Pursewarden não o esquecera.)

— Não foi isso que eu disse — protestou Pombal.

— Ai não!

— Eu não disse «vagas» curtas mas «ondulações» curtas.

— Ainda pior. Esse pessoal do Quai d'Orsay, francamente! Não digo que
o meu francês seja dos mais perfeitos, mas nunca cometi um...

— Isso, isso, falemos das asneiras que você diz... ah! ah!

Pursewarden começou a dançar a dança do ventre debaixo do chuveiro e


a bradar:

— Emissão nocturna em ondulações curtas.

Pombal lançou-lhe uma toalha enrolada e retirou-se antes de o amigo


ter tempo de exercer represálias eficazes.

Recomeçaram as hostilidades quando o francês acabava de compor a sua


toilette diante do espelho.

— Tenciona passar na Étoile?

— Certamente — respondeu Pursewarden. — Tenciono dançar um fox


macabro com a amiguinha de Darley ou com Sveva.
180

Vários foxes macabros, até. E depois, um pouco mais tarde, como um


explorador a quem se esgotaram as provisões, levarei uma delas ao
Monte dos Abutres. Questão de afiar as minhas garras sobre as
caminhas tenras — soltando grasnidos roucos... Pombal estremeceu.

— Monstro! — gritou. — Vou-me embora... Adeus!

— Adeus! Toujours la maladresse!

— Toujours!

Era o seu grito de guerra.

Uma vez só, Pursewarden começou a assobiar enquanto se secava numa


toalha esfarrapada e concluía a sua toilette. Os caprichos da
instalação sanitária do hotel Monte dos Abutres obrigavam-no muitas
vezes a atravessar o largo para ir tomar um bom banho em casa de
Pombal. Muitas vezes também, quando Pombal partia de licença,
arrendava-lhe o apartamento que partilhava, não de muito boa mente,
com Darley: este último alojava-se, quase às escondidas, no pequeno
reduto ao fundo do corredor. Fazia-lhe bem escapar-se de tempos, a
tempos à solidão do seu quarto de hotel e ao maço de papéis que
proliferava em torno do seu próximo romance. Escapar — sempre
escapar... O desejo de um escritor de estar a sós consigo próprio —
«o escritor, o mais solitário de todos os animais humanos». «Cito o
grande Pursewarden», disse ele à sua imagem enquanto ajustava a
gravata diante do espelho. Nessa noite jantaria tranquilamente,
egoisticamente só. Tinha recusado delicadamente um tímido convite de
Errol para jantar, na certeza de que se seguiria um desses lúgubres e
insípidos serões em que se joga o bridge. «Senhor!», exclamara certo
dia Pombal, «essa maneira que os seus compatriotas têm de matar o
tempo! Esses salões que eles infectam com os seus sentimentos de
culpa! Arrisque-se uma simples ideia e toda a gente pára, de garfo no
ar, calada, confundida como se acabasse de escutar uma obscenidade...
Faço o melhor que posso mas acabo sempre por meter a mão no prato.
Então, automaticamente, no dia seguinte, acabo sempre por mandar
flores à dona da casa...
181

Que gente, os ingleses! Vocês são um enigma para nós, os franceses,


porque a vossa maneira de viver é tão repelente!»

Pobre David Mountolive! Pursewarden pensava nele com compaixão e


afecto. Que preço devia pagar o diplomata de carreira para colher os
frutos do poder! «Os seus sonhos devem estar para sempre envenenados
com a recordação de todas as imbecilidades suportadas —
deliberadamente suportadas em nome do que de mais sagrado existe na
profissão: o desejo de agradar, a vontade de encantar, que engendra a
influência. Enfim. É preciso um pouco de tudo para desfazer um
mundo!»

Quando se penteava descobriu que estava a pensar em Maskelyne, que


nesse momento devia encontrar-se no expresso de Jerusalém, hirto,
atravessando as dunas de areia e os laranjais e fumando com
indiferença o seu cachimbo; numa carruagem-forno, o coiro assaltado
pelas moscas e o coração empedernido por esse orgulho corporativo de
uma tradição moribunda... E moribunda porquê? Maskelyne ruminava a
desfeita, a ignomínia de um novo posto que lhe proporcionava
simultaneamente a promoção. O golpe de misericórdia cruel. (Pensando
nisto sentiu um remorso de consciência porque não subestimava o
carácter desinteressado do militar.) Estreito, dissecado, azedo; mas
se como homem o condenava, prezava-o bastante como escritor. (Tinha
tomado bastantes notas a seu respeito, facto que teria surpreendido
Maskelyne se este soubesse.) A sua forma de pegar no cachimbo, de
erguer o nariz, as suas reticências... Pensava poder utilizar isso
qualquer dia. «Os seres humanos reais tornam-se em simples
prolongamentos de humores capazes de servir, e isso isola-nos um
pouco deles? Sim. Porque a observação divorcia o sujeito observador
do objecto observado? Sim. É por isso que é mais difícil dar uma
resposta absoluta, encontrar as causas profundas dos laços, das
afeições, do amor, e assim por diante. Mas este problema não
interessa unicamente ao escritor: é um problema universal.
182

Todo o crescimento implica separação no interesse de uma nova união,


melhor, mais lúcida... Bah!» Podia consolar-se da sua furtiva
simpatia por Maskelyne recordando-se de algumas atitudes absurdas do
homem. A sua arrogância, por exemplo! «Meu caro, quando você tiver
estado tanto tempo como eu nos serviços secretos começará a saber o
que é a intuição. Farejam-se as coisas a um quilómetro de distância».
A ideia de que uma pessoa como Maskelyne pudesse possuir uma tal
intuição era particularmente divertida. Pursevvarden soltou uma
gargalhadinha.

Saiu bem disposto para a rua que o crepúsculo já começava a invadir,


contando o dinheiro e sorrindo. Era a melhor hora do dia em
Alexandria: as ruas tomavam lentamente a coloração azul metálico do
papel químico, mas continuavam a libertar o calor louro do sol. Na
cidade ainda não se tinham acendido todas as luzes, e grandes
fragmentos do crepúsculo malva flutuavam aqui e além, esbatendo os
contornos de todas as coisas, esfumando os navios e os seres humanos
em linhas confusas. Os cafés sonolentos despertavam lentamente nos
acordes piegas dos bandolins e no rangido dos pneus sobreaquecidos
pelo asfalto das ruas, onde começavam a pulular os vestidos brancos e
os cofiós vermelhos. Um odor penetrante de húmus e de urina escapava-
se dos vasos de flores dependurados nas janelas. Os grandes
automóveis partiam da Bolsa num concerto de buzinas tal como um bando
de aves de uma espécie particular levantando voo. Sentir-se semicego
pelos revérberos do crepúsculo, caminhar despreocupadamente,
misturar-se com a multidão, o espírito em paz, naquele ar seco e
vivificante... eram os raros momentos de felicidade que o acaso lhe
concedia. Os passeios conservavam ainda todo o seu calor, como as
melancias abertas antes da noite; um calor húmido que se insinua
lentamente através das solas dos sapatos. As brisas vindas do mar iam
refrescar a cidade alta em rajadas que se sentiam apenas
espasmodicamente.
183

Uma pessoa movia-se aqui no ar seco, carregado de electricidade


estática (o poente crepitava nos cabelos), como se nadasse num tépido
mar estival percorrido por pequenas correntes frias. Pursewarden
dirigiu-se calmamente para Baudrot, atravessando ilhas flutuantes de
aromas — uma mulher que passa numa nuvem de perfume, relentos de
jasmim escapando-se do orifício negro de um respiradouro — sabendo
que dentro de pouco tempo o ar húmido do mar os absorveria a todos.
Era a hora ideal para tomar um aperitivo.

Os extensos balcões de madeira onde se alinhavam os vasos de plantas


que exalavam o odor crepuscular de terra regada recentemente estavam
agora todos ocupados por criaturas humanas, semifundidas pela miragem
em fugitivas caricaturas de gestos imediatamente desfeitos. Os
toldos, raiados, multicolores, palpitavam debilmente sobre os véus
azuis que se agitavam, inquietos, nas ruelas progressivamente
invadidas pela sombra, estremecendo como os sentidos dos amantes que
por ali rondavam, esperando a amada, os seus gestos cintilando como
borboletas cheias de todas as promessas nocturnas de Alexandria. Em
breve a. bruma se dissiparia e as luzes abrasariam as pratas e as
toalhas brancas, os brincos e as jóias rutilantes, as cabeleiras
lisas e luzentes e os sorrisos tomados mais radiantes pela sua
natureza obscura — peles morenas marcadas pelo brilho imaculado de um
sorriso. Depois os automóveis regressavam lentamente da cidade alta
com a sua elegante e frágil carga de foliões... Era o melhor momento
do dia. Encostado a uma grade de madeira, anónimo, contemplava com um
olhar distraído o espectáculo da rua. Mesmo as silhuetas da mesa
vizinha não tinham rosto: simples contornos de seres humanos. As
vozes chegavam-lhe através da bruma malva da tarde, vozes veladas de
alexandrinos recitando as cotações da Bolsa ou poemas de amor em
árabe... quem sabe?

Como era bom um cálice de Dubonnet com um fiapo de limão, carregado


de recordações concretas de uma Europa há muito abandonada, mas que
continuava contudo a viver, inesquecida, sob a superfície dessa vida
insubstancial na reles capital de Alexandre!
184

E enquanto sorvia o seu aperitivo pensava com inveja em Pombal e na


sua fazenda da Normandia, para onde o amigo esperava retirar-se um
dia. Como devia ser reconfortante uma pessoa sentir-se ligada ao seu
país, viver aqui com a certeza do regresso! Alas o seu coração
começou a palpitar diante de semelhante pensamento; e sentiu
simultaneamente tristeza por ter de ser assim. (Ela dizia: «Se eu
leio os livros muito devagar não é porque não seja capaz de utilizar
o Braille com desembaraço, mas simplesmente porque desejo abandonar-
me ao poder de cada palavra, mesmo quando exprimem grosseria ou
fraqueza, para tentar atingir o núcleo da ideia».) O núcleo! Ali
estava uma palavra que assobiava aos ouvidos como uma bala que por um
pouco não nos acertou. Pursewarden via-a — rosto de uma brancura de
mármore de deusa marinha, cabelos flutuando sobre as espáduas, os
olhos voltados para o parque onde os ramos e as folhas mortas de
Outono fumegavam ardendo — tal uma Medusa no meio das neves,
escondida no seu xaile escocês. Os cegos passavam o dia inteiro nessa
obscura biblioteca subterrânea com os seus charcos de luz e sombra,
os dedos percorrendo como formigas as superfícies perfuradas dos
livros que uma máquina tinha gravado para eles. «Desejava tanto
compreender mas não conseguia.») Bem, é aí que se sente um suor frio;
é aí que se dá um giro de trezentos e sessenta graus, uma Terra
humana, para afundar, gemendo, o rosto no travesseiro! (Agora
acendiam-se as luzes e os véus de bruma derivavam lentamente para as
alturas da noite onde se evaporavam. As faces humanas...) Pursewarden
analisava-as intensamente, quase lubricamente, como para surpreender
as suas intenções mais secretas, os fins fundamentais que as impeliam
a vir errar por ali, como pirilampos, a atravessar os raios de luz
amarela; um dedo cintilante de anéis; o brilho de uma orelha; um
dente de ouro cravado no meio de um sorriso apaixonado. «Rapaz, kam
wahed, outro, se faz favor!»
185

E os pensamentos semiformulados começaram de novo a flutuar-lhe no


espírito (inocência expurgada pela obscuridade e pelo álcool):
pensamentos que se podiam vestir mais tarde, mascarados de versos...
Visitantes vindos de outras vidas...

Sim, estaria mais um ano — um ano ainda, por amizade a Mountolive. E


faria o possível para que fosse um bom ano. Depois pediria a
transferência — mas afastou tal pensamento porque podia ser afinal
uma mudança catastrófica. Ceilão? Santos? Havia qualquer coisa
naquele Egipto de imensidões sufocantes, de vazios ardentes, com os
seus monumentos de granito aos faraós mortos, necrópoles tornadas
cidades, que o sufocava. Não era um lugar para recordações — e a
realidade seca e estridente do mundo diurno ultrapassava aquilo que
um ser humano podia suportar. Feridas abertas, sexo, perfumes e
dinheiro. Apregoavam-se os jornais da tarde num calão confuso, à base
do grego, do árabe e do francês. Os ardinas percorriam as ruas,
chiando, como mensageiros do outro mundo, anunciando... á queda do
Império Bizantino? As suas túnicas brancas eram apertadas nos
joelhos. Gritavam numa voz lastimosa como se agonizassem de fome.
Comprou um jornal para ler durante a refeição. Aí estava uma pequena
satisfação que não dispensava.

Depois deambulou tranquilamente ao longo das arcadas, entrou na rua


dos cafés, passou diante de uma mesquita malva (como se flutuasse no
céu), de uma biblioteca, de um templo (com janelas gradeadas: «Aqui
repousou outrora o corpo de Alexandre o Grande»), e deixou-se
arrastar pelo declive das ruas sinuosas que iam dar ao porto. As
correntes frias eram um suplício para as faces.

Subitamente foi de encontro a uma silhueta abafada num impermeável e


reconheceu, demasiado tarde, Darley. Trocaram algumas graçolas
confusas, paralisados por uma timidez comum. A delicadeza colava-os
um ao outro, por assim dizer, prendia-os à ruela como se esta se
tivesse transformado numa fita de papel mata-moscas.
186

Por fim, Darley conseguiu libertar-se do encanto e dizer voltando-se


para a rua obscura: «Bem, não quero tirar-lhe mais tempo. Estou
atrasado. Tenho de ir compor um pouco a minha indumentária».
Pursewarden ficou a vê-lo afastar-se, surpreendido pela sua própria
confusão, e pensando de repente no estado em que deixara a casa de
banho: as toalhas ensopadas e a gordura acinzentada do sabão da barba
no lavatório... Pobre Darley! Mas por que diabo sucedia que ele,
embora gostasse do outro e o respeitasse, se sentia sempre tão pouco
à vontade na sua presença? Tomava com ele um tom cordial inusitado,
por pura timidez, que devia ter a aparência de um desprezo cruel. O
tom desabrido e cordial de um médico de província que quer
reconfortar um doente... Merda! Era preciso convidá-lo para vir um
dia tomar um copo a sós, no seu quarto de hotel, a fim de tentar
conhecê-lo melhor. E contudo tentara aprofundá-lo durante certos
passeios que tinham feito nesse Inverno. Afastou o mau humor
pensando: «Mas afinal o pobre diabo ainda se interessa pela
literatura». Recuperou o bom humor quando chegou à pequena taberna
grega que servia ostras, à beira-mar; as paredes estavam ornamentadas
de canastras e barris de todos os formatos e das cozinhas escapavam-
se pesadas lufadas de fumaça e de odores de fritadas de peixe miúdo e
de polvo. Sentou-se numa mesinha, entre os marujos descompostos, para
saborear as ostras e ler o jornal, enquanto a noite se instalava
tranquilamente à sua volta, sem que nenhum pensamento, nenhuma
necessidade de participar numa conversa e nas suas inevitáveis
banalidades o viesse perturbar. Mais tarde poderia voltar outra vez a
mente para o livro que estava a escrever, tão lentamente, com tanto
sofrimento, nos momentos secretos de uma liberdade por tão alto preço
disputada ao vazio da sua vida profissional, disputada mesmo aos
acontecimentos que a sua preguiça, o seu gregarismo, teciam em torno
dele. («Vamos tomar um copo?» — «Porque não!» Quantas noites úteis
tinha desperdiçado deste modo?)
187

E os jornais? Interessava-se especialmente pelos Faits Divers — essas


pequenas singularidades do comportamento humano que reflectiam a
natureza verdadeira do homem, cuja vida se processava bem abaixo das
mais verbosas abstracções, procurando a todo o preço o cómico e o
miraculoso nas existências insípidas, insensíveis, submetidas à
tirania de uma razão chata e seca. Passando rapidamente por um grande
cabeçalho que lhe competia interpretar no dia seguinte para
Mountolive (A União Árabe lança um novo apelo), preferiu deleitar-se
com as eternas fraquezas humanas nos artigos intitulados: Um grande
chefe religioso fechado num ascensor ou Um louco faz saltar a banca
em Monte Cario, que reflectiam o desatino do destino e dos
acontecimentos.

Mais tarde, sob a influência dos petiscos do Coin de France deixou


que a noite passasse por ele, pacífica, deliciosa, como quem se
abandona às doçuras de um cachimbo de ópio. O mundo interior
desenrolava os seus carretéis, distendia-se, corria num rio de
pensamentos que piscavam por intermitências, como sinais Morse, na
sua consciência. Era como se ele se tivesse tornado num verdadeiro
aparelho receptor, naqueles raros momentos em que não sofria
interferências.

Às dez horas anotou nas costas de um cheque algumas frases gnómicas


destinadas ao seu próximo livro. Assim: «Dez horas. Nenhum Ataque de
hipogrifo esta semana. Algumas réplicas para o Velho Parr?» E por
baixo frases inacabadas, que condensando-se no espírito como o
orvalho podiam mais tarde ser polidas e refundidas na trama dos
factos e dos gestos das suas personagens.

a) A cada passo dado do desconhecido para o conhecido mais se adensa


o mistério.

b) Aqui estou eu, caminhando sobre duas pernas, dotado de um nome —


toda a história intelectual da Europa de Rabelais a Sade.
188

c) O homem será feliz quando os seus deuses forem perfeitos.

d) Até o santo morre com todas as suas imperfeições na cabeça.

é) Uma criatura capaz de se colocar acima de qualquer censura divina


e abaixo de qualquer desprezo humano.

f) Possuir um coração humano: doença incurável.

g) Todos os grandes livros são incursões na piedade.

h) O sonho do milho amarelo é o caminho de todo o homem.

Mais tarde, estes obscuros pensamentos integrar-se-iam todos na


personagem do Velho Parr, o Tiresias sensualista do seu romance,
embora, aparecidos assim ao acaso, nada indicasse a ordem pela qual
seriam finalmente colocados. Bocejou. Sentia uma agradável embriaguez
depois do segundo copo de Armagnac. Para além dos toldos cinzentos, a
cidade tinha tomado uma vez mais a sua verdadeira pigmentação
nocturna. As faces negras fundiam-se no escuro; as roupas que iam e
vinham pareciam vazias, como no filme do Homem Invisível. Cofiós
vermelhos assentes em rostos ausentes, sombras da sombra. Assobiando,
pagou a conta e desceu bem disposto em direcção à Comiche, e parou no
local onde, no ângulo de uma ruela, se balançava a lâmpada verde do
Étoile. Mergulhou no gargalo da escadaria exígua e emergiu na cave
sufocante, semiencegueirado pela luz brutal das lâmpadas de néon.
Abandonou o impermeável aos cuidados de Zoltan. Excepcionalmente não
sofria aquele sentimentozinho de terror que lhe dava sempre a
lembrança das contas por pagar — tinha conseguido um adiantamento
substancial sobre o seu novo salário. «Há duas raparigas novas,
chegadinhas de fresco da Hungria», segredou-lhe um criado baixando-se
junto dele. Passou a língua pelos lábios e sorriu mostrando os
dentes. Dir-se-ia que tinha sido frito em azeite a fogo brando até a
pele tomar uma bela coloração acastanhada. A sala estava cheia e as
variedades aproximavam-se do fim.
189

Pursewarden sentiu-se satisfeito por não avistar nenhum conhecido. As


luzes baixaram, cambiaram para azul, apagaram-se... e no meio do
ribombar de um tambor acompanhado de frémitos de tamborins apareceu a
última dançarina, no cone radiante e prateado de um projector. As
lantejoulas capturaram a luz e inflamaram-se como um navio viking e
depois ela desapareceu, num estremecimento fulgurante, a caminho do
corredor carregado de odores onde se encontravam os camarins.

Pursewarden tivera poucas oportunidades de falar com Melissa depois


do seu primeiro encontro, havia um mês, e as visitas da bailarina ao
apartamento de Pombal raramente coincidiam com as suas. Darley, por
sua parte, parecia pretender ocultar as suas relações com a rapariga;
seria ciúme ou seria por sentir vergonha dela? Quem o podia afirmar?
Sorriam e cumprimentavam-se quando se cruzavam na rua e nada mais.
Pôs-se a observá-la meditativamente enquanto sorvia o seu whisky, e
lentamente sentiu brilhar e arder a luz dentro dele, e os seus pés
responderem ao ritmo melancólico e indolente do jazz negro. Gostava
de dançar, gostava do movimento confortável dos pés ao ritmo de uma
medida a quatro tempos, o ritmo que embebia o soalho debaixo dos
dedos. Iria convidá-la?

Mas era demasiado bom dançarino para se permitir audácias e, com


Melissa nos braços, contentava-se em deixar-se ir docemente,
ligeiramente, em redor da pista, trauteando para si próprio o Jamais
de la vie. Ela sorria-lhe e parecia feliz por encontrar um rosto
familiar do mundo exterior. Pursewarden sentia-lhe a mãozinha
estreita e o pulso fino apoiados sobre a espádua, os dedos um pouco
crispados sobre o tecido do casaco, como a pata de um passarinho.
«Você está em forma?», perguntou ela. «Sim, estou em forma»,
respondeu ele. Trocaram depois gracejos insignificantes, adequados ao
lugar e ao momento. Ele sentia-se atraído e interessado pelo francês
execrável da rapada. Um pouco mais tarde ela veio sentar-se à sua
mesa e Pursewarden ofereceu-lhe champanhe — a tarifa imposta pela
casa para as conversas particulares.
190

Nessa noite Melissa estava de serviço e cada dança tinha de ser paga;
acolhia pois aquele intervalo com gratidão porque sentia dores nos
pés. Falava gravemente com o queixo apoiado na mão e, contemplando-a,
Pursewarden descobria nela uma espécie de beleza estiolada. Tinha
bonitos olhos que olhavam lealmente e onde brilhavam pequenos
lampejos de timidez revelando porventura as feridas que a vida
inflige a uma honestidade demasiado grande. Mas tinha o ar doente e
estava manifestamente mal. Pursewarden pensou na frase «As doces
flores da tísica». O whisky tinha exaltado ainda mais o seu bom humor
um pouco irónico, e alguns gracejos seus foram compensados por uma
gargalhada franca que ele considerou deliciosa. Começava a entrever
vagamente o que devia atrair Darley: o encanto agarotado, a finura e
a simplicidade; a resposta que o árabe comum está sempre apto a
oferecer a um mundo cruel. Dançando novamente com ela, perguntou-lhe,
mas com uma ironia velada pela embriaguez: «Melissa, comment vous
defendez vous contre la solitude?» A resposta foi-lhe direita ao
coração, sem ele compreender porquê. Melissa voltou para ele os olhos
carregados de toda a sinceridade da experiência e respondeu
docemente: «Monsieur, je suis devenue la solitude même. A melancolia
do seu rosto sorridente não continha a menor parcela de amargura. Ela
fez um gestozinho, como para mostrar um universo inteiro e disse:
«Repare», designando os clientes, palhaços de carnes roídas por
desejos desprezíveis, rondando em tomo deles naquela cave sem
arejamento. Ele compreendeu e sentiu remorsos por nunca a ter tomado
a sério. Sentia-se furioso com o seu egoísmo. Sem premeditação apoiou
a face no rosto da rapariga, afectuosamente, como teria feito um
irmão mais velho. Ela reagiu com a maior naturalidade! Fundiu-se uma
barreira entre eles e puderam conversar livremente, como velhos
amigos. À medida que a noite avançava apercebeu-se que dançava quase
sempre com ela. Melissa parecia acolher os seus galanteios com
prazer, embora ele agora dançasse calado, feliz e descontraído.
191

Não tentou nenhum gesto de intimidade e contudo sentia que ela o


tinha aceitado. Depois, cerca da meia noite chegou um gordo e
manifestamente rico banqueiro sírio que começou a disputar-lhe
seriamente a companhia de Melissa. Pursewarden sentiu com grande
surpresa crescer nele uma inquietação vizinha do ciúme do
proprietário ameaçado. A descoberta dos seus sentimentos levou-o a
praguejar entre dentes! Instalou-se então numa mesa junto da pista
para poder ser o primeiro a alcançá-la quando a orquestra começasse a
tocar. Melissa parecia indiferente a esta competição onde ela servia
de parada. Estava cansada. Por fim, Pursewarden perguntou-lhe:

— Que tenciona fazer quando sair daqui? Vai ter com Darley?

Ela sorriu ouvindo pronunciar aquele nome, mas sacudiu a cabeça com
um ar cansado.

— Tenho necessidade de dinheiro para... não, nada — disse ela


docemente; depois, bruscamente, como se receasse que ele não a
acreditasse, acrescentou: — ...para o meu casaco de Inverno. Temos
tão pouco dinheiro. E nesta profissão é preciso vestir bem.
Compreende?

Pursewarden disse:

— Mas não vai com esse horrível sírio?

O dinheiro! Pensou naquilo com um aperto no coração. Melissa olhava-o


com um ar de divertida resignação e disse a meia voz, simplesmente e
sem qualquer traço de vergonha:

— Ele ofereceu-me quinhentas piastras para acompanhá-lo. Por ora


neguei, mas, mais tarde... creio que não terei outro remédio.

Encolheu os ombros. Pursewarden lançou tranquilamente uma praga e


disse:

— Não! Venha comigo. Dou-lhe mil piastras, se é uma questão de


dinheiro.

Os olhos da rapariga arregalaram-se ouvindo falar em tal soma.

192
Pursewarden via-a contar mentalmente todo aquele dinheiro, moeda a
moeda, fazendo-as tilintar entre os dedos, repartindo-as pela comida,
pelo arrendamento do quarto, pelas roupas...

— Estou a falar a sério — insistiu ele secamente. Depois acrescentou,


quase sem interrupção: — E Darley, está ao corrente?

— Oh, sim — disse ela com simplicidade. — Sabe, ele é muito gentil. A
nossa vida não é cor-de-rosa, mas ele conhece-me. Tem confiança em
mim. Nunca me faz perguntas, nunca procura conhecer os pormenores da
minha vida. Ele sabe que um dia, quando tivermos dinheiro suficiente
para sair de cá, eu abandonarei toda esta vida. Para nós não tem
importância.

Aquilo soava estranhamente, quase como uma abominável blasfémia na


boca de uma criança. Pursewarden começou a rir.

— Vamo-nos embora — disse ele bruscamente; sentia agora um desejo


louco de possuí-la, de abraçá-la e aniquilá-la sob os beijos
repugnantes de uma falsa piedade. — Vamo-nos embora, Melissa querida.

Mas viu-a estremecer e empalidecer ouvindo esta palavra e compreendeu


que tinha cometido um erro, pois o seu amor por Darley devia
sobrelevar toda e qualquer transacção sexual. Ele próprio se sentia
contrafeito mas era incapaz de agir de outra maneira.

— Escute — disse ele —, dentro de poucas semanas darei a Darley o


dinheiro suficiente para que ele possa levá-la daqui para fora.

Ela parecia não o ouvir.

— Vou buscar o meu casaco — disse Melissa numa vozinha maquinal — e


encontro-me consigo no corredor.

Ela levantou-se para ir discutir a saída com o gerente e Pursewarden


ficou à espera, nas garras da impaciência. Tinha encontrado o meio
perfeito de curar os remorsos de uma consciência puritana que se
ocultavam sob a superfície leviana de uma vida amoral.
193

Algumas semanas antes tinha recebido, por intermédio de Nessim, uma


carta de Leila redigida nestes termos:

«Caro Senhor Pursewarden:

«Escrevo-lhe para lhe pedir um serviço que talvez lhe pareça um pouco
insólito. Um tio, a quem eu muito amava, morreu recentemente. Amava
apaixonadamente a Inglaterra e a língua inglesa, que conhecia
porventura melhor que a sua própria; deixou no seu testamento
instruções para que no seu túmulo fosse inscrito um epitáfio em
inglês, em prosa ou em verso e, se possível, original. Desejo honrar
a sua memória e respeitar as suas derradeiras vontades e por esse
motivo lhe escrevo para lhe perguntar se está disposto a encarregar-
se de redigir o epitáfio. Era isto comum com os poetas da antiga
China, embora actualmente tal prática tenha caído em desuso. Teria
muito prazer em pagar-lhe a soma de quinhentas libras por esse
serviço».

O epitáfio tinha sido redigido e o dinheiro depositado no banco, mas


ele não se sentira com coragem para tocar naquela soma. Impedia-o uma
espécie de temor supersticioso. Nunca tinha escrito poesia de
encomenda e muito menos qualquer epitáfio. Qualquer coisa de maléfico
parecia ligar-se a uma soma tão importante e tinha-a deixado no
banco, intacta. E agora, bruscamente, sentia a convicção de que devia
oferecê-la a Darley! Isso remiria de certo modo a sua falta de calor
para com ele, a sua pouca estima.

Ela acompanhou-o ao hotel, apertada contra ele como uma espada dentro
da bainha — com aquele andar tão típico das profissionais da rua.
Trocaram poucas palavras. A cidade estava deserta.

O velho ascensor sebáceo, com os seus bancos bordados de galões


usados e os seus espelhos com enquadramentos de renda amarelada e
apodrecida, levou-os lentamente, aos safanões, numa obscuridade
atapetada pelas teias de aranha.
194

Pouco faltava, pensava ele, para cair no alçapão, os pés para baixo,
os braços entrelaçados noutros braços, os lábios colados noutros
lábios, até ao momento em que havia de sentir o nó corredio apertar-
lhe o pescoço e uma explosão de estrelas por detrás das suas
pálpebras cerradas. Adiamento, esquecimento, que outra coisa se podia
esperar do corpo de uma mulher desconhecida?

Diante da porta do quarto beijou-a lenta e deliberadamente, apoiando


a boca no interior dos lábios cheios e macios da rapariga até que os
dentes se chocaram. Ela não correspondeu ao beijo mas não procurou
evitá-lo e apresentou-lhe o seu rostozinho sem expressão (sem olhar
na penumbra) como uma vidraça gelada. Pursewarden não sentia nela
nenhuma vibração, nada além de um cansaço profundo e devorador. As
mãos dela estavam frias. Pursewarden tomou-as entre as dele e uma
melancolia profunda invadiu-o. Iria uma vez mais encontrar-se só
diante de si próprio? Refugiou-se instintivamente numa embriaguez
cómica que ele bem sabia imitar, armando um palanque de palavras
diante da realidade, para perturbá-la e desorientá-la. «Viens!
Viens!, exclamou ele vivamente tomando quase o tom de falsa
jovialidade que usava com Darley e começando a sentir-se agora
verdadeiramente embriagado. «Le maître vous invite». Sem um sorriso,
dócil como um cordeiro, ela entrou no quarto e olhou em volta.
Pursewarden procurou às apalpadelas a lâmpada da cabeceira. Não
funcionava. Acendeu então uma vela e voltou-se para a rapariga;
dançavam-lhe sombras negras nas narinas e nas órbitas. Olharam-se e
ele lançou-se numa furiosa improvisação de calão para dissimular o
seu constrangimento. Finalmente calou-se porque ela estava demasiado
esgotada para poder sorrir. E então, sem uma palavra e sem um
sorriso, ela começou a despir-se deixando cair os vestidos sobre o
tapete coçado.

Durante um momento ele contentou-se com explorar, deitado ao lado


dela, o seu corpo frágil, os seus flancos oblíquos (uma estrutura de
avenca), os seios pequeninos, ainda imaturos mas tersos.
195

Perturbada pelo silêncio de Pursewarden, ela soltou um suspiro e


disse qualquer coisa que ele não compreendeu. «Laissez, laissez
parler les doigts... comme ça», murmurou ele para conservá-la calada.
Gostaria de se sentir capaz de proferir algumas palavras simples e
concretas. No silêncio sentiu que ela começava a debater-se contra a
obscuridade voluptuosa e a força crescente do seu desejo, a lutar
para compartimentar as suas sensações, para conservá-las separadas da
sua vida entre as torpes transacções da existência. «Um compartimento
separado», pensou ele, e depois: «— Estará rotulado Morte?» Estava
decidido a explorar a sua fraqueza, a ternura que sentia fluir e
refluir nas veias daquele corpo meigo, mas a sua própria força moral
decresceu e esgotou-se. Empalideceu e ficou estendido, os olhos
brilhantes e febris voltados para o tecto coberto de manchas,
tornando a percorrer o tempo perdido. Um relógio tocou num quarto
próximo e esse ruído despertou Melissa, libertando-a do cansaço para
dar lugar a uma impaciência, um desejo de acabar, para finalmente
poder abandonar-se ao sono contra o qual lutava.

Colaboraram, fingindo uma paixão que ridicularizava as suas origens e


que não podia nem inflamar-se nem extinguir-se. (Uma pessoa pode
ficar estendida na cama, lábios entreabertos, pernas escancaradas,
durante uma eternidade, a pensar que lhe esqueceu qualquer coisa que
tem até na ponta da língua, no limiar da consciência. Mas nem por um
decreto se consegue recordar do nome, da cidade, do dia, da hora... a
memória biológica não funciona.) Ela fungou, como se chorasse,
segurando-o entre os dedos pálidos e sensíveis, meigamente, como se
segurasse num passarinho caído do ninho. Sombras de dúvida e
ansiedade afloravam-lhe o rosto — como se ela se sentisse responsável
pela baixa da corrente, pela comunicação cortada. Depois soltou um
gemido — e Pursewarden compreendeu que ela pensava no dinheiro. Uma
soma tão grande! Nunca mais encontraria um homem assim generoso!
196

Então a sua solicitude, a sua crueza, começaram a exasperá-lo. —


Chéri!

Os seus abraços eram semelhantes aos das figuras de gesso sobre um


túmulo clássico. Ela acariciou-lhe os flancos, os rins, o pescoço, as
faces, com as suas mãos experientes, apoiando aqui e ali os dedos na
sombra, dedos de cega procurando um painel secreto numa parede, o
botão que faria jorrar a luz iluminando um outro mundo, fora do
tempo. Mas aparentemente sem sucesso. Ela lançava em redor olhares
receosos. Jaziam debaixo de uma janela de pesadelo, glauca, diante da
qual ondulava docemente uma cortina, como uma vela, e que lhe
recordava vagamente o leito de Darley. O quarto cheirava a incenso
arrefecido, a manuscrito decomposto, e pairava o odor das batatas que
ele comia enquanto escrevia. Os lençóis estavam sujos. Como de
costume, muito acima do desgosto ou da humilhação, ele escrevia em
espírito, depressa e sem esforço. Cobria páginas sobre páginas. Havia
anos que ele começara a escrever a sua vida mentalmente — o viver e o
escrever eram simultâneos. Transferia inteiramente para o papel o
instante tal como o vivia, ainda quente, nu e sem retoques...

— E agora — disse ela irritada, bem decidida a não perder as piastras


que já tinha gasto em imaginação, que já tinha ganho —, vou fazer-te
La Veuve — e Pursewarden conteve a respiração num estremecimento de
exultação literária para repetir mentalmente esta maravilhosa
expressão de calão inspirada na antiga alcunha da guilhotina, com
aquela terrível evocação dos dentes que se reflectia na metáfora onde
se ocultava o obscuro complexo da castração.

La Veuve! Mares infestados pelos tubarões do amor que se fechavam


sobre a cabeça do marinheiro condenado, numa paralisia muda do sonho,
sonho das grandes profundidades que lentamente nos suga, nos afunda,
nos despedaça... até ao momento em que, com um ruído seco, cai o
cutelo, e baqueia a cabeça recheada de um formigueiro de pensamentos,
lugubremente, no cesto, esguichando e remexendo-se como um peixe...
197

- Mon coeur — suspirou ele numa voz rouca —, mon ange...

Simplesmente, para saborear as metáforas mais banais, para procurar


nelas uma ternura perdida, dilacerada, abandonada nas neves. «Mon
ange». Uma viúva marinha no fundo de qualquer coisa de rico e
bizarro!

Subitamente, ela exclamou numa voz exasperada:

- Que se passa contigo? Tu não queres?

A voz desfaleceu num gemido. Melissa tomou-lhe então a mão, a sua mão
doce e feminina, pousou-a sobre um joelho, aberta como um livro,
aproximando o rosto intrigado. Ergueu a vela para estudar melhor as
linhas da palma, levantando ao mesmo tempo as pernas delgadas. Os
cabelos caíram-lhe sobre o rosto. Pursewarden acariciou-lhe o reflexo
rosado que lhe tombara sobre os ombros e perguntou irónico:

— Também lês a sina?

Ela respondeu secamente, sem o olhar:

— Toda a gente de cá lê a sina.

Ficaram assim um longo momento, imóveis, como um quadro vivo. «A


caput mortuum de uma cena de amor», pensou ele. Depois, Melissa
soltou um suspiro, como de alívio e levantou a cabeça.

— Agora percebo. Estás encarcerado. O teu coração está fechado.


Completamente.

E dizendo aquilo ela fechou as mãos num gesto de quem estrangula um


coelho. Os olhos brilharam-lhe num clarão de simpatia.

— A tua vida está morta, fechada. Não é como a de Darley. A dele


está... escancarada — disse ela abrindo os braços antes de tornar a
cerrá-los em redor dos joelhos; depois acrescentou com uma convicção
terrivelmente inconsciente: — ele, sim, ainda pode amar.
198

Pursewarden teve a impressão de ter sido esbofeteado. A chama da vela


vacilou.

— Não pares — insistiu ele num tom brusco. — Que mais vês?

Mas ela não compreendeu a irritação e o sofrimento que aquela voz


traduzia e voltou a debruçar-se sobre a enigmática mão branca do
escritor.

— Queres que eu te diga tudo? — murmurou Melissa, e por um momento


ele deixou de respirar.

— Sim — disse ele num tom cortante. Melissa sorriu, um sorriso pálido
e distante.

— Eu não sou muito entendida — disse ela docemente.

— Não quero dizer o que vejo. — Mas levantou para ele os olhos
cândidos e acrescentou: — Vejo a morte muito perto.

— Bom — disse Pursewarden com um sorriso lúgubre.

— Sim, muito perto. Dentro de pouco tempo receberás a notícia. É


questão de horas. Ah, tudo isto são tolices! — acrescentou ela
vivamente com um risinho; depois, com grande surpresa dele, Melissa
começou a descrever-lhe a irmã: — a cega... não, a tua mulher.

Fechou então os olhos e estendeu o braço para afastar a mão de


Pursewarden, como uma sonâmbula.

— Sim, é ela — confirmou ele. — É minha irmã. — A tua irmã? — Melissa


estava surpreendida.

Era a primeira vez que naquela brincadeira ela fazia uma predição tão
precisa. Pursewarden explicou-lhe gravemente.

— Eu e ela fomos amantes. Nunca mais poderemos voltar a amar outra


pessoa.

E então, uma vez começada a confidência, ele apercebeu-se de que nada


lhe custava contar-lhe o resto. Sentia-se completamente senhor de si
e ela considerava-o com piedade e ternura. Seria porque se exprimiam
em francês? Em francês, a verdade da paixão resistia fria e
cruelmente ao exame da experiência humana. Pursewarden costumava
dizer que era uma língua que não tolerava os pequenos subentendidos
cínicos.
199

A menos que fosse a fugaz simpatia de Melissa a facilitar o relato


daqueles factos? Ela não emitia nenhum juízo; já era tudo conhecido,
já tinha sido tudo vivido. Abanava gravemente a cabeça enquanto ele
lhe falava do seu amor e da sua voluntária renúncia, depois do seu
casamento e do fracasso que este constituiu.

Tomados entre a piedade e a admiração abraçavam-se, mas agora


apaixonadamente, unidos pelo laço das confidências, pela sensação de
terem vivido juntos qualquer coisa.

— Vi tudo isso na tua mão — confessou ela.

Sentia-se um pouco atemorizada por aquela inusitada clarividência. E


ele? Sempre desejara encontrar alguém a quem pudesse falar livremente
— mas era necessário que fosse alguém que verdadeiramente não fosse
capaz de compreender tudo! A chama vacilou. No espelho ele tinha
escrito em intenção de Justine estes versos trocistas:

Como é temível- o freio!

Intensa a agonia.

Quando os ouvidos começam a ouvir

E os olhos a ver!

Repetiu a quadra docemente, no segredo do seu espírito, evocando os


traços sombrios do rosto que observara naquele mesmo quarto, à
claridade daquela mesma vela, o corpo sentado precisamente na posição
em que se achava Melissa nesse momento, o queixo entre os joelhos,
estendendo-lhe a mão com simpatia. E enquanto continuava a falar
tranquilamente de sua irmã, da sua perpétua procura de satisfações
mais ricas do que aquelas de que se recordava, e às quais
deliberadamente renunciara, outros versos flutuavam no seu espírito:
os comentários caóticos para onde o remetiam as suas leituras e as
suas experiências. Mesmo considerando de novo aquele rosto de uma
brancura de mármore, com as suas madeixas de cabelos negros esparsos
numa nuca delicada e frágil, os lóbulos das orelhas, o queixo com a
sua covinha — um rosto que o punha sempre diante das imensas órbitas
vazias — ouvia uma voz repetir-lhe no fundo do cérebro:
200

Amors par force vos demeine!

Combien durra vostre folie?

Trop avez mené ceste vie.

Ele ouvia coisas que lhe vinham de longe. Com um riso amargo, por
exemplo: «Os ingleses inventaram a palavra «fornicação» porque não
eram capazes de crer na diversidade do amor». E Melissa, sacudindo
gravemente a cabeça por simpatia, começava a sentir-se mais
importante diante desse homem que lhe confiava coisas que ela não
compreendia, tesouros desse misterioso universo masculino que
oscilava sempre entre o sentimentalismo estúpido e a brutalidade
furiosa! «No meu país quase todas as coisas deliciosas que se podem
fazer a uma mulher são consideradas ofensas criminosas, causas de
divórcio». Ela sentia-se terrificada com o seu riso trepidante,
cortante. Tomou-lhe a mão e apertou-a docemente contra a face, como
quem palpa a dor de uma ferida; e interiormente prosseguia o
comentário inaudível:

Que fins procura o céu

Impondo todas essas leis,

Eros, Ágape... que dilaceram o espírito.

Que esquartejam a alma?

Encerrados no seu castelo encantado, prisioneiros dos beijos loucos e


das intimidades que não se repetiriam, tinham estudado La Lioba! Que
loucura! Ousariam eles jamais colocar-se ao nível dos outros
apaixonados? Jurata fornicatio... esses versos escorriam do espírito;
e o seu corpo, segundo Rudel, gras, delgat et gen. Suspirou varrendo
as recordações como teias de aranha dizendo para si mesmo: «Mais
tarde, em busca de uma askesis, ele seguiu os pais do deserto a
Alexandria, um lugar entre dois desertos, entre os dois seios de
Melissa.
201

O morosa delectatio. E afundou a cabeça entre as dunas, coberta pelos


seus cabelos trémulos».

Depois caiu dentro dele o silêncio e olhou-a fixamente nos olhos


claros, os seus lábios trémulos fechando-se pela primeira vez sobre
palavras carinhosas, que tão depressa eram inflamadas como
sinceramente apaixonadas. Ela estremeceu bruscamente, sabendo que já
lhe não podia escapar, que se lhe devia submeter totalmente.

— Melissa — disse ele num tom de voz triunfante. Entregaram-se ao


prazer, sábia e ternamente, como dois amigos que há muito se
procuravam e finalmente se encontravam no meio da multidão banal e
vulgar que formigava no tumulto da cidade. Ele tinha por fim entre os
braços a desejada Melissa; os olhos cerrados, boca entreaberta sobre
um sopro cálido, tirada do sono de um beijo à luz loura da vela.

— São horas de nos irmos embora.

Mas ela apertava-se mais fortemente contra o seu corpo, gemendo de


cansaço. Ele contemplou-a com ternura, aninhada entre os seus braços.

— E o resto da tua profecia? — perguntou ele alegremente.

— São tolices — respondeu ela numa voz cheia de sono. — Às vezes


consigo ler o carácter de uma pessoa na palma da mão... mas o futuro!
Não sou assim tão hábil.

A aurora arranhava as persianas da janela. Bruscamente ele levantou-


se, alcançou em três pernadas a casa de banho e abriu a torneira de
água quente: uma torrente escaldante começou a correr soltando nuvens
de vapor que assobiavam! Era uma coisa típica do hotel Monte dos
Abutres: a água ou era a ferver ou nenhuma. Excitado como um
rapazinho, ele chamou-a.

— Vem, Melissa, vem lavar todo o cansaço do teu corpo ou nunca mais
te consigo levar a casa.
202

E pensava ao mesmo tempo no meio de fazer chegar as quinhentas libras


a Darley sem o deixar suspeitar da sua origem. Nunca devia saber que
aquele dinheiro era o salário de um epitáfio para um copta escrito
por um rival!

— Melissa! — tornou a chamar; mas a rapariga dormia. Tomou-a


delicadamente nos braços e trouxe-a para a casa de banho. Na
banheira, Melissa acordou, espreguiçando-se como essas flores
japonesas de papel que se abrem dentro de água. Estendeu-se
voluptuosamente, brincando com a água, fazendo ondazinhas que lhe
cobriam e descobriam os seios enquanto as coxas iam tomando uma cor
rosada. Pursewarden sentou-se no bidé e, uma das mãos mergulhada no
banho, foi-lhe falando para impedir que ela tornasse a adormecer.

— Não te demores muito senão o Darley fica furioso.

— Darley! Bah! Ele tornou a sair com Justine na noite passada.

Ela sentou-se na banheira e começou a ensaboar as espáduas, os


braços, o peito, saboreando todo o prazer daquele sabonete e daquele
banho como se fosse um cálice de vinho raro. Ela pronunciava o nome
da rival com uma espécie de repugnância servil que parecia um pouco
deslocada. Pursewarden sentiu-se surpreendido.

— São todos os mesmos... esses Hosnani — disse ela com desprezo. — E


o pobre Darley deixa-se levar. Ela serve-se dele, e é tudo. Darley é
demasiado bom, demasiado simples.

— Ela serve-se dele?

Melissa abriu o duche e, debatendo-se debaixo da nuvem de vapor,


lançou-lhe uma piscadela de olho.

— Sei tudo a respeito deles.

— Que queres dizer? Que sabes tu?

Pursewarden sentiu bruscamente um mal-estar agudo que não sabia


qualificar. Sentia que ela ia voltar todo o seu universo como quem
derruba por distracção um tinteiro ou um vaso onde nada um peixinho
vermelho. Ela ali estava, numa nuvem de vapor, sorrindo como um anjo
descido do céu, numa gravura do século XVII.
203

- Que é que tu sabes? — repetiu ele.

Melissa examinou o corpo ainda húmido e luzente com um espelho de


cabo.

— Pois bem, vou dizer-te. Eu fui amante de um homem muito importante,


um tal Cohen; muito importante e muito rico. (Havia algo de patético
naquele assomo de orgulho.) Trabalhava para Nessim Hosnani e contou-
me certas coisas. Também falava quando dormia. Já morreu. Creio que o
envenenaram por saber demais. Ele fazia contrabando de armas no
Médio-Oriente, para a Palestina, por conta de Nessim Hosnani.
Quantidades enormes. Dizia que era para atirar os ingleses pelos
ares. — Ela proferiu aquelas palavras com uma espécie de rancor,
depois, repentinamente, ao cabo de um instante de reflexão,
acrescentou: — Ele costumava fazer este gesto (juntou as pontas dos
dedos para lhes dar um beijo grotesco, depois abriu bruscamente a
mão) dizendo «Tout à toi, John Bull!) (E apertou os olhos numa careta
maliciosa que pretendia simbolizar a morte.)

— Agora veste-te — disse ele numa voz neutra. Voltou para o quarto e
ficou a contemplar a parede por cima das prateleiras dos livros, com
o olhar perdido. Era como se toda a cidade acabasse de lhe explodir
dentro dos ouvidos.

— É por isso que eu não gosto dos Hosnani — gritou Melissa da casa de
banho, com uma voz diferente, uma voz estridente de pregoeira. — Eles
odeiam os ingleses em segredo.

— Veste-te — ordenou ele secamente, como se falasse a um cavalo. — E


despacha-te.

Bruscamente arrefecida, ela secou-se e saiu da casa de banho,


dizendo:

— Não me demoro mais de um minuto.

Pursewarden continuava a olhar para a parede, fixamente, como


siderado. Era o mesmo que ter caído de outro planeta.
204

Imóvel, paralisado, como uma estátua de bronze. Melissa, enquanto se


vestia, lançava-lhe olhares furtivos.

— Que se passa? — perguntou-lhe por fim.

Ele não respondeu. Pensava furiosamente.

Quando ela acabou de se vestir, ele deu-lhe o braço e desceram a


escada em silêncio. Começava a despontar a aurora; os lampiões ainda
estavam acesos e lançavam pálidas sombras. De tempos a tempos ela
olhava para ele mas o rosto do companheiro continuava mudo,
inexpressivo. Quando se aproximavam de um candeeiro as suas sombras
alongavam-se, adelgaçavam-se e deformavam-se regularmente para serem
tragadas por um círculo de luz amarela antes de retomarem a sua forma
normal. Pursewarden caminhava lentamente, num passo preocupado.
Conservava sempre o braço de Melissa. E em cada uma dessas sombras,
estiradas e saltitantes, ele via nitidamente o perfil de Maskelyne, o
vencido.

Num canto da praça parou e, com a mesma expressão perdida, exclamou:

— Espera. Ia-me esquecendo. Aqui tens as mil piastras que te prometi.

Beijou-a na face e regressou ao hotel sem dizer mais nada.


IX

Mountolive estava de visita oficial às fábricas de debulha do algodão


do Delta quando Telford lhe telefonou a novidade. Perturbadíssimo,
não quis acreditar no que ouvia. Telford falava, numa voz cheia de
importância, com aquele silvar peculiar que devia a uma dentadura mal
ajustada; naquela profissão era sempre preciso contar com a morte.
Mas a morte de um inimigo! Que esforço não lhe custaria guardar um
tom de voz grave, sombrio, ocultando a satisfação pessoal. Falava
como um notário.

— Tomei a responsabilidade de interromper a sua visita porque pensei


que gostaria de ser posto ao corrente. Nimrod Pasha telefonou-me a
meio da noite e eu compareci. A polícia já tinha selado tudo;
encontrei lá o doutor Baltasar. Lancei uma vista de olhos enquanto
ele passava o certificado de óbito. Fui autorizado a trazer certos
papéis pessoais pertencentes ao... defunto. Nada de importante. O
manuscrito de um romance. Foi uma grande surpresa para todos. Receio
que ele estivesse, como de costume... embriagado. Sim.

— Mas — titubeou Mountolive, partilhado pela cólera e pela


incredulidade. — Enfim, por que motivo... — As pernas traíram-no.
Teve que se sentar antes de exclamar com impaciência: — Sim, sim,
Telford, continue! Diga-me tudo o que sabe.
206

Telford pigarreou consciente do interesse que despertara a notícia e


esforçou-se por colocar as ideias em ordem. — Pois bem, sir,
conseguimos reconstituir os seus últimos passos. Ele esteve cá, tinha
um ar esgazeado, estava por barbear (foi Errol que me contou) e
perguntou por si. Mas V. Ex.a acabava de partir. A secretária de V.
Ex.a disse-me que ele se sentou à escrivaninha e começou a escrever
qualquer coisa — isso levou-lhe um certo tempo — que lhe era
destinada pessoalmente. Depois lacrou a carta e escreveu a palavra
«SECRETO» em maiúsculas... está agora guardada no cofre de V. Ex.a
Depois, parece que foi... bem, para a pândega. Gastou todo o dia numa
taberna perto de Montaza, onde costumava ir com frequência. Não passa
de uma cabana à beira-mar — algumas traves a suportar um tecto de
folhas de palmeira — propriedade de um grego. Passou todo o dia a
escrever e a beber. Segundo o proprietário, ingeriu uma grande
quantidade de zibib. Tinha pedido para lhe colocarem uma mesa junto
do mar, sobre a areia. Havia vento e o proprietário disse-lhe que
talvez estivesse melhor abrigado na cabana, mas não, preferiu
instalar-se à beira da água. No fim da tarde comeu uma sanduíche e
tomou o eléctrico para voltar à cidade. Foi então que me telefonou.

— Bem, continue!

Telford hesitou; a sua voz baixou de tom.

— Veio à repartição. Devo dizer que embora continuasse por barbear


parecia de excelente humor. Até disse alguns gracejos. Mas pediu-me
uma pastilha de cianeto — sabe do que se trata. Não posso ser mais
explícito. A linha não é muito segura. Espero que compreenda, sir?

— Sim, sim, continue! — gritou Mountolive. Tranquilizado, Telford


prosseguiu num jacto:

— Ele disse-me que queria envenenar um cão doente. Como a coisa me


pareceu verosímil, dei-lhe uma. Foi provavelmente o que ele ingeriu,
segundo o doutor Baltasar.
207

Espero, sir, que não vá pensar que eu tenho qualquer


responsabilidade...

Mountolive não pensava nada e tudo quanto sentia era uma indignação
crescente à ideia de que um membro da sua Legação tinha tido a falta
de tacto suficiente para cometer em público um acto tão embaraçoso!
Não, aquilo era estúpido. «É estúpido», murmurou para si próprio. Mas
não conseguia afastar a ideia de que Pursewarden era culpado de
qualquer coisa. Uma tal falta de consideração... verdadeiramente,
ultrapassava os limites do indecoroso... e era ainda por cima tão
misteriosa. O rosto de Kenilworth flutuou por um momento diante dele.
Sacudiu o auscultador para melhorar a recepção e gritou:

— Mas que significa tudo isso?

— Não sei nada — disse Telford numa vozinha fraca.— É um mistério.

Um Mountolive pálido voltou-se para o grupo de paxás que o esperava


um pouco afastado, no lúgubre hangar onde estava instalado o
telefone, e murmurou algumas desculpas. Imediatamente todos afastaram
as mãos agitando-as como um bando de pombas para exprimir que não
tinham nada a objectar. Era muito natural que um embaixador se visse
assediado por graves acontecimentos. Podiam esperar.

— Telford — chamou Mountolive com impaciência.

— Sim, sir.

— Diga-me tudo o mais que sabe.

Telford pigarreou e prosseguiu com a sua voz pastosa:

— Bem, na minha opinião não há nada de excepcionalmente importante. A


última pessoa que o viu com vida foi esse Darley, o professor.
Provavelmente não o conhece, sir. Encontrou-o quando ele voltava para
o hotel. Ele convidou Darley a tomar um copo no quarto e ficaram
muito tempo a conversar e a beber gin. O defunto nada lhe disse que
apresente um interesse especial — e certamente nada que fizesse
prever a sua intenção de se suicidar. Pelo contrário, disse-lhe que
ia tomar nessa noite o comboio para Gaza.
208

Para gozar umas férias. Mostrou a Darley as provas do seu último


romance, corrigidas e prontas para serem expedidas, e um impermeável
cheio de coisas de que podia ter necessidade durante a viagem:
pijama, pasta de dentes, etc. Que foi que o fez mudar de ideias? Não
sei, sir, mas a resposta talvez se encontre no vosso cofre. Foi por
isso que lhe telefonei.

— Bem vejo — disse Mountolive.

Era estranho mas começava já a habituar-se à ideia de que Pursewarden


tinha deixado de existir. O golpe era demasiado terrível; só restava
o mistério. Telford pigarreava ainda na linha.

— Sim — disse ele readquirindo o sangue frio —, sim. Pouco depois,


Mountolive, já recomposto, retomava a sua pose oficial e fingia um
interesse superficial pela fábrica e pelo seu mecanismo ensurdecedor.
Esforçava-se por não parecer muito absorvido e por se mostrar
convenientemente impressionado com aquilo que lhe mostravam. Tentava
analisar o absurdo sentimento de cólera que tinha experimentado
contra Pursewarden: o acto que o outro acabava de cometer parecia-lhe
um imperdoável solecismo! Que coisa absurda. E contudo era um acto
típico justamente por ser inconsiderado; talvez até devesse tê-lo
previsto? Um profundo sentimento de desânimo veio ocupar o lugar do
anterior acesso de impaciência.

Tomou novamente lugar no carro nessa tarde, contrafeito e impaciente


por saber mais. Era um pouco como se esperasse encontrar Pursewarden
na Embaixada, a trabalhar, e se preparasse para lhe pedir explicações
depois do que lhe aplicaria uma boa reprimenda. Chegou no esplendor
do crepúsculo no momento em que a Embaixada fechava as portas, embora
o diligente Errol trabalhasse ainda na redacção de papéis oficiais,
no seu gabinete. Toda a gente, mesmo o pessoal da cifra, parecia
tomada daquele ar de aflição que as mortes súbitas sempre conterem
aos vivos, deixando-os um pouco embaraçados. Mountolive obrigou-se a
caminhar lentamente, a falar lentamente, a não manifestar nenhuma
pressa.
209

A pressa, tal como a emoção, é sempre deplorável: trai o império das


paixões onde só a razão deve prevalecer. A sua secretária já tinha
saído mas obteve nos arquivos a chave do cofre e subiu pausadamente
os dois lanços da escada que levava ao seu gabinete. Felizmente o
bater do nosso coração não é perceptível aos que nos rodeiam.

Os bens do morto encontravam-se sobre a sua secretária, com um ar


estranhamente privado de vida: um maço de papéis e de manuscritos, um
embrulho endereçado a um editor, um impermeável e diversas outras
bugigangas descritas pelo escrupuloso Telford numa preocupação de
objectividade. Mountolive sobressaltou-se violentamente ao dar com o
rosto exangue de Pursewarden: uma máscara mortuária de gesso com um
bilhete de Baltasar: «Tomei a liberdade de mandar executar uma
máscara mortuária antes de levarem o corpo. Pensei que era uma medida
sensata». A face de Pursewarden! Visto de certo ângulo, o morto tinha
um ar rabujento. Mountolive tocou a efígie com a ponta do dedo, com
repugnância, com um temor supersticioso. E de repente compreendeu que
tinha medo da morte.

A seguir dirigiu-se para o cofre, de onde retirou um sobrescrito cujo


lacre grosseiramente selado quebrou com um indicador trémulo antes de
se deixar cair numa cadeira. Ia, enfim, obter a explicação racional
daquela enorme falta de gosto! Respirou profundamente.

«Meu caro David.

«Rasguei uma boa meia dúzia de cartas para tentar explicar-lhe tudo
isto. Mas caía sempre na literatura. E já basta de tolices. Decidi
morrer. Paradoxo! Estou infinitamente desolado, meu caro amigo.

«Por acaso e de uma forma totalmente inesperada descobri o acerto das


teorias de Maskelyne sobre Nessim e o erro das minhas. Não lhe
confiarei a minha fonte mas sei agora que Nessim introduz armas na
Palestina, e isso há já certo tempo.
210

Ele é manifestamente a fonte desconhecida implicada nas operações que


são objecto do Documento Sete — lembra-se! (Pasta Secreta n.° 341.
Inteligence Service.)

«Não me sinto apto a enfrentar as consequências morais que esta


descoberta implica. Sei o que devo fazer. Mas o homem é meu amigo.
Portanto ...quietus. (O que resolve também outros problemas mais
íntimos.) Ach! Que triste mundo criamos em redor de nós. Os salpicos
da intriga e da contra-intriga. Acabo de descobrir que não pertenço a
este mundo. (Estou a ouvir as pragas que você vai proferindo enquanto
me lê.)

«Sinto-me um pouco pulha por fugir assim com o rabo à seringa, por me
escapar às minhas responsabilidades, mas, no fundo, sei bem que elas
não me pertencem verdadeiramente, que nunca foram minhas. São suas! E
cedo se dará conta de que elas são maiores e mais amargas do que
suspeita. Mas... você pertence à carreira... e deve agir em meu
lugar!

«Bem sei que é faltar ao meu dever, mas dei a entender indirectamente
a Nessim que era objecto de suspeita. Naturalmente uma tal imprecisão
autoriza-o a si a fazer desaparecer tudo, a esquecer pura e
simplesmente. Não invejo as suas tentações. Pelo que diz respeito às
minhas, não vale a pena lastimar-me. Estou cansado, meu caro amigo,
mortalmente cansado, como dizem os vivos.

«Então...

«Peço-lhe que transmita a minha irmã que vão para ela os meus últimos
pensamentos. Obrigado. «Seu amigo muito afeiçoado,

L. P.»

Mountolive estava interdito. Sentia-se empalidecer à medida que ia


lendo. Depois ficou demoradamente a contemplar o rosto do morto,
aquele ar de impertinência solitária que era característica do perfil
de Pursewarden em repouso, e que se gravara no gesso da sua máscara
para a eternidade;
211

mas tinha ainda de lutar obstinadamente contra aquele absurdo


sentimento de um ultraje diplomático que flutuava em torno do seu
espírito, que o abrasava por intermitências como os surdos clarões de
uma tempestade atmosférica.

— É uma loucura — gritou ele soltando uma palmada sobre o tampo da


secretária. — Pura e simples loucura! Ninguém se mata por motivos
oficiais! — E imediatamente teve desejo de corar por se ter deixado
conduzir a um tão estúpido pensamento. Pela primeira vez na sua vida
o seu espírito era presa de completa confusão.

Para se acalmar obrigou-se a ler lenta e metodicamente o relatório


dactilografado de Telford, soletrando cada palavra como se se
tratasse de um exercício. Era o relato dos actos de Pursewarden
durante as vinte e quatro horas que precederam a sua morte, segundo o
testemunho das pessoas que tinham estado com ele. Alguns dos
depoimentos eram muito interessantes, em particular o de Baltasar,
que o tinha encontrado de manhã no café Al Akhtar quando Pursewarden
bebia arak e comia um croissant. Acabava de receber uma carta da irmã
e preparava-se para lê-la com ar preocupado. Quando Baltasar chegou
guardou-a precipitadamente no bolso. Parecia aflito e não se
barbeara. A conversação que se seguiu teve pouco interesse com
excepção de uma observação que interessou Baltasar. Pursewarden
dançara na véspera com Melissa e disse que era o género de mulher com
quem se poderia desejar casar. («Era sem dúvida uma brincadeira»,
acrescentava Baltasar.) Dissera também que tinha começado um novo
livro «inteiramente consagrado ao amor». Mountolive suspirou deixando
os olhos correrem lentamente sobre a página dactilografada. O amor!
Depois descobriu outro aspecto curioso. Pursewarden tinha comprado
uma fórmula testamentária e preenchera-a tornando a irmã herdeira do
seu espólio literário e legando uma soma de quinhentas libras a
Darley, o professor, e à sua amante. Antedatara o testamento de há
dois meses.
212

Por que motivo? Teria simplesmente esquecido a data? Tomara como


testemunhas dois empregados da cifra.

A carta da irmã também lá estava, mas Telford tinha-a colocado, com


tacto, num sobrescrito distinto e selado. Mountolive leu-a, abanando
a cabeça, atordoado, depois meteu-a no bolso, com a consciência um
pouco perturbada. Passou a língua pelos lábios e olhou para a parede
franzindo o sobrolho. Liza!

Errol meteu a cabeça timidamente pela greta da porta e sentiu um


choque descobrindo que as lágrimas corriam na face do seu superior.
Retirou-se delicadamente e voltou a toda a pressa para o seu
gabinete, muito afectado por um sentimento de inconveniência
diplomática, muito semelhante ao que Mountolive experimentara quando
Telford lhe telefonou. Errol sentou-se diante da secretária, presa de
uma certa agitação e murmurou: «Um bom diplomata nunca deve
exteriorizar os seus sentimentos». Depois acendeu um cigarro e pôs-se
a meditar com um ar lúgubre. Pela primeira vez descobria que o seu
embaixador tinha pés de barro. O que fortalecia nele o sentimento da
sua própria dignidade. Mountolive, afinal de contas, não passava de
um homem... Aquela descoberta tinha-o desmantelado.

No andar de baixo, Mountolive acendera também um cigarro para acalmar


os nervos. O seu mal-estar transferia-se lentamente do próprio acto
cometido por Pursewarden (aquele inoportuno mergulho no anonimato)
para a significação central desse acto — para as notícias que o
acompanhavam. Nessim! Qualquer coisa se contraiu então no seu peito e
um sentimento de cólera mais profundo, menos formulado, invadiu-o.
Tinha confiado em Nessim! «(Porquê? — segredava-lhe uma voz interior.
— Isso não era necessário».) E agora, com aquela maldosa pirueta,
Pursewarden legava-lhe todo o peso do seu problema moral. Caíra num
vespeiro: o velho conflito entre o dever, a razão e a amizade, que
são a cruz e a principal fraqueza de todo o homem público!
213

«Que malandro!», disse para si próprio (com uma espécie de admiração


por aquela audácia de pensamento). Pursewarden tinha-lhe atirado tudo
aquilo para os braços com uma facilidade desconcertante: tinha-se
pura e simplesmente retirado. Acrescentou com desânimo: «Eu tinha
confiança em Nessim por causa de Leila!» Humilhação sobre humilhação.
Enquanto fumava contemplava a face do morto, em gesso branco (que as
mãos delicadas de Clea tinham moldado a partir do inexperiente
negativo de Baltasar) e sobre esse rosto via aparecer, como numa
sobreimpressão a face bela e viva do filho de Leila: os traços
sombrios colhidos num fresco de Ravena! A face do seu amigo. E
depois, os seus pensamentos exprimiram-se num murmúrio: «Talvez Leila
se encontre por detrás de tudo isto».

(«Os diplomatas não têm verdadeiros amigos — dissera-lhe um dia


Grishkin, para irritá-lo, para feri-lo. — Servem-se de toda a gente!»
Dava-lhe a entender que ele se tinha servido do seu corpo, da sua
beleza; e agora que ela estava grávida...)

Aspirava lentamente o fumo saturado de nicotina a fim de dar tempo


aos nervos para se acalmarem, ao cérebro para se recompor. E, ao
dissipar-se o nevoeiro, começava a descobrir uma nova paisagem
revelando-se diante dele, pois daí por diante todo o programa da sua
permanência no Egipto se ia modificar: as amizades, os encontros
ocasionais, o ténis, a equitação, os banhos de mar... A simples ideia
de participar no mundo ordinário dos hábitos e dos prazeres sociais,
de aliviar o taedium vitae do seu isolamento, encontrava-se
envenenada pelo que acabava de saber. De resto, que fazer das
informações que Pursewarden acabava de lhe lançar para os braços com
tanta desenvoltura? Era preciso, bem entendido, relatá-los. Mas aqui
fez uma pausa para reflectir. Devia relatá-los? Os factos mencionados
na carta não eram apoiados por nenhuma prova... além da prova
esmagadora da sua morte que... Acendeu outro cigarro e murmurou: «O
seu equilíbrio mental inspirava inquietação há uns tempos para cá».
214

Isto pelo menos merecia um sorriso ligeiramente cínico! Afinal de


contas o suicídio de um alto funcionário não era um acontecimento
assim tão raro: houve o caso do jovem Greaves que se apaixonou na
Rússia por uma bailarina... Mas o facto de a sua amizade ter sido
traída pelo escritor entristecia-o profundamente.

Bom. E se queimasse simplesmente a carta, suprimindo simultaneamente


o peso da responsabilidade moral que ela lhe legava? Nada de mais
fácil: bastava um fósforo. Podia continuar a conduzir-se como se nada
lhe tivesse sido revelado... salvo o facto de Nessim saber que ele
estava ao corrente! Não, tinha caído na ratoeira!

Então, o seu sentimento do dever, como um par de sapatos muito


apertados, começou a feri-lo a cada passo. Viu mentalmente Nessim e
Justine dançando em silêncio, os olhos semicerrados, evitando olhar
um para o outro. A seus olhos tomavam já uma nova dimensão — como a
projecção prosaica de personagens de um fresco primitivo. Também
eles, verosimilmente, deviam lutar contra um sentimento do dever e
das responsabilidades — contra quem? «Contra eles próprios, talvez»,
murmurou tristemente, movendo a cabeça. Nunca mais poderia olhar
Nessim de frente.

E a verdade surgiu-lhe bruscamente no espírito. Até então as suas


relações pessoais tinham sido preservadas de todos os elementos que
pudessem prejudicá-las graças ao tacto de Nessim — e pela experiência
de Pursewarden. O escritor, servindo de elemento de ligação oficial,
tinha deixado o campo livre à sua vida particular. Os dois homens
nunca tinham tido necessidade de discutir assuntos que tivessem a
menor relação com os problemas oficiais. E agora nunca mais poderiam
voltar a encontrar-se nessas agradáveis disposições. Também nesse
contexto Pursewarden tinha traído a sua liberdade. Quanto a Leila era
talvez aí que se encontrava a chave do seu enigmático silêncio, da
sua incapacidade para enfrentá-lo.
215

Suspirou e chamou Errol.

— Deite uma olhadela a isto.

O seu chefe de Legação sentou-se e pôs-se a ler avidamente o


documento. De tempos a tempos sacudia lentamente a cabeça. Mountolive
pigarreou:

— Tudo isso me parece um pouco incoerente — disse ele sentindo


vergonha por tentar lançar uma dúvida sobre um depoimento tão claro,
influenciar Errol num juízo que, no segredo do seu espírito, ele já
tinha formulado. Errol releu a carta segunda vez, lentamente, depois
passou-a a Mountolive por cima da secretária.

— Parece com efeito um pouco extraordinário — disse o subordinado sem


querer comprometer-se e num tom respeitoso. Não lhe competia propor
uma interpretação da mensagem. Era uma tarefa que cabia de direito a
Sua Excelência.

— Parece um pouco... desproporcionado — acrescentou Errol,


encorajando-se, procurando uma saída.

— Sim, com efeito! Bem do género de Pursewarden.— disse Mountolive


com um ar aborrecido. — Lastimo agora não ter acatado as suas
recomendações. Você tinha razão e eu estava enganado no que respeita
às aptidões de Pursewarden.

O olhar de Errol lançou um relâmpago de modesto triunfo. Entretanto


nada disse, contentando-se em fixar Mountolive.

— Bem entendido, como você sabe, houve uma altura em que Hosnani foi
objecto de certas suspeitas.

— Bem sei, sir.

— Mas não existe nenhuma prova que venha apoiar estas afirmações.

Bateu duas vezes na carta com um dedo irritado. Errol aprumou-se na


cadeira e ergueu ligeiramente a cabeça.

— Não sei — disse vagamente. — O que aí está parece-me bastante


concludente.

- Não creio — disse Mountolive — que isto mereça um relatório


circunstanciado. Claro, temos de informar Londres.
216

Mas não creio que estes factos sejam de qualquer modo úteis às
investigações a que o Tribunal irá empreender. Qual é a sua opinião?

Errol balançou os joelhos. Um sorriso matreiro elevou-lhe lentamente


os cantos da boca.

— Talvez tenha interesse para os egípcios — proferiu ele mansamente.


— Evitaria pressões diplomáticas se... a coisa viesse a tomar
aspectos mais concretos. Não ignoro que Hosnani é seu amigo, sir.

Mountolive sentiu um ligeiro vermelhão colorir-lhe o rosto.

— Quando o seu dever se encontra em causa, um diplomata não tem


amigos — disse ele secamente e pensou que Pôncio Pilatos se devia ter
exprimido com a mesma soberba indiferença.

— É verdade, sir — confirmou Errol com um olhar de admiração.

— Uma vez estabelecida a culpabilidade de Hosnani, devemos agir. Mas


enquanto não tivermos provas formais, a nossa posição é das mais
fracas. Com Memlik Paxá — bem sabe que ele não é muito anglófilo...
Pergunto a mim mesmo...

— Sim, sir?

Mountolive esperou, captando o vento como um animal selvagem,


sentindo que Errol começava a aprová-lo. Ficaram um momento em
silêncio, na penumbra crepuscular do gabinete, reflectindo. Depois,
com um gesto teatral, S. Ex.a premiu o botão do candeeiro e proferiu
num tom que não admitia réplica:

— Se você não vê inconveniente, não remeteremos isto aos egípcios


enquanto não estivermos melhor informados. É Londres que tem a
prioridade. Depois de completado o processo, naturalmente. Mas nada
de pormenores, nem mesmo à família. A propósito, quer fazer o favor
de se encarregar de comunicar com a família? Deixo ao seu cuidado
amenizar o choque.
217

O seu coração confrangeu-se vendo erguer-se diante dos olhos o rosto


de Liza Pursewarden.

- Sim. Tenho aqui o processo dele. Só há a mulher e uma irmã no


Instituto Imperial dos Cegos, segundo creio.

Errol abriu cheio de importância uma pasta verde, mas Mountolive


disse:

— Sim, sim. Conheço-a.

Errol levantou a cabeça. Mountolive acrescentou:

— E creio que em boa justiça devíamos avisar Maskelyne em Jerusalém,


não acha?

— Certamente, sir.

— E guardar segredo de momento?

— Claro, sir.

Mountolive sentiu-se de repente muito velho e muito fraco. Duvidou


mesmo que as suas pernas tivessem forças para o transportar à
Residência.

— E por agora é tudo.

Errol despediu-se e fechou a porta atrás de si com a gravidade de um


mudo.

Mountolive telefonou pedindo que lhe mandassem uma taça de caldo e


biscoitos. Comeu e bebeu avidamente, sem poder afastar os olhos da
máscara funerária e do manuscrito do romance. Sentia simultaneamente
um desgosto profundo e a sensação de um imenso luto, e não seria
capaz de dizer qual dos dois sentimentos era o mais forte. Pensou que
Pursewarden, sem querer, o tinha separado para sempre de Leila. Sim,
também isso, e talvez irremediavelmente.

Contudo, nessa noite, proferiu um discurso espirituosíssimo (redigido


por Errol) no decurso do banquete anual da Câmara do Comércio de
Alexandria, maravilhando a assistência de banqueiros pela facilidade
com que se exprimia em francês. Os aplausos crepitaram, dilataram-se
e espalharam-se pela sala augusta de banquetes do Club Mohammed Ali.
Nessim, sentado na outra extremidade da mesa, respondeu calma e
gravemente.
218

Por uma ou duas vezes, durante o jantar, Mountolive sentiu os olhos


do amigo procurarem os seus, carregados de pesadas incógnitas, mas
soube sempre evitá-los. Havia agora entre eles um abismo escancarado
que nenhum deles sabia como preencher. Depois do jantar, no momento
da partida, encontrou por um breve momento Nessim no vestíbulo e teve
então o desejo quase irresistível de invocar a morte de Pursewarden.
O acontecimento levantava-se entre eles como uma montanha a prumo.
Aquilo envergonhava-o como uma deformidade física; era como se o seu
sorriso amável fosse desfigurado pela falta de um incisivo. Mas não
falou, e Nessim conservou-se igualmente silencioso. Nada do que lhes
ia no íntimo transpareceu na atitude daqueles dois homens elegantes
que esperavam fumando na soleira da porta a aproximação dos
respectivos carros. Mas uma surda e inexorável desconfiança erguera-
se entre eles. Era estranho pensar que algumas palavras escritas numa
folha de papel tinham sido suficientes para torná-los inimigos.

Depois, afundando-se no assento fofo do seu automóvel onde flutuava


um pendão da Union Jack, aspirando lentamente o fumo do seu excelente
charuto, Mountolive teve a impressão que o seu ser mais profundo se
tornava tão poeirento e tão sufocante como um túmulo egípcio. Era
também estranho que à margem das suas graves e profundas preocupações
os pequenos pensamentos superficiais ainda tivessem o poder de
enternecer o seu espírito: o sucesso que acabava de colher junto dos
banqueiros enchia-o de satisfação. Tinha sido incontestavelmente
brilhante! Sabia que o seu discurso seria literalmente reproduzido
nos jornais do dia seguinte com novas fotografias suas. Os coptas
ficariam invejosos, como de costume. Como tinha sido possível que até
então ninguém se tivesse lembrado de fazer uma declaração pública
sobre o Padrão-Ouro dessa maneira subtil? Tentava conservar o
espírito em ebulição, ancorando-o solidamente nas águas calmas do
contentamento pessoal, mas em vão.
219

Em breve a Embaixada regressaria aos seus quartéis de Inverno. E


ainda não tinha visto Leila. Chegaria a vê-la alguma vez?

Algures dentro dele um dique quebrara, ruíra uma barreira. Tinha


entrado em conflito consigo mesmo, o que dava aos seus traços uma
dureza nova e um ritmo mais decidido aos seus gestos.

Nessa noite foi tomado da atroz dor de ouvidos que sempre assinalava
o seu regresso a casa. Mas era a primeira vez que o ataque o
surpreendia longe da doce segurança do lar maternal e isso
inquietava-o. Tentou o velho remédio caseiro mas, como aquecesse
excessivamente o azeite, queimou-se gravemente durante o tratamento.
Depois deste acidente ficou três dias de cama lendo romances
policiais e meditando, o olhar fixamente preso na parede caiada de
branco. Isso pelo menos evitava-lhe assistir à cremação de
Pursewarden onde teria seguramente encontrado Nessim. Entre as
numerosas mensagens e presentes que começaram a afluir, quando se
espalhou a notícia da sua indisposição, encontrava-se um grande ramo
de flores da parte de Nessim e de Justine, com votos de pronto
restabelecimento. Como alexandrinos e amigos de ocasião era o menos
que podiam fazer!

Pensou muito neles durante os extensos dias e as longas noites sem


sono e, pela primeira vez, à luz daquilo que soubera, eles surgiram-
lhe como dois enigmas. Tornavam-se agora num verdadeiro problema e
mesmo a união dos dois surgia como uma coisa que ele nunca tinha
verdadeiramente compreendido. A amizade que lhes tinha impedira-o de
ver neles criaturas capazes de, como ele próprio, viverem em diversos
planos ao mesmo tempo. Conspiradores, amantes... onde estava a chave
do enigma? Não conseguia descobrir.

Talvez fosse preciso procurar no passado para encontrá-la — mais


longe do que ele ou Pursewarden tinham possibilidade de ir com os
dados de que dispunham nesse tempo.
220

Ignoravam muitos factos sobre Justine e Nessim que eram essenciais


para a compreensão do seu caso. Mas para isso temos que regressar
temporariamente à época que precedeu o seu casamento.
X

O crepúsculo azulado de Alexandria ainda não caíra completamente.

— Mas é que... como hei-de dizer?... Estás verdadeiramente apaixonado


por ela, Nessim? Bem sei que a tens perseguido e Justine não ignora o
que te vai na cabeça.

A cabeleira doirada de Clea estava apoiada na janela e os seus olhos


fixavam-se no pastel onde trabalhava. Estava quase terminado; ainda
alguns toques ligeiros, precisos, e poderia libertar o modelo. Nessim
tinha vestido para esse efeito uma camisola raiada. Encontrava-se
estendido sobre o pequeno e confortável divã e tinha entre os braços
uma guitarra que não sabia tocar.

— Como se escreve a palavra amor em Alexandria? - perguntou ele por


fim, lentamente. — É aí que reside o problema. Insónia, solidão,
bonheur, chagrin... Não desejo nem feri-la nem importuná-la, Clea.
Mas sinto que ela precisa de mim como eu preciso dela. Diz qualquer
coisa, Clea.

Ele sabia que estava a mentir. Mas Clea ignorava-o.

Moveu a cabeça com um ar de dúvida, sem cessar de examinar o seu


trabalho, depois encolheu os ombros.

Sou amiga de ambos; que melhor vos poderia desejar? E falei-lhe, como
me pediste; tentei interessá-la, sondá-la. A coisa parece-me
desesperada.

«Seria essa a verdade estrita?», perguntava ela a si própria.


222

Sentia-se sempre inclinada para acreditar em tudo o que lhe diziam.

— Falso pudor? — perguntou ele num tom cortante.

— Ela riu com um ar desiludido... assim! — disse Clea, com um gesto


de grande cansaço, para imitar Justine. — Creio que depois da
publicação dos Moeurs ela tem a impressão de andar nua pelas ruas.
Pensa que nunca mais poderá dar a paz de espírito a ninguém. Pelo
menos é o que ela diz.

— E quem lhe pede semelhante coisa?

— Ela pensa que é o que procuras. E depois, naturalmente, há a tua


posição social. E ainda o facto de ela ser judia. Coloca-te no seu
lugar.

Clea calou-se por um momento. Depois acrescentou com o mesmo tom


desinteressado:

— Se ela precisa de ti é para utilizar a tua fortuna na procura da


filha perdida. E é demasiado orgulhosa para uma tal transacção.
Mas... tu leste os Moeurs. Bem sabes tudo o que eu te estou a dizer.

— Nunca li os Moeurs — declarou ele fogosamente — e ela sabe que eu


nunca lerei esse livro. Disse-lho. Oh, minha querida Clea!

Suspirou. Outra mentira.

Clea suspendeu o trabalho sorrindo, para contemplar o rosto sombrio


do modelo. Depois prosseguiu, esfregando um canto do desenho com o
polegar:

— Chevalier sans peur, etc. Isso diz-te respeito. Mas será prudente
idealizar-nos assim, a nós, as mulheres? És ainda um pouco criança,
para um alexandrino.

— Eu não a idealizo; sei perfeitamente que ela é triste, que ela é


louca, que ela é má. Mas não o somos todos um pouco? O seu passado e
o seu presente... toda a gente o conhece. Creio simplesmente que
estão perfeitamente de acordo com a minha...

— Com a tua?...

— Com a minha esterilidade — proferiu ele com grande pasmo de Clea,


sorrindo e coçando o sobrolho simultaneamente.
223

Sim, às vezes, penso que nunca poderei apaixonar-me antes da morte de


minha mãe — e ela ainda é relativamente jovem... Diz qualquer coisa,
Clea!

Clea sacudiu a cabeça, tirou uma fumaça do cigarro que se consumia no


cinzeiro, e debruçou-se novamente sobre o retrato.

— Bem — disse Nessim —, vou avistar-me com ela esta noite e tentarei
fazê-la compreender.

— Tentarás «conquistá-la», queres tu dizer?

— Como o poderia eu?

— Se ela não pode amar, seria desonesto fingir.

— E eu, posso amar? Sei lá...; não vês que somos ambos uma espécie de
âmes veuves?

— Oh, oh... — fez Clea num tom indeciso mas sem perder o sorriso.

— Durante um certo tempo o amor pode acompanhar-nos incógnito — disse


ele retomando a pose, o ar grave, os olhos fitos na parede. — Mas
estará presente. Esforçar-me-ei porque ela saiba. Sou assim tão
enigmático aos teus olhos? — perguntou ele mordendo o lábio. —
Desiludi-te?

— Bem, vê se te conservas quieto — observou ela com um tom de


censura; depois, voltou tranquilamente ao assunto: — Sim. É muito
enigmático. A tua paixão tem um ar tão voluntário. Um besoin d'aimer
sem um besoin d'être aimé? Mau!

Ele tinha-se mexido outra vez. Clea suspendeu o trabalho e ia


repreendê-lo novamente quando reparou nas horas.

É melhor que vás andando. Não deves fazê-la esperar.

- Muito bem — disse ele com secura, e levantando-se despiu a camisola


raiada, vestiu um casaco de bom corte procurando nos bolsos as chaves
do carro preparou-se para partir. Depois, voltando atrás, aproximou-
se do espelho e penteou os cabelos negros com impaciência, tentando
ao mesmo tempo imaginar como seria visto por Justine.
224

— Gostaria de poder exprimir exactamente o que penso. Não acreditas


na possibilidade de assinar um contrato de amor entre duas pessoas
cujas almas ainda não se encontram suficientemente amadurecidas para
amar? Uma tendresse contra um amour-passion, Clea? Se ela tivesse
pais, eu tê-la-ia comprado sem hesitar. Se ela tivesse treze anos,
nada teria para dizer, nada em que pensar, não é verdade?

— Treze anos! — exclamou Clea indignada, estremecendo e ajustando-lhe


o casaco nas costas.

— Talvez — prosseguiu ele ironicamente — o infortúnio seja para mim


uma espécie de diktat... Que pensas?

— Mas nesse caso tu terias de acreditar na passion. E não crês.

— Creio... mas.

Teve um sorriso encantador e fez um gesto vago, meio de resignação,


meio de cólera.

— Ah! tu não me ajudas em nada — disse ele. — Esperamos sempre que os


outros nos ensinem qualquer coisa.

— Vai-te embora! — disse Clea. — Por hoje já basta do assunto. Mas


dá-me um beijo antes.

Os dois amigos beijaram-se e ela murmurou: «Felicidades», enquanto


Nessim dizia entre dentes:

— Tenho de perder o hábito de te fazer perguntas pueris. É absurdo.


Sou eu próprio quem tem que tomar uma decisão a este respeito. —
Bateu duas vezes na palma da mão com o punho fechado, e uma tal
impetuosidade num ser tão pouco expansivo deixou-a perplexa.

— Muito bem — disse ela arregalando os olhos azuis sob o impacto da


surpresa —, isso é uma novidade!

E soltaram ambos uma grande gargalhada.

Ele, depois de lhe apertar o cotovelo, desceu a escada alegremente. O


grande automóvel arrancou num salto lançando buzinadelas imperiosas,
desceu Saad Zaghoul, atravessou a linha do eléctrico e deslizou em
ponto morto pelas encostas que conduziam ao mar. Ia falando consigo
mesmo em árabe.
225

Talvez ela já o esperasse no lúgubre salão do Cecil Hotel, as mãos


enluvadas cruzadas sobre a carteira, vendo o mar subir, espojar-se,
crescer e fugir por detrás da pequena praça municipal para além da
cortina de palmeiras que batiam e rangiam como velas bambas. Numa
esquina foi retido por uma procissão esfarrapada que se dirigia para
a cidade alta, com pendões desfraldados; tinha começado a cair uma
chuvinha, arrastada pela brisa marinha carregada de nuvens; tudo
flutuava agitando-se numa grande confusão. Os cânticos e o tilintar
dos ferrinhos subiam timidamente para o ar. Aborrecido pelo
contratempo, Nessim arrumou a viatura, fechou-a e percorreu a correr
os cem metros que ainda o separavam da grande porta giratória que o
projectou no silêncio e no odor húmido do grande salão. Entrou
afogueado mas plenamente consciente da gravidade do momento. Havia
meses que tinha empreendido o cerco de Justine. Como terminaria tudo
aquilo: pela vitória ou por uma derrota? Recordou-se das palavras de
Clea: «Creio que essas criaturas não são seres humanos. Só se
encontram vivas na medida em que têm uma forma humana. Mas seja quem
for que se encontre dominado por uma paixão única, oferece o mesmo
espectáculo. Para a maior parte de nós, a vida não é senão um
passatempo. Mas ela, ela parece ser uma representação pictórica tensa
e exaustiva da natureza no seu estado mais superficial, o mais
poderoso. Ela esta possessa — e os possessos não podem nem aprender
nem ensinar. O que não deixa de a tornar adorável aos olhos de todos
aqueles que são impelidos pela morte; mas, meu caro Nessim — sob que
ângulo pretendes aceitá-la?» Não sabia ainda; encontravam-se ainda na
fase das escaramuças e não falavam a mesma linguagem. E isso podia
durar para sempre, pensava ele desolado.

Tinham-se encontrado muitas vezes, mas oficialmente por assim dizer,


e quase como associados em negócios, para discutir aquele casamento
com a objectividade de corretores de Alexandria ultimando as
modalidades da fusão de duas empresas.
226

Mas são esses os costumes da cidade.

Num gesto muito característico ele tinha-lhe oferecido uma grande


soma de dinheiro.

— Para que a sua decisão não seja influenciada por uma desigualdade
de fortunas, peço-lhe que me permita fazer-lhe um presente de
aniversário que lhe permitirá considerar-se como uma pessoa
inteiramente independente — como uma simples mulher, Justine. Este
dinheiro detestável, que envenena os pensamentos de todos os
habitantes da cidade, que infecta todas as coisas! Livremo-nos do seu
poder antes de decidir qualquer coisa.

Mas aquilo não surtira efeito; ou melhor, provocara uma pergunta


insultante, incompreensível:

— Você faz isso para se deitar comigo? Mas não precisa casar. Oh! Eu
farei tudo o que você quiser, Nessim.

Aquilo desgostou-o e irritou-o. Tinha-se extraviado. Aparentemente


era inútil prosseguir naquela via. Depois, de repente, após um longo
momento de meditação, entreviu a verdade num relâmpago. Murmurou para
si mesmo, muito surpreendido: «Aqui está porque me não compreendem: é
porque eu não sou verdadeiramente honesto». Reconheceu que, embora de
princípio se encontrasse subjugado pela sua paixão, não via outro
meio de interessá-la sem ser, inicialmente, por uma doação pecuniária
(sob o pretexto de «libertá-la», mas de facto unicamente para tentar
vinculá-la) — e finalmente, à medida que o seu desespero aumentava,
compreendeu que o único recurso era colocar-se inteiramente à mercê
dela. Num certo sentido era uma loucura — mas não via nenhum outro
meio de despertar nela um sentimento de obrigação sobre o qual todos
os outros laços se poderiam inserir. É assim que uma criança se expõe
ao perigo para atrair a atenção da mãe e forçar um amor de que se crê
privada.

— Escute. — disse ele numa voz alterada, carregada de novas


vibrações, muito pálido. — Quero ser franco consigo. A vida real não
me interessa. (O tremor da voz comunicara-se aos lábios.)
227

Penso num laço muito mais apertado, em certo sentido, do que tudo o
que a paixão possa inventar — um compromisso baseado na confiança
mútua.

Por um momento ela pensou na possibilidade de Nessim pertencer a


qualquer estranha nova religião. Esperou com curiosidade, divertida,
mas de certo modo perturbada por perceber até que ponto ele se
encontrava comovido.

— Vou agora fazer-lhe uma confidência que, se você a não guardar


fielmente, me poderá causar grande dano, e à minha família também;
mas sobretudo à causa que eu sirvo. Quero colocar-me inteiramente nas
suas mãos. Suponhamos que nós ambos estamos mortos para todo o
sentimento de amor... quero pedir-lhe para tomar parte numa
perigosa...

O mais estranho é que quando ele começou a falar assim, quando se


encontrou a ponto de lhe revelar os seus mais secretos pensamentos,
ela começou pela primeira vez a considerá-lo como um homem. Pela
primeira vez, ele tocou-lhe numa corda sensível que se pôs a vibrar
em uníssono, graças a uma confissão que, paradoxalmente, era o oposto
de uma declaração de amor. Justine compreendeu, surpreendida e
despeitada, mas também com um estremecimento de prazer, que ele não
lhe pedia somente para partilhar o seu leito, mas toda a sua vida, a
ideia fixa sobre a qual ela assentava. Ordinariamente só um artista é
capaz de propor um contrato tão estranho e desinteressado — mas é um
contrato que nenhuma mulher digna desse nome pode recusar. O que ele
lhe pedia não era simplesmente que casasse com ele (e foi neste ponto
que as suas mentiras originaram um mal-entendido) mas que partilhasse
o daimon a que ele se achava acorrentado.

Era, no sentido mais estrito, o único meio que ele via de frustrar a
palavra «amor». Com voz calma e repousada, ele principiou, agora com
completo domínio, depois de ter decidido dizer-lhe tudo.

— Você sabe, toda a gente sabe, que os nossos dias estão contados
desde que os franceses e os ingleses perderam o domínio do Médio-
Oriente.
228

Nós, as comunidades estrangeiras, com tudo o que aqui edificámos,


somos, pouco a pouco, absorvidos pela poeirada árabe, pela onda
muçulmana. Alguns de entre nós esforçam-se por deter a vaga:
arménios, coptas, judeus e gregos, aqui no Egipto, enquanto outros se
organizam em regiões diferentes. Eu trabalho nessa tarefa, aqui...
Para defender-nos, simplesmente, para salvar a nossa vida e assegurar
o nosso direito de pertencer a esta terra, e mais nada. Você sabe
isso muito bem. Todos o sabem. Mas para aqueles que vêem um pouco
mais longe na nossa História...

Aqui ele compôs um sorriso de lado — um sorriso feio, com uma sombra
de jactância.

— Aqueles que vêem mais longe, sabem que isto não passa de um biombo;
só nos podemos manter neste mundo com o apoio de uma nação bastante
forte e bastante civilizada para dominar todo o sector. Actualmente a
França e a Inglaterra — por mais que as apreciemos — perderam a
partida. Quem poderá substituí-las?

Calou-se, respirou fundo, e depois cruzou as mãos apertando-as entre


os joelhos, como se quisesse espremer de uma esponja, lentamente,
voluptuosamente, os seus mais secretos pensamentos. Prosseguiu num
murmúrio:

— Só existe uma nação capaz de decidir o futuro do Médio-Oriente.


Capaz de mudar tudo; e mesmo, paradoxalmente, a existência dos
miseráveis muçulmanos depende do seu poderio e dos seus recursos.
Compreendeu-me, Justine? Devo pronunciar o nome dessa nação? Ou
talvez, afinal de contas, estas coisas não tenham para si nenhum
interesse?

Lançou-lhe um sorriso radiante. Os seus olhares encontraram-se e


ficaram por um momento presos, como se estivessem perdidamente
apaixonados um pelo outro. Nessim nunca a vira tão pálida, tão
atenta, toda a sua inteligência refluindo nos olhos.
229

- Será preciso pronunciar o nome? — repetiu ele com uma voz mais
seca.

Então, soltando um longo suspiro, ela sacudiu a cabeça e disse, em


voz baixa mas muito distintamente:

— A Palestina.

Seguiu-se um longo silêncio durante o qual ele a contemplou com


triunfante alegria.

- Não me tinha enganado — disse ele por fim e Justine compreendeu


imediatamente o sentido das suas palavras. — Sim, tem razão, a
Palestina. Quando os judeus conquistarem a sua liberdade, todos nós
poderemos respirar. É a única esperança que nos resta.

Nessim pronunciou as últimas palavras com amargura. Acenderam os


cigarros com dedos trémulos e sopraram o fumo que se erguera entre
eles, envolvidos por uma nova atmosfera de paz e compreensão.

— Toda a nossa fortuna encontra-se comprometida na luta que está


prestes a iniciar-se aqui — disse ele a meia voz. — Tudo depende
disso. Aqui, naturalmente, fazemos outras coisas que lhe explicarei.
Os franceses e os ingleses ajudam-nos, pois nada vêem de mal no nosso
movimento. Lastimo-os. Encontram-se numa posição desesperada porque
não têm desejo de lutar, nem sequer de pensar. (O seu desprezo tinha
um tom de ferocidade onde se misturava igualmente uma piedade
sincera.) Os judeus, pelo contrário, representam um elemento novo;
são a ponta de lança da Europa nestes pântanos formigantes de uma
raça moribunda.

Calou-se, e bruscamente, numa voz aguda e trémula, pronunciou o nome


de Justine.

Lentamente, olhos postos nos olhos, as mãos dos dois encontraram-se.


Os seus dedos gelados entrelaçaram-se numa pressão nervosa. As suas
expressões traduziam o deslumbramento que lhes comunicava uma vontade
comum de acção, deslumbramento que era uma espécie de terror!
230

A imagem de Nessim tinha-se bruscamente metamorfoseado. Iluminava-a


uma nova grandeza. Justine contemplava-o, fumando, e via nele um ser
muito diferente do que conhecera até então: um aventureiro, um
corsário, jogando com a vida e com a morte; o seu poderio também, o
poderio da sua fortuna, formava um espécie de pano de fundo trágico
para a aventura. E ela compreendeu que não era a si que ele via — a
Justine cuja imagem era devolvida pelos espelhos de moldura dourada,
ou a Justine coberta de pinturas e vestidos caros — mas algo de mais
íntimo ainda que uma amante despida na tepidez do leito.

Era um pacto diabólico que ele lhe propunha. Mas havia ainda uma
coisa extraordinária, surpreendente: pela primeira vez ela sentia o
desejo despertar, nos flancos desse corpo desprezível, desse corpo de
antemão possuído e que para ela não passava de um objecto ávido de
prazer, um simulacro da realidade. Sentiu o desejo inesperado de ir
com ele para a cama... não apenas com o seu corpo, mas com os seus
projectos, os seus sonhos, as suas obsessões, o seu dinheiro, a sua
morte! Era como se acabasse de compreender a natureza do amor que ele
lhe oferecia: era toda a sua fortuna, a sua única fortuna, aquele
piedoso sonho político que ele nutria no coração, havia tanto tempo e
à custa de tantos tormentos que todo o resto da sua sensibilidade
tinha sido esmagada. E Justine teve de repente a impressão de ter-se
deixado enredar por uma teia de aranha gigantesca, aprisionar por
leis que permaneciam abaixo do nível da sua consciência, da sua
vontade, dos seus desejos, o fluxo e o refluxo autodestruidor da sua
personalidade humana. De dedos sempre unidos, era através desse
contacto que passava e se confundia toda a energia dos seus corpos.
Bastava ouvi-lo dizer: «Agora tem a minha vida nas suas mãos» para
lhe incendiar o cérebro e fazer-lhe o coração palpitar pesadamente no
peito.

— Agora tenho de me ir embora — disse ela. Sentia-se fraca e incerta,


seduzida como estava pelas solicitações de um poder mais forte que
qualquer atracção física. — Verdade, tenho de me ir embora.
231

- Louvado seja Deus — murmurou ele a meia voz. —

Louvado seja Deus.

Finalmente estava tudo resolvido. Mas à satisfação que ele sentia


misturava-se o terror de ter revelado a verdade, colocando-se de pés
e mãos amarrados à mercê de Justine. O seu último recurso fora uma
imprudência de consequências incalculáveis. Mas fora obrigado a isso.
Por outro lado sabia, subconscientemente, que a mulher oriental não é
uma sensualista no sentido europeu do termo; a pieguice não faz parte
da sua constituição. Embora não o queira aparentar, está obcecada
pelo poder, peia política e pelos bens materiais. O sexo está sempre
presente no seu espírito, mas os seus gestos são requentados pela
brutalidade cinética do dinheiro. Aceitando participar numa acção
comum, Justine estava sendo consigo própria mais sincera do que
nunca: era a resposta espontânea de uma flor que se volta
naturalmente para a luz. E foi ali, enquanto se contemplavam
calmamente, friamente, as cabeças inclinadas uma para a outra, como
flores, que ela pôde dizer afinal, magnificamente:

— Ah, Nessim! Nunca julguei possível aceitá-lo. Como descobriu afinal


que eu só existo para aqueles que crêem em mim?

Nessim observou-a um pouco assustado, reconhecendo nela a perfeita


submissão do espírito oriental, a submissão feminina absoluta que é
uma das maiores forças do Mundo. Saíram e caminharam juntos até ao
automóvel, e Justine sentiu-se muito fraca, como se a tivessem
abandonado em pleno mar.

— Não sei mais que dizer.

— Não diga nada. Comece a viver.

Os paradoxos do verdadeiro amor são infinitos. Ela teve a impressão


de receber uma bofetada. Entrou no primeiro café e pediu uma chávena
de chocolate quente que bebeu com as mãos a tremer. Depois foi
pentear-se e retocar a pintura.
232

Sabia que a sua beleza não passava de um chamariz e cultivava-a com


desdém.

Algumas horas depois, Nessim, sentado no seu gabinete, marcava no


telefone o número de Capodistria.

— Da Capo — disse ele calmamente —, lembra-se do projecto que eu


tinha formado de me casar com Justine? Vai tudo bem. Temos uma nova
aliada. Desejo que seja você o primeiro a dar a notícia ao «comité».
Penso que a partir deste momento eles não terão mais objecções a
fazer ao facto de eu não ser judeu — visto que me caso com uma judia.
Que pensa você?

Escutou com impaciência as felicitações irónicas do amigo.

— É uma impertinência — disse ele por fim, num tom gelado — imaginar
que os meus sentimentos não entram em linha de conta. Você é um velho
amigo, e a esse título peço-lhe que não volte a tomar esse tom
comigo. A minha vida privada, os meus sentimentos, só a mim
pertencem. Se estão de acordo com outros interesses, tanto melhor.
Mas preste-me ao menos essa justiça: fui sempre um homem de honra.
Amo Justine.

E pronunciando aquelas palavras sentiu vontade de vomitar;


bruscamente sentiu nojo de si próprio. E contudo a palavra era
perfeitamente exacta: o amor!

Descansou docemente o auscultador, como se este pesasse uma tonelada,


e ficou um momento a contemplar a sua imagem reflectida sobre o tampo
polido da secretária. Pensava: «O que se passa é que simplesmente eu
não sou um homem que ela pense poder amar. Se não tivesse a
possibilidade de lhe oferecer um projecto ousado, tê-la-ia cortejado
em vão durante um século. Qual é, portanto, o sentido dessa
palavrinha que agitamos em frente do nosso espírito como se fosse um
copo de dados: o amor?» E sentia um desprezo tão profundo por si
próprio que quase sufocava.

Ela veio nessa noite, inesperadamente, procurá-lo a casa, quando o


relógio dava as onze.
233

Nessim ainda não se deitara e separava alguns documentos perto da


chaminé.

- Que deliciosa surpresa! — exclamou ele com genuína alegria.

Ela ficou à porta, em silêncio, sombria, esperando que se afastasse o


criado que a levara ali. Então deu um passo adiante, deixando
escorregar dos ombros a capa de peles. Abraçaram-se apaixonadamente.
Depois, voltando para ele os olhos que tomavam simultaneamente um ar
terrificado e radiante de alegria à luz das chamas da lareira,
Justine exclamou:

— Finalmente conheço-te, Nessim Hosnani!

Amor e conspiração. O poder da riqueza e a intriga, esses


embaixadores da paixão, excitavam-se agora intimamente. No seu rosto
via-se aquela expressão de radiosa inocência que se encontra nos que
acabam de converter-se à vida monástica!

— Venho para receber as tuas instruções — disse ela. Nessim estava


transfigurado. Correu ao seu quarto no primeiro andar para retirar do
cofre as pastas de correspondência — como para lhe provar a sua
honestidade. Revelou-lhe o que nem a mãe nem o irmão sabiam: o papel
importante que ele desempenhava na conjura da Palestina. Sentaram-se
diante do fogo e estiveram embebidos no assunto quase até o romper da
madrugada.

— Já vês quais são as minhas preocupações mais imediatas. Tu podes


ajudar-me. Em primeiro lugar, as dúvidas e as hesitações do «comité»
judeu. Quero que lhes fales. Surpreendem-se com a colaboração de um
copta quando os judeus de cá se abstêm, porque receiam perder a
confiança dos egípcios. Temos de convencê-los. Necessitamos ainda de
mais de um ano para reunir a quantidade de armas necessárias. E há
ainda os nossos amigos ingleses e franceses que devem ignorar tudo
isto. Sei que eles fazem o possível por descobrir a natureza das
minhas actividades clandestinas. Creio que ainda não suspeitam de
nada. Mas há entre eles duas pessoas que nos inquietam
particularmente.
234

Um desses pontos nevrálgicos é a ligação de Darley com a pequena


Melissa; como já te disse, ela era a amante do velho Cohen que morreu
este ano. Era ele o encarregado do embarque das armas para a
Palestina e conhecia toda a organização. Ter-lhe-á dito alguma coisa?
Ignoro. Uma outra personagem ainda mais equívoca é Pursewarden;
pertence declaradamente aos Serviços de Informação da Embaixada.
Somos os melhores amigos, mas... não sei se ele suspeita alguma
coisa, nem de quê.

Temos de tranquilizá-lo; se for necessário revelamos-lhe o movimento


clandestino da comunidade copta! Que sabe ele? De que suspeita? É aí
que me podes ajudar. Oh, Justine, eu bem sabia que havias de
compreender.

Os seus traços sombrios e tensos, tão compostos à luz da lareira,


estavam marcados por uma nova radiância, por uma nova força. Aprovou
com a cabeça. Na sua voz profunda e rouca, disse:

- Agradeço-te, Nessim Hosnani. Agora já sei o que me cumpre fazer.

Depois, fecharam as grandes portas à chave, arrumaram os papéis, e na


cinza do dia que nascia, diante do fogo, despiram-se para fazer amor
com a indiferença apaixonada de dois fantasmas. Por mais selvagens e
triunfantes que fossem os seus beijos, não passavam da ilustração
lúcida do seu drama humano. Tinham mutuamente descoberto as suas
fraquezas mais íntimas, esse lugar geométrico do amor. E então não
houve por fim mais nenhuma inibição ou restrição no espírito de
Justine, e o que poderia parecer libertinagem era na realidade o
factor poderoso de um abandono total ao próprio amor - uma forma de
identidade verdadeira que ela nunca tinha experimentado com nenhum
outro homem! O segredo que partilhavam dava-lhe liberdade de agir. E
Nessim, afundando-se nos seus braços com uma feminilidade estranham
ente doce, quase virginal, sentia-se sacudido e esmagado como uma:
boneca de pano.

A mordidela dos seus lábios lembrava-lhe a jumentinha árabe que


tivera em criança~ memórias confusas ascendiam e evoluíam como
rajadas de pombos matizados.
235

Sentia-se esgotado, a ponto de chorar, mas irradiado também por uma


gratidão imensa, por uma infinita ternura. Toda a sua solidão se
fundira no esplendor destes beijos. Encontrara um ser com quem
partilhar o seu segredo, uma mulher à medida do seu coração. Paradoxo
sobre paradoxo! Para ela era como se tivesse pilhado o tesouro
espiritual de Nessim, do qual os seus bens terrestres constituíam o
estranho símbolo: os canos frios das espingardas, os seios
provocantes das bombas e das granadas nascidas do tungsténio, da goma
arábica, da juta, dos navios mercantes, das opalas, das plantas
medicinais, da seda e das árvores. Era ela quem conduzia a acção, e
no ondular poderoso dos rins de Justine sentiu que o desejo vinha
engrandecê-lo, fecundar as suas acções; e, para frutificar esses
instrumentos fatais da sua potência, daria vida às lutas dilacerantes
de uma mulher verdadeiramente estéril. O rosto de Justine era tão
destituído de expressão como uma máscara de Siva. Não era nem belo
nem feio, mas nu como a própria potência. Este amor parecia
contemporâneo do amor dos santos que se tornaram mestres na arte
glacial de reter o esperma a fim de melhor se reconhecerem — porque
as suas chamas azuis não comunicavam ao corpo nenhum calor, mas sim
um frio intenso. O espírito e a vontade queimavam como se tivessem
sido mergulhados num banho de cal viva. Era uma verdadeira
sensualidade isenta de todos os venenos civilizados que a transformam
numa sensação anódina, agradável ao paladar de uma sociedade humana
fundada sobre uma ideia romântica da verdade, içava diminuído por
esse motivo o amor? Paracelso descreve relações semelhantes em uso
entre os cabalistas. Em udo isso encontra-se o rosto austero,
primitivo e indiferente de Afrodite.

E entretanto ele repetia para si; «Quando tudo isto tiver terminado e
eu tiver encontrado a criança perdida — então estaremos tão ligados
um ao outro que ela nem sequer poderá pensar em deixar-me».
236

A paixão dos seus amplexos vinha de uma cumplicidade, de algo mais


profundo e mais perverso que as caprichosas tentações da carne e do
espírito. Ele tinha-a conquistado oferecendo-lhe uma vida conjugal
aparente, mas envolvendo-a ao mesmo tempo num projecto que podia
arrastar ambos para a morte! Eis tudo o que o sexo podia
presentemente significar para eles. Essa perspectiva da morte tinha
qualquer coisa de fascinante, de sexualmente fascinante!

Nessim levou-a a casa, na claridade trémula da manhã; esperou que o


ascensor subisse lentamente, dificilmente, os três andares, e que
depois descesse e parasse diante dele com um pequeno ressalto; a luz
apagou-se com um estalinho. A pessoa já lá não se encontrava, mas o
perfume subsistia.

Um perfume chamado Jamais de la vie.


XI

Durante todo o Verão e Outono os conspiradores organizaram uma série


de festas de um esplendor raro na cidade. Agora, na casa de Nessim,
não havia repouso, sempre animada pelas frescas e desusadas melodias
de um quarteto de cordas, ou sacudida pelos sobressaltos viscerais
dos saxofones, grasnando como patos no meio da noite. As cozinhas,
vastas cavernas outrora desertas, fervilhavam agora com um exército
de cozinheiros que mal acabavam de arrumar os destroços de uma festa
sumptuosa começavam a preparar as iguarias para o próximo banquete.
Dizia-se que Nessim tinha empreendido lançar Justine na sociedade _
como se os esplendores provinciais de Alexandria pudessem ter ainda
quaisquer encantos para ele, que se tinha tornado um europeu pelo
coração. Não, esses assaltos deliberadamente lançados contra a
sociedade da segunda capital tinham um duplo fim de exploração e de
diversão. Essas festas forneciam aos conspiradores um pano de fundo,
diante do qual eles se podiam mover com a liberdade indispensável.
Trabalhavam infatigavelmente e só quando se sentiam extenuados é que
se permitiam umas breves férias no pavilhão a que Nessim chamava o
«Palácio de Verão de Justine»; ali, podiam ler, escrever, tomar
banhos de mar e receber alguns íntimos: Clea, Amaril, Baltasar.
238

Mas sempre, depois desses intermináveis serões passados no tumulto


das conversas e na selva dos talheres e das garrafas, fechavam as
portas, trancavam os ferrolhos e subiam a escada soltando um suspiro
de alívio, deixando ao cuidado dos criados sonolentos o campo de
batalha cheio de destroços; porque no dia seguinte a festa
recomeçava; iam lentamente, de braço dado, parando no primeiro
patamar para descalçarem os sapatos e trocar um sorriso no grande
espelho. Depois, para acalmar um pouco o espírito, davam uma ou duas
voltas à galeria de pintura que continha uma valiosa colecção de
impressionistas, trocando palavras sem interesse, enquanto os olhos
de Nessim exploravam lentamente as grandes telas, testemunhas mudas
da validade do seu universo privado e dos seus desejos secretos.

Chegavam por fim aos seus quartos comunicantes, mobilados com gosto e
situados na ala norte, o lado menos quente da casa. Era sempre o
mesmo cerimonial:

Nessim estendia-se vestido na cama enquanto Justine acendia a lâmpada


de álcool para lhe preparar a infusão de valeriana que ele tomava
contra a insónia. Depois, ela aproximava da cama a mesinha de jogo e
faziam uma ou duas partidas trocando impressões sobre o que mais lhes
preocupava os espíritos. Aqueles rostos sombrios, apaixonados,
irradiavam então na luminosidade doce uma espécie de auréola que
provinha' do segredo, dos apetites de uma vontade comum, dos desejos
gémeos. Nessa noite, acabava ela de dar cartas quando o telefone
começou a tilintar na mesinha de cabeceira. Nessim levantou o
auscultador, ouviu por um momento sem falar, e passou-o a Justine.

Sorrindo, ela levantou as sobrancelhas numa interrogação e o marido


aprovou com um sinal de cabeça. «Alô!», fez ela na sua voz rouca,
simulando grande cansaço, como se acabasse de sair da cama. «Sim, meu
querido... Naturalmente. - Não, não estava a dormir. Sim, estou só».
Nessim pegou nas suas cartas, enaipou-as e começou a estudá-las com
um ar totalmente inexpressivo.
239

A conversa durou alguns minutos e finalmente Justine desligou,


pousando o auscultador com um suspiro.

- Era esse pobre diabo do Darley — disse ela pegando nas cartas.

Nessim levantou os olhos por um momento e pediu uma carta. Começando


a jogar, ela principiou a falar em voz baixa, como se falasse consigo
própria:

- Ele está absolutamente fascinado pelos cadernos do meu diário


íntimo. Recordas-te? Fui eu quem copiou todas as notas de Arnauti
para os Moeurs quando ele partiu o pulso. Dei unidade às que ele não
aproveitou para o romance e entreguei-as a Darley, dizendo-lhe que
eram o meu diário íntimo. (A sua face cavou-se num sorriso triste.)
Ele acreditou e agora diz-me que eu tenho uma maneira de ver as
coisas muito masculina! E diz também que o meu francês não é dos
melhores — o que devia encantar positivamente Arnauti, não achas?

— Tenho pena de Darley — disse Nessim docemente. — É um bom rapaz. Um


dia terei de lhe explicar tudo.

— Mas não compreendo por que motivo te preocupas com essa Melissa —
disse Justine, mais como se falasse consigo própria. — Tentei sondá-
lo de todas as maneiras possíveis. Ele nada suspeita. E tenho a
certeza de que ela também não. Simplesmente por ter sido a amante de
Cohen...

Nessim pousou as cartas e disse:

— Não consigo desfazer-me da impressão de que ela sabe qualquer


coisa. Cohen era um imbecil e um gabarola e, infelizmente, sabia
tudo.

— Mas por que motivo lhe havia ele de ter falado?

— Simplesmente porque depois da morte de Cohen, de todas as vezes que


essa fraldiqueira me encontra, olha-me como se soubesse qualquer
coisa a meu respeito... é uma impressão difícil de precisar, más
concreta, percebes?

Jogaram em silêncio até que a chaleira começou a fumegar. Justine


pousou as cartas e foi preparar a infusão, enquanto ele bebia a
tisana, ela dirigiu-se ao seu quarto para tirar as jóias.
240

Bebendo lentamente, Nessim ouviu-a colocar os brincos numa taça;


depois percebeu o ruído dos comprimidos sedativos caindo no fundo do
copo. Pouco depois ela veio sentar-se novamente em frente da mesa de
jogo.

— Já que tens receio dela, porque não tomas medidas para eliminá-la?

Nessim lançou-lhe um olhar estupefacto e ela emendou:

— Não, compreende-me, o que quero dizer é que podes tratar de afastá-


la de cá.

Nessim sorriu:

— Pensei nisso, mas quando Darley se apaixonou por ela, eu... bem, eu
simpatizo com ele.

— A simpatia não é para aqui chamada — disse ela secamente, e ele


aprovou com a cabeça, quase com humildade.

— Bem sei.

Justine deu cartas e os dois voltaram a estudar os respectivos jogos


em silêncio.

— Presentemente tento obrigá-la a partir... por intermédio de Darley.


Amaril afirma que ela está gravemente doente e recomendou-lhe o
internamento num sanatório de Jerusalém. Ofereci dinheiro a Darley.
Mas o desgraçado tem escrúpulos. Muito inglês. É um bom diabo,
Nessim, mas tem muito medo de ti e tem um monte de ideias a teu
respeito que o consomem. Está tão desamparado que me faz dó.

— Bem sei.

— Mas é preciso que Melissa se vá embora.

— Muito bem.

Depois, num tom completamente diferente, Nessim levantou os olhos


para a mulher e perguntou:

— E Pursewarden?

A pergunta ficou por um momento em suspenso no ar entre eles,


hesitante como a agulha de uma bússola. Depois ele tornou a baixar os
olhos sobre o jogo.
241

O rosto de Justine tomou uma expressão nova, irritada e ansiosa ao


mesmo tempo. Acendeu lentamente um cigarro e disse:

- Já te disse que é um homem fora do vulgar — c'est un personnage.


Seria impossível arrancar-lhe um segredo. É difícil defini-lo.

Ela contemplou o marido demoradamente, com um ar ausente:

- São tão diferentes um do outro! Darley é tão sentimental e tão fiel


que da sua parte não há o menor risco. Mesmo que soubesse qualquer
coisa que nos pudesse prejudicar não se serviria dela. Pursewarden,
não! É inteligente, frio, e senhor de si. Completamente amoral...
como um egípcio! Se nós morrêssemos, ele estava-se nas tintas. Não
consigo compreendê-lo. Mas é um inimigo em potência que não devemos
desprezar.

Nessim levantou os olhos para Justine e ficaram assim a olhar-se


durante um momento, os espíritos enlaçados. As suas pálpebras estavam
agora cheias de uma doçura ardente, como as de uma ave de rapina,
nobre e bizarra. Humedeceu os lábios mas não proferiu palavra.
Estivera a ponto de deixar escapar estupidamente esta frase: «Tenho
um medo terrível de que te apaixones por ele». Mas reteve-o um
estranho pudor.

— Nessim.

— Diz.

Justine esmagou o cigarro, distraída, levantou-se e começou a


percorrer o quarto de um lado para o outro com as mãos escondidas
debaixo das axilas. Como sempre que se encontrava perdida em
reflexões profundas, tomava aquele modo de andar estranho, quase
impudico, que lembrava de certo modo uma fera enjaulada. O olhar de
Nessim era agora vago e melancólico. Tomou maquinalmente as cartas e
baralhou-as, uma vez, duas vezes. – Depois arrumou-as na mesa de jogo
e levou as mãos a face escaldante.

Ela aproximou-se imediatamente colocando a palma tépida na testa do


marido.
242

— Estás outra vez com febre.

— Creio que não — disse ele vivamente.

— Põe o termómetro.

— Não.

Ela sentou-se em frente do marido, debruçada para ele, procurando-lhe


o olhar.

— Nessim, que se passa? A tua saúde... estas febres... e ainda por


cima não dormes?

Ele sorriu com um ar cansado e apoiou a costa da mão contra a face


ardente.

— Não é nada — disse ele. — Um pouco de cansaço depois deste serão, e


é tudo. E depois foi preciso contar a verdade a Leila. Ela ficou
alarmada quando compreendeu toda a extensão dos nossos projectos.
Isso torna as suas relações com Mountolive ainda mais difíceis. Creio
que foi por essa razão que ela evitou encontrar-se com ele durante o
carnaval, lembras-te? Eu tinha-lhe falado nessa manhã. Pouco importa.
Dentro de seis meses estará tudo a postos. O resto depende deles. Mas
naturalmente a ideia de partir entristece Leila. Já sabia que ela ia
recusar. E demais, tenho outras preocupações graves. — Que
preocupações?

Mas ele sacudiu a cabeça, levantou-se, despiu-se e deitou-se. Acabou


então de ingerir a sua infusão e ficou estendido, imóvel, de mãos e
pés cruzados, como um cavaleiro morto na Terra Santa. Justine apagou
a luz e ficou à porta, sem dizer palavra. Mas afinal falou:

— Nessim, não compreendo o que se passa contigo. Estás doente? Confia


em mim, peço-te!

Houve um grande silêncio. Depois, ela disse: — Em que irá dar tudo
isto?

Ele soergueu-se ligeiramente na almofada e olhou para a mulher.

— No Outono, quando tudo estiver pronto, teremos de tomar novas


disposições. Será necessário separar-nos, talvez por um ano inteiro,
Justine. Quero que vás à Palestina e que lá te conserves durante o
desenrolar dos acontecimentos.
243

Leila irá para a quinta no Quénia. Haverá por aqui reacções muito
vivas e tenho de ficar para lhes fazer frente.

- Tu falas durante o sono.

- Estou esgotado — gritou ele numa impaciência irritada.

O perfil de Justine, que se destacava no enquadramento da porta,


permaneceu imóvel.

— E os outros? — perguntou ela docemente.

Ele soergueu-se de novo para lhe responder numa voz fatigada.

— O único que me preocupa de momento é Da Capo. Temos de arranjar


maneira de simular a sua morte. De qualquer maneira ele tem de
desaparecer porque está excessivamente comprometido. Ainda não
estudei todos os pormenores. Ele deseja que eu receba o seu seguro de
vida porque está cheio de dívidas, completamente arruinado, de
maneira que a sua desaparição não surpreenderá ninguém. Tornaremos a
falar disto mais tarde. Deve ser relativamente simples resolver esse
problema.

Ela retirou-se e dirigiu-se para o seu quarto, onde começou a despir-


se. Ouvia, ao lado, Nessim suspirar e agitar-se. No grande espelho,
Justine contemplou o rosto cansado, doloroso, retirou a pintura e
começou a pentear voluptuosamente os cabelos negros. Depois deitou-
se, apagou a luz e caiu sem esforço num sono ligeiro.

Era quase dia quando Nessim entrou no quarto, descalço. Ela acordou
ao contacto dos braços do marido em redor das espáduas; Nessim estava
ajoelhado junto da cama, acometido por uma crise que ela de princípio
tomou por uma crise de lágrimas. Mas ele tremia como se tivesse febre
e os dentes batiam convulsivamente.

- Que tens? — perguntou ela alarmada.

Ele cobriu-lhe os lábios com um dedo, para que se calasse.

Tenho de te dizer por que motivo me porto de uma forma tão estranha.
Não posso mais, Justine, há ainda outra dificuldade.
244

Trata-se de Narouz; é horrível mas tenho de encarar a possibilidade


de ser forçado a eliminá-lo. Por esse motivo é que quase fiquei
louco. Ele anda a cometer imprudências e não sei o que hei-de fazer,
Não sei!

Esta conversa deu-se muito pouco antes do inesperado suicídio de


Pursewarden no Monte dos Abutres.
XII

Mas não foi somente para Mountolive que todas as peças do tabuleiro
ficaram baralhadas pelo acto solitário e pusilânime de Pursewarden —
e pela inesperada descoberta da causa primeira da sua morte. Nessim,
que também se tinha deixado embalar por sonhos de uma acção precisa e
sem falhas, encontrava-se agora, tal como o amigo, nas garras das
forças de atracção inerentes ao motor dos nossos actos, forças que os
fazem dilatar-se, ramificar-se, deformar-se, espalhar-se como uma
mancha sobre um tecto branco. Os senhores começavam a aperceber-se de
que em verdade não passavam de servos das forças que tinham
desencadeado e que a natureza é fundamentalmente ingovernável. Em
brave estariam lançados em caminhos que não tinham escolhido,
aprisionados num campo magnético dominado pelas mesmas forças que
provocam as marés ou acções que obrigam os salmões cintilantes a
subir uma ribeira – acções que se encurvam e expandem para um futuro
que os mortais são incapazes de canalizar ou afastar,

Mountolive percebia isso, vagamente inquieto, estendido na cama e


vendo subir para o tecto o fumo enovelado do seu charuto. Para Nessim
e Justine, estendidos lado a lado na Câmara sumptuosa e sombria,
falando em voz baixa, a certeza era ainda maior. Sabiam que aquilo
ultrapassava as suas vontades e sentiam os maus presságios e sentiam
os maus presságios acastelarem-se em torno deles - paradigmas das
forças desencadeadas que tendiam a realizar-se, mas como e de que
maneira?
246

Tudo isso estava longe de ser absolutamente claro.

Pursewarden, antes de se deitar pela última vez no sen leito


enxovalhado, entre as imagens murmurantes e cada vez mais distantes
de Melissa e de Justine — e todas as restantes memórias íntimas —,
tinha telefonado a Nessim numa voz alterada, marcada por uma amarga
resignação, carregada pelos esplendores de uma morte iminente.

— É uma questão de vida ou de morte, como se diz nos livros. Sim,


peço-lhe que venha imediatamente. Há uma mensagem para si no lugar
apropriado: no espelho. E desligou com uma gargalhadinha que gelou
Nessim na outra extremidade do fio: tinha pressentido imediatamente o
desastre. No espelho daquele quarto miserável, entre as obscuras
citações do romancista, encontrou, escritas em maiúsculas, com sabão
de barba humedecido, as seguintes palavras:

NESSIM. COHEN, PALESTINA, ETC.

TUDO DESCOBERTO E COMUNICADO.

Fora essa mensagem que ele apagara em parte quando ouvira passos na
escada e pancadas na porta, antes de Justine e Baltasar penetrarem no
quarto na ponta dos pés. Mas as palavras e a recordação daquela
gargalhadinha de despedida (que lembrava a voz de qualquer deus Pan
ressuscitado) fixaram-se para sempre no seu espírito' Quando mais
tarde relatou esses factos a Justine, o seu rosto estava vazio de
qualquer expressão, como um homem atormentado por uma nevralgia
facial, e isso porque a natureza pública daquele acto o tinha gelado
de terror. Para começar, compreendeu que lhe seria impossível dormir;
era uma mensagem que merecia longa meditação. Estavam os dois esposos
estendidos lado a lado, imóveis como estátuas num túmulo egípcio,
naquele quarto obscurecido, os olhos arregalados, contemplando-se
como objectos; cegos, inumanos, espelhos de quartzo, estrelas
mortas...
247

De mãos dadas, suspiravam e segredavam...

- Bem te tinha dito que era Melissa... Aquela sua maneira de olhar
para mim... Eu desconfiava...

Os outros aspectos angustiantes do caso confundiam-se e


entrecruzavam-se no seu espírito, nomeadamente o caso de Narouz.

Sentia o que devia sentir um cavaleiro, no silêncio de uma fortaleza


investida, ouvindo bruscamente as pancadas das pás e das picaretas, o
choque lancinante das alavancas dos sapadores, adivinhando que os
assaltantes progridem inexoravelmente debaixo das muralhas. Supondo
que Mountolive estivesse ao corrente, que seria ele obrigado a fazer?
(Estranho como esta simples expressão os traía a ambos, lançando-os
fora do livre jogo da vontade humana.) Eram ambos agora obrigados a
agir, encadeados como escravos, ao desenrolar de uma acção que não
ilustrava as disposições naturais de nenhum deles. Tinham-se lançado
no livre exercício da vontade, para se encontrarem, afinal de contas,
prisioneiros das malhas do devir histórico. Um simples impulso
comunicado ao caleidoscópio fora suficiente para provocar aquilo.
Pursewarden! O escritor que se comprazia a escrever: «As pessoas
acabarão por compreender um dia que só o artista é dotado do poder de
fazer acontecer coisas; é por esse motivo que toda a sociedade devia
assentar nele». Um deus ex-machina! Matando-se, servira-se deles
como... como de uma latrina pública, simplesmente para demonstrar a
verdade dos seus próprios aforismos! Teria podido utilizar muitas
outras demonstrações para fazer isso, sem os separar pelo acto da sua
morte, sem os incompatibilizar, tornando-os conhecedores de factos
que nenhum deles Podia aproveitar! Agora estava tudo suspenso por um
fio. Mountolive agiria, sim, mas somente se fosse obrigado a isso;
uma só palavra a Memlik Paxá desencadearia novas forças, faria
despontar novos perigos...
248

A cidade com os seus obcecantes ritmos de morte vibrava em torno


deles nas trevas — gemidos de pneus nas praças desertas, o uivo
dilacerante de um rebocador na doca, o apito de um navio que levanta
ferro. Nunca até então tinha sentido com tal peso a evidência, o
irresistível afundamento da cidade sufocada na poeira da morte e nas
dunas estéreis do Mareótis. Voltava o seu espírito de um lado para o
outro, como uma ampulheta; mas era sempre a mesma areia que corria,
as mesmas perguntas insolúveis que desfilavam no mesmo andamento
trôpego. Diante deles erguia-se a possibilidade de um desastre, na
previsão do qual — a despeito de terem pesado objectivamente todos os
riscos — não tinham feito qualquer reserva de forças. Era estranho.
Mas Justine, reflectindo furiosamente, a fronte baixa, o punho
apoiado nos dentes, parecia sempre impassível, e Nessim sentia
piedade por ela, porque a dignidade do seu silêncio (o olho
impassível da Sibila) lhe conferia coragem para fixar o pensamento
sobre o dilema. Deviam continuar como se nada tivesse mudado, quando,
de facto, tudo tinha mudado. Saber que deviam, imperturbavelmente,
como cavaleiros atarraxados nas suas armaduras, prosseguir no caminho
traçado, dava-lhes simultaneamente a impressão de que uni abismo se
tinha escancarado e que um novo laço, mais forte, os unia, uma
camaradagem mais apaixonada, semelhante à que liga os soldados nos
campos de batalha, conscientes de terem renunciado a todos os
sentimentos humanos — amor, família, amigos, lar — e de nada mais
serem que servidores de uma vontade de ferro que se revela nos sinais
couraçados do dever.

— Devemos preparar-nos para todas as eventualidades — disse ele, os


lábios ressequidos pelo abuso do cigarro — e aguentar até que tudo
esteja preparado — digamos, para o Natal. Temos talvez diante de nós
mais tempo do que suspeitamos; pode mesmo ser que nada aconteça. Nem
sabemos se Mountolive está informado.

Depois acrescentou numa voz mais surda, como se não lhe restasse
qualquer ilusão:
249

- Mas se estiver, nós o saberemos. A sua atitude não me enganará.

A partir de agora podia temer encontrar-se inesperadamente perante o


cano de uma pistola — em qualquer esquina de qualquer recanto sombrio
da cidade; um criado subornado poderia deitar-lhe veneno na comida...
Pelo menos poderia reagir contra estas eventualidades mercê de uma
aturada vigilância. Justine continuava estendida na cama com os olhos
muito abertos, muda.

— E depois — acrescentou ele — irei falar amanhã a Narouz. É preciso


que ele olhe as coisas de frente.

Algumas semanas antes, quando ia a entrar no seu gabinete, tinha


encontrado o grave Serapamoun sentado na poltrona reservada aos
visitantes, fumando tranquilamente um cigarro. Era, de longe, o copta
mais importante e mais influente de todos os reis do algodão, e tinha
desempenhado um papel decisivo apoiando o movimento clandestino
instigado por Nessim. Eram amigos velhos, embora o mais idoso
pertencesse a outra geração. O seu rosto doce e sereno e a sua voz
tinham a marca de autoridade que lhe conferia uma educação europeia.
O seu falar era o de um homem de espírito vivo e ponderado.

— Nessim — disse ele com doçura —, venho procurá-lo como


representante da nossa comunidade. Tenho um penoso dever a cumprir.
Posso falar-lhe francamente, sem paixão nem rancor? Estamos muito
inquietos.

Nessim foi fechar a porta à chave, desligou o telefone e apertou


afàvelmente o ombro de Serapamoun quando passou por detrás da
poltrona do visitante ao dirigir-se Para a sua cadeira.

— É isso que eu mais desejo — respondeu. — Fale-

— Trata-se de Narouz.

— Pois bem, que se passa?

— Nessim, quando você fundou o movimento da comunidade copta, o fim


não era provocar uma jehad — uma guerra santa — nem tentar fosse o
que fosse contra o governo egípcio. Era o que todos nós pensávamos e
se aderimos foi devido a partilharmos da sua convicção de que os
coptas se deviam unir para participarem mais directamente nos
negócios públicos.
250

Fumou um momento em silêncio, mergulhado em profunda reflexão. Depois


prosseguiu:

— O nosso patriotismo comunitário não diminuía em nada o nosso


patriotismo para com o Egipto, não é verdade? Foi-nos grato ouvir
Narouz pregar as verdades da nossa religião e da nossa raça. Sim,
isso deu-nos muito prazer, porque eram coisas que precisavam ser
ditas, que precisavam ser sentidas. Mas... há mais de três meses que
você não assiste a nenhuma reunião. Sabe que mudança se I operou
entretanto? Narouz deixou-se arrastar pelos seus poderes de orador e
proclama actualmente certas coisas que nos podem comprometer
gravemente. Estamos muito inquietos. Ele crê-se encarregado de uma
espécie de missão. Na sua cabeça ferve uma confusão de noções
estranhas, e quando prega é uma torrente que lhe sai da boca, e nem
quero pensar no que sucederia se tais palavras chegassem aos ouvidos
de Memlik Paxá.

Calou-se novamente. Nessim sentiu-se empalidecer. Serapamoun


recomeçou, na sua voz igual e bem timbrada. — Dizer que os coptas
retomarão o seu lugar ao sol é uma coisa; mas dizer que eles varrerão
o regime corrupto dos paxás que possuem noventa por cento das
terras... falar de apoderar-se do poder no Egipto e de reformar a
ordem...

— Ele diz semelhantes coisas? — balbuciou Nessim, e o velho confirmou


gravemente com um gesto de cabeça.

— Sim. Graças a Deus, as nossas reuniões são secretas. No decurso da


última assembleia ele pôs-se a uivar como um melboos (possesso) e a
gritar que, se fosse necessário para os nossos fins, armaria os
beduínos. Poderá você fazer qualquer coisa para detê-lo?

— Não creio que possa.

— Estamos muito inquietos pelas consequências que de tais palavras


possam advir para a organização.
251

Contamos consigo para tomar as medidas convenientes. Meu caro Nessim,


é preciso detê-lo; ou, pelo menos, fazer-lhe compreender um pouco
melhor o nosso papel. Ele frequenta demais a velha Taor — agora está
constantemente no deserto com ela. Não creio que ela tenha ideias
políticas, mas Narouz regressa sempre da sua caverna com um fervor
religioso exacerbado. Falou-me dela e contou-me que ficam de joelhos
na areia, durante horas seguidas, à torreira do sol, orando em
conjunto. «Agora eu vejo as suas visões e ela vê as minhas». Foi o
que ele me disse certo dia. E demais abusa da bebida. Penso que é
urgente fazer qualquer coisa.

— Irei procurá-lo sem demora — dissera Nessim. E agora, voltando-se


para mergulhar os olhos nos olhos negros e impassíveis de uma Justine
que ele reconhecia mais valorosa, repetia para si lentamente aquela
frase, tacteando-a com o espírito como quem experimenta o fio de uma
navalha deslizando suavemente o polegar. Tinha adiado aquela
entrevista com um pretexto ou outro, embora soubesse que, mais cedo
ou mais tarde, teria que enfrentar Narouz e domá-lo... mas um Narouz
bem diferente daquele que sempre tinha conhecido.

Eis senão quando Pursewarden se mata acrescentando a sua morte e a


sua traição ao fardo de todas aquelas preocupações de que Narouz não
tinha a menor ideia. O seu espírito febril corria agora em caminhos
paralelos que se perdiam no infinito. Tinha a sensação de que as
coisas se cerravam em torno dele, que começava a sufocar sob o Peso
dos cuidados que ele próprio fora colher. E tudo tinha sucedido
bruscamente, no espaço de poucas semanas, começava a sentir o
desespero insinuar-se nele, porque agora todas as decisões que
pudesse tomar não mais pareciam ser o efeito da sua vontade, mas
meras respostas a pressões exteriores; as exigências de um processo
histórico para onde ele se sentia arrastado, aspirado como por areias
movediças.

Mas se não podia dominar os acontecimentos, era pelo menos


indispensável que se dominasse a si e aos seus nervos.
252

Havia semanas que se socorria dos sedativos, mas estes nada mais
faziam do que exorcizar temporariamente as convulsões do seu
subconsciente; treinava-se atirando à pistola, mas isso não passava
de uma ridícula e pueril precaução contra um eventual assassino, sem
grande eficácia no debelar da sua tensão nervosa. Sentia-se possesso,
assaltado por sonhos onde revia toda a sua infância; sonhos que
brotavam sem razão e que o tomavam quase de surpresa quando ele se
encontrava acordado. Consultou Baltasar mas não podia, é bem
evidente, confiar-lhe as verdadeiras preocupações que o atormentavam,
de forma que o velho amigo o aconselhou a que anotasse todos os seus
sonhos, o que Nessim fez. Mas ninguém se pode desembaraçar das suas
tensões psíquicas, a menos que aceite enfrentá-las decisivamente para
vencê-las, lutando contra os fantasmas da razão vacilante...

Tinha decidido esperar uma oportunidade em que se achasse mais bem


disposto para ter a entrevista com o irmão. Felizmente, as reuniões
do grupo eram pouco frequentes. Mas cada dia que passava a sua
decisão era cada vez mais débil e foi Justine quem encontrou a boa
palavra e o forçou a partir para Karm Abu Girg.

- Eu própria iria matá-lo se não tivesse a certeza de que isso nos


separaria para sempre. Mas se achas que é a única solução, terei a
coragem suficiente para dar a ordem em teu lugar.

Naturalmente, ela não falava a sério. Era um artifício para arrancá-


lo da apatia em que se encontrava, e instantaneamente o seu espírito
readquiriu toda a lucidez; todas as brumas da indecisão se
dissiparam. Estas palavras, tão terríveis, e contudo pronunciadas
serenamente, tiveram o poder de reacender o seu amor apaixonado por
ela, e as lágrimas subiram-lhe aos olhos. Contemplou-a como um crente
contempla a Virgem - e com efeito o rosto de Justine, lúgubre e
imóvel, onde ardiam duas pupilas fulgurantes, evocava uma antiga
pintura de igreja bizantina.
253

- Justine — disse ele, com as mãos a tremer.

- Nessim — disse ela na sua voz rouca, passando a língua pelos lábios
ressequidos, mas com uma determinação selvagem no olhar.

Foi quase num tom de triunfo (porque todas as barreiras tinham caído)
que ele disse:

— Irei hoje, não receies nada. Tudo ficará resolvido de uma maneira
ou de outra.

Sentiu-se bruscamente cheio de força e decidido a obrigar Narouz a


partilhar dos seus pontos de vista, a fim de afastar o perigo de se
comprometer uma segunda vez aos olhos dos seus irmãos, os coptas.

Quando se meteu a caminho nessa tarde, as suas novas disposições de


espírito não o tinham abandonado, e a grande viatura, conduzida com
firmeza, levou-o rapidamente, ao longo dos diques poeirentos dos
canais, em direcção ao embarcadouro onde os cavalos, que ele tinha
pedido pelo telefone, deviam esperá-lo. Agora sentia-se impaciente
por encontrar o irmão, por forçá-lo a baixar os olhos e render-se à
razão, reabilitando-o aos seus próprios olhos. Ali acolheu-o no lugar
combinado com os habituais cumprimentos que lhe pareceram de bom
agouro e lhe fortaleceram a resolução. Afinal de contas, era o mais
velho! O homem tinha trazido o próprio cavalo árabe, um branco, de
Narouz, e galoparam vivamente ao longo dos canais, perseguidos pelos
trémulos reflexos que as águas devolviam dos seus vultos. Limitara-se
a perguntar se o irmão estava em casa e Ali respondera sombriamente
que sim. Não tornaram a falar durante todo o trajecto. A luz violeta
do crepúsculo pairava já em suspensão no ar e os vapores do anoitecer
exalavam-se pesadamente do lago para o céu. Os mosquitos elevavam-se
no esplendor do sol moribundo como torrentes de prata capturando nas
asas os últimos vestígios de calor. A passarada reunia-se em
famílias. Como tudo aquilo parecia calmo! Os morcegos tinham
principiado a sua dança lenta nas zonas mais sombrias do espaço. Os
morcegos!
254

A mansão dos Hosnani avistava-se já numa fresca penumbra violeta,


acaçapada como estava no sopé de um outeiro, à sombra da aldeia, cujo
minarete branco ainda ardia nos últimos raios do poente. Ao
desmontar, Nessim ouviu a vergastada seca do chicote e teve um
vislumbre do homem encavalitado no balcão mais elevado da casa,
olhando intensamente para o charco azulado do pátio. O homem era
Narouz; e contudo, de certo modo, não era Narouz. Pode um simples
gesto de alguém que conhecemos revelar uma mutação interior? O homem
do chicote, ali parado, olhando com tanta intensidade para o pátio
sombrio, denunciava na sua própria pose uma nova e perturbadora
arrogância, uma autoridade que não pertencia, por assim dizer, ao
reportório dos gestos habituais de Narouz.

— Está a treinar-se — explicou o intendente em voz baixa, segurando


as rédeas do cavalo. —. Agora, todas as noites treina-se com o
chicote, abatendo morcegos.

Nessim sentiu subitamente uma impressão de incoerência:

— Morcegos? — murmurou entre dentes.

O homem do balcão — o Narouz dessa impressão fugidia — soltou uma


gargalhadinha inesperada e contou numa voz gutural:

— Treze.

Nessim escancarou as portas e ficou imóvel, enquadrado na luz. Falou


para cima, para o céu que escurecia, num tom tranquilo, quase de
conversa, projectando a voz como um ventríloquo para a figura que se
recortava no topo da escada, com o comprido chicote enrolado num
flanco, em repouso.

— Ya, Narouz — disse Nessim, repetindo com afecto a fórmula


tradicional das suas saudações infantis.

— Ya, Nessim — respondeu o outro após uma pausa, e depois um pesado


silêncio cresceu entre os dois. Nessim, cujos olhos se tinham
acostumado à escuridão, descobriu que o pátio estava cheio de
cadáveres de morcegos, como fragmentos de sombrinhas partidas, alguns
palpitando e arrastando-se nos charcos do próprio sangue, outros
jazendo inertes e despedaçados.
255

Era então isso que Narouz fazia ao anoitecer — «treinava-se abatendo


morcegos!» O intendente fechou abruptamente os grandes batentes nas
costas de Nessim, e, mergulhado nas trevas, Nessim ergueu de novo os
olhos para o topo da escada onde esse irmão desconhecido o esperava
numa atitude de grande tensão vigilante. Um morcego atravessou a luz
e ele viu o braço de Narouz esboçar um movimento involuntário e
tornar a cair de novo ao longo do corpo; do seu posto dominante, no
topo da escadaria, podia fustigar os seus alvos de cima para baixo.
Nenhum deles falou durante um momento; depois, uma porta abriu-se,
rangendo, lançando um raio de luz para o pátio, e o intendente saiu
da casa com uma vassoura e começou a varrer os cadáveres das vítimas
de Narouz. Este debruçou-se para observar aquela operação e, quando o
outro estava prestes a lançar a pilha de corpos destroçados através
da porta que abriu para a rua, a sua voz grasnou:

— Treze, não é?

— Treze.

A voz do irmão provocou em Nessim um estremecimento sombrio, porque


lhe pareceu a voz autoritária de um homem que se embriagou com haxixe
ou ópio; a voz de alguém que se exprimia a partir de uma nova órbita,
num universo desconhecido. Tomou uma profunda inspiração e quando os
seus pulmões se encheram completamente elevou novamente a cabeça para
o irmão, alcandorado no alto da escada.

- Ya Narouz! Vim falar-te de coisas muito importantes. É urgente.

— Sobe! — uivou Narouz. — Espero-te aqui, Nessim.

A voz esclareceu Nessim porque era a primeira vez que voz do irmão o
recebia sem um tom de afecto, mesmo alegria. Normalmente teria
descido as escadas a correr a lhe dar as boas-vindas, saltando os
degraus e exclamando: «Nessim, que bom teres vindo!»
256

Nessim atravessou o patamar e apoiou a mão ao corrimão poeirento.

— É um assunto grave — disse secamente, como para afirmar a


importância do seu papel naquele cenário: o patamar mergulhado na
sombra, e aquela personagem enigmática no cimo do balcão, recortando-
se no céu mais claro e observando-o com o chicote assassino pendendo
sem esforço da mão poderosa. Narouz repetiu «Sobe», num tom mais
brando, e subitamente sentou-se, colocando o chicote a seu lado sobre
o último degrau. Era a primeira vez, pensou Nessim, que a sua vinda a
Karm Abu Girg não era bem-vinda. Começou a subir os degraus
lentamente, de cabeça erguida.

Estava muito menos escuro no primeiro patamar e no segundo havia luz


suficiente para ver a face do irmão. Narouz estava sentado, imóvel,
coberto por uma capa e calçando botas. O punho do chicote enrolado na
balaustrada descansava-lhe sobre os joelhos. Ao seu lado, no soalho
poeirento, via-se uma garrafa de gin semiconsumida. O queixo
repousava sobre o peito enquanto observava a ascensão de Nessim,
espreitando-o por entre as pestanas densas, com uma expressão de
crueldade onde se casava uma singular tristeza. Contraía e
descontraía os maxilares — um tique que lhe era familiar e que fazia
os músculos das têmporas palpitar num ritmo regular, como um pulso.
Observava a lenta ascensão do irmão com um ar sombrio e indeciso e
nos seus olhos brilhava intermitentemente uma cólera muda. dominada
com dificuldade. Quando Nessim alcançou o último degrau, Narouz
estremeceu e lançou uma espécie de uivo rouco — um som que seria
natural nas goelas de um cão — e, estendeu a mão cabeluda. Nessim
parou e ouviu o irmão dizer-lhe:

— Senta-te ali, Nessim — com uma voz nova e autoritária, mas sem
qualquer nota ameaçadora.

Hesitou, debruçou-se para melhor interpretar o gesto formulado por


aquela enorme mão estendida, como a ilustrar uma imprecação, os dedos
abertos e ligeiramente trémulos.
257

- Tu bebeste — disse finalmente num tom calmo mas penetrado de um


intenso desgosto. — Narouz, não era teu hábito...

A sombra de um sorriso desenhou-se nos lábios torvos do irmão, um


sorriso marcado por uma espécie de irónico desprezo. Depois alargou-
se num esgar que revelava plenamente o lábio leporino e que logo
desapareceu, como devorado, absorvido por um pensamento que não
conseguia exprimir. Narouz tinha nesse momento um estranho ar de
incerta arrogância, de orgulho simultaneamente insípido e esgazeado.

— Que me queres? — perguntou grosseiramente. — Despacha-te, Nessim.


Bem vês que me estou a treinar.

— Vamos para casa, para podermos falar em particular.

Narouz sacudiu a cabeça lentamente e, depois de reflectir, disse


secamente:

— Podes falar aqui.

— Narouz — bradou Nessim, irritado pelas respostas inusitadas, e no


tom de voz que empregaria para despertar um sonâmbulo —, por favor.

O homem, sentado no último degrau da escada, ergueu a cabeça para o


outro, o olhar estranhamente incendiado num rosto onde pairava uma
expressão de grande tristeza, sacudindo novamente a cabeça, teimou
numa voz surda:

— Já disse o que tinha a dizer, Nessim.

A voz aguda de Nessim repetiu com uma nota de compaixão que se foi
quebrar no silêncio do pátio.

— Preciso de falar contigo, compreendes?

— Mas fala aqui, diz já o que tens para dizer. Eu estou à escuta.

Aquele homem envolvido no seu manto era uma personagem nova e


inesperada. Nessim sentiu as faces cobrirem-se de cor. Subiu mais
dois degraus e a sua voz silvou.

— Narouz — disse imperiosamente —, venho da parte deles.


258

Em nome de Deus, que lhes tens tu andado a dizer? A Comissão ficou


apavorada com as tuas palavras. Suspendeu o discurso e exibiu
hesitantemente o memorando que lhe fora entregue por Serapamoun,
gritando: — Este.., este papel entregaram-mo eles.

Os olhos de Narouz incendiaram-se momentaneamente com um orgulho de


ébrio mas de certo modo tornado majestoso pela projecção do queixo e
pela postura arrogante dos ombros.

— As minhas palavras, Nessim? — gemeu ele, e depois acrescentou


sacudindo a cabeça. — E as palavras de Taor. Quando chegar o momento,
saberemos o que havemos de fazer. Ninguém tem nada a temer. Não somos
sonhadores. — Sonhadores! — bradou Nessim sufocado, agora quase fora
de si devido à apreensão e ao desagrado e mortificado também por
aquela maneira tão pouco convencional de o irmão se lhe dirigir. —
Claro que andais a sonhar! Não tentei tantas vezes explicar-te o que
procuramos fazer?... o que tudo isto significa? Um camponês e um
idiota, é o que tu és...

Mas estas palavras, que outrora teriam produzido no espírito de


Narouz o efeito de um aguilhão, deixaram-no indiferente. Apertou os
lábios e varreu o ar diante dele com a palma generosamente aberta.

— Palavras! — exclamou teimosamente. — Agora já te conheço, meu


irmão.

Nessim olhou em redor, desvairado, como para procurar socorro ou


qualquer instrumento suficientemente pesado para enterrar a verdade
do que tinha a dizer na cabeça daquele homem sentado à sua frente.
Sentia uma cólera surda invadi-lo, diante daquele vulto embrutecido
pelo álcool, que tão obstinadamente se recusava a obedecer-lhe.
Tremia; não tinha certamente previsto nada disto quando saíra de
Alexandria, de espírito claro e mente composta.

— Onde está Leila? — gritou num tom agudo, como se quisesse invocar o
auxílio da mãe.
259

Narouz soltou uma gargalhadinha: - Na casa de Verão, bem sabes.


Porque não vais procurá-la? - Riu de novo e depois prosseguiu
balançando a cabeça com uma expressão absurdamente infantil. — Ela
agora está zangada contigo. Desta vez ela está contra ti e não contra
mim. Tu fizeste-a chorar, Nessim. O lábio inferior de Narouz tremia.
— Bêbado — silvou Nessim sem se poder dominar. Os olhos de Narouz
fuzilavam. Lançando a cabeça para trás soltou uma gargalhada que soou
asperamente, como uma espécie de uivo breve. Depois, bruscamente, o
sorriso apagou-se e a sua expressão tornou-se outra vez triste e
desconfiada. Humedeceu os lábios e murmurou: «Ya, Nessim», em voz
muito baixa, como se recuperasse o sentido das conveniências. Mas
Nessim, lívido de cólera, encontrava-se agora quase fora de si. Subiu
os poucos degraus que faltavam para alcançar o topo da escadaria e
sacudiu os ombros de Narouz, quase a gritar:

— Doido, tu pões-nos a todos em grande risco. Vê isto que Serapamoun


me entregou. A Comissão dissolver-se-á se tu não te calares.
Compreendes? Tu estás louco, Narouz!

Em nome de Deus, Narouz, tenta compreender o que eu te digo.

Mas a enorme cabeça do irmão parecia agora perplexa, assaltada por


expressões contraditórias, como o garrote de um toiro sujeito a uma
dor intolerável. — Narouz, escuta-me.

O rosto que se erguia lentamente para Nessim parecia ter-se tornado


maior e mais ausente, os olhos mais baços e contudo pejados pela dor
de uma nova espécie de conhecimento que pouco devia às estéreis
resoluções da razão; pejado de uma espécie de cólera e incompreensão,

confusas e perturbadoras, que procuravam exprimir-se.

Entreolharam-se os dois irmãos raivosamente. Nessim tinha os lábios


exangues e estava ofegante, mas Narouz permanecia sentado, imóvel, o
olhar fixo, os lábios arrepanhados sobre os dentes brancos, como
hipnotizado.
260

— Ouves-me? Estás surdo?

Nessim sacudiu-o outra vez, mas o irmão, com um simples gesto das
potentes espáduas, libertou-se daquelas mãos importunas, enquanto o
sangue lhe afluía ao rosto. Nessim prosseguiu, porém, teimosamente,
arrastado pelas preocupações escaldantes que brotavam de dentro dele,
envolvidas numa torrente de censuras.

— Puseste-nos a todos em perigo, mesmo a Leila, mesmo a ti, mesmo a


Mountolive.

Que pouca sorte o levou a pronunciar aquele nome fatal? A sua menção
actuou sobre Narouz como uma descarga eléctrica, enchendo-o de uma
nova e quase triunfante exasperação.

— Mountolive — bradou ele num profundo rugido, apertando os dentes


numa pancada seca; parecia possesso. Contudo, não se moveu, embora a
mão se deslocasse involuntariamente para o cabo do chicote que jazia
no seu colo. — Esse suíno inglês! — trovejou numa veemência sufocada,
quase cuspindo as palavras. — Porque dizes isso?

Então produziu-se outra transformação inesperada e súbita quando todo


o corpo de Narouz se descontraiu e cedeu; depois lançou ao outro um
olhar matreiro e disse, com uma gargalhadinha, num tom que era quase
um murmúrio:

— Tu vendeste-lhe a nossa mãe, Nessim. Bem sabes que isso ia causar a


morte do nosso pai.

Era de mais. Nessim caiu sobre o irmão, flagelando-o com os punhos


cerrados e soltando maldições em árabe. Mas os seus murros caíam como
algodão sobre aquele enorme corpo. Narouz não se moveu, não fez
qualquer tentativa para defender-se ou retribuir a agressão — aqui.
Por fim, a primogenitura de Nessim prevaleceu. Narouz não conseguia
decidir-se a bater no irmão. Mas ali sentado, dobrado em dois, rindo
debaixo da fútil saraivada de socos, repetia incessantemente, numa
voz odienta: — Tu vendeste a nossa mãe.
261

Nessim continuou a bater até sentir os dedos doloridos e tumefactos.


Narouz curvava a cabeça debaixo daquele assalto febril, sustentando-o
com o mesmo sorriso triste, amargo e lacrimoso, repetindo a mesma
frase num murmúrio apaixonado.

— Pára! — gritou Nessim finalmente, desistindo de bater-lhe, caindo


contra a balaustrada e descendo sob o peso do seu próprio cansaço até
ao primeiro patamar. Sacudiu o punho para o vulto sombrio que
continuava sentado e bradou incoerentemente: — Irei eu próprio falar
com Serapamoun. Verás quem manda.

Narouz soltou uma gargalhadinha de desprezo, mas não respondeu. Pondo


em ordem as roupas amarrotadas, Nessim cambaleou pela escada abaixo
para o pátio agora completamente nas trevas. No momento em que
soltava o cavalo e acabava de montar, trémulo e praguejando, o
intendente apareceu para abrir a portada. Narouz tinha-se levantado;
a sua silhueta destacava-se agora contra o clarão amarelado da sala.
Fulgurações espasmódicas de cólera estriavam ainda o espírito de
Nessim, acompanhadas por uma grande irresolução e pelo sentimento de
que a missão de que se tinha encarregado redundara num completo
fiasco. Hesitava em partir assim e, procurando oferecer ainda àquela
personagem silenciosa, que se conservava lá em cima, uma última
possibilidade de reconciliação, voltou a montada, atravessou
novamente o pátio, parou debaixo do balcão com a cabeça levantada.
Narouz agitou-se.

— Narouz — disse Nessim docemente. — Disse-te de uma vez por todas.


Verás quem é o senhor. Seria mais prudente que tu...

Mas o homem lá no alto soltou uma gargalhada espessa e rangente como


o relincho de um burro.

- Senhor e servo — lançou-lhe com desdém. — Sim, Nessim, havemos de


ver. E para já...

Debruçou-se sobre a balaustrada e, na sombra, Nessim viu o látego


deslizar no soalho ressequido como uma cobra e lamber o ar
crepuscular do pátio.
262

Depois, uma pancada seca, como uma ratoeira que se fecha, explodiu a
poucos centímetros dele, e o maço de papel, que conservava na mão,
foi-lhe brutalmente arrebatado e espalhou-se no chão. Narouz soltou
então um grande riso histérico. Nessim sentiu o calor da chicotada
perto da mão, embora a chibatada não o tivesse atingido.

— Vai-te embora! — gritou Narouz, e de novo o látego se veio


projectar num desafio à garupa do cavalo. Nessim ergueu-se nos
estribos e, agitando o punho para o irmão, bradou:

— Veremos!

Mas a sua própria voz lhe pareceu débil, como abafada pelas
imprecações que ferviam no seu espírito. Cravou as esporas no flanco
do cavalo e atravessou o pátio como uma flecha, deitado sobre o
pescoço da montada, cujas ferraduras arrancavam chispas nas lajes do
caminho. Dirigiu-se para o vau como um louco, o rosto contorcido pela
cólera; mas o galope regular do cavalo acalmou-o e depressa se
sucedeu um desgosto imenso que lhe corroía lentamente o espírito,
como uma serpente venenosa. Depois começaram a submergi-lo ondas de
remorso quando compreendeu que as próprias bases do viver familiar
tinham ruído. Desautorizado nas suas prerrogativas de primogénito
naquele universo feudal que era o deles, sentiu-se de repente como um
filho pródigo, quase um órfão. E no fundo da sua própria cólera
concentrava também um sentimento de culpa; sentia-se emporcalhado,
como se acabasse de cometer uma devassidão naquela luta contra
Narouz. Retomou a estrada da cidade com o automóvel em andamento
moderado; lágrimas voluptuosas de cansaço e de ternura corriam-lhe
pelas faces.

Era estranho, inexplicável, que, desde o momento em que Serapamoun


lhe tinha discretamente falado do irmão, tivesse previsto e temido
aquele rompimento irreparável que anuviava de uma maneira mais
angustiosa o espectro dos deveres e das responsabilidades para com a
causa que ele próprio iniciara e devia agora servir.
263

Num plano ideal devia estar preparado em semelhante crise para


afastar Narouz, demiti-lo, e se fosse necessário!... (Travou
bruscamente o carro, desligou o motor e ficou ali paralisado, com os
lábios a tremer. Tinha censurado aquele pensamento pela centésima
vez. Mas a natureza do caso exigia que se enfrentassem as realidades.
Jamais compreendera Narouz, pensou. Mas não é preciso compreender-se
uma pessoa para amá-la. O seu domínio não fora jamais profundo,
criado pela compreensão; derivara das convenções familiares. E agora
o laço quebrara-se inesperadamente.) Bateu com as mãos doloridas no
volante do carro e gritou: «Nunca lhe farei mal algum».

Embraiou o carro repetindo «nunca» e, contudo, reconhecia nesta


decisão uma nova fraqueza, porque o seu amor traía o seu próprio
ideal do dever. Mas o seu alter ego veio então socorrê-lo com
fórmulas apaziguantes: «Afinal, não é assim tão sério. Claro, teremos
de dissolver o movimento temporariamente. Mais tarde pedirei a
Serapamoun para recomeçar outro, análogo. Poderemos então isolar e
afastar este... fanático». Nunca até então compreendera a que ponto
amava aquele irmão odiado, cuja mente tinha sido abalada por sonhos,
cuja poesia religiosa conferia ao seu Egipto um novo futuro,
maravilhoso e ideal. «Devemos esforçar-nos por encarar as formas
eternas da natureza, aqui, sobre esta terra, nos nossos corações,
neste nosso Egipto». Fora isto o que Narouz dissera, entre muitas
outras coisas que compunham a transcrição incompleta que Serapamoun
tinha mandado fazer, «devemos lutar nesta terra contra a injustiça
secular, e nos nossos corações contra a injustiça de uma divindade
que só se ocupa com as lutas do homem para conquistar a sua alma».
Seriam estas fórmulas simplesmente copiadas de Taor ou representariam
as lucubrações originais de um fanático ignorante? Outras frases,
paramentadas com as magnificências da poesia, ocorreram-lhe. «Dirigir
é ser dirigido; mas dirigente e dirigido devem ter uma consciência
divina do seu papel, na sua participação na herança do Divino.
264

A lama do Egipto ergue-se para afogar-nos os pulmões, os pulmões com


que suplicamos a Deus o direito de viver».

Reviu bruscamente a face contorcida de Narouz, a sua voz balbuciante


naquele primeiro dia em que se sentiu possesso invocando o espírito
divino para que o visitasse com uma verdade revelada. «Meded! Meded!»
Estremeceu. E então apercebeu-se lentamente de que de certa maneira
paradoxal Narouz fazia bem procurando despertar a vontade adormecida
— porque via o Mundo, não tanto como um tabuleiro de xadrez político
mas como um pulso batendo no núcleo de uma vontade superior que só
podia ser invocada e promovida pela poesia dos salmos. Capaz de
despertar não apenas os impulsos cerebrais com as suas fórmulas
limitadas, mas também a beleza adormecida nas camadas profundas — a
consciência poética que jaz, comprimida como uma mola, no coração de
cada um. Esto pensamento aterrou-o consideravelmente; porque viu que
seu irmão podia ser um chefe religioso, mas nunca na: circunstâncias
prevalentes de tempo e lugar. Era um prodígio da natureza, mas as
suas faculdades desenvolviam-se num terreno estéril, incapaz de
alimentá-las e que na verdade havia de sufocá-las para sempre.

Ao chegar a casa abandonou o carro no portão e subiu a escadaria a


correr, galgando três degraus de cada vez. Assaltara-o um dos seus
habituais ataques de diarreia e vómitos que se tinham tornado
excessivamente frequentes nas últimas semanas. Passou a correr por
Justine, que jazia de olhos abertos sobre a cama, com a lâmpada da
cabeceira acesa e a partitura de um concerto para piano aberta sobre
o peito. Ela não se moveu mas puxou uma fumaça pensativa, murmurando
apenas: — Voltaste tão depressa.

Nessim correu para a casa de banho, abrindo todas as torneiras para


abafar o ruído dos vómitos. Depois despiu-se, despojando-se com
repugnância das roupas, como quem se liberta de ligaduras purulentas,
e meteu-se sob o chuveiro para se lavar, debaixo do jacto quente, de
todas as indignidades que infestavam os seus pensamentos.
265

Sabia que ela estaria a ouvi-lo atentamente, a fumar atentamente, os


seus movimentos regulares como um pêndulo, esperando que lhe falasse,
estendida ao comprido debaixo da prateleira de livros, diante da
máscara que lhe sorria ironicamente da parede. Depois, a água deixou
de correr e ela ouviu-o esfregar-se vigorosamente com uma toalha.

— Nessim — chamou ela docemente.

— Falhou tudo — respondeu ele logo. — Narouz está completamente


louco, Justine. Não consegui nada. Foi horrível.

Justine continuou a fumar em silêncio, com os olhos presos nas


cortinas. O quarto estava impregnado do perfume das pastilhas que
ardiam no purificador junto do telefone.

— Nessim — disse ela com aquela voz rouca que se lhe tornara tão
querida.

— Sim.

— Estou a pensar.

Saiu imediatamente da casa de banho, os cabelos húmidos e em


desordem, pés nus, vestindo um roupão de seda amarela, as mãos
enterradas nos bolsos, um cigarro aceso num canto da boca. Pôs-se a
caminhar lentamente de um lado para o outro, em frente da cama.
Depois disse, pesando as palavras:

— Tudo isto provém de eu recear fazer-lhe mal. Mas mesmo que corramos
perigo por causa dele, não devemos tocar-lhe, nunca. Jurei isso a mim
próprio. Considerei o problema a fundo. Isso poderá parecer uma
traição aos nossos deveres, mas desejo que fique bem entendido.

De outra forma não conseguirei recuperar a minha calma. Estarás a meu


lado?

Tornou a olhar para ela com ternura, com os olhos da sua imaginação.
Estendida, como se flutuasse sobre a colcha de damasco, as mãos e os
pés cruzados como uma efígie, Justine conservava os olhos sombrios
pousados sobre o marido.
266

Uma madeixa de cabelo negro, ondulado, caía-lhe sobre a testa. Jazia


no silêncio de um quarto que tinha assistido (se as paredes têm
ouvidos) às suas deliberações mais secretas, presididas por uma
máscara tibetana com as órbitas iluminadas. Por detrás delas
brilhavam as prateleiras com os livros que Justine coleccionara
embora não os tivesse lido todos. Utilizava os textos como teclas de
cristal, abrindo-os e colocando o dedo ao acaso sobre uma frase
(chama-se a esta arte «bibliomancia»). Schopenhauer, Hume, Spengler,
e bastante singularmente algumas novelas, incluindo três de
Pursewarden. As suas encadernações polidas reflectiam a luz das
velas. Pigarreou, apagou o cigarro e disse numa voz calma:

— Posso resignar-me a tudo o que disseres. Neste momento a tua


fraqueza é um perigo para nós os dois. Além disso a tua saúde
preocupa-nos a todos, especialmente a Baltasar. Mesmo pessoas pouco
observadoras, como Darley, começam a notar. Isso não é bom.

A sua voz era fria e sem timbre.

— Justine! — exclamou ele, cheio de admiração. Foi sentar-se ao lado


dela, na cama, envolvendo-a num abraço frenético. Os seus olhos
radiavam uma nova alegria, uma nova gratidão. — Sou tão fraco —
lastimou-se.

Estendeu-se ao lado dela, colocou os braços debaixo da cabeça e ficou


em silêncio, pensando. Durante muito tempo ficaram assim,
silenciosamente, lado a lado. Por fim, ela disse:

— Darley veio jantar esta noite e saiu antes de tu chegares. Disse-me


que a Embaixada regressa ao Cairo na próxima semana. Mountolive não
regressa a Alexandria muito antes do Natal. É também a nossa
oportunidade de descansar e recuperar forças. Disse a Selim que íamos
para Abu Seir na próxima semana e que nos demorávamos lá um mês.
Agora tens que repousar, Nessim. Podemos nadar e cavalgar no deserto
e esquecer. Tudo... percebes? Passados uns tempos, convidarei Darley
para vir e ficar connosco por algum tempo para que tenhas alguém com
quem conversar.
267

Sei que gostas dele e a sua companhia fará bem a ambos. De vez em
quando poderei vir até cá ver como correm as coisas... Que dizes?

Nessim gemeu docemente e voltou a cabeça.

- Porquê? — murmurou Justine com suavidade. — Porque fazes isso?

Nessim suspirou profundamente e disse:

— Não é o que tu pensas. Bem sabes que gosto dele e que nos damos
bem. Mas é essa dissimulação, esse papel que é preciso representar
mesmo diante dos amigos. Se ao menos não fôssemos obrigados a
representar, Justine.

Mas percebeu que ela o observava com os grandes olhos muito abertos,
com uma expressão que sugeria horror ou desfalecimento.

— Ah! — disse ela pensativamente ao fim de um momento, cerrando os


olhos. — Ah, Nessim! Sem isso eu não teria sido capaz de me conhecer.

Os dois homens estavam sentados na estufa, enfrentando


silenciosamente o magnífico tabuleiro de xadrez, numa perfeita
camaradagem. O jogo fora um presente que Mountolive recebera da mãe
quando fez vinte e um anos. De tempos a tempos, um e outro pensavam
em voz alta, o olhar ausente. Não era uma conversa, mas somente a
comunicação de dois espíritos que a estratégia grandiosa do xadrez
realmente absorvia; um subproduto da amizade que tem as suas raízes
nos silêncios fecundos do jogo real. Baltasar falava de Pursewarden.

O seu suicídio atormenta-me. Tenho a impressão de tê-lo interpretado


mal. Tomei-o por uma manifestação de desprezo do Mundo, de desprezo
pela maneira como correm as coisas neste mundo.

Mountolive ergueu a cabeça vivamente.

- Não, não. É um conflito entre o dever e a afeição.

E acrescentou imediatamente:

Mas não posso dizer-lhe mais nada a esse respeito.


268

Quando a irmã dele chegar talvez ela lhe possa dizer mais alguma
coisa.

Calaram-se por um momento. Baltasar suspirou e disse:

— A verdade nua e impudica. Que maravilhosa expressão! Mas vemo-la


sempre como ela se mostra e nunca como ela é. Cada homem tem a sua
interpretação pessoal.

Outro longo silêncio. Baltasar pôs-se a falar para si, num longo
monólogo.

— Às vezes uma pessoa julga-se um Deus e acaba por receber uma amarga
lição. Houve uma época em que eu detestei profundamente Dmitri
Randidi; mas nada tinha contra a sua adorável filha. Simplesmente
para humilhá-lo (foi num baile de carnaval e eu tinha-me mascarado de
cigana) pus-me a ler a sina à rapariga. Disse-lhe: «Amanhã vai
suceder uma coisa que alterará todo o curso da sua vida: encontrará
um homem sentado na terra em ruínas de Taposiris. Não lhe dirá nada
mas lançar-se-á nos seus braços, de olhos fechados. Deve fazer isso
porque é o seu destino, porque está escrito. O seu pronome começa por
um L e o nome de família por um J». (Com efeito ela tinha já pensado
num jovem particularmente feio, com essas iniciais, e que nessa noite
se encontrava no baile dos Cervoni, do outro lado da rua. Perfil de
suíno, pestanas sem vida, cabelo cor-de-areia.) Soltei uma risadinha
quando ela me acreditou. Tendo-lhe lido a profecia — toda a gente crê
nas ciganas e demais com a minha cara morena e o meu nariz aquilino
dou uma esplêndida feiticeira — tendo arrumado isto, atravessei a
rua, fui procurar L. J. - e disse-lhe que tinha uma mensagem para
ele. Sabia que o sujeito era supersticioso e que não me reconheceria.
Disse-lhe o que tinha a fazer. Um acto maligno e repugnante, creio
eu. Só tinha em vista atormentar Randidi. E tudo correu como eu tinha
planeado. A encantadora rapariga obedeceu à cigana e apaixonou-se por
aquele sapo ruivo. Não era possível imaginar um consórcio menos
conveniente. Mas era essa a minha ideia — enfurecer Radidi! É claro
que enfureceu, e eu sentia-me muito ufano do meu ardil.
269

Evidentemente, o pai opôs-se ao casamento.

Os amantes que eu tinha inventado — foram separados.

E então Gaby Randidi, a bonita rapariga, envenenou-se. Pode imaginar


como eu me senti. Isto esmagou a saúde do pai e a neurastenia (que
foi sempre uma tara familiar) acabou por vencê-lo. No último Outono
encontraram-no enforcado debaixo da vinha mais famosa de toda a
cidade...

No silêncio que se seguiu, ouviram-se estas palavras de Baltasar:

— Uma história mais da nossa cidade implacável. Mas, xeque à sua


Dama, se não estou em erro...
XIII

Com a queda das primeiras bátegas outonais, Mountolive regressou ao


Cairo sem ter tomado nenhuma decisão importante no campo da política;
Londres mantinha-se em silêncio no campo das revelações contidas na
carta de adeus de Pursewarden e parecia mais disposta a partilhar o
desgosto de um embaixador cujos subordinados se revelavam de duvidoso
mérito do que a criticá-lo ou a sujeitar toda a matéria a um
inquérito aprofundado. Nada exprimia melhor o sentimento geral que a
longa e pomposa carta na qual Kenilworth analisava a tragédia e
afirmava que toda a gente «no Ministério» tinha ficado penalizada mas
não surpreendida. Não tinha Pursewarden sido sempre considerado uma
personagem de certo modo outrée? Aparentemente havia muito que se
esperava um tal desenlace. «O seu encanto» — escrevia Kenilworth na
sua prosa em estilo augusto, reservada para aquilo que ele designava
por uma «estimativa equilibrada» — não conseguia cobrir as suas
aberrações. Não preciso sequer referir-me ao dossier especial que lhe
mostrei. In Pace Requiescat. Mas você tem a nossa simpatia pela boa
fé que o levou a reputar estas considerações a fim de lhe dar uma
outra oportunidade numa legação que já tinha considerado intoleráveis
suas maneiras e erróneas as suas opiniões». Mountolive contorcia-se
lendo aquilo; entretanto, à sua contrariedade associava-se um vago e
paradoxal alívio porque via, ocultas por detrás destas considerações,
as sombras de Nessim e de Justine, os fora-da-lei.
272

Se abandonava Alexandria com relutância era simplesmente porque o


problema, ainda por resolver, de Leila o atormentava. Temia os novos
pensamentos que era forçado a enfrentar a respeito dela e da sua
possível parte na conspiração — se alguma havia — e sofria os transes
do criminoso cujo crime ainda não foi descoberto. Não seria melhor
forçar o encontro — ir um belo dia e sem aviso a Karm Abu Girg
arrancar-lhe a verdade? Mas não podia fazer isso. Não tinha coragem.
Esforçou-se por não pensar no futuro e começou a fazer as malas,
soltando numerosos suspiros, preparando-se para mergulhar outra vez
na corrente tépida das actividades sociais que lhe distraíam o
espírito.

Pela primeira vez os deveres áridos do seu cargo lhe pareciam quase
agradáveis e aliciantes. Lançou-se na rotina dos entretenimentos
prescritos — para matar o tempo e sossegar a dor — com uma
concentração e um ardor que tinham quase um efeito hipnótico. Nunca
ele tinha irradiado um encanto tão estudado, nunca tinha concedido a
futilidades uma tal atenção que lhes emprestava as proporções de
autênticos ornamentos sociais.' Uma verdadeira colónia de maçadores
concentrou-se em torno dele. Pouco tardou que as pessoas começassem a
perceber como ele tinha bruscamente envelhecido, atribuindo a mudança
aos incessantes prazeres a que se entregava com um entusiasmo
frenético. Que ironia! A sua popularidade expandia-se em vagas. Mas
agora começou a parecer-lhe que muito pouco restava oculto na bela e
insolente máscara que ele exibia ao Mundo, salvo um terror e uma
incerteza inteiramente novos. Isolado de Leila, sentia-se abandonado,
órfão. Tudo o que lhe restava era a poção amarga dos deveres do seu
cargo, a que se entregava com o ardor do desespero.

Acordando de manhã, quando o criado vinha abrir os cortinados — lenta


e respeitosamente como se erguesse o sudário do túmulo de Julieta —
pedia os jornais e lia-os com atenção enquanto ia remexendo na
bandeja carregada com os requintes a que o seu género de vida o
habituara. Mas já esperava impacientemente a pancada na porta
anunciando o aparecimento do seu jovem e barbeado terceiro-
secretário, carregado com a agenda e restante impedimento das suas
funções.
273

Esperava sempre ardentemente ter o dia bem preenchido e quase se


sentia angustiado quando só enfrentava obrigações pouco importantes.
Felizmente eram raros esses dias. Recostado nas almofadas, subjugando
a impaciência, ouvia Donkin ler-lhe o programa do dia no tom de quem
lê o Credo. Por mais insossos que fossem esses encontros oficiais,
soavam aos ouvidos de Mountolive como uma promessa de esperança, uma
prescrição contra o aborrecimento e a angústia. Escutava como um
sibarita inquieto a voz que recitava:

— Onze horas, visita a Rashad Pasha para entregar um aide-mémoire


respeitante a um investimento britânico. A chancelaria possui os
documentos. Depois, almoço com Sir John e Lady Gilliatt. Errol vai
recebê-los ao aeroporto. Sim, remetemos flores para o hotel. Vêm
assinar o livro, hoje, às onze horas. A filha deles está indisposta,
o que perturba um pouco o arranjo da mesa; mas como V. Ex.a a tinha
convidado Haida Pasha e o Ministro americano, tomei a liberdade de
inscrever Errol e a esposa; assim compõe-se tudo. Não necessitei
consultar o protocolo porque •w John vem cá em visita particular —
toda a Imprensa o divulgou.

"ousando todos os memorandos muito bem dactilografados num belo papel


rígido e armoriado, Mountolive suspirou perguntando:

— Que tal é o novo chef? Faça o favor de mandá-lo depois ao meu


gabinete. Conheço um prato predilecto dos Gilliatt.

Donkin aquiesceu respeitosamente e rabiscou uma nota sua agenda antes


de prosseguir, numa voz neutra:

- Às seis horas há a recepção a Sir John em casa de Haida. V. Ex.a


aceitou o convite para jantar na Embaixada da Itália um jantar em
honra do signor Maribo. O tempo é um pouco apertado...
274

— Visto-me antes — disse Mountolive pensativamente.

— Há também um ou dois apontamentos escritos pela mão de V. Ex.a e


que eu não consigo decifrar. Um menciona o Bazar dos Perfumes, Lilás
da Pérsia.

— Sim, claro. Prometi levar lá Lady Gilliatt. Faça o favor, arranja-


nos transporte e previne-os da nossa visita. Depois do almoço,
digamos, às três e meia.

— Depois há uma nota sobre «Presentes ao almoço».

— Ah, sim — disse Mountolive. — Estou ficando muito oriental. Bem vê,
Sir John pode ser-nos muito útil em Londres, no Ministério, portanto
decidi tornar a sua visita tão memorável quanto possível, de acordo
com os seus gostos. Quer ter a bondade de ir ao Karda, em Soleiman
Pasha, comprar um par de miniaturas dessas figurinhas de Tel Al
Aktar, das coloridas? Fico-lhe muito grato. São lindíssimas. E faça
embrulhá-las com um cartão para colocar ao lado dos talheres de Sir
John e Lady Gilliatt. Muito obrigado.

Outra vez só, sorveu o seu chá e entregou-se mentalmente ao dia que
se apresentava diante dele, rico de distracções que não deixavam
lugar para as perguntas angustiosas. Lavou-se e vestiu-se com
deliberada lentidão, concentrando a mente na escolha das roupas
convenientes para a sua visita oficial da manhã, apertando
cuidadosamente a gravata defronte do espelho. «Tenho de mudar de vida
radicalmente e sem demora — pensou Mountolive — ou ela tornar-se-á
completamente vazia. Que poderei fazer?» Algures, na cadeia da
causalidade, encontrou um espaço vazio que se cristalizou na sua
mente em torno da palavra «companhia». Repetiu-a em voz alta, ei»
frente do espelho. Sim, era ali que estava a falha. «Tenho de comprar
um cão», pensou, algo pateticamente, «par" me fazer companhia.
Tomarei conta dele. Poderei leva-a passear nas margens do Nilo». O
absurdo da cena saltou-lhe aos olhos e ele sorriu.
275

Contudo, no decurso do seu habitual giro pelos gabinetes da


Embaixada, perguntou muito seriamente a Errol que espécie de cão
daria um bom companheiro. Tiveram uma demorada e agradável discussão
sobre as várias raças e concluíram que um fox-terrier seria o mais
conveniente para um solteirão. Um fox-terrier! Ia repetindo aquele
nome quando atravessou o patamar para ir visitar os adidos, sorrindo
da sua própria estupidez. «Qual será a próxima?»

O seu secretário tinha deixado os papéis convenientemente arrumados


nos competentes tabuleiros e colocado a pasta vermelha dos despachos
contra a parede; uma única espira do fogão eléctrico mantinha o
gabinete numa temperatura tépida adequada para o trabalho rotineiro
desse dia. Mountolive lançou-se aos telegramas com exagerada atenção
e examinou as respostas rascunhadas pelos seus secretários. Achou-se
a alterar frases, a inventar orações aqui e além, a acrescentar notas
à margem; isto nele era novo porque nunca tinha manifestado excessivo
zelo em matéria de inglês oficial e temia na verdade os portentosos
circunlóquios que fora obrigado a introduzir nos seus próprios
rascunhos quando era um simples secretário sob as ordens de um
Ministro que se julgava um estilista — mas haverá alguma excepção nos
serviços do Ministério dos Negócios Estrangeiros? Não. Nunca fora
exigente neste capítulo, mas agora a concentração forçada em que
vivia e trabalhava tinha começado a produzir os seus frutos, que se
traduziam numa série de pedantices que principiavam a irritar Errol e
os outros. Embora não ignorasse isto, Mountolive insistia; criticava,
comentava e emenda trabalhos que não ignorava estarem bem feitos,
servindo-se na sua tarefa do grande Dicionário de Oxford e um Skeat —
como um clérigo medieval cortando a meio cabelos teológicos. Acendia
um charuto e fumava pensativamente enquanto ia emendando e rasurando
sobre o papel-mármore das minutas.

Nesse dia, às dez horas, chegou o habitual e bem-vindo tilintar de


chávenas e pires e o guarda da Chancelaria apresentou-se algo
precariamente com a taça de Bovril e o prato de biscoitos para
anunciar o intervalo consagrado à pequena refeição.
276

Mountolive estendeu-se numa poltrona por um quarto de hora, enquanto


sorvia o líquido quente, com os olhos perdidos na parede branca onde
se via um grupo de pinturas japonesas — a decoração padronizada
escolhida pelo Ministério das Obras Públicas para os gabinetes dos
embaixadores. Dentro de poucos minutos iria ocupar-se da mala da
Palestina; já estavam a separá-la no serviço dos arquivos — os
pesados sacos de lona espalhados pelo chão, com as bocarras
escancaradas, os amanuenses separando rapidamente a correspondência
sobre os balcões gradeados, cobertos de repes verdes, os secretários
dos diversos serviços esperando pacientemente do lado de lá das
grades a sua parte nos despojos... Mountolive sentia nessa manhã uma
vaga e inquietante premonição, porque Maskelyne não tinha ainda dado
qualquer sinal de vida. Nem sequer acusara a recepção da última carta
de Pursewarden. Aquilo intrigava-o.

Houve uma pancadinha na porta, e Errol entrou com o seu passo


hesitante, trazendo na mão um volumoso sobrescrito
impressionantemente carregado de selos.

— É de Maskelyne, sir — anunciou ele e Mountolive ergueu-se


espreguiçando-se com um ar de estudada indolência.

— Santo Deus! — exclamou sopesando o sobrescrito antes de devolvê-lo


a Errol. — Via aérea, hem? Que será. Parece um romance, não parece?

— Sim, senhor.

— Bem, abra-o, meu caro. — Percebeu com melancolia que tinha herdado
uma série de maneirismos da linguagem de Sir Louis; era forçoso
emendar-se antes que fosse demasiado tarde.

Errol abriu desajeitadamente o enorme sobrescrito com a faca de


papel. Um nédio memorando e um maço de fotocópias vieram cair entre
eles, sobre a secretária.
277

Mountolive estremeceu reconhecendo a letra radiada do general sobre o


papel de carta armoriado da carta anexa.

- Que vem a ser isto? — murmurou sentando-se em frente da secretária.

«Meu caro Embaixador»; o resto da carta estava impecavelmente


dactilografada em caracteres maiúsculos. Errol assobiava em surdina
enquanto passava em revista as fotocópias devidamente agrafadas,
fixando algumas palavras aqui e além. Mountolive leu:

«Meu caro Embaixador:

Estou convencido de que o interessarão os documentos inclusos,


recentemente desenterrados pelos meus homens no decurso de uma série
de vastas investigações levadas a cabo aqui na Palestina.

Estou em condições de fornecer numerosos exemplares de uma


pormenorizada correspondência trocada entre Hosnani, o objecto do meu
relatório original suspenso, e a chamada «Organização dos Combatentes
Judeus» em Haifa e Jerusalém. Um breve exame dessa correspondência
convencerá qualquer pessoa imparcial de que a minha primeira
impressão a respeito desse cavalheiro pecava por modéstia. As
quantidades de armas e munições discriminadas na lista apensa são
suficientes para causar às autoridades do Mandato fortes motivos de
alarme. Estamos a fazer tudo para localizar e confiscar esses
depósitos, mas sem grande sucesso até agora.

Isto levanta uma vez mais, e com maior urgência ainda, o problema das
nossas relações com esse cavalheiro. O meu ponto de vista original
era, como sabe, que uma palavra oportuna aos egípcios poria termo ao
caso. Duvido que o próprio Memlik Paxá se arrisque a prejudicar as
relações anglo-egípcias e a recente liberdade do Egipto, recusando-se

a agir se lhe solicitarmos. Nem precisamos de nos imiscuir nos meios


de que ele se servirá para resolver o problema.

As nossas mãos, pelo menos, ficarão limpas.


278

Mas é óbvio que as actividades de Hosnani devem encontrar o seu termo


e sem demora.

Remeto uma cópia desta carta para o Ministério da Guerra e outra para
o Ministério dos Negócios Estrangeiros. A cópia para Londres segue
via aérea com uma mensagem pessoal e urgente do Comissário para o
secretário dos Negócios Estrangeiros rogando-lhe para agir em
conformidade. Sem dúvida receberá notícias de Londres antes do fim da
semana.

Qualquer comentário à carta de Mr. Pursewarden parece-me nestas


condições supérfluo. Os documentos juntos a este memorando constituem
explicação suficiente. É evidente que ele não conseguiu enfrentar os
seus deveres.

Sou, Excelência, o vosso mais obediente servidor

Oliver Maskelyne, Brigadeiro.»

Os dois homens suspiraram simultaneamente, encarando-se.

— Bem — disse afinal Errol, carregando com um dedo voluptuoso sobre o


maço de fotocópias —, temos finalmente a prova positiva. — Estava
radiante. Mountolive abanou fracamente a cabeça e acendeu outro
charuto. — Limitei-me a dar uma olhadela à correspondência, sir, mas
todas as cartas têm a assinatura de Hosnani. Estão escritas à
máquina, é claro. Penso que deseja examiná-las com vagar e, portanto,
deixo-o até precisar de mim. Esta bem?

Mountolive passou um dedo pelo grande maço de papéis com um


sentimento de náusea e concordou com um gesto vago.

— Muito bem — disse Errol vivamente, fazendo meia volta. Quando ia a


alcançar a porta, Mountolive recuperou a voz, uma voz que aos seus
próprios ouvidos parecia fraca e velada.
279

- Errol — disse ele —, há mais uma coisa: informe Londres de que


recebemos o memorando de Maskelyne e de que estamos au courant. Diga
que esperamos instruções. Errol fez um sinal de assentimento e
recuou, sorrindo, para a saída. Mountolive lançou então um olhar vago
e bilioso para a papelada concentrada sobre a secretária. Leu
atentamente uma ou duas das cartas, quase sem compreender, e foi
assaltado por uma vertigem. Era como se as paredes do gabinete se
fechassem lentamente sobre ele. Respirou profundamente pelo nariz,
com os olhos muito apertados. Os seus dedos começaram mecanicamente a
tamborilar sobre o mata-borrão, copiando o ritmo sincopado dos
tamborins árabes, os ritmos requebrados que à noite descem flutuando
sobre as águas do Nilo, vindos de qualquer distante embarcação.
Enquanto ali estava, tamborilando mansamente aquele insidioso ritmo
de dança, com os olhos cerrados, como um cego, repetia sem cessar
esta pergunta: «Que estará para suceder agora?» Mas que diabo podia
suceder?

«Deve chegar um telegrama esta tarde», murmurou. Para isso é que eram
de grande socorro as suas ocupações mundanas. A despeito das suas
preocupações íntimas, deixou-se arrastar por aquelas como um cão por
uma trela. A manhã foi relativamente sobrecarregada. O seu almoço foi
um indiscutível sucesso e a visita de surpresa ao Bazar dos Perfumes
confirmou as suas qualidades de brilhante e cuidadoso anfitrião.
Acabado aquilo foi estender-se durante meia hora no seu quarto, com
as cortinas corridas, saboreando uma chávena de chá e lançando-se no
usual debate íntimo que começava sempre pela frase: «Devo preterir
ser um cretino ou um manequim — eis o problema?» A própria
intensidade do seu autodesespero manteve-lhe o espirito afastado de
Nessim até às seis horas, quando a Chancelaria voltou a abrir. Tomou
um duche frio e mudou de roupa antes de sair da Residência.

Quando entrou no gabinete encontrou o candeeiro aceso e Errol sentado


na poltrona, sorrindo benignamente com um telegrama cor-de-rosa entre
os dedos.
280

— Chegou agora mesmo — disse ele passando-o ao chefe como se fosse um


ramo de flores expressamente escolhido. Mountolive pigarreou alto,
numa tentativa de clarear também por esse acto o espírito e a
atenção. Receava que os dedos lhe tremessem e por conseguinte colocou
o telegrama sobre o mata-borrão numa postura favorável, enterrou
profundamente as mãos nos bolsos e debruçou-se para lê-lo,
registando, assim esperava, pouco mais que uma indolente curiosidade.

— É bem claro, sir — disse Errol cheio de esperança, tentando


despertar uma centelha de entusiasmo no seu chefe.

Mas Mountolive leu e releu a coisa antes de tornar a levantar os


olhos. E subitamente assaltou-o uma violenta cólica intestinal.

— Desculpe-me por um instante — disse com precipitação, arrastando


praticamente o jovem secretário para fora da porta — e já volto para
discutirmos o assunto. Embora me pareça bastante claro. Terei de agir
amanhã. Um minuto, sim?

Errol desapareceu com ar de aborrecimento. Mountolive correu para a


retrete; os joelhos tremiam-lhe. Contudo, decorrido um quarto de
hora, novamente refeito, pôde descer com dignidade a escadaria que
conduzia ao gabinete de Errol; entrou com ligeireza, exibindo o
telegrama. Errol estava sentado à secretária; acabava de desligar o
telefone e sorria.

Mountolive estendeu o telegrama cor-de-rosa e deixou-se cair numa


poltrona, reparando, com enfado, na confusão de objectos pessoais que
cobriam a mesa de Errol — um cinzeiro de porcelana em forma de cão
irlandês, uma Bíblia, uma pregadeira de alfinetes, uma dispendiosa
caneta permanente cravada num pedestal de mármore verde, um pesa-
papéis de chumbo sob a forma de uma estatueta de Atena...
281

A espécie de coisas que se espera encontrar no cesto de costura de


uma velha solteirona.

- Bem, sir — disse Errol depois de pigarrear e tirando os óculos. —


Estive no protocolo e disse que V. Ex.a desejava uma entrevista
amanhã com o Ministro dos Negócios Estrangeiros para tratar de um
assunto da maior urgência. Suponho que leva uniforme.

— Uniforme? — perguntou Mountolive, vago.

— Os egípcios impressionam-se com essas coisas.

— Percebo. Sim, creio que sim.

— Eles avaliam a importância do que se lhes diz pela maneira como nos
vestimos para dizê-lo. Donkin insiste constantemente neste ponto e
penso que é verdade.

— É, sim, meu caro (lá estava outra vez Sir Louis! Raios!)

— E penso que deseja apoiar o protesto verbal com um aide-mémoire


definitivo. Devo fornecer-lhe todos os elementos necessários para
estribar as nossas informações, não acha, sir?

Mountolive aquiesceu vivamente. Sentiu-se de súbito invadido por uma


vaga de cólera contra Nessim, um acesso tão pouco familiar que o
surpreendeu. De novo reconheceu as raízes da sua cólera no facto de
ser forçado, pela indiscrição do seu amigo, a tomar semelhantes
medidas; forçado a proceder contra ele. Uma sucessão de imagens
atravessou-lhe o espírito: Nessim fugindo; Nessim na prisão de Hadra;
Nessim acorrentado; Nessim envenenado por um criado... Com os
egípcios nunca se sabia o que podia suceder. A sua ignorância era
igualada por um excesso de zelo que se podia manifestar da forma mais
inesperada. Suspirou.

— Claro, levo uniforme.

— Vou rascunhar o aide-mémoire.

— Perfeitamente.

— Dentro de meia hora já lhe poderei fixar a hora da entrevista.

— Obrigado. E outra coisa: gostaria de levar comigo o Donkin.


282

O seu árabe é muito melhor do que o meu e ele pode tomar notas da
entrevista para mandarmos a Londres um relato completo. Mostre-lhe o
processo e depois mande-o vir ter comigo. Obrigado.

Passou o resto da tarde no seu gabinete a compulsar processos ao


acaso, obrigando-se a trabalhar. Finalmente, o jovem secretário
barbudo entrou com o aide-mémoire dactilografado e a informação de
que a entrevista de Mountolive estava marcada para as nove horas do
dia seguinte. A barbicha dava ao rosto magro e nervoso e aos olhos
húmidos um ar ainda mais juvenil. Aceitou um cigarro e começou a
fumá-lo, expelindo rapidamente o fumo sem engolir, como uma donzela.

— Muito bem — disse Mountolive. — Errol já lhe falou?...

— Sim, senhor.

— Que pensa deste... enérgico protesto oficial? Donkin inspirou


profundamente e respondeu num tom grave:

— Duvido que obtenha uma acção imediata, sir. Desde que o rei
adoeceu, anda tudo desorganizado no Governo. Estão todos com medo uns
dos outros e cada um puxa a brasa à sua sardinha. Tenho a certeza de
que Nur esta de acordo, fará pressão sobre Memlik para agir de acordo
com o seu protesto... mas... — mordiscou os lábios pensativamente —
não sei. Conhece a crónica de Memlik. Ele odeia os britânicos.

O espírito de Mountolive começou subitamente a aligeirar-se, a


despeito de si próprio.

— Santo Deus — disse ele —, não tinha pensado nisso. - Mas eles não
podem simplesmente ignorar um protesto nesses termos. Afinal de
contas, meu caro, a coisa é praticamente uma ameaça velada.

— Bem sei, sir.

— Realmente não vejo como podem ignorá-la.

— Bem, sir, a vida do rei está suspensa por um cabeio-Pode até morrer
hoje mesmo. Há seis meses que não assiste ao divã.
283

Todas as rivalidades estão desencadeadas às claras e acintosamente. A


sua morte alteraria completamente as coisas, todos o sabem. Nur
sobretudo. E a propósito, sir, ouvi dizer que ele não fala com
Memlik. Há sérias razões, provocadas pelas luvas que Memlik recebe-

— E Nur é incorruptível?

Donkin sorriu um sorrisozinho sardónico e abanou a cabeça lenta e


duvidosamente.

— Não sei — disse ele com ar petulante. — Creio que no fundo todos
eles são venais. Mas talvez me engane. Contudo, no lugar de Hosnani,
eu conseguiria paralisar a acção de Memlik com um presente
principesco. A sua venalidade é... quase lendária no Egipto.

Mountolive tentou parecer muito irritado com estas revelações.

— Espero que se engane — disse ele — porque o Governo de Sua


Majestade está decidido a tomar medidas, e eu também. Enfim,
aguardamos até ver, não é verdade?

Donkin continuava a reflectir gravemente e em silêncio. Deixou-se


ficar sentado por um momento, depois levantou-se.

— Errol deu a entender que Hosnani sabia que lhe tínhamos descoberto
o jogo. Sendo assim, porque não fugiu? Deve calcular qual será a
nossa reacção e se não foge é porque se sente capaz de dominar Memlik
de uma maneira ou de outra. Desculpe-me, sir, estava a pensar em voz
alta.

Mountolive observou-o por um momento, com os olhos arregalados.


Tentou dissipar um súbito e, pareceu-lhe, quase desleal sentimento de
optimismo. — Muito interessante — disse por fim. — Confesso que ao
tinha encarado as coisas sobre esse prisma.

— Pessoalmente eu não me dirigiria aos egípcios — disse Donkin


manhosamente; gostava de irritar o chefe, uma a vez por outra. —
Embora não seja qualificado para uma opinião, creio que Maskelyne
dispõe de vários meios de arrumar o assunto. Penso preferível pôr de
parte as vias diplomáticas e pagar a alguém para que dê um tiro ou
envenene esse Hosnani.
284

A coisa não chega a custar cem libras.

— Bem, muito obrigado — disse Mountolive debilmente, o seu optimismo


cedendo de novo a um sombrio turbilhão de emoções semilúcidas, no
meio das quais ele parecia condenado a viver para sempre. — Obrigado,
Donkin.

Donkin, pensou amargamente, parecia-se terrivelmente com Lenine


quando falava do punhal ou do veneno. Era fácil, para um terceiro
secretário, cometer um homicídio por procuração.

De novo sozinho começou a andar de cá para lá sobre a carpeta verde,


agitado por emoções contraditórias que tomavam alternadamente a forma
da esperança e do desespero. O que se ia seguir era agora
irrevogável. Encontrava-se enredado em acções cujas consequências não
podiam ser avaliadas em termos humanos. Havia certamente uma
resignação filosófica a colher desta certeza. Nessa noite velou até
muito tarde, ouvindo discos no enorme gramofone, bebendo um pouco
para além do habitual. De vez em quando atravessava o quarto e ia
sentar-se na escrivaninha georgiana com a pena pousada sobre uma
folha de papel-mármore.

«Minha querida Leila:

Hoje mais do que nunca parece-me indispensável encontrar-me contigo e


peço-te para suplantares os teus...»

Mas não ia além disso. Amachucava as cartas e atirava-as para o cesto


dos papéis. Suplantar os seus... que. Ia começar agora a odiar Leila
também? Algures, numa região ignota da sua consciência, existia o
pensamento» quase a certeza, de que fora ela e não Nessim quem
iniciara estes temerosos planos. Ela era a causa primeira. Não devia
informar Nur, não devia informar o seu Governo dessa suspeita? Não
era provável que Narouz, que era na família o homem de acção,
estivesse mais profundamente enterrado na conspiração que o próprio
Nessim?
285

Suspirou. Que esperavam eles lucrar com uma insurreição judaica?


Mountolive acreditava com demasiada firmeza na mística inglesa para
admitir que alguém pudesse perder a fé nela e na promessa de
segurança e estabilidade futura que dela emanava.

Não, tudo aquilo lhe parecia simplesmente uma loucura gratuita; um


projecto insensato com a finalidade de obter ganhos portentosos.
Tipicamente egípcio! Revolveu com desprezo este pensamento como quem
remexe a mostarda num vidro. Como tudo aquilo era tipicamente egípcio
e portanto tão impróprio de Nessim!

Era impossível dormir nessa noite. Envergou um sobretudo ligeiro,


mais para se dissimular que por outra coisa, e foi dar um grande
passeio ao longo da margem do rio para ordenar os seus pensamentos,
lastimando profundamente não ter um cãozinho que o acompanhasse
ocupando-lhe os pensamentos. Tinha saído pela porta de serviço e o
resplandecente kawass e os dois polícias de guarda ficaram altamente
surpreendidos vendo-o regressar a pé (facto impróprio de um
embaixador) pela porta principal, cerca das duas horas da madrugada.
Desejou--lhes delicadamente boa-noite em árabe e abriu com a sua
chave particular a porta da Residência. Pendurou o sobretudo e
atravessou o grande vestíbulo iluminado, sempre seguido por um cão
imaginário, que deixava as suas pegadas húmidas por toda a parte,
sobre os ladrilhos de madeira polida...

Subindo para o quarto encontrou o (agora concluído) seu retrato,


pintado por Clea, e apoiado contra a parede do primeiro patamar.
Praguejou entre dentes porque a coisa lhe tinha esquecido
completamente; havia seis semanas que tinha a intenção de enviá-lo à
mãe. Insistiria para que seguisse com a mala diplomática no dia
seguinte.

Talvez apresentassem algumas objecções devido ao tamanho, pensou,


mas, de qualquer maneira, insistiria para que fosse dispensada a
licença de exportação para as chamadas «obras de arte».
286

Não era o caso presente, mas desde que um arqueólogo alemão tinha
roubado uma quantidade de estatuária egípcia, vendendo-a aos museus
da Europa, o Governo tornara-se muito reticente em deixar sair do
país qualquer obra de arte. A obtenção de uma licença levaria meses.
Não, a mala diplomática deveria resolver o problema. A sua mãe
ficaria tão satisfeita! Pensou nela, com uma rajada de emoção,
sentada a ler junto da lareira, naquela paisagem rodeada pela neve.
Devia-lhe uma grande carta. Mas não agora. «Depois de tudo ter
passado)), disse ele, e sentiu um pequeno arrepio involuntário.

Mal se deitou foi envolvido por uma teia de sonhos deprimentes e


pouco profundos em que se debateu toda a noite — imagens da grande
rede de lagos com os seus bancos de peixes e nuvens de aves, onde,
uma vez mais, as figuras jovens, dele e de Leila, se moviam embaladas
pelo doce impulso dos remos dentro de água, invadidos pelo crepúsculo
lilás, pontuado pelo matraquear surdo de um tamborim árabe; nos
confins do sonho movia-se a silhueta de outro barco, com dois vultos
a bordo — os irmãos: ambos armados com compridas carabinas. Pouco
faltava para o surpreenderem; mas, na quentura do abraço de Leila,
tal como António em Actium, nem sentia medo. Eles não falavam, ou,
pelo menos, Mountolive não ouvia vozes. Quanto a si, sentia as
mensagens trocarem-se com a mulher que tinha nos braços —
transmitidas pelo pulsar do sangue. Tinham ultrapassado a fase da
palavra — figuras em miniatura de um passado nunca esquecido nem
lastimado e agora infinitamente querido por ser irrecuperável. No
núcleo do próprio sonho, ele sabia que sonhava e acordou descobrindo,
angustiado e surpreendido, lágrimas sobre a almofada. Tomando o
pequeno almoço sentiu-se bruscamente como se tivesse febre mas a
termómetro negou-se a confirmar a suspeita. Levantou-se contrariado e
apresentou-se de ponto em branco, pontualmente, no vestíbulo, onde
encontrou Donkin a passear, muito nervoso, com um maço de papéis
debaixo do braço.
287

- Bem — disse Mountolive indicando com um gesto vago o uniforme —,


aqui estou.

No carro negro, com o galhardete a flutuar, atravessaram suavemente a


cidade, a caminho do Ministério, onde o tímido e simiesco egípcio os
aguardava, cheio de apreensões e solicitudes. Estava visivelmente
impressionado pelo uniforme e pelo facto de os dois melhores
arabistas da Embaixada se terem reunido para o visitar. Sorria, o
olhar brilhante, e inclinava-se afastando automaticamente as mãos com
uma arte consumada. Era um homenzinho tristonho, que usava botões de
punho de estanho e cabelos hirsutos. O seu anseio de aguardar, de
acomodar, era tão grande que tomava espontaneamente atitudes de
amizade, quase de ternura. Os olhos humedeciam-se facilmente. Obrigou
os visitantes a aceitar o café e as guloseimas turcas tradicionais,
como se este gesto representasse uma declaração de amor. Estava
constantemente a limpar a testa, descobrindo o seu enorme sorriso de
pitecantropo. — Ah! Excelência! — disse ele numa voz terna quando os
cumprimentos deram lugar aos negócios. — Conhece bem a nossa língua e
o nosso país. Confiamos em si. Isto era susceptível de traduzir-se
por: «Bem sabe que a nossa venalidade é irremediável, a verdadeira
marca de uma antiga cultura; por consequência não nos sentimos
embaraçados diante de si».

Depois sentou-se e cruzou as mãos sobre o colete cinzento, triste


como um feto engarrafado, enquanto Mountolive entregava o vigoroso
protesto e o monumento da habilidade de Maskelyne. Nur escutou,
abanando a cabeça dubitativamente de vez em quando, os olhos
esbugalhados. Quando Mountolive acabou, levantou-se e declarou com
ardor:

— Naturalmente. Sem demora. Sem demora. — E logo, como se uma dúvida


o assaltasse, sentou-se embaraçado e principiou a brincar com os
botões de punho.
288

Mountolive suspirou quando ele se tornou a levantar.

— É um dever desagradável mas necessário. Posso assegurar ao meu


Governo que a reclamação será atendida rapidamente?

— Rapidamente... rapidamente.

O homenzinho inclinou duas vezes a cabeça e humedeceu os lábios, mas


dava a impressão de não compreendei muito bem as palavras que
empregava.

— Irei avistar-me com Memlik hoje mesmo — acrescentou num tom mais
baixo. Mas o timbre da sua voz tinha-se alterado. Tossiu e comeu um
bolo espanando o açúcar dos dedos com um lenço de seda. — Sim — disse
ele. Se estava interessado no maço de documentos que jazia diante
dele, era simplesmente (ou parecia a Mountolive) devido ao facto de o
intrigarem as fotocópias. Nunca tinha visto essas coisas até então.
Pertenciam ao grande mundo estrangeiro da ciência e da ilusão em que
vivem os povos ocidentais — mundo de grandes poderes e
responsabilidades — de onde eles saíam às vezes, envolvidos em
magníficos uniformes, para tornar mais duro do que habitualmente o
quinhão dos pobres egípcios. — Sim, sim, sim — repetiu Nur como para
dar estabilidade e profundidade à conversa, para dar ao visitante
confiança acerca das suas intenções.

Mountolive sentia-se insatisfeito; ao conjunto faltava franqueza,


determinação. O absurdo optimismo tornou a despertar-lhe no peito e
para se punir desse sentimento (e também porque era extremamente
consciencioso) deu um passo em frente, fazendo avançar a pressão um
pouco mais.

— Se quiser, Nur, e se me autorizar expressamente, estou disposto a


avistar-me com Memlik Paxá. Diga qualquer coisa.

Mas aqui ele estava a irritar a pele recém-nascida «o protocolo e do


sentimento nacional.

— Querido senhor — disse Nur com um sorriso sup1 cante e o gesto de


um mendigo que incomoda um transeunte rico —, isso seria muito
incorrecto.
289

Trata-se de um assunto interno. Não seria conveniente para mim


concordar. E ali estava, reflectia Mountolive regressando à
Embaixada, já não podiam dar ordens no Egipto como nos tempos da Alta
Comissão. Donkin olhava para os dedos com um sorriso meditativo e
brejeiro. O galhardete flutuava alegremente sobre o radiador e
recordava a Mountolive o pendão tremulante do grande veleiro de
Nessim rasgando as águas do porto...

— Que pressagia desta visita, Donkin? — perguntou pousando a mão


sobre o cotovelo do seu barbudo secretário.

— Francamente, sir, eu desconfio da sua eficácia.

— E eu também. — Um assomo elevou-lhe a voz: — Mas terão de agir. Não


consentirei que façam ouvidos de mercador. — E pensava: «Londres vai
fazer-nos sofrer até obter qualquer satisfação». E sentiu-se submerso
por uma vaga de ódio contra uma imagem de Nessim, cujos traços
fisionómicos se confundiam, como numa chapa duplamente impressa por
erro, com os do taciturno Maskelyne. Atravessando o vestíbulo
surpreendeu a sua própria face no grande espelho entre janelas e
descobriu que traduzia um vestígio de irritação.

Surpreendeu-se nesse dia a ter gestos de impaciência para com o


pessoal da missão e os criados da Residência. Começava a sentir-se
quase perseguido.
XIV

Se Nessim tinha a temeridade de rir em surdina para si próprio ao ler


o convite, se apoiava o cartão florido no tinteiro para estudá-lo
melhor, rindo mansamente, vagamente contrariado, era porque estava a
pensar para si próprio:

«Dizer que um homem não tem escrúpulos implica que esse homem nasceu
com escrúpulos e agora decidiu pô-los de parte. Mas pode conceber-se
um homem manifestamente nascido sem consciência? Um homem nascido sem
as faculdades ordinárias da alma?» (Memlik).

É fácil conceber uma criatura coxa, maneta ou cega; mas uma criatura,
atingida por uma deficiência de secreção glandular, enferma de uma
parte mutilada da alma, ao mesmo tempo que se torna um objecto de
admiração pode ser também um objecto de comiseração. (Memlik). Há
homens cujos sentimentos se vaporizam em neblina — como se fossem
premidos por um vaporizador; aqueles que os congelaram — «agulhas e
alfinetes de coração»; outros cresceram sem a noção dos valores, os
agora afectados de daltonismo moral. Os muito poderosos são assim
frequentemente — homens que caminham no meio da nuvem de os das suas
acções, cujo significado não chegam a compreender. Era assim Memlik?
Nessim sentia pelo homem a mesma apaixonada curiosidade que um
entomologista pode ter por um espécime não classificado.
292

Acendeu um cigarro. Levantou-se e pôs-se a percorrer o quarto,


parando uma vez por outra para ler o convite e rir novamente à
sucapa. Não sabia se devia sentir-se inquieto ou aliviado. Ergueu o
telefone e falou a Justine com uma voz tranquila e jovial: «A
Montanha foi procurar Maomé». (Cifra para Mountolive e Nur.) «Sim,
minha. querida. É um alívio ter a certeza. Toda a minha toxicologia e
treinos de tiro! Bem sei que parecem agora idiotas essas precauções.
Era justamente isto que eu desejava que sucedesse, mas, é claro, é
preciso tomar algumas precauções. Bem, fizeram pressão sobre Maomé e
ele pariu um ratinho sob a forma de um convite para um Wird». Ouviu o
riso dela, incrédulo. «Por favor, minha querida, escolhe um dos
Coroes mais belos da biblioteca e manda-mo para o escritório. Há
alguns antigos, com cobertura de marfim, na livraria. Sim, levo-o
comigo para o Cairo, na quarta--feira. Ele precisa de receber o seu
Corão». (Memlik.) Podiam permitir-se gracejar. A trégua seria apenas
temporária; mas, pelo menos de momento, não tinha de recear o veneno
nem o encontro furtivo com uma sombra num beco que podia ter... Não.
A situação parecia prometer um adiamento futuro.

Actualmente, na quinta década do século, a casa de Memlik Paxá


tornou-se famosa nas mais remotas capitais do Mundo, principalmente
devido à arquitectura muito peculiar dos bancos que usam o nome do
seu fundador, e de facto o seu estilo tem todas as curiosas marcas do
gosto deste homem misterioso — todos eles parecem saídos do mesmo
molde grotesco, espécie de paródia de um túmulo egípcio, adaptado por
um discípulo de Corbusier! Seja nas ruas de Roma ou do Rio, uma
pessoa fica pasmada diante das suas fachadas sinistras. Os pilares
curtos e grosso sugerem um mamute atacado de elefantíase, uma
sobrevivência grotesca, ou talvez o renascimento, de algo
genuinamente macabro — uma espécie de gótico-otomano-egípcio. Como se
a estação de Euston se tivesse multiplicado por fissiparidade
binária!
293

Mas hoje em dia o poder do homem escoou-se por esses estranhos


escoadouros do vasto mundo - todo esse poder condensado e
desenvolvido a partir da mesinha de café sobre a qual (às vezes)
escrevia, sobre o divã amarelo dilacerado, onde a letargia o mantinha
pregado dia após dia. (Para as entrevistas de particular importância
usava o turbante e luvas amarelas. Conservava na mão um enxota-moscas
de bazar que o seu joalheiro tinha ornamentado com um motivo de
pérolas.) Nunca sorria. Um fotógrafo grego, que lhe tinha implorado
em nome da arte para sorrir, foi arrastado para o jardim e recebeu
vinte chicotadas pela afronta.

Talvez a estranha mistura da sua hereditariedade fosse a causa disso:


de pai albanês e mãe núbia, vivera a infância no pesadelo das suas
querelas. Era filho único. Era talvez por isso que a ferocidade pura
e simples se aliava nele a um ar de apatia e que a sua voz, que não
passava de um murmúrio, se elevava às vezes num registo hiperagudo
sem que o gesto o acompanhasse. Também o seu aspecto físico — os seus
compridos cabelos fazendo pensar vagamente numa cerda de seda, o
nariz e a boca esculpidos como um baixo relevo na pedra arenosa e
morena da Núbia sobre uma cabeça de montanhês perfeitamente esférica
— denunciava esse amálgama singular. E se sorrisse mostraria uma
semicircunferência de negra alvura sob as narinas achatadas e
dilatadas como borracha. A pele estava cheia de sinais escuros e era
de uma cor muito apreciada no Egipto — a cor da folha do tabaco.
Depilatórios do género da halawa conservavam-lhe o corpo limpo de
cabelos, mesmo as mãos e os antebraços. Mas tinha os olhos pequenos e
enterrados nas pregas da pele como um par de cabeças de alhos. A sua
inquietação revelava-se numa expressão de sonolência perpétua — os
brancos descorados dando a impressão de uma ausência de espírito
glauca —, como se a alma que habitava o grande corpo estivesse
perpetuamente ausente, em férias particulares. Os seus lábios eram
muito vermelhos, o inferior, principalmente; e a sua aparência de
fruto tocado sugeria a epilepsia.
294

Como tinha ascendido tão rapidamente? Degrau a degrau, ocupando


lentos e trabalhosos lugares na Comissão (onde aprendera a desprezar
os seus senhores) e finalmente por nepotismo. Procedia com método.
Quando o Egipto se tornou independente, foi ocupar, num salto
aparatoso, o Ministério do Interior, o que surpreendeu toda a gente.
Foi somente então que ele se despojou da máscara de mediocridade que
usara durante esses anos todos. Soube então espalhar a sua nomeada a
estalos de chicote — pois agora usava um. A alma timorata dos
egípcios solicita constantemente o látego. «A fraqueza é facilmente
explorada por aquele que está habituado a considerar os homens e as
mulheres como moscas», diz o provérbio. No espaço de um ano o seu
nome tornou-se um objecto de terror; murmurava-se que o próprio rei
não era capaz de contrariá-lo abertamente. E a recente independência
do seu país tinha-lhe igualmente proporcionado uma liberdade
magnífica — pelo menos perante os muçulmanos. Os europeus ainda
tinham o direito, nos termos do tratado, de submeter os seus
problemas judiciais ou responder às acções que contra eles fossem
levantadas nos tribunais mistos, que eram órgãos judiciais europeus
com os seus advogados e procuradores europeus (Nota 1). Mas o sistema
judicial egípcio (se é lícito empregar tal designação) estava nas
mãos dos homens de Memlik, sobrevivência anacrónica de um feudalismo
tão terrível como destituído de sentido.

Nota 1 - Para o leitor interessado damos um pequeno esclarecimento: o


direito, como sistema de normas jurídicas, pode ter a sua eficácia
delimitada por uma circunscrição territorial, aplicando-se a todos
aqueles que nela se encontrem domiciliados independentemente de
outras considerações de nacionalidade, raça, religião, etc. (sistema
da territorialidade do direito), ° então vigora apenas para certas
categorias de pessoas, definiu* essas categorias pelos padrões já
citados (sistema de personalidade do direito). O primeiro é o mais
frequente e o que, dentro o Estado, corresponde a uma plenitude de
soberania, que entretanto reconhece limitações (V. G. as normas do
direito internacional, público e privado). (N. do T.).
295

A era do cadi estava longe de ter passado para eles e Memlik agia
como se dispusesse de um firman do sultão. Não havia de facto ninguém
que se lhe opusesse. Punia com dureza e frequentemente, sem
interrogar a vítima e muitas vezes a partir de simples mexericos ou
remotas suspeitas. Pessoas desapareciam silenciosamente e sem
apelação — no caso de terem tempo de formular alguma — ou então
reapareciam mais tarde estropiadas ou cegas, e sem o menor desejo de
contar o que lhes sucedera. («Veremos se lhe apetece cantar?»,
costumava dizer Memlik, referindo-se ao costume de cegar os canários
com um ferro em brasa, operação muito corrente e que tinha o mérito,
dizia-se, de lhes melhorar as qualidades canoras.)

Indolente e esperto, o seu pessoal era especialmente constituído por


gregos e arménios. Era raro ir ao seu gabinete no Ministério deixando
os negócios entregues aos favoritos, explicando e lastimando-se de
ser constantemente assediado por pedinchões que lhe faziam perder o
tempo. (Na realidade temia que o assassinassem, pois o lugar era dos
mais vulneráveis. Seria fácil, por exemplo, colocar uma bomba nos
armários nunca limpos e onde os ratos proliferavam no meio dos
processos amarelados. Fora Hakim Effendi quem lhe metera semelhante
ideia na cabeça a fim de ficar com o pulso livre no Ministério.
Memlik percebia mas não se importava.)

Retirara-se portanto para o velho casarão arruinado, nas margens do


Nilo, onde dava as suas audiências. O lugar estava rodeado por um
bosquezinho de palmeiras e laranjeiras. O rio sagrado corria diante
das janelas e havia sempre qualquer coisa que ver, que fiscalizar:
faluas subindo e descendo o rio, iates a motor onde se gozava a
vida... E era também demasiado longe para que as pessoas o viessem
incomodar por causa de qualquer parente encarcerado. (Hakim, de
qualquer maneira, partilhava das «luvas».)
296

Memlik só recebia ali personalidades verdadeiramente importantes:


erguendo-se com esforço para se sentar no divã amarelo e colocando os
sapatos de atacadores cor de pérola sobre uma almofada de damasco, a
mão direita no bolso interior do casaco, a esquerda segurando um
vulgar enxota-moscas como se fosse um báculo. O seu corpo de
funcionários era constituído pelo secretário arménio (Cirilo) e por
um italiano abonecado (Rafael, barbeiro e alcoviteiro profissional),
que o acompanhavam minorando a monotonia do trabalho oficial,
sugerindo prazeres capazes de interessar, pela sua perversidade, um
homem que parecia ter perdido o interesse por tudo menos pelo
dinheiro. Disse que Memlik nunca sorria, mas, às vezes, quando se
encontrava bem humorado, puxava pelos cabelos de Rafael com um ar
sonhador e colocava os dedos sobre a boca para sufocar o riso. Isso
dava-se quando ele reflectia profundamente antes de levantar o
auscultador do velho telefone para chamar a prisão central, por
exemplo, só pelo prazer de ouvir o terror manifesto do guarda quando
dizia o seu nome. Rafael soltava então cacarejos aduladores, rindo
até as lágrimas lhe correrem pelos olhos, enterrando o lenço na boca.
Memlik não sorria. Arrepanhava ligeiramente as bochechas e exclamava:
«Alá! Tu ris». Tais ocasiões eram poucas e espaçadas.

Era realmente tão mau como diziam? Nunca se saberia a verdade. As


lendas reúnem-se facilmente em redor de uma tal personagem que
pertence mais à lenda que à vida. («Certa vez, ameaçado de
impotência, desceu à prisão e ordenou que duas raparigas fossem
flageladas até morrer, à sua vista, enquanto uma terceira era
forçada» — 1ue pitorescas as imagens poéticas da língua do profeta.
-«a reanimar o seu espírito desfalecido». Dizia-se que assistia a
todas as execuções, tremendo e cuspindo sem cessar. Acabado o drama
pedia um sifão de soda para se desalterar... Mas quem saberá jamais
se tudo isto é verdade.

Era morbidamente supersticioso e incuravelmente venal — o que lhe


começava a trazer uma enorme fortuna; e contudo é difícil conciliar
tudo isto com o facto da sua grande religiosidade — um zelo
verdadeiramente fanático na observância das práticas que só um
egípcio consegue compreender?
297

Foi neste ponto que se levantou a sua querela com o piedoso Nur,
porque Memlik tinha instituído uma espécie de cerimonial da corte
para a recepção das «luvas». A sua colecção de Coroes era famosa.
Estavam arrumados numa arruinada galeria do alto da casa. Todos
sabiam que a forma conveniente de peitá-lo consistia em encher as
páginas do Livro Santo com notas de banco ou outros valores
negociáveis e (com uma profunda reverência) oferecer-lhe esta modesta
contribuição para a sua soberba biblioteca. Ele aceitava o presente e
respondia, agradecendo ao doador, que ia ver se já não possuía um
exemplar igual. Quando regressava, o postulante ficava a saber o
despacho da sua pretensão, favorável se Memlik lhe agradecia de novo
dizendo que arrumara o livro na sua biblioteca, desfavorável se o
devolvia (devidamente aliviado do seu conteúdo) dizendo que já
possuía o exemplar. Nur dizia que esta pequena cerimónia «lançava o
descrédito sobre o Profeta», o que lhe valeu o ódio tenaz de Memlik.

A longa galeria em cotovelo, onde ele recebia, era também algo


desconcertante. Os quebra-luzes de vitrais coloridos transformavam os
visitantes em arlequins, cuspindo verde, escarlate e azul sobre as
suas faces e roupas, enquanto atravessavam a enorme sala para
cumprimentar 0 anfitrião. Para além das janelas obscuras corria o rio
cor de cacau em cuja margem oposta ficava a Embaixada britânica, com
os seus elegantes jardins, onde Mountolive costumava espairecer nas
noites de solidão. A parede da grande sala de Memlik estava quase
totalmente coberta por duas enormes e incongruentes pinturas
victorianas de algum mestre esquecido e que, sendo demasiado grandes
pesadas para pendurar, repousavam simplesmente no solo dando a
impressão de tapeçarias emolduradas. Mas o assunto! Numa viam-se os
Israelitas atravessando o Mar Vermelho, que gentilmente se abria para
deixá-los passar; na outra, um Moisés hirsuto batia numa rocha com um
cajado de pastor.
298

De certo modo estes motivos bíblicos condiziam perfeitamente com o


mobiliário — com as grandes carpetas, otomanas e as cadeiras de feios
espaldares verticais forrados de damasco azul, o enorme candelabro
metálico com os seus círculos de lâmpadas eléctricas acesas dia e
noite. Ao lado do divã amarelo, um busto em tamanho natural, de
Fouché, atraía imediatamente a atenção pela sua incongruência. Um dia
Memlik ficara lisonjeado pelo que lhe dissera um diplomata francês:
«Vossa Excelência é considerado como o melhor Ministro do Interior da
história moderna — na verdade, desde Fouché, nenhum se lhe compara».
A observação talvez trouxesse veneno, mas impressionou Memlik que
encomendou imediatamente um busto. O ministro cruel dos franceses
tinha um ar ligeiramente reprovador no meio daquela sala egípcia,
densamente coberta de poeira. O mesmo diplomata descrevia a sala de
Memlik como uma galeria de um museu geológico abandonado ou um
recanto do velho Palácio de Cristal — o que era duro mas
perfeitamente justo.

Nessim registou todos estes pormenores com dissimulada ironia


enquanto esperava que o anunciassem. Estava encantado por ter sido
convidado para participar num Wird (Nota 1) na companhia do terrível
Memlik. Estas sessões nada tinham de excepcional, por mais estranhas
que parecessem, visto que Memlik organizava frequentemente estas
chamadas «Noites de Deus», não sendo esta sua piedade inconsistente
com o seu carácter misterioso; escutava a oração atentamente, às
vezes até às duas e três horas da madrugada, imóvel como uma serpente
adormecida. Sucedia-lhe até às vezes juntar a sua voz aos «Alas»
convencionais com que a assistência manifestava a sua satisfação por
certas passagens particularmente felizes do Evangelho...

Nessim atravessou a câmara num passo ligeiro e vivo e, depois de


levar a mão ao peito e aos lábios segundo a praxe, sentou-se em
frente de Memlik para lhe exprimir a sua gratidão e significar que se
sentia grandemente honrado.

Nota 1 - Wird: oração rezada em comum. (N. do T.)


299

Nessa noite Memlik tinha convidado somente nove ou dez pessoas e


Nessim compreendeu que o Ministro limitara a assembleia para poder
estudá-lo mais à vontade; provavelmente até para poder falar a sós
com ele. Conservava na mão o precioso Corão embrulhado em papel de
seda e devidamente lastrado de cheques negociáveis na Suíça.

— Oh, Paxá! — proferiu docemente. — Ouvi falar da vossa lendária


biblioteca e peço que me dês o prazer de aceitar a modesta
contribuição de outro amante dos livros. Pousou o presente na mesinha
e aceitou o café e os bolos que lhe serviram. Memlik não respondeu
nem alterou a sua posição no divã enquanto Nessim sorvia o café;
depois, disse em tom indiferente:

— O hóspede foi honrado. Eis os meus amigos. Fez as apresentações,


breves e superficiais; os outros visitantes formavam uma estranha
assembleia para uma recitação em comum do Corão: Nessim notou que
nenhum deles pertencia à «sociedade» do Cairo. Nem de vista conhecia
qualquer deles, mas foi delicado com todos. Depois permitiu-se alguns
comentários sobre a beleza da sala de recepção e sobre a alta
qualidade dos quadros encostados à parede. Memlik gostou e observou
com indolência:

— É a minha sala de recepção e o meu gabinete de trabalho. É aqui que


vivo.

- Tinha ouvido descrevê-la muitas vezes — replicou Nessim cortês —


àqueles que tiveram a felicidade de visita-lo por necessidade ou por
prazer.

— O meu trabalho — disse Memlik — faz-se às terças-feiras, apenas.


Nos outros dias divirto-me com os meus amigos.

A Nessim não escapou a ameaça daquelas palavras; a terça-feira é


considerada pelos muçulmanos o dia menos favorável da semana para as
empresas humanas, porque crêem que foi nesse dia que Deus criou todas
as coisas desagradáveis.
300

É o dia escolhido para a execução dos criminosos; ninguém ousa casar-


se numa terça-feira, porque, diz o provérbio: «Casado na terça-feira,
enforcado no sábado». E segundo a palavra do Profeta: «Na terça-
feira, o Senhor criou as trevas absolutas».

— Felizmente — disse Nessim sorrindo — hoje é segunda-feira, o dia em


que Deus criou as árvores.

E levou a conversa para as belas palmeiras que cabeceavam lá fora:


uma habilidade que quebrou o gelo e lhe valeu a admiração dos outros
convivas.

O vento tinha mudado e depois de meia hora de conversa inofensiva as


portas corrediças da extremidade do salão abriram-se para dar
passagem aos convidados para o banquete servido em duas grandes
mesas. A sala estava ornamentada com magníficas flores. Aqui,
finalmente, diante dos requintados petiscos que cobriam a mesa de
Memlik, os convivas animaram-se e perderam um pouco da reserva
anterior. Um ou dois deles falaram e o próprio Memlik, embora nada
comesse, ia lentamente de um para outro, trocando cumprimentos em voz
baixa. Aproximou-se finalmente de Nessim e disse com simplicidade,
com um ar quase cândido:

- Desejava especialmente vê-lo, Hosnani.

— É para mim uma honra, Memlik Paxá.

— Tenho-o avistado nas recepções; mas não tínhamos amigos comuns que
nos apresentassem. Grande pena.

— Grande pena.

Memlik suspirou e abanou-se com o enxota-moscas, queixando-se do


calor da noite. Depois, disse no tom do homem que debate alguma coisa
consigo próprio, quase hesitante:

— Senhor, o Profeta diz que o grande poder concita grandes


inimizades. Eu sei que sois poderoso.

— O meu poder é insignificante mas, apesar disso, tenho inimigos.


301

— Grande pena.

— Na verdade.

Memlik transferiu o peso do corpo para a perna esquerda e palitou os


dentes pensativamente por um momento; depois prosseguiu:

— Penso que nos poderemos entender perfeitamente, sem dificuldades.

Nessim cumprimentou formalmente e permaneceu calado enquanto o seu


anfitrião o considerava especulativamente, respirando lento e
compassado por entre os lábios entreabertos.

— Quando se querem queixar vêm ter comigo, à própria fonte de todas


as queixas. Considero o facto aborrecido mas, às vezes, sou obrigado
a agir a favor dos que se queixam. Está a compreender-me?

— Perfeitamente.

— Em certos momentos, não sou forçado a agir. Mas há outros em que


posso ser forçado. Entretanto, Nessim Hosnani, homem prudente, afasta
as razões de queixa.

Nessim tornou a cumprimentar graciosamente e ainda desta vez


permaneceu calado. Era inútil prosseguir a dialéctica das suas
respectivas posições enquanto o seu presente não tivesse sido
definitivamente aceite. Memlik percebeu provavelmente, porque
suspirou e afastou-se para junto de outro grupo. Finalmente o jantar
terminou e todos se retiraram de novo paxá o salão de recepção. O
pulso de Nessim acelerou-se porque, nesse momento, Memlik pegou no
embrulho e desculpou-se dizendo:

— Tenho de comparar este livro com os outros da minha colecção. O


sheik desta noite - o de Zmbabi — não deve tardar. Estejam à vossa
vontade. Não me demoro. Saiu da sala. Começou uma conversa geral em
que Nessim tentou tomar parte embora descobrisse que o coração lhe
palpitava violentamente e que os dedos lhe tremiam quando levava o
cigarro à boca. Pouco depois as Portas abriram-se para dar passagem a
um velho sheik cego que tinha vindo presidir a esta «Noite de Deus».
302

A assembleia rodeou-o, pegando-lhe nas mãos e saudando-o


afectuosamente. Nesse momento Memlik entrou abruptamente e Nessim viu
que ele trazia as mãos vazias: então murmurou uma prece entre dentes
e enxugou a testa. Não tardou muito tempo que se recompusesse uma vez
mais. Conservava-se de pé, um pouco afastado do grupo que rodeava o
velho pregador cego, cujo rosto vazio se voltava na direcção de cada
voz que lhe falava, com um gesto automático de um mecanismo
construído para captar ondas de som; o seu ar de doce confusão
sugeria todo o fantasmagórico contentamento de uma fé absoluta em
algo que é tanto mais convincente quanto menos é apreensível pela
razão. Tinha as mãos cruzadas sobre o peito; aparentava uma timidez
de criança, marcada pela beleza transcendente de um ser humano cuja
alma se transformou num objecto votivo.

O paxá aproximava-se de Nessim, mas por etapas, tão espaçadas entre


si e tão circunvagantes que ao último parecia que Memlik jamais o
alcançaria. Este progredir lento era ainda prolongado pela
distribuição de cumprimentos, com um ar negligente. Mas por fim
encontrou-se à ilharga de Nessim com o mata-moscas sempre pendente
dos seus dedos longos e expressivos.

— O seu presente é efectivamente precioso — disse finalmente Memlik,


numa voz arrastada e ligeiramente melosa. — Absolutamente aceitável.
De resto, cavalheiro, a vossa sabedoria e discernimento são já
lendários. Mostrar surpresa seria demonstrar uma ignorância grosseira
desse facto.

A forma que Memlik utilizava invariavelmente era tao delicada e


habilmente expressa em árabe que Nessim não pôde deixar de se mostrar
surpreendido e agradado. Só uma pessoa realmente cultivada seria
capaz de utiliza semelhante linguagem. Ignorava que Memlik tinha
aprendido aquilo de cor para utilizar em circunstâncias análogas.
Inclinou a cabeça como quem está a receber um abraço, mas conservou-
se em silêncio. Memlik abanou-se um momento com o enxota-moscas antes
de acrescentar em tom diverso:
303

- Claro, há outra coisa ainda. Já lhe falei, caro effendi, das


queixas que me são apresentadas. Em todos os casos dessa natureza sou
obrigado, cedo ou tarde, a investigar as causas. Grande pena.

Nessim voltou para os outros os seus doces olhos negros e, sempre a


sorrir, murmurou:

— Senhor, quando tiver chegado o Natal europeu, uma questão de meses,


já não haverá mais razões de queixa.

— Então o tempo é importante — observou Memlik reflexivamente.

— O tempo é o ar que respiramos, assim diz o provérbio.

O paxá, meio voltado e como se dirigisse agora a toda a assembleia,


acrescentou:

— A minha colecção tem necessidade da sua muito esclarecida


sabedoria. Espero que possa encontrar-me ainda outros tesouros da
Santa Palavra.

Nessim inclinou-se de novo.

— Tantos quantos eu julgo dignos de si, paxá.

— Lastimo não nos termos conhecido há mais tempo. Grande pena.

— Grande pena.

Mas o paxá devia atender também a outros convidados e afastou-se. O


largo círculo de desconfortáveis cadeiras de espaldar rígido estava
quase todo ocupado pelos outros visitantes. Nessim foi sentar-se
numa, vazia, enquanto Memlik se alcandorava lentamente no seu divã
amarelo, como um náufrago que se eleva para uma jangada em pleno
oceano. Deu um sinal e os criados entraram para retirar as chávenas
de café e os doces; trouxeram também uma esguia e elegante cadeira
de espaldar direito com obra de talha nos braços e almofadas verdes,
que instalaram para o pregador a um dos lados do quarto. Um dos
convidados levantou-se e conduziu o cego para a cadeira com murmúrios
de respeito.
304

Retirando em boa ordem, os criados fecharam e trancaram as portas da


entrada da sala. O Wird estava prestes a principiar. Memlik abriu a
sessão com uma citação do teólogo Ghazzali — uma inovação
surpreendente para alguém, como Nessim, cuja opinião acerca do homem
se fundara até agora na lenda. «O único meio», disse Memlik, «de um
homem se unir a Deus é pelo constante contacto com Ele». Tendo
proferido tais palavras recostou-se e fechou os olhos, como se
exausto pelo esforço. Mas a frase teve o efeito de um sinal, porque,
enquanto o pregador cego elevava o pescoço descarnado e tomava uma
inspiração profunda antes de começar, toda a assistência reagiu
unanimemente; apagaram-se imediatamente todos os cigarros,
descruzaram-se todas as pernas, apertaram-se os botões do casaco e os
corpos tomaram uma postura respeitosa.

Depois esperaram todos com emoção que a velha voz, melodiosa e gasta
pelo tempo, soltasse as primeiras estrofes do Livro Santo e nada
havia de hipócrita na atenção respeitosa daquele círculo de rostos
venais. Alguns humedeceram a boca e debruçaram-se energicamente para
diante como para recolher as palavras nos lábios; outros baixaram as
cabeças e fecharam os olhos como se ouvissem uma música inovadora. O
velho pregador, com as mãos de cera descansadas no colo, recitou o
primeiro sura repassado do quente colorido de uma compreensão
familiar, a voz um pouco hesitante no começo mas ganhando poder e
firmeza no silêncio que o envolvia. Os seus olhos estavam agora
enormes e baços como os de uma lebre morta. O auditório escutava os
versículos que lhe caíam dos lábios com fascinada concentração,
procurando gradualmente insinuar-se na corrente da oratória, como um
cardume de peixes que segue instintivamente o chefe para as
profundezas do mar. O constrangimento de Nessim deu lugar a uma
tépida sensação que lhe encheu o peito, porque adorava também os
suras, e o velho pregador tinha uma voz magnífica, embora a
tonalidade fosse ligeiramente velada e sem inflexão.
305

Mas era uma «voz do fundo do coração» — toda a sua pureza espiritual
se escoava como um rio de sangue nos versículos magníficos, enchendo-
os com o seu próprio ardor; e podia sentir-se a audiência vibrar e
responder como as velas de um navio ao sopro do vento. «Allah!»,
suspiravam eles, e estes soluços aumentavam a confiança da velha voz
com o seu doce registo alto. «Uma voz cuja melodia é mais doce que a
caridade», diz o provérbio. A recitação era dramática e de estilo
vário, mudando o pregador de tom para acompanhar a substância das
palavras, agora admoestando, logo suplicando, depois ameaçando, outra
vez admoestando. Não surpreendia a sua perfeição porque no Egipto a
faculdade dos pregadores cegos para decorar é famosa, e demais todo,
o Corão não é mais extenso que dois terços do Novo Testamento. Nessim
escutava-o com ternura e admiração, os olhos postos no tapete,
semiempolgado pela maré de poesia que lhe afastava o espírito das
infindáveis especulações sobre o problema de qual seria a resposta
que Memlik daria às pressões que Mountolive tinha sido forçado a
exercer sobre ele. Entre cada sura havia um breve intervalo de
silêncio mas ninguém se movia ou falava, parecendo todos afundados na
meditação do que antes fora dito. O pregador afundava o queixo no
peito como para recuperar forças e cruzava docemente os dedos. Depois
erguia de novo o rosto e declamava, e de novo se sentia também a
tensão das palavras atravessar a consciência dos ouvintes. Já passava
da meia-noite quando ficou concluída a recitação o Corão e o
auditório perdeu, em certa medida, a concentração anterior quando o
velho principiou a contar as lendas tradicionais; estas já não eram
escutadas como se fossem uma partitura musical, mas seguidas por uma
mente activa e educada na tradição dos provérbios: estes presentam a
dialéctica da revelação, a sua ética e a sua pragmática. O auditório
correspondia à alteração do tom deixando as faces abrirem-se e
entregarem-se às múltiplas expressões que traduziam as diversas
actividades deste mundo: banqueiros, estudantes ou comerciantes.
306

A sessão terminou depois das duas da madrugada e Memlik acompanhou os


seus convidados à porta onde os seus carros os esperavam, com as
superfícies cromadas cobertas de orvalho-. A Nessim disse numa voz
intencional — uma voz que descia ao fundo da sua amizade recente como
um fio de chumbo pesadamente lastrado: — Tornarei a convidá-lo,
Senhor, enquanto me for possível. Mas reflicta.

E tocou ligeiramente no botão da jaqueta do seu convidado como para


sublinhar aquela observação.

Nessim agradeceu-lhe e encaminhou-se para o carro; o grande alívio


que sentia não estava isento de dúvidas. Na melhor das hipóteses,
ganhara uma suspensão da acção que não alterava fundamentalmente a
inimizade das forças alinhadas contra ele. Mas, mesmo assim, era já
bem bom; quanto tempo duraria, porém? Era impossível adivinhar.
Justine ainda não se deitara. Encontrava-se sentada no vestíbulo do
Shepheards Hotel com um café turco intacto diante dela. Levantou-se
vivamente quando o viu atravessar a porta com o seu sorriso habitual,
cheio de doçura e afabilidade; não se moveu mas cravou nele os olhos
com uma intensidade grave, como se tentasse decifrar o que ele sentia
pela interpretação dos seus gestos. Finalmente afrouxou e sorriu,
suspirando:

— Oh, que alívio! Graças a Deus! Percebi logo pelos teus olhos,
quando entraste.

Beijaram-se ternamente e ele deixou-se cair numa poltrona,


murmurando:

— Meu Deus, pensava que nunca mais acabava. Passei também parte do
tempo em grande ansiedade. Jantas sozinha?

— Sim. E vi David.

— Mountolive?

— Ele veio a qualquer grande banquete. Cumprimentou-me friamente mas


não parou para falar.
307

A verdade é que vinha acompanhado de algum banqueiro, creio eu.


Nessim pediu um café e, enquanto o bebia, ia dando conta do seu
encontro com Memlik.

— É evidente — disse ele pensativamente — que a pressão dos ingleses


se baseia na correspondência que confiscaram na Palestina. A agência
de Haifa informou Capodistria desses factos. A coisa foi apresentada
assim a Nur para obrigá-lo a agir. — Com a lapiseira desenhou num
sobrescrito uma forca com um corpo pendente. — Consegui que Memlik
sugerisse a possibilidade de adiar a acção, mas uma pressão dessa
natureza não pode ser indefinidamente ignorada; mais tarde ou mais
cedo será forçado a satisfazer Nur. Disse-lhe virtualmente que pelo
Natal estaria pronto... estaria fora da zona perigosa. As suas
investigações não conduzirão então a nada.

— Se tudo correr de acordo com os planos.

— Tudo correrá de acordo com os planos.

— E depois?

— E depois! — Nessim espreguiçou-se bocejando e piscou o olho a


Justine. — Havemos de tomar novas disposições. Da Capo desaparecerá;
tu partirás. Leila irá passar umas grandes férias no Quénia, com
Narouz. E é tudo.

— E tu?

— Ficarei por cá algum tempo para manter as coisas em ordem aqui. A


comunidade precisa de mim. Há ainda muito que fazer, politicamente.
Depois irei ter contigo e gozaremos uma longa temporada na Europa ou
onde quiseres.

Ela olhava-o sem sorrir:

- Sinto-me nervosa — disse ela por fim com um pequeno arrepio. — Se


não te importas gostava que fôssemos passear um pouco junto do Nilo
antes de nos irmos deitar.

Ele acedeu com prazer, e durante uma hora o carro percorreu docemente
os caminhos marginais sob os nobres jacarandás, o motor ronronando
enquanto eles falavam intermitentemente em voz baixa.
308

— O que me preocupa — disse ela — é que tu tenhas sobre o ombro a mão


de Memlik. Quando conseguirás sacudi-la? Se ele tem provas firmes
contra ti, vai espremer-te até te deixar seco.

— De qualquer maneira — disse Nessim tranquilamente — seria mau para


nós. Porque se ele abrisse um inquérito daria ao Governo uma
oportunidade de sequestrar as nossas propriedades. Prefiro
satisfazer-lhe a cupidez enquanto puder. Depois veremos. O principal
é concentrarmo-nos na batalha que se aproxima.

Quando ele pronunciou estas palavras iam justamente passando diante


dos jardins brilhantemente iluminados da Embaixada inglesa. Justine
teve um sobressalto e puxou a manga do marido, pois acabava de
avistar um vulto a passear em pijama pelos jardins com um ar de
distracção familiar.

— Mountolive — disse ela.

Nessim lançou um olhar de tristeza para o amigo, subitamente possuído


da tentação de parar o carro e entrar nos jardins para surpreendê-lo.
Tal gesto teria sido uma coisa natural havia três meses. Como era
possível que as coisas tivessem mudado a tal ponto?

— Ele vai apanhar frio — disse Justine. — Está descalço. A ler um


telegrama.

Nessim carregou no acelerador e a viatura entrou na curva da avenida.

— Provavelmente não pode dormir; veio refrescar os pés na erva antes


de voltar para a cama. Costumávamos fazer isso muitas vezes. Lembras-
te?

— E o telegrama?

Realmente não havia grande mistério a respeito telegrama que o insone


Embaixador tinha nas mãos e que estudava de tempos a tempos enquanto
andava de ca para lá com um charuto na mão. Uma vez por semana fazia
uma partida de xadrez com Baltasar, o que lhe proporcionava um grande
alívio e a espécie de repouso comparável àquele que os grandes
trabalhadores fatigados colhem na solução de problemas de palavras
cruzadas.
309

Não viu sequer o grande carro em frente dos jardins, a caminho da


cidade.
XV

Os actores deviam permanecer assim durante várias semanas, como


fixados para sempre em posturas capazes de ilustrar a incalculável
diversidade dos caminhos da Providência. Mountolive, mais do que
todos os outros, tinha o desanimador sentimento da sua incapacidade
profissional, a sua impotência para agir apenas como um instrumento
(e não mais como um factor), tão fortemente se sentia aprisionado
pela órbita da política. Os impulsos e as decisões particulares não
contavam mais. Sentiria Nessim, conjecturava ele, o crescente sabor
de estagnação que cobria tudo? Recordava-se amargamente das palavras
de Sir Louis penteando-se diante do espelho: «A ilusão de que terá
liberdade de agir!» Agora sofria regularmente de dores, de atrozes
enxaquecas e de dores de dentes. Convenceu-se de que isto era devido
a fumar em excesso e tentou, sem resultado, abandonar o tabaco. O
esforço para se desembaraçar do vício do fumo só serviu para torná-lo
mais infeliz.

Mas se ele próprio se sentia impotente, como não se sentiriam os


outros? Tal como as projecções estioladas de uma imaginação doente,
sentiam-se desprovidos de significação, vazios como fatos pendurados;
eram simples peças tomando posição neste drama incolor de vontades em
conflito. Nessim, Justine, Leila — tinham agora um ar substancial,
como projecções de um sonho agindo num mundo habitado por
inexpressivos bonecos de cera.
312

Era difícil conceber que lhes devesse sequer algum amor. O silêncio
de Leila sugeria, acima de tudo, e com bastante clareza, a culpa da
sua cumplicidade.

O Outono aproximava-se do fim sem que Nur obtivesse qualquer prova


que lhe permitisse agir. As linhas de comunicação entre a Embaixada e
Londres ficaram obstruídas pela troca de telegramas cada vez mais
extensos, carregados de frases biliosas oriundas de espíritos que
supunham poder influenciar o que não era um simples acaso —
Mountolive sabia-o agora — mas na realidade o próprio destino. E,
paradoxalmente, esta primeira grande lição que a profissão lhe devia
ensinar não era desprovida de interesse: fora do pequeno círculo dos
seus terrores e das suas hesitações pessoais, observava o assunto com
uma espécie de atenção concentrada que era quase admiração temerosa.
Mas sentia-se como uma espécie de múmia enfadada quando de novo
procurou Nur, quase envergonhado com o luxo daquele uniforme cujo
único fim era impor a sua presença ao ministro. O velhote estava
febrilmente desejoso de satisfazê-lo; parecia um macaquinho
acorrentado, saltando alegremente. Mas que podia fazer? Tentava
exprimir em caretas as suas desculpas. O inquérito iniciado por
Memlik ainda não estava terminado. Era essencial conhecer toda a
verdade. Havia novas pistas a seguir. E assim por diante. Mountolive,
pela primeira vez na sua vida oficial, deu um murro de amigável
exasperação na mesa poeirenta que os separava. Tomou um ar de bondade
e predisse uma rotura de relações diplomáticas. Chegou mesmo ao ponto
de prometer a Nur uma condecoração... descobrindo que este era o
último recurso. Mas em vão.

A maciça e contemplativa figura de Memlik, espojada no divã, prometia


tudo e não fazia nada; inamovível, imperturbável, e apenas
ligeiramente malevolente. Agora toda a gente fazia pressão, uns
contra os outros, para ale do ponto de polida conciliação: Maskelyne
e a Alta Comissão insistiam com Londres para que agisse; Londres,
imbuída da sua moralizante grandeza, insistia com Mountolive;
313

Mountolive insistia com Nur, esmagando o velho com o sentimento da


sua própria impotência, porque ele próprio nenhum poder tinha sobre
Memlik sem a ajuda do rei: e o rei estava doente, muito doente. Na
base desta pirâmide encontrava-se a figura do ministro do Interior,
com a sua inestimável colecção de Coroes fechados em armários
poeirentos.

Obrigado a manter a pressão diplomática, Mountolive sentia-se agora


irritado por um sentimento de futilidade quando (como qualquer jeune
premier prematuramente envelhecido) escutava a torrente de desculpas
de Nur, sorvendo o café cerimonial e procurando ler naqueles olhos
cansados e implorantes.

— Mas que mais provas são precisas, Paxá, do que os documentos que eu
lhe apresentei?

As mãos do ministro afastavam-se num gesto amplo, afagando o espaço


como se estivesse a oleá-lo; segregava um aspecto conciliatório e
apologético, como um unguento.

— Ele está a estudar o assunto — crocitava Nur com um ar desesperado.


— Para começar, há mais do que um Hosnani.

A sua cabeça enrugada de tartaruga oscilava para trás e para diante,


como um pêndulo. Mountolive gemia interiormente pensando naqueles
intermináveis telegramas desenrolando-se como uma ténia. Nessim
estava agora, por assim dizer, oculto atrás dos seus diversos
adversários, Numa posição onde não podia ser hostilizado, pelo menos
nesse momento. O jogo estava bloqueado.

Só Donkin se divertia ironicamente com estas alterações, tão


características do Egipto. A sua própria simpatia pelos muçulmanos
ensinara-lhe a ler claramente os eus Motivos, a discernir o jogo de
ambições infantis ocultas 0 silencio histriónico de um ministro, sob
as suas fáceis Promessas. Mesmo a crescente histeria de Mountolive
Perante estes fracassos era uma fonte de divertimento para
secretário.
314

A tensão permanente transformara o seu chefe num dignitário petulante


e irritadiço. Quem o poderia ter previsto?

A observação de que existia mais de um Hosnani era bizarra e brotara


da imaginação presciente de Rafael certa manhã em que barbeava o seu
amo; Memlik dava grande crédito ao discorrer do seu barbeiro — não
era ele um europeu? Enquanto o italiano o escanhoava, costumavam
discutir a agenda do dia. Rafael estava sempre cheio de ideias e
opiniões, mas emitia-as obliquamente, simplificando-as para que se
apresentassem de forma imediatamente apreensível. Sabia que Memlik se
sentia perturbado com a insistência de Nur, embora não desejasse
reconhecê-lo; sabia, demais, que Memlik só agiria se o rei melhorasse
o bastante para conceder uma audiência a Nur. Era uma questão de
sorte e de tempo; entretanto, porque não havia de continuar a sugar
Hosnani? Ele constituía apenas um dos muitos assuntos que se estavam
a cobrir de poeira (e a ele de presentes) enquanto o rei continuava
doente.

Um belo dia os médicos alemães de Sua Majestade haviam de fazê-lo


melhorar e então o rei daria novamente audiência. Chamaria Nur. Era
assim que tudo se havia de passar. A seguir, o telefone colocado
junto do divã amarelo tocaria e a voz do velho (disfarçando a euforia
do triunfo) havia de dizer: «Aqui fala Nur, que se encontra junto do
próprio rei, em audiência. É sobre o assunto de que falámos,
relacionado com a queixa do Governo inglês. Agora é preciso levar as
coisas por diante e sem mais delongas. Que Deus seja louvado!»

Que Deus seja louvado! E a partir desse ponto Memlik teria as mãos
atadas. Mas por enquanto sentia-se livre, livre para exprimir pelo
velho ministro o desprezo que a sua inacção traduzia.

— Há dois irmãos, Excelência — tinha dito Rafael tomando o tom de


quem conta uma história e armando unia expressão de maturidade
tenebrosa no seu rosto de boneca.
315

— Dois irmãos Hosnani e não apenas um, Excelência...

Soltou um suspiro e apoiando os dedos leitosos na face morena de


Memlik começou a manobrar a navalha. Procedia lentamente porque
registar uma ideia na mente de um muçulmano é como pintar uma parede:
temos de esperar a secagem da primeira mão de tinta (a primeira
ideia) antes de aplicar a segunda.

— Um dos dois irmãos é rico em terras, e o outro, o que trouxe o


Corão, é rico em dinheiro. Para que servem as terras a Vossa
Excelência? Mas aquele cuja bolsa é inesgotável... ,

O tom da sua voz sugeria todo o desprezo que sente pela terra o homem
que nunca a possuiu.

— Bem, bem, mas... — disse Memlik com moderada impaciência, sem


contudo mover os lábios onde corria a navalha. Sentia-se impaciente
por ouvir o desenvolvimento do tema.

Rafael sorriu e conservou-se em silêncio por um momento.

— Na verdade — disse por fim —, os papéis que recebeu do Embaixador


eram assinados por Hosnani, o nome de família. Quem podia dizer qual
dos irmãos assinou, qual é o inocente e qual é o culpado?
Sacrificaria o homem prudente aquele que tem dinheiro ao que apenas
possui terras? Eu por certo não o faria, Excelência.

— Que farias então, meu Rafael?

— Não é difícil fazer acreditar aos ingleses que o verdadeiro culpado


é o pobre. Mas isto é apenas o pensar em voz alta de um homem
insignificante que nada percebe dos grandes negócios políticos.

Memlik respirou profundamente pela boca, conservando os olhos


fechados. Era hábil em nunca revelar surpresa. Mas aquela ideia,
agarrando-se preguiçosamente ao seu espírito, enchia-o de um pasmo
reflexivo. No último mês a sua livraria enriquecera-se com três novos
exemplares que lhe davam uma ideia da enorme fortuna do seu cliente
Nessim Hosnani.
316

O Natal não tardava. Satisfazer simultaneamente os ingleses e a sua


cupidez... Isso seria um golpe genial!

Do outro lado das águas acastanhadas do Nilo, a menos de oitocentos


metros de Memlik, Mountolive encontrava-se sentado diante da sua
papelada. Na secretária, sobre o tampo polido, jazia o convite para
um dos acontecimentos sociais mais retumbantes do ano — a caçada aos
patos no lago Mareótis, que Nessim promovia anualmente. Colocara o
cartão sobre o tinteiro para relê-lo com uma expressão de censura.

Mas havia outra comunicação de mais importância ainda. Mesmo depois


de tão longo silêncio reconhecera a letra nervosa de Leila no
sobrescrito pautado que cheirava a chipre. Dentro encontrou uma folha
arrancada de um caderno, cheia de palavras e frases desconexas,
rabiscadas precipitadamente.

«David, parto para o estrangeiro, não sei se por muito se por pouco
tempo, contra a minha vontade. Nessim insiste. Mas preciso ver-te
antes de partir. Reunirei toda a minha coragem para me encontrar
contigo na véspera da partida. Não faltes. Quero fazer-te algumas
perguntas e dar-te algumas informações. Sobre o assunto! Juro-te que
de nada soube antes do carnaval; agora só tu poderás salvar...»

A carta continuava assim, caótica. Mountolive sentiu uma singular


confusão de sentimentos — um incoerente alívio que todavia tremulava
nas franjas da indignação. Depois de tanto tempo, ela ia esperá-lo,
ao anoitecer, perto do Auberge Blue, num velho fiacre, à margem da
estrada, debaixo das palmeiras! Nesse plano havia, pelo menos, um
pouco da sua antiga fantasia. Por qualquer razão Nessim devia ignorar
este encontro — porquê, santo Deus? Mas a informação de que ela, pelo
menos, não se encontrava envolvida nas conspirações do filho enchia-o
de alívio e ternura. E durante todo este tempo procurara odiá-la
considerando Leila uma espécie de extensão de Nessim!
317

«Minha pobre Leila», disse ele em voz alta, levando o sobrescrito às


narinas para respirar-lhe o perfume. Ergueu o telefone e chamou
Errol: «Penso que toda a Chancelaria foi convidada para a caçada aos
patos? Sim? Concordo, o sujeito tem fibra para fazer uma coisa dessas
neste momento... Eu, é claro, tenho de declinar o convite, mas
agradecia que vocês, rapazes, fossem e me desculpassem. Só para
manter as aparências. Conto consigo? Muito obrigado. Uma coisa ainda:
sairei na véspera da caçada para tratar de assuntos particulares e só
volto no dia seguinte; é provável que nos cruzemos na estrada do
deserto. Não, estou satisfeito porque vocês vão. Desejo-vos uma boa
caçada».

Os dez dias seguintes passaram-se numa espécie de sonho, pontuados


simplesmente pelas punhaladas intermitentes de uma realidade que já
não era uma droga, uma distracção que lhe estrangulava os nervos; o
seu trabalho era um enfadonho tormento. Sentia-se cansado, esgotado,
quando contemplava o rosto no espelho, ao barbear-se. O cabelo
embranquecera-lhe nas têmporas. Algures, nos alojamentos do pessoal,
um rádio emitia uma canção que enchera todo um Verão de Alexandria:
«Jamais de la vie». Mountolive odiava-a agora. Esta nova época, um
limbo preenchido com os fragmentos dispersos dos hábitos, dos deveres
e dos acontecimentos, enchia-o de uma torturante impaciência;
percebia que no fundo estava a reunir coragem para o encontro com
Leila, há tanto tempo esperado. De certo modo, esse facto
determinaria não tanto o significado físico e tangível do seu
regresso ao Egipto como o significado psíquico desse regresso em
fiação a toda a sua vida interior. Deus! Que maneira tão '«adequada
de se exprimir, mas de que outra maneira Poderia fazê-lo? Era uma
espécie de barreira íntima que ele devia franquear, uma puberdade do
sentimento que Precisava de amadurecer.

Lançou-se na estrada do deserto, gozando a surdina potente do motor e


o ruído do vento no galhardete e nos pára-brisas.
318

Havia muito tempo que ele não se encontrava assim só, no meio do
deserto, e isto recordava-lhe dias passados e mais felizes. Voando a
cem quilómetros naquela atmosfera ardente e imóvel, ia trauteando em
voz baixa a canção detestável:

Jamais de la vie

Jamais dans la nuit

Quand ton coeur se démange de chagrin...

Há quanto tempo não se surpreendia assim a cantar? Uma eternidade.


Não era por felicidade mas pela necessidade irresistível de
desoprimir o espírito. Até a odiosa canção o ajudava a recuperar a
imagem de uma Alexandria que ele considerara outrora adorável.
Poderia jamais tornar a vê-la sob essa luz?

Caía já a tarde quando Mountolive alcançou a orla do deserto e


principiou a fazer as lentas curvas que o conduziriam aos arrabaldes
piolhosos da cidade. O céu estava coberto de nuvens. Uma trovoada
rebentava sobre Alexandria. Para oriente, sobre as águas verdes e
geladas do lago, caía a chuva — rajadas de agulhas brilhantes
perfurando as águas; ouvia confusamente o ruído da chuva dominando o
ruído do motor. Descobriu uma cidade de pérolas através do véu de
nuvens carregadas, os minaretes recortados contra as colunas de vapor
de um poente prematuro; roupa ensopada em sangue. Uma brisa do mar
arrepiava os limites do estuário. No alto, passavam ainda os rolos de
fumaça, nuvens púrpuras que lançavam estranhos reflexos sobre as ruas
e sobre as praças da cidade branca. A chuva era um fenómeno raro e
breve em Alexandria. Em poucos minutos levantava-se o vento no mar,
mudava de quadrante, varria as nuvens e o céu ficava de novo limpo. A
frescura cristalina do céu de Inverno reconquistava o seu fulgor,
polindo a cidade que ficava a brilhar contra o deserto como um belo
artefacto de quartzo. Mountolive já se não sentia impaciente. O
crepúsculo começava a absorver o poente, docemente.
319

Aproximando-se da rebarbativa sequência de barracas e armazéns do


porto exterior, os pneus começaram a fumegar e a chiar sobre o
asfalto húmido. Era o momento de afrouxar...

Penetrou lentamente na penumbra da tempestade, maravilhado pela luz


de um horizonte recuado como um arco. Bizarros fulgores do poente
espalhavam rubis sobre os navios de guerra ancorados no porto
(acaçapados debaixo dos canhões como sapos chavelhudos.) Era outra
vez a velha cidade; sentia a melancolia penetrante enquanto seguia,
debaixo da chuva, o caminho para a Residência de Verão. O brilhante e
pouco familiar clarão dos relâmpagos recriavam-na, dando-lhe um ar
espectral de conto de fadas — pavimento de papel de estanho quebrado,
conchas de caracóis, chifres quebrados e mica; edifícios de tijolo
cor de sangue de boi; amantes passeando em Mahommed Ali Square,
desorientados pela chuva, desconsolados como instrumentos
desafinados; comboios violetas rangendo na linha do litoral entre as
copas oscilantes das palmeiras. O inusitado de uma velha cidade em
cujas ruas se amalgamava a poeirada húmida do deserto circundante.
Mountolive sentiu tudo aquilo de novo, deixando a imagem alongar-se
panoramicamente na sua consciência—o gemido de um transatlântico
apontando para a barra do poente, ou os comboios que corriam para o
interior como um rio de diamantes, as rodas rodopiando nas ravinas
pedregosas e no pó dos tempos há muito abandonados e submersos...
Mountolive sentia tudo aquilo com um cansaço onde reconhecia os
estigmas das experiências que envelhecem 0 homem. O vento lançava as
vagas para dentro do porto. Os mastros dançavam e entrechocavam-se
como as ramagens de uma árvore gigantesca. O limpa pára-brisas ia e
vinha sobre o vidro cheio de lágrimas... Um pequeno período nesta
estranha treva confusa, iluminada pelos relâmpagos, e logo viria o
vento — o magistral vento norte, desfazer as cristas das vagas em
brancas plumagens e espuma, rasgar os véus do pavimento abrindo-o
olhos dos homens e das mulheres.
320

Tinha ainda muito tempo.

Dirigiu-se à Residência de Verão para se assegurar de que o pessoal


tinha sido prevenido da sua vinda; tencionava passar a noite ali,
voltando no dia seguinte para o Cairo. Entrou com a sua própria chave
pela porta principal, tocou a campainha e logo ouviu os passos
arrastados de Ali. E enquanto esperava a entrada do velho, o vento
norte irrompeu com um rugido, sacudindo as janelas, e a chuva cessou
bruscamente.

Dispunha ainda de cerca de uma hora antes do encontro; tempo bastante


para tomar um banho e mudar de roupa. Com grande surpresa sua,
sentia-se agora perfeitamente à vontade, liberto do tormento das
dúvidas e dos arroubos da ansiedade. Entregara-se totalmente aos
acontecimentos.

Comeu uma sanduíche e bebeu dois whiskies duplos antes de deixar


rolar o grande carro peia ladeira que conduz à Grande Comiche, a
caminho do Auberge Blue, situado nos arredores da cidade, rodeado
pela mancha das dunas e coberto pelas copas das palmeiras. O céu
estava de novo limpo e as vagas corriam do largo, vindo desfazer-se
em bátegas de espuma nos molhes metálicos de Chatby. Na linha do
horizonte ainda se viam relâmpagos desmaiados e intermitentes que
sugeriam o clarão distante da artilharia numa batalha naval.

Mountolive saiu da estrada e penetrou no parque de estacionamento


deserto do Auberge, apagando os faróis quando parou. Ficou ainda
sentado uns momentos diante do volante para habituar os olhos à
penumbra azulada. 0 Auberge estava vazio — ainda era demasiado cedo
para os elegantes virem jantar e dançar nos seus elegantes salões.
Foi então que o avistou: do outro lado do parque, junto da estrada,
onde havia uma praia de areia e algumas palmeiras inclinadas, estava
parado um velho fiacre. As suas antigas lanternas de petróleo estavam
acesas e palpitavam ligeiramente como pirilampos na noite fresca.
321

No assento do cocheiro percebia-se uma vaga silhueta que parecia


adormecida.

Mountolive atravessou o caminho com um passo ligeiro, ouvindo o


cascalho ranger debaixo das rodas, e ao aproximar-se do carro chamou,
abafando a voz:

— Leila!

Viu o vulto do cocheiro voltar-se atento contra o céu; de dentro do


fiacre saiu uma voz — a voz de Leila — dizendo:

— Ah! David, encontrámo-nos finalmente. Percorri todo este caminho


para te dizer...

Mountolive inclinou-se para a frente, embaraçado, esforçando os


olhos, mas viu apenas o vulto vago de alguém no outro canto do
veículo.

— Entra — disse ela imperiosamente. — Entra para podermos falar.

E foi aqui que Mountolive se sentiu dominado por uma sensação de


irrealidade; não compreendia exactamente porquê. Mas era como um
homem que caminha no meio de um sonho, sem tocar o solo, ou então que
flutua no espaço como uma rolha sobre as águas. Os seus sentidos
alertavam-se como antenas na direcção do vulto sombrio, tentando
reunir e fixar o sentido daquelas frases e analisar o profundo
sentido de desorientação que as impregnava, que vinha enterrado
nelas, como um sotaque estrangeiro insinuando-se no meio de uma voz
familiar; algures dentro dele, tudo se desmoronava.

A verdade era que ele não reconhecia a voz. Ou melhor, podia-a


identificar mas não era capaz de crer na evidência dos seus ouvidos.
Não era, por assim dizer, a voz preciosa que, na sua imaginação,
tinha vivido e habitado a figura recordada de Leila. Ela falava agora
com uma espécie de inconsistência voraz onde todas as vibrações
Pareciam embotadas. Mountolive atribuiu isso à emoção e sabe Deus a
que outros sentimentos? Mas... frases que se interrompiam para
recomeçar no meio, frases que caíam esgotadas no esforço de juntar
duas ideias?
322

Enxugou a testa na obscuridade, procurando analisar o carácter


estranhamente irreal, como distraído, dessa voz. Pertencia aquela voz
realmente a Leila? Depois, uma mão tomou-lhe o braço e ele pôde
observá-la atentamente na doce luminosidade da candeia de petróleo.
Era uma mão nédia e pouco cuidada, de unhas rentes, sem verniz, com
as peles por cortar.

— Leila, és tu realmente? — perguntou ele quase involuntariamente,


ainda invadido por este sentimento de irrealidade, de desorientação;
como o de dois sonhos sobrepostos, deslocando-se um ao outro.

— Entra! — disse a voz de uma Leila invisível.

Ele obedeceu, penetrou no velho fiacre e foi imediatamente assaltado


pelo estranho amálgama dos seus perfumes — um novo e perturbador
desmentido à imagem que há tanto tempo guardava: flor de laranjeira,
mentol, água de colónia e sésamo. O odor de uma velhota árabe! Depois
ele surpreendeu o triste relento do whisky. Ela também tivera que
recorrer ao álcool para enfrentar aquele encontro! A simpatia e a
indecisão lutavam dentro dele; a velha imagem de Leila, brilhante e
elegante, recusava-se a coincidir com a presente. Precisava de
contemplar-lhe o rosto. Como se lhe lesse os pensamentos, ela disse:

— Vim finalmente ao teu encontro, sem véu.

Subitamente, Mountolive pensou com um sobressalto: «Jesus! Nunca


tinha pensado até que ponto Leila devia ter envelhecido».

Ela fez um pequeno sinal e o velho cocheiro de turbante voltou


lentamente o cavalo para a estrada iluminada da Grande Comiche e
partiram a passo. As lâmpadas azuis dos candeeiros vieram, uma após
outra, lançar uma espreitadela para dentro do fiacre e Mountolive
voltou-se para a mulher que o acompanhava. Mal conseguiu reconhecê-
la. Defrontava-o uma senhora egípcia de idade incerta, cujo rosto
lavado e balofo, profundamente lavrado pela varíola e com os olhos
grotescamente pintados com antimónio.
323

Os olhos eram apagados e tristes como os de uma melancólica figura de


desenhos animados: uma figura de animal vestido e agindo como uma
criatura humana. Ela fora de facto bastante corajosa para retirar o
véu, essa estranha sentada diante dele, olhando-o com aquele olhar
pintado, como se vê nos frescos, um ar lastimável e perdido,
carregado de uma súplica muda. Perante o amante, ela tinha uma
expressão simultaneamente embaraçada e audaciosa, mas os lábios
tremiam-lhe e os maxilares chocavam-se a cada solavanco do carro.
Olharam-se durante dois segundos de eternidade antes das trevas os
cobrirem de novo. Então ela ergueu a mão e pousou-a sobre os lábios
de Mountolive. Uma mão que tremia como uma folha. Ao clarão fugidio
do candeeiro, Mountolive vira os cabelos desleixados, caídos sobre os
ombros, o vestido amarrotado e sem elegância. Toda ela tinha um ar de
desenvoltura e improvisação. E a pele escura, cruelmente lavrada e
cicatrizada pela varíola, parecia áspera como a pele de um elefante.
Ele não a reconhecia em absoluto!

Leila — exclamou ele quase num gemido, fingindo reconhecê-la e


regozijar-se por encontrar de novo a imagem da amante, agora
dissolvida e dispersa para sempre, naquela lastimável caricatura, uma
egípcia gorda e excêntrica cujo rosto assinalava a idade. De cada vez
que um feixe de luz iluminava o interior do fiacre ele voltava a
olhá-la, c também de cada vez tinha a impressão de se encontrar
perante um animal caricatural, um elefante, por exemplo. Mal podia
prestar atenção às palavras dela, tanto se confundiam no seu espírito
as antigas memórias e as impressões recentes.

Ela tomou-lhe a mão e de novo o relento complexo de sésamo, mentol e


whisky lhe assaltou as narinas.

- Eu sabia que nos havíamos de encontrar um dia.

Leila começou a falar e ele escutava-a, embaraçado, mas com toda a


atenção que se presta a uma língua que não nos é familiar; e de cada
vez que a luz dos lampadários batia nos vidros olhava-a avidamente,
como se esperasse uma brusca alteração na sua aparência.
324

Depois ocorreu-lhe bruscamente outro pensamento: «E se eu tivesse


mudado tanto como ela?» Num passado remoto tinham trocado
fotografias, como penhores de fidelidade; mas que veria ela agora no
seu rosto: os sinais de fraqueza que tinham devastado a sua juventude
e arruinado as suas energias? Mountolive tinha agora atingido as
fileiras daqueles que aceitam de boa mente o compromisso com a vida.
A sua ineficácia, a sua falta de virilidade, devia certamente ler-se
no seu rosto frouxo, comicamente afável? Contemplando-a
melancolicamente, perguntava sinceramente a si próprio se ela o teria
reconhecido. Esquecia-se de que as mulheres jamais perdem a imagem de
um ser amado; não, ela ficaria para sempre cega pelo antigo amor,
recusando-se a aceitar qualquer alteração.

— Tu não mudaste nada — disse aquela desconhecida cujo odor lhe


desagradava. —- Meu querido, meu amor, meu anjo.

Mountolive corou na escuridão. E a antiga Leila? Descobriu


bruscamente que a imagem querida, que tanto tempo guardara no
coração, se tinha dissipado para sempre! Enfrentava subitamente o
sentido do tempo e do amor. Tinham, ele e ela, perdido a faculdade de
fecundar a mente um do outro! Mountolive sentia piedade e repugnância
onde devia ter sentido amor! E estes sentimentos eram simplesmente
inaceitáveis. Praguejava em silêncio enquanto subiam e desciam a
alameda batida pelo mar de Inverno, como inválidos que vêm tomar o ar
da noite, as mãos a entrechocarem-se na penumbra do fiacre. Ela agora
falava mais depressa, quase saltando de um assunto para o outro, mas
tudo aquilo era introdutório para o tema central que ali a trouxera.
Devia partir na noite seguinte.

— Ordens de Nessim. Justine volta do lago para me vi buscar.


Desaparecemos juntas. Em Kantara separamo-nos e eu vou para a
propriedade do Quénia. Nessim não diz. ou não sabe, por quanto tempo.
Eu tinha de ver-te. Tinha de falar-te. Não por mim, nunca é por mim,
meu querido.
325

Foi o que eu soube de Nessim, no carnaval passado. Eu vinha


encontrar-me contigo, mas o que ele me disse a respeito da Palestina
arrefeceu-me o sangue. Impossível ver-te nesse estado de espírito.
Não sabia o que te havia de dizer, como te poderia encarar. Mas agora
sei.

Ela falava numa voz precipitada, como se desejasse atingir


rapidamente o ponto crucial. Bruscamente, alcançou-o:

— Os egípcios querem matar Nessim e os ingleses incitam-nos a fazer


isso. David, deves usar a tua influência para impedir semelhante
coisa. Peço-te que o salves. Tens de escutar-me, tens de ajudar-me. É
a primeira vez que eu te peço um favor.

As suas faces estriadas de lágrimas azuis davam-lhe um ar ainda mais


estranho, mais irreal, ao clarão dos revérberos. Ele começou a
balbuciar. Leila gritou: «Imploro-te que me ajudes» e para grande
humilhação de Mountolive começou a gemer e a mover-se como uma
suplicante árabe.

— Leila — gritou ele —, pára com isso!

Mas ela prosseguia naquele balancear, repetindo como se falasse


consigo própria:

— Só tu o podes salvar agora.

E bruscamente fez menção de ajoelhar-se aos pés do antigo amante.


Mountolive tremia de cólera, de estupefacção e de desgosto. Estavam a
passar pela décima vez diante do Auberee.

— Se não acabas imediatamente... — gritou ele exasperado.

Mas ela recomeçou a gemer, e sem poder suportar mais, Mountolive


saltou para a estrada. Era horrível interromper assim aquela
entrevista. O fiacre parou. Ele disse então, sentindo-se ridículo,
numa voz que lhe parecia vir de muito longe e ter perdido toda a
expressão, à parte uma ligeira e inusitada amargura:

— Não posso discutir com uma pessoa particular um assunto oficial.


326

Que podia haver de mais absurdo? Mal tinha pronunciado aquelas


palavras sentiu uma enorme vergonha.

— Leila, adeus — acrescentou precipitadamente a meia voz, apertando-


lhe a mão uma vez mais antes de se voltar. Depois fugiu. Abriu a
portinhola do automóvel, deixou-se cair no assento, sufocado e tomado
de uma repentina vertigem. Ouviu o fiacre afastar-se na obscuridade.
Ficou a vê-lo descrever a longa curva da Comiche até desaparecer.
Acendeu então um cigarro e pôs o motor a funcionar. E de repente
pareceu-lhe que já não tinha nenhum lugar para onde ir. Todos os
impulsos e todos os desejos se tinham dissipado.

Depois de um longo momento de hesitação, decidiu-se a partir e voltou


à Residência, sempre a resmungar. Todas as janelas se conservavam às
escuras e Mountolive entrou com a sua própria chave. Foi de sala em
sala, abrindo todas as luzes, sentindo-se atordoado pela sua solidão;
não podia acusar os criados de terem abandonado os seus deveres visto
que dissera a Ali que jantava na cidade. Pôs-se a percorrer os
salões, de mãos nos bolsos. Mas os quartos não eram aquecidos há
muito tempo e ele sentiu-se dentro em pouco penetrado pela humidade.
A face pálida e como carregada de muda censura do mostrador de um
relógio advertiu-o de que ainda não passava das nove horas. Dirigiu-
se então bruscamente para a cave das bebidas e serviu-se de um grande
whisky com dois dedos de soda, que bebeu de um trago, a boca muito
aberta como se ingerisse uma poção amarga. O seu espírito vibrava
como uma linha de alta tensão. Pensou que precisava sair e ir jantar
fora, a qualquer sítio, mas onde? Alexandria e todo o Egipto
pareceram-lhe agora insuportáveis, enfadonhos e ocos.

Bebeu vários whiskies mais, apreciando o calor doce que se lhe


insinuava no sangue. Leila acabava de colocá-lo perante uma realidade
que incessantemente pairava sobre a tapeçaria poeirenta dos seus
sonhos romanescos. Em certo sentido, ela fora o Egipto, o seu Egipto
particular, e bruscamente essa velha imagem aparecia-lhe nua,
despojada dos seus ouropéis.
327

«Não devo beber mais», pensou. Sim, era isso! Nunca se embriagara,
nunca fora natural. Ocultara-se sempre atrás das atitudes de
compromisso; e esta falta de naturalidade fizera-lhe perder para
sempre a imagem de um Egipto que havia muito nutria nos seus sonhos.
Não passaria então tudo aquilo de uma mentira?

Mountolive sentia-se como uma barreira interior que estivesse a ponto


de quebrar-se, como uma barragem que cede. Veio-lhe então a ideia de
ir jantar no bairro árabe, simplesmente, humildemente, como um
amanuense ou um pequeno comerciante da cidade. Iria comer pombos com

arroz e bolos; a comida acalmar-lhe-ia os nervos e no ambiente


encontraria o sentimento de um contacto com a realidade. Não se
lembrava de jamais se ter sentido tão embriagado, de ter as pernas
tão pesadas como nessa noite.

Os seus pensamentos flutuavam numa nuvem de remorsos inarticulados.

Agitado por estes desejos incoerentes e semi-inconscientes, foi abrir


bruscamente o armário do vestíbulo para retirar o turbante de feltro
vermelho que um convidado tinha esquecido num cocktail oferecido no
Verão precedente. Acabava de se recordar dele. O objecto encontrava-
se no meio de uma confusão de bastões de golf, esporas e raquetas de
ténis. Colocou-o com uma risadinha. Transformava-lhe completamente a
aparência. Olhando para a sua imagem incerta no espelho, ficou
profundamente surpreendido com a transformação: tinha diante de si,
não um distinto estrangeiro, mas — un homme quelconque: um negociante
sírio, um corretor de Suez, um agente de aviação em Telavive. Para
ser um levantino completo só lhe faltava usar, dentro de portas,
óculos escuros, em pleno Inverno.

Havia um par na gaveta superior da escrivaninha.

Conduziu o carro com cuidado para a praçazinha, junto da estação de


Ramleh, absurdamente satisfeito com o seu trajo de fantasia, e foi
arrumá-lo no parque de estacionamento do Cecil Hotel;
328

depois de fechá-lo afastou-se com o ar de alguém que abandona um


hábito de uma vida inteira, encaminhando-se com um novo e delicioso
sentimento de autodomínio para o bairro árabe, onde procuraria o
desejado jantar. Todavia, ao passar na Comiche, teve um movimento de
hesitação e recuo avistando uma silhueta que atravessava a rua e se
dirigia para o seu lado. Era impossível não reconhecer aqueles passos
arrastados característicos de Baltasar. Mountolive, penalizado,
prosseguiu no seu caminho, mas verificou com satisfação que,
protegido pela noite, não fora reconhecido pelo amigo. Cruzaram-se
rapidamente e Mountolive expeliu o ar dos pulmões, aliviado; era
realmente bizarra a anonimidade conferida por aquele vaso vermelho,
que alterava as linhas de um rosto humano. E os óculos escuros! Riu
tranquilamente ao afastar-se da zona ribeirinha, introduzindo-se no
labirinto de vielas que conduzem aos bazares árabes e às casas de
pasto do porto.

As possibilidades de ser reconhecido eram agora ínfimas porque poucos


europeus se arriscariam a penetrar sozinhos nessa parte da cidade. O
bairro, que se estendia para além da cintura de lanternas vermelhas,
era habitado por pequenos comerciantes, estivadores, traficantes de
café, fornecedores de navios e contrabandistas; na rua tinha-se a
impressão de que o tempo estava exposto, por assim dizer, como uma
pele de boi; o mapa do tempo, que uma pessoa podia ler de uma ponta à
outra, escalonando-o com pontos de referência conhecidos. Este
universo do tempo muçulmano alcançava Otelo e ainda mais longe —
cafés cheios do doce cantar das aves cujas gaiolas estavam cercadas
de espelhos para lhes dar a ilusão de companhia. Cantos de amor
dedicados pelas aves aos seus companheros imaginários que não
passavam dos seus próprios reflexos! Dilacerantes melodias que eram
uma ilustração do amor humano! Também ali, na lúgubre e trémula
claridade das chamas de nafta, havia velhos eunucos jogando o tric-
trac e fumando os compridos narguilés, que a cada fumaça soltavam um
gorgolejo que lembrava o arrulhar de uma pomba;
329

as paredes dos cafés luziam do suor dos turbantes pendurados nos


cabides; as suas colecções multicolores de narguilés estavam
alinhadas numa espécie de extenso armeiro, como mosquetes, e cada
fumador transportava a sua boquilha especial como se fosse um objecto
precioso. Aqui também se encontram os adivinhos, os cartomantes e
todos aqueles que por meia piastra nos lêem os mais íntimos segredos
na palma da mão, depois de enchê-la de tinta. Os ambulantes
transportam as suas cargas mágicas dos mais diversos objectos de
vertu, desde os macios tapetes de Shiraz e do Baluquistão até aos
baralhos de cartas de Marselha; incenso de Hedjaz, contas verdes
contra o mau olhado, pentes, sementes, espelhos para gaiolas,
especiarias, amuletos e leques de papel... a relação seria infinita;
e todos eles, é claro, escondem no seu bolso secreto — como se fossem
indulgências medievais — o fruto das grandes pornografias sob a forma
de lenços e postais onde se reproduzia, sob as formas mais
aberrantes, aquele acto a. que nós, seres humanos, dedicamos a maior
parte dos nossos pensamentos e dos nossos temores. Misteriosa e
subterrânea, a inesgotável corrente do sexo, infiltrando-se
facilmente por entre as fendas das frágeis barreiras erigidas pelas
nossas legislações inquietas e os remorsos característicos dos
masoquistas... a ampla e poderosa corrente oculta que corre desde
Petrónio a Frank Harris. (Os pensamentos de Mountolive baralhavam-se
no seu cérebro enevoado, surgindo em belas imagens semiformuladas,
que logo se desfaziam como bolinhas de sabão coloridas.) Sentia-se
agora perfeitamente à vontade; habituara-se àquela euforia inusitada
e já não percebia que estava embriagado; havia nele um sentimento de
imensa dignidade que lhe dava um soberbo desembaraço. Caminhava
lentamente, solenemente, como uma mulher grávida, e deixava-se
penetrar por aquele espectáculo de cores e som. Deixou-se finalmente
seduzir por uma pequena taberna, cheia do fumo que se escapava dos
fogões ao rubro, e entrou; os odores do tomilho, do pombo assado com
arroz deram-lhe bruscamente uma volta ao estômago.
330

Só se encontravam no compartimento dois outros comensais, que mal se


conseguiam distinguir no meio dos rolos densos da fumaça. Mountolive
sentou-se com um ar de homem que faz uma grande concessão à lei da
gravidade e pediu um jantar no seu excelente árabe, sem retirar o
turbante nem os óculos escuros. Não havia dúvida de que se podia
fazer passar por muçulmano com a maior facilidade. O dono do café era
um turco, com cara de tártaro, que atendeu o freguês imediatamente e
sem comentários. Colocou também um cálice em frente do talher de
Mountolive e encheu-o até à borda com uma aguardente incolor extraída
do lentisco e chamada mastika. Mountolive engasgou-se e tossicou um
pouco, mas sentiu um enorme prazer; havia tanto tempo que não provava
uma bebida do Levante que até já se tinha esquecido da sua
existência. Tinha esquecido também até que ponto a bebida era forte
e, tomado por uma súbita nostalgia, pediu segundo cálice para ajudar
a engolir o excelente guisado e o pombo (tão quente do espeto que mal
se lhe podia tocar com os dedos.) Ele encontrava-se agora no sétimo
céu e perto de tornar a encontrar a imagem confusa de um Egipto que a
sua entrevista com Leila tinha comprometido, que ela, por assim
dizer, lhe tinha escamoteado.

Pouco depois ouviu-se na rua o som de tamborins e a voz de crianças


que cantavam uma espécie de litania; iam de longe em longe, aos
grupinhos, repetindo incansavelmente a mesma estrofe. À terceira
repetição, Mountolive conseguiu aprender a letra.

Senhor da árvore sacudida

Da extremidade do homem

Conserve as nossas folhinhas

Bem presas aos ramos

Porque nós somos os teus filhos!


331

— Bem, estou arrumado! — exclamou ele engolindo uma golada ardente de


mastika e sorrindo quando compreendeu o significado daquela pequena
procissão. Diante dele, junto da janela, um velho e venerável sheik
fumava um comprido narguilé. Fez um gesto gracioso com a velha mão
ressequida, apontando para o tumulto da rua e exclamou:

— Alá! O rumor das crianças! Mountolive sorriu-lhe respondendo:

— Peço-lhe que me corrija se me enganar, senhor, mas estas crianças


cantam esta ladainha para El Sidr, não é verdade?

O rosto do velho iluminou-se e aprovou com um gesto de cabeça


aureolado por um bondoso sorriso.

— Acertou, senhor.

Mountolive sentiu-se muito orgulhoso de si próprio e ainda mais


afectado pela nostalgia desses anos todos semiesquecidos.

— Então esta noite deve ser o mi-Shaaban em que a Árvore da


Extremidade é sacudida. Não é assim?

Novo gesto de encantada confirmação.

— Quem sabe — disse o velho sheik — se os nossos dois nomes não estão
inscritos nas folhas que vão cair.

Puxou uma fumaça lenta do cachimbo, aspirando beatificamente o fumo e


soltando-o em pequenos rolos como se fosse uma locomotiva em
miniatura.

— Seja feita a vontade de Alá!

Segundo a crença, na véspera da mi-Shaaban, a Árvore do Paraíso é


sacudida, e as folhas que caem trazem os nomes dos que hão-de morrer
nesse ano. Em alguns textos e designada como a Árvore da Extremidade.
Mountolive sentia-se tão feliz por ter reconhecido a canção que
encomendou um derradeiro cálice de aguardente, bebendo-o de pé
enquanto pagava a conta. O velho sheik abandonou o cachimbo e
aproximou-se lentamente dele, através do fumo.

- Effendi, compreendo o que pretende. O que procura ser-lhe-á


revelado por mim.
332

Tinha colocado um par de dedos morenos sobre o pulso de Mountolive, e


falava em voz baixa, humildemente, como um homem que tem um segredo a
transmitir. O seu rosto revelava toda a candura e pureza de um santo
do deserto. Mountolive sentia-se encantado.

— Ilustre Sheik — disse ele — dignai-vos expor os vossos pensamentos


a um indigno viandante sírio.

O velho inclinou-se duas vezes e lançou um olhar circunspecto em


redor:

— Tende a bondade de seguir-me.

Conservava os dedos sobre o pulso de Mountolive, como um cego. Saíram


juntos. O coração romântico de Mountolive batia fortemente — iria ser
contemplado com o privilégio da visão mística de qualquer mistério
religioso? Tinha ouvido contar muitas histórias de homens religiosos
de atalaia, aguardando o ensejo de realizar algumas missões secretas
inspiradas pelo mundo invisível, transcendente, esse mundo ciosamente
guardado pelos doutores do oculto. Avançava numa doce neblina de
ignorância, na companhia daquele sheik que titubeava e readquiria o
equilíbrio a cada passo, sorrindo numa beatitude incessante.
Percorreram assim juntos as vielas sombrias que a noite transformava
em extensos e tenebrosos túneis ou indistintas cavernas onde
ressoavam os ecos moribundos de uma gaita de foles ou os gritos
agrestes de uma disputa abafada pelas paredes espessas e pelas
janelas gradeadas.

A imaginação de Mountolive inflamava-se perante a beleza e o mistério


daquela luminosa cidade de sombras esculpidas aqui e além em formas
reconhecíveis por um solitário candeeiro de petróleo ou por uma
lâmpada eléctrica suspensa do seu fio frágil e balouçando ao vento.
Entraram por fim numa longa rua ornamentada com bandeirolas e
penetraram num pátio completamente negro cujo pavimento de terra
batida exalava vagos relentos de suor de camelo e jasmim. Uma casa
recortava-se vagamente contra o céu, apertada entre espessos muros.
Penetraram numa espécie de barraca em ruínas, por uma alta e estreita
porta entreaberta, e mergulharam em trevas ainda mais absolutas.
333

Ficaram um segundo a respirar fundo. Mountolive sentiu, mais que viu,


a escada carunchosa que conduzia ao andar superior, ouviu a
rastilhada dos ratos nas galerias desertas, juntamente com algo mais
— um som que tinha vagas reminiscências com seres humanos, mas num
contexto que ele não conseguia recordar. Avançaram lentamente por um
corredor cujo soalho estava tão apodrecido que se ouvia ranger e
oscilar debaixo dos passos e finalmente, junto de uma espécie de
porta, o velho sheik disse brandamente:

— A fim de lhe mostrar que os nossos prazeres não são inferiores aos
da vossa pátria, effendi, trouxe-o a este lugar. — E acrescentou num
murmúrio: — Faça o favor de esperar um momento por mim.

Os dedos do sheik soltaram-lhe o pulso e Mountolive sentiu a porta


fechar-se-lhe nas costas. Ficou imóvel por um momento, espiando o
silêncio.

A obscuridade era tão absoluta que quando a luz surgiu ele teve por
um instante a impressão de que era qualquer coisa que estava a
suceder muito longe, como se alguém tivesse aberto e fechado a
portinhola de uma fornalha no céu. Fora apenas o riscar de um
fósforo. Mas aquela luz amarelada e trémula descobriu achar-se numa
sala lúgubre, de tecto muito alto e cujas paredes, cheias de escamas,
estavam cobertas de grafite e de marcas de mãos — esses sinais que
protegem os supersticiosos contra o mau olhado. Não havia móveis,
exceptuando o enorme divã esgaçado que ocupava o centro da sala, como
um sarcófago. Uma única janela de vidros estilhaçados revelou-lhe
lentamente a obscuridade azulada do céu estrelado. O fósforo apagou-
se-lhe entre os dedos e de novo ouviu o tropel dos ratos e esse outro
estranho murmúrio composto de risinhos, vozinhas e de ruído abafado
de pés correndo nus sobre o soalho... Aquilo lembrava-lhe um
dormitório e raparigas num colégio e, como se este pensamento tivesse
o poder de se materializar, uma porta abriu-se e um bando de
criaturinhas vestindo camisas brancas, sujíssimas, correu para ele
como uma procissão de anjos caídos.
334

Bruscamente ele compreendeu, com um sentimento de repugnância e


piedade, que se encontrava num bordel de crianças. As suas carinhas
estavam cobertas de cosméticos e os cabelos apertados em trança por
lacinhos. Usavam todas colares de contas verdes contra o mau olhado.
Criaturinhas como as que se encontram gravadas em vasos gregos —
saídas dos túmulos e dos ossários, com aquele ar cansado e triste dos
malfeitores fugidos à justiça. Era a primeira do grupo que trazia luz
— uma torcida ardendo num pires de azeite. Baixou-se para pousar num
canto da sala a magra lamparina e imediatamente as sombras dilatadas
das crianças se espalharam no tecto como um exército de vontades
frustradas.

— Não, por Alá! — exclamou Mountolive numa voz rouca, voltando-se


para abrir a porta. Mas esta estava fechada por um ferrolho que só se
podia manobrar do exterior. Aproximou a face de um buraco aberto num
dos batentes, e chamou suavemente:

— Ó sheik, vinde cá.

As rapariguinhas aproximavam-se agora dele, cercavam-no e murmuravam-


lhe obscenidades e as palavras meigas da sua especialidade, com
vozinhas de anjos infelizes; sentia-lhes os dedinhos começarem a
percorrer-lhe os braços, a puxarem-lhe pelas mangas.

— Ó sheik — gritou ele numa voz desfalecida —, não era isto que eu
procurava.

Mas para além da porta estava tudo em silêncio. Mountolive sentia os


braços das rapariguinhas envolverem-lhe a cintura como lianas de uma
selva tropical e os dedinhos magros percorrerem-lhe os botões do
casaco. Com um safanão, desembaraçou-se delas e olhando-as, muito
pálido, soltou um som semiarticulado de protesto. Nesse momento, um
pontapé inadvertido de alguma delas apagou a lamparina e nas trevas
ele sentiu a tensão ansiosa que as lavrava como fogo num matagal. Os
seus protestos tinham-lhes feito recear a perda de um cliente
lucrativo.
335

Nas suas vozes havia ansiedade, cólera e uma certa nota de terror,
quando se lhe dirigiam a suplicar e a ameaçar; só Deus sabe que
castigos as esperavam se ele conseguisse fugir-lhes! Começaram a
lutar, a atacá-lo; sentia o choque dos seus corpitos esfomeados
empilhados em torno dele, gemendo, ofegantes e decididas a não o
deixar escapar. Os dedos percorriam-no como formigas — na verdade
recordava-se agora de ter lido a história de um homem derrubado na
areia, junto de um ninho de formigas brancas, que o devoravam até aos
ossos.

— Não — gritou ele, incoerentemente, uma vez mais; uma absurda


inibição impedia-o de distribuir uma série brutal de sopapos, único
meio seguro de libertação. (As mais pequenas eram tão pequeninas!)
Elas dominavam-lhe agora os braços e trepavam-lhe pelas costas —
atravessavam-no memórias absurdas de combates de travesseiros em
dormitórios de colégio. Quando ele desatou a bater com os cotovelos
na porta, elas redobraram as suas súplicas:

— Ó effendi, patrono dos pobres, remédio das nossas aflições...

Mountolive gemia e lutava mas sentia-se gradualmente arrastado para o


solo; os seus joelhos, enfraquecidos pelo álcool, cediam àquele
assalto que adquiria agora um vigor triunfante.

— Não — bradou ele.

— Sim, sim, por Alá! — respondeu o coro infantil. Cheiravam como um


rebanho de cabras correndo sobre ele- Os risinhos, os murmúrios
obscenos, as carícias e as maldições subiam-lhe ao cérebro. Sentia-se
prestes a desfalecer.

E de repente tudo ficou claro - como se tivessem cor corrido uma


cortina — e ele viu-se sentado ao lado da mãe, diante do fogo, com um
livro aberto sobre os joelhos. Ela lia em voz alta e ele tentava
seguir-lhe as palavras, mas a sua atenção era incessantemente
distraída pela grande gravura colorida onde se via Gulliver caído no
meio de um bando de liliputianos.
336

Todos os pormenores estavam desenhados com uma precisão fascinante. O


membrudo herói jazia onde tinha tombado, preso por uma verdadeira
teia de aranha de cordas que o pregavam ao solo enquanto o povo
minúsculo circulava sobre o seu corpo apertando novas cordas capazes
de inutilizar todos os esforços do colosso para se levantar. Havia
uma espécie de maligna precisão em cada pormenor; pulsos, tornozelos
e pescoço completamente imobilizados; pregos de tenda espetados entre
os dedos da mão para fixar separadamente cada falange; os cabelos
amarrados a uma multidão de lançazinhas cravadas no solo. Ele jazia
ali de costas, com o rosto voltado para o céu, numa surpresa
inexpressiva, os olhos azuis muito abertos, os lábios apertados. O
exército de liliputianos estava muito activo em torno dele,
empurrando carrinhos e novelos de corda; os seus gestos sugeriam o
labor de formigas em torno de uma presa. E, durante todo esse tempo,
Gulliver jazia sobre a relva verde de Lilliput, num vale cheio de
flores microscópicas, como um balão cativo...

Foi dar consigo (embora sem a menor ideia de como tinha finalmente
conseguido escapar-se) apoiado contra o parapeito gelado da Comiche,
com o mar a seus pés, rolando entre os pilares de pedra, insinuando-
se docemente nas condutas. Recordava-se apenas de ter descido a
correr, num atordoamento, uma rede de vielas, vindo desembocar por
fim na Comiche. Uma aurora pálida e suja deslizava sobre as vagas do
largo e a brisa trazia-lhe às narinas o odor do alcatrão e a humidade
pegajosa do sal. Sentia-se como um marinheiro mercante abandonado num
porto desconhecido e distante. Tinham-lhe voltado os bolsos do avesso
como se fossem luvas. Tudo quanto lhe restava sobre o corpo eram as
calças e uma camisa rasgada. Os botões de punho, o alfinete da
gravata e a carteira tinham desaparecido. Sentia-se mentalmente
doente. Mas gradualmente foi descobrindo onde se encontrava quando
avistou o minarete da mesquita de Goharri cobrindo-se das primeiras
cores do nascente no meio das copas das palmeiras.
337

Breve, os muezins cegos sairiam como velhas tartarugas para os


louvores matinais ao único Deus vivo. Estava pois a cerca de
quinhentos metros do local onde abandonara o carro. Sem óculos e sem
turbante, sentia-se agora como se estivesse nu. Arrancou numa
corridinha dolorosa ao longo das docas lajeadas, feliz por não haver
nos arredores ninguém que o reconhecesse. A praça deserta, em frente
do hotel, começava justamente a despertar com a passagem do primeiro
eléctrico que se dirigia, vazio, para Mazarita, num chocalhar de
ferragens. As chaves do carro tinham desaparecido e ele teve de
arrombar o fecho da porta com a ajuda de uma chave de fendas que
encontrou no porta-bagagens — num terror que algum polícia o tomasse
por algum gatuno e o levasse ao posto para ser interrogado. Sentia
uma profunda repugnância contra si próprio e uma dor de cabeça
dilacerante. Conseguiu finalmente quebrar o fecho e partiu a toda a
velocidade —- felizmente deixara a chave de ignição no estojo do
quadro da direcção — atravessando a cidade adormecida a caminho de
Rushdi. Sem chaves, foi também obrigado a quebrar um vidro para
penetrar em casa. Pensou primeiro passar a manhã na cama, depois de
tomar um banho, mas debaixo do chuveiro quente compreendeu que tinha
o espírito excessivamente agitado; os seus pensamentos zumbiam como
um enxame de abelhas que não o deixava repousar. Então decidiu sair
de Alexandria e regressar ao Cairo antes de os criados acordarem.
Sentia-se incapaz de enfrentá-los.

Vestiu furtivamente roupa limpa, arrumou a maleta e atravessou a


cidade para retomar a estrada do deserto como um gatuno vulgar.
Acabava de tomar uma decisão. Pediria a sua transferência para outro
país. Não queria continuar naquele Egipto enganador e torpe, naquela
paisagem pérfida que reduzia todas as emoções e todas as recordações
a poeira, que arruinava a amizade e matava o amor. Nem sequer pensava
em Leila neste momento; nessa noite ela já teria atravessado a
fronteira.
338

Era como se ela nunca tivesse existido. Havia no reservatório


gasolina suficiente para o regresso. À saída da cidade, nas últimas
curvas da estrada, voltou-se com um estremecimento de desgosto para
ver ainda a miragem dos minaretes cor de pérola emergindo da neblina
do lago. Um comboio silvava ao longe. Abriu o rádio do carro para
afogar os seus pensamentos enquanto corria na estrada do deserto a
caminho da capital de Inverno. Aqueles surdiam de todos os lados como
lebres assustadas. Mountolive compreendia agora que tinha alcançado
uma nova fronteira do seu ser; para o futuro seria diferente. Até
então vivera numa espécie de servidão; as grilhetas tinham-se
quebrado agora. Ouviu de repente a carícia apaziguante das guitarras
e a voz familiar da cidade que novamente o assaltava com os seus
langores perversos, as suas antigas sabedorias e terrores.

Jamais de la vie

Jamais dans son lit

Quand ton coeur se démange de chagrin...

Com uma praga, desligou o rádio, sufocou a voz e continuou a guiar,


franzindo os olhos sob os raios oblíquos do sol que ia iluminando
progressivamente os flancos sombrios das dunas.

Quando parou em frente da Embaixada, Errol e Donkin ocupavam-se em


carregar o velho carro de turismo do último com todo o impedimento
dos caçadores profissionais: caixas de carabinas, cartucheiras,
binóculos, garrafas, termos, etc. Aproximou-se deles num passo
pesado, com embaraço. Acolheram-no calorosamente. Tencionavam partir
ao meio-dia para Alexandria. Donkin não escondia o seu entusiasmo. Os
jornais dessa manhã anunciavam as melhoras do rei e o recomeço das
audiências no fim da semana.

— Verá que Nur vai finalmente poder obrigar Memlik a agir — disse
Donkin.
339

Mountolive moveu vagamente a cabeça, com um ar ausente, enfadado; a


notícia era um simples som que não despertava nele nenhum eco, nenhum
presságio. Era-lhe indiferente agora o que pudesse suceder. A sua
decisão de pedir a transferência parecia absolvê-lo de todas as
responsabilidades pessoais; os seus sentimentos já não pertenciam a
este universo.

Dirigiu-se lentamente para a Residência e ordenou que lhe servissem o


pequeno almoço no salão. Tinha o espírito ausente e os nervos em
ebulição. Pediu depois que lhe trouxessem o seu correio pessoal. Nada
havia de interesse; uma grande carta de Sir Louis, que se encontrava
em Nice, cheia de pequenos mexericos sobre os amigos comuns. E, bem
entendido, a inevitável anedota do raconteur emérito para coroar a
obra: «Espero, meu caro, que o uniforme lhe fique bem. Pensei em si
na semana passada quando estive com Claudel, o poeta francês que foi
também embaixador e que me contou uma anedota maravilhosa a propósito
do seu uniforme. A coisa sucedeu quando ele estava no Japão. Um dia,
em que andava a passear nos arredores da cidade, viu, ao regressar,
que a Residência ardia furiosamente; a família encontrava-se com ele,
portanto nada tinha a temer pelas vidas dos seus. Mas os seus
manuscritos, os seus livros, os seus livros raros, as suas preciosas
cartas, tudo isso estava dentro da casa em chamas. Ficou extremamente
alarmado. O incêndio era tão violento que se tornava evidente que
nada do que se encontrava no edifício tinha qualquer possibilidade de
salvar-se. Ao aproximar-se, porém, da cerca do jardim viu encaminhar-
se gravemente para ele o seu criado de quarto japonês. O homenzinho
avançava para o embaixador num passo lento e circunspecto, e nos
braços estendidos como os de um sonâmbulo carregava o uniforme do
poeta. «Não precisa alarmar-se, senhor. Salvei o que tinha
verdadeiramente valor», anunciou o orgulhoso camareiro. E o drama
inacabado, e os poemas que ardiam dentro de casa?
340

Enfim, não sei bem porquê mas esta história fez-me recordar de si»

Mountolive suspirou e sorriu tristemente com uma ponta de inveja;


quanto não daria neste momento para estar a gozar a sua reforma em
Nice! Havia ainda uma carta de sua mãe, algumas facturas dos seus
fornecedores de Londres, um postal do seu corretor e uma carta breve
da irmã de Pursewarden... Nada de verdadeiramente importante.

Bateram à porta e Donkin entrou. Parecia acabrunhado.

— Um ofício do gabinete de Nur, sir — anunciou o secretário —,


informando-nos de que se avistará com o rei no fim da semana. Mas...
Gabr deu a entender que as investigações de Memlik não corroboram as
nossas queixas...

— Que quer ele dizer com isso?

— Bem, ele diz que não acertámos no verdadeiro Hosnani. O verdadeiro


culpado seria um irmão de Nessim que vive algures nos arredores de
Alexandria.

— Narouz? — fez Mountolive surpreendido, incrédulo.

— Sim. Pois bem, parece que nós... Desataram ambos a rir,


nervosamente.

— Verdadeiramente — disse Mountolive dando um soco na palma da mão —,


estes egípcios são incríveis. Como diabo chegaram a semelhante
conclusão? Isso ultrapassa todo o entendimento.

— Como quer que seja, é essa a posição de Memlik. Pensei que


desejasse saber. Eu e Errol vamos partir para Alexandria. Deseja mais
alguma coisa, sir?

Mountolive fez que não com a cabeça e Donkin saiu fechando a porta
docemente. «Com que então voltaram-se contra Narouz. Que embrulhada!»
Deixou-se afundar na poltrona e esteve um momento a contemplar os
dedos antes de se servir de outra chávena de chá. Sentia-se agora
incapaz de pensar ou sequer da menor decisão. Escreveria a Kenilworth
e ao Secretário dos Estrangeiros pedindo a sua transferência.
341

Já o devia ter feito há muito tempo. Suspirou profundamente.

Bateram novamente à porta, num toque mais tímido, agora.

— Entre! — gritou ele numa voz fatigada.

A porta abriu-se e um horroroso cão, em forma de salsicha, penetrou


na sala seguido de Ângela Errol, que imediatamente explicou a sua
visita, num tom de estridente cordialidade, onde não faltava uma
certa vivacidade agressiva.

— Peço que me perdoe a intrusão, mas venho em nome das esposas da


Embaixada. Pensámos que devia precisar de um pouco de companhia e
deliberámos pensar em conjunto no seu caso. O resultado chama-se
Fluke.

O homem e o cão contemplaram-se um momento em silêncio, surpreendidos


e cheios de desconfiança. Mountolive procurava em vão as palavras
adequadas. Sempre detestara os bassets que lhe faziam pensar em
lagartos arrastando o ventre no solo. Fluke pertencia à espécie. O
animal acabou por sentar-se sobre o traseiro como para manifestar, de
uma vez por todas, que não lhe restavam quaisquer ilusões sobre a sua
condição de cão e, no seguimento desse juízo, urinou sobre o belo
tapete de Chirag.

— Não é um encanto? — perguntou Ângela. Mountolive teve de fazer um


esforço para esboçar um sorriso, para se fingir satisfeitíssimo e
para exprimir os agradecimentos apropriados a tal gentileza. Sentia-
se sufocar.

— É encantador — disse por fim com o seu sorriso mais amável. — Fico-
lhe muito grato, Ângela. Foi um pensamento muito delicado.

O cão começou a bocejar de enfado.

— Direi então às outras senhoras que o presente foi bem acolhido —


fez ela com entusiasmo, dirigindo-se para a porta. — Ficarão
encantadas. Não há melhor companheiro que um cão, não é verdade?

Mountolive anuiu gravemente com a cabeça.


342

— É verdade!

Esforçava-se por parecer sincero.

Quando a mulher saiu, voltou a sentar-se e levou a chávena de chá aos


lábios, olhando fixamente, com um ar de desgosto, o animal de olhos
estúpidos. O pêndulo cantou docemente as horas no relógio da chaminé.
Tinha de ir andando para o seu gabinete, onde o esperava bastante
trabalho. Prometera dar a última demão no relatório económico, a
tempo de seguir pelo correio diplomático dessa semana. Havia também
que providenciar para que o retrato fosse despachado. Devia...

Ficou, contudo, a contemplar o triste animalejo abandonado sobre o


tapete e teve de repente a impressão de que se deixara engolir pelo
macaréu da insolência humana — tão apropriadamente expressa pelo
indesejável presente das suas admiradoras. Estava condenado a ser o
garde-malade do basset. Não havia pois outro processo de exorcizar a
sua melancolia? Soltou um suspiro e suspirando carregou na campainha.
XVI

O dia da sua morte foi, como qualquer outro dia de Inverno, em Karm
Abu Girg; ou simplesmente diferente num pequeno pormenor, cujo
significado ele não compreendeu imediatamente: os criados tinham
desaparecido todos, deixando-o sozinho em casa. Passara toda a noite
num sono perturbado pelas imagens luxuriantes da sua fantasia, densa
como uma selva tropical; acordando de vez em quando para ouvir o
grito suave dos grous que voavam nas trevas. Estava-se em pleno
Inverno e tinham principiado as grandes migrações. As longas
extensões polidas do lago principiavam a animar-se com a chegada dos
seus visitantes alados, como uma grande estação terminal. Ouvia-se
toda a santa noite a aproximação dos bandos — o bater pesado das asas
dos marrecos ou o som metálico dos gansos voando alto contra o disco
da Lua. No meio dos canaviais, nos lugares onde o frio dera às águas
um colorido verde-víbora, ouvia-se o chapinhar dos cisnes. O velho
casarão, com as suas paredes de mangra, onde hibernavam os escorpiões
e as moscas nos interstícios poeirentos, era agora para ele um
deserto, depois da partida de Leila. Percorria-o arrogantemente,
fazendo todo o ruído possível com os tacões, gritando aos cães e
estalando o chicote no meio do pátio. Os bonecos, com braços de
moinho, que se alinhavam nas paredes contra o mau olhado, rodopiavam
incessantemente sob os ventos invernais.
344

O ruido que as suas delgadas hélices de celulóide produziam era de


certo modo reconfortante.

Nessim tinha insistido muito com ele para que acompanhasse Leila e
Justine, mas ele recusara — na verdade comportara-se como um urso,
embora não ignorasse que sem a mãe a solidão da casa seria difícil de
sofrer. Fechara-se na incubadora e aos apelos do irmão respondera com
o silêncio. Era-lhe impossível enfrentar agora Nessim. Nem mesmo
apareceu quando Leila lhe falou através da porta — receando deixar-se
convencer por ela. Ficara ali em silêncio, de costas contra a porta,
o punho cravado na boca para abafar os soluços — tão pesado era para
ele o fardo da desobediência filial! Por fim deixaram-no. Ouviu as
ferraduras das montadas no pátio. Estava finalmente só.

Decorreu um mês de completo silêncio até ouvir outra vez a voz do


irmão, pelo telefone. Narouz passara o dia numa impaciência,
fiscalizando os trabalhos agrícolas com uma determinação concentrada,
galopando ao longo das margens do rio com os seus pensamentos a
persegui-lo; e sempre, enrolado na garupa, o mortífero látego.
Sentia-se agora incomensuravelmente velho — e contudo,
simultaneamente, tão novo para o Mundo como um feto preso pelo cordão
umbilical. A terra, a sua terra, agora castanha e grisalha como a
casca da vide velha lavada pela chuva, atraía-o. Era tudo quanto lhe
restava para cuidar — árvores queimadas pela geada, areia envenenada
pelo sol do deserto, comportas cheias de peixes e de gansos; e o
silêncio permanente, apenas quebrado pela mensagem eterna dos moinhos
hidráulicos («Alexandre tem orelhas de burro») carregado pelo vento
até aos mais recônditos confins, para fertilizar a História com a
memória contagiosa do deus-soldado; ou então pelo chapinhar dos
búfalos atrelados a azenhas. De noite era o grito incessante dos
patos comunicando uns com os outros no meio das trevas — ansiedades
ou alegrias que se exprimiam num peculiar código de viandantes.
Cortinas de neblina, nuvens baixas no meio quais explodiam auroras e
poentes com indomável esplendor, dois extremos de um mundo, uma
aguarela em ametista e nácar.
345

Normalmente era esta a época que ele preferia, a estação de caça com
as suas grandes fogueiras e os cães impacientes; era a altura de
ensebar as botas com banha de urso, de afinar as espingardas, de
preparar os cartuchos e de pintar as armadilhas... Nesse ano nem
mesmo tivera a alegria de participar na caçada aos patos oferecida
por Nessim. Sentia-se segregado, num mundo diferente. Tinha a
expressão rancorosa do comungante a quem foi recusada a absolvição.
Já não lhe bastava um cão e uma caçadeira para exorcizar a sua
tristeza; estava agora completamente voltado para Taor e para os
sonhos que com ela partilhava — e nos quais reconhecia os seus
direitos à posse de toda a terra egípcia... Estes sonhos confusos
entrecruzavam-se como afluentes de um grande rio. O próprio amor de
Leila era uma ameaça para eles — como uma liana parasita
estrangulando o crescimento de uma árvore. Pensava vagamente e sem
rancor no seu irmão, vivendo na cidade (só devia deixá-la mais
tarde), movendo-se no meio de criaturas tão insubstanciais como
bonecos de cera, a sociedade pintada das mulheres de Alexandria. E se
pensava ainda no seu amor por Clea era como se esse amor fosse uma
moeda de ouro brilhando no bolso de um mendigo... Assim vivia ele,
galopando numa exultação selvagem, no meio dos campos e das margens
do estuário, com as suas palmeiras apodrecidas balouçadas pelo vento.

Na semana anterior, Ali denunciara-lhe a presença de homens


desconhecidos nas vizinhanças das terras, mas não dera importância ao
caso. Era frequente um beduíno, ou qualquer estrangeiro, a caminho da
cidade, cortarem camião atravessando a plantação. Interessou-o muito
mais o telefonema de Nessim anunciando-lhe a visita a Karm Abu Girg,

na companhia de Baltasar, que estava interessado em estudar as novas


espécies de patos que tinham sido vistas no lago. (Do terraço da casa
podia-se dominar todo o estuário com um binóculo.)
346

Era justamente o que ele estava a fazer neste momento. Árvore por
árvore, canavial por canavial, observando minuciosamente a terra
através do seu velho óculo. Tudo permanecia misterioso, despovoado e
silente na luz débil da madrugada. Tencionava passar todo o dia fora,
nas plantações, a fim de evitar, sendo possível, avistar-se com
Nessim. Mas a deserção dos criados, um gesto inexplicável, intrigava-
o. Habitualmente, quando acordava, gritava por Ali que lhe vinha
despejar um balde de água quente sobre o corpo enquanto de dentro do
velho semicúpio victoriano bufava de satisfação. Mas hoje o pátio
conservava-se silencioso e o quarto onde Ali dormia estava fechado à
chave. Esta encontrava-se pendurada no seu lugar habitual, segura num
prego cravado na porta. Não se avistava ninguém.

Em passadas bruscas, subiu ao terraço, onde, com a ajuda do


telescópio, podia devassar as propriedades dos Hosnani. Uma demorada
e paciente observação não revelou nada de extraordinário. Praguejou e
abandonou o óculo. Tinha de olhar por si nesse dia. Desceu do seu
poleiro e agarrando na velha bolsa de caça dirigiu-se para a cozinha
a fim de enchê-la de comida. Encontrou o café a ferver e as panelas
sobre o fogão aceso, mas dos cozinheiros nem sinal. Resmungando, pôs-
se a trincar um pedaço de pão, enquanto preparava o farnel. Uma ideia
ocorreu-lhe então. No pátio, ao seu assobio agudo, os cães de tiro
teriam normalmente acorrido para lhe vir farejar as botas, mas hoje,
ao seu assobiar furioso, só respondeu o próprio eco devolvido pelo
vento. Teria Ali levado os bichos a passear? Não parecia provável.
Assobiou de novo, com mais força, os pés afastados, as mãos sobre as
ancas. Nenhuma resposta. Dirigiu-se à estrebaria e encontrou o seu
cavalo. Ali, pelo menos, tudo parecia normal. Aparelhou-o e levou-o
para o pátio. Depois, subiu a casa para ir buscar o chicote. Enquanto
o enrolava assaltou-o novo pensamento. Dirigiu-se à sala e retirou
revólver da escrivaninha, verificando que estava carregado.
347

Entalou-o no cinturão.

Então partiu a passo, dirigindo o cavalo lentamente para leste, pois


propunha-se, antes de mais nada, ver o que se passava na propriedade
antes de se internar nas densas plantações onde tencionava passar o
dia. O ar ia-se tornando áspero, à medida que clareava, com a neblina
do pântano a dissolver-se rapidamente. Cavalo e cavaleiro
atravessavam sem ruído os caminhos familiares. Depois de meia hora
alcançou a orla do deserto, não tendo avistado nada, embora os seus
olhos hábeis não perdessem um pormenor. A terra macia abafava o ruído
das ferraduras. Na parte oriental da plantação parou por dez minutos,
percorrendo de novo a paisagem com o óculo. E ainda desta vez nada
descobriu. Não desprezou nenhum dos menores sinais capazes de
denunciar a presença de desconhecidos, trilhas do deserto, pegadas na
terra mole das margens de acesso. O sol erguia-se lentamente mas a
terra continuava ainda coberta por uma fina mortalha de névoa. Junto
das bombas de água desmontou e esteve por um momento a ouvir
deliciado o surdo palpitar dos pistões. Voltou a montar e encaminhou
o cavalo para os bosques mais densos da plantação, com as suas
queridas oliveiras de Tripoli e as acácias, os zimbros geradores de
humo e as espigas rumorosas de milho indiano. Continuava porém de
atalaia, fazendo curtos percursos, parando aqui e além para escutar
intensamente durante um minuto. Mas só ouvia o marulho distante dos
pássaros, o padejar das asas dos flamingos nas águas do lago, o grito
melodioso das cercetas ou o trombetear solene e majestoso dos gansos.
Tudo familiar, tudo normal. Continuava intrigado mas de forma nenhuma
assustado.

Dirigiu-se finalmente para a grande árvore melek, orgulhosamente


erecta no meio da sua clareira, com os enormes ramos ressumando
orvalho. Aqui, havia muito tempo, parara para orar com Mountolive,
debaixo dos galhos sapados, carregados com o fruto das oferendas
humanas: ex-votos, representados por fragmentos de tecidos coloridos,
rosários, algodões estampados...
348

Uma gigantesca árvore de Natal! Desmontou para cortar alguns rebentos


que embrulhou e guardou cuidadosamente. E, de súbito, ficou hirto,
porque tinha ouvido som de movimento no matagal circunvizinho. Sons
difíceis de identificar, de isolar — o deslizar de um corpo entre as
folhas ou talvez o raspar de uma sela contra um ramo quando cavalo e
cavaleiro se preparam cuidadosamente para armar uma emboscada? Narouz
ouviu e soltou uma risadinha abafada, como se estivesse recordando
para si uma velha anedota. Lastimava aqueles que intentassem molestá-
lo ali, nas suas terras, cujos menores relevos conhecia de cor. Aqui
encontrava-se no seu próprio terreno — era ele o senhor.

Voltou para o cavalo no seu andar oscilante e silencioso. Montou e


afastou-se lentamente da sombra dos grandes ramos a fim de permitir
amplo campo de manobras ao comprido chicote e cobrir as duas entradas
da plantação. Os seus adversários — se existiam — teriam de se
aproximar por um dos dois caminhos. Tinha as costas cobertas pela
grande árvore e soltou uma risadinha de satisfação, esperando atento,
a cabeça ligeiramente inclinada para um dos lados, como um cão de
caça; fez a ponta do chicote mover-se com os lentos e voluptuosos
movimentos de uma cobra sobre a terra poeirenta, desenhando círculos,
erguendo o capelo... Provavelmente tratava-se de um falso alarme —
talvez fosse Ali que vinha desculpar-se... De qualquer maneira, o
encontro com o seu senhor havia de aterrá-lo — pois já vira o chicote
em acção... Outra vez o rumor. Um rato de água mergulhou no canal e
afastou-se a nadar precipitadamente. Entre os canaviais, Narouz
avistava agora sinais de movimento. Esperou, imóvel, como uma estátua
equestre, a pistola na mão esquerda, o chicote um pouco recuado, o
braço na atitude do pescador que se prepara para lançar o anzol.
Sorria. A sua paciência era infinita.

O som distante de disparar não era raro entre os ruídos familiares do


lago; combinava-se com o ruído das gaivotas que vinham do litoral e
com o som das outras aves que povoavam os canaviais da lagoa.
349

O hábito ensinava as pessoas a distinguir os vários sons das armas —


e Nessim passara a infância com uma espingarda nas mãos. Era capaz de
diferençar os calibres pelo eco dos disparos. Os dois homens
encontravam-se a cavalo junto do embarcadouro quando a coisa veio,
uma mera vibração de ar, caindo sobre a membrana do tímpano como
pingos de chuva, como o gotejar de uma torneira num velho casarão.
Mas eram tiros, com certeza. Baltasar voltou a cabeça, dirigindo o
olhar surpreendido para os lados do lago.

— Parecem tiros de pistola — observou. Nessim sorriu abanando a


cabeça.

— Carabina de pequeno calibre. Algum caçador furtivo atirando aos


patos.

Mas seguiu-se uma série de tiros superior em número aos cartuchos que
se podem alojar no carregador de qualquer tipo de carabina. Montaram
os cavalos que lhes tinham sido trazidos, um pouco intrigados, tanto
mais que Ali não os esperava. Amarrara as montadas e deixara-as à
guarda do encarregado da portagem, desaparecendo na bruma.

Cavalgaram vivamente, lado a lado, descendo as margens. O sol


erguera-se e agora toda a superfície do lago subia para o céu, como
um alçapão de teatro, erguendo-se numa nuvem de vapor; aqui e além
intervinham miragens e viam-se fragmentos de paisagem de cabeça para
baixo ou então sobrepostos como várias fotografias tiradas na mesma
chapa. A primeira indicação de que havia alguma coisa mal foi a visão
de um vulto em roupagens brancas fugindo ao correr da cortina de
vapor — acção inédita naquela terra tranquila. Quem fugiria de dois
cavaleiros na estrada de Karm Abu Girg? Algum vagabundo? Estacaram
perplexos.

— Creio que ouvi tiros para o lado da casa — disse finalmente Nessim
em voz baixa, constrangido, e, como se ambos fossem simultaneamente
fustigados pelo mesmo pensamento, lançaram as montadas num galope
vivo, a caminho de casa.
350

Um cavalo, o cavalo de Narouz, sem cavaleiro, encontrava-se parado, a


tremer, em frente das portas escancaradas da mansão. Tinha recebido
um tiro nos lábios — um rasgão que lhe emprestava uma espécie de
sorriso sangrento. Gemia mansamente quando os homens se aproximaram.
Antes de terem tempo de desmontar ouviram-se tiros no pomar e um
vulto saiu do meio das árvores curvado para eles. Era Ali. Apontou
para a plantação e gritou o nome de Narouz. O nome, tão cheio de
presságios para Nessim, tinha já uma curiosa auréola obituária,
embora o seu titular ainda não tivesse morrido.

— Junto da árvore sagrada —- bradou Ali, e os dois homens, cravando


os calcanhares nos cavalos, atravessaram a plantação tão depressa
quanto possível.

Narouz jazia sobre a relva, debaixo da árvore nubk, com a cabeça e o


pescoço apoiados ao tronco, num ângulo que, inclinando-se para a
frente, dava a impressão de ele estar a estudar os ferimentos do seu
corpo. Só os olhos se moviam, mas não conseguiam subir acima dos
joelhos dos dois homens; a dor tinha-lhe alterado a cor azul viva,
dando-lhes a tonalidade sombria do chumbo. O chicote enrolara-se em
torno do seu corpo, provavelmente quando caíra da sela. Baltasar
desmontou e encaminhou-se para ele lenta e deliberadamente, fazendo o
pequeno ruído habitual com a boca; embora parecesse compassivo era,
na realidade, uma interjeição inarticulada de censura contra a
satisfação que uma parte da sua mente profissional sentia na presença
da tragédia. Sempre lhe parecera que não tinha o direito de ficar tão
entusiasmado. Nessim estava muito pálido e muito calmo mas não se
aproximou do vulto do irmão. E, contudo, o quadro possuía uma espécie
de tremendo magnetismo — era como se Baltasar estivesse manipulando
qualquer explosivo, tremendamente poderoso, capaz de se inflamar
matando-os a ambos.
351

Mas, em matéria de colaboração, limitava-se a segurar os cavalos.


Narouz disse então numa vozinha amuada — a voz de uma pessoa que
conta com a sua doença para satisfazer os seus caprichos — uma coisa
bastante inesperada:

— Quero ver Clea.

Aquilo foi pronunciado tão naturalmente como se a frase viesse sendo


ensaiada mentalmente há séculos. Humedeceu os lábios e voltou a
formular o mesmo desejo. De onde Baltasar se encontrava poderia
tomar-se por um sorriso a contracção de dor que lhe arrepanhava os
lábios. Pegando no par de tesouras cirúrgicas que trouxera para as
suas experiências com os patos, Baltasar começou a cortar, de norte
para sul, as roupas de Narouz. Nessim aproximou-se e debruçaram-se
sobre aquele tronco poderoso onde as balas se tinham enterrado como
nós de madeira. Mas eram muitas, eram demais. Baltasar fez o seu
gesto característico de incerteza, o gesto de um chinês que cruza as
mãos...

Mas, na clareira, havia agora muito mais gente. Começava a pensar-se


com mais facilidade. Tinham trazido uma enorme colcha de púrpura a
fim de carregar o ferido para casa, que agora, estranhamente, se
encontrava cheia de criados. Tinham voltado como a maré. O ar estava
sobrecarregado com os seus cuidados. Narouz rangeu os dentes e gemeu
quando o levantaram e o carregaram na colcha, como um veado ferido,
através da plantação. Quando se aproximavam de casa, pediu, numa voz
infantil e clara, «para ver Clea», antes de recair num silêncio
febril, interrompido por suspiros trémulos.

Os criados murmuravam:

— Graças a Deus, o doutor está aqui! Tudo há-de correr bem com ele!

Baltasar sentiu os olhos de Nessim procurarem os seus. Sacudiu a


cabeça gravemente, sem esperança. Era uma questão de horas, de
minutos, de segundos... Entretanto, alcançaram a casa como uma
espécie de grotesca procissão religiosa, transportando o corpo do
filho mais novo. Gemendo e soluçando baixo, mas esperando um milagre,
as mulheres contemplavam o corpo que balouçava na colcha púrpura,
enfunando-a como se fosse uma vela.
352

Nessim dava instruções: «Cuidado aí»; e «devagarinho, nessa esquina».


Assim o foram levando gradualmente para o quarto espartano de onde
ele saíra nessa manhã. Entretanto, Baltasar corria para um armário de
medicamentos armazenados para acorrer a qualquer acidente no lago e
preparava uma injecção de morfina. Agora, da boca de Narouz soltava-
se uma espécie de estertor. Tinha os olhos fechados. Não podia ouvir
o que no outro extremo da casa Nessim dizia a Clea, pelo telefone.

— Mas ele está moribundo, Clea.

A rapariga soltou um gemido inarticulado de protesto:

— Que posso eu fazer, Nessim? Ele não representa nem nunca


representou nada para mim. É tão desagradável, por favor não me
obrigues a ir, Nessim.

— Claro que não. Pensei simplesmente, como ele está a morrer...

— Mas se pensas que tenho o dever...

— Não penso nada. Ele já não viverá muitas horas, Clea.

— Pela tua voz, vejo que devo ir. Ó Nessim, que coisa desagradável as
pessoas amarem-nos sem lhes termos dado motivo para isso. Mandas o
carro ou queres que telefone a Selim? Estou a tremer como varas
verdes.

— Obrigado, Clea — disse Nessim cortando a conversa e com a cabeça


tristemente inclinada; a palavra «desagradável» ferira-o. Regressou
lentamente ao quarto e reparou que o pátio estava cheio de gente —
além dos criados da casa havia, agora, muitos curiosos. A desgraça
atraía as pessoas como as feridas atraem as moscas, pensou Nessim.
Narouz caíra em torpor. Sentou-se junto de Baltasar e principiaram a
falar quase em segredo.

— Então ele tem mesmo de morrer? — perguntou Nessim tristemente. —


Sem ver a mãe? — Parecia-lhe que o facto de ter forçado Leila a
partir agravava o peso da sua culpa. — Assim... só?
353

Baltasar fez uma careta de impaciência. — O que é de surpreender é


que ainda esteja vivo — exclamou. — Não há absolutamente nada...

E com uma grave lentidão, Baltasar sacudiu a cabeça morena e


inteligente. Nessim levantou-se e exclamou:

— Então terei de avisá-los de que não há nenhuma esperança. Quererão,


com certeza, preparar-se para a sua morte.

— Faça o que achar melhor.

— Tenho de mandar chamar o padre Tobias. Ele deve receber os últimos


sacramentos — a Sagrada Eucaristia. O padre dirá a verdade aos
criados.

— Proceda como entender — disse Baltasar secamente, e a alta figura


do amigo deslizou, escadas abaixo, para ir ao pátio dar as suas
instruções. Um criado foi despachado a cavalo para ir buscar o padre,
que devia vir urgentemente e preparado para ministrar a Narouz os
últimos sacramentos. Quando este facto se tornou conhecido houve um
grande suspiro de horrível expectativa e os criados ficaram transidos
de terror.

— E o doutor? — gritavam angustiosamente. — E o doutor?

Baltasar sorriu, sentado à cabeceira do moribundo. «E o doutor?» Que


parvoíce! Colocou a mão fria sobre a testa de Narouz, com um ar de
tristeza e resignação. Uma temperatura elevada, uma dúzia de balas no
corpo... «E o doutor...?»

Pensando na futilidade dos trabalhos humanos e nos horrorosos


acidentes a que está exposta a vida da mais confiante e inocente das
criaturas, acendeu um cigarro e dirigiu-se para a varanda. Uma
centena de olhares procuraram o seu, implorando-lhe que, por algum
secreto poder da sua magia, restituísse a saúde ao doente. Repeliu a
súplica franzindo os sobrolhos. Se fosse algum mágico das fábulas
egípcias ou do Novo Testamento diria a Narouz que se levantasse.
Mas... «E o doutor?»

A despeito das hemorragias internas e de sentir o pulsar do sangue


martelando-lhe os ouvidos, da febre e da dor, o doente estava
simplesmente a guardar — num certo sentido — as suas energias, para
quando Clea aparecesse.
354

Deixou-se iludir momentaneamente pelo adejar das vozes e pelo rumor


de passos na escada que precederam a entrada do padre. As suas
pestanas bateram mas tornaram a cair quando começou a ouvir a voz
pastosa desse jovem sacerdote de rosto nédio e ar de quem acabava de
refastelar-se com um bom almoço. Voltou a isolar-se na sua espera
persistente, deixando que Tobias o julgasse inconsciente ou mesmo
morto, desde que pudesse conservar uma pequenina parcela do seu
espaço moribundo para a loura imagem — intangível e agora mais remota
do que nunca no seu espírito — e todavia capaz de corresponder ao
apelo do seu sofrimento. Mesmo que fosse apenas por piedade. Sentia-
se túmido de desejo, tenso como uma mulher grávida. Quando se ama
sabe-se que o amor é um pedinte, um pedinte sem amor próprio; e os
gostos da simples piedade humana podem consolar na ausência do amor,
disfarçando-se numa felicidade imaginária. E, contudo, o dia
arrastava-se e ela sem chegar. A ansiedade da casa era tão profunda
como a do próprio moribundo. E Baltasar, que adivinhava o que ia no
espírito de Narouz, sentiu-se tentado por este pensamento: «Eu podia
imitar a voz de Clea — perceberia ele o embuste? Podia acalmá-lo
pronunciando algumas palavras com a voz dela». Era um ventríloquo de
primeira ordem e um excelente imitador. Mas ao primeiro pensamento
outro se opôs: «Não. Ninguém deve interferir com um destino, por mais
amargo que seja, socorrendo-se de mentiras. Ele deve morrer na
verdade». E a primeira voz retorquiu com azedume: «Se damos ao
moribundo o alívio da morfina e os confortos da religião, porque não
lhe havemos de proporcionar o consolo de uma voz humana imitada, de
um aperto de mão desejado e impossível? Podias fazê-lo sem
dificuldade». «Não», disse para si próprio, sacudindo obstinadamente
a cabeça, enquanto ouvia a voz desagradável do padre a ler as
passagens do Evangelho, lá fora, no terraço, confundindo-se com o
murmúrio da pequena multidão reunida no pátio.
355

Ler o Evangelho não era o mesmo que imitar a voz de Clea? Beijou
lentamente a testa do moribundo, tristemente, enquanto reflectia.

Narouz começou a sentir-se arrastado para o outro mundo pelos cinco


cães raivosos dos sentidos que puxavam a trela cada vez com mais
força. Opôs-se-lhes com todas as forças da sua vontade poderosa,
lutando para guardar tempo, esperando a única presença humana que
desejava — a voz e o perfume de uma rapariga que os seus sentidos
tinham sublimado e entesourado como uma imagem preciosa. Sentia os
nervos palpitando em espirais de dor, as bolhas de oxigénio subindo
cada vez mais lentamente para explodirem no sangue. Sabia que tinha o
seu tempo contado e que este estava a esgotar-se rapidamente. O peso
lento da paralisia assentava sobre a sua mente como um narcótico para
a dor.

Nessim voltou ao telefone. Estava agora pálido, com duas rosetas


febris nas faces, e falou com o mesmo tom agudo e docemente histérico
da voz de Leila. Clea já tinha partido para Karm Abu Girg, mas
constava que uma ponte da estrada se encontrava interrompida pela
rotura de um dique. Selim duvidava que ela conseguisse atravessar o
canal ainda nessa tarde.

Principiou então uma luta terrível no peito de Narouz — uma luta para
manter o equilíbrio entre as forças que se debatiam dentro dele. Os
músculos contraíam-se e as veias dilatavam-se como cordões de ebonite
em consequência do esforço da vontade que não queria ceder. Contraiu
os dentes num ímpeto selvagem, como um javali sufocado pelo estilete
que o afoga em sangue. E Baltasar, imóvel, uma das mãos sobre a testa
de Narouz, a outra dominando-lhe com firmeza as contracções do pulso,
Ia murmurando em árabe: «Descansa, meu querido. Está tranquilo, meu
amor». A tristeza que sentia conferia-lhe um domínio completo de si
próprio, uma calma infinita.
356

A verdade é tão amarga que o conhecimento dela confere uma espécie de


prazer sensual.

A situação manteve-se sem alteração durante alguns minutos. Depois,


por fim, da garganta do moribundo, como o rugido cavernoso de um leão
ferido de morte, soltou-se o nome de Clea; e naquela única palavra
conjugavam-se a dor, a censura do abandono e uma avassaladora
tristeza. Aquela palavra tão nua e simples como «Deus» ou «Mãe» soou
como se tivesse sido proferida pelos lábios de algum conquistador
moribundo, algum rei perdido, consciente da dissolução simultânea do
seu corpo e da sua alma. O nome de Clea ecoou por toda a casa,
levando a todos os recantos o esplendor da sua angústia, silenciando
os murmúrios dos servos e dos visitantes, fazendo baixar as orelhas
dos cães que se encolheram submissos, vibrando aos ouvidos de Nessim
como uma nova e terrificante amargura, demasiado profunda para
provocar lágrimas. E quando o som se foi perdendo no espaço, a noção
da morte de Narouz caiu sobre todos os presentes como um fardo
esmagador — como uma pedra tumular caindo sobre a última esperança.

Imóvel, e sem idade, como a própria dor, a efígie derrotada do médico


permanecia sentada ao lado de Narouz. Ao grito enorme sucedeu-se o
longo estertor, cujo som áspero foi gradualmente transformado no
zumbido de uma mosca presa numa remota feia de aranha.

E bruscamente Nessim deixou escapar um simples soluço — um ruído não


maior do que o produzido pelo rebento de bambu arrancado da haste —
e, como se fosse a abertura de uma grande sinfonia, este soluço ecoou
na penumbra do pátio e passou de boca em boca, de coração em coração.
E — como velas que se acendem umas às outras — os soluços foram-se
desencadeando nas gargantas, numa execução orquestral do tema
precioso da tristeza, e um prolongado e trémulo gemido elevou-se para
o céu agonizante, num gemido cujo som se confundia com o crepitar da
chuva que caía sobre o lago Mareótis.
357

A morte de Narouz começava a nascer. Baltasar, de cabeça baixa,


recitava para si estes versos, em grego:

Agora a tristeza da partida do homem que morre

Sopra como o vento nas enxárcias de um veleiro

Sopradas pelo fantasma da Morte...

Era o sinal para se desencadearem dentro de casa as cenas terríveis


do ritual copta, cenas carregadas de um antigo terror e abandono.

A morte reconduzia as mulheres para o reino delas e libertava-as das


suas reservas de sofrimento. Lançaram-se escadas acima, cada vez mais
depressa, a face desfigurada pelo primeiro e horroroso grito. Os
dedos eram agora tenazes que laceravam a carne, os seios, as faces,
com um abandono erótico, enquanto galgavam os degraus. Soltavam
aquele curioso e irritante lamento chamado o zagreet, com as línguas
a dedilhar o céu da boca como se esta fosse um bandolim. Um coro de
trinados em vários tons e capaz de rasgar os tímpanos de quem não
estivesse habituado a ouvi-lo.

A velha casa ecoava os gritos destas harpias que iam tomando posse de
tudo, invadindo a câmara mortuária para rodear o cadáver, repetindo
sempre aquele uivo de morte de gelar o sangue e cheio de um
intolerável abandono animal. Iniciaram as danças rituais diante de
Nessim e Baltasar. Sentados nas suas cadeiras, cabeças caídas sobre o
peito, mãos enclavinhadas, eram bem o símbolo da desgraça humana.
Aqueles gritos agudos e trémulos laceravam como estiletes,
penetrando-os até ao âmago dos seus próprios seres. Agora só restava
submeterem-se ao velho ritual fúnebre; a tristeza era agora um
frenesim orgíaco que raiava pela loucura. As mulheres dançavam agora
em torno do corpo, flagelando os seios e uivando, mas dançando nos
lentos e comedidos compassos de uma dança recolhida nos frisos
esquecidos há muito dos túmulos do mundo antigo.
358

Balouçavam o corpo, oscilando da cabeça aos pés, e dobravam-se, e


voltavam-se, invocando o morto. «Ergue-te, meu desespero! Ergue-te,
meu morto! Ergue-te, meu idolatrado, meu morto, meu camelo, meu
protector! Ó bem amado corpo, cheio de vida, ergue-te!» Depois os
uivos fantasmagóricos rasgavam-lhes de novo as gargantas e lágrimas
amargas corriam-lhes pelas faces. Continuavam a rodar, hipnotizadas
pelos seus próprios lamentos, contaminando toda a casa com a sua
tristeza, enquanto do pátio sombrio se elevavam os soluços mais
profundos e sóbrios dos homens que davam as mãos e repetiam uns para
os outros, para se consolarem: «Ma-a-lesh! Perdão! Nada pode minorar
a nossa tristeza!»

A dor multiplicava-se e proliferava. As mulheres acorriam de toda a


parte, como moscas. Algumas já traziam vestidos os sujos trapos de
algodão azul-escuro, que são o trajo preceituado para o luto ritual.
Tinham polvilhado o rosto com anil e coberto os cabelos de cinzas.
Acompanhavam agora os gritos das mulheres que se encontravam no
primeiro andar, descobrindo os dentes esmaltados, e principiaram a
subir as escadas inundando toda a casa como demónios. Quarto após
quarto, com uma fúria sistemática, apoderavam-se do velho casarão,
parando apenas um pouco para lançar os seus uivos arrepiantes. Camas,
armários, sofás, era tudo levado para o terraço e lançado no pátio. A
cada estrondo, uma renovada febre de gritos — os longos e
borbulhantes zagreet — iniciava-se num grupo para logo contaminar
toda a casa. Os espelhos estilhaçavam-se, os quadros eram voltados
para as paredes e os tapetes colocados do avesso. Todas as porcelanas
e todos os cristais existentes em casa — salvo o serviço de café que
se destinava exclusivamente ao ritual fúnebre — estavam reduzidos a
cacos. Tudo o que pudesse sugerir a ordem e a continuidade da vida
doméstica, pessoal ou social tinha sido destruído ou afastado.
Destruía-se até sistematicamente tudo o que pudesse recordar o morto
— pratos, quadros, ornamentos... A casa estava agora completamente
devastada e o pouco que fora poupado encontrava-se agora coberto por
panos pretos.
359

Entretanto, armara-se em baixo uma grande tenda colorida onde os


visitantes eram recebidos e esgotavam a «velada da Solidão» bebendo
café e ouvindo o coro de lamentos que lhes cobria as cabeças e que de
vez em quando se atiçava num assomo de gritos, quando não era cortado
pela queda de uma mulher que desmaiava ou pelo rebolar de outra que
caía em transe. Nada devia omitir-se para que o funeral de Narouz
fosse realmente imponente. Chegavam constantemente novos visitantes,
tanto pessoais como profissionais, por assim dizer; aqueles que
vinham participar no funeral de um amigo passavam a noite debaixo da
grande tenda brilhantemente iluminada. Mas havia os outros — as
outras, aliás — carpideiras das aldeias vizinhas para quem a morte
era uma espécie de competição na poesia do luto; chegavam a pé, em
carruagem, em camelos. E à medida que atravessavam o portão lançavam
um longo grito dilacerante, como um orgasmo que ia renovar a tristeza
das carpideiras presentes, que se incendiava em lamentos por todos os
cantos da casa — os gemidos surdos subindo gradualmente até uma nota
aguda e vibrante que gelava o sangue e sacudia os nervos.

Estas carpideiras profissionais traziam consigo toda a poesia bárbara


da sua casta, de memórias carregadas com anos de práticas fúnebres.
Às vezes eram novas e belas. Eram cantoras. Traziam com elas os
tambores e tamborins rituais com que acompanhavam os passos de dança
e que serviam para marcar o compasso dos seus próprios lamentos ou
estimular, com soberba e calculada lentidão, uma dança em torno do
cadáver, debruçando-se sobre Narouz para lhe recitarem elegias no
mais belo e poético árabe que se possa conceber. Louvavam-lhe o
carácter, a rectidão, a beleza e a fortuna. Estas estrofes perfeitas
eram cadenciadas pelos soluços dos assistentes e, embora
invulneráveis à poesia, até os velhos que se encontravam sentados nas
duras cadeiras que mobilavam a tenda deixavam escapar um soluço das
gargantas apertadas. «Ma-a-lesh».
360

Entre os velhos encontrava-se Mahommed Shebab, professor e amigo dos


Hosnani. Vestia as suas melhores roupas e trazia um par de pérolas
antigas cravadas no turbante vermelho. Recordando-se de outras noites
que passara no terraço da velha casa, com Nessim e Narouz, ouvindo
música e tagarelando com Leila, enchia-o de uma dor genuína. Aquela
tristeza fê-lo pensar na morte do irmão e, soluçando, meteu dinheiro
na mão do criado e ordenou-lhe: «Pede a Álamo que faça o favor de
cantar outra vez o recitativo da Imagem das Mulheres». E quando o
cantor entoou de novo o grande poema, o velho recostou-se na luxúria
e na consolação de uma dor que se aniquilava na poesia. Outros
pediram também para que lhes cantassem os seus lamentos favoritos, e
assim todas as dores da província se renovaram e apaziguaram através
da imagem morta de Narouz.

As danças duraram até de madrugada, acompanhadas pela cadência dos


tamborins e pelos gritos dilacerantes das carpideiras. Algumas foram
vencidas pelo cansaço e muitos criados da casa desmaiaram
histericamente; mas as profissionais conheciam as suas forças e
quando se sentiam desfalecer deixavam-se cair no chão, onde
repousavam alguns minutos fumando um cigarro. Depois iam de novo
juntar-se ao círculo das dançarinas, completamente restabelecidas.

Depois do primeiro assomo de dor profissional, Nessim mandou chamar


os padres que viriam acrescentar o murmurar dos seus salmos ao som da
água e da esponja com que o corpo de Narouz havia de ser lavado.
Chegaram finalmente dois acólitos da Igreja Copta — um par de brutos
ignorantes — que tinham a seu cargo lavar o cadáver. E aqui
desencadeou-se um chinfrim porque o pagamento daquela macabra tarefa
consiste tradicionalmente nas roupas do morto e os acólitos nada
encontraram no modesto guarda-roupa de Narouz que lhes parecesse
recompensa adequada.
361

E como não aceitavam dinheiro — isso desencadearia sobre eles


infinitas desgraças — Nessim começou a irritar-se. Mas os outros,
obstinados como mulas, recusavam-se a lavar o cadáver antes de
receberem o pagamento ritual. Finalmente, Nessim e Baltasar foram
forçados a despojarem-se das suas próprias roupas para com elas pagar
aos acólitos.

Nessim deu depois ordens para que se fizesse uma urna. A cantoria
fúnebre era pouco depois cortada ritmicamente pelas marteladas e pelo
zumbido da serra que se ouvia na pequena oficina do pátio. Nessim
sentia-se exausto e dormitava numa cadeira, para acordar de vez em
quando em sobressalto por um acesso de sentimento das carpideiras ou
por algum servo que vinha pedir instruções.

Sons de cânticos, crepitar de tochas, o afago das esponjas e o raspar


da navalha sobre a face do morto. Aquilo agora já nem era doloroso —
atordoava apenas. O som dos pingos da água e da esponja esmagando-se
docemente sobre o corpo do irmão pareciam agora ser parte de uma
trama completamente nova de pensamentos e emoções. Os gemidos dos
acólitos quando voltavam o cadáver; o baque do corpo na mesa era como
o ruído abafado de uma lebre morta lançada sobre a mesa da cozinha...
Estremeceu.

Narouz, finalmente lavado, ungido e perfumado com essências de rosa e


tomilho, jazia confortavelmente no rude caixão, vestindo o burel
branco, lavado na água do Jordão, que todo o copta guarda para lhe
servir de mortalha. Não levava para a sepultura nem jóias nem ricas
vestimentas, mas Baltasar colocou-lhe o chicote, enrolado debaixo do
travesseiro. (No dia seguinte os servos descobriram o cadáver de um
homem cuja face fora inteiramente destruída pelas vergastadas daquele
látego temível; ao que parece teria fugido, uivando e irreconhecível,
através da plantação, para cair num dos canais onde se afogara. O
chicote completara a sua obra!)

Agora restava apenas esperar que amanhecesse. De novo as carpideiras


entraram no quarto onde jazia Narouz, de novo recomeçaram as suas
danças, de novo se ouviam os tambores...
362

Baltasar resolveu retirar-se então. Os dois homens atravessaram o


pátio em silêncio, apoiando-se mutuamente, exaustos.

— Se encontrar Clea na portagem, leve-a para Alexandria — disse


Nessim.

— Esteja descansado.

Apertaram as mãos e abraçaram-se demoradamente. Depois, Nessim voltou


para casa, bocejando com tremores de frio. Sentou-se numa cadeira,
sonolento. Durante três dias ainda a alma de Narouz habitaria a casa
e só depois desse prazo é que seria «afastada» pelas práticas rituais
dos sacerdotes. Primeiro haveria a dilatada procissão com velas e
pendões, ao romper da manhã, antes de se levantar a bruma, as
mulheres a puxar os cabelos como fúrias. Os diáconos cantando
«Lembra-te de mim, Senhor, quando chegares ao teu reino», em vozes
profundas e dilacerantes. Depois, no lajedo frio da Igreja, os
torrões da terra caindo sobre a face pálida de Narouz e as vozes
recitando «Em pó te tornarás», enquanto os períodos reboantes do
Evangelho o vão conduzindo para o Céu. Ranger de parafusos quando a
tampa desce. Tudo isto Nessim viu antecipadamente, enquanto cabeceava
ao lado do caixão. E de repente sentiu uma grande curiosidade de
saber em que estaria sonhando Narouz com o grande chicote enrolado
debaixo do travesseiro.

FIM

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