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CAPíTULO 1 Introdução e fundamentos da investigação

CAPfTUlO 2 As abordagens quantitativa e qualitativa


CAPíTULO 3 Uma descrição sumária das etapas de investigação
CONTEÚDOS

Objectivos de aprendizagem LI O que é investigação científica?

No fi nal des te capítulo, deve estar em 1.2 As funções e os níveis da investigação


A descrição
condições de: A explicação
1 ) definir o q ue é a investigação cien- A predição e o controlo
tífica; 1.3 Os elementos que sustentam a investigação
A filosofia
2 ) apreciar a importância da investi-
O conhecimento
gação em diferentes disciplinas; As operações do pensamento
3 ) discutir os elementos q ue susten- A ciência
A teoria
tam a investigação científica;
A prática profissional
4) estabelecer as ligações entre a in- Em conclusão
vestigação, a teoria, a prática e os ou- 1.4 Investigação e perspectivas disciplinares
tros elementos do conhecimento;
1.5 Investigação fundamental e investigação
5 ) compreender os fundamentos filo- aplicada
sóficos da investigação e descrever 1.6 Fundamentos filosóficos e metodologias
os métodos de investigação que lhe de investigação
são próprios.
Introdução e fundamentos da investigação

Este capítulo de introdução fornece uma vi- de aquisição dos conhecimentos. Precisamos
são de conjunto dos fundamentos científicos as funções e os níveis da investigação, esta-
da investigação e das ligações que existem belecemos a este respeito uma classifica-
entre esta e outros elementos do domínio do ção e determinamos as perspectivas que
conhecimento, tais como a filosofia, as ciên- dela decorrem para as diferentes disciplinas.
cias, as operações do pensamento, a teoria Enfim, tentamos definir os fundamentos filo-
e a prática. Apresentamos, neste capítulo, sóficos da investigação, os seus paradigmas
algumas definições da investigação e levan- e as suas metodologias quantitativa e quali-
tamos um paralelo entre esta e outras fontes tativa.

investigação científica é um método de aquisição de conhecimentos que


A permite encontrar respostas para questões precisas. Ela consiste em des-
crever, em explicar, em predizer e em verificar factos, acontecimentos ou fenó-
menos. A investigação está intimamente ligada a outras actividades de ordem
intelectual: inscreve-se num conjunto de elementos (filosofia, conhecimento,
operações do pensamento, ciência, teoria, prática) que sustentam o seu pro-
cesso e permitem estabelecer ligações entre a conceptualização, os métodos
que servem para conduzir a investigação e as suas aplicações no mundo empí-
rico. As disciplinas, na medida em que pretendem assegurar o seu desenvolvi-
mento, vêem na investigação um meio privilegiado de aquisição de conheci-
mentos. Os fundamentos filosóficos da investigação ditam o recurso a uma
metodologia particular.

1.1 O que é a investigação científica?


A investigação
A investigação científica constitui o método por excelência que permite científica é um
adquirir novos conhecimentos. As definições fornecidas em numerosas obras processo sistemático
que tratam do assunto diferem muitas vezes entre si, mas estão de acordo que assenta na
colheita de dados
quanto a definirem a investigação como uma estratégia ou um processo racio- observáveis e
nal visando a aquisição de conhecimentos. O processo consiste em examinar verificáveis, retirados
do mundo empírico,
fenómenos com vista a obter respostas a questões determinadas que se deseja isto é , do mundo que é
aprofundar. A investigação científica distingue-se de outros tipos de aquisição acessível aos nossos
sentidos, tendo em
de conhecimentos pelo seu carácter sistemático e rigoroso. vista descrever,
De maneira mais precisa, a investigação é definida por Kerlinger (1973) explicar. predizer ou
controlar f.enómenos.
como um método empírico, sistemático e controlado que serve para verificar
Capítulo 1

hipóteses, no que concerne a relações presumidas entre fenómenos naturais.


A investigação pressupõe neste caso a predição e o controlo dos fenómenos,
que são objecto da experimentação, assim como a verificação das hipóteses.
Para Kerlinger, a investigação parece assentar essencialmente na verificação
de hipóteses. Esta definição coloca alguns problemas para as disciplinas que
têm uma função clínica ou social e nas quais a descrição dos fenómenos cons-
titui um aspecto importante de desenvolvimento dos conhecimentos. Outras
definições correspondem melhor às diversas abordagens em matéria de inves-
tigação, tais como as apresentadas nos dois parágrafos seguintes.
Seaman (1987) definiu a investigação científica como um processo siste-
mático de colheita de dados observáveis e verificáveis no mundo empírico,
isto é, no mundo que é acessível aos nossos sentidos, com vista a descrever,
explicar, predizer ou controlar fenómenos. Esta definição tem a vantagem de
considerar diversos níveis ou funções de investigação relacionados com os
conhecimentos de que se dispõe sobre um determinado assunto. A descrição
determina a natureza e as características dos fenómenos e por vezes sugere
certos tipos de relações possíveis entre os fenómenos; a um nível mais eleva-
do, a explicação dá conta das relações entre os fenómenos e clarifica a sua
razão de ser; quanto à predição e ao controlo, servem para avaliar a probabi-
lidade de que um determinado resultado se produza numa dada situação após
a introdução de um elemento exterior. É esta definição da investigação que
retivemos na presente obra, que descreve os fundamentos e as etapas do pro-
cesso de investigação. Esta definição tem o mérito de admitir diversas manei-
ras de apreender os fenómenos, isto é, permite tanto descrevê-los como expli-
cá-los, ou ainda de os predizer ou de os controlar. Supõe que o investigador
planifique a sua investigação em função dos conhecimentos que existem sobre
o assunto ou sobre o fenómeno.
Algumas definições de investigação são mais gerais e aplicam-se a dife-
rentes abordagens. Assim, Burns e Grove (2001) definem a investigação como
um processo sistemático, visando validar conhecimentos já adquiridos e pro-
duzir novos que, de forma directa ou indirecta, influenciarão a prática. Uma tal
definição insiste na finalidade da investigação. Além disso, engloba não
somente as investigações estritamente objectivas, mas também as que se apoiam
em métodos subjectivos, sendo ao mesmo tempo rigorosas e sistemáticas.
O rigor, indissociável da investigação científica, permite assegurar que a
representação que é dada da realidade seja fiel aos factos ou aos fenómenos.
Introdução e fundamentos da investigação

o método fornece à investigação o seu carácter sistemático; este define-se


como um conjunto de processos racionais tendentes a um fim determinado.
Todas as definições da investigação que mencionámos implicam que a
aquisição de novos conhecimentos está subordinada ao estabelecimento ou à
verificação de teorias. De acordo com a orientação que o investigador deseja
imprimir ao seu estudo, ele escolherá a definição que, entre todas as defini-
ções possíveis, corresponda melhor aos objectivos que persegue, assim como
o método mais apropriado para lhe permitir responder às questões que estuda.
A investigação é necessária a qualquer disciplina para produzir conhecimentos
que, directa ou indirectamente, terão incidências sobre a prática.

1.2 As funções e os níveis da investigação


Os conhecimentos adquiridos no decurso da investigação são tributários
de diferentes metodologias que permitem descrever, explicar, predizer ou con-
trolar fenómenos. As funções essenciais da investigação, que são a descrição,
a explicação, a predição e o controlo, correspondem, segundo Grawitz (1996),
a níveis ou tipos de conhecimentos que existem em relação com um tema de
estudo. A autora evoca as noções de profundidade e de diferenças para des-
crever os níveis de investigação. O nível refere-se aqui a uma hierarquia na
forma de adquirir e transmitir o conhecimento, porque varia segundo a natu-
reza dos conhecimentos que se dispõe sobre um dado fenómeno. A noção de
hierarquia é relativa à extensão de conhecimentos que podem existir sobre um
assunto de estudo ou um fenómeno.
A descrição é a função mais elementar. Ela consiste em representar no seu
conjunto um fenómeno ou os seus determinantes. A explicação é possível
quando as relações entre o fenómeno e um ou vários determinantes se funda-
mentam numa base teórica empiricamente verificável. A predição e o contro-
lo vão mais longe, porque são preditas relações precisas sobre as diferenças
entre grupos após acontecimentos provocados em situação de investigação.
Assim, as diferentes funções da investigação correspondem cada uma a um
nível que orienta um tipo determinado de estudo.

A descrição consiste
A descrição em determinar a
natureza e as
A descrição, concebida como um nível de investigação à semelhança da características de
explicação e da predição, consiste em determinar a natureza e as característi- conceitos, populações
cas de conceitos, de populações, de fenómenos e por vezes em considerar a ou de fenómenos.
Capítulo I

existência de relações entre os conceitos. Por ocasião de uma investigação des-


critiva, o investigador observa, descobre, caracteriza e muitas vezes classifica
novas informações, com vista a traçar um retrato claro e preciso da situação
que estuda. Algumas investigações descritivas têm por objectivo definir com
precisão um conceito, as características, outras visam produzir estatísticas
sobre elementos que têm uma relação com populações. A descrição pode
igualmente proceder da observação de um fenómeno, no seu meio natural, e
utilizar para este fim uma metodologia qualitativa.
A função descritiva da investigação responde a questões simples, tais
como: O que é? Quais são as características ... ? Por exemplo, um investigador
no domínio da saúde pode interrogar-se sobre as motivações dos casais para
seguir ou não seguir cursos pré-natais. Numa investigação deste tipo, a ques-
tão poderia enunciar-se como a seguinte: «Quais são as características dos
casais que participam em cursos pré-natais?»
A descrição, encarada como um nível de investigação ou de conhecimen-
to, constitui a base sobre a qual virão juntar-se a explicação e a predição.

A explicação
Para se estar em condições de explicar um acontecimento, uma situação ou
um fenómeno, é preciso descrevê-los previamente. A explicação vai portanto
mais além do que a simples descrição, na medida que estabelece relações entre
os conceitos, os fenómenos e determina a sua razão de ser. Comporta dois
níveis de operações segundo o grau de avanço dos conhecimentos, a saber: a
exploração das relações e a verificação das relações.

A explicação
Se exploramos relações entre conceitos, como nas questões seguintes:
determina a razão de «Quais são os factores associados ao grau de stresse dos pacientes que esperam
ser das relações entre uma cirurgia cardíaca?» ou «Quais são as relações entre .. .?», obter-se-á como
conceitos.
resposta à questão de investigação uma explicação parcial das relações possí-
veis entre os conceitos. Para determinar a existência de relações entre concei-
tos proceder-se-á a um estudo dito descritivo-correlacionaI, pois que se parte da
descrição dos conceitos, obtida no primeiro nível, para explorar relações.
Em compensação, trata-se sobretudo de verificar relações já estabelecidas
entre dois conceitos para conhecer a sua natureza, isto é, para distinguir o sen-
tido da relação, como na questão seguinte: «Qual é a influência do stresse sobre
o restabelecimento das pessoas submetidas a cirurgia cardíaca?». Neste caso,
realizar-se-á um estudo dito correlacionaI para explicar as relações que exis-
Introdução e fundamentos da investigação

tem entre estes dois conceitos. A este nível de exame das relações, as expli-
cações devem incidir sobre a natureza das relações presumidas entre os con-
ceitos. A explicação engloba a predição e tem lugar depois que as relações
entre os conceitos foram postas em evidência no estádio da exploração das
relações. A explicação de uma relação ou de um fenómeno apoia-se na teoria,
sendo esta o conjunto de proposições que visam explicar um fenómeno. Se se
está em condições de explicar um fenómeno, seja clínico, seja social, isso sig-
nifica que se pode descrevê-lo, predizer as suas consequências e intervir a fim
de modificar a situação (Gall, Borg e Gall, 1996).

A predição e o controlo
Num estado mais avançado da investigação situa-se a predição de relações A predição e o
causais entre conceitos (ou variáveis) ou diferenças entre os grupos. A predi- controlo estão,
ção e o controlo pressupõem, na maioria dos casos, uma experimentação, a sobretudo, ligados à
experimentação, que
qual tem por objectivo avaliar a probabilidade de que um determinado resul- tem por objectivo
tado se produza numa situação de investigação, habitualmente provocada. avaliar a probabilidade
de que um
Estão relacionados com a possibilidade de predizer que um acontecimento sur- determinado resultado
girá como efeito ou resultado Y, decorrendo dos dados recolhidos antes de um se produza numa
situação provocada.
momento X. A possibilidade de predizer assenta no princípio da causalidade,
que implica que os fenómenos tenham causas e que as causas produzam efei-
tos. Por exemplo, a questão seguinte serve para prever o resultado de uma
intervenção: «Qual é o grau de eficácia de uma intervenção de apoio sobre o
estado de saúde de cuidadores naturais que têm a seu cargo pessoas atingidas
por défices cognitivos?»
O controlo consiste em fazer variar as condições numa situação de inves-
tigação, com vista a produzir um determinado resultado. As questões coloca-
das apelam a respostas que fornecem indicações precisas sobre as relações de
causa e efeito. Assim, como já mencionámos, as funções da investigação que
são a descrição, a explicação, a predição e o controlo correspondem a níveis
na aquisição de conhecimentos e apelam a diversos tipos de estudos, como
veremos mais além nesta obra.

1.3 Os elementos que sustentam a investigação


A investigação realizada nas diversas disciplinas implica um conjunto de
elementos que sustentam o seu processo e que asseguram a ligação entre a
conceptualização, os métodos, sobre os quais se apoia a investigação, e a apli~
Capítulo 1

cação de medidas concretas na prática. A investigação não está, portanto, sepa-


rada das outras actividades intelectuais: ela toma em conta elementos que con-
tribuem para tomá-la aplicável no mundo empírico (Burns e Grove, 2001;
Fortin, Taggart e Kérouac, 1988; Fortin, 1996). Assim, a investigação está
relacionada com a filosofia, o conhecimento, as operações do pensamento, a
ciência, a teoria e a prática. A figura 1.1 apresenta os principais elementos da
investigação e indica as suas relações recíprocas.

A filosofia
A filosofia fornece uma explicação global do mundo, que se exprime atra-
vés das crenças e dos valores relativos à natureza do ser humano e à sua reali-
dade (Kim, 1989; Seaver e Cartwight, 1977). A filosofia constitui o elemento
mais abstracto do modelo apresentado, mas supõe um contacto com o elemen-
to mais concreto, que é a prática. A filosofia remete para os valores e as crenças
veiculados pelos membros de uma disciplina. As diferentes formas de conceber
a realidade resultam da maneira como os indivíduos encaram os conceitos-
-chave de uma disciplina e os organizam num todo coerente. A busca de uma
explicação do mundo empírico resulta da filosofia. A filosofia utiliza a intuição,
o raciocínio, a introspecção para determinar a finalidade da vida humana, a
natureza do ser, a realidade e os limites do conhecimento (Silva, 1977).

FIGURA 1.1
Relações entre as diversos elementos do conhecimento !
Filosofia
.. Visão do mundo
in fluencia os elementos

1
r Conhecimento
Acumulação
Teoria Ciência
dos saberes
Descreve, explica Explica
e prediz ! o mundo empírico
Investigação
Método de aquisição
dos conhecimentos

1
Prática
local de prática
e de investigação
Introdução e fundamentos da investigação

Em qualquer disciplina, o processo de raciocínio enraíza-se na filosofia,


A filosofia diz respeito aos
nas teorias e nas generalizações empíricas que o definem (Smith e Liehr, postulados, às
2003). A filosofia diz respeito aos postulados, às crenças e às perspectivas que crenças e às perspectivas
que orientam a
orientam a investigação e a prática no seio de uma disciplina. No plano teó- investigação e a prática.
rico, encontramos os conceitos, os modelos e as teorias específicas de cada
disciplina, as quais têm influência sobre a forma de conceber a investigação
e a prática.

o conhecimento
o conhecimento é uma noção que implica diversidade e multiplicidade e
dá lugar a diferenças e a semelhanças nos diversos tipos de saberes (Laville e
Dionne, 1996). A investigação científica, que nos dá a conhecer certos factos,
é um processo metódico de aquisição dos conhecimentos, de que decorre o que
se denomina por conhecimento científico. Outros conhecimentos provenientes
de diferentes fontes contribuem, a diversos níveis, para aumentar o saber teó-
rico e empírico. Assim, os conhecimentos transmitidos de uma cultura para
outra ou de uma disciplina para outra podem ser ou não fundados sobre bases
científicas.

As fontes de aquisição dos conhecimentos


Na maior parte das disciplinas, o conhecimento foi adquirido no decurso da
história a partir de fontes tais como a tradição, a autoridade, a experiência pes-
soal e as tentativas. A intuição e o raciocínio lógico são também considerados
como fontes de aquisição de conhecimentos; como constituem operações de
pensamento serão abordados na secção seguinte.
A tradição. As tradições são práticas baseadas no costume e são trans-
mitidas pela palavra e pela escrita. Os conhecimentos decorrentes da tradição
não têm necessidade de ser adquiridos de novo em cada geração e representam
muitas vezes formas insubstituíveis de saber. Estes conhecimentos continuam,
num bom número de casos, tão verdadeiros hoje como o eram no passado
(Laville e Dionne, 1996). Assim, a acupunctura é praticada há mais de 2000
anos na China e ela está sempre actualizada (Batavia, 2001). Se bem que as
tradições tenham muitas vezes um grande valor, pode acontecer que constitu-
am obstáculo ao progresso do conhecimento, quando se apoiam sobre rituais
e quando não foram objecto de um exame crítico. O saber transmitido pela tra-
dição não assenta, muitas vezes, sobre qualquer dado válido. Tendo imperado,
Capítulo 1

sem partilha durante um longo período de tempo, as tradições podem ser difí-
ceis de mudar, sobretudo quando são mantidas por pessoas que detêm autori-
dade (Burns e Grove, 2001). Por exemplo, a prática da sangria remonta à
época da Grécia antiga, em que se acreditava que o facto de retirar de uma veia
uma certa quantidade de sangue restabelecia os humores. Facto espantoso, esta
prática decorreu até a meados do Século XIX (Batavia, 2001). Também esta
fonte de conhecimentos, que é a tradição, deve ser examinada de forma crítica
à luz de outras fontes de aquisição de conhecimentos e de dados fornecidos
pela ciência.
A autoridade. A autoridade é uma outra fonte de aquisição de
conhecimentos. Ela é, de alguma forma, um canal de transmissão da tradição.
Por exemplo, as religiões aplicam desde séculos as regras que regem certos
aspectos da conduta humana, e transmitem-nas, pela via da autoridade, aos
seus fiéis. Todavia, como o fazem notar Laville e Dionne (1996), estes sabe-
res impostos não têm valor senão quando as pessoas os aceitam e quando
aqueles que os transmitem são considerados como autoridades. Pedir conselho
a uma pessoa autoridade pode ser uma boa ideia se temos toda a razão para
crer no seu mérito. Por exemplo, um estudante que está a redigir a sua tese de
doutoramento pode pedir a opinião de um membro da sua comissão que con-
sidera um perito neste domínio. Por exemplo, a autoridade e a tradição apre-
sentam vantagens, mas não são fontes infalíveis, sobretudo se o crédito dado
a uma pessoa não foi objecto de qualquer verificação.
Tentativa e erro. As tentativas e erros podem ser considerados
como uma forma de aprender quando não se dispõe de outra fonte de conhe-
cimento. O conhecimento que daqui resulta é empírico, e por consequência
transmite-se dificilmente a outros. A aprendizagem por tentativa e erro não é
nem sistemática nem infalível. O facto de multiplicar as operações, com vista
a chegar a uma boa resposta ou determinar o tipo de acção que convém exe-
cutar não constitui em si um meio eficaz de adquirir conhecimentos. Além
disso, esta estratégia de aprendizagem pode revelar-se dispendiosa e mesmo
de risco nos casos em que é necessário intervir rapidamente.
A experiência pessoal. A experiência pessoal pode constituir
uma fonte apreciável de conhecimentos no exercício de uma profissão, em
particular em situações onde é preciso intervir junto de outras pessoas. Uma
longa prática clínica permite reconhecer em certos indivíduos tendências ou
modos de respostas que deixam pressagiar determinadas reacções e sugerem
formas de intervir. Todavia, para que os conhecimentos empíricos possam ser
Introdução e fundamentos da investigação

transmissíveis, é necessário verificar a validade do seu modo de acção recor-


rendo, por exemplo, à investigação.
Entre os modos de aquisição de conhecimento que acabamos de descre-
ver, a investigação científica aparece como a mais rigorosa e a mais aceitável,
pelo facto de que assenta num processo racional. Este recorre tanto à indução
como à dedução, assim como a outros elementos para criar um modo de aqui-
sição dos conhecimentos que, se bem que falível, é geralmente mais válido
que a tradição, a autoridade, a tentativa e erro, a experiência ou o raciocínio
lógico. A investigação distingue-se também dos outros modos de aquisição de
conhecimentos pelo seu carácter empírico, isto é, porque se apoia na obser-
vação dos fenómenos, os quais foram colocados à prova para lhe apreciar a
realidade.

As operações do pensamento
As operações do pensamento constituem com os outros elementos do
conhecimento o pivô da investigação científica. As duas formas de pensamen-
to solicitadas na investigação são o pensamento concreto e o pensamento abs-
tracto. Pela sua natureza, o pensamento concreto incide sobre as coisas per-
ceptíveis para os sentidos ou os acontecimentos observáveis. Diz respeito aos
acontecimentos imediatos. No processo de investigação, o pensamento con-
creto desempenha um papel essencial na planificação e na realização das dife-
rentes etapas de colheita e análise dos dados. O pensamento abstracto é solici-
tado em tudo o que se relaciona com a formulação de uma ideia, mas que não
resulta numa aplicação directa a um caso particular. Esta forma de pensamen-
to é independente e não é limitada no tempo. No contexto do processo de
investigação, o pensamento abstracto é essencial ao desenvolvimento da teo-
ria e da investigação. Ele é posto em acção na definição do problema de inves-
tigação, no estabelecimento do desenho de investigação e na interpretação dos
resultados. Segundo Burns e Grove (2001), a investigação exige aptidões para
o pensamento abstracto, assim como para o pensamento concreto.
Cada elemento do conhecimento, numa dada disciplina, apela a operações
de pensamento. Procedendo do pensamento abstracto, as teorias são verifica-
das pela investigação e integradas num campo de conhecimentos científicos.
O pensamento abstracto preside à elaboração das teorias. Inscrevendo-se num
quadro filosófico, o pensamento abstracto permite à ciência e à teoria unirem-
se para formar um conjunto de conhecimentos susceptíveis de aplicações prá-
ticas. A intuição e o raciocínio são também operações do pensamento.
Capítulo 1

A intuição é uma forma A intuição. Trata-se de um conhecimento que, difere da reflexão, da


de conhecimento análise e do raciocínio, permitindo adquirir uma certeza sem o recurso ao racio-
imediato, que permite cínio. Ela é de facto uma forma de inteligência que percebe de imediato a diver-
adquirir uma certeza
sem o recurso ao sidade e a complexidade do real e o organiza num todo coerente. O que deno-
raciocínio. minamos de senso comum é uma forma de intuição, que consiste num
conhecimento directo (McBurney, 1998). O senso comum comporta limites,
pois varia segundo o tempo e as circunstâncias e é mais pragmático que teórico.
Acontece, por vezes, que a investigação contradiz o conhecimento provenien-
te do senso comum. A intuição é geralmente considerada como não científica,
pelo facto de não poder ser explicada, mas pode, contudo, ser útil em certos
casos. É possível, por vezes, estudar um fenómeno sem ter de o explicar.
a raciocínio. Raciocinar, é desenvolver e organizar as suas ideias
tendo em vista chegar a conclusões. É partir do que se conhece para chegar a
outras descobertas. É pelo raciocínio que os indivíduos conseguem dar um sig-
nificado aos seus pensamentos e às suas experiências (Burns e Grove, 2001).
O raciocínio procede por análise, examinando cada um dos elementos de um
conjunto, tendo como objectivo propor uma explicação dos fenómenos.
O raciocínio é utilizado na elaboração de teorias e no desenvolvimento da
investigação. O raciocínio lógico é também um método de aquisição de conhe-
cimentos que coloca em contribuição ao mesmo tempo a experiência, as facul-
dades intelectuais e os processos do pensamento (Polit e Beck, 2004).
Os dois principais modos de raciocínio lógico são o raciocínio indutivo e
o raciocínio dedutivo. O raciocínio indutivo conduz a passar de observações e
de factos singulares a proposições gerais, como nos enunciados seguintes:
A asma é uma perturbação fisiológica que provoca stresse.
A hipertensão é uma perturbação fisiológica que provoca stresse.
A dor crónica é uma perturbação fisiológica que provoca stresse.
Portanto, todas as perturbações fisiológicas provocam stresse (generalização).
o raciocínio indutivo No raciocínio indutivo, parte-se dos enunciados particulares sobre as per-
consiste em ir do turbações fisiológicas que provocam stresse para chegar à proposição geral de
particular para o geral. que todas as perturbações fisiológicas provocam stresse. A investigação deve
determinar se a proposição geral, segundo a qual todas as perturbações fisio-
lógicas provocam stresse, é válida em todos os casos.
Ao contrário, o raciocínio dedutivo consiste em aplicar princípios gerais e
postulados a situações particulares. O raciocínio dedutivo intervém na elabo-
ração das hipóteses, que serão verificadas pela investigação.
Introdução e fundamentos da investigação

Todos os seres humanos têm a experiência do luto.


Todos os adolescentes são seres humanos.
Todos os adolescentes têm a experiência do luto (especificação).
Neste exemplo, o raciocínio dedutivo parte dos dois enunciados gerais
o raciocínio dedutivo
(premissas) sobre os seres humanos que têm a experiência do luto, para che- consiste em ir do geral
gar à conclusão que todos os adolescentes têm a experiência do luto. As pre- para o particular.
missas devem ser verdadeiras para que a conclusão também o seja (Bums e
Grove, 2001).
Estes dois modos de raciocínio são essenciais para compreender e classi-
ficar os fenómenos e contribuem para a aquisição dos conhecimentos.
Contudo, nem um nem outro dos modos é infalível e não pode ser utilizado,
por si só, como fonte de conhecimento científico.

A ciência
A investigação é um instrumento da ciência (Batey, 1992) e as teorias são
A ciência é um corpo
a linguagem da ciência. A ciência é um conjunto de conhecimentos baseados de conhecimentos
em observações sistemáticas e rigorosas. Ela implica o emprego conjugado, teóricos em que se
encontram definidas
metódico, do pensamento racional e da observação empírica (Graziano e as relações entre os
Raulin, 2000). A ciência é constituída conjuntamente pelos resultados da factos, os princípios,
investigação e por um certo número de teorias verificadas. A ciência pode ser as leis e as teorias.

ao mesmo tempo um resultado, digamos uma descoberta, e um processo no


decurso do qual diferentes concepções são examinadas. A ciência define-se
como um corpo de conhecimentos teóricos onde se encontram definidas as
relações entre os factos, os princípios, as leis e as teorias; ela comporta a pos-
sibilidade de implementar um método de investigação apto para verificar a
teoria. O cientista observa, concebe definições operacionais, verifica hipóteses
e conduz investigações, tendo em vista determinar a regularidade dos fenóme-
nos de maneira a chegar a um grau suficiente de certeza para poder enunciar
leis (LoBiondo-Wood e Haber, 2002).
É graças ao desenvolvimento dos conhecimentos, provenientes da investi-
gação, que a ciência progride constantemente. A ciência é de alguma forma um
reservatório de conhecimentos provenientes de observações e de verificações.
Os filósofos e os cientistas têm como objectivo comum desenvolver os conhe-
cimentos. Contudo, diferem na maneira de apreender a realidade. Assim, no
dOITÚnio da investigação, as questões colocadas não são as mesmas. A filoso-
fia visa responder a questões de ordem metafísica, tais como: «O que é o
Capítulo 1

conhecimento?» Interessando-se pelas relações de causa e efeito, a ciência


trata de questões empíricas: «Quais são as relações entre X e Y?»

A teoria
Uma teoria é um conjunto coerente de conceitos, de proposições e de defi-
Uma teoria é um
conjunto coerente de nições, visando descrever, explicar ou predizer fenómenos. Constituída por
conceitos, de um conjunto de conceitos associados uns aos outros, a teoria apresenta uma
proposições e de
definições, visando visão de um fenómeno. Assim, a explicação modema da reacção à dor consti-
descrever, explicar ou tui objecto de uma teoria. Esta é constituída por vários conceitos gerais liga-
predizer fenómenos.
dos entre si, por um conjunto de proposições, que explicam o fenómeno da dor.
Deste modo, cada teoria aplica-se a um fenómeno concreto, ela define-o e
explica-o.
As teorias representam uma forma de organizar, de integrar ou de isolar
conceitos abstractos, reportando-se à maneira como os fenómenos se ligam
uns aos outros (Polit, Beck e Hungler, 2001). Elas correspondem a um modo
sistemático de observação, que visa unificar num todo coerente os factos obser-
vados, os quais, se fossem considerados separadamente, teriam pouca signifi-
cação. As teorias podem ter como ponto de partida uma ideia, e a investigação
tem por função verificá-las. Elas podem também fundar-se sobre os resultados
da investigação e as operações do pensamento; neste caso, elas fornecem uma
visão coerente dos fenómenos. As teorias permitem explicar os resultados de
investigação e demonstrar a sua utilidade na prática. As teorias podem ser des-
critivas, explicativas ou preditivas e são subordinadas à investigação pelo
facto de que esta serve para verificá-las. Elas orientam a investigação e per-
mitem a formulação de hipóteses; em contrapartida, a investigação permite
desenvolver a teoria e verificá-la.

A prática profissional
A prática profissional pertence ao mundo empírico. A relação de depen-
A investigação reúne a
disciplina como campo dência entre a investigação, a teoria e a prática explica-se pelo facto de que a
de conhecimentos, a investigação reúne a disciplina como campo de conhecimentos, a teoria como
teoria como campo de
organização dos
campo de organização dos conhecimentos e a prática profissional como campo
conhecimentos e a de intervenção e de investigação. A investigação intervém para verificar a teo-
prática profissional ria ou para desenvolvê-la, e esta união entre a teoria e a investigação fornece
como campo de
intervenção. uma base à prática profissional. As actividades clínicas que conduzem à defi-
nição de problemas de investigação, numa dada disciplina, têm frequentemente
a sua origem nos locais da prática. É por isso que a aprendizagem da investi-
Introdução e fundamentos da investigação

gação deve ser ligada à prática profissional, visto que dela provêm os proble-
mas clínicos, psicossociais ou educativos, que serão em seguida examinados
no seio da investigação e ligados à teoria.

Em conclusão
Relembramos que a investigação é o método por excelência, que permite
adquirir conhecimentos e, por este facto, ela depende da teoria, visto que esta
dá uma significação aos conceitos utilizados numa determinada situação.
A investigação permite elaborar teorias ou verificá-las. A investigação que visa
a elaboração da teoria consiste em reconhecer a presença de um fenómeno, em
descrever as suas características e em precisar as relações que existem entre
elas. A investigação que tem por objectivo verificar a teoria procura demons-
trar, com a ajuda de hipóteses retiradas da teoria, que esta última possui uma
evidência empírica (Stevens, 1984; Fawcett e Downs, 1992). A relação que
existe entre a investigação e a teoria, tal como a elaboração desta última,
assenta na investigação e esta, por seu lado, assenta na teoria. A estreita depen-
dência entre a investigação e a teoria encontra-se também no plano do méto-
do, porque os tipos de investigação que servem para verificar as teorias podem
ser ora descritivos, ora explicativos ou preditivos. Assim, os estudos descriti-
vos têm como papel definir as características dos fenómenos, os estudos cor-
relacionais determinam as relações entre estas características, enquanto que os
estudos experimentais servem para predizer e para controlar fenómenos.

1.4 Investigação e perspectivas disciplinares


A investigação, como modo de aquisição de conhecimentos, é utilizada na
A aprendizagem da
maior parte das disciplinas, mas é conduzida diferentemente de uma discipli- investigação deve
na para outra e a sua orientação varia segundo a filosofia que a sustenta e o seu estar ligada à prática,
de forma que o
campo de aplicação. Qualquer que seja a disciplina a que diz respeito, a inves-
profissional, no termo
tigação científica é sempre um processo rigoroso de aquisição de conheci- dos seus estudos,
mentos. As diversas disciplinas que apelam à investigação procuram obter res- possa servir-se dos
seus conhecimentos
postas a questões determinadas por meio da observação de certos factos que para definir problemas
ressaltam do seu domínio, tendo como objectivo a compreensão dos factos particulares a estudar.
estudados. Entre os problemas próprios de uma disciplina, o investigador pode
distinguir os que podem ser objecto de uma investigação e determinar se é
necessário descrever as suas características, compreender e explicar a sua
natureza ou ainda predizer os comportamentos desejáveis, quer seja no domí-
nio das ciências humanas, sociais ou da saúde.
Capítulo 1

É preciso reconhecer que existe, muitas vezes, um fosso entre o mundo da


investigação e o da prática profissional. É por isso que a aprendizagem da
investigação deve ser ligada à prática de maneira que o profissional, no termo
dos seus estudos, possa servir-se dos seus conhecimentos para definir proble-
mas particulares e ajustar consequentemente a sua acção. O mercado do tra-
balho pode constituir, para os profissionais da saúde, uma excelente ocasião de
fazer render os seus conhecimentos e de os partilhar com os seus colegas.
Assim, enfermeiras que trabalham em centros universitários discutem regular-
mente, em conjunto, artigos científicos relacionados com a sua prática (Marcil
e Goulet, 2002). Estas actividades podem contribuir para aumentar os conhe-
cimentos numa determinada disciplina e melhorar a prática profissional. Para
continuar a desenvolver-se, uma disciplina deve atribuir um lugar importante
à investigação. É pela investigação que se constitui um campo de conheci-
mentos específico numa disciplina, que se elabora e se verifica a teoria.
A finalidade visada por qualquer profissão é melhorar a prática dos seus
membros de maneira a fornecer serviços de qualidade à sociedade. Os mem-
bros de uma determinada profissão reconhecem que têm a responsabilidade
pessoal de trabalhar no desenvolvimento dos seus conhecimentos. A investi-
gação e a reflexão são essenciais para desenvolver os conhecimentos científi-
cos e favorecer assim um contínuo progresso.
O interesse que se manifesta numa disciplina em relação à investigação
depende grandemente da formação que os indivíduos receberam. É o que Hart
(1991) denomina por «socialização profissional». Esta reflecte a atitude sobre
a investigação adoptada pelos membros de uma mesma profissão. Esta atitude
varia segundo se é mais ou menos capaz de reconhecer os benefícios que resul-
tam da aplicação dos resultados de investigação na prática, assim como a
necessidade de examinar certos problemas ligados à sua disciplina.

1.5 Investigação fundamental e investigação aplicada


A investigação fundamental e a investigação aplicada diferem uma da
outra pela maneira como elas encaram a aquisição e a utilização dos conheci-
mentos.
A investigação fundamental é um processo científico, que visa a descober-
ta e o avanço dos conhecimentos e que não se ocupa em encontrar aplicações
práticas imediatas. Alguns estudos fundamentais efectuam-se em contextos
altamente controlados, tais como os laboratórios. Em ambiente simulado, pode
Introdução e fundamentos da investigação

ser considerado como relevante a investigação em laboratório (por exemplo,


Os trabalhos teóricos
um estudo sobre o sono). Os trabalhos teóricos ou filosóficos realizados por ou filosóficos
investigadores de diversas disciplinas, tendo por objectivo fazer progredir o realizados nas
diversas disciplinas
conhecimento, fazem igualmente parte da investigação fundamental. A aplica- com a finalidade de
ção dos resultados da investigação é tributária do desenvolvimento dos conhe- fazer progredir o
conhecimento fazem
cimentos. A investigação fundamental ou teórica e a investigação aplicada são parte da investigação
orientadas, tanto uma como a outra, para o desenvolvImento e aquisição de fundamental.
novos conhecimentos.
A investigação aplicada é um processo científico, que visa encontrar apli-
cações para os conhecimentos teóricos. Tem por objecto o estudo de proble-
mas. A investigação aplicada tem por papel encontrar soluções imediatas e A investigação
aplicada tem como
provocar mudanças em situações determinadas. Permite verificar proposições papel encontrar
teóricas e assegurar-se da sua utilidade na prática (Bums e Grove, 2001). soluções imediatas
e provocar mudanças
Serve também para determinar os efeitos das intervenções na prática. A inves- em situações
tigação realizada nos domínios psicossociais, da saúde e da educação é na mai- determinadas.
oria das vezes investigação aplicada. Em certos casos, a investigação aplicada
inscreve-se no prolongamento da investigação fundamental (Grawitz, 1996).
É realizada no terreno, em meio natural.

1.6 Fundamentos filosóficos e metodologias


de investigação
A investigação quantitativa e a investigação qualitativa apoiam-se em fun-
damentos filosóficos e em métodos apropriados para estudar fenómenos.
Um fundamento filosófico pode definir-se como a orientação tomada por
Um fundamento
um indivíduo relativamente à maneira de adquirir conhecimentos ou de con- filosófico influencia o
ceber a investigação (DePoy e Gitlin, 1998). A este respeito, predominam duas investigador na forma
de adquirir
escolas de pensamento: a filosofia de orientação positivista e a filosofia liga- conhecimentos
da à corrente naturalista, que diferem uma da outra pelos seus paradigmas de ou de conceber a
investigação.
investigação. Um paradigma pode ser definido como um conjunto de crenças
e de valores partilhado por um grupo ou uma escola de pensamento. É também
uma visão do mundo que imprime uma direcção particular à investigação.
A noção de paradigma foi introduzida por Kuhn (1970) em La structure de la
révolution scientifique 1, obra na qual ele reconsidera a maneira de conceber o
desenvolvimento da ciência. Para Kubn, o paradigma é de algum modo um

I T: «A estrutura da revolução cientifica».


Capítulo 1

modelo (pattem) que pode servir para guiar a investigação científica. Nós vei-
culamos de forma mais ou menos consciente concepções filosóficas e constru-
ímos, baseando-nos nelas, modelos da realidade que são conformes com as
convenções sociais e que têm por finalidade dar conta da dinâmica de mudan-
ça (Gauthier, 2000). Os paradigmas que mais contribuem para a construção dos
saberes científicos são a metodologia de investigação quantitativa e qualitativa.
Um fundamento filosófico é o que serve de base às decisões em matéria
de metodologia. Isto significa, que as metodologias de investigação devem
adoptar diferentes postulados relativamente ao comportamento humano e à
forma de encarar o conhecimento dos fenómenos. Ao escolher uma metodolo-
gia particular de investigação, o investigador adopta uma visão do mundo e
um fundamento filosófico. Estas duas maneiras de conceber a realidade repre- Ao escolher uma
sentam diferenças fundamentais de orientação que existem entre as escolas de metodologia particular
de investigação,
pensamento positivista e naturalista. A corrente positivista afirma que existe o investigador adopta
uma realidade objectiva, que pode ser descoberta seguindo para tal um méto- uma visão do mundo
e um fundamento
do rigoroso. Portanto, os fenómenos humanos são previsíveis e controláveis. filosófico.
O raciocínio dedutivo na base do positivismo permite predizer e controlar
fenómenos. Para o naturalismo, a realidade é diferente para cada pessoa e
muda com o tempo. Ela descobre-se no decurso de um processo dinâmico que
consiste em interagir com o meio. O conhecimento que daqui decorre é relati-
vo ou contextuaI. Os fenómenos humanos são únicos e não previsíveis.
Em virtude dos fundamentos filosóficos sobre os quais assenta a corrente
naturalista, os factos e os princípios estão enraizados em contextos históricos
e culturais. Várias perspectivas filosóficas humanistas e holísticas utilizam o
raciocínio indutivo para estudar os fenómenos. O investigador que adere a
uma filosofia que coloca a interacção em primeiro plano utilizará uma meto-
dologia naturalista. É o caso da etnografia, que põe a tónica nas significações
e nos comportamentos dos indivíduos num meio cultural e social. Outros
investigadores terão um ponto de vista fenomenológico e considerarão a expe-
riência pessoal dos indivíduos. Contrariamente à corrente naturalista, que
amalgama várias doutrinas filosóficas, o positivismo inscreve-se numa cor-
rente de pensamento que valoriza a investigação experimental. Perpetuando
uma tradição, que dá a primazia às ciências físicas, o positivismo preocupa-se
sobretudo com os resultados.
A metodologia da investigação pressupõe ao mesmo tempo um processo
racional e um conjunto de técnicas ou de meios que permitem realizar a inves-
tigação. A metodologia quantitativa e a metodologia qualitativa devem estar de
Introdução e fundamentos da investigação

acordo com os diferentes fundamentos filosóficos que sustentam uma investi-


gação. Algumas investigações requererão uma descrição e uma explicação dos
fenómenos e farão apelo a técnicas como a entrevista não dirigida, que estão
de acordo com a orientação escolhida; outras investigações implicarão uma
explicação das relações entre os fenómenos ou ainda a predição ou o controlo
dos fenómenos e empregarão métodos de colheita dos dados que estejam rela-
cionados com a respectiva orientação.
A metodologia quantitativa ou objectivista interessa-se pelas causas objec-
tivas dos fenómenos e faz abstracção da situação própria de cada indivíduo;
apela à dedução, às regras da lógica e da medida. É baseada na observação de
factos, de acontecimentos e de fenómenos objectivos e comporta um processo
sistemático de colheita de dados observáveis e mensuráveis. O investigador
segue um processo racional que o leva a percorrer uma série de etapas, indo
da definição do problema de investigação à medida dos conceitos e à obtenção
dos resultados. A objectividade, a predição, o controlo e a generalização são
características distintivas da metodologia quantitativa.
A metodologia qualitativa ou subjectivista serve para compreender o senti-
do da realidade social na qual se inscreve a acção; faz uso do raciocínio indu-
tivo e tem por finalidade chegar a uma compreensão alargada dos fenómenos.
O investigador observa, descreve, interpreta e aprecia o meio e o fenómeno tais
como se apresentam, mas não mede nem controla. Esta metodologia coloca a
tónica no carácter único da acção e dos fenómenos sociais (Gauthier, 2000).
O objectivo deste método de investigação é descritivo. A compreensão mútua
do investigador e dos participantes é essencial no processo de investigação que
se apoia numa metodologia qualitativa. Esta visa compreender o fenómeno tal
como é vivido e relatado pelos participantes. As duas metodologias encaram
diferentemente a realidade, mas ambas supõem um processo rigoroso.

Resumo

A investigação define-se como um processo ra- A investigação está estreitamente ligada a outras
cionai visando a aquisição de conhecimentos . Pode actividades de ordem intelectual. Assim, ela está rela-
ser considerada sob diversos pontos de vista , mas é cionada com a filosofia, o conhecimento, as opera-
possível defini-Ia como um processo sistemático de ções do pensamento, a ciência, a teoria e a prática .
colheita de dados empíricos tendo por objectivo des- Da filosofia derivam os postulados, as crenças e as
crever, explicar e predizer fenómenos . O rigor e a sis- perspectivas disciplinares que são postas em evidência
tematização devem estar presentes em qualquer inves- na investigação e na prática . O conhecimento emana
tigação. de diferentes fontes, como a tradição, a autoridade,
Capítulo 1

as tentativas e erros, o raciocínio lógico. A ciência é concepções filosóficas que o investigador adopta e o
um corpo de conhecimentos constituído de resultados objecto da disciplina . É incontestável que a investiga-
de investigação e de teorias verificadas . A ciência e ção é essencial ao avanço da ciência e ao desenvol-
a teoria estão ligadas entre si pelas operações de vimento das d iferentes profissões . A investigação fun-
pensamento . Estas últimas determinam cada elemento damentai e a investigação aplicada constituem as
da investigação científica. O pensamento concreto duas formas que a investigação científica, é susceptí-
está orientado para as coisas tangíveis, enquanto que vel de tomar. A primeira visa elaborar teorias e prin-
o pensamento abstracto está orientado para o desen- cípios fora de qualquer aplicação prática . A segunda
volvimento de ideias, não comportando aplicação tem por objectos essenciais a resolução imediata de
prática . A investigação depende da teoria visto que problemas concretos e a modificação de situações
esta dá uma significação aos conceitos utilizados determinadas.
numa situação de investigação. A teoria provém da
Os fundamentos filosóficos dependem da manei-
prática e, uma vez verificada no seio da investiga-
ra de conceber a realidade, a ciência e a natureza
ção, ela retorna à prática . A investigação trata muitas
humana . Duas escolas de pensamento jogam um
vezes de problemas clínicos encontrados na prática .
papel de primeiro plano no que se refere ao desen-
As três grandes funções da investigação são a volvimento dos conhecimentos : a filosofia de orienta-
descrição, a explicação e a predição que correspon- ção positivista e a filosofia que se liga à corrente natu-
de cada uma delas a um nível no processo de aquisi- ralista . Cada uma destas filosofias tem o seu próprio
ção dos conhecimentos . A investigação está presente paradigma de investigação. Estes dois paradigmas
na maior parte das disciplinas, mas as suas aplicaçõ- são a metodologia quantitativa e a metodologia qua-
es diferem de uma disciplina para outra, segundo as litativa .

Palavras-chave

Autoridade Investigação aplicada Predição e controlo


Ciência Investigação científica Raciocínio
Conhecimento Investigação fundamental Raciocínio dedutivo
Descrição Investigação qualitativa Raciocínio indutivo
Explicação Investigação quantitativa Teoria
Fudamento filosófico Paradigma Tradições

Exercícios de revisão

A investigação científica é um processo particu- 2. ligue cada um dos elementos do conhec imento de
lar que visa a aqu isição dos conhecimentos . Os exer- (a) a (h) à sua definição.
cícios sugeridos neste capítulo têm por finalidade
a. ciência
ajudá-lo a compreender melhor a natureza da investi-
gação e as relações que existem entre esta e outros b . intuição
elementos do conhecimento. c. raciocínio indutivo

1. O que diferencia a investigação dos outros modos d . investigação


de aquisição dos conhecimentos? e. pensamento concreto
Introdução e fundamentos da investigação

f. filosofia res se interessam. Esta situação insidiosa afecta uma


g . raciocínio dedutivo percentagem apreciável da população .
h. pensamento abstracto
Trabalhos recentes dão conta de um certo núme-
ro de factores - a personalidade, por exemplo - que
Definições contribuem para provocar o esgotamento . O nosso
1. Processo sistemático de colheita de dados propósito no presente estudo é outro: nós procuramos
empíricos, tendo por finalidade descrever, conhecer o ambiente de trabalho destas pessoas . Este
explicar e predizer fenómenos . estudo tem como objectivo explorar as relações entre
as percepções que os indivíduos têm do seu contexto
2. Tipo de raciocínio que tem como ponto de de trabalho e o esgotamento profissional.
partida a observação de factos particulares e
que leva à formulação de uma verdade geral.
a . A prática: A que factos da prática profissional
3. Organização racional dos resultados da faz referência este texto?
investigação e das teorias verificadas no inte- b. A teoria : Que conceito se pretende explorar?
rior de um campo de conhecimentos determi-
c. A investigação: A que nível da investigação
nado.
corresponde este estudo?
4. Conhecimento de uma coisa sem o recurso ao
4. A ciência e a filosofia são solidárias uma da
raciocínio lógico.
outra, mas diferentes em vários aspectos .
5 . Pensamento orientado para as coisas percep-
Explique .
tíveis pelos sentidos ou para os factos obser-
váveis . S. Quais são as duas correntes de pensamento que
desempenham um papel predominante no desen-
6. Tipo de raciocínio pelo qual se passa de uma
volvimento dos conhecimentos?
proposição geral a uma hipótese sobre um
caso particular. 6. A que métodos de investigação correspondem
estas duas correntes filosóficas?
7 . Pensamento orientado para o desenvolvimen-
to de uma ideia sem relação com uma apli- 7. Reporte os enunciados seguintes à corrente «posi-
cação directa, com um caso particular. tivista» (p) ou à corrente «naturalista » (n). segun-
do julga que eles caracterizam uma ou outra .
8 . Enunciado de crenças e de valores a propósi- Para responder, coloque junto ao enunciado a
to da natureza do ser humano e da sua reali- letra p ou n.
dade.
1. Os investigadores visam obter o conhecimen-
3. No texto seguinte, encontra os elementos que se to objectivo que é próprio das ciências físicas
ligam à prática, à teoria e à investigação. e psicossociais.

2 . A investigação que estuda a pessoa no seu


todo tem em conta tanto a dimensão histórica
O esgotamento profissional constitui uma realidade da acção humana como os aspectos subjecti-
que toca um grande número de pessoas, particular- vos da experiência .
mente no domínio dos serviços sociais e da saúde .
3 . Nenhuma realidade objectiva pode ser medida .
Ressalta dos estudos sobre o assunto que o esgota-
mento profissional é o fim de um processo mais ou 4 . Se os investigadores que querem realmente
menos longo que torna a pessoa cada vez mais inca- compreender o mundo, devem interessar-se
paz de realizar as suas tarefas habituais. É um pro- pela realida-de tal como ela é percebida pelos
blema dos mais actuais pelo qual vários investigado- indivíduos.
Capítulo 1

5 . O estabelecimento de um plano de investiga- 8. O conhecimento adquirido pela investigação é es-


ção racional permite tornar a investigação sencial ao estabelecimento de uma base científica
objectiva . para a descrição, a explicação, a predição e o
controlo .
6 . A sociedade está em constante evolução . Em
Dê uma breve definição das palavras au dos gru-
consequência, os investigadores não podem
pos de palavras seguintes :
empregar categorias rígidas para a descrever
a . descrição
ou explicar.
b . explicação
7. O investigador aplica-se a generalizar os c. predição e controlo
resultados das suas investigações. As respostas são dadas no final do livro.

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