Você está na página 1de 211

Capa

O Caso da Morena Contratada

Erle Stanley Gardner

Os Mestres da literatura Policial

Livros do Brasil – Lisboa


Contracapa

O seu próximo volume

Um Cadáver na Biblioteca
Agatha Christie

Os Mestres da Literatura Policial


Ficha técnica

Título da edição original

The case of the borrowed Brunette

Capa de
A. Pedro

Of. Gráf. de Livros do Brasil, S. A. R. L. – R. dos Caetanos 22 – Lisboa


Página de título

Erle S. Gardner

O Caso da Morena Contratada

Tradução de
Mascarenhas Barreto

Colecção Vampiro

376
ELENCO

Perry Mason, advogado especializado emm debates de criminologia forense e


infatigável estudante da natureza humana
Della Street, secretária confidencial de Mason
Cora Felton, uma morena desempregada
«O representante de Mr. Sines»
Gertie, operadora do PBX e recepcionista de Mason
Adele Winters, dama-chaperon da morena contratada
Robert Dover Hines, ocupante temporário de um apartamento do Siglet Manor
Eva Martell, a morena contratada
Helen Reedley, esposa de «alta-voltagem» de Orville Reedley
Paul Drake, chefe da agência de detectives particulares
Orville L. Reedley, poderoso, irrequieto e impetuoso marido de Helen Reedley
Harry Gulling, braço-direito e cabeça-de-turco do Procurador do Distrito
Mae Beagley, gerente de um edifício de quartos para alugar
Frank Holt, um dos detectives da «Agência Drake»
Carlotta Tipton, a mulher«brasa» do Sigiet Manor
Arthur Clóvis, «caixa» no Banco de Orville Reeldley
Juiz Homer C. Lindale, magistrado que preside aos debates
Samuel Dixon, oficial da rádio-patrulha da polícia
Thomas Folson, detective particular
Alfred Korbel, perito em balística e dactiloscopia do Departamento de Homicídios
1

Àquela hora, a Adams Street era uma terra-de-ninguém, para os peões. A distância
entre os locais de trabalho e zonas residenciais era demasiado afastada do
centro de compras, para que as pessoas cruzassem a rua, a pé, a não ser para
tomaram um eléctrico ou um autocarro.
Tendo concluído um caso intrincado, num dos tribunais dos arredores, Perry Mason
dirigia-se lentamente para o escritório, conduzindo o carro com uma atitude
descontraída, refazendo-se da excitação dos debates forenses. Conhecendo os
hábitos do advogado, Delia Street mantinha-se instintivamente silenciosa e
imóvel.
Mason interessara-se sempre por pessoas e os seus olhos iam observando
ocasionalmente os peões que encontrava pelo caminho. A certa altura, abrandou a
marcha, encostou à faixa da direita, junto ao passeio e rodou a cerca de vinte
quilómetros à hora.
— Reparou, Delia — indagou.
— Em quê ?
— Nas esquinas.
— Que é que têm?
— Morenas.
Delia riu e perguntou:
— Refere-se aos manequins das lojas?

7
— Não, nada disso — replicou Mason, impaciente. — Olhe para elas. Em cada
esquina está uma morena, à espera de qualquer coisa. Todas elas estão vestidas
de escuro, com uma espécie de abafo de pele, em volta do pescoço... Olhe, ali
está outra, nessa esquina. Repare nela, quando passarmos.
Delia Street observou cuidadosamente a morena que estava especada sobre o
passeio, como se esperasse um eléctrico ou um autocarro, fora das respectivas
paragens.
— Confere — concordou a jovem.
— Aposto consigo cinco dólares em como está uma outra, exactamente idêntica, na
próxima esquina.
— Não vou nisso.
Realmente, na esquina imediata, deparou-se-lhes nova moça, trajada da mesma
maneira e igualmente morena.
— Quanto tempo vai isto demorar? — inquiriu Della, admirada.
— Devo confessar que não sei. Até aqui vi umas cinco ou seis. Vamos voltar para
trás e contar quantas são.
Aproveitou uma aberta oportuna para executar uma inversão de marcha, em U, e
voltou para trás ao longo da artéria. Momentos depois observava:
— Bem, parece que, neste sentido, só contámos oito.
— Confere — repetiu Della, sorrindo.
— Mas não chegámos a averiguar quantas havia nas esquinas que ficaram por
percorrer, à nossa frente, ao longo de toda a Adams Street.
— Se lhe interessa, é contá-las.
— Não, prefiro abordar uma das jovens morenas.
Mason tornou a descrever uma volta em U e encostou ao passeio, perto da esquina.
A morena dirigiu-lhes um olhar de relance, com súbita expectativa, mas logo se
desinteressou, voltando a absorver a atenção no trânsito e ignorando a
observação a que estava a ser sujeita.

8
Mason saiu do carro e disse para Della:
— É melhor vir daí, minha amiga, para dar um certo ar de respeitabilidade a
isto.
Della saltou também do carro, juntou-se a Mason e enfiou-lhe a mão no braço. O
advogado acercou-se da jovem morena e tirou o chapéu.
A moça virou-se imediatamente para ele e dedicou-lhe um largo sorriso.
— É Mr. Hines ? — inquiriu.
— A minha grande tentação é dizer-lhe que sou.
O rosto da jovem deixou de sorrir e, com uma expressão desconfiada, fitou Della
e Mason.
— Não creio que seja... Oh! Mas eu já o vi... Já sei quem é. Vi-o no tribunal...
É o advogado Perry Mason.
— E eu sou a sua secretária — interveio Della. — Mr. Mason está cheio de
curiosidade em saber qual a razão que as faz estarem todas assim espalhadas
pelas esquinas da rua.
— Todas?
— Há uma em cada esquina dos quarteirões. Todas são morenas, vestem de escuro e
têm uma pequena pele de abafo, ao pescoço.
— Em quantos quarteirões? — Pelo menos, em oito.
— Pensei que fôssemos menos concorrentes — comentou a moça.
— Conhece alguma outra?
Sacudiu afirmativamente a cabeça.
— Conheço uma delas... minha companheira de quarto, Eva Martell. Eu sou Cora
Felton.
— E eu Della Street — apresentou-se a secretária de Mason, com uma gargalhadinha
simpática. — E agora que nos conhecemos, seria tão amável que nos explicasse de
que se trata tudo isto? Mr. Mason não sossegará enquanto não desvendar este
mistério que se lhe instalou na mente.

9
Cora sorriu, abriu a malinha de mão e extraiu um pequeno recorte de jornal.
— Começou por isto — anunciou. E leu:

PRECISA-SE

Morena elegante, atraente, entre 23 e 25 anos de idade, 1,63 m de altura, 50,5


kg de peso; medida de perímetro de ancas: 59 cm; perímetro de busto: 788 cm. o
peso e as medidas deverão ser absolutamente exactos e a concorrente deverá estar
apta a desempenhar um papel desembaraçado e aventureiro, pagando-se-lhe 50
dólares por dia, por um período mínimo de cinco dias e máximo de seis meses. A
concorrente escolhida deverá trazer uma dama-chaperon, que a acompanhará
constantemente, durante o período do seu emprego, com um salário de 20 dólares
por dia e despesas pagas. Telefone: Drexberry — 5236. Perguntar por Mr. Hines.
— E concorreu, pelos vistos, ao lugar? — interessou-se Mason.
— Sim, como vê.
— Por telefone?
— Exactamente.
— E falou com Mr. Hines ?
— Falei com um homem que disse ser o representante de Mr. Hines. Disse-me que
deveria apresentar-me com um vestido escuro e trazer um estreito abafo de pele,
ao pescoço; que estivesse pontualmente, nesta esquina, às quatro horas da tarde,
e que esperasse até às cinco. No caso de não ser escolhida, receberia dez
dólares pelo incómodo.

10
— A que horas respondeu ao anúncio?
— Por volta das onze, desta manhã.
— Vinha no jornal da manhã?
— Sim... isto é, num jornal de teatro, habitualmente lido por actores e
bailarinas, que foi distribuído esta manhã.
— Presumo que foi avisada de que haveria outras concorrentes?
A morena riu-se e confirmou:
— Sim, sabia que, pelo menos, viria outra. Telefonei à minha companheira de
quarto e contei-lhe o que se passava. Ela veio ao meu encontro (é Eva Martell) e
também telefonou para aquele número. é igualmente morena e tem as minhas
medidas. Podemos usar os vestidos uma da outra e até os sapatos e as luvas.
— Que foi que Mr. Hines lhe disse?
— Não, não foi Mr. Hines, mas o homem que declarou representá-lo. Disse-lhe que
estivesse às quatro horas numa esquina, um pouco mais' abaixo, a quatro
quarteirões daqui. Portanto concluí que deveriam ter aparecido outras três
concorrentes, entre o meu telefonema e o de Eva.
Mason consultou o relógio de pulso.
— Faltam agora cinco minutos para as cinco — observou. — Tem estado aqui, desde
as quatro?
— Exactamente.
— Notou alguma coisa de especial?
A morena riu-se e exclamou:
— Deus do céu! Toda a gente que passa parece olhar-me estranhamente. Nunca me
senti tão inspeccionada, em toda a minha vida. Fui acossada por lobos, abordada
por calotes e ouvi pêlos-de-arame assobiarem-me. Homens a pé quiseram que os
acompanhasse e outros, de automóvel, convidaram-me a dar um passeio, aonde eu
quisesse. Outros ainda, mais discretos, passaram, virando para trás a cabeça, a
ponto de quase torcerem o pescoço.

11
Mas ainda não lhe disseram que aceitasse o emprego?
Nem sombra de Mr. Hines. Penso que mandou outra pessoa dar uma vista de olhos ao
meu aspecto, mas não sei quem foi. Quando aceitei a ideia de candidatar-me ao
emprego, já esperava que demorasse. Se há várias concorrentes, Mr. Hines, ou o
seu representante, vai fartar-se de andar, para cima e para baixo, até poder
fazer a sua escolha.
— Muito astucioso — comentou Mason.
— Que quer dizer com isso?
— Que Hines arranjou as coisas de maneira a poder escolhê-las, sem que nenhuma
de vocês saiba quem ele é. Teve o cuidado de escolher uma rua onde a multidão
não pode oculta-las, mas onde passa um número suficiente de pessoas que vos não
permita lobrigá-lo, distinguindo-o dos outros transeuntes. Hines pode já ter
passado por aqui, uma ou duas vezes, sem que você o tenha identificado, entre os
outros lobos.
— É muito possível.
— Foi bem engendrado. Mas, dez dólares são dez dólares e não custaram muito a
ganhar. Importa-se que eu espere, para ver o que sucede?
Contudo, calou-se e afastou-se naturalmente, com Della, ao ver um homem
aproximar-se. Este dirigiu-se a Cora e inquiriu, tirando o chapéu: — Miss
Felton?
— Sim.
— Represento Mr. Hines e lamento informá-la de que o lugar já foi preenchido.
Mr. Hines pediu-me que lhe entregasse esta nota de dez dólares. Muito obrigado e
boa tarde.
O homem afastou-se, repondo o chapéu na cabeça e tirando da algibeira do casaco
um pedaço de papel, onde riscou um nome de uma lista.
— Oiça... um momento! — chamou Cora Felton. — Gostava de saber...

12
— Lamento, Miss Felton, mas é tudo quanto posso dizer-lhe — replicou ele. —
Apenas fui encarregado de transmitir-lhe esta mensagem. Muito boa tarde.
E afastou-se apressadamente.
— Está a ver isto? — exclamou Cora, dirigindo-se a Mason, que se lhe acercara
com Della. E acrescentou filosoficamente: — Sempre ganhei dez dólares.
— Vou por aí abaixo —- anunciou Mason. — Quer subir para o meu carro e descer
quatro quarteirões, para ver o que sucedeu à sua amiga?
— É boa ideia.
— Nesse caso, venha daí — animou Mason. Passaram por mais duas esquinas, onde
ainda estavam morenas à espera.
— É mais abaixo — indicou Cora. — Faltam dois quarteirões.
Não se via moça, alguma no local e a jovem comentou:
— É estranho! Devia estar aqui e não a encontro. Mason encostou o carro ao
passeio e Cora saiu. Olhou em volta e decidiu:
— Bem, vamo-nos embora. Já deve ter partido. Vou encontrá-la, decerto, em casa.
Coitada! Estava tão esperançada em arranjar este emprego...
— Vou para o centro da cidade. Quer que a deixe em qualquer lado? — ofereceu
Mason.
— Qualquer coisa me serve, desde que vá para o centro. Sempre fica em caminho —
aceitou ela.
Entrou novamente no carro e murmurou:
— Vou ouvi-las bonitas. Eva deve ter ficado aborrecida comigo, por esta maçada
em que a meti involuntariamente.
— Para onde vai?
— Para a West Sixth Street. Se vai realmente nessa direcção...
Depois de terem rodado um pedaço entre o trânsito que, àquela hora, se tornara
mais compacto, Mason parou à porta de uma casa de apartamentos.

13
— Não creio que estejam interessados numa bebida... — convidou Cora, de certo
modo negativamente. — Mas, se quiserem conhecer a mulher que escolhi para
chaperon, no caso de ser contratada... bem, é uma mulher de armas!
— Rija ?
— Rija e decidida para o que der e vier. Não queria estar na pele de Mr. Hines,
se este se lembrasse de ter qualquer atrevimento comigo. Adelle Winters...
Mason parou o carro, desligou a ignição e pediu:
— Fale-me dessa Adelle Winters.
— Foi praticamente uma ama e enfermeira, toda a sua vida. É ruiva e forte e
deseja viver independentemente. Não é pessoa para dar muita importância às
regras mundanas e a preconceitos e, talvez por isso, é a maior mentirosa que
conheci. Mas mente apenas para não magoar as pessoas, tornando a vida mais fácil
para os outros e para ela própria. Está-se nas tintas para as convenções
habituais... e mente maravilhosamente.
— Que idade tem?
— Anda à volta dos cinquenta, ou sessenta e cinco. É difícil descobrir quantos
anos tem e ela nunca o diz... Querem subir?
— Aceito. Só o tempo de tomar um cocktail e conhecer Mrs. Winters.
— Nesse caso, o apartamento fica no terceiro piso e o elevador é automático.
— Você e Eva andam à procura de emprego? — sondou Mason, enquanto subiam.
— Sim. Somos actrizes... ou pelo menos pensámos que éramos, ao vir para cá.
Desempenhámos vários pequenos papéis na província e já tivemos ocasião de caçar
alguns trabalhos extras em Hollywood, mas, geralmente, trabalhamos como
modelos. Cá nos vamos arranjando, mas desejaríamos estabelecer novos
contactos.

14
Deve haver qualquer coisa para nós, numa cidade tão grande... pelo menos assim o
esperamos...
Cora Felton abriu a porta do apartamento e, voltando-se para trás, com uma
pequena gargalhada nervosa, disse:
— Deixem-me dar uma olhadela, primeiro, para ver se está tudo em ordem, e se
elas estão decentes.
Entrou no apartamento e «anunciou:
— Trago companhia. Vocês estão vestidas?
Ninguém respondeu.
— É estranho! — observou. — Bem, entrem. Parece que não está ninguém em casa...
Oh, oh! Que é isto?
Um papel espetado com um alfinete sobre a mesa chamou-lhe a atenção. Leu o
recado e passou-o a Masom, sem proferir palavra.

Querida Cora. Mal ali estive dez minutos, quando Mr. Hines apareceu. Falou
comigo, disse-me que eu servia para o que ele tinha em vista e perguntou-me se
desejava trazer comigo uma dama de companhia, para servir-me de chaperon. Achas
que preciso? Trouxe-me então até cá, para buscar a Tia Adelle e recolher algumas
coisas pessoais. O tipo parece bestialmente misterioso. Não sei bem se esta
coisa me agrada, mas arrasto comigo a Tia Adelle, que não deixará seja quem for
pôr o pé em ramo verde. O pé? Achas que estou verde? Pedi-lhe que me levasse no
carro até ao quarteirão onde tu estavas, para avisar-te, mas parece que uma das
regras do jogo é não comunicar com ninguém que tenha concorrido ao lugar, nem
com os meus amigos, até ter terminado a missão de que me incumbirão,
aparentemente até daqui a trinta dias. Levo comigo a Tia Adelle e ela leva
consigo um revólver de calibre 32, de que nunca se separou, há muitos anos.

15
Para o que esse e viesse, comprou uma nova caixa de munições. Se houver azar,
diz que aquilo não falhará. Não te preocupes connosco. Voltaremos com massa. Bem
sabes como é a Tia Adelle.
Afectuosamente, EVA

Mason devolveu a mota.


— Que vai fazer com isto? — inquiriu Cora.
— Com essa nota?
— Não, com o caso do anúncio.
— Está certa de que a Tia Adelle é capaz de dar conta do recado?
— Não só tomará conta de Eva, como de si própria. De resto, não nos apoquentemos
com Eva. Não a levam à certa, na primeira investida... Que é que tomam?
Manhattan ou Martini?
— Manhattan — preferiu Mason.
— O mesmo — disse Della.
Cora Felton abriu o frigorifico, tirou uma garrafa e arranjou as bebidas.
— Bem — saudou Mason, erguendo o copo. — Aqui vai, «ao crime»!
— A si dá-lhe jeito — comentou Cora. — Então, «ao crime»!

Na quinta-feira de manhã, Gertie assomou à porta do gabinete particular de Perry


Mason, no momento em que o advogado e Della respondiam às cartas chegadas pelo
correio.
- Lamento incomodá-lo, Mr. Mason — disse ela —, mas trata-se de uma coisa que eu
não podia comunicar por telefone.
-Que é?

16
Gertie, habitualmente reservada, parecia agora mais introvertida do que o
costume.
— Disse a essa mulher que o senhor estava ocupado e que só atendia clientes com
entrevista marcada. Então ela respondeu-me que, se essa era a regra, não a
desrespeitaria. Olhou para o relógio, disse que eram dez horas em ponto e
declarou que lhe dava, a si, cinco minutos para recetoê-la
Mason riu.
— Parece uma mulher deveras determinada.
— A mim pareceu-me capaz de tudo. É uma espécie de tia adoptiva de duas
raparigas amigas e diz que uma delas já falou consigo. Chama-se Adelle Winters.
— É a chaperon das morenas das esquinas — lembrou Della.
— Vamos lá ver o que nos quer — decidiu Mason. Momentos depois, Adelle Winters
entrava no gabinete.
— Bom dia, Mrs. Winters — saudou Mason.
— Você é advogado, não é verdade? Bem, vim cá para dizer-lhe que quero que oiça
bem o que tenho a comunicar-lhe, mas não me venha, depois, com uma conta calada.
De resto, não tenho dinheiro para pagar a advogados. Portanto, como ouvir só lhe
custa tempo e não tenciono pagar-lho, passemos ao assunto... Quem é essa
rapariga?
— Miss Street, minha secretária.
— Tem confiança nela ?
— Como em mim próprio.
— Bem, nesse caso posso contar com que se mantenha secreta a minha vinda aqui?
— Que necessidade há de mantê-la secreta?
— Já vai perceber quando me deixar contar-lhe o resto.
— Sente-se, Mrs. Winters. Foi tão franca comigo, quanto ao que não conta pagar-
me, que também não quero fazê-la perder tempo.

17
Sei que saiu do apartamento onde vivia com Cora Felton e Eva Martell, no dia em
que foi contratada...
— Exactamente.- Soube que tinha lá estado e tirei informações a sou respeito.
Nunca quis advogados para nada, mas se vou precisar de um, quero que seja o
melhor.
— Obrigado.
— Este negócio em que estamos envolvidas parece-me a coisa mais estapafúrdia que
jamais vi. Toda a minha vida fui enfermeira, ama e dama de companhia e já aturei
neuróticos de todos os feitios, mas o que se passa agora connosco começa a
perturbar-me e...
— Tem de fazer de enfermeira?
— Deixe-me falar, sim? Para ir direita ao assunto, parece-me um caso de
assassínio.
— Espera que alguém venha a ser assassinado?
— Já foi.
— Quem?
— Uma mulher chamada Helen Reedley.
— Quem a matou?
— Diabos me levam, se sei! Porque julga que vim falar consigo?
— É isso que estou a tentar descobrir.
— Vim procura-lo, porque é advogado e pensava que fosse o mais esperto. Mas já
vai perceber. Eva Martell e Cora são como minhas filhas. Não somos nada umas às
outras, mas fui enfermeira das mães delas, quando as pequenas eram ainda muito
catraias e, desde então, nunca mais deixei de vê-las, de quando em quando.
— Quer contar-me, agora, o que se passou?
— Bem, ambas tentaram a sorte, naquela história do anúncio e ambas me pediram
para ser seu chaperon, no caso de alguma delas vir a ser contratada. Para falar
francamente, não levei a coisa muito a sério. Nem acreditei que se tratasse
realmente de trabalho, não sei se me faço entender. Fiquei em casa, à espera,
até que me apareceu Eva acompanhada de um homem que se anunciou como sendo
representante de Mr. Hines.

18
Eva vinha muito excitada, por causa do dinheiro que iam pagar-lhe e que também
iriam pagar-me; que queria começar imediatamente.
— Cheguei ao apartamento, pouco depois de terem partido. Como tiveram tempo de
fazer as malas? — inquiriu Mason.
— Não levámos malas. O homem trouxera um saco de plástico com ele e não quis que
levássemos nada connosco. O saco era para comprarmos artigos de mercearia.
— Para onde foram?
— Para um pequeno apartamento. Nada de muito grandioso, mas deveras confortável,
bem arranjado e com tudo o que é preciso. Então o homem explicou que Mr. Hines
alugara aquele apartamento, em nome de Mrs. Reedley, mas que havia uma cláusula
que não autorizava que fosse alugado. Como teria de ser abandonado, caso não
estivesse ocupado pela própria, que está ausente... foi o que ele disse... a
pessoa que o habitasse teria de passar por Mrs. Reedley... Helen Reedley. Se,
alguém telefonasse, eu teria de responder que Mrs. Reedley estava em casa, mas
que não podia atender naquele momento, por qualquer razão... a tomar banho, etc.
Enquanto Eva estivesse lá, sob o nome de Helen Reedley, tudo corria bem.
— Que respondeu a isso?
— Não me enganou, nem por um momento. Cheirou-me logo a esturro aquela
manigância de Mr. Hines.
— Pode descrevê-lo?
— Anda à volta dos trinta, cabelo preto, olhos papudos e usa óculos.
— Esse é o homem que andou pelas esquinas a pagar às moças que responderam ao
anúncio.
— Foi o que Cora me disse.
— O apartamento tinha algo de especial?

19
— Tinha tudo quanto há de especial. Não lhe faltava nada, incluindo as roupas
que Eva deveria usar.
— E para si?
— Ele disse que a minha roupa não tinha importância e que podia ir comprar o que
me apetecesse, mas não me deixou ir a casa. Tínhamos de andar sempre juntas,
quando fôssemos às compras, está a perceber? Podíamos andar na rua, mas não
devíamos falar a ninguém, em especial. Se telefonassem para Mrs. Reedley, eu
devia responder que ela estava deitada, ou coisa assim, e tomava nota do recado.
— E isso aconteceu alguma vez?
— Sim, duas vezes.
— E ele disse-lhe que Eva devia telefonar-lhes mais tarde?
— Não. Eu tinha de dizer-lhes isso, mas Eva nunca devia comunicar fosse com quem
fosse
— E algum dos amigos que telefonaram a Eva perguntou por que razão ela não
chegara a comunicar posteriormente com ele?
— Até agora, não. No caso disso acontecer, Mr. Hines deu instruções para eu
responder que Mrs. Reedley fora ao médico e que podia, se quisesse, deixar um
recado, para que ela lhe telefonasse do consultório.
— Mr. Hines indicou um número de telefone?
— Sim, o mesmo que vinha no anúncio.
— Verificou se esse número está na lista dos telefones?
— Sim, mas é desses números que não vêm na lista.
— Se não podem andar sós e separadas, como se explica que tenha podido vir aqui?
— Como eu tivesse de comprar algumas roupas, Mr. Hines veio comigo de táxi;
falou com o motorista, meteu-lhe uma nota na mão e disse-me que nos tornaríamos
a ver no apartamento; que já dissera ao motorista aonde deveria conduzir-me.
Quando me deixou, eu disse ao motorista que parasse, pois queria fazer um
telefonema e o homem respondeu-me ter combinado, com ele, levar-me directamente
de regresso ao apartamento, porque eu às vezes sofria de alucinações e perdia-
me.

20
— Nesse caso, como conseguiu desembaraçar-se dele?
— Disse ao motorista que Hines era meu genro e que gostava de pregar-me
partidas. Convenci-o a parar, junto de uma cabina, e telefonei a Cora. Contei-
lhe o que se estava a passar e ela falou-me de si, explicando que Mr. Mason
estava ao corrente do caso em que estávamos envolvidas.
— E que pensa do caso? — perguntou Mason.
— Meu Deus! O senhor é advogado e já deve ter compreendido. Esse homem é tanto
Hines, como eu sou Cleópatra. Deve ser o marido de Helen Reedley. Matou-a, fez
desaparecer o cadáver e está a fazer o possível para que pensem que ela ainda
está viva, por qualquer motivo especial. Para isso serviu-se de Eva e de mim.
Vai ver como, dentro de algum tempo, nos paga, manda-nos embora e declara que
partimos para a Cidade do México, ou qualquer coisa nesse género.
— Não acha que, se os amigos de Helen falarem directamente com Eva, percebem
logo que houve troca de identidade ?
— Certamente que dariam por isso, mas decerto que esses amigos de Mrs. Reedley
não entram no apartamento, sem tocarem primeiro à campainha. Nunca lhe porão os
olhos em cima, porque a minha missão é afastá-los. Por causa de todas essas
instruções, não me sai da cabeça que a ideia dele é explicar, depois, que a
mulher foi para o México e que morreu por lá.
Mason não se mostrou muito convencido, mas deu a entender a Mrs. Winters que
tinha mais em que pensar e que desejava meditar no assunto.
— Não nasci ontem — prosseguiu a Tia Adelle. — O homem tem a chave do
apartamento e sabe onde todas as coisas se encontram, mesmo onde param as
calcinhas de senhora.

21
Aposto em como está a ganhar tempo, para ver-se livre do cadáver que deve ter
escondido em qualquer lado. Por isso é que nos contratou.
— Bem — concluiu Mason. - É uma hipótese, embora haja alguns pontos que não
encaixam muito bem nessa teoria. Primeiro, por que motivo deixou tantas pistas
em sua volta? Não precisava de servir-se daquele anúncio, para encontrar uma
actriz parecida com Mrs. Reedley, tanto mais que não consente que ela fale ao
telefone, nem ande por aí à solta. Parece-me antes mais provável que ele
tencione matar a mulher, enquanto vocês duas estão lá em casa, de maneira a
arranjar um álibi convincente. Não percebo, contudo, como conseguirá iludir a
polícia, a menos que consiga fazê-las desaparecer, a ambas, antes que possam vir
a ser interrogadas.
— Oiça lá, meu rapaz — disse Mrs. Winters. — Não tenho a menor dúvida de que há
um crime por detrás disto tudo. Note que a malinha de mão de Mrs. Reedley está
em poder de Eva, com todo o seu conteúdo.
— Que contém ela?
— Coisas íntimas de mulher: bâton, make-up; lenço do assoar; cartões-de-visita;
um porta-moedas com três dólares em prata e trinta e dois dólares em notas; um
par de luvas escuras; um porta-chaves de cabedal e uma dúzia de chaves lá
dentro.
— Do apartamento? — interessou-se Mason.
— Sim, uma delas.
— E as outras?
— Sei lá de onde são?
— Que aspecto têm?
— Uma delas parece de cofre de depósito bancário. As demais, são chaves comuns,
do tipo moderno.
— Cartão de identidade?
— Não.
— Carta de condução?
— Não.
— Essa bolsa pode ter sido arranjada para o efeito.

22
Pode não ser realmente pessoal, Mrs. Winters — observou Mason.
— Pode, mas não é isso o que me dita a minha intuição. Decerto já ouviu falar em
«intuição feminina», não?
— Já, mas a polícia não lhe liga a menor importância.
— Pois deixe-me dizer-lhe que, mal entrei naquele apartamento, tive a
sensação de que se tratava de um local onde se cometera um crime e que eu e Eva
Martell tínhamos sido contratadas apenas para encobri-lo de qualquer
maneira. Se o senhor nos assegurar que o que estamos a fazer não é ilegal,
vamos para diante com o emprego, mas o senhor toma a responsabilidade.
— Um minuto, um minuto — protestou Mason, rindo.
— Primeiro, a senhora veio ter comigo, porque eu falei com Cora Felton, na rua e
lá em casa. Diz-me não ter dinheiro para pagar a advogados e que não tenciona
pagar-me. Não sou um advogado público, indigitado pelo tribunal, para trabalhar
à borla. Se quer o meu conselho, o melhor que tem a fazer é dirigir-se à
polícia.
A Tia Adelle sacudiu a cabeça e replicou:
— Faria uma bonita figura! Iriam rir-se das minhas suspeitas. Não sei para que
diabo serve um advogado, se nos manda para a polícia, em vez de dar-nos um
conselho adequado.
Neste momento, o telefone de Della Street tocou. A jovem consultou Mason com o
olhar e, como este lhe fizesse um sinal para atender, levantou o auscultador.
— Sim?... Daqui fala a secretária particular de Mr. Mason... Quem? Oh, sim...
como está?... Não, ainda não há nada de definitivo... Não desligue.
Della virou-se para Mason e pegou num bloco-notas, onde escreveu: É Cora Felton.
Está muito preocupada e diz querer falar consigo, logo que possa atendê-la. Sabe
que Mrs. Winters está aqui.
Passou a mensagem a Mason. Este leu-a, pegou no auscultador do seu telefone, e
pediu:
— Ligue para aqui esta chamada, Gertie, por favor.

23
A voz de Cora Feitora soou apologética:
— Desculpe incomodá-lo, Mr. Mason. Sei que é uma pessoa muito ocupada e este
assunto não deve ter importância de maior... mas sinto-me, de certa maneira,
ligada a ele. Não sei bem o que se está a passar, mas... Mr. Mason... gostaria
de ter a certeza de que não é ilegal o que Eva está a fazer. Acha que não?
— Tenho a impressão de que tudo se há-de arranjar, preservando os interesses
monetários dela e assentando nos meus — respondeu evasivamente.
— Oh, Mr. Mason! Ficaria aliviadíssima, se quisesse encarregar-se da sua
protecção... Quanto é que isso nos custaria?
— Por enquanto não poderei definir uma importância. Acha que posso informar a
«pessoa» acerca deste telefonema?
— Refere-se à Tia Adelle?
— Sim.
— Certamente. Ela está muito preocupada e...
— Muito bem — cortou Mason. — Vou explicar-lhe a situação. Quer dar-me o número
do seu telefone?.. Comunicarei consigo, mais tarde.
Perry Mason escreveu o número num papel, pousou o auscultador e virou-se para
Adelle Winters.
— Era Cora Felton. Pediu-me para encarregar-me da investigação. Tenho, portanto,
de falar com esse tal Hines. Agora, siga as minhas instruções cuidadosamente.
Volte para o seu apartamento e não lhe diga que esteve aqui. Deixe-o pensar que
foi para lá directamente, após as compras, no mesmo táxi. Mandou-o esperar por
si, não é verdade?... Ou dispensou-o?
— Ficou lá em baixo, à minha espera. Pensei que Mr. Hines estivesse junto do
apartamento, à espera que eu chegasse... Se me visse voltar noutro táxi...
— Muito bem. Agora volte para lá e comporte-se como habitualmente. Daqui a uma
hora, telefonarei, ditando que pretendo falar com Mrs. Reedley e que estarei
ali, dentro de dez minutos; que se não conseguir falar com ©la, chamarei a
polícia.

24
Anunciar-me-ei como Mason. Então, você telefone para esse número, que Mr. Hines
lhe deu, e pergunta-lhe o que deve fazer. Não lhe dê a entender que faz qualquer
ideia do que pretendo.
— Pensa que Mr, Hines estará lá quando o senhor chegar?
— Estou certo disso, ou terá a polícia à perna, por todo o país... conforme o
sarilho em que está metido.
— Confesso-lhe, Mr. Mason, que estou deveras preocupada. Já passei por coisas
complicadas, mas esta aterroriza-me sinceramente... Pressinto que alguém foi
morto naquele local...
— Mais uma coisa — interveio Mason. — Apareceu mais algum homem, no cenário?
Recebeu instruções para ser vista com alguém?
— Só posso andar com Mr. Hines. Leva-nos a jantar fora, todas as noites.
— Aonde?
— A pequenos restaurantes... bons, mas recolhidos.
— Mete-se com Eva?
— De maneira alguma. Trago um revólver nesta bolsa. Se se atrever com Eva,
ponho-lhe o cano em frente do nariz.
— Tem licença de porte de arma?
— Não.
— Aconselho-a a tirar uma. Pode meter-se em sarilho e, sem licença, será muito
pior.
— Não se preocupe comigo. Sei tomar conta de mim. Trate de conseguir que Eva
fique fora de qualquer alhada e deixe-me tratar dos meus assuntos, à minha
maneira. Cá me arranjarei.
— É melhor tirar uma licença, de porte de arma, antes que essa coisa se dispare
— insistiu Mason. — E não faça nada, até eu lá chegar. Limite-se a estar sentada
e espere.

25
— Muito bem.
— Não se esqueça de que telefonarei dentro de uma hora. Volte para o apartamento
e faça o que lhe disse.

Faltavam dez minutos para o meio-dia, quando Mason subiu as escadas de acesso ao
patamar dá casa de apartamentos e premiu o botão da campainha, que tinha um
cartão com o nome de Helen Reedley.
Mal o bezouro indicou que tinham aberto a porta, entrou e dirigiu-se para o
elevador automático. Subiu ao terceiro andar e atravessou o corredor, até à
porta do apartamento de Helen, a que bateu peremptoriamente.
Quase imediatamente a porta abriu-se e um homem, sorrindo afavelmente, estendeu-
lhe a mão. Era o mesmo que entregara uma nota de dez dólares a Cora Felton.
— Tenho muito gosto em conhecê-lo, Mr. Mason. Perry Mason, o famoso advogado. É
realmente um prazer. Não quer entrar?
— Desejo falar com Mrs. Reedley — declarou Mason ao penetrar na sala.
— Infelizmente, Mrs. Reedley teve uma forte dor de cabeça... Oh!... Oh!
Quando Mason se expôs na zona mais iluminada, o homem reconheceu-o. A sua
consternação transformou-se, nos olhos azuis, por detrás das lentes, numa
expressão preocupada, que parecia afunilar-lhe o nariz proeminente.
— Mas... já nos tínhamos encontrado! Não sabia que o senhor era...
— Sim, já nos tínhamos encontrado — confirmou Mason.
— Quando estava a remunerar uma das moças, candidatas ao emprego.
— Exactamente.

26
- Isso complica a situação — comentou o outro, passando um dedo pelo queixo. De
que maneira?
- Bem... gostaria de saber qual a sua ligação com caso.
— E eu gostaria de saber qual é a sua ligação com ele. Como se chama?
— Sou... Sou o representante de Mr. Hines.
— Não é o próprio Mr. Hines?
— Bem... digamos que sou o seu representante.
— Estou a perguntar-lhe como se chama.
- Se é assim tão importante... sou Robert Dover Hines.
- É importante, sim. Sente-se. Onde esta Helen Reedley?
- Já lhe disse que sentiu uma terrível dor de cabeça.
— Isso não condiz com os factos, da maneira como os interpreto. Deixemo-nos de
andar às voltas. Que jogo é o seu?
— Meu caro Mr. Mason... Asseguro-lhe que... Quer dizer-me qual é o seu interesse
neste assunto?
— O meu interesse é falar com Mrs. Reedley. E quero fazê-lo agora mesmo.
— É impossível, neste momento.
— Nada é impossível. Tem telefone, não é verdade?
— Sim, mas não vejo para que pretende servir-se dele.
— A informação que tenho é de que Mrs. Reedley pode atender-me — retorquiu
Mason. — Quero falar com ela pessoalmente e já. Quero que se me identifique,
como a pessoa que diz ser. Se o não fizer, telefono à polícia.
— Ora, Mr. Mason — disse Hines suavemente —, para notificar o quê? |
— Descobrirá, quando me ouvir telefonar. Se tem grande curiosidade, diga, que
logo ouvirá.

27
Hines juntou as mãos, como se rezasse, e mais suavemente comentou:
— Isto é muito desagradável, Mr. Mason.
— Para todos nós, a quem o assunto diz respeito.
— Também me diz respeito e nada entrevejo de desagradável, para mim.
— Posso perguntar-lhe como localizou este apartamento?
— Tenha a bondade de fazer as perguntas que entender. Se achar que devo
responder, responderei. Entretanto, onde está Mrs. Reedley?
— Não nos exaltemos, Mr. Mason. Falemos deste assunto como pessoas práticas.
Acho que, se for franco comigo...
Mason atravessou a sala rapidamente e abriu uma porta. Era a de uma despensa.
Hines correu atrás dele, protestando:
— Não, Mr. Mason. Não tem o direito de revistar este apartamento...
Mason empurrou-o para o lado e abriu outra porta. Esta dava acesso a um quarto
de cama, onde deparou com Adelle Winters. Tinha as mãos cruzadas sobre o colo e
um sorriso triunfante no rosto. Sentada junto dela estava uma jovem, bastante
parecida com Cora Felton, que se mostrava apreensiva.
— Mrs. Reedley ? — perguntou Mason.
— Por cima do ombro, Hines respondeu:
— Sim, é Mrs. Reedley.
— Como se sente da sua dor de cabeça? — inquiriu o advogado.
— Eu... eu...
— Então, Mr Mason — interveio Hines. — Esse procedimento é inteiramente
ilegal.
— Tem aí o telefone à mão. Chame a polícia e mande-me prender.
— Então, Mr. Mason, sejamos razoáveis.
— Concordo. Faça jogo limpo e serei razoável.

28
— Vamos para a outra sala e sentemo-nos.
— Quer dizer que as senhoras vêm fazer-nos companhia?
A moça que Mason percebeu ser Eva Martell hesitou, mas Adelle Winters pôs-se
logo de pé.
— Anda daí — disse para a Jovem. — Creio que se trata de Mr. Mason, que
telefonou para cá, há coisa de uma hora.
— O próprio — apresentou-se Mason.
— Agora, se não se importa, sou eu quem dirige a conversa — propôs Hines.
— Importo-me sim.
— Refiro-me às senhoras.
— Deixemo-nos de andar às voltas, Hines. Você pôs um anúncio num Jornal
destinado a gente de teatro, procurando uma actriz que quisesse aceitar um
determinado trabalho. Pediu-lhes que se vestissem de determinada maneira e
postou-as em diversas esquinas, de forma a poder fazer a sua escolha. Finalmente
contratou aquela que mais se parecia com a mulher que você desejava que ela
personificasse. Agora que me pediram que esclarecesse este assunto, quero ter a
certeza de que se não trata de um expediente ilegal.
— Quem lhe pediu isso?
— Um cliente.
Hines mostrava-se cada vez mais preocupado.
— Essa resposta não me parece satisfatória, Mr. Mason.
— Para mim, é.
— Quer descobrir se isso a que chama personificação é legal?
— Exactamente.
— Suponha que consigo convencê-lo de que é legal?
— É a única coisa que tem a fazer. Se o motivo que o leva a pagar a estas
senhoras for legal, ficarei satisfeito.
— Eu... Podemos falar em particular, Mr. Mason?

29
— Eu disse, em particular.
— Estamos o mais possível «em particular».
— Bem, sentemo-nos — propôs Hines, relutantemente. — Isto apanhou-me de
surpresa. Preciso de alguns momentos para reconsiderar.
Adelle Winters e Erva Martell sentaram-se num divã de sala. Mason instalou-se
num maple confortável, em frente de Hines que avançou uma cadeira de braços,
sentando-se junto da mesa.
— Bem, Mr. Mason — prologou—, decidi ser franco consigo.
— Ainda bem. Mas antes de mais nada, diga-me se já pagou a estas senhoras o que
lhes prometeu?
— Ainda não.
— Então, pague-lhes.
— Terei muito gosto em pagar-lhes, mas não me agrada ouvir essa sugestão,
partindo de si e nesse tom de voz.
— Pague-lhes e deixará de existir sugestão.
— Raios! Está bem, vou pagar-lhes.
Após uma hesitação, Hines indagou:
— São suas Clientes?
— De certo modo, sim. Uma pessoa sua amiga pediu-me para olhar pela situação
delas.
Hines tirou uma carteira do bolso, bem recheada de notas. Contou cinco de
cinquenta dólares e estendeu-as a Eva Martell; em seguida, tirou uma nota de cem
dólares e entregou-a a Adelle Winters.
— Já vai melhor - comentou Mason, enquanto Hines guardava a carteira. — Podemos
agora começar a falar.
— Esta jovem é Miss Eva Martell — começou Hines. — A Senhora que está com ela é
Mrs. Adelle Winters, que desempenha o papel de dama de companhia. Se viu o
anúncio, lembra-se decerto que essa cláusula estava estipulada. Quero que a
segurança dessa jovem esteja absolutamente confirmada... para que me não possa
ser imputada qualquer acusação de... atentado ao pudor.

30
— Muito bem — apoiou Mason. — Agora, entremos no assunto. Creio que Miss Martell
está aqui personificando Mrs, Reedley, não é assim?
— Sim - confirmou Eva.
— Porquê?
— Porque me deram essas instruções.
— Quem lhas deu?
A morena hesitou e Adelle interveio:
— Foi Mr. Hines quem nos deu essas instruções, quando viemos para aqui, e temo-
las seguido à risca. Tudo quanto fizemos foi de acordo com as indicações
recebidas.
— Está correcto ? — inquiriu Mason, dirigindo-se a Hines.
— Absolutamente — respondeu este.
— E creio que sabe ser crime personificar outra, pessoa?
— Só quando há intenção de cometer uma fraude, Mr. Mason. Estudei esse ângulo da
lei, cuidadosamente. Posso assegurar-lhe que todos os passos que dei foram
estritamente de acordo com a lei. Não há intenção de defraudar seja quem for.
— Mas tenciona iludir alguém, não é assim?
— Há nisso uma distinção legal — defendeu-se Hines.
— Bem sei, mas quero saber se, neste case, a distinção é real ou aparente. Quem
é que arrenda este apartamento?
— Eu... hum...
— Desembuche. Quem é que o arrenda?
— Hellen Reedley.
— A verdadeira?
— Sim
— E ela deu-lhe autorização para instalar aqui estas senhoras?
— Eu... Sim, deu-me essa autorização.

31
— Por escrito?
— Não.
— Ora aí tem.
— Escute, Mr. Mason. Deixe-me fazer-lhe uma proposta honesta. Suponha que Mrs.
Helen Reedley vai ter consigo, para explicar-lhe que a represento e que tudo
quanto fiz foi por ordem dela, sem intenção de defraudar seja quem for... e que
assumimos inteira responsabilidade de quanto pedimos a esta jovem para fazer?
Suponha que consigo tudo isso?
— A verdadeira Mrs. Reedley?
— Ela própria.
Mason fez uma careta e admitiu:
— Provavelmente, manda-me uma outra das suas morenas contratadas.
— Não, Mr. Mason. Helen Reedley mostrar-lhe-á a carta de condução, que contém
uma sua impressão digital. Pode recolher a dela, directamente, e compará-las.
Nada pode ser mais evidente.
— Quando será isso?
Hines olhou para o relógio de pulso e declarou:
— É agora meio-dia, aproximadamente. Posso enviá-la ao seu escritório, à uma
desta tarde.
— Bem, digamos antes às três horas.
Mason pôs-se de pé e avançou para a porta. Aí, virou-se para Eva Martell e
informou:
— O número do meu telefone vem na lista. Se quiser saber qualquer coisa,
telefone-me. De qualquer modo, telefonar-lhe-ei da parte da tarde. Até falar
comigo, não faça coisa alguma.
— Mas, Mr. Mason — protestou Hines. — Asseguro-lhe que está tudo absolutamente
legal... É... Deixe lá! O senhor embaraçou-me com essa história da
personificação... mas posso afirmar-lhe que está tudo de acordo com a lei.
Ficará plenamente satisfeito.
— Sou um homem difícil de contentar — replicou Mason.

32
- Uma impressão digital deve satisfazê-lo, não é verdade?
— Apenas da identidade da impressão, em relação a uma carta de condução
-especificou o advogado. - Nada mais. E uma carta de condução pode estar
viciada.
Fechou a porta, deixando Hines absorto, entre as duas mulheres.

Já era a segunda vez, em dez minutos, que Mason consultava o relógio de pulso.
— Penso que foi conversa fiada — comentou.
— Dê-lhe mais cinco minutos, chefe — sugeriu Della Street. — Acha que Helen vem?
— Não sei, mas estou disposto a fazer-lhe mais essa concessão: cinco minutos.
— Que impressão lhe causou esse Hines?
— Não muito boa.
— Está realmente numa situação deveras vulnerável —, observou Della. —• Não
compreendo como lhe iria prometer uma coisa que não pudesse conseguir. A não ser
que apenas quisesse ganhar tempo.
— Já ganhou tempo suficiente — concluiu Mason —, mas deve ter acontecido algo de
inesperado, para motivar este atraso. Se quisesse somente ganhar tempo, teria
dito que Helen viria cá, não à uma, como propôs, mas às quatro, por exemplo. Em
relação à hora que sugeriu, sempre ganhava três horas.
— Se realmente Helen Reedley vier cá e se a sua impressão digital corresponder à
da sua carta de condução, o chefe dá-se por satisfeito?
Mason riu e esclareceu:
— Se me convencer de que foi ela quem alugou o apartamento e que é a verdadeira
proprietária de quanto se encontra lá dentro, fico satisfeito. Contudo, podem
existir duas Helen Reedley, neste imenso país.

33
No fundo, só ficarei satisfeito, quando descobrir o motivo que levou Hines a
publicar aquele anúncio e a contratar uma morena, para viver no apartamento de
Helen Reedley, fazendo-se passar por ela. Muito bem, Della. Aqui tem o número do
telefone de Hines. Ligue para ele.
Della Street pediu a Gertie que estabelecesse a comunicação e, segundos depois,
anunciou:
— Está ligado, chefe.
— É Hines? — perguntou o advogado.
— Sim, Mr. Mason.
— A tal pessoa não apareceu.
— Ainda não apareceu ? — exclamou o outro, num tom de grande incredulidade.
— É como lhe digo.
— Não compreendo!... Ela disse-me... Já devia estar aí há mais de vinte minutos!
— Era o que eu esperava.
— Peço-lhe que espere um pouco mais, Mr. Mason. Tenha paciência. Ela deve ter
sido forçada a demorar-se, em qualquer lado, por um motivo inesperado.
— Vamos esclarecer bem este assunto. Falou realmente com ela ? — indagou
Mason.
— Sim, certamente.
— Pessoalmente, ou por telefone?
— Por telefone.
— E está certo da identidade da pessoa a quem telefonou?
— Absolutamente.
— Vou dizer-lhe o que vou fazer, Hines. Dou-lhe exactamente mais dez minutos. Ao
cabo desses dez minutos, as minhas clientes saem desse apartamento e, até que eu
esclareça completamente o assunto, o seu trabalho terminou.
— Por favor, Mr. Mason, não faça isso. Não posso consentir que saiam agora do
apartamento. Seria... seria completamente desastroso.

34
— Então arranje maneira de Mrs. Reedley estar aqui dentro de dez minutos —
intimou Mason e desligou.
Registou a hora e pediu a Della:
— Peça a Gertie que me ligue para Mrs. Adelle Winters. Quando ela atender
aconselhem-na a abreviar o mais possível a conversa, pois Hines deve estar a
telefonar-lhe, de um momento para o outro.
— Quer falar com Adelle ou com Eva?
— Com Eva, de preferência, e depressa. Encarregaram-me de defender os seus
interesses e de mais ninguém.
Momentos depois dizia ao telefone:
— Miss Martell? Daqui Mason. Hines não cumpriu a promessa. Portanto, quero que
siga à risca as seguintes instruções.
— Peça a Mrs. Winters que a acompanhe; pegue nas suas coisas pessoais e ela que
traga o que comprou; empacotem tudo e saiam daí para fora.
— Temos aqui umas malas de Mrs. Reedley. Podemos levá-las, emprestadas, só para
transportar...
— Nada disso. Se -não tiverem um saco de papel ou plástico, levem-nas às costas,
mas nada de tirarem nada que lhes pertença, quando não, serão acusadas de
felonia e abuso de confiança. Está a perceber?
— Sim, Mr. Mason. Acha que alguém vai acusar-nos disso?
— Não sei, mas não quero arriscar-me. Arranjem-se de qualquer maneira e ponham-
se a andar com as vossas coisas, mas não levem daí seja o que for que vos não
pertença.
— Mr. Hines sabe que nos vamos embora?
— Já o avisei.
— É capaz de telefonar, ou vir pessoalmente...
— Façam o que vos digo.
— Ele pode fazer-nos outras promessas e ofertas...
— Façam o que vos digo e logo que estiverem fora daí, telefonem-me.

35
— Para onde vamos?
— Para onde quiserem: para casa, para una cinema... mas apressem-se.
- Muito bem. Telefonarei dentro de meia hora.
— Reduza isso a metade Não demore mais do que quinze minutos.
Pousou o auscultador e virando-se para Della, prosseguiu a ditar a
correspondência que tinham preterido.
Momentos depois, o telefone tocou. Della anunciou ser novamente Eva Martell e
Mason atendeu:
— Então, Eva, onde está?
— Numa cabina pública do Lorenzo Hotel.
— Tiveram dificuldade em sair?
— Bem, Mr. Hines telefonou e disse-nos que vinha imediatamente para o
apartamento, mas não veio.
— Que queria ele?
— Forçar-nos a ficar. Fez uma data de promessas e pediu-nos para esperarmos por
ele. Saímos logo e não fomos para casa, porque notámos que estávamos a ser
seguidas.
— Por quem?
— Por dois homens... pelo menos dois... não sabemos se havia outros no nosso
encalço.
— Já estava à espera disso. Estão certas de não terem levado nada que vos não
pertencesse?
— Nem um cigarro, Mr. Mason.
— Os homens que vos seguiam perceberam que vocês deram por isso?
— Não creio que percebessem. Fizemos de conta que os não tínhamos visto.
— E Hines não apareceu?
— Não, Mr. Mason. Saímos do apartamento à uma e quarenta e cinco, porque a Tia
Adelle demorou-se um pouco a arrumar as suas coisas, em sacos de papel, e depois
ainda quis fazer uns telefonemas, no átrio do edifício. Tentou ainda falar
consigo, mas o seu telefone estava ocupado: também ninguém respondia do número
que Mr. Hines nos dera para comunicarmos com ele, embora nos dissesse que estava
lá sempre gente, dia e noite.

36
De uma outra vez que a Tia Adelle telefonara impara lá, respondera-lhe uma
mulher, mas ela está convencida de que não seria Mrs. Reedley e sim outra
qualquer.
— Quando foi isso?
— Há dois ou três dias.
— Bem... vou telefonar a Hines dizendo-lhe que, a menos que me satisfaça
plenamente, quanto à vossa segurança, vocês não voltarão a esse apartamento. Até
lá, a vossa situação é ilegal. De qualquer modo, continuam a ter direito a uma
compensação monetária. Espero que ele a satisfaça, como deve.
— Mr. Hines fez-nos imensas promessas e pediu-nos uma coisa, encarecidamente:
que não saíssemos do apartamento, antes das cinco da tarde, ou, pelo menos, que
não fôssemos para nossa casa, antes dessa hora.
— Explicou porquê?
— Não, mas mostrou-se muito preocupado a esse respeito.
— Foi por esse motivo que foram para o átrio do Lorenzo Hotel?
— Não foi bem por isso. Recolhemo-nos ali, porque verificámos que estávamos a
ser seguidas.
— Estou satisfeito por terem saído do apartamento — disse Mason. — Isso dá-me
rédea livre para agir à minha vontade. Deixem-se ficar por aí. Não saiam do
Lorenzo Hotel, antes de me telefonarem, para receberem novas instruções.
— Pode estar descansado, Mr. Mason.
Virando-se para Della Street, o advogado pediu:
— Por favor, dê um salto à Agência de Detectives Drake e diga a Paul que as duas
mulheres estão no Lorenzo Hotel e têm andado a ser seguidas por dois homens.
Quero descobrir quem são e a quem transmitem o seu relatório informativo. Diga a
Paul para pôr quatro dos seus homens em campo.

37
Dê-lhes uma descrição pormenorizada de Eva Martell e de Adelle Winters. Que não
olhe a despesas, porque um espertalhão, chamado Hines, acabará por pagá-las
com língua de palmo.
Della saiu prontamente em direcção ao patamar do mesmo edifício onde se achava a
agência de Paul Drake. Em seguida, Mason pediu a Gertie, pelo telefone: - Ligue-
me para esse apartamento de que tem o número.
— Okay.
— Se ninguém responder, tente este outro: Drexberry, 5236.
— Sim, Mr. Mason.
— Depressa.
— Quer que o anuncie?
— Não. Ligue-me directamente para aqui, logo que apanhe Mr. Hines na linha.
Momentos depois, Gertie informava:
— Ninguém responde do apartamento. Vou ligar para Drexberry.
Tornou a falar para Perry Mason, dizendo contristada:
— Também não atendem.
— Torne a tentar, dentro de cinco minutos. Estou ansioso por falar com esse
Hines... Robert Dover Hines. Ligue logo para aqui.
No instante em que Mason pousava o auscultador, Della Street entrou no
gabinete pela porta particular de acesso directo ao patamar.
— Tenho estado a tentar falar com Hines, mas não consigo apanhá-lo. Tirei as
mulheres do apartamento, para que a polícia, quando lá chegar, não encontre
Eva, personificando Mrs. Reedley, usando as suas roupas e os seus objectos
pessoais... Mas, mesmo assim, se a coisa for ilegal, como parece, pela
ausência de Mrs. Reedley, vamos ter de dar uma data de explicações, para safar a
nossa cliente.

38
— Pensa que foi Hines quem mandou seguir as mulberes, chefe?
— Talvez. Mostrou-se ansioso por que não saíssem do apartamento, ou não
voltassem para casa delas, antes das cinco horas da tarde.
— Porquê?
— É o que procuro descobrir.
— Acha que Helen Reedley foi realmente assassinada?
— Não sei, mas as instruções dadas a Adelle Winters são muito estranhas. Hines
determinou-lhe que, se alguém telefonasse a perguntar por Mrs. Reedley, deveria
responder que esta se achava ocupada, nesse instante, ou impossibilitada de
atender a chamada; que Mrs. Reedley telefonaria mais tarde, o que nunca
aconteceria, porque se «esquecia».
— Isso significa que foi morta?
— Não, precisamente. Hines recomendou a Mrs. Winter que informasse a pessoa
interessada de que Mrs. Reedley telefonaria para ele, dentro de vinte minutos,
ou meia hora. As pessoas que telefonaram para o apartamento, à procura de Mrs.
Reedley, nunca o fizeram segunda vez. Isso pode significar que quem tinha de
«esquecer-se» de ligar para o número que falara era Eva Martell. Provavelmente
Mrs. Reedley ligava para lá. O lapso de tempo que Hines estipulara devia
permitir-lhe avisá-la de que teria de comunicar com quem telefonara e, nesse
caso, Mrs. Reedley está viva, mas oculta, em qualquer lado.
O telefone tocou.
— Deve ser Hines — admitiu Mason, pegando no auscultador. Em seguida, tapou o
bocal e disse para Della: • — É Mrs. Helen Reedley.
Gertie informava de que Mrs. Reedley estava na sala de espera, explicando ter
entrevista marcada, mas que não pudera estar ali à hora indicada.
— Mande-a entrar, Gertie — disse Mason e virando-se para Della, acrescentou: —
Vai ser bom e bonito!

39
A porta abriu-se e Gertie deu entrada a uma morena que, mal penetrou no
gabinete, fitou Della, dos pés à cabeça, numa fria e desconfiada apreciação.
Depois, virou-se para Perry Mason e saudou:
— Como está, Mr. Mason? Sou Helen Reedley. Lamento ter chegado atrasada.
— Tenha a bondade de sentar-se. Pretendo fazer-lhe algumas perguntas — prologou
o advogado.
Helen atravessou o gabinete, graciosamente, e sentou-se no maple ultra-estofado,
destinado aos clientes. Exteriormente parecia um duplicado de Eva Martell, até
nos gestos, mas a sua expressão irradiava uma personalidade muito mais
acentuada. Os seus movimentos eram talvez mais suaves, difundindo maior
elegância, e os olhos negros, orlados de grandes pestanas, tinham um brilho
provocador, denunciando, ao mesmo tempo, indubitável forca de vontade e
determinação. Fitou Mason, erguendo as sobrancelhas, e ignorou completamente a
presença de Della.
— Que deseja saber, Mr. Mason? — inquiriu.
— Que deseja dizer-me? — replicou o advogado.
Por momentos, Helen hesitou, acabando por declarar:
— Mr. Hines disse-me que o senhor desejava fazer-me algumas perguntas.
— Só tenho uma pergunta a fazer-lhe, Mrs. Reedley, e já fiz: que tem para
dizer-me?
— Acerca de quê ?
— Do que quiser.
— Depreendi que estava interessado no meu apartamento.
- O apartamento é realmente seu?
— Naturalmente.
- Pode prová-lo?
- Mr. Hines advertiu-me de que o senhor seria difícil. Vou pôr-lhe sobre a
secretária os documentos comprovativos da minha identidade.

40
Abrindo a malinha de mão, tirou uma carteira e exibiu a sua carta de condução.
— Está passada em nome de Hellen Reedley, como vê - indicou. — Tem registada a
morada, que corresponde exactamente à do meu apartamento. Também apresenta minha
impressão digital. Se tiver aí uma almofada de tinta para carimbo, poderá
verificar directamente que é idêntica à do meu dedo.
Helen Reedley comprimiu o dedo na almofada de tinta que Mason lhe estendeu,
imprimiu-o numa folha do bloco-notas e limpou-o, depois, a um lencinho;
recostou-se no maple, enquanto o advogado comparava a impressão digital da carta
de condução com a do papel, onde ela acabara de deixar a marca do seu indicador
direito.
— Posso fumar? — perguntou.
— Esteja à sua vontade — respondeu Mason, sem tirar os olhos das duas
impressões.
Helen tirou um cigarro da cigarreira, acendeu-o e fixou Mason intensamente.
- As impressões parecem idênticas — observou Mason.
- São as mesmas — retorquiu ela.
— Verifico que a morada é efectivamente a do seu apartamento... mas, tem outra
prova disso?
— Com certeza — respondeu Helen, calmamente. — Já que o senhor não é fácil de
contentar. Tenho aqui uma série de recibos, assinados pelo gerente do edifício.
Pode certificar-se de que se referem aos últimos seis meses de aluguer.
— Traz consigo o seu bilhete de identidade?
— Não.
— Tem outros meios de provar a sua identidade ?
— Sim. Aqui tem cartões de crédito bancário; tenho também cartões do clube de
golfe e de outras organizações, mas não acho necessário exibi-los.
— Eu considero necessária a sua exibição.
Helen mostrou-se agora francamente zangada, mas sem uma palavra, pôs os
cartões em cima da secretária.

41
Instantes depois, a sua expressão adoçou-se e sondou:
— Agora, que a minha identidade está absolutamente esclarecida, podemos ser
amigos?
— Portanto, a senhora alugou aquele apartamento — concedeu Mason, com uma
careta. — E quanto a Mr. Hines ?
— Está encarregado de todos os meus negócios, incluindo o meu apartamento —
replicou ela.
— E de tudo quanto contém?
— E de tudo quanto lá está dentro — Confirmou. Mason virou-se, então, para Della
Street e pediu:
— Queira escrever o seguinte:
A quem, possa interessar:
Serve o presente atestado para confirmar que a abaixo assinada Helen Reedley é,
desde há seis meses, arrendatária do apartamento sito no edifício Siglet Manor,
da Eight Street, designado com o número 326. A abaixo assinada confirma também
ser a única proprietária do referido apartamento e de tudo quanto nele se
contém; que Robert Dover Hines é seu representante e está por ela autorizado a
servir-se desse apartamento e do seu conteúdo, com poderes específicos para
consentir que outra pessoa, ou pessoas, entrem nesse apartamento e utilizem o
seu conteúdo, incluindo objectos pessoais, como artigos de toilette, acessórios,
roupas e tudo quanto nele se encontre. Confirma-se ainda que tudo quanto Robert
Dover Hines tenha determinado, em relação ao referido apartamento e seu
conteúdo, e à pessoa ou pessoas que o tenham ocupado, se executou com o total
consentimento da abaixo assinada.
— Deixe um espaço, para a assinatura, Della — indicou o advogado. — Queira
dactilografar esse texto, com duas cópias, ponha o selo fiscal, o nosso carimbo
notarial e assine também, como testemunha.

42
— Não está a ir longe de mais? — protestou Helen Teedley.
Sorrindo, Mason retorquiu:
— Sim. Enquanto Della passava à máquina o documento, Mason acendeu um cigarro e
recostou-se na cadeira de braços giratória. Segundos depois, declarou:
— Agora, Mrs. Beedley, podemos ser amigos.
Os olhos da morena brilharam irados e proferiu, entre dentes:
— Mas agora não quero que sejamos amigos.
Mason tornou a sorrir e murmurou:
— Muito bem. Está certamente ao facto de tudo quanto Hines tem estado a fazer?
— Certamente.
— E qual é a razão para o seu procedimento?
— É assunto puramente pessoal.
— Quero saber do que se trata.
— O documento que vou assinar protege completamente as suas clientes.
— Contudo, para protecção integral, quero saber o que passa.
— Não vejo motivo para dizer-lho.
— Nesse caso, tenho de fazer uma declaração adicional.
Voltando-se para Della, indicou:
— Torne a pegar no seu bloco-notas e registe:

Tenho conhecimento de que o mencionado Robert Dover Hines instalou no meu,


apartamento certas pessoas, uma das quais foi instruída pelo dito Hines, para
que usasse o nome de Helen Reedley. A abaixo assinada consente que essa pessoa
use o seu nome e assine, como sendo Helen Reedley, assim como a personalize, em
qualquer circunstância que o dito Hines determinar, seja qual for o seu
propósito, desde já declarando a abaixo assinada que não poderá acusar a pessoa
que a personalize de qualquer acto ilegal por esse facto, nem exigir-lhe
indemnização por qualquer espécie de perdas e danos que possam resultar da
situação determinada, nem pelas instruções dadas pelo seu agente e representante
Robert Dover Hines.

48
Subitamente, num gesto de raiva, Helen Reedley pôs-se de pé. A malinha escapou-
se-lhe das mãos e abriu-se, espalhando, pela carpete, alguns dos objectos que
continha.
— Não pense que vou assinar uma coisa dessas — gritou indignada. — É uma
declaração impertinente... Seria um suicídio!
Suavemente, Mason, como se não tivesse notado a atitude furiosa, declarou:
— Sugiro, Mrs. Reedley, ser melhor para si confidenciar-me qual o seu propósito
em todo este caso. Então, dir-lhe-ei se deverei, ou não, servir-me deste
documento que terá de assinar.
— Mas... é completamente absurdo... absolutamente ridículo! Com um documento
dessa natureza, essa rapariga pode ir ao Banco e assinar o meu nome num cheque
de cinco mil dólares e sair com ele, tranquilamente, pela porta fora.
— Decerto que pode, Mrs. Reedley, desde que o seu agente e representante lhe
determine que o faça.
— Bem... Hines não é meu representante até esse ponto!
— Nesse caso, torna-se conveniente que me esclareça até que ponto é Hines seu
agente e representante.
— Já lhe disse quanto desejava dizer-lhe.
— Lamento. Enquanto não obtiver essa informação — prosseguiu Mason —, terei de
obter a sua assinatura neste documento. Acho, entretanto, Mrs. Reedley, que no
seu próprio interesse deve apanhar a sua bolsa e recolher os objectos que saíram
dela, para a carpete.

44
A propósito, se traz uma arma, nessa malinha, deveria ter licença de porte de
arma.
— Porque pensa que a não tenho?
— Se a tem, mostre-ma, pois é mais uma prova de identificação.
Raivosamente, Helen apanhou a bolsa do chão, guardou os objectos que se tinham
espalhado e rugiu:
— Raios! Como odeio os homens do seu género!
— Os homens de que gosta, Mrs. Reedley, são aqueles que se lhe agacham em volta,
ao mais pequeno sinal dos seus dedos. Não creio estar totalmente imune a esse
feitiço, mas tenho por regra jamais consentir que uma mulher atraente influencie
o meu dever de proteger os interesses dos clientes que tenham depositado
confiança em mim. Agora, vamos decidir: assina, ou não assina, este documento?
Helen respirou fundo e pareceu descontrair-se.
— Não tenho outra alternativa, senão assiná-lo. Diga à sua secretária que não
demore, pois estou cheia de pressa.
— Uma coisa posso eu afirmar a seu respeito, Mrs. Reedley: quando perde, fá-lo
desportivamente. Podemos ser amigos?
Helen sorriu-lhe enigmaticamente e murmurou:
— Agora, já mudei de ideias.
Permaneceu sentada, imóvel, num frígido silêncio, até que Della lhe estendeu o
documento para assinar. Leu-o rapidamente, pegou na caneta e escreveu o nome com
notório nervosismo.
— Está satisfeito ? — inquiriu.
- Quase — replicou Mason. — Falta a sua impressão digital.
E estendeu-lhe novamente a almofada de tinta. Helen imprimiu a polpa do
indicador direito na base do documento, ao lado da assinatura, e tornou a
sujar o elegante lencinho.

45
Ergueu-se bruscamente e sibilou:
— Agora, deixem-me sair daqui, depressa, antes que eu parta qualquer coisa.
— Queira indicar a saída a Mrs. Reedley — disse Mason calmamente, fazendo um
gesto cerimonioso a Della. Esta, apressou-se a pôr o selo fiscal e o carimbo
notarial do Mason, mas não pôde chegar a tempo de abrir a porta à morena
furiosa.
— Boa tarde, Mrs. Reedley — ainda lhe disse, mas não obteve resposta.
Della fechou a porta e virou-se para Mason.
— Viu como ela me olhou, chefe ? — comentou. — Como se eu não fosse mais que um
mero objecto utilitário!
— Vi sim, Della, e foi por isso que a tratei com menos brandura do que é meu
hábito, para com mulheres em apuros.
— Tem a certeza de que ela trazia uma arma na bolsa?
— Não faço a menor ideia. Foi um tiro para o ar, ao calhar, mas não há dúvida de
que tinha dentro um objecto pesado e certamente metálico, pelo som que produziu
ao cair na carpete. Ainda tentei fazê-la admitir que era uma arma, mas ela
furtou-se à resposta.
Neste instante, o telefone tocou.
— Sim, Gertie ? — atendeu Della. — Eva Martell deseja saber se há novidades.
— Deixe-me falar com ela — disse Mason. — Eva? Sim, Helen Reedley acaba de sair
daqui. Não há dúvida de que é ela mesma e de que o apartamento lhe pertence,
como inquilina, pelo menos há seis meses. Obriguei-a a assinar um documento que
vos deixa a salvo de qualquer complicação, desde que vocês sigam à risca as
determinações de Hines. Tenho tentado entrar em contacto com ele, mas ainda não
o consegui. Vocês vão voltar para lá?
— Ele disse-nos para continuarmos na nossa missão, no apartamento de Mrs.
Reedley... mas, gostaríamos de ir fazer algumas compras...

46
— Vão lá fazer as compras que quiserem, mas não se esqueçam de que têm sido
seguidas. Lembrem-se também de que Hines vos disse que não deviam ir ao vosso
anterior apartamento.
— Sim, sabemos isso... Mas, vimos umas coisas na montra de uma loja, aqui ao
lado... que sempre desejámos comprar... e só agora temos possibilidades...
— Vão comprar o que quiserem. Hines está tão ansioso em conservar-vos ao
serviço, que não protestará pela demora.
— Obrigada, Mr, Mason. E quanto aos homens que nos seguem?
— Não lhes liguem atenção. Façam de contas que não deram por estarem a ser
seguidas. Tomem depois um táxi e regressem ao apartamento de Mrs. Reedley. Não
têm já motivo para preocupar-se. A autorização está assinada pela própria.
— Ela parece-se efectivamente comigo?
— Sim, mas há uma diferençazinha interior.
— De temperamento?
— E até de temperatura. É o que se costuma chamar uma mulher escaldante.
— Bem, espero, Mr. Mason, que não me considere uma mulher de gelo. Acha-a mais
bonita?
— Exteriormente são realmente muito parecidas...
— Tenho notado que Mr. Hines me lança certos olhares...
— Não me diga que está embeiçada por ele!
— Não, de maneira alguma. Adeus Mr. Mason, e muito obrigada.

Eram seis e meia quando Mason, que ficara a trabalhar até mais tarde, no seu
gabinete, ouviu soar o bezouro do PBX de recepção.

47
Gertie já tinha saído, havia coisa de meia hora, pelo que o advogado pediu a
Della Street:
— É melhor atender, minha querida amiga. Deve ser Eva Martell. Combinámos jantar
com Paul Drake e hoje não podemos receber mais ninguém.
Momentos depois, Della voltou apressadamente, anunciando:
— É ela, chefe. Diz que tem de falar consigo imediatamente. Parece histérica.
Liguei a chamada para esse telefone.
Mason pegou no auscultador e inquiriu:
— Que se passa, Eva?
— Tem de dizer-nos o que devemos fazer, Mr. Mason. Voltámos ao apartamento e...
aconteceu uma coisa. O senhor tem de vir cá, agora mesmo.
— Estou pronto a sair, mas tenho um jantar combinado, dentro de vinte minutos.
Que se passou ai?
— Não posso dizer-lhe ao telefone. Venha, por favor o mais depressa que possa.
— Algo de grave?
— Muito grave.
— Oiça, Eva, estou muito ocupado. O documento que tenho em meu poder, protege-as
de qualquer coisa que possa ter acontecido. Nada têm a recear. Diga-me, pois,
porque estão tão preocupadas?
— É Robert Hines — respondeu Eva, excitadíssima. — Está sentado numa cadeira,
aqui, no apartamento, e tem um buraco ao meio da testa, que parece ter sido
feito por uma bala. Está morto... Estou certa de que está morto!
— Cos diabos! Há quanto tempo está ele aí? — Não sei.
— Quando foi morto?
— Também não sei. Não faço ideia corno isto aconteceu.
— Já chamou a polícia ?

48
— Não. Só telefonei para si.
— Há quanto tempo estão vocês no apartamento?
— Acabámos de chegar, agora mesmo. Lavámos mais tempo do que tencionávamos, nas
compras.
— Avisem a polícia imediatamente — ordenou Mason. — E não mexam em nada. Vou já
para aí, sem demora.
Pousou o auscultador, pegou no chapéu e saiu apressadamente, com Della atrás de
si. No patamar da Agência de Detectives Drake, parou um segundo e perguntou:
— Paul está aí ?
A recepcionista acenou com a cabeça afirmativamente e apontou para o gabinete
particular do detective. Mason passou por ela, num ápice e entrou no gabinete,
de roldão.
Drake ergueu os olhos de um relatório que examinava e admirou-se:
— Que pressa é essa, Perry ? Faltam ainda vinte minutos...
— Puseste os teus homens nesse trabalho do Lorenzo Hotel ?
— Três. Os melhores que cá tenho para serviços desse género.
— Okay, Paul. Toma agora atenção, que é importante. Um bom homem chamado Hines
acaba de ser baleado no edifício de apartamentos Siglet Menor. Fica na Eight
Street, apartamento 326.
— Quem descobriu o cadáver?
— As minhas clientes. As mesmas que estão a ser seguidas. Devem estar, neste
momento, a comunicar o crime à polícia. Estes não deixarão de enviar para lá um
carro da rádio-patrulha. Portanto, não temos mais de três minutos.
— Oh, oh! — exclamou Paul Drake.
— Decerto que os homens que as seguiam são detectives particulares. Descobre-me
a que agência pertencem e para quem trabalham. Provavelmente os seus
relatórios são enviados ao cliente pelo correio e, nesse caso, é como se
esbarrássemos cora uma parede de cimento.

49
— Ainda bem que compreendes isso, Perry. Não vai ser nada fácil.
— Bem sei. Agora escuta: dentro de minutos, a polícia estará com as minhas
clientes. É de esperar que os tipos que as seguiam, assim como os teus, que os
seguiam a eles, possam comprovar a que horas as mulheres entraram no edifício. A
polícia verá logo o que sucedeu, mas não poderá descobrir imediatamente como
sucedeu. Vai levar algum, tempo...
— Não muito — contrariou Drake, pessimista. — E os tipos que as seguiam vão logo
«tirar nabos da púcara» aos «chuis'»...
— E correrão a transmitir a notícia ao seu cliente.
— Como podes ter a certeza disso?... E como o farão?
— Num caso destes, de indiscutível urgência, fá-lo-ão, decerto, por telefone.
- Por telefone, não devem poder contar-lhe muita coisa — considerou
Drake.
— É natural que o seu cliente corra imediatamente para lá, a fim de obter mais
pormenores.
— É exactamente o que eu estava a pensar.
— Okay. Queres, portanto, que se vigie a agência desses tipos, à cata do
cliente, não é assim?
— Quero que os teus homens sigam esse tipo, vá ele para onde for.
— Há alguma hipótese de as tuas clientes estarem envolvidas no homicídio?
— Não sejas tonto, Paul. Bem sabes que os meus clientes nunca
estão envolvidos em crimes. Apenas têm o azar de esbarrar com cadáveres, nos
sítios mais incongruentes e nos momentos mais inoportunos. Estas senhoras
limitaram-se a informar-me do que tinham descoberto e a pedir-me que fosse ter
com elas. Disse-lhes para comunicarem o achado ã polícia.
— E vão dizer aos «chuis» que são tuas clientes?

50
— Porque não?
— Bem, vou pôr os meus homens de atalaia e depois vou ter contigo ao gabinete.
— Sim, mas antes de saíres daqui, trata de saber o que puderes acerca do
assassínio.
— Disseste que Hines foi a vítima?
— Sim.
— E era o tipo que contratou as tuas clientes?
— Sim.
— Bem, vou fazer o que recomendaste.
E o detective atirou-se ao telefone, começando a dar ordens.
Mason saiu da agência de Paul Drake e voltou para o gabinete. Delia seguiu-o,
mas não se conteve e perguntou-lhe:
— Já não sai, chefe?
- Paul vai pôr os seus homens na pista do cliente que contratou detectives para
seguirem Eva e Adelle. Temos de saber quem é e com que fim agiu dessa maneira.
Ao mesmo tempo, vai tentar obter todas as informações possíveis acerca do crime,
por meio de sondagens particulares, junto da polícia. Eu tenho descoberto tantos
cadáveres e, de tal maneira o Procurador do Distrito me traz debaixo de olho,
que, desta vez, vou fazer o possível por manter-me na sombra e trabalhar o caso,
à distância.
— Meu Deus! — exclamou Della. — Isso é o que o chefe diz, mas ficará na sombra
durante pouco tempo... Há uma coisa que me tem dado que pensar...
— Que coisa?
— Esse revólver de calibre 32 que Adelle Winters disse ter na sua posse. Acha
que a polícia a revistará?
— Está a ler-me os pensamentos, Della — confessou Mason.
- Se Mr. Kines foi assassinado com um revólver de calibre 32, onde é que isso
nos levará? — inquiriu Della meditativamente.

51
— Depende. Pode não ter grande significado. O diabo é se a polícia descobre que
a bala encontrada mo crânio do cadáver corresponde ã que teria saído do cano do
revólver de Adelle. Mas para isso, é preciso que os peritos encontrem, na
bala, provas materiais absolutas.
— Caso o médico-legista, na autópsia, a não encontre demasiado deteriorada, pela
sua passagem pelos ossos cranianos, não é assim?
— Exactamente, minha amiga.
— Mas, se a arma for a mesma...? Lentamente, Mason silabou:
— Sa-ri-lho! Isso muda completamente a situação, ou melhor, complica-a.
— Não sabemos até que ponto Adelle Winters é esperta.
Perry Mason sorriu e consultou o relógio de pulso.
— É o que vamos saber, dentro de minutos, querida Delia.

Já passava das nove, quando Mason, andando de um lado para o outro, pensativo,
no seu gabinete, ouviu as pancadas de código de Drake, na porta particular do
corredor.
— É Paul, Della. Faça-o entrar, sim?
— Olá, linda — saudou Drake, ao penetrar no gabinete. B dirigindo uma careta a
Mason, exclamou:
— Uff! Deste-me uma carga de trabalhos, Perry!
— Descobriste alguma coisa?
— Creio que ganhei honestamente o meu «pão de cada dia».
- Desfecha lá isso.
Drake deslizou para o maple ultra-estofado dos clientes, sentou-se, como era seu
costume, com uma perna sobre o encosto do braço e suspirou:
— Até que enfim! As tuas clientes fartaram-se de fazer compras.

52
Devem estar milionárias! Depois, jantaram num restaurante e voltaram para o
apartamento. Os meus rapazes seguiram os homens que lhes andavam na peugada e,
até lá, a coisa não foi difícil.
— E depois?
— Depois, começaram os sarilhos. Sirenes, carros da polícia e uma enorme
excitação em volta do Siglet Manor. Mandei alguns reforços, para sondar os
«chuis>, conforme sugeriste; também mandei outros seguirem os «espias».
— Que aconteceu?
— Um desses tipos correu a uma cabina pública. O meu detective serviu-se de um
belo par de binóculos e conseguiu, através dos vidros da cabina telefónica, ver
o número que o tipo discou. É o da agência Interstate Investigators. O meu rapaz
telefonou-me imediatamente e seguiu logo para essa agência, como indicaste.
— Que se passou na cena do crime?
— Aí, os tipos da Interstate andaram também a sondar os polícias amigos, mas não
conseguiram mais do que os jornalistas também puderam caçar. Não foi muito: o
mesmo que os meus detectives apuraram.
— Que foi?
— A identidade do cadáver.
— E acerca do crime?
— Nada.
— Bem, sempre sabemos que Hines foi morto por uma bala que lhe perfurou o
frontal, mesmo a meio da testa; provavelmente desfechada por uma arma de calibre
32.
— Buraco de saída?
— Não, que eu saiba.
— Nesse caso, a bala deve estar alojada lá dentro.
— Exactamente.
— Quando a polícia a tiver nas unhas, poderá compará-la com a arma, se a
descobrirem.
— Certo. E isso simplifica o caso.

53
— Ou complica-o — observou Drake, fitando Mason nos olhos. — Depende de a quem
pertence a arma, que pode ser de uma das tuas clientes... como suspeito, já que
falaste no calibre.
— Há muitas armas de calibre 32.
— Bem, Perry, deixemos isso. Como dizia, o tipo da Interstate telefonou para a
sua agência e em seguida correu para lá, a fim de fazer o seu relatório verbal.
Pouco depois apareceu o homem, que nos interessa. Entrou apressada e
nervosamente e tornou a sair, pouco depois, ostensivamente preocupado. É um tipo
do quarenta e dois, quarenta e três anos, com cerca de 1,55 m de altura, pesando
à volta de 48, 50 quilos, com abundante cabelo ruivo e usando um chapéu
cinzento-pérola, fato-jaquetão cinzento e sapatos pretos. Não esteve lá mais de
vinte minutos. Saiu rapidamente e enfiou-se num carro de grande classe. O meu
homem tomou nota do número de matrícula. Tomou um táxi e seguiu-o até uma casa
de apartamentos. Depois entrou para informar-se do nome do hóspede.
— Quem é ele, Paul?
— Orville L. Reedley — anunciou Drake.
Mason soltou um ligeiro assobio.
— Está relacionado com Helen Reedley? — inquiriu.
— Mandei logo um homem a um jornal para consultar os ficheiros — prosseguiu
Drake, deixando a pergunta em suspenso. — Descobriu que Orville L. Reedley
casou, em Março de 1942, cora Helen Honcutt. Nessa altura, ela disse ter 21 anos
e ele, 38. Tudo indica tratar-se da mesma Helen Reedley que alugou o apartamento
onde estão as tuas clientes e onde Hines foi assassinado.
— Bravo, Paul. Que faz ele?
- Parece negociar na Bolsa e tem dinheiro.
Durante uns segundos Mason tamborilou com os dedos no tampo da secretária, e
depois inquiriu:
- Onde se encontra neste momento?

54
- Creio que ainda deve estar no seu apartamento, onde tenho dois dos meus
rapazes de vigia.
Mason ergueu-se da cadeira e decidiu:
— Toca a andar, Paul.
- No teu carro, ou no meu?
— Onde tens o teu?
— Mesmo à porta.
- Vamos nele.
- Que quer que eu faça, chefe? — perguntou Della.
— Quero-a aqui no gabinete, pois posso precisar de entrar em contacto consigo.
Não se importa, pois não?
— Absolutamente nada.
- Então, partamos, Paul.
Mason acendeu um cigarro, quando Drake pôs o carro em movimento.
- Começamos agora a ter uma pista de motivação, — declarou.
— Refere-se ao ângulo «marido»?
— Não só ao ângulo «marido», mas também ao ângulo «detectives particulares».
— Sim, é possível que haja um forte motivo, pelo menos para esse jogo de a
mulher querer ser personificada por outra.
- Exactamente. A esposa vem para a cidade e começa a viver a sua vida,
independentemente. O marido quer divorciar-se, mas não está disposto a dar-lhe a
choruda pensão que ela pretende, para libertá-lo, e diz-lhe: «okay, anda lá para
diante com esse divórcio». O homem espera algum tempo e atira-lhe detectives aos
calcanhares, para ver se a apanha a pôr o «pé em ramo verde». Ela tem outro tipo
qualquer, mas é suficientemente esperta, para deixar-se apanhar em falta pelo
marido... Espera lá, Paul... Há aqui qualquer coisa a chocalhar... Está visto: a
mulher descobriu que iria ser seguida. Só depois de saber isso, decidiu arranjar
uma sósia substituta.

56
Os detectives que a seguem devem estar munidos de uma fotografia da verdadeira
esposa e confundem-na com a contratada para substituí-la. Seguem esta, a par e
passo, e nada descobrem, quanto a infidelidade matrimonial, enquanto a outra,
faz a vida que lhe apetece, na esperança de que o marido desista de caçá-la com
a boca na botija, ou se convença de que ela é um exemplo de castidade, acabando
par ditar aos advogados a concessão de uma pensão, para a futura ex-esposa,
suficientemente avultada.
— Entretanto Helen Keedley anda por aí a dar a sua «facada» no matrimónio?
— Sim, embora muito discretamente, segundo penso.
— Nesse caso, Hines «era o seu "mais-que-tudo» ?
— Não o creio. Não me parece que ela caísse na asneira de deixar o namorado
andar a entrar e sair do próprio apartamento. Os detectives não deixariam de dar
por isso. Hines deve estar fora de qualquer suspeita.
- Devia - - corrigiu Efrake.
— Devia, tens razão, Paul. Tem de haver outro parceiro, noutro local, talvez
onde ela vive ou mais certamente, algures.
— Que tenciona fazer quando estivermos com o marido ?
— Perguntas.
- E se ele não responder?
- Vou eu dar as respostas e ver como reage.
— Pode reagir mal – admitiu Drake, cautelosamente.
— É possível, mas temos de tentar… Fazes alguma ideia da hora a que Hines foi
assassinado?
- Ainda não há a certeza, mas, aparentemente, foi durante a tarde. Nada
transpirou, cá para fora, acerca das conclusões dos médicos. Bem sabes como é,
Perry. Enquanto a polícia não tem um suspeito, não fala da hora do crime. Esta
só é divulgada, quando se pode envolver um desejado suspeito.
Mason concordou, com um aceno de cabeça, e Drake abrandou a marcha, perto de uma
esquina, onde havia uma vaga para estacionamento.

56
- O apartamento para onde vamos — indicou —, fica a menos de meio quarteirão
daqui.
Arrumou o carro, meteu as chaves no bolso e começou a andar ao lado de Mason, ao
longo do passeio, até atingirem uma luxuosa casa de apartamentos. O átrio estava
alcatifado e tinha ainda uma fofa carpeta que dava grande respeitabilidade. A
voz calma de um recepcionista inquiriu o nome de quem desejavam visitar.
— Orville Reedley — disse Mason.
— Está à vossa espera?
— Não, provavelmente. O meu nome é Mason.
— Muito bem... e o cavalheiro que o acompanha?
— Drake. Diga a Mr. Reedley que sou advogado.
— Oh!... E Mr. Perry Mason!
— Exactamente.
— Muito bem, Mr. Mason. É só um momento.
O recepcionista escreveu uma nota, num bloco-notas, arrancou a folha e passou-a
ao telefonista que estava atrás dele. Segundos depois, virou-se e anunciou a
Mason:
— Mr. Reedley vai recebê-lo imediatamente. O ascensorista conduzir-vos-á ao seu
apartamento.
Mason e Drake entraram no elevador e o rapaz levou-os ao quinto andar.
— O apartamento de Mr. Reedley é o n.° 5 B — indicou - A terceira porta, ao
fundo, à direita.
Também o corredor emanava uma atmosfera, de luxo e tranquilidade. Chegados à
porta, Mason premiu o botão da campainha.
O homem que os recebeu correspondia à descrição feita pelo detective de Drake,
mas, além das características por ele enunciadas, transmitia uma impressão de
dinamismo e poder concentrado de quem está habituado a levar por diante, com
êxito, todas as intenções.
Com olhar firme e interrogativo, sondou:

57
—Qual dos dois é Mr. Mason?
- Sou eu — respondeu o advogado, dando um passo em frente e estendendo a mão.
Reedley hesitou um instante, apertou-lha e inquiriu:
— O outro quem é?
— Paul Drake.
— Que faz ele?
— Presta assistência à maioria dos meus casos.
— Advogado?
— Não.
— Então, o que é?
— Detective.
Reedley tomou a hesitar, olhando fixamente, de um lado para outro; subitamente
recuou um passo e abriu mais a porta.
— Entrem.
Mason e Drake penetraram na sala de entrada e Reedley fechou a porta.
— Sentem-se — disse mais uma ordem que um convite.
Aquele compartimento de entrada era uma espécie de sala de estar, bastante
vasta, com uma pequena mesa central, com cinzeiros e quatro cadeiras estofadas,
muito confortáveis. Janelas com persianas, tapete oriental sob os pés, quadros
de bom gosto nas paredes e, a um canto, outra mesinha com telefone.
— Bem — começou Reedley —, de que se trata?
— Sua mulher está a viver nesta cidade?
— Que tem com isso?
— Francamente, ainda não sei bem — respondeu Mason.
— Que quer dizer com isso?
— Pode ter grande importância no caso que tenho entre mãos.
— É advogado, não é verdade?
— Exactamente.
— E tem clientes?

58
— Exactamente.
— Que lhe pagam pelo seu trabalho?
— Sim.
— Porque representa os seus interesses?
— Certo.
— E apenas os interesses deles?
— Naturalmente.
— Pois bem, eu não sou seu cliente. É outra pessoa qualquer. Ora, se representa
os interesses de outra pessoa, pode dar-se o caso de esses interesses serem
contrários aos meus. Nessas circunstâncias o senhor pode vir a ser meu inimigo.
Sendo assim, por que raio havia eu de responder às suas perguntas?
— Tem alguma razão para não responder?
— Não, mas também não tenho motivo para fazê-lo.
— Existirão algumas circunstâncias, neste momento, que o façam recear a
perguntas, como por exemplo: sabe se sua mulher está a viver actualmente nesta
cidade?
— Porque deseja saber isso?
— Preciso de saber alguma coisa acerca do seu passado.
— Que quer saber do seu passado?
— Os amigos que frequentava, por exemplo.
— Descobriu alguma coisa acerca dos amigos dela?
— Ainda não.
— Mas espera descobrir?
— Não tenho a menor dúvida.
— E eu posso estar interessado mo que descobrir?
— Portanto, Helen Reedley é sua mulher?
— Sim.
— Estão separados?
— Obviamente.
— Há quanto tempo estão nessa situação?
— Há precisamente seis meses.
— Pediu-lhe o divórcio?
— Não.
— E ela?

59
— Não.
— Mas faz tenção disso?
— Pergunte-lho a ela.
— Admite alguma hipótese de reconciliação?
— Não tem nada com isso.
— Não está a dar-me grande cooperação — concedeu Mason.
— Não quero mostrar o meu jogo, enquanto não souber a que jogamos. Qual é o
objectivo da sua visita? O que pretende realmente de mim?
— Comunicou recentemente com sua mulher?
— Não.
— Posso perguntar-lhe quando foi que lhe falou pessoalmente, pela última vez?
— Há coisa de três meses. Note que estou apenas a dizer-lhe coisas que você
poderia vir a saber, por outros meios mais morosos.. Estou, portanto, a poupar-
lhe tempo na pesquisa, mas decerto, Mason, você não pensa vir aqui «tirar-me
nabos da púcara» e depois pôr-se a andar, com um «obrigado e muito boa tarde»?
— Certamente que você não tem obrigação alguma de responder-me — observou Mason.
— Isso sei eu. Só não sei o que o faz interessar-se pela vida da minha mulher.
— O meu interesse não incide propriamente na vida de sua mulher, mas no
apartamento onde ela vive.
— Que tem esse apartamento?
— Desde o princípio da tarde, o cadáver de um homem assassinado.
— Quem ?
— Um tal Robert Hines.
— Está a defender alguém acusado de homicídio?
— Ainda não.
— Mas pode vir a dar-se o caso?
— É possível. A estatística aponta inúmeros casos em que pessoas inocentes foram
acusadas de homicídio... Foi interessante notar que o facto de um homem ter sido
assassinado no apartamento ide sua mulher, não lhe causou, a si, a menor
surpresa.

60
— Não é muito fácil, para um estranho, discernir o que me surpreende e o que não
me surpreende.
— Mas pareceu-me não ter ficado surpreendido.
— É possível.
— Para ser franco, precisava de uma certa informação acerca, de sua mulher.
— Porquê?
— Porque penso que, vinda de si, seria mais útil do que partindo dela.
— Que espécie de informação?
— Você contratou detectives para que a seguissem, nos últimos dias. Que foi que
eles descobriram?
Reedley manteve-se imóvel, com os olhos fixos no rosto de Mason. Ao cabo de
alguns segundos, sondou:
— Está a querer fazer bluff comigo?
— Se estivesse, não lho confessaria. Contudo, não é esse o caso. O que realmente
me interessa é saber o que fez sua mulher durante a tarde de hoje — esclareceu
Mason.
— Porque pensa que contratei detectives para segui-la?
— Não contratou?
— Cos diabos, não tem nada com isso!
— Mas tenho outra maneira de descobri-lo.
— Como?
— Basta-me pedir a um dos meus amigos do Departamento de homicídios, ou do
Gabinete do Procurador do (Distrito, que convoquem, oficialmente, os detectives
da agência Interstate Investigators que lhe fizeram o serviço.
Sem se desmanchar, Orville Reedley pensou, por momentos, nessa possibilidade.
— E que ganhava com isso? — inquiriu.
— Colocava-me nas boas graças da polícia, pois teriam aí um motivo para
averiguar por que razão você mandara seguir sua mulher… em casa de quem foi
cometido um assassínio.

61
- Como obteve aquela informação?
— Não posso dizer-lho.
— Significa que você não me responde ao que lhe pergunto, mas quer que eu o
informe daquilo que pretende saber?
— Exactamente.
— Acho isso completamente desleal.
— Talvez o seja, mas, como lhe disse, posso obter as informações que lhe peço
por outras vias, o que será bem mais desagradável para si.
- Refere-se à polícia?
— É uma das vias.
— Um momento. Deixe-me reflectir no assunto. Não fale durante um minuto — propôs
Reedley.
Levantou-se pesadamente da cadeira de braços estofada, e deu alguns passos para
trás e para diante, de cenho franzido. Dirigiu-se à janela e colocou a persiana,
de maneira a poder ver para o exterior, através das barras horizontais. Manteve-
se a olhar para fora, cerca de meio minuto. Em seguida, abandonou a janela e
acendeu um cigarro. Deu algumas fumaças e logo o esmagou num cinzeiro. Neste
momento o telefone tocou.
— Desculpe-me, por um momento — disse: Pegou no auscultador e perguntou:
— Então, que se passa?
Ficou calado durante alguns segundos e as palavras transmitidas do outro lado do
fio, eram deficientemente audíveis, como estalidos metálicos e ininteligíveis
para Mason A certa altura Reedley pronunciou em voz baixa: «Não sei.» Após novo
silêncio, voltou a murmurar uma só palavra: «informações». Novo intervalo, ao
cabo do qual Reedley disse: «Sim, está bem... Não inteiramente... Penso que
estão no bom caminho. Obrigado. Continuem a vigiar. Okay. Adeus.»

62
Desligou e voltou para junto da mesa, mas não se sentou. Virando-se para Paul
Drake, inquiriu:
- Porque veio cá?
- Vinha com Mr. Mason e acompanhei-o...
- É detective?
- Sim.
- Contratou Mr. Mason?
- Não. Foi Mr. Mason quem me contratou.
- Para quê?
- Para eu conseguir obter-lhe aquilo que geralmente se pretende de um detective:
informação.
- Foi você que lhe indicou a minha morada?
- Pergunte-lhe a ele.
- Como a conseguiu?
- Pergunte-lhe a ele.
Mason interrompeu o interrogatório e perguntou:
- Para que serve isso Reedley? Nunca chagaremos a lado algum, se continuarmos a
andar às voltas. Fui informado de que Helen Reedley andava a ser seguida por
detectives. Portanto, pedi a Paul Drake que pusesse também alguns dos seus
homens na pista desses seguidores. Descobrimos que trabalhavam para a Interstate
e que esta trabalhava para si. Aí tem.
- Como descobriram que essa agência estava ao meu serviço?
- Porque um dos nossos viu um detective dessa agência discar o número do
telefone que a identificou. Vigiámos a entrada e saída da Interstate e
identificámo-lo a si.
- Não é crime, espiar uma conversa telefónica?
- Não é crime ver um número para onde alguém telefona - respondeu Mason. — Isso
não é espiar uma conversa.
-Muito bem — disse Reedley. — Você pôs algumas cartas na mesa e vou pôr
igualmente algumas das minhas. Tive conhecimento de que minha mulher estava
interessada noutra pessoa. Quis descobrir quem era o tipo e mandei que a
seguissem. Vigiaram-na durante três dias.

63
Esse homem, Hines, entrava e saía do apartamento. Aparentemente, limitava-se a
acompanhá-la (e a uma outra mulher, que lhe servia de chaperon), quando iam
jantar fora. Verificou-se, porém, que minha mulher nunca esteve sozinha com ele.
Contudo, agora, um dos meus detectives obteve uma informação da polícia, que
considero de grande interesse. Quando revistaram o corpo de Hines, encontraram-
lhe uma chave do apartamento de minha mulher. É importante para a polícia e para
mim, descobrir, desde quando tinha essa chave em seu poder e para quê?
— Que pensa disso?
— Concluo que... Bem, minha mulher não queria conceder-me o divórcio. Não é
mulher para retirar-se da circulação e fazer uma vida de modesta reclusa. Teve
seis meses de liberdade, durante os quais gastou rios de dinheiro a mandar-me
seguir por detectives. Portanto, decidi retribuir-lhe essa atenção.
- Ainda andam a segui-lo? — interessou-se Mason.
— Ultimamente não dei por isso, mas, há um par de meses atrás, tornou-me a vida
um inferno. Andava sempre uma parelha de detectives no meu encalço, fosse eu
para onde fosse. Creio que ela desistiu da perseguição, porque não ganhava nada
com isso.
— Quando foi que mandou segui-la?
— Como lhe disse: há três dias. É a sua vez de pôr mais jogo na mesa.
— A mulher que os seus homens seguiam, não era a sua — declarou Mason.
— Não seja parvo.
— E não sou.
— Que quer dizer com isso?
— Pois bem, se quer ver jogo, vai vê-lo, com alguns trunfos. Quando você mandou
seguir sua mulher, contratou detectives, para uma vigilância de vinte e quatro
horas por dia, e deu-lhes a sinalética normal: morena, atraente, de 24 anos de
idade, de l,63m de altura, 50,5kg de peso, 59cm de perímetro de ancas e 78 cm de
perímetro de busto.

64
Indicou que ela vivia no apartamento 326 do edifício Siglet Manor, da Eighth
Street. Quis também saber quais eram as visitas que recebia.
— Muito bem, e depois?
Mason tirou a carteira da algibeira, extraiu o recorte do anúncio e estendeu-o a
Reedley.
— Aqui tem a resposta — finalizou.
Reedley precisou de ler o texto duas vezes, até depreender o seu verdadeiro
significado.
— Filha da mãe! — acabou por sussurrar lentamente.
— Percebeu agora o que eu estava a dizer-lhe? — prosseguiu Mason. — Alguém
soube, antecipadamente, que você ia mandar seguir sua mulher. Ela foi muito mais
esperta e arranjou uma engrenagem para iludir perfeitamente seus detectives.
Estes começaram a seguir, não a sua mulher, mas uma outra que vivia no
apartamento da Siglet Manor, acompanhada de uma chaperon, mas que era idêntica
às fotografias que você fornecera.
- Não forneci quaisquer fotografias.
- Pior. Isso tornou-lhe as coisas mais fáceis e continuou a andar por onde muito
bem entendeu, enquanto os seus homens seguiam uma estranha. Ora, o ponto onde
quero chegar é este: se ela soube antecipadamente que você ia mandá-la seguir,
quem diabo poderia ter-lhe essa informação. É apenas isso que quero saber.
- Você quer... você quer saber... Que pensa que sinto, neste momento?
- O mesmo desejo que tenho de descobrir o informador. Podemos juntar os dados
que temos.
— Oiça, Mason. Não acontece, por vezes, as agências de detectives fazerem jogo
duplo? Não se tratará de uma traição dos próprios detectives que pus ao meu
serviço?
— Às vezes, pode acontecer.

65
— Qual é a sua opinião acerca da Interstate Investigators?
— E qual é a sua?
— Foi-me recomendada por um amigo.
— Quando entrou em contacto com ela?
— Que quer dizer com isso?
— Quanto tempo demorou a contratar o serviço de detectives, depois que lhe
aconselharam a agência?
— Quase imediatamente.
— Nesse caso, pode não haver traição da Interstate. Nesse intervalo, alguém
avisou sua mulher da intenção que você tinha de segui-la. Quem foi o amigo que
lhe recomendou essa agência?
— Que interesse tem isso? Eu não lhe disse para que fim queria contratar
detectives.
— Nem era preciso. As pessoas podem deduzir essa finalidade, se souberem um
pouco da sua vida. Quem é esse amigo?
— Não creio que possa dizer-lho.
Mason encolheu os ombros. Virou-se para Drake e disse:
— Creio que é tudo — e levantou-se.
— Não se vá ainda — pediu Reedley. — Torne a sentar-se. — E sentou-se também.
— Hines tinha uma chave do seu apartamento. Viu-o alguma vez?
- Não.
— Tive ocasião de ver sua mulher. Pareceu-me ser da «alta-voltagem».
— «Alta-voltagem» é o termo, realmente.
— Hines não seria uma «irmã de caridade», mas não tinha o tipo de homem que
pudesse interessar-lhe.
— Ora, ora! O mundo é feito de toda a espécie de gente. Ninguém pode adivinhar o
que agrada, ou não agrada, a outrem.
— Assim é, na verdade, mas Hines era um fracalhote, magro e olheirento.

66
— Sejamos francos, Mason. Não mo interessa se o tipo estava arrumado pela
anemia, ou sofria de epilepsia. O que me interessa é que tinha uma chave do
apartamento. E isso é tudo quanto eu precisava.
— Quer dizer que, se ele estivesse vivo, servir-se-ia dessa chave para obter uma
acção de divórcio?
— Ainda posso usá-la, mesmo depois de morto.
— Olhe que pode ser uma espada de dois gumes — avisou Mason.
— Que quer dizer com isso?
- Estou apenas a lembrar-lhe que Hines foi assassinado.
— Que Hines foi... Ah! Estou a ver...
Passaram-se alguns segundos em silêncio. Finalmente Reedley disse:
— Não seja tolo, Mason. Nunca vi esse homem na minha vida e não gosto da sua
insinuação.
— Não sou tolo e não fiz a mínima insinuação.
— Mas esteve perto disso.
— De maneira alguma. Apenas tive o cuidado de apontar-lhe essa hipótese.
— Efectivamente, apontou-me um facto que não me ocorrera. Tem alguma sugestão a
fazer-me?
— A que respeito ?
— A respeito da chave, como pretexto para divórcio. Mason abanou a cabeça e
aconselhou:
— Consulte o seu advogado.
— Não tenho advogado.
— Nesse caso, aconselho-o a arranjar um, logo que possa. E quanto aos relatórios
da Interstate?
— Que há acerca dos relatórios ?
— Tem-nos consigo, aqui?
—- Sim... Isto é, tenho o que me enviaram ontem. O correio só vem duas vezes por
dia.
— Gostava de dar-lhe uma vista de olhos.
— Porquê?

67
— Satisfaz-se, se eu responder que é por uma questão dia mera curiosidade?
— Quem é que você representa?
— Pode ser, por exemplo, a morena que aceitou o contrato.
— Para representar o papel de minha mulher?
— Não encararia a questão dessa maneira. Apenas aceitou um emprego. Só depois
soube o que pretendiam dela e despediu-se.
— Você disse-me que falou com minha mulher?
— Sim.
— Onde?
— No meu escritório.
— Quando?
— Há menos de quarenta e oito horas.
— Que diabo lhe queria ela?
— Não era ela que queria, mas sim eu.
— E que lhe queria você?
— Não creio estar em posição de poder prestar-lhe essa informação.
— Nesse caso, não estou em posição para poder mostrar-lhe os relatórios da
Interstate.
— Muito bem — disse Mason, pondo-se de pé, pela segunda vez. — Isso arruma a
questão. Sabe onde fica o meu escritório, para o caso de desejar prestar-me
qualquer informação.
— Que vantagens obtenho, se lha der?
— Isso depende.
— De quê?
— Da informação que tiver para dar-me e da informação que eu tiver, nessa
altura, capaz de ser dada.
— Okay, vou pensar no assunto.
— Boa noite — despediu-se Mason. Drake seguiu-o. Reedley acompanhou-os à porta,
com uma expressão do jogador de póquer, que não consegue decifrar que jogo tem
o adversário, e não quer mostrar o seu, pelo que só lhe resta efectivamente
pensar...

68
No regresso, Drake comentou:
— Raios, Perry. Tiveste um trabalho dos diabos, mas valeu a pena.
— Não fui tão longe como desejava.
— Essa é boa! Obtiveste todas as informações de que carecias. Reedley confirmou
a suspeita que tiveras, quanto ao motivo que levou a mulher a mandar contratar a
morena.
— Há outra coisa que eu gostaria de descobrir, Paul. Reparaste na maneira como
ele tem a casa arranjada?
— Isso que tem?
— Deve ter sido ele quem comprou os móveis e pagou a decoração.
— Está visto. Quem havia de ser?
— Notaste como todo o conjunto era delicado e harmonioso.
— Sim. O lugar é catita.
— Não Paul. Catita não é o termo adequado. Por isso disse harmonioso. Persianas
do tipo «venesiano», belos quadros na parede, estupenda alcatife, e magnífico
tapete oriental, esplêndidos móveis e um conjunto de cores de excelente bom
gosto e refinamento artístico.
— Que diabo, Perry. Que tem a mobília a ver com o assunto de que estávamos a
falar? — admirou-se Drake.
- Decerto notaste também que Reedley é um tipo impetuoso-, irrequieto, que
avança na vida como um torpedo. Passa o tempo a correr de um lado para outro, em
negócios de bolsa, em operações de banca, incansavelmente, sem parar, como um
vulcão sempre pronto a entoar em erupção.
— Okay, estou de acordo contigo, e depois? Onde diabo queres chegar?
— Quero chegar a esta conclusão: um homem com o seu temperamento nunca teria
mobilado e decorado o apartamento onde passa algumas horas para dormir, com
todo aquele requinte.

69
-Hum, hum! — exclamou Drake.
- Estás a ver a discrepância? Há ali um dedo do mulher de grande sensibilidade,
que põe e dispõe, à vontade, do dinheiro dele. E há ainda outra coisa que me
despertou a atenção.
— Que foi?
— Tomaste atenção ao telefonema que recebeu enquanto lá estávamos?
— Que houve die especial nesse telefonema ?
— Estranhamente anónimo e confidencial... enigmático.
— Era uma chamada da Interstate — concluiu Drake.
— Estiveram a transmitir-lhe uma informação qualquer e ele disfarçou, porque não
queria dar à trela, enquanto estávamos presentes.
— Porque pensas que era da Interstate?
— Porque usou a palavra «informações».
— Exactamente — disse Mason.
— Agora pensa um bocado. Antes do telefone tocar, que fez ele?
— Estava sentado a falar connosco.
— Não, não estava. Tinha-se levantado e acercado da janela. Moveu a venesiana
espreitou para fora, durante uns segundos, e depois andou para trás e para
diante, sem falar, até que o telefone tocou.
— Que concluis daí? Que fez qualquer sinal especial a alguém?
— Que alguém devia estar a olhar para a janela, à espera da um sinal. Esse
alguém, quando ele entreabriu as barras da venesiana, pôde ver-nos sentados,
junto à mesa, sob a luz forte do candelabro. Quando lhe telefonou, segundos
depois, é natural que lhe tenha perguntado: «Que te querem esses dois homens que
estão aí contigo?» Por isso ele teria, respondido «informações».
Drake soltou um longo assobio.
- Ora aí tens. Um tipo do temperamento de Reedley não celebra bodas de ouro.

70
Conforme vai envelhecendo, perde a inicial vontade de mudanças de mulher, mas
continua a precisar de alguém e...
— Pensas, portanto — interrompeu Drake —, que há uma outra mulher ligada a ele,
no apartamento da janela fronteira do mesmo edifício?
— Decerto, Paul. O tipo não é parvo e teve Helen Reedley na sua cola, durante
uma data de tempo. Decidiu tomar as suas precauções e pôs a amante, no mesmo
piso, mas num apartamento diferente, onde, contudo pudesse comunicar com ela,
por sinais, para avisar se o terreno estava livre.
— Bem, é lógico, Perry. Que queres que faça a esse respeito?
— Precisava de saber quem, é a ocupante desse apartamento.
— Mais alguma coisa?
— Mantém alguns homens no trilho de Reedley. Não nos deve levar muito longe, mas
gostaria de saber um pouco mais a seu respeito.
— Para o que der e vier.
— Sim. Preciso de obter mais informações sobre o crime, para poder defender Eva
Martell, se por azar vier a ser acusada de qualquer coisa.
— Okay, vou tratar disso. Voltas para o teu gabinete?
— Sim. Tenho lá Della à minha espera.
Drake entrou no parque de estacionamento e descreveu uma curva para ficar perto
da porta do edifício. Mason saltou do carro e convidou:
— Vem ter connosco, Paul.
— Não, a não ser que precises de mim. Tenho ainda uma data de assuntos a tratar.
— Okay, anda para diante.
— Mais alguma coisa ?
— Mantém-me informado acerca de tudo quanto conseguires descobrir, quanto ao
assassinato de Hines.
— E quanto aos detectives da Interstate?

71
— Larga-os da mão. Já não interessam.
— Relatórios escritos?
— Como de costume e, se houver algo de especial, põe-te logo em contacto comigo.
Sabes sempre onde estou.
— Okay.
Enquanto caminhava ao longo do corredor, Mason tirou as chaves da porta de
acesso directo ao seu gabinete particular. Ao entrar nele, viu que Della Street
lhe fazia um sinal de advertência, com um dedo nos lábios, para que se
mantivesse em silêncio.
Mason arqueou as sobrancelhas interrogativamente e a jovem secretária apontou
para a sala de espera. Mason aproximando-se nas pontas dos pés e inquiriu:
— Quem está ali ?
— Eva Martell e Adelle Winters.
— Novidades?
— Não sei se as trazem. Chegaram há coisa de cinço minutos. Não sabia se o chefe
queria atendê-las ainda hoje e, pelo sim pelo não, pu-las no «frigorífico», de
conserva.
— Vamos mandá-las entrar.
— Agora?
— Hum, hum. Diga-lhes que acabei de chegar. Instantes depois, Della voltava
conduzindo a morena e o seu chaperon.
— Parecem bastante excitadas — lançou-lhes Mason, à laia de saudação.
— Pode dizê-lo — respondeu Eva.
— Sentem-se e digam-me o que se passa.
— Bem, não há muito a contar. Voltámos para o apartamento e entrámos com a chave
que Mr. Hines nos dera. Começámos a pôr-nos à vontade. Tirei o casaco e o chapéu
e fui à casa de banho. Foi então que o vi.
— Na casa de banho?
Não, num grande sofá do quarto de cama. Vi logo, através da porta entreaberta.
Estava todo inclinado para um dos lados.

72
A cabeça, um pouco para trás e... aquele buraco mesmo ao meio da testa, com o
sangue a escorrer-lhe pela cara abaixo, pelo ombro e a camisa... Foi terrível,
Mr. Mason.
— E você que fez?
— Desatou a berrar — respondeu Adelle Winters, interpondo a sua competente
personalidade, como uma barreira entre Eva e Mason. — Corri a pôr-lhe a mão na
boca e disse-lhe para ter juízo. Olhei para Hines, percebi logo que estava
morto. Disse então a Eva que lhe telefonasse, a informá-lo do que se passava.
— Foi atingido, portanto, no frontal?
— Sim, praticamente, entre os olhos.
— Notou se o orifício aberto pela bala apresentava resíduos de pólvora?
— Não reparei nisso, mas também não andei à procura deles.
— Segundo depreendi, Hines foi morto com um revólver de calibre 32?
Mrs. Winters encolheu os ombros, como se nada soubesse do assunto.
— Mas a senhora, segundo creio, tem um revólver desse calibre, não é verdade?
— Quem? Eu?
— Não me disse que possuía um revólver desse calibre?
Adelle Winters lançou a cabeça para trás e soltou uma breve gargalhada.
— Meu Deus! Não! Nunca tive uma coisa dessas!
— Mas a senhora disse-me...
— Oh, isso foi apenas um pequeno bluff, Mr. Mason, para que Eva se sentisse mais
em segurança. Não tenho medo de nenhum homem, mas, pelo sim pelo não, sempre
lhes vou dando a entender que ando armada. É um bom bluff.
Mason cerrou as sobrancelhas e insistiu: - Lembro-me perfeitamente de a
senhora me dizer que possuía um revólver de calibre 32; e parece-me que não
precisava de fazer bluff comigo, visto que eu não iria atacá-la. Aconselhei-a,
até, a tirar uma licença de porte de arma, caso a não tivesse.

73
Eva, interrompendo, virou-se para Adelle:
— Mas, Tia Adelle, sempre pensei que tivesse uma arma. Pelo menos, disse-me
várias vezes que a trazia sempre consigo.
— E mostrei-ta, alguma vez? Dizia-te isso, para que vocês, tu e a Cora,
estivessem miais sossegadas, quando ouviam, à noite, passos no corredor.
— Aconselho-a, Mrs. Winters, a ser franca comigo. Se possui ou possuiu uma arma,
a polícia facilmente o descobrirá. Se o nega agora...
— Oh, Mr. Mason! Está a fazer um bicho-de-sete--cabeças por uma coisa de nada.
Essa história do revólver não passou de um expediente meu para tranquilizar
Eva... para que ela não tivesse medo de aceitar o emprego oferecido por Mr.
Hines... e disse o mesmo a Cora, com idêntica intenção, assim como já o fizera,
noutras ocasiões. Mas nenhuma delas me viu, fosse quando fosse, com qualquer
arma.
— É a sua resposta definitiva?
— Certamente. É a única e verdadeira.
— Há quanto tempo estava Hines morto, quando o encontraram?
— Sei lá... O corpo dele ainda estava morno, mas... não muito. É difícil
determinar uma temperatura, sem enfiarmos a mão debaixo da roupa, junto à pele.
Apenas lhe toquei num pulso.
— Tentou sentir as pulsações, para ver se ainda estava vivo?
— Sim. Não as tinha.
— Tocou em mais alguma coisa?
- Não.
— Nem mesmo na roupa, ou em qualquer coisa que ele possuísse?

74
— Meu Deus! Para que iria mexer-lhe na roupa?
Voltando-se para, Eva, Mason interrogou:
— Esteve sempre, todo o tempo, com ela?
— Que ideia é essa de fazer a pergunta nessas termos?— indignou-se Adelle
Winters. — Está a tratar-nos como nos tratou a polícia.
— Exactamente, Mrs. Winters. Estou tentando descobrir a verdade, porque não foi
a última vez que a polícia vos interrogou. Hão-de tê-la à perna, muitas vezes,
até encontrarem um suspeito de homicídio, e até depois disso, no tribunal.
— Sim. Estive com a Tia Adelle todo o tempo — respondeu Eva Martell.
— E quando veio telefonar-me?
— Não demorei mais de um segundo, ou dois.
— Digamos, um minuto, pelo menos — corrigiu Mason.
— Sim, talvez.
— A não ser durante esse lapso de tempo do telefonema, estiveram sempre juntas?
Nunca se separaram, por qualquer motivo?
— Não.
— Tem a certeza, Miss Martell? Nem por um minuto?
- Tenho sim. Nunca nos separámos, durante o dia.
— Bem. Isso já vos dá uma certa segurança.
— Foi o que a polícia nos disse — interveio Adelle Winters.
— Os polícias perguntaram-vos porque estavam naquele apartamento?
— Certamente — respondeu Adelle.
— Que foi que lhes disseram?
- A verdade. Contámos-lhes tudo o que se passou connosco e com Hines.
— Disseram-lhes que Hines queria que Miss Eva personificasse Helen Reedley ?
— Não. Apenas dissemos que Hines nos tinha dado um emprego e que pretendia que
Eva usasse o nome de Helen Reedley.

75
— Falaram-lhe de mim ?
— Naturalmente.
— Acerca de eu ter contactado com Helen Reedley?
— Isso, não. Pensamos que não devíamos adiantar tanto esse assunto.
— Em resumo, que lhes disseram?
— Contámos apenas que tínhamos aceite um emprego e que, não sabendo bem se seria
legal, decidíramos consultá-lo e que Mr. Mason nos dissera para não continuarmos
nele, até descobrir se não estaríamos a praticar qualquer acto contra a lei.
Que, enquanto o senhor averiguava a legalidade do que nos fora proposto,
tínhamos ido jantar, depois de fazermos algumas compras, sempre juntas... e que,
finalmente, tínhamos regressado ao apartamento, onde encontrámos o cadáver.
— Referiram à polícia o facto de estarem a ser seguidas ?
— Não.
— E disseram-lhes mais qualquer coisa que não me tenham mencionado?
— Que mais poderíamos dizer-lhes ? Limitámo-nos a informá-los de que tínhamos
aceite um emprego, mas não fizemos a menor referência a que Eva estivesse a
personificar outra mulher, nem a cometer qualquer fraude.
— E a polícia não desconfiou de que houvesse um plano por detrás disso tudo?
— Não. Para falar verdade, Mr. Mason, os polícias não mostraram o menor
interesse por esse aspecto da questão. Parecia até que já conheciam Hines, visto
terem um registo dos jogadores habituais. Nem sequer nos perguntaram para, que
número de telefone Hines nos dissera para contactarmos com ele. Creio, contudo,
que falaram com um dos homens que andava a seguir-nos. Não tenho a certeza, mas
fiquei com essa impressão.

76
Vi um deles no apartamento, de pé, à espera, e pensei que quisessem
interrogá-lo.
— Para vossa informação — elucidou Mason—, andavam dois detectives na vossa
peugada, dia e noite. É natural que a polícia tenha interrogado um deles, ou até
ambos.
— Uma coisa dessas! — indignou-se a Tia Adelle. Duas mulheres respeitáveis a
serem seguidas por detectives, como se fossem criminosas vulgares!
— Os polícias disseram-vos que mantivessem o contacto com eles?
— Não. Disse-lhes que iria directamente para o meu apartamento e que Eva
voltaria para o dela, com Cora Felton. A polícia ficou com ambas as direcções e
informou-nos de que contactaria connosco, se fosse necessária qualquer outra
coisa. Pareceu-me, contudo, que os investigadores pensam tratar-se de um crime
de batoteiros.
— Sim?... Bem — concluiu Mason. — Creio que, por agora, é tudo.
Adelle Winters pôs-se de pé e fez um sinal a Eva Martell, ao mesmo tempo que
dizia:
— Mr. Mason, estamos-lhe muito gratas. O senhor foi tão gentil connosco! Mas
acho que não devemos acrescentar muitos mais elogios, para não aumentarmos a
conta dos seus honorários.
— Não aumentavam — afiançou Mason, rindo.
— De qualquer maneira, gostaríamos de saber quanto que lhe devemos. Havemos de
pagar-lhe, mais tarde miais cedo. Não queremos que fique a perder. Já
agora, em que fica a compensação monetária de que Hines nos falou? Ainda
há alguma hipótese de recebê-la?
— Falaram nisso à polícia?
— Não. Dissemos-lhe que estávamos pagas, até aquela altura, e ninguém nos
perguntou mais nada.
Está correcto. Realmente estão pagas até este momento. Só depois de o executor
testamentário de Hines averiguar as suas contas, é que vocês podem alegar a
existência dessa cláusula que vos dá direito ia uma espécie de prémio, no fim do
trabalho.

77
Ora, o vosso trabalho terminou com a morte de Hines, e não por vossa culpa.
Portanto, há sempre uma hipótese de obterem essa compensação.
— Estou a ver — disse Adelle Winters.
— Muito obrigado, Mr. Mason, e boa noite.
— Boa noite — respondeu Mason.
Impulsivamente, Eva Martell virou-se para trás, quando já ia a sair, e apertou a
mão do advogado, com um brilho de gratidão no olhar.
— Muito obrigada. Foi tão gentil connosco. Tornaremos a ver-nos?
— Talvez.
— Não deixe de visitar-nos, quando tiver tempo, e tomar uma bebida connosco.
— Anda daí, Eva — disse Mrs. Winters. — O caso está encerrado quanto a nós, e
Mr. Mason tem mais que fazer.
Alguns minutos depois de terem saído, o telefone particular de Perry Mason
começou a tocar. Só Della Street e Paul Drake conheciam aquele número que não
vinha na lista. O advogado pegou no auscultador e inquiriu:
— Que é, Paul ?
— Azar, Perry! Quero dizer, azar dos grandes!
— Dispara lá isso, Paul.
— A polícia levou os tipos da Interstate «ao tapete» e eles tiveram de pôr tudo
em pratos limpos.
— É natural, e depois?
— Os tipos mostraram-lhes os apontamentos, com os números dos táxis que as
conduziram, etc.
— Que mal há nisso?
— Parece que, às duas e vinte da tarde, pouco depois de as duas mulheres terem
entrado no Lorenzo Hotel, os dois detectives ficaram à ponta, à espera, e viram
Mrs. Winters sair, por um corredor de passagem, onde se encontram, vários
caixotes de lixo metálicos; viram-na levantar a tampa de um desses caixotes e
espreitar lá para dentro.

78
Um dos tipos tornou nota do facto, embora nem um, nem outro, tivesse ligado
grande importância a esse gesto, naquela altura.
— Okay, Paul. Que mais há?
— A polícia ligou. Os «chuis» acharam essa história do caixote de lixo esquisita
e foram verificar. A essa hora, os caixotes estavam já cheios de detritos, mas o
homem da Interstate apontou aquele em que Mrs. Winters espreitara. Então os
polícias começaram a tirar o lixo, a pouco e pouco e... sabes o que descobriram?
— O quê?
— Um revólver de calibre 32, com um cartucho deflagrado. Mason assobiou.
—- E — prosseguiu Drake — esse cartucho era de um tipo antiquado, já obsoleto,
com balas exactamente iguais à que o cirurgião-legista extraiu do crânio de
Hines. Ainda não tiveram tempo de ultimarem o exame microscópico desse
projéctil, pelo que o Departamento de Balística não está ainda certo de que a
bala tenha, partido daquela arma. Mas há 95 probabilidades, em 100, de o teste
ser positivo. Isto diz-te alguma coisa, Perry?
— Diz-me uma data de coisas, cos diabos!
Voltando-se para Delia, indicou:
— Dê uma corrida atrás delas e veja se ainda as apanha no edifício. Traga-mas a
reboque por ai acima... Espere...
Tornando a falar pelo telefone, disse:
—'Tu estás mais perto do elevador, Paul. Dá tu essa corrida e caça-mas, antes
que saiam.
— Okay, Perry — e desligou.
Dez minutos depois, Drake entrou no gabinete do advogado.
— Perdi-as, Perry. Já iam no elevador e, como sabes, só está um de serviço, a
esta hora da noite. Quando consegui chegar ao átrio, já não as vi. Ainda saí,
para tentar apanhá-las, à cata de transporte, mas devem ter partido no mesmo
táxi que as trouxe.

79
Segundo o ascensorista, já tinham saído, cerca de dois minutos antes de eu
chegar lá abaixo. Nessa fracção de tempo, puseram-se a andar.
— Bem... sei onde vivem e posso contactar com elas — considerou Mason.
— Contudo, gostaria de falar-lhes antes de a polícia lhes deitar a mão.
Drake fez uma careta e comentou:
— E a polícia há-de querer interrogá-las, antes que consigas falar-lhes. Essa
Winters é tua cliente?
- Não creio que seja. SÓ fui abordado para defender os interesses de Eva
Martell.
— É natural que a moça esteja alheia ao crime e que a Winters tenha agido como
«loba solitária». A propósito, Perry, a polícia descobriu que Hines trazia
consigo, antes do crime, uma carteira recheada de notas, mas esta não foi
encontrada, quando revistaram o apartamento.
— Tinha realmente uma carteira com ele. Não lhe encontraram, dinheiro no corpo?
— Apenas menos de dez dólares num porta-moedas.
— Eva disse à polícia que tinha estado, todo o tempo, com Adelle Winters?
— Pois disse. Foi por isso que os «chuis» as deixaram ir em liberdade. Eva
afirmou-lhes que não se haviam separado, nem por um minuto. A história pareceu-
lhes okay, visto terem um álibi mútuo.
Mason coçou o queixo e observou:
— Mas Eva Martell não esteve com ela todos os minutos. Esteve a falar comigo ao
telefone... Com mil raios, Paul, preciso de falar com ela e instigá-la a contar
a verdade, antes que seja demasiado tarde. Suponhamos que a Tia Adelle exerce um
grande poder sobre a jovem e a tenha convencido de que o álibi é justo. Não
estou a imaginar Eva Martell a assistir impavidamente a um homicídio. Decerto,
não viu a outra meter uma bala 32, entre os olhos de Hines.

80
A coisa podia ter ocorrido, quando saíram do apartamento. Eva saiu primeiro e
Adelle Winters foi ter com ela, pouco depois, à saída do hotel; ou talvez Mrs.
Winters lhe tenha dito que se esquecera de qualquer coisa e voltasse atrás.
Tendo então descoberto o cadáver, pode ter convencido Eva a corroborar a sua
versão de que era melhor para ambas afirmarem que se não tinham separado. E a
moça, pensando que não havia a mínima hipótese de a outra ter cometido o
assassínio, foi assim levada a jurar falso à polícia.
— Lamento — disse Drake —, não ter conseguido caçá-las. ..
— Não faz mal, Paul — sossegou Mason. — Gostaria de ter falado com elas, antes
de terem saído daqui... mas sei onde poderei encontrá-las. Qual foi o número que
Cora Felton nos deu, Della? Decerto foi para aí que Eva seguiu. Ligue para
lá... Quero falar já com Cora.
Della Street consultou o ficheiro dos clientes e fez a Chamada.
Esperaram dez ansiosos segundos e Della abanou a cabeça, desolada:
— Não atende.
— Temos o número de telefone de Adelle Winters?
— Creio que sim.
— Não temos muitas probabilidades de a apanharmos em casa. A polícia já devia
estar de atalaia e decerto lhe deitou a unha, mal lhes surgiu no horizonte. Mas
tente, da mesma maneira, Della.
A gentil secretária obedeceu, sem qualquer êxito. — Experimente ligar para
Cora, outra vez — insistiu Mason.
Ninguém respondeu.
— Creio que só temos uma coisa a fazer — decidiu Mason, dirigindo-se a Drake.—
Você e eu vamos até ao apartamento de Cora Felton e esperamos até que esta
apareça. Você, Della, tenha paciência e aguarde aqui.

81
No caso de Eva Martell telefonar, diga-lhe para se pôr fora de circulação e que
me informe do sítio onde se encontra. Entretanto, estarei no meu carro, à porta
do edifício onde elas vivem. Se conseguir caçá-la, antes da polícia, verei o que
posso fazer por ela. Anda daí, Paul.

Com Drake sentado a seu lado, Mason passou em frente do apartamento de Cora
Felton e Eva Martell. Notou que estavam, dois carros estacionados, um de cada
lado da rua, bastante perto da entrada. Os homens que se achavam dentro deles
eram fortes e altos, de ombros largos, e vigiavam a porta do edifício. Ao vê-
los, Mason compreendeu que não podia passar por ali mais do que uma vez.
— Que vais fazer agora, Perry? — indagou Drake.
- Nada, por enquanto.
— Os «chuis» não devem conhecer Cora Felton.
— Não estou assim tão certo disso — resmungou Mason. — Já devem ter falado com o
gerente dos apartamentos e obtido a sua sinalética. Não devem ter consentido que
alguém esteja no apartamento e responda ao telefone.
— Decerto foi isso que se passou.
— Tu conheces melhor a cidade do que eu, Paul... Qual é a mais próxima paragem
de autocarros? Eva é capaz de não ter querido esbanjar dinheiro de táxi, até
aqui.
— Dois quarteirões mais abaixo, há uma paragem
— elucidou Drake. — Também lá passam eléctricos. Mason acelerou até encontrar
os rails no pavimento.
Parou o carro, desligou o motor e apagou as luzes.
— É a única hipótese que temos, Paul — comentou.
— Polícias à vista?

82
— Não vejo um único. Devem ter estendido a armadilha apenas no edifício de
apartamentos. Mason acendeu um cigarro e pensou alto: — A esta hora dia noite,
os carros passam de quinze em quinze, ou de vinte em vinte minutos. Se apanharam
um transporte público, em frente dos nossos escritórios, em vez do táxi, devem
estar a aparecer por aí, de um momento para o outro.
— Que vais fazer, quando as vires? — interessou-se Drake, evidenciando certa
preocupação.
- Falar com elas — respondeu Mason laconicamente.
— E dizes-lhes para se apresentarem à polícia. Depois do que ouviste, não podes
proceder de outro modo.
— Ainda não sei.
— Vê o que fazes, Perry. Já sabes o que a polícia descobriu acerca de Adelle
Winters...
— E então?
— Tudo indica que ela assassinou Hines. Pode ter sido em legítima defesa, ou
não, mas, de qualquer modo, matou-o e mentiu, para se escapar à lei. E Eva está
igualmente implicada no crime, por ter jurado falso...
— E então?
— Se as pões fora de circulação, sabendo que estão a ser procuradas pela
polícia, num caso de assassínio, colocas-te na situação de cúmplice. Não me
agrada ficar metido nisso.
— Não te apoquentes, antes de tempo, Paul. Olha, aí vem um eléctrico.
— Apoquento-me, sim. Se vais escondê-las da polícia, vou já cavar daqui para
fora.
— Não deve ser difícil apanhares um táxi — sugeriu Mason calmamente.
— Nem que tenha de ir a butes. Aqui é que não fico. O eléctrico acaba de parar -
e vejo apearem-se duas mulheres. Boa noite, Perry.
— Boa noite, Paul — retribuiu Mason. — Arranja-te de maneira que a polícia te
não veja a rondar pelas proximidades.

83
— Perry, tem coração — disse Drake, após uma pausa. — Não enfies o pescoço num
caso destes. Fala com elas, mas diz-lhes que se apresentem à polícia. Mais tarde
ou mais cedo, os «chuis» acabarão por deitar-lhes a unha.
— Provavelmente é o que vou fazer.
— Prometes ?
— Não.
— Porque não?
— Posso mudar de ideia quando tiver falado com elas. Depende do que me contarem.
Aí estão elas, Paul.
— Ponho-me a andar, Perry. — Saltou do carro, enquanto Mason acendia os faróis.
Quando as duas mulheres se aproximaram, abriu a porta.
— Olá, Eva. Mrs. Winters que vem consigo?
Foi Cora Felton quem respondeu:
— Francamente, Mr. Mason! Não esperava uma coisa dessas.
Mason riu e justificou-se:
— Desculpe, Cora, mas a culpa é desta luz. Só consegui discernir dois vultos
femininos. Posso dar-vos uma boleia?
— Não vale a pena. O nosso apartamento fica a dois quarteirões daqui... mas,
está bem, muito obrigada.
— Preciso de falar convosco, antes de irem para casa. Têm lá gente à vossa
espera.
— Quem ? — perguntou Eva Martell.
— A polícia.
— Mas já falámos com ela. Pelo menos, já fui interrogada.
— Os polícias querem saber mais coisas.
— Meu Deus, Mr. Mason! Já lhes contei tudo quanto sabia!
- Onde está Mrs. Winters?
— Foi para o seu apartamento.
— Nesse mesmo carro eléctrico?

84
— Não. O táxi em que fomos para o seu escritório, levou a Tia Adelle para casa,
directamente. Ela mandara-o esperar.
— Portanto já lá deve ter chegado?
— Naturalmente. Eu saí num cruzamento, a fim de apanhar o eléctrico.
— E você, Cora? Como se encontra aqui, ao mesmo tempo?
— Foi uma coincidência. Tinha ido ao cinema e calhou encontrarmo-nos no mesmo
eléctrico. Fiquei espantadíssima, quando Eva me contou o que aconteceu.
— Sinto-me mais confortado, por ter conseguido caçá-las fora das proximidades do
vosso apartamento — desabafou Mason. — Tenho de falar convosco urgentemente.
Vamos andar um pouco mais para diante e arrumar o carro.
— Que se passa? — inquiriu Eva, ligeiramente alarmada. — Pensei que já tudo
tivesse acabado.
Mason conduzia devagar, olhando constantemente pelo espelho retrovisor.
— Você disse-me que tinha estado com Adelle Winters, toda a tarde ? —
inquiriu.
— Sim.
— E jurou o mesmo à polícia?
— Sim. Também já lhe disse isso, Mr. Mason.
— Porque lhes jurou uma coisa dessas?
— Porque é a verdade. Assinei um documento, sob juramento.
— Pois bem, eu não sou polícia. Não me minta, Eva. Sou o seu advogado. Conte-me
a verdade. Você esteve com ela toda a tarde?
— Sim.
— Durante todos os minutes, sem se separarem, por pouco tempo que fosse?
— Bem... eu... praticamente, sim.
— Praticamente não me serve. Quero a verdade.
— Bem... houve alguns minutos de separação, no hotel, aqui e além... por
exemplo, quando a Tia Adelle foi para a sala de estar...

85
- E antes de você ter ido para o hotel... quando ainda estavam do edifício de
apartamentos da Siglet Manor?
— Mas... Mr. Mason, que diferença é que isso faz?
— Só Deus sabe porque estou a perder tempo consigo! — proferiu Mason,
imediatamente. — Terei de arrancar-lhe a verdade, a escopro e a martelo? Ande
para diante e diga-me o que se passou.
Com um risinho nervoso, Eva obedeceu:
— Bem, na verdade, houve uns momentos... mas isso nada significa. Quando
deixámos o apartamento e descemos para o átrio, estivemos a fazer alguns
telefonemas. Então, a Tia Adelle lembrou-se de que se esquecera de qualquer
coisa no apartamento e subiu para ir buscá-la.
— O que era?
— Bem... depois de termos saído do hotel, ela disse-me que se esquecera do
revólver em cima da cómoda, no momento em que ia metê-lo na malinha de mão...
Esquecera-se dele e não queria deixá-lo ali, onde qualquer pessoa poderia vê-lo
e levá-lo... Portanto, fiquei à espera dela, no átrio, a ler, enquanto ela pegou
na chave e subiu ao apartamento... Mas agora, ela afirma que nunca possuiu um
revólver; ... que essa arma nunca existiu... Já não sei francamente o que
pensar!
— Por que motivo não contou tudo isso aos polícias ?
— Não acha natural, Mr. Mason? Quando voltámos ao apartamento e vimos Hines
naquele estado, com uma bala na testa, ia Tia Adelle disse-me que a única coisa
que tínhamos a fazer era entrar em contacto consigo... E o senhor mandou-nos
informar a polícia. Então a Tia Adelle sugeriu que o melhor seria simplificar a
situação, omitindo que ela subira ao apartamento, enquanto eu esperava cá em
baixo.
- Ela disse-lhe que ia buscar a arma, antes de subir?
- Não. Só me falou nisso, quando voltámos, mais tarde, para o hotel.

86
— Que horas eram quando ela subiu ao apartamento, para ir buscar o revólver?
— Por volta das duas. Pouco antes de deixarmos o Siglet Manor. Talvez uns dez
minutos, depois das duas. Olhei para o relógio, quando descíamos de elevador, e
vi que faltavam cinco minutos para as duas. Ficámos ambas no átrio, dez ou
quinze minutos, até que a Tia Adelle disse que se havia esquecido de uma coisa
no apartamento. Quando subiu, não devia passar mais de um minuto das duas. Nem
sequer se deve ter demorado dez minutos, lá em cima.
— Agora, atenção, Eva, pois é muitíssimo importante: onde é que você estava?
— Enquanto a Tia Adelle foi lá acima?
— Sim.
— No átrio.
— Tem a certeza ?
— Sim.
— Não saiu para o passeio, em frente da porta... isto é, não esteve
em qualquer local onde a pudessem ter, visto... os homens que a seguiam, por
exemplo?
— Não. Estive sempre no átrio, a ler um folheto sobre corridas de cavalos.
— Portanto, quanto tempo esteve aí sozinha?
— Menos de dez minutos... talvez cinco, ou seis...
— Mas isso é tempo demasiado, para Mrs. Winters subir ao apartamento, guardar a
arma e voltar para baixo.
— Mas... ela não tinha outro lado para ir. Por que motivo me faz todas essas
perguntas, Mr. Mason?
— Robert Hines foi morto com o revólver de calibre 32, que estava em poder de
Mrs. Adelle Winters.
— O quê?!!!
— É o que lhe digo.
— Não pode ser!... Tem a certeza?
— Tenho praticamente a certeza. O Departamento de Balística ainda não
concluíra o relatório quando obtive essa informação, mas a polícia encontrou
o revólver de Mrs. Winters.

87
— Onde?
— Viram-na escondê-lo num caixote de lixo, num corredor lateral de serviço do
Lorenzo Hotel.
— E diz que a bala que matou Hines foi disparada por essa arma!... Oh, Mr.
Mason! Isso é impossível!
— Além disso, Mrs. Winters comprou uma caixa de novas munições, mas não chegou a
substituir as antigas, no tambor do revólver. Ora, a bala que matou Hines era
desse mesmo tipo obsoleto, das que ainda ficaram na arma.
— Mas, porquê!... É absolutamente incrível!
— Muito bem. Vamos ver o que Mrs. Adelle Winters tem para dizer. Vamos ouvir a
sua versão acerca dessa arma. Acreditou-a quando negou possuir qualquer
arma, que apenas mencionara possuir um revólver, para fazer bluff?
— Não. Não acreditei, mas, compreende, não tive coragem para desmenti-la, na sua
frente... Ainda tentei... Não podemos tomar muito à risca o que ela diz... Sabe,
Mr. Mason?... a Tia Adelle foi, durante muitos anos, ama e enfermeira e procura
sempre evitar magoar as pessoas, ou dar-lhes preocupações. Se lhe mentiu, Mr.
Mason, foi por pensar que, dessa maneira, lhe simplificava as coisas... Temos de
olhar para a Tia Adelle, sob esse prisma, está a compreender, Mr. Mason?
— Por outras palavras, é uma mentirosa!
— Se quiser usar essa palavra... sim, mas apenas porque pensa que melhora a
situação das outras pessoas, deturpando os factos, segundo as conveniências.
— Portanto, Eva, admite que ela tenha mentido ao afirmar que não matou Hines.
— Sim. Sempre estive convencida de que tinha um revólver de calibre 32, como nos
dissera, embora nunca no-lo tivesse mostrado.

88
- Portanto, Eva, admite que ela tenha mentido ao afirmar que não matou Hines.
— Não, nunca, Mr. Mason! A Tia Adelle seria incapaz de uma coisa dessas. Podemos
ir falar com ela, agora mesmo?
— Receio que a polícia esteja no seu apartamento — considerou Mason.
— Podemos ir até lá e verificar...
— É gastar gasolina, para nada, mas podemos tentar. Indique-me o caminho.
Entretanto, o mais importante, é colocá-la, a si, fora de tudo isto.
— Que quer dizer, Mr. Mason ?
— Você caiu na asneira de dizer à polícia que tinha estado todo o tempo com Mrs.
Winters. Agora que se sabe que foi o revólver da Tia Adelle que matou, Hines, a
polícia terá de concluir que você estava com ela, quando desfechou a arma. É por
essa razão que os polícias estão no seu apartamento e a vigiar a rua, à sua
espera. Irão acusá-la de cumplicidade. Tenho, pois, de livrá-la desse sarilho.
Mais tarde, veremos o que é possível fazer a favor da Tia Adelle.
— Mas primeiro temos de saber se ela está no apartamento.
— Exacto — concordou Mason.
— Como?
— Vamos até lá, no meu carro, e quando chegarmos, mandamos Cora a servir de
esculca, para averiguar a situação. Como Miss Felton está fora disto, vão deixá-
la sair, com a informação.
— Muito bem — aquiesceu Eva. — Siga sempre a direito por esta rua...
Mason conduziu as duas morenas até ao apartamento de Adelle Winters, num
despretensioso prédio de três andares, de tijolo, a cerca de uns bons trinta e
cinco minutos, de eléctrico, do centro da cidade.
Um grupo de espectadores curiosos, deu-lhes a novidade, antes de Cora sair do
carro.

89
Voltou cinco minutos mais tarde.
— Engaiolaram-na ? — indagou Mason.
Cora fez um sinal afirmativo, com a cabeça.
— Prenderam-na, mal entrou no apartamento, ou melhor, fizeram-lhe uma data de
perguntas e a Tia Adelle ficou muito confusa e meteu os pés pelas mãos, quando
lhe mostraram uma arma e lhe perguntaram se era dela. A Tia Adelle acabou por
confirmar e, então, meteram-na num automóvel e levaram-na com eles.
— Okay — assentiu Mason. Virando-se para Eva, acrescentou: — Vou atirar-me de
cabeça, neste caso, Eva. Vou colocá-la num lugar, onde a polícia não possa dar
consigo, esta noite. Amanhã, procurarei estabelecer um acordo com o Procurador
do Distrito.
Notoriamente assustada, Eva inquiriu:
— Não seria melhor contar a minha história, hoje mesmo, à polícia?
Mason abanou a cabeça negativamente.
— Não Eva. Se lá fosse agora, punham-na logo entro as grades e ser-me-ia muito
difícil tornar a pô-la cá fora, tão cedo. Tenho de conseguir uma promessa de
imunidade, mas, para poder obter esse acordo com o Procurador do Distrito, terei
também de possuir argumentos convincentes da sua inculpabilidade, como cúmplice;
ou desviar as suspeitas para outra pessoa, no sentido de diminuir as que recaem
sobre a Tia Adelle. Preciso de discutir com eles, mas preciso também de ter
matéria para discutir.

Harry Gulling, considerado cavalo de batalha e braço direito do Procurador do


Distrito, raras vezes era visto no tribunal; só ocasionalmente o seu nome era
publicado nos jornais. Mas todos aqueles que estavam dentro dos segredos
forenses sabiam que o Procurador do Distrito, Hamilton Burger, nunca deixava
de consultar Gulling, antes de tomar uma decisão importante.

90
E ninguém procurava obter um acordo com Hamilton Burger, sem primeiro passar
pelas mãos de Harry Gulling, que podia facilitar o acesso ao granítico
Procurador do Distrito. Eram nove e quarenta e cinco da manhã, quando Mason
entrou no gabinete de Gulling. Apertaram as mãos e Mason sentou-se-lhe em
frente. Harry Gulling era um homem alto, magro, e tinha uma maneira de
perscrutar as pessoas incisivamente, com os seus frios olhos azuis.
— Venho representar Eva Martell — anunciou Mason. — Ela estava a viver no
apartamento de Helen Reedley, juntamente cora uma mulher chamada Adelle Win-
ters. Creio que esta Adelle Winters foi detida por suspeita de homicídio.
Gulling permaneceu imóvel, com os seus gélidos olhos azuis a analisarem Mason e
a ouvir. Como nada dissesse, Perry Mason prosseguiu:
— Penso que a minha cliente pode vir a ser-lhe útil...
— Como?
— Talvez... e sublinho este hipotético talvez... o seu testemunho possa
facilitar a causa da Procuradoria.
— De que maneira?
— Suponha que, depois de ter ponderado mais calmamente nos acontecimentos de
ontem, a minha cliente tenha concluído que, efectivamente, não esteve com Adelle
Winters, durante todos os minutos dessa tarde. Presumo que o caso já lhe é
familiar.
— Acabo de interrogar Mrs. Winters, Mr. Mason, e tenho aqui, sobre a secretária,
todos os relatórios da polícia.
— Muito bem. Estamos assim em posição de podermos falar claramente. Eva Martell
é uma jovem que tem tentado avançar na vida, desempenhando alguns papéis
teatrais, aqui e além, e inclusivamente servindo de modelo. Nunca teve a
mínima experiência de situações deste género, nem o menor contacto com a
polícia, ignorando, portanto, as formalidades da Lei.

91
Por outro lado, Adelle Wttiters, velha amiga da família da jovem, é,
aparentemente, uma mulher de muito forte e cimentado carácter. Se está, ou não,
culpada de homicídio, compete-lhe a si determinar. Sei, no entanto, que já está
de posse da arma do crime e da confissão por parte de Adelle Winters, quanto a
ser proprietária da arma. Relativamente ao depoimento assinado ontem por Eva
Martell, que represento, dificilmente a Acusação poderá obter uma sentença de
culpa, porque não tem meios de provar que Adelle Winters cometeu o crime.
Grulling permanecia atento e silencioso e Mason continuou:
— Ora, tenho a franqueza de admitir que a minha cliente já teve tempo de
rememorar melhor os acontecimentos de ontem à tarde. Talvez tivesse pretendido
defender Adelle Winters, a quem chama Tia e a quem conhece desde a mais tenra
infância, por estar convencida da sua inocência... ou talvez se encontrasse
confusa, quanto ao tempo, e embaraçada pela presença da polícia, quando assinou
o referido depoimento. De qualquer modo, direi que a minha cliente, excitada
devido à terrível ocorrência, negligenciou mencionar o lapso de alguns minutos,
durante os quais Adelle Winters não esteve com ela. Que me diz?
Afastando o olhar do rosto de Mason, como que desinteressadamente, Gulling
inquiriu:
— Onde está ela agora ?
— Poderá ser apresentada, em pouco tempo, se for necessário.
— É procurada pela polícia.
— Está pronta a dar toda a sua colaboração às autoridades — assegurou Mason.
— Nesse caso -, concretamente, que pretende, Mason ?
— Para que havemos de estar com mais rodeios? Compreendo a gravidade do erro de
Eva Martell, ao assinar irresponsavelmente, ingenuamente até, um depoimento
sob juramento, não inteiramente correspondente aos factos...

92
Pois bem, pretendo estar certo de que não haverá procedimento contra ela, por
essa falta, resultante de confusão momentânea, ou de excesso de credulidade, na
inculpabilidade de uma pessoa, com quem há muito convive e naturalmente estima.
— Ah! Então é isso que pretende?
— Apenas isto.
— E é essa a razão que o fez vir aqui negociar uma posição de segurança, em vez
de apresentar, como lhe compete, a sua cliente às Autoridades, declarando:
cometi um erro?
— Está visto! — retorquiu Mason iradamente. — Que diabo está a pensar? Que ia
pôr a cabeça no cepo?
— Já a pôs — declarou Gulling.
— Parvoíce! — exclamou Mason exaltado.
— Adelle Winters é culpada de assassínio premeditado, a sangue-frio. Podemos
prová-lo. E a sua cliente é cúmplice, depois do facto, e... talvez antes do
facto.
— Deixe-se disso, Gulling. Se a minha cliente não declarar, às claras, que se
enganou na questão do tempo, e permanecer calada, mantendo a primeira versão,
que diabo podem vocês fazer, para obterem do júri uma condenação?
— Já que faz a pergunta, vou responder-lhe — disse Gulling, desafiadoramente. —
Adelle Winters tinha um revólver de calibre 32, municiado com cartuchos de tipo
antiquado e obsoleto. Essa arma esteve em seu poder até ao momento em que, às
duas horas e vinte dia tarde de ontem, tentou desfazer-se dela, enfiando-a
debaixo do lixo de um caixote do Lorenzo Hotel. Aproximadamente às duas horas
dessa mesma tarde, Robert Hines fora assassinado por um projéctil da mesma arma,
conforme os testes o comprovam, segundo o relatório pericial do Departamento de
Balística.
Após uma ligeira pausa, Gulling prosseguiu, agora com um ar de condescendente
superioridade:

93
— Eva Martell jurou ter estado com Adelle Winters, todos os minutos dessa tarde,
sem nunca se terem separado. Presentemente, são ambas processadas por homicídio.
E vou explicar-lhe Mason, como iremos proceder. Quando a polícia deteve Adelle
Winters e a trouxe, sob custódia, na noite passada, a mulher-guarda ficou de
posse das suas roupas e, como é norma, revistou-as. E sabe o que encontrou?
Mason esforçou-se por manter uma expressão vazia, de jogador de póquer, e
proferiu:
— Não vejo que coisa possa ter sido encontrada, que venha modificar a situação.
— Ah, não vê, Mr. Mason? — motejou Gulling, com fria ironia. — Mas talvez mude
de opinião, quando eu lho disser. A matrona da prisão encontrou a carteira de
Mr. Hines, contendo a sua carta de condução, cartões de identificação de várias
organizações e três mil dólares em notas. Aqui tem um motivo para homicídio. E
quando a sua inocente actrizinha subir ao banco das testemunhas e jurar ter
estado com Adelle Winters, durante todos os minutos dessa tarde, será acusada de
assassínio do primeiro grau. E se mudar de versão, será acusada de perjúrio.
Estou cansado de aturar advogados, tentando meter-me os olhos pela cara dentro,
neste gabinete. E vou ainda dizer-lhe uma coisa, Mr. Mason. Eva Martell está
sendo procurada pela polícia. É portanto, neste momento, uma foragida à Justiça
e tem um mandato de captura, por felonia. Se a esconde, ou oculta o seu
paradeiro à polícia, o senhor mesmo fica implicado em crime de cumplicidade.
Dou-lhe o prazo, até ao meio-dia, para que Eva Martell se entregue à polícia. No
caso de assim não proceder, terei de processá-lo, Mr. Mason. Creio que é tudo
quanto, por ora, este Gabinete da Procuradoria tem a comunicar-lhe. Muito bom
dia, Mr, Mason

94
10

Mason, sentado do lado de fora da grande vidraça que separa os presos dos
visitantes, na enorme sala de visitas da prisão, encarava Adelle Winters.
— Mr. Winters — anunciou —, vou pôr as cartas na mesa. Estava a tentar ajudar
Eva Martell e pensava que este caso seria fácil de levar a bom termo. Não o é.
— Porque não ?
— Por causa das coisas que a senhora fez. A polícia concluiu que a senhora e Eva
planearam assassinar Hines, deliberadamente, com o propósito de roubar-lhe
dinheiro.
— Isso é absurdo!
— Têm elementos em que podem fundamentar essa gravíssima acusação.
— Eva está, absolutamente inocente... mas eu estou metida numa terrível alhada,
bem o sei.
— Parece que arrastou Eva para o mesmo sarilho.
— Mas não tive a menor intenção de prejudicá-la. Mr. Mason. Amo essa
garota, como se fosse minha filha. Vai ser meu advogado, Mr. Mason?
— Estando encarregado da defesa de Miss Martell, não creio que possa defendê-
la, Mrs. Winters. Disse ao carcereiro que vinha aqui falar consigo, para ver se
poderia ser seu advogado. E não menti. Mas o que na realidade pretendo averiguar
é até que ponto Eva está metida nisto.
— Bem, vou contar-lhe o que aconteceu, Mr. Mason. Quando me falou no perigo de
trazer uma arma comigo, simulei não ligar importância, mas, na verdade, fiquei
muito preocupada. Pensei que podiam, de qualquer maneira, atribuir-me um crime e
compreendi que, se fosse acusada desse crime e tivesse uma arma em meu poder,
sem a necessária licença, o meu caso seria agravado, mesmo estando inocente, não
me safando da penitenciária.

95
— Geralmente é o que acontece.
— Portanto, decidi ver-me livre da arma. A primeira coisa em que pensei, depois
de sair do seu escritório, foi em tirar a arma da gaveta, onde a tinha
escondida, e metê-la na bolsa, para desfazer-me dela, em qualquer lado. E quando
estava a arrumar as minhas coisas, pu-la em cima da cómoda, com esse propósito.
Mas na excitação de empacotar o que lá tinha, à pressa, esqueci-me do revólver.
Só me lembrei dele, quando já nos achávamos no átrio, prontas para sairmos.
Disse então a Eva que esperasse um momento por mim e subi ao apartamento.
— Que horas eram?
— Já deviam ser duas... ou talvez um pouco mais.
— Então, que fez?
— Subi no elevador, atravessei o corredor e abri a porta. A arma estava onde eu
a deixara e pareceu-me nada haver de anormal; só depois reparei que a deixara
com o cano virado para a parede e viera encontrá-la virada para mim. A porta do
quarto de cama estava fechada. Felizmente, não a abri, pois o assassino devia
estar ainda lá dentro.
— E depois ?
— Peguei na arma e ia a sair, quando notei que no meio da sala, sobre a carpete,
estava uma carteira. Juro-lhe, Mr. Mason, que nem sequer vi o que continha.
Percebi que era a carteira de Mr. Hines e limitei-me a enfiá-la na minha blusa.
Tencionava devolver-lha, quando tornasse a vê-lo.
— Continue — incitou Mason.
— Deixei o apartamento e vim ter com Eva. Tomámos um táxi para o Lorenzo Hotel.
Não demorámos mais de cinco minutos... talvez nem tanto. No hotel, fui ao
reservado das senhoras e abri a bolsa, para tirar o make-up; ao fazê-lo, notei
um cheiro peculiar a pólvora. Vinha naturalmente do revólver. Portanto,
examinei-o e notei que um dos cartuchos tinha sido deflagrado. Cheirei o tambor
e verifiquei que o odor de pólvora queimada era mais forte.

96
Decidi desfazer-me da arma, dirigi-me ao corredor exterior dos caixotes do lixo-
e atirei com ela para dentro de um qualquer. E isto é a inteira verdade, Mr.
Mason, juro!
— Quero acreditar na sua história, Mrs. Winters - disse Perry Mason. — Estou
ansioso por acreditar que está inocente, mas essa história que acaba de contar-
me não me convence e não vejo possibilidade de um júri acreditar nela.
— Acha preferível alterar esta história ?
— Evidentemente... tem de soar melhor aos ouvidos do júri.
— Bem... se me derem, tempo, vou tentar melhorá-la.
— Quer dizer que vai alterar a verdade dos factos ?
— Ora, factos!... Os factos não significam coisa alguma. Na maioria das vezes a
verdade não é convincente, mas estou habituada a inventar histórias e posso
melhorar esta consideravelmente. Mas juro-lhe que o que lhe contei foi realmente
o que se passou: a verdade pura, que não contaria a mais ninguém.
— Quer fazer-me acreditar que, depois de ter deixado o apartamento, da primeira
vez, e ter descido ao átrio, e antes de ter voltado' a subir ao mesmo local,
tanto Hines como o assassino andaram a passear pela sala e pelo quarto de cama,
sem que a senhora os tenha visto, durante os seus dois percursos? Quer
convencer-me de que o assassino matou Hines com o seu revólver, Mrs. Winters,
que a senhora deixara em cima da cómoda; que tornou a colocá-lo no mesmo sítio;
que tirou a carteira da algibeira de Hines e que a lançou, cheia de dinheiro,
para o chão, e que se escondeu, em seguida, no quarto de cama, com o cadáver,
quando a senhora voltou ao apartamento?
— Exactamente.
— Foi isso que realmente aconteceu ?
— Pelo menos, é o que deve ter acontecido. Mason olhou para ela e, depois,
prosseguiu:

97
— De maneira que, para tornar os factos mais convincentes, na sua opinião, o
assassino teria tirado a carteira do morto, com três mil dólares, para em
seguida deixá-la na carpete, a fim de que a senhora a apanhasse.
— Não me acredita, Mr. Mason?
— Não.
— Mas foi exactamente o que aconteceu. Eu morra já, aqui, se não é verdade.
Estou a contar-lhe a verdade. Mr. Mason.
— Como pensa que Hines foi para o apartamento, se não o viu, pelo caminho?
— Não sei.
Fez-se um momento de silêncio, que Adelle Winters acabou por quebrar:
— Não há dúvida que entrou lá dentro. A prova é que foi encontrado morto no
quarto de cama.
— Isso é um facto — reconheceu o advogado, que, logo, perguntou abruptamente: —
Que número lhe deu Hines para que pudesse telefonar-lhe, se houvesse qualquer
chamada para Mrs. Reedley? Ele disse-lhe, porventura, em que local ficava esse
telefone?
— Não.
— E enquanto as senhoras telefonavam do átrio, Mrs. Winters ou Miss Martell,
viram Hines entrar no hotel?
— Ninguém entrou no hotel, até ao momento em que subi no elevador.
— Bem — considerou Mason—, só há uma hipótese de reunirmos os factos, de maneira
que a sua teoria não pareça tão implausível. Vou investigar essa única hipótese.
— Qual é?
— Que Hines vivia num outro apartamento do mesmo edifício e que era aí que o seu
telefone estava instalado.
— É isso. Tem de ser isso — animou-se Adelle Winters. — Essa possibilidade já
faria a minha história soar melhor, não é verdade?
Mason fitou-a perscrutadoramente.

98
— E desta vez, está certa de que a sua história é verdadeira, Mrs. Winters?
— É sim, Mr. Mason — e logo acrescentou: — Mas não tenho a mínima fé nela! Não
me inspira confiança!

11

De uma cabina telefónica da sala de recepção da prisão, Mason ligou para Paul
Drake.
— Como vai isso? — interessou-se o detective.
— Não muito bem, Paul — admitiu Mason —, mas tenho uma pista.
— Qual?
— Pede a Della que te dê o número de telefone que Hines deu às morenas, para
contactarem com ele, e trata de descobrir onde esse aparelho está instalado.
Estou particularmente interessado em saber se Hines tinha um apartamento no
próprio Siglet Manor, onde fica o de Helen Reedley, na Eighth Street.
— Creio que a polícia já averiguou tudo quanto havia a averiguar acerca das
amizades de Hines e dos sítios por onde parava — respondeu Drake.
— Ele não vivia aí, mas num hotel residencial do lado baixo da cidade, onde
mantinha um quarto, há cerca de cinco anos. Era solteiro e bastante taciturno;
ocasionalmente jogava nas corridas de cavalos e entrava numas jogatanas de
cartas e dados, de quando em quando. E era reservado, como um rochedo, quando
ganhava algum dinheiro.
— De qualquer modo, Paul, verifica essa história do telefone. É muito
importante. Vê se Hines tinha aí um apartamento, ou quem é a pessoa que nele
estava instalada para receber os telefonemas, quando Mrs. Winters informava
terem, ligado para Mrs. Reedley. Trata-se provavelmente de uma mulher.
— Okay, Perry. Averiguámos o caso do apartamento fronteiro ao de Reedley. Está
lá uma rapariga chamada Daphne Gridley.

99
É uma agente artística, que também se dedica a trabalhos de decoração. Vive aí,
há cerca de cinco ou seis anos, e parece que foi por seu intermédio que Orville
Reedley arranjou o apartamento onde agora vive.
— Como é ela, Paul?
— Tem classe.
- Idade?
— Vinte e seis, ou vinte e sete.
— Loira, ou morena?
— Cabelo castanho.
— Vai-se safando na vida?
— Creio que sim.
— Faz dinheiro?
— Herdou uma boa porção dele, há cinco ou seis anos, e apenas trabalha para
manter-se ocupada. Queres também que saiba se há qualquer relação entre ela e
Reedley, não é verdade?
— Exactamente. Parece-me ter agarrado um urso pela cauda e vou precisar de
grande ajuda. Vê se descobres qualquer coisa depressa, nesse sentido. Tornarei a
ligar para aí, dentro de vinte minutos, ou meia hora.
— Okay, Perry. Como te disse, a polícia já desbastou todo o terreno, em volta de
Hines. Mas vou de qualquer modo tentar a sorte, no mesmo campo.
— Anda para diante, Paul. Pode dar-se o caso de a polícia não ter desbravado o
mato todo. Creio que estavam tão obcecados com a actividade de Hines, como
batoteiro, que desprezaram outros possíveis ângulos da questão. Ligo para aí
mais tarde.
— Okay, Perry, mas estriba-te bem, porque o caso Winters está realmente muito
feio.
— Eu que o diga! — admitiu Mason. — E nem sequer sabes as últimas provas que
surgiram contra ela. Resta-me a consolação de não ser seu advogado.
Perry Mason desligou, saiu da prisão e entrou no carro, para correr a
uma casa de quartos de aluguer, dirigida por uma sua antiga cliente.

100
— Olá, Mae — saudou —, como vai a nossa amiga?
— Esplendidamente, Mr. Mason. Está no 211. Tomou pequeno-almoço há coisa de hora
e meia. Não me deu mínimo incómodo, mas sempre lhe disse que se não
Se mostrasse em público, até o senhor nos transmitir novas instruções.
— Muito bem, Mae, e muito obrigado.
Mae Bagley era uma loira alta, à beira dos trinta, e seu rosto poderia parecer
duro, mas olhou para Mason com uma expressão afeiçoada, quando informou:
— Não registei a sua entrada cá na casa, de maneira que o 211 está aparentemente
vago, no caso de a polícia aparecer por aí, a meter o nariz no livro de
registos.
— Não devia ter feito isso Mae.
— O senhor pediu-me que a encafuasse em qualquer todo. Ora, quando me pede uma
coisa, não há nada que eu não faça para ajudá-lo, Mr. Mason.
— Ficam-lhe muito bem esses sentimentos, Mae, mas está a arriscar-se demasiado.
— Correr riscos consigo é estar praticamente em segurança.
— Obrigado, uma vez mais, Mae. Você é uma moça catita.
Mason subiu até ao 211 e bateu à porta.
Eva Martell abriu-a tão depressa que dir-se-ia estar sentada junto da entrada, à
espera do advogado. Estava vestida e pronta para sair e o seu rosto iluminou-se
ao olhar para Mason.
— Estou tão contente por vê-lo, Mr. Mason. Miss Mae trouxe-me o pequeno-almoço e
eu quis descer para ajuda-la a lavar a loiça, mas ela recusou, alegando não ser
conveniente que me vissem lá em baixo. Sente-se aqui, perto da janela. Esta
cadeira é mais confortável.
Mason sentou-se, tirou a cigarreira e ofereceu-lhe um cigarro.

101
Eva recusou com um abanar de cabeça e Perry acendeu o dele.
— Tenho fumado de mate, Mr. Mason. A Tia Adelle já ca está fora? Conseguiu
arrumar o nosso caso?
— Trago más notícias, Eva, e não tenho tempo para rodeios. Espero que se não
ponha a chorar no meu ombro.
O rosto de Eva Martell contraiu-se e os seus olhos denunciaram grande tensão.
— Diga lá.
— A polícia julga ter um caso arrumado, quanto à culpabilidade de Mrs. Winters.
— Refere-se ao assassínio?
— Por homicídio e roubo.
— Roubo?
— Lembra-se da carteira que Hines trazia recheada de dólares?
— Hum, hum!
— Pois bem, encontraram-na em poder da Tia Adelle, com cerca de três mil
dólares.
— Como pode ser isso, Mr. Mason? — espantou-se Eva. — A Tia Adelle seria incapaz
de fazer uma coisa dessas!
— Mrs. Winters contou-me que, quando foi buscar a arma ao apartamento, encontrou
essa carteira caída no chão. Provavelmente Hines fora assassinado, momentos
antes, no quarto de cama, e o assassino devia estar lá dentro, a seu lado.
— Sem a arma?
— Sim... sem a arma!
— Mas... isso é inacreditável...
— Se você não acredita, como quer que um júri o acredite?
— Não sei.
— Pois bem, é isso mesmo que a coloca, a si, no meio de toda esta embrulhada.
Procurei estabelecer um acordo com o Gabinete do Procurador do Distrito, mas foi
o mesmo que tentar derrubar uma parede de tijolo à cabeçada.

102
A polícia quer agarrá-la, Eva, dê lá por onde der.
— Como cúmplice?
— Sim, de todas as acusações que impendem sobre Mrs. Wimters.
— Roubo e assassínio... Mas eu nada sei acerca disso!
— A verdade é que você assinou um depoimento falso, sob juramento!
— Oh, Mr. Mason! Bem sabe por que motivo o fiz...
— Lembra-se de ter-me telefonado a comunicar a descoberta do cadáver?
— Certamente.
— Nesse momento, onde se achava a Tia Adelle?
— Mesmo ao meu lado.
— Na sala de estar, ou no quarto?
— Bem... foi ao quarto, para certificar-se de que Hines estava morto.
— Portanto, nessa altura, pode muito bem ter tirado a carteira a Hines.
— Não, Mr. Mason. A Tia Adelle nunca faria uma coisa dessas!
— Mas podia tê-lo feito — insistiu Mason.
— Podia... isto é, teve oportunidade para fazê-lo, mas sei que não o fez.
— Como o sabe?
— Conheço muito bem a Tia Adelle.
— Bem, Hines foi assassinado com a arma dela, e a carteira dele, coma três mil
dólares, foi também encontrada em posse dela. O Procurador do Distrito tem uma
base sólida para a motivação do crime: homicídio por roubo. E você, Eva, está
metida nisso até ao pescoço. Deram-me um prazo, até ao meio-dia de hoje, para
entregá-la ã polícia e tenho de fazê-lo.
- Farei o que me indicar, Mr. Mason.
— Lamento, mas não tenho outro remédio. Você vai meter-se num táxi, o mais
tardar às onze e meia. Entrega-se voluntariamente à polícia, mas não responde a
quaisquer perguntas que lhe façam.

103
Sobretudo, não lhes diga onde esteve ontem à noite, nem onde se alojou. É capaz
de fazer isso?
— Sim.
— Está certa de que consegue manter essa boquinha calada? Não fale do crime, não
defenda a Tia Adelle, não diga nada. Nem um simples som. Percebe?
— Sim — repetiu ia jovem.
— Dir-lhe-ão que a aconselhei erradamente, mas espero que tenha suficiente
confiança em mim, para se não ir abaixo... mesmo que lhe passe pela cabeça que a
minha táctica está errada, compreende? E capaz de aguentar-se no balanço?
— Sim — repetiu Eva, pela terceira vez.
— Menina bonita! - animou Mason.— Tem aqui telefone?
— Há uma cabina, ao fundo do corredor.
— Vou telefonar daí. Não se esqueça de apanhar um táxi, às onze e trinta, e de
ir direita à polícia. Irei vê-la, logo a seguir a terem-ma detido. B arranje um
sorriso para asses lábios.
Da cabina do corredor, Mason ligou para Paul Drake.
— Okay, Paul, que descobriste?
— Parece que és vidente, Perry — respondeu o detective. — o número do telefone
corresponde ao apartamento 412 do Siglet Manor; fica no quarto andar, junto às
escadas e a locatária é uma mulher chamada Carlotta Tipton. Pelo que conseguimos
saber, é uma «brasa» que raramente sai do apartamento, antes das onze horas da
manhã. É corista, de quando em quando, mas paga a renda regularmente e usa
roupas caras. Isto serve-te de alguma coisa?
— Se serve! Faz-me um arranjão, Paul. Vai buscar Della, diz-lhe para trazer o
seu bloco-notas e uma dúzia de lápis afiados, e leva-a, de corrida, para lá.
Irei ter convosco, o mais depressa que puder.

104
12

Paul Drake saía do carro, no momento em que Perry Mason arrumava o dele, no
parque de estacionamento. Vendo o amigo, foi colocar o seu, junto do outro.
— Conseguimos chegar ao mesmo tempo — exultou Della Street —, mas receei não
podermos desembaraçar-nos do trânsito, no centro da cidade.
Enquanto caminhavam os três, ao longo do passeio, em direcção ao Siglet Manor,
Drake informou:
— Estamos, neste ângulo, à frente da polícia, pois segundo os meus rapazes,
Carlotta Tipton não foi ainda incomodada pelas autoridades. Queres que subamos
consigo, Perry?
— Não só quero que venham comigo, como até preciso de um dos teus homens, para
ser mais uma testemunha. Onde estão eles, Paul?
— Está um ali em frente, no café, por detrás da montra, e o outro... aí vem ele
— apontou Drake.
Efectivamente, um dos detectives, saía detrás do volante de um carro
estacionado, que, embora fosse da agência, não tinha qualquer sinal
identificativo e, sim, matrícula particular.
— Conhecem Frank Holt? — perguntou Drake, à laia de apresentação. — Miss Street
e Perry Mason. Vão entrevistar Carlotta Tipton e queriam que viesses, comigo,
para servirmos de testemunhas. Abre bem os olhos e os ouvidos, para poderes
lembrar-te do que vires e ouvires, sem uma falha.
Pararam à porta de entrada.
- Que fazemos? — inquiriu Drake. — Tocamos para outro andar, para que nos abram
o fecho automático?
— Preferia que abrisses isto, com uma das tuas gasuas, Paul.
— Oh, Perry! Tem coração! Não me metas em sarilhos...
— Deixa-te de lamúrias. Abre lá isso — insistiu Mason.

105
Enquanto entravam no edifício, Perry Mason advertiu:
— Eu falo e vocês mantêm os chapéus na cabeça. A melhor maneira de impressionar
essa dama é mostrarem-se ordinários, como se fossem oficiais da polícia.
Tendo chegado ao quarto andar e localizado o apartamento de Carlotta, Mason
bateu à porta com os nós dos dedos.
Ouviram-se passos de mulher e qualquer coisa pesada a ser arrastada pelo
sobrado. Depois a porta entreabriu-se e a jovem que se achava no interior recuou
ao ver o grupo de expressões graves.
— Que é... Que desejam?
Mason empurrou a porta, com cara de poucos amigos, e entrou. Uma mala já fechada
estava a meio do caminho. Uma outra, ainda aberta, mostrava roupa do senhora,
prestes a ser devidamente acondicionada.
Carlotta Tipton devia andar perto dos vinte e oito anos. Era mais alta do
que a maioria das garotas, tinha cabelo arruivado e vestia uma blusa e uma
saia bastante justas. Tinha os olhos olheirentos e ligeiramente papudos,
como se tivesse estado a chorar.
Delia Street encaminhou-se prontamente para uma mesa e sentou-se, de lápis em
punho, com o seu bloco-notas aberto, para registo de um depoimento «policial».
Frank Holt dirigiu-se para a janela e ficou de pé, guardando uma certa
distância. Tirou um cigarro, acendeu-o e lançou o fósforo para o chão. Drake,
mal entrou, postou-se de costas viradas para a porta, como que a guardar a
saída. Com um ar terrivelmente oficial, Mason inquiriu:
— Então, Carlotta, parece que as coisas estão a correr-lhe mal, hem?
— Que quer dizer com isso?
— Perdeu uma boa talhada do bolo, hem?
— Não... não é isso... Perdi um amigo.
— E se nos falasse disso, hem?
— Mataram-no... É tudo quanto sei.

106
— Era seu namorado?
— Era... apenas um amigo.
— Mas pagava-lhe a renda, não?
— Não.
— Estou a ver. Você está a fazer as malas com toda essa pressa, porque se cansou
da paisagem.
Carlotta não respondeu e Mason prosseguiu:
— Vamos lá fazer um desenho da coisa. Hines recebia aqui aqueles telefonemas...
e depois, que mais fazia?
Com uma expressão de confusão e temor no olhar, Carlota titubeou:
— Eu... não estou a par dos negócios de Bob.
— Mas sabia que Hines mandava que lhe telefonassem para aqui certos recados e,
em seguida, transmitia-os a uma pessoa, hem?
— Sim.
— Sabe quem era essa pessoa?
— Nessa altura, não sabia.
— E ele indicava, então, a essa pessoa um certo número de telefone, hem?
— Sim.
— Conte-me agora o que se passou ontem. Que sabe acerca do homicídio?
— Eu... Quem são os senhores?
— Chamo-me Mason. Diga lá o que tem a dizer.
— Bob era um grande amigo meu e íamos casar. Eu gostava imenso dele, até que
descobri que ele tinha essa mulher.
— Que mulher?
— Essa Helen Reedley.
Mason olhou de relance para Drake e continuou o interrogatório:
— Quer dizer que ele mantinha Helen Reedley?
— Sim.
— Leu os jornais desta manhã?
— Não. Tencionava comprar um, quando saísse daqui. Costumo ouvir as notícias
pela rádio.

107
— Estou a ver... Como foi que descobriu que Hines mantinha essa Helen Reedley?
— Descobri que possuía uma chave de um outro apartamento neste edifício.
— Sabe o número desse apartamento?
— É o 326, alugado em nome de Helen Reedley.
— E era ela a misteriosa personagem a quem Hines telefonava?
— Bem, cheguei à conclusão de que devia haver uma certa ligação...
— Que acontecia, quando Hines saía? Tinha-a encarregado de transmitir as
mensagens telefónicas a Helen?
— Não. Ele dera-me um número de telefone, onde eu poderia encontrá-lo, em
qualquer altura que estivesse ausente. Também ligava para cá a dizer-me onde se
achava ocasionalmente, ou então, se o não fazia, telefonava-me, de meia em meia
hora. Era muito meticuloso...
— E insiste em afirmar que nada sabia dos seus negócios?
— Não.
— Quando descobriu que ele tinha outra chave?
— Anteontem.
— E que fez depois disso?
— Como era igual à minha e tinha um número do mesmo tipo, fui ao registo dos
hóspedes e descobri que pertencia ao apartamento alugado em nome de Helen
Reedley.
— E falou nisso a Hines?
— Não. De que serve discutir com um homem, acerca da mulher com quem anda
metido?
— Nesse caso, que fez?
— Segui-o, quando saiu, ontem à tarde. Esperei que utilizasse o elevador, mas
não o fez. Desceu as escadas, até ao terceiro andar.
— Foi atrás dele?

108
— Sim.
— Que viu Hines fazer nesse terceiro andar?
— Dirigiu-se ao apartamento de Helen Reedley.
— Bateu à porta?
— Bateu, esperou uns segundos e, depois, abriu-a com a chave que tirou do bolso
das calças.
— E você que fez, nessa altura?
Carlotta recuou um passo, fitou Mason desconfiada e sondou:
— Quem são os senhores?
Prontamente, Mason tomou um ar agressivo e perguntou, entre dentas:
— Quer que a levemos connosco, pana falar mais à vontade?
— Oh, não!... Esperei um bocado e, depois, enchi-me de coragem e fui bater-lhe à
porta.
— Como reagiu ele?
— Não respondeu.
— Você disse qualquer coisa?
— Não. Limitei-me a bater novamente duas ou três vezes. Então como não me
abrisse compreendi a «resposta»: estava lá dentro com essa mulher.
— E você que fez?
— Voltei para o meu apartamento e comecei aqui a fazer as malas. Agora, estou
terrivelmente arrependida, por não ter querido fazer-lhe uma cena. Talvez lhe
tivesse salvo a vida.
— Que horas eram, quando voltou para este apartamento?
— Poucos minutas depois das duas... Talvez duas e cinco.
— E que fez?
— Já não tinha motivo para continuar aqui, nesta cidade. Tenho um amigo, em
Denver, que está apaixonado por mim e passa a vida a pedir-me que vá ter com
ele. Gosto dele... mas também gostava do Bob...
— Quando foi que ouviu falar do assassínio?

109
— Só ontem a noite. Ouvi uma conversa de duas pessoas, acerca disso, lá em
baixo, no átrio.
— E mesmo assim não teve curiosidade de comprar um jornal?
— Comprei um, sim, mas nada trazia a esse respeito, por ser um jornal da tarde,
mas impresso, como habitualmente, de manhã.
— E não teve curiosidade, hoje, de comprar um jornal da manhã?
— Bem... ia comprá-lo, quando saísse.
— E não saiu, esta manhã?
— Não.
— Mas tomou o seu pequeno-almoço, hem?
— Sim.
— A que horas?
— Há coisa de uma hora.
— E não saiu para comprar um jornal?
— Não.
Mason, de cenho franzido, mudou de tom e proferiu calmamente:
— O seu amigo foi assassinado neste mesmo edifício, num apartamento por debaixo
do seu, e você nem sequer se deu ao trabalho de descer ao átrio, para comprar um
jornal, a fim de saber pormenores. Ficou satisfeita com uma conversa ouvida a
duas pessoas desconhecidas, hem? Nem sequer lhe interessou averiguar quem o
assassinou, hem?
— Foi... foi Helen Reedley. A polícia sabe disso.
— Viu alguma vez essa Helen Reedley?
— Sim.
— Quando?
— Encontrei-me com ela, um dia destes, no elevador. Ia com uma mulher de mais
idade. Desceram no terceiro piso. Essa mulher é tia dela, ou coisa assim. Pelo
menos ela tratava-a por tia.
— Nessa altura, já sabia que Helen Reedley andava feita com Hines?

110
— Bem... desconfiava.
- Sim ou não?
— Bem.... sim.
— E você mão lhe disse nada... a essa Helen Reedley?
— Não.
— Mas examinou-a com muita atenção, hein?
— Naturalmente.
Mason sentou-se e, em silêncio, analisou a expressão de Carlotta. Depois
declarou calmamente:
— Fique sabendo, Carlotta Tipton, que Robert Dover Hines não tinha a menor
ligação com Helen Reedley, a não ser financeira.
— Que está a dizer? Se ele até tinha a chave do apartamento dela...
— Tinha, sim, mas não era Helen Reedley quem vivia nesse apartamento. Helen
Reedley encarregara Hines de contratar uma dupla.
— Que é isso de dupla?
— Uma outra mulher que pudesse passar por ela. Bob pôs um anúncio no jornal,
para contratar unia morena parecida com Helen.
Os olhos de Carlotta estavam agora desmesuradamente abertos.
— Quer dizer... Isso é verdade?
Tirando o recorte de jornal da carteira, Mason mostrou-lhe o texto do anúncio.
Carlotta leu-o e devolveu-o, sem uma palavra. Os lábios tornaram-se-lhe brancos
e começaram a tremer; os olhos encheram-se-lhe de lágrimas, meteu a cabeça entre
os braços e soltou um soluço histérico. Mason deixou-a, chorar, durante um ou
dois minutos. Depois, disse gentilmente:
— Como vê, Carlotta, as suas suspeitas eram completamente infundadas. Quando
você o matou, num ímpeto de raiva ciumenta, não tinha a menor razão para
fazê-lo. Bem, conte-nos agora o que realmente sucedeu.
— Já lho disse — respondeu Carlotta, lacrimejante.

111
— Quero que me diga a verdade. Se não foi isso que aconteceu, que foi que
realmente aconteceu?
— Oiçam, lá, por que razão tenho de contar-lhes seja o que for? Quem são
vocês? São da polícia?
Mason interveio prontamente:
— Um minuto. Vamos pôr isso a limpo. Depois de ver que ele estava nesse
apartamento do terceiro andar, você não fez mais nada?
— Já lhe disse que subi, até aqui, para fazer as malas.
— Quem é esse seu amigo de Denver?
— Não tenho que mencionar o seu nome.
— Mas quero saber quem ele é. Tenho de saber se comunicou com ele.
— Bem... falei com ele, ontem à noite... fiz um telefonema de longa distância.
— Telefonou-lhe deste apartamento?
— Não. Saí e fui telefonar-lhe de uma cabina.
— Como se chama ele?
— Não pode obrigar-me a dizer-lho.
— Mas falou com ele?
— Sim.
— A que horas ?
— Não lhe vou dizer isso.
— Não lhe terá telefonado, ontem de tarde, em vez de ontem à noite?
— Não.
— Por que motivo lhe telefonou ?
— Não vou responder a mais nenhuma pergunta. Não creio que vocês tenham
direito... Vocês são realmente da polícia?
— Não. Sou advogado e estes dois homens são detectives.
— Detectives da polícia.
Os olhos de Carlotta pousaram-se sobre o bloco-notas de Della Street, onde o
lápis parecia que voava, registando taquigraficamente toda a conversa.
— Não sei porque ficou com essa impressão — disse

112
Mason.
— Não lhe dissemos uma única palavra acerca de sermos da polícia. Somente
lhe fiz algumas perguntas. E disse-lhe o meu nome: Mason, Perry Mason, advogado.
- Oh!... O senhor é Perry Mason?
— Sim.
— E qual é o seu interesse neste assunto?
— Estou a tentar descobrir quem. assassinou Robert Hines.
— Nesse caso, dirija-se à polícia — retorquiu ela.
— Creio que vou mesmo — replicou Mason. — A sua história é deveras interessante.
— Fui muito estúpida em ter-lha contado. O senhor... o senhor aterrorizou-me.
— De que teve medo?
- Não tem nada com isso.
— Pensou que éramos da polícia a isso aterrorizou-a?
Carlotta não respondeu.
— Ora, ora, Miss Tipton. Você já nos disse bastante e não ganha nada em tentar
retroceder com as palavras atrás. Qual foi a primeira coisa que viu, ontem à
tande, quando entrou no apartamento de Helea Reedley?
— Eu não entrei... Já lhe disse que segui Bob... E não vou dizer mais nada. Pode
falar para ai até se fartar que não direi nem mais uma palavra.
— Mas viu-o entrar no apartamento? Ela manteve-se rígida e calada.
- E sabe que estava, uma arma, am cima da cómoda?
Nenhuma resposta. Carlotta Tipton estava hirta, com os lábios apertados, numa
estreita linha defensiva. Mason olhou para Della de relance e disse:
— Bem, parece que é tudo. Vamos embora, amigos. Silenciosamente, saíram do
apartamento, deixando Carlotta Tipton sentada no meio da, sala, muda,
petrificada e lavada em lágrimas.
No corredor, Drake perguntou a Mason:
— Que vais fazer com isto, Perry?

113
— Nada, pois nada disto me diz respeito. Quem tem de fazer alguma coisa é a
polícia.
— Pensas que ela o matou?
— É o mais provável. Lembra-te, Paul, de que Bob Hines dera a Adelle Winters o
número do telefone de Carlotta Tipton, para o caso de Adelle precisar de dar-lhe
algum recado. O esquema montado torna-se agora evidente. Se alguém telefonasse a
Helen Reedley, Adelle Winters respondia que esta não estava, ou não podia
responder nesse momento, e pedia para que deixasse um recado, para que Helen
telefonasse mais tarde. Então, Adelle transmitia esse recado a Bob Hines que,
por sua vez, sabendo onde se encontrava Helen Reedley, lhe telefonava,
retransmitindo esse mesmo recado. Desta maneira, se algum amigo de Helen lhe
telefonasse, embora não pudesse falar-lhe imediatamente, acabava por receber um
telefonema dela, comprovativo de que estava bem.
— E quanto ao crime?
— Vejamos o que deve ter acontecido, ontem à tarde. De acordo com as minhas
instruções, Adelle Winters e Eva Martell abandonaram o apartamento de Helen
Reedley. Quando estavam no átrio do edifício, Adelle pensou em avisar Hines de
que se iam embora. Eu não lhe dissera que o fizesse, mas ela deve ter pensado
que era sua obrigação. Primeiro, telefonou-me, para ver se obtinha o meu
consentimento, mas como a minha linha estava ocupada, Adelle desligou,
tornou a ligar e, por fim, desistiu. Então telefonou repetidamente para o
número que Hines lhe dera, e também não obteve qualquer resposta. Estão a ver
o significado disto? Carlotta não atende o telefone do seu próprio
apartamento que Hines deu a Adelle, para transmitir recados, a qualquer hora,
durante o período do tempo em que Adelle Winters esteve na cabina do átrio,
ou seja, durante cerca de cinco, ou mais minutos; talvez mesmo dez. Isso
significa que, durante esse período em que Adelle Winters telefonou, por várias
vezes, para o número que Hines lhe dera, Calotta Tipton não estava no seu
apartamento, para receber essa chamada.

114
Saíra dele para seguir Bob Hines, até ao apartamento de Helen Reedley, no andar
de baixo. Fizera o seu trabalhinho pessoal de detective e descobrira que o homem
que amava tinha a chave do apartamento de outra mulher, que vivia no mesmo
prédio... um apartamento registado em nome de Helen Reedley.
— É uma bela teoria — comentou Drake —, mas para que tenha algum valor legal, é
necessário que apresentes qualquer prova... Vais ver-te em «palpos de aranha
para provares que foi Carlotta que o matou.
Mason sorriu e respondeu:
— E o Procurador do Distrito vai ver-se em «palpas de aranha», para provar que
ela não o matou. Ora, de acordo com a lei, ele tem de estabelecer a acusação
contra Adelle Winters, livre de qualquer dúvida razoável. Eu posso não poder
provar que foi Carlotta quem puxou o gatilho, mas vou usar estas suas
declarações, para estabelecer uma dúvida mais do que razoável, em prol de Eva
Martell e Adelle Winters.
— Isso é um facto — apoiou Drake.
— E agora, Paul, tens de descobrir onde pára Helen Reedley.
— Provavelmente — observou Drake —, a polícia deve ter andado à procura dela.
Parecem satisfeitos com o caso, tal como o amanharam, mas devem precisar de
Helen Reedley, para o burilarem.
Mastigando a ponta do cigarro apagado, Frank Holt interveio:
— Enquanto durou o interrogatório, la em cima, comecei a deitar a minha olhadela
em volta, e notei que, sobre a lista telefónica, estava um papel preso, por um
clip, com alguns números que pensei poderem interessar-vos... de maneira que
surripiei-o. Está aqui.
Mason analisou a lista animadamente.
- Paul — disse—, estou certo de que um desses números é o do local onde Helen
Reedley se esconde ou, pelo menos, de onde costumava ir, para receber os recados
de Hines.

115
Mete ao trabalho quantos homens achares necessário, mas descobre onde ela pára,
o mais depressa possível. Quanto tempo pensas que demorará?
- Quantos números são?
— Cerca de doze.
— Vai dar uma carga de trabalhos, Perry, mas creio que devo poder dar-te essa
informação... bem, talvez dentro de meia hora.
— Estarei no meu gabinete — indicou Mason.— Dá-me essa informação e, ao mesmo
tempo, põe quantos tipos achares conveniente, no trilho de Carlotta Tipton. Não
quero perder-lhe a pista.

13

Mal acabara de sentar-se à secretária do seu gabinete, Mason ouviu o telefone


particular terrintar e, logo a seguir, a voz de Paul Drake:
— Já verificámos os três primeiros números, Perry.
— E então, que encontraram?
— Um deles pertence a um hotel. Pode ser que Helen Reedley esteja lá hospedada,
com um nome fictício.
— Onde é que estás, Paul?
— Neste momento, estou a telefonar-te de uma loja, ao fundo da Tenth and
Washington.
— Estás muito afastado do hotel onde Helen está hospedada?
- Oito ou nove quarteirões.
— Espera por mim — decidiu Mason. — Vou para ai imediatamente.
Desligou o telefone e na corrida para a porta, pegou no chapéu. Contudo, antes
de sair, Della lembrou-lhe:
— Não queria que eu ligasse para Harry Gulling?

116
Mason estacou, mas logo prosseguiu, respondendo por cima do ombro:
- Deixe isso para logo, Della. Telefonar-lhe-ei, na volta.
Com Paul Drake, Mason dirigiu-se no seu carro, até ao Yucea Arms Hotel.
— Em que nome está ela registada, Paul?
— Como Genevieve Jordan.
— Tens a certeza de que é a mesma?
— Pelo menos corresponde à descrição. Não te preocupes com o tipo da recepção.
Armemo-nos em importantes e passemos, que nada nos pergunta. Estão sempre
imensos hóspedes a entrar e a sair.
Dirigiram-se ao apartamento 50-B e Mason bateu à porta.
— Quem é? — inquiriu, uma voz feminina.
— Mason.
— Eu... Deve ter-se enganado de apartamento.
— Não, não me enganei.
— Como disse que se chamava?
— Perry Mason.
— Eu... Como disse?... Eu não o conheço.
— Bem, podemos continuar a falar aos gritos, aqui, no corredor, ou deixa-me
entrar? Que prefere?
— Faça como quiser. Eu não o conheço e, se não me deixa em paz, chamo a polícia—
ameaçou a dita «Genevieve».
Começando a falar muito alto, Mason disse:
— Quando o seu marido a mandou seguir, por detectives, e você decidiu...
Ouviu-se imediatamente o som de um fecho de segurança a passar na corrediça e o
estalido da fechadura a abrir-se. Na porta escancarada, surgiu o vulto de Helen
Reedley, tremente de indignação e fulminando o advogado com o olhar.
— Você tem a personalidade mais revoltante de todos os cínicos que conheci na
minha vida! — comentou azedamente, mas calou-se, de súbito, ao notar a
presença de Drake.

117
- Entra, Paul - convidou Mason.
— Está visto, por favor, está em sua casa, - proferiu Helen sarcasticamente.
Qualquer amigo de Mr. Mason é sempre bem recebido, a qualquer hora do
dia, ou da noite. Tenham a bondade de entrar. Não ficam para jantar?
Depois de fechar a porta, Mason declarou:
— Tem andado a brincar às escondidas, Mrs. Reedley mas chegou a altura de acabar
com a brincadeira.
— Acha?
Afavelmente, Mason propôs:
— Não há razão para que não possamos ser amigos. Você tem um temperamento levado
dos diabos e, quando as papas se esturram, torna-se selvagem. Mas, já reparei
que, ao cair em si, arranja um sorriso encantador e tenta levar o
adversário à certa, passando-lhe a mão pelo pêlo. Sabe que teria dado uma
esplêndida advogada Mrs. Reedley?
— Nem calcula como me sinto desvanecida com isso. Desta vez, que me quer?
— Deixe-me apresentar-lhe Paul Drake, director da Agência de Detectives Drake.
Está a trabalhar para mim.
— Como está, Mr. Drake? Tenho tanto prazer em conhecê-lo! Esteja à sua vontade e
tire o casaco. Aposto como quer ler o meu diário secreto, não? Ou contenta-se
com meter o nariz nos álbuns de fotografia íntimas, em que estou com uns certos
amigos?
Não ligando a menor atenção àquele tom de sarcasmo forçado, Mason advertiu:
— Decerto que podemos atingir o mesmo objectivo por outra via...
- Isso é chantagem?
- Pelo menos parece - admitiu.
- Detesto chantagistas.
- Já antes me detestava, de qualquer maneira — replicou Mason, delicadamente.

118
— De forma, que, não perdi coisa alguma. Suponhamos, agora, que me conta todo
esse enredo... que me diz?
Com um olhar pensativo, Helen estudou a fisionomia do advogado e inesperadamente
sorriu.
— Gosto de um verdadeiro lutador — apreciou.
Mason não respondeu.
— Foi falar com o meu marido?
— Sim.
— E considera-se um bom analisador de caracteres?
— Faz parte da minha bagagem profissional
— Nesse caso, apercebeu-se de que ele é um tipo casmurro, prepotente,
terrivelmente ciumento, possessivo, arrogante, exageradamente orgulhoso e, ao
mesmo tempo, dinâmico e incansável, até conseguir o que pretende, não olhando a
meios, sejam eles quais forem.
— Eis um extenso complexo de adjectivos — comentou Mason.
— Que se adaptam como uma luva a um homem complexado. Orville é incapaz de
encontrar paz interior e todos aqueles que vivem em contacto com ele não poderão
também encontrá-la, porque lha não consente.
— Compreendo que tenha sido difícil ser sua esposa — admitiu Mason.
— Não só foi difícil, como acabou por fazer-me perder a coragem de prosseguir
casada com ele. O que nele me fascinara, inicialmente, foi esse insaciável
desejo de dominar os outros. Levei tempo a sentir uma verdadeira ânsia de
libertação. Geralmente catalogo o carácter de um homem, logo após os primeiros
quinze minutos de contacto.
- Mas não conseguiu catalogá-lo, em quinze minutos?
- Levei dois anos.
- Portanto, agora, já o tem catalogado?
- Sim.
- E está cansada dele?
— Pior. Cheguei à conclusão de que, na realidade, nunca cheguei amá-lo.

119
Ele desejou-me, no primeiro momento em que me viu, e isso fez com que eu tivesse
que ser dele, pois possui um poder capaz de quebrar todos os obstáculos.
— O facto é que casou com ele. O seu actual julgamento é como uma sentença post
mortem.
— Mais do que isso: é a explicação de tudo quanto sucedeu.
— Que sucedeu?
— Cerca de seis meses depois do casamento senti-me apaixonada, pela primeira vez
na minha vida. Reconheci que, ao desposar Orville, cometera o maior erro da
minha existência. E, depois, cometi outro, ainda pior.
— Apaixonou-se por alguém que...
— Não, não está a compreender-me... o meu maior erro foi enfrentar Orville e pôr
as cartas na mesa. Disse-lhe que encontrara outra pessoa a quem me afeiçoara e
que pretendia, portanto, divorciar-me dele, mas numa base amigável.
— E isso constituiu um erro?
— Total. Devia ter dito exactamente o contrário: que quando casara com ele, não
o amava e não pensara sequer ficar-lhe amarrada por toda a vida; mas que, com o
tempo, me habituara à nossa vida em comum, tal como estava, e que decidira
jamais me separar do seu convívio, enquanto vivesse. Já descobrira, nessa
altura, que de andava com mais alguém. Ninguém pode esperar que um homem do seu
tipo seja sexualmente monógamo. Ora, se me tivesse mostrado uma mulher
possessiva, ferrada à sua vida, como uma carraça, ele teria sido o primeiro a
fazer quanto estivesse ao seu alcance, para libertar-se de mim.
— Disse-me que o enfrentou, para apresentar-lhe a verdade dos factos. Então, que
aconteceu?
— Se o conhecesse melhor, já teria percebido: ele considerava-me sua mulher, no
sentido de uma coisa que lhe pertence, e por conseguinte, jamais me concederia a
liberdade por que eu ansiava.

120
Abriu imediatas hostilidades contra mim e contra o homem por quem eu dissera
estar enamorada.
— Ele sabia quem era esse homem?
Helen cravou as lábios firmemente e abanou a cabeça.
— Nunca o saberá! — exclamou. - Nunca deverá saber quem é.
— Mas, se lhe pediu o divorcio, certamente que lhe disse a quem se afeiçoara.
- Nunca na vida! Orville destruí-lo-ia, como se esmaga um insecto.
— Destruí-lo-ia fisicamente?
— Não sei. Ignoro qual seria a arma de que se serviria física, se de qualquer
outra natureza. E o homem que amo é vulnerável em vários aspectos. Não é
fisicamente um Sansão e, financeiramente, seria incapaz de defender-se das suas
investidas.
- Mesmo assim ama-o?
- Certamente! — confessou Helen. — Talvez porque precisa de mim, e nisso
existe, de minha parte, um pouco instinto maternal. Amo-o, talvez, porque o
sinto fraco e eu sou forte; porque carece da minha protecção. É um extremamente
sensível; que sofre com as injustiças. É um pensador e os conflitos acabrunham-
no doentiamente. Visiona construir um belo futuro e sei que poderei transformá-
lo num grande homem, se o amparar totalmente, se o encorajar a realizar os seus
sonhos, seus planos magníficos.
- Sumariando — concluiu Mason, com um sorriso —, ama-o. Quem é esse homem que
seu marido procura, por todos os meios descobrir?
- Todos os meios, ao ponto de contratar detectives para me seguirem, noite e dia
— respondeu Helen, desviando a resposta. — Foi por esse motivo que decidi dar-
lhe uma falsa pista.
— Contratando alguém para substituí-la?
— Mais do que isso: transformando completamente a imagem aos meus hábitos de
vida.

121
Sabia que Orville seria demasiado orgulhoso, para procurar-me directamente, mas,
em contrapartida, capacíssimo de cercear completamente os meus meios monetários.
Contudo, preferiria morrer de fome, a voltar para ele.
— Não me parece que esteja a morrer de fome — comentou Mason.
Helen Reedley ignorou o motejo e prosseguiu:
— Quando o deixei, não tinha comigo muito dinheiro disponível. Porém, decidi-me
a investi-lo arriscadamente.
— Começou a jogar ?
— Sim.
— Investimentos especulativos, ou jogo, propriamente dito?
— Jogo e também especulação na bolsa, lançando-me de cabeça, para grandes
quantias. Era perder ou ganhar, arriscando tudo por tudo.
— Não estou particularmente interessado nos seus negócios financeiros — observou
Mason, vendo Helen afastar-se do assunto que lhe interessava.
Ela riu-se e abreviou:
— E ganhei.
— Seu marido também joga?
— Sim, mas não nos lugares onde fui. Ele é um jogador de póquer, inveterado, e
atreve-se a enfrentar profissionais; é do género que joga forte, mas que é ho-
nesto. Ora, numa, das suas sessões de póquer, Orville perguntou a um parceiro se
conhecia uma boa agência de detectives. Esse homem aconselhou-o a Interstate
Investigators. Tive, porém, a sorte de estar presente um meu amigo, que deduziu
que Orville tencionava mandar-me seguir por esses detectives... e avisou-me.
— E Hines? — inquiriu Mason. — Como entrou ele no cenário?
— Hines era também um jogador, embora em menor escala e temporário. De quando em
vez, tinha sorte e não era tentado a perder quanto ganhava. Sabia travar quando
convinha.

122
Conheci-o através de uma sua amiga, que habita um apartamento do mesmo edifício
onde tenho o meu. Compreendi que era homem para fazer fosse o que fosse, por
dinheiro, mas dentro de limites honestos.
- Entrou em contacto com ele, nesse propósito?
- Exactamente. Aproveitei a circunstância de ele ter acesso aos apartamentos
do Siglet Manor, sem lá estar registado. Além disso, assegurou-me que lhe era
fácil arranjar uma morena de tipo idêntico ao meu e pusemos em prática o plano
que já conhece. Quem a seguisse, na suposição de que me seguia a mim,
certificar-se-ia de que a minha vida, era exemplar. Quem tentasse falar
directamente comigo, ela nunca responderia, para que ninguém notasse qualquer
discrepância na voz, ou nos assuntos abordados. Mas pedir-se-ia a esse alguém
que deixasse um recado e indicasse para onde eu pudesse telefonar-lhe mais
tarde. Essa mensagem era transmitida a Hines, que ma retransmitiria, a mim, de
forma que eu podia contactar com quem desejava falar-me, dando a impressão de
que tudo corria normalmente.
— Nunca admitiu a hipótese de Hines, com a sua docilidade, vir um dia a traí-la,
contando tudo a seu marido? Ou começando a exercer chantagem sobre si?
— Eu nunca pagaria a um chantagista... De resto, ele sabia que teria muito mais
a ganhar se eu triunfasse, e que, por outro lado, não poderia pagar-lhe qualquer
extorsão.
— Mas, se Hines necessitasse súbita e urgentemente de dinheiro e lho exigisse,
por meio de chantagem, você que faria?
— Eu... era mulher para rebentar com ele!
— Exactamente. Matá-lo-ia primeiro — concluiu Mason.
Indignadamente, Helen Reedley protestou:
— Está a insinuar, Mr. Mason, que assassinei Robert Hines?

123
— Estou apenas, Mrs. Reedley, a considerar várias possibilidades, por mera
prospecção de hipóteses.
— É uma maneira deveras desleal de retribuir a minha franqueza — censurou ela.
— Na verdade, pergunto-me por que motivo optou por essa atitude de súbita
franqueza comigo.
— Pensei que, pondo todas as cartas na mesa, o senhor deixaria de ter dúvidas a
meu respeito. Fui inteiramente franca consigo.
— Surpreendentemente — sublinhou Mason. — Direi até desconcertantemente. A
propósito: trazia uma arma na bolsa, quando foi ao meu escritório e a deixou
cair no chão?
— Não seja tolo, Mr. Mason.
— Trazia, ou não trazia?
Helen ia começar a dizer qualquer coisa, mas calou-se; depois fitou-o nos olhos
e respondeu:
— Sim.
— De que calibre?
Após unia breve hesitação, declarou:
— 38.
Mason riu.
— Não me acredita, Mr. Mason?
— Penso que era um revólver de calibre 32 — objectou. — Que lhe fez?
— Desfiz-me dele.
— Onde?
— Onde nunca mais será encontrado
— Porquê ?
— Por razões óbvias. Hines foi assassinado, no meu apartamento. A polícia podia
desejar interrogar-me a esse respeito. Francamente, Mr. Mason, um homem da sua
inteligência... da sua experiência, não precisa que lhe dê pormenores.
Mason afastou para trás a cadeira e pôs-se de pé.
— Obrigado — disse —, por ter-me contado tudo isso.

124
Lamento não poder dar-lhe algo de valioso em troca, mas apresento-lhe uma
sugestão..
— Qual é?
— Já esteve, alguma vez, no apartamento que seu marido ocupa presentemente?
— Não, mas sei que o tem, há alguns meses.
- Sabe, portanto, onde fica?
— Sim.
— Está decorado com magnífico gosto. Só uma pessoa de grande sensibilidade
artística... direi mais... feminina... decerto profissional ide decoração de
interiores, poderia ter feito esse trabalho.
— Que mais?
—' Há uma janela com «venesianas», que dão para unm apartamento fronteiro do
mesmo edifício. A um sinal de Orville, dessa janela, corresponde um telefonema
do tal apartamento.
O olhar de Helen mostrou verdadeiro interesse.
— E então?
Mason encolheu os ombros e defendeu-se:
— Como sabe, Mrs. Reedley, uni jogador não deve mostrar todo o sem jogo, a
descoberto. Quando muito, pode dar um palpite.
Dizendo isto, despediu-se com um aceno de cabeça e dirigiu-se para ia porta.
Imediatamente Drake levantou-se e seguiu-o.
Helen foi ao encontro do advogado e estendeu-lhe a mão, dizendo impulsivamente:
— O senhor, além de ser um homem muito inteligente, receio que seja também um
perigoso adversário.
— Considera-me seu adversário, Mrs. Reedley? Helen ia responder qualquer
coisa, que achou preferível calar. Sorriu e replicou:
— Não tenciono tê-lo por adversário, Mr. Mason. Apenas comentei as suas
potencialidades. Muito obrigada, por esta visita. Muito bom dia... e também para
o seu amigo...

125
— Drake — relembrou Paul.
— Pois, muito obrigada pela sua útil cooperação, Mr. Drake — disse Helen, com um
sorriso gentil.
— Cooperação? — espantou-se Paul. — Mas eu não disse nada!
— Por isso mesmo — replicou ela. — Nunca nos interrompeu. Bom dia.

14

Mason entrou no seu gabinete, atirou certeiramente o chapéu para o cabide e


pediu a Della Street:
—Ligue-me já para Harry Gulling. Entretanto, conte-me novidades.
Enquanto a jovem secretária discava o número da Promotoria do Distrito,
informou:
— Há aí correspondência, vinda no correio da manhã. As duas cartas de cima
merecem mais urgente atenção.
Mason deu-lhes uma vista de olhos e decidiu:
— Está bem, responderemos por telegrama.
Nesse momento, Della passou-lhe o auscultador.
A voz de Gulling, tão calorosa como cubos de gelo numa bebida gelada, saudou:
— Bom dia, Mr. Mason. Lamento que não tenha dado cumprimento ao meu ultimatum.
— De que diabo está você a falar? Ainda faltam três minutos para o meio-dia.
— E isso que tem?
— A minha cliente não se apresentou à polícia ?
— Não — corrigiu Gulling acidamente —, foi capturada.
— Como diabo aconteceu isso?
— Não esteja com simulacros, Mason.
- Não estou a simular coisa alguma. Nada sei do que se passa.

126
— Para sua informação, Eva Martell está realmente nas mãos da polícia, mas não
se apresentou voluntariamente.
— Como não ?
— Foi caçada por um carro da rádio-patrulha, quando seguia num táxi, do
apartamento onde vive com Cora Felton, em direcção ao aeroporto.
— Isso que tem? A esquadra de polícia fica na mesma direcção do aeroporto.
— Isso foi o que ela disse ao agente que a prendeu, mas o motorista do táxi não
conta a mesma versão. Declara que ela, em vez de dizer-lhe para onde desejava
ir, começou a indicar-lhe as ruas, por onde deveria seguir. Ora você
comprometeu-se a entregar a sua cliente até ao meio-dia. Do nosso ponto de
vista, isso não se verificou.
— A vossa atitude é absolutamente desleal e irregular e, desde já comunico que
vou representar a Defesa de Eva Martell e também a de Adelle Winters.
— Nem uma nem outra têm a menor possibilidade de serem ilibadas da acusação que
sobre elas impende.
— Isso é o que você Julga.
— Muito bem — concedeu Gulling, num tom de voz que denunciava grande satisfação.
— Direi ao Grande Júri que você não respeitou o acordo que fez com este Gabinete
da Procuradoria. Já agora, advirto-o de que há, em todo este seu jogo, uma
mulher chamada Mae Bagley, que também vai precisar de quem a defenda.
— Porquê?
— Dirige uma casa de quartos de aluguer, onde o motorista de táxi foi buscar
Erva Martell. Essa Mae Bagley jura nunca ter visto a sua cliente e que nunca lhe
arrendou quarto algum, de maneira que lhe entregámos um mandato, para se
apresentar também, perante o Grande Júri.
— Okay, mandem-na ao meu escritório, para eu falar com ela e decidir se devo ou
não encarregar-me da sua defesa.

127
- Como queira — anuiu Gulling —, mas aconselho-o a refrescar a memória revendo
os textos da Lei, no que se refere a ocultar um fugitivo à Justiça.
— Terá de provar, primeiro, que o fiz — retorquiu Mason. — Terá de consegui-lo,
sem permitir que se verifique uma situação de dúvida razoável, como consta dos
textos que invoca. E para a próxima vez, procure enquadrar-se num âmbito de um
pouco mais de cooperação.
Dizendo isto, Mason desligou bruscamente o telefone.
— Que aconteceu, chefe ? — inquiriu Della, visivelmente preocupada.
— Eva Martell é uma moça sensível e, naturalmente, sentiu vergonha de deixar
transparecer ao motorista do táxi que ia entregar-se à prisão. Em vez de dizer-
lhe «leve-me para a esquadra de polícia», preferiu indigitar-lhe o caminho,
gradualmente: «volte agora à esquerda, e agora para a direita». Como a esquadra
fica na mesma direcção do aeroporto, partindo-se do edifício de apartamentos
onde vive com Cora Felton, a policia prendeu-a, sob o pretexto de que
iria fugir da cidade.
— Portanto, intervieram antes que ela se entregasse?
— Exactamente. Sob o ponto de vista do Procurador do Distrito, ela foi capturada
e não se entregou voluntariamente, como eu prometera.
— Mas isso é irregular. Que irá Eva fazer, nestas circunstâncias?
— Espero que siga as minhas instruções; que se mantenha muda como uma ostra.
— Não haverá perigo de que Mae Bagley fale?
— Já falou, mas disse-lhes que nunca vira Eva, na sua vida.
— Dessa maneira, incorre em crime de perjúrio!
— Não, antes de prestar declarações sob juramento --precisou Mason. — Além
disso, Mr, Gulling alheou-se de um pequeno pormenor.

128
- Qual ?
— O perjúrio tem de ser estabelecido pelas declarações de duas testemunhas.
- Presume que Mae Bagley está ao corrente desse ponto especifico da
lei?
Piscando um olho, o advogado sorriu.
— Mae tem obrigação de saber qualquer coisa acerca desse pormenor. Não se
esqueça de que já foi minha cliente.
— De que foi que a defendeu, chefe?
— De perjúrio — esclareceu Mason.

15

O jornal da manhã de segunda-feira conseguiu absorver a atenção de Perry Mason.


Recostado na sua cadeira de braços giratória, lia-o atentamente, sublinhando uma
frase, de quando em quando.

MULHER ACUSADA DO ASSASSÍNIO DE HINES SERÁ DEFENDIDA POR PERRY MASON


O famoso advogado aceitou defender tanto Adelle Winters, como Eva, Martell. O
Gabinete do Procurador do Distrito pensa poder implicar Mason, como cúmplice de
uma das rés.

Com o lápis, Perry Mason, sublinhava os textos que mais o interessavam:


O Adjunto do Procurador do Distrito interrogou duramente, mas em vão, uma
gerente de um edifício de quartos para aluguer, Mae Bagley, tentando obter uma
confirmação dessa cumplicidade.

129
Segundo um informador da polícia, o notável advogado e criminologista, Perry
Mason, teria escondido, num dos quartos desse edifício, a acusada Eva Martell,
para que esta se furtasse ao mandato do captura (...) Mae Bagley negou
formalmente todas as acusações, declarando nunca ter visto Eva Martell, na sua
vida, nem nunca ter falado com Mr. Mason, sobre qualquer assunto dessa natureza.
Acrescenta que há várias casas de quartos de aluguer, na mesma rua, e que o
facto de a polícia ter visto a acusada tomar um táxi, em frente da porta daquele
edifício, não significa forçosamente que tenha estado nele instalada. Na
realidade, o nome de Eva Martell não consta do registo de hóspedes (...) Eva
Martell, segundo recentes informações da polícia, teria alegado tencionar
dirigir-se à Esquadra de Polícia, voluntariamente, quando um carro da patrulha-
rádio deteve o táxi em que ela transitava, forçando-a, depois, a segui-lo até à
esquadra. Alega a polícia ter intervido, por este meio, em virtude de a acusada
rumar em direcção ao aeroporto. Parece que esta indicou ao motorista as ruas a
seguir, sem mencionar a palavra esquadra; mas parece não ter também proferido a
palavra aeroporto. O motorista, tendo visto a cliente, no acto de enfiar as
luvas, em frente daquela casa, gerida por Mae Bagley, depreendeu que a acusada
teria saído daquele local. Decerto que esta acusação do Gabinete do Procurador
do Distrito, implicará outra, por perjúrio, que impenderá sobre Mae Bagley (...)
Harry Gulling esclareceu que Eva Martell assinou um depoimento, sob juramento,
no qual declara ter estado, todos os minutos da tarde em que Robert Hines foi
assassinado, na companhia de Adelle Winters, a quem é atribuído o homicídio de
3º grau, com premeditação e roubo. Se o fez para fornecer um álibi à assassina,
Eva Martell será acusada de cumplicidade no crime; se se retractar desse
depoimento, incorrerá em acto de perjúrio. A polícia afirma estar de posse de
provas esmagadoras e irrefutáveis. (...)

130
Desta vez, se Perry Mason conseguir obter uma absolvição para as suas clientes,
bem, pode Harry Gulling lançar, pela janela, os seus livros de Leis e entregar
as chaves da prisão ao célebre advogado. Ora, o Adjunto do Procurador do
Distrito é conhecido pela extrema meticulosidade, na condução dos processos, e
pela irredutibilidade na aplicação da lei, nos seus pleitos forenses. Não
hesitará, se tiver meios ao seu alcance, em enredar Perry Mason nas malhas da
Justiça, como publicamente anunciou... caso consiga obviamente provar uma
acusação, que considera inabalável. Contudo...
Mason não se deu ao incómodo de ler a continuação, nas páginas centrais. Virou-
se para Della Street e anunciou:
— Vou escrever uma carta, minha amiga.
Della aprontou-se, abrindo o bloco-notas e erguendo o lápis afiado, mas antes
de ditar, Mason advertiu-a:
— Esta carta não será dactilografada. Quero-a manuscrita, com uma caligrafia
alongada e elegante, num belo papel de correspondência perfumado. Ora, escreva
lá:

Meu Caro Mr. Mason. Espero que não pense que fiz mal ao declarar nunca ter visto
Eva Martell, na minha vida. As coisas aconteceram, tão rapidamente, que não tive
possibilidade de contactar consigo, pelo que não sabia o que devia fazer, nessas
circunstâncias. Contudo, lembro-me que o senhor me disse para eu a colocar num
quarto onde... Creio que o melhor é escrever o resto no nosso código.
Della Street ergueu os olhos para Mason, surpreendida, com as sobrancelhas
erguidas interrogativamente.
— Agora — prosseguiu Mason —, invente para aí um código que ninguém seja capaz
de decifrar.
— Pensei que os peritos de criptografia conseguiam decifrar todos os códigos.

131
— Podem, quando têm grandes textos e quando existe efectivamente uma mensagem,
mas esse, Delia, não quererá dizer coisa alguma. Preencha umas cinco linhas com
algarismos e letras, ao seu bel-prazer, como lhe ditar a imaginação: palavras e
números de cinco caracteres, cada. Arranje maneira de que cada um desses
conjuntos tenha letras e algarismos. Quando acabar, assine o nome Mae.
— Sem apelido? — Sem apelido, apenas «Mae».
— Não compreendo, chefe, qual a sua intenção. Esta carta vai pôr-lhe o pescoço
no cepo.
— Assim o espero. Quando tiver terminado, vá ao Banco e levante
setecentos e cinquenta dólares, em notas. Não se esqueça de que essa carta tem
de apresentar uma aparência extremamente feminina.
— Tem na ideia qualquer tipo de papel especial?
— Creio que Mae utilizaria uma caixa de papel de correspondência cor-de-rosa, ou
nesse género; e não se esqueça também do perfume.
— Esteja descansado, chefe. Vou tratar disto imediatamente.
E saiu do gabinete. Momentos mais tarde, as pancadinhas habituais de Drake
soaram à porta particular do gabinete e o advogado apressou-se a ir abri-la.
— Novidades, Paul?
— Montes delas! — respondeu Drake. — Quando entrei no escritório achei uma
colecção de informações à minha espera.
— Importantes?
— Creio que muito.
O detective avançou para o grande maple, sentou-se ao seu jeito costumeiro,
com uma perna sobre o braço estofado de cabedal, e prologou:
- A primeira até é estranha. Obtive-a no Departamento de Homicídios e, «macacos
me mordam», se percebo o que significa!

132
— Dispara.
— Como deves saber, os Bancos, hoje em dia, mantêm uma lista dos números das
notas de cinquenta dólares para cima, que têm nas caixas de pagamento e no cofre
superior da sala de trafego e câmbios, para o caso de terem de transmiti-los à
polícia, após um assalto eventual. Só assim é possível tentar-se localizar
posteriormente os assaltantes. Como é óbvio, não falam disso a ninguém, mas,
sabendo-o a polícia, fica muito mais gente ao corrente e só ladrões amadores o
não sabem. Geralmente os profissionais, com curso superior de penitenciária, não
caem em roubar notas grandes, sendo novas. Tal como os chantagistas encartados,
preferem as pequenas e já muito corridas, para não serem identificados ao trocá-
las, ou ao depositá-las, novamente, como honestos capitalistas. Há, pois, uma
lista das séries de números das notas de cinquenta, ou pelo menos de cem dólares
para cima, até às de dez mil... que nunca vi. Não lhes é muito difícil fazer
esse registo, porque as notas estão enfaixadas em maços de dez, de uma mesma
série, de maneira que apontam, apenas o número da que aparece em cima. Os das
restantes são sequentes. Se roubam alguns maços de uma dada série, os Bancos
retiram da circulação os restantes maços da mesma série, durante um certo tempo,
e passam palavra à polícia e aos demais estabelecimentos bancários e cambistas.
Isso facilita a procura das roubadas.
— Bem sei — disse Mason, um pouco impaciente—, e depois?
— Depois, trata-se da carteira de Hines — continuou Drake. — Continha vinte e
uma notas de cem dólares e outras de cinquenta. Não creio que a polícia consiga
descobrir a proveniência de todas elas, mas já identificou a origem de cinco.
Provieram de Orville L. Reedley.
— Pode lá ser! — exclamou Mason, incrédulo.
— Hum, hum! — confirmou o detective.
— Oh, diabo! Isso pode ser um novo ângulo da questão!

133
Okay, Paul, toca a verificar todos os elementos que temos acerca desse passarão.
Precisamos de descobrir onde estava ele, no momento do crime. Vendo bem as
coisas, é considerado um tipo terrivelmente ciumento.
— Mas esse assunto já foi revolvido pela polícia. Reedley, nesse dia, almoçou
com o gerente da Interstate, num restaurante ali perto e, depois, foi com ele
para o escritório, onde estiveram a verificar os resultados da estratégia
empregada para seguir a mulher. Comeram opiparamente, até cerca das duas e meia.
Incidentalmente, Perry, penso que o tipo começou a farejar qualquer coisa de
errado, quanto ao casto comportamento da esposa. Aquela coisa da chaperon era
boa de mais, para ser verdadeira.
— Nesse caso — observou Mason—, deve haver qualquer relação entre Hines e
Reedley.
— É o que a polícia também pensou e foram hoje interrogá-lo. Logo que tenham
acabado a visita, tentarei saber o que conseguiram averiguar.
— Mas, para que raio, iria, Reedley dar dinheiro a Hines? A única resposta que
antevejo é estar Robert Hines a trair Helen Reedley, fazendo jogo duplo. O mal é
não termos provas! A não ser que... Um momento, Paul... Creio que dei com a
coisa.
— Que coisa ?
— Lembras-te de Reedley ser um jogador inveterado? Foi num desses jogos de
póquer, que tanto aprecia, que pediu a um amigo um conselho acerca de uma
agência da detectives e o tipo lhe indicou a Interstate. Pois bem, Hines era
também um jogador. Quem nos diz que Hines não esteve sentado na mesma sala de
jogo, onde Reedley «batia» o seu póquer, com aquele seu amigo? Primeiro, pode
ter ouvido a tal consulta, acerca da agência; depois, o dinheiro de Reedley pode
ter-lhe ido parar às mãos, numa volta da sorte. E ainda pode dar-se outro caso,
Paul...
— Qual?

134
— Estou a entrever um outro quadro: esse jogador, amigo de Helen Reedley...
— Não te referes a Hines ?
— Não, mas aquele que talvez esteja apaixonado por ela... talvez o seu «mais-
que-tudo». Lembra-te de que Helen serviu-se de Hines para arranjar-lhe uma
sósia. O tal jogador seu amigalhaço, cujo nome ela ocultou, foi provavelmente
quem a avisou de que o marido iria utilizar detectives para a seguirem. O
dinheiro que esse amigo ganhou ao jogo a Reedley, foi muito possivelmente o
mesmo com que Helen pagou a Hines. É uma ironia da vida!
— Encaixa — apoiou Drake. — Quando te dás ao trabalho de pensar, às vezes
acertas.
— Quase sempre — replicou Mason, com um sorriso de, fingida imodéstia.
— Quando foi que Orville Reedley sacou esse dinheiro?
— Há coisa de uma semana. Foi ao Banco e apresentou um cheque de cinco mil
dólares, que recebeu em notas de cem. Para o ciaso de vir a ser roubado, o caixa
registou a série e os números dos maços, e não só: também fazem esse registo
para as Finanças analisarem a evolução do mercado negro e dos habilidosos que se
furtam ao pagamento dos impostos. Por acaso, Reedley tem o cadastro limpo, mas
registam sempre esses números, por simples precaução e até por mera rotina.
— Exactamente. Vais então sondar os «chuis» acerca do interrogatório que fizeram
a Reedley?
— Sim, Perry, mas não creio que Reedley tenha podido explicar como foi o seu
dinheiro parar às mãos de Hines, provavelmente, porque não faz a menor ideia. E
até é capaz de ter medo de vir a sabê-lo.
— Medo, porquê?
— Porque o perdeu ao jogo. Supõe que os polícias lhe perguntam a seguir: «Ah,
esteve a jogar? Nesse caso, diga-nos cá os nomes dos seus parceiros.»
— Tens razão, Paul. Os tipos que se metem na jogatana, não querem ser conhecidos
da polícia, visto nunca serem considerados muito seguros, por parte daqueles com
quem mantêm negócios, ou de cujos negócios dependera.

135
Drake anuiu, com um aceno de cabeça.
— Portanto — prosseguiu o advogado —, acertaste em cheio. Vamos servir à
polícia, esse Orville, quente, de bandeja. Disseste que a sua última paixão é
essa Daphne Gridley ?
— Foi o que apurei.
— Arranja maneira de os «chuis» irem averiguar esse ângulo. Dá-lhes um lamiré
de convincente suspeita.
— Já atiraste Helen Reedley às canelas de Daphne — motejou Drake.
— Tinha de pô-la em circulação, para ver se nos desenterra alguma coisa útil. O
êxito de se remexer um caldeiro é fazer com que a escumalha venha ao de cima.
— Okay, Perry, vou atirar Reedley aos lotos.
— Que mais descobertas fizeste, Paul ?
— Não creio que tenha grande importância, mas identifiquei o menino, por quem
Helen anda embeiçada.
— Quem é ele?
— Um tipo chamado Arthur Clovis.
— Como diabo o descobriste, Paul ?
— Por meio de um dos números de telefone que estava na lista «fanada» por Frank
Holt, em casa de Carlotta Tipton. Este Arthur falava para o apartamento onde
estava Eva; e Winters passava o recado a Carlotta e esta transmitia o número a
Hines, para que Helen falasse mais tarde para Arthur. Simples, como um
labirinto.
— Contudo, Hines parecia nada saber, acerca de quem era o apaixonado de Helen.
— Tanto dava. O número desse telefone estava na lista de Frank Holt. Começámos a
trabalhar, nesse campo, e pusemos a moça do PBX do apartamento, onde Arthur
vive, à cata do nome da mulher que lhe telefonava.

136
Pois bem, a dama era Helen. Depois, foi fácil. Sondámos a mulher-a-dias que lhe
limpa a casa e obtivemos uma descrição que corresponde à de Helen, como sendo a
única senhora que o visita, amiudadas vezes.
— Cuidado com essas descrições, Paul. Bem sabes como é fácil descobrir morenas
«duplas», pelas esquinas! — gracejou Mason.
— Bem sei, mas esta mulher-a-dias usou de uma expressão deveras identificativa:
disse que a «senhora era de alta voltagem. É de certo Helen Reedley.
— Já soa melhor — confirmou Mason. — E quanto a Artur Clovis, que faz ele?
Tirando um cigarro de um maço aberto que tinha no bolso, Drake sorriu e
comentou:
— Parece que és bruxo! O tipo trabalha num Banco.
- Que Banco?
— No Banco, onde Orville L. Reedley tem conta aberta.
— Raios!—-exclamou Mason. - Mas que embrulhada!
— É «caixa». Tem olhos sonhadores, de tipo idealista. Segundo apurámos, tem
passado a vida a pôr dinheiro de parte e a fazer planos, para tornar-se
independente, com um negócio qualquer, por conta própria.
— Estará em boas relações com Orville Reedley? — Tudo indica que sim.
— É ele quem lhe recebe os cheques e regista as notas de saída?
— É muito provável, visto estar numa das duas caixas de pagamentos.
— Portanto, pode ter sido ele quem detectou os números daquelas notas que foram
parar às mãos de Hines.
— Hum, hum! — confirmou Drake.
Mason franziu o sobrolho e concentrou-se, durante alguns segundos.
— Vamos lá raciocinar, um momento, Paul — disse finalmente. — Se Hines tinha o
número de telefone de Arthur Clovis, isso significa que devia supor o que havia
entre ele e Helen Reedley.

137
Se esta confiou todas as operações a Hines, dando-lhe a chave do seu
apartamento, no Siglet Manor, e encarregando-o de contratar uma substituta, não
há dúvida que Hines tinha todos os dados para exercer chantagem sature ela...
Vejamos agora o caso, sob outro ângulo: suponhamos que aquele jogador, parceiro
de Reedley e que Helen diz ser seu amigo, está também apaixonado por ela...
Fazes alguma ideia de quem possa ser?
— Bem... Hines costumava andar com um tal Orcutt... Carl Orcutt — informou
Drake. — Orcutt encarregava-o de tratar de pequenos negócios.
— Temos que investigar esse Orcutt, Paul — decidiu Mason.
— É fácil de dizer, Perry. Os meus rapazes não vão gostar dessa missão. O tipo é
demasiado esperto. Só por um grande bambúrrio da sorte, será possível
descobrir--lhe a pista.
— Vê o que podes fazer, Paul, nesse terreno. E quanto a Helen Reedley, sabes
porventura se contactou, hoje com Clovis, no seu emprego do Banco?
— Oh, não. Clovis não foi trabalhar hoje. Está em casa, com parte de doente.
Provavelmente, foi-se abaixo, com os problemas que afectam a sua bem-amada Mrs.
Reedley.
Mason levantou-se e começou a andar no gabinete, de um lado para o outro. Por
fim, admitiu:
— Tudo isto é uma embrulhada. O caso tem mais ramificações do que eu previa. Par
que raio ter-se-ia Arthur Clovis ido abaixo?
— Bem... como sabes, é um tipo muito sensível e, para todos os efeitos, Hines
foi abatido no apartamento de Helen. Isso preocupa-o, naturalmente.
— Sensível, ou não, Clovis deve ter algum nervo, quando não Helen não lhe teria
pegado. Talvez seja homem para tomar uma atitude, se necessário. Talvez até
tenha já tomado essa atitude... O teu detective falou muito com ele?

138
— Nem sequer o viu — elucidou Paul Drake. — Ia abordá-lo, como sendo angariador
de uma companhia de seguros, onde Clóvis tinha feito o seu, mas, quando chegou
lá a casa... Deixa-me, primeiro, Perry, falar-te da casa. Fica num desses
prédios que não tem átrio de portaria. Toca-se a um botão de campainha, ouve-se
um bezouro, uma voz diz-nos para entrarmos e o fecho abre-se automaticamente. Se
o locatário é desconfiado, pergunta-nos quem somos e o que queremos e, só
depois, dá-nos a música do bezouro e abre a porta.
— Que fez o teu homem?
— Andou primeiro a sondar, se seria ali que Clovis vivia, consultando o nome dos
locatários, afixado em cada respectivo botão, e ia tentar a sorte, quando surgiu
uma mulher, no passeio, apressadíssima, e se precipitou para a campainha de
Clovis. Tocou primeiro uma longa campainhada, depois, duas curtas e novamente,
uma longa. O fecho abriu-se e ela enfiou pela porta dentro. Temos uma bela
descrição da mulher: Helen Reedley.
— Há quanto tempo aconteceu isso?
— Há coisa de uma hora, aproximadamente.
Durante alguns segundos, Mason continuou a deambular pelo gabinete,
pensativamente. Em seguida, observou contrariado:
— Há qualquer coisa, nisto tudo, que não encaixa, Paul! Há uma certa
discrepância, no conjunto de factos... Tens a certeza, Paul, de que um «caixa»
bancário regista todas as notas, para cima de cem dólares, no acto de entrega?
— Bem, se são muitas, para a mesma pessoa, e se tem a certeza de que a série
está seguida, anota só a de cima, deixando, para o fim da tarde, depois da porta
fechada aos clientes, o registo mais específico. Qual o teu interesse nisso,
Perry? Pensas que as notas de cem que Hines tinha em seu poder, não vieram do
bolso de Reedley ?
— Não sei... mas devo manter-me, um tanto ou quanto, céptico.

139
O «caixa» do Banco, que disse serem aquelas as notas que deu a Reedley, é o
próprio amante da mulher deste. Ora, as notas foram encontradas, no apartamento
onde Hines foi assassinado...
- Expondo as coisas dessa maneira, também me sinto céptico! Vamos falar a esse
Clovis?
— É o próximo passo a dar — confirmou Mason. — Estou só à espera de Della, que
mandei ao Banco buscar uma certa quantia, em dinheiro.
- Em notas de cem, não?
— Sim Paul, e espero que o Banco tenha feito um perfeito registo dos seus
números de série. Olha, aí vem ela.
Della Street entrou de roldão, no gabinete.
— Olá, Paul! — saudou. — Aqui tem a «massa», chefe.
- Okay, minha amiga. Atire-se a essa carta. Vou sair com Paul e estarei
de regresso, provavelmente, dentro de três quartos de hora.
- Consta para aí —- informou Della — que Harry Gulling lhe está a preparar
um belo caldo, chefe.
— Deixe-o bazofiar, Della. Talvez lhe saia o «caldo entornado»!

16

Mason premiu o botão de campainha, ao lado do qual se lia o nome de Arthur


Clovis, e tocou, primeiro, uma prolongada campainhada; depois, duas curtas,
seguidas de outra longa. Quase instantaneamente o fecho automático abriu-se.
- Qual é o número da porta do apartamento, Paul? - inquiriu Mason.
- Duzentos e onze — esclareceu Drake.
- Tem elevador?
- Não sei, mas deve ter escadas.
Sorrindo, Mason meteu por elas, até ao segundo andar.

140
Chegado ao 211, bateu com os nós dos dedos, gentilmente.
— Porque voltaste para trás, Helen? — proferiu uma voz masculina, enquanto
alguém abria a porta de par em par. Ao deparar com Mason e Drake, o homem
estacou, de boca aberta.
Com o ar mais afável possível, o advogado indagou:
— É Mr. Clóvis, segundo creio?
— Exactamente.
— Chamo-me Mason e este amigo é Mr. Drake — apresentou Mason, passando em
frente do outro e sentando-se. Sorriu e continuou:
— Falei com Mrs. Reedley, como sabe... Creio que ela já lhe mencionou o nosso
encontro.
— Foi ela que o mandou cá? — admirou-se Clóvis. Mason mostrou-se surpreendido.
— Ela... Quer dizer que o senhor ignorava que eu vinha?
— Não.
— Bem, o melhor é fechar a porta e sentar-se também, já que o que vamos tratar
não interessa aos demais inquilinos do prédio. Quero que me conte o que
aconteceu precisamente, quando Orville L. Reedley levantou aquele cheque de
cinco mil dólares. Creio que foi o senhor, Mr. Clóvis, quem tomou nota dos
números de série.
O rosto de Clovis mostrou uma expressão de alívio.
Ah!... isso! Não tem importância. Esteve cá um tenente, Tragg, do Departamento
de Homicídios a interrogar-me a esse respeito e foi redigido um relatório que
assinei, nessa altura.
- Recebeu, portanto, o cheque das mãos de Reedley?
- Sim.
- Já trabalha nesse Banco há muito tempo?
- Vai para quatro anos.
- Nesse caso, conhece bem Orville Reedley?
- Só como depositante.
- Costuma vê-lo frequentemente?

141
— Sim. Acontece que estou encarregado da caixa de «L» a «Z», que inclui
obviamente as contas bancárias de «R», o que me faz contactar com Mr. Reedley,
com bastante frequência.
— Ele faz grandes levantamentos?
- Lamento não estar era posição de discutir as acções de um cliente do Banco.
Mas, se quiser dar-se ao incómodo de falar com o gerente... sem dúvida
que...
- Farei isso depois —- interrompeu Mason. - De momento, estou apenas interessado
em descobrir as suas relações pessoais.
— Que quer dizer com isso?
- Está apaixonado pela mulher de Reedely?
- Oh, Mr. Mason! Francamente!...
— Então, então!... Deixemo-nos de dramatismos! — prosseguiu Mason.
Ponhamos esses pruridos, para trás das costas.
— Essa, observação é...
Como Clóvis hesitasse, Mason completou a frase:
- É verdadeira.
- Está a meter o nariz num assunto que lhe não diz respeito. De
qualquer modo, é um raio de impertinência...
- Não esteja a perder tempo, Clovis. O que mais lhe interessa, acima de tudo, é
evitar toda a espécie de publicidade, além de que sabe muito bem que isso seria
a última coisa, que Helen desejaria. Estou de posse do factos essenciais, pelo
que não lhe vale a pena dramatizar a questão. Podemos poupar imenso tempo, se
formos francos, um com o outro.
- Depreendo que o senhor é advogado - disse Clóvis subitamente.
- Exacto.
- Qual é o seu interesse directo, neste assunto?
- Estou a proceder a uma investigação, no interesse das minhas clientes.
- Quem são as suas clientes?

142
- Adelle Winters e Eva Martell. Conhece-as?
- Não.
- Nesse caso, não precisa de hesitar em responder às perguntas.
- Mas trata-se de um assunto que não quero discutir.
- Se for necessário, posso entregar-lhe uma contra-fé, pana ser inquirido
oficialmente, no tribunal e, nessas circunstâncias, terá de depor, no banco das
testemunhas, em frente de uma data de gente e dos jornalistas.
- Não creio que a Lei o autorize a isso, Mr. Mason.
- Infelizmente para elas, já outras pessoas foram dessa opinião... e até
advogados...
- Que deseja saber? - cortou Clovis, notoriamente preocupado.
- Desejo saber por que motivo Helen construiu todo este cenário, em sua volta;
desejo saber por que razão você tem tanto receio de que se conheça as relações
de intimidado com ela.
- Entre nós não existe a menor intimidade — defendeu-se Clovis.
Ela abandonou o marido, pelo que não há motivo...
- Reedley é terrivelmente ciumento, extremamente possessivo e violento.
- E você tem medo dele ?
- Medo dele? — exclamou Clovis, indignadamente.— Raios! Há dois meses, quis dar-
lhe a lição que merece, mas Helen interpôs-se, proibindo-me de ir procurá-lo.
Ela tem-lhe um medo de morte. Reedley quase lhe destruiu a vida. Helen tornou-se
uma mulher nervosa, apavorada, e fraca.
- Sabia que uma outra mulher andava a personificar Helen Reedley?
- Não.
- Sabia que Helen não vivia no apartamento da Siglet Manor?
- Ela contou-me ter cedido esse apartamento a uma amiga.

143
— E deu-lhe a sua nova direcção, no hotel?
— Sim.
— Viu-a lá?
— Sim.
— Saiu com ela?
— Sim.
— No mesmo restaurante do costume?
Clóvis ia dizer «sim», mas reconsiderou, declarando: — Não, na realidade,
passámos a ir a outros restaurantes.
— Bem sei, mas mão faz qualquer ideia do motivo de todo esse sigilo?
— Não via razão especial...
— Até que Hines veio procurá-lo — finalizou Mason.
Clovis fitou Mason e repetiu, como se se tentasse recordar do nome:
— Hines?...
- Hines não veio falar consigo?
— Porque pensa isso?
— Veio, ou não veio? — insistiu Mason.
— Bem... sim.
— Quando?
— Na manhã do dia três deste mês.
— Que lhe queria?
- Eu... Não vai acreditar-me, Mr. Mason, mas não sei o que pretendia.
— Ele não lho disse?
— Não.
— Deu alguma justificação para vir, então, procurá-lo?
— Não.
— Não tentou exercer chantagem sobre si?
— Não penso que fosse essa a sua intenção.
— Nesse caso, o que pensa?
— Nessa altura, ainda não estava a par da situação de maneira que falamos de
coisas banais...

144
— Conte-me exactamente o que se passou - intimou Mason.
— Eu estava de servido, no Banco. Hines veio ao meu guichet, numa altura, em que
não havia mais pessoas para serem atendidas. Quando me disse o nome, respondi-
lhe que se enganara e que a sua «caixa» era a do lado, de «A» a «K». Então ele
riu-se e respondeu-me que estava exactamente no guichet que lhe interessava.
— E depois?
— Começou a fazer várias observações enigmáticas e eu não conseguia
perceber aonde ele queria chegar.
— Lembra-se do que ele lhe disse?
— Bem... mostrou-se bastante misterioso. Disse que pretendia levantar
algum dinheiro a crédito e que a pessoa que poderia endossar-lhe esse
levantamento era um dos depositantes nominais da minha caixa. Em seguida,
inquiriu: «Suponho que conhece Orville L. Reedley e sua mulher, Helen Reedley ?
Não respondi à pergunta e disse-lhe polidamente que se dirigisse ao Departamento
dos Depositantes.
- E ele, como reagiu ?
— Começou a virar-se nessa direcção, mas parou, sorrindo e declarou: «Tenho a
impressão de que já o vi, em qualquer lado.» Respondi-lhe que não tinha a menor
ideia e, então, mencionou ter uma amiga que vivia nos apartamentos do Siglet
Manor e indagou se eu sabia onde era.
— Você, que lhe disse ?
— Virei-lhe as costas e embrenhei-me no meu trabalho. Hines
foi-se embora.
— Sabe porventura se ele se dirigiu ao Departamento de Depositantes?
— Não. Saiu do Banco.
— Hines intimidou-o, ao declarar que ia obter um empréstimo,
avalizado por Helen Reedley ?
— Ou por Orville Reedley. Foi o que admiti, mas realmente, não podia ter uma
certeza.

145
- Compreendo. Nada disse, portanto, que sugerisse uma tentativa, ou ameaça de
chantagem?
— Chantagem? Não. Limitou-se a fazer aquela breve insinuação.
— Pareceu-lhe ameaçador?
— Não. Mostrava unicamente uma segurança, de certo modo untuosa, subserviente.
— Que tenciona você fazer, agora que as castanhas estão ao lume?
— Que vou fazer ? — exclamou Clovis. — Vou ter com Orville Reedley e dizer-lhe
que está a arruinar a vida de Helen, recusando-Ihe o divórcio. Na realidade, ela
não precisa do seu consentimento, para nada. Posso ser desagradável... posso...
O diabo que o carregue! Estou pronto a lutar. Não estou disposto a ser atirado
para o lado!
— Está absolutamente certo de que Hiines não cobrou um cheque?
— Quando ?
—¦ Quando foi falar consigo ao Banco?
— De maneira nenhuma. Pelo menos, mao na minha caixa. Não atendo cHentes de
letra «H». E pela maneira como ele falou, não creio sequer que tenha conta
aberta no Banco. Não fui verificar, mas estou quase certo de que não é nosso
cliente.
—'Portanto, está certo de não ter dado a Hirtes um cheque no valor d© cinco mil
dólares? E é um facto ter dito à policia que pagou a Orville L Reedley o cheque
que ele lhe apresentou dessa importância? Não terá o senhor mentido à policia,
quanto à pessoa a quem entregou o dinheiro, contra esse cheque?
—'Por favor, M,r. Mason! Porque pensa uma coisa dessas?
—Não sei e gostaria de saber. Mis. Reedley sabe que você tenciona ir falar com o
marido?
— Disse-lhe que o fazia.
— Que respondeu ela?
146
— Suplicou-lia que não fosse. Afirmou que isso seria ainda pior e qii" o marido,
então, recusaria o divórcio, par todos os im.o?. Acrescentou que, dessa maneira,
ela ficaria inteiramente nas mãos dele.
Mason fitou Clóvis intensamente e inquiriu:
—• Alguma vez, em qualquer circunstância, você teve, em seu poder, uma chave do
apartamento de Mrs. Ree-dey?
—'Mr. Mason, isso é uma insinuação infame - explodiu 'Clóvis. — O senhor não
tem o direito de...
—Deixe~se de dramas e responda à minha pergunta —¦ cortou Mason, calmamente.—-
Alguma vez teve em seu poder utma chavo do apartamento do Siglrt Munor?
—'Não,
—Nem^por um período de tempo muito breve? Nemi sequer para ir lá buscar qualquer
coisa que ela tenha pedido?
—•Não.
—'Hines tinha uma chave — observou Mason.
—'Sim, mas estava a trabalhar para ela. Tinha de entrar e- sair.
—E Mrs. Keedley nunca lhe deu uma chave, para ir àquele apartamento, fazer-lhe
um recado, nem sequer por um breve instante?
— Nunca! Se Helen quisesse algo do seu apartamento, iria lá pessoalmente. Nunca
teria pensodo em mandar-me lá acima, com a chave.
—Tenho tentado decifrar uni enigma, relacionado com essa chave, e esperava que a
sua resposta mo esclarecesse.
—S6 ihií posso dizer o seguinte -acrescentou Clóvis. — Orville Beedley é um tipo
intensamente possessivo e ciumento; absolutamente intratável. Nau só recusou
conceder o divórcio :i 1-leten, mes também a ameaçou de impugnar a !'!cc;.,i que
ela lhe instaurasse, nesse sentido. E Helen colocou-si-lhe nas mãos, ficando a
mercê da sua
147
..^prepotência, no mamento em qoe lhe confessou gostar de outra pessoa.
—'Ela tem algiima testemunha dessa discussão que travou com o marido?
—* Não. Foi apenas entre eles. Mas Helen é incapaz de mentir. Se o marido a
colocar no banco das testemunhas, ela repetirá textualmente o que se passou.
Será incapaz de negá-lo, porque <a sua natureza é mesmo assim.
Após um momento de silêncio, Mason tornou a perguntar:
—'Você estava, portanto, de serviço, no dia três deste mês. Mantém a afirmação
de que foi nesse dia que Hi-nes foi falar consigo ao Banco.
—> Absolutamente! —¦ confirmou Clóvis.
—'Foi, portanto, no dia do assassínio de Hines?
—• Exactamente.
—'Viu Mrs. Reediey, nesse mesmo dia?
—¦ Sim, estava no oafé-restauranfce, onde habitualmente almoça, quando se
encontra só. l
— A que horas?
—> Ao medo-dia e meia hora.
—Já sabia que iria eneontrá-la aí?
—'Bem... eu...
— Já lá a tinha visto, antes ?
— Sim.
— Que aconteceu nesse café-crestaurante?.
— Acabámos por almoçar, ali mesmo.
—'Eia proferiu qualquer frase que lhe permitisse, a si, depreender que estava a
par da sua conversa com Hines?
— Não. Deu-me a entender que o conhecia ligeiramente.
— A que horas se separaram ?
— Um pouco depois da uma e meia.
—¦ Pensei- tê-lo ouvido dizer que se tinham encontrado
148
para almoçar, ao nieio-dia. e meia. hova observou Mascai.
— H: venda de.
— Levaram mais de uma hora a almoçar?
— Bem....- eu não me sentia bem, nesse dia... e até fiquei doente, o resto do
dia, com dores de cabeça.
—'E meJlloi', Clóvis, dizer-me a. verdade, porque me é fácil verificar tudo
isso, no registo do Eanco. Quantos dias faltou você ao serviço, durante os
últimos seis meses, por causa dessas dores de cabeça ?
Clóvis hesitou.
—•Então>, homem-.- exortou Mason. -¦- Seja franco comigo. Quantos dias?
—"Apenas no dia três e hoje.
—¦Significa que você nunca faltou, até Hines ter sido assassinado.
—¦ Sim. Não tenho culpa que Hines tenha sido morto, nesse dia três.
—Uma coincidência? Muito bem. Diga-me agwa, aonde foi Helen Reedley, depois de
ter saído do eafé--restaunante?
— Não sei.
— Tentou segui-la?
¦—-Mr. Mason! Tenho-me mostrado paciente consigo, até agora, e tenho respondido
a. uma série de perguntas que não são da sua conta, se me permito que lho 'liga.
Agora, chegou n altura de lho pedir, a si. e ao seu companheiro, pai'a so
retirarem. Na verdade, smto-me demasiado nervoso, para continuar a responder a
todo esse interrogatório.
—' Posso, portanto, admitir que a seguiu?
— Por favor, Mr, Mascn, queira sair deste aparba-mento.
MJason, olhando para Paul Dralte, íez um sinal de assentimento.
— Creio que iá obtivemos quanto queríamos ¦-¦ comentou.
149
fe\
r, os dois dirigiram-.1»© pana a porto, mas, antes de sair ^ara o corrector,
Mason virou-se pana Clóvis e fez-lhe mima derradeira pergunta:
— Seguiu-a, durante todo o percurso, até ao Siglet Manor?
Numa mutismo digno, Clóvis recuou e fechou a porta.
—¦ Que vais fazer com isto, Perry ? — initoeressou-se Drake.
t— Diabos me levem, se sei — retorquiu Mason; — Clóvis está tentando protegê-la
de qualquer coisa. Sabe qualquer coisa acerca dle Helen, que o aterroriza. Deus
sabe, como eu gostaria de descobri-lo. Temos uma mulher de «alta-jvoltagemi, que
se entregara a um tipo dm&mico e potente, para, depois, trocá-lo por um outro
tipo, sensível e imaginativo, por mero instinto maternal. E não há nada miais
feroz do que essa espécie die instinto, mas fêmeas com crias.
—'Aonde é que.isso te leva, Perry? E que vamos fazer agora?
— Temos de ir ao encontro de alguma coisa que destrua a estratégia de Harry
Gullinig. Ele tenciona... e vai, de certeza... atirar-me perante o Grande Júri.
Tenho que dar-lhe na cara, com una factor surpresa, antes que me enrede nas suas
malhas.
17
Durante os momentos de tensão que precederam a chegada ido juiz à sala do
tribunal, os sussurrados comen-, tários dos espectadores lembravam um vespedro
monstruoso. Uma das causas era ter Harry Gullinig decidido estar presente
pessoalmente, nessa audição preliminar, representando a Procuradoria do
Distrito, por parte da Acusação. Os jornais tinham vaticinado um formidável
pleito, entre Gulling e Perry Mason, encarregado da De-
150
v QUanâo o deputado do sherife introduziu no' balcão gala de audiências,
destinado aos réus, AdelJe Win-e Eiva Martell, Perry Mason dirig-iu-
se para elas, osamente, scrrindo-lhes e apertando-lhes as mãos. ^pòis,
evidenciando inteira confiança, virou-lhes as cos-"•, para sentar-se no seu
lugar, à frente delas. Vendo Paul Dr&lce entrar na sala, foi ao seu encontroa
—'Vem sentar-lc perto de mim, Paul.......pediu-lhe.—
jVau entregar-te uma coisa sub-repticiamente. Não quero que minguem veja.
— Que é?
Sem responder directamente, Mason observou: —¦ Gulling vai encabeçar o
debate, pessoalmente, por
porte da Acusação.
—¦ Isso é deveras estranho, numa audiência preliminar!— admirou-se o
detective.---Ele é o consultor téc-liico do Procurador do Distrito.
— 2: caso único. Deve estar certo de poder atordoar o júri, nesta primeira
sessão, com provas que considera esmagadoras. E é muito provável que pretenda,
desen-cadaar um lataque directo contra a minha pessoa, colo-cando-me numa
posição de cumplicidade com as rés. Se o conseguir, não haverá, segunda
audiência, porque o barco vai 'ao fundo, imediatamente. Para evitá-lo,
arquitectei <uim expediente que exige a tua colaboração. Agora, tomia atenção,
Paul: preciso que verifiques, como testemunha, o conteúdo desta carteira. È
minha o necessito urgentemente que faças o inventário do que eontôm.: algumas
notas em dinheiro, alguma;; cartas, a minha carta de 'Condução e mais .alguns
papeis, sem importância. Quero que Gulling encontre esta cari eira, nos lavabos
dos homens.
— Vai ser difícil - - advertiu Drake.
—'Não, não vat Arranja um dos teus detectives e diz-lhe quie a.
plante nesse lugar. Põe ou tio no corredor, 'em postslo de poder íazer-lhe
um sinal, quando vir : Gulling encaminhar-se para lá. Quero que Gulling a en-
151
eontre, mas de maneira natural; não pode desconfiar que foi «plantada>
intencionalmente.
— Okuy, vou tentar — prometeu Drake.
Mason aproximou-se iwais do amlgfo e enfiou-lhe, disfarçadamente, a canteira na
algibeirei exterior do casaco.
.......Certiíiea-te de que Gaiilling a encontra o que a
guarda consigo.
Neste momento, foram interrompidos pelas marteladas rituais do meirinho,
ordenando aos presentes que se levantassem. O juiz Homer <3. Lindale entrou na
sala, de audiências, tomou o seu lugar ma tribuna e fez uma ligeira saudação aos
espectadores. Logo a seguir anunciou ir dar-se início aos debates do caso «O
Povo versus Adelle Wintera e Eva Martell».
— A Acusação está pronta — proferiu Harry Gulling.
— Pronta, a Defesa—disse Mason.
-Queira proceder—'indicou o juiz Lindaie a Gulling.
— - Senhor Doutor Juiz—prologou ele —, a minha primeira testemunha será (Samuel
DDixon.
Dixon, numa atitude rígida, sulbki para o estrado das testemunhas, jurou sobre a
Bíblia 36 dizer a verdade, nos termos usuais, e sentou-sè. Interrogado por
Gulling, declarou ser agente, em serviço da rádio-patrulha da Polícia, e que, no
dia três desse mês, recebera uma ordem do Comando, para se dirigir ao edifício
de apartamentos. Siglet Manor, a fim de investigar uma ocorrência verificada no
apartamento n.° 326. Ao chegar a esse loca!, encontrara amíbas as íés,
mostrando-se Eva Martell notoriamente nervosa e um pouco histérica, enquanto que
Adelle Winters se mantinha extremamente calma e reservada. As acusadas
apomtanam-lihie um cadáver, sentado numa poltrona do quarto dle cama, e
informaram tratar-se de um homem chamado Rdbert Dover Hines.
"ao (uns posição estava o ejr.iãv."-" inquiriu G-u:iing.
Sentado, inclinado para o lado direito e com a ca-
152
beça i -mbada ( 'ire o ombro. Apresentava, um orifício, a meio da testa, quase
entre os olhos; pelos resíduos de pólvora, nos bordos do ferimento, podia
deduzir-se tra-tar-se de uim orifício causado por bala, desfechada, a pouca
distância. Produzira-se uma hemorragia, escorrendo o sangue pelo rosto e camisa
do morto. O ensaco deste ojclíavta-fie colocado nas costas da poltrona onde se
eneonitriava sentado.
— Otitm uma bala na fronte? - precisou Gulling\ sarcástico.
--Sim, com um orifício, a meio da testa, causado por bala.
Mason interveio, declarando:
—¦ Quero contra-iní.errogar esta testemunha, acerca da natureza dessa bala, com
o propósito de averiguar a materialidade do corpus rMic/í. antes que outras
quaisquer perguntas sejam formuladas.
---•Mias a testemunha não viu a. bala. — observou Gullinr*.
.....Nesse caso, como pode afirmar, numa declaração
testemunhal «do que viit». que o orifício foi causado por uma bala?
.......O ittédico-lerrista, que efectuou a autópsia, infor-
moií-o desse facto — replicou Gulling. elevando a voz, o que levou O juiz
lym.dale a sorrir.
ModertuHdo-se, Gulling continuou:
ÍSCuito bem... provaremos primeiro o corpus de-lirti. Queira levantar-se, Ivtr.
Dixon, c dar o seu lugar a Mrs. Helen Reedley.
Cora evidente relutância, Heler. Reedley prestou juramento e senteu-se
na, cadeira, das testemunhas. - Oanheaeii Uobert Hinos, enquanto vivo?
Ston.
Vtu-O, !'•> dia três deste mês? Mão, ni ¦¦ !'a.i< i com ele por
telefon. Vira-O ;:!i''; 'lesse data.'.'
.......3im, várias vezes.
r ;« >\-
— Sabia, portanto, qtHam <4e «& ?
-- Sim.
--Alugou ura aipartameiato no edifício Siglet Manor, cem o n." 326?
— • Aluguei.
--Autorizou Mr. Hin.es a ocupar esse apartamento, para o que lhe deu a
chaive? Sim... teniporariamentie.
— -E no dia quatro deste mês, foi à morgue, a pedido da polícia, identificar
uim cadáver?
— Fui.
-.....Reconhocau-o?
— - Sim.
De quem ena?
De Mr. Hiltes. -— Robert Denver Hita.es? --- Sim.
-.....A mesma pessoa a quem dera permissão de ocupar
o apartamento ?
— Sim.
Olhando para os papéis, coloiclados sobre a mesa da Acusação, e sem fitar
Mason, Guttling indicou:
—- Contra-interrogatório.
Mason. tranquilo, incllnou-se ligeiramente para a frente e inquiriu:
— Ao autorizar Mr. Hines ia ocupar o sen apartamento, entregou-lhe uma
chavte do mesmo"
-- Sim.
—- Com que finalidade Mie entregou essa chave e o autorizou a ocupar o seu
apartamento?
Sobressai* ando-se, GuMlng interveio:
-.....TJm momento, Sr. Or. Juiz: objecção, por a pergunta ser
incompetente, irrelevante e imaterial... imprópria em cciitta-
initerrogatlório. A testemunha foi unicamente ¦'-: -"¦•' i para
estabelecer a identidade do morte, ¦ 'ia.da. mais
-Ní'sxc .-a», porque perguntou ã fesi.om'mha se dei':!.
164
no extiofo, aufcOrv-açào para. ocupar o apartamento?-,— replkou Mason.
- Porque, dessa maneira, mostrava que elo estava ai.
- -ExactaaanesiÁ.e. Por isso mesmo, estou tentando averiguar, por que motivo se
encontrava o extinto nesse apartamento.
- Mas, St,. Er. Juiz — objectou Gulling-—, eu não tinha intenção de abordar o
assunto, nesse sentido.
- Mias tenho eu — retorquiu Mascn.
Num tom de voz que denunciava exaltação, Gulling acrescentou:
- - - Oom a permissão do Tribunal, devo esclarecer que não prebendo o advento,
neste debate, de matéria estranha, à Acusação: Mr. Mason tem toda a liberdade de
fazer a sua defesa, mas não pode arrastar, para o. pleito, assuntos que a
Acusação não tem a intenção de introduzir no3 debates. Ora eu apenas tive
intenção de localizar o cadáver, no apartamento de pessoa que o identificou. A
testemunha não pode ser inquirida acerca de motivos, não expressos pela
Acusação. Se falei no facto de o morto ter ocupado o apartamento e dele possuir
uma, chave, foi com o objectivo de poder provar, inais tarde, a introdução,
nesse lucrar, das duas rés, com o premeditado propósito de assassínio e
roubo.
--Por isso mesmo -—apontou Mason, acidamtemte—, o Tribunal deve saber qual a,
razão que levou as acusadas a esse apartamento e qual o papel do extinto Mr.
Hirtes, que se tornara seu ocupante, com e epecial autorização da testemuha,
• Isso interessa-1 he ao se» caso; não ao meul
- <Na iminha opinião interessa sobretudo ao Tribunal a quam compete
fazer ,'ustiça. De resto, não cometi qualquer infracção técnica à Lei e ao
regulamento dos debates. 'Se a Acusação abriu uma porta?, perguntando à
testemunha se. entregara uma chave ao extinto, com explícita autorização para
ocupar o apartamento onde foi morto, tecrmos doai casos a considerar: ou essa
auto-
155
rização foi dada ]MSBMRMHMBr,()'' Vi:l "' escrito, a Defesa W^^B|1||HP de ver
es.1 cumental apen^i m.tàfâli)fifa;'[0 -c tintou &> )áHlk,'|»er-misKão verbal,
né^^^Hp, *.|>í , la íegal estipula que, se a Acusação mdftH^i a» ptèàbi )>ti>tc
de uma conversa, a Defesa tem o d «eito de exigir a mtiodução drasSB,eon-versa,
integralmente, na tua totalidade.
— Vamos ficai lagut todo O 'Inverno, Sr. Drí Juiis — protestou Gulling
iradamente—k se vamoá consentir a Mr. Mason uma constante Infiltração, nos
debates, de pormenores de técnica • forense absolutamente preaedn-díveis.
O juiz Lindale fitou GulUmig «¦ interveio:
— Não acho que se trate de p<>rn;enores prescindíveis, como também não> posso
comserat:s que se menosprezem as regras de técnica forense. Para isso foram
efltjpula-das. Com efeito, a Liei é daramente explícita, quanto a esse caso: se
parta de uma convtrsa for introduzida, em debate, pela Acusrucâo, a Defesa tem o
direito de obter a reprodução de toda essa conversa. Sughx>, pois, Mr. Mason que
reformule a sua-pergunta, nos termos convenientes.
— Muito bem- -disse Mason, num gesto de agradecimento ao juiz, c, virasadOise
para Helen Keedley, sorriu, inquirindo:
— - Declarou ter <£adb a Robert Hines autorização pana ocupar o seu
apartamento?
— - Sim, senhor.
— Deu-lhe ess.' autorização por escrito, ou apenas verbalmente ?
—- Verbalmente. ¦
--Que mais foi dito, nessa conversa? ...... "
— Sr. Pr. J".iz —, gritou Guilir ^ - -. ]•>!"./T«to vaemem-tr mento. Objecto
oootaa este. «MiUd-jcm ãi matéria' estranha ao processo) estabelecido pela
Acusaijfio.
10»
!-M9ifS%M?
me a sondar a Verdade, ou seja, tenha"'*** Justiça e apenas emprego um método
flMason.
'-"'*,"
ão rejeitada — decidiu o juiz. — Queira Utr. Mason. A testemunha
responda à per-
Helen Rieedley, escolhendo cuidadosamente as paia-teobORl
desesperadamente denunciar o menor número
possível. •1Í8© me recordo inteiramente dessa conversa. F&-Vári&s vezes sobre
o assunto. Mias nessa, altura, jando dei a ?,Tr. Hines permissão para
ocupar o meu
'Um afcomento, Sr. Pr. Juiz — interrompeu nova-
OuÊXkig. — Está em questão uma única conversa'
'/Bâo todas as restantes. O contra-interrogatório terá de
ngir-se «d teor dessa única conversa.
—i Jlem ¦— anuiu o juiz —, talvez o advogado da Bro-
do Distrito esteja, agora, tecnicamente dentro
raz&o lagal. Mas, na realidade, sendo >a missão do
fezer Justiça, e só podendo esta ser alcançada
Ia «vidência da Verdade, teremos de esclarecer por
motivo se operou uma dupla personificação d:a
—'Mtas não se trata de dupla personificação, Sr. I>r. aiz—-protestou
Gulling.— E eu não mencionei
—''Consta do processo — observou o magistrado. * —'Mas não falei
disso e a testemunha apenas deda-¦fcar cedido o seu apartamento.
—'Ora, ora! -contrariou o juiz. — Não há dúvida que ez a mniti mulher de
aparência física absolutamente à sua, Lo:n a, indicação expressa de usar o seu
a«. Ootftudo, I- Tribunal definira os limites do contrario, cinginde-o à matéria
<¦ ou st ante do tmte-reeto. Prossiga, Mr. Mason.
157
—'Declarou que não viu Robert j Hines, no dia três
deste mês ? : '
—• Sim, senhor.
—¦ Está certa disso ?
—¦ Absolutamente!
—¦ Onde esteve, ao meio-dia e meib. hora desse mesmo
dia? !
I —'Eu... estiva a almoçar. |
—¦ Sozinha ? , '
— Objecção ^—gritou Gulling, num salto—, por ser pergunta" incompetente,
irrelevante ie imaterial; imprópria de contra-internoigaitório.
O juiz Lindále ergueu as sobrancelhas interrogativamente e olhou,de Gulling para
Mason, indagando:
—¦Decerto á Defesa vai perguntar à testemunha se a pessoa com quem almoçou era
Mr|. Hines, não?
—¦ Não, Sr. i Dr. Juiz. Meramente desejava seguir os movimentos da; testemunha,
desde o pomento do almoço, até ao morneinfo do crime. E um o^rapo muito
restrito, quanto ao 'factor tempo, pelo que ijião demorará demasiadamente o !
oontra-interragat6rio. I A Defesa sõ pretende verificar!se a testemunha
não;teria visto, efectivamente, o finado Mr. Hines, durante aquele período, já
que afirmou nâo tê-io feito, durante o dia inteiro. •¦ —¦ Queira iiiquirir —¦
decidiu o magistrado.
—'Acabou de almoçar, por volta.da uma e meia?
—• Sim, senhor. j
—• E aonde foi ?
Helen olhou desesperadamente Juara Gulling.
—. Incompetente, irrelevante, imajterial —¦ recitou este,
mecanicamente. — Impróprio de èontra-intenrogatório.
—¦ Objecção: não aceite — disse iLindale.----Responda
a testemunha. | 1
i
— Eu... eu [fui.... a um certo restaurante.
-Mas declarou quie já tinha almoçado — estranhou 158
Mason. — - Foi a outro restaurante, com o fito de ver outra pessoa? —
Bem... sim.
— Viu-a? —'Não.
—¦ E essa pessoa era Robert Hines ? —¦ Sim.
— Viu-o ?
— Não, como acabei de declarar.
—• Falou, porventura, com ele ao telefone ?
—¦ Tinha-lhe telefonado mais cedo, nesse mesmo dia.
— Telaf osnou-lhe, depois «3a uma e meia ? —• Não.
— Tentou ?
— Sim.
—'Ligou para o número que ele lhe diera, para esse etf eito ?
— Sim.
—'O número de um outro apartamento do Siglet Manar ?
—'Eu não... Bem, creio que sim.
— Crê?... Quer dizer, sob juramento, que não tem a certeza?
Helein tornou a olhar para Gulling, como a pedir socorro, mas ele encolheu os
ombros e 'afastou as mãos, num sinal de impotência, perante a determinarão do
juiz.
—Sim... Ê de outro apartamento do Siglet Manor.
—Um apartamento .alugado por Carlotta Tipton?
—. Creio que sim... isto é: sim.
— Viu alguma vez essa Carlotta Tipton?
—¦ Nunca falei com ela, mas vi-a, uma ou duas vezes, no elevador do edifício.
—'E quando foi a esse restaurante, depois de já ter almoçado, fê-lo na intenção
de ver Mr. Hines, por ter motivo para pensar que ele estaria aí, a almoçar?
— Sim.
159
—E não tentou contactar com .-lo antes da uma e meia? i!i muito
tarde, para almoç© <•, nã-O' acha? (*) —'Bem... podia estar a acabar.
— -Mus admite a grande probabilidade de já não conseguir encontrã-lo, não é
verdade?
— Sim.
—-Se fosse mais cedo, teria podido contactar com ele?
— Eu... creio que sim. Mas pensei que talvez ainda lá o encontrasse.
— Tentou a sorte, sem qualquer segurança, embora quisesse falar-Ihe ?
—• Se quer pôr a questão nesses termos... sim.
—¦ Portanto', o seu interesse em contactar com M;r. Hi-nes, deveiu-síe a
qualquer facto acorrido nesse dia?
—. Sr. Dr. Juiz —• interferiu Guflling, num tom, entre indignado e lamentoso—,
tenho ide objectar novamente. Está sendo pedida uma conclusão à testemunha.
—¦ Não uma conclusão da testemunha, mas uma conclusão do advogado da Defesa —
corrigiu Miason, sorrindo.
O juiz Iindaie fitou o adjunto do Procurador do Distrito com evidente desaguado
e observou::
— A conclusão é igualmente óbvia, para este Tribunal. A Acusação protestou, há
pouco, contra a possível morosidade dos debateis, se fossam consentidas
objecções constantes, por parte da Defesa, .'mas verifica-se, Mr. Gulling, que é
a própria Acusação que prolonga os mesmos debates, por interrupções
sistemáticas. Visto que não s© trata de uma discussão, perante um júri, pare-ce-
me dever dispensar tantas objecções técnicas.
— Vou dispensar a resposta —• concedeu Mason, com uma vénia dirigida a Gulling-
—, e só tered urna ou duas
(*) Na costa ocidental dos E. U. A. (Califórnia — Los Angeles), onda se
desenrola a acção, como na g-eneralidade do país, o horário de trabalho
estahelece-se das 08 h às 12 h e ldos 14 h às 18 h, pelo que os restaurantes
servem habitualmente as Èuas refeições de almoço, entre o meio-dia e meia hora e
a uma e meia. (N. do T.)
160
perguntas mais a fazer. Diga-me, Mrs, Reedley, se, durante a referida conversa,
no apartamento do iSiglet Ma-nor, entregou sertã quantia, em dinheiro, a Mr.
Hín«»?
— iSlm.
— Em notas de cem dólares? —"De cem e de cinquenta. —• Quanto ? —• Quinhentos
dólares.
— Recebera essa importância das mãos de seu marido?
Num salto, Gulling pôs-se de pé e mdigwou-se: —• Sr. Dr. Juiz, é óbvio que Mr.
Mason 'está formulando as perguntas, de maneira a forçar-me a apresentar
sucessivas objecções técnicas, não só para demoirar os debates, unas também para
que me seja atribuída a culpa dessa demora. Eu...
— Mr. Gulling- —¦ cortou o juiz, ide cenho franzido. — Até agora, o Tribunal não
tem considerado pertinentes as repetidas objecções da Acusação. Por isso se
apela para uma maior colaboração, de parte de ambos os aidivo-g"ados, no sentido
de se descobrir a Verdade que, certamente, a Acusação não quererá ocultar.
—. Aprecio devidamente a decisão do Tribunal — agradeceu Mason —, e apresso-me a
justificar a, atitude da Defesa: a presente situação pode vir a reflectir, de
certo modo, a minha integridade profissional, peto que peço autorização para
explicar o propósito da pergunta, ora formulada,
—.Faça o favor — concedeu o juiz, denunciando evidente interesse.
—. Entende a Acusação demonstrar que, no momento em que Hinos foi assassinado,
tinha em seu poder uma carteira, com cerca de três mil dólares, em notas de oam
dólares. Torna-se vital, para ia Defesa, averiguar se essas notas provieram de
qualquer transacção eoin a testemunha, Mrs. Reedley, ou se estavam na. carteira
de Hinies
6 - V. 376 161
I
em consequência ide uma transacçê > com outra pessoa, ou ainda do qualquer outra
fonte.
Os olhos do juiz Lindai© «HatiuMiaram um interesse crescente e virou-se para
Gulling. sondando:
—'Este procedimento é bastante correcto, não acha, Sr. Adjunto do Procurador do
Distrito?
—' Sr. Dir. Juiz, tenho de sublinhar respeitosamente que a 'Defesa está, por
esta via, alterando a ordem do processo estabelecido pela Acusação «...
—'Mr. Mason acatou de fazer uma declaração explicativa. — cartou o juiz,
impacientemente—¦, pelo que inquiro da Acusação se, efectivamente, essa
explicação está aproximadamente de acordo com os factos e com o legítimo
procedimento jurídico. Que tem a dizer, Mr. Gulling? —¦ A declaração esta
aproxim adamewte correcta, mas não posso permitir que o conta a-interrogatório
alargue os seus limites, para além do estipulado pelas regras forenses. Se lhe
consentimos que abra exageradamente «e porta»...
—' Se 'encara a questão, sob um prisma estribammt' técnico —¦ contemporizou o
juiz —, não há dúvida qu< esta matéria não foi abordada no interrogatório
directo Mas se formos a observar todos as minúcias técnicas, < prolongamento dos
debates, que tanto preocupa a Acusa ção, será inevitável e a verdade dos factos
será enublad por omissões condenáveis. 'Objecção anulada. Queira prós seguir,
Mr. Miason.
—'O diinheiro que entregou a Mr. Hines proveio d
seu marido1, Mrs. Reedley?
—'Não, senhor. ÍNTem uma só das notas que lhe d teve essa origem. Há mais de
seis meses que não reicel um único cêntimo de meu marido.
—' Muito oorigadio — disse'Mason, delicadamente. -
& tudo.
— A próxima testemunha — Gulling, mostrando-se agora
— Torna-se-me necessário, fc
162
chamou o juiz Lindai untuoso, informou: •. Dr. Juiz, apresentar
seguinte fase do meu caso, ligeiramente fora dia ordeim estabelecida
inicialmente pela Acusação. Verifieou-se uma ocorrência que me leva a preferir
chamar antecipadamente Mr. Thomas Folsom, para uma pergunta, ou duas. —' Muito
bem —¦ concedeu o juiz.
— Queira santar-se na cadeira idas testemunhas e prestar juramento, Mr. Poisam —
indicou Gulling.
Tom Folsom era um homem alto e ossudo. Sentou-se, cruzou as longas pernas e
reeostou-se como pessoa familiarizada com a cadeira das testemunhias.
— Chama-se Thomas Folsom e é detective particular ao serviço da Interstate
Investigatars; estava de serviço no dia três cio corrente mês, às doas e vinte,
aproximadamente ? —• perguntou Gulling.
—> Sim, às duas e vinte da tarde — precisou' Folsom,
— Chamo a sua atenção para a ré Adelle -Winters e pergunto-lhe se a viu, nesses
mesmos (dia e hora.
—• Sim senhor. "Vi-a.
—'Onde?
—>No Ijorenzo Hotel.
—¦ Que estava eia a fazer ?
—'Nessa altura?
— Sim, nesse momento — repetiu Gulling, com satisfação.
—¦ Estava com a outra ré, Eva Martell. Tinham chegado àquele botei, por volta
das duas e um quarto da tarde.
—:E que viu fazer a acusada Adelle Winters, nesse momento ?
—> Nada ide especial, mas, noutro momento — rectificou Folsom—, cerca das duas e
vinte, enquanto Eva Martell se encontrava na cabina do átrio a telefonar, Adelle
Winters, que me Unham mandado seguir, saiu do átrio do hotel por um corredor
interior e por una porta com a indicação de «Bagage<ns>», em direcção à pas:sa-
gem exterior, nas traseiras da sala de jantar e das cozinhas.
163
— Que foi que ela fez?
— Achavam-sie aí três caixotes de lixo metálicos. Elt soergueu ia tampa do que
se achava no meio, espreitou para o interior <e, em seguida, aparentemente,
deitou qualquer coisa lá piara dentro; tornou a baixar a tampa e ¦regressou
rapidamente pelo mesmo caminho.
— Isso passou-se às duas e vinte ?
— Dia tarde... sim, senhor.
— Oontra-interrogatório — resmungou Gulling. Mason, fitando bem a testemunlhia
nos olhos, inquiriu:
— Já seguia a acusada, Adelle Winters, há miais dias, antes dle vê-la nesse
hotel?
—i Sim, senhor.
—'Tinha portanto recebido ordens específicas para segui-la ?
—¦ Sim, senhor.
—'Tanto no dia três, icomo na véspera, dia dois?
—'Sim, senhor.
—• E «la foi directamente para o Lorenzo Hotel, vinda do edifício de
.apartamentos Siglet M-anor?
—• Exactamente.
—i Deixou, portanto, o Siglet Manor, pouco, depois das duas horas da tarde ? —
sondou Mason.
—' Assim foi. Deixou o edifício, às duas horas e vinte, se quiser ser mais
preciso', quanto ao factor tempo.
—' Muito bem, Mr. Folsom. 'Agora diga-me: wja claramente deitar qualquer coisa
para dentro do caixote do lixo?
—'Não, senhor. Tive o cuidado de dizer aparentemente. Nunca faço iafirmagões
imprecisas, por uma questão de meticulosidade profissional. Tinha recebido
instruções piara segui-la e não para observar, em pormenor todos os seus gestos.
A 'minha missão era não a perdei de vista, ver aonde ia e com quem1 contactava.
E cumpr ', integralmente 'aquilo de que fui incumbido-. Portanto nã' poderão
acusar-me de negligência.
— Ninguém o acusa de negligência, Mr. Poisem -
164
contemporizou Miason—, nuas desejo saber porque se exprimiu dizendo
aparentemente?
— Porque Adelle Winters, ao acercar-se 'do caixote do lixo, ipôs-se de costas
para mim, ou melhor, quase a três quartos, apontando-me, mais ou menos, o ombro
esquerdo-. Miesmo assim, distingui perfeitamente o seu movimento, ao erguer ia
tampa do caixote. Contudo, o seu corpo tapava ambas as mãos. Por isso disse que
aparentemente, pelo movimento do braço, devia ter deitado qualquer objecto llá
dentro. Em seguida, virou-se e retrocedeu para o interior do hotel.
— Viu-a voltar para o átrio? —¦ Sim, senhor.
—"Como pôde acompanhar, com a visita, esse percurso;, se o corredor -de acesso é
interior?
—' Porque tem paredes envidraçadas, da altura dos ombros para cima —¦ elucidou
Ftolsom, com um ligeiro sorriso /confiante, de pessoa que se não deixa
facilmente embaraçar.
—.Durante quanto tempo manteve a acusada sob observação ? —¦ insistiu Mason.
—' Bem... ela não se eonsieirvou sempre no átrio, à minha vista. Tanto uma como
a outra das rés fizeram vários telefonemas de uma cabimia que as ocultava, mas
vi-as entrar © sair ideia. Depois deixaram o hotel e foram fazer compras.
—¦ Seguiu-as ?
—'PareceKme, 'Sr. Dtr. Juiz — interveio Gulling—, que já estamos a ir longe de
mais.
—. Concordo consigo, Sr. 'Adjunto 'do Procurador do Distrito —¦ disse o juiz
Lándale. — Dieve realmente ser uima tentação para o advogado de Defesa,
.aproveitar a oportunidade para tentar .uma chamada «expedição de pesca», mas
não me parece que seja eontra-int ^rogatório apropriado.
— Peço imensa desculpa ao Tribunal — declarou Ma-
i 165
som, c o atrito.—'Não preciso de fazer mais perguntas ;
esta testemunha.
-—Mão tem mais nada a inquirir, dentro dos limite;
admissíveis ? —> estranhou o magistrado.
•—' Não, Sr. Dr. Juiz. Já cobri o terreno conveniente e não quero, de forma
alguma, quie o Tribunal possa pensar que pretendo efectuar «expedições de
pesca».
Virajnido-se para Gulliing, o juiz Hotmer Lindai© in
quiriu:
—Tem. mais alguma pergunta a fazer a esta testemunha, em mterrogaitório directo?
—• Certamente, Sr. Dr. Juiz — declarou apressada mente Gullinig.—Diga-nie agora,
Mr. Folsom.: foi interrogado acerca de ter, ou não, visto claramente a acusada
Adelle Winters introduzir um objecto no caixote do lixo, não é verdade? Mas, se
ela tivesse, afectivamente, feito isso, teria o senhor podido discernir o
objecto ali introduzido ?
—¦ Não, senhor. Tive o cuidado de explicar isso. N-posição em que ela se
encontrava, não podia ver-lhe ¦; mão direita, nem a esquerda. O corpo ocultava-
lhe a; mãos, mas vi o seoi ombro mexer-se, ao mesmo tampe que a tampa do caixote
se erguia; e vi esta tampa bai xar-se, em seguida, repenitiniamiente, como se a
tivessen largado, ou como sie ela a tivesse fechado de motu próprio
— Ê tudo — terminou Gulling exultante. Mason ergueu um brago e pediu:
—¦ Uni momento, Sr. Dr. Juiz. Visto tratar-se de ui; novo interrogatório
directo, compete-me o direito de vol tar a contra^mterrogar esta testemunha.
Como o juiz aquiescesse, nos termos da lei, -Masoj virou-se para Folsom e
inquiriu:
—¦ Não podia, portanto, ver nem uma nem outra da mãos dia acusada?
— Jáo declarei várias vezes — respondeu aquele, coi desagrado.
166
—¦ Só queria ter isso bem assente no meu espírito — justificou-se Miasotn,—'Mas
viuna mexer o braço?
—'Beim.., também não. Já expliquei isso.
—'Mas viu-lhe mover o ombro?
¦—Sim, e vi mexer a tampa: subir e descer.-
—' Muito bem. Diga-me agora, Mr. Folsom: está a trabalhar para a agência
Interstate Investigatoiís ?
—¦ Sim, senhor.
—'E de acordo com as instruções recebidas, tinha de transmitir os seus
relatórios verbais, de meia em meia hora?
—' Se tinha possibilidade de ir a um telefone que estivesse perto, sim.
—' Quantos homens estavam, nessa mesma missão?
—' Dois.
—'Você seguia Ajdeille Winters © o seu parceiro, Eva Martell ?
—• Exactamente.
—' Portanto, quando viu Mrs. Wiaaters fazer aquilo... ou um pouco depois...
telefonou à Interstate o seu relatório, como lhe cumpria?
—'Sim, senhor.
—E nesse relatório, quie ficou registado na agência, especificou que vira a
'acusada espreitar para dentro de um caixote de lixo?
—' Creio que sim... Bem... sim.
—' Ora, para espreitar para dentro de um caixote de lixo, a'acusada tinha ide
levantar-lhe a tampa, nãoé verdade? Dessa maneira vê4a-ia mexer o ombro, não
será assim?
—• Necessariamente.
—.Portanto, quando apresentou o seu relatório oral... apenas registado por
escrito, pelo empregado de serviço na Interstate... não tinha a menor ideia de
que ela deitara um objecto no caixote do lixo.
—¦ Bem, no relatório, realmente, não especiSiquei esse pormenor.
167
— Limitou-se a dizer que a acusada espreitara para dentro do caixote, não é
verdade?
—> Nessa altura, sim.
—'Foi assim que interpretou, nessa altura, o gesto de Mrs. Winters?
—Sim.
—¦ Mas agora a sua memória foi refrescada, com a ideia 'dle que a ré poderia ter
introduzido um objecto naquele caixote ?
—.Se quer interpretar os factos dessa maneira,... sim! —.respondeu1 Folsom
relutantemente.
—'Mas, logicamente, quando fez o. «seu relatório verbal, a sua memória 'devia
estar .mais fresca, do que agora. Contudo, agora, paradoxalmente, parece ter
adquirido maior acuidade, não?
—'Pensei melhor no assunto.
—.Quanto tempo levou a ir telefonar, depois de ter visto o acto 'de Mira.
"Winters?
—. Oercia de dois, ou três minutos.
—. Nesse momento, ias duas 'acusadas achavam-se reu-nildlas no átrio do, hotel ?
—' Exactamente.
—' Não tinha estado a observar esses caixotes do lixo, antes de Mrs. Winters
ter-se aproximado de um deles?
—• Não senhor.
—'Nunca olhou para eles, antes daquele preciso momento ?
—.Não, senhor. Não havia motivo para. fazê-lo. Só a acção da ré me dirigiu ia
atengão para o corredor exterior do hotel. A minha missão era vigiar pessoas e
não caixotes do lixo — retorquiu o 'detective, com um apagado sorriso, não
isento de certo sarcasmo.
—'E também não voltou -a observar os caixotes, depois de as acusadas se terem
reunido no átrio?
—.Não me cumpria fazê-lo. ¦ Porianito, não sabe se a acusada apenas olhou para
deotro do caixote, ou se nele introduziu qualquer coisa?
168
—' Se prebende ser tão .precisamente técnico... não sei.
—¦ Não quero ser exageradamente técnico —¦ replicou Mason—•, niias este ponto
é .muito .importante, no esclarecimento da verdade.
—'Se quer a minha opinião— retorquiu Folsoni, desagradado—¦, dir-lhe-ei que,
nessa 'altura, apenas declarei que vira a acusada espreitar paira dentro do oai-
xote, mas agora estou absolutamente certo 'de que introduziu nele um objecto.
—' Par que motivo essa interpretação não lhe ocorreu, quando fez o seu relatório
telefónico?
—¦ Não sei —¦ respondeu Falsam, notarialmente contrariado. —' Talvez porque,
nessa altura, não considerasse o facto particularmente significativo.
—'S esse exactamente o ponto que pretendo sublinhar —¦ insistiu Mason. —< Que
foi que o levou a retocar a sua declaração inicial? 'Que foi que tornou,
posteriormente, esse facto significativo?
—'Eu não retoquei naida. Apenas pensei melhor no assunto.
—¦ Quem lhe falou ma hipótese de a acusada !Mrs. Win-ters ter introduzido um
objecto no ©aixofce?
—>Não se trata de usmia hipótese... é um facto.
—'Mas o senhor, não o sabia. Sabe-o agora — apontou Mason.
—-Bem, agora tenho a certeza de que o fez.
—Si tudo—'terminou1 Mason, gravemente.
"Dirigindo-se a Gulling, o juiz indicou:
—"A sua próxima testemunha, Sr. Adjunto do Procurador 'do Distrito.
—¦ Neste momento —' anunciou Gulling —¦, 'desejo chamar novamente Sam Dixon,
para responder ia uma pergunta.
— Muito bem—'assentiu o magistrado. E virando-se para a testemunha, acrescentou:
—¦ Já prestou juramento. Pode sentasse e responda.
—¦ Teve ocasião, Mr. Dixon — recomeçou Gulling —,
169
de, na tarde do dia três, ter visitado o 1/orenzo Hotel e inspeccionado o
referido caixote do lixo?
— Sim, senhor.
— Como procedeu, nessa inspecção ?
— Levantei a tampa do caixote, tendo o cuidado de não destruir quaisquer marcas
de impressões digitais. O caixote continha lixo, até dois terços da sua
capacidade total. Despejei o conteúdo, para dentro de um grande cesto vazio,
desses que servem para o transporte da roupa suja, para a lavandaria, e
encontrei, no meio do lixo, a oeraa de um terço do fundo, um revólver Colt de
calibre 32, com o número 14581.
— Que fez com esse revólver ? — inquiriu Gulling",
triunfante.
—¦Tomando as necessárias precauções para não destruir impressões digitais, nem
nele imprimir as minhas... apesar de estar lá no meio do lixo... consegui
extraí-lo...
—¦ Não interessam pormenores técnicos — abreviou Gulling. — Lrimite-se a
responder à pergunta: que fez oorn essa arma?
¦—Bintreguei-a a Alfred Korbel.
— A Mr. Korbel, perito de balística do Departamento de Homicídios?
— Ao próprio.
— Quando procedeu a essa entrega ?
— Tanto o revólver, como o caixote de lixo metálico, foram entregues às sete
horas e quarenta e cinco da tarde desse mesmo dia.
— Dia três do corrente mês ?
— Sim, senhor.
— Pode interrogar —¦ disse Gulling para Miason, com um certo ar de desafio.
— Não tenho perguntas a fazer a esta testemunha — declinou Mason.
— O Tribunal fará agora um in: tos —determinou o juiz Lindiale.
170
Io de dez minu-
¦Mason interrogou Drake com os olhos. O detective respondeu-lhe com um sinal
de cabeça afirmativo.
18
Dez minutos mais tarde, quando a audiência foi reaberta, Gulling anunciou:
—> A minha próxima testemunha será Alfred Korbel.
Subindo ao estrado das testemunhas, Korbel qualifi-cou-se como sendo perito de
balística e de daotiloscopia do Departamento de Homicídios.
—'Vou mostrar-lhe um certo revólver Colt de calibre 32, n.° 14581, e perguntar-
lhe se já o tinha visto anteriormente.— Gulling exibiu a arma e inquiriu:—Jã o
viu, Mr. Korbel?
— Sim, já o vi.
— Quando ?
—Vi-o pela primeira vez, por volta dias sete e quarenta e cinco da tarde do dia
três deste mês, quando me foi entregue por Sam Dixon e fiz vários testes, com
ele, no meu laboratório; e tornei a vê-lo, aproximadamente à mieia-noite, quando
a acusada, Adelle Winters, o identificou como sendo uma arma que lhe pertencia.
— Disse que fez testes, com esta arma? ¦— Sim, senhor.
— Examinou as impressões digitais? —' Sim, senhor.
—'Detectou alguma?
— Não.
— Pode explicar porquê?
— Quando a arma me foi entregue, vinha coberta por uma camada de massa viscosa e
com pedaços de lixo aderentes. Tal corno estava, não podiam ser detectadas
quaisquer impressões digitais; ao limpá-la —e neste ponto, Korbel sorriu,
erguendo ligeiramente os ombros—,
171
desapareceram, as .,>= pressões digitais que pudessem ter remanescido,
anteriormente, na supe ¦•"í.cie 'metálica.
— E quanto aos testas de balísl a, como estava a arma carregada?
—<É urn revólver CoQt de tambor hexa-alveolado; apresentava cinco câmaras
carregadas, com cartuchos completos, e uma câmara, com a cápsula de um cartucho
deflagrado.
—'Teve ocasião de fazer ¦tamibém testes com a bala que lhe foi entregue pelo
médico-leglsba, a uma dada hora dasisa tarde do dia três?
—' Sim, senhor.
—'Que concluiu desse exame, Mr. Korbel?
—' A bala extraída pelo cirurgião, médico-legista, que efectuou a autópsia, é
admissivelniente proveniente ido cartucho deflagrado e foi disparada pela arma
n.° 14581, em conformiidaide cora os sinais impressos, na sua passagem pelo cano
do (revólver; ias mesmas marcas, produzidas por essas estrias, foram verificadas
em exame ulterior de balas experimentais.
—'Multo bem, Mr. Korbel — exultou Gulling—, e examinou também o caixote do lixo,
onde essa arma foi encontrada? Fez os testes necessários para detectar-lhes
impressões 'digitais ?
— Sim, senhor, fiz.
—i Que encontrou, Mr. Korbel?
•—'Posso consultar essa pasta de apontamentos?—• pediu o perito.
Gulling estendeu-lha. Korbel abriu-a e extraiu um pequeno maço de fotografias.
—'Esta fotografia, tirada com. o auxílio de um espelho —' disse a testemunha,
apresentanido-a ao juiz —¦, mostra o lado interior da pega ida tampa do caixote
do lixo e (apresenta várias impressões anais estão destrui cias, e outras,
ficáveis.
172
iigitais, algumas das ierfeitamente identi-
—Em relação a essa impressão digital, assinalada por um círculo, pôide
identificá-la? —apontoa GuMing.
—'Sim. E uma impressão do dedo anedia da mão esquerda da acusada. Adelle
Winiters.
—'Pode interrogar—adisse Gulling, com am gesto largo, dirigindo-se a Mason.
¦—¦ Há várias impressões digitais, nessa tampa ? — inquiriu o advogado.
—¦ Sim, Mr. Mason. Há grande quantidade delas.
—(Todas da acusada?
—¦ Não. Há mais impressões.
—'Procedeu a alguns testes, piara «ampará-las com as de outras pessoas?
—'Não me foi pedido que o fizesse, nem fornecidos os meios exigidos para uma
comparação' dessa natureza.
— Ê perito do Departamento de Homicídios? —' Sim.
— E a Polícia apenas o encarregou de detectar impressões digitais de urna
única pessoa?
—'Evidentemente1. Era o que se pretendia—^respondeu Korfoel, admirado com a
pergunta de Mason.
—' Significa isso que não se procurou investigar a identidade do assassino, mas
apenas a de uma suspeita: Mrs. Winters?
—'Isso que tem? Vem ia dar no mesmo'.
—¦ Não é a mesma coisa. Unicamente se procurou provar a culpabilidade da acusada
ie não averiguar a existência de outro possível culpado.
A testemunha sorriu e declarou:
—'Há várias impressões digitais nessa tampa de caixote do lixo. Diversos
empregados têm acesso a esses caixotes, para não falar em todas as pessoas que
os podem ter utilizado para desifazer-se de detritos; sem mencionar o® trapeiros
que, por vezes, lhes dãio husca, para recolherem algo que lhes interesse. Recebi
instruções para procurar uma impressão digital da ré 'Adelle Winters; tendo-a
detectado, ia minha missão estava cumprida.
173
industriado nesse
nunhou ter encon-
identifiquei-a como
i a acusada declarou
—'Portanto, a única conclusão dpe pode ser tirada da sua detecção da marca de um
dado da acusada, naquela tampa, é de que ela lhe mexeu. Contudo, não se
averiguou se outra pessoa lhe teria [igualmente mexido, nem se procuraram outras
identificações' —¦ Certamente que não. Não fui -w sentido. De resto, Sam Dixon
testa" trado a arma dentro desse caixote; ei| sendo a que disparou a bala letal
eji que essa arma lhe pertencia. |j
Gulling interveio, para pcrotestaif: —¦ Sr. Dr. Juiz, a Defesa está
procurando confundir a testemunha, levando-a a tirar coifclusões. A testemunha
só tem de declarar o que viu e a| conclusões somente competem ao Douto Tribunal.
1
— Assim me parece, Mir. Masari —observou o juiz Lindai e, impaciente. —¦ Não
compreendo porque insiste nesse ponto. |
Fondo-se lentamente de pé, o advogado esclareceu: —¦ Porque essa arma foi
encontrada, digamos, enterrada no meio do lixo, pelo que de-wemos pressupor que,
a uma outra hora ulterior do mestn* dia, foi introduzida, no caixote, nova
quantidade de detritos. Torna-se, pois, importante definir o factor tempo. I
Ora, em relação ao serviço de refeições e da cozinha, a primeira camada diária
de lixo é despejada nos caixotes até um pouco antes das duas horas da tarde, e a
|segunda camada, por volta das sete e cinquenta. i]
O juiz Lindale começou a tamaa§ atenção, embora arvorando um sorriso bastante
oéptic^, quanto à finalidade da exposição de Mason. I
—¦ Ora, se o Tribunal analisar a| declarações das testemunhas e as provas
apreisentadaa, notará quie estamos perante uma situação peculiar. Se i acusada
atirou com a arma para dentro do caixote, às luas e vinte da tarde, e se nova
camada de lixo foi despe Jada no caixote, antes de a polícia o ter despejado...
entãxD nesse caso e só nesse
174
oaso, se depara com uma prova circunstancial positiva, contra a acusada. Mias,
se não foi despejado miais lixo, durante o período que medeia entre ter a
acusada sido vista a mexer no caixote e a polícia tê-lo esvaziado, isso
significa que não foi a ré quem aí colocou a arma. Al-|. guém o fez, alguns
minutos mais cedo, antes dos despejos |i do almoço.
11 —¦ Como pode ser isso ? — inquiriu o juiz, notoria-K mente
confuso.
B —Ao prestar o seu testemunho, Thomas Folsom dle-
I clarou que a acusada Winters parecia ter espreitado
1 para dentro do caixote, mas ulteriormente concluiu, por
1 mera dedução, que ela teria atirado com uim objecto para
; o seu interior. Decerto que isso seria viável. Contudo
ser-lne-ia totalmente impossível ter enterrado a arma,
no meio do lixo, a cerca de um terço de 'altura, perto do
fundo, sem que a testemunha, Mr. Folsom, notasse tão
grande inclinação do corpo e movimento dlo braço.
— Parece óbvio — concordou o juiz —, mas não entendo por que motivo, Mr.
Miason, não inquiriu essa tes-; tamunha mais especificamente. Podia ter-lhe
perguntado ¦ claramente se vira -a acusada limitar-se a deitar a arma ~ para o
lixo> ou enterrá-la nele, profundamente.
—> Podia, sim, Sr. Dr. Juiz —¦ respondeu Mason —, mas não o fiz.
—¦ Porquê ? —espantou-se o magistrado. —¦ Porque Thomas Folgam é umja testemunha
de Acusação. Basto u-me ver a maneira hábil como transformou a declaração
inicial de que «a ré espreitava*, em «ter visto um gesto» que denunciaria ter
ela deitado qualquer coisa para o lixo. Receei que tornasse a alterar o seu
depoimento. Preferi, portanto, utilizar como prova o factor tempo, neste caso
muito mais eloquente e verdadeiro, do que o testemunho de Thomas Folsom, trazido
pela Acusação. De outra maneira, a testemunha acabaria por afirmar, sob
juramento, ter visto a acusada enterrar a arma no lixo.
175
—'Eis uwi pombo muito interessante — apreciou o juiz Lindale. — A Acusação tem
alguma sugestão ou explicação a fazer, Mr. Gulling?
—-Não, Sr. Dr. Juiz—respondem Gulling exasperado. —' A única coisa que interessa
à Acusação é provar que a Ré Adielle Wintetrs é culpada de homicídio
premeditado, a isíangue-ír,», com a intenção de roubo de uma carteira com três
mil dólares pertencente ià vítima Rofoert Hines. —i Ou apanhada do chão, pela
'acusada, que a guardou para devolvê-la a Mr. Binas, que ela ainda julgava vivo
—' cortou Masotn, bruscamente.
—¦ Isso é o que lhe convém alegar — replicou Gulling —¦ mas não consentirei que
'dê a essa tese mirabolante a menor admissibilidade.
—i Então, Sr. Adjunto do Procurador do Distrito— censurou o juiz Lindale. —•
Deixemo-nos de hostilidades pessoais. Pode 'explicar «amo pôde fc, arma ser
encontrada perto do fundo do caixote e não
—' Como posso eu saber ? —¦: Provavelmente a polícia revolveu caixote.
—'Mae a testemunha Sara DíjI com o máximo cuidado, tirando o* —"Observou o juiz.
—¦ Exactamente — confirmou Mason. — Ora, segundo a informação obtida no hotel, e
devidamente verificada, apenas se despeja lixo, nos caixotes exteriores, pouco
antes das duas da tarde e depois das sete e cinquenta. Oomo a arma foi
encontrada enterrada no lixo, perto do fundo e não à superfície, e como a
testemunha Polsom, nas suas declarações, 'evidenciou não ter a acusada, feito'
um movimento que lhe permitisisie enterrar a arma, e sim, quando -muito, atirá-
ila para o interior do caixote; e ainda porque o lixo foi retirado pela
testemunha 'Dixcn, cuidadosa e gradualmente, e não por despejamento' do caixote,
terá o Tribunal de concluir que não foi a ré, Adelle Winters, quem ai escondeu a
referida arma,.
176
Ijuperf ície ? smungou Qulling. — tudo, ao despejar o
declarou ter agido lixo, a pouco e pouco
— Tsm alguma presunção de quem. possa ter sido, Mr. Mason ? —¦ inquiriu o juiz,
perplexo, — Podará formular alguma explicação para o problema?
—• Sim, Sr. Dr. Juiz, depois de eonfirmar alguns factos —¦ respondeu Mason.
—' Bem, nesse caso, sugiro que seja adiado estie julgamento1, piara amanhã de
manhã — disse o; magistrado. — A Acusação deverá verificar as horas a que o lixo
foi despejado no referido caixote. Está adiada a audiência,
Harry Gulling empurrou a cadeira pana trás, deu a volta à .mesa da Acusação e
dlrigiu-se a Màsom, decla-rando-lhe rispidamente:
—' Era minha intenção ter já este assunto arruinado, mas as suas tácticas
alteraram a situação. Conseguiu baralhar ais peirmiissias e confundir o
Tribunal, o que me forçia a modificar também, ia minha estratégia,
I>e pé, eniciarando-o de frente, Mason. fez um sinal de aquiescência. Peto canto
do olho, viu os repórteres e ois fotógrafos numa intensa actividade, tendo-os,
aos dois, por 'alvo. Não respondeu e Gulling prosseguiu:
—'Terei agora de ontreigtar-lhe uma conitra-fé, para comparecler perante lo
Grande Júri deste Estiado, às sete horas de hoje.
E entregou o papel a Masion. Os flashes das câmaras fotográficas iluminaram, a
sala do tribunal, enquanto o advogado o recolhia, anuindo:
—' Muito obrigado.
•—'E avisio-o, Masion—>amieaçou Gulling—, de que vai achar-se perante uma
acusação de perjúrio, por uím lado, e de cumplicidade criminosa, por outro.
Tenho agora, eim meu poder, a prova de que você escondeu deliberadamente a ré
Erva Martell, num. quarto de aluguer. Sempre quero ver se, desta vez, também
consegue baralhar os factos. Está advertido.
Avançando um passo, Mason respondeu duramente:
—' Agora sou eu quie o advirto, Gulling. Você transformou esta causa, num ataque
pessoal à minha pessoa.
177
Estarei, portanto, presente, às sete horas de hoje, perante o Grande Júri. Você
tsm um cargo oficial; eu não tenho. Se você nua derrubar, posso tornar a erguer-
me; nuas, se eu o atirar de rastos, ao tapete, você não conseguirá rraaniter-sie
mais nesse carg-o oficial, que tanto o envaidece, pelo poder que lhe confere.
—¦ Neste momento, Mason, sou eu quem o vai virar de pernas para o ar — gritou
Gulling, com um riso de raiva.
19
Palmilhando o gabinete de uni lado para o outro, Perry Mason confidenciou a Paul
Drake:
—. O que mie aborrece, neste caso, é a situação para que arrastei a minha amiga
Mae Bagley.
— Que se passia com ela ? •— inquiriu Paul.
—'Tentou protegar-ime. Agora, caem «sobre ela, como uma matilha de lobos. Mal o
motorista de táxi lhes disse que -tinha recolhido Eva Martell, no passeio em
frente à casa de quartos de aluguer de Mae, meteram esta entre a espada e a
parede.
—'Miss Bagley disse à polícia que nunca tinha visto Eva, na sua vida?
—' Sim.
— Sob juramento ? —¦ receou Drake.
—'Nessa altura, não, mias devem apresentá-la, esta noite, perante o Grande Júri.
—' Cos diabos, Perry! Está entalada. Só lhe resta re-fugiar-se atrás da
declaração formal: «recuso-me a responder, po<r, ao fazê-lo, poder
imoriminiar-me».
— Não é tão simples como isso — considerou Mãson. — Guilling é um tipo de
mentalidade deformada pela técnica legal, com uma exagerada opinião de si
próprio e da importância do cargo que desempenha. Passa a vida a meter o nariz
nos livros jurídicos, em busca de casos similares, anteriores, que lhe fo>rnegam
matéria para agir
178
a seu grado e, coimo sabes, a Lei, neste país, tem algo de consuetudinária, já
que se baseia nas decisões de antigos magistrados, e é ministrada a seu exempto.
Daqui, até às sete horas, não posso debruçar -"me sobre a matéria legal, para
tentar safar Mae da rede em que a envolveram. A verdade é que, negando ter
escondido uma mulher procurada pela polícia, infringiu duas normas legais:
primeira, não registou a presença da hóspede, no seu estabelecimento, amitmdo-a
deliberadamente e conscientemente; segunda, fez falsas declarações, num easo
classificado como assassínio de 3." graw. Oosmo, ainda por cima, o fez para
proteger~me, não llie perdoarão.
— Está feio!—'Comentou Dralse.
— E quando me tiverem perante o Grande Júri — acrescentou Mason—, ainda não sei
como salvar a pele.
—> Acabas sempre por arranjar maneira — animou o detective, com um sorriso
optimista. — Não podes invocar o privilégio profissional?
— Só, se baseado no direito de sigilo, quanto às die^ clarações que,
confidencialmente, um cliente me tenha feito, o que não é o caso. Têm todos os
trunfos na mão —' reconheceu Mason.
— Não podes demonstrar qualquer absurdo da acusação, jogando cora pormenores
técnicos?
— Já os joguei todos, hoje mesmo, no tribunal. Após uni momento de meditação,
Drake indagou:
— Que ideia foi aquela de mandares colocar a tua carteira, nos lavabos dos
homens, para que Gulling a encontrasse ?
—'Ê uma isca, Paul—confessou Mason.—>"Vou deixar Gulling interpretar a Lei à
sua maneira. ¦—¦ Que Lei, em particular ?
— Aquela que define os limites de tempo razoável. Vou tentar que me acuse de um
crime, colocando-o na posição de ter cometido um outro, igual ao que atribui a
Mrs. Winters.
179
—> E a acusação de roubo que te preocupa, Fenry ? — decifrou Drake. —- Essa
motivação ão homicídio é mais diífíail de debelar que o próprio assassínio, não
é (assim?
— Assim parece —¦ admitiu Mason.
—¦ O oaso da arma ficou hoje bastante enigmático. Achas que Mrs. Winters atirou
a arma para dentro do caixote ?
—' Receio bem que sim.
—-Depois de tereis provado «sisa impossibilidade?
—' Niada é impossível. Contudo, messe campo, cicmpe-te-iheis agora, ia eles,
provarem que o fez, como o fez e quando o fez.
—>E piara isso não podem servir-se das declarações de Falsam, que desmantelaste
— observou Diralce. — Que pensas que tenha sucedido, Perry?
—¦ Adelle Winters mentiu acerca dessa arma. Ela já a não tinha em «seu poder;
nunca esteve em cima da cómoda do apartamento, pelo que não podia ter descido
com ela, como afirmou.
—'Isso é demasiado oomiplioado!
Virandio-se subitamente para Dtelia Street, Mason pediu: 4
—Lágue-me para o Dorenzo Hotel, D-ella. Quero falar com alguém que temhia, à
mão, os registos dos clientes e do pessoal, actuais e antigos.
Enquanto a jovem secretária fazia a chamada, Dratoe inquiriu:
—'Julgas que AdeJle tinha algum cúmplice, entre os hospedeis ou criados do
hotel?
— Feio menos, há uma coisa que ainda me não foi explicada: por que motivo Eva
MarteJl e Aldelle Winters foram direcitaimeinte para aquele hotel, fora de mão?
—'Bam, não queriam ir para casa e preferiram estar num local público...
—' Mas há monteis de hotéis miais Éxróximos — contrariou Mason.—'Porquê o
Ixxrenzo H< Jel, em particular'
— Está ligado — anuinioiou Dielíla.
180
I
Mason pegou no telefone e disse: —'Daqui, o advogado Perry Mason. Desejo uma
informação, acerca de um antigo (hóspede dless© hotel.
— Sim, Mr. Mason. Prestar-lhe-ei toda a assistência que estiver ao meu alcance.
—'Diga-me, por favor, se, dos seus registos, consta que Mrs. Adelle Wimteirs, em
qualquer altura, ocupou um quarto, no Lorenzo Hotel.
—'Posso responder-lhe imediatamente, Mr. Mason. Li hoje o nome dela nos jornais,
com toda essa história da arma... Ora acontece que Mrs. Wintars trabalhou cá, em
temrpos, como criada de mesa, não no hotel propriamente dito, mas num anexo,
aqui ao lado, a que chamamos Lorenzo Oaifé. Pertence ao mesmo proprietário, inas
funciona com gerências diferentes.
—'Há quanto tempo?
—> Há coisa >ãe um lano.
—- Quanto tempo trabalhou leflia aí?
¦—¦ Três ineses.
—-Mais alguém sabe disso?
— Sim, Mi. Mason. O Procurador do Distrito está a par desse facto.
^
— Como sabe que ele sabe ?
—• Porque mo perguntou, ontem à tarde, e eu disse-lhe.
— Entregaram-lhe alguma cantra-fé, para se apresentar como testemunha?
—'A mim, não, mas entregaram-ina ao proprietário do hotel. Quer falar com ele?
—¦ De maneira nenhuma ¦— recusou Mason. — Ofori-gado pela informação.
'Desligou e os seus olhos encontraram os de Drake que denunciava verdadeira
decepção.
—E agora, Perry?
—• Sei, pelo menos, por que razão as duas mulheres foram para o' Lorenzo Hotel.
Adelle sabia onde se achavam os caixotes do lixo, pois trabalhou lá, há coisa de
um ano.
181
—E quanto à anna?
— Supõe, Paul, que eia Supõe que ela nunca deixou cima da cómoda do apartamento?
Supõe agora que uma ouitra pessoa estava nia posse da arma? Essa pessoa pode
ter-lhe telefonado a informá-la de qu:e matara Hines, explioando-lhe que atirara
a arma para o caixote de lixo. Então, Adelle teria ido espreitar lá para dentro,
a fim de oertifioar-se...
—¦ Pensas que foi Eva Martell quem cometeu o crime ?
Perry Mason meditou no assunt», durante alguns segundos. Diepois, admitiu:
—>Talvez... mas não encaixa no factor tempo.
—' Verificámos todas os minutos, Perry — esclareceu Drake. — Eram duas e dez,
quando o criado da cozinha trouxe o lixo, para despejá-lo no caixote. A polícia
aper-tou-o, tentando forçá-lo a alterar a hora, dizendo que o teria feito depois
das duas e maia. Mas o homem insiste nas duas e dez, justificando a sua certeza
no facto de ter um encontro marcado, nesse dia três, e ter olhado para o
relógio, impaciente por ir mudar de fato e sair com a namorada. E acrescentou um
facto estranho: não jura, nuas pensa que o caixote ficara já com dois terços de
lixo, quando fez o último despejo do almoço. Isso significa, Perry, que o
revólver já. lá devia estar antes das duas e dez, e que o último despejo o
cobriu. Ê capaz de, oom a pressa, não ter olhado bem para o interior, não
reparando nele. Ora, só cinco, ou dez minutos, mais tarde, Adelle Winters
espreitou lá para dentro e já não o viu.
Excitadamente, Mason exclamou:
— Bravo, Paul. Se pudermos provar que a arma já estava no caixote, às duas e
dez, temos um álibi indestrutível, visto Adelle Winters só ter chegado ao hotel,
às duas e um quarto. Já se conhece a hora da morte? Que averiguaste acerca
disso?
— O tempo, indicado pelo cirurgião da autópsia, é
Isa I
mentia em toda a linha? o rJfrólver esquecido, em
muito lato. Oalcula o momento cia morte, entre a uima e as três da tarde. Não
pode precisar com maior exactidão.
—¦ Bem —¦ prosseguiu Mason —, Eva Martell esteve no apartamento, até às duas
menos cinco. Saíram do edifício, onze minutos mais tarde. Isso perfaz um período
de dezasseis minutos, entre a sua saída do apartamento e o momento em que
deixaram o Siglet Manor.
Nesta altura, a excitação de Mason contagiara Dwake que propôs:
—' Analisemos a questão, sob um outro ângulo. Quie sabemos nós da possibilidade
de outra pessoa ter estado no apartamento, durante esse período de tempo? Podia
alguém lá ter entrado, sem que ninguém soubesse: primeiro, Mrs. Reedley que tem
uma chave; depois, Oar-lottía Tipton que podia ter batido à porta, para que
Hines lha abrisse; e temos ainda a criada de quarto, o mandarete, um servente
do bar...
—¦ Inclui Arthur Olovis, nessa lista — sugeriu Mlason. — Pode muito bem ter uma
chave desse apartamento, embora no-lo negasse.
—' A esta hora já se desfez dela, com certeza, e não será Helen Reedley quem irá
traí-lo.
•— Helen — repetiu Mason, pensativo. — Ninguém sabe onde ela estava, à hora a
que o crime foi cometido. Não tem álibi concreto, para esses dezasseis minutos,
nem para outras lacunas de tempo, entre a uma e as três: por exampto, entre a
tuna e a uma e meia, hora do seu encontro com Clóvis; e às duas e meia, não
tendo encontrado Hines,' no outro restaurante, ficou com outra meia hora livre,
para deslocar-se ao Siglet Manor. Suponhamos quie telefonou a Oarlotta e esta a
informou de que Hines estava no apartamento inferior? Na realidade, Paul, muita
gente podia ter lá ido, entre a uma e quarenta e cinco e as duas e quinze!
Orake concordou com um aceno de cabeça.
— Mas isso não simplifica o rnieu actual problema —
183
continuou Masom.—Vou ser acusado de ter escondido Eva, depois de ter sido
informado de que ela fona indiciada de implicação num homicídio; e Mae Bagley
vai ser acusada de falsas declarações, ao negar ter-me ajudado a ocultar uma
criminosa. Duas acusações de cumplicidade impendem sobre nôs.
'Subitamente, o rosto do advogado iluminou-se, numa expressão de jogador
optimista.
—'Tive uma ideia, Paul. Manda um, ou dois, 4as teus homens à casa de
apartamentos onde vive Clóvis. Que batam a todas as portas, declarando
trabalharem para um serralheiro de «feirro-velho», e que andam a comprar chaves
que estejam fora de uso, mesmo obsoletas, pagando, evidentemente, mais pelas
modernas. Já cá têm vindo à cata delas, de moído que podemos fazer o mesmo.
Podemos pagar cinco cêntimos por cada uma das modernas e três, pelas antigas.
—' Que ganhas com isso, além de perderes uns dólares ?
—¦ Talvez apenas alguns .cêntimos, se Clóvis for dos primeiros a ser abordado. É
um tipo sonhador e não um hábil executivo. Se lhe aparecer um tipo a dizer que
anida a icomtprar chaves velhas... 9e Clóvis tem ainda consigo uma chave do
apartamento, deve senti-la a quei-mar-lhe a algibeira. De'sfaz-se dela,
vendendo-a ao «teu> comprador, por cinco cêntimos. Considerará esse negócio
duplamente vantajoso.
— Vamos direitos a ele, Perry?
—'Talvez seja preferível baterem primeiro a várias portas, para poderem alegar
que já fizeram outras aquisições...
— Okay, vamos a isso —¦ declarou Drake levantan-do-se. —• Pode ser que resulte.
Tedafano-te dentro de uma hora.
—'Tenta reduzir isso a meia hora. O tempo foge... —j Favas!— refilou Drake,
com uma careta. — Se tenho dito meia hora, querias que a reduzisse a um quarto
184
de hora. Deixa-me raspar daqui para fora imediatamente, antas que me exijam
miais qualquer coisa «para já>! Dlepois de o detective ter saído, Mason disse a
Delia:
— Não preciso de si, minha, amiga.
—' Não me vau embora, chefe — respondeu esta. — Pode ter necessidade de qualquer
coisa...
Neste momento o telefone do FBX começou a tocar.
—' Se for uim cliente —¦ indicou Mason —, diga-lhe que não estou.
Delia- Street voltou em seguida, para anunciar:
—>jS Cora Eleitora, chefe. Diz que precisa de falar consigo urgentemente.
Liguei para aqui...
Mason pegou no auscultador e saudou:
— Olá, Cora! Que há de novo?
—- Oh, Mr. Miason! Estou triste oom o que está a acontecer... A Tia Adelle...
—- Que .se passa?... Alguma coisa que eu não saiba?
—'Eu... não quis dizw-lhe, mas... quando a fui visitar onitem à prisão, disse-me
que não' lhe contara inteiramente a verdade.
—¦ .Acerca de quê ?
—¦ Da carteira de Mr. Hines.
—¦ "Víai dizer-me que eía a tirou do corpo de Mr. Hinos ?
—' Berai... não siei...
—' Oomte-me exactamente o que sabe.
—¦ Disse-ime que lhe contou quase toda a verdade, mas que a carteira de Mr.
Hines estava lá, depois de ela ter regressado ao apartamento. Ao dizer-me isto,
ficou lavada em lágrimas.
—' Onde é que você esta, neste momento, Cora?
—• Numa .mercearia, a dois quarteirões da Câmara Municipal.
—'Tome um táxi e venha cá imediatamente. Seja boa menina e não demore um
segundo. Tenho de falar consigo, antes de comparecer perante o Grande Júri.
Mason desligou e perguntou a Delia Street:
—• Ouviu o que ela dissie ?
185
— Sim estenografeà-o.
— Catita... Oh, diabo, está alguém ia bater à porta. Mason fez um sinal,
influenciado pelo nervosismo de
quem batia, e Delia foi abrir. Era Miae Bragley.
—¦ Oh, Mr. Mason — começou ela impetuosamente1 —, recebi uma contra-fé, para
comparecer hoje, perante o Grande Júri. Mr. Gulling esteve a falar comigo. -
—• Sente-se — convidou o advogado. — Que lhe disse Gulling?
—¦ Começou por afiançarane que tinha todas as provas de que eu escondera Eva
Martell, num dos meus apartamentos; depois, prometeu-me total imunidade, se
confessasse a verdade. Afirmou-me que não me processaria, por não ter registado
a moça, nem sequer por falsas declarações e cumplicidade. Disse que estava certo
de que eu prevaricara, apenas porque me deixara influenciar por si.
—' E você, Mae, que lhe respondeu ?
—'Pitei-o nos olhos e disse-lhe: «Não percebo, Mr. Gulling, como pode fazer-me
uma tal proposta. Não percebo como pode pensar que uma mulher, nas minhas
condições, se atrevesse a mentir. Nunca vi Eva Martell, antes da audiência no
tribunal e> se soubesse que Mr. Mason a levara para minha casa, ter->lho-ia
comunicado, a si.»
— Acha que o convenceu ? —• Não sei...
—• Bem, Mae — aconselhou Mason —, o melhor que tem a fazer, é contar a verdade.
Não devia ter mentido à policia, com o intuito de proteger-me. Isso colocou-a
numa posição muito difícil.
— Nunoa me passaria pela cabeça traí-lo, Mr. "Mason —• disse a jovem,
emotivamente.
— Obrigado, Mae, mas agora, vai ter com eles e con-ta-lhes toda a verdade.
Entendeu?
—• Oh, Mr. Mason... Eneontramo-nos lá? —' Provavelmente — admitiu Mason.
186
Mae csaminhou para a porta, fez um aceno gentil de cabeça, a Delia, e sorriu ao
advogado1, por despedida. Saiu e fechou a porta cuidadosamente. Mason ficou a
ouvir-lhe os passos, enquanto se afastava ao longo do patamar. Como Delia o
fitasse interrogativamente, explicou:
— Oomo advogado, era minha obrigação dar-lhe aquele conselho.
—¦ Se me dispensa, por um minuto — pediu Delia —, vou «pôr pó-de-arroz».
'Saiu do gabinete, mas 'em vez de dirigir-se à casa de banho, abriu a porta de
acesso ao patamar e correu para Mae, que, ouvindo-lhe os passos, estacou.
— Escute, Miss Bagley —¦ disse Delia—, aquele conselho era o único que Mr. Mason
podia dar-lhe, como seu advogado; não quis que você se prejudicasse, como
cúmplice...
— Olhe, amiga, escusa de preocupar-se por minha causa —¦ replicou Mae. — Diga a
Mr. Mason que vá para a frente com. o que tem a fazer e não se apoquente com o
que eu possa dizer. Esse Mr. Gulling, trago-o «atravessado» e não vou consentir-
lhe que faça de mim gato--sapato. Vou ser o que se chama um «osso duro de roer».
Vá ter com Mr. Mason, dê-lhe uma palmadinha nas costas e diga-lhe que o faz de
minha parte.
O elevador parou, com a luz acesa, e Mae ia a entrar nele, fitando Delia
eneorajadoramente, quando> saiu de lá Cora Felton.
Delia despediu-se de Mae e disse para a recém-che-gada:
—'Depressa, Miss Pelton. O meu patrão está à sua espera.
No instante imediato, Mason saudava:
— Olá, Cora. Queira sentar-se e conte-me isso tudo.
— Nem sei que lhe diga, Mr. Mason! Perdi toda a confiança na Tia Ajdelle!
—> Que diz ela, agora ?
187
—.Afirma que apanhou a carteira do chão, julgando que Mr. Hines a (perdem ali.
Depois, «nitrou no quarto de oamia « viu o corpo e pensou que, como ninguém iria
adivinhar que ele perdera a carteira, podia ficar com ela. Não sabia ainda
quanto continha, 'mas sentiu-a recheada de dinheiro. Quando Eiva foi telefonar,
a Tia Adelle teve oportunidade de abrir a carteira e viu aquela quantidade de
motas... Pensou na aula vida e em quanto tinha lutado, Bem conseguir pôr nada
'de lado... e achou que o mundo fora sempre terrivelmente injusto para com
ela,...
—.Não intereíssam ias justificações, Cora. Oonte-me o resto —' incitou Mason.
—. Quando a polícia a prendeu e quis saber onde ar-nanjara aquela carteira, a
Tia Ajdelle ficou aterrorizada e declarou tê-la encontrado antes de Mr. Hines
ter sido assassinado. Nessa altura, jura ela, não sabia que Mr. Hines fora morto
com a sua arma. Ora isto significa que o assassínio foi cometido enquanto ela
estava no átrio, mas ela Julgou que isso teria acontecido', mais tarde, depois
de ter deixado o apartamento.
—.Há algum motivo especial, para que ela 'lhe tenha confidenciado isso ?
—. Há, sim. A policia méteu-a numa cela, onde já se encontrava outra mulher.
Esta mostrou-se muito simpática © ia Tia AdeUe trocou com ela confidências.
Contudo, pouco depois dessa outra mulher ter saldo, uma outra presa, de uma cela
fronteira, avisou-a de que aquela parceira era espia da polícia, ali postada
paria «tirar-lhie nabos da púoana».
—ijffi muito provável — disse Mason, com uma careta. —• Quie grande embrulhada!
Neste momento, Delia, que estivera com atenção ao relógio, advertiu:
—• São toaras de partir, chefe.
Mason pegou no chapéu e na pasta e enpaminíhou-se para a porta.
Quando ia a sair, o telefone tocou.
1S8
— Um moimento, iPauil —< pediu Delia, mal ergueu o auscultador, passando-o ao
advogado.
A voz de Dratoe era excitada, ião anunciar:
—' Conseguimos, Ferry! Já oá canta.! O tipo caiu como um patinho. Os meus 'dois
homens...
—'Abrevia isso—> pediu Mason.
—"Clóvis foi a uma gaveta, onde tinha quinze chaves e vendeu-as, 'sieim a menor
hesitação. Uinrn delas1 tinha o emblema do Siglet Manior.
—• Ainda bem. Já posso conjecturar uma nova hipótese. Olovis contou a Hellen
Reedley o que Hines lhe dissera no Banco, © ela percebeu imediatamente tratar-se
de uma aproximação, para chantagem. OTwy, Paul. Ca ime arranjarei. Se tiveres
qualquer outra novidade importante, podes teiefonar-mie para a antecâmara do
Grande Júri. Vou arranjar as coisas, de maneira que me chamem ao telefone ou,
pelo menos, que áhamietm Delia, piara que me transmita a mensagem. Até logo.
DirigindoHsie a delia iStireat, Mason comandou!:
—¦ A caminho.
No patamar, a jovem disse ao advogado:
—¦ Estou a pensar iam 'Mae Bagley, chefe, 38 uma, imoça estupenda!
íSorrindo, Mason pôs-lhe uma mão no ombro, fitan-dio-a perscrutadoramenite e,
com um olhar de quem adivinhou, respondeu:
— Também você, minha amiga.
20
Perry Mason apanhou Mae Bagley, ainda fora da antecâmara do Grande Júri. Fez-lhe
um sinal, inclinando a cabeça para o lado, e ia jovem seguiu-©, depois, para um
corredor lateral, cuja esquina do fundo dobraram, para furtar-se a olhares
indiscretos.
—• Quem está lá dentro ? — indagou Mason.
189
— Quase toda a gente — elucidou Mae. —. Fixou-lhos os nomes ?
Mae sorriu e respondeu:
¦—¦ Foi por isso que fiquei cá fora, à sua espera. Pensei que lhe .conviesse
saber o que o aguarda.
— Quem são ?
— Um homem chamado Clavis, que .pensa ter de testemunhar acerca dos números ide
série id'e certas notas. Trabalha num Banco.
—Beim sei. Que mais?
—.Está Tom Folsom, que foi testemunha no tribunal, e uma tal Oarlotta Tipton,
que parece ter de testemunhar acerca de uns telefonemas; e ainda uma tal Helen
Reedley e o marido, Orville Reedley, que olham um. para o outro, como «cão e
gata>.
—• Muito bem, Mae — aprovou Mason. — Agora dei-xe-me dizer-lhe uma coisa: tem de
ter confiança eim mim e fazer exactamente o que ©u lhe disser.
—Tudo o que ordenar, Mr. Mason.
—. 'Delia Street falou consigo, depois de ter saído do meu gabinete?
— Delia Street?
¦—¦ Sim, a minha secretária. —• Deus do céu! Não!
— Escute, Mae. Sei que está a mentir-me. Mias, mesmo que Delia tenha falado
consigo, quero que faça o que lhe vou determinar: quero que vá ter com Gulling e
lhe conte a verdade, de maneira a obter dele completa imunidade de tudo quanto
lhe quiseram imputar. Mal tenha falado com ele, oasse-lhe o documento-que a
imuniza, ouviu? Não lhe esconda nada, com excepção desta nossa conversa.
—.Esteja descansado, Mr. Mason.
—. Boa menina! Agora vá ter com ele. Eu só ired, dentro de um minuto, paia qu©
ninguém suspeite de que estivemos a falar. E não «se 'esqueça: eu não lhe disse
que não registasse Eva; apenas que lhe pedi que lhe ar-
190
ro-í^B^Wim quarto, onde... A frase tem. de acabar nesse onde, acompanhado ide um
olhar e gesto signifioativoa.
—-< Compreendo. A decisão de omitir o norrue de Eva foi... e é verdade...
unicamente minha, ie a sua frase termina ipsis verbis na palavra «onde», que me
teria sugerido a intenção ide eiscondê-ila de quaisquer importunos. É isso?
—'Exactamente, Mae. E agora vá. Boa sorte.
Momentos depois de Mae ter entrado na antecâmara onde estiava Gulling, Mason
avançou para a mesma porta.
Assim que a transpôs, viu Mae a isegredar qualquer coisa ao onivido de Gulling.
Logo a seguir, «st© saiu com ela da antecâmara. Durante dez minutos, todos os
presentes 'OomKervairam uim mutismo, de certo modo hostil.
Finalmente, Gulling reapareceu, com uim sorriso triunfante espelhado no rosto e
chamou:
—-Mr. Perry Miasoín.
O advogado entrou na sala do Grande Júri.
Segundos depois, Gulling enunciava:
—• Mr. JVí ason foi chamado como testemunha. O Grande Júri está a investigar
certas matérias relacionadas ooni o assassínio de Rotoert Hines e com outros
actos superve-nietnites. Considero m'eu dever informá-lo, com toda a lealdade,
de que pode vir a ser considerado cúmplice de certos crimes. Decerto que está no
pleno uso dos seus direitos, podendo reeusar-se a responder a qualquer pergunta
que possa incriminá-lo; por outro lado, a recusa a responder a uma pergunta
poderá ser considerada como confirmação do crime que possa vir a ser-lhe
imputado.
Mason sentou-ise na cadeira das testemunhas e sorriu, com um. certo ar de
desafio para Gulling, a quem murmurou:
—>Vá para diante, homem!
—<N"ão vou quebrar qualquer privilégio de sigilo profissional—'prosseguiu o
Adjunto do Procurador do Distrito —, de comunicação confidencial entre o
advogado e o seu cliente, mais apenas fazer-lhe uma pergunta es-
101
pecifica, que se situa fora .daquele privilégio: é ou não verdade, Mr. Mason,
que 'após ter tomado conhecimento do assassinato de Robent Hines, ocultou Eva
Martiell às pesquisas da polícia; esperando-a nia rua, à saída de um eléctrico;
eonduzindo-a no seu. próprio carro, iate uima ciasa de quartos de aluguer,
dirigida por uma sua antiga ¦ciieiíte, de nome Mae Bagley?
Mason cruzou ias pernas ie confirmou:
—¦ Certamente!
—O quê ? — espantou-se Guillinig.
—' Certamente qiuie o fiz —. reconfirmou o 'advogado —, com uma excepção de que
toda a sua permissa inicial está incorrecta. Eu não escondi Eva Miartall da
polícia.
—¦ AJh, não? — exclamou Gulling sarcástico.—Nesse caso de quem a escondeu? De
mim?
—i Não, mas idos jornalistas —¦ replicou Mason, prontamente. — .Sabe
perfeitamente como isso é. Os rapazes perseguem as pessoas 'relacionadas com a
vítima, como um autêntico enxame de vespas, ferroando perguntas e instando com
ia concessão de entrevistas.
—'Mas ao conduzir a acusada a «asa ée Mae Bagley, o senhor disse a esta jovem
que .pretendia que lhe escondesse Eva Martell, .onde ninguém pudesse dar com
ela, não foi assim?
—' Exactamente.
— Onde ninguém pudesse encontrá-la ? —• Sim.
— Ninguém ?
— Novamente, sim. Ê exacto.
—'Não compreende, Mr. Mason, que, dessa maneira incluía ia polícia?
—A polícia já a tinha interrogado foirnialmente ¦— replicou o advogado.
—'declarara à minha cliente, depois de obterem o seu depoimento, que podia ir-se
embora.
— Mas poderiam vir a precisar dela, ulteriormente. —• Bem, como é óbvio, não
sou adivinho e não posso
192
prever as mudanças de intenção da polícia. Só conheço a minha e é precisamente
essa que estou aqui a eomuiu-car-lhe. Se pretendei" tirar outras conclusões
dessa nlinha, intenção, Lerá de prová-las.
—-Na manhã seguinte, o senhor já sabia que Eva Martell era procurada pela
polícia, porque eu próprio o adverti dessa circunstância.
— Efectivamente. Até me disse que desejava tê-la aqui, até ao meio-dia ema ponto
desse mesmo dia. Por esse motivo, procurei a minha cliente e instruí-a no
sentido de apregenitar-se no Oonaanidio dia Polícia, antes dessa hora. Isso
libarta-me de qualquer responsabilidade.
— Não liberta tal! O senhor não a trouxe aqui, até ao meio-dia.
— Não tinha forçosamente de custodiá-la. Apenas me comprometi, no que respeitada
à sua auto-apresentação às autoridades. Se tal não aconteceu, foi devido à
intervenção de uaãi carro da rádio-patrulha que a interceptou, no caminho,
eonduzindo-a para uma ceia, como se a tivesse capturado.
—<E oapturou-a, é um facto!—exclamou Gulling, começando a exaltar-se/. — A
acusada declarou, posteriormente, desejar enitregar-se voluntariamente e que se
dirigia de táxi para o Comando da Polícia, mas não pôde prová-lo. De resto, não
deu, claramente, ao motorista essa direcção e, na realidade, a direcção que
tomava era a do aeroporto.
Mason descruzou ias pernas e inclinou-se para a frente. A isua expressão era
agora grave e combativa.
—¦ Essa conclusão... não passa de naera distorção dos factos — acusou o
advogado. — Sabe muito bem que a direcção do aeroporto é a mesma da do Coimando
da Polícia. Por uma questão de pudor, Eva Martell preferiu ir indicando o
caminho ao motorista, em vez de lhe dizer, antecipadamente, que pretendia
dirigir-s© à polícia. A intercepção da rádio-patrulha só ,sie justificaria se a
minha cliente tivesse ultrapassado o Oomando da Policia
7 - V. 376 193
|-
seguindo para o aeroporto. Ao ser cafluradta antes, foi impedida de entregar-se
voluntariamente, o que se evidencia como uma manobra desleal para implicá-la
numa falta que mão cometeu; manobra, de nesito, tão infeliz, que veio a inibir o
Gabinete do Procurador do Distrito de poder provar que a minha cliente
tencionava ausentar-se deste Estado, por via aérea, coimo procura caluniosamente
sugerir, 'embolia tal invenção seja totalmente inexistente, a não ser na
imaginação, ou talvez nos instantes desígnios do Senhor Adjunto do Procurador do
Distrito.
Gullimg ergueu-se, niuim salto, com o rosto purpúreo de raiva.
—¦ Não tive quaisquer desígnios ilegítimos. Apenas tentei assegurar-me de que a
acusada não saía deste Estado; a manobra unicamente visava uma obstrução a
possível fuga.
—-As consequências foram contrárias ao objectivo— apontou Mason.
Reconhecendo ia força do argumento de Mason, Gulling controlou-se, aparentando
maior calma, contemporizou friamente:
— Deixemos esse assunto, por agora. Acontece, porém, que o senhor está implicado
em cumplicidade indirecta, após o facto de crime de homicídio.
—¦ Oh, isso... —¦ comentou Mason, mim tom depreciativo.
— Sim, isso!—'gritou Gulling', novamente irado.
—' Se vai falar do homicídio1, teremos de demorar longas horas. As acusadas,
neste caso, já foram ouvidas, em audiência preliminar, pelo Juiz Homer Lindale.
Mas, se o senhor, Mr. Gulling, está realmente interessado em descobrir a verdade
sobre o crime, deveria interrogar convenientemente a sua testemunha (Artfiur
CHovis, que se encontra lá fora, na antecâmara.
O presidente do Grande Júri, inclinando-se para a frente, interessou-se:
194
—. 'dorvis ?... Está para ser interrogado, não é verdade ?
—. Apenas acerca de uma questão de números de notes, com o propósito de uma
identificação — elucidou Gulling.
—'Mas devia também inquiri-lo acerca do facto die ter tido em seu poder, até
depois do crime ster cometido, uma chave d0' apartamento do Siglet Manor—
sugeriu Mason, como que denunciando uma negligência de Gulling. —¦ E devia
também inquirir a testemunha acerca do motivo que a levou a desfiazer-se
oportunamente, se não ansiosamente, dessa mesma chave.
Neste moimento, um ajudante do xerife entrou na sala e dirigiu-se a Gulling,
informando:
—'Esta 'mensagem para Mr. Mason tem de ser-lhe entregue imediatamente.
Ajo rosto de Gulling afluiu uma onda de sangue e exaltou-se:
—• Não interrompam a audiência, para transmitir mensagens às testemunhas. Já
deviam saber isso.
—¦ Mas disseram-me...
—'Não interesisia o que lhe 'disseram — replicou Gulling furioso. —' O Grande
Júri está interrogando Mr. Mason.
Vendo o pedaço de papel dobrado, entre os dedos de Gulling, Mason estendeu o
braço e tirou-lho, com um sorriso de agradecimento, antes que o outro o lesse.
Des-dobrou-o e verificou tratar-se de uma mensagem manuscrita de .Delia .Street:
Drake acaba ãe telefonar. Houve um, engano acerca da chave. Ê do Siglet Manor,
mas não do apartamento de Helen Reedley e sim, do de Carlotta Tipton.
Aparentemente, OXovis vivia nesse apartamento do Siglet Manor. Depois ãe se
terem apaixonado, Helen deve ter decidido que seria mais se-
195
guro, para ambos, ele ir viver para outro lado. Quando largou o apartamento,
Carlotta mudou-se para lá. Lamento!
Delia
Mason rasgou a nota e anfiou-a rua 'algibeira das calças.
—'Está pronto a responder às perguntas, Mr. Mason ? —¦ indagou Gullimg, em tom
de admoestação. — Não posso roubar um tempo infinito ao que foi estipulado para
cumprimento 'da Lei.
—¦ Que quer saber?—pronitificou-se Mason.
— Que ia dizer acerca de Arthur Clóvis ? — interveio o presidente do Grande
Júri.
— Apenas que tinha unia chave do Siglet Manor. Vivia num desses
apartamemitas.
—'Nesse caso, é natural que possuísse uma chave. Decerto foi obrigado a devolvê-
la, ao deixar o apartamento.
—¦ Mas não a devolveu — observou Mason —, e estou interessado em averiguar, se
não teria também a chave do apartamento onde Mr. HiMes foi 'assassinado.
—''Quer insinuar que Mr. Clóvis1 está implicado no crime de homicídio?
—'Não, meu Deus.! Apenas pretendo, senhor presidente, conhecer os factos.
Gulling, que se sentara, tornou a erguer-se para intervir:
— Não vejo que importância tem a posse de uma chave. Não está a acusa-lo do
crime, pois não?
—'De maneira nenhuma. Essa chave, que Mr1. Clóvis não devolveu à gerência do
Siglet Manor, pertence a um apartamento actualmente ocupado por Carlotta
Tiptoai... Decerto que já verificou: a relação desta mulher com o assassinado,
não, Mír. Gulling?
—' Jã sabemos tudo acerca dela — retorquiu este, de mau modo.
196
— Bois, era a .amante de Hinos —¦ proferiu Mason, casualmente, como que
colaborando mo «tudo» que GuUing insinuava saber. — Ela andava perdida de ciúmes
e se-guiu-o, desesperada, até ao apartamento, quando ele foi ao encontro da
morte.
—¦Como é isso? — estranhou o presidente, grandemente interessado.
Fitando Gulling, com. evidente surpresa, Mason acrescentou:
—¦ Pensei que o adjunto do Procurador úo Distrito tivesse informado o Grande
Júri dessa circunstância fundamental!
—' Está a insinuar, ÍMir. Mason, que Carlotta Tipton seguiu Mr. Hirtes até ao
apartamento de Mrs. Roedley?
—- Não se trata de uma insinuação. Estou a afirmá-lo peremptoriamente. Pensei
que a tivesse interrogado...
—.Mas ela esteve ia dormir toda,a tarde!
—• A mim, oonfidenciou-me os seus movimentos, de maneira diferente... e em
presença de testemunhas.
;—< Quantas testemunhas ? —. inquiriu Gulling tão incrédulo, como exasperado
pela implícita, embora, velada, aouisaçãio de negligência.
— Três.
—¦ Oesinteressadas no caso?
—Duas delas estavam ao meu serviço.
—'E a terceira?
—¦ Paul Drake.
—'O seu detective?
— Sim.
— Isso é unia história forjada —¦ exaltou-se Gulling. Em vez de protestar,
Mason sugeriu polidamente:
— Se não acredita, terá de Chamar Carlotta Tipton, perante o Grande Júri, para
que deponha sob juramento.
—'Esse depoimento não 'alterará o curso do caso. Você pode tentar, uma vez mais,
ernbaralhar os factos, para desnortear os Jurados, mas não me convence e não
consentirei que o faça aqui. Ék
197 H
—• Não pretendo baralhar ninguém —¦ retorquiu Ma-son, com certa indignação —, e,
se não se convence, só tem uma coisa a fazer: interrogar a própria Miss Tipton.
—'Parece-tme a única solução—'Observou o presidente.
Gulling olhou em volta, como que desarmado e cedeu:
—¦ Muito bem, mas Mr. Mason rotira-se para uma outra sala.
—' Porquê ? —¦ indagou o presidente. — Quero ouvir as declarações dessa mulher,
em confronto com Mr. Mason.
— E ilegal —' exaltou-se Gulling, expandindo perdigotos e tormando-se escarlate.
— Não foi prevista qualquer acareação. Só os peritos podem estar presentes, na
inquirição das testemunhas.
O presidente mostrou-se, então, desconfiado e impaciente.
—¦ Quero que Mr. Mason esteja presente —¦ determinou. —¦ Ê uma testemunha.
—'Mas, neste 'momento, mão é ele que está, a ser interrogado — contestou
Gulling gesticulando.
— E um perito forense — justificou o presidente, estranhando, cada vez mais a
relutância de Gulling.
— A.viso-o de que é ilegal.
—• Façamos um intervalo e oiçamos Miss Tipton, informalmente —¦ sugeriu aquele.
O adjunto do Procurador do Distrito cerrou os maxilares e objectou:
—'Num intervalo, não podemos ajuramentar a testemunha.
—'Então, não se faz intervalo algum. Quero ouvir essa testemunha, na presença de
Mr. Mason — insistiu o presidente, descontente, por ser tão tenazmente
contrariado.
—'Tragam, a testemunha Carlotta Tipton — transmitiu Gulling não conseguindo
ocultar um esgar de raiva.
Quando a jovem entrou na sala, olhou para o Grande Júri e depois de prestar
juramento, cruzou as pernas,
198
baixou a saia uni milímetro e exibiu um belo panorama de meias de nylon.
—- Mr. Mason afirma —- começou Gullimg, à laia de preoautiva advertência—, que
Miss Tiptoin admitiu ter seguido Mr. Himes até ao apartamento de Mis. Reedley,
onde veio a ser 'morto. Que verdade há nessa afirmação.
Olhando para Mason, admiradamenite, Oarlotta inquiriu:
—'Mr. Mason disse uma coisa dessas?
—• Afirmou-o —• declarou Gulling, readquirindo alguma compostura.
—¦ Mas por que iria Mr. Mason, faaer uma tal afirmação? Eu tive ocasião dte;
afiançar-Ihe, senhor Procurador do Distrito', que estive, a domar toda a tarde.
Realmente, ouvi mencionar, não sei a quem, que Mr. Hines estava relacionado com
uma tal Helen «qualquer coisa», ou que mantinha centos negócios com ela, mas não
faço a mínima ideia de queim seja essa pessoa. Não sei se se lembra, Mr.
Gullinig, como fiquei admirada, ao comu-nicar-me que essa mulher tinha um
apartamento no mesmo edifício.
—> Foram essas as declarações que prestou a Mr. Mason ?
—"Sem a menor dúvida!
—'Mr. Mason teve testemunhas dessa conversa?
—¦ Sim. Trouxe um grupo de pessoas que trabalham para ele. Disse-me que estava a
tentar safar uns clientes de uma acusação de homicídio. Riaspomidi-lhe natda
poder fazer para ajudá-lo. Então ele insinuou que, se eu declarasse ter ciúmes
de Robert Hines, isso já lhe seria de grande utilidade.
— Que lihe respondeu, Miss Tipton ? —¦ amimou Gullurg, encantado.
— Que não podia satisffazê-lo, visto saber que as relações 'entre essa Helen
«qualquer coisa» e Roibert eram puramente comerciais. Então ele padiu-me se eu
mão poderia alterar ligeiramente o meu testarraimho.
199
— Ble pediu-lhe para alterar o seu testemunho ? — rejubilou GulTing.
—> Exactamente.
—' Quer interrogar a testemunha, Mr. Mason ? — propôs o presidente do Grande
Júri.
—'Um moimento — interferiu Gulling, bracejando. ¦— Isso é totalmente
irregular.
—>Não mie interessa se é irregular, ou não—cortou o presidente. —¦ Quero
esclarecer ia verdade. As declarações desta testemunha são de tal maneira
diametralmente opostas às do advogado que se torna imprescindível determinar
quem cometeu perjúrio. De outra maneira, não se faz Justiça. Mr. Perry Mason é
considerado um bom advogado e não creio que minta. Estou inclinado a admitir,
mais facilmente, que Oarlotta Tipitom tenha cometido perjúrio.
—¦ Die qualquer maneira, Mr. Mason não pode interrogar a testemunha. Ê
altamente irregular.
—• Muito bem —• 'decidiu o presidente. — Eu faço as perguntas e Mr. Mason dita-
mas. Digia-me a primeira, se faz favor, Mr. Mason.
— Pergunte-lhe, senhor presidente, a que hora se deitou ela, para dormir.
Oarlotta antecipou-se à repetição da pergunta pelo presidente e declarou:
— Não costumo olhar para o relógio, quando me deito. Foi depois do almoço.
—¦ Convém que lhe pergunte — sugeriu Mason ao presidente —, se se despiu para
meter-se na cama, enquanto Hines esteve com ela no apartamento.
— Não tente atirar-me com lama — refilou Oarlotta, desafiadoramente. — Estava
completamente vestida, até que Bob saiu do apartamento.
Perry Mason apontou para o relógio de pulso e o presidente inquiriu:
—¦ Que horas eram, nessa altura ?
—¦ Faltavam .cinco minutos para as duas.
200
—¦ E tornou a ver Hines ? —¦ Nunca mais o vi.
—. Quanto tempo dormiu ? —sugeriu Mason ao presidente.
— Toda a tarde—'respondeu Carlotta, directamente, a Mason.
— Isto é absolutamente irregular1!—tornou a protestar Gulling.
Ignorando-o, Mason prosseguiu:
—' Posso provar facilmente que mente. Heiexi Reedley tinha o número de telefone
de Miss Tipton; Adeile Win-ters tinha o número dle telefone de Miss Tipton; Miss
Eva Martell, também. Telefonaram-lhe várias vezes, nessa tarde e Miss Tipton
respondeu-lhes.
—¦ Está visto —' cortou Gulling sarcástico. — Adeille e Eva são suas clientes.
Se o confirmarem, fazeim-no unicamente para salvar os respectivas pescoços.
—• Interrogue Helem Reedley—prcpôs Mason.
Fez-se um grande silêncio, perante o constrangimento evidente de Gulling.
Nervosamente, Carlotta corrigiu:
—¦ Bem... Efectivamente, tive de atender, diuias ou três vezes, o telefone, mas
tornei a meter-me na oamia e a dormir. Não saí do apartamento, a partir das duas
menos cinco.
— Isto não nas leva a lado algum — criticou Gulling. —'Lieva-Tios a inculpar
um advogado, se mentiu; ou
a ilibá-lo, se narrou a verdade dos factos — replicou o presidente. — Mas quero
ter a certeza da razão que me assiste, ao fazê-io, Mr. Gulling.
Todas os jurados .menearam as cabeças, «aprovativa-mente. Rangendo as dentes,
Gulling retorquiu, quase lastimosamente:
—'Mas, senhor preseidente... Mr. Mason representa duas acusadas de -assassínio
e roubo!
— Não lhe autorizo que invoque, nesta audiência, a
201
miatérla dos crimes, sem que seja julgada legalmente em tribunal competente.
— Ninguém pode impedir-me de informar o Grande Júri dessa matéria. Ê tão
competente para julgar os factos como qualquer outro tribunal.
Mason, que jogara com o nervosismo e espirito de contradição de Gulling, simulou
ceder, contrariado e, com um encolher de ombros resignado, propôs:
—-Muito bem... sendo assim, tenho uma sugestão a apresentar ao Grande Júri.
—-Qual é?—¦ interessou-se o presidente.
— Eva Martell e Adele estão sendo julgadas, sob a acusação de homicídio de
Robert Hines, que lhes foi imputado pela Procuradoria do Distrito, com base em
factos aparentes. Portanto, permito-me sugerir que, enquanto este Grande Júri
está em sessão, aohando-se todas as testemunhas presentes, na antecâmara, se
indigite o verdadeiro assassino.
—• Quem ? —• inquiriu Gulling, .sarcástico.
—. Presuimiu-se — continuou Mason — que Robert Hines foi assassinado, entre as
duas horas menos cinco e as duas e dez, porque, às duas e onze minutos, Adelle
Winters saiu do apartamento, trazendo consigo' o revólver, com que Hines foi
morto.
—. Que está errado nessia presunção ? —• indagou o presidente.
—¦ Tudo —' afirmou Míason. — Nada disso é verdade. A arma foi encontrada,
enterrada no lixo. Ora, nenhum lixo foi despejado no caixote, depois que a arma
aí foi depositada. Basta considerar o que isso. significa.
—.Isso nada significa! — gargalhou Gullling.
—• Significa, sim! — teimou Mason, rispidamente. — Prova que alguém... e não
Adelle Winters... colocou essa arma, no meio do lixo, -porque pensou que iriam
deitar mais lixo, no caixote, depois de ter visto a acusada espreitar lã para
dentro. Isso significa, portanto, que esse alguém retirou a arma, do caixote,
quando esta se
202
achava à superfície, utilizou-a para matar Himes, e tornou a rapô-Ia no mesmo
local; contudo, destoa vez, enter-ranão-a profundamente, para dar a ilusão de
que ninguém lhe mexera e fora apenas coberta por nova clamada de lixo.
—¦ Quem ? —¦ insistiu Gulling, sem grande ânimo no seu ¦sarcasmo.
Alheando-se da interrupção, Mason continuou:
— Além disso, significa que essa pessoa era alguém que sabia que Adelle Winters
fora vista junto do caixote. Ora, só duas pessoas sabiam isso: uma delas ena o
detective Tom Folsom; a outra, o homem que contratou os serviços da Interstate
Investigators, piara seguir Adielle Winters: ou seja, Orville Reedley.
Gulling lexultou ao declarar:
— Mr. Reedley tem um álibi indestrutível, para o momento do crime.
—¦ O momento errado, que a Procuradoria do Distrito tomou por exacto, já que lhe
era conveniente—¦rectificou Mason incisivamente. — O crime foi cometido,
realmente, cerca de meia hora miais tarde. Orville Reedley, sentado naquela
agência de investigação', recebeu a informação telefónica de que Mrs. Winters
deixara o apartamento e se dirigira paria o Lorenzo Hotel, onde estivera a
espreitar, ou a deixar cair, qualquer coisa para um dos 'caixotes de lixo,
colocados num corredor exterior.
Achando isso estranho, Reedley correu a averiguar de que se tratava. Foi
directamente àquele corredor de serviço e descobriu o revólver. Então
ímteirrogou-se sobre o motivo que levara a acusada a desfazer-isie de uma arma,
depois de ter deixado o Siglet Manar. Oom o revólver em seu poder e sabendo que
ambas as mulheres estavam ausentes do apartamento, foi até lá investigar.
Evidentemente, tinha uma gazua idle que antecipadamente se munira. Reedley
encontrou Himes, em mangas de camisa, sentado no quarto de cama, como se
estivasse inteiramente em sua casa. O ciúme...
203
quem era Eva Mar-detectives da Inters-
mulher, de quiemi se amante. Não hesitou
— Qual ciúme?—regougou Guling, como uma raposa. —' Não era Mrs. Reedley quem
habitava 'esse apartamento, mas Eva Martell,.,
- Mas Orville Reedley ignorava tell. Mandara seguir a esposa e os tat julgavam
que a morena contratada era efectivamente Mrs. Reedley. Asisimi o indicavam nos
relatórios para o marido. Este tinta um revólver" alheio, na algibeira. O
ciúme... dizia eu, talvez não fosse tão poderoso, como o orgulho ofendido; e
esses dois sentimentos não eram, de certeza, tão potentes como a necessidade de
causar um escândalo no apartamento da queria libertar, para casar com a em puxar
o gatilho*. Em seguida, correu a repor a arma, no lixo de onde a tirara, tendo
porém o cuidado... infe, litííssimo... de enterrá-la, por ignorar a
periodicidade dos despejos e pensar que já teriam, entretanto, vazado mais
detritos. Desta maneira, estava certo de que Adelle Winters pagaria, por ele, o
homicídio1 que cometeria e que ia Procuradoria do Distrito não deixaria de
interpretar os factos erradamente.
Num gesto de exasperação incontida, Gullinig desafiou:
—Tem alguma prova, uma só que seja, dessa mirífica teoria?
—¦ Impressões digitais, na tampa do caixote — cortou Miason prontamente. —¦ O
senhor, Mr. Gulling, deu instruções restritas ao seu perito1, para que apenas
procurasse detectar as impressões deixadas pela acusada, limitando assim,
unilateralmente a investigação' policial, no único sentido da sua errada
suspeita... do seu antecipado julgamento. Ora a missão da Procuradoria é reuni?
todos os factos, ordenando-os para a Acusação, e não destrinçar aqueles que lhe
convêm, para facilitar essa missão. E só ao Tribunal compete julgar; mas carece
para tal, de elementos fidedignos, integrais, e não limi-
204
tadamente definidos, por prévio julgamento da Procuradoria do Distrito.
—>Mas... eu...--gaguejou GuUing, indignado.
—¦... pode, dentro de cinco minutos, obter a prova de que duvida, mandando o
perito, Mr. Korbel, comparar as impressões digitais das fotografias, recolhidas
na referida tampa, com. as da testemunha Orviile Reedley •— finalizou JVEason.
—'Vamos esperar por essa verificação — decidiu o presidente do Grande Júri.
21
Paul Drake e Delia Street estavam sentadas no gabinete de Ferry Masom, quando
este abriu a porta particular, de acesso directo ao patamar, e entrou.
— Até que enfim, Ferry! — exclamou o detective. — Já são dez horas! Deram-te um
belo suadouro, liam?
—' Apenas me fizeram transpirar a verdade. E ti-nha-me «espalhado» ao comprido,
se não me tens feito chegar às mãos, a tempo e horas, a tuia oportuna mensagem
sobre a chave.
—¦ Desfecha lá isso —¦ pediu Drake, ansioso'.
— Todos estávamos hipnotizadas peio factor tempo. Porque o crime fora cometido
com uma arma... quie sabíamos ter sido lavada do Siglet Manar, às duas e onze
minutos... deduzimos, naturalmente, que o homicídio fora perpetrado antes dessa
hora. E Adelle Wimters, com as suas mentiras, ainda mais complicou o problema.
Julgando que o crime fora cometido, enquanto estivera -no-átrio do hotel,
declarou, imaginativamente, ter visito unia cápsula de cartucho deflagrado, no
tambor da arma, e que esta cheirava a pólvora recentemente queimada. Tudo isso
não passou de invenção sua, no intuito de atribuir-se uma boa razão, para
ter-se desembaraçado
205
da arma. Convencera-se de que a mesma fora disparada, nessa altura, e mentiu.
— E não foi?
—• De modo algum!
—> Foi para o caixote do lixo, depois disso ?
—' Sim e 'antes do crime. Mas alguém foi lá buscá-la, para correr com ela ao
apartamento, matar Hines e voltar a devolvê-la ao caixote... desta vez
enterrando-a. no lixo, por pensar que, entretanto, teriam, feito mais despejos.
—. Quem ? — inquiriu Drake, coçando o alto da cabeça.
— Orville Reedley. Foi ao Lorenzo Hotel averiguar que raio estivera Adelle a
fazer junto do caixote, pensando que atirara para lá qualquer coisa, e descobriu
o revólver, ao de cima do lixo.
—• Oomo o adivinhaste ? - —¦ Não adivinhei. Deduzi simplesmente que, aléim dos
detectives da Interstate, apenas Reedley sabia que Adelle estivera naquele
corredor, junto dos caixotes... e só Reedley era «interessado» no caso. Pensou,
então, que tinha urna magnífica oportunidade de ir ao apartamento de Helen, ver
o que por lá se passava, seguro de que ambas as mulheres estavam ausentes e
admitindo a possibilidade de lá encontrar Hines. Não resistiu à tentação e
matou-o.
— Como pudeste prová-lo ?
—' Pelas impressões digitais que também deixou na tampa do caixote.
—'E acerca da carteira de Hines, que foi achada em poder de Adelle Winters ? —
indagou Delia. — Era o que mais me preocupava.
—• Também a mim —• confessou Mason. — Era uma boa motivação para a Acusação
poder implicá-la no crime, mesmo que conseguíssemos estabelecer suficiente
dúvida, em relação às restantes premissas.
—• Que se passou, realmente ?
— Depois de Orville Reedley ter premido o gatilho,
206
compreendeu que lhe convinha «plantar» unia provazãnha adicional, convincente,
para dar a impressão de que Hi-nes fora assaltado. Sabia que alguém iria
descobrir o cadáver e pensou na probabilidade de lesse alguém ser aquela que
escondera o revólver, no lixo:x Adelle Winters, chaperon da morena, que ele
pensava ser Helen, de acordo com as informações da Interstate. Tirou a carteira
da algibeira de Mines, que apenas continha quatrocentos e cinquenta dólares, e
considerou esta soma pouco tentadora para que, por ela, se cometesse um
assassínio. Sempre pensando em Adelle Winters, achou que esta não resistiria a
uma «isca» mais cativante. Então, extraiu esse dinheiro da carteira dle Hines e
subs-tituiu-o por três mil dólares que retirou: da sua. Finalmente atirou aquela
para o chão. Dançado O' engodo, saiu do apartamento e fechou a porta... E Adelle
Winters acabou por fazer exactamente o que ele esperava.
—. Reedley confessou ? —• inquiriu DraJke.
—¦Foi-se abaixo1, depois da prova das impressões digitais —• confirmou Mason. —•
Impulsivo e nervoso como é, perturbou-se na confrontação com o perito Korbel.
— Calculo como Gulling' deve ter ficado' furioso — comentou Delia.
—. O mais interessante da história foi ter Gulling usado, contra mim, um trunfo
que eu mesmo lhe fornecera. Tentou demonstrar que, em virtude de Adelle Winters
ter ficado com a carteira de Hines, cometera um roubo. Esta acusação permitiu-
me usar o meu trunfo.
—¦ A pasta, com ia carta terminada em código, que Gulling encontrou nos lavabos?
— Não precisamente. Devo esclarecer que a Dei prescreve que «propriedade achada
deve ser restituída, dentro de um tempo rasoávely. Tentei levar Gulling a
aceitai' um lapso de seis horas, como sendo> «razoável». In-surgiu-se contra a
minha interpretação da Dei e invocou vários casos de sentenças passadas.
Contudo, 'antes que se ^«enterrasse» ainda mais, perg-untei-lhe se não
teria
207
em seu poder, há mais de iseis horas, flnpHeãaãe achada que lhe não pertencia,
peia simples razão de que era minha.
— Corno reagiu ele ? —• perguntou Delia vivamente interessada.
— Apanhado na rede, def endeu-se dizendo que reti-vera a minha pasta, por conter
um documento escrito, que me implicava criminalmente. Disse-lhe que, se assim
era, teria de prová-lo, e pergunitei-Ihe que documento era «sise. Exibiu-o
exultante, ao irueisimo tempo que explicava tratar-ee de uma mensagem em código.
Líembrei--Ihe então que, para provar implicação criminal, teria primeiro ide
decifrar esse código e depois demonstrar a gravidade do seu conteúdo. Foi
simplesmente cómico. Acabou por confessar que os peritos de criptografia, a quem
havia distribuído várias fotocópias d© documento--carta, tinham simplesmente
declarado não se tratar de código algum,. Nessa altura indigitei o facto de, não
sendo a carta, documento incrimimativo, nãoi havia motivo para a retenção da
minha pasta, mais de seis horas, e antes que ele começasse a justificar-se,
declarei, alto e em bom som, perãoar-lhe esse acto que ultrapassara o tempo
razoável que ele próprio considerara demasiado para se não imputar crime de
roubo.
—¦ Qual foi a atitude dos Jurados ? —initeressou-se DTalíe.
—¦ Ao fim de .alguns segundos, conseguiriam sufocar o riso — respondeu Mason,
com um pisoar de olho. malicioso.
—' E a mensagem ? — lembrou Dralse. —¦ Era realmente indecifrável ?
—. Pelo menos, para habitantes terrestres. Depois de Reedley ter confessado,
tive ensejo de leccionar a Gulling um bom pedaço da Lei.
— Como foi isso?
— Desesperado pela triste figura que fizera e não podendo inculpar Adelle
Winters de homicídio, tentou
208
novamente implicá-la no crime de roubo. Recordou um caso em que o «tempo
razoável» pudera ser desprezado, por provar-se intenção de roubo. Alegando que
Adelle Winiters, continuara sem apwesantar a carteira, mesmo depois de saber que
Hines fora assassinado1, concluiu que cometera um roubo, pois demonstrara
«intenção» de ficar com ela, já que «um objecto... extinto o seu proprietário...
passa legalmente a ser propriedade dos seus herdeiros... ou do Estado, ina
inexistência destes».
—. Como conseguiste safá-la dessa situação ? — perguntou Dralce.
—'Muito simplesmente. Reedley admitira ter tirado o dinheiro de Hines, por ser
fraco engodo, substituindo-o por (dinheiro seu. Depois, atirara a carteira para
o chão, no intuito de que Adelle Wmters a achasse. Portanto, esta, ao guardá-la,
apossara-se de uima «propriedade voluntariamente abandonada». Ao atirar o
dinheiro para o chão, Readíley abandonara voluntariamente o que era sua
propriedade. Ora a lei preceitua que, nestes casos, «o achador tem o direito- de
apossar-se do achado». Depois desta breve lição, Gulling reconheceu a sua lógica
e pareceu ficar mais pequeno que o fato.
—• Que fizeram ao dinheiro ? —¦ interessou-se DieEa.
—> Disse a Adeile Winíters que ficasse com mil e quinhentos dólares, corno sendo
a gratificação qoe Hines lhe prometera, e disse-lhe que guardasse o resto, amo
«lembrança». Quando deixei o Grande Júri, o ambiente era de festa, deveras
ídivertidia. Davam-wie palmadas nas costas e lapeftos de mão, enquanto Gulling
fugia pela porta foEt*a, apopléctico, como se a pressão arterial lhe tivesse
subido para além de duzentos e cinquenta,. Valeu a pena o esforço, Paul—¦
acrescentou Mason-—mas foi um caso dos diabos. Tivemos várias vezes a solução
diante dos olhos e deixámo-la fugir, por causa do maldito factor tempo. Fomos,
de resto, arrastados para o erro, pela ânsia condenatória de Gulling, que se
cimentava, inatoalavelmerite, nesse mesmo factor. Se eu não tivesse
209
suspeitado da possibilidade de o «momento do crime» ser fictício, ias minhas
clientes estavam metidas, a estas «horas», numa terrível embrulhada. Da próxima
vez, se por acaso me cruzar na rua com alguém que esteja a contratar uma morena,
vou. consentir^lhe que fique com ela'.
FIM
Leia nas páginas seguintes a condensação do n." ijj da COLECÇÃO VAMVIRO