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Simplesmente irresistível - (Não dá pra tirar da cabeça o que

tá no coração....)
Karina Dias

Eu me chamo Cristina. Podem me chamar de Cris, eu prefiro.


Tenho vinte cinco anos. Sou uma mulher dentro da média no
quesito beleza. Corro todos os dias pela manhã para manter a
forma, meço 1,68m, tenho 68kg, cabelos lisos com tom de mel
abaixo dos ombros, olhos castanhos claro, pele branca. Há
dois anos e meio não moro mais com os meus pais, tenho um
emprego estável na loja de carros da família e, estou
terminando a faculdade de jornalismo. Apesar da pouca idade
já tenho a minha casa e um carro. Meu ciclo social é
constituído por um seleto grupo de amigos, e uma família
maravilhosa, constituída por: Carlos, meu pai, 55 anos. É o
cara mais incrível que conheço, sabe tudo sobre carros.
Quando mais moço trabalhava de taxista nas ruas do Rio de
Janeiro. Dois anos nesse ramo e já estava com uma frota de
táxis. Quando o negócio começou a ficar maçante e não
despertando mais o seu verdadeiro “eu” empreendedor,
passou a vender alguns carros. Com o dinheiro de um táxi
vendido ele comprava dois ou três carros em leilões públicos,
fazia os pequenos reparos que sempre tinham para fazer,
depois os vendia na porta de casa mesmo, tendo um lucro de
mais de cem por cento do que havia investido. Quando o
negócio cresceu, quase um ano depois, papai comprou um
galpão praticamente abandonado, vendeu o último táxi que
ainda estava em seu poder e abriu o CARROS JÁ, que é onde
trabalha até hoje. Além de mim, que sou sua filha, tem mais
doze empregados, entre eles meu irmão Luiz que é um ano
mais velho do que eu, e é tão sensacional quanto meu pai,
vende carros como quem vende balas, adora o que faz, é
dedicado, trabalhador, bom caráter, e amigo, isso mesmo, Luiz
é um dos melhores amigos que alguém pode ter. Completando
o time da família tem também minha mãe Ana, dona de casa
dedicada, nos criou com o máximo de amor, jovem ainda,
principalmente de espírito, tem 48 anos, com aparência de
vinte nove, quando saímos juntas, parece minha irmã. Por
falar em irmã, também tenho uma irmã mais nova, Amanda,
essa tem dezoito anos, é linda, uma bonequinha em todos os
sentidos, um pouco desinteressada pelos negócios da família,
só passa na loja quando precisa de dinheiro. Está cursando o
primeiro ano de cinema, é uma sonhadora incondicional,
adora Internet, shopping e homens, bem diferente de mim,
que adoro ficar em casa, vendo filme na TV, estudando ou
jogando baralho com os amigos, confesso que nem sempre fui
assim, mas... Deixa pra lá... Hoje sou assim. Ah! Já ia me
esquecendo, não gosto de homens, quer dizer, não gosto de
namorar homens, desde os meus quinze anos, quando beijei
pela primeira vez a boca de uma mulher, não consigo parar de
pensar em outra coisa, talvez seja por isso que eu e meu irmão
Luiz nos damos tão bem, é nosso assunto preferido, ele
sempre brinca dizendo que Deus não o deu um irmão mais
novo para que pudesse ensinar-lhe algo sobre as mulheres, no
entanto, fez melhor, lhe deu uma irmã mais nova que tem a
vantagem de conhecer as mulheres como ele jamais
conhecerá. Engraçadinho, não acham? Bom, no time da família
também inclui: um cachorro vira-lata chamado Rex que é o
xodó de minha mãe, o papagaio Frederico, sim, porque louro
já é muito ultrapassado, e uma gata angorá chamada Patrícia
em homenagem a minha irmã. Aos Domingos nos reunimos
para matarmos a saudade, embora nos vejamos quase todos
os dias, isso porque a loja fica ao lado da casa dos meus pais, e
minha casa fica a duas ruas dali, na verdade saí de casa
quando conheci Aline, foi uma paixão fulminante, ela não
tinha um bom relacionamento com seus pais, então
resolvemos juntar nossas escovas de dente, mas, Aline sempre
fora muito geniosa, ficamos alguns meses morando com minha
família, a experiência não foi tão boa, pra ser sincera, foi um
fracasso mesmo, a menina queria mandar mais do que minha
mãe, vê se pode? Devido a esse pequeno contratempo, resolvi
partir para um aluguel, no entanto, meu pai, sábio como
sempre, me proibiu de cometer essa loucura, e nos
presenteou com um apartamento perto dali, um apartamento
pequeno, porém aconchegante e quitado. Bom... Acho que
vocês estão se perguntando, e daí? Porque tá dizendo tudo
isso? Calma! Eu só quero que vocês me conheçam melhor...
Voltando a Aline... Aline sempre fora uma mulher maravilhosa,
adorava cozinhar, e era muito quente, tinha um corpo
atraente, voz excitante, era morena, de cabelos cumpridos,
isso me atrai bastante, lembro-me de quando nos conhecemos
numa boate aqui no Rio, eu estava bêbada, e ela me odiou a
primeira vista, não me deu à mínima, e naquela época, eu
estava literalmente na “galinhagem”, acho que está explicada
aquela frase: “nem sempre fui assim”... Como começamos a
conversar? Ah! Nosso primeiro diálogo foi muito construtivo,
eu estava no estacionamento da Boate quando de repente...
Vomitei no pneu do carro de Aline. Foi sem querer. Como eu
iria saber que o carro era dela? E eu sou tão azarada que ela
estava chegando bem naquele momento, posso dizer que essa
foi a Segunda vez que nos vimos.

- Mas que droga! – Disse ela.


- Calma – Foi o que eu consegui dizer – Eu tô bem – Sussurrei.
- Estou falando do carro... Tanto lugar para você vomitar, tinha
que ser no pneu do meu carro? – Ela estava realmente brava.
- Credo menina! Pensei que você estava preocupada comigo.
- Com você? Por acaso alguém te obrigou a encher a cara? –
Disse fitando-me com aquela carinha que diz: “vou te esganar”
- Tudo isso por causa de um pneu? – Tirei um cartão do bolso
da calça e entreguei-lhe – Leva o seu carro nesse endereço,
temos um lava jato ao lado, vamos resolver o seu problema –
Olhei-a séria.
- Até parece que eu vou me despencar do Méier até
Copacabana para lavar um pneu – Olhou-me novamente.
Agora eu já estava de pé, vomitar sempre faz bem quando
estamos passando mal, ou bêbados, como era o meu caso.
Acho que ela gostou de mim ao terceiro olhar... Ela sorriu e
pôs a mão na cabeça como se estivesse arrependida por tudo
o que me dissera. Claro, né? Fez uma tempestade em um copo
d’água – Acabei de fazer dezoito anos... Peguei minha
habilitação ontem... Essa foi a primeira volta que eu dei no
carro do meu pai, e uma louca vomita no pneu – Disse e sorriu.
Eu sorri também, claro. Dezoito anos? – Pensei – Com aquele
corpo? – Continuei pensando.

Ela foi gentil, não foi? Ah sim! Eu ainda não disse o porquê
dela ter sido gentil... Bem, ela levou-me para casa, eu havia
perdido às chaves do meu carro... E quando chegamos na
minha casa, já eram cinco da manhã, todos estavam dormindo
e Aline ficou com peninha de me deixar jogadinha por lá... Foi
comigo até o meu quarto, e ajudou-me a tirar a roupa para eu
tomar banho, no entanto... O que aconteceu foi bem simples,
roda a fita aí: começamos a nos beijarmos antes mesmo de
entrarmos em casa, nos semáforos do caminho. Quem nunca
fez isso? Um dia vai fazer, pode apostar. Depois, foi fácil, já
estávamos sem roupa no banheiro... Aquela pele quente que
ela tinha, sua boca percorrendo meu pescoço... Senti seu
corpo se esquivando da água, alcançando o apoio da parede...
A menina me puxava para ela, e minhas mãos não conseguiam
sair do meio das suas pernas... Eu penetrava Aline cada vez
mais rápido e ela estava insaciável, sempre querendo mais...
Abaixei-me no meio das suas pernas e descobri naquele
momento o que satisfazia aquela menina...Minha língua se
perdeu por horas dentro dela... Depois dessa noite... Digo,
manhã de amor... Manhã de sexo? Decidam-se por favor.
Bom... Sempre vivemos bem, até o mês passado, justamente
quando Aline recebeu um convite irrecusável de ir para os
Estados Unidos fotografar, esqueci de comentar o quanto ela
queria ser modelo. Era sua chance, eu não podia pedir para ela
ficar, e nem poderia ir com ela, então, em uma Segunda-feira
ela recebeu a proposta, na Sexta-feira, ela estava na ponte
aérea, Aline nem ligou para dizer se havia chegado bem, fiquei
dias do lado do telefone, olhava o celular de dois em dois
minutos na esperança dele tocar, fiquei sem comer, sem
dormir e meu rendimento no trabalho estava péssimo nesses
dias, foi então que Aline ligou, pediu-me desculpas, disse que
sentia minha falta, mas que estava vivendo o melhor momento
de sua carreira, e então, nós terminamos. Chorei a noite
inteira, na manhã seguinte, recebi a visita de Cíntia, amiga de
trabalho de Aline, elas estavam disputando a mesma vaga para
esse trabalho no exterior, ambas são belíssimas, nem sei como
tiveram a coragem de descartar uma delas, bom, eu ficaria
com às duas, mas, isso não importa... Fiquei surpresa com a
visita, porém curiosa, tomamos café juntas enquanto
conversávamos, só então fiquei sabendo o real motivo de
Aline ter me descartado tão friamente pelo telefone, a safada
engrenou um romance com o produtor do evento para se dar
melhor e conseguir a vaga, e pensar que chorei a noite toda.

- É o preço que se paga por se envolver com uma pirralha de


vinte anos – Pensei.

Hoje, faz quinze dias desde a visita de Cíntia, acordei mais


cedo, encaixotei todas as coisas que Aline deixara em meu
apartamento, e deixei na casa dos seus pais. Agora, são dez e
vinte da noite, percebo que o apartamento ficou bem menor,
embora tenha tirado tantos objetos dali. Não sei bem como
estou me sentindo, mas, acho que estou melhor, esses últimos
dias me fizeram amadurecer, e sei que não vou chorar mais,
nem por Aline que não teve a mínima consideração por mim,
nem por alguma outra que venha usufruir de algum espaço na
minha cama, estou bem dura interiormente, será impossível
confiar e entregar a minha vida novamente a outra pessoa.
Estava exausta, havia dois recados na secretária eletrônica.
Sentei-me no sofá.

- Cris! É o Guga, me liga assim que chegar, beijo.


- Cris! Atende Cris! É o Guga de novo. Tá em casa? Eu sei que
não está, se estivesse não faria isso comigo. Olha, sabe aquela
garota que eu te falei? Ela tem uma amiga gostosona que está
doida pra te conhecer, me liga!

Que piada! Gustavo, o Guga, meu primo, filho da minha tia


Vera, irmã mais velha do meu pai, ele tem a minha idade, não
tem emprego, não terminou os estudos, vive de pensão da
mãe que o trata feito bebê, e sempre se mete em furadas, a
última foi ter se envolvido com uma mulher casada, e o pior, o
marido dela, um policial que estava doido para saber quem era
o canalha que comia sua mulher quando ele ia trabalhar, uma
vez chegou mais cedo em casa, e quase surpreendeu Guga
com a esposa na cama, sorte que o cachorrinho de estimação
da mulher deu sinal, então meu primo atrapalhado correu de
cueca de Santa Teresa até a Praça Quinze, no centro da
cidade, às roupas na mão eram quase invisíveis para ele, sabe
pra quem ele ligou? ligou para mim, e eu ainda tive que ir
buscá-lo, porque o trouxa deixou o dinheiro cair pelo caminho,
nem o do ônibus ele tinha, conseguem imaginar o desespero
desse desmiolado? Hoje essa estória é motivo de piadas,
mas... Na época... Nossa!!!!! Sorri lembrando-me do incidente.

Já passava da meia-noite quando o interfone tocou.

- Quem é? – Disse sonolenta.


- Cris, sou eu, Guga – Disse aflito – Abre, é urgente. Rápido por
favor.

Era bem provável que meu priminho irresponsável tivesse


aprontado alguma de suas peripécias. Abri a porta...
- Surpresa! – Disse ele sorridente.
Bom, o que dizer daquela cena barata? Guga estava diante de
mim com duas... Duas loiras exuberantes. A situação fora no
mínimo desconfortável. O que deu na cabeça dele pra trazer
visitas àquela hora na minha casa?

- Oi – Cumprimentei as meninas, logo fitei Guga com fúria nos


olhos. Olhei o relógio pra ver se ele se mancava, mas, meu
primo desconhece essa palavrinha.
- Cris, essa é a Luana, e essa aqui é sua futura esposa – Sorriu –
Brincadeira, é a Susy. Trouxe batatas e cervejas – Abriu uma
sacola – Filmes eróticos e ... Camisinha, pra mim, é claro.

Puxei-o no canto.
- Você só pode estar brincando, não é? – Disse furiosa.
- Relaxa prima! Ainda vamos brincar – Sentou-se no sofá – Sou
sua fada madrinha, há quanto tempo não sai de casa? E o que
é pior, há quanto tempo não tem uma noite daquelas? –
Concluiu animado.
- Lamento desapontá-lo, mas, não quero dividir a minha cama
com ninguém, muito menos com uma garota que eu nem
conheço – Disse absoluta.
- Meninas, fiquem à vontade – Puxou-me pelo braço – Vamos
só pegar uns copos.

Fomos até a cozinha. Abrimos umas cervejas, batatas na


tigela...
- Guga, está tarde, eu quero dormir – Disse desanimada –
Porque não leva as duas para um motel?
- Cris, a Susy é toda sua, o meu negócio é com a Luana, ela não
é uma delicia? – Tomou um gole de cerveja, logo acendeu um
cigarro – Vou ficar com o quarto de hospedes, tá?
- Eu sabia, tá sem grana para o Motel – Fitei-o reprovando
suas intenções.
- Não é isso, só que... Como sou seu amigo, quis trazer essa
gatinha para curar sua deprê, tá legal? Mas, você é mal
agradecida mesmo! - Disse cínico – Nunca liga para as boas
ações que faço, tá pensando que eu faria isso por outra
pessoa? – Só faltou chorar. Que cara dramático!
- Seu mané! Pode parar de tentar me enrolar – Acendi um
cigarro também – Tá vendo? Eu tinha parado de fumar, você é
um mau exemplo – Sorrimos, independente de qualquer
defeito daquele sacana, eu gostava bastante dele – Pode ficar
com o quarto de hospedes, a Susy dorme no meu quarto, e
eu... Me ajeito na sala mesmo.
- Vai dispensar aquela gata? Cris, você deve estar com febre –
colocou a mão na minha testa – A garota veio te conhecer, vai
amarelar?
- Se prefere colocar desta maneira, vou amarelar sim – Abri a
geladeira, coloquei água no copo... Bebi - Nada de filme pornô,
está bem? – Disse autoritária. Conheço bem o meu primo, ele
precisa de regras, se não... – Vou falar com as meninas, e
depois vou dormir o sono dos justos, se quiser, faz uma
festinha com as duas, eu tô fora!

Vocês tinham que ver a cara dele, ficou atônito, cara de bobo,
ele já tem normalmente. Confesso que se fosse há alguns anos
atrás, mais precisamente, antes de ter tido uma vida em
comum com Aline, eu estaria deveras animada para aquela
festinha com Susy.

Quando voltei do quarto com lençóis e travesseiros, percebi


que o aparelho de DVD não estava no mesmo lugar, sorri
imaginando onde estaria. Ele realmente não obedecia a
nenhuma regra. Susy voltou do meu quarto com o roupão que
eu havia lhe emprestado, olhei-a melhor, sem dúvida era uma
mulher bonita, cabelos cumpridos num tom castanho claro,
quase loiros, combinavam com sua pele bronzeada de praia,
seus olhos esverdeados ganhavam destaque na face jovem e
delicada, devia ter entre vinte e vinte três anos, e seu corpo
era bastante atraente. Iríamos começar um diálogo quando o
barulho do quarto ao lado chamou-nos a atenção, eram tantos
gritinhos e gemidos que ficamos constrangidas, eu pelo menos
fiquei, ela? Ela sorriu...

- Esse meu primo é incorrigível – Disse envergonhada. Chato


sentir vergonha pelas atitudes dos outros.
- Ele disse que você precisava de companhia, mas acho que
estava enganado - Disse usando de um tom de voz
extremamente sensual. Deus que me perdoe, mais ela parecia
um Demônio do bem. Que carinha de safada era aquela?
- É... Ficar sozinha às vezes tem o seu valor... Estou
preferindo... Reorganizar... Minha vida – Disse insegura, e não
muito convicta do que eu queria. Ela me olhava como quem
olha um pedaço de pizza.
- Que pena – Disse com aquela voz saliente que as mulheres
Demônio costumam ter.

Susy abriu o roupão, estava completamente nua, aproximou-


se de mim, gelei ao sentir sua pele em minhas mãos, sim! Ela
segurou minhas mãos e conduziu lentamente até os seus
seios... Queriam que eu fizesse o que? Eu estava deprimida,
não morta. Apertei os bicos e ela se contorceu, logo, colocou-
os na minha boca, chupei-os com vontade... Susy sentou-se no
sofá de pernas abertas para que eu chupasse melhor seu sexo,
minha língua agradeceu... Logo meus dedos invadiram-na
fazendo-a gemer de prazer, ela se contorcia, colocava o dedo
na minha boca... Parecia estar no cio. Minhas mãos
passeavam pelo seu corpo, ela me beijava e mordia o meu
pescoço... Deixando marcas... Arranhava minhas costas e
falava barbaridades no meu ouvido. As palavras mais “lights”
que eu ouvi dos lábios dela, foram:
- Mete mais fundo, assim... – Dizia e gemia, lambia a minha
orelha... Mordia também – Me fode gostoso... Chupa a minha
boc... – Bom... Ela disse coisas piores, mas, tenho vergonha de
dizer, então... No minuto seguinte, estávamos rolando no
tapete da sala, nos acariciando como se não houvesse mais
amanhã... Perdi as contas de quantas vezes gozamos. Mais
meia hora com aquela mulher Demônio, e eu enlouqueceria
de vez... Acharia que é melhor garantir um pedacinho no
inferno do que no céu. Ela tinha argumentos pra isso... Susy
levantou-se... Iria vestir o roupão, no entanto.... Desistiu...
Que bom, ela ficava bem melhor nua... A menina parou na
porta que separava a sala do corredor, pensou por um
instante, me olhou...
- Se eu soubesse que seria tão bom, não tinha nem cobrado -
Disse antes de ir tomar banho.
- Opa! Mas... Q filho da mãe! – Pensei – Não acredito! Garotas
de programa? É bem a cara dele – Disse frustrada. Deixei meu
corpo cair do sofá para o tapete, eu não tinha forças nem para
questionar a atitude do meu primo.

Dormimos na sala mesmo. Acordamos com o maluco do Guga


gritando e ligando o som no último volume.

- Acordem meninas! – Abriu às janelas – Olhem o Sol! Está


lindo lá fora. Vamos todos à praia – Me sacudiu – Cris, que
noite, hein?

Mal podia abrir os olhos, tamanha era a claridade. Cheguei à


cozinha tropeçando nas pernas, e o chato do Guga não parava
de tagarelar.

- Seu tarado! – Disse indignada – Elas são garotas de


programa, sabia?
- Me deve duzentos paus – Disse naturalmente.
- O que? Você sabia? – Fitei-o brava – Tá maluco? Eu chupei a
mulher toda!
- Relaxa! São garotas de luxo, digamos assim – Pegou o pote
de biscoitos – Que fome, nessa casa não tem comida de
gente? – Abriu a geladeira – Fazem teste de DST regularmente,
usam camisinha sempre, e só dão para políticos e empresários,
mas, como eu tenho meus contatos, consegui as duas por uma
pechincha, tá vendo como sou legal contigo?
- Só me mete em furadas seu louco! – Disse perplexa – Não
consigo nem olhar pra menina, sabia? – Esfreguei às mãos
nos olhos, eu precisava voltar pra cama, ainda estava exausta,
e minhas costas doeram bastante por ter dormido no tapete
da sala, e pensar que minha cama ficara vaga a noite
inteirinha, que idéia essa! Porque não dormimos na cama? –
Pensei – Preciso dormir mais – Disse.
- Dormir nada... Anda, vai se arrumar – Empurrou-me, quase
derrubei uma garrafa de cerveja vazia que estava sob o
armário. Desorganizado esse cara, deixa tudo espalhado -
Vamos à praia brincar mais um pouquinho com as sereias –
Disse ele sorridente.
- Esquece! Tô fora. Tenho prova na Segunda - Tirei a garrafa do
caminho.
- Essa não! Eu consigo duas gatas de primeira, e você diz que
tem prova na Segunda? – Ficou analisando-me por uns
segundos - Cris, você tem vinte cinco anos, mora no Rio de
Janeiro onde ninguém dorme enquanto a cerveja não acaba,
está livre e desimpedida, aposto que tem dinheiro guardado
no colchão, e se preocupa com prova? Eu estou ouvindo bem,
ou ficando maluco? - Ele estava indignado? É estava! O que
será que ele pensa da vida?
- Você não está ficando maluco, você é maluco!
- Um acordo, não te cobro os duzentos paus pela noite, e você
vai com a gente pra praia, tá? – Olhou-me com aquela cara de
inocente.
- Um acordo: te pago os duzentos, e te dou mais cem pra você
ir com elas sem mim – Disse.
- Fechado! – Me deu um beijo no rosto – Você sabe mesmo
fazer negócios – Disse sorridente - Vocês também pagariam
para se verem livres dele, aposto que pagariam.
Dei graças a Deus quando eles foram embora. Tomei um
banho gelado para mandar a preguiça para bem longe...
Coloquei uma garrafa transbordando de café ao meu lado,
hoje eu estava de folga no trabalho. Estudei o dia inteiro. Guga
ligou-me duas vezes para ter certeza de que eu não iria
mesmo encontrá-los na praia... No fim da tarde liguei para
mamãe e fiquei de buscar Luiz na faculdade.

Fazem dois dias que não penso em Aline da mesma forma,


quero dizer, nem com raiva, e muito menos com saudade, e
também, depois da noite que tive, vou demorar para sentir
saudade de alguma coisa, e se eu for mais a fundo em meus
pensamentos, posso até dizer, que Aline não é tão diferente
de Susy, ambas fazem por dinheiro. Tem diferença? Não, não
acredito que tenha.

Às dez da noite, eu e Luiz estávamos tomando cerveja em um


bar de fronte a faculdade que ele estudava, Luiz faz curso de
administração, acha que será bom para os negócios da família,
tem planos de ampliar a loja, e expandir filiais. Meus planos
para esta vida, é ter paz, ultimamente isso está tão difícil, que
chego a acreditar que ela, a paz, não existe.

- Como você está hoje? – Disse ele preocupado, minha cara


não devia estar boa, né? – Tem tempo que não te vejo correr
de manhã na praia. Poxa! Perdi minha companhia mais
animada!- Sorriu pelo canto da boca, eu não sorri de volta...
Não costumo sorrir sem vontade.
- É, tenho andado desanimada... Acordando tarde mesmo.
- Não tem dormido bem?
- Até me acostumar com a vida de solteira novamente, leva
tempo – Disse. Acendi um cigarro, literalmente havia voltado a
fumar, tinha parado quando conheci Aline, ela detestava o
cheiro, mas, nos últimos dias, ele, o cigarro, diminuía a minha
ansiedade, e eu às vezes nem o punha na boca, mas gostava
de ver a sua fumacinha subir – Não se preocupe comigo, Luiz...
Hoje estou melhor – Disse – Sabe o que o Guga aprontou?
- Imagino que não foi coisa boa – Sorriu, logo balançou a
cabeça no sentido negativo.
- Pior é que foi boa demais – Sorri pelo canto da boca, agora
sim tive vontade de sorrir – Ele levou uma garota de programa
lá em casa esta noite.
- Sério? – Fitou-me perplexo.
- Nossa! Foi... Foi... Maravilhoso – Disse enquanto respirava
fundo, lembrando-me daqueles momentos que passei com
Susy.
- Cris, você é louca? Dormir com uma prostituta? – Fitou-me
preocupado.
- Eu não sabia, pensei que fosse amiga dele... Sei lá! Quando
me dei conta, nós já tínhamos feito de tudo, só depois fiquei
sabendo que era um programa.
- Que loucura – Tomou um gole de cerveja – Por falar em
Guga, Domingo terá um almoço na casa dele, você vai? Faz um
esforço, tem dois Domingos que você não almoça com a gente.
- Talvez dou uma passadinha para não deixar os velhos
preocupados – Disse.

A conversa fora agradável, bebemos um pouco, e depois


terminei a noite como sempre, sozinha em meu apartamento.
Solidão era a minha companhia cativa... Ela jantava comigo,
via filmes comigo, até jogávamos cartas... Paciência, eu jogava
paciência no PC.

Acordei de ressaca, e olha que eu nem bebi muito, acho que


era ressaca de desânimo mesmo, ressaca de desânimo? Credo!
Isso existe? Engraçado, quando sofremos uma desilusão, há
dias que acordamos tão bem, cheios de esperança, com
vontade de tocar a vida, acreditando realmente que as coisas
vão melhorar, porém, há outros que parecem ser os piores de
nossas vidas, são nesses dias, que sentimos o peso do mundo
sobre nossos ombros, parece até que não somos capazes de
nos recuperarmos. Era Sábado, o dia estava lindo, mas, eu
queria ficar trancada no quarto remoendo tudo de bom e de
ruim que eu havia vivido com Aline, se quer entendia o porquê
de sentir mais raiva do que saudade. Ah! Voltei a sentir raiva
dela. Às vezes pergunto-me se era amor, ou algo bem
parecido, será que quem ama pode sentir tanta raiva assim?
Tenho questionado muito isso ultimamente.

Eu tinha duas opções, ficar trancada em meu quarto


remoendo minhas lembranças fatídicas, ou... Optei por reagir,
era minha folga, e o Sol estava explodindo na janela como um
convite para a vida. Vocês não teriam feito o mesmo? Liguei
para o Guga, não o encontrei em casa, e o celular só caia na
caixa de mensagens, Luiz estava cheio de trabalhos da
faculdade para terminar, passaria todo o Sábado estudando,
Amanda... Não! Amanda estava fora de cogitação. Tentei
contato com alguns velhos amigos, uns estavam viajando, e
outros não consegui nem notícias. Porque sempre que
estamos deprimidos, tudo fica mais difícil? Será que hoje não é
o meu dia? Não me intimidei, tomei um banho, coloquei
camiseta, short e chinelo... Em dez minutos estava na praia de
Copacabana. Caminhando na areia, tudo deveria ficar melhor,
tanta gente bonita e feliz, acho até que elas eram bonitas
porque pareciam felizes, mas que droga! Será que ninguém se
sente como eu? – Pensei. Sei que é um pensamento egoísta,
mas... É que... Pensei que, se talvez encontrasse pessoas tão
solitária quanto eu, sem sorriso no rosto, meu pesar
diminuiria, no entanto, acho mesmo que minha única
companhia é o cigarro, por falar nisso, percebi que estou
fumando como nunca, uma boa olhada envolta de mim... O
telefone tocou antes que eu pudesse terminar meu raciocínio.

- Alô? – Disse.
- Cris, sou eu, Guga – Um silêncio – Preciso de ajuda – Tinha a
voz trêmula.
- Em que furada se meteu desta vez? – Não preocupei-me com
aquele suspense, ele sempre fazia isso, gostava de nos deixar
preocupados para depois rir da nossa cara.
- Eu... Eu... Tô preso na favela – Disse hesitante.
- O que? – Logo fiquei aflita... Verdade ou não, isso era bem
sério – Não me diga que mexeu com a mulher de alguém daí!
Seu palhaço!
- Não... Não... É nada disso!- Disse gaguejando – Tô na
Rocinha... Tô devendo uma grana na boca, entende? Se não
pagar, os caras me apagam.
- O ... O que? – Sabe quando alguém toma uma pancada e fica
atordoado? Exatamente assim que me senti naquele instante -
Não acredito que está usando drogas! – Disse indignada e
furiosa.
- Não estou, foi... Mas que merda! – Pensou por uns segundos
- Aquela vadia da Luana me ferrou, a dívida é dela!
- Como assim te ferrou? – Não o deixei responder, não achei
que aquela pergunta fosse necessária naquele instante –
Quanto? – Disse.
- Três... Três mil... – Disse hesitante.
- Não tenho essa grana em casa, vou ter que falar com sua
mãe, ela deve ter – Estava visivelmente aflita, saí da areia e
sentei-me na cadeira de um quiosque.
- Não! Não Cris! Deixa ela fora disso, minha mãe me mata se
souber- Disse desesperado.
- Droga! Hoje é Sábado, não tenho como levantar essa grana
toda – Disse enquanto ouvia o choro desesperado de Guga do
outro lado da linha. Tentei pensar em algo rápido, mas, não
me veio nada na cabeça... Se eu falasse com meu pai, minha
tia ficaria sabendo... Luiz não teria o dinheiro, banco? Não!
Hoje é Sábado... Mas que droga! – Pensei – Mas que droga! –
Disse.
- Cris, não me deixa aqui... Por favor... – Sussurrou, ele parecia
não Ter forças pra falar.
- Calma – Disse tentando contornar a situação – Tô indo te
buscar.
- Tô apavorado – Disse e desligou, ou desligaram, não sei.

Passei em casa, peguei um dinheiro que estava guardado para


uma eventual emergência, afinal de contas, concordam
comigo que essa era uma emergência? Meu celular também
valia algum dinheiro, e eu também tinha um cordão e uma
pulseira de ouro que não eram de se descartar.

Na entrada da favela, pisquei o farol duas vezes, como me foi


informado perto dali. Confesso ter ficado ainda mais
deprimida ao ver aquelas crianças com pistola e armamento
pesado nas mãos, e na medida em que eu subia a ladeira, os
meninos passavam as características do veículo por um rádio
comunicador.

- Quer bagulho tia? – Disse um moleque magricela.


- Onde é a boca? – Perguntei-lhe.
- Quer coisa grande, né? – Disse debochado – É só continuar
subindo, lá no pé do morro, tá ligado? – Apontou o local.
- Obrigada – Mais uma olhada nos olhos daquele moleque,
sabem o que eu vi? Nada! Não havia nada naquele olhar.

A sociedade e o governo fecham os olhos para isso, esse


garoto podia ser meu filho, não deve ter nem oito anos, se
estivesse na escola, não estaria empunhando uma arma como
aquela, e o Guga, safado! Alimentando tudo isso, sim porque,
quem compra sustenta esse desastre urbano, e eu, na medida
em que me propunha a quitar a dívida do meu primo, por
tabela também estou alimentando, mas, não podia deixá-lo
morrer lá dentro. Sabemos como esses caras cobram dívidas
de drogas. Respirei fundo e segui em frente.

Lá estava ele, ainda aos prantos, roupas sujas, marcas de


agressões nas pernas e nos braços, deve ter levado uma surra,
olhei para os lados, que ironia, minutos atrás estava vendo a
beleza das pessoas em Copacabana, agora, vendo toda essa
gente, percebo que parecem feias porque devem estar tristes,
e mesmo que não estejam, parecem estar. Damos tanta
importância as aparências, e digo com certeza que agora,
diante dessas pessoas aparentemente tão solitárias, sem
sorriso no rosto, não sinto-me melhor como pensei que me
sentiria. E meus problemas? O que são meus problemas diante
de tudo isso?

Desci do carro, dei uma boa olhada ao meu redor... Haviam


cinco homens perto de Guga, o mais baixo, com uma cicatriz
no lado esquerdo do rosto veio até mim, tive a impressão de
estar falando com o cabeça de tudo.

- Cadê a grana gata? – Disse, voz grossa, ele cheirava a álcool.


Àquela hora da manhã e o cara cheirando a álcool.
- Eu vim negociar – Mantive um tom de voz firme, não queria
ser intimidada.
- Se não tem a grana, vão ficar os dois deitadinhos nesse chão
– Engatou a pistola – Se ligou? – Disse ríspido.
- Calma aí cara! Hoje é Sábado, não deu pra levantar todo o
dinheiro, mas trouxe umas coisas pra trocar, e acho que vocês
vão sair no lucro – Disse quase sem ar nos pulmões, tamanha
era a minha apreensão. Quem disse que eu consegui manter a
voz firme?
- Senta aí! – Continuou ríspido.

Sentei-me em uma pedra, mas ao fundo tinha um barraco de


madeira cheio de homens jogando baralho, ouvimos gritos, e
logo uma discussão se propagou, em seguida, um tiro foi
disparado, logo outro... E outro... Fiquei assustada e muito
chocada quando vi dois homens puxando um cara morto pelos
pés, o mesmo encoberto de sangue... Senti vontade de
vomitar, minhas pernas começaram a tremer, minhas mãos
suaram frio, e a vontade de fugir dali era a mais latente que
circulava dentro de mim. Cicatriz, como o caracterizei, sorriu,
logo voltou a me olhar.

- Tem o que pra mim, gata? – Disse.


- Bem... – Gaguejei, na altura do campeonato, certeza era a
única palavra que não estava no meu dicionário – Tenho
oitocentos reais... Meu celular que está novo, tem um preço
bom...E... E essa corrente de ouro – Tirei mortificada o objeto
do pescoço.
- Só isso? É pouco! – Disse furioso. Ele levantou-se, colocou a
pistola no elástico do short – É muito pouco – Completou.
- Tenho também essa pulseira de ouro – Mostrei-a para
cicatriz, deixei-a por último devido ao valor sentimental, tinha
ganhado de presente quando fiz dez anos, e fora o falecido pai
de Guga quem me dera - Pra mim, não tem preço – Pensei –
Tem bastante valor – Disse receosa.

Cicatriz olhou os objetos, logo sorriu novamente, mesmo


quando ele sorria, não deixava de nos intimidar, na verdade,
aquele sorriso dava medo.

- Gosto de dinheiro vivo, entende? – Guardou o dinheiro no


bolso – A dívida dele é grande, tem muito juros – Chamou um
outro homem, esse era alto, forte, não tinha mais que vinte
três anos - Leva ele lá pra dentro! – Disse com autoridade.
- Espera! – Desespere-me – Me dá um prazo até Segunda, eu
trago o que falta.
- Sem prazo! Não me ouviu? Leva o moleque!– Gritou.
Guga gritava, seu desespero transformava sua fisionomia,
nesse instante, também comecei a chorar, depois que nós
vimos aquele homem ser morto dentro daquele local, imaginei
que fariam o mesmo com Guga.

- Fica com o carro! – Disse numa última tentativa – Fica com o


carro! – Repeti, tirando a chave do bolso do short... Minhas
mãos estavam trêmulas... Deixei as chaves cair no chão de
terra, estávamos num beco, não tinha asfalto, mais ao fundo
um matagal... Cicatriz olhou-me indiferente... Nada adiantou,
trancaram a porta. Fiquei imóvel, esperava apenas o barulho
dos tiros, não os ouvi. Dez minutos depois, ouvi risos vindo do
local, logo a porta se abriu e jogaram Guga para fora, estava
vivo, mas parecia morto pra mim. Corri em sua direção.
- O que fizeram com você? – Disse assustada.

O mais alto dos cinco saíra do barraco também.


- Ele chupa igual uma putinha – Disse – Pode levar essa
bichinha daqui.

Não dissemos uma só palavra durante todo o caminho até


minha casa. Depois de tudo o que aconteceu, achei que Guga
não seria mais o mesmo, e não me importava se ele havia
mentido sobre a dívida de drogas, eu não passaria nenhum
sermão que havia preparado antes de todo aquele incidente, e
certamente, o silêncio que nos envolvia, selava aquele que
seria o nosso segredo para sempre.

Guga tomou um banho demorado, depois comeu um


sanduíche de queijo que eu preparei, o refrigerante ajudava a
descer pela garganta que tinha um nó, ainda estávamos em
silêncio. O que eu iria dizer pra ele depois do ocorrido? Ele
nem olhava-me nos olhos.

- Quer conversar? – Perguntei receosa.


No mesmo instante Guga começou a chorar, logo apoiou a
cabeça no meu ombro. Senti muita pena dele, mas, não tinha
palavras para consolá-lo, na verdade, eu também estava
precisando ser consolada, fora uma tarde de horror, que
espero jamais viver novamente. Tenho certeza que vocês
também pensariam da mesma forma.

Na manhã seguinte, acordei com o telefone tocando, olhei


para os lados, e Guga não estava. Atendi o telefone ainda
sonolenta.

- Alô.
- Oi Cris. É o Luiz. Pensei que já tivesse saído de casa.
- Que horas são? – Perguntei preguiçosa.
- Onze e meia. Já estou na casa do Guga, e está rolando o
maior churrasco.
- O Guga tá por aí?
- Chegou quase agora, e trouxe duas gatas incríveis, a Susy é
linda! – Disse empolgado.

Podem acreditar nisso? Nem esfriou o ocorrido de ontem, e


ele já estava se metendo com essas meninas novamente. Será
que ele nunca vai tomar jeito? Tive vontade de contar tudo o
que aconteceu para Luiz, na verdade, o que eu queria mesmo
era matar meu primo com minhas próprias mãos. Se eu o pego
agora... Juro que o mato. Tá, é mentira, mas... Estou chateada
com ele, e isso me dá o direito de sonhar em matá-lo...
Esquece, esganá-lo fica melhor.

Em menos de meia hora eu já estava na casa de Guga, e lá


estava ele, à beira da piscina, como se nada tivesse
acontecido, aos beijos e abraços com Luana. Ele não tem
vergonha?
- Oi Cris! Quer cerveja? – Disse logo que me viu, sorridente
como sempre.
- Seu maluco! Ainda tem coragem de andar com essa garota? –
Fitei-o aborrecida.
- Calma aí Cris! Ela estava sendo chantageada por aqueles
caras.
- Você é um mentiroso! Eu devia te entregar – Disse furiosa –
Droga! Nós vimos um cara morrer, você quase levou um tiro
bem no meio da testa – Nossa! Eu tinha mesmo dito aquilo?

Meu primo puxou-me para um canto mais afastado das


pessoas, demos a volta na piscina... Ele estava receoso que
alguém nos ouvisse. Nunca o tinha visto tão sério.

- O que você quer que eu faça? Quer que eu fique chorando


pelos cantos, remoendo essa desgraça toda? Ou prefere me
ver reagir e tocar a vida pra frente? porque é o que estou
tentando fazer! – Fitou-me pensativo, logo retomou às falas –
Eu estou vivo, e de hoje em diante, não passo nem perto de
drogas, e se quer saber, eu menti, a Luana não tem nada a ver
com isso.
- Que merda Guga!
- Agora eu tô limpo Cris, olha pra mim! – Segurou meus braços
– Me dá uma chance, não conta pra ninguém, eu vou te pagar,
prometo.
- Não é pelo dinheiro! – Disse irritada – Não quero te ver
metido nessa furada. Eu te amo da mesma forma que amo o
Luiz, não quero que estrague a sua vida.
- Eu sei, então me dá essa chance – Disse, enquanto tentava
encerrar aquela conversa.

Antes que eu pudesse dizer-lhe outras palavras, Amanda


aproximou-se de nós com uma amiga, bom... Não dava mesmo
para continuarmos nossa conversa, não diante... Dela! Meu
Deus! Pensei que essas coisas só acontecessem em filmes,
sabem aqueles romances água com açúcar que a gente assiste
nas tardes durante a semana? Meio estranho dizer, nunca
tinha passado por isso na minha vida, eu olhei pra menina, e
não consegui ver mais ninguém ao meu redor, olhei bem fixo
nos olhos dela, e fiquei desconcertada com as sensações que
meu corpo sentiu... Devia ser desejo! Só pode, a amiguinha de
Amanda era... – Linda! – Pensei – Eu devia ter dito gostosa,
porque eu não disse? - Diante dela, nós ficamos totalmente...
Hipnotizados, isso! Hipnotizados seria a palavra perfeita para
descrever aquele momento.

- Oi gente? – Disse Amanda notando nosso... Fascínio? É!


- Oi – Dissemos ao mesmo tempo. Dois bobos, podem ter
certeza.
- Essa é a Natasha – Virou-se para a menina – Minha irmã Cris,
e meu primo Guga – Apresentou-nos.

Fiquei admirada com a beleza daquela garota, Natasha tinha a


pele mais alva que meus olhos já viram, tinha cabelos e olhos
tão negros quanto a noite, e seus olhos exibiam um mistério
difícil de se encontrar, sua boca parecia ser deliciosa, na
verdade, eram os lábios mais perfeitos que já vira em toda
minha vida, e a menina exibia um decote que mal dava para
disfarçar o olhar, e sem falar no cheiro dela, dava pra sentir a
km de distância aquele cheiro suave que exalava da sua pele.

- Oi – Disse ela, beijou-nos no rosto... Amanda puxou-a pelas


mãos.

As duas caminharam até a cozinha, meus olhos também as


acompanharam. De onde nós estávamos, dava pra ver toda a
movimentação dentro da cozinha. Sem educação essa minha
irmã, né? Foi puxando a menina, nem deu tempo de dizer
“tchau”, só um aceno com as mãos. Vendo-a de costas, não
pude deixar de notar aquelas formas perfeitas – Uau! – Pensei
– Essa mulher saiu da onde? Dos meus sonhos? – Continuei
pensando.

- Cris, tô apaixonado – Disse, enquanto apoiava a mão no meu


ombro.
- Deixa de ser ridículo, cara! – Tirei a mão dele de cima de
mim.
- Sério, não é todo dia que eu esbarro com um avião desses.
- Ainda mais medindo um e setenta de altura, né? – Sorri, eu
também estava atordoada com a presença dela.

Guga olhou-me com um “?” na testa.


- Como sabe que ela tem essa altura?
- Eu não sei, imagino que tenha – Disse.
- Vai lá! Fala que eu estou afim dela – Disse empurrando-me.
- O que? Porque você não vai lá falar com ela? – Disse
indignada – Me solta, cara!
- Tô com medo de levar um fora daqueles – Ele riu – Eu com
medo, pode?
- Azar o seu. Eu não vou falar com ela – Disse convicta.
- Não se esqueça que a Susy está aqui, e foi eu quem te
proporcionou aquela noite – Sorriu – Ela está afim de ficar
com você novamente.
- Não vou falar com a garota, está bem? E se quer saber,
também não quero ficar com a Susy – Disse contrariada – Nem
com ela, nem com ninguém.
- Está bem, não quer me ajudar, não ajuda. Eu mesmo vou
falar com ela – Disse e saiu pisando forte.

Continuei olhando Natasha na cozinha – Natasha – Pensei –


Esse nome combina com ela, ela tem cara de Natasha – Sorri,
essas palavras continuaram no meu pensamento... Nem
notara a presença de Susy, na verdade, notei quando percebi
que meu sorriso despontava mais do que eu queria nos meus
lábios.
- Acorda! Estou falando com você – Disse ela.
- Desculpa, o que disse?
- Disse que podíamos fugir para o seu “apê”, agora sem o
compromisso de patrão e empregado, entende? – Fitou-me da
cabeça aos pés, mordeu os lábios.
- Não é uma boa hora, pra ser sincera, não quero estar com
ninguém nesse momento – Disfarcei, olhei novamente em
direção a Natasha. Pronto agora vou ficar querendo repetir o
nome dela o tempo todo... Natasha, Natasha, Natasha...
- Você disse algo bem parecido na quinta-feira, mas, nós
ficamos – insistiu.
- Dá licença, vou tomar água – Disse fugindo daquele olhar,
logo saí de perto dela. Mulher Demônio, né? Dá medo.

Guga parou-me ainda na porta.


- Não consigo! – Disse.
- Não consegue o que? – Eu estava literalmente de saco cheio
daquela cara de babaca que ele estava exibindo naquele dia.
- Falar com ela – Pôs a mão no meu ombro – Quebra o galho
Cris, fala que eu estou querendo ficar com ela, você é boa
nisso... Eu estou sem assunto – olhou-me com tristeza – Por
favor – Disse com aquela cara de cachorro sem dono.

Pow! Cheio de dedos só para falar com uma menina? Será que
o que aconteceu ontem acabou de vez com a sua alto estima?
Acabei cedendo as lamentações de Guga, detesto ouvir frases
repetitivas, na verdade, sem hipocrisia, pra vocês eu conto...
Eu queria mesmo falar com Natasha. Respirei fundo.
Aproximei-me...

A menina estava sentada na varanda, não havia muitas


pessoas naquela parte da casa, todos preferiam ficar próximos
a piscina e a churrasqueira, era lá também que o som estava
alto... Amanda havia deixado-a para pegar cerveja. Porque
minhas mãos estavam suando frio? Era só uma menina. Ela
estava de costas pra mim, toquei levemente o seu ombro, ela
virou-se...

- Oi – Disse confusa... E... Tímida? Acho que sim, quanto eu vi


aqueles olhos mais de perto... Senti um nó na garganta
horrível.
- Oi – Disse, logo olhou-me curiosa.

Ei! Eu estava completamente constrangida diante dela, tanto


quanto Guga... Fiquei sem palavras. Com cara de babaca? Será
que isso pega? Ela não devia ter me deixado daquele jeito,
acabamos de nos conhecer.

- Bom...Posso me sentar um minuto? – Continuei receosa,


boca seca... Nervosa.
- Claro – Disse receptiva.
- Bom... – Puxei uma cadeira... Sentei-me quase ao seu lado.
- Você já disse isso – Fitou-me sorridente.
- É que...
- É que... – Sorriu novamente.

Seu sorriso era encantador, tinha uma luz que não se pode
comparar com nenhuma outra, era algo extremamente
angelical, e... Sedutor! Nossa! Como aquele sorriso combinava
com aquele rostinho de anjo.

- É que... O meu primo... – Gaguejei, será que era porque eu


não queria falar do Guga? E aqueles olhos... O que tinha
naqueles olhos que me deixava tão desprotegida? Nesse
instante, olhei pra trás...
- Não acredito, Cris! – Disse aborrecida – Você vai cantar a
minha amiga, é sério? – Minha irmãzinha apoiou a bebida na
mesa, cruzou os braços e bateu o pé... Ela sempre faz isso
quando está aborrecida. Menina mimada, sabem?
- Calma aí Amanda! Não estou cantando ninguém – Disse
também aborrecida, logo levantei-me, não deu tempo nem de
esquentar a cadeira.
- Vamos Naty – Puxou a menina – Vamos beber a nossa cerveja
em outro lugar – Disse.

Naquele momento, senti vontade de esganar a minha irmã.


Porque ela tinha que levar a menina embora dali? Mas que
metida! Não demorou nem dois minutos para o Guga vir até
mim... Pronto, já veio encher a minha paciência – Pensei.

- Falou com ela? – Disse ansioso.


- Não deu, a Amanda achou que eu tivesse dando em cima
dela.
- E estava? – Disse aborrecido.
- Não! Claro que não. Vê se não me enche mais, tá legal? –
Empurrei-o e saí.

A sala era o único lugar quieto da casa, fechei às janelas e


encostei a porta para sufocar os ruídos que ainda teimavam
em me atormentar. Liguei a tv. Hoje o dia estava bem...
Complicado! Mas, será possível! – Pensei, enquanto olhava
para Luiz que parou na minha frente com uma cara de... De...
Trouxa!

- Cris – Disse – Você não vai acreditar!


- Não vou acreditar em que Luiz? – Disse entediada.
- Ainda bem que está sentada – Sorriu - A Susy é garota de
programa.
- Eu sei, com duzentos reais você come ela – Continuei
indiferente, fiz um gesto pra ele sair de frente da TV. Comecei
a mudar de canais com o controle remoto...
- Ela me cobrou trezentos – Pensou por uns segundos –
Saquei! Foi com ela que você estava na Quinta-feira – Sentou-
se ao meu lado – Vamos, me conta mais detalhes...
- Será que pode me deixar em paz?! – Aumentei o volume da
TV.
- Nossa! Que bicho te mordeu? – Olhou-me confuso – Que
mau humor infernal.
- Putz! Quero ficar sozinha, posso?
- Tchau – Disse e saiu apressado, bateu a porta ao fechá-la.

Afundei minhas costas no sofá... Nada parecia ter sentido para


mim, Guga continuava o mesmo, enquanto uma nuvem negra
rondava a minha cabeça, o barulho dos tiros, o cara morto
sendo arrastado pelos pés, Guga saindo daquele barraco... Pra
piorar ainda mais o meu estado de espírito, meu irmão queria
dormir com a garota que eu transei, e eu estava
completamente encantada por Natasha, a garota que meu
primo queria ficar. Esse mundo está ficando louco mesmo, ou
sou eu quem estou ultrapassada? Balancei a cabeça no sentido
negativo... Fechei os olhos... Aspirei o ar que perpetuava o
ambiente, senti um perfume gostoso circular, olhei para trás...

- Ora, ora... Fugindo do tumulto? – Disse aproximando-se –


Posso sentar?
- Claro – Olhei-a desconcertada – Ah! Só para constar, eu não
estava te cantando.
- Eu sei – Sorriu – Estava tentando falar sobre o seu primo.
- Como sabe?
- Ele veio falar comigo, e me desculpa, mas... Ele é um idiota –
Disse com um sorriso tímido no canto dos lábios. Fitei-a mais
de perto...
- Não se importa por eu ser...
- Porque me importaria? Você não está me cantando, está? –
Sorriu, um sorriso digno de Natasha, sua face iluminava
quando ela sorria daquele jeito, seus olhos se fechavam um
pouco, e... Era encantador.

Natasha parecia ser divertida, seu bom humor conseguiu


fazer-me esquecer a nuvem negra que rondava a minha
cabeça.

- É, não estou mesmo – Sorri também, um sorriso tímido, mas,


já era alguma coisa – De onde conhece Amanda? –
Perceberam que eu queria puxar conversa, né? Que bom.
- Nos conhecemos na faculdade, comecei a duas semanas no
curso de cinema, ela tem me ajudado bastante, estou um
pouco perdida.
- Já trabalha com cinema?
- Não, na verdade não gosto muito de falar do meu trabalho, é
algo que faço só para me dar prazer, é um hobby, sem fins
lucrativos mesmo – Disse.
- Estranho não gostar de falar do trabalho, não é algo ilícito, é?
– Que besta! Ela disse sem fins lucrativos – Pensei - Eu tô só
brincando – Completei.
- Não é nada ilícito, fique tranquila – Disse animada.
- Você não parece ser infantil como as outras amigas da
Amanda – Mais uma mancada, putz! De onde veio essa
pergunta? Sempre segui a seguinte opinião: “não tem o que
dizer, fica quieto”. Então, porque eu não calava a boca?
- Dezenove – Disse
- O que?
- Tenho dezenove anos... Deixa eu ver... – Pensou por uns
segundos - Ah sim, moro com meus pais ainda, tenho um
cachorro de estimação, mas, queria mesmo uma cobra... –
Sorriu – Brincadeira – Disse – Minha mãe me mataria se eu
levasse uma cobra para dentro de casa.
- Você está falando sério? É muito estranho alguém ter uma
cobra como bicho de estimação – Balancei a cabeça, logo sorri
– Isso só pode ser uma piada, não é?
- Não é uma piada, uma vez, viajei para o Maranhão e conheci
uma amiga de uma prima minha que tinha uma cobra de
estimação. Gostei da idéia, achei... Extravagante – Sorriu, deve
ter sorrido da minha cara de espanto - Mas... E você?
- Não tenho vontade de criar cobras, se quer saber.
- Eu sei – Ela não parava de rir, será que era a cerveja, ou a
companhia literalmente hilariante? – Quantos anos tem?
- Eu? Bom... Eu tenho vinte cinco anos, não moro com os meus
pais, tenho cachorro, papagaio e um gato.
- Tudo isso no apartamento?
- Como sabe que moro em apartamento? – Disse curiosa.
- Sua irmã disse, e ela falou também que o cachorro, o gato e o
papagaio são da sua mãe.
- São da família.

Nós rimos. Deu pra perceber que a menina tinha um humor


sofisticado.

- Acho que vou voltar lá pra fora – Disse – Vim só pegar uma
cerveja – Mostrou-me duas latas de bebida - Se não, daqui a
pouco sua irmã entra por aquela porta, e diz que você está me
cantando, ou pior, que está me violentando.
- Fique tranquila, eu não te cantaria.
- Por quê? Sou tão feia assim? – Disse extrovertida.
- Feia? Jamais! – Sorri também – Você iria gostar se eu te
cantasse?
- Não, mas, gostei de conversar com você – Levantou-se, olhou
para as suas mãos ocupadas, piscou o olho e saiu, aquilo havia
sido um “tchau”?

Ganhei o dia! Conversar com aquele monumento de mulher,


fora a coisa mais prazerosa que pude usufruir nos últimos
tempos, Guga tinha razão, um avião como este não se pode
ver todos os dias. Não consegui mais ficar sozinha na sala,
preferi enfrentar o barulho lá fora mesmo. Fiquei olhando
Natasha de longe, de vez em quando ela até desviava o olhar
em minha direção, sempre com a certeza de que eu estava
observando-a, na maioria das vezes ela mexia no cabelo, e
exibia um sorriso saliente no canto dos lábios, esse tipo de
provocação me deixa louca... Nossa! Ela estava me deixando
louca... Às horas foram passando, e eu ainda estava ali, sem
conseguir piscar os olhos diante dela, na verdade, eu nem vi às
horas passarem. Olhei pro relógio lá pelas dez da noite,
quando Natasha começou a dançar com o Guga. Ao segundo
olhar, percebi que o clima entre eles estava mudando... Tenho
que confessar... Bastou isso para tudo voltar ao normal dentro
de mim, a mesma nuvem negra sobre a minha cabeça, só que
diferente, mais pesada e extensa, o beijo que os vi trocarem,
apenas confirmou o que já deixava sinais. Não pensei duas
vezes, apressei os passos, dei a volta na piscina... Destranquei
o portão com agilidade, e já estava dando a partida no carro
quando alguém bateu no vidro. Eu nem pensei no que iriam
achar por eu ter saído daquele jeito da festa. Eu estava
confusa demais para raciocinar.

- Não vai se despedir, mal educada? – Disse séria.


- Mudou de idéia muito rápido, pensei ter ouvido dizer que ele
é um idiota – Disse irônica.
- Não sei por que está tão magoada, você disse que não me
cantaria.
- Claro, você disse que não iria gostar de ser cantada por mim.
- Eu não sirvo pra você Cris, desencana – Continuou séria.
- Porque ria quando sabia que eu estava te olhando? – Disse
ainda mais confusa.
- Porque nunca ninguém me olhou como você - Nesse instante
eu vi seus olhos mais vivos, mais negros, mais brilhantes...
Olhos de Natasha, só ela tinha aquele olhar, um olhar que me
deixava, sem ter o que pensar.
- Chega desse papo – Liguei o carro – Pra mim, essa festa já
deu o que tinha que dar - Pisei fundo no acelerador, hesitei em
olhar pra trás, mas não resisti – É muito linda! – Pensei. Logo o
meu desapontamento fora maior do que aquele pensamento...
Tentei desvincular-me da imagem de Natasha a noite inteira,
noite essa que passei em claro, bom gente... Uma xícara de
café não tem todo esse poder, mas, Natasha certamente
tinha. Nessa altura, ela poderia estar na cama do meu primo,
ta certo que ela não parece ser esse tipo de garota, que dorme
com o cara no primeiro encontro, mas, eu estava tão
deprimida, que podia vê-los naquelas circunstâncias. Será que
ela podia mesmo estar na cama dele? Afundei minha cabeça
no travesseiro... Isso era ridículo, não era? Podem dizer, eu
agüento... Eu tinha prometido que depois de Aline, não me
envolveria sentimentalmente com mais ninguém, muito
menos com uma... Uma... Pirralha de dezenove anos? Mas que
loucura! Como posso estar pensando em sentimento? Acabei
de conhecer a menina... Logo que consegui mandar aquelas
imaginações embora, veio em minha cabeça novamente as
lembranças daquele homem morto na favela, o ocorrido com
Guga... Senti vontade de vomitar novamente, um gosto
amargo na boca... Sequer discutimos esse assunto hoje. Parece
que acabamos de acordar de um pesadelo, isso será sempre
uma sombra em nossas vidas, não dá para sermos indiferentes
ao que vivemos, toda vez que eu olhar uma favela como
aquela, lembrarei de tudo, do sofrimento daquelas pessoas
que abrem suas janelas, e dão de cara com aquele mundo de
descaso e insegurança, e também daqueles que não
conseguem se livrar da escravidão do vício das drogas, e
morrem por isso, ou são aprisionados para sempre naquele
sofrimento, espero que Guga não seja mais um...

Matéria de Faculdade

Quando cheguei na Faculdade, estava aquele rebuliço, fomos


divididos em grupos, e tínhamos que conseguir uma matéria,
tema livre... Discutimos o assunto, e chegamos à conclusão de
que queríamos fazer um trabalho maduro, não só um trabalho
para ganhar nota, e sim algo que pudesse representar
crescimento, tanto em nós, futuros jornalistas formadores de
opiniões e cidadãos, mas também para as pessoas que veriam
e comentariam nosso trabalho, queríamos chocar, deixar um
marco em nossa passagem pela faculdade, e sem falar que a
melhor matéria teria um destaque em um dos jornais locais
mais lidos da cidade, o Folha Branca, um jornal sério, e o
sonho de qualquer jornalista, os mais consagrados, ou já
haviam passado por lá, ou simplesmente estavam lá, e se não
bastasse isso, a melhor matéria passaria na tv. Podem
imaginar como isso seria significativo? Ou melhor, o pontapé
inicial da carreira de qualquer um de nós. Pensar nessa
possibilidade renovou minhas expectativas, ao menos o lado
profissional tinha chances de se dar bem, concordam comigo
que minha vida até o dado momento está uma merda?
Desculpem a “expressão merda”. Sabia que vocês iriam me
compreender. Bom... Na primeira reunião estávamos os
quatro, eu, Vitor que era o mais falante de todos, magro, alto,
cabelos ralos, já despontando uma pequena calvície, apesar
dos seus vinte quatro anos, Janice, uma menina sensacional,
alegre e espontânea, apenas não queria entrar em atrito com
ninguém, o que decidíssemos, para ela estaria bom, embora
nenhum de nós tivesse a mínima idéia do que iríamos fazer.
Janice tinha uma face brilhante e rosada, e estava bem acima
do seu peso, mas, isso não a incomodava, estava sempre bem
humorada, diferente de outras pessoas que conheço, que
simplesmente não se aceitam e por isso estão sempre
insatisfeitas com tudo. Esse povo parece que não sabe viver...
Bom, Anselmo era o mais cabeça dura de nós quatro, ele tem
trinta e dois anos, cabelos grisalhos, magro, alto... Gênio
difícil, autoritário e inflexível. Barba sempre bem feita, roupas
sempre alinhadas, tinha até uma pasta de couro de Jacaré
legítimo.

- E então meu povo? – Disse Vitor fazendo a mesa de tambor.


- Pára de bater na mesa... – Ergueu às sobrancelhas irritado -
Acho que devemos fazer a matéria sobre animais em extinção
– Disse Anselmo convicto.

Foi inevitável. Dei uma nova olhada na sua pasta. Sorri por
entre os dentes.

- Não acho uma boa idéia – Disse.


- O que vocês decidirem, pra mim, está bom – Disse Janice,
como já era de se esperar.
- Podíamos fazer uma matéria sobre esportes radicais, ou
sobre a “night”... Mulheres, os bares mais populares...
Baladas! Boates... – Disse Vitor empolgado.
- Vocês são muito teimosos – Disse Anselmo aborrecido –
Vamos falar sobre os animais em extinção, atingiremos o alvo
certo, mulheres e crianças, é sucesso garantido, podem
apostar – Concluiu empolgado.
- Nós temos que bolar algo mais chocante – Disse pensativa –
Algo maior, que façam as pessoas pensarem, que influencie
nossas vidas de alguma forma... Tá certo que falar de animais
em extinção é uma boa idéia, é um absurdo mesmo não
preservar os animais... Esportes radicais também daria uma
matéria interessante, mas... Acho que podemos ousar mais.
- Então o que sugere, dona sabe tudo? – Disse Anselmo
sarcástico.
- Penso que... – Lembrei-me de tudo o que aconteceu comigo
e com Guga na Rocinha... Senti um frio na barriga, contudo,
meus pensamentos foram mais além do que aquele terror
vivido, pensei nas conseqüências, no entanto, pensei mais
ainda nos benefícios - Podemos subir o morro – Disse -
Mostrar a realidade do subúrbio, o crime e seus escravos, a
falta de oportunidade e seus herdeiros, a miséria em um todo,
e a hipocrisia... Gente, somos futuros jornalistas, naturalmente
formadores de opiniões... Hoje nós vivemos numa guerra
urbana e quanto mais pudermos mostrar isso, é como
arregaçar as mangas e ir a luta... Podemos conseguir uma boa
matéria, e por tabela vamos jogar mais uma vez na cara da
sociedade e dos nossos governantes esse caos em que
vivemos.
- Belas palavras Cris – Disse Vitor – Tô fora! Não vou me
arriscar dessa maneira.

Se eu tivesse pensado como Vitor, não teria tirado Guga de lá.


- Ninguém vai querer se meter dentro da favela, menina! –
Concluiu Anselmo – Nem estamos ganhando pra isso..
- Que raio de jornalistas serão vocês? Se eu não puder usar a
minha profissão para retratar assuntos que atinjam
diretamente a sociedade, eu não quero me formar... Não tô
ralando na faculdade pra cobrir a coluna de esportes – Disse
inconformada com a covardia deles.
- Concordo! – Disse Janice que estava pensativa até o
momento – Eu vou, Cris! Pode ser uma experiência legal.

Confesso ter me surpreendido com Janice. Nunca sabemos


mesmo o que esperar de uma pessoa.
- Então... – Anselmo continuou inflexível – Vocês duas fazem a
matéria das favelas, eu e Vitor, cobrimos os animais em
extinção.
- Somos um grupo, temos que chegar a um consenso – Fitei-o
aborrecida, cara individualista.
- Espera! – Disse Vitor enquanto descia da mesa em que estava
sentado - Prefiro a favela, posso editar as informações que
vocês colherem – Respirou fundo – Admito, sou um covarde! -
Disse – Favelas têm tiroteios o tempo todo... Polícia querendo
invadir, facções rivais tentando tomar o controle da venda de
drogas... Agora tem até milícia tentando tomar o poder –
Respirou fundo novamente – Vou me sentir melhor cobrindo a
coluna de esportes.
- Covardes vivem mais – Pensei, enquanto lembrava do meu
ato insano de falso heroísmo, até agora questiono-me de onde
viera tanta coragem para ir direto na “boca”, na verdade,
estava tão absorvida na preocupação com Guga, que ceguei-
me. Duvido que vocês não teriam feito o mesmo, Guga é como
um irmão pra mim. E também, gosto não se discute, eu pelo
menos não iria chegar perto da coluna de esportes... Gosto do
jornalismo investigativo.

Como Anselmo não nos deu outra alternativa, decidimos que


nós três faríamos a matéria na favela, e ele, se propôs a fazer
sozinho sua cobertura sobre animais em extinção. Eu disse
individualista, não disse?

O primeiro passo seria escolher o local para as pesquisas, não


cogitei a possibilidade de ser na Rocinha, lá seria o último
lugar onde eu gostaria de ir, pelo menos por enquanto.
Trauma, sabe?

Vocês devem estar se perguntando: e a Natasha? Não pensou


nela? Pensei... Cada vez que eu fechei meus olhos, veio a
fisionomia daquela menina na minha frente... Posso afirmar,
que mesmo em meio a toda essa discussão sobre “uma boa
matéria”, fechei os olhos muitas vezes, no entanto, tentei
buscar forças para concentrar-me em algo que não tivesse
ligado a ela.

Surpresas, são surpresas

Já passava das oito da noite quando cheguei na casa da minha


mãe, resolvi no caminho mesmo que hoje faria uma visita,
muito tempo não fazia isso, na verdade, eu queria estar perto
das pessoas que amo para exorcizar certos fantasmas que me
rondam, sempre pensei desta forma. Carinho de papai e
mamãe nunca são demais. Péssima idéia, Por quê? Simples,
Amanda estava lá com Natasha. No mesmo instante, tive
vontade de dar meia volta e ir embora, ir ou não ir? Fiquei
naquela indecisão... Mas, logo pensei que minha mãe se
zangaria, se zangaria? Na verdade... Acho que vocês
perceberam que isso era uma desculpa para não admitir que
aquela garota me fascinava tanto, que eu queria ao menos
poder olhá-la, tá bom, admito, sou um fracasso para
desculpas. Fiquei parada na entrada da porta da sala por
alguns segundos, às luzes estavam apagadas, o ambiente
ficara acolhedor com a claridade que vinha da televisão... Elas
nem se deram conta de que eu estava ali. Duas batidinhas na
porta pra fazer barulho, nesse momento as duas desviaram a
atenção para mim... Amanda sorriu, Natasha fiou séria, digo,
continuou séria.

- Olá! – Cumprimentei-as.
- Oi Cris – Disse ela quase num sussurro. Também estava
surpresa ao me ver.
- Senta aí, mana – Disse – O filme é bem legal.

Sentei-me ao lado de Natasha, acendi um cigarro, no entanto,


apaguei-o antes que Amanda reclamasse. Conhecendo minha
maninha como eu conhecia... Ela era chata, digo, mimada...
Ah! Tem diferença?

- Não foi à faculdade? – Disse ela com um risinho debochado


no canto dos lábios ao ver que eu apaguei o cigarro.
- Saí mais cedo... Prova, sabe? – Olhei para Natasha de rabo de
olho.

Amanda levantou-se...
- Vou pegar pipoca e refrigerante – Disse e saiu. Três segundos
de silêncio...
- Você foi muito grosseira ontem – Disse a menina
aproveitando a ausência de minha irmã – Infantil também –
Concluiu.
- Você foi muito dissimulada – Dei uma olhada em direção ao
corredor, pra ver se Amanda não estaria por ali.
- O Que? – Disse indignada.
- Dissimulada sim, uma hora diz que o Guga é um idiota – Disse
inevitavelmente com rancor nos olhos – Em outra, está com a
língua dentro da boca dele – Virei-me de fronte para a menina,
a pouca luz no ambiente não me deixava ver seus olhos com
nitidez, no entanto, quando um fio de luz clareava o rosto
dela, parecia o flash de uma máquina fotográfica, os gestos
que eu conseguia ver, ficavam registrados na minha memória
como uma fotografia num álbum, os álbuns têm esse poder,
conseguem parar o tempo, fotografe uma folha caindo de uma
árvore, e ela jamais tocará o chão, consequentemente nunca
morrerá, e era exatamente o que eu queria fazer, parar o
tempo, meus olhos jamais se cansariam de vê-la.
- Está sendo grosseira novamente, e estúpida também – Disse
ainda mais aborrecida.
- Natasha, esse papo não vai nos levar a lugar algum, eu te
conheci ontem, e o que você faz da sua vida é problema seu,
só que... Esquece.
- Só que... Você queria sair comigo, e eu sai com o seu primo –
Disse irônica.
- Pretensão é o seu forte?- Disse sarcástica.
- Não – Fitou-me debochada – Sou realista, só está chateada
porque te tratei como trato todas às pessoas, sem diferenças,
mas, talvez, você não esteja acostumada com isso, ficou
frustrada, achou que eu estava te dando condições pra me
cantar, só que não estava Cris, não mesmo, e se quer saber,
seu primo é bem interessante.
Senti o sangue subir para a minha cabeça.
- Você realmente é muito pretensiosa – Sorri irônica – Mas,
tem razão, eu queria ter ficado contigo mesmo, senti muita
vontade de trepar com você, mas é só isso, você é o tipo de
mulher que eu gostaria de comer, só de comer – Frisei
bastante a última frase. Acho que ela não gostou muito,
também, né? Nenhuma mulher iria gostar de ouvir isso.

Confesso que... Minhas palavras doeram mais em mim, do que


nela. Pela primeira vez em minha vida levei um tapa na cara de
alguém, eu não disse que doeu mais em mim? Bom... Ainda
assim, não consegui sentir raiva de Natasha, o que realmente
estava ferindo-me por dentro, foi tê-la visto aos beijos com
Guga, e também ter ouvido dos lábios dela palavras tão duras.
Queria irritá-la, e não conseguia sufocar o desejo que exalava
dos meus poros quando eu olhava pra ela, num impulso,
segurei seus braços, e num impulso ainda maior, ou vontade,
sei lá! Era mais forte do que eu... Dei-lhe um beijo na boca,
senti sua língua macia tocar os meus lábios numa tentativa
fracassada de dizer algo, a minha logo entrou dentro da sua
boca, puxei-a um pouco mais para junto de mim, não larguei
seus braços... Seus seios rígidos encostaram nos meus, me
fazendo tremer de desejo, fiquei molhada na hora... Aos
poucos seus lábios cansaram da resistência, e sua língua ousou
tocar na minha... Foi coisa de menos de um minuto, sabem?
Mas... Eu não trocaria aquele “quase um minuto” por nada
deste mundo. Nunca em minha vida tinha sido tão ousada, e
fiquei perplexa por não ter sentido nenhum remorso por esse
ato tão inusitado, seus lábios eram exatamente como
imaginei, deliciosos.

- Sua idiota! – Disse com aquele olhar furioso.


- Acho que você gosta de beijar idiotas – Ainda podia sentir o
seu hálito no meu rosto - Sua boca é muito gostosa –
Sussurrei, logo dei-lhe um outro beijo de leve nos lábios.
Aqueles beijos roubados, sabem?
- Sua idiota! – Repetiu.
- Você já disse isso – Fitei-a com ironia, e completamente
maravilhada com o gosto daquela boca.
- Estou namorando o seu primo – Disse ela num impulso.
- Namorando? Pensei que... – Soltei-lhe os braços.

Assim que me levantei, Guga entrou na sala abraçado com


Amanda. Meu santo é forte, viram? Ainda bem que eu já tinha
soltado a... Namorada dele? Foi isso o que eu ouvi? Ela disse
isso mesmo?

- Fala aê Cris! - Acendeu a luz da sala, em seguida deu-me um


tapinha cordial nas costas, logo um beijo em Natasha. Será
que eu estava pagando todos os meus pecados de uma vez só?
Que injustiça! – Pensei. Agora pude ver os olhos da menina,
aqueles lindos olhos negros estavam carregados de receios.
Fiquei sem palavras, foi uma péssima surpresa.
- Oi Guga – Cumprimentei-o encabulada – Já estou... De saída
– Completei meio desconcertada.
- Acabei de chegar! Vamos tomar uma cerveja – Puxou-me
pelo braço...
- Não posso – Evitei fitá-lo nos olhos – Não posso mesmo –
Repeti quase sem forças, ainda podia sentir o gosto dos lábios
de Natasha na minha boca, agora, além de doce estava com
sabor de proibido também.
- Cris, a mamãe está te esperando pro jantar – Disse Amanda –
Ela saiu com o papai, mas já está chegando, e eu falei que você
estava aqui.
- É... Mas... Tenho um compromisso urgente... Não... Posso
desmarcar – Disse insegura, com vontade de sair correndo
dali... Já sentiram essa vontade? É algo extremamente
desconfortável, vai subindo um desespero pelo corpo todo, a
gente não consegue ficar parado no mesmo lugar, fica
mexendo nas coisas, andando de um lado pro outro...
Guga sorriu.
- Aposto que esse compromisso tem nome, Susy, não é? –
Disse animado, um novo tapinha nas minhas costas.
- Faculdade – Disse enquanto tirava um cigarro da carteira,
olhei para Amanda, desisti de acendê-lo – É a única coisa boa
que tenho na vida.
- Credo Cris! – Fitou-me Amanda, reprovando meu ar de
desânimo – A sua família não é nada pra você? Devia esquecer
logo essa Aline.
- Aline? – Fitei-a confusa – Que Aline? – Pensei por uns
segundos - Ah! Aline...

Guga sorriu novamente.


- Não sabia que tinha outra mulher na jogada. Não vai me falar
quem é? – Roubou o cigarro que estava na minha mão, logo
ficou fingindo que iria acendê-lo, ele gostava de irritar minha
irmã. Pareciam duas crianças.
- Você não vai gostar de saber – Pensei - Não tem mulher
nenhuma – Olhei para Natasha – Só estou... Cansada mesmo –
Disse – Meu Deus! Porque ela tem que ser tão... Linda? –
Pensei.
- Pois devia ter uma mulher – Disse – Assim iria parar de
esquentar tanto a cabeça com faculdade – Tornou a beijar
Natasha, um beijo rápido nos lábios, e pensar que eu tinha
acabado de sentir o gosto bom daqueles lábios... Não! Eu juro
que não joguei pedra na cruz! – Minha namorada não é linda?
– Continuou exibido.
- Linda! – Pensei – Bonitinha – Disse, na verdade, nem sei se
eu disse. Eu estava confusa, droga! Perdida, alienada... Não
sabia mais distinguir o que eu disse do que eu pensei.

Não jantei com eles, fiquei rodando de carro pela cidade, afim
de digerir às últimas notícias...Já passava da meia noite
quando cheguei em casa, larguei-me no sofá e liguei a TV...
“...O tráfico de drogas na favela da Roc...“ – Mudei de canal –
“...Está sendo transferido para a penitenciaria de segurança
máxima Bangu 1...” – Mão no controle remoto de novo –
“...Mais uma vítima de bala perdida...” – Desisto! – Gritei! A
pilha do controle remoto devia estar fraca... Levantei-me e
desliguei na própria TV, depois fui tomar banho pra tentar
dormir – Que tédio! É assim que quer ser jornalista, D.
Cristina? Não suporta ver uma reportagem na TV... Minha
monografia? “Jornalismo investigativo...” – Pensei.

A semana seguiu péssima para mim... Na faculdade,


não tiramos o projeto da gaveta, todos esperavam por uma
definição de onde faríamos a matéria, eu na verdade, estava
morrendo de medo do que iríamos encontrar nas favelas, já
disse a vocês que estou traumatizada? Então, desculpa.... No
trabalho, meu rendimento caíra bastante, pra ser mais exata,
meu rendimento há tempos não era mais o mesmo. Poxa!
Uma porrada quase todo dia! Ninguém agüenta... Meu pai
chamou-me para conversarmos duas vezes, e eu disse sempre
a mesma coisa, que estava muito pressionada na faculdade,
ainda não tinha me acostumado com a falta de Aline... Isso é
mentira, mas, ele não precisa saber... E também que eu estava
doente, doente? Dores profundas no coração e na alma...

Fiquei quase duas semanas sem atender os telefonemas de


Guga, claro! Ele só queria falar sobre Natasha por isso achei
melhor evitá-lo, para o meu próprio bem, e também, para o
bem da nossa amizade... Até na casa dos meus pais eu não
conseguia ir, eles é que sempre vinham almoçar ou jantar
comigo. Via Luís na faculdade, mas, não tinha coragem de
contar-lhe o que estava acontecendo, nem eu mesma sabia,
apenas era marcante a lembrança de Natasha, e me pergunto
várias vezes ao dia o porquê de estar vivendo isso, há vi duas
vezes, havia uma distância impressionante entre nós, éramos
diferentes, ela namorava o meu primo, me dera um tapa na
cara, e eu roubei-lhe um beijo para afrontá-la ainda mais,
bom... Que beijo aquele! Mas... Nada justificava! Minha vida
havia parado, ela não saia da minha cabeça... Aline? Sei lá,
espero que esteja muito feliz.

Era Sábado a noite, e eu estava em casa sozinha como sempre,


a campainha tocou duas vezes, demorei para atender, tinha
acabado de sair do banho, coloquei um roupão às pressas...
Abri a porta.

- Oi Cris! – Beijou-me o rosto – Se Maomé não vai à montanha,


a montanha vai a Maomé... É assim mesmo que se diz?– Sorriu
– Conhece a Natasha, não é? – Disse com tom de brincadeira.
- Claro – Disse desconcertada enquanto cumprimentava-a.
- Preciso de um favor teu, prima – Falou no meu ouvido.
- Favor? – olhei-o confusa.

Guga fez um gesto para que fossemos até a cozinha.


- Já volto gata – Disse.
- Precisa de dinheiro? –Logo abri a geladeira e servi-me de um
copo d`água, não preciso nem dizer que só de olhar pra
menina, meu coração disparou, minha boca ficou seca e
minhas pernas ficaram trêmulas, né?
- Não! Não é dinheiro agora – Baixou o tom de voz – Me
conhecendo como me conhece, não imagina?
- Não mesmo – Disse ainda mais confusa.
- Quero... Ver vocês transando – Disse sem rodeios.

Engasguei com a água que bebia.


- O que? – Fitei-o assustada – Ela é sua namorada!
- Sou tarado por isso, você sabe, só de pensar, eu fico...
- Pensei que gostasse dela – Disse quase indignada.
- Gosto! – Disse – Nunca gostei de nenhuma mulher como
gosto dela.
- Ela sabe o que você está me pedindo?
- Deu o maior trabalho convencê-la a fazer isso – Colocou água
no copo – Levei a Susy no Motel com a gente, e não rolou
nada.
- Se não rolou com a Susy, porque acha que vai rolar comigo?
– Disse confusa.
- Com você ela disse que faz – Sorriu – Que mulher Cris!
- Você é um pervertido – Disse furiosa – Não vou fazer isso, ela
é sua namorada.
- Não estou te entendendo – Disse aborrecido – Qual o
problema? Não vai ser a primeira vez que você transa com
uma namorada minha, sempre gostei de ver, e você sabe
disso.
- Naquela época, eu era tão cabeça de vento quanto você –
Fitei-o pensativa – Depois que conheci Aline às coisas
mudaram. Poxa! – Passei às mãos pelos cabelos, estava
confusa - De qualquer forma, eu só topava dormir com as suas
namoradas porque sabia que delas você nunca gostou de
verdade, mas... Da Natasha... – Uns segundos de silêncio – Eu
gosto – Pensei – Você gosta – Disse.
- Eu sei... Por isso que... Quero te pedir pra não beijar ela na
boca – Disse envergonhado.
- O que? – Olhei-o desacreditada – Está dizendo que eu posso
comer a sua mulher, mas não posso beijá-la na boca? Eu
entendi bem?
- É estranho, eu sei... Mas, pra mim, tem que ser assim. Droga!
O que há com você Cris? Ela topou, Porque está pondo tanta
dificuldade?

Meus pensamentos estavam totalmente... Confusos... Não


posso deixar de admitir que era uma proposta tentadora,
mas... Como eu poderia aceitar uma proposta daquelas?
Natasha perpetuava os meus sonhos, não saia da minha
cabeça dia e noite, eu queria tocá-la sim, acho que eu queria
isso mais que tudo na vida, no entanto, como seria depois que
acabasse? Como a menina me olharia? Como ficaria minha
cabeça? E o meu coração? Só eu sabia o que estava dentro
dele, e posso garantir que não era pouca coisa. Continuei
muda e pensativa.

- Vem comigo – Puxou-me até a sala. Ele não queria me dar


tempo de pensar.

Natasha estava linda sentada no sofá. Sua fisionomia


envergonhada contrastava com a fisionomia ansiosa de Guga.
Sentei-me ao seu lado, também constrangida, Guga voltou
para a cozinha com a desculpa de pegar algo para nós
bebermos, nós sabíamos que ele queria nos deixar a sós.

- Como você pode ser conivente com uma loucura dessas? –


Fitei-a nos olhos.
- Sei que parece loucura Cris, mas... Ele quer tanto, está me
perturbando com isso há dias, na verdade, nem sei se terei
coragem, e se você não estiver afim, não tem problema, é bom
que ele desiste dessa história – Disse, fugindo do meu olhar
incisivo.
- Você sabe que eu quero – Disse num impulso... Passei a mão
de leve no seu rosto – Só não queria que fosse nessas
condições.
- Só estou fazendo isso por ele... – Esquivou-se do meu
carinho.
- Mentira! Você quer uma desculpa...
- Não fantasia Cris – Disse aborrecida – Ainda estou furiosa
com aquele beijo que você me deu.
- Se um beijo te deixou tão furiosa, imagina se nós fizermos...
- Resolveram? – Disse Guga antes que eu pudesse terminar
minha frase.

Olhei para Natasha, seus olhos iluminavam a minha vida, eu


sabia que poderia me arrepender profundamente se
compactuasse com aquela história, mas, era só olhar para ela,
e meu coração já não sabia como pulsar, não dava para dizer
não, na verdade, eu jamais conseguiria dizer não para
Natasha, ela é o tipo de mulher que só precisa de um olhar
para nos jogar literalmente aos seus pés... É! Realmente... Ela
me tem aos seus pés...

- Resolvemos – Disse segura, a menina olhou-me um pouco


desacreditada, ou decepcionada, eu realmente não sei – Só
uma objeção – Frisei a última frase.
- Qual? – Disse Guga ansioso.
- Você só vai olhar como sempre fez – Disse – Não tô afim de
ver ninguém trepando.
- Caraca Cris! – Agora ela olhou-me furiosa – Precisa usar
palavras tão vulgares? Isso me irrita, sabia?
- Tá certo – Disse Guga sorrindo, encerrando a discussão e
achando graça da irritabilidade de Natasha – Só olho então,
nem encosto na minha namorada – Concluiu.

Dei mais uma olhada nos olhos dela... Senti raiva por ela ter
concordado com uma coisa dessas, no fundo, bem lá no fundo,
eu nutria a esperança de que um dia fizéssemos amor, mas,
não com platéia, não para agradar... O namorado dela – Pensei
com um nó na garganta. Levantei-me, puxei a menina pelas
mãos até o quarto... No primeiro momento eu senti repulsa
por ela, no entanto, no minuto seguinte, meu coração
disparou... Ela me olhou assustada, não dei tempo dela dizer
nada... Era uma mistura de raiva com desejo acumulado...
Segurei Natasha pela cintura, beijei sua nuca, meus lábios
desceram pelo seu pescoço... Deslizei minhas mãos pelo seu
corpo... Eu já estava sem ar, ela não precisou nem encostar
suas mãos em mim, para deixar-me sem ar... Coloquei a mão
por baixo da sua blusa, ela conteve meu toque, me olhou e
balançou a cabeça no sentido negativo... O sangue ferveu...
Comprimi-a na parede, segurei seus pulsos acima de sua
cabeça... Coloquei minha coxa no meio das suas pernas... Vi
seus olhos se fecharem, logo ela gemeu no meu
ouvido... Soltei seus braços e segurei seu queixo com uma das
mãos, a outra passeava pelas suas nádegas, apertando-as com
desejo, desnudando-a ... Tapei seus lábios com as mãos e
devorei seu pescoço, tapei sua boca porque tive medo de não
resistir e beijá-la... A menina mordeu minha mão, e foi
inevitável não deixar de soltá-la, não senti dor, senti mais
desejo aflorando de dentro de mim... Senti sua respiração
perto do meu ouvido, suas mãos laçadas envolta de mim, me
puxando pela nuca para que eu não desencostasse meus
lábios do pescoço dela... Com as duas mãos livres, eu logo
livrei-me da sua saia, depois passei os dedos por baixo da sua
calcinha... Arranquei-a... Dei uma rápida olhada no seu corpo
quase nu... Coloquei novamente minha coxa no meio das suas
pernas, senti um líquido quente escorrer, molhando a minha
coxa... Respirei fundo... Eu não queria perder o
controle... Subi minha mão pela sua nuca, e deixei seus
cabelos serem aprisionados pelos meus dedos, puxei-os até
que minha boca alcançasse o seu ouvido, primeiro passei
minha língua envolta dele, depois...

- Você não vale nada – Sussurrei, logo senti seus pêlos se


arrepiarem... Beijei seu queixo, passei a língua... Tirei sua
blusa, e desabotoei seu sutiã... Seus seios eram lindos...
Rosados, médios, rígidos... Senti algo escorrendo no meio das
minhas pernas também... O calor que emanava dos nossos
corpos, parecia queimar a nossa pele. Afastei-a da parede,
caminhamos lentamente para a cama... Minhas mãos
apertavam suas nádegas, e a puxavam para mim, para junto
do meu corpo... Beijei novamente o seu queixo, depois o
cantinho da sua boca... Natasha fitou os meus olhos, agarrou
meu rosto com força e tentou beijar os meus lábios, não
deixei, virei o rosto... Ela ficou brava, logo passou a língua
macia e quente no meu pescoço, e depois cravou os dentes no
mesmo.
- Aiiii – Disse baixinho... Ela olhou-me, sorriu e mordeu mais
forte. Deixou-me tonta com aquelas mordidas no meu
pescoço.

A menina sentiu sua perna encostar na cama, e jogou o corpo


para trás, caí por cima dela, procurei seus seios, com as mãos,
com a boca... Suguei com vontade... Minha língua passeava
por eles, enquanto minhas mãos deslizavam pelo seu corpo à
procura do seu sexo... Quando minhas mãos pousaram no
meio das suas pernas, eu suguei seus seios com mais força, e
ela gemeu mais alto...

- Tá toda molhada – Disse novamente no seu ouvido.


- Aproveita, não vai ter outra vez – Disse com a respiração
entrecortada.

Coloquei as mãos por entre suas coxas... Acariciei seu sexo e


ela deu um grito de prazer, sua respiração ofegava, logo meus
dedos entraram sem resistência, na mesma hora, Natasha
forçou a saída dos meus dedos de dentro dela, puxou-me pelo
roupão, desamarrou o mesmo... e me fez deitar no meio das
suas pernas, ao sentir nossos corpos em atrito, não resisti e
beijei-a com desejo, nos esfregamos freneticamente, e o suor
dos nossos corpos molhava o lençol bagunçado da cama... A
menina disse no meu ouvido que iria gozar, parei o ritmo
daquele contato, eu precisava sentir o gosto dela, desci e
segurei seu quadril com as duas mãos, puxei-a pra mim, ela
abriu mais as pernas e ficou me olhando com os dentes
cravados nos seus lábios, e com os olhos saltando
fogo... Coloquei a minha língua no seu sexo, comecei a gozar
antes dela, ela percebeu que eu estava gozando por tocar
nela, inclinou a cabeça para trás e deixou aquela eclosão de
sensações tomarem conta do seu corpo que arfava por aquele
orgasmo, orgasmo intenso, demorado... Aquele que arranca
gemidos, gritos sufocados pela falta de ar nos pulmões,
espasmos nas pernas... Deitei-me ao lado dela na cama...
Passei a língua envolta dos meus lábios para degustar um
pouco mais do sabor daquela mulher, e posso garantir, era
deliciosa demais... Nunca tinha sentido um gosto tão bom na
minha vida. Nesse instante, ela virou-se de lado, fitou meus
olhos... Aqueles olhos negros, cheios de malícia...Puxei-a pela
nuca num impulso e dei a ela o seu próprio gosto pra provar, a
menina sugou os meus lábios com fervor... Quem disse que
nós percebemos a presença de Guga? Só depois que a ficha foi
caindo... Ele nem entrara no quarto, ficara parado na entrada
da porta... Parecia uma estátua, acho que não acreditou muito
no que aconteceu... Olhei pra ela novamente, ela olhou pra
mim, baixamos os olhos... Recoloquei o roupão, mal consegui
olhar para Guga, que não escondera a sua insatisfação ao ver
que havíamos nos beijado, e também, que o nosso contato
havia sido bem maior do que os outros que tive com suas ex-
namoradas, só para constar, foi a primeira vez que meu primo
me vira sem roupa, das outras vezes eu apenas... Apenas...
Tocava nas namoradas dele. Deu pra entender? Senti-me uma
canalha, ainda podia sentir minhas pernas trêmulas. Natasha
era exatamente como havia idealizado em meus sonhos, fora a
experiência mais extraordinária de toda minha vida - Ela é
perfeita – Pensei.

O que aconteceria depois que tudo acabasse? Lembram dessa


pergunta? Pois é... Nenhum de nós era mais o mesmo. Posso
afirmar com toda certeza que eu pelo menos estava entrando
em parafusos.

- Preciso de uma bebida – Disse Guga antes de ir para cozinha.


Ele estava tonto, e arrisco dizer que não era de prazer pelo
que viu.

Naquela altura, eu também queria mergulhar em uma garrafa


de vodka, quem sabe não resolveria todos os meus
problemas, e também, se não resolvesse, me deixaria com
uma dor de cabeça tão grande que ao menos me distrairia.

Natasha continuara quieta, não olhava-me nos olhos. Ergui sua


face até que seus olhos encontrassem os meus.

- Como vou conseguir te esquecer agora? – Disse.


- Cris, eu nem sei o que dizer... Se ele não tivesse insistido
tanto, você sabe que eu não teria feito.
- Tudo bem – Disse com nó na garganta – Não precisa ficar
repetindo que fez porque ele quis... – Afaguei sua face – Mas,
já que fez...Vai embora e acabou? É simples assim?
- Não tô afim de te magoar, e...

Nem deixei que ela terminasse sua frase, abracei-a e beijei


seus lábios com paixão, Natasha não se opôs, alimentando
ainda mais todo aquele sentimento que queimava dentro de
mim.

- Posso te ligar? – Disse insegura.


- Deixa que eu te ligo Cris.

Ninguém é insubstituível

Hoje faria três dias na espera torturante por um


telefonema de Natasha. Será que eu ouvi bem? Ela
disse que me ligaria, não disse? Bom... Eu estava tão
consumida em minha ansiedade que resolvi buscar
Amanda na faculdade. Olhei o relógio, eram cinco e
quarenta e sete... Estacionei o carro bem próximo à
saída... Liguei para o celular de Amanda, não falei que
estava esperando-a na porta, só perguntei que horas
sairia... Não demorou muito para às duas avistarem-
me, Amanda sempre gostava quando eu vinha buscá-
la, eu fazia isso com mais freqüência quando estava
morando com Aline, elas se davam muito bem, por
isso, sempre que podíamos passávamos na faculdade
para buscá-la, depois íamos ao shopping, ou
tomávamos cerveja em algum lugar por perto, e era
bem divertido. Tenho mania de dizer que minha irmã é
chata, mas, a verdade é que eu amo muito essa
chatinha.

- Oi Cris – Disse sorridente – Finalmente veio me


buscar.
- Oi meninas – Dei um beijo em Amanda, logo outro em
Natasha – Como está? – Olhei-a com os olhos
transbordando de saudade, chegava a doer meu
coração de tanto que pulava dentro de mim.
- Bem, e você? – Ela fitava-me desconcertada.
- Vou indo... – Disse com um sorriso amarelo no canto
dos lábios - Tá calor, né?
- Oba! Estou morrendo de vontade de tomar sorvete –
Ofereceu-se Amanda.
- Ótimo! Vamos tomar sorvete... – Valeu mana! –
Pensei - Vem com a gente Natasha? – Disse exibindo
um falso descaso. Como se eu não fosse ligar se ela
rejeitasse o convite, sabem?.
- Não, obrigada. Sorvete engorda – Sorriu... Seus
lábios eram tão rosados... O contorno deles tão
perfeitos... Difícil não ficar com água na boca por
vontade de beijá-los – Brincadeira, tenho que ir para
casa – Disse evitando olhar pra mim.
- Eu levo você em casa – Insisti.
- Vamos Naty – Puxou-a pelas mãos – Vem com a
gente, a Cris te leva em casa depois.
- O Guga ficou de passar... Lá em casa... Pra gente
sair – Disse desconcertada – Demoro muito pra me
arrumar... – Baixou os olhos, fugindo novamente do
meu olhar.
Foi tão estranho ouvi-la falar de Guga, senti um gosto
amargo na boca. Depois dos últimos acontecimentos,
meu primo não me procurou mais, se quer um
telefonema, muito menos retornava os meus, na
verdade, nem sei por que eu ligava pra ele, não tinha
nada o que falar... Desculpar-me? Acho que a gente só
deve pedir desculpas quando se arrepende, e não era o
meu caso.

- Desiste Amanda, sua amiguinha não vai muito com a


minha cara – Disse enquanto abria a porta do carro.
- Porque Cris? Está acontecendo alguma coisa que eu
não sei? – Fitou-nos intrigada.
- Não está acontecendo nada Amanda, a sua irmã é
que deve ter algum problema com a palavra não
– Disse sarcástica.
- Problema nenhum – Sorri... Um sorrido daqueles bem
debochados – Um não a mais, ou a menos... Não faz a
menor diferença, viu?

Logo que entrei no carro, as duas entraram também,


olhei pelo retrovisor, Natasha estava furiosa, sorri
novamente, agora aquele risinho que diz: “eu
consegui”. Gosto de vê-la irritada, isso me dá prazer!
Estranho, né? Sentir prazer por ver alguém irritado...
Ela fica tão linda irritada... Ela franze um pouco a testa,
fecha um pouco os olhos... Nossa! Demais mesmo.

Engraçado, o que não se faz por uma mulher? Além de


não gostar muito de sorvete, ainda tive que tolerar os
moleques que estavam na sorveteria falarem gracinhas
para Natasha, tive a impressão de ter regredido uns
dez anos, e o pior é que eu nem tenho o direito de
sentir ciúmes da namorada do meu primo, se parar
para pensar bem nisso tudo, estou sendo neste
momento, tão canalha quanto a proposta de Guga, e
talvez por isso esteja dando graças a Deus por ele estar
evitando-me tanto, seria muito difícil estar ao lado de
Natasha se ainda fossemos os mesmos, tá certo que
isso não me absolve da culpa de estar sendo desonesta
com ele, mas... Sabe quando você fica completamente
perdida por uma mulher? É assim que eu estou. Isso
vocês já perceberam, tenho certeza... Mal toquei no
sorvete... Ela também não aproveitou muito do dela,
apenas Amanda parecia se divertir. Minha irmã falava
sem parar, e nós nos limitamos apenas a responder o
básico, ora dizíamos sim, ora dizíamos não...

Deixei Amanda na porta de casa, depois fui levar


Natasha como havíamos combinado, ficamos em
silêncio até pararmos em frente a sua casa.

- Obrigada pela carona – Disse abrindo a porta do carro


para descer.
- Porque está agindo desta forma? – Segurei seu braço,
impedindo que ela saísse do carro.
- De que forma Cris? – Tornou a fechar a porta.
- Está me evitando, não olha para mim... Disse que
ligaria, não ligou... Eu fiquei dias esperando um
telefonema seu, sabia? – Disse magoada.
- Se eu ligasse pra você, sobre o que iríamos
conversar? – Disse aborrecida – Sobre o que aconteceu
com a gente? Não quero falar nisso, já passou,
esquece!
- Eu não quero esquecer – Segurei suas mãos geladas
e trêmulas – Porque você está tremendo?
- Você... Me deixa... Nervosa com essas perguntas
todas... É melhor... Eu descer... – Puxou a mão, logo
pousou-a na maçaneta da porta, no entanto, continuou
olhando-me.

Fitei seus lábios rosados... Minha boca ansiava por


aqueles beijos...

- Diz pra mim que não gostou – Sussurrei... Puxei-a


pelo pescoço... – Diz que aquele orgasmo foi fingimento
– Cheguei meus lábios mais perto, senti sua respiração
no meu rosto... Era algo extremamente incontrolável...
Ficamos nos olhando, sentindo nossas respirações
acariciar nossa face... Seus lábios estavam tão
próximos...
- Não faz isso Cris – Disse com tom de voz inseguro.
- Fazer o que? – Sussurrei – Isso? – Encostei
lentamente meus lábios nos dela, logo sua língua
estava dentro da minha boca numa química tão perfeita
que não conseguíamos parar de nos beijarmos, aquele
beijo foi ficando mais ardente, prolongado com
caricias... Nossos dedos deslizavam pelos nossos
rostos, sentindo a nossa pele, deslizavam pelo pescoço,
alcançavam a nuca... Minhas mãos escorregaram por
cima da sua blusa... Toquei seus seios com a ponta dos
dedos, descobri sua barriga, acariciei... Nossos lábios
estavam famintos, tomando um ao outro com paixão,
sufocando gemidos de desejo... Minha mão alcançou
sua saia... Apalpei e apertei as coxas grossas e bem
torneadas de Natasha, como aquelas pernas eram
lindas... Macias, cheirosas... No minuto seguinte meus
dedos afastaram sua calcinha e invadiram-na sem que
ela esperasse... Ela soltou um gemido no meu ouvido...
Afastou as pernas facilitando um entra e sai cada vez
mais rápido dos meus dedos, não demorou para o
banco de o carona ser inundado com o gozo da
menina... Seus olhos negros agora fitavam os meus,
admirei-os por alguns segundos... Beijava sua
nuca quando bateram no vidro do carro, sorte que os
vidros eram bem negros, e ficava praticamente
impossível identificar quem estava dentro do mesmo,
ou principalmente, o que estávamos fazendo... A
menos que... Pensei rápido, derrubei no tapete um
pouco de perfume para automóveis que eu sempre
carrego no porta luvas do mesmo... Logo o cheiro de
lavanda sobrepôs o cheiro de sexo que ficara no
ambiente. Baixei os vidros...
- Conheci o seu carro de longe – Disse desconfiado.
- Oi Guga – Não consegui olhá-lo nos olhos – Fui buscar
a Amanda na faculdade, e...
- Fomos tomar sorvete, e depois a Cris me deu uma
carona – Disse também desconcertada.
- Só isso? – Fitou-nos com os olhos vermelhos de raiva
– Porque os vidros estão fechados?
- Ei cara! Não... Não aconteceu nada... foi só uma
carona... – Disse com nó na garganta. Perceberam que
sempre que fazemos algo “errado” tentamos justificar o
máximo possível? Isso é quase uma confissão, não
acham? - Já viu o calor que está fazendo? O ar tá
ligado – Apontei o botão no painel do carro.
- Tchau Cris – Abriu a porta, desceu... Ela estava
nervosa – Obrigada pela carona – Disse quase num
sussurro.
- Tchau Natasha – Fitei-a já com saudade – Tchau
Guga, boa noite – Ainda não consegui olhá-lo nos
olhos, tive vergonha da maneira como estava agindo
pelas costas dele... Será que isso quer dizer que eu não
tenho caráter? Estou realmente preocupada, não tenho
agido de acordo com os meus princípios ultimamente...

Depois que sai da casa de Natasha, percebi que estava


atrasada para a faculdade... Nem passei em casa, fui
pra faculdade? Também não... Fui direto na casa dos
meus pais, sabia que Luiz não tinha aulas hoje, e eu
precisava muito conversar com alguém, do contrário,
iria explodir. Aquele segredo estava sendo
insustentável para mim, minha cabeça não obedecia
mais à razão, e cheguei a pensar inúmeras vezes
naquela noite que iria enlouquecer... Eu e Luiz fomos a
um bar perto de casa mesmo, fiquei mais à vontade
para falar depois de umas três cervejas.

- O que está te incomodando desse jeito Cris? – Fitou-


me preocupado.
- A minha vida tá de pernas para o ar Luiz – Tomei
todo o liquido que estava dentro do copo num gole só.
- Calma aí! – Disse – Bebe devagar, Cris!
- Não sei mais o que faço... Estou completamente
apaixonada pela Natasha – Disse sem rodeios. Logo
acendi um cigarro, eu estava nervosa.
- Espera aí! - Fitou-me por uns segundos, acho que a
ficha custou a cair – Natasha... A amiga da Amanda...
Namorada do Guga? – Concluiu perplexo.
- Essa mesma.
- Você pirou? – Fitou-me desacreditado.
- Cara... Parece loucura, mas... Desde que eu vi aquela
garota pela primeira vez, não consigo fechar os olhos e
não vê-la. Putz! Eu consigo vê-la até nas pessoas que
passam por mim na rua... Ela está em cada música que
eu ouço, em cada sorriso meu... E também, nessa
agonia que você vê nos meus olhos – Nossa! Que
horror! Eu estava dramática, viram?
- Caraca Cris! Como você deixou isso acontecer?
- Ah! Agora a culpa é minha? – Fitei-o indignada - Até
parece que eu posso virar pro meu coração e falar:
essa pode, essa não pode...
- Desculpa, é que... Não sei o que dizer, pra ser
sincero, não consigo entender o que você está sentindo
– Disse – Eu nunca senti isso por ninguém.
- Sorte sua... Mas... O pior você ainda não sabe –
Olhei-o, um pouco envergonhada – Eu... Transei com
ela – Disse de imediato.
- O que? - O pobre chegou a engasgar com a bebida.
- A culpa foi do Guga, sempre seguindo os seus
instintos, pediu pra garota topar fazer comigo... Pra ele
ver, sabe? – Continuei encabulada, como nunca estive
antes, era o meu irmão que estava diante de mim, no
entanto, parecia um estranho tendo em vista todo
aquele constrangimento que estava sendo contar a ele
sobre Natasha.
- Mas, isso não é novidade pra você – Pediu outra
cerveja – Ele sempre pede pra você fazer com as
namoradas dele, o Guga só sossegou um pouco depois
que você foi morar com a Aline .
- Com a Natasha foi diferente, não era só desejo...
- E ela? O que diz disso tudo?
- Bom... Está me enlouquecendo, diz que só fez por
causa dele... Mas... – Respirei fundo - Eu vi nos olhos
dela que não foi nada forçado, hoje principalmente...
- Hoje o que? – Agora foi ele quem tomou de uma vez
só todo o líquido do copo.
- Cara, é uma loucura! – Acendi outro cigarro, viram?
Estou parecendo uma chaminé – Fui buscar Amanda
na faculdade, desculpa pra ver a Natasha, né?- Fitei o
copo na mesa, nossa! Eu estava com vergonha do meu
próprio irmão - Bom, levei as duas pra tomar sorvete,
e depois que deixei a Amanda nos nossos pais, levei
a menina na casa dela... Começamos a nos beijar, e
quando me dei conta, estava... Estava comendo ela ali
mesmo.
- Sério Cris? – Colocou cerveja no copo dele, logo no
meu também – Bebe mais – Disse solidário.
- Tem algo ainda pior... O Guga chegou segundos
depois – Disse hesitante – Quase nos surpreendeu...
- Não queria estar no seu lugar, mana – Disse
balançando a cabeça negativamente.
- Nem eu – Concordei desanimada.

Já passava da meia noite quando terminamos nossa


conversa, eu estava literalmente bêbada, Luiz quem
dirigiu o carro, e é bom dizer que ele não dirigia desde
um acidente que sofreu a uns seis meses atrás, Luiz
perdeu a direção do automóvel quando estava
passando pela Lagoa, bateu em um poste e a amiga
dele que estava no lado do carona feriu-se seriamente,
a menina passou uma semana no hospital, hoje já está
bem, mas, ainda se recupera das seqüelas do acidente.
Acidente esse que foi provocado por uma distração do
meu irmão, ele estava tentando sintonizar uma rádio...
Tirou os olhos da pista por alguns segundos... E...
Pronto! Depois disso, Luiz tomou pavor de trânsito, se
sente muito culpado. Bom... Ele levou-me direto para
casa dos nossos pais, eu estava sem condições de ir
para casa, apesar de ter insistido bastante para que
Luiz me levasse para meu apartamento.

Logo que chegamos, percebi que a movimentação em


casa não era a mesma, Amanda devia estar vendo
filme com alguns amigos, ela costumava fazer isso com
frequência, e era exatamente como deduzi, estavam na
sala: Amanda com um namoradinho que conhecera
alguns dias na Internet, Guga e Natasha. Coincidência
não existe na minha concepção, algo muito maior
aproximava-me daquela menina, e eu não tinha
nenhuma pista do que seria, ou quem sabe tinha,
alguns podem dizer que é destino, eu digo que é
atração, eu atraio Natasha para perto de mim, porque
meu pensamento está direcionado vinte quatro horas
em função dela, acredito que quando queremos muito
algo, ou alguém como é o caso, isso é possível. Tudo o
que eu menos queria naquele instante, era que ela me
visse naquele estado, no entanto, mal conseguia
caminhar sem a ajuda de Luiz.

- Senta aqui Cris – Disse apontando o sofá.


- Me Leva pro quarto Luiz, por favor – Falei baixinho,
estava envergonhada.
- A farra foi boa, hein? - Sorriu sarcástico.
- Guga, não começa, tá? – Defendeu-me Luiz – Vou
fazer um café bem forte pra você tomar, depois você
vai pra água fria, não adianta reclamar – Passou a mão
no meu rosto.
- Luiz, eu não quero café, eu quero sair daqui! – Disse
aborrecida.
- Vem Cris, eu te levo – Ofereceu-se Amanda - O que
deu em você? Ainda bem que nossos pais estão
dormindo, senão você ia levar um sermão daqueles...

Levantei-me, minha cabeça rodava, tinha a impressão


de estar em uma roda gigante, alguém já ficou assim?
Fecha os olhos e parece estar pisando em ovos,
enquanto o mundo dá voltas ao seu redor... Não
consegui dar um passo, mesmo com a ajuda de
Amanda, foi quando senti alguém tocar o meu ombro, a
principio pensei ter sido um anjo, será que eu já estava
morrendo e ele veio me buscar? Não... Depois de
desejar a mulher do próximo, eu perdi todas as
chances de ir para o céu! – Pensei. No minuto seguinte
constatei que o Anjo que me referi era Natasha.

- Vou te ajudar também – Disse simpática.

O meu quarto ainda estava exatamente como havia


deixado, minha mãe ainda tinha esperança de que um
dia eu pudesse voltar a morar com eles naquela casa,
tive até saudade. Sentei-me na cama, fazia tempo que
não entrava naquele quarto...Parecia o quarto de um
menino, paredes pintadas de verde, quadros de
automóveis misturados com fotos de quando eu e meus
irmãos éramos menores?! Isso era coisa da minha mãe,
eu não havia colocado aqueles quadros ali, a menos
que eu estivesse tão bêbada a ponto de não me
lembrar...

- Naty... Fica com ela rapidinho, vou ver se o café está


pronto, tá?

Natasha fez um gesto para Amanda concordando com o


seu pedido. Minha irmã saiu correndo pelas escadas...

- Você está bem? – Disse.


- Não! Estou morrendo de vergonha – O quarto todo
parecia rodar agora.
- Fica não – Sorriu – Já tomei um porre como o seu –
Disse descontraída.
- Minha cabeça tá rodando, droga! – Eu não sabia se
estava parada ou girando junto com o quarto.
- Vem cá – Disse tentando levantar-me – Pro chuveiro,
agora! – disse enérgica.
- Água fria não, não mesmo! – Resisti em levantar.
- Até parece que você tem escolha – Puxou-me até o
banheiro, abriu o chuveiro – Fica aí, vou pegar uma
toalha.
- Espera – Disse e segurei forte o seu braço... Não
lembro-me de ter dito outra coisa... Quando dei por
mim, já estávamos com roupa e tudo debaixo daquela
água fria, e nem assim, meu desejo por ela diminuía,
friccionei-a na parede e beijei-a com muito desejo...
Nossa! Aquele contato com o corpo dela... gozei ao
sentir sua perna no meio das minhas... - Você me
deixa maluca – Sussurrei no seu ouvido, enquanto
tentava controlar a minha respiração.
- Você é louca mesmo, alguém pode entrar, sabia? –
Disse nervosa – Olha só o que você fez? Tô toda
molhada!
- Vem cá... Naty! – Puxei-a - Posso te chamar assim?
Minha irmã chama – Disse não conseguindo controlar a
vontade de rir - Porque toda pessoa bêbada gosta de rir
tanto? – Pensei.
- Vem cá você Cris, vamos! – Puxou-me pela camisa –
Tem que tirar essa roupa molhada.
- Você também está molhada, tem que tirar a sua
roupa, e depois que tirar, pode deitar na cama comigo,
mas, não vamos dormir, não! – Continuei sem
conseguir controlar minha vontade de rir... E a cabeça
rodando... Não sabia se estava pisando no chão ou em
alguma almofada... Tive até medo de ser Patrícia
embaixo dos meus pés, minha mãe me mataria se eu
pisasse naquela gata.
- Você está muito engraçadinha hoje – Sentou-me na
cama.
- Cris, o ca...fé – Parou na porta... Fitou-nos assustada
– O que aconteceu com vocês?
- Sua irmã caiu no banheiro, eu fui segurar e... Molhei-
me também – Disse insegura.
- Mentira Amanda – Disse rindo – Eu joguei ela na
água...
- Bebe isso Cris – Disse obrigando-me a tomar o café –
Vê se fica quietinha – Sussurrou no meu ouvido.
- Tá quente... Arg! Amargo – Cuspi tudo no chão.

Luiz entrou com Guga no quarto...


- Ela bebeu Amanda? – Disse preocupado.
- Quase nada.

Guga fitou Natasha no mesmo instante.


- Está toda molhada por quê? – Fitou-me também -
Estão, né?
- Elas caíram no banheiro. Vou te emprestar uma roupa
Naty – Disse Amanda – Já volto – Saiu.
- Natasha, vamos embora depois – Disse furioso – A
Cris conseguiu estragar a nossa noite – Continuou
emburrado.
- Tudo bem, troco de roupa rapidinho - Disse calma.
- Não Naty, fica aqui comigo – Segurei sua mão
impedindo que ela saísse do quarto - Não vai embora...
Senta aqui Naty...
- Cris, termina o café – Luiz sentou-se ao meu lado na
cama – Pega leve, tá dando o maior mole – Disse
quase num sussurro.
- Luiz, se precisar de alguma coisa, liga tá? – Ela soltou
minha mão – tem meu telefone?
- Eu tenho – Intrometi-me – Tenho o da sua casa, seu
celular, tenha até o seu e-mail...
- Natasha, ela tá legal, droga! – Disse Guga ainda mais
furioso – Não foi o primeiro, nem vai ser o último porre
da vida dela. Vamos! – Puxou-a pelo braço, e os dois
saíram. Eu? Fiquei, e com a cabeça rodando.
De manhã, acordei sem saber onde estava, depois dos
primeiros minutos com os olhos abertos, ou pelo menos
tentando abri-los, familiarizei-me com o ambiente –
Estou na casa dos meus pais – Pensei. Rex estava
deitado no meu pé, e Patrícia passeava em cima de
uma prateleira cheia de miniaturas de Ferraris que
ficava ao lado direito da cama, eu tinha aquela coleção
de Ferraris desde pequena, haviam pelo menos uns
cinqüenta carrinhos, e agora que eu estava indefesa,
Patrícia fazia o favor de derrubar tudo... Como ela
subiu ali? – Pensei.

- Rex! Tira a Patrícia dali – Mexi o pé pra ver se ele se


movia, o máximo que o cachorro fez, foi: levantou as
orelhas, olhou pra minha cara, e depois, esbanjando
indiferença, acomodou novamente a cabecinha nos
meus pés e fechou os olhos, ainda cobriu o focinho com
as patas... – Seu inútil – Disse, logo, levantei-me, o
cão latiu aborrecido por não ter meu pé de travesseiro,
é mole? – Abusado! Tinha que ter latido pra ela descer
– Disse indignada. Peguei Patrícia nas mãos, depois
coloquei-a no chão, ela miou baixinho e começou a se
enroscar nas minhas pernas – Quer carinho, né
menina? - Abaixei-me para pegar novamente aquela
bolinha de pêlos negra, ela era da cor dos cabelos da
Natasha – Pensei. Nossa! A cabeça já doía antes de
lembrar de Natasha, agora então... Além da dor de
cabeça, minha garganta estava seca, e eu tinha um
gosto amargo na boca... Lembrei-me que estava com
sede. Luiz parecia ter adivinhado meus
pensamentos, entrou no quarto com um copo cheio de
água.
- Falando com os animais? – Disse oferecendo-me a
água.
- São bons ouvintes – Sorri sem graça. Coloquei
Patrícia na cama, ao lado de Rex, o mesmo levantou a
orelha e resmungou um pouco, logo voltou a dormir
com as patinhas cobrindo o focinho.
- Está melhor?
- Tirando a sensação de ter sido atropelada por um
trator, estou bem sim – Tomei toda água que estava no
copo – Ainda estou com sede – Disse.
- Pelo visto, não vai trabalhar hoje.
- Cara, tô muito mal mesmo – Disse enquanto
esfregava os olhos para enxergar melhor - Cadê a
chave do carro?
- Tava na sofá da sala – Balançou as chaves
mostrando-me, depois colocou sobre a cômoda – Vou
cobrir você hoje, mas, não se acostuma, tá legal? –
Sorriu.
- Luiz – Chamei-o – Eu disse... Ou fiz muita besteira
ontem? – Cocei a cabeça... Ele olhou-me sarcástico.
- Não... Só disse na cara do Guga que tem todos os
telefones da Natasha, e-mail... Ah! Pediu para ela ficar
com você também – Disse irônico.
- Nossa! Ele deve estar querendo me esganar.
- Desencana dessa garota, Cris – Deu-me um beijo –
Ela é namorada do cara, e depois que o Guga conheceu
essa menina, verdade seja dita, ele não se meteu em
nenhuma confusão até agora, quem sabe esse
desmiolado não toma jeito, e você, devia partir pra
outra, além de tudo, ela é uma criança, sabia? Tem só
dezenove anos.
- Uma menina de dezenove anos não é mais tão criança
– Justifiquei.
- Você tem uma irmã de dezoito – Fitou-me com aquele
olhar paternal que ele gostava de exibir – Tem certeza
que ela não é mais tão criança?
- Bom, pensando desta forma, Amanda era super
infantil – Pensei – Mas... Ela faz igual gente grande –
Disse fazendo-o rir.
- Quero o seu bem – Balançou o meu ombro – Quero o
seu bem – Repetiu.
- Eu sei, vou tomar um rumo na minha vida hoje –
Procurei o cigarro pela cama, logo acendi um – Não vou
ficar correndo atrás dela Luiz, você tem toda razão, ela
está fazendo bem para o Guga, se ele não tomar juízo
agora, não tomará nunca - Respirei fundo – Tenho que
esquecê-la, não é? É o que vou fazer, tenho que tirar a
Natasha da minha cabeça, ela nunca vai querer nada
comigo mesmo, e é bobagem insistir nessa história tão
sem futuro – Fitei o chão, fiquei pensativa, digerindo as
palavras que acabara de pronunciar.
- Assim que se fala – Disse tentando animar-me – Tira
o dia para colocar a cabeça em ordem – Disse antes de
fechar a porta – E não deixa o Rex tomar conta da sua
cama, da última vez, ele não quis sair da minha –
Sorriu.
- Vou expulsá-lo já, já...

Resolvi seguir o conselho de Luiz, eu iria repaginar a


minha vida, e para começar, resolvi vencer um dos
meus maiores medos. Sabia que se conseguisse vencer
o medo de altura que me atormentava tanto,
conseguiria esquecer Natasha. É! Tenho medo de
altura, vocês não sabiam? Na verdade, isso não era
uma certeza, e sim uma esperança... Precisamos de
esperança para continuarmos vivendo... Eu tinha que
me agarrar em alguma coisa, a Faculdade não era o
suficiente. Eram dez e quarenta da manhã quando
cheguei na pedra da Gávea, à vista era linda, mas, à
altura assustadora, olhando a cidade lá de cima, dava a
impressão de que cabia na palma das nossas mãos.
Quando o instrutor falou: - vamos? Comecei a suar frio,
pular de asa delta naquela altura, jamais tinha passado
pela minha cabeça antes, mas, precisava sentir-me
forte, e vencer o meu medo me faria forte, assim seria
em minha concepção.

- Depois que pular passa – Disse Jorge, o instrutor.

Confesso que nem quando fui buscar o Guga naquelas


circunstâncias dentro da favela, senti tanto pavor. Olhei
em volta, logo uma reflexão dentro de mim, a resposta
em seguida.

- Um... Dois...Três... – Corremos naquela plataforma


de madeira, e logo o céu parecia nos acolher, a
impressão que dava, era a de que as montanhas iriam
nos engolir, e o mar abaixo de nós, iria nos tragar... A
sensação fora inexplicável, a adrenalina
daquele momento se projetava nos meus olhos
encantados... O medo fora embora, e levara com ele
todas aquelas frustrações dos últimos dias. Quando
aterrissamos na praia do Pepino, senti-me viva
novamente, olhei para o alto, e quase não pude
acreditar que tinha saltado de verdade. Foi incrível,
gente! Todo mundo um dia devia fazer algo que tivesse
medo... Não resolve todos os problemas, bem sei disso
agora em terra firme, mas... Dá uma sensação
momentânea de... Paz! Sei lá! Estou viva, e quero
muito viver... Deus não fez isso tudo para termos
vontade de morrer... Olhei em volta... É! Deus não fez
isso tudo para termos vontade de morrer!

Estava sentada num quiosque de frente à praia,


tomando água de coco, quando o telefone tocou.

- Alô – Disse hesitante, não apareceu o nome de


ninguém, apenas um número que nunca tinha visto
antes.
- Cris? – Disse a voz do outro lado da linha.
- Sim, quem está falando? – Não conheci aquela voz.
- É a Mary – Disse entre sorrisos.

Logo lembrei-me, Mariana, uma amiga que não via a


quase dois anos. Ela fora morar em São Paulo após
terminar à faculdade de Psicologia, seu pai também era
Psicólogo, e morava por lá , e Mary fora estagiar em
sua clínica. Meu Deus! Eu nem podia acreditar, era a
melhor amiga que tive até hoje.
- Que saudade – Disse lembrando-me de como
havíamos nos divertido.
- Você está onde Cris?
- Na Gávea, por quê?
- Estou no aeroporto Santos Dumont, acabei de chegar
no Rio – Estava animada, dava sentir pelo som da sua
voz – Pensei que podia vir me buscar.
- Claro que vou – Disse de imediato.

...Mal podia acreditar no que estava vendo, Mariana


estava totalmente mudada, lembro-me dela bronzeada
de Sol, com os cabelos parafinados e sua prancha de
Surf amarrada em cima de uma caminhonete vermelha
que sempre enguiçava no caminho da praia, descíamos
todos para empurrar, e ela ficava rindo da nossa cara e
gritando: - Força gente! Força! – Sorri ao lembrar.
Nessa mesma época, Mary fugiu da casa dos pais pra
morar com uma Alemã que veio visitar o Rio no
carnaval, nossa! A louca foi pra Alemanha, e os velhos
quase enfartaram, descobriram que a filha era lésbica
no mesmo dia em que ela fugiu de casa para morar
com outra mulher, durou um mês aquele caso de amor,
depois Mary voltou pra casa dizendo que não conseguiu
aprender a falar Alemão. Hoje, com vinte oito anos,
deixara os cabelos voltarem a sua cor natural que eram
castanhos escuros, ainda os usava abaixo dos ombros,
sua pele pálida denunciava que não costumava ir ao
litoral, mas, algo que não mudara uma só virgula, fora
a sua sensualidade e seu corpo, que continuava
maravilhoso. Nos abraçamos demoradamente.

- Como estão as coisas por aqui, Cris? – Disse abrindo


os braços, fechando os olhos e buscando respirar o ar
da cidade.
- Vão indo – Dei-lhe beijos no rosto, logo nos
abraçamos – A garoa de São Paulo te fez bem.
- Não sabe como sinto saudades daqui – Sorriu, o
mesmo sorrisinho cafajeste de sempre – Praias,
boates... Mulheres...
- Não mete essa! Todo mundo sabe que Sampa tem
Boates em cada esquina.
- Sampa é ótimo, Cris! Mas, o nosso pessoal não estava
lá – Puxou-me novamente para um novo abraço – Que
saudade! – Disse alto, despertado uma certa
curiosidade de quem passava por nós – Que saudade! –
Repetiu ainda mais alto, ela adorava chamar a atenção.
Sorrimos – Casada ainda, Cris? Da última vez que nos
vimos você estava pra casar, e da ultima vez que nos
falamos por telefone, você já tinha casado.
- Longa estória, Mary! Só vou adiantar que não estou
mais casada... No caminho te conto como está a minha
vida – Sorri, sabe quando seu corpo se enche de alegria
quando vê alguém? Pois é! Assim que eu estava
sentindo-me - E você? Casada, solteira?
- Solteiríssima... – Puxou-me – Vamos... Quero ir à
praia.
- Claro! Praia agora! – Disse animada enquanto
caminhávamos sorridentes até o carro. Tenho certeza
que vocês vão adorar essa mulher! Podem escrever
isso.

Passamos o dia inteiro visitando a Cidade. À noite, eu e


Mary fomos para o meu apartamento, deixaríamos suas
malas lá, ela ficaria hospedada em minha casa até que
fixasse residência no Rio novamente, combinamos
desta forma, porque ela insistia em ficar num hotel. Até
parece que eu deixaria minha grande amiga num
hotel... Mary disse que colocaria sua vida em ordem,
em aproximadamente três dias, por mim, poderia
demorar três anos... Tava adorando a idéia de ter
alguém dividindo aquele apartamento comigo
novamente, tá certo que não dividiríamos a mesma
cama. Claro! Estamos falando da minha amiga,
esqueceram? Bom, posso adiantar pra vocês que ela
tinha o poder de deixar alegre qualquer pessoa que
estivesse ao seu lado.
Mary fora tomar banho para terminarmos à noite como
antigamente, em uma Boate bem agitada, eu até
estava animada com a idéia de curtir uma noitada,
fazia tempos que eu não me permitia esse tipo de
diversão... É gente! Eu podia dizer que naquele
momento, eu estava sentindo-me tranqüila, será que é
mesmo verdade que quando Deus fecha uma porta ele
abre outra? Vou encarar a chegada da minha amiga
desta forma. Logo que sentei-me no sofá, a campainha
tocou, e lá fui eu abrir a porta. Esse pessoal deve ter
esquecido o que é interfone – Pensei enquanto puxava
a maçaneta...

- Oi - Disse tímida.
- Oi – Disse surpresa com a visita. Bastou olhá-la, para
tudo a minha volta se transformar novamente. Percebi
naquele instante que ainda não tinha superado o meu
maior medo. De que valeu ter saltado de tão alto?
- Posso entrar? – Disse receosa.
- Claro Natasha – Dei espaço para que ela entrasse...
Senti seu perfume quando ela passou por mim, seu
braço direito tocou levemente na minha mão... Meu
corpo logo reagiu... Depois disso... Bom... Parece até
coisa combinada, estilo novela mexicana, sabe? Logo
que a menina entrou, Mary apareceu na sala de toalha.
- O chuveiro não quer... Esquentar, Cris – No mesmo
instante notou a presença de Natasha – Desculpa, não
sabia que tinha visita – Disse encabulada, ajeitado a
toalha no corpo.
- Não sabia que... – Fitou-me desconcertada – Sua
namorada? – Disse. Acho que ela não quis fazer aquela
pergunta... Colocou a mão na boca como se tivesse dito
sem querer.
- Sim – Disse de imediato.
- Sou?! – Mary olhou-nos surpresa. Arregalou os
olhos...
- Vim em péssima hora, desculpa Cris, já... Estou...
Indo embora – Caminhou em passos largos até a porta.
- Ainda não disse por que veio – Tomei a sua frente...
Coloquei a mão na porta, impedindo que ela girasse a
maçaneta... Fitei seus olhos – Quer me dizer alguma
coisa? – Disse completamente perdida no seu olhar...
Ah! Aqueles olhos...
- Nada demais... Estava passando aqui em frente... E...
Resolvi saber se você melhorou – Disse ainda
desconcertada – Que bobagem, claro que está melhor.
Já vou – Empurrou-me sutilmente... Desobstrui sua
passagem... Continuei imóvel. Senti-me uma perfeita
idiota ao mentir pra ela, nem sei por que menti!
Alguém pode me dizer por que eu menti? Aceito
sugestões. Fechei a porta quando ela saiu, em seguida,
desabei no sofá.
- Droga! – Resmunguei irritada - Depois que mudaram
de síndico, o porteiro não usa mais interfone. Ainda
bem que eu não estava aqui no dia da eleição desse
síndico incompetente – Conclui aborrecida, mortificada
por não estar preparada para recebê-la, se ao menos
soubesse que era ela... Lamentei. Até esqueci-me que
Mary estava parada olhando-me.
- Então não reclama, amor! – Disse ela irônica.
Levantei meus olhos e fitei-a –Se você estivesse aqui,
quem sabe não elegeria um síndico melhor? –
Concluiu.
- Até parece que o meu voto solitário faria diferença.
- Faz sim, oras! – Aproximou-se – É por pensamentos
assim, D. Cristina que pomos no poder Políticos que
não fazem nada pelo nosso País... Podia ter votado, né?
Aí sim teria razão para reclamar da administração do
prédio.
- Não sabia que gostava de política.
- Eu odeio Política, mas... Amo o meu País.
- Tá bom, dá próxima vez que formos eleger um novo
síndico eu voto... Quem sabe me candidato também –
Sorri sem graça..
- Não apela, ta? Mas... Me diz, porque mentiu pra
menina, Cris?
- Essa é a Natasha que te falei, amiga da Amanda,
namorada do Guga...
- E totalmente hetero? – Disse bem humorada – Quer
um conselho de especialista? – Fiz um gesto assentindo
e ela continuou a falar - Falo como profissional, Cris... E
acho que se envolver em uma relação como essa, será
totalmente destrutivo pra você – Sentou-se ao meu
lado – Não é preconceito, mas... Ela parece uma
criança, e se quer saber, pode até ter gostado de
transar contigo, mas, deixou claro que prefere o sexo
oposto, e para completar, você não tem o direito de
estragar a vida do seu primo, principalmente sabendo
que essa história não pode ser levada adiante... Você
mesma disse que ela não quer – Sorriu debochada – Se
você fosse homem, diria que está pensando com a
cabeça de baixo.
- E se você fosse me dar um conselho de amiga? –
Fitei-a descrente.
- Ah, Sim! Ai eu diria para você mandar o seu primo
para o quinto dos infernos, correr atrás dela, e mesmo
que não conseguisse casar com ela, trepasse bastante,
porque verdade seja dita, meu Deus! A menina é muito
gatinha mesmo – Sorri com seu comentário - No
entanto... – Fez um pouquinho de suspense até
retomar as falas - Acho melhor você seguir o conselho
profissional – Disse desfazendo o sorriso e franzindo a
testa.
- É exatamente o que estou tentando fazer, por isso
você ganhou o título de minha namorada.
- Então, como sua namorada, eu digo que você tem
que levantar desse sofá, tomar um banho bem gostoso,
colocar uma roupa bem legal, porque nós vamos
dançar muito na Boate hoje – Puxou-me pelo braço –
Vamos, levante! Manda esse baixo astral pra lá...

... Copacabana, duas e quarenta e oito da manhã,


meus ouvidos ameaçavam explodir com aquela mistura
de música eletrônica com Funk, o DJ não se decide,
oras! – Pensei – Não estou mais acostumada com esse
tipo de diversão – Disse baixinho, mas, também, quem
me ouviria com aquele barulho todo? Olhei as pessoas
a minha volta, dançando... Rindo... Namorando...
Felizes... Logo, percebi que eu daria tudo pra estar na
minha casa, ou melhor, deitada na minha cama. O meu
estado de espírito estava influenciando-me tanto que
seria impossível não notar que eu estava sendo uma
péssima companhia para Mary. Eu, literalmente estava
sentindo-me um peixe fora d´água. Primeiro comecei a
colocar defeito na bebida, disse que a cerveja estava
quente, mentira! Mais gelada do que tava, impossível.
Depois... Fiquei irritada com a quantidade de gente que
lotava a pista de dança, o pessoal suado encostando na
gente... Nossa! Aquilo tava me deixando... Em pânico!
Desisti de criticar o lugar...

- Vou lá fora um pouco – Disse – Preciso de um cigarro.

Mary Fez um gesto concordando...

Quando pus os pés para fora daquele lugar senti como


se meu ânimo voltasse em cinquenta por cento, já era
alguma coisa, né? Naquele outro ambiente, a música
era bem mais suave, e sem contar que eu podia ver
através das enormes janelas de vidro toda a praia de
Copacabana, era notável como aquela hora da manhã,
o calçadão ainda estava movimentado, realmente, essa
cidade não dorme mesmo, lembrei-me do Guga neste
momento, essas palavras são dele... Debrucei-me na
sacada... As janelas estavam abertas, e o vento trazia
suavemente aquele cheirinho gostoso de maresia para
perfumar o ambiente...

- Pensei que iria apenas acender um cigarro – Disse


Mary. Parou ao meu lado.
- Fiquei aqui, pensando na vida, até esqueci que queria
fumar – Coloquei a mão no bolso... Não puxei a carteira
de cigarros, na verdade, o cigarro não estava fazendo-
me falta.
- Cris, é melhor irmos embora – Olhou através da
enorme janela que estava a nossa frente – Como você
consegue ficar triste olhando pra tudo isso? – Respirou
fundo, depois foi soltando o ar devagar – Sente o
cheiro disso... Cheiro de vida.
- Eu não estou triste, D. Psicóloga – Inclinei um pouco
o corpo para ficar de frente pra ela.
- Ah! Não? – Segurou minhas mãos – Dá pra ver nos
seus olhos que você gostaria de estar em qualquer
lugar do mundo, desde que uma certa pessoa estivesse
contigo, menos aqui.
- Você pode me receitar um remédio pra tristeza? –
Sorri, um sorriso tímido... Eu estava falando a verdade,
queria um remédio que curasse o que eu estava
sentindo, se ela era médica, de repente podia conhecer
algum, né?
- Tá me pedindo um antidepressivo? - Sorriu – Jamais!
Sabe o que cura tristeza? Alegria, amor! Alegria –
Repetiu animada.

Fiquei parada, olhando-a falar... Não sei explicar o que


aconteceu comigo naquele momento, mas, senti uma
vontade incontrolável de beijar Mary... Podem dizer que
era carência, mas... Sei que Pintou o famoso “clima”,
sabe? Primeiro passei minhas mãos levemente sobre o
seu rosto, livrando-me de uns fios de cabelos que o
vento da praia desalinhava fazendo-os caírem pela sua
boca, depois nossos olhos fixaram um no outro, logo
nossos lábios se encostaram suavemente... Ela não
disse uma só palavra, apenas beijou-me também.
Fomos embora na mesma hora... Quando chegamos
em casa, mal podíamos controlar o desejo que estava
dentro de nós, em segundos nos despimos e estávamos
deitadas na cama, ela em cima de mim, comandando o
ritmo acelerado de desejo que nos envolvia... Nossas
mãos aflitas passeavam pelos nossos corpos... A
respiração ofegante... Sussurros no ouvido, frases
desconexas... De repente... Mary parou de tocar o meu
corpo, levantou-se sorrateiramente e sentou-se a beira
da cama...

- O que foi? – Disse totalmente ignorante ao que estava


acontecendo. Ela fitou-me séria...
- Cris, meu número da sorte é sete, e eu me recuso a
ser chamada de Natasha pela sétima vez – Disse
sarcástica, porém magoada, eu acho.
- Desculpa – Olhei-a sem palavras, e deveras
envergonhada por tal atitude – Isso... Isso... Nunca
aconteceu antes... – Disse. Passei as mãos nos cabelos,
tentando compreender-me, acho que eu não precisava
ir tão longe para compreender que estava pensando em
Natasha enquanto tacava o corpo de Mary, não é?
- Você não está preparada para se envolver com
ninguém - Fitou-me ainda séria – Enquanto não tirar
essa menina da cabeça, não vai ser feliz, e também não
vai fazer ninguém feliz – Levantou-se de sobressalto.
- Me ajuda a esquecê-la – Segurei suas mãos.
Estávamos de pé neste momento, olhos nos olhos...
Gosto muito desse contato, é bom olharmos nos olhos
das pessoas para sentirmos e passarmos confiança...
Tá certo que eu não passaria confiança pra ninguém
tendo em vista os últimos acontecimentos, mas... Tá
valendo.
- Você não é mais criança, e já devia saber que não se
deve pedir isso a ninguém – Apanhou um lençol – Usar
uma pessoa para esquecer outra, só causa sofrimento.
Vou dormir na sala – Tenho que confessar, ela tava
engraçada fingindo-se de indignada. Como eu sei?
Foram anos de convivência, ela levantou os olhos e
franziu a sobrancelha direita quando disse “vou dormir
na sala”.
- Tenho quarto de hóspedes, esqueceu? – Disse quase
esboçando um sorriso. Ah! Eu não agüentava aquela
cara de menina traída que ela fazia, não dava pra
associar Mary com uma pessoa romântica –
Desconsidera esse pedido tão absurdo, e me desculpa
por te envolver nessa minha história complicada.

Mary abraçou-me.

- Fiquei furiosa contigo mesmo – Disse com tom de voz


mais ameno – Tinha que trocar meu nome? – Sorriu
debochada– Podia ter pensado nela, mas... Droga!
Podia ter ficado quietinha, né? Estragou uma ótima
transa - viram? O romantismo se foi.

Nós rimos, logo ela pulou na cama e disse que iria ficar
ali mesmo, mandou eu apagar a luz e deitar do lado
dela. Deitei-me e fiquei olhando pro teto, Mary
abraçou-me e logo dormiu, eu não, fiquei olhando os
desenhos que se formavam no teto devido a luz que
vinha das janelas dos outros prédios que ficavam de
fronte ao meu. Naquele instante senti medo, será que
nunca mais vou conseguir transar com outra mulher
sem pensar em Natasha?

Sábado pela manhã, aproveitei para visitar alguns


apartamentos com Mary, ela queria comprar ou alugar
alguma coisa o mais rápido possível. Mary era uma
mulher muito dinâmica, adorava receber os amigos em
casa para festinhas nos fins de semana, odiava silêncio,
e por isso estava sempre com o som ligado no último
volume... E eu, bem... Eu não estava com clima para
receber amigos, e quando estava em casa, precisava
estudar... Concordam comigo que ouvir música no
último volume, não é nada inspirador? Pelo menos não
pra mim, tira completamente a minha concentração...
Ela também detestava a minha mania de organização
e... Bom... Rodamos a cidade inteira, e minha
amiguinha não gostou de nada, pra ser sincera, eu
achei ótimo ela não ter gostado de nenhum
apartamento, pelo menos a menina ficaria hospedada
em minha casa por mais alguns dias, sua presença me
fazia muito bem, tá certo que era inevitável pensar, ou
sentir saudade de Natasha, mas, minha mente e meu
corpo já estavam se acostumando com essa distância,
iriam fazer dez dias desde a última vez que eu vira a
menina, na verdade eu estava tentando evitá-la
mesmo, podemos dizer que eu estava usando um tipo
de prevenção para não ficar me martirizando, sim!
Encontrar com ela era um martírio pra mim. Por isso,
passei a freqüentar menos a casa dos meus pais, não
mais buscava Amanda na faculdade, e fazia tempo que
não aparecia na casa de Guga, muito menos falava com
ele por telefone, nem esporadicamente, o clima não
favorecia mesmo. Acreditam que mesmo com tantos
cuidados, quase tive uma recaída há dois dias atrás?
Sério! Isso porque minha mãe havia me pedido para
buscar umas compotas de doces que tia Vera, mãe de
Guga, trouxera das Minas Gerais, minha mãe é louca
pelos doces que vem de Minas, ela enlouqueceria se eu
não fosse buscá-los, tão pensando que é só o pão de
queijo que faz sucesso? Que nada, tem que ver o doce
de leite com ameixas... Quando estacionei de fronte a
casa de tia Vera, buzinei duas vezes, ela não demorou
pra vir atender-me, estava no quintal entretida com
seus afazeres no jardim da casa, ela mesma quem fazia
questão de cuidar das Rosas vermelhas e brancas que
enfeitavam a entrada de casa, dizia que era uma
terapia... Soube por ela que Guga estava em casa com
a namorada, minha tia insistiu para que eu entrasse, ia
passar um café, tinha bolo de cenoura... É difícil não
conseguir me comprar com bolo de cenoura, mas, não
estava preparada para ver Natasha de novo, tá certo
que meu coração quase saiu pela boca ao saber que ela
estava lá, nesse momento, até cogitei a possibilidade
de vê-la, mas, acabei dizendo a tia Vera que eu tinha
um compromisso e estava muito atrasada. Ah! Ela tinha
trago pão de queijo também.

Duas horas da tarde, eu e Mary paramos para


almoçarmos em um restaurante que eu frequentava
quase todos os dias quando estava morando com Aline,
o restaurante ficava de frente pra praia de Ipanema,
era arejado e aconchegante, fazia tempo que não
entrava ali, mas hoje, nem percebi que um dia havia
evitado estar naquele lugar. Olha como nós seres
humanos somos inconstantes, há alguns meses atrás
eu não queria se quer frequentar os lugares onde estive
com Aline, hoje, ouvir o nome de Aline, ou freqüentar
os lugares onde estive com ela, não fazem a mínima
diferença, no entanto, não posso nem ouvir o nome de
Natasha, me incomoda até passar perto da casa de
Guga, claro! Foi lá que eu a conheci, esqueceram?
Pensei que tinham esquecido... Bom, o que me
incomoda mais nisso tudo, é que com Aline, eu vivi
longos dois anos, mas, Natasha, eu mal conhecia, não
sabia nada da vida dela, e nunca tive, e nem terei uma
história para viver com ela, a única coisa que esta tem
me causado nos últimos tempos é frustração, no
entanto, a culpa é toda minha, quem mandou me
envolver por uma garota tão diferente de mim? Se eu
tivesse recusado aquela proposta de Guga, quem sabe
eu não a teria esquecido? Tá! Admito que não foi só o
sexo que me prendeu a ela, afinal de contas, antes do
meu primo tarado fazer a proposta, eu já não tirava a
menina da cabeça. Se vocês querem saber, eu poderia
ficar aqui horas e horas tentando achar explicação
para justificar esse sentimento que tomou uma forma
totalmente desconhecida dentro de mim, mas, sei
perfeitamente porque me apaixonei por Natasha, e é
mais simples do que se pode imaginar: “quando olho
nos olhos dela, vejo o que nunca encontrei nos olhos de
ninguém”. E então?Deu pra entender? Se é confuso pra
vocês, imaginem pra mim.

A tarde estava quente como sempre no Rio de Janeiro,


pedimos um chopp bem gelado para brindarmos ao
novo tempo que se iniciaria, palavras de Mary, mas, é
difícil comemorar um novo tempo estando tão
condenada a um passado que teima em se fazer
presente, falo isso literalmente, porque bastou Mary
erguer o copo para ver Natasha e Amanda entrarem no
restaurante, seus cabelos molhados, e a pouca roupa,
denunciava que estavam vindo da praia, logo que nos
avistaram, Amanda acenou com uma das mãos e veio a
nosso encontro, conseqüentemente, Natasha viera
também... Tanto lugar nesse Rio de Janeiro, e elas
tinham que entrar logo naquele restaurante? Que falta
de sorte!

- Oi Cris, tá perdida por Aqui? – Disse Amanda


sorridente.

Levantei-me para cumprimentá-las, gelei só de beijar o


rosto de Natasha, sem contar a agonia de sentir
aquele cheiro gostoso de mar que vinha dos cabelos
dela, um cheiro de sal, misturado com areia. Já
sentiram esse cheiro? É muito bom.

- Só de passagem mesmo – Disse tentando manter a


discrição ao olhar para a amiga de minha irmã. Tarefa
difícil, diga-se de passagem.

Mary também se levantou para cumprimentá-las.

- Oi Amanda, lembra de mim? – Disse simpática.


- Mais ou menos... Você já foi lá em casa algumas
vezes, não é? – Disse tentando se recordar da
fisionomia da menina – Amiga da Cris, certo?
- Quando eu te conheci, alguns anos atrás... Sim –
Sorriu debochada, fitou-me de rabo de olho... – Hoje
sou sua cunhada – Completou sarcástica, ainda teve a
coragem de piscar o olho pra mim. Senti minha face
corar. Ela tinha mesmo que dizer isso?
- Você costumava pegar onda no Recreio, né? – Disse
recordando-se – Corajosa, eu não me arrisco nem no
mar de Copacabana que é super calmo.
- Boa memória... No recreio e na reserva - Sorriu, fitou
Natasha por alguns instantes – Porque vocês não se
sentam com a gente? – Disse cordial.

Olhei-a com reprovação.


- Não queremos incomodar – Disse Amanda –
Desculpe, o seu nome é...
- Pode me chamar de Mary...
- Ah sim! Mary esta é minha amiga Natasha – Depois
da apresentação, as duas agiram como se nunca
tivessem se visto – Ela sim sabe nadar – Disse animada
– Nada desde os cinco anos de idade – Concluiu
orgulhosa.
- Que isso Amanda, ela sendo surfista, deve nadar
muito melhor do que eu – Disse tímida.
- Engano o seu, a prancha de Surf me ajudava
bastante, nado o suficiente para não me afogar - Disse
extrovertida – Então... Agora que todas nos
conhecemos, sentem-se com a gente e vamos almoçar
juntas, tenho certeza que não vão incomodar. Não é,
Cris?
- Claro – Disse quase num sussurro – Ela me paga –
Pensei.

Amanda olhou para Natasha, a mesma deu de ombros,


e logo se sentaram. Para o meu desespero, né? De que
adiantou evitar tanto um encontro com a menina? Será
que esse tal destino existe mesmo? Se existe, tem
como propósito me contrariar, só pode.

- Perdi a fome – Pensei.


Mary e Amanda falavam sem parar, pareciam amigas
de infância, enquanto eu e Natasha, mal conseguíamos
nos olhar, pra ser sincera, ela quem não me olhava,
porque eu, em minha constante impulsividade,
analisava cada gesto dela... Qualquer sinal de sorriso,
ou de aborrecimento quando notava que eu não tirava
os olhos da sua boca, incrível! Eu ficava completamente
excitada só de olhar para a boca da menina, e era
torturante, porque ela estava exatamente de frente
para mim... Foram uma hora e meia de tortura...
Podem imaginar? Então fechem os olhos e ouçam
também o som gostoso que vinha do mar nos
brindando com uma linda trilha sonora, a brisa fresca e
inebriante que desalinhava os nossos cabelos... Parecia
um sopro de Deus... E “ela” o tempo todo diante dos
meus olhos, fascinados de paixão, enlouquecidos de
dúvidas... E rejeitado pelo olhar reprovador que era
lançado a mim... Um olhar, ora vago, ora indiferente...
Ainda não consegui decifrá-lo, só sei que esse
romantismo está acabando comigo.

Deixamos Amanda e Natasha na casa dos meus pais,


minutos depois estávamos exaustas no meu
apartamento.

- Porque pediu pra elas sentarem com a gente? – Disse


aborrecida. Acendi um cigarro.
- Esperou esse tempo todo para me fazer essa
pergunta? – Disse sarcástica – Apaga isso, não combina
com você.
- Tô me esforçando, droga! – Eu estava brava, nem dei
importância ao seu último comentário - Evito vê-la,
ouvi-la... E você, na primeira oportunidade, pede pra
ela se sentar conosco? – Estava quase aos gritos.
- Cris, acorda! Você tem que esquecer sim, mas, pra
saber se esqueceu, precisa estar na presença dela –
Arrancou o cigarro da minha mão e espremeu-o num
cinzeiro qualquer. Não me importei.
- Você estava me testando? – Disse incrédula.
- Estava sim – Concluiu naturalmente.
- E então Doutora, como me sai? – Disse irônica.
- Bom... Analisando o seu comportamento apático
diante da situação... Considerando que você não tocou
na comida, não tirou os olhos dela se quer por um
minuto, não interagiu na conversa... Ah! Aproveitando
a deixa, tomo a liberdade de dizer que eu tive de
esforçar-me sobrenaturalmente para entreter sua irmã,
isso porque eu não achei prudente deixá-la perceber
que você não tirava os olhos da amiga dela... Você está
obcecada, Cris! Se fosse minha paciente, não teria
alta, e mais, indicaria pelo menos, uns dez anos de
análise.
- Nossa! Eu já morri?
- Não, dez anos de análise passam rapidinho – Ligou a
TV – Não pode simplesmente evitá-la, tem que
enfrentar o problema, se não conseguir esquecê-la,
com sorte conseguirá se acostumar com a situação –
Sentou-se no sofá.
- É o que diz para os seus pacientes? – Sentei-me ao
seu lado.
- Não, com eles sou bem mais rígida – Disse séria, logo
um sorriso.

Deitei minha cabeça no seu colo, e dormi com os seus


carinhos nos meus cabelos...

Acabamos dormindo na sala mesmo... TV ligada...


Acordamos com o Sol da manhã batendo na janela. Era
Domingo e eu lembrei-me que teria que almoçar na
casa dos meus pais, antes, iria reunir-me com o grupo
da faculdade para discutirmos sobre o nosso trabalho,
já estávamos atrasados com a matéria, isso porque,
não sabíamos ainda por onde começar, na verdade, eu
nem queria começar... Acho que a covardia de Vitor
havia passado pra mim.
Tomei um banho, já passava das oito da manhã, Mary
voltou a dormir, agora, descansaria na cama, antes,
disse que me encontraria mais tarde na casa dos meus
pais.

A reunião durou pouco mais de duas horas, Vitor nos


apresentou a um menino cujo a mãe se
chamava Teresa e trabalhava como empregada em sua
casa, ela residia com sua família em Vigário Geral, e o
garoto que se chama Luciano, seria o passaporte que
nós precisávamos para começar nossa matéria, ele
prometeu nos apresentar a algumas pessoas que como
ele tinham uma história de vida bem marcante sobre o
foco que buscávamos, o mundo das drogas. Luciano
começou a relatar tudo o que havia vivenciado nesse
mundo tão cruel e aproveitador, disse que fumou seu
primeiro cigarro de maconha aos nove anos de idade na
escola, havia sido presente de um amigo de quatorze
anos, que traficava pelos corredores do colégio, que
presente, hein? Bom... Aos onze anos o garoto já havia
experimentado cocaína e craque, passava as noites
caído em becos da favela, e servia de “aviãozinho” para
os chefes da boca de fumo; aos doze, fazia pequenos
furtos no centro da cidade, e quando não conseguia
dinheiro suficiente para comprar cocaína, cheirava cola
com outros moleques ao redor da Candelária. Fugiu de
casa, passou dois meses longe, quando retornou,
agredia sua própria mãe sempre que ela não tinha
dinheiro para lhe dar, e furtou os poucos
eletrodomésticos que tinha em casa para vender e
comprar mais drogas, só não vendeu a geladeira
porque não teve como carregá-la sozinho. Aos treze
anos, sua vida estava um verdadeiro inferno, já havia
fugido da Febem duas vezes, apanhado de policiais e
também de bandidos... Estava completamente
dominado pelo álcool e pelas drogas, abandonou a
família, e foi morar nas ruas do Rio como mendigo...
Numa certa madrugada, viu seu amigo de rua morrer
de overdose, seu amigo, como ele, era um menino
ainda, tinha onze anos... Naquele instante, sua vida
passou como um filme na sua frente, olhou a seu redor,
e não havia ninguém que pudesse socorrê-los, estava
com roupas sujas e rasgadas, pés descalços e cheio de
feridas, e logo sentiu um cheiro de morte circulando por
entre suas narinas... Adormeceu no colo do amigo
morto, e quando amanheceu, chegou à conclusão de
que precisava de sua família. Teresa teve receio de
receber o filho novamente em sua casa, sentia medo de
suas agressões, no entanto, seu coração de mãe falara
mais alto. Teresa já havia relatado todo o ocorrido com
seu filho para os patrões, os pais de Vitor, que
comovidos com a real vontade que Luciano expressou
de recuperar-se, custearam seu tratamento em uma
clínica de reabilitação. O garoto nos relatou com
lágrimas nos olhos, que em suas crises de
abstinência tinha a impressão de que iria morrer, às
vezes até pensava que havia morrido, e isso, sem
dúvida, o fizera querer fugir inúmeras vezes da clinica
para se drogar, no entanto, nunca o fez, se iria morrer,
morreria tentando se reabilitar, esse pensamento deu-
lhe forças, e hoje, dois anos depois de todo aquele
pesadelo, Luciano ainda sente os danos que as drogas
causaram em seu cérebro, a mais evidente, é a
lentidão para aprender, mas, consegue superar as
dificuldades com a vontade que sente de viver, está
terminando a Quinta série, e participa de uma
companhia de teatro fundada por uma ONG em Vigário
Geral no intuito de afastar os jovens das drogas.

Gravamos os relatos de Luciano e também anotamos os


pontos principais daquele depoimento, já que temos
diante de nós um problema, concordam comigo que
temos que refletir também sobre as soluções? A ONG
em questão era uma delas. Durante todo o seu relato,
um nó se estendera em minha garganta, pensei em
Guga, e logo tive medo que ele traçasse um caminho
semelhante, para a maioria, esse caminho é sem volta,
ainda bem que Luciano enxergou isso a tempo...

Cheguei cedo na casa dos meus pais, Mary ainda não


havia chegado. Como estava sozinha na sala, resolvi
passar a limpo o rascunho do relato que fizemos de
Luciano, e eu ouvi a gravação várias vezes para
transcrever para o papel toda a sua história, e embora
já soubesse tudo o que estava gravado naquela fita, as
palavras do menino teimavam em chocar-me. Estava
tão consumida em meus pensamentos... Nem notei que
alguém havia aberto a porta.

- Oi – Disse quebrando o silêncio.


- Oi – Juntei umas folhas que estavam espalhadas,
quando estou escrevendo alguma coisa, ou até mesmo
estudando, deixo tudo desarrumado, na verdade, o que
para os outros é bagunça, pra mim é organização...
Papeis espalhados numa ordem que eu entendo... São
meus papéis, então... Já entenderam, né?
- Sua mãe disse que Amanda estava aqui – Disse a
menina tímida.
- Cheguei quase agora, ainda não vi aquela chatinha -
Sorri, um sorriso amarelo.
- Bom, ela já deve estar descendo – Olhou em volta –
Posso esperar aqui?
- Claro – Apontei o sofá – É melhor se sentar, se ela
estiver se arrumando, vai demorar.

Natasha sentou-se... Senti um arrepio da ponta dos


pés, até meu último fio de cabelo, logo minhas mãos
começaram a suar, e eu já não consegui concentrar-me
no que estava fazendo. Estranho sentir essas coisas, dá
uma impressão de impotência.

- Tá estudando? – Disse ela quebrando o silêncio.


- Mais ou menos – Comecei a juntar as folhas...
Amassei algumas... O barulho do papel mexido
intercalava com as poucas palavras que nos
limitávamos a dizer.
- Como assim? – Sorriu, um sorriso acolhedor – Está
fingindo que estuda?
- Tenho que fazer uma matéria sobre drogas – Respirei
fundo, mostrei-lhe a fita balancei-a nas mãos – Aqui
tem um depoimento de um garoto de quinze anos que
usava drogas. Isso tá mexendo muito com o meu
emocional.
- Posso ouvir? – Disse num impulso.
- Gostaria mesmo de ouvir? – Fitei-a quase com
gratidão, ela havia se interessado por uma causa
minha, nossa! Isso é... Emocionante. Ei! Não é ironia,
imagine a mulher que você ama se importando com
algo que você está fazendo... Isso não é demais?
- Sim, claro – Sorriu novamente. Já disse que aquele
sorriso ilumina a minha vida?

Sentei-me ao seu lado, fitei seus olhos por alguns


segundos... Apertei o play... Ouvimos aquele
depoimento em silêncio... Stop no gravador.

- O nome dele é Luciano, tinha que ter visto como ele


estava emocionado – Entreguei-me totalmente a paixão
que aquela matéria estava causando dentro de mim.
- Emociona qualquer um ouvir isso – Disse vulnerável –
Como as pessoas entram nessa? Todo mundo sabe que
não vale a pena.
- Não sabia que se importava – Olhei-a com admiração.
- Você não sabe nada de mim – Disse ofendida.
- Daria tudo pra saber – Fitei seus olhos com ternura –
Às vezes eu fecho os olhos, e imagino você me dizendo
tanta coisa, e sua voz é tão... Gostosa – Continuei
impulsiva.

Natasha sorriu, um sorriso no mínimo extravagante.


- Defina voz gostosa, Cris – Disse divertida.
- Hum... – Sorri também, me sentindo uma idiota, é
claro! Eu precisava mesmo ter dito aquilo? “Não tem o
que dizer, fica quieto” lembram dessa frase? Eu
costumava usá-la sempre, não sei o que está
acontecendo comigo agora – Já ligou para o tele-sexo?
– Eu disse mesmo isso? É gente! Para a minha
completa decepção... Eu disse.
- Claro que não – Fitou-me séria – Tá dizendo que
tenho voz dessas garotas de tele-sexo?
- Eu não disse isso - Aproximei-me um pouco mais da
menina, na verdade, perto dela, eu tenho o defeito de
ficar assim... Besta! – Um amigo meu, sempre ligava
para essas centrais, e sempre dizia que a voz das
meninas eram gostosas... Bom... – Continuei
envergonhada - Um dia, eu pedi a ele, que me
definisse voz gostosa, assim como você fez agora
comigo.
- E qual foi à resposta dele? – Disse baixando a guarda.
- Disse que voz gostosa, é aquela que a gente não
cansa de ouvir, e também que nos faz sonhar por
algum motivo, e nos dá a impressão de ouvi-la a todo
momento – Respirei fundo – Sua voz é assim, me faz
sonhar por algum motivo e se quer saber, nunca liguei
para o tele-sexo – Respirei aliviada, que comparação eu
fiz, hein? Senti vergonha de cada palavra que eu disse
a ela.

A menina soltou uma gargalhada, claro! Tinha uma


idiota na sua frente, né? Ela baixou a guarda
completamente naquele instante... Não resisti a sua
face alegre... Passei as mãos levemente no seu rosto...
Fiz o contorno dos seus lábios com os dedos... Quando
dei por mim... Já tinha tomado a sua boca com paixão.

- Tá maluca? – Disse aborrecida, afastando os seus


lábios dos meus por uns instantes...Continuei
indiferente a sua repulsa, abracei-a com o mesmo
desejo que me consome todas as noites desde que há
vi pela primeira vez, beijei-a com total irracionalidade,
sua língua macia se misturava com a minha fazendo
ferver todo o meu corpo, deitei-a no sofá, logo meu
corpo cobriu o dela... - Pára Cris! – Empurrou-me, não
conseguiu mover se quer um centímetro o meu corpo
do dela – Alguém pode chegar – Disse com a voz
sufocada pelos meus beijos.
- Dá pra ouvir se chegar alguém – Continuei beijando
seu pescoço.
- Não acha que você fica animadinha muito rápido? –
Disse, fitou-me com aqueles lindos olhos negros..
Chupou meus lábios com violência.... Depois,
empurrou-me mais forte... Levantou-se de sobressalto.
- O poder de Natasha – Disse quase num sussurro,
recompondo-me do estado de tesão doentio que eu me
encontrava.
- O que? – Disse ajeitando a roupa no corpo.
- Esquece – Disse balançando a cabeça negativamente.
- Cadê sua namorada?
- Cadê o Guga?
- Perguntei primeiro – Disse cruzando os braços,
irritada.
- Deve estar com outra – Disse ainda indiferente.
- O que? – Fitou-me confusa.
- Tô brincando – Disse com sorriso amarelo no canto
dos lábios – Já deve estar chegando por aí – Levantei-
me, respirei fundo, faltava-me o ar... E... Eu ainda
estava com aquela sensação de desejo sufocado no
meio das pernas, sabe? – E o Guga? – Disse.
- O Guga não foi na minha casa ontem. Liguei mais
cedo pra casa dele, D. Vera disse que ele dormiu fora, e
ainda não havia chegado – Concluiu desanimada.
- Ah, sim! – Pensei por uns instantes – Ele deve
aparecer para o almoço.
- Acha que ele vem? – Disse insegura.
- Eu viria se você estivesse me esperando – Disse
novamente num impulso, odeio quando falo as coisas
sem pensar, é tão chato! Você pensa... Diz e depois fica
com cara de idiota tentando justificar as “merdas” que
fala – Quero dizer... Tenho certeza que ele virá, e terá
uma boa explicação para não ter ido na sua casa
ontem, e também... Por ter dormido fora... – Levantei-
me... Passei a mão no cabelo, joguei-os para trás...
- Não precisa defendê-lo...

Bateram na porta, logo Mary entrou... Cumprimentou


Natasha que não conseguiu esconder o desconforto
pela sua chegada. Claro! Eu havia acabado de tentar
estuprá-la – Pensei, e diga-se de passagem, que
pensamento infeliz, hein? Logo Mary deu-me um beijo
no rosto.

- Demorei... Amor – Disse sarcástica.


- Não... Amor – Retribuí seu sarcasmo.

Guga chegou depois do almoço. Ele estava com uma


aparência péssima, barba por fazer, roupas
amassadas... Cheirava a álcool... Percebi que meu
primo discutiu com Natasha na varanda. Depois da
discussão, a menina continuou lá, enquanto Guga veio
para sala onde nós estávamos. Hesitei em ir até ela,
mas, não resisti, era muito mais forte do que eu...
Levantei-me da almofada em que estava sentada e dei
a desculpa de que iria até a cozinha, realmente passei
pela cozinha, dei a volta pela porta dos fundos e sai
novamente na varanda. Ufa! Que trabalheira, mas... É
que... Vê-la triste simplesmente me frustrava. Natasha
estava de pé olhando para a rua. Aproximei-me
devagar, estava tão entretida, não queria assustá-la.

- E... Então? – Disse sentindo-me intrometida – Está


tudo bem?
- Não – Disse inexpressiva.
- Quer... Conversar?
- Não – Continuou inexpressiva.
- Então tá... – Retrocedi alguns passos - Vou... Te
deixar sozinha – Disse com nó na garganta.
- Cris! – Chamou-me antes que eu fechasse a porta.
- Oi – Caminhei novamente até onde ela estava.
Natasha começou a chorar... Não resisti ao ver seus
olhos lacrimejando, tomei-a em meus braços na mesma
hora. Não perguntei nada, apenas deixei-a chorar... Foi
inevitável não sentir raiva de Guga por tê-la feito
sofrer, qualquer que fosse a razão... Suspirei sentindo o
calor do seu corpo esquentar o meu... Fechei os olhos e
acariciei os cabelos dela. Engraçado, ela estava ali, nos
meus braços, chorando pelo meu primo, e meu coração
não parava quieto... Se eu pudesse fazê-lo parar, teria
feito... Qualquer pessoa teria feito, é horrível amar
sozinha, concordam comigo? Que bom! Assim não me
sinto tão só.

Depois que ela enxugou às lágrimas, ofereci-lhe um


copo de água, ela aceitou, logo retornamos à sala.
Todos estavam conversando animadamente quando
chegamos, Guga, Mary, Amanda e Luiz. Nos sentamos
ao lado deles para interagirmos na conversa, embora
não tenhamos tido tanto sucesso, os três estavam mais
interessados nas historias de Mary, do que em nossa
presença, na verdade, tive a impressão de que se nós
saíssemos dali, ninguém perceberia, tive vontade de
chamá-la para irmos a outro lugar, mas tive medo, ou
certeza de que ela não aceitaria. Diante dessa cruel
dúvida, me contentei em ficar olhando-a...

- Cris! Vem cá! – Chamou-me Mary.

Levantei-me e sentei-me ao seu lado.


- Sua namorada é muito show de bola, Cris – Disse
Guga sorrindo animado.
- Eu sei – Mostrei-lhe um sorriso falso – Ela tem um
arsenal de piadas – Disse irônica.
Mary sorriu e aproximou-se para falar no meu ouvido.
- Tinha que ter ficado esse tempo todo lá fora com ela?
– Disse num sussurro, depois sorriu, típico de quem
quer disfarçar alguma coisa.
- Ela não está bem – Disse também sussurrando no seu
ouvido.
- Isso não é problema seu – Continuou falando baixo,
falava e sorria... Como ela conseguia ser tão... Tão...
Teatral?
- Eu sei, é que me importo com ela, oras!
- Não devia, ela não se importa nem um pouco com
você – Sorriu novamente.
- Você é muito cínica, sabia? – Disse ainda no seu
ouvido.
- Obrigada, amor – Disse por entre os dentes - Bom...
Gente! – Continuou ela, logo levantou-se da almofada
em que estava sentada – A conversa está ótima, mais
precisamos ir – Completou.
- Agora? – Fitei-a surpresa.
- Sim, meu... Amor – Seu tom sarcástico era
indescritível – Temos muito que fazer em casa,
esqueceu?

Não lhe respondi, despedi-me de todos furiosa por


estar sendo obrigada a sair dali e deixar Natasha, por
falar nela, dei-lhe um beijo no rosto e aproveitei a
distração dos demais.

- Se precisar de alguma coisa, sabe onde me encontrar


– Disse no seu ouvido.
- Não vou te procurar, Cris – Respirou fundo, senti sua
respiração perto do meu rosto – Mas... Obrigada –
Concluiu olhando-me nos olhos... Quando ela olhava-
me daquele jeito, eu perdia o chão.
- De qualquer forma, vou estar sempre te esperando –
Beijei-lhe o outro lado do rosto – Tchau – Disse.
Alguém viu o meu orgulho passando por aí? Devo ter
comprado-o numa liquidação, podem apostar.

A semana seguiu-se tranqüila, embora estivesse preocupada


com Natasha, sabia que não podia ajudá-la sem que ela
quisesse. Era Sexta-feira, Mary havia saído, mas, deixou um
bilhete sobre a mesa, que dizia: “Cris, estarei com umas
amigas naquela Boate de Copa, caso queira me encontrar...
Bom, sei que não virá mesmo, mas, de qualquer forma, estou
no celular. Beijos, Mary.”

Ela realmente estava certa, eu não iria sair esta noite, já


passava das onze e meia, se bem que isso não quer dizer nada,
as Boates parecem esquentar mesmo a partir da meia noite,
mas... Ah! Dormir faz bem, sabiam? Aproveitei o silêncio em
casa para terminar de ler um livro que eu comecei há algumas
semanas, e ainda não o terminara exatamente pela falta de
momentos a sós como aquele, Mary falava pelos cotovelos e
eu não conseguia me concentrar em nada com alguém falando
sem parar nos meus ouvidos. Banho quente numa cidade
como o Rio não combinava, mas, ajuda a relaxar, de qualquer
forma, sou mesmo uma carioca atípica.

Adormeci antes mesmo de virar a terceira página do livro...


Acordei com o telefone tocando. Abri os olhos sonolenta...
Preguiçosa levantei-me do sofá para atendê-lo...

- Alô! – Disse quase num bocejo.


- Cris... Desculpa te ligar essa hora, mas... Pode vir até aqui? –
Natasha estava aflita do outro lado da linha.
- Aconteceu alguma coisa? – Acho que a sonolência se
despediu rapidinho de mim.
- Sim – Uns segundos de silêncio - O Guga não está nada bem,
pode vir? – Insistiu.
Desliguei o telefone... Coloquei uma calça jeans... Uma
camiseta qualquer que peguei no armário... Tênis nos pés... E
sai... Na verdade, retornei até o meu apartamento, havia
esquecido as chaves do carro... Quando voltei, o elevador
demorava para chegar ao meu andar... Sai correndo pelas
escadas mesmo...

... Cheguei na casa de Natasha em menos de vinte minutos, eu


estava extremamente preocupada com a falta de detalhes a
respeito do que estava acontecendo. A menina não me deu
uma pista se quer do que eu iria encontrar na sua casa... Será
que teve medo que eu não fosse? Não! Ela devia saber que eu
nunca lhe negaria ajuda.

Natasha já estava a minha espera no portão, destrancou-o as


pressas quando viu meu carro estacionando de frente para a
sua casa.

- O que está acontecendo? – Disse antes mesmo de descer do


carro.
- Entra Cris! Eu te mostro – Continuou com poucas palavras,
fiquei apreensiva, qualquer pessoa ficaria, detesto suspense e
ela, bom... Pelo visto parecia gostar bastante, tendo em vista
que não me adiantava nada... Tranquei o carro e entrei...
- Cadê seus pais?
- Estão viajando, só voltam semana que vem – Disse enquanto
empurrava a porta que dava acesso a sala... Mal entramos e já
dava pra ouvir os gritos de Guga, ele estava totalmente fora de
si.
- Tive que trancá-lo no meu quarto – Disse, logo mostrou-me
as mãos trêmulas – Ele chegou bêbado, sei lá...

Guga batia na porta e gritava...


- Isso não é só bebida – Bati na porta do quarto onde ele
estava – Calma cara! Se você ficar calmo, a gente abre a porta
– Disse. Passei a mão nos cabelos, tentando pensar em alguma
coisa pra fazer. Chamar minha tia Vera? Meu pai? Um médico?
A polícia? O exército? Não! Tínhamos que manter a calma, não
acham? Não sei se fiz certo, mas, eu pensei desta forma...
Alarmar as pessoas àquela hora da madrugada não seria legal,
e Guga ficaria com mais raiva ainda de mim, caso expusesse
seu “problema” para sua mãe. Se eu tô errada me desculpem,
mas... Tava ruim pra pensar com aquela gritaria toda no
ouvido. Imaginem um louco espancando uma porta de
madeira e gritando... Poxa! Cada batida na porta era um
estrondo no coração.
- Abre essa droga, agora! – Continuou ele furioso.
- Ele tá dando medo... Cris – Segurou minhas mãos.
- Ele tá drogado – Disse – Vocês brigaram? Ele fez alguma coisa
contigo?
- Ele está esquisito comigo faz tempo, aí a gente brigou hoje
de manhã... Terminamos... Agora de noite, ele chegou nesse
estado – Respirou fundo – Ele não fez nada comigo, acho
que... Porque consegui trancá-lo aí dentro – Disse com tristeza
nos olhos.
- Que merda! – Disse indignada. Guga podia ser tudo, mas
nunca fora de agredir ninguém, pelo contrário, ele fugia de
brigas.

Fomos para a sala... Ele não nos ouvia, acho que nem dava
para nos ouvir. Guga batia tanto na porta... O som sufocava
nossas palavras... Natasha trouxe água.

- Acha mesmo que ele está drogado? – Disse preocupada.


- Infelizmente, está sim – Apontei-lhe a porta do quarto – Uma
pessoa em seu estado normal, não faz isso.

Ficamos em silêncio por quase uma hora, até que os gritos e


os socos na porta cessaram... Natasha destrancou a porta do
quarto... Guga estava deitado no chão. Nossa! Olhando-o
naquele momento, senti até vontade de chorar, estava bem
diferente do cara que eu estava acostumada a ver, parecia
outra pessoa. Colocamos Guga na cama... Voltamos para sala.

- Obrigada por ter vindo – Disse – Eu não sabia a quem


recorrer.
- Me sinto muito culpada por isso estar acontecendo – Disse
desconsolada... Fitei o chão... Lembrei-me do incidente que eu
presenciei na Rocinha, será que não foi o bastante para ele
cair em si novamente? Meu Deus! O que uma pessoa precisa
passar para ter força de vontade e reagir? Sinceramente não
sei, acho que só quem passou ou passa por isso poderá
responder essa pergunta, porque eu... Não sou ninguém para
tentar especular sobre algo que não sinto na pele.
- Por que se sente culpada? – Fez um gesto para nos
sentarmos... Tirou-me dos meus pensamentos.
- Fui negligente com ele, nós já havíamos tido um incidente
bem sério, alguns meses atrás... Eu simplesmente me calei, e a
atitude correta, era ter falado com a minha tia. Quem sabe,
isso não teria sido evitado – Sentei-me.
- A culpa não é sua, ele já é bem grandinho, devia saber se
cuidar melhor – Sentou-se ao meu lado.
- Eu podia ter ajudado... O deixei muito sozinho, depois que...
- Depois que nos conhecemos – Baixou os olhos... Estava
envergonhada.
- É... – Completei hesitante - Muita sacanagem ficar de papo
com o cara, gostando da namorada dele, não acha?
- Não gosto de falar sobre isso – Disse desconfortável.
- E nem é hora – Levantei-me – Bom... Acho que ele vai dormir
direto. Então... Vou pra casa, e se precisar de alguma coisa, me
liga, está bem?
- Já são três horas da manhã, não seria melhor você ficar? –
Levantou-se também... Senti o cheiro do seu perfume vindo
direto nas minhas narinas - Claro, se sua namorada não for
brigar contigo por isso – Concluiu.
- Namorada? – Disse um pouco desnorteada.
- A Mary – Disse – Ela não está te esperando?
- Sim... Não... Quer dizer, ela não está me esperando – Desviei
meu olhar do dela – Ela saiu... Foi... Foi... Sei lá! Acho que está
com alguma amiga por aí.
- Como assim? – Disse e aproximou-se mais um pouco de
mim, senti meu coração se contorcer por dentro... Agora o
cheiro do seu perfume ficara ainda mais em evidência.
- A gente... Brigou, e ela saiu – Disse num impulso. Bom, foi a
primeira coisa que passou pela minha cabeça, né? Estão
pensando que sustentar uma mentira é fácil?
- Terminaram? – Quis saber, fitou-me com os olhos curiosos.
- Não... Quer dizer, não sei – Me perdi completamente no seu
olhar.

Nossa! Senti-me deveras impotente em ter que mentir ainda


mais para ela, na verdade, eu estava vivendo uma grande
mentira, e aprisionei-me nessa farsa a fim de tentar esquecê-
la, e o pior de tudo, é que nada adiantou. Estar diante dela,
fazia meu coração descompassar na mesma proporção que
meus pés ficavam sem chão, e nada impedia as minhas mãos
de suarem frio, nem diante das circunstâncias em que nos
encontrávamos, em nenhum instante consegui olhá-la sem os
olhos da paixão. Engraçado, ela era tão diferente de mim,
porque não nos apaixonamos pelas pessoas que estão mais
acessíveis pra gente? Porque tem que ser tudo tão difícil?
Acho que eu não sou a única a passar por isso...

- Espero que não tenham brigado por eu tê-la chamado aqui –


Disse buscando-me novamente dos meus pensamentos.
- Não... Não se preocupe... Quando... Você ligou, ela já não
estava mais em casa – Disse insegura, porém, essa desculpa
não foi tão falsa, Mary já havia saído quando Natasha ligou,
então... Não me cobrem nada! Só quero me sentir melhor,
oras! Não deu pra perceber?

...Acabei não indo embora, e nós... Não conseguimos dormir,


já amanhecia e ainda estávamos conversando na sala, e
mesmo diante de toda aquela turbulência de acontecimentos,
era maravilhoso estar ao lado dela, ver o seu sorriso, ouvir a
sua voz... Cada gesto, cada expressão... Tudo era
minuciosamente absorvido pelos meus olhos atentos e
maravilhados por estarem diante dela, eu poderia ficar horas e
horas admirando aquela face sem nada dizer... Hei! Sem
piadinhas a respeito do meu “estado de entrega profunda”...
Nossa! Que viagem!

- Tá me ouvindo? – Disse.
- Sim, estou – Ela sempre interrompia meus pensamentos,
viram?
- Cris! – Chamou-me, logo me olhou com aqueles olhos negros
que tanto me provocavam – Posso... Te fazer uma pergunta? –
Disse hesitante.
- Quantas quiser – Respondi de imediato, ela sorriu, um
sorrisinho tímido no canto dos lábios.
- O que você viu em mim? – Agora fitou-me séria, e sem o
suposto sorrisinho no canto dos lábios.

Confesso que aquela pergunta surpreendeu-me.

- Você é maravilhosa – Disse convicta.


- Não, não... Sou chata, ciumenta, cheia de manias... Aposto
que se você convivesse comigo, não iria me agüentar -
Concluiu quase brava.

Deu vontade de rir, na verdade eu acabei rindo. Putz! Foi bem


engraçada a maneira que ela falou, parecia uma criancinha me
olhando e fazendo carinha de emburrada... Que vontade eu
senti de beijá-la... Não o fiz, vontade dá e passa - Pensei. Meu
pai costuma dizer isso, eu também dizia isso... Pena que as
minhas vontades com relação a ela estão demorando tanto
pra passar.

- Não acho você chata, ciúme é qualidade quando não é


doença, manias todos nós temos, e... Conviver com você, é
tudo o que eu mais gostaria de fazer na minha vida – Disse
fitando-a também.
- Você diz isso por que não me conhece muito bem –
Continuou com aquela carinha emburrada. Vocês precisavam
ver que carinha linda era aquela. Nossa! Passaria a vida
inteirinha olhando aquela expressão de enfezada.
- Naty – Aproximei-me... Abandonei qualquer precaução que
pudesse impedir-me de abrir meu coração para ela naquele
instante - Adoraria te conhecer melhor, e quem sabe assim, eu
te provaria que gosto de você de verdade.
- Cris... – Baixou os olhos - Qual foi a maior loucura que fez
por amor?
- Essa – Levantei seu rosto... Beijei-lhe subitamente, e não
houve repulsa de sua parte – É loucura beijar uma mulher que
não quer nada comigo. Acho que a maior loucura que já fiz por
amor, é amar alguém que não me ama – Disse, logo suspirei
enquanto seus olhos não dispersavam dos meus.
- Você não tem como me amar, a gente mal se conhece –
Aqueles olhos negros estavam tão penetrantes... Brilhavam
diferente naquela noite, e a menina estava tão doce,
desarmada...
- É verdade, e é verdade também, que eu mal me conhecia
antes de te conhecer, eu pensei que já tinha sentido tudo
nessa vida, mas, quando você apareceu, me provou que posso
amar muito mais do que já amei – Sorri – Eu até gosto de
sentir as minhas mãos suarem frio quando vejo você, ou
sentir meu coração quase sair pela boca só por ouvir a sua voz
- Fiz uma ligeira pausa - O mundo inteiro fica pequenininho
quando estou perto de você... – Mais uma pausa, suspirei – É...
Realmente, eu não poderia te amar, mal te conheço, não é
mesmo? - Disse irônica, e já com lágrimas nos olhos - Isso
tudo o que eu sinto, não deve ser nada demais, um dia passa.

Queria ter ouvido o que ela tinha a dizer, mas, tem coisas que
são melhores quando não são ditas... Ouvimos o barulho da
porta do quarto da menina, Guga havia acordado, encará-lo
depois de ter dito tanta coisa pra Natasha nesse momento,
seria difícil, como se não bastasse isso, ainda tínhamos que
conversar sobre o que ele andara fazendo ontem a noite.

- Você está bem, cara? – Perguntei-lhe.


- Não preciso de babá – Disse ríspido.
- Tá agindo como criança, acho que precisa sim – Conclui
sarcástica.
- Tá querendo o que comigo, Cris? Até parece que você nunca
bebeu mais do que devia.
- Era só bebida mesmo? – Encarei-o.
- Tá insinuando o que? – Passou a mão pelo cabelo, sinal de
nervosismo – Não tenho que te dar satisfação de nada, a vida
é minha, e eu faço dela o que quiser, e você não tem nada a
ver com isso - Ficou em silêncio por alguns segundo, logo
recomeçou seu discurso – Você tá preocupada comigo
mesmo? Acha mesmo que sou tão idiota que ainda não
percebi que você só está aqui por causa da Natasha?
- Eu tô aqui porque você não estava bem, do contrário, eu
nem teria vindo aqui, estaria em casa dormindo – Respirei
fundo - E se eu não me preocupasse com você, não teria
passado a madrugada inteira acordada com medo de você
fazer uma besteira qualquer.
- Nossa! Deve ter sido um sacrifício enorme ter ficado
acordada olhando pra Natasha, isso se vocês não fizeram
outras coisas... – Completou debochado.
- Gustavo, agora você está me ofendendo – Disse a menina
aborrecida.
- Você não precisava ter chamado ela! – Gritou.
- Você estava descontrolado – Disse perplexa – O que eu podia
fazer? Vocês sempre foram tão amigos.
- Disse bem, fomos – Concluiu amargurado.

Respirei fundo novamente, não podia tirar toda a sua razão,


por mais que eu o amasse como a um irmão, não conseguia
ficar longe de Natasha como deveria, em nenhum momento o
respeitei, e não tinha o direito de cobrar respeito dele nesse
instante.

- Acho que você está sendo muito radical – Disse.


- Radical? Olha dentro da minha cara, e diz que não gosta dela!
– Alterou-se ainda mais.
- Cara, não dá pra conversar contigo hoje – Apanhei a chave do
carro que estava sob a poltrona – Eu vim pra te ajudar, tenho
certeza que você voltou a se drogar, e isso só vai estragar a
sua vida, mas, não se pode ajudar alguém, sem que esse
alguém queira ser ajudado.
- Você não respondeu a minha pergunta! – Continuou bravo.
- Que pergunta? Você não perguntou nada pra mim, você
afirmou – Disse impaciente.
- Queria estar errado, para poder confiar em você novamente
– Seu olhar decepcionado queimou-me por dentro.
- Eu quero o seu bem, mesmo que você não acredite
nisso... Não estrague a sua vida enchendo a cara todos os dias
como você tem feito, e ficar se drogando, pra fazer o que você
fez ontem...
- Sem sermão, tá legal? A sua moral tá baixinha comigo.
- Beleza então! Faz o que você achar melhor – Pensei por um
instante – Só mais uma coisa, toma um banho, você tá horrível
– Disse.

Não despedi-me dele, dei as costas e sai. Natasha


acompanhou-me até o carro. Abri a porta.

- Obrigada por ter vindo – Disse.


- Você já disse isso – Eu estava impaciente.

A menina sorriu, o sorriso mais lindo que eu já vi em toda


minha vida. Pronto! Ela me desarmou novamente... Não dava
pra continuar aborrecida diante daquele sorriso.

- Cris, pelo clima que ficou lá dentro... Bom... Vai ficar mais
complicado de nos vermos, né? – Continuou constrangida
- Nós brigamos ontem, e ele... Disse que não quer que eu te
veja mais, quer que eu evite ir na casa dos seus pais... E...
Deletou do meu celular os seus telefones... Sorte que eu já
tinha gravado o número da sua casa, pra uma emergência,
sabe? – Disse receosa. Olhei-a por alguns instantes, agora
quase sem palavras sem palavras.
- Eu nunca serei uma ameaça pra ele – Disse indignada - Na
verdade, ninguém será... O mundo inteiro pode amar você,
mas se você não amar o mundo inteiro, de que vai adiantar? –
Encostei a porta do carro – Você é linda, Naty! As pessoas vão
sempre se interessar por você, seja no shopping, na rua, na
faculdade... E se você se interessar por uma dessas pessoas, aí
sim o seu possessivo namorado corre um grande risco, e de
que adiantará tantas proibições se isso acontecer? – Balancei a
cabeça negativamente – Ele é um idiota mesmo – Disse.
- Se você estivesse no meu lugar, e a sua namorada... Te
pedisse isso... Pra salvar o relacionamento, sabe?
- No meu caso, não iria adiantar me afastar de você... – Pensei
por uns instantes, balancei a cabeça negativamente - Não dá
pra tirar da cabeça o que tá no coração, Naty! – Dei-lhe um
beijo no rosto – Tchau – Disse.
- Tchau – Sussurrou no meu ouvido. Entrei no carro e sai... Não
olhei pelo retrovisor, havia muitas lágrimas embaçando os
meus olhos.
....Cheguei em casa atordoada, Mary logo acordou com o
barulho da porta.

- Onde você estava, Cris? – Disse preocupada – Que cara é


essa?

Eu estava literalmente perdida, o mundo parecia estar sob


minhas costas, por todo caminho até minha casa, havia
pensado varias vezes em uma solução para tantos problemas
em minha vida, e vi, que enquanto eu não esquecesse
Natasha, eu não conseguiria olhar para frente, e ver a luz...
Nossa! Que pensamento... Brega! “ver a luz”? Podem
desconsiderar isso, por favor? Bom... O que sinto pela Natasha
é muito mais forte do que qualquer sentimento que
experimentei até hoje... Conclui que precisava de ajuda
urgente.

Mary não precisou ouvir uma só palavra para saber o que eu


queria dela, logo beijou-me com paixão, e naturalmente o
desejo foi tomando conta de nós duas... Friccionei-a na
parede da sala, despi-a rapidamente, ela continuou de pé,
ajoelhei-me diante do seu corpo nu, afastei suas pernas, Mary
colocou sua perna direita sob meu ombro, e eu fiquei bem
embaixo dela, chupei-a até que ela gozasse na minha boca. Já
no quarto... Enquanto seu corpo suado roçava no meu, minhas
mãos deslizavam pelas suas costas, acariciando-a por
completo... Seus lábios e seu hálito quente encostavam no
meu pescoço, arrepiando-me inteirinha, arrepiava ainda mais
quando ela sussurrava baixinho no meu ouvido, mordia minha
orelha e aumentava o movimento do seu corpo sobre o meu...
Ela desceu pelo meu corpo, depois senti sua língua tocar o
meu sexo com muita vontade... Não resisti e gemi alto, logo
ela penetrou-me... Seus dedos dentro de mim, mexia tão
gostoso que eu gozei várias vezes na sua mão. Ficamos horas
trepando sem parar. Era só desejo... Loucura... Passa tempo...
Essa última palavra que me assusta... Mary era o tipo de
mulher “perfeita” no entanto... Deixa pra lá... Acendi um
cigarro, logo joguei-o fora.

- Acho que vou parar de fumar – Disse.


- Faz muito bem, vai se sentir melhor – Mary abraçou-me –
Você pensou nela?
- Quero esquecê-la de uma vez por todas – Disse magoada.
- Passou a noite com ela? – Disse insistente.
- Não como eu gostaria, já que quer saber a verdade – Peguei
o controle remoto que estava ao lado da cama... Liguei o som,
na rádio tocava uma música que me fazia lembrar de Natasha,
doía tanto que eu desliguei-o imediatamente - O Guga chegou
de madrugada na casa dela, estava drogado e ela ligou pra
mim, a menina não sabia o que fazer.
- Não sabia que seu primo usava drogas – Disse surpresa.
- Descobri a pouco tempo também, uma vez fui buscar o otário
dentro da favela.
- Nossa! Então a coisa é séria mesmo – Pensou por uns
instantes – Todos os casos que tratei, de pessoas drogadas,
geralmente tinham tendência a serem depressivas, e a maioria
delas, sempre jovens que começava a usar drogas, por
curiosidade, ou para serem melhores do que eram... Aquela
mania de ser o “tal” da escola, sabe? Perder a timidez também
era uma desculpa bastante usada – Encostou seu corpo ainda
mais no meu, jogou sua perna encima da minha.
- Poxa! O cara tem tudo, uma família que gosta dele, é boa
pessoa, tem uma aparência super descolada, não falta mulher
pra ele... Situação financeira legal... Não consigo entender o
que levou o Guga para esse caminho – Disse indignada.
- Primeira opção, curiosidade! – Disse – Todos se acham super-
heróis inabaláveis, já ouvi muita historinha, como: Quando eu
quiser parar eu paro... É só maconha... Meus amigos usam e
nunca fez mal a eles... Uso para perder a timidez... E varias
outras desculpas, as pessoas quando enxergam, já estão no
fundo do poço.
- Pensei que naquele dia na favela, ele estivesse no fundo do
poço.
- O que aconteceu lá?
- Não gosto de falar sobre isso – Despistei lembrando-me que
havia prometido para Guga jamais comentar os detalhes
daquele dia de terror. Esse seria o nosso segredo para sempre,
lembram?
- Mas... O que te motivou a querer esquecer a Natasha a
qualquer custo?
- Hoje de manhã, ela me disse que o Guga pediu a ela que não
me vice mais...
- E?
- Eu senti que ela queria se afastar de mim, ainda mais...
Deixar de ir na minha mãe, para não correr o risco de nos
encontrarmos, riscar o meu telefone da agenda... Entende?
- E isso magoou você.
- Se ele tem esse poder sobre ela, magoa sim. Putz! Não
consigo mesmo entendê-la, quando estamos juntas, sempre
acontece alguma coisa, mesmo que seja só um beijo... Como
ela pode ter tanta certeza que não gosta de mim? – Continuei
confusa – Eu quero mesmo esquecê-la, preciso tocar a minha
vida, independente da dela.
- Acha mesmo que está pronta para esquecer essa menina?
- Eu quero esquecê-la, isso não basta?
- Já disse isso pro seu coração, Cris?
- Poxa! A gente teve uma manhã ótima, ainda duvida das
minhas intenções?
- Você tem razão, a nossa manhã foi maravilhosa, mas, não é
por isso que eu vou me envolver nessa maluquice de te fazer
esquecer alguém – Sorriu sarcástica – Tá louca, Cris? Meu
vasto conhecimento nessa área sentimental, me ensinou que
sempre sai perdendo quem tenta ajudar, mas, nós podemos
ficar nessa mais um pouco.
- Tá me dispensando Doutora?
- Mais ou menos – Sorriu – Depois de hoje a noite, eu vejo
como ficará a nossa história, me convença, Cris! – Disse
extrovertida – Quero ver se tem argumentos – Beijou-me...

Um novo recomeço

Sábado à noite eu e Mary fomos dar uma volta na praia,


estava calor, e a cidade estava repleta de turistas, é bom ver
tantas pessoas diferentes ocupando o mesmo local.
Copacabana tem uma energia diferente, por isso muitos
turistas costumam dizer, que vir ao Rio e não conhecer Copa, é
o mesmo que nunca ter estado aqui... Bom, a quem interessar
o meu estado de espírito naquele momento: O barulho do mar
silenciava as batidas do meu coração, e durante todo o tempo
que estive com Mary, senti-me em paz, como se uma força
maior me permitisse naquele instante, horas sem a maçante
agonia das lembranças de Natasha, até pensei nela, lembrei
dos seus lábios, da sua pele, dos seus olhos que tanto me
seduzem... Do seu sorriso, no entanto, lembrei-me dela com
uma saudade quase que contida, e eu sabia que amar uma
mulher como ela seria como atirar-me na escuridão, afinal de
contas, não se pode pedir a alguém mais do que se pode ter,
concordam comigo? E também, tê-la ao meu lado seria como
ganhar um presente de Deus, mas, acho que Deus não me
daria um presente tão caro, e digo mais, se por algum motivo
ele a colocou no meu destino, pronto! Estou eu falando no “tal
destino” novamente... Bom... Certamente não foi para fazer-
me feliz como eu gostaria, do contrário, não teria essa
distância toda entre nós, nossas diferenças não seriam tão
gritantes... No mínimo ela sentiria algum afeto por mim, e
também, seu coração não estaria tão comprometido como
está. Ufa! Querem mais algum empecilho? Eu tenho mais um,
Guga precisava dela ao seu lado, e eu estava sendo deveras
egoísta tentando roubar... Ai que palavra horrível! Também
acham, não é? Então... Vamos substituí-la por: “tirar a
namorada dele”... Não mudou muito o sentido, mas, as minhas
intenções foram as melhores possíveis, igual aquelas que o
inferno está cheio. Caraça! Que humor é esse?

Paramos em um quiosque para bebermos alguma coisa, Mary


pediu uma cerveja, e apesar de não estar com tanta vontade
de beber naquela noite, resolvi acompanhá-la.

- Tá tão pensativa hoje – Disse, segurou minhas mãos.


- Há muito tempo não me sentia tão bem, Mary – Sorri pra
ela... Retribui o carinho acariciando o seu rosto.
- Você está bem, porque a outra não está por perto – Disse
debochada. Ela gosta de me provocar mesmo, viram? Tinha
que tocar nesse assunto?
- Por que você torna tudo mais difícil? – Disse quase que
indignada.
- Um sentimento não se dissipa da noite para o dia – Tomou
um gole da cerveja – Não se engane, acha que eu quero me
enganar? Desista dessa idéia de tentar me enganar,
desembucha! Como está se sentindo?
- Eu estou em paz – Disse, logo fiquei pensativa... O bom de
estar apenas “ficando” com Mary, é que eu não precisava
mentir, ela era uma mulher muito bem resolvida, e não
alimentava ilusões a meu respeito - Até pensei nela, mas, não
como alguém que eu quero ter na minha vida, a vejo hoje,
digo, nesse instante pelo menos... Como alguém que eu quero
esquecer, e o que é mais engraçado, é que eu quero esquecer,
alguém que eu nunca tive – Sorri, aquele famoso sorriso
amarelo no canto da boca...
- Sabe, Cris... Acho mesmo que você quer esquecer essa
menina, mas, acho também que você está se enganando um
pouco... – Ajeitou-se na cadeira, tomou mais um pouco da
cerveja... - Se a Natasha aparecesse aqui agora, bastaria um
sorriso dela pra você mudar de idéia, e começar a idealizar
tudo de novo, e sabe por quê? Porque todo ser humano é
movido por esperança, e qualquer mínimo detalhe... Bom, por
isso ela pode ter optado por se afastar... Quer ver? – Sorriu
pelo canto da boca, eu sabia que vinha bomba, aquele
sorrisinho sarcástico era indescritível - Se a Natasha... Bom, se
ela chegasse aqui agora, e... Simplesmente disser que sente
saudade de você?

Eu sorri, mas, continuei calada imaginando essa possibilidade.


É muito bom sonhar as vezes, não é?

- Pronto! Nem precisa responder, Cris! Já se entregou – Sorriu


animada - Mesmo que a menina fale isso sem nenhuma
intenção de te dar alguma esperança, seu coração vai absorver
de outra forma...
- Acha que eu nunca vou esquecê-la, não é mesmo? – Fitei-a
séria.
- Eu não disse isso, estou tentando te dizer que você tem que
relaxar mais, deixar as coisas acontecerem, porque, se todos
os dias você impuser que tem de esquecê-la, e colocar esse
desejo a frente de tudo na sua vida... Concorda comigo que
estará apenas se enganado e procurando uma forma covarde
de pensar nela?
- Droga! Se eu não tivesse conhecido a Natasha, nada disso
estaria acontecendo comigo – Balancei a cabeça indignada.
- Se você não tivesse conhecido a Natasha, você não saberia a
grandeza de um amor incondicional – Sorriu, um sorriso
acolhedor – Amar quem nos ama é fácil, amar quem não nos
ama é uma tarefa árdua e requer compreensão, e paciência.
Um dia saberá conviver com isso, mesmo que demore uns cem
anos – Sorriu... Agora debochada. Ela não tem jeito mesmo.
- Obrigada pelo incentivo, Doutora.
- De nada – Disse irônica.
... Domingo de manhã, Luiz foi até a minha casa para
conversarmos. Tomamos o café da manhã juntos, como a
muito tempo não fazíamos. Engraçado como as coisas mudam
na vida da gente, antes de ir para o trabalho, fazia parte da
minha rotina ir até a casa dos meus pais para tomarmos o café
da manhã juntos, mas, hoje em dia, tudo na minha vida se
tornou tão difícil, ou desinteressante, sei lá, entende?! Esqueci
de como era bom ter a presença de Luiz perto de mim.

- Esse tempo está engraçado, ontem fez um Sol tão lindo –


Olhei pela janela – Hoje tá chovendo e fazendo frio – Suspirei,
afinal de contas, dias assim é muito bom para namorar, mas...
E a Mary, né? Li os pensamentos de vocês. Ela é mais minha
amiga do que qualquer outra coisa.
- Bom pra assistir um filme bem romântico – Disse Mary.
- Opa! Ela também lê pensamentos – Pensei e sorri – Concordo
– Disse.
- Vocês estão namorando mesmo? – Fitou-nos confuso.
- Estamos ficando – Continuou ela perspicaz – O seguro
morreu de velho Luiz, sua irmã não pode namorar com
ninguém agora, ainda está muito doente – Disse sarcástica.
- Desde quando gostar de alguém é doença? – Sentei-me ao
seu lado no sofá.
- Desde que não te faça bem – Virou-se de frente pra mim...
Sorriu – Eu é que não me arrisco a embarcar na sua.
- Beleza! Se tá me usando, né? Espertinha! - Sorri também –
Fica comigo quando dá vontade, sai com outras de vez em
quando...
- E o bom disso, é que você também pode sair com quem
quiser, quando der vontade – Ajeitou-se novamente no sofá,
agora ela podia fitar Luiz também que estava de fronte para
nós.
- Acho que estou sozinho até hoje, porque sou meio careta pra
essas coisas – Disse Luiz – Não conseguiria dividir minha
namorada com outros caras.
- Mas Luiz, aqui ninguém divide ninguém... – Continuou
persuasiva e extrovertida como sempre – Nós só estamos
ficando, sua irmã está apaixonada por outra, e eu, bom... Eu
não estou apaixonada por ninguém.
- Ainda assim, é complicado para mim. Vocês moram na
mesma casa, não vai rolar ciúme quando saírem com outras
pessoas? – Disse incrédulo.
- Não! – Fitou-me novamente – Concorda?
- Concordo. Somos adultas, e não temos mais aquele
sentimento de posse da adolescência, além de que, Mary é
muito racional, ela decide tudo – Sorrimos – Se ela diz que não
tem nada demais ficarmos com outras mulheres, pode apostar
que não tem mesmo – Concluí animada.
- A menos que nos amassemos – Completou ela – Ai a coisa
muda completamente.
- Às vezes, te acho tão fria – Encarei-a - Chego a duvidar que
você seja capaz de amar alguém, como eu amo a...
- Fala Cris! – Continuou ela – Amar alguém como você ama a
Natasha? Tomara que eu seja bem insensível mesmo, desde
que cheguei ao Rio, só te vejo sofrendo por causa dessa
garota.
- Sei não, mas... Essa discussão de vocês, tá parecendo
briguinha de namorados – Disse Luiz.
- Que nada cunhado – Sorriu extrovertida, aquele era um dos
seus melhores sorrisos – Sua irmã age muito com o coração, e
esquece, que no mundo em que vivemos, sofre menos quem
age com a razão... Eu por exemplo, sou totalmente movida
pela minha razão, aproveito o que tenho que aproveitar, sem
lamentações, é claro. Acho muito triste ficar remoendo pelos
cantos o que deixamos de fazer, ou o que fizemos e não
deveríamos ter feito, depois, a vida passa e a gente não fez
nada.
- Isso é psicologia? - Perguntei-lhe.
- Não, se eu fosse viver de acordo com a minha profissão, não
faria metade das coisas que eu faço. Isso é relaxar, e viver –
Fitou-me com aquela cara de quem sabe das coisas.
- Preciso de um pouco da sua filosofia de vida Mary – Disse
Luiz – Minha vida tá um tédio só – Suspirou - Tô sem
namorada, minha rotina se resume a trabalhar e estudar, mas
nada.
- Cara, cadê os amigos? – Disse ela.
- Os carinhas da faculdade estão todos namorando, e os do
trabalho, são velhos e casados – Balançou a cabeça
negativamente – Tô abandonado – Disse dramático.
- Meu Deus! Onde estão as mulheres hetero desse Rio de
Janeiro? – Disse abismada.
- Ele tá reclamando à toa – Disse enquanto jogava uma
almofada no colo dele – Tem uma menina na faculdade que dá
molinho pra ele, mas, o cara não dá a mínima pra ela.
- A garota não serve nem para ficante Luiz? – Colocou a mão
na cabeça, logo sorriu. Deve ter sorrido do seu comentário,
não acham? Que insensibilidade, oras!
- Não é isso Mary, ela é legal, mas é minha amiga, entende?
Sei lá, com amiga não rola – Disse desanimado.
- Nossa! Se eu pensasse como você, não tinha dormido com a
sua irmã – Sorriu olhando pra cara envergonhada dele.
- Agora eu concordo com essa psicologazinha desmiolada –
Sorri também – Relaxa Luiz! Porque não dá uma chance pra
menina? Ela pode ser o amor da sua vida e você não sabe –
Concluí animada.
- Tá brincando, Cris! Um grande amor, a gente bate o olho e já
sabe que é – Pensou por uns segundos – Vai dizer que quando
olhou pra Natasha não sentiu isso?
Fiquei quieta por alguns segundos, acho que estava revivendo
o instante que olhei pra ela.
- É verdade – Disse melancólica, engraçado, essa palavra
“melancólica” me fez lembrar uma menina que conheci no
segundo grau, ela dividia seu estado de espírito por
momentos, uma vez ouvi-a dizer que estava no seu “momento
melancolia”, será que é esse o meu momento? Esquece! –
Quando eu olhei pra Natasha pela primeira vez, senti meu
coração esmagado no peito, como se nenhuma outra mulher
fosse tão perfeita quanto ela – Disse, logo tentei voltar para o
meu mundo real, pensar em Natasha era como aprisionar-me
em um mundo de sonhos.
- É disso que eu estou falando – Disse entusiasmado – Não
quero morrer sem sentir isso.
- Tomara que quando você sentir isso por alguém, tenha mais
sorte do que eu, e seja recíproco – Disse com tom de voz
magoado porém sincero. – E aquela menina do segundo
Grau? Será que conseguiu ser feliz com a professora? Que
besteira pensar nisso agora, não é? Claro que sim, quem tem
coragem vive um grande amor – Pensei.
- Bom crianças – Disse Mary – O papo tá legal, mas, eu vou na
rua aproveitar o dia.
- Tá chovendo! – Disse e apontei a janela.
- Fala sério, Cris! Desde quando chuva me prende? – Levantou-
se.
- Vai pra onde? – Disse curiosa.
- Vou ao shopping ver vitrines, depois vou ao cinema ver um
filme bem legal.
- E nem vai me convidar?
- Tá chovendo, Cris!
- Fala sério, Mary! Desde quando chuva me prende? – Disse
sarcástica.
Nós rimos.
- Vem com a gente cunhado? Quem sabe não dá de cara com a
mulher da sua vida, afinal de contas... Quando a gente menos
espera... É que acontece – Disse enquanto caminhava até a
janela para examinar melhor o tempo. Ela é boa nisso. Se
estivesse ameaçando a fazer Sol, ela sairia, e... Se o tempo
estivesse muito cinza, sabe quando você vê que vai cair um
dilúvio?Bom... Ela sairia também.
- O convite é tentador, mas... Tenho que passar na casa do
Guga. Fiquei sabendo que ele se envolveu numa briga e tá
todo quebrado em casa – Disse tímido.
- Sério? Por que não me contou antes? – Fitei-o indignada.
- Na verdade, achei que... Que você não ia gostar de saber...
Bom, a Natasha tá lá com ele desde ontem, e como você quer
esquecê-la, pensei que não iria querer visitá-lo... Entende? –
Disse hesitante.
- Não, não entendo! – Disse aborrecida – Poxa, Luiz! Eu gosto
do cara, claro que quero vê-lo, saber como está – Respirei
fundo - E... Se ela vai estar lá, não me importa mais.
- Desculpa Cris! Você mesma disse que para esquecê-la, teria
que evitá-la – Disse Luiz.
- Eu disse, mas, acho que esse não é o caminho.
- Agora sim tá falando como adulto – Disse Mary debochada,
aplaudindo-me para provocar-me – Até vou contigo, não perco
essa cena por nada desse mundo – Disse sorridente.
- Vai Mary! Pisa mais! – Concluí aborrecida – Acha que não
consigo vê-la e ficar na minha, não é? Pois vou provar que
consigo.
- Me surpreenda então, Cris! Mostre que estou errada e que
você não vai ficar toda derretidinha quando vê-la.

Havia um tom desafiador na voz de Mary, e eu, nunca fui boa


em desafios, no entanto, nunca fugi de nenhum, questão de
honra, entendem? E também, Natasha não podia dominar-me
daquela forma, como se minha felicidade dependesse de um
sorriso dela, uma palavra de carinho... Um olhar, um gesto...
Isso tinha que mudar, e iria mudar, eu acho. Insegura? Vocês
nem imaginam quanto.

Chegamos na casa de Guga quase uma hora depois da


conversa que tivemos. Minha tia ficou feliz ao nos ver, já
Guga... Nem tanto. Continuava indiferente e arredio comigo,
mas... Isso vocês já tinham imaginado. Aposto! Natasha não
estava no quarto com ele, isso aliviou minha ansiedade, pude
respirar aliviada. Nossa que drama! Era só uma menina, oras!
Seria mesmo, mas era a menina que eu amo, e isso é muito
injusto, não acham? Nós deveríamos ter um dispositivo dentro
do coração que nos permitisse deixar de gostar das pessoas
que não gostam da gente, seria tão bom! E esse mesmo
dispositivo poderia também nos fazer gostar daquelas que se
encaixam no nosso perfil, não seria fantástico? Bom... Acho
que vocês deviam parar de dar ouvidos as besteiras que eu
digo... Aproximei-me de Guga que estava deitado na cama...

- Ei! Aprontou o que desta vez? – Disse tentando projetar na


minha face um sorriso não muito amarelo.
- Briguei com uns caras aí – Disse amargurado – Não gosto de
me envolver em brigas... Mas... Só que me pegaram na
covardia, eram três.
- Machucaram legal, hein? – Disse olhando o rosto dele todo
ralado.
- Vai ter volta, eles podem esperar – Disse com os olhos
vermelhos de raiva.
- Deixa isso quieto! Vai arrumar mais encrenca, a troco de
que? – Concluí.
- Ninguém mexe com a minha namorada e sai ileso – Disse
quase furioso.
Fitei-o séria.
- Então, fica bom logo, e corre atrás do seu prejú... Se é que
vale a pena.
Mary percebeu que não nos olhávamos com cordialidade.
- Primo! Ce, hein? Tá sexy com essa tipóia no braço, hein? –
Disse extrovertida.
Minha tia entrou no quarto.
- Crianças – Disse – Vê se vocês conseguem colocar um pouco
de juízo na cabeça desse desmiolado, outro dia chegou
carregado em casa, de tão bêbado, ontem meteu-se nessa
briga e está nesse estado, amanhã, só Deus mesmo para
protegê-lo.
- Não exagera, mãe! – Repreendeu-a aborrecido.
Puxei minha tia num canto, Mary ficou prestando atenção na
nossa conversa.
- Tia! Tô com dor de cabeça, a senhora tem remédio? – Disse.
- Tenho sim, Cris! Está doente? – Balancei a cabeça dizendo
que não estava, e mesmo assim ela colocou a mão na minha
testa para ver se eu estava febril, tia Vera era sempre
cuidadosa com todo mundo – Não está com febre...A Natasha
tá na cozinha, ela pega pra você – Concluiu.
Mary chamou-me.
- Vê se segura a sua onda, tá? – Disse no meu ouvido.
- Fofoqueira! – Disse sorrindo - Tá tranqüilo – Concluí
demonstrando confiança.

Tranqüilo que nada, o coração quase saiu pela boca só de


olhar pra ela. Natasha estava cortando tomates na beira da
pia.

- Oi - Disse aproximando-me.
- Oi, Cris – Continuou de cabeça baixa cortando os tomates
provavelmente para salada.
- Minha tia disse que você sabe onde tem remédio pra dor de
cabeça – Aspirei o cheiro bom que vinha dos seus cabelos.

Continuou muda, lavou as mãos na pia, secou-as,


logo apanhou uma caixa encima do armário... Retirou um
comprimido e deu-me... Depois ela simplesmente voltou até a
pia e continuou cortando os tomates... Achei-a estranha, sabe,
quando a pessoa só responde o que você pergunta? Isso
acontece quando nossos pensamentos estão longe... Ela não
olhava pra mim, isso não é irritante?

- Você tá legal? – Toquei seu ombro, ela virou-se... Não olhou-


me nos olhos.
- Tô! – Disse fria - Só não estou afim de falar com ninguém
hoje – Concluiu... Aborrecida? Meu julgamento foi aborrecida.
- Que bicho te mordeu, hein menina? – Disse magoada.
- Mas que coisa! Será que nunca quis ficar sozinha, sem falar
com ninguém? – Fitou-me por alguns instantes – Sou sincera,
Cris... Quando não quero falar com alguém eu digo, tá?
- Tá certo! Muitas vezes também gosto de ficar sozinha, mas,
nunca disse isso a ninguém desse jeito... Existem mil formas de
se falar alguma coisa pra alguém, sem precisar faltar com a
verdade – Disse ainda magoada – Mas, isso você só vai
aprender com o tempo.
- Desculpa então, da próxima vez eu fico calada – Disse com
deboche.
- Precisa não, tchau.

Dei-lhe as costas... Ela nem respondeu ao meu “tchau”.Além


de estúpida é mal educada. Mais uma vez, bem feito pra mim!
Engoli o comprimido a seco, logo voltei ao quarto de Guga
pisando forte. Engraçado, quando amamos alguém de
verdade, ficamos tão vulneráveis que qualquer coisa dita,
pode nós levar ao céu, mas também, ao inferno com a mesma
velocidade, nem sei se havia tom de grosseria nas suas
palavras, mas, esperamos tanto da pessoa amada, que
perdemos o senso para distinguir qualquer coisa. Eu queria ter
conversado com ela, saber o que a tinha deixado tão calada, e
aflita... Sim! Ela não encarou-me em nenhum instante, talvez
por saber que se me olhasse, eu veria nos seus olhos alguma
resposta para a sua falta de assunto... O que será que o Guga
aprontou com ela? Bom... De qualquer forma, acho que dei
mais importância ao assunto do que ele merecia. Odeio meu
sentimentalismo.

- Tomou o remédio, Cris? – Perguntou-me minha tia.


- Sim – Disse – Minha dor de cabeça parece que aumentou –
Pensei.
- Bom, o almoço está quase pronto, e gostaria muito que vocês
ficassem – Disse minha tia cordial
- Eu não vou poder ficar – Disse enquanto pensava em uma
desculpa.
- Que é isso, Cris? – Olhou-me desaprovando a minha recusa –
Vocês nunca vêm aqui em casa, e quando aparecem estão
sempre com pressa. Fica só para o almoço, depois deixo você
ir, prometo – Sorriu, seu sorriso lembrava o do meu pai - Vai
ser bom para o seu primo ter a companhia das pessoas que ele
tanto gosta.
- Gostava – Pensei.
- Eu vou ficar – Disse Luiz.

Olhei para Guga, o mesmo parecia não se importar com a


minha permanência em sua casa, ele deu de ombros e desviou
o olhar para a TV que estava ligada.

- Podemos ir ao shopping mais tarde – Disse Mary acabando


com a desculpa que eu iria dar naquele instante.
- Então tá – Disse desconfortável.
- Ótimo! – Completou minha tia satisfeita.

Antes de sair do quarto... Fiz um gesto para que Guga


permanecesse mais um pouco, queria tentar uma
reaproximação, não sei se seria a hora certa, mas... O que vale
é a tentativa, não é?

- Tô com fome, fala logo – Disse ríspido.


- O que aconteceu com a gente? – Fitei-o com tristeza nos
olhos, eu amava o meu primo, isso era inegável.
- O que aconteceu contigo, né Cris? - Encostou a porta – Você
nunca tinha se interessado antes por nenhuma namorada
minha. Maior judiaria a sua – Disse com rancor.
- Você tá falando besteira – Desviei o olhar.
- Que besteira?! Admite logo que gosta da Natasha, pronto!
Vai estar sendo sincera contigo também.
- Você brigou por quê? Estava drogado? – Desconversei.
- Não tava, não! Só tinha bebido um pouco – Olhou-me já na
defensiva – Nós estávamos na Lapa, naqueles bares, sabe?
- Sei. Nós íamos lá quase toda semana – Sorri ao resgatar
aquela lembrança.
- Ontem, tinha uns carinhas cheios de marra – Pensou um
pouco – Minha namorada é a maior gata, e eles começaram a
falar gracinhas pra ela, fiquei nervoso, e parti pra cima deles
com tudo, levei a pior porque eram três, e um deles era
sobrinho do segurança do bar, por isso, os seguranças
demoraram pra acabar com a briga.
- Se eu fosse você, eu teria ido embora com ela, tantos lugares
legais...
- É, mas, ninguém pensa igual, a namorada também não é sua,
e eu, não sou você... – Disse bravo.
- Eu sei disso, porque se você fosse eu, não estaria todo
quebrado – Disse irônica.
- Nem namoraria a Natasha – Completou debochado.

...Depois do almoço... Luiz iria ao shopping com Mary, eu os


deixaria na porta como havia combinado. Depois de tudo o
que acontecera hoje, resolvi que precisava ir pra casa ficar um
pouco sozinha, eu gostava de ficar sozinha, sempre
aproveitava esses momentos para refletir sobre minha vida,
tentar achar inutilmente uma resposta convincente pra tudo
dar tão errado pra mim, como estava dando. Bom... Despedi-
me de Guga que já estava no quarto, logo fui para a sala onde
minha tia estava vendo TV.

- O almoço estava ótimo tia – Disse, logo dei-lhe um beijo no


rosto... Ela levantou-se.
- Que bom, venha nos visitar mais vezes, Cris – Deu-me um
abraço – Você e o Gustavo eram tão grudados, o que
aconteceu?
- Faculdade, trabalho...Sabe como é... – Disse desconcertada.
- Esse menino também devia estar fazendo faculdade, ou
trabalhando – Olhou-me pensativa – Se estivesse ocupando
melhor o tempo dele, talvez não se meteria nessas brigas por
aí, conversa com ele minha querida – Segurou minhas mãos
gentilmente – Ele ouve você – Completou com aquele olhar
maternal que ganhava qualquer pessoa.
- Claro... Vou... Vou conversar com ele sim – Disse encabulada
– Então... Até logo, Tia.
- Ah Cris! – Disse impedindo-me de sair - Vocês vão ao
shopping, certo?
- Sim.
- Natasha! – Chamou a menina que estava vindo do quarto de
Guga – Eu não disse minha querida que eles iam passar perto
da sua casa? – Sorriu quando ela se aproximou, eu fiquei
desconcertada pra variar - Deixa ela em casa, Cris – Disse
fitando-me agora.

Natasha olhou-me constrangida... Desviou o olhar...

- Não precisa D. Vera – Disse ela – O shopping fica antes da


minha casa.
- Eu não vou ao shopping – Busquei seu olhar instintivamente.
Sabe quando você nem sente o que tá fazendo ou dizendo?
- A Mary quem vai com o Luiz, vou só deixá-los em frente, e
depois irei pra casa, posso te levar se quiser – Completei a
frase num impulso.
- Não quero te incomodar – Suspirou.
- Até parece que você me incomoda – Disse ainda encarando-a
– Tá chovendo, eu te levo sem problema.
- A Cris leva você minha filha! – Disse minha tia com
ingenuidade – Não será trabalho algum.
- Então... – Fitou minha tia, logo fitou-me também.
- Tô te esperando lá no carro, tá? – Disse antes de ouvir o que
ela iria dizer.
- Está bem – Sussurrou.

Mary que também estava na sala balançou a cabeça


negativamente e sorriu pelo canto dos lábios... Dei uma olhada
rápida nela, e caminhei para o carro... Idiota, eu? Sou mesmo!
Não com muito orgulho, é claro, mas... Com muito amor por
aquela menininha que me tira o sono. O amor faz isso com a
gente, nos deixa passionais...

Nem Mary que costumava a falar pelos cotovelos se propôs a


dar um pio dentro do carro, fomos o caminho todo com aquele
silêncio constrangedor corroendo nossos ouvidos... Parei no
estacionamento, Luiz desceu, Mary deu-me um beijo no
rosto...

- Juízo – Sussurrou no meu ouvido.


- Ela tem – Disse também no ouvido dela.

Mary sorriu, logo desceu. Natasha passou para o banco do


carona, ao meu lado. Claro! Acham que eu ficaria de chofer
pra ela? Tá, eu até ficaria, mas, concordam comigo que ela
sentada ao meu lado era bem mais confortável? A visão era
melhor.

O silêncio ensurdecedor continuou até pararmos de fronte a


casa de Natasha. A menina abriu a porta do carro. Fiquei
olhando pra ela com aquela cara de: “não desce, não desce!”

- Desculpa pelo que eu te disse, tá? – Quebrou o silêncio.


- Tudo bem, você não estava a fim de falar comigo – Dei de
ombros.
- Eu estava chateada, e... Na verdade, eu não queria falar com
ninguém – Ela estava sem jeito, não sabia onde pôr as mãos,
ora descansava nas pernas, ora pousava na fechadura da
porta – Quer entrar um pouco? – Disse surpreendendo-me.
- Não, obrigada – Disse insegura.
- Não vai aceitar mesmo as minhas desculpas?
- Já aceitei, só não quero entrar na sua casa – Fitei seus olhos,
meu coração ficou pequenininho - Eu tenho medo de você –
Disse sem pensar.
- Medo? – Fitou-me surpresa.
- Pavor – Sussurrei – Mas... Esquece isso.
- Cris... – Fitou-me desanimada - Eu sei o que você sente por
mim, mas...
- Mas? – Sorri interrompendo-a – Tem sempre um “mas” entre
a gente, Naty! – Disse com tristeza - Eu sei que você gosta
daquele babaca, sei que sou uma tola por querer ficar perto de
você... E...

Natasha desviou o olhar... A chuva começou a cair mais forte,


e a menina tornou a fechar a porta do carro que estava semi-
aberta. Ela riu, um sorriso no mínimo curioso, será que eu
contei alguma piada? – Pensei.

- Engraçado – Olhou-me com simplicidade, não conhecia


aquele olhar – Parece que isso já aconteceu.
- Você comigo dentro do carro? – Balancei a cabeça
negativamente - Aconteceu mesmo, naquele dia depois da
sorveteria... Você fechou a porta do carro, como fez agora, e
em seguida, eu te beijei.
- Tô falando da chuva – Levantou a sobrancelha reprovando o
meu comentário – Entra um pouco, espera a chuva passar,
depois você vai embora – Disse com a voz irresistivelmente
doce.
- Acho melhor... Não! – Fitei-a de rabo de olho.
- É perigoso dirigir nesse temporal – Puxou minha mão - Pára
de frescura! Entra um pouco.
- Perigoso é ficar perto de você – Pensei - Está bem – Disse.

Natasha sorriu novamente... Olhei-a me perguntando o


porquê daquele sorriso, ela estava tão enigmática naquele
momento.

- Eu já sabia o que você iria dizer. Estranho isso, não acha? –


Disse ela divertida.
- Ah... é? Então... O que eu vou dizer agora? – Sorri.
- Nada - Disse – Não vai dizer nada.

Tranquei o carro, e entrei na casa da menina. Natasha trouxe


uma toalha, a chuva havia sido muito ingrata, mesmo sendo
curto o trajeto do carro até dentro de casa. Nos molhou da
cabeça aos pés.

- Café? – Disse ela.


- Não, vai tirar essa roupa molhada, menina! – Disse, logo
apanhei a toalha que ela havia trago pra mim, e comecei a
secar meus cabelos.
- Vem cá, Cris! – Disse – Tira essa roupa molhada também.
- No seu quarto? – Fitei-a assustada... Com medo mesmo, eu
não disse que tinha medo dela?
- É... Sua boba – Sorriu, ela estava sorrindo demais naquela
tarde... Isso é muito estranho - vou te emprestar uma roupa
pra você não ficar resfriada.
- Tudo bem – Respirei fundo – Engraçado – Disse fazendo
mistério - Agora fui eu quem tive a sensação de que isso já
aconteceu.

A menina riu, logo fitou-me séria, e pensativa.

- Quando você estava bêbada, me molhou toda no chuveiro do


seu quarto – encarou-me.
Meu corpo inteiro tremeu ao lembrar da sensação que eu
senti quando eu encostei nela naquela noite.

- Esqueceu de dizer que eu gozei, só de encostar em você –


Encarei-a de volta.
- Pára de dizer essas coisa, Cris... Vem logo tirar essa roupa
molhada – Puxou-me pela mão, puxei-a de volta... Fitei sua
boca com cobiça... Ela molhou os lábios com a pontinha da
língua...
- Nossa! – Disse aproximando-me dela – Eu já sabia
exatamente o que você iria dizer.
- Ah, é? – Suspirou... Encarou os meus olhos... - O que eu vou
dizer agora então? – Aproximou-se também de mim. Só faltava
sair faísca dos nossos corpos.
- Nada – Sussurrei – Não vai dizer nada.

Empurrei-a sutilmente de encontro à parede do


corredor...Natasha me puxou pela camisa molhada... Meu
corpo colou no dela... Minhas mãos em seu rosto acariciando
aquela face de menina levada, seus olhos aflitos me passando
vários sinais de desejo... Beijei-a em seguida, com toda paixão
que havia em meu coração... Um beijo longo e faminto... Sua
língua quente entrou na minha boca me enlouquecendo de
tesão. Novamente não consegui me conter diante dela...
Natasha me provocava, retribuía ao beijo com intensidade,
gemia... Mordia a minha boca... Passava a mão no meu
corpo... Quando me dei conta estávamos no quarto, ambas
desesperadas para tirar aquela roupa molhada... Tentei abrir o
zíper da sua calça jeans... Não consegui, fiquei irritada...

- Merda! – Disse.

Ela sorriu, empurrou-me de encontro à cama... Senti minhas


costas tocar aquele colchão macio...
- Deixa que eu tiro – Sussurrou... Vocês tinham que ver o que
ela começou a fazer, não tinha música, mas, acho que ela
achava que tinha, sei lá! Começou a se despir bem
devagarzinho... Dançando na minha frente, e fazendo aquela
carinha de safada que só ela tinha. Nossa! Foi subindo um
calor pelo meu corpo, tá! Eu sei que já estava quente, mas...
Ela tirou a blusa, jogou na minha direção, sorriu
maliciosamente... Continuou esbanjando sensualidade, entrei
na brincadeira... Cheguei mais perto e acariciei de leve a pele
que ela despia com demora... Logo ela ficou completamente
nua, e começou a tirar a minha roupa com a mesma calma que
tirou as dela... Foi alucinante! O desespero em busca de ar...
Meus olhos viravam de desejo, ela sorria e beijava a minha
boca, o meu pescoço... Segurava meus cabelos pela nuca e
trazia para onde ela queria que eu a beijasse... Apertei-a mais
em meus braços, seu corpo também estava pegando fogo,
nossa pele encostada uma na outra, provocava arrepios
inimagináveis... Sentei-me bem no meio da cama, e puxei-a
para sentar-se no meu colo, senti suas pernas cruzarem a
minha cintura... Seu sexo molhava o meu, ela rebolava... Me
abraçava forte, nossos seios se tocavam, minhas mãos
passeavam pelas suas costas... Meus lábios frios de desejo
tocavam o seu queixo... Sugavam os seus lábios... Eram tantos
gemidos de prazer, gozamos juntas... Depois daquele orgasmo
forte e demorado, continuamos abraçadas, sentindo nossos
corpos tremerem, nossa respiração descompassada nos
fazendo engasgar com a saliva que era trocada naquele beijo
cheio de sede... Os beijos e caricias continuaram, e aquela
sensação deliciosa de desejo retornava ainda mais voraz em
nossos corpos... Como se não tivéssemos acabado de gozar...
Natasha deitou-se na cama... Puxou-me para cima dela...
- Chupa... Me lambe toda – Disse entre os dentes e abriu as
pernas me mostrando como ela estava excitada. Segurei suas
nádegas com força, puxei-as para que se inclinassem um
pouco, e devorei o seu sexo. Logo que minha língua começou a
deslizar pelo seu clitóris intumescido Natasha gozou na minha
boca... Continuei chupando-a até que a menina se contorceu
novamente nos lençóis, enfiei meus dedos e penetrei-a
também, ela iria gozar novamente, agora na minha boca e nos
meus dedos, mas, puxou-me até que meu corpo cobrisse o
dela. Sua face ficara transformada naquele instante, ela mexia
tão gostoso embaixo de mim, que não resisti e gozamos no
mesmo momento, ainda me recuperando daquela sensação,
senti a boca quente de Natasha descendo pelo meu pescoço,
suas mãos deslizavam pelo meu corpo, seus dedos macios
tocavam a minha pele, suas unhas cravavam na minha
carne... Quando a menina começou a me chupar, sua língua
me enlouqueceu de prazer.

Eu não sabia o que pensar a partir daquele instante, ela olhou-


me como se não existisse mais nada além daquele quarto e de
nós duas, continuou a beijar-me com desejo nos olhos, e já era
noite quando paramos para conversar.

Confesso que eu ainda me encontrava em estado de... Êxtase


completo... Enfim chegou a hora daquela pergunta, qual? Olha
aí em baixo...

- E agora? – Disse receosa, tinha tanto medo de fazer aquele


tipo de pergunta... Eu me sentia tão mal por pressioná-la,
sabe? Mas, como eu podia deixar aquela dúvida me corroendo
depois de tanto prazer compartilhado?
- Estamos no quarto dos meus pais – Disse olhando para o
teto.
- Sério? – Dei uma olhada ao meu redor, só então me dei
conta de que a cama era de casal, e haviam fotos dos pais da
menina sob os móveis do local.
- Sempre quis transar no quarto dos meus pais – Sorriu, um
sorriso safado.
- Seus pais ainda estão viajando?
- Estão – Disse – Nossa! Que maluquice a gente tá fazendo? –
Balançou a cabeça, logo cobriu-se com um lençol.
- Como assim maluquice? Transar no quarto dos seus pais? –
Sorri, beijei-a nos lábios, ela se esquivou do meu beijo.
- Já acabou, Cris – Disse séria.
- Como assim? – Pensei por uns segundos - Você adora me
usar! – Disse aborrecida entendendo o motivo daquele "já
acabou".
- Você acha legal, comer a namorada do seu primo? Não é uma
maluquice?
- Naty... Eu amo você – Disse num impulso.

Ela ficou quieta... Séria...

- Cris, não confunda as coisas – Disse friamente – É gostoso...


O que a gente faz, mas... Namorar uma mulher, é algo que não
quero pra minha vida, e também, isso não que não entra na
minha cabeça.
- Não consigo mesmo entender essas mulheres...- Pensei
- Como assim não entra na sua cabeça? Você fica louca
quando eu encosto em você... Depois que rola, você faz essa
cara de arrependida e diz que não entra na sua cabeça
namorar uma mulher? – Levantei-me de sobressalto, deveras
aborrecida.
- Tuas roupas ainda estão molhadas – Disse – Aonde você vai?
Vesti-me às pressas.
- Vou pra qualquer lugar, bem distante de você – Disse furiosa
– Você devia agir menos por impulso, as pessoas podem se
machucar, sabia?

Natasha levantou-se.
- Senta aqui, vamos conversar – Ela estava calma, eu não...
Alguém já se sentiu um brinquedinho? Pois é exatamente
assim que estou me sentindo.
- Quer me dizer mais o que? Tô me sentindo usada, droga! –
Abri a porta – Quando quiser diversão, paga uma garota de
programa, tenho uma ótima pra te indicar – Disse sarcástica.
Sabe quando você quer magoar alguém? Eu precisava magoá-
la de algum jeito.
- Alguém já disse que você é cabeça dura? – Fechou a porta
que eu havia aberto.
- Não! – Disse, na verdade não me lembro, mas... Ela não
precisa saber, né?
- Pois então serei a primeira a dizer isso pra você! – Fitou-me
aborrecida – Eu tenho namorado, esqueceu? E é o seu primo,
lembra?

Dei mais uma olhada nos olhos dela... Balancei a cabeças...


Bati a porta ao sair. O que eu podia falar pra ela? Depois
também, o sangue foi subindo pra cabeça... Era melhor sair
logo de perto dela...

...Cheguei em casa, batendo a porta e jogando as chaves do


carro no sofá...Mary estava na sala com Luiz assistindo TV.

- Isso são horas mocinha? – Disse Mary.


- Diz na minha cara! Eu sou uma idiota, não sou?! – Gritei.
- Calma aí, Cris! – Disse Luiz – Que bicho te mordeu?
- Hum... Acho que esse bichinho tem nome e sobrenome. O
que a Sta. Natasha Manhães fez com você desta vez? – Disse
Mary sarcástica, como sempre, né? Ela nunca alivia.
- A gente trepou muito! – Disse brava, enquanto pegava de
volta as chaves do carro para não acordar amanhã e ficar
doida procurando, coloquei-as ao lado do telefone... – Depois
ela pediu pra eu não confundir as coisas, e o pior de tudo... –
Bati forte com a mão na parede da sala – Ai que raiva! –
Desabafei irritada.
- Tem pior? – Quis saber Luiz.
- O pior foi dizer que a amo.
- Vai tomar um banho quente, Cris! – Disse Mary, levantando-
se e me empurrando em direção ao banheiro – Vou pegar uma
roupa pra você, e depois a gente conversa melhor.

...Foi exatamente o que eu fiz, tomei um banho bem quente, e


demorado também, tanto que quando terminei, Luiz já estava
dormindo e Mary estava no quarto a minha espera.

- Está melhor, Cris? – Bateu de leve com a mão na cama... –


Vem cá – Disse. Deitei-me ao seu lado.
- Não! Estou péssima – Abracei-a – Eu sou uma idiota, não
acha?
- Acho! Mas, como você gosta dela, isso é compreensível –
Abraçou-me também – Aluguei um apartamento, vou fazer
minha mudança amanhã – Disse de imediato.
- E você me diz isso com essa calma? – Levantei-me um pouco,
fiquei apoiava no meu cotovelo... – O que eu vou fazer sem
você aqui? – Fitei-a quase que... Apavorada!
- Vai continuar correndo atrás dessa garota, oras! – Esticou os
braços convidando-me para um novo abraço – Até parece que
você sabe fazer outra coisa nessa vida – Concluiu sarcástica.
- Ela parece um vício, eu não tenho mais controle – Disse com
lágrimas nos olhos...

Tornei a abraçá-la. Mary fez carinhos nos meus cabelos até eu


dormir, não disse nada a respeito do meu comentário, e eu
também não queria mais tocar no assunto.

Aquela segunda-feira foi péssima pra mim, Mary havia alugado


mesmo um apartamento, e nós, digo, eu e Luiz fomos ajudá-la
com a mudança. O apartamento era bem legal, arejado... Eu
achei muito grande, afinal de contas, ela iria morar só, e
sempre penso que casas, ou apartamentos grandes demais,
não combinam com pessoas sozinhas, sei lá! Parece que a
solidão bate na porta. Tem sempre aqueles dias que ninguém
nos visita, ou não temos lugar algum para irmos, sem contar
os dias que acordamos de mau humor e não queremos ir para
canto algum, as programações na televisão são péssimas, as
músicas na rádio são horríveis... Meu Deus! Eu penso em cada
possibilidade, não acham? No entanto, Mary pensava
diferente de mim, ou de nós, se é que vocês concordam
comigo, né? Ela dizia que lugares pequenos causava-lhe
claustrofobia, exagerada ela! Disse também que quando entra
por uma porta, a solidão saia logo por outra, por isso, nada
podia deixá-la entediada, e como sempre arruma motivos para
festejar tudo o que acontece na sua vida, teríamos finais de
semana bem agitados naquele lugar, para começar, Sábado
mesmo, nos reuniríamos para uma pequena festa de
inauguração do seu lar, palavras dela. Até parece que eu teria
alguma coisa para comemorar! Ela me deixou sozinha, pra
morar também sozinha naquele apartamento cheio de
espaço... Tô sendo egoísta, né? Eu sei, eu sei! Mas, sentirei
falta daquela mulher espaçosa me enchendo a paciência.

É só o começo

Hoje, terça-feira, Luciano, o filho da empregado do Vitor, nos


levou até sua comunidade em Vigário Geral. Conhecemos a
ONG que o menino ocupava seu tempo, fazendo atividades
tais como teatro e o curso de marcenaria. Luciano nos
apresentou a Júlio, um moleque de apenas dez anos, que
perdera seu pai a alguns meses atrás, vítima de uma “batida”
da policia na favela, o menino relatou que o pai, voltava do
trabalho quando tudo aconteceu, ainda era de tarde, beirando
às cinco e meia, a favela estava em silêncio, quando de
repente começou um tiroteio infernal, Júlio e a tia jogaram-se
no chão do pequeno cômodo que moravam para proteger-se
das balas perdidas que sempre alvejavam as paredes, deitar-se
no chão, sempre fora a melhor forma de se proteger de todo
aquele inferno que se estendia ao psicológico. Dentro de
quarenta minutos o barulho parou, ainda ficaram deitados por
mais dez minutos no chão, até levantarem-se de sobressalto
com o barulho de algumas pessoas batendo na sua porta,
foram então informados que Fábio, o pai de Júlio, havia sido
atingido, o homem fora levado para o hospital, mas, não
resistiu, e faleceu antes de chegar ao mesmo. Alguns disseram
que Fábio ainda tentou esconder-se atrás de um veículo que
estava estacionado, no entanto, não se sabe ao certo se o
trabalhador fora confundido com traficante do local, ou se
fora mais uma vítima de balas perdidas nas favelas do Rio de
Janeiro, e uma pergunta não se cala, de onde saíra à bala que
matara o pai do menino? Dos policiais, ou dos traficantes?
Bom, a questão é a seguinte, Júlio só tem dez anos de idade,
perdera a mãe quando tinha três anos, vítima de um câncer no
estômago, e agora, ainda criança, perdera o pai brutalmente, e
para completar, mora com uma tia alcoólatra que bate nele
sempre que chega em casa bêbada, e isso significa: todos os
dias, no entanto, ele consegue reunir forças para estar
participando dos projetos oferecidos pela ONG, e mesmo
diante de tamanha dificuldade que se propagou em seu
caminho, em nenhum momento aquele moleque pensou em
entregar-se ao mundo das drogas, ou mesmo, a trabalhar para
o crime organizado como geralmente acontece, na falsa ilusão
de conseguir “dinheiro fácil”. Júlio trabalha duro como
engraxate no aeroporto, e todo o dinheiro que ganha,
administra da seguinte forma: 70% utiliza para ajudar nas
despesas de casa, e 30% guarda para realizar um sonho,
comprar um videogame. Conhecer aquele menino, fora
gratificante, porque tudo nos leva a crer que independente
das dificuldades que passamos na vida, não devemos arruiná-
la ainda mais mergulhando no mundo das drogas, desistindo
de ter esperança, e muito menos, devemos desistir dos nossos
sonhos, afinal de contas, se vamos pesar os motivos para
justificarmos os meios que chegamos até as drogas, os dele
eram gritantes, e mesmo assim, manteve a sua personalidade
e principalmente, a sua fé na vida.

A semana seguiu e embora não tenha acostumado-me com a


ausência de Mary, a conversa que tive com Júlio fora essencial
para nos animar, não apenas por estarmos vendo sair do papel
a reportagem que buscávamos, mas principalmente pela
injeção de coragem que um menino de apenas dez anos
proporcionou para todos nós... Ficamos sinceramente
preocupados com aquele menino, e pensando em como tantas
outras crianças estão na mesma situação, a mercê dessa falta
de oportunidades que parece uma febre. Sabe, é bem difícil
não se envolver com a matéria, ou com as pessoas que nos
fornecem a matéria...

... Sábado, liguei para Mary pela manhã, para saber que horas
teria que chegar em sua casa, como eu disse anteriormente,
ela faria uma comemoração em seu apartamento.

As nove e meia, peguei Luiz na casa dos meus pais, ele se


tornara um grande amigo de Mary nos últimos meses,
conseqüentemente, havia sido convidado para a pequena
reunião que ela preparara, Amanda também estaria lá, iria
com seu namorado, e para completar, fiquei sabendo por Luiz
que minha amável psicóloga havia acrescentado a sua lista de
convidados, Guga e Natasha. Porque ela não me contou?
Simples, minha amiguinha é cheia de surpresas, algumas
desagradáveis como essa, mas... Esquece!

Logo que chegamos, deu para notar que aquela simples


reunião dera lugar a uma festa bem movimentada, muita
música, muita bebida e... Natasha. Realmente havia tudo o
que eu queria naquela festa. Concordam?
Respirei fundo, tentei absorver também com naturalidade um
beijo que Guga deu nos lábios de Natasha assim que me viu
entrando na sala com Luiz... Mary logo veio nos receber...

- Oi meu amor! – Disse me dando um abraço apertado –


Porque demoraram tanto para chegar?
- O trânsito estava péssimo – Beijei ligeiramente os lábios dela,
no entanto não consegui ficar indiferente a presença do meu
vício, que vício? Natasha! Continuei olhando-a.
- Que desculpa mais esfarrapada, amor – Sorriu, logo puxou
meu rosto com as duas mãos, para que eu olhasse pra ela.
- Porque ela está aqui? – Disse já mal humorada.
- Cris, relaxa! – Disse ela sorridente, eu odiava aquele sorriso
despreocupado que ela exibia quando eu estava agoniada – Eu
tinha que convidar o seu primo, acha que ela não viria?
- Vou pegar uma cerveja – Balancei a cabeça quando vi Guga
dar outro beijo nos lábios de Natasha – Hoje não quero nem
saber, vou beber todas.
- Bebe, você sabe que minha casa, é sua casa – Sorriu
sugestiva – Não precisa ir embora. A cerveja está super gelada.
- Cris! – Chamou-me Luiz – Pega leve, vê se segura a tua
onda... Lembra da última vez?
- Tô cansada de pegar leve – Fiz um gesto pedindo que ele
saísse da minha frente. Vi quando ele fitou Mary com um olhar
preocupado. Minha amiga deu de ombros, despreocupada
com o que eu pudesse fazer, ela adorava mesmo ver o circo
pegar fogo.

... A festa já se arrastava pela madrugada, e ninguém


demonstrava vontade de ir embora, a cerveja estava bem
gelada como Mary garantiu, talvez, por esse motivo, eu
nem percebera o quanto já tinha bebido, se fechava os olhos,
parecia estar numa roda gigante, tudo rodava ao meu redor...
Procurei um lugar mais calmo pra me sentar...
- Você está bem? – Disse sentando no sofá da varanda ao meu
lado.
- Não – Tentei não olhar para ela.
- O Guga também bebeu bastante, tá dormindo no quarto da
sua namorada – Respirou fundo.
- Porque tá me dizendo isso? – Ousei um olhar desconfiado
para ela.
- Tô tentando puxar assunto, sabia? Facilita, vai? – Exibiu um
sorriso amarelo no canto dos lábios... - Na verdade, estava
procurando o momento certo para falar com você sobre o que
aconteceu... Bom...Você saiu da minha casa naquele dia tão
transtornada... Que...
- Claro Natasha! – Interrompi-a - Você me enlouquece e depois
pede pra eu te esquecer, que tudo não passou de um engano.
Como acha que eu me senti?
- Não quero que a nossa amizade acabe – Disse de imediato.
- Amizade? – Fitei-a sarcástica – Não quero ser sua amiga! Não
costumo desejar minhas amigas.
- Acho que você está caindo em contradição. Pelo que sei,
Mary é sua amiga – Disse quase aborrecida com o meu
comentário.
- Mary? – Fitei-a meio que perdida, afinal de contas, Mary...
Era o que pra mim? – Pensei.
- Você acabou de dizer que não costuma desejar suas amigas.
- Ah Mary... A Mary... É diferente – Não podia acreditar!
Aquela garotinha estava usando minhas próprias palavras
contra mim. Confesso que isso era engraçado, logo eu que
sempre me sai tão bem das situações, perto de Natasha ficava
literalmente sem respaldo.

Ela sorriu percebendo que eu não tinha o que dizer.

- Podemos ser só amigas?


- Você está linda! – Disse ainda mais encorajada pelos efeitos
do álcool.
- Pára, Cris! – Baixou os olhos, acho que ela tinha algum
problema com elogios, mas, era linda mesmo! Queria que eu
dissesse o quê?
- É linda mesmo! – Sussurrei - Não gosta de ouvir isso? Ou não
gosta de ouvir isso de mim?
- Você exagera demais – Fitou meus olhos. Pronto! Ela não
precisava de mais nada... Só aquele olhar bastava para roubar
a minha alma... Passei de leve meus dedos no seu rosto...
Natasha fechou os olhos enquanto eu fazia o caminho dos
seus lábios...
- Eu Juro! – Disse com coração apertado... Mais uma vez
mostrando a ela toda a minha fraqueza - Queria tirar você da
minha cabeça...Do meu coração... E nunca mais sofrer por te
amar tanto – Sentei-me mais perto da menina, olhei para o
lado, haviam duas amigas de Mary se beijando, Natasha
também percebeu que elas namoravam.
- Acho que todos nós bebemos demais – Disse enquanto
tentava absolver aquela cena com naturalidade... Ela ficou
constrangida.

Minha luta interna começou a ficar mais árdua... Olhar pra ela
e não querer beijá-la era inegavelmente impossível, aqueles
lábios exerciam sobre mim, um domínio maior que meu
próprio orgulho, e não lembrava-me de ter aberto mão
anteriormente do meu orgulho por outra mulher, e pensar que
por ela, meu orgulho simplesmente não tinha a mínima valia.
Quase supliquei por um beijo, Natasha olhou-me com aquele
olhar que eu conheço como ninguém, um olhar hipnotizante,
que tira-me até a noção de quem sou eu.

- Eu nunca quis tanto uma mulher – Disse encarando-a com o


coração já pulsando mais forte, logo segurei suas mãos... As
mesmas estavam tremulas... Frias...
- Quis? Não quer mais? – Acariciou minhas mãos que estavam
sobre as dela.
Não sabia qual era o jogo dessa menina, mas, tenho que
confessar que Natasha tinha as melhores cartas nas mãos,
sabia exatamente como me dominar, e fazia isso como
ninguém. Ela olhou novamente para as meninas... Percebeu
que ambas estavam mais consumidas no que estavam fazendo
do que em nossa conversa, quando ela virou-se novamente,
segurei seus braços e puxei-a para mim, senti seu corpo colado
no meu, no mesmo instante que beijei aqueles lábios cheios
de feitiço. Natasha retribuiu o beijo, mas, tentou se esquivar
quando minhas mãos desceram até suas coxas, logo sua
resistência acabou, bastou beijar e morder de leve o seu
pescoço...Meu rosto se perdia nos cabelos dela, enquanto eu
acariciava suas costas com a ponta dos dedos... Ela adorava
isso, conseguia ver nos seus olhos. Coloquei minhas mãos
cheias de tesão por baixo da sua blusa e toquei nos seus seios
rígidos e quentes, minha boca estava aguando por vontade de
chupá-los, e a essa altura, minha calcinha já estava toda
molhada, e a cabeça não controlava mais os atos... Não dava
para controlar mesmo... Cadê as minhas mãos? minhas mãos
já estavam de baixo da saia da menina, meus dedos entravam
no seu sexo excitado e ela gemia no meu ouvido, não demorou
e ela gozou na minha mão, gozei também só de tocar naquela
mulher maravilhosa... Bom, depois que voltamos para a
realidade... As meninas que estavam trocando beijos perto de
nós... Nos olhavam agora... Atônitas, posso garantir, afinal de
contas, para todos os efeitos, sou namorada da Mary, e elas...
Bom... Elas são amigas dela.Conseguem entender a gravidade
da coisa? As meninas levantaram-se sem pronunciar uma só
palavra, uma delas, puxou a porta de vidro que nos separava
da sala, e em seguida, fechou-a estrondosamente,
completamente indignada com o que vira, logo o som
repentino que veio daquele cômodo fora sufocado
novamente, fazendo o silêncio prevalecer entre nós. Ficamos
ali, inertes, por cerca de cinco minutos, nos olhávamos ainda
tentando encontrar palavras para dizermos uma à outra. De
repente, Natasha levantou-se, não conseguia esconder o
nervosismo.

- Elas vão contar para Mary – Disse com uma mão na testa e
outra na cintura.
- Relaxa – Tentei acalmá-la... Deveria dizer que eu e Mary
éramos uma farsa?
- Tá louca? Sua namorada não vai gostar nada disso –
Começou a andar de um lado pro outro na varanda –
Desrespeitamos a casa dela, Cris!
- Devia estar preocupada com o Guga, não com a Mary.
- O Guga que se dane! – Disse nervosa – Quer dizer... Acha que
ela irá contar pra ele?
- Senta aqui – Puxei-a pelas mãos... Nos sentamos no sofá... –
Não se preocupe com a Mary – Passei a mão de leve no rosto
aflito da menina – Será que você não sente nada por mim?
Sempre que estamos juntas, alguma coisa acontece... Não é
possível que eu seja tão burra para não saber distinguir
quando uma mulher sente prazer – Fitei seus olhos, eu queria
discutir o relacionamento, viram? Claro! Bem ou mal, nós
tínhamos um relacionamento, carnal, mais tínhamos.
- Cris... Eu... Eu não sei o que dá em mim, quando você está
perto, eu fico um pouco perdida – Disse hesitante – Desde
que nos vimos pela primeira vez, você me olha tão diferente.
- Naty, eu te amei desde o primeiro instante que te vi.

Tornei a beijá-la, no mesmo instante a menina esquivou-se.

- Me dá um tempo, Cris – Disse insegura – Não dá para aceitar


o que eu sinto, quer dizer... O que eu acho que sinto... É
complicado demais.
- Não acredito que estou ouvindo isso! – Sorri completamente
tomada por uma felicidade que não me lembrava ter sentido
antes – Nem nos meus sonhos mais intensos tive a pretensão
de ouvir isso de você, e olha que eu sonho com você todos os
dias, hein?
- Cris, é lindo o que você sente por mim... Tudo o que me
diz...Mas...Esquece o que eu acabei de dizer... Nem sei por que
disse, sabe? – Dispersou-se até sacada da varanda – Isso não
está certo! Eu namoro o seu primo, e você tem a Mary, ela é
uma pessoa muito legal.
- A Mary não irá se importar, pode ter certeza... – Disse
enquanto ia a seu encontro, fiquei atrás dela... Aspirei o cheiro
bom que vinha dos seus cabelos - O Guga, a gente conversa
com ele, vai ser difícil no começo eu sei, mas...
- Não viaja, Cris! – Disse angustiada enquanto virava-se de
frente pra mim – Tem também os meus pais, eles me
matariam se soubessem de uma coisa dessas... Nunca poderia
te assumir, entende?
- Pára de pensar nos outros, pensa em você – Abracei-a – Fica
comigo, Naty! Me dá uma chance de provar que todos esses
seus medos são naturais, mas, são também totalmente
superáveis.
- As coisas não são tão simples quanto você está dizendo.
Tenho que pensar... Preciso pensar...

Antes que eu pudesse dizer qualquer palavra para rebater sua


resistência, a porta se abriu. Não tivemos tempo para nos
recompormos. Era Amanda, minha irmã nos olhou
condenando o que vira. Estávamos a um passo de um beijo.

- O que esta acontecendo aqui? – Disse visivelmente


aborrecida.
- Amanda...
- Não tente me enrolar com as suas desculpas, Cris! – Disse
brava – A Natasha é minha amiga, e namorada do Guga.
- Eu sei, mas... Eu amo a sua amiga, como nunca amei
ninguém na minha vida – disse sem receio. E não me venham
achando que eu estava encorajada pela bebida, não! Eu estava
encorajada por tudo o que li nos olhos da menina.
- Cris! – Natasha olhou-me surpresa, e deveras aborrecida com
minha “confissão” – Enlouqueceu de vez?
- Acho que sim! Se o meu amor por você é loucura, pode me
chamar de louca, ou do que você quiser... Eu não ligo mesmo.
- Não estou entendendo nada – Disse Amanda nos olhando
perplexa – Vocês estão tendo... Tendo um caso?
- Não Amanda! – Disse ríspida, logo respirou fundo... Estava
com a voz tremula – Eu sou a namorada do primo de vocês, e a
sua irmã devia parar de me dizer essas coisas. E... E você
também não devia levar tão a sério o que ela está dizendo, sua
irmã está bêbada – Concluiu severa.

Fitei-a decepcionada, acho que eu sempre a olhava daquela


forma depois das nossas conversas, nós nunca chegávamos
mesmo a um consenso. Continuei calada, na verdade, o que eu
teria para dizer, depois de ouvir tudo aquilo dos lábios da
mulher que amo? Foi um alívio quando elas deixaram aquele
lugar, tá certo que eu fiquei com um imenso nó na garganta,
mas... Melhor a ausência dela, do que ter que aturar suas
palavras mordazes... Pra vocês entenderem melhor: “ vai... se
você precisa ir... Não quero mais brigar esta noite... Nossas
acusações infantis... E palavras mordazes que machucam
tanto... Não vão levar a nada como sempre... “ ( Quando você
voltar / Legião Urbana / A tempestade), como uma luva!

Fiquei debruçada nas grades da varanda intermináveis


minutos. Olhando os veículos turvos e minúsculos, estes
pareciam tão inofensivos sendo vistos do sétimo andar,
atordoada como estava, passou pela minha cabeça que se eu
me jogasse daquela altura, nem iria ferir-me, e acho que não
iria mesmo, mas ferida do que eu estava desde que conheci
Natasha, eu não poderia ficar. Senti um toque suave no meu
ombro direito, logo, todos aqueles pensamentos mordazes se
desfizeram. Ei! Acho que gostei muito dessa palavra:
“mordazes”.

- Tá me traindo? – Sussurrou Mary bem humorada no meu


ouvido.
- Desculpa pelo que aconteceu.
- A Natasha e a sua irmã foram embora, Guga tá dormindo na
minha cama, e o Luiz tá desmaiado no sofá da sala.
- Suas amigas provavelmente me entregaram pra você, não é?
– Disse desanimada.
- Sabe que sim – Passou a mão pelo meu ombro – Não me
importo com isso, Cris. Queria que vocês duas se entendessem
de vez, mas... Pelo visto, andaram brigando novamente.
- A Amanda nos viu abraçadas, ficou indignada, e depois...
Você já sabe, a Natasha me deu mais um fora daqueles... Saiu,
e eu não pude dizer mais nada.
- Duvido que você tivesse algo para dizer – Puxou-me – Vamos
– Disse quase num suspiro – Todos que tinham de ir embora já
foram, o outro quarto já está arrumadinho para nós
dormirmos, toma um banho bem gelado pra passar esse seu
porre, e também ajudará a esfriar essa sua cabeça, depois
deita e dorme, amanhã é outro dia.
- Ela está confusa – Disse.
- Está confusa, mas, não perde a oportunidade de te magoar –
Concluiu com semblante pesado.

Mudanças

Já passava das onze da manhã de Domingo quando


acordei. Uma dor de cabeça insuportável denunciava
que o dia não seria dos melhores. Mary estava na
cozinha.

- Bom dia! – Disse ela – Dormiu bem?


- Apaguei – Disse e fiquei pensando em como ela podia
estar com aquele bom humor todo.
- Café? – Sorriu pra mim.
- Claro – Não sorri de volta.

Luiz e Guga acordaram em seguida. Mal pude olhar o


meu primo nos olhos, sentia-me deveras culpada por
ter deixado as coisas tomarem à proporção que aí
estavam. Bom, em outro tempo, nós já estaríamos
sorrindo um para o outro, e descontraindo o ambiente,
no entanto, diante de tudo o que estávamos vivendo,
um bom dia, já era satisfatório. E põe satisfatório nisso!

- Natasha, onde está? – Disse ele ansioso – Não há vi


no quarto.
- Bom dia também, Guga – Disse Mary irônica – A
Natasha foi pra casa com Amanda e o namorado.
- Desculpa – Disse ele – Bom dia para todos... Então...
Eu já vou indo galera... Tenho que passar na casa
dela... Nossa! – Estava visivelmente confuso - Eu... Eu
bebi tanto ontem, não me lembro de nada...
- Toma um café Guga, acabei de fazer – Disse.
- Obrigado, Mary – Passou a mão pelo bolso da calça –
Eu faço isso na rua – Disse aparentemente perturbado
– Tchau gente.

Logo que ele saiu, foi inevitável o olhar de nós três se


cruzarem, afinal de conta, mal entendemos o porquê de
tanta pressa, Guga não costumava ser assim, pelo
contrário, descansado como era, sempre fora o último a
sair da casa dos outros quando tinha festa, sempre
esperava o outro dia, pois, na maioria das vezes
comemora-se tudo novamente. Preferimos não
comentar o assunto, estávamos cansados demais para
qualquer especulação.

- Vamos à praia crianças? – Disse irônica.


- Não, Mary – Disse desanimada enquanto terminava o
café – Vou para casa, preciso ficar um pouco sozinha,
colocar os pensamentos em ordem.
- E você Luiz?
- Tenho que estudar, estou pendurado – Balançou a
cabeça frustrado – Inclusive, já está na minha hora, me
dá uma carona, Cris? – Disse.
- Claro! Assim aproveito para ver nossos pais –
Levantei-me para dar um beijo em Mary e ir embora.
- Sozinha eu não fico, amor – Me beijou – Obrigada
pelo beijo, mas, você me deixa na praia também,
certo? Vou só trocar de roupa, já volto.

Sorri da sua irreverência matinal, voltei a sentar-me,


ela iria se arrumar, com isso, adianto que ela
demoraria o bastante para eu me cansar em pé... Mary
foi para o quarto trocar-se, enquanto eu e Luiz
conversávamos na cozinha. Falávamos sobre as provas
da faculdade, e de como estavam sendo difíceis quando
Mary voltou do quarto... Estava pálida, com o
semblante pesado... Mary nos olhou, em seguida jogou
algo sob mesa.

- Acho que seu primo perdeu isso – Disse séria.

O objeto referido, era um saquinho com um pó branco


dentro, pesava mais ou menos 5gr. Tornamos a nos
olhar... Os três ao mesmo tempo...

- O Guga tá usando droga?! – Disse Luiz quebrando o


silêncio.
- É Luiz... Eu queria estar errada quanto a isso, mas...
Posso apostar que não é de hoje – Levantei-me
enquanto desamarrava o saquinho – Vou jogar isso no
ralo – Disse.

Abri a água e deixei o pó se misturar com ela em


direção ao ralo da cozinha... Bom, aí estava a prova
real das minhas suspeitas... Suspeitas? Na verdade, eu
tinha certeza, mas, daria tudo para estar enganada,
então... Acho que vocês entenderam.
- Cris, temos que levar um papo sério com tia Vera, ela
nem deve desconfiar que isso está acontecendo – Luiz
estava aflito.
- Bom gente, eu sei que isso é um assunto de família, e
eu nem deveria me meter, mas, acho que seria mais
prudente, antes de contar uma coisa dessas para a mãe
dele, conversem primeiro com o Guga, quem sabe
vocês não o convencem a procurar um tratamento –
Disse com seriedade.
- Mary, você é mais do que da família pra mim, é
minha melhor amiga, preciso mesmo da sua opinião –
Respirei fundo, acho que não era hora de tapar o Sol
com a peneira - Acha que eu já não tentei conversar
com ele a respeito disso? O Guga sempre nega, e não
dá para ajudar alguém que não quer ser ajudado.
- Desde quanto sabe que ele é viciado?
- Pra ser sincera Luiz... Tem meses que desconfio disso,
na verdade, tem meses que praticamente tenho a
certeza que o Guga é um usuário – Disse mortificada.
Porque não contei sobre o ocorrido na Rocinha? Era o
nosso segredo pra sempre, esqueceram?
- Podia ter me contado, eu conversaria com ele – Fitou-
me desapontado.
- É! Devia mesmo, mas... – Uma ligeira pausa - Ele
nega, Luiz! Fervorosamente... E eu, estou tão sem
crédito com esse desmiolado, que seria bem capaz dele
te convencer que inventei tudo isso para prejudicá-lo.
- Poxa, Cris! – Colocou a mão no meu ombro – Acha
mesmo que eu não acreditaria em você? – Disse
solidário.
- Ultimamente eu acho tudo errado, mano – Concluí.

... Bom, não chegamos mesmo a um consenso... Luiz


ficou de conversar com Guga, mas, acho pouco
provável que ele conseguisse fazê-lo entender os riscos
que corre sendo um usuário de drogas. As pessoas
sempre acham que tem o controle sobre as coisas, e
acabam afastando-se das outras que querem ajudá-las.
Guga se afastaria de Luiz, como se afastou de mim, tá
certo que não seria pelos mesmos motivos, no
entanto... Se mostraria arredio com qualquer opinião
que não fosse de encontro a sua.

... Deixei Mary na praia de Botafogo, logo levei Luiz até


a casa dos nossos pais, não entrei para cumprimentá-
los, como disse que faria, estava cansada e sem
paciência para nossas conversas familiares. Cheguei em
casa pouco depois de uma da tarde. Havia uma
movimentação no prédio, alguém estava mudando-se
para o apartamento de frente ao meu. Logo pensei que
seria insuportável descansar ouvindo aqueles móveis
sendo arrastados pra lá e pra cá. Estava abrindo a
porta do meu apartamento quando alguém me
chamou...

- Hei! – Disse ela.


- Eu? – Olhei pros lados... Não havia mais ninguém.
Que idiota! Claro que era eu!
- Boa tarde. Será que você pode me ajudar com essas
coisas? – Disse. A moça em questão segurava uma
pilha de livros.
- Ajudo sim - Peguei alguns para ajudá-la, logo
entramos no apartamento dela.
- Pode pôr tudo em cima deste sofá – Disse e sorriu
agradecida.

Coloquei os livros no local indicado... Sei que vocês vão


achar falta de educação o que vou dizer, afinal de
contas não é legal entrar na casa dos outros e ficar
reparando, mas, foi inevitável não olhar em volta de
nós, tive dó daquela moça, estava uma bagunça
daquelas... Tudo completamente desarrumado.

- Você está fazendo essa mudança sozinha? – Não


resisti, tive que perguntar.
- Não! Haviam três amigos me ajudando, só que eles
tiveram de ir embora, e essa bagunça toda ficou para
eu arrumar sozinha – Respirou fundo, exibiu um
semblante exausto – Desculpe a bagunça – Disse.
- Não se desculpe, mudança é assim mesmo – Sorri
tímida – Bom... Acho que ainda não sei o seu nome.
Meu nome é Cristina, mas pode me chamar de Cris –
Estendi a mão.

Ela sorriu...
- Que mancada, Cris! Meu nome é Beatriz, pode me
chamar de Bia se preferir. Obrigada por ter me
ajudado. Estou perdida com tanta coisa para arrumar.
- Bom, se quiser ajuda...
- Não! De forma alguma, você está com uma carinha
de cansada.
- Vamos! Deixa eu te ajudar... Política da boa
vizinhança, já ouviu falar? – Sorri sem graça... Porque
será que eu queria ficar ali, na companhia de uma
estranha?

Beatriz sorriu novamente, há muito tempo eu não via


um sorriso tão bonito, só não conseguia superar o
sorriso de Natasha, pronto! Já estava pensando nela
outra vez. Mas que merda!

- Bom... Se é assim, eu aceito a sua ajuda, mas, com


uma condição – Fez cara de suspense, porque será que
mulher gosta de fazer esse tipo de charminho? Eu que
sou mulher não sei responder.
- Qual?
- Ainda não almocei, almoça comigo? Odeio almoçar
sozinha – Sorriu – Diz que sim, vai? – Disse engraçada.
- Deixa eu pensar... – Fiquei em silêncio por alguns
segundos – Também não almocei, convite aceito.

Beatriz era uma mulher muito bonita, simpática,


gentil... Arrisco dizer que há muito tempo não via uma
mulher tão interessante. Tinha a pele bronzeada de sol,
nada muito exagerado, apenas dando um tom saudável
na sua cor, cabelos lisos na altura dos ombros, exibiam
um tom de mel parecido com os seus olhos, sem deixar
de reparar no seu corpo, confesso que ela deixaria
qualquer pessoa com segundas intenções.

Já passava das três quando terminamos de arrumar


boa parte da bagunça. Pedimos o almoço pelo telefone,
havia um restaurante italiano muito bom na esquina do
prédio.

- Nossa, Cris! Nem sei como te agradecer, você caiu


do céu, sabia?
- Caí do inferno, depois de tudo que tem acontecido na
minha vida – Pensei – Estou muito longe do céu – Disse
e sorri, aquele sorrisinho amarelo que vocês já devem
ter se acostumado.
- Nossa! Você não é uma vizinha pessimista, é? -
Forçou uma fisionomia séria.
- Não se preocupe, otimismo é o meu nome. É que
ontem não dormi muito bem – Respirei fundo,
desanimada – Só isso – Completei num sussurro.
- Tsc, tsc... E eu aqui te alugando – Disse – Bem que
notei sua carinha de cansada quando chegou.
- Nada sério – Disse cínica imaginando como era ruim
estar na minha pele - Só tive uns probleminhas por aí.
- Aposto que foi com o namorado.
- Não, não tenho namorado.
- Tem namorada? – Disse sem receio.

Engasguei com o refrigerante que bebia. Pergunta mais


inusitada aquela. Concordam?

- O que? – Fitei-a desconcertada.


- Desculpa... Cris! Não tive a intenção de te deixar
constrangida – Disse arrependida - Me desculpa mesmo
se fui muito ousada, afinal de contas, mal nos
conhecemos.

Balancei a cabeça, sorri... Ela ficara engraçada com


aquela cara de: “cometi um erro”.

- Não tenho namorada, não... Mas, e você, Bia? Tem


namorado ou namorada? - Disse para removê-la
daquela saia justa em que se encontrava.
- Bom... – Fitou-me aliviada, à vontade também, posso
arriscar - Já tive namorados... Namoradas... Hoje,
estou sozinha.
- Acredito que por opção, né? Você é muito bonita...
Agradável...
- Eu reconheço uma cantada de longe, seus olhos não
dizem que quer me cantar.
- E não quero mesmo, mal nos conhecemos – Sorri pelo
canto da boca – Não costumo cantar ninguém a
primeira vista, sou meio conservadora, entende? –
Brinquei... Ela sorriu.
- Sei bem como é... Ah! Os vizinhos comentaram sobre
você – Disse sem expressar nenhum receio
- Falaram coisas boas, embora tenham dito que você
é lésbica, como se isso fosse defeito.
- Nossa! Não sabia que meus vizinhos falavam de mim.
- Dentre tantas coisa, disseram que você é uma ótima
vizinha, é reservada, educada... Prestativa, eu descobri
sozinha.
- Você trabalha com o que? Tem tantos livros – Abri um
que ainda estava no sofá – Faz medicina?
- Sou Médica – Disse – Pediatra – Concluiu.
- Nossa! Quantos anos tem? Não tem cara de médica –
Disse num impulso, depois fiquei com vergonha do
interrogatório, e mais ainda da minha cara de idiota,
ela parecia tão novinha para ser médica. Tá bom! Sei
que isso é bobagem, afinal de contas, médico é médico,
independente da idade.

Beatriz sorriu.
- Tenho trinta e um.
- Te ofendo se disser que parece ter menos idade? –
Disse receosa.
- Claro que não! – Sorriu encantadoramente – Vou
aceitar como um elogio, está bem?
- Srta. Pediatra... – Retribui o sorriso, claro!
Concordando com o “elogio”. Às mulheres mais velhas
tem um charme, né? - O que faz aqui nessa cidade? Já
deu pra perceber que não é daqui.
- Como vê – Fitou a mudança – Não estou de férias,
pode apostar – Sorriu divertida - Consegui um
emprego aqui no Rio, e achei ótimo, a cidade é linda,
não conhecia pessoalmente, mas, sempre vi em fotos e
pela televisão. Tem duas semanas que cheguei, fiquei
hospedada na casa de uns amigos... Bom, sou
de Brasília. E você o que faz?
- Estou terminando a faculdade de jornalismo, e
trabalho com o meu pai... Acho que só... Minha vida
não tem tantas novidades quanto a sua.
- Quantos anos você tem, Cris?
- Vinte cinco.

Beatriz era uma mulher encantadora, inteligente e bem


humorada. Conversamos a tarde toda, já era noite
quando sai da casa dela, nem vi as horas passarem,
fizemos vários planos, um deles seria mostrar-lhe
melhor a cidade, como ela mesma disse, chegara a
pouco mais de duas semanas ao Rio e ainda não havia
visitado os melhores lugares daqui.

Tomei um banho e deitei-me, liguei a TV e arrependi-


me, não havia nada de interessante passando, tentei
ficar em silêncio e dormir um pouco, mas, não
conseguia pregar os olhos, as lembranças de Natasha
faziam meu corpo inteiro doer, ora de desejo, ora de
rancor... Ela era a melhor e a pior coisa que já
acontecera na minha vida, a melhor, porque amar
como eu amo esta mulher, é maravilhoso, me faz
ter vontade de viver... E pior, porque não adianta
amar e não ser amado, a dor é tão grande que me faz
ter vontade de morrer. Empate técnico entre a vida e a
morte... Sombrio isso? Vocês ainda não viram nada,
deixa só eu terminar de fazer o que estou pensando...
Peguei no telefone, talvez ela quisesse me dar alguma
explicação, disquei o número da casa dela... Tocou
duas vezes...

- Alô! – Disse do outro lado da linha.

Era ela, sem dúvida alguma, era ela! Não consegui


pronunciar uma só palavra, desliguei o telefone em
seguida... Pronto! Fiquei pior... Natasha, Natasha...
Moça do nome provocante, o que você faz comigo? –
Pensei... Deixei o corpo cair no sofá da sala e ali fiquei
por longas horas...

ALGO DIFERENTE

Enfim, a rotina voltara... De manhã, saí cedo para o


trabalho. Passei a tarde estudando e ouvindo
novamente os depoimentos dos meninos da
comunidade de Vigário Geral com meu grupo da
faculdade. Fizemos uma série de anotações a respeito,
e indignados com o tratamento que o menino Júlio
recebia da tia, eu, Vitor e Janice procuramos auxilio do
conselho tutelar. A noite, já estava arrumada para ir a
faculdade quando a campainha tocou. Abri a porta. Tive
uma agradável surpresa, quer dizer, talvez nem tão
agradável... Digamos que a surpresa fora... No mínimo
intrigante, ou quem sabe inesperada? Podem escolher
se quiserem.

- Oi – Disse ela tímida.


- Oi – Retribui friamente o seu cumprimento, não sabia
até quando iria durar aquela formalidade.
- Não vai me convidar para entrar?
- Não sei se devo – Disse, no entanto... Fiz um gesto
pedindo-a que entrasse. Retirei algumas roupas que eu
havia deixado sob o sofá da sala – Sente-se. Fique a
vontade – Disse com tom de voz gélido.

A menina sentou-se, logo fiz o mesmo.


- Cris... Eu sei que você deve estar chateada comigo,
mas...
- Natasha! – Disse interrompendo-a – Queria muito que
você me poupasse das suas desculpas, pode ficar
tranquila, eu não irei mais te perturbar, se é o que te
incomoda.
- Pára de se defender, não estou te acusando de nada –
Disse aborrecida.
- Hoje não, né? Mas, Sábado... – Eu estava
visivelmente magoada.
- Eu vim aqui pra te pedir desculpas, mas, se prefere
ficar de ironia e não quer me ouvir, tudo bem –
Levantou-se irritada.
- Espera! – Segurei seu braço – Fala – Disse com
semblante mais ameno.

Ela sentou-se novamente, respirou fundo... Sentei-me


também. Não me sentei ao seu lado... Precisava
manter-me distante. Precaução sabem?

- Eu pensei muito, Cris... Pensei na gente, no Guga...


Nas mudanças que aconteceriam se caso... Se caso...
Eu e você... Entende? – Disse hesitante.
- É tão difícil dizer, se nós ficássemos juntas? - Minha
decepção era visível.
- Cris... Eu nunca passei por isso – Continuou
hesitante.
- Vou então te perguntar pela última vez – Fitei-a séria,
acho que pela primeira vez, posso confidenciar a vocês
que eu estava verdadeiramente de saco cheio de toda
indecisão da menina – Natasha, você quer ficar
comigo? – Fitei seus olhos – É sim ou não e pronto!
- Eu não sei! – Disse quase chorando.
- Como não sabe? – Irritei-me – Qual é o seu jogo,
garota? O que você quer de mim?

A campainha tocou novamente... Levantei-me... Abri a


porta deveras contrariada, quem quer que fosse,
estava atrapalhando a conversa mais esperada dos
últimos meses.

- Oi, Cris.
- Oi, Bia – Disse inexpressiva.
- A luz estava acesa... – Sorriu - Vim saber se você
quer jantar comigo, descobri um restaurante
maravilhoso no centro da cidade.
- Desculpa, Bia, mas...

Beatriz percebeu que eu não estava muito à vontade


naquele momento, e também avistou Natasha na sala,
logo deve ter imaginado que interrompera alguma
coisa, e eu, não tinha a mínima condição psicológica
para fazê-la acreditar no contrario, na verdade, eu nem
fiz esforço pra isso.

- Me desculpa, Cris – Disse um pouco desconcertada –


Não sabia que estava com visitas, depois nós
conversamos.
- Passo no seu apartamento mais tarde, estou indo
agora para faculdade. Você dorme cedo?
- Não – Passou a mãos nos cabelos, pensou por uns
segundos - Durmo tarde – Disse.
- Então, fica combinado assim... Vou à faculdade fazer
uma prova, e volto lá pelas dez, está bem?
- Tudo bem. Faça uma boa prova. Vou te esperar –
Acenou se despedindo.
- Obrigada – acenei de volta. Logo fechei a porta.
- Acho melhor eu ir andando – Disse Natasha
impaciente.
- Vai fugir da conversa novamente? – Disse ainda
irritada com ela – Você sempre foge das nossas
conversas.
- Você não me entende, Cris! Não posso simplesmente
terminar com o seu primo e ficar com você – Disse
áspera.
- Por que não? Gosta dele? – Olhei bem nos olhos dela
– Ama o Guga, Natasha?
- Não! Não amo! – Disse num impulso – Queria ter
coragem para largar tudo, mas, não posso...Não
consigo! – Disse com tristeza – Fico pensando nas
conseqüências... É difícil demais.

Engoli a seco. Respirei fundo, tentei controlar meus


sentimentos, sabia que não podia ceder naquele
instante, teria que agir com a razão. Naquele momento
lembrei-me das palavras de Mary: “sofre menos quem
age com a razão”.

- Então... – Disse firme – Faz o seguinte: vai pra casa,


pensa em tudo isso que acabou de me dizer, e quando
tiver certeza do que você quer realmente de mim, aí
sim, você me procura para termos outra conversa –
Puxei o ar para dentro dos pulmões – Do contrário,
deixa tudo como tá... Você lá, e eu aqui. Certo?
- Está me mandando embora da sua vida? – Fitou-me
frustrada.
- Não posso mandar você embora da minha vida, Naty!
Você é a minha vida – Disse controlando a vontade de
chorar que me consumia naquele instante – Só não
agüento mais as suas incertezas, eu tô sofrendo –
Baixei a guarda.
- Não quero te fazer sofrer com as minhas dúvidas. Eu
vou pra casa sim, e... Se um dia eu souber o que quero
realmente da vida, vou te procurar – Baixou os olhos –
Espero que não seja tarde demais.
- Eu também espero – Disse ainda controlando a
vontade de chorar.
- Já vou, Cris... Tchau – Sussurrou.

Abri a porta... Natasha ficou parada na minha frente,


ela olhava-me como se esperasse algum gesto meu,
um beijo quem sabe? Mas, lutei bravamente contra
minhas vontades, sabia que não resistiria a ela, por
isso permaneci distante. Continuei com a mão na
maçaneta da porta, bastaria uma palavra dela para que
eu fechasse novamente aquela porta e esquecesse
completamente da prova, de Bia, de todo mundo lá
fora... No entanto, ela disse Tchau novamente, e saiu,
levando consigo todas as minhas expectativas e
esperanças.

Assim que Natasha saiu da minha casa, não pensei em


outra coisa a não ser ir conversar com Bia. Bati no
apartamento dela...

- Oi – Disse encabulada.
- Pensei que já tinha ido para a faculdade – Disse
surpresa.
- Não vou conseguir fazer a prova.
- Entra, Cris – Disse preocupada – Você está pálida,
não está se sentindo bem?

Eu estava cansada do amor que eu sentia por Natasha.


Estava sem chão... Sem vontade de ter vontade. Uma
melancolia tomava todo o meu corpo, e não havia mais
saída. Eu estava ali, diante de uma estranha, e não iria
contar-lhe o que estava acontecendo, sabia que não
tinha o direito de envolver mais ninguém nessa minha
história tão sem futuro, seria mais uma pessoa a sentir
pena de mim, e eu detesto que sintam pena de mim.
Senti-me novamente impotente, Deus! A vida estava
passando diante dos meus olhos, e eu não conseguia
viver. Natasha era como o ar que eu respirava, longe
dela, nada fazia sentido pra mim. Eu queria tanto que o
maldito destino, ou seja lá o que for, tivesse sido mais
generoso comigo. Sempre pergunto-me o porquê desta
garota ter entrado na minha vida, seria tão mais fácil
se eu não a tivesse conhecido, quem sabe hoje eu não
estaria mais feliz, no entanto, após conhecer Natasha,
a felicidade parece tão restrita, ou melhor, parece que
simplesmente não existe longe dela.

- Quer conversar, Cris? – Disse tirando-me do transe


que eu me encontrava.
- Não estou me sentindo bem, só isso.
- Você não parece doente – Disse fitando-me mais de
perto.
- Indisposição – Disse fugindo dos olhos dela, afinal de
contas, mentir com relação a saúde para médico é
constrangedor
- Sua indisposição tem nome?
- Não – Disse insegura.
- Tudo bem, você finge que fala a verdade, e eu finjo
que acredito... Mudamos de assunto, e pronto. Está
bem?
Sorri, um sorriso amarelo no canto dos lábios.
- Melhor assim – Disse sem graça.
- Vou pedir nosso jantar. Já que está indisposta, duvido
que queira sair de casa – Disse gozando de uma ironia
encantadora.
- Estraguei os seus planos para esta noite, não é
mesmo? – Fitei-a desapontada.
- Acha mesmo que isso vai ficar impune? – Disse
extrovertida – Vai ter que me levar qualquer dia desses
para jantar.
- Vou te levar em um dos lugares mais lindos da
cidade.
- Copacabana?
- Não...Porque todos pensam logo em Copacabana? –
Sorri, ela me fazia sentir-me melhor... Já podia até
dizer que Natasha... Nossa conversa, e aquela angustia
que me corroia... Haviam ficado fora daquele
apartamento - Vou te levar em um lugar fantástico no
centro histórico do Rio, já ouviu falar na “Confeitaria
Colombo”? Fiz uma matéria a respeito de lá esse ano.
- Lamento, mas... – Pensou uns segundo - Não ouvi
falar.
- Como não? Ela fica bem no coração comercial do Rio
de Janeiro – Fitei-a com uma falsa indignação - A casa
já é centenária, sabia? – Pensei por uns segundos – É
tombada pelo Patrimônio Histórico e Artístico do Estado
do Rio de Janeiro, e digo mais, ela é o símbolo máximo
do que representou a "belle époque" na vida da cidade
– Sorri do seu olhar compenetrado – Enquanto todos na
faculdade escreviam sobre o Pão de Açúcar...
Corcovado... Praias... Eu resgatava a magnitude da
“Colombo”.

Bia aplaudiu.
- Fascinante – Disse – Continua. Fale mais sobre esse
lugar que faz brilhar os seus olhos.
- Bom... Já que quer ouvir... Quando eu estiver te
chateando me avisa, tá? – Sorri, ela sorriu de volta...
- Você não me chateia – Disse.
- Se é assim – Dei de ombros - Pessoas ilustres já
passaram pela Colombo, posso citar... O rei Alberto da
Bélgica, em 1920, e a rainha Elizabeth da Inglaterra,
em 1968... Em 2007 vou citar você – Nossa! Meu
humor estava sendo resgatado, viram?
- Não apela, Cris... – Disse e sorriu - Continua a
estória, tá abrindo o meu apetite.
- Já que está abrindo o seu apetite, vou adiantar que o
cardápio de lá, é bem variado, você pode se deliciar
com nobres pratos de aves, peixes e carnes, como o
famoso "Tornedot Colombo"... – Fitei-a mais de perto
– O lugar é lindo, nos transporta para uma outra
época... No salão principal da confeitaria, uma
decoração rica em detalhes é mantido em perfeito
estado desde sua criação. São quatro andares, três
amplos salões decorados com oito espelhos bisotados,
todos emoldurados em jacarandá. Os espelhos foram
trazidos da Bélgica, em navio. As bancadas são em
mármore italiano e o mobiliário é sofisticado. Além de
louças do princípio do século e taças de cristal
bordadas a ouro. No quarto andar, você olha pro teto, e
vê uma clarabóia em mosaicos coloridos, luz natural
por todo o restaurante. Consegue imaginar? E... Como
se não bastasse tudo isso, os freqüentadores
do hall principal, podem ouvir, "chorinhos" e melodias
da época da inauguração, ao som do piano.
- Ainda está tentando me convencer?
- Estou indo bem?
- Está – Sorriu.
- Ótimo! Uma última curiosidade – Busquei na memória
tudo o que eu já tinha lido sobre aquele lugar
fascinante que tinha o poder de nos embriagar com seu
resgate fiel da história - Olavo Bilac, foi homenageado
com uma placa comemorativa na entrada da casa.
Diziam que o poeta era tão pontual para os diários chás
das cinco que os funcionários sempre acertavam os
relógios da casa quando ele chegava. E tinha também
outro poeta famoso, deixa eu lembrar... O nome dele...
Sim! – Disse satisfeita - Emilio de Menezes! Esse
escrevia com lápis nas mesas de mármores do local, e
pagava suas despesas com sonetos de propagandas
para a Colombo... Cada freqüentador uma curiosidade
– Continuei falando empolgada, bom falar quando
alguém realmente está prestando atenção nas suas
palavras, né? Lembrei-me do dia em que Natasha
ouviu a gravação do depoimento de Luciano... Fiquei
quase perdida naquele pensamento por alguns
segundo, depois olhei para Bia e percebi que ela ainda
sorria pra mim - É uma aula de cultura e arte aquele
lugar, faz parte da história do Rio, mas, também da
história do Brasil... Guimarães Passos, amante das
bebidas... – Aproximei-me um pouco dela - Só pra se
ter uma idéia passaram por lá: Chiquinha Gonzaga, Rui
Barbosa, Villa-Lobos, Lima Barreto, José do
Patrocínio, Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek...
Entre muitos outros... Jornalistas, políticos, poetas,
boêmios, jogadores de futebol, por falar nisso, Romário
e Edmundo tem mesa própria lá, e agora... Nós... Tá
certo que não teremos mesa própria, mas... –
Sorrimos.
- Seu humor está melhorando... Vou adorar conhecer
esse lugar – Sussurrou enquanto fitava meus olhos.

Bia tinha um olhar tão bonito, de uma alegria tão


veemente. Seus olhos exibiam também uma serenidade
difícil de encontrar. Era uma mulher madura, objetiva
em suas convicções... Em nenhum momento vi
ingenuidade nos seus olhos, embora tenha percebido
que suas palavras sempre seguras contrastavam o
tempo inteiro com o sorriso meigo que despontava de
vez em quando dos seus lábios. Bia gostava de sorrir, e
sabia exatamente que o seu sorriso despertava
simpatia imediata nas pessoas.

... As horas passaram despercebidas, conversamos


sobre tantos assuntos... Quando me dei conta... Olhei o
relógio, já passava da meia noite.

- Tá com pressa, Cris? – Disse ao perceber que eu


havia me assustado com a hora.
- Nem me dei conta da hora – Disse confusa.
- Nossa! – Disse ela exibindo uma fisionomia
preocupada – É melhor se apressar, você mora tão
longe. Não tem receio de chegar em casa tão tarde?
Dizem que essa cidade é tão perigosa.

Nós rimos.
- Vamos trabalhar amanhã... Devíamos estar dormindo,
não acha?
- Acho, mas... Ainda não me disse nada sobre o seu
coração – Fitou-me com aqueles olhos curiosos.
- Acho que não se interessaria por ele, anda tão doente
– Desviei o olhar.
- Tenho um cardiologista ótimo para te indicar – Disse
sorridente.
- Não vai adiantar, estou terminal – Sorri sem graça.
- Nós médicos, nunca desistimos dos nossos pacientes
– Insistiu encantadoramente bem humorada.
- Quando o próprio paciente desiste, o problema foge
da alçada dos médicos.
- Nossa! – Disse ela – Essa mulher te faz tão mal
assim? – Sorriu.
- Não é ela quem me faz mal, é não ter o amor dela
que me faz mal – Disse, já arrependida por ter me
aberto mais do que me propunha.
- Posso fazer um diagnostico superficial?
Assenti com a cabeça.
- Seu problema cardíaco mede aproximadamente 1,70
de altura, tem cabelos negros, pele branca, e não tem
mais que vinte aninhos – Disse ela persuadida.
- Dezenove, para ser mais exata – Disse enquanto
levantava-me do sofá afim de encerrar o assunto –
Tenho que ir, se não... – Sorri irônica - Vou chegar
muito tarde em casa, e como dizem que essa cidade é
perigosa, né?
- Tudo bem – Disse ela – Vê se não some, tá? Sei que
moramos muito longe uma da outra, mas, faz um
esforço – Piscou pra mim.

Bia levou-me até a porta, dei-lhe um beijo no rosto...


Ela ficou olhando-me até que eu entrasse no meu
apartamento. Logo que entrei, senti o cheiro do
perfume de Natasha no ambiente, um perfume
perturbador.

- Não estraga a noite pensando nela – Disse para as


paredes.

Tomei um banho e deitei-me.


No dia seguinte, à noitinha, passei na casa dos meus
pais para pegar Luiz, afim de levá-lo na faculdade.
Estava na sala esperando-o terminar de se arrumar
quando Amanda chegou acompanhada de Natasha, as
duas conversavam animadamente, mas, encerraram o
assunto quando me viram. Amanda não beijou-me
como de costume, era a primeira vez que nos víamos
desde o incidente de Sábado. Um cumprimento frio, e
logo subiu correndo as escadas, parecia ter pressa. O
cumprimento de Natasha fora mais cordial, logo que
minha irmã subira, a menina deu-me dois beijos no
rosto.

- Como você está? – Disse ela.


- Como eu deveria estar?
- Queria que estivesse bem.
- Se te conforta, eu estou bem.
- E a Mary? Como vai?
- Vai bem, por quê?
- Nada, Cris! Curiosidade – Fitou-me hesitante – Gosto
dela, só isso.

Sorri debochada.
- Tem tanta coisa que você não sabe – Disse aguçando
a curiosidade da menina.
- O que, por exemplo?– Funcionou, fitou-me curiosa.
- A Mary é minha amiga.
- Isso não é novidade – Sentou-se no sofá.

Sentei-me ao seu lado... Senti o cheiro do seu perfume,


e um frio percorreu toda as minhas costas.

- O que quero dizer... É que... Mary não é minha


namorada... Nunca foi, Naty! – Ao dizer aquela frase
senti-me leve, eu não estava mais confortável com
aquela farsa, na verdade, nunca estive, sempre gostei
da verdade, e nem entendo o porquê de ter inventado
uma historia tão descabida, embora tenha que
considerar o meu desespero dos últimos meses. Não
acham que eu estive muito desesperadinha esses
últimos meses?
- O que? - Olhou-me confusa.
- Inventei isso porque estava muito mal... E queria que
você achasse que eu tinha te esquecido, ou pelo menos
estava tentando esquecer – Despejei tudo de uma só
vez, parece que tirei um peso enorme das costas.
Cheguei a respirar mais aliviada.
- Porque está me dizendo isso? O que mudou? –
Continuou olhando-me confusa.
- Não sei ao certo o que mudou Natasha, mas... Não
queria continuar mentindo pra você – Fiquei repetindo
em meu pensamento a frase dela: “o que mudou?”.
Será que mudou alguma coisa? – Pensei.
- Pura infantilidade esse teatro que você armou –
Concluiu aborrecida me tirando completamente do
mundinho em que eu me enfiara.
- Não precisa nem dizer que foi uma tremenda
infantilidade – Balancei a cabeça negativamente – Se
eu pudesse voltar atrás...

Ficamos em silêncio por alguns segundos, meus olhos


não conseguiam parar de fitar os dela. Natasha iria
dizer algo, mas, desistiu e continuou a me encarar
como se esperasse alguma coisa de mim, não consegui
ler o seu olhar, logo levantei-me. A covardia tomou-me
por completa, aquela proximidade toda, certamente me
faria perder o controle da situação, ela era linda
demais! Impossível, estar tão perto e não querer tocá-
la... Eu não tinha certeza se havia mesmo mudado
algo, então...

- Você está diferente – Disse ela intrigada.


- Cansei de ser rejeitada por você – Disse irônica.
- Tem outra pessoa, Cris? – Levantou-se também.
Meu coração disparou ao vê-la tão próxima de mim,
mais um pouco e eu não resistiria... Seu cheiro era tão
bom, seu olhar estava tão profundo...

- Porque quer saber? Isso importa pra você?

Natasha dispersou seu olhar, afastou-se de mim...


Respirei aliviada.

- Seria bom se você estivesse apaixonada por alguém –


Disse quase num sussurro – Seria melhor pra todo
mundo.
Olhei-a irritada.
- Não estou apaixonada por ninguém! Mas, não se
preocupe, vou parar de pegar no seu pé – Disse brava.

Luiz desceu nesse instante. Nem pude ouvir o que ela


diria a respeito do meu comentário, mas, também não
queria ouvi-la mesmo.

- Tô esperando no carro, Luiz! – Disse e saí sem dizer


mais nada a ela. Bati a porta da sala.

...Luiz entrou no carro intrigado, eu estava cega de


raiva... Não esperei nem que ele fechasse a porta...
Arranquei com o veiculo... Sem motivos? Acham
mesmo? Ela disse: “queria que estivesse apaixonada
por alguém... Seria melhor pra todo mundo”.

- Quem ela está pensando que é? – Disse furiosa – Ela


tá se sentindo... Eu sou muito idiota, mesmo! – Bati no
volante duas vezes - Como posso amar uma garota que
brinca com meus sentimentos dessa maneira? Ela quer
me enlouquecer, e está conseguindo...
- Hei, Cris! – Interrompeu-me – Dá pra se acalmar?
- Ela me irrita, Luiz! A Natasha tem o poder de me
deixar desse jeito.
- O que aconteceu?
- Eu sou um brinquedo nas mãos dela – Bati no volante
do carro novamente, agora, irritada com os veículos
que entravam na minha frente sem dar a seta – Esses
babacas! Por isso acontecem tantos acidentes – Disse
impaciente.
- Pega leve, tá? Os acidentes também acontecem
quando pessoas transtornadas dirigem, fica calma! –
Colocou o cinto de segurança às pressas, ele é meio
traumatizado com velocidade.
- Eu tô calma, não se preocupe – Disse, no entanto não
consegui tirar o pé do acelerador.
- Você só tem uma saída, esquecer essa garota – Disse
enquanto afundava as costas no banco, medroso, né?
- Se fosse tão fácil, eu já tinha esquecido - Nem senti o
movimento brusco que fiz com o volante do carro.
- Já terminou o trabalho da faculdade? – Visivelmente
queria mudar de assunto.
- Ainda não – Disse - Precisamos de mais alguns
depoimentos – Estacionei o carro de fronte ao prédio
onde Luiz estudava, nunca aquele percurso havia sido
tão curto – Ainda estamos no prazo – Concluí.
- Tem planos para Sábado? – Disse respirando aliviado.
- O que tem Sábado? – Fitei-o de frente... Ele estava
tão pálido.
- Não acredito que esqueceu! – Disse decepcionado.
- Desculpa... Minha cabeça não anda muito boa – Fitei-
o ainda sem saber do que se tratava – Diz logo! O que
tem Sábado?
- Droga, Cris! É o meu aniversário.
- Nossa, Luiz! Eu devo estar terminal mesmo para
esquecer um dia como esse – Sorri constrangida – O
que pretende fazer?
- Churrasco com a galera, lá em casa? – Disse
inseguro.
- Quer uma opinião? É isso?
- Claro! Depois desse estresse todo com a Natasha,
não sei se será uma boa idéia fazer uma comemoração
muito extensiva.
- Até parece que eu deixaria você sem festa de
aniversário por causa daquela doida – Pensei por um
instante – Posso levar uma amiga?
- Claro que vou chamar a Mary.
- Não estou falando dela, a Mary já é da família –
Pensei por uns segundos – Conheci uma pessoa esses
dias... E como ela não é daqui, acho que iria gostar de
conhecer gente nova.
- Cris! – Disse sorridente – Seus olhos estão brilhando,
quem é ela?
- Não exagera! É minha vizinha, mudou-se esta
semana para aquele apartamento de frente pro meu.
- Isso tá com cara de paixão.
- Não! É amizade – Sorri sem graça – Daquelas que
fazem muito bem pra gente.
- A Mary é sua amiga, te faz bem, e seus olhos não
brilham quando você fala dela.
- Mas que coisa! Nós estamos nos conhecendo ainda –
Fiz um gesto pra que ele descesse logo do carro.
- Sei – Disse enquanto abria a porta do veículo – Tô
atrasado... Mas, não pense que vai fugir desse papo,
tá? – Beijou-me no rosto – A gente se vê amanhã no
trabalho. Tchau. Dirige devagar, hein?
- Pode deixar. Tchau – Liguei o carro e parti.

Cheguei da faculdade lá pelas onze da noite. Parei de


fronte ao apartamento de Bia, dava pra ouvir uma
música suave vinda lá de dentro. Uma luz fraca
denunciava que ela ainda devia estar acordada. Tive
vontade de bater na porta... Bia estava sendo uma
ótima companhia desde que nos conhecemos, no
entanto, o receio de que ela estivesse acompanhada
falou mais alto. Parei de frente ao meu apartamento,
girei a chave... Pensei por alguns segundos, tornei a
rodar a chave... Agora no sentido contrário, fechando-a
novamente. Não resisti... Bati timidamente na porta do
apartamento de Bia, o máximo que poderia acontecer
seria... Ela dizer que não estava sozinha, né? Fiquei
impaciente, Bia demorou para atender, já estava
desistindo quando a porta se abriu. Ela estava linda,
vestia um robe preto de seda.

- Des...culpa – Disse, logo que notei a taça de vinho na


sua mão.

Bia contornou os lábios com a ponta da língua...


Acompanhei aquele gesto com os olhos atentos.

- Não precisa se desculpar – Levantou a taça – Às


vezes bebo sozinha – Disse exibindo um sorriso no
canto dos lábios.
- Acabei... De chegar da... Faculdade.
- Eu sei. As luzes do seu apartamento estavam
apagadas. Entra – Antes que eu entrasse... Olhou para
a minha porta – Continuam apagadas, né? – Disse.
- Ainda não entrei em casa – Sorri tímida.

Percebi que ela não estava tão sóbria, e isso deixou-me


preocupada, mulheres alteradas pelo álcool tendem a
ficarem mais sensuais, ou vulgares, não que isso seja
uma regra, no entanto, Bia assumia o primeiro papel.
Sua voz estava mais doce, e seus gestos mais lentos e
convidativos. Toda vez que falava, sua mão tocavam na
minha perna, e ela demorava para tirá-la. Estávamos
sentadas no sofá da sala, ela baixou um pouco mais o
som.

- Bebe comigo?
- Só um pouquinho, amanhã tenho que... Acordar cedo
– Disse insegura.
- Que pena...- Fitou meus olhos por alguns segundos -
Amanhã não tenho plantão no hospital.

Senti uma onda de calor tomando conta do meu corpo,


há muito tempo não sentia desejo por outra mulher que
não fosse Natasha.

Olhei para a mesinha de centro que decorava a sala,


desconfiei das intenções de Bia, sobre ela havia uma
taça na qual ela serviu-me o vinho.

- Estava esperando alguém?


- Estava esperando você – Disse sugestiva... E
sensual...

Eu já não estava me agüentando de tesão... Nem


peguei o copo de vinho nas mãos, puxei-a pela nuca
beijando-lhe os lábios com muito desejo. Bia
correspondeu ao beijo com a mesma intensidade.
Desamarrei seu robe, ela estava completamente nua, e
eu estava faminta... Perdi o controle, puxei-a pela
cintura colando o meu corpo no dela, logo ela despiu-
me também, com certa violência rasgou minha blusa ao
tentar tira-la às pressas, isso alimentou ainda mais
minha vontade. Chupei seus seios e me perdi nos seus
gemidos cheios de desejo, ela se contorcia no sofá.
Passei a mão no meio das suas pernas e senti sua
excitação, penetrei-a no mesmo instante, meus dedos
entravam dentro dela cada vez mais rápido. Vi seus
olhos se transformarem num orgasmo profundo, mas,
nem a deixei desfrutar daquela sensação, coloquei
minha língua no seu sexo molhado e a chupei
demoradamente, ela gozou novamente e me empurrou
de encontro ao outro lado do sofá, logo senti suas mãos
macias e ágeis deslizarem pelo meu corpo, fechei os
olhos para aproveitar aquela sensação, e gozei várias
vezes na sua língua. Fomos para o quarto dela, e
transamos por longas horas, até adormecermos de
exaustão. Nada dissemos uma para a outra, acho que
não tínhamos forças nem para falar...

Acordei na manhã seguinte sentindo-me péssima...


Vocês provavelmente vão me odiar pelo que irei falar,
mas, apesar de ter adorado a noite que passei com
Bia, as lembranças de Natasha pareciam ainda mais
veementes naquele instante. O que está acontecendo
comigo? Será que estou ainda mais louca? – Pensei.
Não demorou para Bia acordar também. Ela abraçou-
me, logo surgiu um sorriso encantador nos seus
lábios... Sabe quando você sente raiva de si mesmo?
Pois é? Eu tinha raiva de mim, e de Natasha...

- Bom dia – Disse, logo beijou-me – dormiu bem?


- Muito – Afaguei seus cabelos – Ela não tem culpa da
minha doença – Pensei.
- Adorei fazer amor com você.
- Eu também – Olhei o relógio – Estou atrasada pro
trabalho.
- Vou fazer um café pra você.
- Não precisa... Vou lá em casa tomar um banho e
trocar de roupa – levantei-me da cama - Meu pai não
facilita a minha vida, se achar que estou fazendo corpo
mole, é bem capaz de me despedir.
- Posso te esperar mais tarde?
Fitei-a sem saber o que dizer.
- Pode – Disse num impulso.

Bia sorriu.

Vesti-me às pressas, estava completamente


desconcertada, tinha certeza da burrada que eu
cometera, afinal de contas, Bia não parecia ser mulher
de uma noite apenas, dava para ver no seu olhar que
ela esperava mais que isso, e eu, enrolada com meus
sentimentos do jeito que estou, seria a pior pessoa
para prometer-lhe algo. Torno a repetir, se vocês
sentirem raiva de mim, eu entendo... Também sinto a
mesma coisa.

...Passei no meu apartamento, tomei um banho,


troquei de roupa e sai... Estava indo para o trabalho,
mas, não consegui chegar ao meu destino. Peguei o
primeiro desvio que apareceu e fui até a casa da Mary.
Eu estava confusa demais, e precisava desabafar com
alguém.

O porteiro já me conhecia, deixou-me subir


imediatamente. O elevador demorou uma eternidade
para chegar ao sétimo andar. Bati na porta, Jorge, o
porteiro, já havia interfonado para avisar que eu estava
subindo. Mary atendera-me com cara de sono.

- Nossa, Cris! – fez um gesto para que eu entrasse –


Que mania de me acordar de madrugada – Disse
aborrecida.
- Já passa das nove.
- Então, foi o que eu disse, madrugada ainda – Disse e
bocejou.
- Preciso conversar – Disse ansiosa.
- Preciso de um café, você quer?

Fomos para a cozinha. Esperei Mary colocar a água na


cafeteira.
- O que a Natasha aprontou desta vez? – Disse com a
sua costumeira ironia.
- Conheci uma pessoa esses dias.
- Meu Deus! Está me dando um fora? – Sentou-se em
uma cadeira a minha frente – O que devo fazer?
Chorar? Me descabelar ou fazer uma daquelas cenas
patéticas pedindo para você não me abandonar?
- Hei! Pára de brincadeira, estou falando sério.
- Acho que farei a cena da mulher traída – Continuou
sarcástica - O que ela tem que eu não tenho? – Disse
caindo na gargalhada.
- Vai ficar me zoando? – Disse quase irritada.
- Tudo bem – Disse séria – Sou uma mulher madura,
vou encarar com naturalidade o fim do nosso
relacionamento, afinal de contas, a amizade continua.
- Você não presta, Mary! – Sorri descontraída, ela fazia
tudo parecer tão fácil e divertido.
- Quem é a sortuda? Não vai me dizer que é mais uma
das amiguinhas da Amanda – Sorriu debochada
- Criança só trás problemas, você já devia estar
vacinada contra essas pestinhas.
- Ela não tem nada de criança, inclusive é médica. Para
ser mais exata, pediatra – Disse mais à vontade.
- Tá trocando uma psicóloga por uma pediatra? –
Levantou-se para pegar o café que já estava pronto –
Gosta mesmo dos profissionais da saúde, hein?
- Sua palhaça! – Disse – Minha cabeça está dando um
nó.
- Pára de complicar as coisas, criatura! – Serviu-me do
café – Se apaixonar por alguém nessa altura do
campeonato, é a sua redenção, Cris! A probabilidade
de você esquecer a Natasha fica enorme.
- Pensei nisso quando fui procurar a Bia ontem a noite,
a gente...Transou, foi uma delicia, mas... Hoje de
manhã – Respirei fundo – Acordei com a Natasha na
cabeça, e não consegui nem olhar pra Bia direito.
- Bom, já sei que o nome dela é Bia, e que você me
corneou ontem a noite – Sorriu irônica – Como ela é?
Bonita? Bianca, Beatriz, ou Fabiana?
- Beatriz – Disse de imediato – Ela é muito bonita. Tem
trinta e um anos, é super divertida, inteligente, e ...
Gostosa.
- Ganhou na loteria amiga! Porque está nessa agonia
toda? A mulher é perfeita pra você.
- Tenho medo de magoá-la, ela é tão legal, Mary...
Como você disse, perfeita! – Balancei a cabeça no
sentido negativo - Putz! Porque não nos apaixonamos
pelas mulheres perfeitas pra gente? –Pensei. Terminei
o café – Bia não é mulher para ficar só saindo, deu pra
notar que está procurando algo sério.
- Quer mesmo a minha opinião?
- Eu vim aqui pra isso.
- Acho que você gosta de se torturar, e vai fugir dessa
Bia para não dar a oportunidade dela te fazer esquecer
a Natasha, por que no fundo – Enfatizou – Bem lá no
fundo, você gosta desse amor doentio que sente por
essa menina.
- Está louca, Mary? Eu faria qualquer coisa para
esquecer a Natasha.
- Faria mesmo? – Disse irônica – Então dá uma chance
pra pediatra.
- Eu estou mais confusa do que antes – Passei a mão
no rosto, estava agoniada – Quando eu tocava na Bia,
fechava os olhos e imaginava que estava tocando a
Natasha, e isso aumentava ainda mais o meu tesão.
Entende? Já sentiu isso?
- Ouça bem, Cris! – Disse agora com seriedade... É isso
mesmo! S.e.r.i.e.d.a.d.e! – Mesmo que você pense na
Natasha ao fazer amor com a Bia, mesmo que o seu
coração diga que é a Natasha a mulher da sua vida,
ainda assim... - Fitou-me nos olhos – Fica com a
Beatriz, e deixa o tempo colocar as coisas no lugar.
Pensa em como pode ser bom pra você, ter uma
mulher realmente madura do seu lado, sem os receios
e os medos infantis que a Natasha tem – Pensou por
um instante, logo disse – Cris, não deixe essa mulher
sair da sua vida, da uma chance, não pra Bia, mas, pra
você.
- Mas... A Natasha tá confusa, quem sabe...

Interrompeu-me impaciente com o meu comentário.


- A Natasha é uma criança, muito mimada por sinal –
Disse irritada – Ela está acostumada com todo mundo
aos pés dela, Cris! E você é só mais uma a engajar a
lista dos “fissurados por Natasha”. Se essa menina
quisesse mesmo ficar contigo, já teria ficado, mas,
não... Pra ela é mais fácil te levar pra cama quando
sentir vontade, porque depois, é você quem fica
sofrendo, e cheia de inseguranças, e ela? Bom, ela
sempre volta pro seu primo e ainda tem a coragem de
dizer que é você quem confunde as coisas, quando na
verdade, ela está provocando tudo isso que está te
matando.
- Está sendo injusta, Mary! – Disse insegura – Eu é
quem a agarro sempre – Nossa!Como eu estava me
sentindo infantil naquele momento.
- Meu amor! Nenhuma mulher se deixa agarrar, a
menos que ela queira também. Afinal de contas, você
não é nenhum estuprador de menininhas indefesas e
ingênuas, é? – Respirou fundo, estava aparentemente
saturada - E sem contar que de indefesa e ingênua a
Natasha não tem nada, ela é bem espertinha e sabe
provocar como ninguém. E você Dona Cristina é uma
idiota que cai sempre no joguinho dela.
- Prefiro você mais irônica, e menos realista.
- Decida-se então, amor.

Hoje já era Sábado, desde Quarta-feira não dormia


mais no meu apartamento, sempre que chegava da
faculdade, passava no apê de Bia, e não resistia,
acabávamos dormindo juntas... Acordei cedo... Olhei
pela janela, o dia estava lindo, os raios de Sol já
denunciavam que faria um calor entorpecente. Parece
não haver outra estação aqui no Rio, os meses passam
e é sempre como se fosse verão, até quando chove faz
calor, nem me lembro à última vez que usei um casaco.

Bia ainda dormia quando levantei-me. Ela parecia tão


cansada, os dias no hospital onde ela trabalha não
estavam sendo fáceis. Hoje, pela manhã e à tarde, ela
estaria livre daquela rotina estressante, no entanto,
teria que trabalhar a noite toda. Faria um plantão de
doze horas que começaria as sete da noite. Ainda bem
que a festa de aniversário de Luiz duraria o dia inteiro.

Lá pelas onze da manhã, fui tomar banho e arrumar-


me em meu apartamento. Hoje seria um dia
importante, não só por ser o aniversário do meu irmão
que tanto amo, mas também, por saber que iria
apresentar Bia a todos que estivessem lá na festa.
Como eu estou? Em paz, posso dizer... Acho que Mary
tem razão, eu não estava dando uma oportunidade
para Bia, estava dando uma oportunidade pra mim...
Aquela mulher, faria qualquer pessoa feliz. Era
atenciosa, dedicada, inteligente... Linda... Divertida, e
fazia amor como ninguém.

Bati no apartamento de Bia, depois do meio dia... Uau!


Ela estava linda! Vestia uma saia jeans e uma camiseta
verdinha que deixava a mostra todo o ombro.

Fomos os últimos a chegar na festa, a casa estava


cheia como de costume, tínhamos muitos amigos e sem
exagero posso dizer que nenhum deles faltaria ao
aniversário de um dos caras mais legais do Rio de
Janeiro. Dei um abraço bem forte em Luiz, que a essa
altura já estava mais pra lá, do que pra
cá... Apresentei-lhe Bia, neste instante, Mary também
veio falar comigo, estava na companhia de uma garota,
nos apresentamos, ela se chama Júlia, e as duas estão
“saindo” a uns dois dias, assim ela definiu. Ficamos as
quatro conversando animadamente, eu estava bem,
juro! Estava entrosada no assunto, curtindo a música
que estava tocando... Até tinha me esquecido que...
Bom, antes de vê-la, estou falando da Natasha, está
bem? Sim! Bastou ver Natasha vindo em nossa direção
com um copo de bebida nas mãos, aquele olhar
penetrante... Para um desconforto enorme tomar conta
de mim, ela se aproximou, me cumprimentou... Beijei
seu rosto... Não consegui apresentar-lhe Bia, Mary
quem o fez, percebendo de imediato o quanto eu
estava afetada com a presença dela. Depois que
Natasha afastou-se de nós, não consegui mais ser a
mesma... Fiquei ansiosa e entediada.

- Algum problema, Cris? – Disse Bia, notando que eu


havia me calado completamente.
- Um probleminha que já está quase superado – Disse
ainda sem conseguir tirar os olhos de Natasha, que
logo depois de nos cumprimentar ficou conversando
com alguns amigos de Guga a poucos metros de nós.
Era automático, sabem? Eu nem percebia que estava
olhando pra ela.

Bia fitou Natasha por alguns segundos...


- Estou vendo o tamanho do seu problema – Disse
indiferente, logo voltou a conversar com Mary e Júlia,
como se nada estivesse acontecendo.
- Alguém quer uma cerveja? – Eu estava tentando
voltar ao normal – Estou indo na cozinha – Eu
precisava desvincular-me daquele contato visual –
Pensei.

Que bom! As três assentiram com a cabeça. Estava


abrindo a geladeira quando Amanda chegou na
cozinha... Nos olhamos, minha irmã desviou o olhar...
Meu coração partiu... Caminhou em direção a porta de
saída... Parou... Virou-se novamente de frente pra
mim... Retornou até onde eu estava... E deu-me um
beijo no rosto, acompanhado de um sorriso que
aquecera meu coração novamente. Nem esperava que
o faria, pensei que ainda estivesse aborrecida comigo
por eu ter dado em cima da sua ingênua amiguinha.

- Tá de namorada nova, Cris? – Disse ela.


- Acho que sim – Sorri com saudade daquela vozinha
irritante sendo direcionada novamente pra mim..
- Desculpa por ter te tratado tão mal naquele dia –
Disse envergonhada.
- Tudo bem – Dei-lhe outro beijo – Você é minha
irmãzinha linda, nunca vou ficar chateada contigo.
- Eu não tenho o direito de me meter na sua vida –
Disse com semblante arrependido – E também... A
Natasha é bem grandinha, não precisa de ninguém para
defendê-la, mesmo por que... Nós conversamos, e ela
se abriu comigo, Cris... Ela me disse algumas coisas.

Olhei-a curiosa.
- O que ela disse?
- Ah! Ela disse que rolou um beijo entre vocês, e que
está muito confusa... Não sabe se quer continuar com o
Guga, por que...
- Diz logo, Amanda! Porque ela não quer continuar com
o Guga? – Eu estava completamente ansiosa, meu
coração parecia que iria saltar pela boca.
- Poxa, Cris! Já viu como o Guga está? Só vive bêbado,
relaxado, nem faz mais a barba... Pra piorar, está
andando com uns carinhas super esquisitos.
- Ãh... É por isso... – Disse decepcionada.

Apanhei umas latas de cerveja na geladeira.

- Hei! Vê se não enche a cara – Disse Amanda.


- Pode deixar - Disse e sai.

Amanda não sabe, mas, sepultara ainda mais os fios de


esperança que eu carrego no peito, ou carregava, né?
Cada dia mais tenho me convencido que ela, digo, a
Natasha realmente não nasceu pra mim. Talvez seja
melhor desta forma mesmo, esquecer Natasha seria
melhor para todo mundo, palavras dela. Palavras que
me fizeram morrer por dentro. Quando alguém diz isso
pra você, é sinal que realmente não sente nada, do
contrário, teria o mínimo de receio que você a
esquecesse.

As três riam como crianças quando cheguei com a


cerveja.

- Alguém contou uma piada? – Disse curiosa.


- Sua amiga Mary, é sensacional!– Disse Bia tentando
controlar o riso.
- Eu que o diga – Distribuí as cervejas.
- Estou falando dos meus pacientes, Cris – Disse
empolgada – Tem uns casos tão divertidos.
- Pensei que fosse antiético falar dos pacientes.
- E... É! – Disse Mary animada – Mas, vê se não conta
pra ninguém, tá?

Nós rimos.
- Mary, Mary... Se depender de mim, você morre de
fome, nunca vou te indicar um paciente.
- Relaxa, Cris! – continuou extrovertida - Meu pai é um
dos melhores profissionais da área em São Paulo, com
o nome dele na minha certidão de nascimento, não vão
me faltar pacientes – concluiu.
- É como eu sempre digo: Mary, você não presta! –
Sorri também.

... As horas foram passando, Bia olhava-me com


aqueles olhos apaixonados que só um cego não veria, e
isso devia me deixar feliz, no entanto, deixava-me
preocupada. Ela seria perfeita pra mim, como definiu
Mary, isso se eu não estivesse tão apaixonada por
Natasha, e por falar nela, passara o tempo inteiro me
olhando de longe, e eu sabia disso, porque sempre
estava olhando pra ela. Na certa, Natasha queria ter
certeza de que eu estava realmente namorando, pois
assim, eu não mais iria incomodá-la.

... As cinco e meia... Bia disse que precisava ir embora,


teria que estar no hospital antes das sete, e passaria
em casa para tomar um banho e trocar de roupa. Eu
decidi que iria embora com ela, apesar da grande
insistência para que eu ficasse mais um pouco na festa.

- Eu tenho que trabalhar, você não! – Disse gentil –


Fica com seus amigos, Cris.
- Depois que você for embora, isso aqui vai perder toda
a graça pra mim.
- Que gracinha! – Mostrou-me um sorriso – Então tá!
Mas, se quiser voltar pra cá, volte.
Despedi-me das pessoas que estavam ali fora, logo
entrei na casa para procurar meus pais que haviam
fugido da bagunça que se formara. Estavam vendo um
filme no quarto, sempre faziam isso quando dávamos
uma festinha, diziam que aquela bagunça toda era boa
para os jovens, e eles não tinham paciência para nós...
Despedi-me dos dois...Desci apressada. Já estava
passando pela sala quando esbarrei em Natasha.
- Que pressa, hein?– Segurou meu braço - Já vai, Cris?
- Já – Disse fria.
- Namorada nova?
- Amanda perguntou a mesma coisa, vocês
combinaram?

Ela sorriu... Um sorriso daqueles bem irônico sabe?

- É namorada mesmo, ou mais um teatrinho para me


colocar ciúmes?
- Você nasceu pretensiosa assim mesmo, ou foi
adquirindo com o tempo? – Disse irritada.

Natasha sorriu novamente, não respondeu minha


pergunta, por isso continuei falando.

- É minha namorada sim, e se me dá licença, ela está


atrasada para o trabalho – Puxei meu braço com áspera
força. Seus dedos deslizaram pela minha pele...
Impossível não deixar de sentir calor com o toque das
mãos dela em mim.
- Vai voltar? – Fitou meus olhos.
- Não volto, não! – Desviei o olhar, ela sabia o que seus
olhos exerciam sobre mim - vou pra casa, preciso
dormir.
- Boa idéia! Acho que também vou pra casa, aproveito
que não tem ninguém lá... Tomo um banho pra
relaxar...- Deslizou a mão pelo pescoço, afastou o
cabelo da nuca, descansando os fios por cima do lado
direito do ombro - Tá um calor, né? – Disse sugestiva.

Lembrei-me das palavras de Mary: “ela sabe provocar


como ninguém”.
- Porque tá me dizendo isso? Só pra eu ficar maluca? –
Não consegui me segurar.
- Desculpa – Sorriu satisfeita com o meu descontrole.

Fitei a calça jeans que ela vestia, Nossa! Seu corpo


ficara ainda mais provocante naquela calça.

- Deixa eu ir – Disse desviando o olhar - Antes de fazer,


ou falar alguma besteira – Pensei.
- Desculpa mesmo, Cris – Disse com um sorriso
debochado no canto dos lábios.
- Tchau, Natasha – Disse irritada – Essa garota deve
ser feiticeira – Pensei, logo ri do meu pensamento
ridículo.

Depois que Bia foi para o Hospital... Tomei um banho


bem gelado, e demorado também. Vesti uma camiseta,
um short e liguei o som na sala. Deitei-me no sofá e
tive a impressão de ter cochilado, pois, assustei-me
quando a campainha tocou. Olhei o relógio, nove e
meia, eu havia dormido mesmo. Abri a porta...

- O que você está fazendo aqui? – Disse surpresa.


- Oi pra você também – Disse irônica – posso entrar?
- Sim... Claro – Estava confusa. O que ela queria? –
Pensei.

A menina estava com a mesma roupa do churrasco,


concluo que tenha vindo direto pra minha casa. Claro!
Eu não esqueceria jamais aquela calça jeans com uns
detalhes rasgados, ela ficara linda dentro dela. Natasha
entrou, estava um pouco pensativa, aflita também.
Arrisco dizer. Ficamos nos olhando sem dizermos nada
uma para a outra, acho que pelo menos um minuto.
- Lembra quando eu disse que esperava não ser tarde
demais quando eu tomasse uma decisão? – Disse
quebrando o silêncio.
- Do que você está falando? – Disse ainda mais
confusa.
- É tarde, Cris? – Fitou-me com os olhos mais tristes
que eu já vi na minha vida.
- Dá pra parar de me enrolar e ser mais clara? – Disse
impaciente. Tenho dessas coisas: dificuldade pra
desvendar enigmas, ou você me diz o que quer com
todas as letras, ou eu realmente não te entendo.

A menina puxou-me repentinamente pelo pescoço e


grudou seus lábios macios nos meus... Mesmo sem
esperar aquela atitude, tenho que confessar que...
Nossa! Senti tanta sede daquela boca, nosso beijo
parecia não ter fim... Era molhado... Cheio de desejo...
Ritmado com gemidos baixinhos...

- Mais clara do que isso? – Disse entre beijos na boca e


no pescoço.

Afastei-a de mim... Por livre e “espontânea pressão”,


diga-se de passagem... Eu queria tanto ter continuado
aquele beijo, mas... Ela sempre me confunde, não é?
Eu sinceramente não queria mais passar por isso.

- Enlouqueceu, foi? – Respirei fundo, tentando me


situar, sabe? – Se está procurando diversão eu já te
disse que tenho uma pessoa ótima pra te indicar –
Concluí sarcástica.
- Cris! Eu sei que é difícil pra você acreditar em mim,
mas... Droga! – Sentou-se no sofá... Mãos trêmulas nos
joelhos... – Desde que nos conhecemos, não tem um
dia que eu não pense na gente.
- Não acredito em você! – Sentei-me numa poltrona
bem afastada da dela – Você só me faz sofrer, Naty!
Ilude-me... Me usa... Brinca com os meus sentimentos,
mas... Agora que eu estou bem... Agora que estou...
Estou... Apai...xonada por outra mulher... Você...
- Eu não quero te perder! – Aproximou-se de mim...
Levantei-me de imediato e fui até a janela. Não podia
ceder, eu não queria ceder!
- Eu sei que você não quer perder o seu brinquedinho –
Disse amarga.

Ela abraçou-me por trás... Senti suas mãos tocarem a


minha barriga... Fechei os olhos... Eu já não sentia as
minhas pernas...

- Não posso mesmo te cobrar que entenda os meus


motivos... – Encostou a cabeça nas minhas costas e
continuou falando – Fui infantil com você... Insensível...
Mas, não sofri menos... É horrível tentar fugir das
próprias vontades, do próprio sentimento... – Suspirou
– Não soube administrar o meu medo, Cris! – Disse
enquanto eu sentia suas lágrimas ultrapassarem o
tecido da minha camisa.

... Retirei sutilmente as mãos de Natasha que laçavam


o meu corpo... Afastei-me da janela... Olhei-a de
frente... Eu nunca vi antes aquela garota tão
desarmada...

- Não acredito em você! – Repeti tentando mentir para


o meu coração, que teimava em querer acreditar nela.
- Eu lamento... – Enxugou algumas lágrimas que
rolavam pela sua face – Jamais vou me perdoar por ter
sido tão covarde – Caminhou até a porta... Girou a
maçaneta... Eu não tive orgulho essa história toda!
Lembram? Mas... Já era hora de mudar, né? Então...
Fechem os olhos... Fecharam? Imaginem o sorriso da
mulher que vocês amam, ou um dia já amaram, se
desfazendo para sempre no seu pensamento...
Imaginaram?
- Espera! – Tomei a sua frente... Bati forte na porta
para fechá-la novamente... Não consegui deixá-la ir
embora... Aqueles olhos lindos me olharam tão... Tão...
Surpresos? Pode ser... Eu não disse nada, nem ela...
Segurei forte seus braços e a puxei para mim...
Apertei-a sem pressa, sem medo... Sem receio da sua
repulsa... Beijei-a como se fosse a primeira vez... E era
mesmo... Não me olhem assim! Eu nunca resisto a
ela... Puxei Natasha pelas mãos, levando-a para o
quarto... E nada, nem ninguém passavam pela minha
cabeça naquele momento, e eu não precisava fechar os
olhos para sonhar com ela. Meu corpo tremia de um
desejo tão intenso, que não ousaria explicar nessas
poucas linhas, posso adiantar que Natasha era o meu
mundo, a minha vida... Eu só sentia-me completa
estando com ela, e essa certeza queimava dentro de
mim. Eu mal conseguia respirar, seu cheiro era tão
bom... Seus cabelos tinham um perfume inigualável...
Minhas mãos se perdiam naquela pele macia e quente.
Meus lábios procuravam desesperados os seios dela, e
minha língua deslizava por eles, chupando-os como se
eu nunca tivesse tido outra mulher antes dela, e não
tive mesmo, não outra que me fizesse sentir tudo
aquilo que eu estava sentindo. Beijei sua barriga, seus
pêlos se arrepiavam toda vez que minha língua
deslizava por ela, torturei-a por longos minutos, até
abrir suas pernas e sugar seu sexo molhado com
vontade... Natasha apertava com as mãos o lençol da
cama enquanto minha língua entrava dentro dela. Seus
gemidos ficaram mais freqüentes, sua respiração ainda
mais descompassada... Parei de chupá-la... Ela olhou-
me confusa. Escalei seu corpo novamente com meus
lábios... Beijei-lhe a boca... Olhei bem dentro dos
olhos da menina... E coloquei meus dedos dentro
dela... Natasha gozou na hora, e eu fiquei olhando pro
seu rostinho – Não há nada mais bonito nesse mundo
do que o rosto de uma mulher gozando, o dela então...
– Pensei, logo vi sua face ficar tranquila e seu corpo
relaxado. Nesse instante, ela agarrou meu rosto com as
duas mãos tremulas, me olhou como eu nunca pensei
que Natasha me olharia um dia, e disse:
- Eu te amo, Cris!

Naquele momento, ela me fizera a mulher mais feliz do


mundo, e nada me faria esquecer aquele olhar. Podem
passar mil anos, e ainda assim, eu lembrarei daquele
olhar. Uma lágrima escorreu dos meus olhos sem que
eu percebesse, ela conteve com as mãos delicadas, e
tornou a beijar-me na boca.

- Eu sonho com esse momento todos os dias – Disse


ainda sem conseguir controlar as sensações
maravilhosas que estavam dentro de mim.
- Você pode ter momentos como esse todos os dias –
Disse ela – Se não for tarde, é claro.
- Nunca vai ser tarde, Naty... Você sempre estará aqui
dentro – Apontei o meu coração.
- Então... Vamos começar de novo – Disse sorrindo
enquanto ajeitava-se na cama – Cris, você quer ficar
comigo? – Encostou seus dedos nos meus lábios
impedindo que eu respondesse – Mas... Se por acaso
não tiver certeza do que quer, vá pra casa, pense em
tudo o que conversamos, e só me procure quando
souber o que realmente quer – Concluiu.
- Já estou em casa – Sorri.
- Mais um motivo para me responder logo.

Agarrei-a pela cintura e puxei-a para cima de mim,


continuei beijando-a.

- Quer que eu seja mais clara que isso? – Minha voz


fora sufocada pelos lábios dela.
- Poxa Cris! Desde que nos conhecemos, você vive
repetindo o que eu digo.
- É porque não tenho assunto com uma garotinha de
dezenove anos – Disse irônica.
- Não sou uma garotinha.
- É sim.
- Não sou, não! – Fez cara de aborrecida.
- Tá bom, não é – Prendi sua língua na minha boca,
sugando-a – Você é uma mulher – Sussurrei.
- Você fala demais – Puxou-me com força, agora eu é
quem estava por cima dela. Beijei-lhe a nuca, o
pescoço, enquanto minhas mãos deslizavam pelos seus
seios, desciam para suas coxas... Nossos beijos foram
ficando mais quentes, nossos corpos pareciam um só
naquela cama, minha perna no meio das dela
arrancava-lhe gemidos de prazer, ela adorava aquele
contato, ficava toda molhada, e pressionava cada vez
mais seu sexo na minha perna.

Natasha dormiu abraçada a mim, e eu, bom, custei pra


dormir, fiquei velando o sono dela por horas,
acariciando seus cabelos que caiam pelo meu rosto, e
relembrando cada instante daquela noite, que pra mim,
havia sido a melhor de toda a minha vida, a melhor
porque eu ouvi pela primeira vez a mulher que eu amo,
dizer que me ama... Nada paga esse momento.

- Meu Deus! Como ela é linda! – Pensei, logo sorri. Eu


não estava sonhando como das outras vezes, era ela...
A mulher que eu procurei a vida inteira, e encontrei em
uma garotinha de dezenove anos, imatura, cheia de
dúvidas, medos, receios... Logo eu, que sempre
admirei as mulheres mais velhas, mas maduras,
preparadas realmente para a vida... Entreguei meu
coração a uma menina que ainda tinha cara e jeito de
criança, mas, que se mostrava uma mulher incrível na
cama, e despertava em mim, o meu maior desejo de
viver... Estranho o que o amor faz com a gente, né?

...A campainha tocou, levantei-me de sobressalto, vesti


com rapidez um short e uma camiseta... Olhei o
relógio que estava sobre a cômoda, eram sete e
quarenta e cinco da manhã, lembrei-me de que Bia
havia dito que assim que chegasse do hospital passaria
no meu apartamento. Parei um instante, percebi que
Natasha não estava na cama, a campainha também
havia parado de tocar... Nossa! Eu não sabia onde
enfiar a minha cara, tamanho fora o meu
constrangimento. Natasha quem atendera a porta, e
fora realmente Bia que tocara a campainha. O que dizer
numa hora como essa? Posso explicar? Não, isso não
adiantaria nada.

Olhei para Bia... Passei as mãos pelos meus cabelos...


Nervosa, posso garantir.

– Mas que droga! – Pensei. Eu não queria que ela


ficasse sabendo desta forma, não desta forma - Eu
posso... Explicar – Disse de repente, logo me odiei.

Bia olhou-me com uma calmaria assustadora...

- Bom dia, Cris! – Disse – Depois conversamos sobre o


que você quiser, agora estou muito cansada, preciso
dormir.
- Espe...ra... – Ela deu-me as costas, antes que eu
pudesse terminar de falar.

Olhei para Natasha que estava de cabeça baixa fitando


o sofá.
- Também não sei como dizer isso pro Guga – Disse
desanimada.

Fitei-a cheia de receios...


- Tá dizendo... Que... Não sabe sebe como dizer isso
pra ele, ou que não quer dizer isso a ele? – Disse
insegura.
- Para de distorcer o que eu digo, Cris! Sua boba! –
Beijou-me – Eu te amo. Custei pra admitir isso, não
quero mais correr o risco de perder você.
- Repete.
- Não quero mais...
- Não! Repete que me ama – Sorri boba de verdade.
- Eu te amo...Eu te amo...Eu te amo...

Aquela frase era música para os meus ouvidos, eu


fechei os olhos, e fiquei ouvindo-a repetir várias vezes
que me amava. Natasha dava-me força para enfrentar
qualquer coisa nessa vida, bastava olhar seu sorriso,
pronto! Como mágica eu era a pessoa mais forte do
mundo.

À tarde Natasha foi para casa. O celular da menina


havia tocado o dia inteiro. Ela não atendeu, era o Guga
quem estava ligando. Ele ligou do celular, ligou de casa
e até do celular da mãe dele...A menina me garantiu
que hoje falaria com Guga, e eu, sinceramente não
posso dizer que estou completamente feliz, como vocês
sabem, as circunstâncias não favorecem. Nossa! Acho
que o destino, ou seja lá o que for, me pregou uma
peça, vocês concordam comigo que foi um erro me
apaixonar logo pela mulher que conquistou o coração
do meu primo? Eu sei, eu sei... No coração a gente não
manda. Como se não bastasse isso, eu também tinha
que falar com Bia, ela no mínimo merecia uma
explicação. Eu sei, eu sei... Nenhuma explicação
poderia justificar o ocorrido, mas... Ela merecia uma.

Tomei coragem... Toquei a campainha do apartamento


de Bia... Eu estava de cabeça baixa quando ela abriu a
porta. Como encará-la? – Pensei.

- Oi Cris – Disse ela com a mesma calmaria de sempre


– Esquivou-se da passagem, fez um gesto... Eu
entrei... Ela fechou a porta atrás de mim.
- Bom... – Fitei-a completamente desconcertada.
- Quer café? Acabei de fazer – Interrompeu-me.
- Sim – Disse de imediato, pensei em ganhar tempo
para elaborar algo bem... Bem... Sincero pra dizer?
Nessa altura do campeonato, que mentira esfarrapada
eu podia usar? Não! Eu não queria mentir... O cheiro do
café estava delicioso, já disse que sou louca por café?
Fomos até a cozinha e ela serviu-me uma xícara, nesse
instante, Bia ficou olhando-me, acho que ela estava
esperando a tal da explicação. Será que tem explicação
para o que eu fiz? Que justificativa usar nesse
momento?
- Olha, Cris... – Disse enquanto puxava uma cadeira
para se sentar – Acho que... O que vi, já explica tudo –
Disse firme – Somos adultas, e saberemos encarar essa
situação, portanto, não precisa ficar com essa cara, não
morreu ninguém! – Sorriu – Você não foi a primeira a
me “cornear” e espero sinceramente que não seja a
última – Fitou-me novamente – Não me olhe assim,
oras! Ainda quero viver muitas outras estórias... Com
muitas outras pessoas – Concluiu.
- Bem... Poxa, Bia! – Ela me surpreendeu... Nossa!
Como surpreendeu – Não... Não costumo fazer esse
tipo de coisa com as minhas namoradas, é que... É
que...
- Eu sei, eu sei... Ela apareceu sem avisar, a carne é
fraca... E o resto a gente já sabe – Resumiu a seu
modo. Pratica, né?
- Olha... Não é porque a carne é fraca... – Ainda não
conseguia agir com naturalidade, apesar da
compreensão de Bia – Se... Se fosse qualquer outra
mulher eu... Eu... Mas, a Natasha...
- É a mulher que você ama – Completou a frase.
- É – Disse aliviada.
- Bom saber que você está sendo correspondida –
Sorriu, um sorriso não muito acolhedor, mas, um
sorriso – Quer mais café? – Fiz um gesto dizendo que
não queria – Foi muito bom os momentos que nós
vivemos, mas... Se acabou, paciência.

Fiquei olhando aquela mulher na minha frente, tão


forte, decidida... Como ela podia manter toda aquela
calma? Acabou de surpreender a namorada com
outra...

- Não me olhe assim, já pedi! – Disse fingindo


aborrecimento, logo sorriu novamente – Queria que eu
fizesse o que? Te jogasse da minha janela? Ou quem
sabe seria satisfatório pra você, que eu fizesse um
escândalo na sua porta? – Não pude deixar de lembrar-
me de Mary, quase sorri – Acho melhor do jeito que
está sendo – Continuou ela – Civilizado – Frisou a
palavra – Tomamos um delicioso café enquanto
selamos um acordo de amizade – Concluiu com
naturalidade.
- Ainda quer minha amizade? – Fitei-a surpresa, isso é
prova de maturidade? Bom, eu devo ser bem imatura
então, porque talvez não iria querer ser amiga de
alguém que me corneou. Olha como somos egoístas?
- Espero que você seja mais leal como amiga do que foi
como namorada – Segurou minhas mãos, sorriu –
Desamarra essa carinha, Cris! Eu vou estar sempre
aqui, e caso precise conversar, basta tocar a campainha
da minha casa... E se você também quiser me levar
naquele restaurante que me prometeu, lembra? Fica a
vontade...Continua tudo igual, a única diferença é que
não vamos mais dividir a mesma cama.
- Que alívio! – Pensei. Pela primeira vez esbocei um
sorriso real – Bom... Achei que você nem iria me
receber, e ouvindo você falar tudo isso... Nossa!
- Tá brincando? Você ainda me deve um jantar.
- Não esqueci do jantar – Respirei fundo – Não está
mesmo magoada?
- Estou! Magoada eu estou – Levantou-se – Eu não
esperava ver você nos braços dela tão cedo, no
entanto, pelos olhares que eu vi vocês trocando na
festa do seu irmão, eu sabia que mais cedo ou mais
tarde isso aconteceria... Mas, às sete da manhã? –
Sorriu divertida – Não! Às sete da manhã foi demais
para o meu sexto sentido me prevenir – Ela se superou
desta vez – Mas... Me diz! Se eu não me engano, a
menina é a namorada do seu primo, não é?
- É sim, ela foi pra casa, e... Vai conversar com ele
ainda hoje – Disse preocupada.
- Seu primo parece ser bravo – Pensou um pouco –
Tomara que ele não crie problemas para vocês.
- Estranho vai ser se ele não criar – Levantei-me
também, debrucei-me sobre um balcão de mármore
que dividia a cozinha – Ele gosta muito dela. Sabendo
disso, fico dividida entre a felicidade de estar com a
mulher que amo, e a tristeza de ver meu primo sofrer,
e o que é pior: sofrer por ela.
- Coisas do coração, Cris... Para um de vocês sorrir, o
outro vai ter que chorar, não tem outra solução.

Já passava das dez quando a campainha tocou... Eu


estava no meu quarto, pensando em Natasha, sai
correndo pra atender, podia ser ela... Abri a porta, e
ele, digo, Guga, entrou como um furacão, empurrou-
me contra a parede, seus olhos estavam cheios de ira.

- Traidora! – Gritou enquanto apertava meu pescoço


com o antebraço - Ela não vai ficar com você, Cris! Se
você não esquecer essa história de ficar com a minha
mulher eu te mato.
- Tá me machucando cara – Disse enquanto tentava
empurrá-lo – Não seja idiota! Não torne as coisas mais
difíceis – A voz saía sufocada, faltava-me o ar.

Ele soltou-me, eu comecei a tossir, o ar enfim foi


voltando para os meus pulmões... A respiração
restabelecendo aos poucos. Quem era aquele sujeito
parado na minha frente, olhando-me com tanto ódio?
Não era o meu irmão Guga, podem apostar.

- Desiste dela, Cris! A gente não precisa brigar – Ele


estava suado, suas mãos inquietas... Andava de um
lado para o outro da casa, passava as mãos no rosto,
nos cabelos... Sem contar o cheiro de álcool na boca e
nas roupas.
- Ela não quer ficar com você! Será que ainda não
entendeu? – Alterei-me.
- Você tem tudo, droga! Porque quer a minha mulher
também? – Gritou.
- Eu não quero a sua mulher, eu quero a Natasha... –
Baixei o tom de voz, vi uma lágrima escorrer dos olhos
dele – A gente se gosta, Guga... Se eu pudesse
escolher, mas...
- A Natasha não gosta de mulher! Eu sei muito bem do
que ela gosta e posso te garantir que não é de mulher!
– Continuou descontrolado.
- Vai embora! – Disse ríspida – Vai! – Repeti.

Guga sorriu, um sorriso irônico...


- Tá morrendo de medo, né? – Passou a mão pelos
cabelos, ameaçou ir embora e voltou – No fundo, Cris...
Bem lá no fundo... Você sabe que é um erro! – Sorriu
novamente – Ela vai te trocar por um homem, mais
cedo ou mais tarde... Ouviu bem? – Aproximou-se da
porta.... Abriu – Vai te trocar! Pode escrever o que
estou te dizendo.
- Vá embora! – Gritei. Ele saiu... Eu empurrei a porta
com força... Sentei-me no sofá da sala completamente
desolada... Mãos na cabeça... Deixei o corpo cair para
trás... Será que esse amor me deixou tão cega a ponto
de me enganar tanto com essa relação? – Pensei, logo
levantei-me e fui para o quarto. Deitei-me novamente
na cama... Foi inevitável não pensar no que ele havia
me dito... Será que Natasha estaria comigo se ele não
estivesse no fundo do poço? Nossa! Acho que quem
estava no fundo do poço naquele momento era eu,
corroída por essa dúvida... Concordam comigo que às
vezes é melhor sofrer com a certeza, do que se
submeter à tortura da dúvida? Não demorou para a
campainha tocar novamente... – O que será que ele
quer desta vez? – Pensei enquanto levantava-me para
atender a porta novamente... Abri a porta... Natasha
jogou-se nos meus braços... Soluçante, trêmula,
nervosa...
- O que aconteceu, amor? – Tentei fitar seus olhos.
- Seu... Seu primo enlouqueceu, Cris! – Disse
perturbada.
- Vem cá... Senta aqui... – A menina sentou-se no sofá
– Espera, vou pegar água pra você – Disse e corri para
a cozinha... Misturei açúcar na água, nem sei se isso
funciona mesmo como calmante, mas... Todo mundo
faz, né? Quem nunca tomou água com açúcar para se
acalmar? Tá valendo então. Retornei a sala – Bebe, vai
te fazer bem – Disse enquanto entregava-lhe o copo.

Fiquei alguns segundos encostada na parede de braços


cruzados olhando-a tomar a água... Nesse instante, as
palavras de Guga martelavam ainda mais na minha
cabeça, no entanto, eu não estava se quer cogitando a
possibilidade de questionar alguma coisa a respeito...
Não era hora para cobranças... Eu também nem queria
cobrar nada, ou tinha medo do que poderia descobrir
com algum tipo de questionamento, sabe?
Sinceramente, não sei de mais nada!

- Tá melhor, Naty?
- Estou – Entregou-me o copo vazio... Coloquei-o ao
lado da TV... – O Guga voltou na minha casa... Nós
brigamos, foi horrível, Cris!

Sentei-me ao seu lado, segurei suas mãos...

- Lamento muito, amor – Estava sem palavras.


- Meu pai se meteu na discussão... Eles se agrediram...
- Ele encostou em você? – Disse com os olhos cheios de
raiva.
- Só apertou o meu braço – Mostrou-me um hematoma
– Ele não gostou quando... Quando... – Fitou meus
olhos com carinho – Quando eu disse que te amo –
Sussurrou.

Nossa! Vocês ouviram isso? Acho que ela dissipou toda


e qualquer dúvida que estava corroendo o meu
coração, certo? Abracei-a com carinho... Senti meus
olhos molhados... Posso dizer que eu não precisava de
mais nada da vida naquele momento, eu já tinha
tudo... Natasha era o meu “tudo”, ela preenchia todos
os espaços vagos que me impediam de ser uma pessoa
completa.

- Olha, Naty... – Disse fitando seus olhos – O Guga tá


doente... Muito doente – Baixei os olhos – Ele perdeu o
controle, e você era a única referência que ele tinha
para tentar lutar contra as drogas – Disse com a voz
embargada.
- Ele precisa de tratamento, Cris! Nossa! – Disse
perplexa – Você tinha que vê-lo, estava drogado... Ou
bêbado, sei lá! Irreconhecível mesmo... De dar pena...
- Eu sei... Ele veio aqui.
- Hoje?
- Agora pouco – Fiquei em silêncio por alguns
segundos... – Veio me ameaçar... Pediu para eu não
ficar com você – Disse com um gosto amargo na boca,
eu queria tanto que tudo fosse diferente, eu juro!
- Você... Não... Vai se intimidar com as ameaças dele,
não é? – Passou as mãos trêmulas no meu rosto – Eu
sei... Que ele é como um irmão pra você, Cris... Mas...
Não... Não desiste da gente... Eu não quero te
perder de novo – Disse com lágrimas escorrendo pela
sua face... Fiquei emocionada também, seus olhos
estavam tão brilhantes... Tão sinceros...
- Hei! – Cheguei mais perto... Sorri pra ela... Eu estava
encantada com sua fisionomia temerosa, com os seus
olhos negros transbordando de paixão – Você nunca me
perdeu, Naty! E... Jamais vai me perder – Beijei seus
lábios frios de apreensão, senti suas lágrimas se
misturarem no nosso beijo – Eu te amo, menina –
Sussurrei com meus lábios encostados nos dela – Eu te
amo – Repeti e a abracei mais forte.
- Ele... Ele falou de nós para os meus pais, Cris – Disse
tímida.
- E eles?
- Não acreditaram... Os dois não conseguem imaginar
que um dia eu poderia me apaixonar por uma mulher.
- E se eles...
- Shiiiii – Colocou o dedo nos meus lábios, impedindo
que eu pronunciasse algo – Esquece eles – Puxou-me
com força... Eu deitei-me sobre o seu corpo... Natasha
começou a puxar minha blusa para me despir...

Na manhã seguinte, deixei Natasha dormindo e antes


de ir para o trabalho, passei na casa dos meus pais...
Precisava tomar alguma providência quanto a Guga,
por isso procurei meu pai. Esperei-o na sala...

- Bom dia, filha – Beijou o meu rosto.


- Papo sério, pai – Disse de imediato.
- Imagino que seja mesmo, nem esperou-me chegar na
loja – Disse e sentou-se no sofá. Sentei-me também e
conversamos por longos minutos...

...Fomos até a casa de tia Vera, perguntamos a ela se


Guga estava em casa, ela disse que o mesmo estava no
quarto dormindo, pois havia chegado há pouco. Meu pai
achou melhor que ele não estivesse mesmo presente,
tínhamos que preparar o coraçãozinho de minha tia
para a bomba que iria explodir na sala dela naquele
momento. Sim! Imaginem uma pessoa querida
aprisionada no mundo das drogas... Imaginaram?
Então... Sofremos todos, sem exceção.

Pronto! Contamos tudo a ela, minha tia ficou desolada,


abraçou meu pai e chorou por longos minutos... Meu
pai ficou repetindo que tudo acabaria bem, que Guga
tinha chances de se recuperar... Falar é fácil, difícil é
acreditar na cura completa... Fui até a cozinha e peguei
um copo d´água para minha tia, mais uma vez fiz a
receitinha com açúcar... Ela bebeu devagar... Mãos
trêmulas... Olhar perdido em suas reflexões...

- Meu Deus! – Disse ela com o olhar vago – Como não


percebi antes? Andou sumindo dinheiro da minha bolsa
com freqüência... Algumas jóias, objetos aqui de casa...
– Abandonou a água num canto... Pôs as mãos na
cabeça, balançou no sentido negativo... – Como fui tão
cega? Meu único filho, Carlos! Onde foi que eu errei?
Sempre dei tudo de melhor pra ele...
- Calma, Vera... – Apoiou as mãos nas costas da irmã –
Ele vai ter um tratamento adequado... A Cris tem um
amigo na faculdade que conhece uma clínica de
reabilitação muito boa – Disse confortando-a.
- É tia... – Fitei-a com pena, acho que pena é um dos
piores sentimentos que um ser humano pode sentir por
outro, não acham? É um sentimento tão sombrio – Ele
vai ficar bem – Suspirei – Só temos que convencê-lo de
que precisa de ajuda.

Antes que eu pudesse ouvir as palavras de tia Vera,


Guga entrou na sala furioso... Empurrou-me e começou
a gritar comigo...

- Sua traidora! – Disse sem conseguir conter a raiva


que brotava dos seus olhos – Não ficou satisfeita em
roubar a minha namorada? Tinha que vir aqui fazer
intrigas para minha mãe? – Empurrou-me novamente...
Esbarrei em um jarro de minha tia e o mesmo caiu no
chão e se estilhaçou...
- Calma, rapazinho! – Interveio meu pai – Vamos
conversar, filho!
- Tira a mão de mim! – Gritou – Eu não sou seu filho!
Eu não ia querer ser irmão dessa traidora!
- Guga, eu só quero te ajudar – Disse tentando
justificar minha atitude.
- Ajudar? – Continuou bravo – Você quer destruir a
minha vida! Isso sim!
- Filho... Senta aqui – Disse tia Vera já aos prantos,
segurando o braço de Guga... – Você precisa de um
tratamento... Vamos ver uma boa clínica de
desintoxicação...
- Eu não tô doente! Que merda! – Num momento de
raiva maior, meu primo fez um movimento brusco com
as mãos e quebrou de uma só vez todas os bibelôs de
porcelana que estavam sobre a estante da sala...
Ficamos atônitos com a atitude de Guga, e com o
barulho dos objetos caindo no chão... O movimento
dele fora tão brusco, que mesmo o móvel sendo antigo,
daqueles de madeira maciça, ameaçou tombar para
frente – Será que vocês não estão vendo que ela quer
me internar numa clínica para eu ficar longe da
Natasha? – Disse fervoroso em sua certeza.
- Cara! Você tá viajando! – Disse incrédula.
- Gustavo! Somos pessoas civilizadas, vamos resolver
isso com calma – Disse meu pai – Sua mãe não merece
esse desgosto, filho – Completou.
- Cala a boca tio! Já disse que não sou seu filho! –
Gritou novamente... Nesse instante, começou a
esfregar as mãos na cabeça, parecia alucinado...
Andava de um lado para o outro... – Eu não vou pra
droga de clínica nenhuma! Ouviram? Vocês estão
loucos? – Sorriu debochado – Eu não tô doente, merda!
– Disse furioso.
- Gustavo, eu... Não vou mais te dar dinheiro! Você vai
ter que arrumar uma ocupação – Disse tia Vera, logo
voltou a chorar – Não vou ver você estragar a sua vida
e ficar de braços cruzados – Completou mortificada.
- Tá caindo na pilha dela, né D. Vera? – Disse irônico –
Pergunta pra sua digníssima sobrinha... Quem ela está
namorando – Fitou-me severo – Ou melhor... Não
pergunta, não! Eu digo... Ela tá trepando com a minha
namorada! – Disse aos berros.
- Pára com essa mania de perseguição, Guga! – Tentei
aproximar-me dele, coloquei a mão no seu ombro... Ele
estava arredio, virou-se bruscamente, fugindo do meu
contato. Irritei-me, na verdade, perdi foi a paciência de
vez – Você não quer ajuda, não é? Pois bem! Fica nesse
esgoto em que se meteu!
- Não dá esse desgosto pra sua mãe, por favor – Disse
minha tia desesperada.
- Desgosto? A Sra. não sabe o que é desgosto! Eu tô
arrasado e ninguém liga, droga! – Apoiou as mãos no
balcão do bar que havia na sala... Silêncio, sua
respiração afobada... Passou rapidamente a mão no
rosto – Eu tô puto com você, Cris! Puto com você! –
Disse, logo apanhou uma taça de vinho nas mãos e
arremessou na minha direção, só deu tempo de
esquivar-me um pouco... Puro reflexo... Vi o objeto
bater na parede ao meu lado... Depois desse gesto,
meu primo saiu correndo pela sala, logo ouvimos o
estrondo da porta batendo... Minha tia foi amparada
por meu pai, que segurou em suas mãos e a conduziu
até o sofá para que se sentasse, já que suas pernas
teimavam em não sustentar o seu corpo.

...Ligamos para todos os amigos de Guga, fomos em


todos os lugares onde ele costumava freqüentar, e não
o encontramos... Já faziam dois dias desde a briga que
tivemos na casa da minha tia, e ele não dava notícias...
Mal conseguíamos pregar os olhos de tanta
preocupação, e especulações de onde ele poderia ter se
metido... Ele estava sem dinheiro e sem documento
algum... Ligamos para hospitais, demos queixa pelo
seu desaparecimento... E nada... Eu estava na casa de
Mary quando o telefone tocou...
- Alô? – Disse receosa, era número de telefone público.
- Cris!
- Guga? – Levantei-me de sobressalto da poltrona –
Onde você está, cara? – Disse afobada – Deixou todo
mundo preocupado.
- Eu... Eu... – Silêncio do outro lado da linha, sua
respiração estava alterada – Pode me encontrar aqui na
praia? Estou em Copacabana... Posto seis – Disse com
tom de voz angustiado.
- O que aconteceu? – Fiquei ainda mais preocupada.
- Não pergunta, merda! – Alterou-se – Pode vir ou
não?
- Você está me assustando – Disse e troquei o telefone
de ouvido, olhei pela janela – Sua mãe tá sofrendo,
sabia?
- Sem sermão, Cris!
- Queremos te ajudar – Disse quase num sussurro, eu
estava sem forças para tentar convencê-lo a fazer um
tratamento.
- Pode trazer quinhentos reais pra mim? – Disse sem
rodeios.
- O que? – Logo percebi o porquê de sua ligação – Tá
devendo de novo, cara?
- É a última parte da dívida... E...
- Posto seis, né? – Interrompi-o – Me espera, tô
chegando – Desliguei o telefone... Ainda fiquei com ele
nas mãos... Olhar vago... Mary tocou o meu ombro, me
resgatou dos meus pensamentos...
- Eu vou contigo, Cris! – Disse ela.
- Não! Não vou te envolver nisso.
- Ele pode estar armando pra você, Cris! – Abraçou-me
– Vamos chamar a polícia... Ele não está no seu juízo
perfeito...
- Não é possível que ele não esteja pelo menos com um
fio de arrependimento – Segurei suas mãos, olhei nos
seus olhos – Eu vou convencê-lo de que precisa de
ajuda.
- Cris! – Puxou-me novamente para um abraço – Não
vou deixar você ir sozinha – Disse perto do meu
ouvido.
- Tá – Disse, logo dei-lhe um beijo na testa – Pega...
Pega... A bolsa lá dentro, eu te espero – Ela sorriu.
- Já volto! – Disse e saiu correndo pela casa.
- Desculpa amiga – Pensei. Peguei as chaves que
estavam ao lado da TV... Sai e tranquei a porta
deixando-a presa. Claro! Se ela estiver certa? Se o
Guga está armando mesmo pra mim, eu não iria me
perdoar nunca se acontecesse alguma coisa com Mary.
E... Eu... Tava com um pressentimento ruim, sabe?
Nem acredito nessas coisas, mas... Meu coração tava
apertado, um gosto amargo na boca... Uns arrepios
esquisitos pelo corpo...

...Passei em casa... Peguei o dinheiro que ele havia


pedido... Depois de quinze minutos cheguei na praia...
Estacionei o carro na orla... Logo que desci do
automóvel, vi Guga encostado numa árvore, estava
com as mãos no bolso... Vestia uma camisa vermelha
surrada que eu nunca tinha visto antes, uma calça
jeans também nas mesmas condições... Nos pés usava
chinelos ao invés de tênis, Guga odiava chinelos –
Pensei. Mais uma olhada... Barba por fazer... Arranhões
no rosto... E... Aproximei-me...

- Tira o óculos – Disse de imediato.


- Trouxe a grana pra mim? – Disse com o tom de voz
trêmulo... Estava visivelmente impaciente.
- Tira o óculos, cara! – Insisti.

Guga mortificado tirou os óculos escuro... Estava com o


olho direito roxo...

- Satisfeita? – Disse irônico.


- Isso é uma bola de neve, ainda não percebeu? – Disse
aflita, desesperada pra ser mais exata... – Aceita
passar uns dias na clínica, cara! – balancei seu ombro –
Eu me interno com você se for preciso... Por favor, nos
deixa te ajudar!
- Trouxe a grana ou não trouxe, Cris! – Olhou para os
lados desconfiado, acho que ele estava com medo de
alguma coisa – Depois... Que eu acertar com os cara...
Vou voltar pra casa, e... Me tratar nessa merda de
clínica que você tá falando – Seus olhos ficaram
marejados – Vou... Arranjar um emprego também,
Cris! Tô cansado... Muito cansado dessa vida –
Sussurrou.
- Promete? – Disse com os olhos também cheios de
lágrimas.
- Prometo – Disse... Ficou em silêncio olhando-me por
uns segundos, depois Guga me puxou para um
abraço... Nem pude acreditar nisso, tinha até me
esquecido como era confortável o abraço do meu irmão
– Diz pra minha mãe que eu a amo muito, Cris! – Disse
no meu ouvido – Um dia... Ela vai ter orgulho de mim...
Juro que vai ter – Concluiu.
- Diz isso você pra ela, cara! – Apertei-o em meus
braços – Sua mãe te ama tanto... – Sorri... Suspirei,
logo passei as mãos no rosto dele.
- Me diz uma coisa, Cris... – Fitou-me envergonhado –
O... O nosso segredo, lembra? Aquele dia na Rocinha...
Você... Você contou pra alguém, o que aquele cara fez
comigo? – Baixou os olhos.
- Esqueceu que sou boa pra guardar segredos? –
Levantei seu queixo... Olhei seus olhos... Sabem o que
vi? O olhar do meu irmão... Aquele do começo dessa
história, que sempre me metia em furadas, mas, que
eu amava, quer dizer, que eu amo – Esse segredo vai
comigo dessa vida, cara! Não se preocupe.
- Obrigado... Deixa eu ir, Cris! – Disse um pouco menos
aflito, enxugou as lágrimas que escorriam pela sua
face.
- Toma – Tirei o dinheiro do bolso da calça e entreguei
a ele – Não demora, tá?
Guga sorriu pra mim, e foi caminhando pela ciclovia...
- Não vou demorar! – Gritou e acenou com as mãos.

Eu sorri de volta, com o coração ainda mais apertado...


Cada vez mais apertado na medida em que eu o via se
distanciar de mim, a sensação que me deu é a de que
ele estava totalmente desprotegido... Antes de concluir
meu pensamento, e antes mesmo de tentar entender
que aperto era aquele no meu peito, ouvi um barulho
estrondoso de moto... De repente, coisas de segundos
mesmo... Um motoqueiro passou em alta velocidade,
deu uma meia parada e um homem que estava de
carona disparou seis tiros... Foi uma correria
tremenda... As pessoas gritando... Eu não consegui me
mover um centímetro de onde estava, sabe quando
você tem a sensação de que não está vivendo aquele
momento? Pois é! Eu fiquei assim... E vi Guga ser
baleado... Pisquei os olhos... Balancei a cabeça...

- Guga! – Gritei. O motoqueiro acelerou e partiu... Não


deu para ver a placa da moto, ela estava empenada,
bastante inclinada para o alto... Refeita do primeiro
impacto... Corri na direção de Guga, dos seis tiros
disparados, três o acertaram, um no braço direito e
dois na barriga... Coloquei a cabeça dele no meu colo,
seu corpo todo tremia, se debatia... Agonizava... Seus
olhos viravam, escorria sangue pelo canto esquerdo da
boca...Ele queria falar, puxava o ar... A voz não saia...
- Não diz nada – Disse desesperada. Começou a se
formar uma multidão em volta de nós... Tentei discar o
número de socorro, mas... Minhas mãos estavam
trêmulas, e eu também não lembrava o número do
corpo de bombeiros, três números e eu não lembrava...
Parecia que tudo havia se apagado da minha cabeça...
Em meio a aquela confusão toda, ao longe vi um
senhor no telefone chamando uma ambulância... Nesse
instante, voltei minha atenção toda para Guga que
segurava na minha camisa tentando puxá-la, mas não
tinha forças...
- Agüenta, cara! Agüenta! – Disse enquanto as lágrimas
escorriam sem controle pelo meu rosto, vocês não
podem imaginar o que é a dor de ver alguém que a
gente ama naquele estado, não podem... – Agüenta...
Por favor... – A voz quase não saia, eu soluçava...Vi
minha blusa branca mudar de cor, estava vermelha do
sangue que escorria do corpo dele... Coloquei a mão na
sua barriga, na minha profunda ignorância eu tentava
conter o sangue que não parava de jorrar. Droga!
Porque eu não fiz medicina? – Pensei... Eu realmente
não sabia o que fazer, nem sei se minha descrição
acima está correta, estou relatando o que meus olhos
leigos viram... – Tem algum médico aqui? – Gritei,
ninguém respondeu, quer dizer, um senhor chegou
mais perto...
- A ambulância já está vindo, filha – Disse com olhar
acolhedor. Era o mesmo Sr. Que vi ao telefone.
- C...ris – Balbuciou – D...iz – Sua respiração tava
falhada, ele parecia que ia se sufocar toda vez que
tentava pronunciar uma palavra – Mi...nha... mãe...
a...mo...
- Não diz nada... Fica quietinho – Acariciei sua face –
Não faz esforço – Sussurrei. Ele não me deu ouvidos...
Sempre teimoso! Mais que merda! – Pensei.
- Cuida... – Puxou o ar – Da... Naty... Pra... Mim –
Sussurrou... Enquanto seus olhos abriam e se
fechavam... Abriam e se fechavam...
- Me perdoa, cara! – Segurei sua mão – Eu não queria
ter me apaixonado por ela – Disse sincera.
- Cui..da... – Senti sua mão um pouco mais forte sobre
a minha, vi pelo seu semblante o esforço que tava
sendo... Seus olhos se fecharam novamente, logo se
abriram... Ele buscava o ar... Engasgava – De...la..
- Cuido – Sussurrei no seu ouvido. Nessa hora ouvimos
um barulho de sirene... Finalmente a ambulância havia
chegado... Os bombeiros pediram para abrirmos o
caminho, logo isolaram a área... Levantei-me do chão...
Eles colocaram Guga rapidamente numa maca, depois
na ambulância...
- Pra onde ele vai? – Perguntei um dos bombeiros...
Nem percebi que eu estava puxando o seu uniforme,
quase arrancando a roupa dele.
- Hospital Miguel Couto – Disse e saiu... Não me deixou
ir junto, nos filmes, eles sempre deixam... O carro –
Pensei – Não sabia mais onde tinha estacionado. Eu
tentava sair da multidão... Empurrava aqui, ali... De
repente senti alguém me puxar, quando me dei conta
já estava nos seus braços.
- Como... Como.... – Fitei-a confusa, eu havia trancado
a porta.
- Chaves reserva, esqueceu que tenho mania de perder
as coisas? – Disse e abraçou-me mais forte.
- Ele... Ele...
- Vem, Cris! – Puxou-me até o carro dela – Já liguei pra
Bia, ela está de plantão e avisei que seu primo está
sendo levado pra lá nesse instante.

Bia trabalhava no hospital para onde Guga estava


sendo levado, e eu estava tão atordoada que até me
esquecera disso... Deus! Parecia um filme de terror!

Foi a primeira vez que vi Bia toda de branco, ela estava


na porta da emergência nos esperando... Pensei em
não abraçá-la, iria sujá-la com o sangue que estava
sobre as minhas roupas, no entanto, ela puxou-me de
imediato para um abraço... Desabei a chorar
novamente...

- Fica calma, Cris! – Disse ela – Ele já está sendo


atendido, e o médico em questão é muito experiente, é
um dos melhores profissionais daqui do hospital.
- Diz que ele vai sobreviver, você é médica, pode me
dizer isso! – Continuei desesperada.
- Ninguém pode garantir nada, meu bem... Vamos
aguardar... Vamos aguardar... – Deu-me um beijo no
rosto – Vem – Disse. Começamos a caminhar por um
imenso corredor gélido e sombrio...

...Não demorou dez minutos e um médico alto, de


cabelos grisalhos... Veio em nossa direção... Bia
apertou-me mais forte, uma mão envolta do meu
ombro, a outra segurando a minha mão...

- Esse é o Dr. César Rodrigues – Disse ela.


- A Sra. É dá família? – Disse ele gentil.
- É a prima do paciente, César – Antecipou-se Bia,
achei bom, porque eu não tinha forças nem para falar.
Eles se olharam, um olhar estranho, olhar de médico,
sabe? Ele fez um gesto... Ela apertou minha mão mais
forte – Cris... – Disse agora fitando-me de frente –
Ele... O Guga... Não... Lamento, Cris! – Respirou fundo
– Ele não resistiu - Completou.

De repente ouvi umas vozes longe... Cada vez mais


longe... O chão começou a se mexer... Se mexer... E
eu desabei... Pude ouvir o barulho do meu corpo
encostando no chão, parecia câmera lenta... Acordei
com uma mulher de branco enfiando uma luzinha nos
meus olhos, acho que ela queria me deixar cega... Uma
enfermeira segurava o meu braço e media a minha
pressão... Bia estava segurando a minha mão e Mary
encostada na maca onde eu estava deitada...

- Tá me ouvindo, Cris? – Disse Bia.


- Tô.
- Você teve uma queda de pressão... Desmaiou... Agora
já está tudo bem.
- Diz que é mentira! – Pronto, acordei dentro do
pesadelo novamente – Diz! – Segurei forte no seu
jaleco, apertei-o nas mãos.
- Lamento... Ele chegou sem vida ao hospital – Disse
mortificada.

...Quando retornei ao corredor gélido e sombrio,


encontrei tia Vera abraçada ao meu pai e minha mãe
segurando as suas mãos... Natasha e Luiz aos prantos
no canto da parede... Caminhei lentamente até eles,
Bia e Mary estavam ao meu lado... Quando Natasha me
viu, veio correndo e largou-se nos meus braços...
Retribui o abraço, apertei-a bem forte e choramos
juntas...

... Era uma tarde fria, o tempo estava cinza e uma


chuva fininha teimava em se fazer presente... Despedi-
me de Natasha na porta do cemitério, eu não conseguia
ficar perto dela, precisava de um tempo para digerir os
últimos acontecimentos, e ela... Bom... Ela também
não se sentia muito confortável ao meu lado, isso era
visível nos seus olhos.

- Tem certeza que não quer que eu te leve em casa? –


Disse sem conseguir olhar nos olhos da menina. Era
torturante.
- Não precisa, Cris... Eu prefiro ir andando... Não fica
tão longe... – Baixou os olhos – Tchau – Disse fria.
- Naty! – Chamei-a antes que virasse as costas pra
mim – Acho... Acho que precisamos de um tempo –
Disse com nó na garganta.
- Cla...ro... – Disse um pouco surpresa, eu acho, oras!
Ela fitou-me surpresa pelo menos – Se é assim...
Cuide-se, Cris! – Sussurrou.
- Te digo o mesmo – Beijei seu rosto... Entrei no carro
e sai. Não tínhamos muito que conversar, na verdade,
tudo o que menos queríamos era conversar... Olhei
pelo retrovisor, e ela ainda estava parada, no mesmo
lugar, olhando sabe Deus pra onde.

Vocês devem estar se perguntando... Porque, né?


Sinceramente eu não saberei responder... Tudo havia
ficado tão estranho entre a gente... Eu não consegui
dar um beijo se quer nos lábios dela desde que toda
essa tragédia ocorreu, olhava para aquela garota que
eu tanto amava, e sentia dor... Bia e Mary foram para
casa comigo, não trocamos uma palavra por todo o
caminho...

- Cris! – Chamou-me Bia, logo que entramos no meu


apartamento, Mary havia ido até a cozinha – Desculpa
a intromissão, mas... Ouvi a sua conversa com a
Natasha, não acha que está sendo radical?
- Preciso de um tempo, Bia! – Encostei-me na parede
ao lado da TV – Eu fiz tudo errado desde o começo –
Comecei a chorar, ela abraçou-me, senti-me em paz
nos braços dela... Bia me dava tanta paz. Sinto raiva de
mim, por ter cedido a Natasha naquela noite,
estávamos indo tão bem... – Eu já sabia que ele
estava se perdendo nas drogas, eu era a única que
sabia... Não procurei meu pai, nem minha tia... Muito
menos uma clínica... Não dei a importância necessária
a difícil situação que o Guga estava passando... Fiquei
praticamente ignorando tudo isso, porque não
conseguia parar de correr atrás da Natasha – Abracei-a
mais forte... Senti toda a sua proteção naquele abraço
– Eu não devia ter corrido atrás dela, não devia...
- Não há culpados, Cris – Sussurrou no meu ouvido –
Você não fez por mal, também se apaixonou por ela...
E com relação às drogas, ele já estava envolvido... Pelo
que sei, se envolveu antes da Natasha estar entre
vocês – Disse calma. Percebi naquele instante que a
calmaria dela, era uma das coisas que eu mais
admirava em Bia.
- Ele poderia ter se tratado no começo... – Respirei
fundo – Me deixei levar pelas promessas falsas dele de
que iria parar. Eu queria acreditar nisso, era mais
fácil... Sobrava mais tempo para ficar atrás da
namorada dele, droga! – Percebi que minhas lágrimas
molhavam a sua blusa, levantei o rosto... – Desculpa.
- Não se preocupe com isso, se chorar te faz bem,
então chore... Chore o quanto quiser no meu ombro –
Disse enquanto passava as mãos carinhosamente pelos
meus cabelos.

Mary já estava na sala, nos olhava, sem nada dizer...


Segurava um copo com água nas mãos...

- Toma esse comprimido, Cris! - Disse Mary esticando


a mão para que eu pegasse o remédio.
- O que é isso? – Fitei o bolso da calça dela.
- Relaxa! É homeopatia, vai te fazer bem – Disse.
- Desde quando homeopatia é vendido em embalagem
de tarja preta? – Apontei a caixa do comprimido em
seu bolso.
- Toma logo esse comprimido e deita logo na sua cama,
sua enxerida! – Disse ela fingindo estar brava.

Duvidei que aquele comprimido pudesse me fazer


dormi, mas... Tomei, logo me deitei na cama... Não sei
quanto tempo demorou, só sei que eu apaguei.

...Olhei no espelho... Hoje completam sete dias –


Pensei. Estava arrumando-me para a missa de sétimo
dia quando a campainha tocou... Abri a porta...

- Oi – Disse, logo entrou – Ainda fugindo de mim, Cris?


– Disse Natasha com os olhos tristes.
- Desculpa... É que ainda...
- Você não consegue ficar comigo, não é? Se sente
culpada pelo que aconteceu e está me castigando pela
culpa que carrega – A menina olhou-me nos olhos...
Desviei os meus... Ela abraçou-me com carinho, tentou
beijar-me... Eu não consegui beijá-la...
- Desculpa – Disse com nó na garganta, logo
desvinculei-me do seu abraço – Não está sendo fácil –
Disse quase num sussurro.
- Não está sendo fácil pra ninguém, Cris! – Fitou-me
séria.
- Droga! Ele morreu quase nos meus braços, e se nós...
Se nós não...Sabe? Ele podia ter tido uma chance –
Desabei no sofá... Mãos nos joelhos... Natasha abaixou-
se na minha frente, ergueu minha face...
- A culpa não é sua... A culpa não é nossa – Disse e
segurou meu rosto com as duas mãos, beijou meus
lábios – Eu te amo, Cris! – Disse com lágrimas nos
olhos – Preciso de você – Sussurrou.
- Eu tô muito confusa – Fitei seus olhos, eu não sabia
mais o que tinha no meu coração... Conseguem
entender? Era uma mistura de culpa com revolta...
Será que a culpa se sobrepôs ao amor que estava
dentro de mim?
- Não vou insistir – Disse ela... Levantou-se, caminhou
até a porta – Desculpa por não ter respeitado o seu
tempo... Vou esperar o seu tempo – Disse e saiu.

Joguei meu corpo pra trás... Coloquei as mãos no


rosto... – O que está acontecendo comigo? – Pensei.

Dias de crítica

Mary e Bia todas as noites vinham até minha casa,


mesmo porque eu não tinha mais ânimo para nada...
Era uma Quinta-feira, eu não fui trabalhar e também
não queria ir a faculdade... Liguei a TV, estava
passando um filme qualquer, não lembro o nome,
muito menos sobre o que era a estória, só não queria
dar papo para aquelas duas. Nossa! Elas pararam na
minha frente de braços cruzados, pareciam minhas
mães... Ultimamente estavam agindo desta forma,
sabe quando nossa mãe nos olha com aquela cara:
“você está ficando rebelde, menina?”.
- O que foi? – Disse olhando-as.
- Como está indo a sua matéria da faculdade? – Disse
Mary.
- Terminando.
- O trabalho na loja do seu pai? – Disse Bia.
- Vai indo.
- Não acha que já está na hora de parar de se sentir
culpada e retomar a sua vida? – Disse Mary sentando-
se ao meu lado no sofá.
- Tá falando da Natasha?
- Sim! – Antecipou-se Bia, e logo sentou-se ao meu
lado do outro lado do sofá – Poxa, Cris! Já tem quase
um mês que você não retorna os telefonemas da
menina... Cadê aquele amor todo?
- Tá aqui! – Coloquei a mão na altura do coração e
suspirei – Não sei se devo retomar essa história, o
Guga não merecia o que eu fiz – Disse baixando os
olhos.
- Para de sentir pena de si mesma! Porque não deixa
esse amor falar mais alto do que essa culpa
desnecessária que te impede de ser feliz? – Continuou
Bia – Olha pra você, Cris! Tá na cara que não está feliz
sem ela, quer enganar quem? Vai ficar aí se punindo
até quando? – Balançou meu braço – Ele não vai voltar
– Disse.

Mary levantou-se, foi até a janela, abriu as cortinas...


- Você prometeu que iria cuidar dela – Disse e virou-se
novamente para nós.
- O que você disse? Repete! – Levantei-me.
- Eu não disse nada, Cris! Só afastei as cortinas – Fitou
Bia por um segundo – Eu disse alguma coisa?
- Não ouvi.

Fiquei em silêncio por alguns segundos... Será que eu


estava ficando louca? Ouvindo coisas agora? Fechei os
olhos e pude retornar aos meus últimos instantes ao
lado de Guga...Foi a primeira vez que consegui
lembrar-me de tudo o que acontecera com exatidão...
Lembrei-me de cada palavra que ele pronunciou com
dificuldade, na verdade, olhando por esse lado, eu
realmente não ouvi Mary dizer-me nada, foram às
palavras de Guga que teimavam em se fazer presente
naquele instante por algum motivo... Ele havia me
pedido pra cuidar dela, lembram? Como pude esquecer-
me dessas palavras? Se ele disse isso... Bom... Isso
quer dizer que me perdoou? Levantei-me de
sobressalto... Como se o mundo tivesse saído dos meus
ombros... Apanhei as chaves do carro que estavam ao
lado da TV...

- Onde você vai, Cris? – Perguntou Mary.


- Deixa ela – Ouvi Bia dizer.

Bati a porta e saí...

...Vinte minutos foi o tempo que levei para chegar até a


casa de Natasha... Toquei a campainha deveras
nervosa, ansiava por vê-la, se bem que depois de tanta
recusa, nem sei como seria a reação dela ao se deparar
comigo novamente... O coração batia tão forte, estava
descompassado, era tanta saudade! Meus olhos
brilhavam esperando alguém atender-me... Ela veio...
Veio a meu encontro e eu fiquei olhando pra sua face,
sua expressão... Precisava saber se me olharia com
magoa, ou com saudade... Natasha sorriu ao ver-me
parada no portão da sua casa, acho que isso foi uma
resposta, não é? Positiva, espero! A menina estava
ainda mais linda, como ela podia estar ainda mais
linda? Ela vestia um shortinho de dormir branco, uma
camisa no mesmo tecido de malha suja de tinta... Veio
correndo abrir o portão, estava com os pés descalços,
cabelos presos para trás... Quase não esperei-a
destrancar o portão, a vontade que eu tinha era a de
passar por aquelas grades... Ela abriu, eu empurrei o
portão com força... Abracei-a bem forte, senti seu
coração marcando os passos com o meu... Batiam no
mesmo ritmo acelerado...

- Me perdoa , amor? – Disse entre beijos na boca e


beijos no rosto... Sorrisos... Olhos exibidos de
saudade...
- Nem acredito – Disse beijando minha boca com
paixão – Preciso tanto de você – Sussurrou com seus
lábios encostados nos meus - Porque me fez esperar
por tanto tempo?
- Fui uma idiota.
- Foi mesmo – Disse... Segurou meu rosto com as
mãos... Beijou-me com desejo, tesão... Paixão... –
Puxou-me pelas mãos... Não entramos no seu quarto,
não deu tempo... Ao passarmos pela porta da cozinha,
Natasha desviou o caminho... Ela apoiou-se na mesa,
enquanto nossos corpos queimavam um no outro...
Levantei-a um pouco, ela sentou-se... Ainda bem que a
mesa era de madeira maciça – Pensei. Arranquei-lhe o
short, logo a calcinha... Posicionei-me no meio das suas
pernas, senti seu sexo roçar em mim, meu corpo
tremia, era desejo, saudade, amor... Circulando por
toda a minha corrente sanguínea... Tirei sua blusa e
minhas mãos logo alcançaram seus seios rígidos...
Beijei seu pescoço... Desci até os seus seios, chupei-os
com fome, lambi-os com sede... Suguei ora num, ora
noutro... Minhas mãos deslizavam pelas suas coxas,
passeavam pelo seu sexo molhado... Ela gemeu, puxou
meus cabelos e pediu para chupar seus seios com mais
força... Passei a língua envolta do mamilo e logo tornei
a sugar... Minhas mãos ainda passeavam nas suas
coxas, afastei um pouco mais as suas pernas, e
coloquei meus dedos dentro dela... Natasha gritou,
laçou a minha cintura com as duas pernas, prendeu-me
dentro dela... Penetrei-a mais fundo, e mais forte...
Sua respiração ofegante me alucinava... Ela mordia os
lábios e fechava os olhos, vendo a sua fisionomia se
transformar tanto, eu quase desmaiava de desejo.
- Chu...pa, Cris! – Sussurrou... Empurrou minha
cabeça... – Quero sentir a sua língua dentro de mim –
Disse e gemeu... Inclinei-me no mesmo instante e
devorei o seu sexo excitado... Ela passava as mãos nos
meus cabelos, se contorcia sentada sobre a mesa...
Minhas mãos nas suas coxas sentiam sua carne
trêmula. Era tanta saudade do gosto dela, aquele
cheiro excitante que me causava arrepios por todo o
corpo... Seu clitóris latejava na minha boca... Ela gozou
demoradamente... Não consegui me mover... Continuei
ali, no meio das suas pernas, acariciando-a, tocando-a
com desejo... Ela gozou novamente, e me puxou para
um abraço... Seus braços acolhedores me envolveram,
e eu senti uma lágrima que caiu dos olhos dela molhar
o meu ombro, onde ela havia apoiado a cabeça...
Busquei seus olhos... Fitei-os com carinho, amor...
Impossível não olhar para ela e não exibir através dos
meus olhos todo o amor que estava explodindo no meu
coração... Linda! – Pensei – A mais linda de todas as
mulheres! Eu a vejo com meu coração, com a minha
alma... Com a minha vida a seu inteiro dispor –
Continuei pensando, ela sorriu, será que leu os meus
pensamentos?
- Eu te amo, Naty – Disse também com os olhos
úmidos – Vou te amar pra sempre.

Natasha suspirou, segurou minha face com as duas


mãos... Olhou-me profundamente com aqueles olhos
que tanto me fascinam... Ela era perfeita pra mim –
Pensei. Bom, ela sorriu novamente, ficou calada... Eu
não precisava ouvir nada mesmo, às vezes o silêncio é
a melhor palavra, um olhar é quase um discurso, e um
sorriso, é o sepultar de qualquer magoa que podia ter
existido... Natasha deu um pulo da mesa, caiu em
meus braços...
- Vem cá, Cris! – Disse e puxou-me pela mão...
Paramos na porta do seu quarto... Ela posicionou-se
nas minhas costas, senti seu corpo nu roçar no meu,
quase agarrei-a novamente, mas, ela resistiu... – Fica
quietinha – Disse enquanto tapava os meus olhos com
as duas mãos.
- Porque tá tapando os meus olhos? – Disse e tentei
fazer cócegas nela para que soltasse as mãos.
- Não pergunta, e para de fazer isso, se não vai
estragar tudo! – Disse se esquivando da minha
brincadeira – Anda, vai? – Sussurrou no meu ouvido.
Senti meus pêlos se arrepiarem na hora... Natasha
empurrou-me com o seu corpo... Dei alguns passos...
Ela então tirou as mãos dos meus olhos... – O que
acha? – Disse e fitou-me apreensiva.
Olhei em volta...
- É... É... Lindo, Naty! – Disse maravilhada com o que
vi.

Ela sorriu... Vocês não podem imaginar como era


radiante aquele sorriso... Iluminava tudo a nossa volta,
acho que nem o Sol tinha tanta luz quanto aquele
sorriso... Exagero? Não, não! Ela é repleta de luz
mesmo.

- Viu? Não te disse uma vez que meu trabalho não era
nada ilícito? – Caminhou até a janela, abriu as cortinas
para que eu pudesse ver melhor – É só um hobby –
Disse.

Cheguei mais perto... Toquei a tela... Olhei novamente


pra menina...

- É lindo! – Perceberam que eu não conseguia dizer


mais nada?
- Tá falando sério? – Disse insegura.
- Claro! – Aproximei-me dos outros... Ah! Desculpa!
Eram quatro quadros que eu estava vendo... Todos
pinturas de pessoas, semblantes sérios, felizes...
Lágrimas... Dor, sorrisos... Pele negra, pele branca...
- Olha esse – Tirou um pano branco que cobria a tela –
É o que mais gosto – Disse.
- Nossa! – Cheguei mais perto – Vo... cê... Pintou o
meu rosto? Mas... Eu tô com uma cara de idiota aí.
- Pára, tá? – Sorriu – É o jeito que você me olha... –
Suspirou – Desde que você me olhou pela primeira vez,
eu nunca mais esqueci o teu olhar – Disse.
- Caraca, Naty!
- O que foi, Cris?
- Eu não tenho essa cara de boba – Fitei-a
envergonhada. Eu tinha aquela cara de boba? Vocês
também acham isso? Estão do lado dela?
- Tem sim... – Sussurrou, logo empurrou-me... Caí na
cama... Apoiei-me com os cotovelos, sentei-me...
Natasha sentou-se no meu colo, de frente pra mim...
Tirou minha blusa lentamente... Não disse nada,
apenas olhou-me com aquela cara de desejo e
saudade... Sugou meus seios, perdi as forças sentindo
aquela língua macia deslizando pelos mamilos, suas
mãos também acariciavam-nos... Senti o contato dos
seus seios nos meus quando ela tentava abrir o zíper
da minha calça... Natasha levantou-se por alguns
instantes, tirou minha calça... Deixou-me nua também,
e sentou-se novamente no meu colo... Senti o seu sexo
em contato com o meu... Ela rebolava tão gostoso, seu
corpo em atrito com a minha pele, suas mãos em
minhas costas arranhando-me, minhas mãos nas suas
costas puxando-a cada vez mais pra mim... Minha boca
agora tomava os seus seios, enquanto ela se contorcia
nos meus braços... Gemia, e sussurrava frases
obscenas no meu ouvido, aumentando cada vez mais o
calor que emanava de nós duas... Não agüentei,
gozei... Ela riu... – Ainda nem coloquei a boca –
Sussurrou no meu ouvido.
- Você não precisa de muito para me fazer gozar –
Disse enquanto tentava controlar a respiração.
- Ainda não terminei – Disse, logo olhou-me com
aquela carinha de menina ingênua e safada que ela
conciliava com perfeição. Fiquei sem ar novamente...
Natasha empurrou-me para que eu deitasse na cama,
depois jogou seu corpo sobre o meu... Afastou minhas
coxas e posicionou-se no meio das minhas pernas,
como se não bastasse isso, aprisionou os meus pulsos
acima da minha cabeça... A menina movimentava o seu
corpo com sensualidade, seus cabelos caiam pelo meu
rosto, e sua pele quente me fazia perder o pouco
controle que ainda me restava... Gemi alto... Sussurrei
no seu ouvido que a amava... Ela parou de se mover...
- Continua – Disse com a voz falha.
- Pede, Cris... – Disse baixinho no meu ouvido... Beijou
o meu pescoço... Deixou-me louca – Pede – Disse
enquanto mordia de leve o meu queixo.
- Não me tortura, Naty! Me chupa logo... Me come...
Faz o que quiser comigo, mas... Deixa eu sentir a sua
língua dentro de mim... – Sussurrei no seu ouvido. A
menina soltou os meus pulsos, e desceu lentamente
pelo meu corpo, passando a língua, a boca e seu hálito
quente pela minha pele... Suas mãos acariciavam-me
com malícia... Ela se divertia com a minha ansiedade...
Não agüentei esperar, segurei sua cabeça e conduzi-a
para o meio das minhas pernas... Ela começou a me
chupar... Me penetrar suavemente com seus dedos... E
eu perdi as contas de quantas vezes gozei...

Dormimos abraçadas a tarde inteira... Acordamos com


o barulho da porta da sala, e com a conversa dos pais
da menina... Dei um pulo da cama... Comecei a vestir-
me às pressas... Natasha abriu os olhos, me olhou
sorridente...

- O que foi, Cris? – Disse despreguiçando.


- Seus pais, Naty! Acabaram de chegar... Ouvi o
barulho da porta... E... Uma conversa também... –
Continuei vestindo-me nervosa... A calça não queria
entrar, eu não engordei, não, tá? Era o nervoso e o
medo que eles nos pegassem em flagrante, já
imaginaram isso? Bom... A calça não queria entrar
mesmo, tropecei nela e caí... Natasha ficou
gargalhando, enquanto eu pedia pra ela ficar quietinha
se não eles iriam nos ouvir.
- Amor – Disse ela – Esquece essa calça, volta pra
cama...
- Hei! Acorda menina! Eu disse que seus pais estão aí!
– Fitei-a temerosa.
- E eu ouvi você dizendo – Bateu no colchão – Vem!
Deita aqui comigo! Eles sabem que eu fiquei esse
tempo todo esperando você se decidir.
- Tá brincando, né? – Levantei-me... De onde? Do
chão, oras! Eu caí esqueceram? Sentei-me na cama...
- Queria vê-los zangados? – Abraçou-me e puxou-me
para que eu deitasse ao seu lado – Eles me querem
feliz, Cris! E já sabem que é você quem pode fazer isso
por mim.
- Mas... Mas...
- Mas... Me beija, e me faz feliz, tá? – Disse e beijou-
me.

...A apresentação do trabalho na faculdade foi


fantástica... Colocamos uma imensa fotografia de Guga
no auditório, e uma frase que ele gostava de dizer: “a
cidade nunca dorme” era a maneira dele dizer que
adorava a vida. Luciano estava presente, Júlio e a Tia
também. Selma tia do menino, estava em tratamento
com o AAA (associação dos alcoólatras anônimos) e
desde que começara com as seções, se mantinha
sóbria, não mais faltava ao trabalho, e cuidava melhor
de Julio, acho que ela compreendeu o ART. 5º DO
ESTATUDO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE QUE DIZ:
“nenhuma criança ou adolescente será objeto de
qualquer forma de negligência, discriminação,
exploração, violência, crueldade e opressão, punido na
forma da lei qualquer atentado, por ação ou omissão,
aos seus direitos fundamentais”... A vida do menino
Júlio estava mudando, ainda bem que ele não perdeu a
esperança. No seu aniversário de onze anos que fora na
semana passada, dei de presente pra ele o tal
videogame que o menino tanto queria. Júlio voltou a
estudar, era bolsista no colégio que pertencia à família
de Vitor. Agora dividia seu tempo assim, estudava de
manhã, e a tarde jogava futebol, o menino tinha
talento, e os Clubes cariocas já estavam de olho nele,
embora o sonho do menino fosse jogar no Vasco da
Gama, seu time de coração, era o Botafogo quem tinha
o privilégio de tê-lo em sua escolinha de futebol.
Voltando a apresentação do trabalho... Sabe com quem
ficou o título de melhor matéria? Com Anselmo, que
cobriu a história sobre os animais em extinção com
outro grupo, pelo menos ele abandonou aquela bolsa
de couro de jacaré, lembram dela? Acho que falar sobre
drogas e violência hoje em dia, não causa muito
impacto, e é isso que me assusta, porque as pessoas
estão se acostumando com as situações, e já se tornou
parte do cotidiano delas saber de um amigo que
morreu atingido por bala perdida, ou ter um parente
usuário de drogas... De qualquer forma, continuo
achando que a melhor reportagem é aquela que nos
permite alertar a sociedade sobre os riscos que estão
ao nosso lado, e tentar lutar contra essa maré de
conformidade que parece ter se instalado em cada um
de nós... Ah! Foi bem nesse dia que Luiz viu Janice pela
primeira vez... Agora acho que ele sabe perfeitamente
o que eu senti quando vi Natasha pela primeira vez.

... Seis meses depois... Finalmente eu estava saldando


uma dívida minha com Bia, não foi um jantar, mas um
almoço... Onde? Na Confeitaria Colombo. Sim! A
histórica Colombo que foi fundada em 1894 pelos
imigrantes Portugueses Joaquim Borges de Meireles e
Manoel José Lebrão. Estávamos eu, Natasha, Bia e
Mary sentadas na mesa, vocês tinham que ver como
Mary estava apaixonada por Bia, até em casamento
minha amiguinha “coração prático” estava falando nos
últimos dias, seu discurso sobre o amor evoluíra
bastante, ela me confidenciou varias vezes que havia
encontrado a sua alma gêmea, isso mesmo! Essas
palavras que ela usou, podem acreditar...

Bia estava encantada com o lugar, dava pra ver nos


seus olhos atentos a cada detalhe... Nos sentamos...
Estávamos à espera de Amanda e Cláudio, o novo
namoradinho que ela conhecera na Net, e Luiz e
Janice...

- Confesso que já estou pensando na sobremesa, Cris –


Disse Bia animada – O que sugere?
- Acho que você irá gostar bastante de um “Rivadávia”,
discos de pão de ló recheados com doce de leite,
cobertura de fondant.
- Naty, Naty... – Disse Mary com aquela cara de: “lá
vem bomba” – Não sei o que seria de mim se você não
tivesse aparecido na vida da minha amiga, Cris.
- Como assim? – Disse já esperando a resposta.
- Imagina eu ficar sem a Bia? – Segurou nas mãos da
Pediatra – Quero ficar com você pra sempre – Disse
séria. Vocês viram? Perdidamente apaixonada.
- Mary, Mary... – Disse Bia fazendo carinho na “futura
esposa” – Você foi a melhor coisa que aconteceu na
minha vida. Nada de ciúmes bobos, está bem?
- Sim Senhora... – Disse Mary e sorriu – Te amo!

Nesse momento meus irmãos chegaram e foram se


acomodando, conseqüentemente cortaram o clima de
romance que se instalara no ambiente... Amanda foi
logo cumprimentar Natasha...

- Nervosa amiga? – Disse ela, segurando nas mãos da


cunhadinha. Adorei isso! Cunhadinha!
- Bastante – Sorriu tímida – Minha primeira exposição,
né?
- Vai ser um sucesso, amor – Segurei suas mãos –
Você é um sucesso.

Luiz sentou-se com Janice, Amanda com Cláudio.


- Vocês demoraram, hein? Estou morrendo de fome –
Disse Mary olhando maliciosamente para Bia que
baixou a cabeça e sorriu.
- Juízo, hein? – Disse no ouvido de Mary.
- Ela tem – Sussurrou no meu ouvido debochada.

Eu estava sorrindo animadamente das piadas de Mary


quando vi um moleque de aproximadamente três anos
vir correndo em nossa direção... O menino parou na
minha frente e ficou me olhando, estava com a
boquinha suja de torta de chocolate, e segurava um
pedaço da referida torta em uma das mãos...

- Quer? – Disse ele com um sorriso que pareceu


iluminar a minha vida... Antes que eu pudesse
responder a ele, sua mãe veio correndo e puxou-o pelo
braço.
- Guga! Quantas vezes já pedi pra não fazer isso
comigo? – Disse ela brava com o menino – A sua irmã
está quietinha sentada na cadeirinha dela, porque você
tem que ficar correndo desse jeito? – Virou-se para nós
– Desculpa o meu filho, ele dá muito trabalho.

Levantei-me... Meus olhos já estavam cheios de


lágrimas, abaixei-me até que eu pudesse ficar o mais
próximo da altura do menino... Lembrei-me de Guga,
meu primo desde pequeno tinha mania de correr pelos
restaurantes, matando minha tia de vergonha, sem
contar que ele também adorava torta de chocolate...

- Oi Guga! – Disse, logo o menino sorriu – Posso te dar


um abraço? – Ele esticou os bracinhos... Peguei-o no
colo... Apertei-o nos meus braços e foi inevitável não
ficar comovida com aquele momento – Você tem um
futuro brilhante pela frente, rapazinho – Disse baixinho
no seu ouvido, lembrei-me que meu pai costuma dizer
que as palavras têm muita força, algo relacionado a
Deus ouvi-las, sabe? Depois que coloquei-o no chão,
sua mãe puxou-o...
- Desculpem mais uma vez... Vamos menino! – Disse
brava – Vai ficar de castigo quando chegar em casa.

Fiquei olhando-os se afastarem...Guga olhou pra trás,


acenou pra gente... Eu sorri e acenei de volta... Perdi
as contas de quantas vezes ouvi minha tia Vera falar
que iria pôr meu primo de castigo... Eu não estava
triste se querem saber, eu estava... Emocionada, as
lembranças que vieram na minha cabeça no instante
em que vi aquele menino, foram as melhores que eu
tinha de Guga, nossa infância... Adolescência... Acho
que as lembranças ruins estavam trancadas em algum
lugar dentro de mim, e tenho quase certeza que eu
tinha jogado a chave fora... Sentei-me novamente.
Todos me olhavam com aquela cara: “ai que peninha!”,
sabem como? Odeio que sintam pena de mim...

- O que foi? – Disse e sorri – Parem de me olhar com


essa cara!
- Devia pensar em produzir um bebê - Disse Mary.
- Não me venha com essa, tá? Se a Natasha quiser...

Natasha me beliscou.
- Não me venha com essa idéia você, tá legal? – Disse
e sorriu.
- Ai! Não está mais aqui quem falou... Mas, se você não
quiser ter um com essa sua carinha linda, não tem
problema... Podemos adotar um time de futebol, que
tal?
- Vamos pensar nisso no futuro, está bem? – Disse ela
animada – Por enquanto já basta o Júlio, que seus pais
adotaram e que é mais teu filho do que irmão.

Esqueci de dizer, depois que a tia de Júlio faleceu, fiz


esse pedido aos meus pais, tendo em vista que seria
muito complicado nas minhas “condições” adotar uma
criança, de qualquer forma, filho ou irmão... Meu amor
por aquele menino é o mesmo...

... Dois meses depois... Olhei o relógio mais de vinte


vezes. – Mas que demora! – Pensei, logo levantei-me e
fui até o quarto de Natasha. Entrei sem bater...

- Amor... – Bom, esqueci completamente o que iria


dizer depois do que vi – Você está... Linda! – Sussurrei.
- Ainda não terminei, Cris! – Empurrou-me para que eu
saísse do quarto – Não é porque os meus pais não
estão em casa que você pode ficar tirando a minha
concentração quando eu estiver me arrumando, está
bem? – Disse sorrindo.
- Não faz assim... – Puxei-a pra mim... Beijei seus
lábios – Vamos ficar aqui no seu quarto, vamos? –
Disse baixinho no seu ouvido, enquanto beijava o seu
pescoço.
- Pára, Cris! – Afastou-me sutilmente dela – É o
casamento da Mary e da Bia, não podemos faltar! São
nossas amigas!
- Elas vão superar a nossa ausência – Puxei-a
novamente – Preciso de você agora! – Apertei-a em
meus braços...

Natasha olhou-me daquela forma que só ela sabia


olhar... Abraçou-me... Beijou-me demoradamente... Já
estávamos caminhando pra cama quando de repente eu
me dei conta de que não podíamos mesmo faltar a tal
festa, festa essa que seria no meu apartamento, como
disse a Natasha, o apartamento da Mary, estava
passando por reformas, e o de Bia, ouvi-a dizer
qualquer coisa sobre uma infiltração no banheiro. Poxa!
Vocês querem saber tudo!

- O que foi, amor? – Disse notando minha preocupação


– Não quer mais? Me convence, depois cai fora?
- Tá louca? Claro que quero – Beijei-a – É que não
podemos mesmo faltar a essa festa, né? Como você
mesma disse: elas são nossas amigas – Ajeitei o
vestido dela. Sim! Já estava quase fora daquele
corpinho lindo – Quando a festa terminar... Você não
me escapa – Sussurrei no seu ouvido. Não resisti e
beijei mais um pouco aquele pescoço... Senti o cheiro
delicioso da pele dela... Fiz um esforço tremendo e
voltei pra realidade.

... Mary me ligou três vezes... Duas durante o caminho


da casa de Natasha até o meu apartamento, e a última
quando nós já estávamos no elevador do prédio... Eu
estava tão ansiosa que achei que me entregaria
naquele momento, no momento em que toquei a
campainha, no entanto, fui salva por Bia que não
demorou para abrir a porta... Ela sorriu para nós, logo
nos deu passagem... Segurei imediatamente na mão de
Natasha que na medida em que íamos entrando no
apartamento, fora enchendo os olhos de lágrimas...
Todos estavam lá... Sorrindo para nós... Felizes pela
nossa felicidade... Júlio, meus pais, Tia Vera, Luiz,
Janice, Amanda, Cláudio, Bia, Mary... E... Os pais de
Natasha... Sim! Eles vieram, contrariando as minhas
expectativas, pois sempre deixaram claro de que não
aceitavam a nossa “opção sexual”, apenas respeitavam
por amor a filha deles.
- Meu Deus, Cris! – Disse a menina surpresa, olhando
para todos os cantos do apartamento... Não era uma
festa, apenas uma pequena reunião para um grande
comunicado – Como não desconfiei? – Disse abismada.
- Não teria graça se você desconfiasse, né? – Passei a
mão no seu rosto... Nossa! Quando olho pra esse
rostinho, é como se não existisse mais nada a minha
volta... Como se o tempo parasse no instante que os
meus olhos encantados de amor fitavam os dela...
Segurei sua face delicadamente com as duas mãos...
Puxei-a lentamente... Senti sua respiração afagar o
meu rosto... Senti também Mary beliscar o meu
braço...
- Seus sogros não vão gostar de ver isso, Cris! –
Sussurrou no meu ouvido. Saímos do transe em que
estávamos e sorrimos cúmplices uma para a outra... O
sorriso dela estava tão carregado de emoção... Nessa
hora os pais da menina se aproximaram de nós.
- Espero sinceramente que faça a minha filha feliz –
Disse o pai de Natasha, a principio apertei sua mão,
mas, fui surpreendida com um abraço paternal.
- Daria a minha vida pela sua filha – Disse ainda presa
em seus braços.
- Não precisa tanto, só a faça feliz – Disse e sorriu.
- Faço minhas as palavras do meu marido, Cris! – Disse
minha “sogra”, uau! Minha sogra! Viram? Não pude
nem terminar meu pensamento, logo recebi outro
abraço.
- Obrigada por terem trazido ao mundo essa menina
tão especial pra mim – Segurei novamente nas mãos
de Natasha.
- Pára, Cris! – Acariciou de leve a minha mão – Não vai
me deixar sem graça na frente dos meus pais também,
né? – Sorriu.

... Depois de cumprimentarmos a todos, resolvi fazer o


tal pedido, esse que não era segredo pra mais
ninguém, né? Nem pra vocês... Natasha estava
conversando animadamente com seus pais, e com os
meus... Aproximei-me... Segurei nas mãos da menina,
e fiz um gesto para que ela se levantasse... Levantou-
se surpresa...

- Vem cá – Disse puxando-a pelas mãos... Caminhamos


pelo corredor... Paramos na porta do quarto.
- Vamos fugir da festa, é isso?
- Mais ou menos – Disse enquanto girava a maçaneta –
Fecha os olhos – Ela contestou um pouco, mas fechou
os olhos – Obediente... Assim que eu gosto – Disse e
sorri. Deixei a porta aberta e passei por trás dela, logo
tapei seus olhos com as minhas mãos e com meu
próprio corpo empurrei-a para que entrasse no
quarto... – Agora pode olhar – Tirei as mãos...
Confesso também ter ficado surpresa com o que vi,
havia dito a Mary e Bia por alto o que eu queria, mas,
não imaginava que a ornamentadora seria tão eficiente,
ficou melhor do que em minha imaginação! Bem que a
Mary garantiu que essa tal de Olívia era mesmo
competente.
- Nossa, Cris! – Olhou pra mim... Depois voltou seu
olhar para dentro do quarto – Tá lindo! – Sussurrou
com as mãos na boca.
- Pra você! – Disse. Ah! Nossa... Gente! Desculpa...
Bom... O ambiente estava a meia luz, haviam buquês
de flores por toda a parte... Uma mistura de cores e
aromas... O Champagne estava gelando, as duas taças
ao seu lado, tão cúmplices quanto nós duas... E na
cama, bom... A cama estava forrada com um lençol de
pétalas de rosas vermelhas ... As pétalas também
podiam ser vistas pelo chão do quarto... Romântica? É
fácil quando nos sentimos a pessoa mais feliz do
mundo.
- Amor... Pensei que você iria fazer um... Um pedido de
casamento, talvez? – Disse desconcertada.
- E vou, por isso te trouxe aqui – Servi a champagne...
Segurei nas mãos dela... Beijei docemente os seus
lábios... – Eu e você, já é o suficiente... Amor, não
tenho alianças... Nem um anel pra você, mas, a partir
de hoje, vamos morar na mesma casa, dividir a nossa
história... Construir uma vida em comum – Contive
uma lágrima que escorreu dos olhos dela – Nós temos
um compromisso somente com a felicidade, um
compromisso que não inclui formalidades, nada a ver
com um papel escrito, ou testemunhas para medir o
que sentimos de verdade... Nada vale mais do que o
dia-a-dia difícil, a realidade perfeita que é: seus
cabelos despenteados pela manhã, os seus hábitos
diferentes dos meus que eu tolero por amor... E
compreendo com carinho e admiração... Porque sei que
ninguém é igual ou diferente demais – Afaguei o seu
rosto – No nosso cotidiano, inclui eu e você... Felizes
dia sim, infelizes dia não... Porque é assim que a
felicidade aparece, sem destino certo... Sem
promessas... Somos só nós duas, e um ideal para
realizarmos – Respirei fundo, eu queria segurar minhas
lágrimas pelo menos desta vez durante essa estória
toda, mas... Não consegui! – Tô oficializando nosso
casamento. Não vai me dizer nada?
- Eu te amo, Cris! – Segurou meu pescoço com força –
Te amo muito!

Segurei sua nuca com as duas mãos e a puxei para um


beijo... O beijo carinhoso foi dando lugar a um beijo
cheio de paixão que marcava perfeitamente os passos
do nosso amor... As mãos macias de Natasha
começaram a passear suavemente por baixo da minha
blusa... Ela acariciava as minhas costas, arranhava na
tentativa de puxar meu corpo para comprimir ainda
mais no dela...

- Te quero agora – Disse a menina sem interromper o


beijo.
- Eu também... Te quero – Disse com a voz
descompassada, enquanto deslizava minhas mãos por
baixo do vestido de Natasha, acariciando sua pele, e
movendo o tecido lentamente para o alto, retirando-o
do corpo dela... Tirei seu vestido... Ela tirou minha
blusa... Beijei seu pescoço... Sua nuca... Sussurrei no
seu ouvido... Ela retirou a minha calça, passou as mãos
pelos meus seios... Beijou o meu queixo... Conduzi-a
lentamente para a cama, antes de deitá-la retirei sua
calcinha... Passei as mãos pelo seu sexo molhado... Ela
retirou também a minha, deixou-me nua... Sugou os
meus seios como se fosse devorá-los... Deslizou as
mãos pelas minhas coxas... Gemi pra ela... Deitei-a na
cama, seu corpo tocou lentamente as pétalas de
rosas... Ela gemeu pra mim, fitou os meus olhos...
Segurou minhas mãos e conduziu meu corpo para que
cobrisse o dela... Aproximei meus lábios ao seu
ouvido... Beijei, passei a língua...
- Pronto – Disse – você é mais uma pétala de rosas na
cama - Sussurrei.
- Faz... Amor... Comigo... – ouvi-a dizer, entre gemidos
e o barulho da sua respiração alterada.

Beijei seus lábios com desejo... O desejo que latejava


pelo meu corpo inteiro quando eu tocava naquela
mulher... Deslizei minha boca pelo seu corpo... Chupei
seus seios com paixão... Desespero... Volúpia... Senti
seus mamilos rígidos se perderem na minha boca,
foram tocados intensamente pela minha língua...
Apalpados pelas minhas mãos sedentas por eles...
Beijei sua barriga, acariciei com a ponta dos dedos o
lado do seu corpo, minhas mãos escorregavam por toda
a lateral, enquanto meus lábios devoravam novamente
os teus seios... Seus pêlos arrepiados, seu calor
emanando cada vez mais... Queimando a minha pele...
Desci marcando o caminho com a saliva dos meus
beijos que molhavam o seu corpo... Beijei suas
coxas... Mordi levemente... Abri suas pernas, passei a
língua superficialmente no seu sexo úmido de desejo...
Ouvi seu gemido sôfrego, suas suplicas carregadas de
vontade... Massageei seu clitóris com os dedos... Meu
corpo tremia... Minha boca aguava... Não agüentei a
tortura da espera... Segurei forte as suas nádegas com
as duas mãos e a puxei de encontro ao meu rosto...
Minha língua a invadiu com pressa, com fome... Com
gula... Natasha gemeu ainda mais alto... Sussurrou
frases desconexas, enquanto eu a tomava com
paixão... Me deliciando completamente com o sabor
excitante do sexo dela... Antes de sentir o seu gozo
escorrer pela minha boca, a penetrei devagar... Sem
parar de me deliciar com o seu sabor... Não demorou
para ela pedir-me que a tocasse mais rápido e mais
fundo... Assim eu fiz... E então... Minutos depois, ela
inundou o lençol de rosas com o seu gozo... Os cheiros
se misturaram, e posso garantir que nunca em minha
vida, senti um cheiro melhor... Escalei seu corpo
tremulo até nossas bocas se encontrarem... Beijei-a
ainda cheia de desejo... Parecia não sanar aquela
sensação desesperada por prazer dentro de mim... Ela
provou o seu gosto... Chupou a minha língua... Mordeu
os meus lábios... Natasha empurrou-me de encontro ao
outro lado da cama, e jogou seu corpo sobre o meu...
Minhas mãos logo encontraram as suas costas, e
tocaram sua pele suada, senti as pétalas de rosas
grudadas por todo o corpo da menina, na verdade, era
bem difícil distinguir onde começavam as rosas e onde
terminava a pele da menina... Era tudo tão igual...
Minhas mãos deslizavam mais forte pelo corpo dela,
macerando as pétalas que começaram a exalar um
cheiro ainda mais forte... Todo o quarto tinha aquele
perfume... Eu já não conseguia mais respirar, Natasha
rebolava deliciosamente no meio das minhas pernas, eu
podia sentir seu sexo molhado roçando no meu...
Misturando nossos líquidos... Segurei-a forte pela
nuca... Meus lábios em seu ouvido...

- Eu vou gozar – Disse ofegante.


- Goza gostoso – Sussurrou também no meu ouvido e
aumentou o ritmo do seu sexo sobre o meu... Inundei a
cama na mesma hora – Quero sentir o seu gosto –
Disse ela enquanto deslizava pelo meu corpo... Com os
lábios... Com as mãos... Senti seus dedos entrarem
dentro de mim... E sua língua tocar no meu sexo...
Gozei novamente...

Tentava controlar a respiração, enquanto nos


olhávamos fazendo carinhos uma na outra... Tirei os
cabelos da sua face que me impediam de fitar seus
olhos...

- Eu te amo – Sussurrei com os meus lábios encostados


nos dela.
- Também te amo, Cris! – Disse fazendo questão de
encarar os meus olhos - Ainda bem que você não se
intimidou diante da minha covardia. Você me faz feliz!
– Beijou-me.
- Que esse sentimento seja eterno enquanto dure...
- Se depender de mim, vai durar pra sempre... E... Vê
se na próxima encarnação... Vem mulher de novo, tá?
– Disse e sorriu.
- Então me promete que não vai me dar tanto trabalho
da próxima vez – Sorri, puxei-a para mim – E vai ter
que prometer também que virá com esses olhos lindos
que só você tem. Feito?
- Feito! – Afagou meu rosto – Nunca deixe de me olhar
desse jeito, tá? Consigo ver o seu amor através dos
teus olhos.
- Jamais te olharei de outra forma... Você é...
Simplesmente irresistível, menina!

Fim

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