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MENSAGENS NA SECRETÁRIA ELETRÔNICA

Releitura do texto “Conflito” de Maria Jacintha


Mai/Jun/Jul - 2004
Solange Dias

DES-PRÓLOGO

ELA - Leituras...Re-leituras... Preciso de uma nova trajetória. Existe


reler trajetórias? Não estou à procura de um autor. Isso eu já tenho.
Estou à procura de ser. E vocês poderiam me perguntar? Isso não
seria um problema do seu autor? Bem, tê-lo não significa também
muita coisa. Antes, eu era alguma coisa. Antes, determinada, não
mentia. Hoje... Antes, íntegra, solidária, impulsiva. Hoje... Antes,
libertária, avançada, irônica. Hoje... Antes, feminista, confiante.
Hoje... Hoje sem contexto, perco o que fui. Não sendo mais àquela,
a que me submeto agora? O que ser aqui, agora, aqui na frente de
todos? O que é uma re-leitura? Que tempos vivemos? Àquilo pelo
qual eu brigava, hoje é outra coisa. Pelo que brigo hoje? Por onde se
começa? Como não há certezas, busco meios, possibilidades,
tentativas...É a única coisa que posso me oferecer... pelo menos por
enquanto.

TENTATIVA 1 – Mensagens na secretária eletrônica

Ela liga a secretaria eletrônica. Mensagem em off: “Você ligou para


Gilda e Geraldo. No momento não podemos atendê-lo. Após o sinal,
deixe o seu recado, que assim que pudermos, entraremos em
contato”. Mensagem dele: “ Eu diria que nossas secretárias
eletrônicas e e-mails se conversam, se amam e se brigam muito
mais do que nós dois... Quando estávamos juntos até chegarmos
naquele ponto insuperável de não nos conversarmos mais, nossos
olhares e atitudes contavam do imenso abismo que havia entre nós.
Separados de verdade, e não tendo mais a imagem um do outro, só
nos restam palavras impressas numa tela, e no som desta maldita
secretária eletrônica. Enfim, acho que já está mais do que na hora de
você trocar esta mensagem. Ouvir de sua voz que estou aí, estando
aqui, me dá uma terrível sensação de que não estou em lugar algum.
E por favor, quero desesperadamente começar alguma coisa de
algum lugar, entende? Ou seja, me deixa tentar isso?! Me deixa?!”
Ela liga: Mensagem em off dele: “ Você ligou para Geraldo, e já
sabe o que fazer” Ela deixa mensagem, e vai ligando várias vezes
até que fale tudo aquilo que deseja: Ela fala: “Estou indo pela
contra-mão. ‘Se alguém tocar seu corpo como eu...’ Hoje, sendo
diferente do que era antes... Hoje, diferente dos outros dias... Hoje, o
dia inteiro, e agora noite... Pensa! Até saí, vi vitrines, não trabalhei e
isto é bem pior. No trabalho te guardo, te deixo quieto: todos me
solicitam, e nas minhas respostas, me vêm outras respostas, me vêm
outras atenções, e assim, você não me vêm... Quando vejo, já é noite
e aí... Hoje, caíram fichas, catarse..., as fichas. Na hora em que tudo
acontece, não percebemos o tamanho do rombo. Com o tempo,
vamos medindo cada perda, cada centímetro, e fico rodando...
rodando... Tenho culpa se tuas imagens se prenderam em meus
cabelos como bordados com suas linhas nos panos? E não há
tesoura, não há faca, não há boca que corte, fira, rompa a teia. Teço
mortalhas, bordados como enxovais. Meus enxovais de verdade,
comprei prontos, sem muita emoção, apenas com gosto utilitário.
Este foi meu erro: Devia tê-los tecido. Não dei tempo suficiente para
amadurecer a espera... Veja: tudo fica preso , enroscado na alma:
teus pés fazendo amor com os meus pés, sob o cobertor. E frio,
muito frio... ‘Se alguém tocar seu corpo como eu...’ ”

TENTATIVA 2 – Furta-cores I

Na janela do apartamento, fuma um cigarro inteiro, distraidamente,


pensativamente. Nela, incidem reflexos dos letreiros luminosos.
Furta-cores. O telefone toca, toca, toca. Até cair na secretaria
eletrônica. Off, mensagem dela. Depois Mensagem dele: “Saco!”
Voz off dela: “Os cartazes, anúncios, letreiros e luzes da avenida,
todos eles significam, sabem quem são, a que vieram. E eu sou
apenas uma possibilidade...”

TENTATIVA 3 – Per-ceber/Con-ceber

Ela –Palavras demais e todas mentem. Qual é o fio dessa meada?

TENTATIVA 4 – Re-ver/Re-ler

Ela – Invejo os que buscam e encontram caminhos. Hoje, mal toco


em mim. Mal conheço meus contornos. Então como conceber e
encontrar caminhos fora de mim? Hoje busco um passo certo, um
atalho em meio às sombras. Hoje, não... sempre! Desde que me
deixei como uma personagem/pessoa perdida no tempo. Mas hoje
foi o dia, ou melhor, a noite escolhida para eu me rever-reler em um
mundo que não reconheço como meu... Mas quem pode dizer que
não está igual a mim? Quem sabe o que se é totalmente, na íntegra,
o tempo todo? Se um dia eu conseguir estar pronta... Mas estou me
confundindo toda. O que é que vai acontecer agora? Amor, cadê o
nosso caminho? Uma possibilidade, uma sombra constante? E
pensar que eu e ele brincávamos de paixão escondida?

TENTATIVA 5 – Des-casamento

ELA - Em 50, o final feliz ainda era o casamento da mocinha com o


mocinho. Hoje, ainda é assim na novela da 8, terapia de massa. E na
vida, por que o casamento é sinônimo de final feliz, AINDA!!!!.
Então eu DES-começo com um DES-casamento. O meu DES-
casamento é o início. O início do início e foda-se. Não será o fim,
porque esta história não terá fim. E ponto final.
TENTATIVA 6 – Des-locamento
ELA-GILDA buscando reler-se, refaz o caminho das nossas
próprias buscas de contextos, buscas de novas locações a partir de
des-locamentos. Se antes, Gilda era quase uma mártir que se
sacrificava em nome da verdade, da honestidade, sempre fiel aos
seus princípios, quase sem nenhum defeito, ou sem nenhum defeito,
chegando ao ponto de talvez nem existir, ELA-GILDA/2005 se dá
espaço para poder mentir, pedir, se fragilizar, mostrar que não
precisa matar um leão todos os dias para provar que é importante,
que é viva. Ou seja, que não é perfeita. Assim, seu movimento é esta
busca por uma nova locação, um novo cenário, um contexto que
tenha mais a sua cara. Cara de ELA-GILDA/2005: des-casada, des-
compromissada, des-cabelada, des-locada e des-loucada. O
problema é que ELA-GILDA ainda não conseguiu se encontrar nesta
nova roupagem: dá voltas e voltas e encontra des-caminhos. Talvez
leve a peça inteira, e ELA-GILDA pode ficar lá no meio, no limiar
de encontrar... Quem é ela? Quem é ela?

TENTATIVA 7 – Eleva-a-dor
ELA – Quando fico neste estado, como hoje em que devo descobrir
como me reler, fico patinando de lá pra cá no apartamento. Da janela
pra sala, pro som, no quarto, na privada do banheiro, lendo revistas
de fofocas, vendo tv sem sal, abrindo geladeiras... Às vezes, numa
insônia como desta madrugada, fico zanzando no elevador, sozinha,
só pra me divertir/ferir, às vezes alguém aparece e atrapalha a
brincadeira. Volto mais tarde e aí estou sozinha novamente. Vou pro
térreo e num jogo, peço parada de andar em andar... e pra cada um
dos andares, um número, um sonho, uma vontade...play, play, play...

Térreo
Antes eu tinha um começo, um início, me resolvia, agora... me re-
veja, me re-leia , me veja, caralho...
1
Não consigo te/me olhar nos olhos. Passo batido. Finjo que não te
vejo vendo. É doença, não é?

2
Ás vezes consigo te tocar e me parece que o meu preenchimento
vem daquilo que você tem. É, é sexo também, mas não é disso que
falo. Falo de toque...

3
Quantas vezes nos dissemos: “_Precisamos conversar...” e nunca
conversamos?

4
Todos os dias tínhamos um toque de que as coisas estavam caindo.
E no entanto, fazíamos de conta... de conta... de conta...

5
Estou sem saída, fechada. Nada. Sozinha. Sempre sozinha.

6
Tudo se apaga. Finalmente o fim. Emergência. Qual é saída de
emergência? Escuro. Os números se foram. Não há pânico. Ouço o
silêncio. Tudo parado. E por um breve minuto, ou segundo, me torno
plena no escuro de um elevador parado, fechado, sem respirar nem
pensar. Sem pânico. Apenas só. Por que fui me meter aqui? E ao
mesmo tempo. .. não quero mais sair daqui... nunca mais... não
viver. Só ficar plena de mim. O tempo... sem cheiro...sem marca...
pleno...pleno... Ai meu Deus, se o mundo se resolvesse num único e
infinito silêncio, quanta merda idiota a gente não tiraria da
cabeça...E tudo volta.

7
Estou lúcida. Mas o jogo ainda não está completo. O certo seria não
falar de você, nem de mim. Falar da vida, dos amigos, da minha
mãe... falar do cachorro da vizinha, mas não falar de nós dois. Falar
de nós dois não conta, mas já falei antes, não falei?

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Oitavo. E vou me cansando do jogo. Silêncio. Silêncio. Silêncio.
Silêncio. Silêncio....

9
Só amaldiçôo o fato de morar no 12º andar, porra! Pensar em gelo,
geleira, amortecedor de carro, e o tempo vai passando e mais uma
noite vai passar e amanhã... bom e amanhã o jogo é outro, e se
dormir acordo outra e não preciso ficar me explicando nem me
sendo, e ponto. Passou mais um. Passou.

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Era sempre assim.... quando te olhava já de longe na rua, no parque,
(digo, em lugares públicos ), as pernas já faziam festinha... era tão
bom o momento de chegada, que meu Deus! o tempo parado assim...
Pra que o tempo andando, se o tempo parado nesses momentos era
tudo de bom?

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Depois o tempo transformou o olhar em silêncios-quilômetros
intermináveis. Sem festinha... sem tremedeira.

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E por que fico ainda contando o tempo, esperando algo? QUE
MERDA!!!

TENTATIVA 8 – E-mail – In-ternet

ELA escreve um e-mail. As palavras digitadas podem ser projetadas,


ou ela fala o que escreve, ou voz em off.
ELA - Já tentamos nos falar, nos ouvir, já nos escrevemos, já
passamos por silêncios, já nos olhamos, já nos amamos, já nos
perdemos e não nos achamos de jeito nenhum. Seu último e-mail foi
um enigma: acerto de contas, testamento, inventário... sei lá.
Tínhamos combinado de não fazer drama e cometemos todos os
pecados, quebramos todas as regras. A nossa separação foi pensada
durante anos e agora que ela é real, o máximo que conseguimos é
trocar e-mails indecifráveis e longas mensagens na secretaria
eletrônica. MERDA! MERDA! MERDA! A verdade é que está tudo
parado esperando um sentido, e a porra de sentido não vem. Fico
cabrera em imaginar que estou esperando um sentido de ser por
causa de um homem, sempre por causa de um homem, por causa de
um casamento e de filhos que não quis ou não pude ter, e é como se
eu só pudesse ser alguém se pudesse ser perfeita para alguém, mas
se não sou, o que fazer, cara pálida? Quando você está só, a
pergunta é: Por que você está só? Quando se separa, por que é que
você se separou? Se não tem filhos, por que não os tem? E se tem o
primeiro, por não tem o segundo? A cada passagem, uma etapa que
tem ser perseguida preenchida, por que todos a perseguem e a
preenchem. Mesmo que isto signifique cara amarrada, dor de
barriga, cirrose, câncer de mama, gastrite. O que importa é que todos
façam o que todos fazem. Não posso ter insônia, não posso viver
sozinha, não posso ter solidão. Tenho que ser amável, compreensiva,
inteligente, ganhar sozinha a minha vida, perfeita no trabalho, na
cama, no lar. Feliz. Tenho que ser feliz.... E infinitas vezes pensei:
Cacete, como esta droga de felicidade dá trabalho! Então querido, o
bom da minha insônia e desta minha busca de ser uma outra pessoa ,
nem melhor nem pior, mas diferente (nesta noite e somente nesta
noite), tem me dado a possibilidade de re-visitar e entender o quanto
essas benditas palavras não nos ilustram mais, nem nos representam.
Essas palavras não chegam perto daquilo que passa desapercebido
aqui dentro dessa cabeça, que se debate em não querer mais pensar
em ser. Não quero ser. Não vou ser mais nada porra nenhuma!
Ninguém, nem eu, nem você , nem minha mãe, nem o vizinho que
faz barulho aqui em cima, sabem disso. Mas definitivamente não
dependo mais de ninguém para saber que definitivamente eu não
SOU!!! E se definitivamente o seu último e-mail foi um enigma,
segura este agora, cara pálida!!!

TENTATIVA 9 - Furta-cores II
Na janela do apartamento, Ela fuma e fuma. As luzes da cidade
incidem num apaga-acende, mas agora o início do dia traz uma luz
diferente. Furta-cores II. O corpo dela, o cigarro, as luzes, o
cansaço...
ELA- O fio da meada... cansaço...se deixar levar... te ligar pra dizer
que entendi, finalmente entendi, amor. Não aconteceu algo assim
preciso, tipo acontecimento que muda a trajetória do personagem.
Alguém que morreu, alguém que partiu, ou alguém que chegou.
Simplesmente não aconteceu nada dramático para avançar a ação.
Não sei como explicarei isto aos carentes de mudanças dramáticas.
Mas a verdade é que caíram fichas, meu amor. Catarses. E enfim
chego ao início do dia com a convicção de que estou plena como no
elevador fechado, mas agora com a vida aberta, escancarada, saí
renovada e sem perceber.... Precisei da vida inteira até agora, da via
sacra noturna, madrugada adentro para entender, meu amor, que
paro por aqui, na desistência e num eterno sentimento de que não
podemos ser mais do que isto mesmo, meu amor. De que ser é difícil
e inoportuno. Que precisamos sim acordar todos os dias, e que ser
dói. Cansaço, saco renovado, cigarros e mais cigarros depois..., e
cheguei aqui... Inteira..., amor.

TENTATIVA 10 – Des-mensagem
ELA liga para ele e deixa mensagens.
ELA - É, sei, é cedo. Sei que você está dormindo, e só te liguei
porque sei que você não vai atender. Eu também preciso
desesperadamente começar algo de algum lugar. Minto. Já comecei
e não sabia. Agora vou deixar o tempo rolar. A verdade é que
decididamente somos incompetentes para separações. Por isso não
lançaremos livros contando da nossa grata experiência. Perderemos
dinheiro etc, etc. Foda-se! Última chamada. Última tentativa. E fica
assim, a verdadeira esperança de que nós dois sejamos pares
avessos, diversos , móveis, circulantes e deslocados sim, mas em
eterno movimento. Buscando uma cara nova a cada movimento
errado, iniciado. Seja lá como for... Que sejamos algo pela vida, mas
sem a presença um do outro. Não preciso mais de você, assim como
você não precisava mais de mim faz tempo. Agora me basto. E eu
mesma que procure agüentar em mim aquilo que ainda não descobri.
Sozinha. E ponto.

Tentativa 11 – Des-pir
Ela grava: “Você ligou para Gilda e já sabe o que fazer..., pois EU já
sei o que fazer. Esta é minha re-leitura. E é tudo o que posso
oferecer.
FIM