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CAPA

Louise Erdrich
National Book Award
Romance
A casa redonda

BADANA DA CAPA

A Casa Redonda é um romance brilhante, uma obra-prima da ficção literária. Vencedor do National
Book Award de 2012 c eleito um dos melhores romances do ano por diversas publicações, este livro
fala de sentimentos poderosos e lança nova luz sobre a maneira como a maturidade pode alterar a
relação entre pais e filhos.

Geraldine, Bazil e Joe tinham uma vida feliz e tranquila. Mas uma agressão inesperada deixa
Geraldine traumatizada e ela mostra-se relutante em falar do que sucedeu à família e também à
polícia. Num único dia, a vida de Joe transforma-se de forma irreversível. Cada vez mais só, o
rapaz de 13 anos vê-se lançado prematuramente no mundo dos adultos.

Enquanto o pai, um juiz tribal, se empenha para que se faça justiça, Joe fica frustrado com a
investigação oficial e, com a ajuda dos seus amigos Cappy, Zach e Angus, vai em busca de
respostas. A sua demanda irá conduzi-los à Casa Redonda, um espaço sagrado e lugar de culto.

Escrita com premência, esta obra baseia-se em vários casos reais, mas o resultado é puramente
ficcional. A Casa Redonda é um romance inesquecível sobre o amor, o ressentimento, a necessidade
e as obrigações que unem as famílias. Louise Erdrich abarca neste livro o trágico, o cómico, um
mundo espiritual bem presente nas vidas das suas personagens tão humanas, e uma história sobre
um caso de injustiça que, infelizmente, é um reflexo do que acontece hoje no nosso mundo.

«Uma romancista genial.»


The Times

BADANA DA CONTRACAPA

Louise Erdrich é uma das mais talentosas escritoras da atualidade e uma das mais importantes dos
Estados Unidos, várias vezes premiada.

Autora de mais de uma dezena de romances, editou também obras de poesia, contos e livros
infantis, bem como um relato sobre a maternidade. O seu romance Filtro de Amor ganhou o
National Book Critics Circle Award e The Last Report on the Míracles at Little No Horse foi
finalista do National Book Award. Mais recentemente, The Plague of Doves conquistou o
Anisfield-Wolf Book Award e foi finalista do Prémio Pulitzer. A Casa Redonda venceu o National
Book Award de 2012.

Louise Erdrich vive no Minnesota, onde é proprietária de uma livraria, a Birchbark Books.

CONTRACAPA

National Book Award 2012


Uma das mais talentosas escritoras da atualidade
National Book Critics Circle Award
Finalista do National Book Award
Finalista do Prémio Pulitzer

A mais interessante romancista americana a aparecer nos últimos anos.»


Philip Roth

«Esta obra demonstra uma capacidade extraordinária para descrever os laços do amor, o
ressentimento, a necessidade e as obrigações que unem as famílias... Um romance poderoso.»
New York Times

«Emotivo... A história narrada pelo protagonista de 13 anos transforma um crime triste e isolado
numa revelação sobre a maneira como a maturidade altera a relação com os nossos pais,
empurrando-nos para novas formas de amor e de dor.»
Washington Post

«A Casa Redonda presenteia-nos com uma magnífica linguagem que faz lembrar Faulkner, García
Marquez e Toni Morrison. Profundamente comovente, este romance é um dos melhores de Erdrich,
e é impossível esquecê-lo.»
USA Today

A Casa Redonda é um dos melhores romances de Louise Erdrich: intenso, pleno de suspense e
moralmente profundo.»
Boston Globe

PÁGINA DE ROSTO
Louise Erdrich
A Casa redonda
Tradução Eugénia Antunes

FICHA TÉCNICA

Reservados todos os direitos de acordo com a legislação em vigor. Reprodução proibida por todos e
quaisquer meios.
A presente edição segue a grafia do Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa
©2012, Louise Erdrich
Direitos para esta edição:
Clube do Autor, S. A.
Avenida António Augusto de Aguiar, 108 - 6.°
1050-019 Lisboa, Portugal
Tel.: 21 414 93 00 / Fax: 21 414 17 21
info@clubedoautor.pt
Título original: The Round House
Autor: Louise Erdrich
Tradução: Eugenia Antunes
Revisão: Rui Augusto
Paginação: Maria João Gomes,
em caracteres Revival
Impressão: Multitipo - Artes Gráficas, Lda. (Portugal)
ISBN: 978-989-714-094-2 Depósito legal: 363 254/13 l.a edição: Setembro, 2013
www.clubedoautor.pt

A CASA REDONDA
Outras Obras de Ficção da Autora:
Love Medicine
The Best Queen
Tracks
The Crown of Columbus (com Michael Dorris)
The Bingo Palace
Tales of Burning Love
The Antelope Wife
The Past Report on the Miracles at Little No Horse
The Master Butchers Singing Club
Four Souls
The Painted Drum
The Plague of Doves
Vida de Sombras

A Pallas

Capítulo Um
1988
Árvores pequeninas tinham atacado as fundações da casa dos meus pais. Não passavam de
plântulas com uma ou duas folhas duras e saudáveis, mas, ainda assim, as hastes dos rebentos
haviam conseguido meter-se por fendas estreitas nos sarrafos castanhos decorativos que cobriam os
blocos de cimento. Tinham crescido na parede invisível e era difícil arrancá-los. O meu pai limpou
a testa com a palma da mão e amaldiçoou-os pela resistência. Eu usava um escardilho pequeno,
velho e oxidado, com o cabo fendido; ele empunhava um atiçador comprido e estreito, que
provavelmente causava mais danos do que trazia benefícios. Ao chuçar às cegas nos locais onde
pressentia que as raízes poderiam ter penetrado, o meu pai estava, sem dúvida, a fazer convenientes
buracos na argamassa para as sementes do ano seguinte.
Sempre que eu conseguia arrancar uma árvore minúscula, colocava-a a meu lado, qual troféu, no
estreito passeio que circundava a casa. Havia rebentos de freixo, ulmeiro, bordo, bordo-negundo e
até uma catalpa com um bom tamanho, que o meu pai colocou numa embalagem vazia de gelado
cheia de água, acreditando que encontraria um local para a replantar. Para mim era um prodígio que
as pequenas árvores tivessem sobrevivido ao inverno do Dakota do Norte.

Poderiam ter recebido alguma água, mas pouca luz e apenas uns quantos torrões de terra. Contudo,
cada semente conseguira enterrar e fixar uma raiz e lançar para fora uma pertinaz gavinha. O meu
pai endireitou-se, esticando as costas doridas. Já chega, disse, muito embora fosse por hábito um
perfeccionista. Todavia, eu não estava disposto a parar, e depois de ele ter entrado em casa para
telefonar à minha mãe, que fora ao escritório buscar uma pasta de arquivo, continuei a arrancar as
pequenas raízes escondidas. O meu pai não voltou a sair, e concluí que se deitara para uma sesta,
como se tornara hábito. Seria de esperar que eu, um miúdo de treze anos com coisas melhores para
fazer, tivesse aproveitado para parar de trabalhar; pelo contrário. A medida que a tarde avançava e o
silêncio e a calma tomavam conta da reserva, foi-me parecendo mais e mais importante eliminar
cada uma destas invasoras até às pontas das raízes, onde se concentrava toda a energia vital.
Parecia-me também importante ser meticuloso no cumprimento daquela tarefa, por oposição a
tantas outras que completara de forma atabalhoada. Mesmo hoje em dia fico surpreendido com o
meu grau de empenho. Introduzia o escardilho o mais junto que conseguia do rebento, no sentido
do comprimento. Cada arvorezinha exigia uma estratégia diferente. Era quase impossível não partir
a planta antes de as raízes serem extraídas intactas dos seus teimosos esconderijos.
Desisti por fim, entrei em casa e esgueirei-me até ao escritório do meu pai para ir buscar o livro de
direito a que ele chamava a Bíblia, o Handbook of Federal Indian Law [Manual de Lei Federal
Indígena], de Félix S. Cohen. Fora dado ao meu pai pelo seu pai; a encadernação, de um vermelho
da cor da ferrugem, tinha marcas de raspaduras, a comprida lombada estava rachada e todas as
páginas exibiam comentários manuscritos. Tentava familiarizar-me com a linguagem antiquada e as
constantes notas de rodapé. O meu pai ou o meu avô tinham desenhado um ponto de exclamação na
página 38, ao lado do nome, escrito em itálico, de um caso que naturalmente também despertara a
minha curiosidade: Estados Unidos vs. Quarenta e Três Galões de Uísque. Suponho que um dos
dois teria achado aquele título ridículo, tal como eu.

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Não obstante, queria analisar a ideia já estabelecida, e reforçada naquele caso, de que os nossos
tratados com o Governo se assemelhavam a tratados com nações estrangeiras, do que a grandeza e
o poder de que o meu mooshum (Nota 1) falava não se haviam perdido por completo, uma vez que
eram protegidos por lei, pelo menos até certo nível, que era o que eu pretendia descobrir.
Estava a ler e a beber um copo de água fresca quando o meu pai acordou da sesta e entrou na
cozinha desorientado e a bocejar. A despeito da sua importância, o Manual de Cohen não é um
volume pesado e, assim que o meu pai apareceu, escondi-o no meu colo, debaixo da mesa. Passou a
língua pelos lábios secos e olhou em redor, em busca do cheiro a comida, do barulho de panelas, do
tilintar de copos ou do som de passos. O que disse então surpreendeu-me, embora à primeira vista
as suas palavras parecessem insignificantes.
Onde está a tua mãe?
A voz dele soava rouca e áspera. Fiz deslizar o livro para outra cadeira, pus-me de pé e estendi-lhe
o meu copo de água. Bebeu-a de um só trago. Não voltou a dizer aquelas palavras, mas
entreolhámo-nos fixamente de uma forma que me pareceu adulta, de certo modo, como se ele
soubesse que, ao ler o seu livro, me introduzira no mundo dele. Fitou-me até eu baixar os olhos.
Acabara de fazer treze anos. Há duas semanas, tinha doze.
No trabalho?, respondi, para desviar o seu olhar. Presumira que ele sabia onde ela se encontrava,
que conseguira essa informação quando telefonara. Eu sabia que, na verdade, ela não estava no
trabalho. Atendera uma chamada e depois dissera-me que ia ao escritório buscar uma pasta ou duas.
Enquanto especialista em registo tribal, o mais provável é que andasse a pensar num qualquer
requerimento que recebera. Era domingo, daí a calmaria. A pausa de domingo à tarde. Ainda que
depois tivesse ido a casa da sua irmã Clemence fazer-lhe uma visita, por aquela altura a minha mãe
já estaria de volta para começar a fazer o jantar. Ambos o sabíamos. As mulheres não se dão conta
da importância que os homens atribuem à regularidade dos seus hábitos. Assimilamos as suas idas e
vindas nos nossos corpos, os seus ritmos nos nossos ossos. A nossa pulsação bate ao mesmo
compasso que a delas e, como sempre acontecia nas tardes de fim de semana, esperávamos que a
minha mãe nos marcasse o ritmo do resto do dia.

Nota 1 - Mooshum quer dizer «avô» na língua ojibwa. (N. da T.)

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Assim sendo, a sua ausência fez parar o tempo.
Que havemos de fazer?, perguntámos ambos em uníssono, o que, mais uma vez, foi perturbador;
mas, pelo menos, ao ver-me enervado, o meu pai tomou as rédeas da situação.
Vamos encontrá-la, disse ele. E naquele momento, enquanto vestia o casaco, fiquei até satisfeito por
ele se mostrar tão decidido — encontrá-la, não apenas procurá-la, ir ver dela. Sairíamos e iríamos
encontrá-la.
Deve ter tido um furo, opinou ele. Provavelmente, levou alguma pessoa a casa e teve um furo.
Malditas estradas. Vamos a pé até à casa do teu tio, pedimos-lhe o carro emprestado e vamos
encontrá-la.
Encontrá-la, outra vez. Caminhei ao lado dele a passos largos. Ainda andava ligeiro e com vigor
quando era preciso.

Tornara-se advogado, depois juiz e já casara tarde. Também eu fui uma surpresa para a minha mãe.
O meu velho mooshum chamava-me Ups; foi a alcunha que me deu e, infelizmente, outros
membros da família acharam graça. Por isso, até hoje, por vezes sou apelidado de Ups. Descemos a
colina até onde o meus tios moravam, numa casa verde-pálida do Departamento de Habitação e
Desenvolvimento Urbano, protegida por choupos e aburguesada por três pequenos espruces-azuis.
Mooshum também aí vivia, numa eterna neblina. Todos nos orgulhávamos da sua prodigiosa
longevidade. Era um ancião, mas ainda cuidava do quintal. Todos os dias, depois dos seus esforços,
deitava-se — assemelhando-se a um monte de paus — a descansar num catre junto à janela,
dormitando, por vezes emitindo um som rouco, acompanhado de perdigotos, que talvez fossem
risadas.
Quando o meu pai explicou a Clemence e Edward que a minha mãe tivera um furo e que
necessitávamos do carro deles, como se tivesse de facto conhecimento de um furo que era produto
da sua imaginação, quase desatei a rir. Parecia ter-se convencido da veracidade da sua especulação.
Descemos o caminho da garagem de marcha-atrás no Chevrolet do meu tio e rumámos aos
escritórios tribais. Contornámos o parque de estacionamento. Vazio. As janelas estavam às escuras.
Ao sairmos de novo pela entrada, virámos à direita.

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Foi a Hoopdance, aposto, garantiu o meu pai. Precisava de alguma coisa para o jantar. Talvez
planeasse fazer-nos uma surpresa, Joe.
Sou o segundo Antone Bazil Coutts, mas andaria à pancada com qualquer pessoa que juntasse
«júnior» ao final do meu nome. Ou um número. Ou me chamasse Bazil. Aos seis anos decidira que
era Joe. Aos oito, dei-me conta de que escolhera o nome do meu bisavô, Joseph. Conhecia-o
principalmente enquanto autor de inscrições em livros com páginas cor de âmbar e encadernações
de couro ressequido. Deixara aos seus herdeiros várias estantes destas antiguidades. Melindrava-me
não ter um nome novo em folha que me distinguisse da enfadonha linhagem dos Coutts, composta
por homens responsáveis, íntegros, até mesmo extemporaneamente heroicos, que bebiam de forma
discreta, fumavam um cigarro esporádico, conduziam um carro utilitário e apenas demonstravam
aquilo de que eram capazes casando com mulheres mais inteligentes. Eu considerava-me diferente,
embora não soubesse ainda de que modo. Mesmo naquela altura, mitigando a ansiedade enquanto
partíamos em busca da minha mãe, que fora ao supermercado — apenas isso, um pequeno desvio,
sem dúvida —, tinha consciência de que o que estava a acontecer era uma coisa fora do normal.
Uma mãe desaparecida. Uma coisa que não sucedia ao filho de um juiz, nem mesmo quando este
vivia numa reserva. De uma forma um pouco vaga, esperava que alguma coisa acontecesse.
Eu era o tipo de miúdo que passava uma tarde de domingo a arrancar árvores minúsculas das
fundações da casa dos pais. Já deveria ter cedido à inevitável evidência de que aquele seria o
género de pessoa que, ao fim e ao cabo, me tornaria, mas continuava a lutar contra isso. No entanto,
quando digo que queria que tivesse acontecido alguma coisa, não me refiro a uma coisa má, mas a
alguma coisa. Uma ocorrência rara. Um avistamento. Dinheiro ganho ao bingo, embora o domingo
não fosse um dia de bingo e a minha mãe não fosse pessoa de jogar. Era isso que eu queria, porém,
alguma coisa fora do comum. Apenas isso.
A meio caminho de Hoopdance, ocorreu-me que o supermercado estava fechado ao domingo.

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Pois claro que está! O queixo do meu pai projetou-se para a frente e ele agarrou o volante com mais
força. O seu perfil pareceria indígena no cartaz de um filme, e romano numa moeda. Havia um
estoicismo clássico no seu nariz aquilino e na mandíbula. Continuou em direção a Hoopdance,
argumentou, porque talvez ela se tivesse esquecido também de que era domingo. Foi então que nos
cruzámos com ela. Olha, ali! Passou por nós a grande velocidade na faixa contrária, conduzindo
acima do limite de velocidade, ansiosa por regressar a casa, para junto de nós. Mas estávamos ali!
Rimos do seu ar decidido e sério ao mesmo tempo que fazíamos inversão de marcha e íamos atrás
dela, no seu encalço.
E doida, disse o meu pai a rir, aliviado. Estás a ver, eu bem te disse. Esqueceu-se. Foi ao
supermercado e esqueceu-se de que estava fechado. Deve estar furiosa por ter desperdiçado
gasolina. Oh, Geraldine! Ao dizer aquelas palavras, a sua voz evidenciava diversão, adoração,
espanto. Oh, Geraldine! Com duas meras palavras deixava claro que amava, e sempre amara, a
minha mãe. Nunca deixara de se sentir grato por ela o ter desposado e logo a seguir lhe ter dado um
filho, quando já começava a acreditar que seria o último da sua linhagem. Oh, Geraldine.
Abanou a cabeça, sorrindo ao mesmo tempo que conduzia, e estava tudo bem, mais do que bem.
Podíamos admitir que a incaracterística ausência da minha mãe nos deixara preocupados. Podíamos
ser sacudidos e assim tomar de novo consciência do quanto valorizávamos a santidade das
pequenas rotinas. Por mais estouvado que me considerasse, nos meus pensamentos prezava aqueles
prazeres tão triviais.
Era então a nossa vez de a preocupar a ela.
Só um pouco, disse o meu pai, só para a deixar provar uma gota do seu próprio veneno. Fomos sem
pressas devolver o carro a Clemence e subimos a colina antecipando a pergunta indignada da minha
mãe:
Onde estavam? Estava mesmo a vê-la de punhos cerrados nas ancas. O sorriso prestes a assomar
por detrás do semblante carregado. Desataria a rir quando lhe contássemos a história.
Subimos o caminho de terra batida que conduzia à garagem. Ao longo dele, numa estreita faixa, a
minha mãe plantara os amores-perfeitos que havia semeado nos pacotes de leite.

14

Colocara-os cedo. A única flor capaz de suportar uma geada. Ao subirmos o caminho vimos que ela
continuava dentro do carro, sentada no lugar do condutor, parada em frente à parede branca que a
porta da garagem formava. O meu pai desatou a correr. Também percebi que algo de errado se
passava pela postura do seu corpo, fixa, rígida. Quando alcançámos o automóvel, o meu pai abriu a
porta do condutor. Ela tinha as mãos cravadas no volante e olhava em frente, parecia cega, tal como
quando passáramos por ela em sentido contrário na estrada para Hoopdance. Víramos o seu olhar
fixo e concentrado e ríramos. Está furiosa por causa da gasolina que desperdiçou! Eu estava mesmo
atrás do meu pai. Também nessa altura tive o cuidado de não pisar as folhas e os rebentos
recortados dos amores-perfeitos. Colocou as suas mãos por cima das dela e, com todo o cuidado,
foi-lhe soltando os dedos do volante. Agarrando-a pelos cotovelos, tirou-a do carro e segurou-a ao
mesmo tempo que ela se deslocava na sua direção, ainda dobrada como se continuasse sentada ao
volante. Tombou contra ele, olhando para mim, mas sem me ver. Havia vomitado por toda a parte
da frente do seu vestido, e a saia, bem como o tecido cinzento do banco do carro, estavam
ensopados do seu sangue escuro.
Corre a casa da Clemence, disse o meu pai. Corre até lá e diz-lhes que vou levar a tua mãe às
urgências em Hoopdance. Diz-lhes que vão lá ter.
Com uma mão, abriu a porta do banco traseiro e depois, como se estivessem a executar uma
estranha dança, manobrou a minha mãe até à extremidade do assento e, muito devagarinho, deitou-
a sobre ele. Ajudou-a a pôr-se de lado. Ela ainda não dissera uma palavra, embora naquele
momento tenha humedecido os lábios rachados e ensanguentados com a ponta da língua. Via-a
pestanejar, um pequeno esgar. O seu rosto começava a inchar. Contornei o carro e entrei pela outra
porta. Levantei-lhe a cabeça e deslizei a perna por baixo dela. Sentei-me a seu lado, com o braço
pousado no ombro dela. A minha mãe tremia sem parar, como se um interruptor tivesse sido
acionado no seu interior. Um cheiro forte desprendia-se dela, a vomitado e a outra coisa, gasolina
ou querosene.

15

Eu deixo-te lá, disse o meu pai, fazendo marcha atrás, os pneus chiando.
Não, eu também vou. Tenho de a segurar. Telefonamos do hospital. Quase nunca desafiara o meu
pai por palavras ou ações, mas nenhum de nós se deu sequer conta disso. Houvera já aquele olhar
estranho, como que entre dois homens adultos, e eu não estivera preparado para ele. Também não
importava. Segurava entretanto a minha mãe com firmeza no banco de trás do carro. O sangue dela
sujara-me. Levei a mão à chapeleira e puxei da velha manta de xadrez escocês que ali
costumávamos ter. Ela tremia tanto que eu receava que se desconjuntasse.
Depressa, pai.
Está bem, disse ele.
E carregou no acelerador. Íamos a mais de cento e quarenta quilómetros por hora. O carro voava.

O meu pai tinha uma voz capaz de retumbar; dizia-se que a desenvolvera. Não era uma coisa que
tivesse na juventude, mas foi-lhe necessário cultivá-la na sala de audiências. A sua voz retumbou e
encheu a entrada das urgências. Assim que os enfermeiros colocaram a minha mãe numa maca, o
meu pai disse-me que fosse telefonar a Clemence. E depois que esperasse. Com a sua raiva a encher
o ar, fazendo-o crepitar, eu sentia-me melhor. O que quer que tivesse acontecido, seria resolvido.
Por causa da fúria dele, que era uma coisa rara e produzia resultados. Segurava a mão da minha
mãe quando a empurraram para o interior das urgências. As portas fecharam-se atrás deles.
Sentei-me numa cadeira de plástico moldado cor de laranja. Uma mulher grávida escanzelada
passara em frente à porta aberta do carro, observando a minha mãe, assimilando todos os
pormenores antes de ir fazer o seu registo. Sentou-se pesadamente ao lado de uma idosa, à minha
frente, e pegou num número antigo da revista People.
Vocês, índios, não têm lá um hospital só para vocês? Não estão a construir um novo?
O edifício das urgências está em construção, expliquei-lhe. Ainda assim, disse ela.

16

Ainda assim o quê? Tornei a minha voz áspera e sarcástica. Nunca fui como tantos miúdos índios,
que baixavam os olhos em silêncio, engolindo a sua raiva sem nada dizer. A minha mãe não me
educara dessa forma.
A grávida franziu os lábios e cravou os olhos na revista. A idosa tricotava o polegar de uma luva.
Dirigi-me ao telefone público, mas não tinha dinheiro. Abeirei-me do guiché e pedi para usar o
telefone. Como estávamos suficientemente próximos de casa para que a chamada fosse local, a
funcionária acedeu. Do outro lado, porém, ninguém atendeu. Percebi então que a minha tia levara
Edward a adorar o sacramento, o que os fazia sair de casa aos domingos ao fim do dia. Edward
dizia que enquanto Clemence adorava o sacramento, ele meditava sobre como fora possível que os
humanos tivessem evoluído desde os macacos para ficarem sentados boquiabertos a contemplar
uma bolacha branca. O tio Edward era professor de Ciências.
Voltei a sentar-me na sala de espera, o mais longe possível da mulher grávida, mas como a sala era
bastante pequena, não estava tão afastado quanto desejaria. Ela ia folheando a revista. A capa exibia
a cara de Cher. Consegui ler as palavras ao lado do seu queixo: «Transformou Moonstruck num
mega-êxito, o amante tem 23 anos e é dura o suficiente para dizer, «mete-me comigo e mato-te».»
Contudo, Cher não parecia dura. Tinha o aspeto de uma boneca de plástico surpreendida. A mulher
ossuda e protuberante espreitou por detrás de Cher e falou com a idosa tricotadeira.
Fiquei com a ideia de que aquela pobre mulher sofreu um aborto, a sua voz adotou um tom
malicioso, ou talvez uma violação.
Descolou o lábio superior das dentuças de coelho ao mesmo tempo que olhava para mim. O seu
cabelo seco e amarelento estremeceu. Olhei-a de volta nos seus olhos cor de avelã desprovidos de
pestanas. Então, por instinto, fiz uma coisa estranha. Dirigi-me a ela e tirei-lhe a revista das mãos.
Sem desviar o olhar, rasguei a capa e deixei cair o resto da revista. Rasguei outra vez a capa. As
sobrancelhas idênticas de Cher separaram-se. A senhora que tricotava contraiu os lábios, contando
as malhas. Devolvi a capa, e a grávida aceitou os pedaços. Então, de repente, senti-me mal em
relação a Cher. Que me fizera ela de mal? Levantei-me e abandonei a sala de espera.

17

Fiquei do lado de fora da porta. Conseguia ouvir a mulher, a sua voz alta, triunfante, queixando-se à
funcionária. O Sol já quase se pusera. O ar arrefecera e, com a escuridão, fui acometido por um
calafrio furtivo. Dei uns pulos e abanei os braços. Tanto se me dava. Não voltaria a entrar até que a
mulher se fosse embora ou até que o meu pai saísse e me dissesse que a minha mãe estava bem.
Não conseguia parar de pensar no que aquela mulher dissera. Aborto. Uma palavra que não
compreendia totalmente, embora soubesse que tinha que ver com bebés. Coisa que sabia ser
impossível. A minha mãe tinha-me dito, seis anos antes, quando eu a atazanara porque queria um
irmão, que o médico deixara bem claro que depois de mim ela não podia engravidar de novo. Não
aconteceria, ponto final. Portanto, só restava a outra palavra.

Ao fim de um bocado, vi uma enfermeira conduzir a mulher grávida para dentro das urgências.
Esperei que não a pusessem perto da minha mãe. Voltei a entrar e telefonei à minha tia, que disse
que deixaria Edward a tomar conta de Mooshum e viria de imediato ter connosco. Perguntou-me
também o que acontecera.
A minha mãe está a sangrar, disse. Senti um nó enorme na garganta e não fui capaz de dizer mais
nada.
Está ferida? Houve algum acidente?
Lá consegui balbuciar que não sabia, e Clemence desligou. Uma enfermeira de rosto inexpressivo
veio à rua e disse-me que me levaria até à minha mãe. Desaprovava que a minha mãe tivesse
pedido para me ver. Insistiu, disse ela. A minha vontade era ir a correr, mas segui a enfermeira por
um corredor bem iluminado até uma sala sem janelas e com as paredes cobertas por vitrinas
metálicas verdes. A iluminação era ali muito mais ténue e a minha mãe vestia uma fina bata
hospitalar. Havia um lençol a cobrir-lhe as pernas. Não se via sangue em lado nenhum. O meu pai
estava de pé à cabeceira da cama, agarrando a barra metálica com a mão. A princípio não olhei para
ele, apenas para ela. A minha mãe era uma mulher bonita. Era um facto conhecido por mim desde
sempre e reconhecido pela família e pelos desconhecidos. Ela e Clemence tinham a pele da cor de
café com leite e cabelos encaracolados, sedosos, pretos e sensuais.
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Mesmo depois de terem tido filhos, continuavam magras. Eram calmas e diretas, com olhares
autoconfiantes e lábios de estrelas de cinema. Quando riam à gargalhada, porém, perdiam toda a
dignidade, e roncavam, arrotavam, resfolegavam, ofegavam e até se peidavam, o que as levava a
ficar ainda mais histéricas. Habitualmente, era uma que provocava a outra, mas, por vezes, também
o meu pai conseguia que perdessem o controlo. Mesmo nessas alturas, eram belas.
Naquele momento, o rosto da minha mãe estava inchado, com vergões e horrivelmente deformado.
Espreitava por entre frinchas na carne inchada das pálpebras.
Que aconteceu?, perguntei, feito estúpido.
Não respondeu. Dos cantos dos seus olhos escorreram algumas lágrimas. Secou-as com o punho
coberto de gaze. Estou bem, Joe. Olha para mim. Vês?
E eu olhei, mas ela não estava bem. Tinha arranhões, nódoas negras e aquele terrível inchaço na
cara. A sua pele perdera o habitual tom de café com leite. Estava da cor da cinza. Os lábios
pareciam cosidos com sangue seco. A enfermeira entrou e levantou a extremidade da cama com
uma manivela. Estendeu outro cobertor por cima dela. Eu deixei pender a cabeça e inclinei-me na
sua direção. Tentei acariciar-lhe o pulso enfaixado e as pontas dos dedos, frias e secas. Com um
grito, encolheu a mão, como se eu a tivesse magoado. Retesou-se e fechou os olhos. Aquele gesto
destroçou-me. Olhei para o meu pai, e ele fez um gesto para que me aproximasse dele. Colocou o
braço em redor dos meus ombros e conduziu-me para fora da sala.
Ela não está bem, disse eu.
Baixou os olhos na direção do relógio de pulso e voltou a olhar para mim. O seu rosto espelhava a
raiva sussurrante de um homem que não conseguia pensar com a rapidez que desejava.
Ela não está bem, repeti, como se quisesse comunicar-lhe uma verdade urgente. Por um momento,
achei que ele sucumbiria. Percebi que alguma coisa crescia dentro dele, mas dominou-a, expirou
e recompôs-se.
Joe. Olhava de novo para o relógio. Joe, disse ele. A tua mãe foi agredida.

19

Detivemo-nos no corredor, lado a lado, sob as luzes fluorescentes que zuniam e piscavam. Disse a
primeira coisa que me veio à cabeça. Por quem? Quem é que fazia isso?
Embora fosse absurdo, ambos nos demos conta de que a reação habitual do meu pai teria sido
corrigir o meu uso da gramática. Olhámos um para o outro e ele não disse nada. O meu pai possui a
cabeça, o pescoço e os ombros de um homem alto e forte, mas o resto do seu corpo é perfeitamente
comum. Talvez até um pouco desajeitado e flácido. Se pensarmos bem, é um bom físico para um
juiz. Sentado no seu lugar na sala de audiências, agiganta-se imponente, mas quando se reúne com
as partes no seu gabinete (um ilustre quarto de arrumos), não tem um aspeto ameaçador e as
pessoas confiam nele. Para além de retumbante, a sua voz é capaz de todas as gradações, e por
vezes consegue ser muito suave e gentil. Era essa docilidade que naquele momento me assustava,
bem como a brandura. Quase um sussurro. Ela não conhece o homem que a atacou, Joe. Mas
vamos encontrá-lo?, perguntei no mesmo tom sussurrante. Vamos encontrá-lo, afirmou o meu pai.
E depois?
O meu pai nunca fazia a barba ao domingo e o seu rosto começava a evidenciar uma sombra
cinzenta. Aquela coisa crescia de novo dentro dele, prestes a irromper. Pôs as mãos nos meus
ombros e falou com aquela docilidade esganiçada que me assustava.
Neste momento, não consigo pensar a tão longo prazo. Coloquei as mãos sobre as suas e olhei-o
nos olhos. Nos seus francos olhos castanhos. Queria ouvi-lo dizer que quem agredira a minha mãe
seria descoberto, punido e morto. O meu pai percebeu isto. Cravou os dedos nos meus ombros.
Apanhá-lo-emos, declarei rapidamente, mas sentia-me receoso, estonteado. Sim.
Afastou as mãos dos meus ombros.
Sim, voltou a dizer. Tamborilou o mostrador do relógio, mordeu o lábio. Era bom que a polícia não
demorasse. É preciso recolherem o depoimento dela. Já cá deviam estar.
Demos meia volta para regressar ao quarto.

20

Que polícia?, perguntei.


Exatamente, disse ele.

A enfermeira não queria que entrássemos ainda no quarto, e enquanto esperávamos, a polícia
chegou. Três homens atravessaram as portas das urgências e aguardaram em silêncio no corredor.
Havia um agente estatal, um agente local, do município de Hoopdance, e Vince Madwesin, da
Polícia Tribal. O meu pai insistira para que cada um recolhesse o depoimento da minha mãe, pois
não era claro onde o crime fora cometido, se em terras estatais se tribais, e quem o cometera, se um
índio ou um não-índio. Eu já sabia, de uma forma rudimentar, que estas questões iriam girar em
torno dos factos. Também já sabia que estas questões não alterariam os factos, mas mudariam
inevitavelmente a forma como procuraríamos que a justiça fosse feita. O meu pai tocou-me no
ombro antes de me deixar e ir ter com eles. Fiquei encostado à parede. Eram todos um pouco mais
altos que o meu pai, mas conheciam-no e inclinaram-se para o ouvir. Escutaram-no com toda a
atenção, nunca desviando o olhar do rosto dele. Enquanto falava, olhava de vez em quando para o
chão e cruzava as mãos atrás das costas. Olhava para cada um deles à vez, por debaixo das
sobrancelhas, e depois voltava a fixar os olhos no chão.
Os agentes, um por um, entraram no quarto com um bloco de apontamentos e uma caneta,
emergindo ao fim de cerca de quinze minutos, sem expressão. Cada um deles apertou a mão do
meu pai e partiu apressadamente.
Um médico jovem chamado Egge estava de serviço naquele dia. Fora ele quem examinara a minha
mãe. Quando o meu pai e eu nos preparávamos para entrar no quarto da minha mãe, reparámos que
o Dr. Egge regressara.
Não aconselho que o rapaz..., começou ele.
Achei engraçado que a sua cabeça abobadada, calva e brilhante se assemelhasse a um ovo, tal como
o seu nome (Nota 2). O seu rosto oval, com óculos redondos de armações pretas, parecia-me
familiar, e percebi que era o tipo de cara que a minha mãe costumava desenhar nos ovos cozidos
para me motivar a comê-los.

Nota 2 - A palavra inglesa para ovo é «egg». (N. da T.)

21

A minha mulher insistiu em ver o Joe outra vez, disse o meu pai ao Dr. Egge. Precisa que ele veja
que ela está bem.
O Dr. Egge ficou calado. Lançou ao meu pai um olhar penetrante e expressivo. O meu pai afastou-
se do médico e pediu-me que fosse à sala de espera ver se Clemence já chegara. Gostava de ver a
mãe outra vez.
Eu depois vou chamar-te, disse o meu pai num tom urgente. Vai. O Dr. Egge fitava o meu pai com
um olhar ainda mais severo. Virei costas a ambos com enorme relutância. Ao mesmo tempo que se
afastavam de mim, o meu pai e o Dr. Egge falavam em voz baixa. Não queria ir-me embora, por
isso virei-me e fiquei a olhar para eles antes de sair para a sala de espera. Detiveram-se à porta do
quarto. O Dr. Egge parou de falar e ajustou os óculos na cana do nariz com um dedo. O meu pai
avançou para a parede como se tencionasse atravessá-la. Pressionou a testa e as palmas das mãos
contra a parede, cerrou os olhos e assim ficou.
O Dr. Egge virou a cabeça e viu-me estacado junto às portas. Apontou na direção da sala de espera.
Com aquele gesto insinuava que eu era demasiado novo para presenciar a emoção do meu pai. Não
obstante, ao longo das últimas horas, tornara-me cada vez mais resistente à autoridade. Em vez de
desaparecer educadamente, corri para o meu pai, empurrando o Dr. Egge para o lado. Lancei os
braços em redor do seu tronco flácido, por baixo do casaco, e agarrei-o com força sem nada dizer,
respirando apenas com ele, inspirando grandes soluços de ar.

Muito mais tarde, depois de me ter dedicado ao direito e de ter regressado e examinado todos os
documentos que encontrei, todos os depoimentos, depois de ter revivido cada instante daquele dia e
dos dias que se seguiram, compreendi que fora naquele momento que o meu pai ficara a conhecer,
da boca do Dr. Egge, os pormenores e a gravidade dos ferimentos da minha mãe. No entanto,
naquele dia, depois de Clemence me ter separado do meu pai e levado dali, tudo o que eu sabia era
que o corredor se tornara uma subida inclinada a pique. Saí pelas portas e deixei Clemence a falar
com o meu pai. Ao fim de uma meia hora sentado na sala de espera, Clemence veio dizer-me que a
minha mãe ia ser operada.

22

Deu-me a mão. Ficámos sentados a contemplar o quadro de uma pioneira sentada numa colina
soalheira com o bebé deitado a seu lado, à sombra de um chapéu de chuva preto. Concordámos em
que nunca gostáramos muito da imagem e que a partir de então iríamos odiá-la ativamente, embora
a culpa não fosse da imagem.
Eu devia levar-te para casa. Podias dormir no quarto do Joseph, disse Clemence. Amanhã podias
seguir para a escola a partir da nossa casa. Eu volto para aqui e fico à espera.
Estava cansado, doía-me a cabeça, mas olhei para ela como se estivesse doida. Porque era isso
mesmo que parecia, se achava que eu iria à escola. Nada prosseguiria como de costume. Aquele
corredor inclinado a pique conduzia àquele lugar — a sala de espera — onde eu iria esperar.
Podias pelo menos dormir, argumentou a tia Clemence. Não te fazia mal dormir. O tempo passaria
mais depressa e não terias de olhar para aquele maldito quadro.
Foi violação?, perguntei-lhe.
Sim, disse ela.
Aconteceu mais qualquer coisa, referi.
A minha família não é de ser pôr com rodeios. Embora católica, a minha tia não era pessoa de
meias-palavras. Quando me respondeu, o seu tom era firme e sereno.
Violação é sexo forçado. Um homem pode obrigar uma mulher a ter relações sexuais contra a sua
vontade. Foi isso que aconteceu.
Fiz que sim com a cabeça, mas queria saber outra coisa.
Ela vai morrer por causa disso?
Não, disse Clemence de imediato. Não vai morrer. Mas por vezes...
Mordeu os lábios por dentro. Formaram uma linha ao mesmo tempo que semicerrava os olhos na
direção do quadro.
... é mais complicado, prosseguiu por fim. Viste que ela estava ferida com gravidade, não viste?
Clemence levou a mão à face, maquilhada por ter ido à igreja.
Sim, vi.
Os nossos olhos encheram-se de lágrimas e desviámos o olhar um do outro, cravando-o na mala de
Clemence enquanto ela procurava lenços de papel.

23
Permitimo-nos chorar um pouco enquanto ela tirava os lenços. Foi um alívio. Secámos então as
lágrimas, e Clemence continuou.
Pode ser mais violento que noutras ocasiões.
Violada com recurso a violência, pensei.
Sabia que aquelas palavras se usavam juntas. Provavelmente lera-as em algum caso referido num
dos livros do meu pai, num artigo de jornal ou nos estimados policiais de capa mole que o meu tio
Whitey guardava na sua estante feita à mão.
Gasolina, disse eu. Senti-lhe o cheiro. Porque é que ela cheirava a gasolina? Terá ido à bomba de
gasolina do Whitey?
Clemence olhou-me fixamente, o lenço imobilizado junto ao nariz, a pele da cor da neve. Inclinou-
se de repente e colocou a cabeça entre os joelhos.
Eu estou bem, afirmou por detrás do lenço de papel. A sua voz soava normal, fria até. Não te
preocupes, Joe. Pensei que ia desmaiar, mas não.
Recompôs-se e endireitou-se. Deu-me uma palmadinha na mão. Não voltei a falar da gasolina.
Adormeci num sofá de plástico e alguém me tapou com um cobertor hospitalar. Transpirei durante
o sono e quando acordei tinha a face e o braço colados ao plástico. Descolei-me dolorosamente e
ergui-me sobre um cotovelo.
O Dr. Egge estava do outro lado da sala a falar com Clemence. Percebi de imediato que as coisas
tinham melhorado, que a minha mãe estava melhor, que o resultado da cirurgia fora bom e que,
apesar da gravidade da situação, pelo menos por enquanto não estava a piorar. Assim, voltei a deitar
a cara no plástico verde e adesivo, que entretanto me parecia já agradável, e voltei a adormecer.

24

Capítulo Dois
Sozinha Entre Nós
Tinha três amigos. Ainda me dou com dois deles. O outro é uma cruz branca na zona norte do
Montana. O seu desaparecimento físico está aí marcado, quero eu dizer. Quanto ao espírito dele,
trago-o comigo sob a forma de uma pedra redonda e preta. Foi ele que ma deu quando soube o que
acontecera à minha mãe. Virgil Lafournais era o seu nome, ou Cappy. Disse-me que a pedra era
uma das que se encontram junto ao tronco de uma árvore atingida por um raio, que era sagrada. Um
ovo de thunderbird (Nota 3), chamou-lhe ele. Deu-ma quando regressei à escola. Nesse dia, de cada
vez que um miúdo ou um professor me olhava de forma curiosa ou compadecida, tocava na pedra
que Cappy me dera.
Tinham-se passado cinco dias desde que encontráramos a minha mãe no carro. Recusara-me a
voltar à escola até que ela regressasse do hospital. Estava ansiosa por sair, aliviada por estar em
casa. Disse-me adeus nessa manhã, deitada na cama de casal dos meus pais, no quarto no piso de
cima.
O Cappy e os teus amigos já devem ter saudades tuas, disse ela.

Nota 3 - «Pássaro-trovão», criatura lendária e sobrenatural presente em muitas culturas indígenas


da América do Norte. É descrita como uma ave de enormes dimensões, colérica, capaz de gerar
tempestades e trovões enquanto voa. (N. da T.)

25

Devia regressar à escola, embora faltassem pouco mais de duas semanas para as férias de verão.
Quando estivesse melhor, far-nos-ia um bolo, disse ela, e sloppy joes (Nota 4). Sempre gostara de
nos dar de comer. Os meus dois outros amigos eram Zack Peace e Angus Kashpaw. Naquele tempo,
andávamos os quatro juntos sempre que possível, embora fosse do conhecimento geral que Cappy e
eu éramos mais chegados. A mãe morrera quando ele era miúdo, deixando-o a ele, a Randall, o
irmão mais velho, e ao pai, Doe Lafournais, entregues a uma vida de hábitos de solteiros e a uma
casa caótica por falta de uma mulher. Embora Doe se envolvesse com mulheres de tempos a
tempos, nunca voltara a casar. Era ao mesmo tempo porteiro do edifício dos escritórios tribais e,
intermitentemente, presidente da direção da tribo. Quando fora eleito pela primeira vez, na década
de 1960, recebia à justa para reduzir as horas de trabalho como porteiro para metade do tempo.
Quando se sentia demasiado exausto para concorrer a um novo mandato, fazia horas extra como
guarda-noturno. Só nos anos setenta é que as autoridades federais começaram a alocar verbas para
as administrações tribais e nós percebemos como gerir as coisas. Doe continuava a ser presidente,
umas vezes sim, outras vezes não. A coisa funcionava assim: as pessoas votavam em Doe sempre
que se fartavam do presidente em funções. Contudo, assim que Doe ocupava o cargo, começava o
falatório, as queixas, os mexericos, o inexorável bota-abaixo que faz parte da politiquice de uma
reserva e do fardo de qualquer pessoa que sobe demasiado e se torna o centro das atenções. Quando
a coisa ia longe demais, Doe não se recandidatava e esvaziava o gabinete, incluindo o papel de
carta e os sobrescritos que mandava imprimir a suas expensas: Doe Lafournais, Presidente Tribal.
Durante uns anos, não faltava papel de desenho em casa de Cappy. Inevitavelmente, o seu sucessor
era vítima do mesmo tratamento. Então, arrependidos, os eleitores de Doe suplicavam e
argumentavam até ele ceder e voltar à corrida eleitoral. Mil novecentos e oitenta e oito foi um ano
sabático para Doe, o que significou que fomos muitas vezes com ele à pesca. Passámos metade do
inverno na cabana de Doe, pescando lúcios e surripiando cervejas.

Nota 4 - Sanduíche de carne picada, cebola e molho de tomate servido em pão de hambúrguer. (N.
da T.)

26

A família de Zack Peace estava separada pela segunda vez. O pai, Corwin Peace, era um músico em
perpétua digressão. A mãe, Carleen Thunder, dirigia o jornal tribal. O padrasto, Vince Madwesin,
foi o agente da Polícia Tribal que recolheu o depoimento da minha mãe. Zack era quase uma
década mais velho que o irmão e a irmã mais novos, pois os pais casaram-se ainda jovens,
divorciaram-se, fizeram uma segunda tentativa e descobriram que estavam certos da primeira vez
que se haviam divorciado. Zack tinha queda para a música, tal como o pai, e levava sempre a
guitarra quando íamos para a cabana pescar. Dizia que sabia mil canções.
Quanto a Angus, era de uma parte da reserva extremamente pobre. A tribo adquirira dinheiro para
construir habituações sociais subsidiadas: edifícios de apartamentos grandes, de estilo urbano,
mesmo nos arrabaldes da povoação. Estavam rodeados por outeiros cobertos de ervas daninhas,
desprovidos de árvores ou arbustos. O dinheiro esgotara-se antes da colocação das escadas, por isso
as pessoas usavam rampas de contraplacado ou então içavam-se para entrar em casa e pulavam para
sair. A sua tia Star levara Angus, os seus dois irmãos, os dois filhos do namorado e uma sucessão de
irmãs grávidas e primos toxicodependentes ou em desintoxicação para um apartamento de três
assoalhadas. A tia Star geria uma quantidade épica de loucuras. Não ajudava que, para além de não
ter escadas, o edifício fosse um buraco sem fundo. O construtor poupara no isolamento, por isso, no
inverno, Star tinha de manter o forno aceso toda a noite com a porta aberta, e a água na torneira da
cozinha a pingar, para os canos não congelarem. Havia trapos entre as paredes e as janelas, pois as
placas de gesso tinham encolhido em relação à caixilharia das janelas. Estas não tardaram a
desconjuntar-se e a perder a rede mosquiteira. Nada funcionava. A canalização passava a vida
entupida. Cheguei a tornar-me perito em selar a sanita com cera e fita adesiva. Star estava sempre a
subornar-nos com frybread (Nota 5) para que lhe fizéssemos pequenos consertos ou instalássemos
televisão por satélite a partir do tampão amolgado da roda de um carro ou de qualquer coisa
semelhante.

Nota 5 - Pão achatado frito em banha. Pode ser comido simples ou coberto com mel ou doce. E
também usado como um taco, sendo neste caso apelidado de «taco navajo ou índio». (N. da T.)

27

Na verdade, depois de ela ter começado a andar com o seu grande amor, Elwin, conseguimos o
sinal por satélite. Star tinha um televisor todo finório comprado com a única maquia choruda que
alguma vez ganhara ao bingo. Em conjunto com Elwin, e usando equipamento velho, fizemos uma
ligação à MacGyver e conseguimos apanhar os sinais de Fargo, Minneapolis, e até de Chicago e
Denver. A ligação foi estabelecida em setembro de 1987, mesmo a tempo da estreia de várias séries.
Melhorámos a receção a ponto de por vezes conseguirmos apanhar programas emitidos para lá do
âmbito de determinadas cidades, programas esses em constante mudança graças ao tempo
atmosférico e ao magnetismo planetário. Tínhamos de procurá-los com afinco, mas acho que nunca
perdemos um episódio de O Caminho das Estrelas. Não a série inicial, mas A Geração Seguinte.
Adorávamos a Guerra das Estrelas, de onde tirávamos as nossas citações preferidas, mas a nossa
série predileta era A Geração Seguinte. Como seria de esperar, todos queríamos ser Worf. Todos
queríamos ser klingons. A solução de Worf para qualquer problema era atacar. No episódio
intitulado Justice, descobrimos que Worf não gostava de sexo com fêmeas da espécie humana,
porque elas eram demasiado frágeis, e ele tinha de se refrear. A nossa piada junto de raparigas giras
passou a ser: «Ei, vê lá se te refreias.» Em Hide and Q, a rapariga klingon ideal, grotescamente
sensual, seduzia Worf. O klingon era impetuoso, nobre e bem-parecido, mesmo com uma carapaça
de tartaruga na testa. A seguir a Worf, a personagem preferida era Data, porque troçava dos brancos
ao mostrar-se curioso em relação a coisas palermas que a tripulação fazia ou dizia, e porque quando
a deslumbrante Yar se embriagou, ele proclamou-se totalmente funcional e teve relações com ela.
Wesley, a personagem com que se esperaria que nos identificássemos, sendo um génio da nossa
idade com uma mãe descontraída que o deixava meter-se em sarilhos, não nos cativava, porque era
um menino branco da cidade, meio palerma, e usava camisolas ridículas. Os nossos corações, como
é óbvio, batiam pela empática Deanna Troy, meio humana meio betazoide, em especial quando os
produtores da série permitiram que ela usasse o cabelo comprido e encaracolado. As suas fardas
eram decotadas, o cinto encarnado em forma de V apontava já se está a ver para onde, e a sua
cabeça grande e o corpo pequeno e curvilíneo levavam-nos à loucura.

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O capitão Riker supostamente estava apaixonado por ela, mas era rígido, inexpressivo, pouco
plausível. Melhorou depois de a barba lhe ter escondido a cara de bebé, mas ainda assim queríamos
ser Worf. Quanto ao comandante Picard, era um idoso, embora um idoso francês, por isso
gostávamos dele. Também apreciávamos Geordi, pois descobrimos que sofria de dores constantes
provocadas pelo visor que usava, e isso também lhe concedia bastante nobreza.
Refiro tudo isto porque a série serviu para nos demarcarmos dos restantes. Fizemos desenhos,
caricaturas e até tentámos escrever um episódio. Fingíamos que tínhamos conhecimentos especiais.
Começávamos a crescer e estávamos ansiosos por ver como nos sairíamos. Em A Geração Seguinte
não éramos escanzelados, gozados, órfãos de mãe ou acagaçados. Éramos fixes porque mais
ninguém sabia do que falávamos.

No primeiro dia em que voltei à escola, Cappy acompanhou-me a casa. Hoje em dia é invulgar ver-
se pessoas irem a algum lado a pé na reserva, exceto nos trilhos criados para promover o exercício
físico. No final da década de 1980, as pessoas ainda iam de um lado para o outro a pé, e uma vez
que Cappy e eu vivíamos a menos de um quilómetro e meio da escola, era costume lançarmos uma
moeda ao ar como forma de decidir para casa de quem iríamos. A dele era mais animada, pois os
amigos de Randall estavam sempre por lá, mas na minha havia televisão e uma consola, e podíamos
jogar Bíonic Commando, um jogo de vídeo pelo qual éramos fanáticos.
Cappy dera-me o ovo de thunderbird no corredor da escola, mas só me falou dele no caminho de
regresso a casa. Disse-me que, quando o encontrara, a árvore ainda fumegava. Fiz de conta que
acreditava. Tacitamente, estava claro entre nós que Cappy iria acompanhar-me até casa e não
entraria. Eu também não o teria deixado entrar, de qualquer forma. A minha mãe não queria que
ninguém a visse. Embora o meu pai tivesse pedido uma licença e chamado outro juiz para o
substituir, viu-se obrigado a ir ao escritório para acabar de tratar de papelada. Já me tinha dito que
telefonaria regularmente para casa, mas que a minha mãe ficaria satisfeita quando eu chegasse.

29

Ao subirmos o caminho que conduzia a casa, Clemence saiu pela porta da frente e disse que
recebera uma chamada de uma vizinha a avisá-la de que Mooshum andava no quintal. Pela pressa,
calculei que ele deixara as calças em casa. Clemence meteu-se no carro e acelerou. Cappy dera
meia volta para ir para sua casa assim que chegáramos à minha, e eu encaminhei-me para a porta
das traseiras. Ao dobrar a esquina da casa, deparei-me com as minúsculas arvorezinhas, as suas
folhas todas murchas, ainda dispostas em fila no chão de cimento, a morrer. Pousei os livros e
recolhi-as, uma a uma, escondendo-as no extremo do quintal. Não era estranho para mim naquela
época sentir pena das pequenas árvores e dar-me conta de que receava entrar na minha própria casa.
Nunca antes sentira isso. Tentei então abrir a porta e descobri que estava trancada.
A princípio, fiquei tão surpreendido que pontapeei a porta, achando que estava encravada; mas não,
estava mesmo fechada à chave. E a da frente trancava-se automaticamente. O mais provável é que
Clemence se tivesse esquecido desse pormenor. Fui buscar a chave ao esconderijo e entrei sem
pressas, sem fazer barulho, sem bater com a porta e sem largar os livros em cima da mesa com
estrondo, como era meu costume. Num outro dia qualquer, a minha mãe não teria ainda chegado, e
eu sentiria aquela espécie de júbilo que um miúdo experimenta quando entra em casa sabendo que
será apenas sua durante as próximas duas horas. Que poderá fazer a sua própria sanduíche. Que, se
houver sinal de TV, é capaz de haver repetições de séries para ver. Que talvez haja bolachas ou
qualquer outra guloseima algures, escondidas pela mãe, mas não muito bem escondidas. Que pode
revolver as estantes do quarto dos pais em busca de um livro como Hawaii, de James Michener,
onde poderá aprender dicas interessantes, mas no fundo inúteis, sobre preliminares polinésios —
mas tenho de parar por aí. A porta de trás estava trancada pela primeira vez na minha vida, e tive de
ir buscar a chave às escadas das traseiras, onde estava pendurada num prego, para ser usada apenas
quando regressávamos os três de viagens longas.
Era a sensação que tinha naquele momento: a de que ir à escola fora uma viagem longa, da qual
acabara de voltar.

30

Dentro de casa, o ar parecia oco, viciado, estranhamente insípido. Dei-me conta de que era porque,
desde que encontráramos a minha mãe sentada no carro, ninguém assara, fritara, cozera ou
preparara comida. O meu pai apenas fazia café, que bebia noite e dia. Clemence trouxera-nos
guisados, que continuavam meio comidos no frigorífico. Chamei a minha mãe, sem gritar, e subi as
escadas até conseguir ver que a porta do quarto estava fechada. Desci as escadas sem fazer barulho
e voltei à cozinha. Abri o frigorífico, servi-me de um copo de leite e bebi um grande trago. Estava
azedo. Despejei o leite, enxaguei o copo, enchi-o e emborquei a água ferrosa da reserva até o gosto
a azedo desaparecer. Fiquei então parado, de pé, com o copo vazio nas mãos.
Parte da mobília da sala de jantar era visível através da porta aberta, uma mesa de bordo escuro
com seis cadeiras em redor. Estantes baixas separavam-na da sala de estar. O sofá ficava logo a
seguir a uma pequena divisão repleta de livros — o refúgio do meu pai, ou escritório. Segurando o
copo, encarei o tremendo silêncio que reinava na nossa pequena casa como a ausência de ruído que
se segue a uma enorme explosão. Tudo se detivera. Até mesmo o tiquetaque do relógio. O meu pai
desligara-o quando regressáramos do hospital, na segunda noite.
Quero um relógio novo, dissera ele. Fiquei ali especado a olhar para o velho relógio com os
ponteiros parados inutilmente nas onze horas e vinte e dois minutos. O sol tombava sobre o chão da
cozinha em poças douradas, mas era um brilho ominoso, como os raios que atravessam uma nuvem
a ocidente. Fui tomado por um ataque de pânico, por um travo a morte semelhante a leite azedo.
Pousei o copo na mesa e corri escadas acima. Entrei de rompante no quarto dos meus pais. A minha
mãe estava sob um sono tão profundo que, quando tentei deitar-me a seu lado, esmurrou-me na
cara. Foi um golpe com o antebraço e atingiu-me no queixo, atordoando-me.
Joe, disse ela, a tremer. Joe.
Estava decidido a não deixar que ela percebesse que me magoara.
Mãe... o leite estava azedo.
Ela baixou o braço e sentou-se.
Azedo?

31

Nunca deixara o leite estragar-se no frigorífico. Crescera sem arcas congeladoras e frigoríficos e
orgulhava-se da limpeza com que o precioso frigorífico era mantido. Levava muito a sério a
frescura do seu conteúdo. Chegara mesmo a comprar embalagens da Tupperware, numa festa.
O leite estava azedo?
Sim, respondi. Estava.
Temos de ir ao supermercado!
A sua serena frieza desaparecera e o seu rosto espelhava um terror nervoso. As equimoses eram
então bem visíveis e os olhos exibiam orlas escuras, como os de um guaxinim. Um esverdeado
enfermiço pulsava em redor das têmporas. O queixo era da cor do índigo. As sobrancelhas, que nela
sempre haviam sido um veículo de expressão de amor e ironia, retesavam-se então, denotando
angústia. Duas linhas verticais pretas, como que desenhadas por um marcador, vincavam-lhe a
testa. Com os dedos puxava pela borda da colcha. Azedo!
Agora vendem leite na bomba de gasolina do Whitey. Posso ir até lá de bicicleta, mãe.
Vendem? Olhou para mim como se eu a tivesse salvado, como se fosse um herói.
Fui buscar a carteira dela. Deu-me uma nota de cinco dólares.
Traz outras coisas, disse. Comida de que gostes. Guloseimas. Entaramelava as palavras, e percebi
que provavelmente lhe tinham dado algum medicamento para a ajudar a dormir.

A nossa casa foi construída na década de 1940, uma espécie de bangalô, mas mais robusto. O
superintendente do BIA (Nota 6), um burocrata pomposo, habilidoso, anormalmente baixo e
profundamente odiado, habitara nela outrora. A casa foi vendida à tribo em 1969 e usada como
escritório até alguém se lembrar de a demolir e a substituir por verdadeiros escritórios. O meu pai
comprou-a e deslocou-a para a pequena parcela de terreno, perto da povoação, que pertencera ao
falecido tio de Geraldine, Shamengwa, um homem bem-parecido numa antiga fotografia
emoldurada.
Nota 6 - Bureau of Indian Affairs: agência do Governo federal dos Estados Unidos que protege os
direitos legais dos povos indígenas do país e lhes fornece serviços essenciais. (N. da T)

32

A minha mãe tinha saudades da música que ele tocava, mas Shamengwa foi enterrado com o seu
violino. Whitey usara o resto da terra que fora de Shamengwa para montar a sua bomba de gasolina
na outra extremidade da povoação. Ivlooshum era o proprietário da antiga porção de terra, a cerca
de seis quilómetros e meio de distância, onde o tio Whitey vivia. Whitey desposara uma mulher
mais nova — uma ex-stripper alta, loira e curtida pelas intempéries —, que entretanto trabalhava ao
balcão da bomba de gasolina. Whitey metia a gasolina, mudava óleos, enchia pneus e fazia
trabalhos de oficina pouco fiáveis. A sua mulher tratava da contabilidade, abastecia as prateleiras da
pequena loja com batatas fritas e frutos secos e dizia às pessoas por que razão podiam ou não
reabastecer. Adquirira há pouco tempo um frigorífico para poder vender leite e mantinha outro mais
pequeno sempre recheado de garrafas de refrigerante de laranja e uva. Chamava-se Sonja, e eu
gostava dela como qualquer rapaz gosta da sua tia, mas em relação aos seios dela sentia uma coisa
bem diferente. Por eles tinha uma irremediável paixoneta.

Peguei na bicicleta e numa mochila. Tinha um chaço preto de cinco velocidades, pneus todo-o-
terreno, suporte para garrafa de água e um rabisco prateado no quadro: Storm Ryder. Segui pela
estrada secundária, atravessei a estrada nacional, dei uma volta à bomba de gasolina e fiz uma
travagem, derrapando lateralmente na esperança de que Sonja me estivesse a ver; mas não, estava
de costas, a contar embalagens de snacks salgados de Slim Jims. Era dona de um sorriso largo,
vistoso, radiante e branco. Girou a cabeça e apontou-mo quando entrei. Era como uma lâmpada de
solário. O seu cabelo, semelhante a algodão-doce, formava uma coroa no cimo da cabeça, da qual
pendia um acetinado rabo-de-cavalo com sessenta centímetros que lhe descia pelas costas abaixo.
Como sempre, vestira-se de forma espampanante: um fato de treino azul-bebé com debruns em
lantejoulas e o fecho aberto a três quartos. Sustive a respiração perante a T-shirt que ela exibia, de
um tecido mais pálido e diáfano, como asas de fadas. Calçava ténis brancos e nas orelhas tinha uns
brincos de brilhantes do tamanho de pioneses.

33

Quando se vestia de azul, o que sucedia com frequência, os seus olhos, igualmente azuis,
cintilavam com uma fulminante intensidade.
Querido, disse ela, pousando os Slim Jims e abraçando-me. Não havia ninguém na bomba de
gasolina nem na loja naquele momento. Ela cheirava a Marlboro, a Aviance Night Musk e à sua
primeira bebida de final do dia.
Eu era um sortudo, um rapaz apaparicado por mulheres. Mas não por obra minha, e esse facto até
preocupava o meu pai. Empenhava-se valorosamente em contrabalançar o mimo feminino de que
eu era alvo fazendo atividades masculinas comigo. Jogávamos basebol, futebol americano,
acampávamos, pescávamos. Pescávamos muitas vezes. Ensinou-me a conduzir quando eu tinha oito
anos. Receava que toda a atenção e o mimo que recebia me tornassem um frangote, muito embora
ele mesmo tivesse sido mimado, já me tinha dado conta disso, e a minha avó o houvesse tratado (e
a mim) com um desvelo enorme até ter falecido. Ainda assim, a minha infância e a juventude
coincidiram com um período de calmaria na história reprodutiva da nossa família. Os meus primos
Joseph e Evelina estavam na faculdade quando eu nasci. Os filhos de Whitey do primeiro
casamento já eram crescidos, e o relacionamento de Sonja com a filha, London, era tão tumultuoso
que ela jurara não ter mais filhos. Não havia netos na família (por enquanto, graças a Deus, dizia
Sonja). Como disse, fui um filho serôdio, nascido de pais que muitas vezes seriam tomados por
meus avós. A isto havia ainda a acrescentar o facto de ter sido uma surpresa para o meu pai e para a
minha mãe, e o ressurgir da esperança que isso implicara. Tudo recaía sobre os meus ombros: o
mau e o bom. Contudo, uma das coisas boas, e que eu estimava, era a proximidade que o meu lugar
na família me concedia em relação aos seios de Sonja.
Podia encostar-me aos seus seios durante o tempo que ela me abraçasse. Tinha sempre o cuidado de
não abusar da sorte, embora a tentação fosse grande. Cheios, delicados, resolutos e redondos, os
seios de Sonja eram capazes de partir o coração a qualquer um. Trazia-os quase à beira do decote
redondo das suas T-shirts em tons pastel. A sua cintura continuava elegante e as ancas alargavam
suavemente, preenchendo as calças apertadas de ganga pré-lavada. Sonja massajava a pele com
óleo para bebé, mas toda a vida se bronzeara com regularidade e o seu bonito nariz sueco exibia as
marcas de várias queimaduras solares.

34

Era uma amante de cavalos, e ela e Whitey tinham um velho pinto, um invulgar quarto-de-milha
arraçado de árabe, um appaloosa ruão com um olho claro chamado Spook, e um pónei. Assim, para
além do cheiro a uísque, a perfume e a fumo, muitas vezes também exalava ténues aromas a palha,
a poeira e a cavalo, um cheiro que, uma vez sentido, era capaz de despertar saudades. O destino dos
seres humanos era viver com o cavalo. Sonja e Whitey também tinham três cães, todos fêmeas,
ferozes e, de uma forma ou de outra, batizados em homenagem a Janis Joplin.
O nosso cão morrera há dois meses e ainda não tínhamos encontrado um substituto. Abri a mochila
e Sonja colocou lá dentro o leite e as restantes coisas que eu escolhera. Empurrou a nota de cinco
dólares que lhe estendi de volta na minha direção e fitou-me por debaixo das sobrancelhas esguias,
arranjadas e castanho-claras. Tinha os olhos cheios de lágrimas.
Merda, disse ela. Eu que apanhasse o tipo. Tratava-lhe da saúde.
Não sabia o que dizer. Os seios de Sonja embotavam-me o raciocínio.
Como vai a tua mãe?, perguntou-me ela, abanando a cabeça e limpando as lágrimas.
Fiz um esforço por me concentrar; a minha mãe não estava bem, por isso não podia responder «vai
bem». Nem podia dizer a Sonja que meia hora atrás receara que a minha mãe estivesse morta, que
correra para ela e que ela me batera pela primeira vez na vida. Sonja acendeu um cigarro, ofereceu-
me uma tira de pastilha Black Jack.
Não muito bem, respondi. Está agitada.
Sonja fez que sim com a cabeça.
Nós levamos-vos a Pearl.

Pearl era uma rafeira de pernas compridas, cabeça larga de buli terrier e mandíbulas semelhantes a
um torno. Tinha a pelagem de um cão pastor, as manchas de um dobermann e traços de lobo. Pearl
não ladrava muito, mas quando o fazia ficava muito excitada. Andava de um lado para o outro e
abocanhava o ar quando alguém violava as fronteiras invisíveis do seu território.

35

Não era um cão de companhia e eu não tinha a certeza de a querer, mas o meu pai tinha.
E demasiado velha para aprender a ir buscar coisas e assim, queixei-me quando ele chegou a casa
nessa noite.
Estávamos sentados no piso térreo, a comer um guisado trazido mais uma vez por Clemence. O
meu pai fizera a sua habitual dose de café fraco e bebia-o como se fosse água. A mãe estava no
quarto. Não tinha fome. O meu pai pousou o garfo. Pela forma como o fez (era um homem que
gostava de comer e parar de o fazer significava, de uma forma geral, uma desistência, se bem que,
nos últimos tempos, não andasse a comer muito), achei que estava zangado. Embora ultimamente
os seus gestos fossem abruptos e cerrasse os punhos muitas vezes, não levantou a voz. Falou sem
perder a paciência, num tom baixo, explicando-me por que razão necessitávamos de Pearl.
Precisamos de um cão de guarda, Joe. Suspeitamos de um homem, mas ele pôs-se a andar, o que
significa que pode estar em qualquer sítio. Ou pode até não ter sido ele e, nesse caso, o verdadeiro
agressor ainda anda por aqui.
Coloquei-lhe o que me pareceu uma pergunta digna de um polícia de uma série televisiva.
Que provas tens de que foi esse tal homem? Percebi que o meu pai ainda ponderou não responder.
Por fim, fê-lo. Teve dificuldade em dizer algumas das palavras.
O perpetrador ou o suspeito... o agressor... deixou cair uma carteira de fósforos. Era do campo de
golfe. São distribuídas na receção. Então, começam pelos jogadores de golfe, disse eu. Tal
significava que o agressor tanto podia ser índio quanto branco. Aquele campo de golfe fascinava
toda a gente, era uma espécie de moda passageira. O golfe era para gente rica, supostamente, mas
nós tínhamos um campo com relva desleixada e poças naturais. Com uma taxa de inscrição
especial. As pessoas emprestavam os tacos umas às outras e toda a gente parecia já ter
experimentado, à exceção do meu pai. Sim, o campo de golfe.
Porque terá ele deixado cair a carteira de fósforos? O meu pai passou a mão pelos olhos e, mais
uma vez, teve dificuldade em falar.

36

Queria, tentou, teve dificuldades em acender um fósforo.


Uma carteira de fósforos?
Sim.
Ah. E conseguiu acendê-lo?
Não... o fósforo estava molhado.
Que aconteceu então?
De repente, os meus olhos encheram-se de lágrimas e inclinei-me sobre o prato.
O meu pai voltou a pegar no garfo. Enfiou rapidamente na boca a bem conhecida mixórdia de
macarrão com molho de tomate e carne picada que Clemence costumava fazer. Percebeu que eu
parara de comer e estava à espera, por isso, recostou-se na cadeira. Emborcou o resto do café, da
sua caneca preferida, de porcelana branca e pesada. Levou o guardanapo aos lábios, fechou os
olhos, abriu-os e olhou-me diretamente.
Estás a fazer muitas perguntas, Joe. Na tua cabeça, estás a estabelecer uma ordem para o sucedido.
Estás a refletir sobre o que aconteceu. Também eu. Joe, o agressor não foi capaz de acender o
fósforo. Foi à procura de uma carteira deles. De uma qualquer forma de atear um fogo. Na sua
ausência, a tua mãe conseguiu fugir.
Como?
Pela primeira vez desde que arrancáramos aquelas árvores, no domingo anterior, o meu pai sorriu,
ou esboçou uma versão de um sorriso, melhor dizendo. Não havia nele qualquer vestígio de
diversão. Mais tarde, se tivesse de classificar aquele sorriso, diria que era parecido com o de
Mooshum. Um sorriso de recordação dos tempos perdidos.
Joe, lembras-te de como eu costumava ficar exasperado quando a tua mãe fechava o carro e deixava
as chaves lá dentro? Tinha, ainda tem, o hábito de se esquecer das chaves no painel de
instrumentos. Depois de estacionar, reúne a papelada ou as compras que colocou no banco do
passageiro, pousa as chaves no tabliê, sai e tranca o carro. Só quando precisa de regressar a casa se
dá conta de que deixou as chaves no carro. Vasculha então a mala e não encontra as chaves. «Oh,
não», diz ela, «outra vez!» Dirige-se então ao carro, vê as chaves trancadas lá dentro e telefona-me.
Lembras-te?

37
Sim. Quase sorri também ao escutar o meu pai descrever o costume dela e a confusão que se lhe
seguia. Sim, pai, ela telefona-te, tu dizes um palavrão moderado, vais buscar as chaves
sobresselentes e segues a pé até aos escritórios tribais.
Um palavrão moderado. Onde foste buscar isso? Merda, ou uma coisa assim.
Sorriu de novo, esticou o braço e fez de conta que me dava uma bofetada na cara com os nós dos
dedos.
Nunca me chateou ter de fazer isso, disse, mas um dia ocorreu-me que, se eu não estivesse em casa,
a tua mãe estaria tramada. Não saímos muito, é certo. Os nossos horários são bastante previsíveis,
mas se eu não estivesse em casa, ou tu, para lhe levares de bicicleta as chaves...
Isso nunca aconteceu.
Sim, mas imagina que estavas na rua, não ouvias o telefone. Eu pensei, e se ela fica trancada fora
do carro algures e nós não podemos acudir? A pensar nisso, há cerca de dois meses, colei um íman
à parte de baixo de uma daquelas caixinhas metálicas em que o Whitey vende mints. Vi uma pessoa
com um chaveiro assim. Coloquei uma chave do carro na caixa e peguei-a ao chassis, mesmo por
cima do pneu esquerdo traseiro. Foi assim que ela conseguiu fugir.
O quê? Como?
Enfiou a mão na cava da roda, tirou a chave. Ele correu atrás dela, mas ela trancou-se dentro do
carro, ligou o motor e arrancou.
Respirei fundo. Não consegui evitar a sensação de medo que me invadiu e me fez estremecer.
O meu pai recomeçou a comer e tornou-se óbvio que planeava terminar a refeição. O assunto do
que acontecera à minha mãe estava encerrado. Voltei a falar do cão. A Pearl morde, fiz notar.
Ótimo, respondeu o meu pai. Então, ele continua atrás dela.
Não sabemos, disse ele. Qualquer pessoa podia ter conseguido aqueles fósforos. Índio. Branco.
Qualquer um os podia ter deixado cair, mas o mais provável é que tenha sido alguém daqui.

38

*
A partir de um conjunto de impressões digitais não é possível saber-se se a pessoa é índia. Nem a
partir de um nome. Nem sequer com base num relatório da polícia local. E impossível saber-se isso
a partir de uma fotografia. De uma identificação fotográfica policial. De um número de telefone.
Do ponto de vista do Governo, a única forma de se afirmar que um índio é um índio é olhando para
a história dessa pessoa. Tem de haver na sua genealogia antepassados antigos que tenham assinado
algum documento ou estejam registados como índios pelo Governo dos Estados Unidos, alguém
identificado como membro de uma tribo. E mesmo depois de estabelecido isso, é preciso investigar
o sangue da pessoa, perceber que porção de sangue índio possui. Na maioria dos casos, o Governo
apontará a pessoa como indígena se o seu sangue for um quarto índio, e, de uma forma geral, terá
de pertencer a uma única tribo, mas essa tribo também tem de estar reconhecida em termos
federais. Por outras palavras, ser-se índio é, sob muitos aspetos, uma grande embrulhada
burocrática.
Por outro lado, os índios reconhecem outros índios sem terem de recorrer a um pedigree federal, e
este reconhecimento, à semelhança do amor, do sexo, do facto de se ter ou não um filho, não tem
nada que ver com o Governo.
Só ao fim de mais um dia tomei conhecimento dos rumores que circulavam de que havia suspeitos:
basicamente, qualquer pessoa que agisse de forma estranha ou andasse desaparecida há uns dias ou
tivesse sido vista a sair pela porta das traseiras com sacos pretos do lixo bem cheios.
Descobri esse facto dirigindo-me a casa da minha tia e do meu tio no sábado à tarde para ir buscar
uma tarte. A minha mãe dissera ao meu pai que achava melhor levantar-se, tomar banho e vestir-se.
Continuava a tomar analgésicos, mas o Dr. Egge dissera-lhe que estar deitada a repousar não
ajudaria. Necessitava de alguma atividade, ainda que ligeira. O meu pai anunciara que iria fazer o
jantar a partir de uma receita, mas que não daria conta da sobremesa. Daí a tarte. O tio Whitey
estava à mesa com um copo de chá gelado. Mooshum estava sentado em frente a ele, encurvado e
frágil, de camisola interior, ceroulas cor de marfim e um roupão axadrezado por cima.

39

Ao sábado recusava vestir-se porque necessitava de um dia de conforto, alegava, para se preparar
para o domingo, dia em que Clemence o obrigava a usar calças de fato, camisa branca engomada e,
por vezes, gravata. Também ele tinha um copo de chá gelado à frente, mas fulminava-o com o
olhar.
Mijo de coelho, queixava-se ele.
É isso mesmo, pai, respondeu Clemence. E uma bebida para velhos. Faz-te bem.
Ah, chá dos pântanos, comentou o tio Whitey, fazendo girar o copo com um ar apreciativo. Bom
para tudo o que te aflige, pai. Cura a velhice?, perguntou Mooshum. Tira os anos? Tudo menos isso,
disse Whitey, que sabia que podia beber uma cerveja assim que chegasse a casa e deixou de fazer
de conta que bebia com Mooshum, saudoso dos velhos tempos em que Clemence lhe servia um
uísque suave. Convencera-se de que o uísque fazia mal a Mooshum e não se cansava de tentar que
ele deixasse de beber. Isto desce muito mal, minha filha, disse ele para Clemence. Mas limpa-te o
fígado muito bem, alegou Whitey. Serve um pouco de chá dos pântanos ao Joe, Clemence.
Clemence encheu-me um copo de chá gelado e foi atender o telefone. As pessoas ligavam-lhe
constantemente para saberem notícias acerca da irmã. Na verdade, queriam era coscuvilhar.
Talvez o pervertido seja mesmo um índio, referiu o tio Whitey. Transportava uma mala índia. Que
mala índia?, quis saber. Os sacos pretos de plástico.
Inclinei-me para a frente. Então, foi-se embora? Mas de onde? Quem é ele? Como se chama?
Clemence regressou e dardejou-o com o olhar.
Queres ver!... disse o tio Whitey. Parece que não posso abrir a boca.
Nem sequer beber um pequeno uísque. Ou mijar no lava-loiça, coisa que farei até ela parar de me
dar chá dos pântanos. Os rins de um homem não aguentam tanto, disse Mooshum.
Mija no lava-loiça?, inquiri.

40

Quando me dão chá, sempre.


Clemence dirigiu-se à cozinha e veio de lá com uma garrafa de uísque e três copos de shot
empilhados. Dispô-los em cima da mesa e serviu dois até um quarto da sua capacidade. Encheu o
terceiro até metade e emborcou-o de um só trago. Fiquei espantado. Nunca vira a minha tia beber
uísque como um homem. Por um momento, segurou o copo vazio delicadamente, mirando-nos,
depois pousou o copo com um pequeno baque, deu meia volta e saiu porta fora. Que foi aquilo?,
perguntou o tio Whitey.
É o que acontece quando é pressionada, disse Mooshum. Tenho pena do Edward quando voltar. O
uísque já terá assentado por essa altura. Por vezes, o uísque também provoca o mesmo efeito na
Sonja, comentou o meu tio, mas eu tenho os meus truques. Que tipo de truques?, quis saber
Mooshum. Velhos truques índios.
Ensina-os ao Edward, sim? O pobre coitado está a perder terreno. A tarte começou a perfumar o ar
com uma fragrância doce e forte. Esperava que a minha tia não tivesse ficado tão zangada que se
esquecesse da tarte.
O campo de golfe. Foi lá que aquilo aconteceu? Olhei diretamente para Whitey, mas ele baixou os
olhos e bebeu. Não, não foi aí. Onde foi então?
Whitey levantou os olhos tristes e raiados de sangue. Não ia responder-me. Não consegui segurar o
olhar dele.
A mão de Mooshum, tão pouco firme no copo de chá que o entornara na mesa, ganhara robustez.
Levou o copo de shot aos lábios e sorveu um trago. Os seus olhos brilharam. Não se apercebera da
nossa conversa. O seu cérebro continuava fixado em mulheres.
Ah, meu filho, fala-nos, ao Ups e a mim, da tua bonita mulher. Red Sonja. Pinta-nos o quadro. Que
faz ela hoje em dia?
Whitey desviou o seu olhar de mim. Quando sorria, mostrava a fenda entre os dentes da frente. Red
Sonja era a personagem da minha tia quando, não há muito tempo, se dedicava à dança exótica.
Nessa altura, usava uma reveladora armadura bárbara, feita de pedaços de plástico ornamentados
com tachões. Lenços esfarrapados pendiam-lhe das ancas.

41

O tecido transparente parecia ter sido mordido e arranhado por homens desesperados ou lobos de
estimação. Zack encontrara uma fotografia numa publicação de Minneapolis e oferecera-ma. Eu
mantinha-a escondida no meu roupeiro, numa pasta de arquivo especial que dizia «TPC».
Por estes dias, a Sonja opera a caixa registadora da bomba de gasolina, respondeu o meu tio, o
uísque suavizando-lhe o discurso. Está sempre a fazer contas. Hoje está a calcular exatamente o que
temos de encomendar para a próxima semana.
Mooshum fechou os olhos, travou o uísque no fundo da língua, e acenou com a cabeça, invocando-
a, inclinada sobre os livros de contabilidade. De repente, também eu a conseguia ver, os seus seios
suspensos como nuvens acima das compridas colunas de números bem desenhados.
E que fará ela quando terminar de somar e de fazer os cálculos?, perguntou Mooshum, com um ar
sonhador.
Levanta-se da secretária e vai buscar um balde de água e o rodo de cabo comprido. Limpa o vidro
da montra todas as semanas.
Mooshum não colocara a dentadura e o seu sorriso largo só mostrou gengivas. Fechei os olhos e vi
a esponja do rodo pingar a solução limpa-vidros pela vidraça abaixo. Sonja esticou-se sobre os
bicos dos pés. O irmão mais velho de Cappy, Randall, dizia que as raparigas ficavam tão bem
empoleiradas nos bicos dos pés que adorava sentar-se ao fundo dos corredores da biblioteca escolar.
Randall costumava colocar os melhores livros nas prateleiras de cima. Mooshum suspirou. Vi Sonja
pressionar a lâmina de borracha com força contra o vidro, empurrando o pó e as manchas para
baixo com o líquido e deixando para trás uma transparência cintilante.
Clemence voltou a entrar, interrompendo a minha fantasia, e ouvi a porta do forno ranger. A seguir,
o deslizar da grelha ao mesmo tempo que ela tirava duas tartes do forno. Ouvi-a colocar as tartes
perto da janela para arrefecerem. A porta do forno voltou a ranger e a porta mosquiteira chiou ao
ser aberta e bateu na ombreira ao fechar-se. Dali a uns instantes, a ténue aspereza de um cigarro
aceso atravessou a porta de rede. Segundo o meu conhecimento, a minha tia nunca antes fumara,
mas começara a fazê-lo desde aquele dia no hospital.

42

O aroma do novo passatempo de Clemence foi o bastante para despertar ambos os homens.
Viraram-se para mim e, com um ar grave, o tio Whitey perguntou-me como estava a minha mãe.
Vai sair do quarto esta noite, disse a Whitey. Eu vim buscar uma tarte para a sobremesa. O meu pai
vai cozinhar.
Mooshum observou-me fixamente com o vestígio de um brilho duro no olhar, e percebi que ele
sabia, pelo menos em parte, o que acontecera.
Isso é bom, disse ele. Escuta o que te vou dizer, Ups. Ela tem de sair. Não a deixes parar. Não a
deixes sozinha muito tempo.

Sombras ténues e primaveris espalhavam-se como água pela estrada. Para lá do tranquilo pântano,
os motores dos carros ribombavam a caminho e de regresso do drive-in da loja de bebidas. De
quintais invisíveis, ocultos por detrás de sebes de arbustos e salgueiros, escutavam-se os gritos
breves e ressonantes de mulheres chamando os filhos para casa. Um carro abrandou ao meu lado e
Doe Lafournais acenou com a cabeça para o lugar vazio do passageiro. Doe tinha um rosto sereno,
um nariz arqueado, olhos amáveis. Exibia uns poderosos braços e mantinha-se forte trabalhando
arduamente todos os dias. Para além de presidente e porteiro, também construíra a sua casa de raiz.
Ele e os filhos também a tinham desarrumado e sujado de raiz. Pilhas de tralha sobre pilhas de
tralha interessante, eis aquilo a que a casa se resumia. Acelerou quando eu abanei a cabeça e gritei
que o veria mais tarde. Nessa noite iria dar uma ajuda a Randall na tenda de sudação. Clemence
colocara a tarte numa caixa estreita de cartão. O vapor das maçãs quentes elevava-se pela crosta. O
final de tarde não se tornara mais fresco, mas eu não me importava. Suaria para comer aquela tarte.
Virei para casa e Pearl emergiu dos lilases. Soltou um latido de reconhecimento e, depois de farejar
o ar em redor de mim, acompanhou-me, a uma distância de cerca de um metro, até à porta das
traseiras. Separámo-nos aí, e ela regressou ao seu arbusto.
O meu pai abriu-me a porta. A cozinha, quente, cheirava a uma violenta experiência.

43

Mesmo a tempo, disse ele, e colocou a tarte na bancada. Fica na caixa para ser surpresa. A pièce de
résistance. Ela já desce, Joe. Vai lavar as mãos.
Enquanto estava na pequena casa de banho do escritório, escutei as escadas rangerem. Continuei a
lavar e a secar as mãos, sem pressa. Na verdade, não queria ver a minha mãe. Parecia horrível, mas
era a verdade. Muito embora compreendesse muito bem por que motivo ela me agredira, aborrecia-
me ter de fazer de conta que não acontecera ou que não tinha importância. O murro não deixara
qualquer equimose visível e tinha a maçã do rosto apenas um pouco dorida, mas não parava de
levar a ponta dos dedos ao local e de relembrar a ofensa. Quando terminei de lavar as mãos, dobrei
a toalha, talvez pela primeira vez na vida, e pendurei-a com esmero no toalheiro.
No recanto onde jantávamos, a minha mãe esperava-me de pé atrás da sua cadeira, segurando com
nervosismo o espaldar de madeira. A ventoinha estava ligada, agitando-lhe o vestido. Admirava a
refeição disposta sobre a toalha verde. Olhei para ela e arrependi-me de imediato do meu
ressentimento. A sua face continuava garridamente marcada. Atarefei-me. O meu pai fizera um
guisado. A colisão de cheiros que me atingira ao entrar na cozinha resultava dos ingredientes: nabos
avinagrados e tomates em conserva, beterrabas e milho, alho carbonizado, carne desconhecida e
uma cebola estragada. A mistura exalava um fedor penetrante.
O meu pai fez sinal para nos sentarmos. Havia batatas, quase frias, demasiado cozidas e a
desintegrar-se numa panela por escorrer. Com grande cerimónia, serviu a minha mãe e a mim.
Sentámo-nos então a olhar para a comida. Não rezámos. Pela primeira vez, senti a falta de um
ritual. Não podia começar a comer sem mais nem menos. Pressentindo isto, o meu pai pronunciou-
se com grande emoção, olhando para nós os dois.
Muito pouco é necessário para uma vida feliz, proclamou.
A minha mãe respirou com dificuldade e franziu a testa. Não deu grande importância ao que ele
dissera, encolhendo os ombros como se as palavras dele a tivessem irritado. Supus que já antes
tinha escutado a sua citação de Marco Aurélio, mas, olhando para trás, sei também que a minha
mãe estava a tentar erguer o seu escudo.

44
A tentar não sentir as coisas. A não mencionar o que acontecera. A emoção dele apoderava-se dela.
Sem qualquer cerimónia, a minha mãe pegou na colher e mergulhou-a no guisado. Engoliu a
primeira colherada. Eu continuei sentado, à espera. Olhámos os dois para o meu pai.
Acrescentei sementes de alcaravia, comentou ele, num tom ameno. Que achas?
A minha mãe tirou um guardanapo de papel da pilha que o meu pai colocara no centro da mesa e
levou-o aos lábios. Riscas roxas e amarelas, das contusões que começavam a sarar, desfiguravam-
lhe ainda o rosto. O branco do olho esquerdo estava escarlate e a pálpebra pendia ligeiramente, pois
o nervo fora afetado e o dano era irreversível.
Que achas?, perguntou mais uma vez o meu pai.
A minha mãe e eu ficámos em silêncio, contemplando em choque o que prováramos.
Acho que será melhor eu voltar a cozinhar, respondeu ela por fim.
O meu pai baixou os olhos e ergueu as mãos, a imagem de um homem que fizera o seu melhor. Fez
beicinho e atacou o seu prato com uma energia fingida que se foi tornando mais penosa. Engoliu
uma vez, duas. Fiquei horrorizado com a força mental dele. Comecei a encher-me com pão. O
ritmo com que levava a colher à boca abrandou. A minha mãe e eu apercebemo-nos provavelmente
ao mesmo tempo que o meu pai, que tomara conta da minha avó durante muitos anos e sabia bem
cozinhar, simulara a sua inaptidão. Todavia, o guisado, com o seu subjacente e nauseante sabor a
cebola podre, fora um êxito tão infernal que nos animou, assim como a decisão da minha mãe de
cozinhar. Quando levantei os pratos e a caçarola e a tarte foi revelada, a minha mãe sorriu
ligeiramente, apenas um movimento ascendente dos cantos dos lábios. O meu pai dividiu a tarte em
três partes iguais e colocou uma colherada de gelado de baunilha em cima de cada uma. Comi o
resto da tarte e do gelado da minha mãe. Ela começou a meter-se com o meu pai por causa do
guisado.
Ao certo, que idade tinham aqueles nabos?

45

Eram mais velhos que o Joe


E onde arranjaste a cebola?
Isso é um segredo meu.
E a carne, era um animal morto na estrada?
Credo, não. Morreu no quintal das traseiras.

Não estava muito preocupado por não ter jantado grande coisa naquela noite, pois sabia que a
seguir à tenda de sudação de Randall Cappy e o seu ajudante, eu, comeríamos à grande e do
melhor. Éramos os guardiões do fogo. As tias de Cappy, Suzette e Josey, que cuidavam dos rapazes
de Doe como se fossem seus filhos, tratavam sempre da comida. Nas noites em que havia
cerimónias, deixavam um festim embalado na perfeição em duas geleiras enormes ao lado da
garagem. Mais para trás, na orla da mata, a abóbada da tenda de sudação, feita com ramos de
árvores jovens dobrados e amarrados e coberta com lonas do exército, aguardava, carregada de
humidade e atraindo mosquitos. Cappy tinha já feito o fogo. As pedras, os avôs estavam a aquecer
ao centro. A nossa missão era manter o fogo á arder entregar os cachimbos sagrados e as poções,
levar as pedras à entrada da cabana em pás de cabo comprido e abrir e fechar as abas da cabana.
Também lançávamos tabaco para o fogo quando alguém gritava por ele, para marcar uma oração ou
um pedido especial Em noites frias era um trabalho agradável: sentávamo-nos em redor do lume a
aquecer-nos. Por vezes, às escondidas, assávamos salsichas ou marshmallows em paus, muito
embora o fogo seja sagrado e uma vez Randall nos tenha apanhado. Afirmou que retiráramos a
santidade ao fogo com as nossas salsichas.
Cappy olhou para ele e disse: «O teu fogo não deve ser assim muito sagrado, para lhe termos
acabado com a santidade com as nossas míseras salsichas.» Não consegui parar de rir. Randall
abanou a cabeça e virou costas. Naquela noite estava demasiado calor para assar o que quer que
fosse, para além do que sabíamos que comeríamos bem no final da cerimónia. A comida era o que
recebíamos pelos nossos préstimos, para além das ocasionais oportunidades de conduzir o estafado
Oldsmobile de Randall. Era, de uma forma geral, um trabalho aprazível. Naquela noite, contudo,
em vez de refrescar, o tempo ficou mais quente e húmido.

46

Não soprava nem a mais leve brisa. Mesmo antes do pôr do Sol, fomos infestados por nuvens
zunidoras i mosquitos. Sentámo-nos mais junto do fogo para o fumo nos proteger das suas
investidas, mas tal só nos fez suar mais e tornou-nos um alvo assaz apetecível. Continuaram a
sugar-nos o sangue mesmo r cima das camadas salgadas e defumadas de repelente.
Os amigos de Randall, todos tocadores de tambor ou dançarinos de powwow (Nota 7) como ele,
apareceram às gargalhadas. Dois estavam pedrados, mas Randall não reparou. Tinha uma
verdadeira obsessão em relação aos preparativos. Tudo tinha de estar perfeito: o suporte para os
cachimbos, a manta estrelada bem esticada junto à entrada, a concha de abalone para queimar salva,
os frascos de vidro com as poções em pó, o balde e a concha. Parecia ter uma régua na cabeça, que
usava para alinhar os objetos sagrados. Esta mania dava com Cappy em doido, mas havia muita
gente que apreciava o estilo de Randall e ele possuía amigos em todas as reservas índias. Ainda
naquele dia recebera de um amigo da tribo Pueblo uma encomenda que continha um frasco com
uma poção. Colocara-o na cabana, ao lado dos outros. Trauteava uma cantiga usada no enchimento
dos cachimbos ao mesmo tempo que montava o seu e estava tão concentrado que nem reparou que
tinha a nuca coberta de mosquitos sedentos. Enxotei-lhos.
Obrigado, disse ele, meio distraído. Rezarei pela tua família.
Porreiro, respondi, embora isso me deixasse constrangido. Não gostava que rezassem por mim. Ao
virar-me, senti as orações treparem-me pela coluna acima. Randall era assim mesmo, sempre
disposto a deixar-nos um pouco desconfortáveis com a verdadeira superioridade de tudo o que
estava a aprender com os anciãos, inclusive os da nossa família, para nosso benefício. Mooshum
ensinara Doe a preparar a cabana, e Doe passara esse ensinamento a Randall. Cappy viu a minha
expressão.
Não te preocupes, Joe. Ele também reza por mim. E olha que consegue montes de miúdas com as
suas feitiçarias. Por isso, tem de continuar a treinar.

Nota 7 - Nos dias de hoje, um powwow é um evento durante o qual os membros de várias tribos se
reúnem para cantar, dançar, conviver e prestar homenagem à cultura dos povos nativos norte-
americanos. (N. da T.)

47

Randall era senhor de um perfil inflexível, de uma pele suave e de um comprido rabo-de-cavalo
entrançado. As raparigas, era especial as brancas, ficavam fascinadas com ele. Uma rapariga alemã
acampara no quintal deles durante um verão inteiro. Era bonita e usava as primeiras sandálias estilo
ortopédicas alguma vez vistas na nossa reserva, portanto Randall começou a ser gozado por causa
delas. Alguém conseguiu ver-lhes a marca e era Birkenstock. Randall ganhava assim uma alcunha.
O calor aumentou e nós emborcámos conchas de água sagrada da tenda de sudação. Invejava os
tipos que entrariam na cabana, pois iriam aquecer tanto que o calor cá fora lhes iria parecer uma
brisa fresca quando saíssem. Para além disso, o calor ainda mais intenso dos avôs faria os
mosquitos estiolar. Entraram todos. Cappy e eu pegámos nas compridas pás e levámos as pedras até
à entrada. Randall tirou-as das pás com um par de chifres de veado e colocou-as na cova feita ao
centro. Entregámos tudo o que era necessário e fechámos a aba. Eles começaram a cantar, e nós
pulverizámo-nos de novo com repelente.
Tínhamos terminado três rondas e entregáramos as últimas pedras. Dirigimo-nos a casa para encher
o dispensador de água e preparávamo-nos para regressar quando escutámos uma explosão. Não
ouvimos ninguém gritar «porta», indicando-nos que a abríssemos. A parte de cima da tenda inflou e
abateu, os seus ocupantes debatendo-se para sair. Bramiam e esbracejavam debaixo das lonas. O
alarido chegava--nos abafado aos ouvidos. Começaram então a emergir como podiam: respirando
com dificuldade, aos gritos e rebolando-se nus pela erva. Os mosquitos viram ali uma oportunidade
e lançaram-se sobre eles. Corremos com o dispensador de água. Randall e os seus amigos faziam
gestos, apontando para as respetivas caras muito franzidas, e nós começámos a deitar-lhes água
pela cabeça abaixo. Assim que conseguiram pôr-se de pé, cada um deles cambaleou ou correu em
direção a casa. As tias de Cappy estavam a chegar com mais frybread para o banquete, por isso
viram oito índios nus tentando avançar às cegas pelo quintal. Suzette e Josey nem saíram do carro.
Só depois de passado o choque, o que demorou bastante tempo, é que os homens, espalhados pelo
meio das pilhas de tralha, começaram a deslindar o que sucedera.

48

Creio que foi aquela poção pueblo, disse Skippy por fim. Antes de teres lançado um punhado dela
para as pedras, agradeceste ao teu amigo de lá, Randall, e a seguir fizeste uma oração mais
comprida.
Lembras-te?
Uma oração muito, muito comprida, Birkenstock. Depois despejaste uma concha de água...
Aaah, respondeu Randall. O meu amigo disse que era uma poção mágica pueblo. Estava a rezar
pela situação dele com uma mulher navaja. Cappy, vai buscar o frasco.
Não me dês ordens.
Okay, se faz favor, irmão mais novo, tendo em conta que estamos todos em pelota e traumatizados,
importavas-te de ir lá fora buscar o frasco?
Cappy fez o que o irmão pediu. Regressou. O frasco tinha uma etiqueta.
Randall, a palavra poção está entre aspas, referiu Cappy.
O frasco continha um pó acastanhado que não nos pareceu ter um cheiro muito forte, pelo menos
não tão forte quanto a ligústica, o wiikenh (Nota 8) ou kinnikinnick (Nota 9). Randall segurou o
frasco e franziu a testa. Cheirou o seu conteúdo como se fosse um provador de vinhos. Por fim,
lambeu o dedo, introduziu-o no frasco e levou-o à boca. Os olhos encheram-se-lhe
instantaneamente de lágrimas.
Auuuu! Auuuu! Deitou a língua de fora.
Malagueta, disseram os outros. Piripíri especial pueblo. Ficámos a ver Randall pular e dançar pela
sala.
Ena, reparem no jogo de pés dele.
Devíamos dar-lhe poção pueblo no próximo powwow.
Podes crer. Estavam todos de copo de água na mão, à exceção de Randall, curvado sobre o lava-
loiça com a língua debaixo da torneira.
O Randall colocou aquele pó nas pedras, disse Skippy, mas quando juntou as quatro conchas de
água, o pó vaporizou-se, atingiu-nos os olhos e começámos a respirar aquela porcaria! Queimava
como tudo. Como é que o Randall nos pôde fazer uma coisa destas?
Olharam todos para Randall, com a língua debaixo da torneira.

Nota 8 - Designação nativa da planta íris versicolor, da família das iridáceas. (N. da T.)
Nota 9 - Mistura de folhas, cascas de árvores e outras partes de plantas usada para fumar. (N. da T.)
49

Só espero que ele no final vá vestir mais roupa, comentou Chiboy Snow.
Lembrámo-nos das tias quando escutámos o carro fazer marcha atrás. Olhámos pela janela. Tinham
deixado dois sacos de frybread acabado de fazer. A gordura começava a deixar delicadas manchas
nos sacos de papel.
Se nos forem buscar a roupa e trouxerem aquele festim, pago-vos, disse Skippy para mim e para
Cappy. Quanto?, perguntou Cappy. Dois a cada um.
Cappy olhou para mim. Eu encolhi os ombros. Trouxemos as coisas deles para dentro e, enquanto
comíamos, Randall veio sentar-se a meu lado. Tinha o rosto encarniçado e inchado como o dos
restantes, os olhos encarnados. Randall quase terminara os seus estudos superiores e por vezes
falava comigo como se eu fosse um caso de assistência social, outras tratava-me como um irmão
mais novo. Aquela foi uma das vezes em que se dirigiu a mim como se fosse da família. Os seus
amigos comiam e riam. Esquecidos já do que Randall fizera, tudo tinha graça. Joe, disse-me ele, vi
uma coisa na tenda. Enchi a boca com carne picada.
Vi uma coisa, continuou ele, e soava genuinamente perturbado. Foi antes de a malagueta ter
explodido tudo. Estava a rezar pela tua família e pela minha quando, de repente, vi um homem
inclinado sobre ti, um polícia talvez, olhando-te de cima, e o rosto dele era branco e os olhos
pareciam cavados. Estava rodeado por um brilho prateado. Os lábios mexiam-se e ele falava, mas
não consegui escutar o que ele dizia.
Ficámos sentados em silêncio. Parei de comer. Que hei de fazer em relação a isso, Randall?,
perguntei em voz baixa. Vamos os dois fazer uma oferenda de tabaco, respondeu ele. E talvez
devesses falar com o Mooshum. Não fiquei com um bom pressentimento, Joe.

A minha mãe cozinhou durante toda a semana seguinte e até ia ao quintal, onde se sentava numa
puída cadeira de jardim a coçar o pescoço de Pearl, contemplando os arbustos que delimitavam o
quintal das traseiras.

50

O meu pai passava todo o tempo que podia em casa, mas de vez em quando tinha de ir ao escritório
encerrar alguns assuntos Também se reunia diariamente com a polícia tribal e falava com o agente
federal a quem o caso fora atribuído. Certa vez, foi a Bismarck, regressando no mesmo dia, falar
com o procurador Gabir Olson, um velho amigo. O problema com a maioria dos casos de violação
ocorridos em território índio era que, mesmo depois de haver uma acusação o procurador recusava-
se a levar o caso a tribunal por um motivo ou outro. De uma forma geral, devido a uma pilha de
casos mais importantes. O meu pai queria assegurar-se de que tal não acontecia. Os dias foram
assim passando nesse falso interlúdio. Na sexta-feira de manhã, o meu pai relembrou-me de que
iria necessitar da minha ajuda. Costumava ganhar uns cobres pedalando até ao escritório do meu
pai depois das aulas para «pôr o tribunal na caminha e aconchegar-lhe a roupa até à segunda-feira
seguinte». Varria o pequeno escritório, limpava o tampo de vidro da sua secretária de madeira,
endireitava e espanejava os diplomas pendurados na parede — Universidade do Dakota do Norte,
Faculdade de Direito da Universidade do Minnesota — e as placas em reconhecimento dos seus
serviços em várias organizações ligadas ao direito. A lista de lugares onde estava autorizado a
exercer o seu cargo estendia-se até ao Supremo Tribunal. Orgulhava-me disso. Ao lado, no quarto
de arrumos transformado em aposentos, dei uma varridela. O presidente Reagan, de faces rosadas e
olhar ébrio, num esgar típico de ator de filmes de série B, sorria da parede no seu retrato oficial.
Reagan era tão tapado em relação aos nativos americanos que achava que nós vivíamos em
«conservas». Havia uma estampa do nosso selo tribal e outra do grande selo do Dakota do Norte. O
meu pai mandara emoldurar uma impressão em estilo antigo do Preâmbulo à Constituição dos
Estados Unidos, tem como da Carta dos Direitos.
De volta ao escritório dele, sacudi o tapete de lã castanho, arrumei e endireitei os livros, que
incluíam todas as edições posteriores do velho Manual de Cohen que havia em casa. Ali se
encontrava a edição de 1958, publicada numa época em que o Congresso estava decidido a acabar
com as tribos nativas.

51

Era sempre deixado na prateleira, o seu desuso uma censura tácita aos editores. A seguir estava a
edição fac-similada de 1971 e a de 1982, grossa, pesada, bastante usada. Ao lado destes livros havia
um exemplar compacto do nosso próprio Código Tribal. Também ajudava o meu pai a arquivar o
que quer que Opichi Wold, a sua secretária, não arrumara. Opichi, cujo nome significava «pisco»,
era uma mulher baixa, magra, severa e astuta. Funcionava como os olhos e os ouvidos do meu pai
na reserva. Todos os juízes necessitam de um batedor no terreno. Opichi reunia informações,
chamemos-lhe mexericos, mas os conhecimentos dela enformavam muitas vezes as decisões do
meu pai. Ela sabia quem podia ser libertado sob fiança e quem fugiria. Sabia quem traficava, quem
apenas consumia, quem conduzia sem carta, quem era violento, quem se emendara, quem bebia,
quem era perigoso ou cauteloso com os próprios filhos. Opichi era inestimável, embora o seu
sistema de arquivamento fosse insondável.
Guardávamos toda a papelada numa divisão ao lado, maior e rodeada de armário arquivadores
metálicos. Algumas pastas eram sempre mantidas em cima dos armários, pois o meu pai exprimira
o desejo de as ler ou estava a anotá-las. Nesse dia, reparei que alguns ficheiros, grandes pilhas,
haviam sido deixados de fora: pastas castanho-escuras com as etiquetas ordenadamente
datilografadas e fixadas por Opichi. A maior parte continha notas, resumos e ideias, rascunhos que
precediam a sentença final. Perguntei se iríamos arquivá-los, pensando para mim mesmo que eram
demasiados para conseguirmos terminar tal tarefa antes do jantar.
Vamos levá-los para casa, disse o meu pai.
Era uma coisa que ele não fazia. O escritório de casa era o seu refúgio de tudo o que se passava no
tribunal tribal. Orgulhava-se de conseguir deixar a barafunda semanal onde esta pertencia. Naquele
dia, contudo, carregámos as pastas para o banco traseiro da carrinha. Colocámos a minha bicicleta
na bagageira e rumámos a casa.
Depois de jantar, eu próprio carrego as pastas para dentro, disse-me ele durante o caminho. Percebi
assim que não queria que a minha mãe o visse levando aqueles ficheiros para casa. Depois de
estacionarmos o carro, descarregámos a bicicleta e eu levei-a à mão para as traseiras. O meu pai
entrou antes de mim.

52

Ao chegar à soleira da porta da cozinha escutei qualquer coisa a estilhaçar e depois um grito agudo
e angustiado. A minha mãe, encostada ao lava-loiça, tremia, respirando com dificuldade. O meu pai
estava alguns passos à frente dela com as mãos suspensas no ar, agarrando em vão a silhueta dela,
como se a quisesse abraçar sem abraçar. Entre os dois, no chão, uma caçarola partida e a derramar.
Olhei para os meus pais e percebi de imediato o que acontecera. O meu pai entrara... De certeza que
a minha mãe escutara o carro, e não teria Pearl ladrado? As passadas dele também eram pesadas.
Fazia sempre barulho e era, como já referi, um homem um pouco desajeitado. Eu reparara ainda
que, na semana anterior, ele também gritara qualquer coisa disparatada ao chegar a casa, do tipo,
«Cheguei!» Talvez daquela vez se tivesse esquecido. Talvez não tivesse feito barulho. Talvez
tivesse entrado na cozinha, como fazia sempre, e tivesse colocado os braços em redor da minha
mãe, de costas para ele. Na nossa antiga vida, ela teria continuado o que estava a fazer, ao fogão ou
em frente ao lava-loiça, ao mesmo tempo que ele lhe espreitava por cima do ombro e conversava
com ela. Assim se manteriam abraçados numa pequena cena da vida familiar. A seguir, ele chamar--
me-ia para o ajudar a pôr a mesa e ia num instante mudar de roupa enquanto a minha mãe e eu
dávamos os últimos retoques na refeição. No final, sentávamo-nos os três à mesa. Não
frequentávamos a igreja. Aquele era o nosso ritual. A nossa eucaristia, a nossa comunhão. E tudo
começava com aquele momento de confiança em que o meu pai se aproximava da minha mãe pelas
costas e ela sorria, reconhecendo a sua presença sem se virar. Porém, naquele momento,
entreolhavam-se, impotentes, separados pela caçarola partida.
Era o tipo de situação, percebo agora, que podia ter-se desenvolvido de várias formas. A minha mãe
podia ter desatado a rir, a chorar, podia ter-se abraçado ao meu pai. Ou ele poderia ter-se ajoelhado
e fingido que estava a ter o ataque de coração que mais tarde o mataria. Ela teria sido sacudida do
choque. Tê-lo-ia ajudado. Depois teríamos os três apanhado os cacos e limparíamos o chão,
faríamos sanduíches para o jantar, e o dia teria prosseguido. Se nos tivéssemos sentado juntos à
mesa naquela noite, acredito que as coisas teriam seguido em frente. Contudo, o rosto da minha
mãe ruborizou-se sombriamente e um estremecimento quase impercetível percorreu-a da cabeça
aos pés. Inspirou com esforço e levou a mão ao rosto magoado.

53

Depois deu um passo por cima dos cacos e afastou-se, sem pressa. Eu queria que ela chorasse,
gritasse, arremessasse algo. Qualquer coisa teria sido melhor do que a suspensão de sentimentos
com que subiu as escadas. Trazia um vestido simples azul naquela noite. Sem meias. Um par de
mocassins Minnetonka pretos nos pés. A medida que pisava cada degrau, olhava diretamente em
frente, segurando o corrimão com firmeza. Os seus passos eram silenciosos. Parecia flutuar. O meu
pai e eu seguimo-la até à porta e julgo que, ao observá-la, ambos ficámos com a sensação de que
ela ascendia a um lugar de pura e completa solidão, do qual podia nunca mais regressar.
Mantivemo-nos juntos, mesmo depois de a porta do quarto se fechar. Por fim, demos meia volta e,
sem uma palavra, voltámos à cozinha e apanhámos a loiça partida. Fomos os dois à rua deitar a
comida e os cacos ao caixote do lixo. O meu pai ficou parado depois de fechar o caixote. Pendeu a
cabeça, e nesse momento dei-me conta, pela primeira vez, de que ele deixava transparecer uma
desolação que o iria dominar com um poder cada vez mais forte. Com ele ali imóvel, assustei-me
verdadeiramente. Encostei a cabeça ao seu braço. Não sabia o que sentia, mas dessa vez, pelo
menos, o meu pai levantou a cabeça. Ajuda-me a trazer aquelas pastas para dentro. A sua voz era
dura e urgente. Começamos esta noite.
Ajudei-o, e juntos descarregámos o carro. Fizemos então umas sanduíches rápidas. (Preparou uma
delas com maior cuidado e colocou-a num prato. Eu cortei uma maçã, dispus as fatias em redor do
pão, da carne e da alface. Bati à porta do quarto e, como ela não me respondeu, deixei o prato do
lado de fora.) Segurando as sanduíches nas mãos, fomos para o escritório do meu pai e atafulhámos
a boca ao mesmo tempo que olhávamos para os ficheiros com a testa franzida. Sacudimos as
migalhas para o chão. O meu pai acendeu as luzes. Acomodou-se à sua secretária e, com a cabeça,
disse-me que fizesse o mesmo no cadeirão.
Ele está ali, afirmou ele, acenando com o queixo para as pilhas de ficheiros de arquivo.

54

Compreendi que iria ajudá-lo. Estava a tratar-me como seu assistente. É claro que sabia das minhas
leituras sub-reptícias. Olhei instintivamente para a prateleira onde estava o Cohen. Ele voltou a
acenar com a cabeça, ergueu as sobrancelhas um pouco e indicou-me a pilha junto do meu
cotovelo. Pusemo-nos a ler. E foi então que comecei a entender quem o meu pai era, o que fazia
todos os dias e o que fora a sua vida.
No decurso da semana que se seguiu, selecionámos vários casos do conjunto do seu trabalho. Ao
longo deste tempo, que decorreu durante a última semana de aulas, a minha mãe não conseguiu sair
do quarto. O meu pai levava-lhe a comida. A noite, eu ia fazer-lhe companhia e lia-lhe The Family
Album of Favorite Poems [Álbum de Poemas Preferidos de Toda a Família] até ela adormecer. Era
um volume velho, castanho-avermelhado, com a sobrecapa rasgada, mostrando pessoas brancas e
felizes lendo poemas na igreja, aos filhos antes de dormirem ou sussurrando-os ao ouvido da
amada. Ela não me deixava ler nada que fosse inspirador. Tinha de ler os intermináveis poemas
narrativos com as suas palavras complicadas e ritmos estranhos. «Ben Bolt», «The Highwayman»,
«The Leak in the Dike», e por aí fora. Assim que percebia, pela respiração, que ela adormecera,
esgueirava-me do quarto, aliviado. Ela dormia e dormia, como se treinasse para uma maratona de
sono. Comia pouco. Chorava frequentemente, um choro opressivo e monótono, que tentava abafar
com almofadas mas que ressoava pela porta do quarto. Eu descia ao piso de baixo, enfiava-me no
escritório com o meu pai e continuava a ler os ficheiros.
Líamos com uma enorme concentração. O meu pai convencera-se de que algures nos seus resumos,
nos memorandos e nas decisões se encontrava a identidade do homem cujo crime quase separara o
espírito da minha mãe do seu corpo.

55

Capítulo Três
Justiça

16 de agosto de 1987
Durlin Peace, Queixoso
vs.
Bingo Palace, Lyman Lamartine, Réus

Durlin Peace é porteiro no Bingo Palace and Casino e responde diretamente a Lyman Lamartine.
Foi despedido a 5 de julho de 1987, dois dias depois de uma discussão com o patrão. Uma
testemunha declarou que a discussão foi ouvida por vários outros funcionários e envolvia uma
mulher que ambos os homens namoravam.
A 4 de julho, o churrasco dos funcionários realizou-se no pátio traseiro do Bingo Palace. No
referido churrasco, Durlin Peace, que estivera a consertar alguns equipamentos durante o dia,
abandonou o local a pé. Foi impedido por Lyman Lamartine, que lhe pediu que esvaziasse os
bolsos. Num dos bolsos foram descobertas cinco anilhas, cada qual com um valor de cerca de 15
cêntimos. Lyman Lamartine acusou então Durlin Peace de tentar furtar propriedade da empresa e
despediu-o.
Durlin Peace afirmou que as anilhas lhe pertenciam. Uma vez que não havia marcas distintivas nas
anilhas, que foram examinadas pelo juiz Coutts, não existia prova de que as ditas fossem,
propriedade do Bingo Palace.

57

Tendo em conta que o despedimento de Durlin Peace não tinha fundamentos válidos, foi ordenado
que fosse readmitido no Bingo Palace.

Anilhas?, perguntei.
Que têm?, devolveu o meu pai.
Olhei de novo para a folha.
Embora aquele não fosse um dos casos que marcáramos como importantes, recordava-me bem
dele. Ali estavam. As questões de peso nas quais o meu pai despendia o seu tempo e a que dedicava
a sua vida. É claro que eu estivera na sala de audiências quando ele tratara daquele tipo de casos,
mas achara que estava a ser excluído de batalhas mais importantes, perturbadoras, violentas ou
demasiado complexas, por causa da minha idade. Imaginara que o meu pai resolvia grandes
questões legais, que trabalhava para impor os direitos consagrados nos tratados, para conseguir a
restituição de terras, que olhava assassinos nos olhos, que franzia o sobrolho quando as
testemunhas gaguejavam e silenciava advogados engenhosos com tiradas irónicas. Não disse nada,
mas ao voltar à leitura fui invadido por um crescente desânimo. Para que escrevera Félix S. Cohen
o seu manual? Onde estava a grandiosidade? O drama? O respeito? Quase todos os casos que o
meu pai julgava eram igualmente insignificantes, ridículos, triviais. Embora houvesse alguns que
eram de partir o coração, ou então um combinação de tristes e idiotas, como o de Marilyn Shigaag,
que roubou cinco salsichas numa bomba de gasolina e as comeu todas nos lavabos da bomba,
nenhum ascendia à grandeza que eu imaginara. O meu pai castigava ladrões de salsichas e
examinava anilhas — nem sequer máquinas de lavar, apenas anilhas de 15 cêntimos.

58

8 de dezembro de 1976
Na presença do juiz presidente Antone Coutts, da juíza Rose Chenois e do juiz associado Mervin
«Tubby» Ma'ingan.
Tommy Thomas et al., Queixosos
vs.
Vinland Super Mart et al, Réus

Tommy Thomas e os restantes queixosos deste caso eram membros da tribo Chippewa, e Vinland
era e é uma bomba de gasolina e mercearia propriedade de não-índios, que, embora situada
sobretudo em terrenos de propriedade plena (lote adquirido anteriormente), está rodeada por
terrenos tribais detidos em fideicomisso. Os queixosos alegaram que durante transações comerciais
ocorridas no Vinland Super Mart era cobrada uma sobretaxa de 20% sobre as operações realizadas
com membros da tribo que demonstravam sinais de demência relacionada com a idade, inocência
devida a uma idade precoce, perturbação mental, embriaguez ou confusão.
Os proprietários, George e Grace Lark, não negaram que em determinadas ocasiões uma sobretaxa
de 20% fora adicionada nos recibos emitidos pela caixa registadora. Justificaram os seus atos
insistindo em que tal constitui uma forma de recuperar perdas resultantes de pequenos furtos. Os
réus alegaram que o tribunal tribal não possuía jurisdição pessoal sobre eles ou sobre a matéria em
causa, as transações em que se fundamenta a querela dos queixosos.
O tribunal decidiu que, embora o edifício da bomba de gasolina estivesse localizado no lote n.°
122093, o parque de estacionamento, o contentor do lixo, o passeio, as bombas de gasolina, os
extintores de incêndio, o sistema de esgotos, as barreiras de estacionamento em betão, as mesas de
piquenique ao ar livre e os canteiros decorativos exteriores se encontram todos em terrenos tribais
detidos em fideicomisso, e que, para aceder ao Vinland Super Mart, os clientes, 86% dos quais
membros da tribo, tinham de atravessar terrenos tribais de carro e a pé.
Este tribunal reivindicou jurisdição sobre o caso e, uma vez que não foram apresentadas provas que
negassem a existência da sobretaxa, decidiu a favor dos queixosos.

59
*
O meu pai mantivera este ficheiro à parte.
Parece-me um caso normal, referi. Tentei que a minha voz não traísse o desapontamento que sentia.
Nesse caso consegui reivindicar jurisdição limitada sobre um negócio não-índio, disse o meu pai. A
minha decisão manteve-se no recurso. A sua voz revelava algum orgulho. Foi gratificante,
continuou, mas não foi por esse motivo que separei o caso. Destaquei-o para o examinar melhor por
causa das pessoas envolvidas. Olhei de novo para o ficheiro. Tommy Thomas et ai. ou os Lark?
Os Lark, muito embora a Grace e o George já tenham falecido. A Linda ainda é viva, bem como o
filho deles, o Linden, que não esteve envolvido no caso nem é aqui mencionado, mas que figura
numa outra ação, emocionalmente mais complicada. Os Lark eram o tipo de pessoas que faz gala
dos seus relacionamentos com «índios bons», os quais desprezavam em segredo e tratavam com
condescendência em público com o objetivo de provarem o seu amor pelos índios, que se
ocupavam de vigarizar. Os Lark eram empresários trapalhões e ladrõezecos, mas também só se
enganavam a eles mesmos. Ao passo que os seus padrões morais para o resto do mundo eram
rígidos, conseguiam sempre encontrar desculpas para as suas falhas. São estas pessoas, disse o meu
pai, hipócritas de segunda, que em circunstâncias especiais são capazes de atos monstruosos. Os
Lark eram fervorosos opositores do aborto, contudo, à nascença dos seus gémeos, mostraram-se
dispostos a matar o mais fraco, como na altura consideraram, e deformado dos bebés, uma menina.
Toda a reserva soube do sucedido porque uma das enfermeiras do hospital separou o gémeo
deformado. Um membro da tribo, Betty Wishkob, porteira noturna, conseguiu adotar a criança. O
que nos leva ao outro caso.

No caso dos bens de Albert e Betty Wishkob Albert e Betty Wishkob, ambos membros registados
da tribo Chippewa e residentes na reserva, faleceram infestados deixando quatro filhos, Sheryl
Wishkob Martin, Cedric Wishkob, Albert Wishkob Jr.e Linda Wishkob, nascida Linda Lark.

60

Linda foi informalmente adotada pelos Wishkob e educada no seio da família como índia. À morte
dos seus pais adotivos, os outros filhos, que se haviam mudado para fora da reserva, concordaram
que Linda continuasse a residir, como até então, na casa de Albert e Betty, situada no lote n.°
1002874 de 64 hectares, que foi reintegrado na propriedade detida em fideicomisso pela tribo
depois do Indian Reorganization Act de 1934. A 19 de janeiro de 1986, a mãe biológica de Linda
Lark Wishkob, Grace Lark solicitou a este tribunal a tutela legal da sua filha Linda, então na meia-
idade, para assim poder gerir os seus bens.
Grace Lark alegou que uma doença contraída depois de Linda se ter submetido a uma complicada
operação cirúrgica deixou a filha profundamente deprimida e mentalmente confusa. Grace Lark
afirmou que estava interessada em desenvolver os 64 hectares, que, segundo ela, haviam sido
deixados em herança a Linda após a morte dos seus pais adotivos.

O último parágrafo fora escrito à mão, um aparte para ser lido apenas pelo meu pai.

Uma vez que Linda não possui sangue índio e não existe qualquer prova legal de que os Wishkob a
tenham adotado formalmente; dado que Grace Lark não fez qualquer tentativa de contactar os
outros três herdeiros envolvidos e, para além disso, tendo em conta que Linda Lark Wishkob, na
opinião deste tribunal, se encontra não apenas mentalmente capaz como mais sã do que muitos dos
que já se apresentaram perante este tribunal, incluindo a mãe biológica, este caso foi indeferido,
transitando a decisão em julgado.

Estranho, comentei.
E a estranheza não fica por aí, disse o meu pai.
Como assim?
O que vês aí é apenas a ponta de um psicodrama que durante uns anos consumiu tanto os Lark, que
abdicaram da filha, quanto os Wishkob, que por generosidade salvaram e criaram a Linda.

61

Quando os filhos dos Wishkob souberam da ação movida pela Grace, uma tentativa desastrada,
interesseira e mesquinha de açambarcar e lucrar com uma herança que nunca o foi e com um
pedaço de terra que nunca poderia sair da posse da tribo, ficaram furiosos. A Sheryl, a irmã adotiva
mais velha da Linda, arregaçou as mangas e organizou um boicote à bomba de gasolina dos Lark.
Para além disso, ajudou o teu tio Whitey a candidatar-se a um subsídio para abrir o negócio. Agora
toda a gente vai à bomba do Whitey. O Whitey e a Sonja acabaram com o negócio dos Lark.
Durante este tempo, o filho da senhora Lark, o Linden, perdeu o emprego que tinha no Dakota do
Sul e regressou para ajudar a mãe a gerir o negócio em franco declínio. Ela morreu de um
aneurisma. Ele culpa os Wishkob, a irmã Linda, o Whitey e a Sonja, e o juiz deste caso, eu, pela
morte dela e pela sua iminente falência, que agora parece inevitável.
O meu pai olhou para as pastas e franziu o sobrolho, passando em seguida a mão pela cara.
Eu vi-o na sala de audiências. As pessoas dizem que ele é muito falador, um verdadeiro charme,
mas não disse uma única palavra durante o julgamento.
Poderá ele ser o...?, perguntei.
Agressor? Não sei. É inquietante, isso é certo. Depois de a mãe morrer, meteu-se na política por uns
tempos. Durante o julgamento, provavelmente tomou consciência, para seu grande desgosto, das
questões de jurisdição que envolvem a reserva. Escreveu uma carta irada ao Fargo Fórum. A Opichi
recortou-a. Lembro-me de que, linha a linha, era a habitual arenga do «acabemos com as reservas»
e usava aquela antiga frase provinciana e conservadora: «Derrotámo-los de forma justa.» Recusam-
se a entender que as reservas existem porque os nossos antepassados assinaram acordos legais. Mas
alguma coisa lá deve ter ficado, pois a seguir ouvi dizer que o Linden andava a angariar dinheiro
para o Curtis Yeltow, que ia concorrer a governador do Dakota do Sul e partilhava das suas ideias.
Também ouvi dizer, pela Opichi, é claro, que o Linden está envolvido numa sucursal da Posse
Comitatus. Esse grupo acredita que os poderes do mais elevado representante eleito do Governo
deveriam pertencer ao xerife local. O Lark vive na casa da mãe, segundo sei. Leva uma vida
sossegada

62

E ausenta-se muito. Diz-se que vai para o Dakota do Sul. Tornou-se bastante reservado. A Opichi
diz que há uma mulher envolvida, mas esta apenas foi vista um punhado de vezes. Ele entra e sai de
casa a horas pouco habituais, mas até agora não há sinais de que trafique drogas ou faça alguma
coisa fora da lei. Sei que a mãe tinha um certo pendor para instigar violência emocional. Houve
outras pessoas que absorveram a raiva dela. Era uma velhinha de cabelos brancos e ar frágil, mas
defendia o que achava serem os seus direitos com unhas e dentes e de forma muito convincente.
Era venenosa. Talvez o Lark tenha seguido em frente, ou talvez tenha absorvido o veneno dela.
O meu pai foi à cozinha buscar mais café. Observei os ficheiros. Talvez tenha sido então que
reparei que cada um dos seus pareceres estava assinado com uma caneta de tinta permanente, num
tom lírico de índigo. A sua caligrafia era meticulosa, quase vitoriana, naquele estilo araneiforme de
outra época. Desde então, aprendi que os juízes possuem duas características. Todos têm cães e
todos possuem uma excentricidade que os torna memoráveis. Daí a caneta de tinta permanente,
julgo, muito embora, em casa, o meu pai usasse esferográfica. Abri a última pasta que havia em
cima da secretária e comecei a ler.

1 de setembro de 1974
Francis Whiteboy, Queixoso
vs.
Asiginak, agente da polícia tribal, e Vince Madwesin, Réus

William Sterne, advogado do apelante, e Johanna Coeur de Bois, advogada dos réus.

A 13 de agosto de 1973 foi realizada uma cerimónia da Tenda Tremente na velha casa redonda a
norte de Reservation Lake. A Tenda Tremente é uma das mais sagradas cerimónias ojibwa e não
será aqui descrita exceto para mencionar que o ritual se destina a curar os peticionários e a
responder a perguntas espirituais.
Nessa noite estavam presentes mais de uma centena de pessoas, várias das quais, na orla da
multidão, a beber.

63

Uma das pessoas que bebia era Horace Whiteboy, irmão de Francis, o apelante neste caso. O líder
da cerimónia, Asiginak, pedira a Vince Madwesin, da polícia tribal local, para agir como segurança
na cerimónia. Vince Madwesin pediu a Horace Whiteboy e às outras pessoas que estavam a beber
que abandonassem o local.
É culturalmente inaceitável, inclusive ofensivo, beber numa cerimónia da Tenda Tremente, e
Madwesin agiu bem ao pedir a quem bebia que se fosse embora. Várias dessas pessoas, ao darem-
se conta de que estavam a violar flagrantemente as regras da cerimónia, abandonaram o local.
Horace Whiteboy foi visto a cambalear estrada abaixo com as pessoas que não assistiram à
cerimónia. Contudo, de acordo com o que várias testemunhas afirmaram, o espírito presente na
tenda ocupada por Asiginak alertou aqueles que o escutavam para o facto de Horace Whiteboy
correr perigo.
Horace Whiteboy foi encontrado morto na tarde que se seguiu à cerimónia. Tendo aparentemente
deixado o grupo com o qual fora convidado a sair da cerimónia, deu meia volta e tentou regressar à
casa redonda. No sopé da colina terá decidido deitar-se. Foi encontrado sob uns arbustos baixos,
deitado de costas; morrera sufocado no seu próprio vómito.
Francis Whiteboy, irmão de Horace, acusa de negligência Asiginak (este estava na tenda e tinha
conhecimento, por meio dos espíritos, de que o seu irmão estava em perigo) e Vince Madwesin
(que estava fora de serviço como agente da polícia e, na sua qualidade de segurança da cerimónia,
não recebeu remuneração).
O tribunal decidiu que a única responsabilidade de Asiginak era permitir que os espíritos
exprimissem, por meio da sua presença, o que sabiam. Cumpriu com essa responsabilidade.
As ações de Vince Madwesin para garantir a segurança da cerimónia da Tenda Tremente foram
adequadas, e tendo em conta que não estava de serviço enquanto agente da polícia e não foi pago
pelo seu trabalho, nenhumas responsabilidades podem ser imputadas à polícia tribal. A
responsabilidade de Madwesin era assegurar-se de que as pessoas inebriadas eram convidadas a
abandonar o local.
Um indivíduo que bebe até um estado de quase estupor corre o risco de sucumbir a uma morte
acidental.

64

A morte de que Horace Whiteboy foi vítima, embora trágica, aconteceu em resultado das suas
ações. Embora a compaixão pelos alcoólicos deva ser a regra, cuidar deles como se cuida de uma
criança não é obrigatório por lei. O comportamento de Horace Whiteboy resultou na sua morte e as
suas próprias ações guiaram o seu destino.
O tribunal decidiu a favor dos réus.

Porquê este, perguntei quando o meu pai regressou.


Era tarde. Ele sentou-se, sorveu um gole de café, tirou os óculos de leitura. Esfregou os olhos e,
talvez porque estava exausto, falou sem pensar.
Por causa da casa redonda.
A antiga casa redonda? Foi lá que aconteceu?
Ele não respondeu.
O que aconteceu à mãe... foi lá?
Não obtive resposta, mais uma vez.
Juntou os papéis, pôs-se de pé. A luz incidiu sobre as linhas do seu rosto, e estas acentuaram-se,
convertendo-se em sulcos. Parecia ter cem anos.

65

Capítulo Quatro
Estrondoso como um sussurro
Cappy era um tipo escanzelado, de mãos grandes e pés nodosos e cheios de cicatrizes, mas tinha
maçãs do rosto pronunciadas, um nariz direito, dentes grandes e brancos, e cabelo liso, brilhante, a
pender por cima de um olho castanho. Um olho castanho de olhar enternecedor. As miúdas
adoravam Cappy, muito embora andasse sempre com o queixo e a cara arranhados e tivesse uma
falha numa sobrancelha, resultante de uma pedrada. A sua bicicleta era uma velharia azul e
enferrujada de dez velocidades que Doe arranjara na missão. Como em casa deles havia
ferramentas espalhadas por todo o lado, Cappy mantinha-a mais ou menos consertada. Ainda assim,
só a primeira velocidade funcionava. E os travões faziam greve inesperadamente. Quando Cappy
andava de bicicleta, só se via um miúdo escanifrado pedalando tão depressa que as pernas
desapareciam no meio de um borrão. De vez em quando, arrastava os pés pelo chão para travar ou,
se isso não resultasse, lançava-se numa atitude suicida por cima do quadro. Angus tinha uma BMX
cor-de-rosa desconjuntada, que tencionava pintar até ter percebido que a cor era a única coisa que a
impedia de ser roubada. A bicicleta de Zack era nova e preta, porque o pai lha oferecera depois de
ter estado dois anos sem dar a cara.

67

Uma vez que, em termos legais, não podíamos conduzir (embora, é claro, o fizéssemos sempre que
podíamos), as bicicletas davam-nos liberdade. Não tínhamos de depender de Elwin ou dos cavalos
de Whitey, ainda que também os montássemos quando podíamos. Não tínhamos de pedir boleia a
Doe ou à mãe de Zack, o que era bom, porque na manhã do primeiro dia de férias não nos teriam
levado onde pretendíamos ir.
Zack confirmara, depois de escutar (fazia-o a toda a hora] o crepitante rádio da polícia do seu
padrasto, onde tinha ocorrido o crime de que a minha mãe fora vítima. Era a casa redonda. Um
caminho de terra batida conduzia à velha cabana redonda feita de troncos situada na margem oposta
de Reservation Lake. Bem cedo naquela manhã, levantei-me e vesti-me sem fazer barulho.
Esgueirei-me escada abaixo e deixei Pearl sair. Juntos, fizemos chichi na rua, contra os arbustos do
quintal das traseiras. Não queria puxar o barulhento autoclismo da casa de banho. Voltei a entrar,
mal abrindo a porta mosquiteira para que não chiasse, fechando-a devagar para não bater. Pearl
entrou comigo e ficou a ver-me encher um saco com sanduíches de manteiga de amendoim.
Guardei-o na mochila, juntamente com um dos frascos de pepinos em conserva da minha mãe e
uma garrafa de água. Concordara em escrever um bilhete ao meu pai, dizendo-lhe onde estava.
Obrigara-me a jurar que o faria durante todo o verão. Escrevi «lago» no bloco de folhas amarelas
que ele me deixara em cima da bancada. Arranquei metade de uma folha e escrevi outro bilhete,
que dobrei e enfiei no bolso. Pousei a mão na cabeça de Pearl e olhei-a nos seus olhos claros.
Guarda a mãe, disse.
Cappy, Zack e Angus deviam encontrar-se comigo dali a um par de horas junto de um cepo que
usávamos, junto à estrada estadual, do outro lado da valeta. Aí deixei o outro bilhete, dizendo-lhes
que fora andando. Planeara as coisas daquela forma porque queria estar sozinho na casa redonda
quando lá chegasse.
Estava uma sublime manhã de junho. O orvalho ainda estava fresco nas rosas silvestres e no
restolho da salva ceifada no outono anterior, mas eu sabia que pela tarde o calor apertaria. Seria
uma tarde quente e sem nuvens. Haveria carraças. Não se via quase ninguém na rua àquela hora. Só
passaram por mim dois carros na estrada estadual.

68

Virei para Mashkeeg Road, um caminho de gravilha ladeado de árvores e que contornava
parcialmente o lago. Havia casas junto ao lago, meio escondidas pela vegetação. De vez em quando
aparecia um cão ou outro, mas eu pedalava depressa e entrava e saía tão rapidamente dos seus
territórios que poucos ladraram e nenhum me perseguiu. Nem uma carraça, que saltou de uma
árvore e girando pelo ar me bateu no braço, conseguiu agarrar-se a mim. Dei-lhe um piparote e
pedalei ainda mais depressa até chegar ao estreito trilho que conduzia à casa redonda. Estava ainda
bloqueada por cones de sinalização e bidões pintados. Supus que seria obra da polícia. Levei a
bicicleta à mão, observando atentamente o chão e debaixo das folhas dos arbustos ao longo do
raminho. A área cobrira-se de uma espessa camada de folhas durante as últimas semanas. Procurava
qualquer coisa que outros olhos pudessem ter deixado escapar, como num dos romances policiais
de Whitey. Não vi nada fora do lugar, porém, ou melhor, uma vez que se tratava da floresta e tudo
estava fora do lugar e era selvagem, não vi nada no seu devido sítio. Uma zona em ordem. Algo que
parecesse não encaixar-se ou destoasse. Um frasco vazio, uma carica, um fósforo enegrecido. O
local fora passado a pente fino e tudo o que ali não pertencia já tinha sido levado, pelo que cheguei
ao local onde se encontrava a casa redonda sem ter encontrado nada de interessante ou útil.
A erva ainda não fora cortada, mas o local onde os carros estacionavam estava coberto por
pequenas plantas enfezadas. Os cavalos haviam arrancado pela raiz todas as plantas boas, e o que
arranhava os pneus da minha bicicleta eram pequenas e rígidas ervas daninhas. O hexágono de
troncos erguia-se no cimo de um outeiro, rodeado de abundante erva, alta e espessa, de um verde
intenso. Larguei a bicicleta. Seguiu-se um momento de profundo silêncio. Então, um leve sussurro
de ar perpassou pelas fendas dos troncos prateados da casa redonda. Emocionado, sobressaltei-me.
O lamento parecia emanar da própria estrutura. O som penetrou-me por completo, inundando-me.
Por fim, cessou. Decidi avançar. Ao subir a colina, uma brisa eriçou-me os cabelos da nuca, porém,
quando cheguei à casa redonda, o sol assemelhava-se a uma mão quente sobre os meus ombros. O
local parecia tranquilo. Não havia porta.

69

Houvera em tempos uma, mas o enorme retângulo de tábuas fora arrancado e lançado para um lado.
A erva crescia já pelas rachas entre as pranchas. Detive-me na soleira. O interior estava mergulhado
na penumbra, embora quatro janelas, pequenas e já estragadas, se abrissem para cada lado. O chão
estava limpo. Sem embalagens vazias nem papéis nem mantas. Tudo havia sido levado pela polícia.
Senti um ténue odor a gasolina.
Nos velhos tempos, quando os índios não podiam praticar a sua religião — bom, na verdade, não
fora assim há tanto tempo: antes de 1978 —, a casa redonda fora usada para cerimónias. As pessoas
faziam de conta que era um salão de baile ou então levavam as suas bíblias para os convívios.
Nessa época, ao descer a comprida estrada, os faróis do carro do padre refletiam-se na janela sul.
Quando o padre ou o superintendente do BIA chegava, os tambores de água, as penas de águia, os
sacos de poções e ervas, os rolos de casca de bétula e os cachimbos sagrados iam já a bordo de um
par de lanchas a meio do lago. As pessoas sacavam das suas bíblias e liam o Eclesiastes em voz
alta. Porquê esse livro da Bíblia, perguntei certa vez a Mooshum. Capítulo um, versículo quatro,
respondeu ele. «Uma geração passa, outra vem; e a terra permanece sempre.» Nós pensamos da
mesma forma. Por vezes, dançávamos a quadrilha, contou Mooshum, o nosso sumo feiticeiro de
Midewiwin (Nota 10) era um animador e peras.
Havia um velho padre católico que costumava sentar-se com os feiticeiros. O padre Damien
mandava o superintendente para casa, e depois os tambores de água e as penas e os cachimbos
regressavam. O velho padre aprendera as canções. Nenhum padre hoje em dia conhece essas
canções.
Com base no relato que Zack fizera da conversa que escutara pelo rádio do padrasto e no silêncio
do meu pai depois de ter mencionado a casa redonda, sabia onde o crime ocorrera, mas ignorava o
local exato. Nesse momento fui acometido por uma certeza. Sabia. Agredira-a ali. O antigo local de
cerimónias dissera-mo; gritara-mo na voz angustiada da minha mãe, acreditava então, e os olhos
encheram-se-me de lágrimas. Deixei que me corressem pelas faces abaixo.

Nota 10 - Midewiwin ou «Grande Confraria Medicinal» é o nome de uma sociedade mística


altamente estruturada cujos membros realizam elaboradas cerimónias relacionadas com a cura de
doenças, o prolongamento da vida e assuntos espirituais. (N. da T.)

70

Não havia ali ninguém que me pudesse ver, por isso nem sequer as enxuguei. Permaneci no umbral
sombreado, pensando com as minhas lágrimas. Sim, as lágrimas podem ser pensamentos, porque
não?
Concentrei-me na fuga, tal como o meu pai a descrevera. O nosso carro estava estacionado no sopé
da colina, logo a seguir a um grupo arbustos. Ninguém podia chegar pela estrada vindo daquele
lado. Havia uma praia mais abaixo, à qual se acedia com maior facilidade por uma estrada que
contornava a margem do lago pelo outro lado. É claro que o violador — só que eu não usei essa
palavra, usei «agressor» -, o agressor esperava que aquele local isolado permanecesse deserto. O
que significava que teria de conhecer mais ou menos bem a reserva e implicava mais planeamento.
As pessoas costumavam ir beber para aquela praia, à noite, mas para chegar a ela a partir da casa
redonda era preciso atravessar uma vedação de arame farpado e depois abrir caminho pelo bosque.
O ataque acontecera mais ou menos onde eu me encontrava. Ele deixara-a ali para ir buscar uma
outra carteira de fósforos. Bloqueei a imagem da minha mãe aterrorizada, precipitando-se para o
carro. Imaginei a distância que o agressor teria de ter percorrido em busca dos fósforos para não
conseguir chegar a tempo de a alcançar.
A minha mãe levantara-se e saíra a correr pela porta, descendo colina abaixo até ao carro. Para não
a ter visto, o agressor teria de ter descido pelo lado oposto do outeiro, para norte. Segui por onde
supus que ele fora, atravessando a erva até ao arame farpado. Levantei o arame de cima, passei uma
perna e depois outra. Nova vedação de arame conduzia ao lago por meio de um denso emaranhado
de bétulas e álamos. Segui a vedação rumo à margem do lago e continuei a avançar até à água.
O agressor devia ter um esconderijo algures, ou talvez outro carro estacionado perto da praia.
Regressara para ir buscar mais fósforos quando os que levara tinham ficado inutilizados.
Provavelmente, era fumador. Deixara para trás fósforos de reserva, ou um isqueiro. Seguira aquela
vedação, descendo até ao lago. Alcançara o seu esconderijo. Escutara a porta do carro fechar.
Voltara a correr para a casa redonda para travar a minha mãe. Mas era tarde demais. Ela conseguira
ligar o carro, pisar no acelerador. Fugira.
71

Continuei a andar, atravessando a estreita faixa de areia até ao lago. O meu coração batia com tanta
força enquanto a ação se desenrolava na minha cabeça que nem apercebi da água. Senti a
esmagadora frustração do agressor ao ver o carro desaparecer. Vi-o pegar no jerricã de gasolina e
lançá-lo quase na direção dos farolins traseiros, que entretanto desapareciam de vista. Correu para a
frente, depois para trás. De repente, parou, lembrando-se das suas coisas, do carro, do que quer que
tivesse, dos cigarros. E do jerricã. Não podia ser apanhado com o jerricã. Por muito frio que fizesse
naquele dia de maio — o gelo já derretera, mas a água continuava gélida —, ele não tivera outro
remédio se, não adentrar-se no lago e encher o jerricã de água. Depois disso, lançara seguramente o
jerricã o mais longe que conseguira. Naquele momento, se eu mergulhasse e passasse as mãos pelo
fundo cheio de lodo, limos, sedimentos e caracóis, encontrá-lo-ia.

Os meus amigos encontraram-me sentado à porta da casa redonda, debaixo do sol, ainda a secar,
com o jerricã de gasolina sobre a erva à minha frente. Fiquei contente quando eles chegaram.
Percebera então que o agressor da minha mãe também lhe tentara pegar fogo. Muito embora tal
facto tivesse sido deixado claro, ou pelo menos implícito, pela reação de Clemence no hospital e o
relato que o meu pai fizera da fuga, resistira a tomar plena consciência dele. Com o jerricã de
gasolina ali à minha frente, comecei a tremer de tal forma que batia os dentes. Quando ficava assim
alterado, por vezes vomitava. Tal não me acontecera no carro, nem no hospital, tão-pouco quando
lia para a minha mãe. Talvez estivesse entorpecido. Sentia então nas entranhas o que lhe acontecera.
Cavei um buraco para o vomitado e tapei-o com um monte de terra. Permaneci ali sentado, débil.
Quando ouvi as vozes e as bicicletas, o arrastar dos pés de Cappy a fazerem de travões, os gritos,
pus-me de pé num pulo e comecei a dar palmadas nos braços. Não podia permitir que me vissem a
tremer como uma miúda. Quando chegaram ao pé de mim, expliquei que era por causa da água fria.
Angus disse-me que tinha os lábios roxos e ofereceu-me um Camel sem filtro.
Eram os melhores cigarros que se podiam roubar. O companheiro de Star costumava fumar uma
marca barata, mas certamente ganhara algum dinheiro extra.

72

Angus subtraíra-os do maço de Elwin, um de cada vez, para não levantar suspeitas. Para aquela
ocasião, desviara dois. Parti o meu cigarro com todo o cuidado ao meio e partilhei-o com Cappy.
Zack e Angus dividiram o outro. Fumei a minha metade até ao final, queimando inclusive os dedos.
Não falámos enquanto fumávamos, e quando terminámos, sacudimos os pedacinhos de tabaco da
língua, tal como Elwin fazia. O jerricã estava meio amolgado e era de um vermelho baço com uma
tira dourada em redor da parte de cima e da de baixo. Tinha um bocal comprido e curvo. Em letras
grossas e pretas, todas riscadas, escritas por cima do desenho de uma chama amarelo-viva com um
centro azul e uma pinta branca no meio do azul, podia ler-se um aviso: perigo.
Quero apanhá-lo, disse para os meus amigos. Vê-lo arder. Eles estavam também a olhar para o
jerricã. Sabiam ao que me referia.
Cappy pegou numa lasca da porta e esfaqueou o chão com ela. Zack mordiscou uma folha de erva.
Olhei para Angus. Estava sempre com fome. Disse-lhe que trouxera sanduíches e tirei o saco da
mochila para as repartir.
Primeiro, separámos com cuidado as fatias. A seguir, colocámos em cima do pão os estaladiços e
famosos pepinos da minha mãe. No final, voltámos a fechar as sanduíches. O líquido da conserva
salgava a manteiga de amendoim, cortava a sua textura pegajosa, permitindo-nos engolir mais
facilmente cada dentada, e acrescentava um travo picante e ácido ao amendoim. Depois das
sanduíches, Angus bebeu a maior parte do líquido dos pepinos e enfiou a malagueta na boca. Cappy
ficou com o funcho e mastigou a ponta do caule. Zack desviou o olhar. Por vezes era melindroso,
mas logo a seguir surpreendia-nos.
Passámos a garrafa de água entre os quatro e contei-lhes que estivera a pensar na forma como a
agressão acontecera.
Foi assim, declarei sem hesitar. Ele atacou-a aqui. Inclinei a cabeça para trás, para indicar a casa
redonda. Agrediu-a e depois quis queimá-la lá dentro, mas acabou por molhar os fósforos. Desceu a
colina, na direção do lago, para ir buscar mais fósforos. Expliquei-lhes exatamente como a minha
mãe fugira. Disse-lhes que achava que o agressor escondera alguns pertences no bosque e que eu
seguira a vedação até ao lago e depois entrara na água e mergulhara em busca do jerricã.

73

Acrescentei que era provável que o tipo fosse fumador, uma vez que fora ao esconderijo buscar
mais fósforos, ou talvez um isqueiro. Tinha de ter deixado qualquer coisa na mata. Se tivesse uma
mochila escondida, era possível que até tivesse dormido por ali. Talvez tivesse fumado, deitado a
beata ao chão. Ou desmanchado o cigarro, como Whitey fazia. O que devíamos procurar era fibras,
pegadas, um rasto, qualquer material estranho à mata.
Todos assentimos. Olhámos para o chão. Cappy levantou a cabeça e olhou-me nos olhos.
Make it so (Nota 11), afirmou. Starboy?
Okay, disse Angus, que respondia a essa alcunha. Vamos lá ver o que conseguimos.
O que conseguimos foram carraças. A nossa reserva é famosa por isso. Dividimos a mata numa
espécie de quadrícula e esquadrinhámos a área desde a vedação rumo a sul, contornando o lago ao
longo de uns dez metros. Na primavera, quando se choca com um ninho de carraças, onde um
montão delas pôs os ovos, estas atacam, mas infestam a vítima lentamente. Podemos sacudi-las,
mas nunca conseguimos livrar-nos delas todas. Avançando de gatas, deparávamo-nos com um
ninho de carraças atrás de outro.
Zack gritou uma vez, em pânico. Ergueu-se com um pulo e vi umas quantas saltarem dele para
Angus e para o sedoso cabelo de Cappy. Cala-te, mariquinhas!, exclamou Angus. As pulgas são
bem piores. Podes crer, concordou Zack. Lembras-te quando a tua mãe fumigou a casa e se
esqueceu de que estavas lá dentro?
Nem me digas, trancou a casa toda e encheu-a de inseticida, contou Angus, ao mesmo tempo que,
semicerrando os olhos, observava o que lhe parecia um invólucro de plástico e o lançava por cima
do ombro. Esqueceu-se de que eu estava a dormir num canto e deixou-me lá da noite para o dia. As
pulgas saltaram para cima de mim para se refugiarem, e eu só tinha quatro anos. Chuparam um
último trago de sangue e morreram na minha roupa. Foi uma sorte não me terem sugado o sangue
todo.

Nota 11 - Expressão muito usada pelo capitão Jean-Luc Picard (o protagonista da série O Caminho
das Estrelas: A Geração Seguinte) para validar uma sugestão, transformando-a numa ordem Pode
ser traduzida como «assim seja». (N. da T.)

74

Mas sugaram-te o cérebro todo, troçou Zack. Olha o que mandaste para cima de mim. Pegou num
preservativo amarfanhado com as pontas dos dedos e fê-lo balançar de um lado para o outro. Era
óbvio que passara ali o inverno. A malta mais velha fazia fogueiras na praia.
Estendi o saco do pão e Zack largou o preservativo petrificado dentro dele. Depois encontrámos
dúzias mais e tantas latas de cerveja que Angus as reuniu junto a uma pedra e começou a amolgá-
las para as levar e vender. O que à distância parecia um monte de vegetação rasteira ocultava na
verdade uma lixeira. Havia inúmeras beatas. O saco do pão não tardou a encher-se de preservativos
e beatas. Havia também invólucros de rebuçados e algumas bolas de papel higiénico. Ou a polícia
não considerara aquela área relevante ou então desistira.
As pessoas são nojentas, disse Zack. Há aqui demasiadas provas.
Ajoelhei-me no chão com o saco de pão. As carraças trepavam por todo o meu corpo. Sugeri que
nos deixássemos daquilo e fôssemos afogar as carraças no lago. Abandonámos a mata e despimo-
nos na praia. As carraças estavam principalmente na roupa e poucas se tinham agarrado ainda a nós,
à exceção de Angus, que tinha uma ferrada num dos testículos.
Ei, Zack, dá-me uma ajuda!
Oh, vai-te foder, respondeu Zack.
Cappy riu.
Porque não a deixas aí até ela ficar bem grande? Passavas a ser conhecido como o Três Tomates.
Como o velho Niswi, referi.
Ele tinha mesmo três. É verdade. A minha avó garante que sim, disse Zack.
'Tá calado, reclamou Cappy. Não aguento ouvir-te contar histórias da tua avó na cama com um
homem com três tomates.
Estávamos metidos na água, chapinhando ao mesmo tempo que fingíamos lutar. Estávamos tão
suados e cheios de comichão que a água nos parecia divinal. Mergulhei a mão para me certificar de
que nenhuma carraça se agarrara a mim no mesmo sítio que a Angus. Mergulhei e deixei-me ficar
submerso até não aguentar mais. Quando vim ao de cima, Zack estava a falar.

75

Ela dizia que lhe batiam contra o rabo como se fossem três ameixas grandes e maduras.
A tua avó diz todo o tipo de coisas, comentou Cappy. Foi ela que me contou isto tudo, disse Zack.
Algumas avós índias tornam-se demasiado adeptas da igreja, e outras há sobre as quais a igreja não
tem qualquer efeito e que na velhice são deixadas à solta para chocar os mais novos. A de Zack era
deste último tipo. A avó Ignatia Thunder. Estudara num colégio católico, mas tal só servira para a
endurecer, afirmava ela, do mesmo modo que endurecia os padres. Falava ojibwa e contava acerca
dos segredos dos homens. O meu pai dizia que quando ela e Mooshum se juntavam para recordar
os velhos tempos, falavam tantas obscenidades que o ar em redor deles mudava de cor.
Quando o frio da água nos deixou entorpecidos, saímos e gozámos com as pilas engelhadas uns dos
outros. Zack riu-se de mim.
Não és um bocado pequeno para Storm Trooper? Importante o tamanho não é. Pelo tamanho a
avaliar-me estás, assim não é?
Zack tinha um Darth Vader, circuncidado, tal como eu. A de Cappy e a de Angus ainda tinham os
capuzes, portanto eram Imperadores. Discutimos sobre se era melhor ser-se um imperador ou um
Darth Vader, qual as miúdas preferiam. Fizemos uma fogueira. Sentámo-nos em redor dela, nus, em
troncos onde outros rapazes já tinham gravado os seus nomes, tirando as carraças da roupa e
lançando-as às chamas.
O Worf é um imperador, disse Angus. De certeza, concordou Cappy.
Não, contradisse eu. Seja como for, a mais importante seria a do Data, pois o mais certo é que a um
andróide dessem a pila que mais agradasse às miúdas, não? E ele de certeza que seria um Darth
Vader. Não o vejo como outra coisa a não ser um Darth.
Julgo que toda a gente naquela nave é um Darth, opinou Cappy, à exceção do Worf.
Mas escuta lá, disse Zack, um klingon? Seria de esperar que pendesse, meu, mas não se vê nenhum
inchaço no uniforme dele.

76
Questionas o poder dos Klingon?, perguntou Cappy, levantando-se. Olhou para baixo. Põe-te de pé,
meu amigo.
Não teve resposta. Desatámos a rir dele. Cappy riu também. Ao fim de algum tempo desejámos ter
outro cigarro e estávamos de novo com fome. Angus afastou-se para mijar. Avançou pelo lago e
contornou a vedação, metendo-se na mata.
Ena, meu!, gritou.
Emergiu então da mata com dois pacotes de seis cervejas Hamm's. Um em cada mão. Cappy e Zack
gritaram de alegria. Corri na direcão dele. Todas as outras latas que esmagáramos ou a garrafa que
encontráramos eram Olá Mill ou Blatz, as marcas que se bebiam na reserva naquela altura. Apesar
das danças, dos tambores e do urso ataviado com penas de índio do anúncio da Hamm's, éramos um
povo amante de Blatz.
Larga isso, berrei. Angus estacou. Pousou os pacotes com cuidado no chão.
Creio que foi ele que os deixou, expliquei. São uma prova. Hão de ter impressões digitais.
Hum... Percebi que Angus estava a pensar o mais depressa que conseguia. Também falou depressa.
A água apaga impressões digitais? Encontrei-as numa geleira aberta. As latas estavam cobertas de
água.
Encontraste o esconderijo dele, afirmei.
Posso voltar a pegar nos packs?, perguntou Angus.
Suponho que sim, respondi.
Posso abrir uma?
Olhei para os meus amigos.
Sim, podes.
As mãos dele precipitaram-se para as latas, arrancando-as dos anéis de plástico.
Se não há impressões digitais, então a prova principal é que o tipo bebe Hamm's, fiz notar.
Interprete-se isto como se quiser. Peguei numa cerveja. A lata estava molhada e gelada. Segurei-a
ao mesmo tempo que seguia Angus até ao local onde ele as encontrara. Disse-lhe que não nos
devíamos aproximar demasiado para não destruirmos as provas que ali houvesse, que seria melhor
irmos de gatas até à geleira e recolher o que encontrássemos em redor.

77

Gatinhar? De novo?, queixou-se Angus.


A geleira, vulgar e de espuma de poliestireno, estava encostada a uma árvore. De um dos lados
havia uma pilha de roupa.
Cappy disse que preferia beber a cerveja primeiro para ficar mais animado e depois gatinhar para ir
buscar as provas antes de voltar a mergulhar no lago para afogar as carraças de novo. Bebemos
então as cervejas. Desceu que foi uma maravilha, disse Angus. Tentou esmagar a lata contra a coxa.
Au, queixou-se.
Separámo-nos e avançámos de gatas, descrevendo um círculo à medida que nos aproximávamos da
geleira. O local encontrava-se na orla de um pasto de vacas e havia bostas secas aqui e ali pelo
chão. Bebêramos as cervejas depressa, para ficarmos alegres, sabendo que cada um tinha mais duas
à sua espera, fresquinhas, e que as beberíamos mais devagar, em redor da fogueira. Daquela vez,
gatinhar pelo chão da mata foi muito mais fácil, embora Angus tenha levantado a perna e soltado
um gás na minha direção.
Nada de guerras de boogids, anunciou Zack. Ui, disse Angus, largando outro peido.
De repente, Cappy lançou uma bosta de vaca para a pastagem como se fosse um disco voador e
desatou a rir. Porque é que o índio ignorou a bosta de vaca? Ninguém respondeu. Porque não sabia
uma merda!
Ah, ah, ah, riu Zack. Vais transformar-te num mestre de cerimónias de powwows como o teu pai.
Quantos são quatro pavões mais quatro pavões? Uma rixa de bar índia, revelou Angus. Levantou a
perna, mas já não tinha mais gases para soltar.
Era verdade que em casa, Doe, Randall e Cappy por vezes se entretinham a inventar piadas índias
secas.
Enquanto avançávamos de gatas, reparei em nós. A minha pele era morena, muito clara. A de
Cappy era mais morena. A de Zack ainda mais escura. A pele de Angus era branca, mas já estava
bronzeada. Cappy começara a crescer, eu era o segundo mais alto e Zack e Angus eram ambos mais
baixos do que eu. Entre os quatro tínhamos tantas cicatrizes que era difícil contá-las.

78

Porque é que os quatro índios nus se partem a rir na floresta?, perguntou Cappy.
Não o encorajem, pedi.
Porque um deles conta piadas do carraças.
Desatei a rir. Para um miúdo giro que as miúdas adoravam, Cappy
não era fixe.
Angus gatinhava para longe de mim. Mantive a minha distância. O rabo dele estava cravado de
marcas roxas de onde o irmão lhe acertara com uma pistola de ar comprimido. Deslocávamo-nos
entretanto sem qualquer ordem, cada um por si. Quase não havia lixo daquele lado da vedação.
Supusera que o agressor também avançara pela água, contornando a extremidade da vedação,
escondendo os seus pertences longe da zona da praia. Aproximámo-nos da geleira e usei um pau
para investigar o monte de cobertores e roupas.
Os cobertores eram de um poliéster vulgar. Na pilha havia uma camisa com um ar apodrecido e um
par de calças de ganga. Tudo tresandava como as traseiras do Dead Custer Bar.
Talvez seja melhor deixarmos isto para a polícia, sugeri.
Se contarmos à polícia, teremos de dizer que estivemos aqui, fez notar Zack. Perceberão que escuto
a rádio do Vince e os telefonemas dele. Estarei bem lixado.
Também há a questão da cerveja, realçou Angus.
Termos bebido metade das provas não nos vai deixar muito bem vistos, explicou Cappy.
Desfaçamo-nos disto tudo, disse Zack.
Okay, concordei.
Regressámos, contornando a vedação, e alimentámos a fogueira. Depois corremos para o lago e
atirámo-nos para a água para nos livrarmos das novas carraças. Zack mostrou-nos o local onde lhe
tinham espetado uma lança, no sovaco. Podia ter morrido, disseram-lhe os médicos. Os pontos
haviam cicatrizado sob a forma de um minúsculo caminho de ferro branco que corria
misteriosamente pelas costelas acima, sob o braço e ao longo dele. Vestimo-nos e voltámos a sentir-
nos normais. Sentámo-nos junto à fogueira e abrimos o resto das provas.
O terceiro tomate era do mesmo tamanho dos outros dois?, perguntou Angus a Zack.

79

Não comeces com isso de novo, pediu Cappy.


Interrogo-me se devíamos sequer falar com a bófia, comentei. Convenhamos... não viram o jerricã,
nem a geleira, nem a pilha de roupa. Aquela porcaria tresanda. Cheira a mijo. O tipo mijou-se,
afirmou Angus. Devíamos queimar aquela merda, disse.
Ardia-me a garganta e senti uma pontada tão forte que tive vontade de chorar — de novo. De
repente, estacámos. Escutámos o que nos pareceu o assobio agudo de um apito de osso de águia no
cimo da colina. O vento mudara de direção e uma série de notas musicais fazia-se ouvir como se o
ar soprasse pelas rachas no isolante de lama entre os troncos da casa redonda.
Cappy pôs-se de pé e fitou a cabana. Angus benzeu-se. Vamos pisgar-nos, decidiu Zack.
Amolgámos as latas de Hamm's, juntámo-las às outras, empilhámos tudo num pedaço de plástico e
atámo-lo para que Angus pudesse ir vendê-las. A seguir, apagámos o fogo e enterrámos o resto do
lixo. Atei o jerricã à minha bicicleta com um atacador e zarpámos. As sombras alongavam-se, o ar
refrescava e estávamos esfomeados como os adolescentes ficam esfomeados. De uma forma
irracional, de tal modo que tudo o que víamos nos parecia apetitoso e, no caminho de regresso, não
conseguíamos falar de mais nada senão em comida. Onde poderíamos arranjar comida e comê-la,
muita e depressa. Era essa a nossa preocupação. A mãe de Zack estaria no bingo. A tia Star estaria
sem um tusto ou cheia dele, nunca nada pelo meio, e era sábado. Àquela hora já gastara o que tinha
e o mais certo era que não tivesse sido em comida. Fora uma semana de vacas magras em casa de
Cappy, embora o pai talvez tivesse um guisado no frigorífico. Todavia, os guisados de solteiro de
Doe eram um jogo de azar. Certa vez, adicionara ameixas de conserva ao seu chili. Noutra ocasião,
deixara massa de pão a levedar da noite para o dia na bancada da cozinha e um rato enfiara-se lá
dentro. A Randall calhou uma fatia com a cabeça e a Cappy outra com a cauda. Ninguém conseguiu
encontrar o corpo. Os meus amigos não mencionaram a minha casa, muito embora, antes do
sucedido, tivéssemos sem dúvida ido lá parar, numa missão de assalto ao frigorífico.

80

A casa de Whitey e Sonja ficava no nosso caminho, mas eu detestava quando os meus amigos
falavam dela. Sonja era minha. Por isso argumentei que estariam a trabalhar a bomba de gasolina.
A nossa outra opção era a avó Thunder. Vivia o lar de terceira idade, num apartamento de duas
assoalhadas com cozinha. Gostava de fazer comida para nós e tinha a dispensa a abarrotar de
alimentos distribuídos pelo Governo, que outros trocavam com ela.
Ela faz-nos frybread com carne, opinou Zack.
Tem sempre pêssegos em lata, disse Angus, num tom reverente.
Mas há de fazer-nos pagar por isso, realçou Cappy.
Por favor, ninguém fale de tomates nem digam a palavra «cona».
Quem é que iria usar essa palavra em frente à sua avó?
Podia vir por engano.
Vir? Não digam vir. Nem falem em ratos. Ela dirá logo «rata».
Okay, disse. Então, a lista de tópicos proibidos enquanto nos empanturramos em casa da avó é
tomates, ratos, ratas, pilas.
E não digam ponta, nunca. Não digam wiinag (Nota 12), não digam nada que rime com «foder» ou
a palavra «pau». Não digam «entrepernas», «verga». Ela levará tudo para outro lado, acreditem.
Não digam «teso» ou «duro». Não digam «sexy», nem «teta» nem «virgem».
Tenho de desmontar da bicicleta, anunciou Angus.
Desmontámos todos. Deitámos as bicicletas no chão. Evitando o olhar uns dos outros, murmurámos
qualquer coisa acerca de ir mijar e cada um partiu numa direção. Em três minutos aliviámo-nos de
todas aquelas palavras e no final regressámos, montámos nas bielas e seguimos caminho pela
estrada secundária que passava junto à missão. Chegados à povoação, pedalámos até ao lar de
terceira idade. Sentia-me culpado por apenas ter deixado a palavra «lago» escrita no bilhete para o
meu pai, por isso telefonei para casa a partir do vestíbulo. O meu pai atendeu ao primeiro toque,
mas quando lhe disse que estava em casa da avó Thunder, pareceu alegrar-se e disse-me que o tio
Edward lhe estava a mostrar o mais recente artigo científico do meu primo Joseph enquanto
comiam sobras. Perguntei-lhe, muito embora já soubesse, onde estava a minha mãe.

(12) Palavra ojibwa para «pénis» (N. da T.)

81
Lá em cima.
A dormir?
Sim.
Amo-te, pai.
Mas ele já tinha desligado. A palavra «amo-te» ecoou. Porque dissera eu aquela palavra e porquê ao
telefone no momento em que sabia que ele estava a pousar o auscultador? Estava furioso por tê-la
dito, e o facto de o meu pai não ter respondido era como uma facada no coração. Uma nuvem
vermelha de raiva pendeu sobre mim. Estava também estonteado de fome.
Anda daí, disse Cappy, surgindo por trás de mim e pregando-me um tal susto que os olhos se me
encheram de lágrimas de novo naquele dia, o que era demais para mim. Cala a boca!, exclamei.
Levantou as mãos e afastou-se. Segui-o corredor abaixo. Antes de entrarmos no apartamento da
avó, falei para as costas dele: Cappy, olha...
Ele virou-se. Afundei as mãos nos bolsos e arrastei os pés pelo chão. O meu pai recusara-se, por
uma questão de princípio, a comprar-me em Fargo os ténis de basquetebol que eu queria.
Argumentou que não precisava de ténis novos, o que era verdade. Cappy tinha os ténis que eu
queria. Também tinha as mãos enfiadas nos bolsos e olhava para o chão, balouçando a cabeça para
a frente e para trás. Curiosamente, verbalizou o que eu estava a pensar, embora mentisse. Tens os
ténis que eu queria.
Não, contradisse-o, tu é que tens os ténis que eu queria. Okay, troquemos, propôs ele.
Trocámos de ténis. Assim que os enfiei nos pés, dei-me conta de que ele calçava um número a
seguir ao meu. Cappy afastou-se com os dedos encolhidos. Escutara o que eu dissera ao telefone.
Entrámos em casa da avó e, como seria de esperar, já havia carne a fritar, com cebola. O cheiro
tinha um poder maravilhoso e o meu estômago roncou. Queria agarrar qualquer coisa que pudesse
levar à boca. Havia uma pilha de sanduíches de doce sobre a mesa, para irmos forrando a barriga.
Comi uma. Estava ao fogão de costas para nós e em cima da mesa tinha uma tigela com pequenas
maçãs secas.

82

Havia uma macieira nas traseiras do lar, e a avó apanhava sempre as maçãs. Colhia-as uma a uma,
cortava-as em rodelas tinas, secava-as no forno e polvilhava-as com açúcar e canela. Comi outra
sanduíche de pão de forma com doce. A avó dispusera pratos na mesa com guardanapos de papel
dentro deles para absorverem a gordura do frybread.
Wiisinig (Nota 13), ordenou ela, sem se virar.
Tirei umas quantas rodelas de maçã e enfiei-as na boca. Olhei Cappy. Comemos mais uma
sanduíche cada um e ficámos ali a observá-la, hipnotizados pela fome, até ela começar a tirar os
pães fritos. Pegámos nos nossos pratos e colocámo-nos ao lado dela. Com umas pinças, tirou os
escaldantes pães da banha de porco e depositou-os, redondos e dourados, nos nossos pratos.
Agradecemos. Ela temperou a carne com sal e pimenta, acrescentou uma lata de tomates e outra de
feijão. Permanecemos no mesmo sítio, com os pratos estendidos. Por cima do frybread, serviu-nos
colheradas da mistura de carne. Na mesa havia uma barra de queijo, daquele que o Governo
distribuía. Estava congelado, por isso era fácil ralá-lo para cima da carne. Estávamos com tanta
forme que nos sentámos logo à mesa. Zack e Angus estavam no pátio, do outro lado das portas
deslizantes. A avó preparou-lhes uns tacos índios como os nossos, chamou-os para dentro e eles
sentaram-se no sofá a comer.
Durante bastante tempo, ninguém disse nada. Limitámo-nos a comer e comer. A avó cantarolava
enquanto cozinhava ao fogão. Era baixa e descarnada e usava sempre vestidos floridos em tons
pastel, meias cor de carne enroladas para baixo, como se fosse um apontamento de moda, e
mocassins que ela mesma fazia a partir de pele de veado. As duas tias de Cappy curtiam peles nos
quintais das traseiras. Os ditos quintais tresandavam, mas as peles ficavam perfeitas. Todos os
verões, ofereciam uma suave pele de veado à avó Thunder. Os seus mocassins estavam enfeitados
com pequenas flores cor-de-rosa feitas de contas. Usava o cabelo, branco, comprido e fino, preso
com um gancho e brincos de conchas brancas. O seu rosto era rugoso e matreiro, e os olhos eram
dois berlindes negros, brilhantes e perspicazes.

Nota 13 - «Sentem-se!» (N. da T.)

83

O seu olhar nunca era suave ou carinhoso, mas antes alerta e frio. Era uma característica estranha
numa pessoa que gostava de cozinhar para rapazes, mas, pensando bem, a idosa sobrevivera a
muitas mortes e a outras tantas perdas, e já não lhe restavam sentimentos. A medida que a fome foi
ficando saciada, começámos a comer mais devagar. Queríamos terminar os quatro ao mesmo tempo
para a seguir nos pormos a mexer dali; todavia, a avó fez-nos repetir e começámos de novo,
comendo ainda mais devagar, e ainda sem trocarmos palavra. Quando acabei, agradeci-lhe e levei o
meu prato até ao lava-loiça. Preparava-me para lhe dizer que tinha de ir para casa quando A Sr.a
Bijiu entrou sem bater à porta. A pior delas todas! Corpulenta, agitada e barulhenta, ocupou a
minha cadeira à mesa e exclamou: Ena!
É verdade, comeram bem, concordou a avó Thunder. De comer e chorar por mais, comentou
Angus. Agora temos de ir, Kookum (Nota 14), disse Zack.
Apijigo miigwech, declarou Cappy. Minopogoziwag ingiw zaasakok waanag (Nota 15). Sabia que,
para deixar as velhotas felizes, devia falar ojibwa, ainda que não tivesse muita certeza do que dizia.
Escutem-me bem este anishinaabe (16) Estavam, de facto, encantadas com ele.
Vá, vão-se embora... A avó acenou com a mão na direção da porta, satisfeita por termos recorrido a
ela.
Este, este aqui, disse a Sr.a Bijiu, apontando de repente para mim com os lábios. Está no osso!
Desanimámos ao ouvir semelhante palavra.
No osso! A voz da avó Thunder mudou de tom. Endireitou-se na cadeira. Eu já te digo quem é que
ultimamente traz um osso nas calças!
Santo Deus!, exclamou a Sr.a Bijiu. Já sei de quem estás a falar. Napoleon. Aquele akiwenzii (Nota
17) anda por aí à noite a molhar o pincel, mas não sou eu quem o deixa entrar. Está em boa forma,
porém, nunca bebeu.

Nota 14 - «Avó» (N. da T.)


Nota 15 - «Muito obrigado, os pães fritos estavam muito saborosos.» (N. da T.)
Nota 16 - Termo por que se autodenominam os povos Odawa, Ojibwa e Algonquino. (N. da T.)
Nota 17 - «Idoso» (N. da T.)

84

Trabalhou no duro toda a vida. Agora vai para a cama uma mulher diferente todas as noites!
Vocês, rapazes, prestem atenção, aconselhou a avó Ignatia.
Querem aprender uma coisa? Querem aprender a manter as vossas pilas duras a vida inteira?
Sempre a funcionar? Levem uma vida sã como o velho Napoleon. O álcool faz-vos ser mais
rápidos, e isso não é bom. O pão e o toucinho mantêm-na tesa! Ele tem oitenta e sete anos e não só
a põe de pé com facilidade como é capaz de aguentar cinco horas seguidas.
Queríamos deslizar dali de fininho, mas aquela última informação deteve-nos. Era bem possível
que cada um de nós estivesse a pensar nos três minutos passados no bosque.
Cinco horas?, espantou-se Angus.
Porque nunca foi mulherengo nem desperdiçava a sua semente, gritou a Sr.a Bijiu. Era fiel à sua
mulher!
Isso era o que ela achava, disse a avó Ignatia, puxando um lenço de assoar da manga.
Desataram as duas a rir com tanta força que quase se engasgaram, e nós quase conseguimos chegar
à porta.
Para além disso, jura que a sua fórmula secreta é tiro e queda.
Voltámos para trás.
Repara como deram logo meia volta, riram as duas idosas. Achas que devíamos revelar-lhes a
fórmula secreta do velho Napoleon?
Quando o pão e o toucinho não funcionam, ele pega numa malagueta e esfrega-a no... lá em baixo.
A Sr.a Bijiu fez um gesto tão descritivo com a mão sobre o colo, tão vigoroso, que saímos a correr
porta fora. As casquinadas excitadas das duas idosas perseguiram-nos corredor abaixo. Pensei no
que a malagueta fizera a Randall e aos seus amigos. Não vira qualquer sinal de que a fórmula
secreta de Napoleon resultasse quando saíram disparados em pelota da tenda de sudação.
Creio que preferia ter uma opinião médica antes de tentar a malagueta, disse para mim mesmo.
Angus escutou-me. «Uma opinião médica» tornou-se uma daquelas expressões ridículas e
pseudointelectuais com a qual passei a ser gozado. O Joe necessita de uma opinião médica para
isso. Joe, perguntaste ao médico se devias fazer isso? Ao percorrermos o corredor, sabia que nunca
mais me deixariam em paz com aquilo, como acontecia com a história de «Ups».

85

Mesmo antes de sairmos do lar, pedi-lhes que esperassem um pouco. Descalcei os ténis de Cappy.
Obrigado, disse.
Voltámos a trocar de sapatos, mas estou convencido de que, se isso me tivesse ajudado, Cappy teria
continuado a andar com os meus ténis velhos e apertados.
A luz e o silêncio infinitos daquele junho estival tombavam sobre os quintais de terra batida. Toda a
gente estava já na cama ou na cozinha quando subi a rua de bicicleta. Pearl veio ter comigo à
esquina da casa. Manteve-se alerta, a olhar para mim, sem ladrar. Sabias que era eu, disse. Fizeste
bem.
Aproximou-se de mim e abanou apenas quatro vezes a cauda. Era uma lindíssima pluma creme que
não combinava com o pelo curto do corpo, ainda que condissesse com as suas compridas e peludas
orelhas de loba. Farejou-me a mão. Cocei-lhe as orelhas até ela se fartar. Pearl estava com fome. Ao
sair, levara uma das sanduíches da avó Thunder. Dei-a a Pearl. Ouvi vozes dentro de casa. Guardei
a bicicleta e entrei sem fazer barulho. O tio Edward ainda não se tinha ido embora. Estava no
escritório com o meu pai. A cozinha estava um caos, por isso, o mais certo é que tivessem
preparado qualquer coisa para petiscar. Avancei em bicos dos pés e parei junto ao escritório.
Falavam alto o suficiente para os conseguir escutar a partir do sofá. Podia escutar a conversa e
fingir que estava a dormir, se eles saíssem. Percebi de imediato, pelo tilintar de cubos de gelo e dos
copos, que estavam a beber. Devia ser Seagrams V. O., da garrafa que estava guardada atrás dos
pratos na prateleira mais alta. Estiquei o pescoço para escutar o que diziam.
Desde que casámos que nunca dormimos separados, até agora, disse o meu pai.
Isso, como é óbvio, repugnou-me e fascinou-me ao mesmo tempo. Sustive a respiração.
Ela está a isolar-se até do Joe. Não fala com ninguém do trabalho, é claro. Não recebe visitas, nem
da sua velha amiga do colégio interno, a LaRose.

86
A Clemence diz que também sente que ela se está a distanciar. Geraldine. Oh, Geraldine! Deixou
cair uma caçarola, e agora Bom, eu sei que não foi isso. Eu assustei-a, fiz desencadear o terror do
sucedido.
O sucedido. Bazil.
Eu sei. Mas não consigo referir-me ao sucedido pelo nome. Klêncio. Por fim, o meu pai disse, a
agressão. A violação. Também devo estar a ficar maluco, Edward. Estou sempre a perder o Joe de
vista.
Ele há de estar bem. E ela há de ultrapassar isto, garantiu Edward.
Não sei. Sinto que está a escapar-se para lá do meu alcance.
E a igreja?, sugeriu Edward. Achas que ajudaria se a Clemence a levasse à igreja? Sabes o que
penso disso, é claro, mas há um padre novo de que ela parece gostar.
Não creio que a Geraldine fosse encontrar consolo na igreja,
depois de tantos anos.
Todos sabíamos que a minha mãe deixara de frequentar a igreja depois de ter regressado do colégio
interno que frequentara. Nunca disse porquê. Clemence também nunca tentara convencê-la a ir, isso
eu sabia.
Que tem este novo padre de especial?, quis saber o meu pai.
È interessante. Bem-parecido, suponho. Para quem gosta do género. Parece saído de uma agência
de casting.
Para quê?
Um filme de guerra. Um western da série B. Um homem numa missão condenada ao fracasso. É
um ex-marine, imagina.
Meu Deus, um assassino treinado convertido num católico.
Um silêncio total instalou-se entre os dois homens e prolongou-se durante tanto tempo que de
repente me pareceu estrondoso.
O meu pai pôs-se de pé. Ouvi-o deslocar-se de um lado para o outro. Escutei o sedoso fluir do
uísque.
Edward, que sabemos acerca deste padre?
Não muito.
Pensa.
Serve-me outro. É do Texas. De Dallas. O mártir católico que penduramos na parede da cozinha.
Dallas. O nosso padre é daí.

87

Para ser mais exato, é de uma pequena cidade meio abandonada nos arredores de Dallas. Tem uma
arma e já o vi disparar sobre cães-da-pradaria.
O quê? Isso é muito estranho para um beneditino. Tinha a ideia de que eram gente mais refinada e
ponderada.
E são, de uma forma geral, mas ele é novo, foi ordenado há pouco tempo. É diferente do... Oh, mas
quem é que se lembra do padre Damien? E, ah, está a fazer investigação. Faz uns sermões muito
interrogativos, Bazil. Por vezes, questiono-me se o tipo é equilibrado ou, pensando bem, talvez seja
simplesmente... inteligente.
Espero que não seja como o seu antecessor, que escreveu aquela carta escaldante ao jornal acerca
dos encantos letais das mulheres métis (Nota 18). Lembras-te de quanto nos rimos? Meu Deus!
Se ao menos fosse acerca de Deus. Por vezes, quando estou na Adoração com a Clemence, vejo a
dobrar, como agora. Que vês nessas alturas?
Vejo dois padres, um a aspergir água benta com um aspersório de prata, o outro com uma
espingarda.
Apenas uma espingarda de ar comprido, seguramente.
Apenas uma espingarda de ar comprimido, sim; mas era rápido com ela, mortal, e preciso.
Quantos cães-da-pradaria?
Cerca de uma dúzia. Todos expostos no parque infantil.
Os homens fizeram uma pausa, para pensar, depois Edward continuou.
Ainda assim, isso não faz dele...
Eu sei. Mas a casa redonda. Símbolo das velhas tradições pagãs. As mulheres métis. Pegar fogo a
tudo... A tentação e o crime ardendo numa oferenda de fogo... Oh, meu Deus.
A voz do meu pai cedeu.
Então, Bazil, então, disse Edward. Estamos apenas a conversar.
No entanto, a culpa do padre pareceu-me plausível. Naquela noite, do sofá de onde os escutava sem
eles saberem, fiquei com a a ideia que talvez tivesse escutado a verdade.

Nota 18 - Os Métis (a palavra, de origem francesa, significa «mestiço»] são uma etnia mista de
ascendência europeia e indígena originária do Canadá. (N. da T.)

88

Só precisávamos de provas.
Devo ter dormido uma hora. O tio Edward e o meu pai acordaram-me ao passarem para a cozinha,
fazendo retinir os copos e acendendo e apagando as luzes. Ouvi o meu pai abrir a porta e despedir-
se do tio Edward e Pearl entrar. Ele falou-lhe num tom calmo, não soava nem um pouco
embriagado. Escutei-o deitar comida no prato de Pearl. A seguir o roer e o mastigar eficiente da
cadela. Pareceu-me que o meu pai colocou um prato ou dois no lava-loiça, mas depois perdeu a
vontade de os lavar. Apagou a luz. Recostei-me de novo nas almofadas quando ele passou, mas, de
qualquer das formas, não teria reparado em mim.
Olhava tão fixa e intensamente para o cimo das escadas à medida que as subia, degrau a degrau, de
forma deliberada, que contornei o sofá para ver o que ele fitava: uma luz por baixo da porta do
quarto, talvez. Do fundo das escadas, vi-o caminhar, arrastando os passos, até à porta do quarto,
emoldurada a negro. Fez aí uma pausa, e prosseguiu caminho. Para a casa de banho, imaginei eu.
Mas não. Abriu a porta do pequeno quarto que a minha mãe usava para costurar. Havia um divã
estreito nesse quarto, mas era apenas para os hóspedes. Nenhum de nós alguma vez dormira nele.
Mesmo quando um dos meus pais apanhava uma gripe ou uma constipação, dormiam na mesma
cama. Nunca procuravam proteger-se das doenças um do outro.
A porta do quarto da costura fechou-se. Ouvi o meu pai movimentar-se lá dentro, mexer era coisas
e esperei que voltasse a sair. Calculei que estivesse à procura de algo. Às tantas, a cama rangeu.
Depois, silêncio. Estava deitado lá dentro com a máquina de costura e as caixas de cartão cheias de
tecidos cuidadosamente dobrados, com as pranchas que ele aparafusara à parede e que exibiam uma
centena de carrinhos de linhas de todas as cores, com as tesouras de tamanhos diferentes, com a fita
métrica bem enrolada e a almofadas para alfinetes em forma de coração.
Subi e despi-me meio a dormir, mas, assim que deitei a cabeça na almofada, dei-me conta de que o
meu pai nem se certificara de que eu estava em casa. Esquecera-se de mim por completo.

89

Deixei-me ficar na cama, insone, indignado. Revi mentalmente uma e outra vez os acontecimentos
daquele dia recheado de informações e achados traiçoeiros. Analisei tudo de novo. Depois recuei
um pouco mais no tempo, até à noite da caçarola partida. Até à lúgubre tensão e à emoção contida
quando a minha mãe subira as escadas, como que pairando, até à ansiedade reprimida do meu pai
enquanto líamos juntos sob a luz do candeeiro. Com todas as minhas forças, desejei regressar a um
momento antes de tudo aquilo ter acontecido. Queria entrar de novo na cozinha e sentir aqueles
aromas tão bons, sentar-me à mesa antes de a minha mãe me ter agredido e de o meu pai ter
esquecido a minha existência. Queria ouvir a mim mãe rir até roncar. Queria andar para trás no
tempo e impedi-la de regressar ao escritório naquele domingo para ir buscar os tais ficheiros. Não
parava de pensar em como não me teria custado nada meter-me no carro e ir com ela. Que me podia
ter oferecido para fazer aquele recado. Entrara nesse sulco de remorso, cultivado com as sementes
do ressentimento, tão típico dos jovens.
Quando cheguei ao ressentimento, senti rancor de tudo o que me ocorreu, incluindo daquela pasta
que a minha mãe fora buscar. Aquela pasta. Havia qualquer coisa que bulia comigo. A pasta em si
mesma. Ninguém a mencionara. Porque fora ela ao escritório buscar uma pasta? Que continha a
dita? De volta ao amargo arrependimento. Perguntaria à minha mãe. Descobriria mais coisas sobre
o que a levara ao escritório num domingo. Houvera, recordei-me então, um telefonema. Houvera
um telefonema e o som da voz dela a atender. Depois deslocara-se de um lado para o outro,
limpando coisas, fazendo barulho com pratos, agitada, embora não tivesse relacionado isso com o
telefonema, até àquele momento. Depois partira, mencionando a pasta.
Por fim, o meu cérebro desacelerou, crivando os meus pensamentos sob a forma de imagens.
Estava meio a dormir quando ouvi Pearl aproximar-se da janela do meu quarto. As suas unhas
batiam contra o chão de madeira. Virei-me para a janela e abri os olhos. Pearl estava imóvel, as
orelhas apontadas para a frente, os sentidos concentrados em qualquer coisa lá fora. Imaginei um
guaxinim ou um toirão; contudo, a forma paciente com que fitava, sem ladrar, como se
reconhecesse o que quer que estivesse do outro lado, despertou-me por completo.

90

Levantei-me da cama e dirigi-me àquela janela alta, o peitoril a cerca de trinta centímetros do chão.
O luar iluminava os contornos das coisas, transformando as sombras em insinuações, em indícios.
Ajoelhando-me ao lado de Pearl, consegui distinguir a silhueta.
Encontrava-se na orla do quintal, no emaranhado da sebe. Sob o nosso olhar, afastou os ramos com
as mãos e levantou os olhos na direção da janela do meu quarto. Consegui avistar as suas feições
com clareza, o semblante enrugado e algo carrancudo, os olhos cavados sob umas sobrancelhas
direitas, o cabelo denso e grisalho, mas não fui capaz de perceber se era homem ou mulher, tão-
pouco se estava vivo ou morto, ou qualquer coisa de permeio. Se bem que não estivesse
propriamente alarmado, tinha plena noção de que o que estava a ver era irreal. Todavia, não era
nem humano nem sobre-humano de todo. O ser entreolhou-me e o meu coração disparou. Consegui
ver aquele rosto de perto. Havia um brilho por trás da sua cabeça. Os lábios moviam-se, mas eu não
conseguia perceber o que dizia, à exceção de que repetia sempre as mesmas palavras. As mãos
recuaram e os ramos voltaram a fechar-se. A coisa desaparecera. Pearl descreveu um círculo sobre
si mesma três vezes e voltou a acomodar-se no tapete. Adormeci assim que deitei a cabeça na
almofada, talvez exausto pelo esforço mental que exigia permitir a entrada daquele visitante na
minha consciência.
O relógio novo, e feio, que o meu pai comprara fazia tiquetaque na tranquila cozinha. Levantei-me
antes dele. Fiz duas torradas e comi-as de pé, depois preparei mais duas e coloquei-as num prato.
Não aprendera ainda a fazer ovos nem panquecas. Isso viria mais tarde, depois de me ter
acostumado ao facto de que começara a viver uma vida à parte da dos meus pais. Após ter
começado a trabalhar na bomba de gasolina. Estava sentado em frente às torradas quando o meu pai
entrou na cozinha. Balbuciou qualquer coisa e não reparou que não lhe dei resposta. Não começara
ainda a beber o seu café. Não tardaria a ressuscitar. Fazia o café à moda antiga, despejando os grãos
moídos e bem medidos numa cafeteira de esmalte negro salpicado e acrescentando

91
um ovo para assentar os grãos. Colocou-me a mão no ombro por um instante. Sacudi-lha,
encolhendo o ombro. Vestia o seu antigo roupão azul de lã, com o curioso brasão dourado no peito.
Sentou-se enquanto esperava pelo café e perguntou-me se dormira bem.
Onde?, perguntei. Onde achas que dormi a noite passada?
No sofá, disse ele, surpreendido. Ressonavas como um porco. Tapei-te com um cobertor.
Ah, respondi.
A cafeteira assobiou e ele levantou-se, desligou o bico do fogão e serviu-se de uma caneca.
Acho que ontem à noite vi um fantasma, contei ao meu pai.
Voltou a sentar-se à minha frente e olhou-me nos olhos. Tinha a certeza de que ele me explicaria o
incidente de uma forma racional e me mostraria por A mais B que se tratara de um sonho. Estava
convencido de que ele diria, como é costume dos adultos, que os fantasmas não existiam, mas ele
limitou-se a olhar para mim, os papos debaixo dos olhos inchados, as olheiras tornando-se
permanentes. Percebi que não dormira bem, se é que dormira sequer.
O fantasma estava nos fundos do quintal, disse. Parecia quase uma pessoa real.
Sim, eles andam por aí, respondeu o meu pai.
Levantou-se e encheu mais uma caneca de café para levar à minha mãe. Ao sair da cozinha,
experimentei uma sensação de alarme, que num ápice se transformou em fúria. Fulminei-lhe as
costas com o olhar. Ou não se preocupara propositadamente em mitigar os meus receios,
desafiando-me, ou então nem prestara atenção ao que eu dissera. E ter-me-ia tapado mesmo com
um cobertor? Não reparara em cobertor nenhum. Quando ele regressou, falei-lhe num tom
beligerante.
Fantasma. Eu disse fantasma. Como assim, eles andam por aí?
Serviu-se de mais café. Sentou-se à minha frente. Como era hábito, recusou deixar-se perturbar pela
minha cólera. Joe, eu trabalhei num cemitério, disse. E então?
E então, de vez em quando, via um ou outro fantasma. Havia fantasmas por lá. Às vezes, apareciam
com o mesmo aspeto de pessoas.

92

Ocasionalmente, reconhecia um como sendo alguém que enterrara, mas, regra geral, não se
assemelhavam muito a quem haviam sido quando estavam vivos. O meu antigo chefe ensinou-me a
distingui-los. Costumam ter um aspeto mais desbotado, mais descorado que os vivos, e também
mais apático, se bem que irascível. Deambulavam de um lado para o outro, acenando com a cabeça
às sepulturas, olhando para as árvores e as pedras, até encontrarem as suas covas. Depois ficavam
ali parados, confusos talvez. Nunca me aproximei deles.
Mas como é que sabias que eram fantasmas?
Bom, sabemos e pronto. Não soubeste logo que aquilo que estavas a ver era um fantasma?
Respondi que sim. Continuava zangado.
Bestial, disse. Agora temos fantasmas.
O meu pai, tão terminantemente racional que começara por recusar a comunhão e depois se
recusara a ir sequer à missa, acreditava em fantasmas. Na verdade, tinha informações acerca de
fantasmas, coisas que nunca me contara. Se o tio Whitey me tivesse contado todas aquelas coisas
acerca de fantasmas que se passeiam como se fossem pessoas vivas, acharia que estava a gozar;
contudo, o meu pai tinha uma forma muito diferente de se meter comigo, e eu sabia que não era
aquele o caso. Uma vez que ele me levara a sério na questão do fantasma, perguntei-lhe o que
queria na verdade saber.
Okay. Então, porque é que estava ali?
O meu pai hesitou.
Por causa da tua mãe, possivelmente. São atraídos por todo o tipo de perturbações. Pensando bem,
por vezes, o fantasma é uma pessoa do nosso futuro, alguém que viajou no tempo, suponho, por
engano. Quem me disse isto foi a minha mãe.
A mãe dele, minha avó, pertencia a uma família de feiticeiros. Dissera muitas coisas que pareciam
estranhas a princípio, mas que mais tarde se tornaram realidade.
Ela dir-te-ia que estivesses atento a esse fantasma. Poderá estar a tentar dizer-te alguma coisa.
Pousou a caneca de café, e eu recordei-me de que, na noite anterior, ele dormira ao lado da máquina
de costura, e não com a minha mãe, e de que o tio Edward e ele tinham chegado à conclusão de que
o padre era suspeito, e que sem dúvida haviam deduzido muitas mais coisas, de que eu não tivera
conhecimento porque me deixara dormir.

93

O padre e o jerricã e a pilha de roupa malcheirosa e os casos judiciais misturavam-se numa enorme
baralhada. Sentia a garganta seca e não conseguia engolir. Fiquei ali sentado. Ele a mesma coisa. O
fantasma viera pela minha mãe, ou para me dizer alguma coisa.
A última coisa que quero saber é o que um fantasma tem para me dizer, referi.
Naquele momento, ocorreu-me que Randall também me dissera uma coisa semelhante, e isso foi
um alívio. Se aquele fantasma, ou lá o que fosse, andava à procura de Randall, ele podia solucionar
a questão com a sua feitiçaria. Faria uma oferenda de tabaco. Eu também. O fantasma iria embora,
ou talvez até ajudasse a minha mãe. Como saber? Ela estava no quarto, com o café na mesa de
cabeceira a arrefecer. Sabia que ela não tocaria na caneca e que o café lá continuaria mais tarde.
Uma película oleosa ter-se-ia formado sobre o líquido frio e repugnante, deixando um anel preto no
interior da caneca. Tudo o que lhe dávamos vinha de volta e deixava um anel ou uma crosta, ficava
frio, coagulava ou endurecia. Estava farto de carregar para baixo a comida que ela desperdiçava.
O meu pai pendeu a cabeça e apoiou a testa no punho cerrado. Fechou os olhos. Lá estava o
tiquetaque do relógio na soalheira cozinha. Em torno do mostrador havia uma espécie de explosão
de raios solares, porém, eram uns enfeites de plástico e o mostrador assemelhava-se mais a um
polvo dourado. Ainda assim, não desviei os olhos do relógio, pois se olhasse para baixo teria de
fitar o cocuruto da cabeça do meu pai. Ver o seu escalpe moreno e o seu ralo cabelo grisalho seria
demais para mim. Passar-me-ia se baixasse o olhar, acreditava eu.
Portanto, disse:
Deixa lá, é só um fantasma. Podemos livrar-nos dele.
O meu pai endireitou-se e esfregou a cara com ambas as mãos.
Eu sei, disse ele. Não traz mensagens, coisa nenhuma, e não veio por ela. Ela vai melhorar, vai
ultrapassar isto. Começará a trabalhar de novo na próxima semana. Comentou qualquer coisa
acerca disso comigo.

94

E está a ler livros, quero dizer, está a ler uma revista, pelo menos. A Clemence trouxe uma leitura
mais ligeira cá para casa. Reader’s Digest. Mas isso é bom, não é? O fantasma. Que queres dizer
com livramo-nos dele?
O padre Travis, declarei. Pode benzer o quintal ou assim.
O meu pai sorveu o café e observou-me por cima da borda da caneca Percebi que uma certa energia
tomava conta dele. Voltava a assemelhar-se ao que fora. Sabia quando o estavam a trapacear.
Então, estavas acordado, disse ele. Ouviste o que dissemos.
Sim, e sei mais coisas, anunciei. Estive na casa redonda.

95
<Página em branco>
Capítulo Cinco

O Presente Nu e Cru
Quando a chuva quente cair em junho, disse o meu pai, e os lilases abrirem. Então, ela descerá. Ela
adora o perfume dos lilases. Um velho amontoado de arbustos, plantado pelo agente agrário da
reserva, florescia na extremidade sul do quintal. A minha mãe perdeu o seu esplendor. As delicadas
corolas dos seus amores-perfeitos resplandeceram e depois as rosas silvestres das pradarias
floresceram num inocente tom rosáceo. Também perdeu isso. Todos os anos, desde que me
recordava, a minha mãe semeara as plantas que pretendia transplantar para os canteiros. Em abril
dispunha os vasos, feitos a partir dos fundos dos pacotes de leite, nos peitoris de todas as janelas
viradas a sul, mas as sementes de amor-perfeito foram as únicas que sobreviveram para serem
transplantadas na rua. Depois daquela semana, esquecêramo-nos de cuidar das restantes.
Deparámo-nos com os esguios caules secos e esturricados. O meu pai despejara os rebentos e a
terra no quintal das traseiras e queimara os vasos com o resto do lixo, destruindo assim os vestígios
da nossa negligência. Não que ela se tivesse dado conta disso.
Na manhã em que disse ao meu pai que fora à casa redonda, ele empurrou a cadeira para trás,
levantou-se e deu-me as costas. Quando se virou outra vez, o seu rosto espelhava calma, e ele
disse-me que falaríamos mais tarde.

97

Iríamos tratar do jardim da minha mãe. Naquele momento. Ele comprara plantas caras num viveiro
em ruínas a trinta e dois quilómetros da reserva. Tabuleiros de cartão e de plástico alinhavam-se à
sombra. Havia petúnias vermelhas, roxas, cor-de-rosa e riscadas. Malmequeres amarelos e cor de
laranja. Havia miosótis azuis, margaridas, alfazema e tritomas encarnadas. O meu pai deu-me
instruções. Coloquei as plantas uma a uma nos canteiros. A minha mãe tinha um pneu de trator
pintado de branco e cheio de terra, bem como retângulos de terra iguais de cada um dos lados
dos degraus da frente. Adicionei lobélias aos amores-perfeitos nos estreitos canteiros que ladeavam
a entrada para a garagem. Guardei todas as etiquetas com os nomes das flores para ela ver. De
tempos a tempos, enquanto trabalhava, pensava nas pastas de arquivo. No fantasma. Na confusão
de pormenores. Na casa redonda. Começava a recear a conversa com o meu pai. As pastas de novo.
E o padre, um pensamento enervante, depois os Lark, a seguir o padre, de novo. Atras da casa
ficava a horta da minha mãe, ainda coberta de palha Depois de ter plantado as flores, fui às traseiras
depositar a pilha de vasos de plástico e guardar as ferramentas.
Não as guardes já. Vamos tratar da horta da tua mãe, disse o meu pai.
Para que?
Ele limitou-se a passar-me a pá que eu deixara cair e apontou para a extremidade do quintal, onde
cebolas, tomateiros e pacotes de sementes nos aguardavam. Trabalhámos juntos durante mais uma
hora. Quando terminámos metade da horta, eram horas de almoço O meu pai saiu para ir comprar o
resto das plantas. Eu regressei a casa. Devia tomar conta da minha mãe. Olhei em redor da cozinha
Vi uma lata de pernil de porco picado na bancada, com uma chave fixada à parte de cima para a
abrir. Fiz uma sanduíche para mim comi-a e bebi dois copos de água. Havia um pacote de bolachas
com doce vermelho no centro. Comi um punhado delas. A seguir fiz outra sanduíche e coloquei-a
num prato com duas bolachas em jeito de decoração. Subi ao piso de cima com o prato e um copo
de água. Pearl aprendera a estar à coca de qualquer recipiente que fosse deixado à porta do quarto,
por isso, começámos a deixar a comida lá dentro.

98
Equilibrei o prato em cima do copo de água e bati à porta. Não tive resposta. Bati com mais força.
Entra, disse a minha mãe. Entrei. Passara-se mais de uma semana desde que ela subira as escadas e
o quarto tomara um cheiro a abafado O ar estava pesado, carregado com a sua respiração, como se
lhe tivesse sugado todo o oxigénio. Mantinha os estores corridos. A minha vontade era pousar o
prato e fugir, mas ela pediu-me que me sentasse.
Coloquei a sanduíche e a água na mesa de cabeceira quadrada da qual tirara tantas sanduíches
rançosas e copos meio vazios e tigelas de sopa fria. Se comera alguma coisa, eu não vira. Arrastei
uma cadeira leve com assento almofadado para junto da cama. Presumi que queria que lesse para
ela. Clemence ou o meu pai escolhiam os livros: nada triste ou perturbador. O que significava que
os livros ou eram romances cor-de-rosa entediantes (Harlequin) ou os velhos livros condensados da
Reader's Digest (melhor). Ou então, o tal livro de poemas. O meu pai marcara «Invictus» e «High
Flight», que eu já tinha lido. Faziam a minha mãe soltar uma risada seca.
Estiquei o braço para acender o candeeiro da mesa de cabeceira: ela não iria querer os estores
levantados, que a luz penetrasse pela janela. Antes de tocar no interruptor, ela agarrou-me o braço.
O seu rosto era uma mancha descorada na penumbra e as feições espelhavam fadiga. Tornara-se
imponderável, um monte de ossos protuberantes. Os seus dedos cravaram-se no meu braço. A sua
foz era rouca, empastada, como se tivesse acabado de acordar.
Ouvi-vos aos dois. Quem andavam a fazer lá fora?
A cavar.
A cavar o quê? Uma sepultura? O teu pai costumava cavar sepulturas.
Libertei-me da mão dela e recuei. O seu ar esquálido era repulsivo, e as palavras tão estranhas.
Voltei a sentar-me na cadeira.
Não, mãe, não era nenhuma sepultura. Falei com cuidado. Estávamos a tratar da tua horta. E antes
disso estive a plantar flores. Flores para tu admirares, mãe.
Admirar? Admirar?
Deu meia volta, pondo-se de costas para mim. Sobre a almofada, o seu cabelo assemelhava-se a
fios gordurosos, ainda negros, apenas com uns laivos grisalhos.

99

Pela fina camisa de noite conseguia ver-lhe claramente a coluna. Cada vértebra sobressaía e os
ombros pareciam maçanetas. Os braços haviam definhado até mais não serem que dois paus.
Fiz-te uma sanduíche, declarei.
Obrigada, querido, sussurrou ela.
Queres que leia para ti?
Não, deixa estar.
Mãe, preciso de falar contigo.
Nada.
Preciso de falar contigo, repeti.
Estou cansada.
Estás sempre cansada, mas passas o tempo a dormir.
Ela não respondeu.
Era apenas um comentário, expliquei.
O silêncio dela irritou-me.
Não consegues comer? Irias sentir-te melhor. Não consegues levantar-te? Não podias... regressar à
vida?
Não, respondeu ela de imediato, como se também já tivesse pensado em tudo aquilo. Não sou
capaz. Não sei porquê. Simplesmente, não consigo.
Continuava de costas para mim. Um ligeiro tremor tomou-lhe conta dos ombros.
Tens frio? Levantei-me e puxei-lhe o cobertor até aos ombros. A seguir, voltei à cadeira. Plantei
aquelas petúnias listadas de que tu gostas. Olha! Levei as mãos aos bolsos e saquei das tiras de
plástico com os nomes das plantas, espalhando-os era cima da cama. Plantei todo o tipo de flores,
mãe. Plantei ervilhas-de-cheiro. Ervilhas-de-cheiro?
Na verdade, não plantara ervilhas-de-cheiro. Não sei porque disse que o fizera. Ervilhas-de-cheiro,
repeti. Girassóis! Também não plantara girassóis. Os girassóis vão ficar enormes!
Virou-se na almofada e olhou-me fixamente. Os seus olhos pareciam afundados em círculos pardos
de pele. Mãe, tenho de falar contigo. Acerca dos girassóis? Vão fazer sombra às restantes flores,
Joe.

100

Talvez seja melhor plantá-los noutro sítio, referi. Tenho de falar contigo.
A expressão dela tornou-se monótona.
Estou cansada.
Mãe, fizeram-te perguntas acerca daquela pasta de arquivo?
O quê?
Olhou-me com súbito pânico, os olhos cravados no meu rosto.
Não existe pasta nenhuma, Joe.
Existe, sim. A pasta que foste buscar no dia em que foste agredida. Disseste-me que ias buscar uma
pasta. Onde está ela?
O pavor no seu rosto transformou-se num terror ativo.
Eu não te disse nada disso. É imaginação tua, Joe.
Os seus lábios tremeram. Enroscou-se numa bola, levou os punhos descarnados à boca e fechou os
olhos com força.
Mãe, escuta. Não queres que o apanhemos?
Abriu os olhos. Eram dois buracos negros. Não respondeu.
Mãe, escuta. Vou encontrá-lo e vou queimá-lo. Vou matá-lo por ti.
Sentou-se de um pulo, reanimada, como se se erguesse dos mortos.
Não! Tu não. Não o faças. Escuta, Joe, tens de me prometer. Não vás atrás dele. Não faças nada.
Sim, vou atrás dele, mãe.
Aquela sua reação forte e brusca desencadeou qualquer coisa em mim. Continuei a acicatá-la.
Vou matá-lo. Não há nada que me impeça. Sei quem ele é e vou atrás dele. Tu não podes impedir-
me porque estás na cama. Não consegues sair. Estás aqui encurralada. E tresanda. Sabias que
tresanda aqui?
Dirigi-me à janela e preparava-me para abrir a persiana quando a minha mãe falou comigo. O que
eu quero dizer é que a minha mãe de antes, a que podia dizer-me o que fazer, falou comigo.
Para com isso, Joe.
Virei-me. Ela continuava sentada na cama. O seu rosto estava exangue. A pele tinha um ar
macilento, quase albino. No entanto, fitou-me diretamente e falou-me num tom pausado e
autoritário.

101

Escuta-me bem, Joe. Não me atormentarás ou assediarás. Vais deixar-me pensar da maneira que eu
quiser, aqui. Tenho de me curar da melhor forma que puder. Vais parar de me fazer perguntas e não
me darás quaisquer preocupações. Não irás atrás dele. Não me aterrorizarás, Joe. Já senti medo
suficiente para o resto da vida. Não vais fazer-me sentir mais medo. Não me irás provocar mais
mágoa. Não farás parte disto.
Estava de pé perante ela, uma criança de novo.
Disto?
De tudo isto. Gesticulou com o braço na direção da porta. É tudo uma violação. Que o encontres,
que não o encontres. Quem é ele? Não fazes ideia. A mais pálida ideia. Não sabes. E nunca saberás.
Deixa-me dormir.
Está bem, respondi, e abandonei o quarto.
Enquanto descia as escadas, o meu coração gelou. Tinha a sensação de que ela sabia quem lhe
fizera aquilo. Estava a esconder qualquer coisa, de certeza. Pensar que ela sabia quem a agredira era
um murro no estômago. Doíam-me as costelas. Custava-me a respirar. Continuei a andar até à
cozinha, sem parar, depois porta fora, para a luz do Sol. Engoli grandes golfadas de sol. Era como
se tivesse estado trancado com um cadáver em fúria. Pensei em arrancar cada flor que plantara e
espezinhá-las contra o chão, mas Pearl veio ter comigo. Senti a minha raiva inflamar-se.
Vou ensinar-te a jogar ao «busca», anunciei. Dirigi-me ao extremo do quintal para arranjar um pau.
Pearl atravessou o quintal comigo, a trote. Inclinei-me, apanhei um pau do chão e endireitei-me
para o lançar, mas uma silhueta esborratada passou à minha frente e o pau foi-me arrancado da mão
com violência. Virei-me bruscamente. Pearl estava a alguns passos de mim com o pau na boca.
Larga, ordenei. Ela inclinou as suas orelhas de loba para trás. Avancei até ela e agarrei o pau para
lho tirar da boca, mas ela rosnou e eu larguei-o.
Está bem, então o teu jogo é esse, disse.
Afastei-me mais uns passos e peguei noutro pau. Brandi-o com o objetivo de o lançar. Pearl largou
o seu e correu para mim com a clara intenção de me arrancar o braço.

102

Larguei o pau. Assim que caiu ao chão, ela farejou-o, satisfeita. Tentei outra vez. Dobrei-me para
pegar de novo no pau e, ao mesmo tempo que os meus dedos se fechavam em redor dele, Pearl
avançou e abocanhou-me o pulso. Sem pressas, larguei o pau. Os maxilares dela eram tão
poderosos que podia ter-me partido os ossos. Levantei-me, com cautela, a mão vazia, e ela soltou-
me o braço. Havia marcas de pressão, mas nem um dos seus dentes me cortara ou arranhara a pele.
Então, não brincas ao «busca», estou a ver, disse.
O meu pai chegou nesse momento e tirou mais um tabuleiro de cartão cheio de vasos do porta-
bagagens. Levámo-los para as traseiras e colocámo-los ao lado da horta. Durante o resto da tarde,
tirámos a palha velha, cavámos e alisámos o solo negro com o ancinho. Arrancámos as raízes
velhas e os caules mortos e partimos os torrões para que a terra ficasse fina e fofa. O solo estava
húmido abaixo da superfície. Fértil. Comecei a apreciar o que estava a fazer. A terra drenava a
minha raiva. Tirámos as plantas dos vasos e, com cuidado, soltámos as raízes antes de as
colocarmos em buracos e acamarmos a terra em redor dos caules. A seguir, carregámos baldes de
água e regámos as plantas. No final, ficámos ali, a olhar.
O meu pai tirou um cigarro do bolso da frente, depois olhou para mim e devolveu-o ao maço.
O gesto enfureceu-me de novo.
Podes fumá-lo à vontade, se quiseres, declarei. Não vou começar a fumar. Não vou ser como tu.
Esperei que a ira dele abafasse a minha, mas fiquei desapontado.
Espero até mais tarde, respondeu ele. Não terminámos de falar, pois não?
Não.
Vamos buscar as cadeiras de jardim.
Coloquei duas cadeiras num local de onde pudéssemos contemplar a nossa obra. Enquanto ele não
estava, fui buscar o jerricã de gasolina vazio onde o escondera, sob os degraus, e pu-lo debaixo da
minha cadeira. O meu pai trouxe um pacote de limonada e dois copos. Percebi pelo tempo que ele
demorara que também fora levar um copo à minha mãe. Sentámo-nos com a nossa limonada.

103
Não te escapa nadinha, Joe, disse ele ao fim de um tempo. A casa redonda.
Tirei o jerricã de debaixo da minha cadeira e pousei-o no chão entre nós.
O meu pai pôs-se a olhar para ele. Onde...?, começou.
Descendo em linha reta desde a casa redonda através da mata. Dentro do lago, a cerca de quatro,
cinco metros da margem. No lago...
Ele afundou-o na água. Meu Deus.
Inclinou-se para tocar no jerricã, mas mudou de ideias, pousando a mão no braço de alumínio da
sua cadeira. Semicerrou os olhos para observar as pequenas plantas que transplantáramos para o
jardim, e depois, devagar, muito devagar, virou-se e fixou em mim o seu olhar omnividente e
impassível, que eu achava que dirigia aos assassinos antes de descobrir que apenas lidava com
ladrõezecos de salsichas.
Se pudesse dar-te uma carga de porrada, disse ele, era o que faria. Mas seria incapaz de te fazer
mal. Para além disso, tenho a certeza de que, se te desse mesmo uma carga de porrada, não teria
efeito nenhum. Na verdade, é provável que só servisse para te pôr contra mim. Talvez só te levasse
a fazer coisas às escondidas. Portanto, terei de apelar ao teu bom senso, Joe. Terei de te pedir que
pares. Para de procurar o agressor. Para de reunir provas. Sei que a culpa é minha, porque te pedi
que me ajudasses a ler os casos que separei. Mas agora percebo que fiz mal em envolver-te. És
demasiado curioso, Joe. Surpreendeste-me, e não foi pouco. Tenho medo. Podias ser... Se te
acontecesse alguma coisa... Não me vai acontecer nada!
Esperara que o meu pai ficasse orgulhoso. Que me presenteasse com um dos seus assobios de
surpresa. Estava à espera de que me ajudasse a planear os próximos passos. A estender a armadilha.
A apanhar o padre. Em lugar disso, estava a dar-me um sermão. Recostei-me na cadeira e pontapeei
o jerricã.
De homem para homem, Joe. Escuta, trata-se de um sádico. De uma pessoa que não conhece
limites, de alguém que não tem... que está muito para lá...

104

Muito para lá da tua jurisdição, declarei. Havia um laivo de sarcasmo juvenil na minha voz.
Bom, tu entendes mais ou menos de questões de jurisdição, respondeu ele, acusando o meu
escárnio e depois ignorando-o. Joe, por favor. Estou a pedir-te, como teu pai, que desistas. É um
assunto para a polícia, entendes?
Qual? A tribal? A estatal? O FBI? Que lhes importa o caso?
Escuta, Joe, tu conheces o Soren Bjerke.
Conheço. Lembro-me do que disseste uma vez acerca de agentes do FBI que se envolvem em
território índio.
E que disse eu?, inquiriu ele, à cautela.
Disseste que, quando são destacados para território índio, ou são maçaricos ou têm problemas com
a autoridade.
Eu disse isso?, perguntou o meu pai. Assentiu, quase sorrindo. O Soren não é um maçarico, realçou.
Okay, pai. Então, porque não encontrou o jerricã de gasolina?
Não sei, disse o meu pai.
Eu sei. Porque não quer saber da mãe. Não de verdade. Não como nós.
Por aquela altura, já conseguira irritar-me de novo, ou enraizar-me num estado de fúria com cada
planta de estufa que não conseguiria captar a atenção da minha mãe. Dir-se-ia que qualquer coisa
que o meu pai fizesse, ou dissesse, era calculada para me irritar. Sufocava ali sozinho com o meu
pai naquele tranquilo final de tarde. Uma nuvem borrascosa fervilhava sobre mim. De repente, só
me apetecia fugir do meu pai, e da minha mãe também, romper a sua teia de culpa e proteção e de
emoções inexprimíveis e revoltantes.
Tenho de ir.
Uma carraça começou a trepar-me pela perna. Puxei a bainha das calças para cima, apanhei-a e
matei-a sem piedade com as unhas.
Está bem, disse o meu pai, num tom calmo. Onde queres ir?
A qualquer lado.
Joe, disse, sem pressas. Devia ter-te dito que estou orgulhoso de ti. Estou orgulhoso da forma como
amas a tua mãe. Orgulhoso do modo como chegaste a todas essas conclusões.

105

Só quero que entendas que, se te acontecesse alguma coisa, Joe, a tua mãe e eu... não
aguentaríamos. Tu dás-nos vida...
Pus-me de pé de um pulo. Uns pontos amarelos cintilaram em frente aos meus olhos.
Vocês é que me deram a vida, realcei. É assim que as coisas funcionam. Portanto, deixa-me fazer o
que quiser com ela!
Corri para a bicicleta, saltei para cima dela e passei junto a ele. Tentou apanhar-me abrindo os
braços, mas eu guinei no último instante e pedalei a toda a velocidade, ficando fora do seu alcance.
Sabia que o meu pai telefonaria para a casa de Clemence e Edward. A bomba de gasolina também
estava fora de questão pelo mesmo motivo. Tanto os pais de Cappy como os de Zack tinham
telefone. Só me restava Angus. Pedalei diretamente para casa dele e encontrei-o na rua, a esmagar o
carregamento de latas de cerveja da noite anterior. Nenhuma delas era Hamm's. Angus tinha um
arranhão na face e o lábio inchado. A verdade era que, às vezes, Star lhe batia com o cinto. E
quando estava embriagado, Elwin tinha uma forma maliciosa de encurralar e de esbofetear Angus.
De tanto rir, Elwin quase morria. Nós desejávamos que isso acontecesse. Para além do mais, havia
um grupo de tipos que não gostava do cabelo de Angus, ou de qualquer outra coisa, não importava
o quê. Angus ficou contente por me ver.
Aqueles filhos da mãe de novo?
Não, respondeu ele. Percebi assim que fora a sua tia ou Elwin.
Enquanto ajudava Angus a achatar as latas com os pés contra o chão duro como pedra das traseiras
da casa, contei-lhe a conversa que escutara na noite anterior entre o meu pai e o tio Edward.
Se conseguíssemos descobrir se o padre bebe Hamm's... disse. Os padres bebem?
Se bebem?, replicou Angus. Podes crer. Começam com vinho na missa. Depois disso, creio que se
embebedam todas as noites.
Sempre que Angus espezinhava uma lata, o seu cabelo castanho levantava-se. Angus tinha uma cara
redonda e pestanas compridas e inocentes. Possuía uma desordenada confusão de dentes grandes,
cintilantes e com um aspeto perigoso. O lábio inferior inchado deixava-os à mostra, numa espécie
de rosnadela.

106

Quero ir à missa, declarei.


Angus ficou com o pé suspenso no ar. O quê? Queres ir à missa? Para quê?
Hoje há missa?
Claro, a das cinco. Ainda chegaríamos a tempo.
A tia de Angus era tão beata como Clemence, embora eu tivesse dúvidas de que ela confessasse que
batia em Angus.
Podíamos investigar o tal padre, expliquei.
O padre Travis.
Esse.
Okay, meu.
Angus subiu ao apartamento da tia e trouxe o selim da sua BMX cor-de-rosa. Prendeu-o no sítio
com um parafuso. Guardou a chave de porcas no bolso. Fora Whitey quem lhe aconselhara aquela
tática e lhe dera a chave de porcas depois de lhe terem roubado a segunda bicicleta. «Da próxima
vez que alguém te roubar a bicicleta, pelo menos vai ficar com o cu escareado», fizera Whitey
notar. Partimos pelo caminho mais longo para evitarmos a bomba de gasolina e chegámos à porta
da Igreja do Sagrado Coração mesmo antes do início da missa. Copiando os gestos de Angus, fiz
uma genuflexão e sentei-me. Ficámos na fila da frente. O meu plano era observar o padre com uma
serenidade fria e objetiva — do mesmo modo, por exemplo, que o capitão Picard observara o
assassino ligoniano que raptara a chefe da segurança, a oficial Yar. Tentei imitar o olhar imóvel,
porém penetrante e inquiridor, de Picard ao mesmo tempo que o sino convidava os devotos a
colocarem-se de pé. Achava que estava preparado. Não obstante, quando o padre Travis entrou de
rompante com uma casula verde que se assemelhava um cobertor grosseiro, a minha cabeça
pareceu inchar como um balão cheio de abelhas.
Ei, Starboy, tenho a cabeça a zumbir como a merda de uma colmeia, sussurrei para Angus. Cala-te,
ralhou-me.
O pequeno grupo de cerca de uma vintena de pessoas começou a murmurar, e Angus enfiou-me
uma folha de papel dobrada nas mãos. Continha uma série de respostas impressas e a letra dos
hinos. Cravei o olhar no padre Travis. Já o vira antes, é claro, mas nunca me detivera a examiná-lo
com atenção.

107

Os rapazes chamavam-lhe padre Travis Cara de Tacho, por causa das suas feições inexpressivas. As
miúdas chamavam-lhe padre Que-Desperdício porque os seus olhos claros cintilavam sobre maçãs
do rosto dignas de um herói de um romance cor-de-rosa. A pele exibia aquela palidez leitosa típica
dos ruivos e podia dizer-se que era imaculada, não fora a serpenteante cicatriz que lhe subia pelo
pescoço. Tinha umas orelhas pequeninas, uma boca plana de lábios muito finos, quase apenas um
rasgo, e usava o cabelo ruivo rapado, com entradas nas fontes. Não mostrava os dentes quando
falava e o seu queixo quadrangular permanecia imóvel, por isso, apenas os lábios se moviam no seu
rosto inerte e as palavras pareciam contorcer-se para sair. A regularidade mecânica das suas feições,
nas quais a ranhura que constituía a boca se movia incessantemente, estonteou-me a ponto de me
obrigar a sentar-me. Tive a presença de espírito de deixar cair o papel para poder fingir que o
procurava entre os joelhos. Angus deu-me um pontapé.
Vomito se voltares a fazer isso, ameacei entre dentes. Assim que pudemos, fazendo de conta que
íamos para o fim da fila da comunhão, escapulimo-nos da igreja e descemos até ao parque infantil.
Angus tinha um cigarro. Partimo-lo a meio, com todo o esmero, e eu fumei a minha parte, embora
só tenha servido para me fazer sentir de novo aquele redemoinho de tristeza. O meu aspeto não
devia ser muito diferente do meu estado de espírito. Vou procurar o Cappy.
Okay, disse. Faz isso. Diz-lhe que fugi do meu pai e que me traga comida.
Fugiste? Angus franziu o sobrolho. Eu sempre tivera a família perfeita — afetuosa, rica, para os
parâmetros da reserva, estável —, a família da qual ninguém fugiria. Já não era assim. Olhou-me
com pena e partiu. Levei a minha bicicleta à mão até um grupo de arbustos e árvores enfezadas,
desbastado de erva em redor, que marcava a orla dos terrenos da igreja. Encostei a bicicleta a uma
das árvores e deitei-me, apesar das carraças. Fechei os olhos. Ali esticado, senti a terra puxar-me o
corpo. Parecia que conseguia sentir a gravidade, que imaginei sob a forma de um enorme íman
derretido no centro do planeta. Sentia-o exercer o seu poder sobre mim, sugando-me as forças.

108
Ultrapassava limites, fronteiras, rumo a um lugar onde nada fazia sentido, e Q, de toga encarnada
de veludo, era juiz supremo. Tombei numa letargia, tão repentina quanto uma síncope. Fui acordado
pelas vibrações de passos rápidos. Ao abrir as pálpebras, os meus olhos foram subindo pelos
contornos fluidos de uma saia negra, pela cruz de madeira e até ao cinto de corda do padre Travis.
Acima do seu tronco rígido, peito largo e queixo quadrado, os seus olhos incolores fitavam-me sob
as pálpebras planas.
É proibido fumar no parque infantil. Uma das freiras viu-te.
Abri a boca e emiti um som rouco. O padre Travis continuou.
Mas és bem-vindo na missa. E se o catecismo te interessar, as aulas são ao sábado, às dez da
manhã.
Esperou.
Produzi de novo um som indistinto.
És o sobrinho da Clemence Milk...
O efeito de atração da gravidade inverteu-se de repente e sentei-me direito, carregado de uma
energia elétrica que me enchia de determinação.
Sim, respondi. A Clemence Milk é minha tia.
Extraordinariamente, encontrei as minhas pernas debaixo do meu tronco. Pus-me de pé. Cheguei
mesmo a dar um passo na direção do padre, um pequeno passo, mas na direção dele. A expressão
do meu pai saiu-me pela boca.
Posso fazer-lhe uma pergunta?
Força.
Onde estava entre as três e as seis da tarde do dia quinze de maio?
Que dia era?
A solene boca contraiu-se nos cantos.
Domingo.
Calculo que estivesse a celebrar a missa. Não me recordo muito bem. E depois da missa houve a
adoração. Porquê?
Por nada. Estava só a perguntar.
Há sempre uma razão, argumentou o padre Travis.
Posso fazer-lhe outra pergunta?
Não, respondeu o padre. Uma pergunta por dia. De um dos lados do pescoço, a sua cicatriz ganhou
vida. Encarniçou-se. A tua tia diz-me que és um bom miúdo, que tens boas notas.

109

Não dás problemas aos teus pais. Adoraríamos ter-te no nosso grupo de jovens. Sorriu. Vi-lhe os
dentes pela primeira vez. Eram demasiado brancos e perfeitos para serem verdadeiros. Tão jovem e
já tinha dentadura! E aquela cicatriz que parecia uma pincelada grossa pelo pescoço acima.
Estendeu a mão. A representação das suas feições feita pelo inexperiente artista dissolveu-se.
«Demasiado bonito para ser bonito», proclamara Clemence. Ficámos os dois ali. O brilho da
sotaina, refletido nos seus olhos, provocava-me calafrios. Ele sustinha a mão firme. Tentei conter-
me, mas a minha mão estendeu-se de motu próprio. A palma da mão dele era fresca. O calo suave e
duro, como o do pai de Cappy. Então, ficamos à tua espera. Deu meia volta. Depois, olhou para trás
com uma promessa de sorriso. O tabaco matar-te-á.
Permaneci colado ao chão até ele ter passado a porta que dava acesso à cave da igreja, no cimo da
colina. Apoiei as costas a uma árvore e recostei-me, sem me deixar afundar. Continuava carregado
daquela estranha energia. Permiti à árvore ajudar-me a pensar. Decidi em primeiro lugar não me
odiar pelo que acabara de suceder entre o padre e eu. Dificilmente poderia ter feito outra coisa. Na
reserva, recusar apertar a mão a uma pessoa era como desejar-lhe a morte. Se bem que desejasse a
morte do padre Travis Wozniak e quisesse até queimá-lo vivo, o meu desejo estava dependente de
uma prova irrefutável de que era ele o agressor da minha mãe. Culpado. O meu pai não consentiria
numa conclusão desprovida de esteios factuais. Cocei as costas com a casca áspera da árvore e
cravei os olhos no local onde o padre desaparecera. A porta para a cave da igreja. Tencionava renuir
esses factos, e quando os meus amigos chegassem, teria ajuda. Cappy apareceu com Angus. Trazia
um saco de pão cheio até meio com salada de batata, e uma colher de plástico. Enrolando a boca do
saco, transformei-o numa tigela e comi a salada. Era daquela que levava mostarda na maionese,
pickles e ovos. Devia ter sido feita pelas tias de Cappy. A minha mãe também a preparava daquela
maneira. Raspei a colher contra o interior do saco. Contei então a Cappy e a Angus a conversa que
ouvira e na qual o meu pai referira a sua desconfiança em relação ao padre.
O meu pai disse que ele esteve no Líbano.

110

Que importa, referiu Cappy.


Foi marine.
Também o meu pai.
Estava a pensar que devíamos tentar descobrir se ele bebe cerveja Hanim's. Estive para lho
perguntar, mas achei que assim abriria o jogo. Consegui o seu álibi. Tenho de o verificar.
O seu quê?, perguntou Angus.
A justificação dele. Diz que deu a missa naquele domingo à tarde. Só tenho de perguntar à
Clemence se é verdade.
E se colocássemos umas Hamm's à porta dele, a ver se as bebe?, sugeriu Angus.
Qualquer pessoa beberia cerveja à borla, sobretudo tu, Starboy, fez notar Cappy. Temos de o
apanhar a beber Hamm's em privado. Temos de o espiar.
Espreitar pela janela de um padre?
Sim, respondeu Cappy. Vamos pelas traseiras da igreja e do convento até ao velho cemitério.
Depois, esgueiramo-nos pela vedação e atravessamos o cemitério com as bicicletas à mão. As
traseiras da casa do padre dão para o cemitério e a vedação está fechada a cadeado, mas dá para
entrarmos. Quando escurecer, aproximamo-nos da casa.
Os padres têm cães?, perguntei.
Não, respondeu Angus.
Ótimo, disse eu. O meu receio não era propriamente ser apanhado pelo padre. O que me perturbava
era o cemitério. Vira um fantasma há pouco tempo. Um era suficiente, e o meu pai contara-me que
costumavam visitar o cemitério quando ele ali trabalhara. Era naquele cemitério que estava
sepultado o pai de Mooshum, que combatera na Batalha de Batoche com Louis Riel (Nota 19) e
falecera anos mais tarde numa corrida de cavalos. Era onde Severine, o irmão de Mooshum, que
durante pouco tempo fora sacerdote da igreja, estava enterrado, numa sepultura demarcada com
tijolos pintados de branco. Também ali se encontrava um dos três homens que fora linchado pela
multidão em Hoopdance. Tinham levado para ali o corpo do rapaz porque ele só tinha treze anos.
Da minha idade. E enforcado. Mooshum lembrava-se do sucedido.

Nota 19 - Louis Riel (1844-1885) foi um político canadiano e líder do povo Métis. Comandou dois
movimentos de revolta com o objetivo de defender a cultura e os direitos do seu povo. (N. da T.)

111

O irmão de Mooshum, Shamengwa, cujo nome significava borboleta-monarca, estava ali sepultado.
A lápide da primeira esposa de Mooshum, junto à qual ele também repousaria, estava coberta por
uma fina camada de líquenes. A última morada da sua mãe, com a qual ele cortara relações durante
dez anos depois de o seu irmão mais novo ter morrido, encontrava-se ali também. E as sepulturas
da família do meu pai também estavam naquele cemitério, bem como as da família da minha avó e
dos familiares da mãe dela, alguns dos quais se haviam convertido. Os homens estavam sepultados
virados para oeste, da forma tradicional. Os seus corpos desvaneciam-se na terra. Por cima deles
tinham-se erigido pequenas casas, para albergar e alimentar os seus espíritos, mas essas haviam-se
desmoronado e desaparecido antes de tudo o resto. Conhecia os nomes dos nossos antepassados
graças a Mooshum e aos meus pais.
Shawanobinesiik, Elizabeth, Pássaro-Trovão Austral. Adik, Michael, Caribu. Kwiingwa'aage,
Joseph, Carcaju. Mashkiki, Mary, Feitiçaria. Ombaashi, Albert, Erguido pelo Vento. Makoons,
Filhote de Urso e Pássaro Que Sacode o Gelo das Asas. Viveram e morreram demasiado depressa
nos anos em torno da criação da reserva, antes de a história os registar para a posteridade e em
números tão grandes que era difícil recordá-los a todos sem dizer, como o meu pai fazia quando lia
a história local, «e o homem branco apareceu e conduziu-os a todos para baixo da terra», o que
soava a uma profecia do Antigo Testamento, mas era apenas uma constatação da verdade. Portanto,
recear entrar no cemitério à noite era temer não os afetuosos antepassados que ali repousavam, mas
o murro no estômago da nossa história, que eu me preparava para assimilar. O velho cemitério era
fértil nestes infortúnios.
Para chegarmos ao cemitério pelas traseiras tínhamos de passar pela casa de uma idosa que tinha
cães. Nunca se sabia quantos eram ou a que raça pertenciam. Ela alimentava os cães da reserva.
Logo, a casa dela era imprevisível e costumávamos sempre fazer um desvio para não passar por lá.
Quando nos aproximámos, preparámo-nos. Cappy tinha a sua lata de pimenta. Eu agarrei num pau
grosso, pensando no quanto Pearl detestava paus e porquê.

112

Angus arrancou umas hastes de salgueiro para fazer um chicote. Elaborámos um plano de combate
e decidimos que eu seguiria na frente, munido do pau, e Cappy na retaguarda, com a pimenta. A
mulher chamava-se Bineshi e era tão minúscula e encurvada como a sua casa era pequena e frágil.
No quintal havia dois carros em escombros onde os cães se espreguiçavam e dormiam. Achámos
que talvez nos escapássemos se passássemos a toda a velocidade, porém, ao virarmos para a rua de
terra batida que ladeava o quintal dela, os cães saíram a correr dos carros. Dois eram cinzentos,
com pernas curtas, três eram grandes, um era enorme. Lançaram-se na nossa direção, ladrando com
uma veemência feroz. Um dos cães cinzentos precipitou-se sobre Angus e agarrou-o pela bainha
das calças. Angus espetou-lhe um hábil pontapé, açoitou-o na cara com o chicote e continuou a
pedalar.
Eles pressentem o medo, gritou Cappy. Desatámos a rir.
Os cães ficaram mais ousados, como costumava acontecer quando um encetava uma ofensiva.
Angus soltou um grito horrível. Um infecto cão esbranquiçado lançara-se-lhe ao braço, e Angus
largou os chicotes e esmurrou-o mesmo no meio do focinho. O cão não ganiu nem recuou, atacando
de novo. Mais uma vez, Angus esmurrou-o, mas ao cair ao chão, o cão conseguiu cravar os dentes
na perna de Angus e rasgar-lhe as calças.
Tirem-no de cima de mim!
Cappy deu meia volta, levantando uma nuvem de pó. Arrastou os pés pela terra e parou ao lado de
Angus com a embalagem de pimenta aberta. Tirou um punhado e lançou-o à cara do cão, que ganiu
e desapareceu. Aproveitando a paragem, os outros cercaram-nos, clamando por sangue, as suas
orelhas a apontar para trás. Mostravam os dentes e tentavam morder-nos, como se fossem tubarões.
Não podíamos largar as bicicletas e fugir, pois teríamos de as ir buscar mais tarde. De qualquer
maneira, os cães eram mais rápidos e alcançar-nos-iam antes de ganharmos velocidade. Mantendo-
nos bem juntos, desmontámos e mantivemo-nos atrás das bicicletas. Cappy lançou pimenta a outro
cão. Eu preguei pauladas em dois. Os cães atacados pela pimenta recuperaram e voltaram ao
ataque, sedentos de vingança.

113
Formaram um círculo e avançaram. Cappy «deixou cair a embalagem de pimenta, que se espalhou
pelo chão.
Oh; merda, lamentou-se. Estamos feitos.
Precisamos de armas, gritou Angus. Dei uma mocada num dos cães. De repente, todos os cães
viraram a cabeça. Empertigaram as orelhas. Partiram em matilha, a galope. Ouvimos a porta da
pequena casa bater.
Ela deve ir dar-lhes de comer, referiu Cappy.
Maaj! (Nota 20), gritou Angus. Voltámos a montar nas bicicletas e pedalámos a toda a velocidade o
resto da estrada, mal nos apercebendo da subida. Depois atravessámos a mata e içámos as bicicletas
por cima da vedação de arame. Chegáramos em segurança ao cemitério. O crepúsculo não tardaria.
Por entre os troncos grossos dos pinheiros mais abaixo conseguíamos distinguir o brilho que as
janelas da casa do padre derramavam. Descemos nessa direção com as bicicletas à mão. O medo
que sentira de atravessar o cemitério foi eclipsado pelo alívio. Os mortos, desprovidos de cães,
inspiravam segurança. Avançámos sem pressa, até quase escurecer, apontando para as lápides
historicamente mais importantes. Os três tínhamos antepassados em comum, espalhados por aqui e
por ali. Uma brisa começou a movimentar o ar e um picanço piava nas sombrias copas das árvores.
Está na hora, declarou Cappy quando chegámos. O portão estava folgadamente fechado com
uma corrente. Abrimo-lo e passámos com as bicicletas. Numa manobra furtiva e timorata,
empurrámo-las até ao extremo mais afastado do adro da igreja. A erva estava cortada rente e o
orvalho refrescara já o restolho. Esgueirámo-nos até à pequena casa, uma cabana modernizada de
um só piso. O padre Travis vivia aí sozinho. Agachámo-nos junto dum arbusto. O murmúrio grave
de um televisor chegava-nos desde o interior da casa. Gatinhámos pelo lado mais afastado até à
janela onde o barulho era mais audível.
Quero espreitar lá para dentro, sussurrou Angus. Ele vai ver-te, argumentei. Há persianas. Angus
levantou a cabeça. Agachou-se quase de imediato.

Nota 20 - «Vamos!» (TV. da T.)

114

Está lá sentado a ver televisão?.


Viu-te?
Não sei.
Arrepiámos caminho até ao lado mais escondido da casa. Apercebemo-nos de passos no interior e,
de repente, uma luz forte transbordou pela janela mesmo acima das nossas cabeças. Seguiu-se uma
pausa. A silhueta do padre desenhou-se ameaçadoramente contra a cortina. Esborrachámo-nos
contra as ripas de madeira da casa. Mesmo atrás das nossas nucas, começámos a ouvir uns salpicos.
Mexendo apenas os lábios, Cappy perguntou:
Está a mijar?
Encolhi os ombros, pois mais parecia que alguém tirara a tampa a uma garrafa e estava
cuidadosamente a verter um delicado fluxo de água para a sanita. Demorou bastante tempo,
entrecortado por pausas. Depois o autoclismo foi puxado, a torneira foi aberta e fechada, a luz
apagou-se e uma porta fechou-se.
O gajo mija sem alarde, gracejou Cappy.
Bom, é padre, realçou Angus.
E mijam de maneira diferente?
Não fodem, explicou Angus. Sem uso regular, talvez a canalização fique enferrujada.
Como tu bem sabes, gozou Cappy.
Fiquem aqui.
Gatinhei em redor da casa rumo ao brilho azulado do televisor. Qualquer pessoa que entrasse no
adro ou passasse na mata escura ter-me-ia visto. Pus-me de pé e inclinei-me aos poucos até ao
caixilho da janela. Estava aberta para deixar entrar a brisa. Consegui ver a nuca do padre Travis.
Estava sentado num cadeirão em frente à televisão e junto ao cotovelo tinha uma garrafa de cerveja
citadina, Michelob. A princípio não consegui perceber o que ele estava a ver, mas depois dei-me
conta de que era um filme, mas não um telefilme.
Agachei-me e regressei para junto dos meus amigos.
Ele tem um leitor de VHS!
E está a ver o quê?
Cappy disponibilizou-se para ir verificar e, ao fim de um momento, voltou e disse-nos que era
Alien, que passara no cinema a duas horas da nossa reserva e acerca do qual só escutáramos
histórias alucinantes, porque não tínhamos forma de chegar até lá e, de qualquer das formas,
éramos demasiado novos para entrar.

115

Ainda não existiam videoclubes na reserva.


A cassete deve ser dele, referi, esquecendo a janela aberta. Ele tem uma cópia do filme?
Caluda, pessoal, sussurrou Cappy. As janelas estão abertas. Angus encostou-se à parede da casa e
puxou os joelhos contra o peito. Juntámos as cabeças e falámos em voz baixa. Conseguiste vê-lo
bem?
Na perfeição. Ele tem um televisor de trinta polegadas. E foi assim que acabámos por ver Alien, de
pé junto à janela, nas costas do jovem padre que considerávamos suspeito de um crime
inqualificável. O padre Travis até aumentou o volume para conseguirmos ouvir melhor. Quando os
créditos começaram a passar, desligou a televisão e nós agachámo-nos e gatinhámos até onde
supúnhamos que o quarto dele ficava. Estávamos ainda extasiados com o que acabáramos de ver.
Angus deitou-se no chão, espetou o punho por dentro da T-shirt e pôs-se a estrebuchar. A luz voltou
a acender-se na casa de banho e escutámos de novo o mesmo chapinhar. Depois o som de uma
escova de dentes e gargarejos. A seguir, a luz acendeu-se no quarto. Avançámos até lá. Erguemo-
nos muito devagar. A janela tinha as cortinas e os estores corridos, mas havia uma frincha entre o
peitoril e o estore. As cortinas eram transparentes. Conseguíamos ver perfeitamente. Observámos o
padre Travis despindo a batina e pendurando-a. Os seus ombros eram fortes e musculados e os
peitorais duros como rocha. Cicatrizes imperfeitas percorriam os seus bem definidos abdominais.
Tirou os boxers e ficou de rabo ao léu, e depois deu meia volta. As cicatrizes juntavam-se todas
num emaranhado cerrado em torno do pénis e dos testículos. Todo o seu equipamento estava ali,
mas obviamente fora «cosido de volta», como mais tarde Angus contou a Zack, espantado. Tudo ali
era tecido de cicatrização: estriado, lustroso, cinzento, arroxeado.
Entrámos em pânico e pusemo-nos em fuga. As luzes apagaram-se. Precipitámo-nos para as nossas
bicicletas, mas o padre Travis saiu pela porta com uma rapidez inacreditável e com um pulo
apanhou Angus.

116

Cappy e eu continuámos a correr.


Vocês os dois, voltem aqui, disse o padre numa voz calma, mas com excelente projeção. Ou
arranco-lhe a cabeça.
Angus gritou. Desacelerámos e olhámos para trás. O padre segurava Angus pelo pescoço.
Olhem que ele está a falar a sério!
Começa a rezar, ordenou o padre.
Ave, Maria, balbuciou Angus, numa voz estrangulada.
Em silêncio, explicou o padre Travis.
Os lábios de Angus começaram a mover-se. Cappy e eu demos meia volta e arrepiámos caminho. O
vento noturno levantou-se e os pinheiros suspiraram em nosso redor. As tremeluzentes luzes que
iluminavam o parque de estacionamento da igreja não chegavam aos pés das árvores negras. O
padre Travis empurrou Angus até casa. Atrás de nós. Ordenou a Cappy que abrisse a porta e, assim
que entrámos, trancou-a. Com um pontapé, prendeu uma cadeira à maçaneta.
Como sabem, não há porta nas traseiras, portanto, mais vale porem-se à vontade, declarou ele.
Lançou Angus para o sofá e nós seguimos-lhe o exemplo, sentando-nos um de cada lado com as
mãos entrelaçadas no colo. O padre vestiu uma camisa de xadrez e agarrou no seu cadeirão,
virando-o para que ficasse de frente para nós. Sentou-se. Estava de boxers e com a camisa
desabotoada. O peito dele era enorme e maciço. Reparei num conjunto de pesos livres no chão e
uma barra com discos no canto.
Há quanto tempo não nos víamos, disse ele para mim e para Angus.
Estávamos aterrorizados.
Foi um regalo para os olhos, hã? Trio de parvalhões. Pensam o quê?
Deu-me um pontapé na canela, e embora estivesse descalço, fiquei com a perna dormente e
balancei para trás.
Digam qualquer coisa.
Mas nós não éramos capazes.
Okay, cara de cu, disse ele para Cappy. Diz-me tu porque me estavam a espiar. Conheço estes dois,
mas a ti não. Como te chamas?

117

John Goza Concara.


Senti uma enorme admiração por Cappy, que, num momento como aquele, fora capaz de dar um
nome falso. Goza Concara. Que raio de nome é esse? É um nome tradicional e antigo, sir.
Sir? Onde é que foste buscar isso!
O meu pai foi marine, sir!
Então, és uma vergonha para ele, pedaço de bosta. Um filho de um marine a espiar um padre.
Como se chama o teu pai?
Tem o mesmo nome que eu, sir.
Então, és o Goza Concara Júnior?
Sim, senhor!
Muito bem, Goza Concara Júnior, que tal te parece isto?
O padre Travis esticou a perna e arrancou Cappy do sofá com um movimento rápido. Cappy caiu ao
chão com força, mas não gritou. Goza Concara, hã? Foi assim que arranjaste o teu nome de otário?
O padre inclinou-se para ele e Cappy ergueu os punhos, mas o sacerdote limitou-a a agarrar Cappy
pelos colarinhos e a lançá-lo de novo para o sofá.
Muito bem, Goza Concara Júnior, qual é o teu verdadeiro nome tradicional e antigo?
Cappy Lafournais.
O Doe é teu pai?
Sim.
É um bom homem. Apontou um dedo a Angus. Sei quem é a tua tia.
A seguir, espetou-me o dedo na cara. Fiquei sem fôlego.
Conheço o teu pai, e creio saber por que motivo estão aqui, espiando-me, bando de palhaços. Tu.
Pus-me a pensar acerca da pergunta que me fizeste esta tarde. Porque me haverias de perguntar o
que fizera no domingo, quinze de maio, entre tal e tal hora. Como se quisesses saber o meu álibi.
Achei curioso. Depois lembrei-me do que aconteceu à tua mãe, e bingo.
Os nossos joelhos, os nossos pés, os nossos sapatos haviam adquirido um significado profundo.
Examinávamo-los atentamente. Sentíamos os olhos acerados do padre cravados em nós.

118

Com que então, achas que fiz mal à tua mãe, disse ele numa voz suave. Então? Responde.
Pregou-me outro pontapé. A dormência transformou-se em dor.
Sim. Não. Achei que talvez.
Talvez. Então, a resposta surgiu-te numa visão, digamos assim, hã? Impossível. Para que saibam. E
para vossa informação, seus vómitos de rato, seus peidos de gato, seus anormais, não usaria a
minha pila dessa forma mesmo que ainda conseguisse usá-la. Tenho mãe e tenho irmã, bando de
tarados. E também tive uma namorada.
O padre Travis recostou-se. Levantei os olhos na direção dele. Observava-nos com o sobrolho
carregado, as mãos entrelaçadas no colo, aquele brilho de ciborgue no olhar. As maças do rosto
pareciam prestes a irromper pela pele. Não só possuía uma cópia de Alien, não só tinha um incrível
e terrível ferimento, como nos chamara nomes humilhantes sem recorrer aos costumeiros palavrões.
Para além disso, havia a velocidade e a destreza com que agarrara Angus, os pesos ao lado do
televisor, a cerveja finória. Era quase o suficiente para levar um rapaz a querer ser católico.
Teve namorada?
O semblante do padre Travis tornou-se mais tenso e pálido. Não podia acreditar na lata de Cappy.
Por um momento, achei que era a morte dele. Contudo, Cappy não colocara a pergunta de um modo
sarcástico ou escarninho, nem de longe. Cappy era assim mesmo. Queria mesmo saber. Fizera a
pergunta do mesmo modo, sei-o entretanto, que um bom advogado interrogaria uma potencial
testemunha. Para ficar a conhecer a outra pessoa. Para escutar a sua história.
O padre Travis não falou durante um tempo, mas Cappy manteve uma disponibilidade silenciosa
para o escutar.
Sim, respondeu o padre, por fim. A sua voz soava mais rouca e grave. Vocês, seus bandalhos
mirrados, ainda não sabem nada sobre as mulheres. Podem achar que sim, mas não sabem. Eu
estive noivo de uma mulher verdadeira. Extremamente bonita. Fiel. Nunca vacilou. Nem mesmo
quando fiquei ferido. Teria ficado comigo. Fui eu que... Gostam de miúdas, rapazes?
Eu gosto, disse Cappy, o único que se atrevia a responder.

119

Não percam o vosso tempo com galdérias, aconselhou o padre Travis. Andam no liceu?
Entramos este ano, retorquiu Cappy.
Ainda melhor. Há uma miúda lindíssima na qual mais ninguém reparou. Sê tu aquele que repara
nela.
Está bem, aceitou Cappy.
Muito bem, disse o padre Travis. Sim, senhor.
Estendeu as mãos sobre os braços do cadeirão. Observou-nos em silêncio até que por fim
levantámos os olhos para enfrentar o seu olhar enleante.
Querem saber como aconteceu. Querem saber como lidei com isso. Querem saber coisas que não
têm o direito de saber. Mas não são maus rapazes. Já percebi isso. Queriam descobrir quem fez mal
à tua mãe, à mãe dele. Olhou-me nos olhos. Estava na Embaixada dos Estados Unidos em oitenta e
três e tive sorte. Estou aqui, certo? A torneira funciona. Tenho de cuidar muito bem dela, caso
contrário, tenho infeções. Algum desejo sexual. Tudo sublimado. Frequentei o seminário antes de
me tornar marine. Voltei para casa assim, um sinal. Terminei o seminário. Fui ordenado. Enviaram-
me para aqui. Alguma pergunta?
Disse-lhe que nenhum dos padres que havíamos tido matava cães-da-pradaria.
As freiras gaseiam-nos. Gostavas de ser gaseado num túnel? É bem melhor morrer de forma rápida,
ao ar livre. Morrem num ápice. Estalou os dedos. Tombam de costas e ficam a contemplar o céu. As
nuvens.
Não estava a olhar para nós. Já não estava a olhar para nada em concreto. Acenou com a mão,
mandando-nos embora. Fizemos tenções de nos levantar. Ele estava longe dali. Juntou as pontas
dos dedos e baixou a testa, apoiando-a nelas. Avançámos para a porta sem o incomodar, desviámos
a cadeira silenciosamente e destrancámos a porta. Fechámo-la com todo o cuidado à saída e
dirigimo-nos às bicicletas. O vento soprava então com mais força. Agitando o quebra-luz do
candeeiro do adro e fazendo a luz piscar. Os pinheiros lamentavam-se. Mas o ar era quente. Um
vento de sul, trazido por Shawanobinesi, o Pássaro-Trovão Austral. Um vento portador de chuva.

120

Capítulo Seis
Datalore

O vento passou sobre as nossas cabeças sob a forma de uma massa de nuvens, que não parou de se
deslocar até o céu ficar limpo. Assim sem mais, como se nada se tivesse passado entre nós, o meu
pai e eu começámos a falar. Contou-me que tivera uma conversa muito interessante com o padre
Travis, e eu estaquei, mas pelos vistos apenas tinham falado sobre o Texas e o Exército. O padre
Travis não nos denunciara. As suspeitas, fossem elas quais fossem, que o meu pai partilhara com o
tio Edward naquela noite tinham-se desvanecido, ou então reprimira-as. Perguntei-lhe se falara com
Soren Bjerke.
O jerricã de gasolina?, inquiri.
Pertinente.
Uma vez que o padre Travis estava riscado da lista de suspeitos, começara a pensar nos casos e nas
notas que o meu pai e eu tínhamos lido. Perguntei-lhe se Bjerke questionara os Lark, irmão e irmã.
Falou com a Linda.
O meu pai franziu o sobrolho com força. Tinha prometido a si que não me iria envolver, que não
me faria confidências nem iria colaborar comigo. Sabia onde isso me podia levar, no que me estaria
a meter; contudo, na verdade não sabia da missa a metade. E havia

121

ainda uma coisa que eu não entendia na altura, mas que entretanto compreendo: a solidão. Eu tinha
razão quando afirmava que éramos apenas nós os três. Ou nós os dois. Mais ninguém, nem
Clemence nem sequer a minha mãe, se preocupava tanto quanto nós com a minha mãe. Mais
ninguém pensava dia e noite nela. Mais ninguém sabia o que lhe estava a acontecer. Mais ninguém
estava tão desesperado como nós os dois, o meu pai e eu, em recuperar a nossa vida. Em regressar
ao Antes. Por isso, ele não tinha escolha. Mais cedo ou mais tarde, tinha de falar comigo.
Eu devia fazer uma visita à Linda Wishkob, disse ele. A Linda respondeu à Bjerke com evasivas.
Mas talvez... Queres vir comigo?
Linda Wishkob era repulsivamente feia. O seu rosto macilento e em forma de cunha encimava o
balcão da estação de correios. Observou-nos com olhos de carneiro mal morto, protuberantes; os
seus lábios encarnados e húmidos eram duas volutas carnudas. O cabelo, um barrete de madeixas
castanhas e escorridas, estremeceu quando tirou os selos comemorativos. Mostrou-os ao meu pai.
Linda fazia-me lembrar um porco-espinho de olhos esbugalhados, sob todos os aspetos, até nas
mãos pequenas e sapudas de unhas compridas. O meu pai escolheu um conjunto com os cinquenta
estados da União e perguntou-lhe se podia pagar-lhe um café.
Há café na sala das traseiras, respondeu Linda. Posso bebê-lo de graça. Fitava o meu pai com uma
atitude circunspecta, embora conhecesse a minha mãe. Toda a gente sabia o que sucedera, mas
ninguém sabia o que dizer ou o que não dizer.
O café não importa, argumentou o meu pai. Gostaria de lhe dar uma palavra. Porque não pede a
alguém que a substitua? Não há muito movimento.
Linda entreabriu os lábios para protestar, mas não lhe ocorreu nenhuma desculpa credível. Em
poucos minutos, falou com o supervisor e deu a volta ao balcão. Abandonámos a estação dos
correios e atravessámos a rua em direção ao Mighty Al's, um lugar que era uma verdadeira lata de
sardinhas. Não acreditava que o meu pai fosse interrogar uma pessoa num espaço tão acanhado,
com apenas seis mesas, umas em cima das outras. E tinha razão.

122

O meu pai não fez qualquer pergunta a Linda, limitando-se a conduzir uma inútil conversa acerca
do tempo.
O meu pai conseguia levar a melhor a qualquer pessoa quando o tema era o tempo. Como em
qualquer parte, por vezes era o único tópico de conversa em que as pessoas se sentiam à vontade
para se exprimir, e o meu pai era capaz de divagar sobre ele, com seriedade, e aparentemente, para
sempre. Quando o tempo atual se esgotava, havia sempre o tempo que se fizera sentir no passado e
que os anais da história tinham registado, o tempo sentido ou testemunhado por um parente, ou
mesmo aquele de que se ouvira falar nas notícias. Catástrofes meteorológicas de todos os tipos. E
quando tudo isso não era o suficiente, havia ainda o tempo que poderia fazer no futuro. Já o ouvira
inclusive especular acerca do tempo que faria na vida depois da morte. O meu pai e Linda Wishkob
conversaram longamente sobre o tempo e depois ela levantou-se e foi-se embora.
Fizeste-a mesmo passar por um mau bocado, pai.
O menu escrito no quadro negro anunciava «sopa de hambúrguer, à discrição». íamos na segunda
tigela de sopa fumegante: carne picada, macarrão, tomate em lata, aipo, cebola, sal e pimenta.
Estava particularmente saborosa naquele dia. O meu pai também pedira café, a que apelidava de «a
escolha do estóico». Sabia sempre a queimado. Continuou a bebê-lo de forma impassível depois de
terminarmos a sopa.
Queria ficar com uma ideia de como ela está, disse o meu pai. A Linda passou por um mau bocado,
deveras.
Não percebera ao certo no que resultara a conversa com Linda Wishkob, mas, pelos vistos, ocorrera
entre o meu pai e ela um diálogo que eu não entendera.
O meu pai autorizara por fim Cappy a ir lá a casa. Tinha-se posto uma tarde sufocante, por isso
estávamos na sala a jogar Bionic Cornmando, tão silenciosamente quanto podíamos, com a
ventoinha ligada. Como sempre, a minha mãe estava a dormir. Escutei uma pancada suave na porta.
Fui abrir e deparei-me com Linda Wishkob, com os seus olhos protuberantes, o uniforme azul
apertado, o rosto suado, apagado e desprovido de maquilhagem. Aquelas unhas compridas no final
dos dedos atarracados pareceram-me de repente sinistras, embora estivessem pintadas num inocente
tom de rosa.

123

Eu espero que ela acorde, disse Linda.


Surpreendeu-me, passando por mim e avançando para a sala. Cumprimentou Cappy com um aceno
de cabeça e sentou-se atrás de nós. Cappy encolheu os ombros e como há algum tempo não
jogávamos o nosso jogo e não iríamos parar por um motivo sem importância, continuámos: durante
anos, o nosso povo lutou para resistir a um imparável grupo de seres ávidos e instáveis. O nosso
exército viu-se reduzido a um punhado de guerreiros desesperados, desarmados e esfomeados.
Saboreámos a proximidade da derrota. Porém, no mais fundo das entranhas da nossa comunidade,
os cientistas aperfeiçoaram uma arma de combate sem precedentes. O nosso braço biónico estica,
esmaga, flete-se, dobra-se, faz fintas. Perfura armaduras e os seus sensores térmicos conseguem
detetar o inimigo, por mais bem protegido que esteja. O braço biónico combina em si mesmo o
poder de um exército inteiro e só pode ser operado por um único soldado capaz de superar o teste.
Eu sou esse soldado. Ou então Cappy. O comando biónico. A nossa missão obriga-nos a atravessar
a terra dos mil olhos, onde a morte nos aguarda ao dobrar de cada esquina e em cada janela. O
nosso destino: o quartel-general inimigo. O coração da fortaleza inexpugnável do nosso odiado
adversário. O desafio: impossível. A nossa determinação: inquebrantável. A nossa coragem:
infinita. O nosso público: Linda Wishkob.
Observava-nos num silêncio tão profundo que nos esquecemos dela. Mal respirava ou mexia um
músculo que fosse. Quando a minha mãe saiu do quarto para ir à casa de banho do piso de cima,
também não dei conta dela, mas Linda deu. Avançou sem fazer barulho até ao início das escadas, e
antes mesmo de eu conseguir dizer ou fazer fosse o que fosse, chamou a minha mãe pelo nome.
Depois começou a subir as escadas. Parei de jogar e pus-me de pé, mas o corpo roliço de Linda
tinha já chegado ao cimo das escadas e cumprimentava a minha mãe como se a sua figura
escanzelada não estivesse a afastar-se dela, cambaleante, desorientada, descoberta e invadida. Linda
Wishkob pareceu não reparar na agitação da minha mãe. Com uma espécie de simplicidade
alheada, limitou-se a segui-la até ao quarto. A porta permaneceu aberta.

124

Escutei a cama ranger. O arrastar da cadeira que Linda tomou para se sentar. E depois as vozes de
ambas quando começaram a conversar.
Uns dias mais tarde, a chuva chegou por fim sob a forma de um aguaceiro constante, e eu
permaneci em casa pela segunda vez naquele verão, a jogar os meus jogos, a desenhar bonecos.
Angus estivera a trabalhar no seu segundo retrato de Worf, mas Star telefonara a pedir-lhe que fosse
a casa de Cappy pedir uma sonda de canalizador emprestada. Deviam estar naquele momento em
casa de Angus, a beber as cervejas Blatz de Elwin e a tirar porcaria de um cano mal-cheiroso.
Entediei-me dos desenhos. Pensei em ir surripiar o Manual de Cohen, mas ler os casos e as notas do
meu pai fomentara em mim um desespero. Num dia como aquele, talvez tivesse subido ao meu
quarto, trancaria a porta e folhearia a minha pasta secreta do TPC. A presença da minha mãe no
piso de cima matara tal hábito. Comecei a considerar arrastar-me até casa de Angus ou ir buscar o
terceiro e o quarto livros de Tolkien que o meu pai me oferecera no Natal, mas não tinha a certeza
de estar desesperado o suficiente para fazer uma coisa ou outra. A chuva, interminável, parda,
ruidosa, faria a casa parecer fria e triste, ainda que o espírito da minha mãe não estivesse a morrer
no piso de cima. Ocorreu-me que a enxurrada talvez levasse as plantas do jardim, mas é claro que
isso não preocuparia a minha mãe. Levei-lhe uma sanduíche, mas ela estava a dormir. Levei os
livros de Tolkien para baixo. Começara a ler, com o tamborilar da chuva como pano de fundo,
quando, saída da bátega de água, qual hobbit encharcado, Linda Wishkob bateu de novo à porta
para visitar a minha mãe.
Entrou e subiu as escadas praticamente sem olhar para mim. Levava um pequeno embrulho nas
mãos, talvez um dos seus pães de banana. Comprava bananas negras e era conhecida pelo pão que
fazia com elas. Muito sussurravam ambas no piso de cima. Um verdadeiro mistério para mim. O
motivo por que a minha mãe decidira falar com Linda Wishkob poderia ter-me incomodado ou
alertado, ou pelo menos despertaria a minha curiosidade. Não o fez. Mas ao meu pai sim. Quando
chegou a casa e soube que Linda estava lá em cima no quarto, disse-me em voz baixa:

125
Vamos lançar-lhe uma armadilha.
O quê?
Tu serás o isco.
Oh, obrigadinho.
Ela contigo falará, Joe. Gosta de ti. E gosta da tua mãe. A mim receia-me. Escuta-as só lá em cima.
Porque queres que ela fale?
Precisamos de toda a informação que conseguirmos reunir. Precisamos de saber tudo o que ela nos
puder contar sobre os Lark.
Mas ela é uma Wishkob.
Adotada, não te esqueças. Lembra-te do caso, Joe, aquele que separámos.
Não creio que seja relevante. Bonita palavra.
Por fim, aceitei fazer de isco e, por sorte, o meu pai comprara gelado, a comida preferida de Linda.
Mesmo num dia de chuva?
O meu pai sorriu.
É uma mulher de sangue frio.
Assim, quando Linda desceu, perguntei-lhe se queria uma taça de gelado. Ela perguntou de que
sabor. Disse-lhe que tínhamos daquele às listas.
Napolitano, disse ela, e aceitou uma taça. Sentámo-nos na cozinha e o meu pai fechou a porta como
quem não queria a coisa, argumentando que a minha mãe precisava de descansar, que era muito
amável da parte de Linda vir visitar-nos e que toda a gente adorara o seu pão de banana.
As especiarias dão-lhe um gosto espetacular, elogiei.
Só uso canela, explicou Linda, e os seus olhos de boga incharam de prazer. Canela verdadeira que
compro em frasco, não em lata. De uma secção de comida internacional do supermercado
Hornbacher's, em Fargo. Não da que se encontra por aqui. Por vezes, junto raspa de limão ou casca
de laranja.
Ela estava tão contente por termos apreciado o pão de banana que achei que talvez o meu pai não
precisasse de mim para a fazer falar, mas ele disse:

126

Não era bom, Joe? Respondi que comera duas fatias ao pequeno-almoço e que tivera de esconder
um pedaço, porque o meu pai e a minha mãe estavam a açambarcá-lo.
Da próxima vez, trago dois pães, declarou Linda, num tom afetuoso.
Levei uma colherada de gelado à boca e tentei que o meu pai a fizesse sair da toca, mas ele
levantou-me as sobrancelhas.
Linda, comecei. Ouvi dizer... Por vezes interrogo-me... Bom, suponho que seja uma pergunta
pessoal.
Não tem importância, disse ela, e as suas feições pálidas adquiriram um tom rosado. Talvez
ninguém lhe fizesse perguntas pessoais. Pensei depressa e dei rédea solta à língua.
Tenho amigos, sabe, cujos pais ou primos foram adotados. Adotados fora da tribo, e isso é difícil...
Pelo menos, segundo ouvi dizer. Ninguém fala do que é ser-se adotado...
Adotado dentro da tribo?
Linda mostrou os seus pequeninos dentes de rato num sorriso tão simples e encorajador que me
tranquilizei e, de repente, queria mesmo saber com era ser-se adotado. Queria saber a história dela.
Comi mais gelado. Disse que gostara mesmo do pão de banana e que isso me surpreendera, porque,
de uma forma geral, detestava pão de banana. O que eu quero dizer é que, de repente, esqueci o
meu pai e comecei a conversar verdadeiramente com Linda. Olhei para lá dos olhos protuberantes e
das sinistras mãos de porco-espinho e do cabelo ralo e vi apenas Linda, e quis conhecê-la. E talvez
tenha sido por isso mesmo que ela me contou a sua história.
A história de Linda

Nasci no inverno, começou ela, mas depois parou para terminar de comer o gelado. Afastada a taça,
começou a sério. O meu irmão nasceu dois minutos antes de mim. A enfermeira acabara de o
envolver num cobertor azul de flanela, quando a mãe disse: «Oh, meu Deus, vem lá outro», e eu
deslizei para fora, meio morta. Comecei então a morrer mesmo. Passei de um tom ligeiramente rosa
para um azul-acinzentado baço, altura em que a enfermeira pegou em mim para me colocar numa
cama aquecida por luzes.

127

A enfermeira foi travada pelo médico, que apontou para a minha cabeça, os braços e as pernas
deformados. Colocando-se à frente da enfermeira e de mim, o médico dirigiu-se à minha mãe,
dizendo-lhe que o segundo bebé tinha uma deformidade congénita e perguntando-lhe se desejava
que usasse de meios extraordinários para o salvar. A resposta foi não.
«Não, deixe-o morrer.» Porém, enquanto o médico estava de costas, a enfermeira desimpediu-me a
boca com o dedo, sacudiu-me de cabeça para baixo e embrulhou-me num outro cobertor, cor-de-
rosa. Respirei fundo.
«Senhora enfermeira», ralhou o médico. Tarde demais, respondeu ela.
Fui deixada na maternidade com um biberão preso à cara enquanto o condado decidia o que fazer
comigo. Era ainda demasiado pequena para ser admitida numa instituição do Estado e o Sr. George
Lark e a sua esposa recusaram-se a levar-me para casa. A porteira noturna do hospital, uma mulher
da reserva chamada Betty Wishkob, pediu permissão para me pegar durante as suas pausas.
Enquanto me embalava, de costas viradas para a janela de observação, Betty... a minha mãe...
amamentava-me. E ao mesmo tempo que me alimentava, foi-me moldando e arredondando a
cabeça com as suas poderosas mãos. Ninguém no hospital sabia que ela me dava de mamar à noite,
nem que me tratava e que decidira ficar comigo.
Isto foi há cinco décadas. Agora tenho cinquenta anos. Quando a minha mãe perguntou se podia
levar-me para casa, houve muito alívio e pouca papelada envolvida, pelo menos de início. Assim,
fui salva e cresci com os Wishkob. Vivi na reserva e frequentei a escola como um índio faria,
primeiro na missão e mais tarde na escola governamental. Mas antes dessa altura, por volta dos três
anos, fui levada pela primeira vez. Ainda me lembro do cheiro a desinfetante e do que apelido de
«desespero branco», no meio do qual surgiu uma presença, alguém ou alguma coisa, que chorou
comigo e me segurou a mão. Essa presença permaneceu comigo. Tinha quatro anos quando uma
assistente social voltou a decidir encontrar uma casa mais apropriada para mim.

128

Fiquei ao lado da minha mãe, agarrada à saia dela, de algodão verde. Escondi a cara no aroma do
tecido quente. A seguir estava no assento traseiro de um carro que avançava a toda a velocidade e
sem fazer barulho numa direção infinita. Acordei sozinha noutro quarto branco. A minha cama era
estreita e os lençóis estavam tão aconchegados e presos que tive de me esforçar para sair. Sentei-me
na beira da cama durante o que me pareceu uma eternidade, à espera.
Quando somos muito pequenos, não sabemos que estamos aos gritos ou a chorar; os nossos
sentimentos e o som que emitimos são uma única coisa. Lembro-me de que abri a boca, nada mais,
e não a voltei a fechar até estar de novo com a minha mãe.
Todas as manhãs, até ter mais ou menos onze anos, a minha mãe e o meu pai, Albert, tentaram
arredondar-me a cabeça e exercitar-me os braços e as pernas. Levantava um pequeno saco cheio de
areia que a minha mãe costurara, a fazer as vezes de peso. Acordavam-me e levavam-me para a
cozinha, onde o fogão a lenha estava já aceso, e eu bebia um copo de leite pouco espesso e azul.
Depois, a minha mãe sentava-se numa cadeira da cozinha e colocava-me no seu colo. Massajava-
me a cabeça e, com os dedos em forma de concha, moldava-me o crânio.
«Irás ver coisas, de vez em quando», disse-me a minha mãe certa vez. «A tua moleirinha
permaneceu aberta mais tempo do que a da maioria dos bebés. É assim que os espíritos entram.»
O meu pai sentava-se à nossa frente noutra cadeira, preparado para me esticar da cabeça aos pés.
«Estica os pés, Tuffy», pedia ele. Era essa a minha alcunha. Eu colocava os pés nas mãos do meu
pai e ele puxava-me numa direção ao mesmo tempo que a minha mãe, segurando-me junto às
orelhas, me puxava na direção contrária.
O meu irmão Cedric dera-me o nome de Tuffy, porque sabia que, assim que eu fosse para a escola,
me poriam uma alcunha. Não queria que esta aludisse ao meu braço ou à minha cabeça. Todavia, a
minha cabeça, tão disforme quando nascera que o médico me diagnosticara um atraso mental, foi
moldada pelas compressões e as manipulações da minha mãe.

129

Quando tive idade suficiente para me olhar ao espelho, achei-me lindíssima.


Nenhum dos meus pais alguma vez me disse que estava enganada. Foi a Sheryl quem me deu a
novidade, declarando: «És tão feia que consegues ser gira.»
Na primeira oportunidade, olhei-me ao espelho e dei-me conta de que a Sheryl dizia a verdade.
A casa em que vivíamos ainda exala um ténue cheiro a madeira apodrecida, cebola, galeirão frito,
ao aroma salgado de crianças sujas. A minha mãe passava o tempo a tentar manter-nos limpos, e o
meu pai a arranjar forma de nos sujarmos. Levava-nos para a mata e ensinava-nos a procurar
coelhos e a montar armadilhas. Arrancávamos cães-da-pradaria das suas tocas com laçadas e
apanhávamos balde atrás de balde de bagas. Montávamos um pónei que tinha a mania de escoicear,
pescávamos percas num lago vizinho, arrancávamos batatas todos os anos para termos dinheiro
para ir à escola. O emprego da minha mãe não durara. O meu pai vendia lenha, milho, abóbora,
mas nunca passámos fome, e havia afeto em nossa casa. Sabia que me amavam, pois era muito
complicado para os meus pais arrancarem-me aos serviços sociais, embora eu contribuísse para
esses esforços com as minhas intermináveis gritarias. Com tudo isto, não quero dizer que eles
fossem perfeitos. O meu pai embebedava-se de tempos a tempos até tombar inconsciente. O
temperamento da minha mãe era explosivo. Nunca nos batia, mas enfurecia-se e gritava. Pior ainda,
era capaz de dizer coisas horríveis. Uma vez, a Sheryl andava a rodopiar pela casa. Havia uma
prateleira num canto com uma jarra em vidro lapidado pela qual a minha mãe tinha grande estima.
Quando lhe levávamos ramos de flores silvestres, ela punha-os nessa jarra. Tinha-a visto lavar a
jarra com sabão e puxar-lhe o brilho com uma fronha velha. Nesse dia, a Sheryl bateu com o braço
na jarra, que tombou ao chão ruidosamente e se partiu em cacos.
A minha mãe estava ao fogão. Girou sobre os calcanhares e estendeu as mãos para a frente.
«Raios te partam, Sheryl», disse ela. Era a única coisa bonita que alguma vez tive.

130

«Foi a Tuffy que a partiu!», exclamou a Sheryl, saindo porta fora a correr.
A minha mãe desatou a chorar, fora de si, tapando a cara com o antebraço. Fiz tenções de varrer os
vidros, mas ela disse-me que os deixasse onde estavam numa voz tão desolada, que fui à procura da
Sheryl, escondida no seu lugar habitual: na ponta extrema do galinheiro. Quando lhe perguntei
porque me culpara a mim, lançou-me um olhar odiento e disse: «Porque és branca.» Nunca guardei
rancor à Sheryl por nada do que me disse ou fez, e mais tarde tornámo-nos muito chegadas. Fiquei
contente com isso, pois nunca casei e precisava de alguém com quem contar quando, há cinco anos,
fui contactada pela minha mãe biológica.
Vivi num pequeno anexo acrescentado à minúscula casa até os meus pais falecerem. Foi no espaço
de meses, um após o outro, como costuma acontecer às pessoas que estão casadas há muitos anos.
Por essa altura, os meus irmãos e a minha irmã já se tinham mudado para fora da reserva ou
construíram casas novas mais perto da povoação. Eu fui ficando por aqui, na mesma tranquilidade.
A única diferença é que deixei o cão, descendente de um outro que costumava ladrar à senhora dos
serviços sociais, viver dentro de casa comigo. O meu pai e a minha mãe tinham instalado a
televisão na cozinha. Viam-na depois de jantar, sentados muito direitos nas suas cadeiras da
cozinha, com as mãos entrelaçadas por cima do tampo da mesa. Eu prefiro o meu sofá. Mandei
instalar uma lareira com recuperador de calor e ventiladores que sopram o ar quente para fora em
círculo, e sento-me em frente a ela nas noites de inverno, com o cão aos meus pés, lendo ou
fazendo renda enquanto escuto a televisão.
Uma noite, o telefone tocou.
Atendi com um simples «estou?». Seguiu-se uma pausa. Uma mulher perguntou-me então se estava
a falar com Linda Wishkob.
«Sim», respondi. Senti de imediato uma estranha apreensão. Percebi que alguma coisa estava para
acontecer.
«Daqui fala a tua mãe, Grace Lark.» A voz era tensa e nervosa.
Pousei o telefone no descanso. Mais tarde, aquele momento pareceu-me muito engraçado. Rejeitara
instintivamente a minha mãe, deixando-a pendurada como ela me deixara a mim.

131

Como sabes, sou funcionária do Governo. Em qualquer altura poderia ter descoberto o endereço
dos meus pais biológicos. Podia ter-lhes telefonado ou, quem sabe, embriagado e ido para a porta
deles insultá-los, mas não queria saber nada acerca deles. Porque haveria de querer? Tudo o que
sabia era doloroso, e sempre evitei magoar-me. Talvez seja por isso que nunca casei ou tive filhos.
Não me importo de estar sozinha, só que, bom... Naquela noite, depois de ter desligado o telefone,
preparei uma chávena de chá e entretive-me a fazer palavras-cruzadas. Uma das palavras escapava-
me. A pista era «sósia», doze espaços, e só depois de muito tempo e da ajuda do dicionário é que
consegui chegar à palavra Doppelgänger.
Sempre identificara as aparições daquela presença como um dos espíritos que os cuidados da Betty
deixara entrar na minha cabeça. A primeira vez que a vi foi quando fui levada para longe da Betty
por um breve período de tempo e colocada no quarto branco. Noutras ocasiões, tinha a sensação de
que havia alguém a caminhar a meu lado ou sentado atrás de mim, sempre para além do meu
campo de visão. Uma das razões por que permitira que o cão vivesse comigo fora para manter
afastada essa presença, que ao longo dos anos se tornara ansiosa, carente, desamparada de uma
forma que eu não conseguia definir. Nunca antes relacionara essa presença com o meu irmão
gémeo, que crescera a menos de uma hora de carro de distância; porém, naquela noite, o inesperado
telefonema mais a palavra de doze letras perturbou-me.
A Betty dissera-me que não fazia ideia do nome que os Lark tinham dado ao bebé, embora o mais
provável era que soubesse. É claro que, sendo nós de sexos diferentes, éramos gémeos fraternos e,
em teoria, tão parecidos um com o outro como um irmão e uma irmã. Na noite em que a minha mãe
biológica me telefonou, decidi odiar o meu irmão gémeo e ficar ressentida com ele. Eu escutara a
voz dela pela primeira vez ao telefone, trémula. Ele escutara-a toda a sua vida. Sempre pensara que
também odiava a minha mãe biológica, mas a mulher autoapelidara-se simplesmente de mãe. O
meu cérebro registara sem margem para dúvida todas as palavra que ela proferira. Durante o resto
daquela noite e da manhã seguinte, escutei-as sem cessar na minha cabeça. No final do segundo dia,
a salmodia tornou-se mais débil.

132
Para meu alívio, ao terceiro dia deixei de a ouvir. Então, ao quarto dia, a mulher telefonou de novo.
Começou por se desculpar.
«Peço desculpa por incomodar!», e continuou afirmando que sempre quisera conhecer-me, mas que
receara descobrir onde eu estava. Disse que o George, o meu pai, já tinha falecido, que vivia
sozinha e que o meu irmão gémeo era um antigo funcionário dos correios, que se mudara para
Pierre, no Dakota do Sul. Perguntei o nome dele.
Linden. Era um antigo nome de família.
«O meu também é um antigo nome de família?», inquiri.
«Não», respondeu Grace Lark, «apenas combina com o nome do teu irmão.»
Disse-me que o George rabiscara o meu nome às pressas na certidão de nascimento e que nunca
tinham olhado para mim. A seguir, pôs-se a contar que o George morrera de ataque cardíaco e que
ela estivera prestes a mudar-se para Pierre para ficar perto do Linden, mas que não conseguira
vender a casa. Acrescentou que não sabia que eu vivia tão perto, caso contrário já há muito que me
teria ligado.
A conversa, informal, em tom de cavaqueira, deve ter provocado em mim uma espécie de amnésia
onírica, pois quando a Grace Lark me perguntou se nos podíamos encontrar, se podia levar-me a
jantar ao Vert's Supper Club, eu aceitei e fixámos uma data.
Quando por fim desliguei o telefone, fiquei durante muito tempo a olhar para os pequenos cepos
que ardiam na lareira. Antes do telefonema, preparara o lume ansiando por fazer umas pipocas.
Planeava lançá-las bem alto no ar para o cão as apanhar. Talvez me sentasse à mesa da cozinha a
ver um filme. Ou quiçá ficasse em frente à lareira a ler o romance que trouxera da biblioteca. O cão
ressonaria e agitar-se-ia nos seus sonhos. Aquelas tinham sido as minhas alternativas. Findo o
telefonema, uma terrível variedade de sentimentos tomara conta de mim. A qual deveria subjugar-
me primeiro? Não conseguia decidir-me. O cão veio ter comigo, deitou a cabeça no meu colo, e
assim ficámos até me dar conta de que uma das reações que podia ter era o entorpecimento.
Aliviada, sem nada sentir, abri a porta para o cão ir à rua, deixei-o entrar de novo e fui-me deitar.

133

Conhecemo-nos. Ela era tão comum. Tinha a certeza de já a ter visto na rua, na mercearia ou no
banco, talvez. Ao longo de uma vida é difícil não ver alguém, pelo menos uma vez, aqui na reserva.
Contudo, não a teria identificado como minha mãe, pois não havia nela nada de familiar ou de
parecido comigo.
Não trocámos apertos de mãos e muito menos nos abraçámos. Sentámo-nos frente a frente num
cubículo com assentos em pele artificial.
A minha mãe biológica fitou-me. «Não és...», a sua voz perdeu-se. «Atrasada mental?»
Recompôs-se. «A tua compleição é igual à do teu pai. O George tinha cabelo escuro.»
Grace Lark tinha olhos azuis, que sofriam de blefarite, por trás de uns óculos de armações claras,
um nariz pontiagudo, uma boca minúscula de lábios muito finos. O seu cabelo era típico de uma
senhora de setenta e sete anos: branco-acinzentado com uma permanente de caracóis apertados.
Usava uma dentadura postiça manchada, brincos enormes de pérolas, calças de fato azul-claras e
sapatos ortopédicos com atacadores e biqueira quadrada.
Não havia nada nela que me cativasse. Não passava de mais uma idosa da qual não temos vontade
de nos aproximar. Já reparei que as pessoas na reserva não se dirigem a mulheres como ela, não sei
porquê. Talvez seja um instinto qualquer que as leva a evitarem-se mutuamente. «Queres pedir?»,
perguntou Grace Lark, apontando para o menu. «Pede o que quiseres, sou eu que ofereço.»
«Não, obrigada, dividimos a conta», respondi. Pensara naquilo antecipadamente e concluíra que se
a minha mãe biológica pretendia mitigar a sua culpa de alguma forma, não era levando-me a jantar
fora que o conseguiria. Pedimos e bebemos os nossos copos de vinho branco ácido.
Comemos picão-verde e pilaf. Os olhos de Grace Lark encheram-se de lágrimas por alturas da
sobremesa: gelado de ácer.
«Oxalá tivesse sabido que irias ser tão normal. Quem me dera não te ter entregado», disse ela a
chorar.
Fiquei alarmada com o efeito que aquelas palavras tiveram nela e apressei-me a perguntar:

134

«Como está o Linden?»


As lágrimas desapareceram.
«Está muito doente», disse ela. A sua expressão tornou-se mais impetuosa e direta. «Tem uma
insuficiência renal e é obrigado a fazer diálise. Está à espera de um rim. Eu dava-lhe o meu, mas
não sou compatível e o meu rim é velho. O George já morreu. Tu és a única esperança do teu
irmão.»
Levei o guardanapo aos lábios e senti-me flutuar, elevando-me da cadeira. Alguém pairava a meu
lado, percetível por pouco. Conseguia sentir a sua respiração ansiosa.
Está na altura de telefonar à Sheryl, pensei. Devia ter falado com ela antes. Tinha uma nota de vinte
dólares comigo e, quando aterrei, deixei a nota em cima da mesa e saí porta fora. Cheguei ao carro,
mas antes de me meter nele, tive de correr para o talude de relva e ervas daninhas que cercava o
parque de estacionamento. Vomitava e chorava quando senti a mão de Grace Lark afagar-me as
costas.
Era a primeira vez que a minha mãe biológica me tocava, e embora me tenha acalmado com as suas
carícias, detetei na sua voz murmurante um tom triunfante, asqueroso. Sempre soubera onde eu
vivia, é claro. Afastei-a de mim com um empurrão, rechaçando-a com ódio, como um animal
libertado de uma armadilha.
A Sheryl mostrou-se toda despachada e prática.
«Vou telefonar para casa do Cedric, no Dakota do Sul. Escuta, Tuffy, eu peço ao Cedric que vá
desligar a máquina a esse tal de Linden e poderás esquecer esta merda.»
A Sheryl é assim mesmo. Quem mais me faria rir naquelas circunstâncias? Na manhã seguinte
estava de cama. Pela primeira vez em dois anos, telefonei para o trabalho a dizer que estava doente
e não poderia ir.
«Não estás sequer a considerar fazê-lo», disse a Sheryl. Depois, como eu não respondi: «Estás?»
«Não sei.»
«Agora é que eu vou mesmo telefonar ao Cedric. Aquela gente deu-te com os pés, virou-te as
costas, deixar-te-ia numa sarjeta. És minha irmã. Não quero que partilhes os teus rins. E se eu um
dia precisar deles, hã? Já pensaste nisso? Guarda a porcaria do teu rim para mim!

135

«Amo-te», disse a Sheryl, e eu respondi-lhe que também a amava. «Tuffy, não vás em frente com
isso», avisou-me Sheryl, mas o seu tom era de preocupação.
Depois de desligarmos, telefonei para os números que constavam do cartão que Grace Lark me
enfiara no bolso e marquei todos os exames necessário no hospital.
Enquanto estive no Dakota do Sul, fiquei em casa do Cedric, um militar veterano, e da esposa dele,
cujo nome é Cheryl, com C. Pôs à minha disposição toalhas em que aplicara as figuras de uns
animaizinhos muito engraçados. E minúsculos sabonetes que roubara em motéis. Fez-me a cama.
Tentou demonstrar-me que concordava com o que eu estava a fazer, embora a restante família não
aprovasse. Cheryl era muito religiosa, por isso, para ela fazia sentido.
Todavia, para mim não era uma questão de fazer ao próximo o que gostaria que me fizessem a
mim. Já disse que não procuro o sofrimento e não teria considerado seguir em frente com aquilo a
não ser que não conseguisse suportar a alternativa.
Toda a minha vida, sabendo sem saber, esperara que aquilo acontecesse. O meu irmão gémeo era
aquela presença mesmo ao meu lado, no limiar da minha perceção. Ele não sabia que estivera
sempre comigo, tenho a certeza. Quando os serviços sociais me arrancaram à Betty e fiquei sozinha
naquele «desespero branco», ele sentou-se a meu lado, deu-me a mão, chorou comigo. E depois de
ter conhecido a mãe dele, compreendi mais uma coisa. Numa povoação pequena, toda a gente sabia
o que a Grace fizera ao abandonar-me. Ela teria tido de dirigir a sua fúria contra si mesma, a sua
vergonha contra outra pessoa: o filho que escolhera. O mais certo era que tivesse culpado o Linden,
tivesse transferido os seus retorcidos ódios para ele. Eu sentira o ressentimento e o triunfo no toque
dela. Fiquei grata pela forma como as coisas se haviam passado. Antes de nascermos, o meu irmão
gémeo teve a compaixão de se comprimir contra mim, de me aperfeiçoar deformando-me, para que
eu fosse poupada.
«Ora bem», disse a médica, uma mulher iraniana que me entregou os resultados dos exames e
conduziu a entrevista, «a senhora é compatível, mas eu conheço a sua história.

136

Portanto, parece-me justo que saiba que a insuficiência renal de Linden Lark é apenas culpa dele.
Foi alvo de não uma, mas duas, ordens de restrição. Também tentou suicidar-se com uma dose
cavalar de acetaminofeno, aspirina e álcool. É por isso que está a fazer diálise. Creio que deverá
levar isso em consideração ao tomar a sua decisão.»
Mais tarde, nesse mesmo dia, sentei-me com o meu irmão gémeo, que me disse:
«Não tens de fazer isto. Não tens de te armar em Jesus.»
«Sei o que fizeste», disse-lhe. «Não sou religiosa.»
«Interessante», respondeu o Linden. Olhou-me fixamente e disse: «Não somos nada parecidos.»
Compreendi que não se tratava de um elogio, pois o meu irmão era bem-parecido. Achei que ele
herdara os melhores traços fisionómicos da mãe, mas também os olhos traiçoeiros e a boca falsa, de
tubarão. Percorria o quarto com o olhar. Não parava de morder o lábio, assobiar, enrolar o cobertor
entre os dedos.
«Distribuis o correio?», perguntou-me.
«Trabalho principalmente ao balcão.»
«Eu tinha um bom giro», contou ele, bocejando, «um giro fixo. Era capaz de fazê-lo de olhos
fechados. No Natal, as pessoas deixavam-me postais, dinheiro, bolachas, esse tipo de coisas.
Conhecia a vida delas muito bem. Os seus hábitos. Cada pormenor. Podia ter cometido o crime
perfeito, sabias?»
Isso surpreendeu-me. Não respondi.
Lark franziu os lábios e baixou os olhos.
«És casado?», perguntei.
«Não... Mas talvez tenha uma namorada.» Disse-o num tom de autocomiseração. «A minha
namorada tem-me evitado ultimamente, porque um determinado funcionário governamental, de um
cargo elevado, começou a pagar-lhe para andar com ele. Oferece-lhe uma compensação em troca
dos favores dela, se é que me entendes.»
Mais uma vez, fiquei sem palavras.
O Linden disse-me que a rapariga de quem gostava era jovem e trabalhava com o governador, que
tivera boas notas e se distinguira, uma Deidade do liceu escolhida como estagiária.

137
Uma estagiária índia para dar boa imagem à administração, contou ele.
«E eu até a ajudei a conseguir o estágio. E demasiado nova para mim. Estava à espera de que ela
crescesse, mas este tipo, peixe graúdo na administração, ajudou-a a crescer enquanto eu estava
aqui, preso a uma cama de hospital. Desde então, não tem parado de a ajudar a crescer.»
Sentia-me incomodada e balbuciei uma coisa qualquer para mudarmos de assunto.
«Alguma vez achaste que havia alguém a caminhar ao teu lado, ou atrás de ti, quando fazias o teu
giro? Alguém que estava ali quando fechavas os olhos e desaparecia quando os abrias?»
«Não», respondeu ele. «Estás doida?»
«Era eu.»
Peguei-lhe na mão e ele deixou-a ficar imóvel. Ficámos sentados em silêncio. Ao fim de um tempo,
retirou a mão da minha e esfregou-a como se o tivesse magoado.
«Não tenho nada contra ti», disse ele. «Isto foi ideia da minha mãe. Não quero o teu rim. Tenho
uma aversão a pessoas feias. Não quero um pedaço de ti dentro de mim. Prefiro ir para a lista de
transplantes. Sinceramente, és uma mulher repugnante. Lamento, mas o mais provável é que já te
tenham dito isto antes.»
«Posso não ser uma beldade», argumentei, «mas nunca ninguém me disse que sou repugnante.»
«Se calhar tens um gato», continuou ele. «Os gatos fazem de conta que gostam de quem quer que
lhes dê de comer. Duvido que conseguisses arranjar um marido, ou um namorado, a menos que
enfiasses um saco na cabeça. E mesmo assim, terias de o tirar à noite. Oh, caramba, desculpa.»
Levou os dedos à boca e fez um malicioso ar de culpa. A seguir, esbofeteou-se na brincadeira.
«Porque é que eu digo estas coisas? Feri os teus sentimentos?»
«Disseste essas coisas para me afastar?», inquiri. Começara a flutuar de novo, como acontecera no
restaurante. «Talvez queiras morrer. Não queres ser salvo, pois não? Não estou a salvar-te por
nenhuma razão em especial. Não me deves nada.»

138

«Dever-te?»
Pareceu genuinamente surpreendido. Os seus dentes eram tão direitos que fiquei com a certeza de
que usara aparelho quando era jovem. Desatou a rir, mostrando todos aqueles dentes certinhos.
Abanou a cabeça e advertiu-me com o dedo, rindo a bandeiras despregadas. Quando me inclinei
para pegar na mala, ria tanto que quase se engasgou. Tentei afastar-me dele, alcançar a porta, mas,
em lugar disso recuei até ficar encostada à parede, encurralada ali, naquele quarto tão branco.

O meu pai estava sentado à mesa, calado, as mãos entrelaçadas e a cabeça pendida. De início, não
sabia o que dizer, mas depois o silêncio prolongou-se por tanto tempo que disse a primeira coisa
que me veio à cabeça.
Há muitas mulheres bonitas que têm gatos. A Sonja, por exemplo! É certo que os gatos dela vivem
no celeiro, mas ela alimenta-os. A Linda nem sequer tem gato. Tem um cão. E eles são picuinhas.
Repare na Pearl.
Linda sorriu de orelha a orelha para o meu pai e comentou que ele criara um cavalheiro. Ele
agradeceu-lhe e depois disse que tinha uma pergunta.
Porque o fez?
Porque ela queria, respondeu Linda. A senhora Lark. A mãe. Terminado este processo todo, eu
abominava o Linden, é essa a palavra. Abominava! Mas ele insinuou-se junto de mim, caiu nas
minhas boas graças. E o mais ridículo é que entretanto eu sentia-me culpada por odiá-lo. Quero
dizer, superficialmente não era má pessoa de todo. Dava dinheiro a instituições de caridade e por
vezes decidia, por capricho, creio, que eu necessitava da sua caridade. Nessas alturas, dava-me
presentes, flores, lenços elegantes, sabonetes, cartões sentimentais. Dizia-me que se arrependia de
ser cruel comigo, tornava-se encantador por um período de tempo, fazia-me rir. Não sei explicar o
poder que a senhora Lark conseguia exercer. O Linden mostrava-lhe má cara e insultava-a pelas
costas.

139

Contudo, faria qualquer coisa que ela lhe pedisse. Cedia porque ela o forçava. E depois disso, como
sabe, adoeci gravemente.
Sim, disse o meu pai, eu recordo-me. Contraiu uma infeção bacteriana no hospital e foi transferida
para Fargo.
Contraí uma infeção do espírito, especificou Linda, num tom de retificação. Compreendi que
cometera um erro terrível. A minha família verdadeira veio em meu socorro, pôs-me de novo em
pé, prosseguiu ela. E a Geraldine também, é claro. O Doe Lafournais ajudou-me com a sua tenda de
sudação. Foi uma cerimónia tão poderosa. A voz de Linda soava nostálgica. E tão quente! O
Randall fez-me um banquete. As tias dele deram-me um vestido de fitas que elas mesmas tinham
costurado. Comecei a sarar e senti-me ainda melhor quando a senhora Lark morreu. Suponho que
não devia dizer isto, mas é a verdade. Depois de a mãe ter morrido, o Linden regressou ao Dakota
do Sul e não tardou a descarrilar de novo, segundo ouvir dizer.
Descarrilou?, inquiri. Que quer dizer com isso? Fez umas coisas, respondeu Linda. Que coisas?,
quis saber.
Atrás de mim, conseguia sentir a força do olhar do meu pai. Coisas pelas quais devia ter sido
apanhado, detido, sussurrou, e fechou os olhos.

140

Capítulo Sete
Anjo Um

Embora fosse frequente encontrá-lo na esquina da casa, sentado numa cadeira de cozinha amarela
já lascada, a olhar para a estrada, não era dessa forma que Mooshum passava os seus dias. Tratava-
se simplesmente de uma pausa para descansar os seus velhos e esqueléticos braços e pernas.
Mooshum afadigava-se com entusiasmo, dedicando-se a uma interminável rotina de atividades que
mudavam com as estações. No outono, obviamente, havia folhas para varrer. Vinham de todos os
lados para pousar no seu canteiro de relva enfezada. Chegava mesmo a apanhá-las com as mãos e a
atirá-las para um barril. Deliciava-se a deitar-lhes fogo. Havia um curto hiato depois da queda das
folhas e antes da chegada da neve. Durante esse tempo, Mooshum comia que nem um urso. A sua
barriga arredondava e as bochechas inchavam. Estava a preparar-se para os grandes nevões. Era
proprietário de duas pás. Um retângulo largo de plástico azul, que usava para a neve macia, e uma
pá prateada, funda e de cabo curto com a extremidade afiada para a neve compacta ou acumulada.
Também possuía um raspador de gelo, uma espécie de sacho com a folha plana ao invés de curva.
Afiava-a com uma lima até o gume estar tão vivo que facilmente cortaria um dedo.

141

O equipamento de batalha de Mooshum aguardava na porta das traseiras durante todo o mês de
outubro, pronto para ser usado Assim que a primeira neve caía, ele calçava as galochas. Clemence
colara-lhe papel de lixa, da mais áspera, às solas. Mais ou menos de duas em duas noites, mudava a
lixa e colocava as botas a secar no aquecedor. As galochas de Mooshum serviam-lhe por cima dos
mocassins guarnecidos a pele de coelho e das meias térmicas. Vestia calças de trabalho forradas
com flanela vermelha e uma parca acolchoada de um laranja fluorescente, que Clemence lhe
oferecera para que pudesse ser avistado caso se perdesse na neve. Luvas de pele de alce forradas
com pele de coelho e um gorro de malha azul com um pompom cor-de-rosa completavam o
conjunto. Saía todos os dias naqueles vistosos preparos e trabalhava com uma ferocidade acrescida.
Era como uma formiga, embora por vezes mal parecesse estar a mexer-se. No entanto, abria trilhos
com a pá até aos caixotes do lixo, limpava a neve não apenas dos caminhos em redor da casa como
também da rampa de entrada e das laterais dos degraus. Mantinha a terra e o cimento livres de neve
e nunca permitia que esta se acumulasse. Quando não se avistava neve recente, mas apenas o brilho
ofuscante do gelo, golpeava-o com a ajuda do letal raspador de gelo. Durante o tempo em que tudo
derretia mas o solo não podia ainda ser preparado para receber as sementes, voltava a comer
perseverantemente, recuperando a gordura que perdera na sua batalha de inverno.
Na primavera e no verão dedicava-se às ervas daninhas que cresciam com perversa alacridade, aos
animais oportunistas, aos insetos, às vicissitudes do tempo. Mooshum utilizava o cortador de relva
manual da mesma forma que muitas pessoas da sua idade usariam um andarilho, mas a verdade é
que a relva acabava minuciosamente cortada. Cuidava de uma extensa horta com um desvelo
invisível, exterminando grama, erva-formigueira e arrastando baldes de água para regar as
abóboras, uma vez mais sem parecer mover-se. Não prestava grande atenção ao jardim, mas
Clemence tinha um canteiro de framboesas que crescera de forma descontrolada e se misturara com
os arbustos de mirtilos. Quando as bagas começavam a amadurecer, Mooshum levantava-se de
madrugada para as defender. Como um espantalho vivo, sentava-se na sua cadeira amarela a
beberricar o chá da manhã.

142

Para afugentar os pássaros estendera também uma corda da roupa, na qual pendurara tampas de
latas. Furava as tampas com um martelo e um prego e atava-as suficientemente perto umas às
outras de modo a fazerem barulho com o vento. Fixava estas cordas tilintantes por todo o jardim, e
eu tinha sempre o cuidado de ver onde as colocara, pois as arestas das latas eram afiadas e um
rapaz que pedalasse pelo quintal com a cabeça no ar podia muito bem acabar degolado.
Por meio desta incessante e aparentemente quixotesca atividade, Mooshum mantinha-se vivo.
Quando ultrapassou os noventa anos, foram-lhe removidas as cataratas e uma nova prótese dentária
foi adaptada às suas gengivas mirradas. Os seus ouvidos continuavam bastante apurados. Ouvia tão
bem que se sentia incomodado pela vibração intermitente da máquina de costura de Clemence, ao
fundo do corredor, e pela mania do meu tio Edward de murmurar hinos fúnebres enquanto corrigia
os testes dos alunos. Certa manhã, pedalei até casa deles sob o calor de junho. Mooshum deu conta
da aproximação da minha bicicleta quando eu vinha ainda na estrada principal, mas a verdade é que
nessa altura prendera uma carta de jogar a um dos raios. Apreciava o divertido estrépito e, para
além disso, o ás de copas significava boa sorte. Qualquer pessoa me teria ouvido, mas ninguém
ficaria mais satisfeito do que Mooshum por me ver naquele momento. Emaranhara-se num extenso
pedaço de rede contra pássaros que tentava lançar por cima de um arbusto com bagas, embora não
estivessem nem remotamente maduras.
Encostei a bicicleta à casa e desenredei-o. Em seguida, voltei a dobrar a rede. Perguntei-lhe onde
estava a minha tia e por que razão o tinha deixado sozinho, mas ele mandou-me calar e respondeu
que Clemence estava em casa.
Ela não gosta que eu use a rede. Os pássaros enleiam-se nela e morrem, ou acabam sem as patas.
E assim era, pois, naquele momento, das dobras da rede arranquei uma diminuta pata de ave, a sua
minúscula garra ainda firmemente presa a um fio de plástico. Desprendi-a com cautela e mostrei-a
a Mooshum, que a examinou de perto e movimentou o queixo para a frente e para trás.

143

Deixa-me esconder isso, pediu ele.


Vou ficar com ela. Guardei a pata no bolso. Não digo nada à Clemence. Talvez me traga alguma
sorte. Estás a precisar de sorte?
Guardámos a rede na garagem e caminhámos até à porta das traseiras. O dia começava a aquecer e
estava quase na hora de Mooshurri fazer a sua sesta da manhã.
Sim, preciso de sorte, revelei a Mooshum. Sabe como estão as coisas. O meu pai castigara-me
durante três dias por ter saído de bicicleta sem deixar um bilhete. Permanecera em casa todo esse
tempo com a minha mãe. E havia ainda aquele fantasma que nunca chegara a compreender. Queria
perguntar a Mooshum o que significava.
Os olhos do meu avô encheram-se de lágrimas, mas não de compaixão. O Sol começava a ficar
ofuscante. Precisava dos óculos RayBan que o tio Whitey lhe oferecera no último aniversário. Tirou
um lenço desbotado e enrolado do bolso e levou-o às maçãs do rosto. Fios de cabelo pendiam-lhe
em redor da cara.
Existem formas melhores de ter sorte do que com a pata de uma ave, argumentou ele.
Entrámos. A minha tia, que se tinha aperaltado toda para ir limpar a igreja de sapatos altos, camisa
branca de folhos e calças de ganga justas, colocou de imediato um jarro de chá gelado e dois copos
sobre a mesa.
A minha vontade era desatar a rir e perguntar-lhe como planeava limpar a igreja de sapatos altos,
mas ela reparou que eu estava a olhar. Descalço-os, enrolo os pés em trapos e dou lustro ao chão,
retorquiu. Que é isto? Mooshum contraiu os lábios, descontente. O mesmo chá medicinal que bebes
todos os dias, pai. Toda a gente em redor de Mooshum desejava colher os louros pela sua
longevidade, e pelo facto de ainda possuir alguma vivacidade de espírito. Ou o que passava por
vivacidade de espírito, dizia Clemence quando ele a irritava. O aniversário do meu avô
aproximava-se e Mooshum afirmava que ia completar cento e doze anos. Clemence estava
especialmente concentrada em mantê-lo vivo para que pudesse desfrutar da festa. Os preparativos
estavam já em marcha.

144

Serve-me um pouco dessa água dos pântanos gelada, pediu-me Mooshum enquanto nos
sentávamos.
Pai! Isto dá-te energia.
Não preciso de mais energia. Preciso é de um sítio para meter a minha energia.
E que tal a avó Ignatia? Queria puxar-lhe pela língua.
Está toda seca.
É mais nova do que tu, contrapôs Clemence num tom de voz glacial. Vocês, os velhos, acham que
foram feitos para as raparigas novas. É esse o vosso problema.
É isso que me mantém vivo! Isso e o meu cabelo.
Mooshum tocou na comprida, lisa e rala juba branca que há anos deixava crescer. Clemence não
desistia de tentar entrançar-lhe ou prender-lhe o cabelo atrás da cabeça, mas ele preferia deixá-lo
cair em madeixas gordurosas de ambos os lados do rosto.
Oh, sim. Deu um gole no chá. Se, naquele tempo, o Louis Riel tivesse deixado o Dumont armar
uma emboscada à milícia, eu agora seria um primeiro-ministro aposentado. Aqui a Clemence podia
estar a governar a nossa nação índia, em vez de andar a limpar o chão do padre. Não teria tempo
para me obrigar a beber estes baldes intermináveis de sumo de galhos. Esta mistela entra-me por
um lado e sai-me pelo outro, meu rapaz. Ups! Ah, ah. É o que direi quando borrar as calças. Ups!
Nem te atrevas, ralhou Clemence. Fica com ele até eu voltar e certifica-te de que chega a tempo à
casa de banho. Garantiu que estaria de regresso por volta do meio-dia, o mais tardar uma hora.
Acenei com a cabeça e bebi o chá. Tinha um travo picante, a casca de árvore. Com Clemence
longe, podíamos tratar do que era importante. Primeiro que tudo precisava de saber do fantasma.
Depois necessitava de sorte. Perguntei a Mooshum acerca do fantasma e descrevi-o. Contei-lhe que
o mesmo fantasma havia aparecido a Randall.
Então, não é um fantasma, explicou Mooshum.
E o que é?
Alguém a lançar-te o seu espírito. Alguém que irás ver.
Pode ser o homem? Que homem?

145

Respirei fundo. O que magoou a minha mãe.


Mooshum anuiu e ficou imóvel, franzindo o sobrolho.
Não, não creio, disse por fim. Quando alguém lança o seu espírito, nem sequer sabe que o está a
fazer, mas o seu objetivo é ajudar. Durante semanas, mon père sonhou que aquele cavalo o pisou.
Por duas vezes, vi o anjo que veio buscar a minha Junesse. Tem cuidado.
Então, ajude-me a conseguir a sorte, pedi. Como devo começar?
Primeiro tens de ir ter com o teu doodem (Nota 21), respondeu Mooshum. Procura o teu ajijaak.
O meu pai e o pai dele pertenciam ao Ajijaak, ou clã do grou. Deviam ser líderes e possuir boas
vozes, mas não sabia muito mais para além disso. Disse-o a Mooshum.
Não faz mal. Vai já ao teu doodem e observa. Ele mostrar-te-á a sorte, Joe.
Bebeu o chá e fez uma careta. A seguir, a sua cabeça inclinou-se em direção ao peito e tombou no
sono instantâneo dos muito antigos e dos muito jovens. Ajudei-o a levantar-se e, com os olhos
fechados, deixou-se conduzir ao catre na sala de estar, onde dormitava durante o dia, mesmo ao
lado da janela panorâmica. Fora aí colocado para que, ao acordar, pudesse contemplar o céu quente
e eterno.
Quando Clemence regressou a casa, peguei na bicicleta e pedalei até um pântano nos arredores da
povoação. Era pouco fundo em redor das margens e já ali avistara uma garça-real da última vez que
lá estivera. Todas as garças-reais, grous e outras aves lacustres eram o meu doodemag, a minha
sorte. Havia um pontão de tábuas pardacentas, algumas já desaparecidas. Deitei-me na madeira
quente e o sol penetrou-me nos ossos. Ao início não vi nenhuma garça-real. Logo em seguida, dei-
me conta de que o canavial que observava ocultava uma garça. Fitei-a. Não se movia. Depois,
rápida como um raio, já tinha um pequeno peixe no bico, que cuidadosamente engoliu. A garça
voltou a imobilizar-se, desta vez numa só perna. Começava a ficar impaciente à espera de que a
sorte mostrasse o seu rosto.
Okay, disse, onde está a sorte?

Nota 21 - «Totem», «clã». [N. da T.)

146

Estendendo as suas compridas e pontiagudas asas, elevou-se no ar e voou até à margem oposta do
lago, onde ficava a casa redonda, assim como a escarpa e o declive, um local onde gostávamos de
nadar. Os ventos predominantes empurravam as ondas, o lixo e a deslizante espuma para aquela
margem do lago. Dececionado, virei-me, abeirei-me do espaço deixado vago por uma tábua e olhei
para o reflexo projetado pelo pontão na água límpida do lago. Costumava haver ali pequenas
percas, alfaiates, girinos e às vezes até uma ou outra tartaruga. Dessa vez, o rosto de uma criança
olhava-me fixamente da água. Assustador, todavia percebi de imediato que se tratava de uma
boneca, uma boneca de plástico afundada no lago e com os olhos abertos. Tinha um sorriso afetado,
como se guardasse um segredo, olhos azuis com pequenas centelhas na íris que refletiam a luz do
Sol. Levantei-me de um salto, dei meia volta e depois ajoelhei-me de novo para inspecionar com
mais atenção. Ocorreu-me nesse instante que, se havia ali um brinquedo, podia também haver uma
criança agarrada a ele, e essa criança podia estar presa por baixo do pontão. Uma nuvem ocultou o
Sol. Pensei em ir buscar Cappy, mas a curiosidade levou a melhor e acabei por voltar a olhar,
espreitando pelas falhas entre as tábuas. Só lá estava a boneca. Flutuava pacificamente no lago
envergando um vestido de xadrez azul e branco, cuecas com folhos e aquele sorriso travesso. Assim
que me certifiquei de que não estava acompanhada de nenhuma criança, pesquei a boneca e agitei-a
para que a água saísse pela linha de junção entre a cabeça e o corpo de plástico moldado. Arranquei
a cabeça da boneca para despejar o resto da água, e ali estava a minha sorte. Ali mesmo. A boneca
estava recheada de dinheiro.
Voltei a encaixar a cabeça na boneca. Olhei em redor. Tudo calmo. Não se via ninguém. Tirei a
cabeça e examinei-a mais atentamente. No seu interior vi notas muito bem enroladas. Disse para os
meus botões que deviam ser notas de um dólar. Cem, talvez duzentas. Trazia a mochila pendurada
atrás do selim da bicicleta. Guardei a boneca no seu interior e pedalei até à bomba de gasolina.
Enquanto pedalava, refleti sobre a minha sorte: estava associada a um sentimento de culpa. Presumi
que a pessoa que escondera o dinheiro na boneca era uma rapariga, talvez alguém que eu conhecia.

147

As poupanças da sua vida, notas arrebanhadas aqui e ali, dinheiro de pequenos trabalhos prendas de
aniversário, dólares oferecidos por tios bêbedos. Tudo o que possuía encontrava-se naquela boneca,
e perdera-a. Pensei que talvez a minha sorte pudesse ser apenas temporária. Iria aparecer algum
anúncio lastimoso colado algures ou até mesmo uma notícia no jornal, uma mensagem desesperada
descrevendo a boneca e solicitando a sua devolução.
Quando cheguei à bomba de gasolina, encostei a bicicleta junto à porta e escondi a boneca por
baixo da camisa. Sonja atendia um cliente. Observei o quadro de informações. Havia anúncios a
oferecer sémen de touro, cachorros de lobos, equipamentos de som que já não funcionavam,
fotografias e descrições otimistas de cavalos pintos e quarto-de-milha, e de carros em segunda mão.
Nada de bonecas. O cliente lá acabou por ir embora. Eu continuava a segurar a boneca por baixo da
camisa.
Que trazes aí?, inquiriu Sonja.
Uma coisa que só posso mostrar-te em privado.
Já ouvi essa antes.
Sonja soltou uma gargalhada e eu enrubesci. Chega aqui.
Passei para trás do balcão e entrei numa minúscula divisão que ela chamava de gabinete. No exíguo
espaço cabia apenas uma secretária de metal, uma cadeira e um candeeiro. Tirei a boneca do seu
esconderijo.
Que estranho, comentou Sonja.
Arranquei-lhe a cabeça.
Raios partam!
Sonja fechou a porta do gabinete. Usou as suas compridas unhas cor-de-rosa para puxar um rolo de
notas pelo pescoço da boneca. Depois desenrolou algumas. Eram notas de cem dólares. Voltou a
enrolá-las firmemente e introduziu-as na boneca, à qual devolveu a cabeça. Saiu, fechando a porta,
e foi buscar três sacos de plástico. Regressou e envolveu a boneca num dos sacos, depois meteu
esse saco num outro e utilizou o terceiro para levar tudo. Olhava-me fixamente na penumbra do
gabinete. Os seu olhos eram redondos e de um azul tão escuro como a chuva.

148

As notas estão molhadas. A boneca estava no lago. Foste visto a tirá-la da água? Alguém te viu com
a boneca?
Não.
Sonja tirou da gaveta a bolsa de lona que usava para os depósitos. Sabia da existência da bolsa
porque ela levava o dinheiro para o banco duas vezes por dia. Um letreiro junto à caixa registadora
avisava: «Não Há Dinheiro Neste Estabelecimento!» Outro logo ao lado dizia: «Sorria, Está a Ser
Filmado.» O facto de a câmara ser falsa era um grande segredo. Da gaveta tirou ainda uma caixa de
metal cor de bronze, tipo cofre, que se fechava com uma pequenina chave. Pensou por instantes e
foi buscar uma pilha de envelopes comerciais brancos, que guardou dentro da caixa metálica.
Onde está o teu pai?
Em casa.
Sonja marcou o número de casa e indagou:
Há problema se eu levar o Joe a fazer uns recados? Regressamos ao fim da tarde.
Onde vamos?, quis saber.
Primeiro a minha casa.
Levámos a boneca no saco de plástico, a bolsa dos depósitos e a caixa de metal para o carro. Sonja
deu um beijo a Whitey ao passar por ele e informou-o de que ia fazer um depósito e comprar-me
algumas roupas. O que pretendia era dar a entender que fazia comigo as coisas que a minha mãe
teria feito se estivesse em condições de se levantar da cama e sair.
Está bem, concordou Whitey, e despediu-se com um aceno de mão.
Sonja certificava-se sempre de que eu colocava o cinto de segurança e viajava em segurança.
Possuía um velho Buick sedan, que Whitey mantinha em perfeito funcionamento, e era uma
condutora cuidadosa, embora fumasse, sacudindo a cinza para um pequeno e sujo cinzeiro retrátil.
O resto do carro estava impecavelmente aspirado. Saímos da povoação e virámos para a estrada que
levava à velha casa, passando pelos cavalos no terreno de pastagem, que levantaram a cabeça e se
aproximaram. Deviam conhecer o barulho do carro. Os cães esperavam em frente à casa. Eram
irmãs de Pearl — Ball e Chain.

149

Tinham ambas o pelo negro, olhos amarelos flamejantes e manchas castanhas de coelho-bravo
espalhadas pelo pescoço e peja cauda. O macho, Big Brother, fugira há cerca de um mês.
Whitey havia instalado uma escadaria e um alpendre na parte da frente da casa. Eram de madeira
tratada, que ainda não perdera o tom esverdeado. A casa era azul-clara. Sonja afirmava que a
pintara nesse tom de azul por causa do nome da cor: Perdido no Espaço. O rebordo era de um
branco-vivo, mas a contraporia de alumínio e a robusta porta interior de madeira maciça estavam
velhas e gastas. No interior, a casa estava fresca e quase às escuras. Cheirava a detergente Pine-Sol
e a abrilhantador de limão, a cigarros e a peixe frito. Havia quatro divisões pequenas. O quarto
exibia uma cama de casal meio afundada, coberta com um edredão de flores, e a janela dava para a
pastagem inclinada e para os cavalos. O pinto e o appaloosa haviam-se aproximado do arame na
extremidade do quintal. Spook relinchou, um relincho de amor. Segui Sonja até ao quarto. Quando
abriu o armário, senti um aroma a perfume. Virou-se com um ferro de engomar na mão e ligou-o à
parede, junto à tábua de engomar. Esta encontrava-se aberta diante da janela, de onde podia
contemplar os cavalos. Sentei-me na beira da cama, arranquei a cabeça à boneca e passei as notas a
Sonja, umas atrás das outras. Engomou-as com cuidado até estarem lisas e secas, verificando a
temperatura da parte inferior do ferro com o dedo de quando em vez. Eram todas notas de cem
dólares. Ao início, colocámos cinco notas em cada envelope, fechámos a aba, sem a colarmos, e
pusemos os envelopes sobre a cama. Depois começámos a ficar sem envelopes e fomos obrigados a
enchê-los com dez notas. Depois vinte. Sonja deu-me uma pinça, e eu puxei as últimas notas dos
pulsos e dos tornozelos da boneca. Utilizou uma lanterna para examinar o pescoço da boneca. Por
fim, coloquei a cabeça de novo no sítio.
Guarda-a de volta no saco, ordenou Sonja.
Limpou a testa e o lábio superior com a parte interior do pulso. Tinha a cara coberta de suor,
embora ainda nem sequer estivesse quente dentro de casa.
Agitou os braços para cima e para baixo e deu palmadinhas nas axilas.

150

Ufa! Vai à cozinha e traz-me um pouco de água. Tenho de mudar de camisa.


Dirigi-me à cozinha e abri o frigorífico. O poço da quinta tinha água doce. Sonja mantinha sempre
um jarro dela fresca. Deitei água num copo Pabst Blue Ribbon — colecionavam copos de cerveja
— e bebi-a. Depois enchi-o de novo para Sonja. Suponho que desejava que ela bebesse do mesmo
copo que eu, embora não estivesse de facto a pensar nisso. Pensava na quantidade de dinheiro que
havia nos envelopes. Regressei ao quarto e Sonja já tinha vestido uma camisa lavada, às riscas cor-
de-rosa e cinzentas, que alargavam junto ao peito. A camisa tinha um colarinho branco e rígido e
uma pequena fila com botões. Bebeu a água.
Ufa, suspirou.
Guardámos os envelopes no saco do depósito e este na caixa de alumínio. Sonja foi à casa de
banho, penteou-se e arranjou-se. Não fechou a porta por completo, e eu fiquei sentado na cozinha a
olhar para a parede da casa de banho. Quando saiu, trazia os lábios pintados de um cor-de-rosa que
combinava na perfeição com o verniz das unhas e com as riscas da camisa. Dirigimo-nos para o
carro. Sonja levava a boneca dentro do saco de plástico. Trancou-a na bagageira.
Vamos ver umas quantas contas-poupança para poderes continuar os teus estudos, informou ela.
Primeiro fomos a Hoopdance, onde nos mandaram passar para o outro lado dos caixas e falar com o
gerente do banco. Sonja explicou que desejava abrir-me uma conta, uma conta-poupança, e
assinámos ambos uns cartões enquanto a mulher preenchia a caderneta bancária em meu nome,
com Sonja como cotitular. Sonja entregou-lhe três dos envelopes, e a mulher lançou-lhe um olhar
inquisitivo.
Venderam-lhe as terras, explicou Sonja, encolhendo os ombros.
A mulher contou o dinheiro e anotou a quantia na caderneta. Guardou-a num pequeno envelope de
plástico e passou-mo para a mão, sem hesitar.
Saí com a caderneta e fomos de carro até ao outro banco de Hoopdance, onde fizemos exatamente a
mesma coisa. Só que, dessa vez, Sonja mencionou um ganho avultado ao bingo.
Isso é que foi sorte, comentou o gerente.

151

Continuámos e dirigimo-nos a Argus. Num dos bancos, Sonja explicou que eu herdara dinheiro de
um tio senil. Noutro fez alusão uma corrida de cavalos. Depois voltou à sorte ao bingo. Demorámos
a tarde toda naquilo, atravessando prados verdes e terras de cultivo que começavam a dar frutos.
Sonja parou o carro numa área de descanso à beira da estrada e abriu a bagageira. Tirou a boneca
em-brulhada nos sacos de plástico e enfiou-a no caixote do lixo. Depois parámos na cidade seguinte
e comprámos hambúrgueres e batatas fritas. Sonja não me deixou beber Coca-Cola, mas achou que
um refrigerante de laranja me faria melhor à saúde. Pouco me importava. Sentia-me tão feliz por
estar num carro onde Sonja tinha de prestar atenção à estrada e eu podia admirar de relance os seios
dela, alargando aquelas riscas, antes de olhar para o seu rosto. De cada vez que falava com ela,
observava-lhe os seios. Levava a caixa do dinheiro no colo e deixei de pensar no dinheiro como
dinheiro, mas, no final, de regresso a casa, depois de já termos depositado todo o dinheiro,
examinei cada uma das cadernetas e somei de cabeça os valores. Disse a Sonja que eram mais de
quarenta mil dólares.
Era uma boneca do tamanho de um bebé, observou. Porque é que não podemos ficar ao menos com
uma nota?, inquiri. Assim que pensei nisso, fiquei dececionado.
Muito bem, disse Sonja. O problema é o seguinte. De onde saiu aquele dinheiro? Os donos hão de
querê-lo de volta. Serão capazes de matar para o recuperar, entendes o que estou a dizer? Não posso
contar a ninguém. É óbvio.
Mas serás capaz de o fazer? Nunca conheci um homem capaz de guardar um segredo.
Eu sou.
Mesmo do teu pai?
Claro.
Mesmo do Cappy?
Percebeu a minha hesitação antes de responder.
Também lhe cairiam em cima, afirmou. Talvez até o matassem. Por isso, cala o bico bem caladinho.
Pela tua mãe.
Ela sabia o que dizia. Sabia-o sem necessidade de ver as lágrimas que me marejavam os olhos.
Pestanejei.

152

Está bem, prometo.


Temos de enterrar as cadernetas.
Virámos para um caminho de terra e continuámos até chegar a árvore que as pessoas apelidavam de
«árvore dos enforcados» - um enorme carvalho. O sol banhava-lhe os ramos. Havia bandeiras
oração e tiras de tecido. Vermelhas, azuis, verdes, brancas, as ancestrais cores anishinaabe dos
pontos cardeais, segundo Randall. Algumas das tiras estavam desbotadas, outras eram novas.
Aquela a árvore onde os nossos antepassados tinham sido enforcados. Nenhum dos assassinos
alguma vez enfrentou a justiça. Avistava as terras dos seus descendentes, já repletas de fileiras
cultivadas. Sonja tirou o raspador de gelo do porta-luvas e colocámos as cadernetas na caixa
metálica. Guardou a chave no bolso da frente das calças de ganga.
Recorda esta data.
Era dia 17 de junho.
Seguimos a linha do Sol no horizonte e desde o local onde o astro se punha caminhámos em linha
reta cinquenta passos até ao interior do bosque. Demorámos o que me pareceu uma eternidade a
cavar um buraco fundo o suficiente para a caixa utilizando apenas o raspador de gelo. Todavia,
enterrámos a caixa, tapámo-la com torrões e espalhámos algumas folhas por cima.
Invisível, comentei.
Temos de lavar as mãos, afirmou Sonja.
Havia um pouco de água na valeta. Utilizámo-la.
Entendo que não podemos contar a ninguém, disse eu no caminho para casa. Mas queria uns ténis
como os do Cappy.
Sonja olhou de relance para mim e quase me apanhou a fitar o perfil dos seus seios.
Pois, retorquiu. E como ias explicar onde arranjaste o dinheiro para os comprar?
Dizia que tinha conseguido um emprego na bomba de gasolina.
Sorriu.
Queres trabalhar lá?
Fui invadido por uma sensação de felicidade tão grande que mal consegui falar. Até àquele
momento não me havia dado conta do quanto desejava sair de casa e ao muito que ansiava por
trabalhar num lugar onde pudesse ver e falar com outras pessoas, com pessoas normais que
passavam por ali, pessoas que não estivessem a morrer à frente dos meus olhos.

153

Assustou-me pensar subitamente daquela maneira.


Quero, sim, foda-se!, respondi.
Não digas palavrões no trabalho, ralhou Sonja. Representas algo.
Está bem. Avançámos mais alguns quilómetros. Perguntei-lhe o que representava.
O mercado livre sedeado na reserva. As pessoas estão de olho em nós.
Quem?
Os brancos. Refiro-me aos brancos ressentidos, entendes? Como aqueles Lark, que eram donos da
Vinland. O tipo apareceu lá na bomba, mas foi simpático para mim. Não é assim tão mau. O
Linden? Sim, esse.
E melhor teres cuidado com ele, alertei. Ela soltou uma gargalhada.
O Whitey detesta-o. Quando sou simpática com ele, fica doido de ciúmes.
E porque é que queres fazer ciúmes ao Whitey? De súbito, também eu estava cheio de ciúmes. Riu
novamente e explicou que Whitey precisava de ser posto no seu lugar. Pensa que é meu dono. Ah.
Fiquei atrapalhado, mas ela fitou-me com um olhar penetrante, acompanhado de um sorriso
malicioso igual ao da boneca. Depois desviou o olhar, continuando a sorrir com um regozijo
maníaco.
Pois. Acha que sou propriedade dele. Mas em breve descobrirá que não é assim, hã? Tenho razão?
Soren Bjerke, agente especial do FBI, era um sueco esgalgado e impassível com a pele e o cabelo
da cor do trigo, nariz afiado e orelhas grandes. Nunca se lhe conseguia ver muito bem os olhos por
trás dos óculos: as lentes estavam sempre sujas, creio que de propósito.

154

Era dono de umas faces descaídas, semelhantes às de um cão, e exibia um sorriso modesto e tímido.
Fazia poucos movimentos. O modo como ficava perfeitamente imóvel e vigilante lembrava-me um
ajijaak As suas mãos nodosas repousavam imóveis sobre a mesa da cozinha quando entrei. Detive-
me no limiar da porta. O meu pai levava duas canecas de café para a mesa. Percebi que
interrompera qualquer coisa entre eles. As minhas pernas fraquejaram de alívio quando me dei
conta de que eu não era a razão da visita de Bjerke.
Fosse como fosse, o facto de Bjerke se encontrar ali remontava à decisão Ex Parte Crow Dog (Nota
22) e posteriormente ao Major Crimes Act de 1885. Foi nessa altura que o Governo federal
interveio pela primeira vez nas decisões que os índios tomavam entre si em questões de
indemnização e castigos. Os motivos da presença de Bjerke prolongaram-se desde 1953, um ano
maldito para os índios, quando o Congresso não só decidiu levar avante a Termination Policy (Nota
23) como aprovou também a Public Law 280, que concedia a determinados estados jurisdição civil
e criminal sobre os territórios índios situados dentro das suas fronteiras. Até aos dias de hoje, se
houvesse uma lei que, para os índios, devesse ser revogada ou corrigida, essa lei seria a Public Law
280. Todavia, na nossa reserva em particular, a presença de Bjerke era uma afirmação da nossa
inoperante soberania. Se leu até aqui, sabe que estou a escrever esta história com a distância dos
anos que passaram desde aquele verão de 1988, em que a minha mãe se recusou a descer as escadas
e a falar com Soren Bjerke. Agredira-me e atemorizara o meu pai. Flutuara para longe, e não
sabíamos como recuperá-la. Li algures que determinadas recordações registadas em momentos de
agitação numa idade vulnerável não se extinguem com o tempo, fixando-se cada vez mais na
memória à medida que regressam uma e outra vez. Contudo, para ser sincero, naquele momento,
em 1988, enquanto olhava para o meu pai e para Bjerke, sentados à mesa da cozinha, o meu
cérebro continuava recheado de dinheiro, à semelhança da cabeça daquela boneca de olhar travesso
manufaturado.

Nota 22 - Caso de 1883 em que o Supremo Tribunal dos EUA decidiu por unanimidade que, sem
autorização do Congresso, os tribunais federais não possuíam jurisdição para julgar casos de
homicídio ocorridos numa reserva e já julgados pelo tribunal tribal. Tal conduziu ao Major Crimes
Act de 1885, uma lei que veio colocar sob a jurisdição federal sete crimes graves cometidos por um
índio contra outro em território tribal. (N. da T.)
Nota 23 - Política seguida entre 1940 e 1960 segundo a qual se pretendia integrar os índios
americanos na sociedade dominante, extinguindo as reservas e concedendo aos índios os mesmos
direitos de que os cidadãos dos EUA desfrutavam. (N. da T.)

155

Passei por Bjerke e dirigi-me à sala de estar, mas não me apetecia subir ao andar de cima. Não
queria passar em frente à porta fechada do quarto da minha mãe. Não queria saber que estava ali
deitada, a respirar lá dentro, e, com o seu sofrimento constante, a sugar toda a animação que eu
sentia por ter encontrado o dinheiro. Uma vez que não queria passar diante da porta da minha mãe,
dei meia volta e regressei à cozinha. Tinha fome. Permaneci na soleira da porta, hesitante, até que
ambos os homens se calaram.
Talvez queiras um copo de leite, sugeriu o meu pai. Vai buscar um copo e senta-te. A tua tia fez-nos
um bolo.
Havia um bolo pequeno e redondo de chocolate sobre a bancada. O meu pai apontou para o bolo.
Cuidadosamente, cortei quatro fatias e coloquei-as em pires com um garfo ao lado. Levei três fatias
para a mesa. Enchi um copo com leite.
Mais tarde levo-a à tua mãe, declarou o meu pai, apontando com o queixo para a última fatia de
bolo.
Assim, sentei-me com os homens. E percebi que tinha cometido um erro. Sentado na companhia
deles, sabia que a verdade acabaria por me apanhar. Não a verdade acerca do jerricã de gasolina.
Numa pausa na conversa em que pareciam esperar que eu falasse, atirei essa, nervosamente,
perguntando se podia constituir uma prova.
Sim, respondeu Bjerke. O seu olhar imutável trespassou a sujidade das lentes dos óculos. Faremos
um depoimento por escrito. Tudo a seu tempo. Se tivermos caso.
Sim, senhor. Bem, acrescentei, reunindo toda a minha coragem, talvez seja melhor fazê-lo agora.
Antes que me esqueça. Ele é do tipo esquecido?, indagou Bjerke. Não, retorquiu o meu pai.
Ainda assim, acabei a falar para um pequeno gravador e a assinar um papel. Depois seguiram-se
umas perguntas bem-intencionadas sobre as minhas atividades naquele verão, o muito que crescera
e a que desportos planeava dedicar-me no liceu. Luta livre, afirmei.

156

Esforçaram-se por não se mostrar céticos. Ou talvez corta-mato? parecia mais credível. Percebi que
ambos os homens estavam satisfeitos com a minha presença e com o facto de esta afugentar um
profundo, sombrio e embaraçoso silêncio entre eles, que, recordando agora esse dia e esse
momento, devia ter origem no impasse em que se viam metidos. Haviam ficado sem ideias e não
tinham suspeitos nem pistas fiáveis, e nem a menor ajuda por parte da minha mãe, que entretanto
afirmava ter-se esquecido do sucedido. O dinheiro continuava a impelir-me a falar, a revelar.
Há uma coisa, declarei.
Pousei o garfo e olhei para o prato vazio. Apetecia-me outra fatia, desta vez com gelado. Ao mesmo
tempo, tinha uma sensação de mal-estar em relação ao que me preparava para fazer e ocorreu-me
que poderia nunca mais voltar a comer.
Uma coisa?, repetiu o meu pai. Bjerke limpou a boca.
Havia uma pasta, revelei.
Bjerke baixou o guardanapo. O meu pai lançou-me um olhar perscrutador por cima da armação dos
óculos.
O Joe e eu consultámos todos os processos, disse o meu pai para Bjerke, com a intenção de explicar
a minha inesperada observação. Esquadrinhámos todos os possíveis casos judiciais em que alguém
poderia...
Não é esse tipo de pasta, salientei.
Os dois homens anuíram pacientemente com a cabeça. Depois reparei que o meu pai se deu conta
de que eu me preparava para revelar uma coisa que ele desconhecia. Baixou a cabeça e fitou-me. O
polvo dourado fazia tiquetaque na parede. Respirei fundo e, quando falei, sussurrei de um modo
infantil, que de imediato considerei vergonhoso, mas que lhes prendeu a atenção.
Por favor não contes à mãe que eu disse isto. Por favor.
Joe, disse o meu pai. Retirou os óculos e colocou-os sobre a mesa.
Por favor?
Joe.
Está bem. Na tarde em que a mãe foi ao escritório, recebeu um telefonema. Quando desligou,
percebi que estava aborrecida. Depois, cerca de uma hora mais tarde, disse que tinha de sair para ir
buscar uma pasta.

157

Uma semana depois, lembrei-me da pasta e perguntei-lhe se a tinham encontrado. Ela garantiu-me
que não havia pasta nenhuma. Disse que eu não devia nunca mencionar a existência de uma pasta.
Mas havia uma pasta. Ela foi buscá-la. Essa pasta explica o que aconteceu.
Parei de falar e fiquei de boca aberta. Entreolhámo-nos que nem três palermas com migalhas nos
queixos.
Não é só isso, declarou o meu pai subitamente. Não é só isso que sabes.
Inclinou-se sobre a mesa de um modo que era só seu. Agigantava-se, parecia crescer. Pensei
primeiro no dinheiro, claro, mas não estava disposto a renunciar ao meu achado e, de qualquer
maneira, falar nisso implicaria denunciar Sonja, e não seria capaz de atraiçoá-la. Tentei dar pouca
importância ao assunto.
É só isso, repliquei. Não sei mais nada. Todavia, o meu pai crescia ameaçadoramente. Assim,
acabei por revelar um segredo menor, que é por vezes a melhor maneira de satisfazer alguém que
sabe, e que sabe que sabe, como o meu pai sabia naquele momento. Pronto, está bem.
Bjerke inclinou-se também. Empurrei a cadeira para trás de forma um pouco descontrolada.
Tem calma, aconselhou o meu pai. Conta-nos apenas o que sabes. No dia em que fomos à casa
redonda e encontrámos o jerricã de gasolina... Bom, também lá encontrámos outra coisa. Do outro
lado da vedação, perto da margem do lago. Havia uma geleira e uma pilha de roupas. Não tocámos
nas roupas. E a geleira?, perguntou Bjerke. Bem, acho que a abrimos. E o que continha?, quis saber
o meu pai. Latas de cerveja.
Preparava-me para dizer que estavam vazias, mas depois olhei para o meu pai e percebi que negá-lo
era indigno de mim e uma mentira iria envergonhar-nos a ambos diante de Bjerke. Dois pacotes de
seis, acrescentei.
Bjerke e o meu pai olharam um para o outro, assentiram e voltaram a ocupar as respetivas cadeiras.

158

E assim, sem mais nem menos, traí os meus amigos para esconder o episódio do dinheiro. Fiquei
atordoado com a rapidez com que tudo se havia passado. Também fiquei impressionado com a
forma como a minha confissão encobria na perfeição os quarenta mil dólares que naquele dia
escondera em lugar seguro com a ajuda de Sonja. Ou sob as suas ordens. Na verdade, limitara-me a
ajudá-la. A ideia partira da cabeça dela. Fora ela quem não contara nada ao meu pai ou à polícia.
Sonja era adulta, por isso, em teoria, responsável pelo que tinha acontecido nesse dia. Podia sempre
refugiar-me nisso, pensei, e o facto de ter tido essa ideia surpreendeu-me, para logo em seguida me
humilhar a tal ponto que, sentado diante do meu pai e de Bjerke, comecei a suar em bica e senti o
coração disparar e um nó na garganta.
Levantei-me de um pulo.
Tenho de ir!
Ele cheirava a cerveja?, escutei o meu pai indagar.
Não, respondeu Bjerke.
Tranquei-me na casa de banho, de onde conseguia ouvi-los falar. Se houvesse ali uma janela fácil
de abrir, teria fugido por ela. Abri a torneira e murmurei algumas palavras sem me olhar
deliberadamente ao espelho.
Quando saí e regressei à mesa, vi um papel ao lado do meu prato e do meu copo vazios.
Lê, ordenou o meu pai.
Sentei-me. Era uma citação, embora apenas em rascunho. Consumo de álcool por menores. Havia
também uma referência a uma ordem de detenção de menores.
Devo citar também os teus amigos?
Eu bebi as cervejas sozinho. Fiz uma pausa. Ao longo do tempo.
E onde posso encontrar as latas?, quis saber Bjerke.
Já não existem. Esmaguei-as. Deitei-as fora. Eram Hamm's.
Bjerke pareceu não dar importância à marca. Nem sequer tomou nota.
Essa zona estava a ser vigiada, revelou. Tínhamos conhecimento da geleira e das roupas, mas não
pertencem ao agressor. O Bugger Pourier regressou de Minneapolis para visitar a mãe moribunda.
Ela correu com ele de casa, como de costume, e ele foi instalar-se ali.

159

Esperávamos que voltasse para buscar as cervejas. Mas, pelos vistos tu chegaste primeiro.
Disse-o num tom distante, mas de alguma forma compreensivo e senti a minha cabeça começar a
flutuar com a descida súbita dos níveis de adrenalina. Levantei-me novamente e recuei com o papel
da citação nas mãos.
Lamento, senhor agente. Eram Hamm's. Achámos... Continuei a recuar até alcançar a porta e depois
dei meia volta. Apático, subi as escadas. Passei diante da porta da minha mãe sem ver como ela
estava. Entrei no meu quarto e fechei a porta. O quarto dos meus pais ficava em frente às escadas e
possuía três janelas que normalmente deixavam entrar os primeiros raios de sol da manhã. A casa
de banho e o quarto da costura ocupavam pequenos espaços de cada lado das escadas. O meu
quarto, na parte traseira da casa, apanhava a luz dourada do pôr do Sol e, em especial no verão, era
reconfortante estar deitado na cama e observar as radiosas sombras percorrendo as paredes.
Estavam pintadas de um amarelo suave. A minha mãe pintara-as durante a gravidez e explicava
sempre que tinha escolhido aquela cor porque se adequaria tanto a um rapaz como a uma rapariga,
mas que a meio da pintura já sabia que ia ter um menino. Sabia-o porque, de cada vez que
trabalhava no quarto, uma garça passava a voar diante da janela, era o doodem do meu pai, como já
referi. O clã da minha mãe era a tartaruga. O meu pai garantia que ela fizera com que a tartaruga-
mordedora que havia apanhado no seu primeiro encontro o assustasse a ponto de a pedir em
casamento sem demora. Só mais tarde fiquei a saber que tinham pescado a mesma tartaruga em
cuja carapaça o primeiro namorado da minha mãe gravara as iniciais de ambos. Esse rapaz havia
morrido, contou-me Clemence. A mensagem da tartaruga falava de mortalidade. Dizia ao meu pai
que devia agir com celeridade face à morte. A medida que a luz deslizava pelas paredes abaixo,
transformando o amarelo suave num tom de bronze profundo, pensei na horrível boneca e no
dinheiro. Pensei no seio esquerdo e no seio direito de Sonja, que, segundo concluí após uma
contínua e furtiva observação, eram um pouco diferentes, e perguntei-me se algum dia chegaria a
saber exatamente em quê.
160

Pensei no meu pai sentado na melancolia crescente da cozinha e na minha mãe no quarto negro
com as persianas corridas contra o amanhecer do dia seguinte. Reinava na reserva aquele silêncio
que se instala entre o crepúsculo e a escuridão da noite no verão, antes de as carrinhas de caixa
aberta começarem o seu giro entre os bares, o alão de baile e o drive-in da loja de bebidas. Os
ruídos pareciam abafados. Um cavalo relinchou por entre as árvores. Ao longe escutou-se o choro
curto e zangado de uma criança sendo arrastada para dentro de casa, o zumbido de um motor
distante a descer a colina da igreja. A minha mãe nunca percebera que as garças são aves muito
previsíveis e que param de buscar alimento a uma determinada hora para regressarem aos seus
ninhos. Naquele momento, a garça que a minha mãe costumava observar, ou uma das suas crias,
passava lentamente diante da minha janela. Nessa noite não projetou na minha parede a sua própria
imagem, mas sim a de um anjo. Observei a sua sombra. Por meio de uma refração do brilho, as asas
arquearam-se a partir do corpo esguio. Depois as penas incendiaram-se e a criatura foi consumida
pela luz.

161

<Página em branco>

Capítulo Oito A Tentação de Q


O trabalho da minha mãe era conhecer os segredos de toda a gente. Os registos do censo original,
realizados na área que viria a tornar-se a nossa reserva, remontam a 1879 e incluem uma descrição
de cada família por tribo, por vezes por clã, por ocupação, afinidade, idade e nome original na
nossa língua. Naquela época, também já muita gente havia adotado nomes franceses ou ingleses ou
tinha sido batizada e recebido o nome de um santo católico. Competia à minha mãe analisar as
ramificações cada vez mais complexas de cada linhagem. Ao longo das gerações, fomo-nos
convertendo numa floresta impenetrável de nomes e relações. Na extremidade de cada ramo
encontram-se as crianças, é claro, as acabadas de registar pelos seus progenitores, ou às vezes por
uma mãe ou um pai solteiros; no espaço em branco, o nome do outro progenitor, cuja identidade, se
viesse a lume, sacudiria os ramos de outras árvores. Filhos de incestos, de abusos sexuais,
violações, adultério, fornicação para lá das fronteiras da reserva ou dentro delas, filhos de
lavradores brancos, banqueiros, freiras, superintendentes do BIA, agentes de polícia e padres. A
minha mãe guardava os ficheiros trancados num cofre. Mais ninguém sabia a combinação. Uma
pilha de pedidos de registo atrasados amontoava-se entretanto no seu gabinete.

163

O agente especial Bjerke encontrava-se na nossa cozinha na manhã seguinte para abordar o
problema de como interrogar a minha mãe sobre aquela pasta em particular.
Ajudaria se viesse uma mulher? Para conversar... Posso mandar chamar uma agente do gabinete de
Minneapolis.
Não creio.
O meu pai remexia na bandeja que havia preparado com o pequeno-almoço da minha mãe: um ovo
estrelado da maneira como ela gostava, uma torrada com pouca manteiga e uma pincelada da
compota de framboesas de Clemence. Já lhe tinha levado um café com natas e animara-se ao ver
que ela se sentara na cama para beber um pouco.
Subi com a bandeja e coloquei-a numa das cadeiras junto à cama. Ela pousara a chávena do café e
fingia dormir - percebi pela ínfima tensão no seu corpo e pela fingida respiração profunda. Quiçá
soubesse que Soren Bjerke regressara, ou talvez o meu pai já lhe tivesse dito alguma coisa sobre a
pasta. Devia sentir-se traída por mim. Não fazia ideia se alguma vez me perdoaria, e saí do quarto
desejando poder ir diretamente para junto de Sonja e de Whitey e bombear gasolina sob o tórrido
sol ou lavar para-brisas ou esfregar os nojentos sanitários. Tudo menos voltar ali acima, ao quarto.
O meu pai disse que era importante que eu estivesse presente para que ela não pudesse negar o
sucedido.
«Temos de vencer a resistência dela», foi como o enunciou, e eu senti um pavor deprimente.
Subimos os três. Primeiro o meu pai, depois Bjerke e eu por último. O meu pai bateu antes de
entrar, e Bjerke, olhando para os pés, aguardou do lado de fora na minha companhia. O meu pai
disse qualquer coisa.
Nãol, gritou ela e escutou-se um estrondo que supus ser da bandeja do pequeno-almoço, um
estrépito de talheres a resvalarem pelo chão. O meu pai abriu a porta. O seu rosto brilhava de suor.
Será melhor acabarmos com isto o mais depressa possível. Assim, entrámos e acomodámo-nos em
duas cadeiras desdobráveis que ele aproximara da cama.

164

O meu pai sentou-se aos pés da cama, como um cão consciente de que não é bem-vindo. A minha
mãe deslizou até à ponta mais afastada do colchão e encolheu-se numa bola, dando-nos as costas e
tapando infantilmente as orelhas com a almofada.
Geraldine, chamou o meu pai em voz baixa, o Joe está aqui com o Bjerke. Por favor. Não deixes
que ele te veja assim.
Assim como? A voz dela assemelhava-se ao grasnar de um corvo. Louca? Ele aguenta. Já o
testemunhou antes. Mas ele preferia estar com os amigos. Deixa-o ir, Bazil. Depois falo contigo.
Geraldine, o Joe contou-nos uma coisa.
A minha mãe encolheu-se numa bola ainda mais pequena.
Senhora Coutts, disse Bjerke, peço desculpa por estar a incomodá-la de novo. Preferia resolver isto
e deixá-la sozinha, deixá-la em paz. Mas, na verdade, preciso que me dê mais algumas
informações. Ontem à noite ficámos a saber pelo Joe que no dia da agressão a senhora recebeu um
telefonema. O Joe crê recordar-se de que esse telefonema a deixou agitada. Contou que pouco
tempo depois a senhora lhe disse que ia buscar uma pasta e que se meteu no carro e para ir até ao
seu gabinete. Foi assim que se passou?
A minha mãe não fez o menor movimento nem emitiu o menor som. Bjerke tentou de novo. Ela
continuou em silêncio. Não se virou para nós. Não se mexeu. Pareceu-me que ficámos ali uma hora
em suspense, que rapidamente se transformou em desilusão e depois em vergonha. Por fim, o meu
pai levantou a mão e sussurrou: «Basta.» Saímos do quarto e descemos as escadas.
No final dessa mesma tarde, o meu pai levou uma mesa de jogo para o quarto. A minha mãe não
reagiu. Depois colocou umas cadeiras desdobráveis junto à mesa e escutei-a quando ela o
repreendeu furiosamente e implorando que as levasse de volta. Desceu as escadas a suar e ordenou-
me que estivesse em casa para jantar todos os dias às seis horas, que ele levaria o jantar para o
quarto e tomaríamos a refeição todos juntos. Como uma família outra vez, declarou. Aquele regime
era para começar de imediato. Respirei fundo e levei uma toalha de mesa para cima. Uma vez mais,
embora a minha mãe estivesse furiosa, ele abriu as persianas e até a janela, para deixar entrar a
brisa.

165

Subimos com uma salada e frango assado para além dos pratos, dos copos, dos talheres e de um
jarro com limonada.
Talvez um pouco de vinho amanhã à noite, para dar um toque festivo, disse o meu pai sem grandes
esperanças. Levou um ramo de flores, que apanhara no jardim e que ela ainda não tinha visto.
Colocou-as numa pequena jarra pintada. Observei o céu verde, o salgueiro, a água lamacenta e as
rochas pintadas de forma torpe na jarra. Haveria de familiarizar-me em demasia com aquela cena
vidrada durante os tais jantares, pois não queria olhar para a minha mãe, recostada nas almofadas a
olhar penosamente para nós como se tivesse sido baleada ou convertida numa múmia, fingindo
estar no além. O meu pai tentava manter uma conversa todas as noites, e assim que eu esgotava a
minha parca reserva de atividades diárias, ele prosseguia, qual remador solitário num interminável
lago de silêncio, ou talvez remasse contra a corrente. Tenho a certeza de o ter visto avançar com
dificuldade pelo pequeno rio lamacento pintado na jarra. Certa noite, depois de termos falado dos
triviais acontecimentos do dia, ele contou que tivera uma interessante conversa com o padre Travis
Wozniak e que este tinha estado em Dealey Plaza no dia em que John F. Kennedy fora assassinado.
O pai de Travis levara-o à cidade para ver o presidente católico e a sua elegante primeira-dama, que
vestia um fato do mesmo tom rosa pastel que o interior da boca de um gato. Travis e o pai desceram
a Houston Street, atravessaram a Elm, e decidiram que o melhor local para ver o presidente seria ali
na pequena encosta relvada, a leste da passagem subterrânea tripla. Dali tinham uma excelente vista
e observaram a rua, expectantes. Segundos antes de as primeiras motas da escolta aparecerem, o
cão de caça preto e branco de um dos presentes correu para o meio da estrada e voltou assim que o
dono o chamou. Depois do sucedido, Travis pensara muitas vezes que, se o cão se tivesse soltado
noutra altura, quiçá quando o cortejo de automóveis passava, alterando a cadência e o tempo das
coisas, ou, se num ato de sacrifício, se tivesse atirado para debaixo das rodas do descapotável
presidencial ou saltado para o colo do presidente, talvez o que ocorreu pouco depois nunca tivesse
acontecido.

166

Isso atormentava-o de tal forma que havia noites em que ficava acordado, perguntando-se quantos
acidentes desconhecidos e igualmente inconsequentes, e pequenas circunstâncias fortuitas, estariam
ocorrendo ou deixando de ocorrer naquele preciso momento para permitir que ele respirasse uma e
outra vez. Tal provocava-lhe a sensação de estar a cambalear na ponta de um mastro. Mantinha-se
num equilíbrio precário sobre as circunstâncias. Garantia que esse sentimento se havia tornado mais
forte e mais persistente após o atentado à embaixada no qual ficara ferido.
Interessante, comentou o meu pai. Aquele padre. Sentado na ponta de um mastro.
O padre Travis continuara o seu relato. As motas antecediam o descapotável presidencial, e lá
estava John F. Kennedy, olhando para a frente. Algumas mulheres, sentadas na relva com os seus
almoços, puseram-se de pé naquele momento, esquecendo as sanduíches, e aplaudiram e gritaram
efusivamente. Conseguiram chamar a atenção do presidente, que olhou para elas e depois sorriu
para Travis, abismado e aturdido ao ver ganhar vida o retrato presente nas salas de estar de todas as
famílias católicas. Os disparos soaram como o rebentamento de um cano de escape. A primeira-
dama levantou-se, e Travis viu-a esquadrinhar a multidão. O automóvel parou. Depois mais
disparos. Ela baixou-se, e foi a última coisa que ele viu, pois o seu pai também o puxara para o
chão, protegendo-o com o seu próprio corpo. Foi empurrado contra o solo tão repentinamente, e o
pai era tão pesado, que mordeu a relva. Desde então, de cada vez que pensa nesse dia, recorda a
terra entre os dentes. O pai não tardou a sentir o movimento da multidão e ergueram-se os dois. A
enorme confusão transformou-se em caos quando o automóvel presidencial arrancou a toda a
velocidade. As pessoas corriam para a frente ê para trás, sem saberem que direção seria a mais
segura e sujeitas a todo o tipo de rumores. Viu uma família de negros atirar-se para o chão em
pranto. O cão malhado andava de novo à solta; corria da esquerda para a direita com o focinho
levantado, como se estivesse a guiar a multidão ao invés de estar a ser fustigado de um lado para o
outro por vagas de pessoas prisioneiras de sentimentos contraditórios de terror e fascínio. Algumas
tentavam correr de volta para o local onde haviam visto o presidente pela última vez, e outras
engalfinhavam-se com pessoas que de alguma forma consideravam responsáveis.

167

Algumas ajoelhavam-se e ficavam absortas em orações ou em choque. O cão de caça farejou uma
mulher desmaiada e permaneceu ao seu lado apontando com gravidade e sem se mover para o
pássaro empalhado no seu chapéu.
Numa outra noite, depois de ter tentado pensar em temas de conversa e de não me ter ocorrido
nada, o meu pai recordou que, no passado, o clã de um ojibwa significava tudo, que não havia
ninguém que não possuísse um clã e que, por causa disso, cada um conhecia o seu lugar no mundo
e a sua relação com todos os restantes seres. O grou, o urso, o mergulhão, o bagre, o lince, o
guarda-rios, o caribu, o rato-almiscarado — todos esses animais e outros em diversas divisões
tribais, incluindo a águia, a marta, o veado, o lobo. As pessoas faziam parte desses clãs e eram por
isso governadas por relações especiais entre si e com os animais. Este foi, na verdade, explicou o
meu pai, o primeiro sistema de leis ojibwa. O sistema de clãs castigava e recompensava; estipulava
casamentos e regulava as transações comerciais; ditava que animais uma pessoa podia caçar e quais
podia domesticar, quais se apiedariam de um doodem ou de um companheiro do mesmo clã, quais
levariam mensagens ao Criador, até ao mundo dos espíritos, sob as camadas de terra ou através das
paredes da cabana de um parente adormecido.
Há muitos casos na nossa família, como tão bem sabes, disse para o monte de cobertores que era a
minha mãe, a tua própria tia-avó foi salva por uma tartaruga. Como te deves lembrar, ela pertencia
ao clã da tartaruga, ou mikinaak. Com dez anos foi deixada a jejuar numa pequena ilha. Aí
permaneceu no início da primavera, durante quatro dias e quatro noites, com o rosto enegrecido,
completamente indefesa, à espera de que os espíritos a fizessem sua amiga e a adotassem. Ao
quinto dia, quando os pais não regressaram, percebeu que alguma coisa de errado se passava.
Rompeu a crosta de saliva que lhe cerrava a boca sequiosa, bebeu água do lago e comeu um
punhado de morangos que a atormentara. Fez uma fogueira, pois, embora não estivesse autorizada
a utilizá-los durante o jejum, tinha levado uma pederneira e um fuzil consigo. Então, começou a
viver na ilha. Construiu uma armadilha para peixes e sobreviveu comendo o que apanhava.

168

A ilha era remota, mas mesmo assim ficou surpreendida com o tempo que passava, uma lua, duas,
sem que ninguém viesse buscá-la. Deu-se conta nessa altura de que algo muito grave havia
sucedido. Também sabia que em breve o peixe se deslocaria para outra zona do lago e que morreria
de fome. Assim, decidiu nadar até terra firme. Eram trinta quilómetros de distância. Partiu numa
bonita manhã com o vento pelas costas. Durante algum tempo, as ondas ajudaram-na a progredir, e
ela nadava com força, apesar de estar debilitada pela fraca dieta. Depois, o vento mudou e começou
a soprar contra ela. O céu cobriu-se de nuvens, e ela foi açoitada por uma chuva fria e torrencial. Os
seus braços e as pernas estavam pesados e inchados como troncos de árvores e pensou que ia
morrer. Na sua luta gritou por ajuda. Nesse momento sentiu qualquer coisa elevar-se por baixo dela.
Era uma mishiikenh gigante e muito velha, uma daquelas tartarugas apelidadas de mordedoras que
os cientistas afirmam não terem mudado ao longo de 150 milhões de anos, uma forma de vida
assustadora mas perfeita. Esta criatura nadou por baixo dela, abrindo caminha pela água,
empurrando-a para a superfície quando as forças lhe faltavam, permitindo que se agarrasse à sua
carapaça quando se sentia exausta, até chegarem a terra. Saiu da água e virou-se para lhe agradecer.
A tartaruga observou-a em silêncio, os seus olhos umas estranhas estrelas amarelas, antes de
submergir e desaparecer. A seguir, a tua tia-avó encontrou os irmãos e as irmãs. Não estava
enganada quanto à catástrofe. Haviam sido afetados pelos efeitos devastadores da grande gripe. Tal
como acontecia com todas as pandemias, esta atingira as reservas com grande violência. Os seus
progenitores estavam mortos e os irmãos não tinham maneira de saber onde estes haviam deixado a
sua irmã; para além disso, as pessoas temiam ser contagiadas pela doença mortal e haviam-se
afastado deles a toda a pressa, pelo que as crianças também viviam sozinhas.
Existem muitas histórias de crianças que se viram forçadas a viver sozinhas, continuou o meu pai,
incluindo relatos da Antiguidade em que os bebés eram amamentados por lobos. Mas também se
contam histórias dos inícios da civilização ocidental acerca de humanos salvos por animais. Uma
das minhas preferidas foi relatada por Heródoto e diz respeito a Aríon de Metimna, o famoso
tocador de cítara e inventor do ditirambo.

169

Aríon propôs-se navegar até Corinto e contratou um barco tripulado por coríntios, o seu próprio
povo, que ele considerava digno de confiança, para que vejas como pode ser o nosso próprio povo,
comentou o meu pai. Assim que se encontraram em mar alto, os coríntios decidiram atirar Aríon
borda fora e apoderar-se da sua riqueza. Quando descobriu o que se ia passar, Aríon convenceu-os a
deixarem-no primeiro vestir-se com o seu trajo completo de músico e a tocar e cantar para eles
antes de o lançarem para a morte. Os marinheiros ficaram todos satisfeitos por poderem escutar o
melhor tocador de cítara do mundo e retiraram-se enquanto Aríon se vestia, pegava na harpa, e ia
colocar-se no convés para entoar uma canção. Quando terminou, tal como prometido, lançou-se ao
mar. Os coríntios continuaram a navegar. Aríon foi salvo por um golfinho, que o levou no seu dorso
até Matapão. Foi erigida uma pequena estátua a Aríon, montado no dorso de um golfinho com a sua
cítara, que recebeu inúmeras oferendas naquele tempo. O golfinho deve ter-se encantado pela
música de Aríon. Pelo menos é assim que eu interpreto a história, explicou o meu pai. Imagino o
golfinho a nadar ao lado do navio; escutou a música e sentiu-se arrasado, como qualquer pessoa
teria ficado se imaginarmos a carga emocional que Aríon terá colocado na sua última canção. E
mesmo assim, os marinheiros, claramente amantes de música, uma vez que não tiveram o menor
problema em adiar a morte de Aríon para a escutar, nem sequer hesitaram. Não deram meia volta
para o tirar da água, repartindo ao invés disso o seu dinheiro e continuando a navegar. Podemos
argumentar que este era um pecado mais grave contra a arte do que afogar, digamos, um pintor, um
escultor, um poeta ou um romancista. Cada um deixa o legado da sua obra, mesmo nos tempos mais
remotos. Porém, naquela época, um músico levava a sua arte para o túmulo. Claro que a destruição
de um músico contemporâneo também seria um crime menor, já que existem sempre muitas
gravações, exceto no caso dos rabequistas ojibwa e métis. O músico tradicional, como o teu tio
Shamengwa, acreditava que devia a sua música ao vento, e que, à semelhança deste, a sua música
possuía uma infinita mutabilidade. Uma gravação faria com que a sua música se tornasse finita. Era
por essa razão que o teu tio se opunha à música gravada.

170

Proibiu todo e qualquer aparelho de gravação na sua presença, porém, nos seus últimos anos de
vida, algumas pessoas conseguiram passar as suas canções para cassetes, pois os gravadores
tinham-se tornado tão pequenos que era fácil escondê-los. Ainda assim, ouvi dizer, e o Whitey pode
confirmá-lo, que, quando Shamengwa faleceu, essas cassetes desapareceram misteriosamente ou
foram apagadas, e por isso não restam gravações da música de Shamengwa, tal como era seu
desejo. Só aqueles que aprenderam com ele é que, de alguma maneira reproduzem a sua música;
todavia, esta tornou-se na sua própria música também, que é a única forma de a música permanecer
viva. Lamento, disse o meu pai naquela noite para as costas rígidas da minha mãe. Os ossos afiados
dos seus ombros destacavam-se sob o lençol que a tapava. Vou ter de me ausentar amanhã,
informou ele.
A minha mãe nem se mexeu. Não proferira uma única palavra desde que começáramos a jantar ali
no quarto com ela.
Volto a Bismarck amanhã, declarou o meu pai. Quero encontrar--me com o Gabir. Não irá recusar.
Mas tenho de o manter informado. E será bom ver o meu velho amigo. Vamos pôr as coisas em
ordem, embora não tenhamos ainda processado ninguém. Mas fá-lo-emos, tenho a certeza. Estamos
a descobrir coisas pouco a pouco, e quando estiveres preparada para nos falares sobre a pasta e
sobre o telefonema, então saberemos mais, não tenho a menor dúvida, Geraldine, e far-se-á justiça.
E isso irá ajudar, creio. Isso irá ajudar-te, embora agora te possa parecer que não, que nada te
ajudará, nem mesmo o incrível amor que preenche este quarto. Por isso, sim, amanhã não
jantaremos no teu quarto e poderás descansar. Não posso pedir ao Joe que espere por ti desta
maneira, que faça conversa para as paredes e para os móveis, embora seja surpreendente para onde
podem divagar os pensamentos de uma pessoa. Quando estiver em Bismarck, irei também
encontrar-me com o governador e almoçaremos juntos. Da última vez contou-me que tinha estado
presente na conferência de governadores. Falou com o Yeltow, sabes, continua a ser o governador
do Dakota do Sul. Descobriu que está a tentar adotar uma criança. O quê? A minha mãe falou.

171

O meu pai inclinou-se para a frente, apontando como aquele cão de caça, imóvel.
O quê?, repetiu. Que criança?
Uma criança índia, respondeu ele, tentando manter um tom de voz neutro.
Continuou.
E é que claro que o governador do nosso estado, que tão bem entende pelas nossas conversas as
razões que temos para limitar as adoções por parte de pais não-índios mediante o Indian Child
Welfare Act, tentou explicar esta legislação ao Curtis Yeltow, que se sentia muito frustrado com
dificuldades que estava a enfrentar para adotar essa criança.
Que criança?
Voltou-se nos lençóis, um fantasma esquelético, os seus olhos cravados no rosto do meu pai. Que
criança? Que tribo? Bem, na verdade...
O meu pai tentou que a sua voz não traísse o choque e a agitação que sentia.
... para ser sincero, a origem tribal desta criança não foi estabelecida. Claro que o governador é bem
conhecido pela forma intolerante como trata os índios; uma imagem que tenta à sua maneira
mitigar. Sabes que ele faz estes truques de relações públicas, como patrocinar crianças de escolas
índias ou distribuir cargos no Capitólio, ou bolsas a estudantes índios do liceu com boas notas. Mas
o plano de adoção não lhe correu nada bem. Pediu ao advogado que defendesse o seu caso perante
um juiz estadual, que está a tentar passar o assunto para mãos tribais, como é de direito. Todos os
presentes concordaram que a criança parece índia e o governador afirma que ela... Ela?
É lakota ou dakota ou nakota, ou sioux, seja como for, como diz o governador. Mas pode ser de
qualquer tribo. Para além disso, a mãe...
Onde está a mãe dela? Desapareceu.

172

A minha mãe sentou-se na cama. Agarrando-se ao lençol que a envolvia, tateando o ar na sua
camisa de noite florida, deixou escapar um estranho gemido que me provocou um calafrio. Em
seguida, levantou-se da cama. Cambaleou e segurou-se ao meu braço quando me ergui para a
ajudar. Começou com arrancos. O seu vómito era assustador, de um verde brilhante. Voltou a gritar
e arrastou-se uma vez mais para a cama, onde se deitou imóvel.
O meu pai não se mexeu, salvo para estender uma toalha no chão, e eu fiquei também ali sentado e
imóvel. De repente, a minha mãe ergueu as mãos e agitou-as para um lado e para o outro, como se
estivesse a lutar com o ar. Os seus braços moviam-se com uma desconcertante violência,
esmurrando, bloqueando golpes, empurrando. Pontapeava e retorcia-se. Já passou, Geraldine, disse
o meu pai, aterrorizado, tentando acalmá-la. Está tudo bem agora. Estás a salvo.
Ela foi-se acalmando, até que se aquietou. Virou-se para o meu pai, fitando-o por entre as cobertas
como se estivesse numa caverna. Os seus olhos eram negros, negros no rosto cinzento. Falou numa
voz sussurrante e áspera que se avolumou entre os meus ouvidos.
Fui violada, Bazil.
O meu pai não se mexeu, não lhe pegou na mão nem a reconfortou de maneira nenhuma. Parecia
petrificado.
Não existem provas do que ele fez. Nem uma. A voz da minha mãe assemelhava-se a um crocitar.
O meu pai inclinou-se para ela.
Existem, pois. Fomos diretamente para o hospital. E há a tua memória. E outras coisas. Temos...
Lembro-me de tudo.
Conta-me.
O meu pai não olhou para mim, porque os seus olhos estavam cravados nos da minha mãe. Creio
que se os tivesse desviado, ela ter-se-ia afundado para sempre no silêncio. Encolhi-me e tentei
tornar-me invisível. Não queria estar ali, porém, sabia que, se me movesse, quebraria o magnetismo
que havia entre eles.
Recebi um telefonema. Era a Mayla. Eu só a conhecia por intermédio da família. Raramente esteve
aqui. Uma menina apenas, tão jovem! Dera início ao processo de registo da filha. O pai.

173

O pai.
Ela deu o nome dele, sussurrou a minha mãe.
Recordas-te desse nome?
A minha mãe deixou cair o queixo, o seu olhar vidrou-se.
Continua, querida. Continua. O que se passou em seguida?
A Mayla pediu-me que fosse ter com ela à casa redonda. Não tinha carro. Disse que a vida dela
dependia disso, por isso eu fui.
O meu pai respirou fundo.
Parei o carro naquele terreno cheio de ervas daninhas e saí. Ele atacou-me enquanto subia a colina.
Roubou-me as chaves. Depois enfiou-me uma saca pela cabeça, tão depressa. Era de um tecido
rosa, leve, talvez uma fronha. Mas tão comprido, passava-me dos ombros, e eu não conseguia ver.
Atou-me as mãos atrás das costas. Tentou que lhe dissesse onde estava a pasta, mas eu argumentei
que não havia pasta nenhuma. Que não fazia ideia de que pasta ele estava a falar. Virou-me e
obrigou-me a andar... segurando-me pelos ombros. «Passa por cima disto, vai por ali», dizia ele.
Levou-me a um lugar qualquer.
Onde?, quis saber o meu pai. Algures.
Podes dizer-me como era esse sítio?
Algures. Foi aí que aconteceu. Deixou-me a saca na cabeça. E violou-me. Algures.
Subiste a colina ou desceste? Não sei, Bazil.
Atravessaste o bosque? Sentiste folhas roçarem em ti?
Não sei.
E o solo... havia gravilha? Silvado? Alguma vedação de arame farpado?
A minha mãe soltou um grito rouco até os seus pulmões se esvaziarem, e depois fez-se silêncio.
Confluem ali três tipos de terras, explicou o meu pai. A sua voz parecia tensa e amedrontada. Em
fideicomisso, estatal e de propriedade plena. É por isso que pergunto.
Sai da sala de audiências, raios partam, sai, pediu a minha mãe. Não sei.
Está bem, concordou o meu pai. Tudo bem, continua.
174

Depois, a seguir, arrastou-me até à casa redonda. Levámos algum tempo a chegar lá. Andaria
comigo às voltas? Sentia-me nauseada. Não me lembro. Na casa redonda, desatou-me as mãos e
tirou-me a saca da cabeça e era... era uma fronha, lisa, cor-de-rosa. Foi quando a vi. Não passava de
uma rapariga. E a sua bebé brincava no chão. A bebé levantou as mãos para a luz que entrava pelas
fendas entre os troncos de madeira. A bebé aprendera recentemente a gatinhar, não tinha muita
força nos braços, mas conseguiu chegar até junto da mãe. Era índia, era uma rapariga índia, e tinha-
me telefonado. Aparecera no meu gabinete na sexta-feira e preenchera os papéis. Uma rapariga
calma, com um sorriso bonito, dentes perfeitos e batom cor-de-rosa. Tinha um bonito corte de
cabelo e um vestido de malha, roxo-claro. E sapatos brancos. E levava a bebé consigo. Brinquei
com ela no gabinete. Por isso, foi ela quem me telefonou naquele dia. Ela. Mayla Wolfskin.
«Preciso dessa pasta», pediu. «A minha vida depende dessa pasta.» Estava tombada no solo. Tinha
as mãos atadas atrás das costas com fita adesiva. A bebé gatinhava pelo chão. Exibia um vestido
amarelo de folhos e tinha uns olhos tão doces. Como os olhos da Mayla. Enormes e castanhos. Bem
abertos. A menina via tudo e estava confusa, mas não chorava, porque a mãe estava ali e por isso
devia estar tudo bem. Mas ele tinha maniatado a Mayla e tapara-lhe a boca com fita adesiva. A
Mayla e eu entreolhámo-nos. Ela não pestanejou, movendo apenas os olhos para a bebé, depois
para mim, e de volta para a bebé. Percebi que estava a pedir que tomasse conta dela. Acenei
afirmativamente com a cabeça. Depois ele entrou, baixou as calças, chutou-as para longe. Cada
palavra ficou gravada na minha cabeça, cada palavra que ele proferiu. Também a maneira como as
disse, numa voz apagada, em seguida alegre, e de novo apagada. Logo depois divertida. Disse:
«Sou mesmo um filho da mãe passado da cabeça. Creio que sou uma dessas pessoas que odeia os
índios em geral, e em particular e principalmente porque estiveram em conflito com a minha gente
no passado, mas sobretudo porque acredito que as mulheres índias são todas umas...» Não quero
repetir o que ele nos chamou. Gritou com a Mayla e disse que a amava, mas que mesmo assim ela
tivera um bebé de outro homem, que ousara fazer-lhe tal coisa.

175

Apesar disso, ainda a queria. Precisava dela. Colocara-o naquela situação delicada de a amar.
«Merecias ser enfiada numa caixa e atirada ao lago pelo que fizeste com os meus sentimentos!»
Disse que não tínhamos direitos nenhuns aos olhos da lei por uma boa razão e que mesmo assim
tínhamos continuado a humilhar o homem branco e a roubar-lhe a honra. «Podia ser rico, mas
prefiro ensinar-vos às duas aquilo que são na verdade. Não serei apanhado», garantiu. «Andei a
estudar as leis. Que engraçado.» E riu. Deu-me um toque com o sapato. «Sei tanto de leis quanto
um juiz.» «Conheces algum juiz?» «Não tenho medo. As coisas estão todas ao contrário»,
continuou, «mas aqui, neste lugar, vou encarregar-me de as pôr como acho que devem ser. Os fortes
deviam dominar os fracos. Em vez de serem os fracos a dominar os fortes! São os fracos que
afundam os fortes. Não serei apanhado.»
«Suponho que devia ter-te mandado para o fundo com o teu carro», continuou ele, virando-se de
súbito para a Mayla, «mas não fui capaz, querida. Senti tanta pena de ti que o meu coração se
partiu, isso é amor, não? Amor. Não fui capaz. Mas tenho de ser, sabias? As tuas merdas estão todas
no carro. Não precisas de nada para onde vais. Desculpa! Desculpa!» Bateu na Mayla, e em mim, e
voltou a bater-lhe uma e outra vez, e virou-a. «Queres dizer-me onde está o dinheiro? O dinheiro
que ele te deu? Ah, queres? Ah, queres mesmo? Onde?» Arrancou-lhe a fita adesiva da boca. Ela
não conseguia falar, mas depois revelou, num suspiro: «No meu carro.»
Ele tê-la-ia matado nesse momento, acredito que sim, mas a bebé mexeu-se. A bebé chorou e
pestanejou, fitando-o sem compreender. «Ah», disse ele, «pronto. Pronto.»
«Não fales mais. Não quero ouvir-te», ordenou para a Mayla. «Tu continuas a ser a minha galinha
dos ovos de ouro», disse ele para a bebé. «Vou levar-te comigo... a menos que tu, escória.»
Levantou-se e pontapeou-me e aproximou-se dela e pontapeou-a com tanta força que ela arquejou.
Em seguida, inclinou-se sobre mim e olhou-me na cara. «Desculpa, sou capaz de estar a ter um
ataque», disse ele. «Na verdade, não sou má pessoa. Não te magoei, pois não?» Pegou na bebé e
declarou numa voz infantil: «Não sei o que fazer com as provas. Que tolo. Talvez devesse queimar
as provas.

176

Não passam de provas, sabes?» Sentou-se no chão cuidadosamente. Destapou o jericã de gasolina.
Enquanto estava de costas para mim e despejava gasolina em cima da Mayla, agarrei nas calças,
coloquei-as entre as pernas e urinei em cima delas, foi o que fiz. A sério! Tinha-o visto acender um
cigarro e guardar os fósforos no bolso. Fiquei espantada por ele não ter dado conta de que as calças
tinham encharcadas em urina, mas estava concentrado no que planeava fazer. E tremia. Dizia: «Oh,
não. Oh, não.» Verteu mais gasolina por cima dela e também me salpicou, mas não à bebé. Depois,
depois, quando não conseguiu acender os fósforos que trazia no bolso das calças, virou-se para
mim e lançou um olhar duro à bebé. Ela desatou a chorar, e nós, a Mayla e eu, permanecemos
completamente imóveis enquanto ele foi consolar a bebé. Disse: «Chiu, chiu. Tenho outra caixa de
fósforos, e até um isqueiro, ao fundo da colina. E tu», abanou-me e disse-me sem tirar os olhos de
mim, «tu, se te mexeres nem que seja um centímetro, mato a bebé, e se te mexeres um centímetro
matarei a Mayla. Vais morrer, mas se disseres uma palavra que seja lá do céu depois de estares
morta, matá-las-ei às duas.»

Enchi uma taça com flocos de milho e um copo com leite. Verti metade do leite sobre os cereais,
acrescentei um pouco de açúcar e comi. Enchi a taça pela segunda vez, bebi o leite açucarado do
fundo da tigela e terminei o que restava do copo. Mergulhei um frasco de boca larga no saco da
comida para cães que se encontrava à entrada, enchi a tigela de Pearl e pus-lhe água fresca. Pearl
permaneceu a meu lado enquanto eu regava o jardim e os canteiros de flores. Depois, montei na
bicicleta e fui trabalhar. Vi o meu pai antes de abalar. Ficara com a minha mãe no quarto. Passara
toda a noite sentado ao lado dela. Perguntei-lhe sobre a pasta, e ele disse-me que a minha mãe se
recusava a falar sobre isso. Precisava de saber que a bebé estava a salvo. Que Mayla estava bem.
Que achas que estará naquela pasta?, indaguei.
Alguma coisa de útil.
E a Mayla Wolfskin?

177

Frequentou a escola no Dakota do Sul, afirmou o meu pai. E é parente da LaRose, a amiga da tua
mãe. Talvez seja por isso que ela se recusa a vê-la. Deve ter medo de se ir abaixo, de dizer alguma
coisa.
Não era a isso que me referia. E a Mayla Wolfskin, pai? Estará viva?
É uma boa pergunta. Que achas?
Não acho nada, respondeu em voz baixa, olhando para o chão. Baixei também os olhos, fitando as
espirais cremes no chão cinzento de linóleo. O cinzento mais escuro e os pequenos pontos negros
provocavam tonturas quando nos fixávamos neles. Observei minuciosamente o chão, memorizando
o seu padrão aleatório. Porque haveria ele de a querer matar? Pai... Ele inclinou a cabeça para o
lado, abanou-a, deu um passo em frente e abraçou-me. Segurou-me entre os braços sem dizer nada.
Depois soltou-me e afastou-se.
Quando cheguei à bomba de gasolina de Whitey e de Sonja, encostei a bicicleta junto à porta, onde
conseguia vê-la, e comecei a tratar das minhas tarefas. Whitey possuía um recetor de onda curta
que captava sinais de toda a zona. Estava sempre a crepitar e a emitir mensagens incompreensíveis
nas imediações da oficina. Às vezes desligava-o e punha música. Apanhava todos os invólucros de
rebuçados, todas as beatas, todas as anilhas soltas, e qualquer outro lixo que se tivesse acumulado
na gravilha da gasolineira, e arrancava as ervas daninhas até à estrada. Pegava na mangueira e
regava mais um pneu transformado em canteiro de flores, este pintado de amarelo, bordeado de
folhas prateadas de salva e tritomas vermelhas, como as que havia plantado para a minha mãe.
Whitey metia a gasolina quando chegava algum cliente, verificava o nível do óleo e coscuvilhava.
Eu lavava os vidros dos carros. Sonja tinha comprado uma máquina de café Bunn e Whitey
instalara duas mesas de madeira a um canto da loja. A primeira caneca de café custava dez cêntimos
e as restantes eram gratuitas, razão pela qual as mesas estavam sempre cheias de gente.

178

Clemence fazia bolos para a loja alguns dias por semana e havia pão de banana, bolo de café e
bolachas de aveia num frasco. Todos os dias à hora do lanche, Whitey perguntava-me se eu queria
uma sanduíche de carne, e depois preparava-nos sanduíches de salame em pão branco com
maionese. À tarde, Whitey fazia uma pausa e, quando regressava, Sonja ia até casa e dormia a
sesta. Depois trabalhavam ambos até às sete da tarde. Queriam poupar em salários durante os
primeiros anos, para fazerem um pé-de-meia. Mais tarde, planeavam contratar alguém a tempo
inteiro e manter o estabelecimento aberto até às nove. A mim pagavam-me um dólar à hora,
gelados, refrescos, leite e bolachas do fundo do frasco.
Quando cheguei a casa, o meu pai estava à minha espera.
Como correu o trabalho?
Bem.
O meu pai olhou para os nós dos dedos, fechou a mão e franziu o sobrolho. Começou a falar para a
mão, que era o que fazia quando não queria dizer alguma coisa que tinha de dizer.
Tive de levar a tua mãe a Minot esta manhã. Ao hospital. Vão mantê-la internada durante uns dias.
Volto lá amanhã.
Perguntei se podia ir, mas ele replicou que não havia nada que eu pudesse fazer.
Ela apenas precisa de descansar.
Passou este tempo todo a dormir.
Eu sei. Fez uma pausa, depois olhou finalmente para mim; um alívio. Ela sabe quem foi, claro, mas
continua sem me dizer, Joe. Tem de ultrapassar as ameaças dele.
Fazes alguma ideia de quem seja?
Não posso dizê-lo, sabes disso.
Mas eu devia saber. Ele é daqui, pai?
Faria sentido... mas não vai aparecer por aqui. Sabe que será apanhado. Em breve haverá alguém
para a tua mãe identificar, continuou, muito em breve. Ela ficará melhor assim que esse processo
começar. Tenho a certeza de que também se irá recordar de onde... onde aquilo aconteceu. O
choque de contar. Mas depois alguma determinação.

179

E a Mayla Wolfskin? Levou-a com ele? E a bebé? É a mesma bebé que o governador queria adotar?
O rosto do meu pai dizia-me que sim, mas o que ele disse foi: Preferia que não tivesses ouvido tudo
o que ela contou, Joe. Mas não podia calar a tua mãe. Tive medo de que ela deixasse de falar.
Anuí com a cabeça. Durante o dia inteiro, as palavras da minha mãe tinham subido à superfície de
tudo o que fazia, com um óleo escuro.
Se ela estivesse no seu perfeito juízo, jamais teria descrito diante de ti tudo o que aconteceu.
Eu tinha de saber. É bom saber, declarei.
Mas era como um veneno dentro de mim. Começava a senti-lo.
Tenho de voltar lá amanhã, disse o meu pai. Queres ficar com a tia Clemence ou com o tio Whitey?
Fico com o Whitey e com a Sonja. Assim podem levar-me ao trabalho.
No dia seguinte, depois do trabalho, voltei à antiga casa com Sonja e Whitey. Pearl seguia
connosco. Clemence iria dar uma vista de olhos à casa e regar o jardim, por isso tudo ficaria
fechado e eu não teria de voltar lá durante um tempo. Isso deixava-me feliz. Em breve seria o
aniversário de Mooshum. Viria toda a gente para a festa. Poderia ver os meus primos. Mas por
enquanto, ficar com Sonja e com Whitey era como estar de férias. As coisas poderiam ser normais.
Na casa deles, iria dormir no sofá e ver televisão. Havia vários tipos de comida que Whitey
confecionava, pois fora cozinheiro profissional; vinho ou cerveja marcavam presença em todos os
jantares, e depois copos e música. Barulho. Não fazia ideia do quanto precisava de barulho.
Metemo-nos no Silverado de Whitey e ele carregou de imediato no botão do leitor de cassetes. Os
Rolling Stones gritaram pelos subwoofers, e avançámos com os vidros descidos e o vento a entrar,
até que virámos para o caminho de terra batida. Continuámos o resto do caminho com as janelas
fechadas para não deixar entrar o pó. Era como se estivéssemos num casulo recheado de barulho, os
três a gritar por cima do ventilador e dos baixos latejantes. Com Whitey tudo era divertido.

180

Bom, como eu bem sabia, era divertido durante quatro horas, divertido durante seis cervejas ou três
shots, mas durante esse tempo ríamos das peripécias e dos negócios do dia. As tias de Cappy eram
tão avarentas que só colocavam um dólar de gasolina de cada vez. A verdade era que gastavam isso
com cada ida e vinda. E bebiam sempre café gratuito. Uma jovem estudante universitária viera à
reserva para estudar a avó Thunder. Levava-a a passear de carro todos os dias: primeiro a avó fazia
os seus recados e visitava os amigos e a família, depois, às vezes, lá deixava a rapariga tirar o bloco
de notas e anotar um ensinamento. Estava a divertir-se à grande.
Perguntei a Whitey o que sabia acerca de Curtis Yeltow, e ele disse-me:
Não ias acreditar nas coisas que aquele velho tem feito sem nunca ser apanhado. Embriagado,
chocou contra um comboio de mercadorias e sobreviveu. Chamava aos índios «os pretos das
pradarias». Achava que tinha graça. Tinha uma amante em Dead Eye. Comprou ouro e escondeu-o
na cave da mansão do governador. E armas? É um amante e fanático de armas de fogo. Coleciona
escudos de guerra. Artesanato índio. Presta homenagem aos nobres selvagens, mas tentou
armazenar resíduos radioativos em terra sagrada lakota. Disse que a Dança do Sol era uma forma
de adoração do diabo. O Yeltow é assim. Ah, e anda sempre bronzeado. É muito vaidoso com a sua
aparência.
Chegámos a casa e Whitey entrou para começar a preparar o jantar enquanto Sonja e eu fomos
tratar dos cavalos. Enquanto limpávamos o celeiro, a música estrondeava do interior da casa pelas
janelas abertas e conseguíamos escutar também as vozes da televisão. Assim, havia barulho
enquanto tirávamos a palha e dávamos um pouco de cereais aos cavalos, e havia barulho se
usássemos o cortador de relva e o barulho dos cães, que nos saudavam alegremente e ladravam para
que não nos esquecêssemos de lhes encher as tigelas com comida.
Sonja guardava os cavalos no celeiro à noite, examinava o pelo dos cães à procura de carraças,
observava-lhes atentamente as gengivas, os olhos e as patas.
Que andaste a fazer hoje?, perguntava a cada cão. Repreendia-os. Andaste outra vez pelos cardos.
Cheiras como se tivesses comido merda.

181
Quem é que deixaste que mordesse a tua bonita cauda Chain? Açoito-te se saíres do quintal, sabes
disso.
Sonja falava da mesma maneira para os cavalos quando os fechava no estábulo, e depois Whitey
saía e dava-lhe uma cerveja fresca Junto à casa havia um lugar onde a pastagem se inclinava para
oeste e a erva se tornava dourada ao entardecer. Tinham ali duas cadeiras de jardim, e juntaram
outra para mim. Bebi uma laranjada enquanto eles tomavam mais uma cerveja, ou duas, e
entretanto a música ressoava do leitor de cassetes de Whitey, colocado nas escadas. Depois os
mosquitos começaram a zunir em formação de ataque e fomos para dentro.
Naquele dia, Whitey havia trocado gasolina por um picão-verde fresco, e já o amanhara. Os filetes
encontravam-se no frigorífico, de molho num prato com leite. Fizera um polme espumoso com
cerveja. Havia salada de couve e cenoura com rábanos picantes. E tinham sempre sobremesa.
A Sonja insiste em comer algo doce depois do jantar, explicou Whitey. É muito gulosa. Alguma vez
ouviste falar de creme de framboesa? Uma vez preparei-lho, seguindo uma receita. E bolo de
maionese? Nem dás pelo sabor da maionese. Mas ela gosta de chocolate. É doida por chocolate. Se
mergulhasse a pila em chocolate, ela não me deixaria em paz.
A medida que a noite avançava, foi soltando cada vez mais a língua, dizendo umas quantas coisas,
até que Sonja acabou por ir deitá-lo.
Depois de o aconchegar, regressou e preparou-me o sofá. Era velho e cheirava a tabaco. Estava
forrado com um tecido castanho rugoso, salpicado de pequenas e descoradas protuberâncias cor de
laranja. Sonja estendeu um lençol sobre as almofadas e deu-me um saco-cama aos quadrados com o
fecho de correr estragado. Ligou o televisor, apagou as luzes e enroscou-se na outra ponta do sofá.
Ficámos a ver televisão juntos durante uma hora ou duas. Falámos sobre o dinheiro, por entre
sussurros, para que Whitey não nos ouvisse. Sonja obrigou-me a jurar novamente que não tinha
contado a ninguém, e que nunca o faria.
Estou morta de medo. E tu também devias estar. Mantém os olhos abertos. Não cometas nenhum
deslize, Joe.

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Depois falámos sobre o que eu deveria fazer com o dinheiro.


Sonja fez-me prometer que iria para a universidade. Disse que teria gostado que a sua filha Murphy
tivesse ido para a faculdade. Dera o nome de Murphy à filha porque nunca seria o nome de uma
stripper.
Porém, a filha mudara-o para London.
Se pudesse voltar atrás no tempo, confessou Sonja, nunca teria deixado a minha filha aos cuidados
da minha mãe enquanto trabalhava. A minha mãe foi uma péssima influência para a neta, se dá para
acreditar.
Sonja gostava de talk shows e de filmes antigos. As vezes, eu adormecia a ver televisão, mas antes
de o fazer tentava manter-me o máximo de tempo possível entre o sono e o estado de vigília.
Momentaneamente, podia abrir-se uma porta para um sonho, mas eu regressava de imediato ao
sofá. O suave peso de Sonja no extremo oposto do assento. O calor que dela emanava e que eu
conseguia sentir se aproximasse a planta dos pés por baixo do saco-cama, que se transformou na
minha coberta preferida, porque escondia as minhas ereções.
Todas as noites, Sonja dava-me uma almofada da sua cama. A fronha cheirava a champô de alperce
e tinha também um toque almiscarado, uma espécie de aroma a decomposição, pessoal e erótico,
semelhante ao interior de uma flor murcha. Afundei o rosto nela para o aspirar. Adormeci, sonhei e
regressei à luz trémula do televisor. As gargalhadas enlatadas em volume reduzido. Sonja em transe
no meio de uma bruma azulada, bebendo água gelada. Lá fora, a agitação dos insetos de verão.
Ocasionalmente, os cães levantavam-se para soltar um par de latidos a um veado que atravessava a
pastagem. E Whitey a ressonar do outro lado da porta do quarto. Na terceira ou quarta noite,
quando eu entrava e saía do paraíso, Sonja segurou-me o calcanhar com a palma da mão e apertou-
mo. Distraidamente, começou a massajar-me o peito do pé e fui atravessado por uma corrente de
prazer cego, demasiado repentina para me conter. Vim-me com um gorgolejo de surpresa, e ela
soltou-me o pé. Momentos depois, escutei um estalido e lancei-lhe um olhar furtivo. Sonja estava a
comer um pretzel.

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Whitey adorava romances de cordel. Possuía uma parede repleta de prateleiras feitas à medida para
romances de samurais, enredos de ação ninja, thrillers de espionagem, westerns de Louis L'Amour
ficção científica, histórias do Conan. Os seus dias começavam às seis da manhã com uma caneca de
café e um livro de bolso. Enquanto tomava o pequeno-almoço a seu lado, ele lia algumas passagens
em voz alta, murmurado: «As suas ágeis ancas estremeciam com a expectativa de um predador ao
mesmo tempo que o fitava sob a luz desprovida de luar e privada de alma e decidia como partir-lhe
a espinha dorsal... os dentes afiados do punhal de Ragna cintilaram sob os raios de luz dos faróis...
sabendo que a vida dele chegaria ao fim no momento em que os seus olhos se cruzassem com
aquele implacável olhar de obsidiana...» Se estivesse absorto numa história, continuava a ler
enquanto Sonja lhe colocava à frente um prato com bacon e uma das suas especialidades: uma
mistura de batatas raladas, ovos, cubos de pimento e presunto, tudo disposto numa caçarola e
cozinhado até que a cobertura de queijo cheddar começasse a borbulhar e tostasse. Chamava-lhe
«guisado de pequeno-almoço». Assim que acabávamos de comer, Whitey marcava a página e
pousava o livro. Sonja apressava-se a lavar os pratos, entrávamos rapidamente na carrinha,
dirigíamo-nos para a gasolineira e destrancávamos as bombas. Abríamos às sete da manhã. Havia
sempre gente à espera para meter gasolina. Nesse dia aconteceram duas coisas que não foram nada
agradáveis. A primeira, os brincos de Sonja, que Whitey afirmou nunca ter visto antes.
Claro que já os viste. Lançou-lhe um sorriso sedutor. Os brincos cintilavam na ténue luz da
cozinha. Tinha calçado um par de luvas de borracha amarelas e esfregava vigorosamente a
frigideira antes de sairmos para o trabalho. São diamantes de imitação, disse ela.
Belos diamantes de imitação, retorquiu Whitey. Lançou-lhes um olhar dissimulado. Depois fitou-a
descaradamente, com uma expressão maliciosa, quando ela não estava a ver. As calças de ganga de
Sonja também pareciam novas e cingiam-se a ela de uma forma que me recordava o livro de
Whitey, «as suas ágeis ancas estremeciam...». Entrámos na carrinha. Whitey não ligou a música.

184

A meio caminho da povoação, Sonja esticou o braço para ligar o leitor de cassetes e Whitey
pregou-lhe uma bofetada na mão. Eu ia sentado atrás deles. Aquilo aconteceu mesmo à minha
frente.
Está tudo bem, disse-me Sonja por cima do ombro. O Whitey não se sente bem. Está ressacado.
Whitey mantinha os maxilares cerrados, na mesma expressão maliciosa. Olhava em frente.
Sim, retorquiu ele. Ressacado. Mas não o tipo de ressaca que estás a pensar.
Whitey tinha uma forma de cuspir típica de um presidiário, habilidosa e certeira. Como se, durante
um período da sua vida, não tivesse feito outra coisa senão cuspir. Saiu do carro com um pulo,
bateu com a porta, cuspiu, acertou numa lata, ping, e afastou-se, apesar de haver um cliente à
espera na bomba. Sonja mudou de lugar, estacionou e abriu a bomba de gasolina. Entregou-me as
chaves das bombas sem olhar lá para fora e pediu-me que me encarregasse do carro. Essa foi a
segunda coisa má.
Já tinha visto aquela pessoa, era-me familiar, mas não a conhecia. As suas feições eram elegantes e
regulares, mas não atraentes. Era um homem branco de cabelo castanho, olhos encovados, porte
indolente mas robusto; um homem corpulento e bem vestido: camisa branca, calças castanhas com
cinto e sapatos de couro com atacadores. Usava o cabelo um pouco comprido, penteado para trás
com todo o cuidado, de tal forma que se conseguiam ver os sulcos feitos pelos dentes do pente. As
suas orelhas eram estranhamente pequenas e bem desenhadas. Tinha lábios finos de um vermelho-
escuro, como se tivesse febre. Quando sorriu, vi que os seus dentes eram brancos e muito bem
alinhados, como a dentadura de um anúncio.
Aproximei-me para o atender.
Atesta, pediu ele.
Desbloqueei as bombas e meti a gasolina. Lavei-lhe o vidro e perguntei se desejava que visse o
nível do óleo. Tinha o carro sujo de pó. Era um velho Dodge.
Não. A sua voz era agradável. Começou a contar notas de cinco dólares de um maço. Entregou-me
três. O meu carro estava sequioso, comentou. Conduzi a noite toda. Ei, como estás?

185

Às vezes, os adultos reconhecem um miúdo e falam com ele como se o conhecessem, mas, na
verdade, conhecem apenas os pais ou um tio ou foram professores de alguém. É desconcertante,
mas tratava-se de um cliente. Assim, fui educado e respondi que estava bem, obrigado.
Oh, folgo em sabê-lo, continuou ele. Ouvi dizer que és um bom rapaz.
Observei-o com mais atenção, uni os pontos. Um bom rapaz? Era o segundo homem branco a
dizer-me aquilo naquele verão. O meu pensamento foi: «Isto podia dar cabo de mim.»
Olhou-me nos olhos.
Sabes, gostava de ter um miúdo como tu. Não tenho filhos.
Oh, que pena, lamentei como se pensasse o contrário. Estava desconcertado. Continuava sem
conseguir situá-lo.
Ele suspirou.
Obrigado. Não sei. Suponho que é uma sorte começar uma boa família e assim. Ter uma família
que nos ama. É muito bom. Dá-nos uma vantagem na vida. Até um rapaz índio como tu pode
constituir uma boa família e ter esse começo, creio. E talvez te permita equiparares-te a um rapaz
branco da tua idade, quem sabe? Um que não tenha uma família que o ame. Virei-me para ir
embora.
Oh, já falei demasiado. Volta aqui! Tentou dar-me mais cinco dólares. Continuei a andar. Ele olhou
para baixo e rodou a chave na ignição. O motor tossiu e arrancou. Bem, eu sou assim, gritou ele.
Sempre a dizer o que não devo. Mas...! Deu uma palmada na porta do carro. Digas o que disseres,
és o filho do juiz. Girei sobre os calcanhares.
A minha irmã gémea tinha uma família índia que a amava e que a apoiou quando as coisas ficaram
difíceis.
Depois afastou-se, e por causa do que Linda me havia contado, sabia que tinha falado com Linden
Lark.
Decidi que queria desistir e ir para casa naquele momento. Estava furioso com Whitey. Atestara o
carro do inimigo. Sonja também me irritava. Saiu da loja a mascar pastilha. Enquanto movia os
maxilares, aqueles brincos agitavam-se e brilhavam. Apanhara o cabelo num cone sedoso, que
segurava com ganchos de esmalte cor-de-rosa.

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As calças de ganga assentavam-lhe como um autocolante. A manhã parecia não ter fim. Tive de
ficar, porque Whitey se ausentara. Regressou por volta das onze e percebi que tinha bebido uma
cerveja, ou talvez duas. Injuriosamente, Sonja fazia de conta que não reparava no seu silêncio
quando entrava e saía.
Ao meio-dia, Sonja preparou-nos sanduíches com pão e carne que tirou do frigorífico, por isso não
houve piadas sobre como o bife de carne da reserva estava saboroso ou se eu preferia o meu bem
passado. Ela limitou-se a passar-me a sanduíche e uma lata de refresco de uva. Mais tarde, deu-me
a sanduíche de Whitey. Tinha alface, mas comi-a na mesma enquanto o observava a mudar um
pneu a LaRose. Tempos houve em que a minha mãe, Clemence e LaRose tinham sido inseparáveis.
No pequeno álbum da minha mãe havia fotografias delas do tempo de escola, quando frequentavam
o colégio interno. A minha mãe contava histórias sobre essa época, e LaRose figurava em todas
elas. Todavia, nos dias que corriam, era raro visitarem-se e, quando o faziam, falavam as duas sem
parar, à margem das restantes pessoas. Uma pessoa seria levada a pensar que partilhavam um
segredo, não fora aquele comportamento arrastar-se há anos. Às vezes, Clemence juntava-se a elas,
e de novo se afastavam, as três e mais ninguém.
LaRose estava sempre presente e sempre ausente. Mesmo quando nos olhava nos olhos e falava,
parecia que os seus pensamentos se encontravam em qualquer outra parte, esquivos. LaRose tivera
tantos maridos que já ninguém se mantinha ao corrente do seu apelido. Começara por ser Migwan.
Era uma mulher escanzelada, de constituição delicada, semelhante a um passarinho, que fumava
cigarrilhas castanhas e usava o cabelo preto apanhado com uma mola brilhante e decorada com
contas em forma de flores. Sonja tinha saído da loja para cumprimentar LaRose, e ali estávamos.
Três bebedores de refrescos a observar um suado Elvis índio a tentar afrouxar uma série de porcas
ferrugentas. Esforçava-se ao máximo. O pescoço intumesceu-se, os braços incharam. A sua barriga
estava enfraquecida por todas as cervejas noturnas, mas os seus braços e o peito continuavam
fortes. Aplicou todo o seu peso na chave de porcas. Nada. Voltou a ajoelhar-se. Naquele dia até a
terra parecia queimar.

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Bateu com a chave na palma da mão, ergueu-se subitamente e depois atirou-a para o meio das
ervas. Dirigiu de novo aquele olhar maldoso a Sonja.
Não olhes para mim com esses olhos, seu filho da mãe, resmungou ela, só porque não consegues
desapertar uma porca. LaRose arqueou as sobrancelhas e virou costas aos dois. Anda, disse-me.
Preciso de outro maço de cigarros. Colocou-me a mão nas costas, como se fosse minha tia, e impul-
sionou-me para a frente. Entrámos na loja e ficámos sozinhos. Passou para trás do balcão para
alcançar o que desejava. Pouco me importava se LaRose era esquiva ou não; haveria de a
interrogar. Perguntei-lhe se era da família de Mayla Wolfskin.
É minha prima, muito mais nova do que eu, retorquiu LaRose. O pai dela era de Crow Creek.
Cresceu com ela?
Indolentemente, LaRose acendeu uma cigarrilha e apagou o fósforo com movimentos exagerados
do pulso. Que se passa? Queria apenas saber.
És do FBI, Joe? Contei àquele tipo branco com os óculos sempre sujos que a Mayla andou num
colégio interno no Dakota do Sul e depois iria para Haskell. Havia um programa em que escolhiam
as mais inteligentes para que tivessem um emprego especial no Governo, ou coisa do género.
Tinham direito a uma remuneração e tudo. A Mayla até saiu nos jornais. A minha tia recortou o
artigo. Foi escolhida para um estágio de formação. Estava tão bonita. Tinha uma fita branca na
cabeça, uma camisola que deve ter feito na escola, meias até ao joelho. É tudo o que sei. Trabalhava
para aquele governador, sabes? O tal que fez todas aquelas coisas más. Nunca o acusaram de nada.
Sonja entrou e vendeu a LaRose as cigarrilhas que ela já estava a fumar. Olhei lá para fora e vi que
Whitey se dirigia para o Dead Custer.
Oh, merda, disse Sonja. Aquilo não é nada bom. O meu pneu, observou LaRose. Eu troco-o.

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Sorriu para mim; o reflexo de um sorriso. Era dona de um rosto triste e tranquilo que nunca se
iluminava por completo. A sua delicada e sedosa pele morena exibia pequeníssimas rugas se a
observássemos suficientemente perto para sentir o aroma do pó de arroz cor-de-rosa que usava
sempre. Um dente de prata reluzia quando fumava.
Dá o teu melhor, rapaz.
Queria perguntar-lhe mais coisas sobre Mayla, mas não na presença de Sonja. Primeiro fui procurar
a chave-inglesa. Quando regressei, vi que as duas mulheres tinham ido buscar cadeiras de jardim e
as haviam colocado numa zona de sombra projetada pelo edifício. Bebiam refrescos de baunilha.
Força!, incentivou-me Sonja, acenando. Dos seus dedos li-bertavam-se espirais de turno. Eu atendo
os clientes, se aparecer algum.
Observei as porcas da jante. Em seguida levantei-me e fui à oficina de Whitey buscar uma chave de
roquete.
Oooh, exclamou LaRose quando saí com ela.
Boa escolha, elogiou Sonja.
Escolhi a peça do tamanho adequado às velhas porcas. Coloquei todo o meu peso na pega, mas nem
se mexeu. Atrás de mim escutei Cappy, Zack e Angus aterrarem com as bicicletas junto às bombas
numa nuvem de poeira.
Virei-me. O suor escorria-me pela cara.
Que se passa?, perguntou Cappy.
Ignoraram LaRose e, mais elaboradamente, Sonja. Aproximaram-se e rodearam o pneu furado.
Está cheio de ferrugem, meu.
Todos, à vez, experimentaram a chave. Zack chegou mesmo a equilibrar-se sobre ela e a dar
pequenos saltos, contudo, a porca parecia soldada. Cappy pediu o isqueiro a Sonja e chegou a
chama à porca. Também não resultou.
Tens lubrificante?
Indiquei a Cappy onde podia encontrá-lo na bancada de trabalho de Whitey. Pulverizou um pouco
em redor da porca, esfregou-a com terra e no interior da chave. Voltou a encaixar a chave,
apertando com mais força.

189

Pisa-a outra vez, pediu a Angus.


Cedeu por fim, e deixámos o carro equilibrado no macaco enquanto empurrávamos o pneu até à
oficina. Whitey havia ali instalado um tanque de água para encontrar os furos nos pneus e era
bastante bom a vedá-los, mas, claro, estava no Dead Custer.
Saí e olhei para Sonja.
Talvez seja melhor ires buscá-lo, aconselhou ela, desviando o olhar, e reparei que tinha tirado os
brincos.
Conseguimos arrancá-lo de lá ao fim de apenas três cervejas e LaRose ficou com o pneu arranjado.
Tivemos um momento de grande movimento e depois tudo acalmou. Fechámos a loja e as bombas
e metemo-nos na carrinha. Nenhum deles os dois tocou no leitor de cassetes. Seguimos em silêncio,
porém, Sonja e Whitey pareciam apenas cansados, esgotados pelo calor. Chegados a casa, as coisas
correram como habitualmente. Ajudei Sonja com as tarefas. Jantámos, ninguém falou muito.
Whitey bebeu, com uma expressão taciturna, mas Sonja ficou-se pela 7Up. Adormeci no sofá com
uma ventoinha a soprar na minha direção e o cabelo de Sonja ondeando brandamente em redor do
seu perfil sob uma luz azul-safira.
Escutou-se um estrondo. As luzes estavam apagadas e não havia Lua. Tudo estava às escuras, mas a
ventoinha continuava a agitar o ar. No quarto ouvia-se uma discussão em voz baixa. A voz áspera
de Whitey. Um baque surdo. Sonja. Para com isso, Whitey. Foi ele quem te deu os brincos?
Não há nenhum «ele». És só tu, querido. Larga-me. O estalar de uma bofetada, um grito. Não. Por
favor. O Joe está ali. Quero lá saber.
Começou a insultá-la, chamando-lhe de tudo. Levantei-me e dirigi-me à porta. Sentia o sangue
pulsar-me nas veias. O veneno que me consumia também me impulsionava. Pensei que seria capaz
de matar Whitey. Não tinha medo.
Whitey?

190

Fez-se silêncio.
Saia e lute comigo!
Tentei recordar-me de tudo o que ele me ensinara sobre bloquear socos, mantendo os cotovelos para
dentro e o queixo para baixo. Ele lá acabou por abrir a porta e eu dei um salto para trás com os
punhos levantados. Sonja tinha acendido a luz. Whitey envergava uns boxers amarelos com
desenhos de malaguetas vermelhas. A sua poupa dos anos cinquenta tombava-lhe pela testa em
madeixas. Levantou as mãos para puxar o cabelo para trás, e eu aproveitei para o esmurrar no
estômago. O soco reverberou por todo o meu braço. Fiquei com a mão dormente. Achei que estava
partida e senti um enorme entusiasmo. Tentei atingi-lo de novo, mas ela agarrou-me os braços e
disse:
Merda, merda. Joe. Eu e a Sonja. Isto é entre nós, Joe. Não te metas. Sabes o que é enganar? A
Sonja anda a enganar-me. Um idiota qualquer ofereceu-lhe uns brincos de diamante...
Imitação de diamante, interrompeu ela.
Sei reconhecer diamantes quando os vejo.
Soltou-me e afastou-se. Tentou recuperar alguma dignidade. Levantou as mãos.
Não lhe vou tocar, estás a ver? Embora um gajo qualquer que ela anda a iludir lhe tenha comprado
brincos de diamante, não lhe vou tocar. Mas ela portou-se mal. Contemplou-a com os olhos
vermelhos de tanto chorar. Muito mal. Outro gajo, Joe...
Eu sabia que não era verdade. Sabia de onde tinham vindo aqueles brincos.
Fui eu que lhos ofereci, Whitey, declarei.
A sério? Cambaleou. Tinha uma garrafa no quarto. E deste-lhe os brincos porquê?
Pelo aniversário.
Foi há um ano.
Cretino, e que tem que ver com isso? Encontrei-os na casa de banho da bomba de gasolina. E tens
razão. Não são diamantes de imitação. Creio que se tratam de zircónias cúbicas genuínas.
Okay, Joe, disse ele. Palavras caras.
Olhou para Sonja com lágrimas nos olhos. Apoiou-se contra a porta. Depois observou-me com o
sobrolho franzido.

191

Cretino, e que tens que ver com isso?, murmurou. Bela maneira de falares com o teu tio. Passaste
das marcas, rapaz.
Estendeu a mão que segurava a garrafa e apontou para mim com o dedo médio.
Passaste... das... marcas.
Ela é minha tia, argumentei. Por isso, posso dar-lhe um presente de aniversário. Cretino.
Bebeu todo o conteúdo da garrafa, lançou-a para trás das costas engoliu com ruído e inclinou-se
para a frente.
Estás a pedi-las, rapazinho!
Escutou-se um estilhaçar e Whitey fraquejou, agarrando-se à cabeça com as mãos. Sonja expulsou-
o a pontapé, e ele acabou tombado no chão da sala.
Passa em redor dele. Cuidado com os vidros. Entra, Joe, ordenou ela.
Depois fechou a porta atrás de mim.
Deita-te, ordenou ela, apontando para a cama. Dorme. Eu fico de vigia. Sentou-se na cadeira de
baloiço e pousou o gargalo da garrafa cautelosamente na mesinha de cabeceira junto ao seu
cotovelo. Meti-me na cama, entre os lençóis. A almofada cheirava ao rançoso gel que Whitey usava
no cabelo. Empurrei-a para o lado e deitei a cabeça no braço. Sonja apagou a luz e eu fiquei a olhar
para a escuridão.
Ele pode estar morto ali fora, alertei.
Não, não está. A garrafa estava vazia. Para além disso, sei com que força devo bater-lhe.
Ele diz o mesmo acerca de si.
Sonja não respondeu.
Porque foste dizer aquilo?, perguntou. Porque lhe disseste que me tinhas oferecido os brincos?
Porque foi isso que fiz. Ah, o dinheiro. Não sou estúpido.
Permaneceu calada. Depois escutei-a chorar baixinho. Queria uma coisa bonita, Joe. Viu o que
aconteceu? Sim.

192

É como a tia disse. Não toque no dinheiro. E onde pôs os brincos?


Deitei-os fora.
Não, não deitou. Eram de diamante.
Mas ela não respondeu. Continuou a balançar.
Na manhã seguinte, Sonja e eu saímos cedo. Não vi Whitey.
Foi curtir a bebedeira para o bosque, explicou Sonja. Não te preocupes. Agora, durante uns tempos
vai portar-se bem. Mas talvez seja melhor dormires em casa da Clemence esta noite.
Seguimos para a bomba, sem música. Observei as valas pela janela.
Pode deixar-me já aqui, pedi quando passámos pela casa de Clemence, despeço-me.
Oh, querido, não, disse Sonja. Mas encostou à berma da estrada e parou o carro. Trazia o cabelo
apanhado num rabo-de-cavalo atado com um laço verde. Envergava um fato de treino da mesma
cor, com um vivo branco, e sapatos desportivos. Naquele dia tinha pintado os lábios de vermelho.
Creio que a fitei longamente com uma expressão trágica, pois ela repetiu: «Oh, querido, não.» Eu
pensava algo do género: «Se aquele vermelho-vivo dos seus lábios gravasse em mim a sua marca,
me beijasse, transformar-se-ia numa gota de sangue ardente e coagulada e deixaria uma queimadura
negra na minha carne com a forma dos lábios de uma mulher.» Senti pena de mim mesmo. Ainda a
amava, mais do que nunca, apesar de me ter traído. Os seus olhos azuis possuíam um brilho desleal.
Vá lá, implorou. Vou precisar de ajuda. Por favor?
Mas eu saí do carro e subi o caminho.
A porta traseira da cozinha estava aberta. Entrei e chamei. TiaC?
Ela apareceu vinda da cave com um frasco de doce na mão e disse que pensava que eu tinha um
emprego. Despedi-me.
Os preguiçosos é que fazem isso. Volta já para lá. Abanei a cabeça e recusei-me a olhar para ela.
Ah. Eles já voltaram ao mesmo. O Whitey já voltou ao do costume.
Sim.

193

Então fica aqui. Podes dormir no antigo quarto do Joseph, que agora é o quarto da costura, mas não
importa. O Mooshum está no quarto da Evey. Pus-lhe lá uma cama. Ele nega-se a dormir na cama
macia da Evey.
Nesse dia ajudei Clemence com as tarefas domésticas. Ela cuidava de uma bonita horta, como a
minha mãe costumava fazer, e as suas ervilhas já estavam prontas para serem colhidas. O tio
Edward estava a trabalhar no lago das traseiras, tentando acertar a drenagem e o fluxo da água e
medindo as larvas dos mosquitos; também o ajudei. Whitey veio trazer-me a bicicleta, mas eu não
saí e nem cheguei a vê-lo. Comemos carne de veado frita com mostarda e cebolas refogadas. A
televisão dos meus tios encontrava-se a reparar numa oficina a noventa quilómetros dali, como de
costume, e eu sentia-me ensonado. Mooshum cambaleou até ao quarto de Evey e eu dirigi-me para
o de Joseph. Todavia, quando abri a porta e vi a máquina de costura encaixada junto à cama e os
montes de tecido dobrado e a parede coberta de carrinhos de linha colorida, quando vi os quadrados
para os quilts, a caixa de sapatos com a etiqueta a dizer «fechos» e a almofada de alfinetes em
forma de coração, igual à da minha mãe, salvo na cor, pensei no meu pai a entrar no nosso quarto
da costura todas as noites e recordei-me de como a solidão passara por baixo da porta do quarto, se
espalhara por todo o corredor e tentara entrar no meu quarto. Acha que o Mooshum se importaria
que eu dormisse no quarto dele?, perguntei a Clemence. Ele fala durante o sono. Não faz mal.
Clemence abriu a porta do quarto de Evey e perguntou a Mooshum se eu o incomodava, mas ele
já ressonava. Clemence garantiu que não havia problema, e eu entrei e fechei a porta. Despi a roupa
e enfiei-me na cama da minha prima, que era confortável, embora afundasse ao centro e cheirasse a
pó. Os roncos de Mooshum assemelhavam-se ao ronronar hipnótico de um homem muito velho.
Adormeci de imediato. Acordei a determinada altura, após o nascer da Lua, pois havia luz no
quarto. Mooshum falava sonambulamente, claro, e eu dei meia volta e tapei a cabeça com a
almofada.

194

Passei pelo sono, mas houve qualquer coisa que ele disse que me despertou a atenção e, aos poucos,
como um peixe bobinado para fora da escuridão, comecei a emergir. Mooshum não falava à toa e
de forma desconexa como as pessoas costumam fazer, deixando escapar pedaços de sonho. Contava
uma história.

Akii

No início, ela era apenas uma mulher normal, disse Mooshum, habilidosa numa série de coisas:
tecer redes, apanhar coelhos, esfolar e curtir peles. Apreciava o fígado dos veados. Chamava-se
Akiikwe, Mulher Terra, e era forte, à semelhança da sua homónima. Possuía ossos robustos e um
pescoço grosso e curto. O marido, Mirage, aparecia e desaparecia. 01h„. a para as outras mulheres.
Já o apanhara em diversas ocasiões, mas continuava ao seu lado. Era um caçador determinado,
apesar das suas atitudes, e os dois sabiam como sobreviver. Conseguiam sempre arranjar comida
para os filhos, e conseguiam até carne extra, pois Akii via em sonhos onde encontrar os animais.
Era possuidora de um coração arguto e de um olhar incessante, com o qual mantinha os filhos na
linha. Akii e o marido não eram avaros e, como já disse, nunca tinham dificuldade em encontrar
comida, mesmo no pino do inverno; isto é, até ao ano em que nos sujeitaram a estas fronteiras. O
ano da reserva.
Alguns tinham terrenos irregulares, como o homem branco, e deitaram algumas sementes à terra,
mas uma quinta de verdade requer muitos anos de cuidados até que seja possível viver-se dela no
inverno. Caçámos todos os animais antes da Lua do Pequeno Espírito e não sobrava nem sequer um
coelho. O agente do Governo havia-nos prometido provisões para compensar a perda de território,
mas estas nunca chegaram. Abandonámos as nossas fronteiras e regressámos ao Canadá, mas os
caribus há muito que tinham partido, não restavam castores, tão-pouco ratos-almiscarados. As
crianças choravam de fome e um ancião ferveu tiras das suas calças de pele de alce para que
tivessem algo para mastigar.
Durante esse tempo, Akii saía todos os dias e regressava sempre com uns bocaditos disto e daquilo.
Abriu um buraco no gelo e, com grande esforço, o marido e ela mantiveram-no aberto noite e dia
para
195

Que pudessem pescar, até que um dia, ela capturou um peixe que lhe disse: «O meu povo agora vai
dormir e vocês morrerão de fome.» E assim foi, porque depois daquilo não conseguiu pescar nem
mais um peixe. Viu Mirage olhar para ela de forma estranha, e devolveu-lhe o mesmo olhar. O
homem mantinha os filhos atrás si enquanto dormiam e o machado com ele no cobertor. Estava
farto de Akii e fez de conta que conseguia ver o que se passava. Nestes tempos de fome, algumas
pessoas ficam como que possuídas. Um wiindigoo (Nota 24) podia projetar o seu espírito para o
interior de uma pessoa. Essa pessoa transformar-se-ia num animal e passaria a encarar os humanos
como presas. Era isso que estava a acontecer, decidiu o marido. Imaginou que os olhos de Akii
começavam a brilhar na escuridão. A coisa certa a fazer era matar essa pessoa o mais rapidamente
possível, mas não sem antes conseguir acordo nessa matéria. Não podia ser uma única pessoa a
fazê-lo. O wiindigoo só podia ser morto de uma determinada maneira.
Mirage juntou alguns homens e convenceu-os de que Akii estava a tornar-se muito poderosa e em
breve ficaria fora de controlo. Fizera um golpe no braço para que o filho bebesse o seu sangue e
também ele se transformasse num wiindigoo. O olhar dela era assustador, seguindo atentamente os
movimentos dos filhos, como se a qualquer momento pudesse atacá-los. Então, quando tentaram
prendê-la, ela debateu-se. Foram precisos seis homens para a segurar, e quando terminaram
estavam muito maltratados, mordidos e arranhados. Uma outra mulher levou as crianças para que
não vissem o que se ia passar. Mas um deles, o mais velho, ficou. A única pessoa que podia matar
um wiindigoo era alguém do seu próprio sangue. Se o marido a matasse, a família de Akiikwe
podia procurar vingança. Podia ser uma irmã ou um irmão, mas estes negaram-se. Assim,
entregaram uma faca ao rapaz e ordenaram-lhe que matasse a mãe. Tinha doze anos. Os homens
segurá-la-iam. Devia degolá-la. O rapaz desatou a chorar, mas foi-lhe dito que mesmo assim teria
de o fazer. Chamava-se Nanapush. Os homens incitaram-no a matar a mãe, tentaram encorajá-lo,
mas ele enfureceu-se e espetou a faca num dos homens que a segurava.

Nota 24 - Espírito malévolo e canibalesco, capaz de possuir os seres humanos ou no qual estes se
podem transformar, em especial em épocas de grande escassez de recursos. (N. da T.)

196

Porém, o homem envergava um casaco de pele e a ferida não foi muito profunda.
«Ah», disse a mãe, «és um bom filho. Não me matarás. Serás o único que não comerei!» Em
seguida, contorceu-se com tal força que se libertou de todos os homens. Mas eles conseguiram
apanhá-la.
Nanapush sabia que a mãe ameaçara comê-los porque estava a ser atormentada. Era uma boa mãe e
ensinara-os a sobreviver. Os homens trouxeram-na de volta, manietada. O marido atou-a a uma
árvore e deixou-a ao frio e à fome. Ela gritou e tentou forçar as cordas, mas aos poucos foi ficando
em silêncio. Pensando que ela estava enfraquecida, os homens deixaram-na sozinha essa noite. Mas
o vento chinook soprou e temperou o ar. Akii comeu a neve. Devia haver alguma coisa de nutritivo
nela, pois com os seus fortes dedos ela desatou os nós e afrouxou as cordas. Começou a afastar-se.
O filho rastejou para fora da tenda e decidiu acompanhá-la, mas foram seguidos e apanhados
quando alcançaram o lago. Os homens voltaram a atá-la.
Mirage decidiu alargar o buraco onde Akii costumava pescar e onde o gelo era mais fino. Os
homens concordaram em colocá-la na água, todos juntos, para que ninguém tivesse de arcar com a
culpa. Apertaram bem os nós e desta vez ataram-lhe uma pedra aos pés. A seguir, desceram-na pelo
buraco até à água gelada. Quando ela não veio à superfície, afastaram-se, com exceção do filho,
que se recusava a ir com os homens. Sentou-se ali, no gelo, e entoou o seu canto da morte. Quando
o pai passou por ele, o rapaz pediu-lhe a arma e explicou que dispararia contra a mãe caso ela
emergisse.
É possível que nesse momento o pai não estivesse a pensar com clareza, pois deu a arma a
Nanapush.
Assim que os homens desapareceram de vista, Akii meteu a cabeça pelo buraco. Tinha conseguido
libertar-se da pedra e respirara o ar que existia mesmo por baixo da superfície do gelo. Nanapush
ajudou-a a sair da água e passou-lhe um cobertor pelos ombros. Em seguida, dirigiram-se para o
bosque e caminharam até estarem demasiado fracos para continuar viagem. A mãe trazia a sua
pederneira e o fuzil numa bolsa junto ao corpo. Fizeram uma fogueira e construíram um abrigo.

197

Akii contou ao filho que, enquanto estivera submersa, o peixe falara com ela e lhe dissera que
lamentava a sua situação e que deveria ter um canto de caça. Repetiu esse canto ao filho. Era uma
canção do búfalo. «Porquê uma canção do búfalo?» Porque o peixe tinha saudades dos búfalos.
Quando estes chegavam aos lagos e aos rios nos dias quentes de verão, despojavam-se das suas
saborosas e gordas carraças para que os peixes as comessem e os seus excrementos atraíam outros
insetos que os peixes também apreciavam. Ansiavam pelo regresso do búfalo. Perguntaram-me para
onde tinham ido os búfalos, revelou Akii. Não soube dizer-lhes. O rapaz aprendeu a canção, mas
argumentou que duvidava que servisse para alguma coisa. Afinal, há muitos anos que ninguém via
um búfalo.
Dormiram os dois aquela noite. Dormiram e dormiram. Quando acordaram, estavam tão fracos que
concluíram que seria mais fácil deixarem-se morrer. Contudo, Nanapush trazia consigo um pouco
de arame para fazer uma armadilha. Rastejou e armou a armadilha a poucos metros do pequeno
refúgio.
«Se apanharmos um coelho, ele dir-me-á onde estão os animais», garantiu Akii.
Voltaram a adormecer. Quando despertaram, havia um coelho a debater-se na armadilha. A mãe
aproximou-se do animal e escutou o que este tinha para lhe dizer. Depois regressou para junto do
filho, levando o coelho.
«O coelho entregou-se a ti», explicou ela. «Deves comê-lo e espalhar cada um dos seus ossos pela
neve, para que possa voltar a viver.»
Nanapush assou o animal e comeu-o. Por três vezes pediu à mãe que aceitasse um pedaço, mas ela
recusou. Escondeu a cabeça no cobertor para que o filho não lhe visse a cara.
«Agora vai», ordenou. «Escutei o mesmo canto por parte do coelho». O búfalo costumava revolver
a terra e a erva crescia melhor para os coelhos comerem. «Todos os animais sentem a falta dos
búfalos, mas também têm saudades dos verdadeiros Anishinaabeg. Leva a arma e segue para
oeste.» Um búfalo regressou, vindo desse horizonte. «A anciã espera por ti. Se regressares e eu já
tiver morrido, não chores. Tens sido um bom filho para mim.»
E com isso Nanapush partiu.

198

Mooshum calou-se. Ouvi a sua cama ranger, depois o ressoar suave e uniforme dos seus roncos.
Estava desapontado e ocorreu-me ir acordá-lo para que me contasse o resto da história. Todavia,
acabei por adormecer também. Quando acordei, interroguei-me de novo o que teria acontecido.
Mooshum estava na cozinha, sorvendo as papas de aveia aromatizadas com xarope de ácer que
tanto apreciava pela manhã. Perguntei a Mooshum quem era Nanapush, o rapaz de quem falara na
história. Mas ele deu-me uma resposta bem diferente.
Nanapush?
Mooshum soltou uma risada seca e estridente.
Um velho com propensão para a loucura! Como eu, mas pior. Devia ter sido eliminado.
Confrontado com o perigo, agia sempre como um idiota. Quando era necessária autodisciplina, a
cobiça vencia sempre Nanapush. Envelheceu precocemente por causa dos disparates que cometeu e
das mentiras que proferiu. O Velho Nanapush, como lhe chamavam, ou akiwenziish. Por vezes, o
patife operava milagres recorrendo a um comportamento grosseiro e repugnante. As pessoas
procuravam-no, embora às escondidas, para que as curasse. Na verdade, quando era jovem, também
eu lhe levei cobertores e tabaco em troca de alguns segredos sobre como agradar à minha primeira
esposa, cujo olhar havia começado a vaguear. A Junesse era um pouco mais velha do que eu, e na
cama ansiava pela paciência que a um homem que apenas chega com a idade. O que hei de fazer?,
perguntei ao velho. Diz-mel «Baashkiziganl Baashkizigan! (Nota 25)», disse Nanapush. Não sejas
tímido. Tem calma, e quando enfrentares novo ataque, pensa que estás a remar no lago contra um
vento forte e não pares até a tua canoa ter chegado à margem oposta. E foi assim que conservei a
minha mulher e acabei por respeitar o velho homem. Ele agia como um louco para distinguir os
amigos dos inimigos, mas dizia sempre a verdade.
E a mãe dele?, indaguei. E a mulher que nenhum homem foi capaz de matar? Quando ela o mandou
procurar o búfalo. O que aconteceu?

Nota 25 «Arma». [N. da T.)

199

Que diabo estás tu para aí a dizer, meu rapaz?


A tua história.
Que história?
A que me contaste a noite passada.
A noite passada? Mas eu não contei nenhuma história. Dormi a noite toda. Como uma pedra.
«Está bem», pensei. «Vou ter de esperar que ele volte a adormecer profundamente. Quem sabe se
dessa vez ficarei a saber o final da história?»
Esperei pela noite seguinte, tentando manter-me acordado. Mas sentia-me cansado e não parava de
cabecear. Dormi durante algum tempo. Depois, nos meus sonhos, escutei uma espécie de
matraquear, e acordei com Mooshum sentado outra vez. Tinha-se esquecido de tirar a dentadura e
esta estava solta. Batia os dentes, sem falar, como tinha por hábito fazer quando estava furioso.
Mas, por fim, os dentes caíram-lhe da boca e lá encontrou as palavras.
Ah, esses primeiros anos da reserva, quando nos encurralaram! Reduzidos a apenas alguns
quilómetros quadrados. Morríamos de inanição enquanto as vacas dos colonos engordavam nas
pastagens cercadas dos nossos antigos terrenos de caça. Nesses primeiros anos, o nosso pai branco,
com a sua enorme barriga, refastelava-se com dez patos ao jantar e nem sequer as patas nos
mandava. Foram anos muito maus. Nanapush viu o seu povo passar fome e morrer, depois a sua
mãe foi apontada como wiindigoo, mas os homens não conseguiram matá-la. Não estavam em lado
nenhum. Morriam. Apesar da fome, o coelho dera-lhe alguma força, por isso resolveu ir procurar o
tal búfalo. Pegou no machado da mãe e na arma do pai.
Enquanto avançava a custo, quilómetro a quilómetro, Nanapush ia entoando o canto do búfalo,
embora isto o fizesse chorar. Partia--lhe o coração. Recordava-se de quando era um rapazinho e os
búfalos enchiam o mundo. Certa vez, quando era ainda pequeno, os caçadores desceram até ao rio.
Nanapush subiu a uma árvore para ver de onde tinham vindo os búfalos. Nessa altura cobriam a
Terra. Eram intermináveis. Testemunhara essa glória. Para onde teriam ido?

200
Alguns anciãos diziam que o búfalo tinha desaparecido por um buraco na terra. Outros afirmavam
ter visto o homem branco matar milhares a partir de um vagão e deixá-los a apodrecer onde
tombavam. Fosse como fosse, já não existiam. Ainda assim, à medida que Nanapush avançava aos
tropeções, quilómetro a quilómetro, cantava a canção do búfalo. Acreditava que devia existir uma
razão. E, por fim, olhou para o chão. Viu pegadas de búfalo! Mal acreditava. A fome leva as
pessoas a ver coisas. Mas depois de seguir essas pegadas durante algum tempo, percebeu que se
tratava de facto de um búfalo. Um animal tão velho e louco como o próprio Nanapush se haveria de
tornar, e eu, e todos os sobreviventes desses anos, o último de tantos.
O frio foi-se acentuando aos poucos. Nanapush caminhava com dificuldade, seguindo as pegadas
do búfalo, que ziguezagueavam para o interior de uma zona arborizada e repleta de arbustos, na
qual, acreditava Nanapush, este se teria decerto abrigado. Mas não o fez. As pegadas prosseguiam
para uma planície extremamente plana, onde o vento soprava contra ambos com uma força
assassina. Nanapush sabia que teria de matar o búfalo quanto antes. Reuniu todas as forças que
restavam no seu corpo faminto e estugou o passo, contudo, o animal mantinha-se sempre à sua
frente, avançando contra a neve com mais facilidade do que ele.
Nanapush entoou o cântico do búfalo o mais alto que conseguiu, sem nunca parar de andar. Por fim,
naquela brancura penetrante, o búfalo escutou a sua canção. Virou-se para ele. Havia agora apenas
seis metros a separá-los. Nanapush conseguia ver que o animal não passava de uma pele suspensa
sobre uma raquítica carcaça. Contudo, fora um animal enorme e nos seus olhos castanhos notava-se
uma profunda tristeza, que perturbou Nanapush mesmo no seu desespero.
«Velha Mulher-Búfalo, detesto ter de matar-te», lamentou Nanapush, «pois foste capaz de
sobreviver graças ao teu engenho e à tua coragem, apesar de o teu povo ter sido aniquilado. Deves
ter-te tornado invisível. Mas, visto que és a única esperança para a minha família, talvez estivesses
à minha espera.»
Nanapush voltou a entoar o cântico, pois sabia que o búfalo estava à espera de o ouvir. Quando
terminou, o animal permitiu-lhe que disparasse à queima-roupa contra o seu coração.

201

A velha mulher tombou sem deixar de olhar para Nanapush daquela forma emotiva, e Nanapush
caiu ao lado dela; esgotado. Alguns minutos depois, levantou-se e mergulhou a faca nas entranhas
do búfalo. Um jorro de sangue quente e oloroso animou-o, e ele trabalhou com celeridade
arrancando as vísceras, limpando a cavidade torácica. Enquanto trabalhava, mastigava pedaços crus
de coração e fígado. Mesmo assim, as mãos tremiam-lhe e as pernas não paravam de ceder. Sabia
que não estava a pensar com lucidez. A neve começou a abater-se sobre ele. E viu-se apanhado no
meio de um nevão.
Os caçadores das planícies conseguem sobreviver a tempestades mortais fazendo um abrigo com
pele de um búfalo acabado de esfolar, mas é perigoso entrar no animal. Toda a gente o sabe.
Todavia, no seu delírio, sem saída e atraído pelo seu calor, Nanapush rastejou para o interior da
carcaça. Uma vez aí, deixou-se arrebatar pelo súbito conforto. Com a barriga cheia e o calor que o
envolvia, perdeu os sentidos. E enquanto jazia inconsciente, converteu-se num búfalo. Este adotou
Nanapush e contou-lhe tudo o que sabia.
Claro que, assim que a tempestade passou, Nanapush percebeu que ficara congelado contra as
costelas do animal. Estava bem preso pelo sangue solidificado. Nanapush tinha levado a arma com
ele para dentro da carcaça e mantinha-a onde a pudesse disparar. Assim, lá conseguiu abrir um
buraco para respirar, embora tenha ficado surdo durante dias por causa da explosão. Não conseguiu
que a arma voltasse a funcionar. Introduziu o cano da arma no buraco para impedir que congelasse
e esperou. Para não perder o ânimo, desatou a cantar. Assim que a tempestade se afastou, a mãe foi
procurá-lo. Tinha conseguido salvar-se derrubando um porco-espinho de uma árvore. Matara-o com
grande ternura e queimara os espinhos, aproveitando toda a carne. Começou a procurar o filho
assim que parou de nevar. Construiu até um tobogã e arrastou-o durante todo o caminho, não fosse
dar-se o caso de o rapaz estar ferido ou, na melhor das hipóteses, ter matado um animal. Não tardou
a avistar a silhueta negra e desgrenhada meio enterrada na neve. Desatou a correr, o tobogã aos
trambolhões atrás dela, porém, quando alcançou o búfalo, os seus joelhos fraquejaram de medo, tão
surpreendida estava por ouvi-lo entoar o cântico que o peixe lhe ensinara.

202

Depois a sua mente clareou e pôs-se a rir. Percebeu de imediato de que forma o seu insensato filho
tinha ficado aprisionado. Akii soltou Nanapush do interior do búfalo, prendeu-o ao tobogã e
arrastou-o até ao bosque. Aí construiu um abrigo e acendeu uma fogueira para o descongelar.
Depois regressaram várias vezes com o tobogã e transportaram cada pedaço do búfalo para a sua
gente e os seus parentes.
Quando os homens receberam a carne das mãos da mulher que haviam tentado matar, e do filho que
a protegera, sentiram-se envergonhados. Akii era generosa, mas levou os filhos e não voltou para o
marido.
Muitas pessoas foram salvas graças àquela velha mulher-búfalo que se entregou a Nanapush e à sua
mãe impossível de matar. O próprio Nanapush confessou que, quando se sentia desolado em virtude
das perdas que sofrera uma e outra vez ao longo da vida, a sua velha avó búfala vinha falar-lhe para
o consolar. O animal sabia o que tinha sucedido à mãe de Nanapush. Dizia que a justiça wiindigoo
devia ser procurada com grande cautela. Deveria erigir-se um lugar para que as pessoas pudessem
fazer o bem. Disse muitas coisas e ensinou Nanapush, para que, no decorrer da sua vida, este se
tornasse sábio na sua idiotice.
Mooshum deitou-se logo de seguida, exalou um enorme suspiro e começou a ressonar suavemente.
Eu também adormeci, tão de súbito quanto Nanapush no interior do búfalo, e quando acordei já me
tinha esquecido da história de Mooshum, embora a tenha recordado mais tarde, quando o meu pai
me veio buscar e mencionou a palavra «carcaça». Estava muito pálido e eufórico, e falava com o tio
Edward, dizendo: «Por fim, enfiaram aquela maldita carcaça na prisão.» Nesse momento, lembrei-
me de toda a história de Mooshum, com a nitidez de um sonho, e soube de imediato que tinham
apanhado o homem que violara a minha mãe.
Quem é ele? Quem?, perguntei ao meu pai enquanto subíamos a rua para a nossa casa.

203

Tudo a seu tempo, respondeu ele. Em casa, a minha mãe afadigava-se a limpar, precipitando-se de
um lado para o outro com a rapidez de uma aranha. Depois afundava-se numa cadeira a respirar
com esforço, deixando de levar avante tarefas que mal tinha começado ou abandonando-as a meio.
Voltava a levantar-se, pouco mais do que uma figura esquálida, um palito. Corria de um lado para o
outro, do frigorífico para o fogão, e deste para o congelador. Após o seu longo retiro, aquela súbita
energia era perturbadora. Passara do zero aos cem, e isso não era normal, embora o meu pai
parecesse satisfeito e se ocupasse a terminar as tarefas que ela deixava inacabadas. Nenhum deles
reparou em mim, por isso saí.
Sendo que a maldita carcaça estava na prisão, uma vez que alguma coisa ia ser feita, senti-me mais
leve. Senti que podia voltar a ser um rapaz de apenas treze anos e a viver o verão. Alegrei-me por
ter deixado o trabalho na bomba de gasolina. Flutuava pela rua.
A casa de Cappy, rodeada também de tarefas inacabadas, ficava a apenas cinco quilómetros do
campo de golfe de Hoopdance. Uma parte do campo de golfe ficava dentro da reserva, um
problema ainda por resolver entre a cidade e o conselho tribal. Teria o conselho tribal o direito de
arrendar terrenos tribais a um campo de golfe que se estendia para fora da reserva e entregava
grande parte dos seus lucros a não-índios? E quem era responsável se um golfista fosse atingido por
um raio? Se esta questão alguma vez fora levada à apreciação do meu pai, eu não fazia ideia, mas
toda a gente acreditava que os índios deviam jogar ali golfe gratuitamente, o que, claro, não era
possível. Às vezes, eu e Cappy íamos até lá de bicicleta à procura de bolas de golfe perdidas, que
planeávamos vender de volta aos golfistas. Quando cheguei a casa de Cappy e lhe propus que
fôssemos fazer isso, ele argumentou que preferia fazer outra coisa, mas não sabia o quê. Eu também
não tinha nenhuma ideia. Assim, pegámos nas bicicletas e fomos a casa de Zack. Angus estava por
lá, portanto, ficámos os quatro juntos.
Na praia do lago que ficava mais perto da povoação havia uma igreja, ou, para ser mais exato, a
igreja bloqueava o acesso à praia.

204

A igreja era proprietária da estrada que levava à praia e tinha instalado uma cancela para gado, que
podia ser fechada. Para lá da cancela havia tabuletas: proibido beber, proibido passar, proibido tudo
e mais alguma coisa. Na praia católica havia uma estátua desbotada da Virgem Maria rodeada de
pedras. Estava carregada de rosários, um dos quais pertencia à tia de Angus. Graças a esse rosário,
acreditávamos que tínhamos o direito de ali estar. É claro que, como a igreja católica recebera
aquelas terras numa época de grande desespero para nós, na mesma altura em que Nanapush matou
o búfalo, a verdade era que não só tínhamos direito como também éramos os donos da terra, da
igreja, da estátua e até da pequena casa onde o padre Travis Wozniak vivia. Éramos donos do
cemitério que se estendia pela colina atrás dela e do bonito bosque de vetustos carvalhos que
cercava essas sepulturas. Mas por muito ou pouco que fôssemos donos de tudo aquilo, uma vez ali
chegados, subindo descaradamente a colina, saltando a cancela para o gado e correndo para a praia,
demos de caras com os Jovens Encontram Cristo, ou YEC (Nota 26).
Quando passámos por eles, estavam sentados em círculo, de pernas cruzadas, no extremo oposto da
relva cortada. Depois de dar uma vista de olhos ao grupo, concluí que se tratava de uma mistura de
miúdos da reserva, muitos dos quais eu conhecia, e de jovens que nunca vira, seguramente
voluntários de verão oriundos de escolas secundárias e universidades católicas. Já os tinha visto,
deslocando-se em grupo com as suas vistosas T-shirts cor de laranja com imagens do Sagrado
Coração estampadas a negro no peito. A maioria das pessoas que se dispunha a falar com eles já se
havia convertido, o que devia ser uma enorme deceção. Fosse como fosse, passámos ao largo e
deixámos as bicicletas junto ao pontão. Abrimos caminho por entre o mato até outra zona de praia
mais reservada.
Vamos esconder as calças, sugeriu Angus, não vá aparecer um deles para nos roubar a roupa. Não
apareceu propriamente nenhum ladrão de roupa, mas depois de estarmos metidos na água há uma
meia hora, sem roupa e na brincadeira, tivemos duas visitas. A primeira: um rapaz alto e loiro de
peito arqueado, mais velho, porventura universitário, com um problema de acne como eu nunca
vira.

Nota 26 - YEC: Youth Encounter Christ. (N. da T.)

205

A outra, bem, era o oposto dele. Suponho que poderíamos dizer que era um sonho. Um sonho de
miúda, e foi assim que passámos a chamá-la. Pele cor de caramelo. Olhos grandes e doces de um
castanho aveludado. Cabelo liso, comprido e castanho puxado para trás por uma bonita bandolete.
Calções. Curvas. Seios que empurravam delicadamente a sua horrível T-shirt laranja do Sagrado
Coração. Eu estava a boiar de costas e a olhar para o céu quando tudo isto aconteceu. Virei-me e
reparei que os meus amigos tinham desaparecido. Tinham-se deslocado para mais perto da margem
e encontravam-se de pé com a água pela cintura, a cortar a leve ondulação com as mãos. Cappy
penteava o cabelo para trás enquanto falava, e de súbito reparei que ele parecia muito mais velho e
mais forte do que Zack, Angus e eu. Nadei até eles e fiquei de pé junto aos meus amigos.
Portanto, vou pedir-vos novamente que saiam daqui, disse o rapaz das borbulhas.
E eu vou perguntar-te novamente porquê, argumentou Cappy.
Uma vez mais, e para que fique bem claro, o tipo do YEC fez uma pausa e levantou o dedo
indicador, apontando para o céu, gesto que Angus copiaria a partir daquele dia.
Esta praia está reservada para atividades autorizadas pela igreja, explicou o YEC. Estou a pedir-vos
de forma educada que saiam.
Não, retorquiu Cappy. Não queremos ir.
Esguichou água do interior da palma da mão, fechando o punho. Olhava de soslaio e languidamente
para o Sonho de Miúda. Ela ainda não dissera nada; mas tinha os olhos colados em Cappy.
E tu, o que achas? Apontou para ela com o queixo. Achas que devemos ir embora?
O Sonho de Miúda respondeu num tom de voz claro:
Sim, acho.
Está bem, disse Cappy, se tu o dizes. E saiu da água.
Olhei de esguelha para Cappy enquanto passava a meu lado. O pénis pendia-lhe imponente entre as
pernas. Escutou-se um grito. Oriundo do rapaz.
Volta para trás!
O rapaz das borbulhas apressou-se a agarrar Cappy para o obrigar a entrar de novo na água. Cappy
empurrou-o para o lado e o Sonho de Miúda afastou-se, mas não sem antes olhar demoradamente
para trás

206

Cappy rasteirou o Defensor de Deus, deu a volta com um movimento de luta livre e começou a
mergulhar-lhe a cabeça na água. Não o afundou com muita força, não mais do que fazíamos uns aos
outros, mas o tipo voltou a gritar e Cappy soltou-o.
Ei, meu. Cappy segurou-o pelo ombro. O rapaz das borbulhas vomitou no lago e nós afastámo-nos.
Desculpa, meu, pediu Cappy.
Estendeu o braço para lhe dar uma palmadinha nas costas cor de laranja, mas a cara do rapaz
começou a ficar roxa e ouvimos os seus dentes de trás ranger.
Está-se a passar, ou assim, exclamou Cappy. E, sem mais nem menos, o tipo virou-se e começou a
agitar-se violentamente e a sacudir a cabeça, e ter-se-ia afogado ali mesmo se não o tivéssemos
agarrado e arrastado para a margem. Deitámo-lo na areia. Eu era o único com meias. Enrolei uma e
meti-lha na boca. Fomos segurando o tipo à vez, falando com ele, ao mesmo tempo que nos
vestíamos às pressas. As convulsões pararam e eu retirei a meia. Pedimos a Angus que fosse
chamar o padre Travis.
Depois de Angus ter partido, quando o rapaz já respirava com mais facilidade, embora continuasse
inconsciente, Cappy perguntou:
Que fazemos agora? Pensa depressa, Número Um.
Juntamo-nos ao YEC, sugeri.
Sim, concordou Zack. Procurar novas formas de vida. O YEC, um povo primitivo baseado no
rosário...
Estou a entender, afirmou Cappy. Convertemo-nos. Este tipo converteu-nos.
Claro, disse o rapaz das borbulhas com os olhos entreabertos. Voltou a perder os sentidos e
vomitou. Virámo-lo de lado para que não sufocasse, e ele tossiu e voltou a si.
Estamos bem agora, meu, declarou Cappy. Mostraste-nos o caminho. Sentimos uma centelha
tombar sobre nós.
É verdade, confirmei. A centelha.
Jesus salva, garantiu Zack, e repetiu estas palavras uma e outra vez num cântico suave, mas que foi
subindo em crescendo e que pareceu reanimar o esquálido rapaz, cujo nome era Neal, e o fez
levantar-se e juntar uma mão trémula às nossas para sentir o espírito.

207

Avançando com o espírito entre nós, saímos dos arbustos, completamente vestidos, agrupados em
redor de Neal, todo encharcado repetindo em voz bem alta tudo o que Zack dizia. O Espírito Santo
está aqui! Está aqui sobre nós. Aleluia. Louvada seja a Sagrada Forma de Cristo. Louvemos a sua
Ress-ereção. O Leite da Santa Mãe. O Cordeiro do Amor de Deus. Bendito Ventre cheio de Fruta!
Zack era um péssimo católico. O padre Travis tinha deixado o grupo para tratar de um assunto
urgente e só naquele momento regressava com Angus. A sotaina enredava-se-lhe nas coxas ao
mesmo tempo que avançava a passo largo. Porém, era demasiado tarde. A única coisa que viu foi
um grupo de T-shirts cor de laranja que nos abraçava, chorava e levantava as mãos ao céu. A única
coisa que pôde fazer quando Cappy se encostou a ele a gritar emocionado: «Obrigado, obrigado,
Jesus», foi dar-lhe palmadinhas nas costas com força suficiente para o fazer gemer e olhar-me como
um falcão encurralado. Depois daquilo sabia que o melhor era não voltar a encarar o padre Travis.
Dei meia volta e esbarrei no Sonho de Miúda, à margem do que se passava, absorta na verdade e na
imagem de Cappy a sair da água. Vi tudo isso no seu rosto. E percebi que não havia sinal de
conflito. Que é o mesmo que dizer que estava apaixonada.
Chamava-se Zélia e viera de Helena, no Montana, para converter os índios, que já não viviam em
tipis e muitos dos quais tinham a pele mais clara do que a sua, e isso deixava-a perplexa.
Zack perguntou-lhe porque não ficara no Montana a converter os índios de lá.
Que índios?, retorquiu ela.
Ah, esses, apressou-se Cappy a dizer. Já são todos mórmones e testemunhas de Jeová e sei lá que
mais, esses índios do Montana. Ninguém se aproxima deles. Devias continuar a converter os índios
daqui. Isto está cheio de pagãos.
Ah, disse Zélia. Bem, de qualquer maneira, também não nos intrometemos nas outras missões.
Era mexicana, de uma família muito unida, que se opusera ao seu trabalho de missionária numa
zona de risco, contou ela, mas acabara por levar a melhor.

208

Na verdade, também és índia, disse-lhe. Pareceu ofender-se, por acrescentei: Talvez pertenças à
nobreza maia.
Provavelmente, és asteca, referiu Cappy.
Isto aconteceu mais tarde nesse dia. Tínhamo-nos inscrito para últimos dois dias do campo de férias
de verão do padre Travis para odermos estar perto de Zélia. Ela e Cappy começavam a namoriscar.
Sim, creio que és asteca. Cappy mirou-a com uma expressão meio zombeteira. Eras capaz de cravar
a mão no peito de um homem e arrancar-lhe o coração.
Zélia desviou o olhar, mas sorriu.
Zack estendeu o punho fechado e, apertando-o várias vezes, fê-lo pulsar com um ruído meio
sibilante. Pff-pfff. Pff-pfff- Nenhum dos dois olhou para ele. Nós os três sabíamos que não
tínhamos a menor possibilidade. Cappy era o eleito. Ainda assim, queríamos estar perto dela e
esperávamos que nos tentasse converter de verdade.
Em casa, a energia da minha mãe diminuíra apenas ligeiramente. Exibia duas riscas de cor no rosto.
Percebi que tinha aplicado rouge. Andava a tomar comprimidos de ferro e outros. Contei seis
frascos de comprimidos no armário da cozinha. Tinha preparado panquecas de mirtilos para o
jantar. Sentados à mesa, ela e o meu pai escutaram-me com ceticismo enquanto lhes contava que
me juntara aos Jovens Encontram Cristo, ou YEC, e que tinha de ir à igreja no dia seguinte.
Jovens Encontram Cristo? O meu pai semicerrou os olhos. Deixaste o emprego na bomba de
gasolina para te juntares a um grupo de jovens cristãos?
Despedi-me porque o Whitey bateu na Sonja.
A minha mãe retesou-se.
Muito bem, atalhou rapidamente o meu pai. E no que consistem esses encontros?
Encenamos situações da vida real. Como, por exemplo, se nos forem oferecidas drogas.
Imaginamos que Jesus está ali para se interpor, digamos, entre o Angus e o traficante. Ou entre mim
e o traficante. Não que isso aconteça.

209

Estou a entender, disse o meu pai. Vocês bebem cerveja, se bem me lembro. Por acaso Jesus
arranca-vos as latas das mãos? E esvazia-as para o chão?
É isso que devemos visualizar.
Interessante, comentou a minha mãe. O seu tom era neutro, formal, nem mordaz nem falsamente
alegre. Achara que se tratava da mesma mãe, apenas com as faces cavadas, os cotovelos salientes,
as pernas esqueléticas. Todavia, começava a notar que era uma pessoa diferente da mãe de outrora.
Aquela que eu considerava a minha mãe de verdade. Acreditara que a minha mãe verdadeira
apareceria de novo, mais cedo ou mais tarde. Que teria a mãe de antes de volta. Naquele momento
passava-me pela cabeça que tal podia não acontecer. A maldita carcaça roubara-ma. Uma parte dela,
cálida e afetuosa, tinha desaparecido e talvez não regressasse jamais. Seria preciso travar
conhecimento com esta nova e impressionante mulher, e eu tinha treze anos. Não tinha tempo.
O segundo dia nos Jovens Encontram Cristo foi melhor do que o primeiro. Recebemos as nossas T-
shirts naquela manhã e vestimo-las de imediato por cima da roupa, dando palmadinhas no Sagrado
Coração circundado por uma coroa de espinhos e estampado por cima do nosso próprio coração.
Fomos até ao lago e acompanhámos em playback as canções que todos os jovens do grupo já
conheciam. Neal era então o nosso melhor amigo. Os outros miúdos da reserva, verdadeiros
devotos cujos pais eram diáconos e confecionavam tartes para os funerais, haviam dito a Neal que
nós os quatro éramos os mais malcomportados da escola, o que nem sequer era verdade.
Pretendiam apenas fazer com que o Neal se sentisse impressionado consigo próprio, pois desde o
início confessara ter pouca autoestima. Infelizmente para nós e para as nossas possibilidades de
salvação a longo prazo, o Jovens Encontram Cristo era um acampamento de apenas duas semanas.
Nós tínhamos sido convertidos a um mero dia do final. Decorriam as sessões de conclusão, e uma
vez que estavam a resumir os acontecimentos e os ensinamentos das últimas duas semanas, nós não
tínhamos muito com que contribuir.

210

Uma rapariga cuja irmã conhecíamos, Ruby Smoke, declarou que fora salva de uma serpente. A
meu lado, senti Zack tremer e dei-lhe uma cotovelada. Angus sabia o guião e murmurou: «Graças
ao Senhor», mas Cappy perguntou:
Que tipo de serpente?, num tom inexpressivo. O padre Travis inclinou-se para a frente e fulminou-o
com um olhar de soslaio.
Ruby era uma rapariga corpulenta, que usava o cabelo curto, com madeixas vermelhas pintadas a
spray, e argolas nas orelhas. Punha sempre demasiada maquilhagem. O namorado, Toast — não me
recordo do seu nome verdadeiro, nem ninguém se lembrava —, também pertencia ao grupo. Era um
tipo magrinho, corcovado, de calções de basquetebol. Olhou para Cappy sem a menor ponta de
maldade.
E que te interessa isso? Uma serpente é uma serpente, fez ele notar.
Cappy pôs as mãos no ar.
Só estava a perguntar, meu! Cravou os olhos no chão.
Mas já que estás interessado, continuou Ruby, era uma serpente gigantesca, acastanhada, com
linhas cruzadas. E tinha os olhos dourados e a cabeça em forma de cunha, como uma cascavel.
Um crótalo, expliquei eu. Foste salva de um crótalo.
O padre Travis tinha uma expressão ominosa, mas Ruby parecia satisfeita.
Não há problema, senhor padre, disse ela. O tio do Joe é professor de Ciências.
Quer-me parecer, continuei, animado, que foste salva de uma fer-de-lance, que é a cobra mais
mortífera do mundo. Se te morder na mão, cortam-te o braço. É o único tratamento. Ou talvez
tenhas sido salva de uma Lachesis, que pode atingir os três metros de comprimento e faz
emboscadas às suas presas. E até capaz de engolir uma vaca. É impossível ver a fer-de-lance
quando ataca, pois desloca-se à velocidade da luz.
Toda a gente assentiu, entusiasmada, olhando para Ruby, e alguém elogiou: «É assim mesmo,
Ruby!» A rapariga parecia orgulhosa de si mesma. O padre Travis pronunciou-se então.

211

As vezes, as coisas acontecem muito depressa, assim sem aviso e é por isso que neste grupo de
encontro trabalhamos para vos preparar para essas ocasiões. Não são momentos de tentação, na
verdade. Reagimos por instinto. A tentação é um processo mais lento e sente-se mais pela manhã,
logo após o acordar, e ao fim do dia quando não se tem nada para fazer, quando estamos cansados
mas ainda sem sono. É nessas alturas que somos tentados. É por isso que aprendemos estratégias
para nos mantermos ocupados, aprendemos a rezar. Um veneno que atua rapidamente é uma coisa
diferente. Ataca com uma presteza cega. Podemos ser mordidos pela tentação em qualquer altura. É
um pensamento, uma orientação, um ruído no cérebro, um palpite, uma intuição que nos leva a
lugares mais negros do que jamais imagináramos.
Fiquei ali sentado, colado ao chão, atingido por um estranho terror ao escutar aquelas palavras.
Demos as mãos e baixámos a cabeça para rezar uma ave-maria, oração que na reserva não era
preciso ser-se católico para se saber, pois as pessoas murmuram-na a toda a hora na mercearia, nos
bares e nos corredores da escola. Rezámos dez seguidas, mencionando o «fruto do vosso ventre» de
cada vez, uma expressão que Zack considerava intolerável e que não era capaz sequer de
pronunciar com medo de desatar a rir. O dia correu mais ou menos dessa maneira, entre confissões,
discursos motivadores, lágrimas, dramatizações e orações. E momentos assustadores quando
tivemos de olhar fixamente nos olhos uns dos outros. Digo assustador porque me calharam os olhos
de Toast, que eram buracos negros, insondáveis, e pertencentes a um rapaz, e que, por isso, não
tinham o menor interesse. Cappy teve a sorte de ficar com Zélia. Pressupunha-se que aquilo fosse
um encontro de almas. Uma experiência espiritual. No entanto, Cappy confessou-nos que teve a
maior ereção da sua vida.
A energia frenética que se apoderara da minha mãe tinha-se esgotado, e ela encontrava-se a
descansar, mas no sofá, não fechada no quarto. Assim que cheguei a casa, o meu pai convidou-me
para me sentar com ele numa velha e ferrugenta cadeira de cozinha junto ao jardim. A tarde estava
fresca e a brisa agitava os ramos dos bordos-negundos que orlavam o quintal.

212

O enorme álamo estrepitava junto à garagem. O meu pai inclinou a cabeça para trás a fim de
apanhar os últimos raios de sol no rosto.
Questionara-o acerca da maldita carcaça, e ele pensava no que dizer.
Quem é?
O meu pai abanou a cabeça.
A questão é que, disse ele, a questão é que... Escolhia as palavras cautelosamente. Haverá um
processo-crime em que o juiz decidirá se ele pode ser acusado ou não. Podemos estar a ir para além
dos limites. O advogado de defesa interpôs um recurso a pedir a sua libertação. O Gabir está a
aguentar-se, mas não tem argumentos de monta. A maioria dos casos de violação não chega tão
longe, mas temos o Gabir. Diz-se que a defesa vai processar o BIA. Embora saibamos que foi ele.
Embora tudo encaixe.
Quem é? Porque não podemos simplesmente enforcá-lo?
O meu pai apoiou a cabeça entre as mãos e disse que lamentava.
Não, declarou, pensativo. Quem me dera poder enforcá-lo. Acredita. Imagino-me como o juiz
implacável de um velho western, que condena todos criminosos à forca. Seria com prazer que
ditaria a sentença. Mas para lá da brincadeira de julgar cowboys na minha cabeça está a justiça
tradicional anishinaabe. Ter-nos-íamos sentado para decidir o seu destino. O nosso atual sistema,
contudo...
Ela não sabe onde aquilo aconteceu, comentei.
O meu pai baixou o queixo.
Não temos em que basear-nos. Nenhuma jurisdição clara, nenhuma descrição exata do local onde o
crime ocorreu.
Virou um pedaço de papel e desenhou nele um círculo, depois apontou com o lápis no círculo. Era
um mapa.
Aqui fica a casa redonda. Logo atrás temos a parcela atribuída aos Smoker, que está agora tão
fracionada que não há quem tire proveito dela. Depois uma faixa que foi vendida, terra de
propriedade plena. A casa redonda situa-se no extremo oposto das terras tribais sob fideicomisso,
sobre a qual o nosso tribunal tem jurisdição, embora, claro, não sobre um homem branco. Portanto,
aplicam-se as leis federais.

213

As terras até ao lago também pertencem à tribo em fideicomisso, mas uma esquina dessa faixa é um
parque estatal onde vigoram as leis do estado. Do outro lado dessa pastagem, na floresta, temos
uma extensão de terreno da casa redonda.
Okay, disse eu, observando o desenho. Entendo. Porque não pode ela inventar um lugar?
O meu pai virou a cabeça e contemplou-me. A pele por baixo dos seus olhos era de ura roxo
acinzentado. As bochechas eram pregas caídas.
Não posso pedir-lhe que faça uma coisa dessas. Por isso, o problema mantém-se. O Lark cometeu o
crime. Em que terra? Terras tribais? Terras de propriedade plena? Do estado? Não podemos intentar
um processo se não soubermos que leis se aplicam.
Se tivesse acontecido em qualquer outro local...
Sim, mas aconteceu aqui.
Sabias disso desde que a mãe falou sobre o sucedido.
E tu também, replicou o meu pai.
Desde que a minha mãe quebrara o silêncio na minha presença e desencadeara aquilo que se seguiu,
insisti com o meu pai para que me contasse tudo o que se ia passando. E ele assim fez, até certo
ponto, embora não tenha revelado tudo. Por exemplo, não mencionou os cães. Um dia depois de
termos falado, apareceu uma equipa de busca e salvamento na nossa reserva. Segundo o que Zack
escutara, tinham vindo do Montana.
Estávamos a andar de bicicleta sem destino, a fazer cavalinhos na poeira, a circundar o enorme
recinto de areia grossa perto do hospital, a saltar por cima de aglomerados dispersos de alfalfa e
não-me-toques. Era sábado, e Zélia, juntamente com os outros monitores do acampamento, fora
numa última excursão ao Jardim da Paz. Depois do workshop de liderança, todos iriam embora. O
workshop tinha a duração de três dias, e Cappy fazia de conta que era Worf.
Lançou-me o seu desafio klingon, Heghlu meh qaq jajvam, tentou fazer uma derrapagem de
trezentos e sessenta graus, e falhou redondamente.
É um bom dia para morrer!, gritou.
Podes crer!, bradei.

214

Angus era o que melhor imitava Data.


Por favor, prossigam com esse conflito insignificante, disse ele. É deveras curioso. Levantou o
dedo.
Nesse momento, Zack apareceu na sua bicicleta e contou-nos o que se passava junto ao lago, com
as equipas de busca e salvamento, a polícia e as furgonetas que rebocavam os barcos de pesca
requisitados. Quando chegámos ao lago, conseguimos ver todo o aparato: os cães e os seus
tratadores a bordo de quatro barcos de alumínio com motores fora de borda que não deviam ter
mais de quinze cavalos de potência. Os cães eram de diferentes raças; havia um golden re-triever,
um cão pequeno que parecia um cruzamento entre Pearl e o rafeiro sarnento de Angus, um labrador
de pelo negro e lustroso e um pastor-alemão.
Estão à procura de um carro que se afundou ali, explicou Zack. Foi tudo o que descobri.
Sabia que se tratava do carro de Mayla. Pelo que a minha mãe contara, sabia que o seu agressor o
havia atirado para o fundo do lago. Também sabia que procuravam Mayla. Não conseguia deixar de
imaginar o que ele poderia ter feito para lastrar o corpo dela e voltar, de alguma forma, a metê-la
dentro do automóvel. Não queria pensar nessas coisas, mas o meu cérebro não parava de dar voltas
com esses horríveis pensamentos. Observámos as operações de busca durante todo o dia, os cães
que farejavam o ar à superfície e os tratadores que vigiavam cada um dos seus movimentos. Era um
processo lento. Avançavam pela água, calma e metodicamente, seguindo uma grelha invisível
traçada no fundo do lago. Trabalharam até escurecer, depois abandonaram a água e montaram o seu
próprio acampamento junto à margem.
No dia seguinte, chegámos bem cedo e conseguimos ficar mais perto. Na verdade,
espetacularmente perto. Não foi nossa intenção. Deixámos as bicicletas e rastejámos até ao
acampamento sem chamar a atenção. Havia uma nova azáfama. Fora estabelecido algum objetivo, e
apercebemo-nos disso quando os dois mergulhadores entraram num dos barcos e submergiram no
desnível abrupto que todos conhecíamos.

215

Havia uma inclinação íngreme no fundo do lago e, no local onde esta se encontrava com a margem,
sabia-se que a água atingia de imediato uma profundidade que sempre acreditáramos ser de trinta
metros, mas afinal era apenas de seis. Um penhasco dominava essa zona, e aí nos instalámos e
observámos tudo ao longo do dia. Já sentíamos fome, sede e discutíamos se nos devíamos escapulir,
quando um reboque apareceu na estrada empoeirada. Seguindo indicações dos homens presentes,
recuou o máximo possível até à água. Permanecemos escondidos nos arbustos, e aí estávamos
quando um carro, um Chevy Nova castanho-avermelhado, foi içado até à margem escorrendo algas
e água. Claro que esperávamos ver um corpo, e Angus sussurrou que nos preparássemos, que
iríamos ter pesadelos. Ele vira o tio afogado. Não havia nenhum cadáver no interior do carro.
Espreitámos por entre os arbustos, mas de uma posição elevada, de onde tínhamos uma visão
perfeita do interior do automóvel. Vimos a água lamacenta escorrer para a areia. Os vidros estavam
descidos. As portas não demoraram a ser abertas. Ninguém, nada, pensei ao início, mas havia uma
coisa.
Algo que provocou em mim um choque, que se traduziu num formigueiro superficial e que se foi
tornando mais profundo ao longo de todo esse dia, de toda essa tarde e de toda essa noite, até que
voltei a vê-lo quando começava a adormecer e acordei sobressaltado.
Na janela traseira do carro havia uma salgalhada de brinquedos, uns de plástico, talvez um urso de
peluche esventrado; estavam todos encharcados e misturados, por isso era difícil distingui-los, à
exceção de um trapo, um pedaço de tecido aos quadrados azuis e brancos que condizia com o trajo
da boneca recheada de dinheiro.

216

Capítulo Nove O Grande Adeus

Mooshum nascera nove meses depois do acampamento que se realizava aquando da colheita de
bagas, uma altura feliz em que as famílias se reuniam nos bosques. «Saí para ir apanhar bagas com
o meu pai», costumava dizer Mooshum, «e regressei com a minha mãe.» Achava o dito uma grande
piada e comemorava sempre a sua conceção, não o seu nascimento, pois convencera-se de que
nascera em Batoche durante o cerco de 1885, facto de que o meu pai duvidava. Era verdade, porém,
que Mooshum era ainda criança quando a família deixara para trás a sua bonita cabana, as suas
terras, o celeiro e o seu poço, e fugira de Batoche depois de Louis Riel ter sido apanhado e
condenado à forca. Rumaram a sul e atravessaram a fronteira, onde não foram recebidos de braços
abertos. Ainda assim, foram acolhidos por um chefe invulgarmente bondoso, que disse ao Governo
dos Estados Unidos que talvez eles fossem capazes de expulsar os seus filhos mestiços sem lhes dar
terras, mas que os índios iriam acolher aquelas crianças no seu seio. Os generosos índios de puro
sangue iriam passar por um mau bocado nos anos vindouros, ao passo que os mestiços, que já
sabiam tratar a terra e cuidar de animais, se saíram bem melhor e, com o passar do tempo,
começaram a assumir o comando e até a olhar com sobranceria os que os tinham resgatado.

217

No entanto, ã medida que crescia, Mooshum abandonou os modos do seu povo, os Métis. O
primeiro foi o catolicismo, depois começou a falar chippewa puro, sem o misturar com o francês, e
até confecionou um elegante fato de powwow para dançar, embora ainda dançasse a jiga e bebesse.
Como se dizia naqueles tempos, regressou à manta. Não que usasse uma manta, mas por vezes
punha uma pelos ombros e ia até à casa redonda e participava nas cerimónias. Era grande amigo de
todos os desordeiros que só queriam pândega, bem como dos que se debatiam desesperadamente
para proteger a reserva, território que não parava de se mover debaixo dos seus pés ao sabor dos
caprichos do Governo, dos censos realizados pelos agentes do Governo e de uma coisa chamada
parcelamento de terras. Nesses anos, muitos agentes fizeram fortuna com rações roubadas, e muitas
famílias desistiram e morreram por falta do que lhes fora prometido. E agora, disse Mooshum, no
dia em que nos reunimos para comemorar o seu aniversário, há comida com fartura. Comida por
toda a parte. índios gordos! No meu tempo, jamais se veria um índio gordo. A avó Ignatia estava
sentada junto dele sob o velho caramanchão que o tio Edward e Whitey tinham erguido para a festa
de aniversário de Mooshum. Haviam prendido choupos jovens a uns paus para conseguirem uma
cobertura que fizesse sombra, e as folhas continuavam verdes e lustrosas. Os mais velhos estavam
sentados em cadeiras de jardim, de plástico entrançado, a beber chá quente, embora fizesse calor.
Clemence pedira que me sentasse ao lado de Mooshum e o vigiasse, para garantir que o calor não o
prostrava. A avó Ignatia abanava a cabeça perante a imagem de índios gordos.
Tive um índio gordo por marido, certa vez, contou ela a Mooshum. A pila dele era comprida e
grande, mas só a cabeça é que ultrapassava a pança. E é claro que eu não gostava de me meter
debaixo dele. Tinha medo que me esmagasse.
Miigwayak! É claro. Como é que fazias?, perguntou Mooshum. Pulava em cima dele, como é
óbvio. Mas aquela barriga, yai!. Cresceu até ficar do tamanho de um monte, e eu não conseguia ver
para lá dela. Gritava-lhe então: «Ainda aí estás? Grita de volta!» Tal como a maioria dos índios
gordos, ele tinha um rabo magricelas. Mas os músculos daquelas nádegas eram poderosos. Fazia-
me andar às voltas como num número de circo.

218

Por isso, gostava bastante dele, foram bons tempos.


Awee, concordou Mooshum. O seu tom era melancólico.
Infelizmente, não duraram muito, continuou a avó Ignatia. Uma vez, íamos a todo o galope quando
ele desistiu. Havia alturas em que se cansava, é claro, sendo tão pesado, por isso eu continuei a
cavalgar em cima dele. O seu mastro estava ainda em pé e duro como aço. Estava tão quieto que
pensei que tivesse adormecido. «Grita de volta!», pedi. Mas ele não o fez. Caramba, que estranho
que consiga dormir no meio de tudo isto! Deve estar a ter um sonho e peras, pensei. Por isso, só
parei quando terminei, o que comigo é depois de várias vezes. Por fim, lá saí de cima dele.
Caramba, como dura!, pensei para mim. Gatinhei até à outra ponta do corpo dele. Não tardei a
perceber que não estava a respirar. Dei-lhe umas palmadinhas na cara, mas não serviu de nada. Está
morto e enterrado, o meu querido marido gordo. Chorei por aquele homem um ano inteiro.
Awee, disse Mooshum. Uma morte feliz. E um nobre amante para ti, Ignatia, pois satisfez-te
mesmo do outro mundo. Desejava morrer dessa forma, mas quem me dará essa oportunidade?
Ainda se põe de pé?, inquiriu Ignatia.
Não por si só, respondeu Mooshum.
Eyyyy, comentou Ignatia. Depois de cem anos de uso contínuo, seria um milagre. Se ao menos
rezasses mais, casquinou ela.
Os frágeis ombros de Mooshum abanavam.
Rezar por uma tesão! Essa é boa. Talvez devesse rezar a São José. Era carpinteiro, portanto
trabalhava com madeira rija.
As freiras nunca mencionaram o santo padroeiro do manaa! (Nota 27)
Rezarei a São Judas, o que trata das causas perdidas, realçou Mooshum.
E eu rezarei a Santo António, o que se encarrega dos objetos perdidos. És tão velho que
provavelmente nem consegues encontrar a tua pila nessas calças que a Clemence te obrigou a vestir
hoje.
Sim, estas calças. São de um tecido bom.
Outro dos meus maridos, disse Ignatia, o que tinha a picha minúscula, teve um par de calças como
as tuas. De primeira qualidade.

Nota 27 - Desejo sexual, relações sexuais. (N. da T.)

219

Fodia como um coelho. Entrava e saía, uma e outra vez, muito depressa, mas durante horas
seguidas. Eu ficava ali deitada, a imaginar coisas, a pensar. Era relaxante. Não sentia nada. Então,
um dia, senti qualquer coisa. «Howah! (Nota 28)», gritei. «Que te aconteceu? Cresceu?» «Sim,
reguei-o», respondeu ele, por entre os entra e sai. «E fertilizei-o.» «Howahh, voltei a exclamar,
ainda mais alto. «Que usaste?» «Estou a brincar, mulher. Tornei-o maior com argila do rio. Oh,
não!» De repente, voltei a não sentir nada. «Caiu», disse ele. «O wiinag inteiro?» «Não, só a parte
de argila», respondeu ele, muito desanimado. «Oh, meu amor, queria fazer-te uivar como um lince-
ruivo. Daria a minha vida para te fazer feliz.» «Não tem importância, eu mostro-te outra forma de o
conseguires», animei-o. Assim, ensinei-lhe uma coisinha ou duas, e ele aprendeu-as tão bem que eu
fiz sons que as orelhas dele nunca tinham ouvido. Tínhamos uma candeia pendurada num gancho
nos pés da cama. Um dia, lá estava ele em cima de mim, a dar-me como um coelho, quando a
candeia, de tanto balançar, sai do gancho e lhe acerta no rabo. Escutei-o contar o episódio aos
amigos. Eles fartaram-se de rir. Às tantas, ele diz: «E ainda tive sorte. Se estivesse a fazer aquilo
que a minha patroa me ensinou, e que a deixa tão feliz, o raio da candeia ter-me-ia acertado na
cabeça.»
Yai!, exclamou Mooshum, cuspindo chá para todo o lado. Dei-lhe um guardanapo, porque
Clemence também me encarregara de impedir que ele sujasse o cabelo de comida. Contra os
desejos dela, naquele dia ele decidira usá-lo como gostava: solto, pendendo em redor do rosto em
madeixas gordurentas.
É uma pena que não tenhamos experimentado um com o outro quando éramos jovens, comentou
Ignatia. Agora estás demasiado engelhado para o meu gosto, mas, segundo me recordo, eras muito
bem-parecido.
Era sim, senhora, anuiu Mooshum.
Enxuguei o chá que lhe escorria pelo pescoço abaixo antes que chegasse ao colarinho engomado da
sua camisa branca.
Dei a volta à cabeça de algumas raparigas, continuou Mooshum, mas enquanto a minha bonita
esposa foi viva, cumpri o meu dever católico.

Nota 28 - Exclamação que denota aprovação, aplauso. (N. da T.)

220

Isso não é difícil, resmungou Ignatia. Foste fiel ou não? (Ambos pronunciavam a palavra como se,
ao invés de querer dizer fiel, quisesse dizer fatal, fatídico (Nota 29); na verdade, ao longo de toda a
conversa, cada «th» converteu-se num «t».)
Fui, respondeu Mooshum. Até certo ponto.
Que ponto?, inquiriu Ignatia, num tom brusco. Sempre fora apoiante das aventuras extraconjugais
das mulheres, mas não tolerava as dos homens. Oh, espera, meu velho amigo, como é que pude
esquecer? Até certo ponto! Eyyyyy, muito engraçado.
Sim, é claro, aquela Lulu sempre foi um ponto. E tiveste um filho com ela.
Sobressaltei-me, mas nenhum deles deu conta. Toda a gente saberia que eu tinha um tio de que
nunca ouvira falar? Quem era aquele filho de Mooshum? Tentei fechar a boca, mas, olhando em
redor, vi que um grande número dos convidados era Lamartine e Morrissey, e logo a seguir Ignatia
disse o nome dele.
O Alvin saiu-se bem na vida.
Alvin, um amigo de Whitey! Alvin sempre fora tratado como um membro da família. Quem diria?!
Quando conto esta história a brancos, ficam surpreendidos, e quando a relato a índios, têm sempre
uma história semelhante. Regra geral, descobrem estes familiares ao desenvolverem
relacionamentos com os que não devem, ou, em todo o caso, começam por tentar entender as
intrincadas redes familiares por volta da adolescência. No meu caso, talvez não tenha ocorrido a
ninguém explicar-me o que estivera sempre à frente do meu nariz, ou talvez nunca tivesse escutado
a história em criança. Fosse como fosse, dava-me então conta de que Angus era meu parente, uma
espécie de primo, uma vez que Star era Morrissey e a irmã dela, mãe de Angus, fora casada com
Vance, o irmão mais novo de Alvin; todavia, sendo que Vance e Alvin não tinham o mesmo pai, o
parentesco era longínquo. Teria alguma vez escutado o nome que se dava a um primo assim, in-
terroguei-me ali sentado, ou deveria perguntá-lo a Mooshum e Ignatia?
Desculpem interromper, disse.
Nota 29 - A palavra inglesa para fiel é «faithful» e para fatídico é «fateful», no entanto, os Ojibwa
mais velhos têm dificuldade em pronunciar o som «th» (por não existir na sua língua), convertendo-
o num «t» ou num «d». (N. da T.)

221

Sim, diz lá, meu rapaz, que bem-educado que tu és! A avó Ignatia apercebeu-se de repente de que
eu estava ali sentado e cravou em mim os seus penetrantes olhos de corvo.
Se o Alvin é meu meio-tio e a irmã da Star foi casada com o Vance e juntos tiveram o Angus, isso
faz com que ele seja o quê em relação a mim?
Bom para casar, crocitou a avó Ignatia. Anishaaindinaa. Estou a brincar, meu rapaz. Podias casar
com a irmã do Angus. Mas é uma boa pergunta.
É um quarto teu primo, afirmou Mooshum, com toda a certeza. Não o tratas como se fosse um
primo direito, mas é-te mais chegado que um amigo. Defendê-lo-ias, mas não adé à morde? (Nota
30)
Foi dessa forma que ele o disse, adé à morde. Hoje em dia, a maioria de nós pronuncia o «th» como
deve ser, a não ser que tenha crescido a falar chippewa, mas, por hábito, ainda nos escapa um ou
outro. O meu pai achava que, enquanto juiz, era importante pronunciar todos os «th». Já a minha
mãe, não. Quanto a mim, só deixei os «d» quando fui para a universidade e comecei a pronunciá-
los corretamente como «th». O mesmo sucedeu com muitos outros índios. Numa ocasião, escrevi
um poema horrível acerca dos «d» que tinham sido deixados para trás e pairavam pela reserva, e
uma amiga leu-o. Achou a ideia muito interessante e, uma vez que estava a especializar-se em
Linguística, escreveu um ensaio sobre o assunto. Vários anos depois de ela ter escrito esse ensaio,
casei com ela, na reserva, e reparei que assim que cruzámos a fronteira, largámos os «th» e
voltámos aos «d». Mesmo sendo licenciada em Linguística, não conhecia nenhuma palavra para o
tipo de parentesco que Angus partilhava comigo. Creio que Mooshum foi quem o definiu melhor ao
explicar que estava obrigado a defender Angus, mas só até determinado ponto. Não tinha de morrer
por ele, o que foi um alívio.
Às tantas, começaram a juntar-se a nós mais pessoas, uma multidão em redor de Mooshum, na
verdade, e toda a festa dirigiu a sua atenção para onde ele se encontrava sentado, sob o
caramanchão. Quem tinha máquinas fotográficas posicionou-se, e a minha mãe e Clemence
posaram com a cabeça de cada um dos lados da cabeça de Mooshum.

Nota 30 «To da dett». O que Mooshum queria dizer era «to the death» (até à morte). (N. da T.)

222

A seguir, Clemence foi a correr a casa e seguiu-se um silêncio, apenas interrompido pelas
exclamações das crianças empurradas para a orla da multidão: O bolo! O bolo!
Sendo que Clemence e Edward estavam entretanto atarefados com as respetivas máquinas
fotográficas, os meus primos Joseph e Evey carregaram o extraordinário bolo. Clemence fizera um
enorme bolo retangular com uma cobertura de glacé aromatizada com uísque, o preferido de
Mooshum, e colocara-o sobre uma placa de esferovite coberta com folha de alumínio. O bolo era
do tamanho de um tampo de secretária e a cobertura exibia o nome de Mooshum, numa caligrafia
elaborada, e pelo menos uma centena de velas, já acendidas e brilhando intensamente ao mesmo
tempo que os meus primos avançavam com todo o cuidado. A multidão apartava-se à passagem
deles. Afastei-me assim que o bolo foi colocado mesmo à frente da cara de Mooshum. Era
magnífico. Ignatia tinha um ar invejoso. As pequenas chamas refletiam-se nos olhos velhos e
húmidos de Mooshum enquanto os convidados lhe cantavam os parabéns em ojibwa, em inglês, e
depois desataram a entoar uma canção em michif (Nota 31). As velas flamejavam com maior
intensidade à medida que ardiam, pingando cera para a cobertura do bolo, até que ficaram reduzidas
a meros cotos.
Sopre-as! Peça um desejo!, gritavam as pessoas, mas Mooshum parecia hipnotizado pela luz que
emitiam. A avó Ignatia inclinou-se para ele e falou-lhe ao ouvido. Ele fez que sim com a cabeça e
por fim curvou-se sobre o bolo. Nesse momento, uma brisa suave atravessou o caramanchão,
apenas uma rabanada. Seria de esperar que tivesse apagado as velas, mas não. Deu-lhes oxigénio
suficiente para um último fulgor e, quando tal sucedeu, as pequenas chamas fundiram-se numa
única, que inflamou a mistura de cera e uísque. O bolo pegou fogo com um suave murmúrio e as
chamas elevaram-se o suficiente para atingirem as madeixas de cabelo gorduroso de Mooshum,
inclinado sobre o bolo com os lábios franzidos. Ainda guardo na memória a imagem da cabeça de
Mooshum rodeada pelas labaredas. Apenas se via o seu olhar deliciado e o sorriso de felicidade ao
mesmo tempo que, dir-se-ia, as chamas o consumiam.

Nota 31 - Língua falada pelo povo Métis. (N. da T.)

223

Poderia ter sido o fim do meu avô e do bolo ali mesmo, se o tio Edward não tivesse tido a presença
de espírito de esvaziar um jarro de limonada pela cabeça de Mooshum abaixo. De igual modo,
Joseph e Evelina, ainda a segurarem o bolo, correram com ele para o caminho de acesso à garagem
onde as chamas se extinguiram assim que consumiram a alcoólica cobertura. E o tio Edward foi de
novo o herói do dia, salvando o bolo ao cortar simplesmente a cobertura esturricada com uma
comprida faca do pão. Declarou o resto do bolo comestível, acrescentando que, na verdade, até
melhorara com o flamejado. Alguém foi buscar embalagens de gelado e a festa recomeçou. Foi-me
dito que levasse Mooshum para dentro, para que descansasse um pouco da excitação. Uma vez
dentro de casa, Clemence tentou cortar-lhe os caracóis chamuscados.
A pele e o couro cabeludo não tinham sido atingidos, mas estar em chamas entusiasmara
enormemente o meu avô. A única coisa que o preocupava era que Clemence cortasse apenas as
partes do cabelo que não podiam ser salvas.
Okay, estou a tentar, paizinho. Mas o cabelo tresanda, sabias?
Desistiu.
Olha, toma, Joe. Fica tu com ele!
Estava deitado no sofá, entre almofadas, tapado com uma manta de croché — um monte de ossos
com um sorriso largo. Com a emoção, o seu corta-palha postiço e reluzente soltara-se, por isso fui
buscar um copo de água para ele o mergulhar. Infelizmente, escolhi um copo de plástico colorido e
opaco, do mesmo género que os miúdos estavam a usar para beber Kool-Aid. Num momento de
distração, um miúdo de quatro anos surripiou o copo e correu para a rua, bebendo todo contente a
água da dentadura e imitando os primos mais velhos, até que, pelo que percebi, foi pedir à mãe
mais sumo e esta descobriu o que estava no fundo do copo. Alheio a estes dramas, eu fazia
companhia a Mooshum. Os meus primos estavam em casa, mas eram bastante mais velhos do que
eu e estavam ocupados a cumprir as constantes ordens que a mãe lhes dava. Os meus amigos, que
haviam prometido aparecer, ainda não tinham chegado. A festa estava para durar e durar. Mais tarde
haveria baile, rabecas, uma guitarra elétrica e um sintetizador, e mais comida.

224

O mais certo era que os meus amigos estivessem à espera do churrasco de veado que Alvin ia
preparar ou da comida que vinha de casa deles. Assim que uma festa daquele género começava,
ganhava sempre vida própria. Por tradição, quem não tinha sido convidado aparecia também, mas
ninguém levava a mal e tomava providências a contar com os penetras, bem como com os que
apareciam embriagados e se tornavam demasiado barulhentos. Repousando de corpo presente no
sofá da sala de estar, Mooshum estava protegido de tudo aquilo. Participava na festa, mas podia ir
dormindo umas sonecas. Estava sentado junto a ele quando se deixou dormir, porém, ao sentir que
Sonja entrara, espevitou. A roupa dela deve ter-se infiltrado no seu subconsciente. Vestia uma
camisa de camurça com pequenas franjas que se lhe colava aos seios como um pecado não
perdoado. E aquelas calças de ganga tornavam-lhe as pernas tão compridas e elegantes. Os olhos
saltavam-me das órbitas. Botas de cowboy novas, em pele de lagarto! E trazia os brincos de
diamante nas orelhas. Pareciam tremelicar sob a ténue luz.
Desviei-me quando ela tentou beijar-me no cocuruto da cabeça, levantei-me para que pudesse
sentar-se na minha cadeira, mas mantive-me na sala de braços cruzados, fulminando-a com o olhar.
Sabia que aquela camisa fora comprada com o meu dinheiro, e tinha ar de ter sido cara. Voltara a
usar o meu dinheiro. E aquelas botas! Toda a gente iria reparar.
Sonja inclinou-se para Mooshum. Falavam numa voz irritantemente baixa, e ela abanava a cabeça e
ria. Ele lançava-lhe um olhar suplicante e desdentado, babado de admiração. Ela inclinou-se mais e
deu-lhe um beijo na cara; depois segurou-lhe a mão, conversaram mais um pouco e desataram a rir
a bandeiras despregadas, até que a cena me deu asco e saí dali.
Os meus pais estavam sentados na zona dos adultos, sob o caramanchão, e a minha mãe, embora
falasse pouco, pelo menos acenava com a cabeça quando o meu pai falava com ela. A banda
montava o palco junto ao barracão. Atrás deste, Whitey e mais um punhado de homens
conversavam sentados no chão, passando uma garrafa de mão em mão. Whitey estava já
embriagado e taciturno. Sentado num canto do quintal, observava a festa, tentando seguir os
acontecimentos com a sua visão dupla, murmurando pensamentos lúgubres, mas incoerentes, por
sorte.

225

Vi Doe Lafournais e a tia de Cappy, Josey Também lá estava Star, a mãe de Zack e os seus irmãos
mais novos mas nada de Zack, nem de Angus ou Cappy. Não queria perguntar onde eles estavam,
para o caso de andarem a preparar alguma, portanto fui buscar a minha bicicleta à garagem e saí
para os procurar. Estava certo de que Zélia tinha alguma coisa que ver com a ausência de Cappy e,
tal como previra, ao dirigir-me para a igreja cruzei-me com Zack e Angus, ziguezagueando colina
abaixo o mais lentamente que conseguiam, mas sem Cappy.
Ficou para trás. Vão-se encontrar no cemitério ao entardecer, disse Zack.
Estávamos destroçados perante semelhante ideia, muito embora tivéssemos desistido de Zélia logo
no primeiro dia. Regressámos à festa, que se animava com o baile. No relvado já se dançava a jiga,
com a avó Ignatia no meio dos dançarinos, exibindo os seus elaborados passos. Comemos até mais
não e depois desviámos umas cervejas e despejámo-las para latas vazias de refrigerantes. Bebemos
e ficámos por ali a escutar a banda, vendo Whitey pender sobre Sonja enquanto dançavam o two-
step, até que se fez tarde. O meu pai disse-me que pegasse na bicicleta e fosse indo para casa, e foi
o que fiz, entrando no quintal aos esses. Levei Pearl para o meu quarto e começava a adormecer
quando dei conta de os meus pais chegarem a casa. Ouvi-os subirem a escada juntos, falando em
voz baixa, e depois escutei-os entrarem no quarto, como dantes acontecia. Por fim, a porta fechou--
se com um pequeno clique que significava que tudo estava bem e em segurança.
Se ao menos as coisas pudessem permanecer assim, bem e em segurança, se ao menos o agressor
apodrecesse na prisão. Se ao menos se matasse. Não conseguia viver com o «se».
Preciso de saber, disse ao meu pai na manhã seguinte. Tens de me dizer como é a maldita carcaça.
Dir-te-ei quando puder, Joe.
A mãe sabe que ele poderá ser libertado?
O meu pai tamborilou nos lábios com os dedos.
226

Não ao certo, não. Bom, sim. Mas não falámos sobre isso. Podia ser um retrocesso, apressou-se a
dizer. O seu rosto contorceu-se. Levou a mão à cara, como se quisesse apagar as feições. Tenho de
olhar por ela, ficar atento a ele.
O meu pai anuiu com a cabeça e, ao fim de um momento, levantou-se e dirigiu-se à sua secretária
com um passo pesado. Enquanto procurava as chaves no bolso, observei o cocuruto moreno e
vulnerável da sua cabeça, as madeixas brancas e ralas. Ganhara o hábito de fechar aquela gaveta em
particular. Destrancou-a então e retirou uma pasta. Abriu-a, caminhou até mim e tirou uma
fotografia. Uma daquelas fotografias tiradas pela polícia aquando de uma detenção. Colocou-ma
nas mãos.
A tua mãe ainda não decidiu se quer contar a mais alguém, disse ele. A decisão é dela, portanto, não
fales disto.
Um homem forte, bem-parecido, mas não bonito, de tez pálida e olhos negros e cintilantes, que não
mostravam qualquer branco, apenas a mácula de uma vida encolerizada. A boca, entreaberta,
revelava um conjunto de dentes brancos, perfeitos, e lábios finos e encarnados. Era o cliente. O
homem ao qual abastecera o carro na véspera do meu despedimento.
Já o vi, disse. Linden Lark. Meteu gasolina na bomba do Whitey.
O meu pai não olhou para mim, mas cerrou os maxilares e apertou os lábios.
Quando?
Deve ter sido pouco antes de ser detido.
O meu pai arrancou-me a fotografia das mãos com apenas dois dedos e devolveu-a ao ficheiro.
Percebi que tocar na foto lhe era penoso, que a imagem muda se assemelhava a um caco afiado de
vidro. Enfiou a pasta na gaveta e ficou a olhar para a papelada espalhada sobre a sua secretária. Em
frente ao coração, abriu a mão, tateou um botão da camisa.
Meteu gasolina na bomba do Whitey.
Escutámos a minha mãe na rua. Estava a martelar umas estacas finas que cravara no chão, junto aos
tomateiros. A seguir, rasgaria lençóis velhos para fazer pequenas tiras, que usaria para prender os
caules acres e almiscarados e os ajudar a trepar pelas estacas.

227

Os tomateiros já mostravam flores em forma de estrela, de um amarelo suave, pungente.


Ele estudou-nos, disse o meu pai. Sabe que não podemos mantê-lo preso. Acha que pode escapar.
Como o tio dele.
Que queres dizer com isso?
O linchamento. Tu sabes.
Isso é história passada, pai.
O tio-avô do Lark fez parte do grupo de linchamento. Daí o ressentimento, creio eu.
Interrogo-me se ele faz sequer ideia de como as pessoas aqui recordam o sucedido, comentei.
Conhecemos as famílias dos homens que foram enforcados. Conhecemos as famílias dos homens
que os enforcaram. Sabemos, inclusive, que a nossa gente era inocente do crime pelo qual foram
enforcados. Um historiador local investigou o assunto e desenterrou as provas.
Lá fora, a minha mãe guardava as ferramentas. Chocalhavam dentro do balde. Ligou a mangueira e
começou a regar a horta, a água chapinhando de um lado para o outro.
Seja como for, apanhá-lo-emos, afirmei. Certo, pai?
Ele tinha o olhar cravado na secretária, como se conseguisse ver através da madeira de carvalho do
tampo até à pasta debaixo dele e através da cartolina da pasta até à fotografia e através da fotografia
até uma outra fotografia ou registo de uma antiga brutalidade que não se esvaíra ainda por
completo.
Depois da morte da mãe, Linden Lark mantivera a quinta dela nos arrabaldes de Hoopdance.
Instalara-se na casa de dois pisos, periclitante e a descascar-se, que outrora tivera canteiros de flores
e grandes hortas. Entretanto, a propriedade fora tomada pelas ervas daninhas e delimitada com fita
pela polícia, que conduzira buscas com recurso a cães, uma e outra vez, à casa, aos campos e aos
bosques que rodeavam a propriedade, e não encontrara nada.
Nem vestígios da Mayla, disse.
Mais tarde nesse mesmo dia, o meu pai conversou comigo; a casa estava em silêncio. Eu estava a
jogar o meu jogo. Ele entrou. Dessa vez não me ocultou nada.

228

O governador do Dakota do Sul declarara que a criança que desejava adotar era oriunda de uma
agência dos serviços sociais de Rapid City, e essa afirmação fora confirmada. As pessoas de lá
tinham dito que, há cerca de um mês, uma pessoa, um homem, segundo se acreditava, deixara a
bebé a dormir dentro do carro, na sua cadeirinha, na secção de mobiliário da Goodwill. No casaco
da bebé fora deixado um bilhete a informar quem a encontrasse que os pais da menina tinham
morrido.
É a filha da Mayla?
O meu pai fez que sim com a cabeça.
Mostraram uma fotografia à tua mãe. Ela identificou o bebé.
Onde está a mãe agora?, perguntei.
O meu pai arqueou as sobrancelhas, ainda surpreendido.
Acabei de a deixar no trabalho.
Alguns dias depois de a minha mãe ter identificado a menina, começou a ir regularmente ao
escritório. Havia trabalho em atraso, percentagens de sangue para determinar, gente esperançosa em
descobrir na sua genealogia uma possível avó que fosse uma romântica princesa índia. Havia
crianças que regressavam já adultas, índios adotados por pessoas de fora da reserva e afastados da
sua tribo, roubados pelos serviços sociais estatais, e havia também aqueles que tinham desistido de
ser índios, mas cujos filhos ansiavam por esse laço e planeavam umas férias em família na reserva
para explorarem o seu legado. Tinha muito trabalho, e tudo isto foi antes de o dinheiro dos casinos
ter atraído candidatos a índios às pazadas. Podia aparentemente trabalhar enquanto Lark estivesse
detido. Enquanto a bebé estivesse em segurança. Seguiram-se alguns dias de normalidade, mas era
uma normalidade aparente, de respiração sustida. Ouvimos dizer que a bebé estava com os avós,
George e Aurora Wolfskin. Fora-lhes entregue de forma permanente, ou pelo menos até que Mayla
regressasse. Se é que regressaria. Então, por volta do quarto dia, a minha mãe disse ao meu pai que
tinha de falar com Gabir Olson e com o agente especial Bjerke, pois, uma vez que a segurança da
bebé estava garantida, recordara-se de repente do paradeiro do ficheiro desaparecido.

229

Está bem, disse o meu pai. Onde?


Onde o deixei, debaixo do assento dianteiro do carro.
O meu pai foi ao carro e voltou com o ficheiro.
Foram de novo para Bismarck, e eu fiquei com Clemence e Edward. As faixas da festa de
aniversário já tinham sido tiradas. As latas de cerveja esmagadas. As folhas do caramanchão
estavam secas. A tranquilidade regressara à casa de Clemence e Edward, mas era uma espécie de
tranquilidade animada, já que havia sempre pessoas de visita. Não só familiares e amigos, mas
gente que vinha especialmente ver Mooshum, estudantes ou professores. Ligavam os gravadores e
ficavam a escutá-lo contar episódios sobre os velhos tempos ou falar michif, ojibwa ou cree, ou as
três línguas ao mesmo tempo. Não lhes contava grande coisa. As verdadeiras histórias ocorriam-lhe
à noite. Eu dormia com ele no quarto de Evey. Uma hora ou duas depois de adormecer, acordava
com ele a falar.

A Casa Redonda

Quando lhe ordenaram que matasse a mãe, disse Nanapush, abriu-se no coração dele uma enorme
fenda. Era tão profunda que descia até ao infinito. No lado do antes, o amor pelo seu pai e a crença
em tudo o que ele fazia jaziam amarfanhados e descartados. Não apenas essa crença, mas outras
também. Era verdade que podia haver wiindigoog: pessoas que perdiam todas as compunções
humanas em tempos de fome e se tornavam canibais. No entanto, as pessoas também podiam ser
falsamente acusadas. A cura para um wiindigoo era muitas vezes simples: grandes quantidades de
sopa quente. Ninguém experimentara dar sopa a Akii. Ninguém consultara os anciãos e os sábios.
As pessoas que ele amava, incluindo os tios, tinham-se virado contra a sua mãe, por isso Nanapush
já não podia acreditar nelas nem no que diziam ou faziam. No lado da fenda em que Nanapush se
encontrava, porém, estavam os seus irmãos e as irmãs mais novos, que tinham chorado pela mãe,
bem como a sua mãe. Também o espírito do velho búfalo fêmea, que fora o seu refúgio, aí se
encontrava.

230

A velha mulher-búfalo partilhara com Nanapush as suas opiniões. Disse-lhe que ele sobrevivera
fazendo o oposto de todos os restantes. Nas ocasiões em que eles abandonavam, ele salvava.
Quando eles eram cruéis, ele era amável. Onde eles traíam, ele mostrava-se fiel. Nanapush decidiu
então ser em tudo imprevisível. Visto que perdera por completo a confiança na autoridade, resolveu
manter-se afastado dos outros e pensar por si mesmo, e até fazer as coisas mais despropositadas que
lhe ocorressem.
«Podes seguir por aí», disse a velha mulher-búfalo, «mas ainda que te transformes num palerma,
com os anos as pessoas considerar-te-ão um homem sábio. Recorrerão a ti.»
Nanapush não queria que ninguém acorresse a ele.
«Isso não será possível», argumentou a mulher-búfalo, mas posso dar-te uma coisa que te ajudará.
Olha para a tua mente e vê no que estou pensando.
Nanapush olhou para a sua mente e viu uma construção. Viu até como erigir essa construção. Era a
casa redonda. A velha mulher-búfalo continuou a falar.
«No passado, o teu povo foi unido por nós, búfalos. Vocês sabiam como caçar e usar-nos. Os
vossos clãs deram-vos leis. Tinham muitas regras, mediante as quais se regiam. Regras que nos
respeitavam e vos forçavam a trabalhar juntos. Agora, nós já desaparecemos, mas uma vez que tu te
abrigaste no meu corpo, compreendes. A casa redonda será o meu corpo, as estacas as minhas
costelas, o fogo o meu coração. Será o corpo da tua mãe e terá de ser respeitado da mesma forma.
Do mesmo modo que uma mãe se dedica à vida do seu bebé, também o teu povo deverá pensar nos
seus filhos.»
Foi assim que aconteceu, disse Mooshum. Era um jovem quando as pessoas a construíram,
seguindo as instruções de Nanapush.
Sentei-me na cama para olhar para Mooshum, mas ele tinha dado meia volta e já roncava. Fiquei
acordado a pensar naquele lugar no cimo da colina, no vento sagrado a soprar pela erva e na forma
como a estrutura me chamara. Entrevia uma parte de algo maior, uma ideia,

231

uma verdade, mas era apenas um fragmento. Não conseguia ver o todo, mas unicamente uma
sombra desse modo de vida.
Estava com os meus tios há três ou quatro dias quando Clemence e Edward se deslocaram a Minot
para comprar uma nova arca congeladora. Partiram bem cedo, antes de eu acordar. Mooshum
levantara-se às seis, como de costume. Tomara café, comera os ovos todos, torradas, e barrara com
manteiga os hash browns (Nota 32) que Clemence fizera, até mesmo os que me estavam
reservados. Quando desci à cozinha, tirei uma fatia de rolo de carne que ela deixara para o almoço e
enfiei-a entre duas fatias de pão branco, com ketchup. Perguntei a Mooshum o que queria fazer
naquele dia, e ele lançou-me um olhar vago.
Tu, vai sair com os teus amigos. Acenou com a mão. Eu fico bem aqui.
A Clemence disse-me para ficar consigo.
Saaah (Nota 33), ela trata-me como um bebé. Vai à tua vida! Sai e diverte-te!
Mooshum avançou então de modo cambaleante até à antiga cómoda de Evey e vasculhou entre as
suas coisas na gaveta de cima até encontrar uma velha meia cinzenta. Baloiçando a meia à minha
frente com um olhar expressivo, mergulhou a mão dentro dela. Colocara a dentadura, o que, de um
modo geral, queria dizer que ia ter visitas. Com um ar matreiro de triunfo, extraiu uma nota de dez
dólares do interior da meia e estendeu-ma.
Toma! Vai viver a vida. Majaan (Nota 34)!
Ignorei a nota.
Está a tramar alguma, Mooshum.
A tramar alguma, resmungou ele, sentando-se, a tramar alguma. Depois, indignado, acrescentou:
Como pode um homem ser homem!

Nota 32 - Espécie de bolinhos ou panquecas de batata ralada, picada ou cortada em juliana que
depois são fritos. (N. da T.)
Nota 33 - Exclamação indicadora de desaprovação, menosprezo. (N. da T.)
Nota 34 - «Vai-te embora». (TV. da T.)

232

Talvez eu o possa ajudar, afirmei.


Então, muito bem. A Clemence guarda a minha garrafa no armário da cozinha, lá mesmo no cimo.
Podias ir buscar-ma!
Não era sequer meio-dia, mas depois pensei, que mal é que faz? Ela já vivera tempo suficiente para
merecer um uísque quando lhe apetecia. Clemence dera-lhe apenas um pouco no aniversário,
seguido de montes de chá dos pântanos para contrariar o efeito do álcool. Estava empoleirado na
bancada, à procura do sítio onde Clemence escondia a garrafa, quando Sonja entrou pela porta das
traseiras. Trazia um saco de plástico com asas robustas e, a princípio, achei que ela fora de novo às
compras com o meu dinheiro e aparecera ali para mostrar as suas aquisições a Clemence. Desci
com a garrafa na mão e disse, num tom beligerante:
Com que então, de novo às compras? Pus-me à frente dela. Vamos desenterrar aquelas cadernetas,
declarei. E depois vamos aos bancos levantar o dinheiro, Sonja.
Está bem, respondeu ela, simulando um olhar compassivo e magoado. Tudo bem.
Parem de falar de dinheiro. Mooshum vacilou até junto de Sonja. Pegou-lhe no braço. Falou
melifluamente. Este idoso tem dinheiro e também tem uma garrafa, ma chère niinimoshenh (Nota
35).
Mooshum conduziu Sonja e o seu pesado saco de compras na direção do quarto.
Tu, vai-te embora daqui, ordenou-me ele. Pisga-te! Estendeu a mão para a garrafa.
Eu mantive-me firme.
Não vou a lado nenhum, respondi. A Clemence disse-me para não sair daqui.
Segui-os até ao quarto. Olharam-me sem saber o que fazer.
Sentei-me na cama.
Não saio daqui, pelo menos até ver o que está nesse saco.
Mooshum bufou de raiva. Arrancou-me a garrafa da mão e bebeu um gole rápido. Sonja sentou-se
com um ar rabugento e fez beicinho. Vestia um dos seus fatos de treino, este de veludo cor-de-rosa,
e uma T-shirt com um decote pronunciado; um coração prateado na extremidade de uma corrente
argêntea apontava para o declive sombreado onde os seus seios se uniam.

Nota 35 - «Prima». [N. da T.)

233

O cabelo brilhava sob a luz que entrava pela janela nas suas costas.
Joe, disse ela, isto é o presente de aniversário do Mooshum.
O quê?
O que trago no saco.
Então, dá-lho, vá.
É um... bom... um presente para adultos.
Um presente para adultos?
Sonja fez uma expressão de impaciência, como se fosse óbvio para toda a gente menos para mim.
Senti um nó na garganta. Olhei para Mooshum e para Sonja, uma e outra vez. Eles não olhavam um
para o outro.
Vou pedir-te que saias a bem, Joe.
Ao mesmo tempo que falava, começou a tirar coisas do saco. Não eram propriamente peças de
roupa, mas pedaços de tecido esfarrapados, coisas com lantejoulas, borlas cintilantes, madeixas de
cabelo, faixas de peles. Sandálias de salto alto com compridos atacadores de couro. Já tinha visto
aquelas coisas, e vestidas por ela, na minha pasta etiquetada «TPC».
Não vou a lado nenhum. Sentei-me ao lado de Mooshum, no seu estreito divã.
Ah, isso é que vais! Sonja olhou-me fixamente. Joe! A sua expressão endureceu como eu nunca
vira. Vai-te embora daqui, ordenou. Não vou, respondi.
Não? Pôs-se de pé, de mãos nas ancas, e encheu as bochechas de ar, furibunda.
Eu também estava furioso, mas o que disse a seguir surpreendeu-me.
Vai deixar-me ficar. Porque, se não deixar, vou contar ao Whitey aquilo do dinheiro.
Sonja estacou e voltou a sentar-se. Segurava um pedaço de tecido luzente nas mãos. Fitou-me. Uma
expressão distante, perplexa, tomou conta do seu rosto. Uma espécie de película brilhante
perpassou-lhe o olhar, conferindo-lhe um ar tão jovem.
A sério?, disse ela. A sua voz soou triste, um sussurro. A sério?

234

Devia ter-me ido embora naquele momento. Dali a meia hora estaria a desejar tê-lo feito, mas
também satisfeito por ter ficado. Sempre tive sentimentos contraditórios em relação ao que
aconteceu a seguir.
Dinheiro outra vez, saaah, protestou Mooshum, desgostado. O que me fez pensar no dinheiro e nos
brincos de diamante de Sonja.
Agarrei na garrafa de Mooshum e bebi. O uísque subiu-me à cabeça e fez-me vir lágrimas aos olhos
também.
Ele é um bom rapaz, disse Mooshum.
Sonja não tirava os olhos de mim.
Acha que sim? Acha mesmo que ele é um bom rapaz? Sentou-se e chicoteou o joelho com o
cintilante sutiã que tinha na mão.
Cuida bem de mim. Mooshum deu um gole e estendeu-me a garrafa de novo. Passei-a a Sonja.
Contavas ao Whitey, hã?
Presenteou-me com um sorriso ameaçador, um sorriso que me sobressaltou. Depois levou a garrava
aos lábios e bebeu um longo trago. Mooshum sorveu outro gole e ofereceu-me a garrafa. Sonja
semicerrou os olhos até o azul se converter em negro. Muito bem. Vou-me vestir na casa de banho.
Vocês, rapazes, fiquem aqui. E se alguma vez disseres alguma coisa a alguém, Joe, corto-te essa tua
pila insignificante.
Caiu-me o queixo, e ela soltou uma gargalhada cruel.
Não se pode ter tudo, meu filho da mãe mentiroso. Acabou-se o tratamento maternal.
Tirou um leitor de cassetes do fundo do saco, ligou-o à parede e
enfiou-lhe uma cassete.
Quando eu voltar, ligas a música, ordenou ela. E atravessou o patamar em direção à casa de banho
com o saco de plástico na mão.
Mooshum e eu ficámos sentados em silêncio no divã. Veio-me então à memória a imagem deles os
dois aos sussurros no dia da festa e do quanto isso me irritara. A minha cabeça começou a andar à
roda. Bebi outro gole da garrafa de Mooshum. Ao fim de um momento, Sonja regressou, fechou a
porta, trancou-a e virou-se.
Suponho que ficámos os dois de boca aberta a olhar para ela.

235

Carrega no play, Joe, rosnou ela. A música começou, uma série de cânticos e gemidos graves e
longínquos. Sonja prendera o cabelo num cone metálico que funcionava como uma fonte,
derramando toneladas de cabelo, mais do que aquele que ela tinha, pelos seus ombros e as costas
abaixo. Carregara na maquilhagem: as pestanas eram duas asas negras, os lábios de um vermelho
cruel. Um vestido justo de seda cinzenta pendia-lhe desde o pescoço até às pernas, cobrindo-lhe os
braços também. Tirou uma adaga comprida e ondulada da manga. A seguir, levantou os braços
como uma deusa antiga prestes a sacrificar uma cabra ou um homem vivo preso a uma laje de
pedra. Segurava a adaga com ambas as mãos, depois passou-a para uma só, sem tirar os olhos da
arma. Carregou num botão invisível. A adaga acendeu-se e brilhou. Os cânticos e os gemidos da
música deram lugar a lamentos guturais, dolorosos, e depois a uma repentina série de gritos. A cada
grito ela arrancava um pedaço do velcro que unia o vestido. Provocou-nos durante um tempo. O
vestido tinha aberturas dos lados. Deixava entrever um seio couraçado. Uma perna envolta até à
coxa nas tiras de couro da sandália. Por fim, no seguimento de um coro de cânticos e uivos,
escutou-se um grito agudo. A seguir, silêncio. Sonja deixou tombar o vestido. Agarrei o braço de
Mooshum. Não queria desperdiçar um segundo que fosse a olhar para ele, mas também não queria
que ele tombasse para trás e batesse com a cabeça. Jamais esqueci aquela imagem de Sonja na
glória sombria do quarto de Evey. Aquelas sandálias de saltos altos tornavam-na enorme. Com o
cone no cimo da cabeça quase tocava no teto. As suas pernas pareciam não ter fim e vestia umas
cuecas de biquini que mais pareciam ter sido forjadas em ferro e trancadas a cadeado. A sua barriga
era imaculada e ágil, tonificada, não sei como. Nunca a vira fazer exercício. E os meus amores, os
seios dela, também envoltos em pedaços de armadura plástica, pareciam querer rebentar pelas
costuras da couraça que exibia falsos mamilos eretos. Peles e lenços pendiam dela. Com a adaga
entre os dentes, começou a esfregar as peles e os tecidos por todo o corpo. Nas mãos tinha luvas
compridas de vinil. Descalçou uma; chicoteou-se ao de leve com ela, esfregou-a pelo cinto de
castidade, e por fim usou-a para me esbofetear. Quase desmaiei.

236

Agarrei em Mooshum de novo. Ele ofegava de felicidade. Sonja esbofeteou-me no olho com a
outra luva. Os tambores retumbaram. O ventre e as ancas de Sonja começaram a girar a um ritmo
diferente, tão depressa que os movimentos se diluíram num borrão. Mooshum passou-me a garrafa.
Engasguei-me. Sonja rodopiava. Pregou-me um pontapé no joelho. Curvei-me com dores, mas sem
tirar os olhos dela. O tambor calou-se. Ela pôs-se a brincar com os cordões de couro que prendiam
a armadura e, de repente, deixou-a tombar. E lá estavam elas, exibindo apenas borlas douradas que
ela girava ora para um lado ora para outro, hipnotizando-nos. Quando os tambores se silenciaram,
eu estava estonteado. A respiração de Mooshum era irregular, arranhada. Ouvi a fita da cassete
chiar. Sonja desapertou os cordões das sandálias, descalçou-as e lançou-as à minha cabeça.
Desprendeu o cone do cabelo e deixou-o tombar em redor do rosto em cascata. Também fez
pontaria a mim com o cone. Descalça, aproximou-se e começou a contorcer as ancas ao som de
uivos de lobos, mas quando levou as mãos ao biquini de ferro e lentamente puxou por uma chave
na extremidade de um fio de seda, Mooshum estava preparado. Arrebatou-lhe a chave dos dedos e,
sem um único tremelique da sua velha mão, abriu o cadeado, desprendeu-o e lançou-o para o lado,
e eis que surge uma tanga de pelo negro, denso, suave. Bom, era pelo de coelho, mas que importa.
Colocou-se de pernas escarranchadas no colo de Mooshum, sem baixar todo o seu peso sobre ele, e
segurou os seios com as mãos em concha.
Feliz aniversário, avozinho, disse ela.
O sorriso de Mooshum irradiava. As lágrimas corriam-lhe pelas rugas da cara. Colocou os braços
em redor das ancas de Sonja, pousou a testa nos seios dela e fez uma inspiração profunda, meio
roncante. Não tornou a fazer outra.
Oh, não. Sonja afastou-lhe os braços e deitou-o com cuidado no divã. Colou a orelha ao peito dele e
escutou.
Não lhe ouço o coração, disse ela.
Curvei-me sobre ele também.
Fazemos respiração boca a boca? Reanimação cardiopulmonar? Que fazemos, Sonja?
Não sei.

237

Olhámos para ele. Tinha os olhos fechados. Sorria. Nunca ante o vira com um ar tão feliz.
Agora está no meio de um sonho, disse Sonja num tom afetuoso As suas palavras irromperam pelo
meio de um soluço. Está a partir. Não o perturbemos. Inclinou-se mais sobre Mooshum, alisando-
lhe o cabelo para trás e murmurando.
Ele abriu os olhos uma vez, sorriu para ela e voltou a fechá-los.
Talvez o coração dele esteja a bater, afinal de contas!
Sonja ajoelhou-se e colou de novo a orelha ao peito dele, mordendo o lábio.
Ouço uma batida ou duas, anunciou ela, aliviada. Atordoado, observei Mooshum em busca de
sinais de vida, mas ele não se mexia.
Apanha as minhas coisas do chão, disse Sonja, com a cabeça ainda pousada no peito de Mooshum.
Sim, está a bater, continuou ela. Só que muito lentamente. E parece-me que respirou.
Desloquei-me pelo quarto a reunir as tralhas dela, levei-as para a casa de banho e enfiei-as no saco
de plástico. Trouxe o fato de treino e os ténis para o quarto e virei-me de costas enquanto ela se
vestia. Não queria olhar para ela.
Depois de completamente vestida, pegou no saco com os seus aprestos de stripper e largou-o aos
meus pés.
Fica com ele, masturba-te com ele, quero lá saber, declarou. Apanhou do chão uma borla que me
escapara e lançou-ma à cara.
Lamento muito, disse.
Lamentares não te serve de nada. Estou-me pouco marimbando. Sabes de onde sou? Não.
Dos arredores de Duluth. É uma bela cidade, não é? Sim, suponho que sim.
Frequentei uma escola católica. Até ao oitavo ano. Sabes como consegui?
Não.
A minha mãe. A minha mãe era católica. Sim. Frequentava a igreja. Ia... Trabalhava nos barcos.
Sabes o que ela fazia?
Não.

238

Ia com os homens, Joe. Sabes o que isso significa? Murmurei qualquer coisa.
Foi assim que vim ao mundo, aliás. Ela também tentou ficar com que ganhava. Sabes o que isso
significa, Joe?
Não.
Levava porrada muitas vezes. Também consumia drogas. E sabes que mais? Nunca conheci o meu
pai. Nunca o vi, mas a minha mãe era boa para mim, às vezes; outras não, não importa. Abandonei
a escola, tive a minha filha. Não aprendi nada. Nada de nada. A minha mãe disse, se não tens mais
nada, podes fazer striptease. Só tens de dançar de um lado para o outro, certo? Não faças mais nada,
dança apenas de um lado para o outro. Eu tinha uma amiga que já o fazia e ganhava bom dinheiro.
Disse que sim, que não faria mais nada. Achas que fiz mais alguma coisa?
Não.
Acabei por ficar encurralada nessa vida. Depois conheci o Whitey. Durante a época de caça, abrem
mais bares de strip. O Whitey cortejou-me. Seguiu-me por todos os bares. Começou a proteger-me.
E, no final, pediu-me que largasse aquilo. «Vem viver comigo», diz-me ele. Não perguntei se
casaria comigo. Sabes porquê, Joe?
Não.
Eu digo-te. Não achava que fosse digna de casar, foi por isso. Não era digna de alguém querer casar
comigo. Porque haveria um Elvis já entrado, com uma ponte por dentadura, um tipo sem mais
estudos do que eu, um bêbado que me bate, porque haveria um tipo assim de casar comigo, hã?
Não sei. Pensei que...
Pensaste que éramos casados. Pois, mas não somos. O Whitey não me concedeu essa honra, embora
me tenha dado um anel barato. Agora, estou-me nas tintas para isso. E tu... Eu tratava-te bem, não
tratava?
Sim.
Mas, durante todo esse tempo, tu estavas em pulgas. Lançavas olhares furtivos para as minhas
mamas quando pensavas que eu não estava a ver. Achas que não reparava?
Fiquei tão corado e quente na cara que até sentia arder a pele.

239

Sim, reparava, disse Sonja. Olha bem para elas agora. De perto. Estás a ver isto?
Não conseguia olhar. Abre a merda dos olhos.
Olhei. Uma esguia cicatriz branca percorria um dos lados do seio esquerdo, contornando o mamilo.
Foi o meu agente que me fez isso com uma lâmina, Joe. Recusei-me a ir com um grupo de
caçadores. Achas que as tuas ameaças me assustam?
Não.
Pois não. Estás a chorar, não estás? Chora o que quiseres, Joe. Montes de homens choram depois de
magoarem uma mulher. Já não tenho filha. Encarava-te como um filho, mas tu revelaste-te apenas
mais um tipo merdoso. Mais um estupor que só pensa nele mesmo, Joe. Não passas disso.
Sonja foi-se embora. Fiquei sentado junto a Mooshum. O tempo desmoronou-se. A minha cabeça
ressoava como se tivesse levado um murro ou uma cacetada. Por vezes, a respiração dos idosos é
tão superficial que mal se percebe. A tarde prosseguiu e o ar tornou-se violáceo quando ele por fim
se mexeu. Abriu os olhos e voltou a fechá-los. Fui a correr buscar água e dei-lhe um trago.
Ainda aqui estou, disse ele, numa voz débil e desapontada. Continuei sentado ao lado de Mooshum,
na beira do divã, a pensar no seu desejo de ter uma morte feliz. Tivera a oportunidade de ver a
diferença entre o seio esquerdo e direito de Sonja, mas desejava nunca ter tido. Porém, estava
contente por tê-lo feito. Aquele conflito dava-me cabo da cabeça. Cerca de quinze minutos antes de
Clemence e Edward terem regressado com a arca congeladora, olhei para os meus pés e reparei na
borla dourada junto à perna do divã. Apanhei-a e enfiei-a no bolso das calças de ganga.
Não guardo a borla numa caixa especial ou assim; já não. Está na gaveta do cimo da minha
cómoda, onde as coisas acabam por ir parar, como a meia desirmanada onde Mooshum escondia
dinheiro. Se a minha mulher alguma vez reparou na borla, nunca o mencionou. Nunca lhe falei de
Sonja, não a sério. Não lhe disse que enfiei o resto da fantasia de Sonja num contentor do lixo junto
aos escritórios tribais, onde o BIA os ia recolher.

240

Não saberia que coloquei aquela recordação onde por acaso me deparasse com ela, de propósito.
Porque, de cada vez que olho para a borla, recordo-me da forma como tratei Sonja e da forma como
ela me tratou, ou de como a ameacei e de tudo o que daí resultou, de como era apenas mais um tipo.
De como aquilo me destroçou quando pensei a sério sobre isso. Um estupor que só pensa nele
mesmo. Talvez fosse. Ainda assim, depois de ter pensando nisso durante muito tempo — toda a
minha vida, na verdade — quis ser um pouco melhor.
Doe construíra um pequeno terraço na parte da frente da casa, e este estava apinhado, como todos
os nossos terraços tendem a estar, de entulho útil. Havia pneus de neve enfiados em sacos pretos do
lixo, macacos enferrujados, um grelhador retorcido, ferramentas amolgadas e brinquedos de
plástico. Cappy estava refastelado numa espreguiçadeira bamba no meio de todos aqueles detritos.
Passava ambas as mãos pelo cabelo contemplando as tábuas de madeira arranhadas pelo cão. Nem
sequer levantou os olhos quando me aproximei dele e me sentei num velho banco de piquenique.
Olá.
Cappy não reagiu.
Então, aaniin (Nota 36)...
Nada.
Ao fim de muito nada, acabou por dizer que Zélia voltara para Helena com o grupo da igreja, o que
eu já sabia, e depois de mais algum nada, Cappy desembuchou:
Eu e a Zélia fizemos uma coisa.
Uma coisa?
Fizemos tudo.
Tudo?
Tudo o que nos ocorreu... Bom, talvez houvesse mais, mas nós tentámos...
Onde?
No cemitério. Foi na noite do aniversário do teu Mooshum. E depois de termos feito umas coisas
aí...

Nota 36 - «Olá» (N. da. T.)

241

Numa sepultura? Não sei. Estávamos nas imediações das sepulturas, assim para o lado, não mesmo
em cima de uma tumba. Ainda bem; podia dar azar.
De certeza. Depois fomos para a cave da igreja. Fizemo-lo mais um par de vezes aí. O quê?
Na sala da catequese. Tem um tapete. Fiquei mudo. A minha cabeça andava à roda. És audaz, disse
eu por fim.
Sim, depois ela foi-se embora. Não consigo fazer nada. Sofro. Cappy olhou para mim como um
cachorro moribundo. Levou os dedos ao peito e sussurrou: Dói, aqui. Mulheres, comentei. Ele
olhou para mim. Serão a tua morte. Como é que sabes?
Não respondi. O amor dele por Zélia não era como o meu por Sonja, que se tornara uma coisa
contaminada pela humilhação, pela traição e por ondas de sentimento ainda mais poderosas que me
dilaceravam e deitavam por terra. Em contraste, o amor de Cappy era puro. O seu amor começava a
manifestar-se. Elwin tinha uma pistola de tatuagem e fazia-as em troca de dinheiro. Cappy disse
que queria que Elwin lhe tatuasse o nome de Zélia em letras gordas de um lado ao outro do peito.
Não, disse-lhe. Vá lá. Não faças isso. Levantou-se. Vou fazê-lo!
Só consegui convencê-lo a esperar, fazendo-lhe ver que quando os seus peitorais crescessem com
os treinos que ele fazia, as letras poderiam ficar maiores. Deixámo-nos estar sentados durante
bastante tempo, comigo a tentar distraí-lo, sem sucesso. Fui-me embora, por fim, quando Doe
chegou a casa e mandou Cappy tratar da pilha de lenha. Cappy dirigiu-se ao machado, agarrou nele
e começou a rachar lenha com uns golpes tão desenfreados que temi que cortasse uma perna.

242

Disse-lhe que tivesse calma, mas ele limitou-se a lançar-me um olhar inexpressivo e pregou uma
machadada tal num troço de lenha que este voou uns três metros pelo ar.
Deambulando de volta a casa — estava combinado que os meus pais regressariam naquela tarde —,
voltei a ser acometido por aquela sensação de não querer ir para lá. Também não queria ir para lado
nenhum onde Sonja estivesse. Pensar nela fazia-me pensar em tudo. À cabeça vinha-me a imagem
daquele pedaço de tecido de xadrez azul e branco e a certeza, que não parava de afastar da minha
mente, de que a boneca estava naquele carro. Ao lançar a boneca fora, obviamente que destruíra
provas, talvez até alguma coisa que indicasse o paradeiro de Mayla. O local onde ela se encontrava,
um sítio tão obscuro que nem os cães tinham conseguido dar com ela. Afastei Mayla da minha
mente. E Sonja. Tentei também não pensar na minha mãe. No que talvez sucedera em Bismarck.
Todos estes pensamentos constituíam os motivos por que não queria ir para casa ou estar sozinho.
Apoderavam-se de mim, toldando-me a mente, encobrindo-me o coração. Enquanto pedalava,
tentei expulsar tais pensamentos, levando a bicicleta para os montes de terra por trás do hospital.
Comecei a acelerar como um louco para cima e para baixo, saltando tão alto que, quando aterrava,
os meus ossos trepidavam. Rodopiando. Derrapando. Levantando nuvens de pó e areia que me
encheram a boca até ficar tão maldisposto, sedento e suado que pude finalmente ir para casa.
Pearl deu conta do barulho que a minha bicicleta fazia e foi postar-se na extremidade do caminho
da garagem, à espera. Desmontei e encostei a minha testa à sua. Desejei trocar de lugar com ela.
Segurava Pearl quando ouvi a minha mãe gritar. E gritar de novo. E depois escutei o meu pai,
falando baixo e num tom monótono por entre os guinchos dela. A voz da minha mãe mudou de
repente e baixou de volume, guinando e descambando como eu acabara de fazer com a bicicleta,
aterrando com força, até que por fim se transformou num murmúrio surpreendido.
Permaneci na rua, segurando a bicicleta, apoiando-me nela. Pearl estava ao meu lado. Então, o meu
pai emergiu pela porta de rede mosquiteira das traseiras e acendeu um cigarro, algo que nunca o
vira fazer.

243

O seu rosto estava macilento de exaustão. Os olhos raiados de sangue. Virou-se e viu-me.
Soltaram-no, não foi?, disse.
Ele não respondeu.
Foi isso pai? Pai?...
Ao fim de um momento, deu uma passa no cigarro, baixou os olhos.
Todo o veneno que purgara do corpo com a bicicleta inundou-me de novo as veias, e comecei a
arreliar o meu pai com palavras. Palavras estúpidas.
Só prendes bêbados e ladrões de salsichas.
Ele olhou-me surpreendido, depois encolheu os ombros e sacudiu a cinza do cigarro.
Não te esqueças dos infratores e dos casos de guarda de menores.
Infratores? Oh, claro. Há algum sítio na reserva onde não se possa estacionar?
Tenta fazê-lo no lugar do presidente tribal.
E a guarda de menores. Nada mais que sofrimento. Tu mesmo o disseste. A tua autoridade é zero,
pai, um grande zero, não podes fazer nada. Para quê tentar?
Tu sabes porquê.
Não, não sei, gritei e entrei para estar com a minha mãe, mas não havia ninguém com quem estar
quando cheguei à cozinha. Fitava sem expressão o frigorífico branco, e quando me coloquei à
frente dela, falou-me numa voz estranha e calma.
Olá, Joe.
Depois de o meu pai entrar, ela subiu ao piso de cima, numa espécie de procissão lenta, com ele a
segurá-la pelo braço.
Não a deixes sozinha, pai, por favor. Disse-o em pânico ao vê-lo descer, mas ele nem olhou para
mim.
Coloquei-me desastradamente à sua frente, balançando as mãos.
Porque é que fazes isso?, perguntei, à bruta. Porque é que te dás ao trabalho?
Queres saber?

244

Levantou-se, dirigiu-se ao frigorífico e vasculhou dentro dele, tirando qualquer coisa do fundo de
uma prateleira. Levou-a para a mesa. Era um dos cozinhados de Clemence que não chegara a ser
comido e que estava ali há tanto tempo que as massas já estavam negras; porém, ficara junto dos
tubos de refrigeração e acabara por congelar, e, assim sendo, não tresandava, por enquanto.
Porque não desisto. Queres saber?
Com um baque inesperado, virou o recipiente sobre a mesa e levantou-o. A comida estava
carregada de um bolor branco e felpudo, mas manteve a sua forma oblonga. O meu pai voltou a
levantar-se, abriu uma gaveta e tirou o tabuleiro dos talheres. Achei que ele enlouquecera por fim e,
observando-o, mal conseguia falar.
Pai?...
Vou ilustrar o meu ponto de vista para tu entenderes, filho.
Sentou-se e acenou-me com dois garfos. Depois, com uma concentração impassível, pousou com
todo o cuidado uma faca de trinchar em cima do guisado congelado e, em redor dela, começou a
cravar um garfo, outro garfo, mais um, acrescentando uma colher aqui, uma faca de manteiga ali,
uma concha, uma espátula, até aquela confusão mais ou menos organizada se ter transformado
numa estranha escultura. Pegou a seguir nas quatro facas de cozinha que a minha mãe mantinha
sempre afiadas. Eram facas boas, de uma só peça de aço que atravessava o cabo de madeira.
Equilibrou-as precariamente sobre os restantes talheres. No final recostou-se, cofiando o queixo.
É isto, anunciou.
Devia ter um ar assustado. Estava assustado. O comportamento dele era o de um lunático.
É o quê, pai?, perguntei com todo o cuidado. Da mesma forma que se aborda uma pessoa que
delira.
Ele voltou a cofiar a barba grisalha e rala.
A Lei índia.
Anuí com a cabeça e contemplei o edifício de facas e outros talheres sobre o guisado que começava
a abater.
Okay, pai.
Ele apontou para a parte inferior da composição e arqueou as sobrancelhas expressivamente na
minha direção.

245

Hum... decisões podres? Costumas consultar o velho Manual de Cohen que era do meu pai. Serás
advogado se não fores parar primeiro à prisão. Apontou para as massas negras e peludas. Pensa no
caso Johnson vs. McIntosh. Estamos em 1823. Os Estados Unidos têm quarenta e sete anos e todo o
país está apostado em apoderar-se dos territórios índios o mais depressa possível e de todas as
formas que a mente humana for capaz de idealizar. A especulação imobiliária é a bolsa de valores
daqueles tempos. Toda a gente está envolvida nela. George Washington. Thomas Jefferson. Bem
como o presidente do Supremo Tribunal, John Marshall, que redigiu a decisão deste caso e fez a
fortuna da sua família. O recém-constituído Governo não consegue ter mão na loucura da corrida às
terras. Os especuladores adquirem direitos sobre territórios índios abrangidos por tratados e sobre
terras ainda na posse de índios e por eles ocupadas: o homem branco aposta literalmente na varíola.
Tendo em conta os montantes gastos de forma descarada em subornos para levar a tribunal este
caso escandaloso, defendido por nada menos que Daniel Webster, a sentença foi surpreendente. O
que repugna não é a decisão em si mesma, mas as obiter dicta, as palavras da opinião emitida pelo
juiz. O juiz Marshall não se poupou a esforços para despojar os índios de todos os seus títulos de
propriedade sobre terras «descobertas» por europeus. Resumindo, defendeu a doutrina medieval de
descobrimento para um governo que, supostamente, se baseava nos direitos e nas liberdades do
indivíduo. Marshall colocou a propriedade das terras na posse do Governo, concedendo aos índios
nada mais do que o direito de ocupação, direito esse que lhes podia ser retirado em qualquer
momento. As suas palavras continuam a ser usadas hoje em dia para que a expropriação das nossas
terras possa continuar. Contudo, o que realmente exaspera qualquer pessoa inteligente é que a
linguagem que ele usou sobreviva na lei: que nós éramos uns selvagens que vivíamos da floresta, e
que deixar-nos as terras era votá-las ao abandono e à improdutividade, que o nosso caráter e a nossa
religião são tão pouco relevantes que o génio superior da Europa se sobrepunha sem dúvida a eles,
et cetera, et cetera.
Percebi então. Apontei para o fundo da escultura.

246

Creio que aquilo é Lobo Solitário vs. Hitchcock (Nota 37).


E o caso Tee-Hit-Ton (Nota 38).
Perguntei ao meu pai o que era a primeira faca que ele pousara em cima do guisado, equilibrando-o.
Worcester vs. Geórgia (Nota 39). Esse seria um melhor alicerce, mas este aqui... Arrancou um
pedaço especialmente nojento de guisado com a ponta de um garfo. Este seria o que eu aboliria
neste instante, se tivesse o poder de um desses xamãs que aparecem nos filmes. Oliphant vs.
Suquamish. Abanou o garfo e o fedor chegou-me ao nariz. Tirou-nos o direito de mover ações
contra não-índios que cometam crimes nas nossas terras. Portanto, mesmo que...
Não conseguiu continuar. Esperava que limpássemos aquela porcaria em breve, mas não.
Portanto, mesmo que pudesse mover uma ação contra o Lark...
Okay, pai, interrompi, serenado. Porque o fazes? Porque continuas aqui?
O guisado começava a verter e a descongelar. O meu pai dispusera os garfos e as facas e as colheres
de modo a que formassem um edifício que se sustinha por si só. Por cima equilibrara as melhores
facas da minha mãe.
Estas são as decisões que eu e muito outros juízes tribais tentamos tomar. Decisões sólidas, sem
opiniões e argumentações pouco sistemáticas e inconsistentes. Tudo o que fazemos, por mais trivial
que seja, tem de ser orquestrado ao milímetro. Tentamos erigir uma base sólida para a nossa
soberania. Tentamos pressionar os limites do que nos é permitido, dar um passo para lá desses
limites. Os nossos autos serão um dia examinados pelo Congresso e serão tomadas decisões sobre o
alargamento da nossa jurisdição.

Nota 37 - Este caso foi decidido pelo Supremo Tribunal em 1903. Lobo Solitário, chefe dos
Kiowa, processou o secretário do Interior, Ethan Hitchcock, com vista a deter a repartição em lotes
da reserva apache, comanche e kiowa, no Sudoeste do Oklahoma. A decisão do tribunal privou os
índios da sua reserva, abriu as suas terras a colonos não-índios e violou e revogou os termos de um
tratado assinado em 1867. [N. da T.)
Nota 38 - Neste caso, de 1955, a tribo Tee-Hit-Ton procurava uma compensação do Congresso por
madeira levada de terras ocupadas pela tribo. O Supremo Tribunal decidiu contra os Tee-Hit-Ton.
(N. da T.)

Nota 39 - Supremo Tribunal decidiu a favor de Samuel Worcester e deliberou que a lei do estado da
Geórgia, que proibia não-índios de viverem em terras índias sem uma licença do estados, era
inconstitucional. (N. da T.)

247

Um dia. «Queremos o direito de processar judicialmente criminosos de todas as raças em todas as


terras contidas nas nossas fronteiras iniciais.» É por este motivo que tento dirigir o tribunal com
mão de ferro, Joe. O que faço agora é para o futuro, por mais que te possa parecer insignificante
trivial ou entediante.
Cappy e eu tentávamos partir os ossos na pista de cross. Fora com ele até ao nosso estaleiro, porque
Cappy rachara todos os pedaços de madeira no seu quintal, reduzindo cada um deles a acendalhas.
Ainda assim, tal não chegara, e ele queria ir montar os póneis de Sonja. No estado de espírito em
que se encontrava, temi que os fizesse correr até à morte. Para além disso, não queria ver Sonja,
nem Whitey, mas estava desesperado por distrair Cappy, por isso disse-lhe que, depois de darmos
umas voltas por ali e acharmos Angus, apanharíamos boleia até ao pasto, embora não falasse a
sério. De tempos a tempos, quando fazíamos uma pausa ou caíamos, Cappy levava a mão ao
coração e qualquer coisa crepitava. Perguntei-lhe por fim o que era. É uma carta dela. E eu escrevi
outra em resposta, disse ele. Respirávamos com dificuldade. Tínhamos feito uma corrida. Ele sacou
da carta, agitou-a à minha frente e voltou a enfiá-la com todo o cuidado no envelope rasgado. Zélia
tinha aquela letra bonita e redonda típica das miúdas do liceu, com pequenos círculos por cima dos
is. A seguir, Cappy mostrou outro envelope, selado, com o nome e o endereço dela.
Preciso de comprar um selo, disse ele.
Fomos então de bicicleta até à estação de correios. Esperava que Linda não estivesse a trabalhar
naquele dia, mas estava. Cappy pediu um selo e pagou-o. Não olhei para Linda, mas senti os seus
olhos tristes e esbugalhados cravados em mim.
Joe, disse ela. Fiz aquele pão de banana de que tu gostas. Virei-lhe as costas e fui para a rua esperar
por Cappy. Aquela senhora deu-me isto para ti, disse Cappy. Entregou-me um tijolo embrulhado em
papel de alumínio. Tomei-lhe o peso. Montámo-nos nas bicicletas e fornos à procura de Angus.
Pensei lançar o pão de banana para dentro de um quintal ou para a valeta, mas não o fiz.
Transportei-o comigo.

248

Chegámos a casa de Angus e ele veio ter connosco, mas disse-nos que a tia o obrigara a ir
confessar-se, o que nos fez desatar a rir.
Que é isso? Acenou com o queixo para o tijolo na minha mão.
Pão de banana.
Tenho fome, disse ele. Lancei-lho e ele comeu-o enquanto nos encaminhávamos para a igreja.
Comeu-o todo, o que foi um alívio. Amarfanhou o papel de alumínio, formando uma bola, e
guardou-a no bolso. Juntá-la-ia às latas. Eu presumira que enquanto Angus entrava na igreja e se
confessava, Cappy e eu o esperaríamos da parte de fora, sob o pinheiro, onde havia um banco, ou
no parque infantil, embora não tivéssemos nenhum cigarro para fumar. Porém, Cappy colocou a sua
bicicleta no suporte para velocípedes, mesmo ao lado da de Angus, portanto, estacionei a minha
também.
Ei, vais entrar?, perguntei.
Cappy já ia a meio dos degraus. Angus disse:
Não é preciso, podem esperar aí fora, não faz mal.
Vou confessar-me, declarou Cappy.
O quê? Mas és sequer batizado? Angus estacou.
Sim. Cappy continuou em frente. É claro que sou.
Ah, disse Angus. Então, e fizeste o crisma?
Sim, voltou Cappy a responder.
Quando é que te confessaste pela última vez?, perguntou Angus.
Que tens que ver com isso?
È só porque o padre te vai perguntar isso.
Eu digo-lhe.
Angus olhou de relance para mim. Cappy parecia falar muito a sério. O rosto dele exibia uma
expressão que nunca lhe vira, ou, para ser mais exato, a expressão dele e o seu olhar estavam
sempre a mudar entre o desespero, a ira e um enlevo afável e devaneador. Estava tão perturbado
que o agarrei pelos ombros e lhe falei cara a cara.
Não podes fazê-lo.
Cappy aterrorizou-me então. Deu-me um abraço. Quando recuou, percebi que Angus estava ainda
mais consternado do que eu.
Afinal, acho que me enganei nas horas, argumentou ele. Por favor, Cappy, vamos nadar.

249

Não, não te enganaste na hora, disse Cappy. Tocou-nos nos ombros. Vamos entrar.
A igreja estava quase vazia. Havia algumas pessoas de pé junto ao confessionário, à espera, e outras
tantas lá à frente, a rezar aos pés da Virgem Maria, onde havia um suporte com velas a arder dentro
de pequenos porta-velas de vidro encarnado. Cappy e Angus deslizaram ao longo do último banco,
onde se ajoelharam e corcovaram. Angus era o que estava mais próximo do confessionário. Olhou-
me de esguelha, por cima da cabeça pendida de Cappy, fez um careca ao mesmo tempo que
revirava os olhos e apontou para a porta da igreja com a cabeça, como quem dizia: «Tira-o daqui!»
Depois de Angus ter entrado no confessionário e fechando a cortina de veludo, meteu a cabeça de
fora e voltou a fazer a mesma expressão. Juntei-me a Cappy e disse:
Primo, por favor, suplico-te, vamos embora daqui. Cappy tinha os olhos fechados e, ainda que me
tenha escutado, não deu qualquer sinal disso. Quando Angus terminou a sua confissão, Cappy pôs-
se de pé como um sonâmbulo, avançou para o confessionário e correu a cortina.
Escutaram-se sons arcanos — o deslizar da portinhola do padre, os sussurros de um e de outro — e
depois a explosão. O padre Travis irrompeu pela porta do confessionário e teria apanhado Cappy se
este não se tivesse esgueirado por debaixo da cortina e escapulido, meio a deslizar, meio a gatinhar,
ao longo do banco. O padre correu para a porta, bloqueando a saída, mas Cappy já tinha passado
por nós, saltando por cima dos bancos em direção à parte da frente da igreja, aterrando nos assentos
a cada arremesso numa série de espantosos saltos que o levaram quase até ao altar.
O rosto do padre Travis empalidecera de tal forma que sardas castanho-avermelhadas,
habitualmente invisíveis, se destacavam como se tivessem sido desenhadas com um lápis. Não
fechou as portas antes de avançar para Cappy — um erro. Também não contou com a velocidade
dele ou com a sua habilidade em se escapar ao irmão mais velho num espaço fechado. Portanto,
apesar de todo o seu treino militar, o padre Travis cometeu vários erros táticos ao perseguir Cappy.

250

Parecia que o sacerdote poderia simplesmente avançar pelo corredor central e encurralar Cappy
atrás do altar, e Cappy tomou partido disso. Fez de conta que estava desorientado e permitiu que o
padre se aproximasse do cruzeiro antes de se precipitar para a nave lateral e fingir que tropeçava, o
que levou o sacerdote a guinar à direita na direção dele, metendo por um dos bancos. Quando o
padre se encontrava a meio do banco, Cappy fez baixar o genuflexório e correu a toda a velocidade
para as portas, onde eu e Angus nos encontrávamos junto a dois idosos boquiabertos. O padre
Travis poderia tê-lo intercetado se tivesse dado meia volta e corresse para trás, mas tentou
desembaraçar-se do genuflexório e teve de correr ao longo das estações da cruz. Cappy saiu pelas
portas. O padre Travis, tendo uma passada maior, ganhou terreno, mas em lugar de descer os
degraus, Cappy, que tinha muita prática, como todos nós, a deslizar pelo corrimão, ganhou balanço
e executou um gracioso voo que o fez aterrar de forma atabalhoada no caminho de terra batida, com
o padre demasiado perto para ter tempo de agarrar na bicicleta.
Cappy estava de ténis, os que eu cobiçara, mas o padre Travis também, reparei. Não corria com os
seus sóbrios sapatos pretos; quiçá estivera a jogar basquetebol ou a fazer jogging antes de ter ido
ouvir as confissões. Corriam ambos a toda a velocidade pela estrada poeirenta que conduzia à
povoação. Numa atitude audaciosa, Cappy atravessou a estrada principal e o padre Travis seguiu-o.
Cappy atalhou caminho por quintais que conhecia bem e desapareceu, todavia, mesmo de batina,
que levantara e prendera no cinto, o padre seguia nos calcanhares dele, rumo ao Dead Custer Bar e
à bomba de gasolina de Whitey. Ficámos assombrados com as pálidas e bem musculadas barrigas
das pernas do padre.
Que havemos de fazer?
Preparamo-nos para o que der e vier, respondi.
Angus e eu tirámos as bicicletas do estacionamento e segurámos a de Cappy entre os dois.
Esperávamos que se tivesse distanciado o suficiente do padre para saltar para a bicicleta e fugirmos
todos juntos. Cravámos os olhos no troço de estrada que conseguíamos avistar para lá das árvores,
pois seria aí que Cappy apareceria se o padre Travis não o alcançasse antes.

251

Cappy não tardou a aparecer. Pouco depois, o padre. Desapareceram de novo, e Angus referiu:
Está a tentar despistá-lo, ziguezagueando pelo bairro do BIA. Também conhece aqueles quintais.
Virámo-nos para observar o trecho seguinte de estrada por onde deviam aparecer e, mais uma vez,
Cappy foi o primeiro, seguido bem de perto pelo padre Travis. Cappy conhecia as entradas
principais e traseiras de cada edifício e entrou e saiu na gáspea do hospital, da mercearia, do lar de
terceira idade e do minúsculo casino que então tínhamos. Deu meia volta e tornou a atravessar o
Dead Custer e a bomba de gasolina. Seguiu pelo caminho que passava em frente à casa da senhora
Bineshi, na esperança de que os cães ferrassem os dentes na batina do padre, mas conseguiram
passar sem qualquer escaramuça. Cappy desceu a colina a toda a velocidade, pulando por cima das
campas ao atravessar o cemitério, e depois ambos descreveram um círculo que os levou até ao
parque infantil. Era hipnotizante observá-los. Cappy pôs os baloiços em movimento e saltou para as
barras, aterrando com toda a delicadeza. O padre Travis pousou como um símio, com os punhos no
chão, mas não parou. Correram colina acima, dois minúsculos pontos que aumentavam de tamanho
ao mesmo tempo que Cappy corria na nossa direção, pronto para saltar para a bicicleta que nós
segurávamos e partir a pedalar. Teríamos conseguido. Ele teria conseguido. Esteve muito perto
disso. Num sprint final, o padre Travis ficou à distância de um braço do colarinho de Cappy.
Escapou-se à mão do padre, mas este baixou-a e agarrou a roda traseira da bicicleta.
Cappy desmontou, mas o padre, roxo e a respirar como um asmático, segurou-o pelos ombros e
ergueu-o do chão. Angus e eu largámos as bicicletas para acudir em sua defesa. Embora não
soubéssemos ao certo o que Cappy planeara confessar, tornara-se então óbvio. Confessara o que
mais receáramos que confessasse.
Padre, isto não parece nada bem, argumentou Angus. Largue-o, por favor, padre Travis. Tentei
imaginar a voz do meu pai naquela situação. O Cappy é menor, aleguei.
Talvez fosse absurdo, mas o padre agarrara Cappy pelo colarinho e levantara o punho, e entretanto
detivera-se com a mão suspensa no ar.

252

Um menor, continuei, que recorreu a si em busca de ajuda, padre Travis.


O padre soltou um rugido, semelhante aos de Worf, e lançou Cappy ao chão. Puxou o pé atrás, mas
Cappy rebolou para fora do alcance dele. Pegámos nas bicicletas, pois entretanto o padre Travis
ficara imóvel. Permanecia ali de pé, respirando com força, de cabeça baixa, olhando-nos
furiosamente por baixo das sobrancelhas. Montámos nas bicicletas.
Tenha um bom dia, padre, despediu-se Angus.
O padre Travis ficou a olhar para nós enquanto nos afastávamos.
Raios te partam, exclamei para Cappy mais tarde. O que te passou pela cabeça?
Cappy encolheu os ombros.
Contaste-lhe acerca da cave da igreja, onde fizeste aquilo?
Contei tudo, respondeu Cappy.
Foda-se.
Clemence franziu a testa ao ouvir o meu linguajar.
Desculpe, tia, disse. Tínhamos ido para casa de Clemence e Edward na esperança de que
estivessem a comer — não estavam, mas isso não importava, pois Clemence sabia porque é que
tínhamos aparecido por ali e tratou logo de aquecer o seu macarrão com carne picada e serviu-nos o
seu habitual chá dos pântanos, misturado, especialmente para nós, com uma lata de limonada. Deu
também um pouco a Mooshum, pois o meu avô comia sempre quando mais alguém o fazia, mas os
seus tremores haviam-se acentuado de tal forma que não podia comer sopa.
Porque é que lhe contaste?, perguntei.
Não sei, respondeu Cappy, talvez por causa do que ele contou acerca da namorada. Ou por aquilo
que me disse: «Sê tu aquele que repara nela», lembras-te?
Ele disse repara nela, não... tu sabes.
Fui delicado com Cappy, embora Clemence não estivesse a prestar atenção naquele momento. Se
bem que Cappy tivesse tido relações sexuais, fizera-o num plano superior, por isso não quis usar
palavras relacionadas com sexo.

253

Zangava-se quando eram associadas a qualquer coisa relacionada com o que sucedera entre ele e
Zélia.
Podias ter recorrido ao teu pai, ou ao ter irmão mais velho, e falavas com eles, fiz notar.
Estou contente por ter ido falar com o padre Travis, apesar de tudo, disse Cappy, sorrindo.
A fuga de Cappy estava já a tornar-se famosa e a sua reputação dispararia. O padre Travis também
não saíra a perder, uma vez que nunca na vida víramos um padre em semelhante forma física.
O tamanho dos músculos das pernas dele!, exclamou Clemence.
O último padre não teria conseguido correr dez metros, referiu Mooshum. Uma vez, vi-o estendido
no nosso quintal, podre de bêbado. O antigo padre pesava mais do que tu e os teus escanzelados
amigos todos juntos. Soltou uma casquinada. Mas este padre novo tem lá o seu orgulho. Vai
precisar de rezar muito para esquecer a fuga do Cappy.
Deus ajude os cães-da-pradaria esta semana, disse o tio Edward ao passar pela cozinha.
Clemence trouxe um pano de cozinha e atou-o em redor do pescoço de Mooshum. Entre garfadas,
ele disse:
Alguma vez vos contei a ocasião em que corri mais depressa que o Johnson Devorador de Fígados,
rapazes? Que aquele sacana costumava perseguir índios, matar-nos e comer-nos os fígados? Era um
wiindigoo branco, mas quando eu era jovem e veloz, consegui encontrá-lo e paguei-lhe na mesma
moeda, fazendo-o desaparecer dentada a dentada. Arranquei-lhe as orelhas com os dentes, e depois
o nariz. Querem ver o polegar dele?
Já lhes contaste, pai, interrompeu Clemence, determinada a enfiar-lhe a comida no velho bandulho.
No entanto, Mooshum queria falar.
Escutem bem, rapazes. As pessoas contavam que Johnson Devorador de Fígados escapara a uns
índios roendo a tira de couro cru com que lhe tinham atado as mãos. Reza a história que ele matou
o jovem índio que o guardava e lhe cortara a perna. Supostamente, o sacana terá fugido para a
floresta com a perna e sobreviveu à custa dela até atingir território menos hostil.

254

Abre, ordenou Clemence, e encheu-lhe a boca. Mas não foi assim que as coisas se passaram, disse
Mooshum, pois eu estava lá. Andava à caça com uns guerreiros blackfoot quando apanharam o
Devorador de Fígados. Decidiram entregá-los aos Crow, porque ele matara muitos dos seus. Eu
estava sentado com o jovem blackfoot que o guardava, mas o índio queria tanto matar o Johnson
que até lhe tremiam as mãos. Falei com o Devorador de Fígados na linguagem dos Blackfoot, que
ele entendia mais ou menos. «Devorador de Fígados», disse-lhe eu, «metade dos Blackfoot odeia-te
tanto que vai empalar-te pelo cu e esfolar-te vivo; mas primeiro vão cortar-te os tomates e dá-los a
comer às mulheres deles diante dos teus olhos.»
Já chega!, disse Clemence.
Os olhos do índio incandesciam, continuou Mooshum. Disse ao Devorador de Fígados que a outra
metade dos Blackfoot queria atado muito bem aos seus dois melhores póneis de guerra e pô-los a
correr em direções opostas. Os olhos do jovem blackfoot cintilaram como velas ao ouvir isto. Disse
ao Johnson Devorador de Fígados que teria de decidir qual dos dois destinos preferia para que a
tribo pudesse começar com os preparativos. No final, virámos as costas ao Devorador de Fígados e
aquecemos as mãos na fogueira. Deixámo-lo a morder as tiras de couro que lhe prendiam os pulsos.
Também tinha os tornozelos atados com cordas fortes. Em redor da cintura, outro pedaço de couro
prendia-o a uma árvore. Tinha muito para roer com os seus dentes, que não eram muito fortes, e a
ideia era essa. Vocês nunca viram os dentes de um caçador branco, mas eles não tinham o hábito
que nós índios tínhamos de esfregar os dentes com um galho de bétula. Eles deixavam os dentes
apodrecer. Era possível cheirar o hálito de um caçador branco dois quilómetros antes de o
avistarmos. O hálito deles, de uma forma geral, cheirava pior que o resto do corpo, e isso já diz
muito, não é? Os dentes do Devorador de Fígados não eram diferentes dos de qualquer caçador
branco. E lá continuava ele a tentar roer as cordas e o couro. De vez em quando ouvíamo-lo
praguejar e cuspir: lá se ia um dente, depois caía mais outro. Metemos-lhe tanto medo, que mordeu
e roeu até já só ter gengivas. Nunca mais voltaria a morder um índio.

255
Porém, eu e o jovem blackfoot tínhamos decidido deixá-lo totalmente incapacitado. Ele tinha uma
poção que a avó lhe tinha dado e que fazia as pessoas ficarem vesgas. Assim que o Devorador de
Fígados adormeceu e começou a ressonar, colocámos-lhe um pouco daquela poção nos olhos Não
voltaria a acertar nos alvos quando disparasse. Teria de se tornar xerife. Isto se os Crow não o
matassem, claro. Ainda assim, não se deixa uma cascavel viva para que volte a morder-nos da
próxima vez que passarmos naquele trilho, disse para o blackfoot, ainda que ela já não tenha
dentes.
«Quem dera que não tivéssemos de o entregar aos Crow», disse o jovem índio.
«Eles também precisam de se divertir», argumentei. «Mas, para o caso de ele se escapar, devíamos
certificar-nos de que não será capaz de apertar o gatilho de uma arma. Podíamos cortar-lhe os
dedos, mas depois os Crow vão dizer que roubámos um pedaço dele.»
«Há uma centopeia que, quando pica as mãos de um homem, estas incham como luvas para o resto
da vida», disse-me o blackfoot. Assim, fizemos umas tochas e fomos à procura da centopeia, mas,
na nossa ausência, o Devorador de Fígados conseguiu fugir. Quando voltámos, só vimos as tiras
roídas no chão, rodeadas de dentes partidos. Escapara-se. Depois inventou a história acerca de ter
comido a perna do índio, pois a menos que tivesse uma boa história, quem é que iria acreditar num
filho da mãe desdentado e vesgo? Nem mais, concluiu Clemence.
Awee, vou ter saudades da Sonja, disse Mooshum, piscando-me o olho. O quê?
Pois, disse Clemence. O Whitey diz que ela se pôs a andar. Ontem fingiu que estava doente, e
quando ele chegou a casa, encontrou o roupeiro dela vazio e descobriu que ela levara um dos cães.
Foi-se embora no seu chaço velho, que ele acabara de deixar como novo. E vai voltar?, perguntei.
O Whitey disse-me que no bilhete que ela deixou dizia que nunca mais. Parece que ficou tão
destroçado que dormiu com o outro cão. Ela disse-lhe que era melhor ele endireitar-se. Amen, é o
que eu digo.

256

A novidade deixou-me com a cabeça à roda e disse a Cappy que tínhamos de ir a um sítio. Ele
agradeceu a Clemence, de forma tradicional e educadamente, como era seu costume, e partimos de
bicicleta, pedalando sem pressa. Por fim, embora ficasse ainda longe, chegámos à estrada que
conduzia à árvore dos enforcados, onde Sonja e eu enterráramos as cadernetas. Parámos e contei a
Cappy toda a história: que encontrara a boneca, que a mostrara a Sonja, que ela me ajudara a
depositar o dinheiro naquelas contas bancárias e que no final escondêramos as cadernetas numa
caixa metálica. Contei-lhe que Sonja insistira em que mantivesse segredo para não o colocar em
perigo. Depois falei-lhe dos brincos de diamante e das botas de pele de crocodilo e da noite em que
Whitey batera em Sonja; disse-lhe ainda que já me tinha parecido que ela estava a pensar deixá-lo e
contei-lhe por fim quanto dinheiro encontrara na boneca.
Com isso tudo, pode ir para bem longe, comentou ele. Desviou o olhar, ofendido.
Pois, eu devia ter-te contado.
Não falámos durante um tempo.
Devíamos ir desenterrar a caixa, seja como for, opinou ele. Só para nos certificarmos. Talvez te
tenha deixado algum dinheiro, fez notar Cappy, num tom imparcial.
O suficiente para comprar uns ténis como os teus, disse enquanto pedalávamos.
Eu ofereci-me para os trocar pelos teus, referiu Cappy.
Não tem importância. Eu agora gosto dos meus. Aposto que me deixou um bilhete. De certeza que
deixou.
Tínhamos ambos razão, afinal de contas.
Havia duzentos dólares, uma caderneta e uma folha de papel.

Querido Joe,
O dinheiro é para os teus ténis. Deixo também uma caderneta para que uses o dinheiro para estudar
numa das melhores universidades do Leste.
Abri a caderneta. A conta tinha dez mil dólares.

257

Trata bem da tua mãe. Um dia, talvez mereças teres sido tão bom rapaz. Com o dinheiro posso ter
uma vida nova. Acabar-se-á o que viste.
Com amor, Sonja

Que raio, exclamei para Cappy.


Que quer ela dizer? O que é que tu viste?
Fiquei à nora. Queria contar-lhe cada pormenor da dança, cada uivo, cada saracotear de anca, e
mostrar-lhe a borla, mas uma estranha sensação de vergonha travou-me a língua.
Nada, respondi.
Dividi o dinheiro com Cappy e guardei a caderneta e a carta no bolso. A princípio, ele não queria
aceitar o dinheiro, mas depois disse-lhe que era para ele comprar um bilhete de autocarro para ir
visitar Zélia em Helena.
Dinheiro para a viagem, insisti. Acabou por aceitar as notas.
Demos meia volta para regressar a casa, e a meio do caminho espantámos um casal de patos de uma
vala cheia de água.
Ao fim de uns quilómetros, Cappy largou uma gargalhada.
Tenho uma boa. Porque é que os patos não fazem voos picados? Não esperou que eu respondesse.
Para não meterem o bico onde não são chamados! Ainda todo contente com a sua vivacidade de
espírito, deixou-me à porta de casa para que fosse jantar com os meus pais. Entrei, e embora
estivéssemos meio calados, ausentes e um pouco em choque, estávamos juntos. Havia inhames
caramelizados, de que nunca gostei, mas comi-os à mesma. Havia também pernil e uma taça de
ervilhas da horta. A minha mãe disse uma pequena oração para abençoar a comida e conversámos
sobre a fuga de Cappy. Até lhes contei a sua piada. Mantivemo-nos afastados da existência de Lark
e de qualquer coisa que tivesse que ver com os nossos verdadeiros pensamentos.

258

Capítulo Dez A Essência do Mal

Linda Wishkob saiu do seu carro e caminhou penosamente até à nossa porta. Deixei que o meu pai
a fosse atender e esgueirei--me pelas traseiras. Deslindara por fim o que pensava em relação a ela e
ao seu pão de banana. Embora estes pensamentos não fizessem sentido, não conseguia libertar-me
deles. Linda era responsável pela existência de Linden. Salvara o irmão, apesar de naquela altura já
saber que ele era a essência do mal. Linda repugnava-me, da mesma forma que o repugnara a ele e
à sua mãe biológica, se bem que os meus pais não sentissem o mesmo que eu. Enquanto estava no
quintal das traseiras a correr de um lado para o outro com Pearl, jogando à apanhada, ainda que
nunca nos apanhássemos e nos limitássemos a girar em torno um do outro num contínuo trote,
Linda Wishkob estava a passar informações ao meu pai. O que lhe contou levou-o a acompanhar a
minha mãe ao trabalho e a ir buscá-la nos dois dias que se seguiram. Ao terceiro dia, o meu pai
pediu-lhe que fizesse uma lista de compras.
Insistiu para que fôssemos os dois ao supermercado no lugar dela e para que trancasse a porta
quando nós saíssemos e mantivesse Pearl dentro de casa. Deduzi assim que Linden Lark estava de
regresso àquela zona. A minha mente não iria para além disso.
259

Não queria pensar no assunto, não suportava fazê-lo. Estava já totalmente longe do meu
pensamento quando o meu pai me pediu que fosse com ele ao supermercado. Preparava-me para ir
ter com Cappy para estabelecer uma série de saltos mais rápidos e espetaculares nos montes de
terra. Não me apetecia ir com o meu pai ao supermercado, mas ele alegou que seriam necessárias
duas pessoas para decifrar e encontrar ao certo as coisas que a minha mãe queria. Depois de ver a
lista com a letra inclinada dela, e que até os nomes das marcas incluía, e ainda conselhos sobre
como escolher melhor, tive de concordar com ele.
O facto de termos um verdadeiro supermercado na reserva não é uma coisa de somenos
importância. Antigamente, para além do armazém com os alimentos distribuídos pelo Governo, só
havia mais um sítio onde comprar comida: o Puffy's Place, o antecessor do supermercado. O velho
estabelecimento vendia sobretudo artigos não perecíveis, como chá, farinha, sal, manteiga de
amendoim, bem como alguns legumes dos excedentes das hortas e carne de caça. Vendia também
trabalhos em missangas, mocassins, tabaco e pastilhas elásticas. Para comprar comida verdadeira, o
nosso povo tivera de sair da reserva e percorrer trinta quilómetros ou mais para encher os bolsos de
lojistas que nos observavam com desconfiança e aceitavam o nosso dinheiro com desprezo. Com
um supermercado próprio, gerido por membros da tribo e com funcionários contratados entre a
nossa gente, tínhamos algo especial. Muito embora a máquina de refrigerantes que havia à porta
estivesse avariada, as portas automáticas se fechassem à passagem de idosas mais lentas e as
crianças enchessem o dispensador de rebuçados de dedadas a ponto de não se conseguir ver a cor
daqueles, era o nosso próprio supermercado. Os camiões deslocavam-se até ele para o abastecer,
como acontecia em qualquer outra loja, e partiam.
A entrada, o meu pai e eu passámos pelo placar carregado de pósteres rasgados a anunciar
powwows e automóveis para venda. Fomos buscar um carrinho e o meu pai desdobrou a lista.
Feijão seco.
Fiz notar que a minha mãe nos pedira para abanarmos e examinarmos o saco de plástico de feijões,
certificando-nos de que não continha pequenas pedras. Encontrámos o feijão no corredor das
massas.

260

Uma pedrinha redonda e pintalgada irá parecer-se com um feijão, comentei para o meu pai, virando
a embalagem retangular para um lado e depois para outro.
Devíamos abastecer-nos, disse o meu pai, lançando seis ou sete sacos para dentro do carrinho. São
baratos. Quando chegarmos a casa, espalhamos os feijões num tabuleiro e procuramos as pedras.
Concentrado de tomate, tomates em lata, marca Rotel, daqueles que levam pimento, quatro latas de
cada. Dois quilos de carne picada. Magra, se possível, diz a lista.
Magra? Porque quererá ela a carne magra?
Tem menos gordura, explicou o meu pai.
Eu gosto de gordura.
Eu também.
Colocou as latas no carrinho.
Cominhos, li eu. Encontrámo-los no corredor das especiarias.
A minha mãe planeava fazer comida a contar com Clemence, para lhe retribuir por todos os jantares
que nos preparara.
Continuei a ler.
Alface, cenouras e cebolas, e temos de as cheirar antes para termos a certeza de que não estão
podres por dentro.
Fruta. Qualquer uma, disse o meu pai, espreitando a lista por cima do meu ombro. Creio que somos
capazes de decidir por nós mesmos, pelo menos no que diz respeito à fruta. Que te parece?
Observámos uma rima de melões. Alguns tinham manchas. Havia uvas. Todas tinham manchas.
Havia um balde de bagas locais e algumas ameixas. O meu pai escolheu um melão e encheu sacos
de papel com ameixas e um pequeno cesto de plástico com bagas.
Comprámos frango, de aspeto anémico, cortado em pedaços, e contámos todos os pedaços
embalados, como a minha mãe nos instruiu. Levámos também uma embalagem que apenas
continha coxas. Comprámos molho de churrasco e batatas fritas Old Dutch, para mim. Umas
quantas latas de sopa de cogumelos foram para dentro do carrinho. Os últimos itens da lista eram
leite e manteiga: uma caixa de meio quilo de barras individuais, com sal, e uma barra inteira de
meio quilo, sem sal. E natas.

261

Que quer ela dizer com «uma barra inteira»? O meu pai parou ao meu lado, franzindo a testa para o
papel. Segurava um pacote de natas na mão. Porquê com sal? Porquê sem sal?
Eu ia a empurrar o carrinho à frente do meu pai, por isso fui o primeiro a ver Linden Lark. Estava
inclinado sobre a luz fria da vitrina da carne. O meu pai deve tê-lo visto logo a seguir a mim.
Durante um momento não fizemos mais nada a não ser fitá-lo. Depois entrámos em ação. O meu
pai largou o pacote de natas, precipitou-se para a frente e agarrou Lark pelos ombros. Fê-lo girar,
empurrando-o para trás e lançou-lhe ambas as mãos ao pescoço. Como já anteriormente disse, o
meu pai era um pouco desastrado, mas atacou Lark de forma tão instintiva, movido por uma súbita
ira, que quase pareceu uma cena de um filme. Lark bateu com a cabeça nas prateleiras de metal da
vitrina. Um pacote de banha estatelou-se no chão e Lark escorregou na banha derramada, raspando
com a nuca na parte inferior do expositor da carne e fazendo retinir as prateleiras. Começando a
fechar-se, as portas de vidro embateram nos braços do meu pai, fazendo-o cair ao mesmo tempo
que Lark, e ainda agarrado a ele. O meu pai manteve o queixo apontado para baixo. O cabelo
pendia-lhe em madeixas em redor das orelhas e tinha o rosto vermelho de raiva. Lark esbracejava,
incapaz de agarrar o meu pai da mesma maneira. Caí-lhe em cima também, com as latas de tomate
Rotel.
A questão é que Lark parecia estar a sorrir, se é possível alguém sorrir ao mesmo tempo que é
esganado e agredido com uma lata. Como se o nosso ataque o tivesse entusiasmado. Bati-lhe com a
lata na testa e fiz-lhe um golpe na sobrancelha. Fui invadido por uma felicidade pura e sinistra ao
ver o sangue dele. Sangue e banha. Voltei a agredi-lo com toda a força, e houve qualquer coisa,
talvez o choque provocado pela minha felicidade ou pela de Lark, que fez o meu pai soltar-lhe o
pescoço. Lark deu uma patada para cima e rechaçou o meu pai, que voou para trás. Aterrou no
corredor com força e Lark fugiu meio a gatinhar, corcovado.
Foi então que o meu pai teve o seu primeiro ataque de coração, que acabou por ser pequeno. Nem
sequer médio. Apenas pequeno. Mas foi um enfarte. No corredor do supermercado, no meio da
banha derramada e de latas tombadas, ao lado do champô Prell, o rosto do meu pai adquiriu um tom
amarelado e baço.

262

Respirava com dificuldade. Olhou para mim, perplexo. Como tinha a mão no peito, perguntei:
Queres que mande chamar uma ambulância?
Quando ele fez que sim com a cabeça, caiu-me tudo. Tombei de joelhos, e Puffy fez o telefonema.
Tentaram dizer-me que não podia seguir com o meu pai para o hospital, mas eu resisti. Fiquei com
ele. Não conseguiram obrigar-me a separar-me dele. Sabia o que acontecia quando se deixava um
progenitor afastar-se demasiado.
Ficámos em Fargo durante quase uma semana e passámos os dias no St. Luke's Hospital. No
primeiro dia, o meu pai foi submetido a uma cirurgia que agora se tornou rotineira, mas que na
altura era novidade. Envolvia a colocação de stents em três artérias. Tinha um ar débil e diminuto
na cama do hospital. Embora os médicos tivessem dito que ele estava a recuperar bem, eu tinha
medo, é claro. A princípio, só podia olhar para ele a partir do corredor. Quando o transferiram para
um quarto, as coisas melhoraram. Passávamos o tempo juntos, a conversar acerca de tudo e de
nada. Pode parecer estranho, mas o facto de estarmos ali juntos, em segurança, conversando sobre
coisas insignificantes, transformou-se numa espécie de férias. Passeávamos pelos corredores,
fingíamo-nos chocados com a comida desenxabida, conversávamos mais um pouco sobre coisas
sem importância.
À noite, a minha mãe e eu regressávamos ao quarto que partilhávamos no hotel. Tínhamos camas
separadas. Noutras viagens, dormíramos sempre os três juntos, os meus pais numa cama de casal,
eu num divã a um canto. Aquela era, que eu me recordasse, a primeira vez que ficava em algum
sítio sozinho com a minha mãe. Reinava um certo embaraço; a sua presença física incomodava-me.
Fiquei satisfeito por ela ter levado o velho roupão de banho do meu pai, de turco azul. Estava
sempre a massacrá-lo para o deitar fora. O turco já estava puído em algumas partes, tinha uma das
mangas a descoser-se, a bainha a desfazer-se. Pensei que o levara para o meu pai, mas às tantas via-
a com ele vestido na primeira noite.

263

Imaginei que se tivesse esquecido do seu próprio roupão, estampado com flores douradas e folhas
verdes, contudo, na segunda manhã acordei cedo e observei-a enquanto dormia. Tinha o roupão do
meu pai vestido. Nessa noite decidi comprovar se ela usava o roupão do meu pai de propósito e,
como de facto aconteceu, meteu-se na cama com ele vestido. O quarto não estava frio. Ocorreu-me
no dia seguinte, deambulando pelo parque às portas do hospital, que me saberia bem ter qualquer
coisa do meu pai para vestir também. Unir-nos-ia mais, de alguma forma.
Precisava tanto dele. Não era capaz de aprofundar muito aquilo, aquela carência, nem podia falar
disso com a minha mãe; mas o facto de ela usar o seu roupão era para mim um sinal de que
necessitava de ter o consolo da presença dele de uma forma básica que eu entretanto compreendia.
Nessa noite perguntei-lhe se emalara uma camisa a mais para o meu pai, e ela assentiu com a
cabeça quando perguntei se podia vesti-la. Deu-ma.
Ainda conservo muitas das camisas dele, bem como as gravatas. O meu pai comprava tudo na
Silverman's em Grand Forks. Aí se vendia a melhor roupa para homem, e ele não comprava muita,
mas era exigente. Usei as gravatas do meu pai durante o tempo que frequentei a Faculdade de
Direito da Universidade do Minnesota, e também quando fiz o exame para a Ordem. Durante o
período em que fui procurador do Ministério Público, usei as gravatas dele na última semana de
cada julgamento. Costumava também utilizar a sua caneta de tinta permanente, mas depois comecei
a recear perdê-la. Ainda a tenho, mas não assino as sentenças do tribunal tribal com ela, como ele
fazia. As gravatas fora de moda são o suficiente, bem como a borla dourada na gaveta e o facto de
sempre ter tido uma cadela chamada Pearl.
Vestia a camisa do meu pai no dia em que ele deixou de falar de coisas vagas, no penúltimo dia em
que ali estivemos. Viu-me com a camisa e fez um ar confuso. A minha mãe saiu para ir buscar café
e eu deixei-me estar a fazer-lhe companhia. Foi a primeira vez que fiquei realmente sozinho com
ele. Não me surpreendeu que, com as incisões da cirurgia ainda a cicatrizar, tenha decidido revisitar
a situação, perguntar-me se sabia alguma coisa acerca do paradeiro de Lark.

264
Eu pensara no mesmo, mas é claro que não sabia. Se Clemence contara alguma coisa à minha mãe
nas conversas telefónicas que mantinham, não fazia ideia. Nessa mesma noite, recebi uma chamada
no quarto do hotel; a minha mãe tinha saído para ir comprar o jornal. Era Cappy.
Alguns membros da nossa família fizeram uma visita, disse ele. Não sabia do que Cappy estava a
falar. Aqui? Não, lá. Onde?
Fizeram-no mudar de ideias. O quê?
O holodeck (Nota 40), palerma. Foi como quando o Picard fez de detetive. Lembras-te? A
persuasão?
Certo. Fui inundado por um formigueiro e uma sensação de alívio. Certo. Está morto?
Não, apenas persuadido. Amassaram-no bem, meu. Não se aproximará de vocês. Diz aos teus pais.
Terminado o telefonema, fiquei a pensar como havia de dizer-lhes, como haveria de relatar a coisa
fazendo de conta que não sabia que tinham sido Doe e Randall e Whitey, e até mesmo o tio
Edward, a acertar as contas com Lark. O telefone voltou a tocar. A minha mãe já tinha regressado.
Percebi que era Opichi quando a minha mãe perguntou se havia algum problema no escritório. O
som da sua voz, diminuta no auscultador, era esganiçado e veemente. A minha mãe sentou-se na
cama. O que quer que tivesse ouvido, não era bom. Por fim, pousou o auscultador e enroscou-se,
deitada de costas para mim. Mãe?
Não respondeu. Recordo-me do zunido das luzes na casa de banho. Dei a volta à cama e ajoelhei-
me a seu lado. Ela abriu os olhos e fitou-me. A princípio, parecia confusa e os seus olhos
examinaram o meu rosto como se estivesse a ver-me pela primeira vez ou depois de uma longa
ausência. A seguir, concentrou-se e franziu os lábios. Sussurrou.

Nota 40 - No universo da série O Caminho das Estrelas: A Geração Seguinte, o holodeck era uma
sala na nave espacial Enterprise onde eram simulados ambientes virtuais com objetivos de treino ou
de entretenimento. (TV. da T.)

265

Parece que lhe deram uma valente sova. Ainda bem, respondi. Sim.
Depois, segundo a Opichi, meteu-se no carro, furioso e ensanguentado, e arrancou para a bomba de
gasolina. Disse qualquer coisa ao Whitey acerca da sua namorada ricaça. Que a namorada rica do
Whitey estava bem na vida e que ele estava a pensar juntar-se a ela. Atravessou a bomba aos gritos,
a fazer troça do Whitey. O Whitey ainda o perseguiu com uma chave de porcas. Mas que conversa
era aquela? A Sonja não é rica.
Fiquei ali sentado de boca aberta. Joe?
Pousei a cabeça nas mãos, os cotovelos nos joelhos. Ao fim de um tempo, deitei-me e tapei a
cabeça com uma almofada.
Está calor neste quarto, disse a minha mãe. Vamos ligar a ventoinha. Refrescámo-nos e fomos a um
pequeno restaurante chamado 50's Café comer um hambúrguer, batatas fritas e um batido de
chocolate. Jantámos em silêncio. De repente, a minha mãe pousou o hambúrguer no prato e disse:
Não.
Mastigando, olhei-a fixamente. O ligeiro abatimento da pálpebra dava-lhe um ar de censura.
Passa-se alguma coisa com o hambúrguer, mãe?
Absorta, o olhar dela parecia atravessar-me. O vinco entre as suas sobrancelhas acentuou-se.
É uma coisa que o pai me disse. Uma história sobre um wiindigoo. O Lark está a tentar comer-nos,
Joe. Não permitirei que o faça, afirmou ela. Serei eu quem o fará parar.
A determinação dela aterrou-me. Pegou no hambúrguer e, deliberadamente, sem pressa, recomeçou
a comer. Não parou até ter terminado toda a comida que tinha no prato, o que também me assustou.
Era a primeira vez desde a agressão que comia tudo. Depois, regressámos ao quarto e preparámo-
nos para dormir. A minha mãe tomou um comprimido e adormeceu de imediato. Eu fiquei a
contemplar os débeis painéis de isolamento acústico do teto. Se os observasse com atenção
suficiente, conseguia sentir o ritmo do meu coração a desacelerar. O meu peito afundou-se e o meu
estômago parou de roncar.

266

Contei, com calma e devagar, 78 buracos aleatórios no painel por cima da minha cabeça, e 81 no do
lado. Se a minha mãe fosse atrás de Lark, ele matá-la-ia. Sabia que sim. Contei os orifícios uma e
outra vez.
No dia em que abandonámos Fargo, acordei cedo. A minha mãe já estava a pé, a lavar-se na casa de
banho. Escutei a água do chuveiro matraqueando a banheira. As cortinas do hotel eram tão pesadas
que não percebi que lá fora chovia torrencialmente. Era uma daquelas raras chuvadas de agosto que
calcam as nuvens de poeira das estradas. Que limpam a camada branca de pó das folhas. Que
preenchem as rachas na terra e fazem reviver as ervas secas e castanhas. Que fazem o milho crescer
trinta centímetros e permitem uma segunda colheita de feno. Uma chuva que dura vários dias.
Havia no ar um frescor que persistiu durante todo o caminho até casa. A minha mãe conduzia com
os limpa-para-brisas a funcionar, o som mais reconfortante para um rapaz a dormitar no banco de
trás. O meu pai mantinha-se alerta ao lado da minha mãe, tapado com uma manta. De tempos a
tempos, eu abria os olhos só para os observar. Ele levava o braço esticado para o banco dela, a mão
pousada na sua perna, acima do joelho. Ocasionalmente, ela tirava a mão do volante e colocava-a
em cima da dele.
Durante aquela viagem de paz, tão semelhante às minhas primeiras memórias de viagens com os
meus pais, ocorreu-me o que tinha de fazer. Deitado sob a minha colcha velha e suave, veio-me um
pensamento à cabeça. Afastei-o. O pensamento regressou. Por três vezes o afastei, de cada uma
delas com maior afinco. Cantarolei para mim mesmo. Tentei conversar, mas a minha mãe levou o
indicador aos lábios e apontou para o meu pai, que adormecera. O pensamento voltou de novo,
mais insistente e, desta feita, deixei-o entrar e examinei-o. Refleti sobre esta ideia do princípio ao
fim. Distanciei-me do meu pensamento. Observei-me a pensar.
A reflexão chegou ao fim.
Quando chegámos a casa, Clemence tinha feito chili. Puffy entregara todas as compras que
fizéramos no supermercado. Tudo o que precisávamos estava guardado nos armários e no
frigorífico. Vi o meu pacote de batatas fritas de imediato, em cima da bancada.

267

Pensei nas latas de tomate que usara como armas. Clemence provavelmente abrira-as e adicionara-
as ao chili. Desde o sucedido no supermercado não houvera dia em que não tivesse desejado ter
rachado o crânio a Lark. Imaginava-me a matá-lo uma e outra vez. Visto que não o fizera, iria falar
com o padre Travis na manhã seguinte. Decidira juntar-me à sua aula de catecismo aos sábados de
manhã. Acreditava que ele me deixaria fazê-lo. Esperava também que, tornando-me útil na igreja
depois da catequese, ele talvez reparasse que a chuva expulsara os cães-da-pradaria dos seus túneis
e que entretanto eles engordavam com a erva nova. Era preciso tomar medidas em relação a isso.
Esperava que o padre Travis me ensinasse a disparar sobre os cães-da-pradaria, para ganhar alguma
prática.
No que dizia respeito ao catolicismo, não iria propriamente começar do zero. Desde o seu início
que houvera padres e freiras na reserva. Mesmo os índios mais tradicionais, os que em segredo
haviam mantido vivas as antigas cerimónias, tinham aprendido o catolicismo à força de pancada
nos colégios internos ou travaram amizade com alguns dos padres mais interessantes, como
sucedera com Mooshum durante um tempo, ou então tinham decidido precaver-se, acrescentando
os santos ao seu amor pelo cachimbo sagrado. Toda a gente tinha familiares que eram católicos
fervorosos ou pelo menos praticantes. Eu, por exemplo, fora pressionado vezes sem conta por
Clemence, que convencera a minha mãe (nem se dera ao trabalho de gastar o seu latim com o meu
pai) a batizar-me e envidara todos os esforços para que eu fizesse a primeira comunhão e o crisma.
Sabia no que me estava a meter. O Esquadrão de Defesa de Deus não fora doutrinal, mas as minhas
aulas iriam estar repletas de listas. Confissão: i. Sacramental; ii. Anual; iii. Sacrílega; iv. Legal.
Graça: i. Atual; ii. Batismal; iii. Eficaz; iv. Enobrecedora; v. Habitual; vi. Iluminadora; vii.
Imputada; viii. Interior; ix. Irresistível; x. Natural; xi. Preveniente; xii. Sacramental; xiii.
Santíficadora; xiv. Suficiente; xv. Substancial; xvi. As refeições; xvii. Havia ainda o Pecado Atual,
Formal, Habitual, Material, Moral, Original e Venial. E entre eles encontravam-se tipos especiais de
pecados: contra o Espírito Santo, por omissão, o pecado alheio, o pecado do silêncio e o pecado de
Sodoma. Havia pecados que clamavam ao céu por vingança.

268

Nas listas existiam, é claro, definições de cada uma destas categorias. O padre Travis catequizava
como se o Concílio Vaticano II nunca tivesse ocorrido. Num lugar tão distante, ninguém o
fiscalizava. Dizia a missa em latim se assim lhe apetecesse, e no inverno anterior afastara o altar da
congregação durante vários meses e conduzira os Mistérios com uns floreados mágicos, segundo
Angus. No que dizia respeito ao ensino do catecismo, o padre Travis ora acrescentava temas, ora os
ignorava. No sábado de manhã, conduziu-me à cave da igreja e mandou que me sentasse na
cafetaria. Obedeci, tentando não olhar para o tapete ou pensar em Cappy. Bugger Pourier,
endireitando-se de novo após anos de uma vida desregrada, era o único aluno para além de mim na
obscura sala. Era um homem escanzelado e infeliz, com o nariz polposo e arroxeado de um
inveterado consumidor de bebidas alcoólicas. As irmãs tinham-lhe vestido roupa lavada, mas ainda
assim emanava um odor bafiento, como se tivesse dormido num sítio húmido. Dei uma vista de
olhos aos folhetos e escutei o padre Travis falar sobre cada elemento da Santíssima Trindade.
Depois de a aula ter terminado e de Bugger se ter ido embora, perguntei ao padre Travis se podia
dar-me aulas particulares durante o resto da semana.
Tens algum objetivo em mente?
Queria ser crismado antes do final do verão.
O bispo visita-nos uma vez por ano, na primavera, e toda a gente faz o crisma nessa altura. O padre
Travis observou-me. Porquê tanta pressa?
Seria uma ajuda.
Uma ajuda?
Seria uma ajuda em casa, talvez, se eu pudesse rezar.
Podes rezar sem ter feito o crisma. Entregou-me um panfleto. Para além disso, continuou ele, podes
rezar falando simplesmente com Deus. Podes usar as tuas próprias palavras, Joe. Não precisas de
ser crismado para rezar.
Padre, queria perguntar-lhe uma coisa.
Ficou à espera.

269

Há muito tempo, escutei uma expressão que me ficou gravada na memória. O que são pecados que
clamam ao céu por vingança?, indaguei O padre inclinou a cabeça para o lado. Dir-se-ia que
escutava um som que eu não conseguia captar. Depois, folheou o catecismo e apontou com o dedo
para a definição. Os pecados que clamavam ao céu por vingança eram o homicídio, a sodomia,
defraudar um trabalhador e oprimir os pobres.
Acreditava saber o que era a sodomia e supus que incluía a violação. Assim, os meus pensamentos
estavam a coberto da doutrina da igreja, facto que acabara por descobrir logo no primeiro dia.
Obrigado, disse para o padre Travis. Volto na segunda-feira.
Ele assentiu com a cabeça. O seu olhar era pensativo.
Sim, com certeza.
No domingo assisti à missa com Angus, e na segunda-feira de manhã fui para a igreja logo a seguir
ao pequeno-almoço. Chovia de novo e eu comera uma tigela enorme de papas de aveia feitas pela
minha mãe. Sentira o seu peso na bicicleta, e sentia-o também entretanto no estômago. A minha
vontade era ir deitar-me mais um pouco; provavelmente, era essa a vontade do padre Travis
também. Estava pálido e talvez não tivesse dormido bem. Ainda não se barbeara. As suas olheiras
eram azuladas e o hálito tresandava a café. O balcão da cafetaria estava carregado de comida
encaixotada e os caixotes do lixo transbordavam.
Houve algum velório?, perguntei.
A mãe do senhor Pourier faleceu. O que significa que talvez não voltemos a vê-lo. O objetivo dele
era reconciliar-se com a igreja enquanto ela ainda era viva. A propósito, tenho um livro para ti.
Estendeu-me uma edição cambada, velha e de capa mole de Duna. Muito bem. Começamos com a
Eucaristia? Vi-te na missa com o Angus. Compreendeste o que aconteceu?
Decorara o panfleto, por isso respondi que sim.
Podes explicar-me?
Houve uma partilha do alimento das nossas almas, gerador de graça. Muito bem. Mais alguma
coisa?
O corpo e o sangue de Cristo estão presentes no vinho e nas bolachas?

270

Nas hóstias, sim. E que mais?


Enquanto dava voltas à cabeça, a chuva parou. Irrompendo pelas nuvens, o sol incidiu no vidro
empoeirado das janelas da cave, iluminando as partículas de pó no ar. A cave inundou-se de faixas
oblíquas de luz cintilante.
Alimento espiritual?
Certo. O padre Travis sorriu para os tremeluzentes feixes de luz que nos rodeavam e ascendiam até
às janelas.
Uma vez que somos só nós os dois, que dizes de fazermos a aula ao ar livre?
Segui o padre Travis pelas escadas acima, através da porta e ao longo do caminho que atravessava
os pinheiros gotejantes. O carreiro descrevia uma volta atrás do ginásio e da escola, descia pelas
fileiras de árvores e desembocava na estrada onde decorrera a parte mais emocionante da fuga e
perseguição protagonizadas por Cappy e pelo padre Travis. Enquanto caminhávamos, ele disse-me
que, para me preparar para a Eucaristia, em que me tornaria parte do Corpo Místico de Cristo, teria
de me purificar por meio do sacramento da confissão.
Para te purificares, tens de te compreender, prosseguiu o padre. Tudo o que existe no mundo
também existe em ti. O bem, o mal, a perfeição, a morte, tudo. Por isso examinamos a nossa alma.
Está bem, respondi num tom pouco convicto. Olhe, padre! Um cão-da-pradaria!
Sim. Parou e olhou para mim. Como vai a tua alma?
Olhei rapidamente em redor, como se a minha alma fosse aparecer para eu a examinar; mas só ali
estava o padre Travis com o seu rosto plano e demasiado bem-parecido, os olhos claros e solenes
brilhando de uma forma estranha, os lábios como que esculpidos.
Não sei, respondi. Gostava de disparar sobre uns cães-da-pradaria.
O padre retomou a marcha e, de tempos a tempos, olhava para mim, sem dizer nada. Por fim,
quando virámos em direção às árvores, ele disse:
O mal.
O quê?
Temos de abordar o problema do mal para compreendermos a tua alma, ou qualquer outra alma
humana.

271

Existem vários tipos de mal, sabias? Existe o mal material, ou seja, aquele que provoca sofrimento
sem estar relacionado com os humanos, mas que os afeta gravemente, como a doença e a pobreza
as catástrofes naturais. Não podemos fazer nada em relação a eles Temos de aceitar que a sua
existência é um mistério para nós. O mal de índole moral é diferente. É provocado pelo ser
humano. Urna pessoa faz qualquer coisa a outra de forma deliberada, com o intuito de lhe causar
dor e tormento. Isso é um mal moral. Tu vieste até aqui, Joe, para examinar a tua alma na esperança
de te aproximares de Deus, porque Deus é infinitamente bom, todo-poderoso, todo-misericordioso,
tudo cura e por aí adiante. Fez uma pausa. Certo, concordei eu.
Então, interrogar-te-ás por que razão um ser com esta imensidão e este poder permite semelhante
atrocidade: que um ser humano cause dano diretamente a outro seu semelhante.
Senti uma dor dentro de mim, lancinante. Continuei a andar, de cabeça baixa.
A única resposta a isto, e não é uma resposta completa, disse o padre Travis, é que Deus deu
liberdade ao homem, deu-lhe livre-arbítrio. Podemos escolher o bem sobre o mal, mas também o
oposto. Com o objetivo de proteger a nossa liberdade, Deus não costuma interferir, pelo menos com
grande frequência. Deus não pode fazê-lo sem nos privar da nossa liberdade moral. Entendes? Não,
mas okay.
A única coisa que Deus pode fazer, e faz a toda a hora, é mostrar o bem que existe em qualquer
situação má. Gelei.
E fá-lo, afirmou o padre Travis, elevando um pouco a voz, em todas as circunstâncias, Joe. Em cada
caso de quebrar o coração. Sabes que, enquanto padre desta paróquia, já sepultei crianças e famílias
inteiras mortas em acidentes de viação, jovens que fizeram escolhas terríveis e até pessoas que
tiveram a sorte de morrer velhas. Sim, já vi suceder aquilo de que falo. De cada coisa má que
sucede resulta o bem.

272

As pessoas envolvidas nestas circunstâncias decidem praticar ainda mais o bem, demonstram um
amor invulgar, tornam-se mais fortes na sua devoção a Jesus ou ao santo da sua preferência, ou
estreitam de uma forma insólita os laços com a sua família. Já vi isto suceder em pessoas que
seguem os seus próprios costumes, os vossos ritos tradicionais, e nunca vêm à missa exceto por
ocasião de um funeral. Admiro-as. Vêm aos velórios. Ainda que sejam tão pobres que nada têm,
dão o último do seu nada a outro ser humano. Nunca somos tão pobres que não possamos abençoar
outro ser humano, não é? É por isso que cada mal, seja ele moral ou material, resulta no bem. Vais
ver.
Detive-me. Olhei para o campo, não para o padre Travis. Passei o livro que ele me dera para a outra
mão. A minha vontade era arremessá-lo. Os cães-da-pradaria apareciam e desapareciam nos seus
buracos, emitindo alegres chiados.
Adorava disparar sobre uns cães-da-pradaria, disse com os dentes cerrados.
Não iremos fazê-lo, Joe, respondeu o padre Travis.
A velha e poeirenta povoação da nossa reserva reluzia de lavada em pleno verão quando eu ia a
descer a colina, ao passar pelo bairro do BIA, subindo a estrada que conduzia à torre da água e me
dirigia às terras dos Lafoufnais. Havia três lotes que confinavam uns com os outros e, se bem que
tivessem sido divididos muitas vezes, nunca saíram das mãos da família. As casas estavam ligadas
por troços de estradas e trilhos, mas a de Doe era a principal, em estilo casa de rancho, e a que
ficava mais perto da estrada, e lá estava Cappy, encostado à balaustrada do terraço com a camisa
aberta e um conjunto de pesos livres no chão, a seus pés.
Travei e recostei-me no encosto do assento.
Alguma miúda te veio ver levantar ferro?
Não apareceu ninguém, disse Cappy. Ninguém que merecesse esta visão.
Fingiu que rasgava a camisa e esmurrou o peito liso. Estava mais animado que na semana anterior.
Recebera duas cartas de Zélia.
Toma. Obrigou-me a subir ao terraço e a levantar os seus pesos durante um tempo. Devias pedir ao
teu pai que te comprasse uns pesos. Podias exercitar-te no teu quarto até estares apresentável.

273

Apresentável como tu achas que estás.


Tens cerveja?
Tenho melhor do que isso, respondeu Cappy. Enfiou a mão no bolso das calças de ganga e tirou um
saco de sanduíche enrolado com todo o cuidado em torno de uma ganza. Ena, irmão de sangue!
Eu partilhar contigo, kemo sabe, disse Cappy. Decidimos fumá-la num sítio panorâmico. Se
percorrêssemos uma pequena cumeeira arborizada que existia ao fundo da rua de Cappy,
alcançaríamos um ponto mais elevado a partir do qual podíamos avistar o campo de golfe perto sem
sermos vistos. Não era a primeira vez que observávamos os esforçados jogadores, brancos e índios,
meneando as ancas, lançando olhares astutos e executando swings, bons ou desastrosos. Tudo o que
faziam tinha graça, desde inchar o peito a arremessar os tacos contra a relva. Observávamos sempre
o arco descrito pela bola, para o caso de os jogadores não a conseguirem encontrar. Ainda tínhamos
o balde cheio de bolas de golfe. Cappy colocou um frybread, duas maçãs e uma lata de cerveja num
saco de plástico e atou-lhe as asas ao guiador. Partimos e, chegados ao desvio, levámos as bicicletas
à mão até aos arbustos. Subimos então a encosta e caminhámos ao longo do cume até à atalaia, o
nosso ponto de vigia.
O solo estava quase seco. A chuva fora sugada pelas folhas porosas e pela terra sedenta. As carraças
quase que tinham desaparecido. Encostámo-nos a um carvalho que dava uma sombra perfeita.
Segurei a ganza durante demasiado tempo. Não açambarques, disse Cappy.
Perdera-me nos meus pensamentos. A erva era áspera e bafienta. Bebemos a cerveja. Um pequeno
grupo de homens pançudos com chapéus brancos e camisas amarelas, uma espécie de equipa,
surgiu no nosso campo de visão, e desatámos a rir de cada movimento que faziam; porém, eram
bons golfistas e não perdiam nenhuma bola. Depois de eles passarem, seguiu-se um momento de
tranquilidade. Fumámos a ganza e juntámos os pedaços carbonizados à comida. Cappy virou-se
para mim. Tinha o cabelo bastante comprido e afastou-o da cara com uma sacudidela de cabeça
muito peculiar. Angus e Zack também já tentavam sacudir o cabelo dos olhos como ele, mas não
eram muito bem-sucedidos nas suas imitações.

274

Era um gesto que com toda a certeza levaria as miúdas à loucura.


Porque é que foste à missa e à aula de catecismo daquele filho da mãe?
As notícias correm depressa, comentei.
Sim, disse Cappy, podes crer. Voltou à carga: Porquê?, perguntou de novo.
Não dirias que um puto cuja mãe sofreu o que sofreu, e a essência do mal dás as caras...
A essência do mal... Ah, sim, aquele ser de alcatrão que matou a Yar. Portanto, o Lark.
Dá a cara sem qualquer motivo. A essência do mal aparece na merda do supermercado e o pai do
puto tem um ataque cardíaco ao tentar matar o outro. Não te parece que um puto que testemunhou
tudo isto necessita de ajuda espiritual?
Cappy olhou-me de cima a baixo.
Não.
Pois. Matutei no assunto por um momento contemplando o relvado do campo.
Não, voltou ele a dizer. Há mais qualquer coisa.
Okay, cedi. Queria aprender a disparar. Achei que ele me deixaria ajudá-lo a matar os cães-da-
pradaria, mas ele limitou-se a dar-me um livro.
Cappy deu uma gargalhada.
Parvalhão!
Pois. Imitei o padre Travis a falar: Não iremos jazê-lo, Joe. Do mal emergirá sempre o bem. Vais
ver.
Vais ver? Ele disse isso?
Disse.
Filho da mãe. Se isso fosse verdade, todas as coisas boas teriam início em coisas más. Se querias
aprender a disparar, podias ter ido ter com o teu tio, opinou Cappy.
Não me apetece olhar para o Whitey.
Nesse caso, devias ter vindo falar comigo. Quando quiseres. Quando quiseres, meu irmão. Desde os
dois anos que vou à caça. Matei o meu primeiro veado quando tinha nove anos.

275

Eu sei. Mas não se tratava apenas de matar cães-da-pradaria. Tu sabes disso.


Talvez. Talvez saiba.
Tu sabes a que me refiro. Sabes do que estou a falar.
Sei. Creio que sim. Cappy anuiu com a cabeça, observando um novo grupo de golfistas, desta vez
índios, cuja roupa não condizia.
Então, se sabes, também saberás que não vou implicar mais ninguém.
Implicar. Palavra finória de advogado.
Queres que te explique o que quer dizer?
Vai-te foder. Sou o teu melhor amigo. Sou o teu número um.
Eu também sou o teu número um. Ou o faço sozinho, ou não o farei.
Cappy voltou a rir. Levou a mão ao bolso traseiro das calças, de repente, e tirou um maço de
cigarros amarfanhado pertencente ao seu irmão.
Merda, já me tinha esquecido deles.
Estavam amachucados, mas, ainda assim, não se tinham partido. Reparei que os fósforos faziam
publicidade à bomba de gasolina de Whitey.
Agora tem fósforos, comentei.
São do meu irmão. Eu nunca lá vou. O Randall disse que ele está a pensar abrir um novo negócio,
que vai alugar filmes. Mas, regressando ao assunto.
Que assunto?
Não preciso de saber. Levamos a espingarda do meu pai e praticamos, Joe, porque tu não acertarias
nem num elefante. Talvez não.
E depois, como ficarias se o elefante se enfurecesse e te passasse por cima? Bem fodido, era como
ficarias. Não posso deixar que isso te aconteça.
Mas a espingarda dele. Não posso usar a espingarda dele.
Só para praticar. Depois a arma do Doe é roubada quando ninguém estiver em casa. Quando a casa
estiver vazia. Escondemos a espingarda, a munição. Seja como for, também não estamos aqui para
rir dos velhadas, pois não?

276
Não.
Estamos a fazer um reconhecimento.
Para o caso de ele aparecer. Sei que o gajo joga golfe, ou pelo menos costumava. Foi a Linda que
me disse.
Toda a gente sabe que o Lark joga golfe, o que é bom. Qualquer pessoa pode acertar sem querer
num golfista quando anda à caça de veados.
Regressámos a casa de Cappy e voltámos a sair rumo ao local onde ele começara a praticar tiro
quando tinha cinco anos.
O meu pai ensinou-me com uma arma de calibre .22, contou Cappy. Nem se sente o coice. Comecei
com cães-da-pradaria ou esquilos. Depois, da primeira vez que fomos caçar veados, passou-me a
espingarda dele, de calibre .30-06, para as mãos. Eu disse-lhe que receava o coice, mas ele
assegurou-me que não era maior do que com uma .22. «Prometo, filho. Dispara com calma.» E
assim matei o meu primeiro veado, com um só tiro. Sabes porquê?
Porque és um imperador?
Não, meu filho, porque não senti o coice. Não estava preocupado com o coice. Disparei com
suavidade. Por vezes aprendemos numa .30-06 e encolhemo-nos quando apertamos o gatilho,
porque antecipamos o coice. Oxalá pudesse ensinar-te numa .22 como o meu pai fez comigo, mas
tu já estás desgraçado.
Sentia-me, de facto, desgraçado. Sabia que me encolheria, que não premiria o gatilho com
suavidade, que me atrapalharia com a culatra, que o mais provável era que a encravasse, sabia que
teria poucas hipóteses de acertar num alvo.
Numa vedação de estacas dispusemos umas latas, sobre as quais disparámos, e pusemos mais umas
quantas e voltámos a disparar. Cappy acertou habilmente na primeira, ensinando-me como devia
fazer, mas eu não atingi nem uma das restantes. Era sem dúvida o único rapaz em toda a reserva
que não sabia disparar. O meu pai não se preocupara em ensinar-me, mas Whitey tentara. Eu não
tinha jeito nenhum para aquilo. Não tinha pontaria.
Ainda bem que não és um índio do antigamente. Terias morrido à fome, disse Cappy.

277

Talvez devesses fechar um olho. É o que estou a fazer. O outro olho. Os dois olhos?
Sim, talvez te saísses melhor.
Numa dezena de latas, acertei em três. Treinei até gastarmos grande parte da dispendiosa munição,
um problema que Cappy salientou. Não podíamos deixar que ninguém soubesse que andava a
praticar tiro. E ele não podia pedir munição a Doe sem explicar porque a queria. Decidimos
também que era melhor eu praticar quando não houvesse ninguém em casa. Inclusive, Cappy
achava que devíamos encontrar um local mais remoto para o fazermos. Podíamos avançar mais
dois terrenos de pastagem e ficaríamos fora do alcance da vista de toda a gente, se bem que não
fora do alcance do ouvido. Temos é de arranjar dinheiro e ir a Hoopdance, de boleia ou assim.
Vamos ao armazém de ferragens e eu compro munição. Não, objetei, eu é que vou.
Digladiámos argumentos até serem horas de eu ir embora. Tinha um horário rígido. A minha mãe
dissera-me que mandaria a polícia atrás de mim se eu não estivesse em casa às seis. A polícia?
Apenas uma maneira de falar, dissera ela. Talvez o tio Edward. Não irias querê-lo à tua procura,
pois não?
Não, não queria que o tio Edward andasse à minha procura no seu carro enorme, conduzindo
lentamente, descendo o vidro e questionando toda a gente que encontrasse pela rua. Assim, fui para
casa. Tinha o dinheiro que Sonja me deixara. Cem dólares escondidos no roupeiro, na pasta
etiquetada «TPC». Pensar em Sonja era como carregar numa nódoa negra. Pedalando de regresso a
casa, elaborei um plano para convencer a minha mãe a levar-me a Hoopdance. Ainda achava que eu
andava na catequese. Talvez viesse a precisar de velas. Ou de sapatos de fato para ser acólito.
Os sapatos foram uma bela ideia. No dia seguinte, depois do trabalho, levou-me à sapataria e
comprou-me os sapatos de fato, algo que me causou remorsos por serem um desperdício de
dinheiro. Sob um pretexto fortuito, entrei no armazém de ferragens e artigos desportivos e ela ficou
no carro à minha espera enquanto eu comprava quarenta dólares de munição para a espingarda de
Doe.

278

O funcionário não me conhecia e examinou a dispendiosa conta ao pormenor. Observei as tintas, as


bolas de basquetebol e basebol, a secção de golfe, os baldes de pregos e os rolos de arame, a secção
de utensílios para conservas, as pás e os ancinhos, as serras elétricas, e reparei que também
vendiam jerricãs. Tal e qual como o que eu encontrara no lago.
Acho que está tudo bem, disse o funcionário, entregando-me o troco.
Ao sair da loja, disse à minha mãe que comprara uma surpresa para o meu pai, a quem os médicos
tinham aconselhado a levar as coisas com calma. Para além da munição, comprara isco para percas,
o peixe que mais gostávamos de pescar. Ia colecionando uma mentira atrás de outra, e saíam-me
com toda a naturalidade, como outrora acontecera com a verdade. Na viagem rumo a casa, dei-me
conta de que as minhas falsidades não tinham a menor importância, uma vez que estava empenhado
num objetivo que, na minha cabeça, apelidara não de vingança, mas de justiça.
Pecados que clamam ao céu por justiça.
Devo ter murmurado isto em voz alta. Seguia numa espécie de transe, os olhos fixos na estrada,
imaginando o quanto teria de praticar.
Que disseste?
A minha mãe mantivera aquela determinação. Tinha uma atitude protetora em relação ao meu pai, o
que lhe concedia uma autoridade decidida, mas para além disso havia o que me dissera em Fargo,
ao pousar o hambúrguer. Serei eu quem o fará parar. Não, não serás, pensei. Todavia, ela
demonstrava uma grande agudeza, como se durante o tempo em que permanecera entorpecida,
fechada no quarto, tivesse estado na realidade a treinar. Depois, em Fargo, tínhamos falado sobre o
meu pai e sobre as coisas que os médicos haviam dito. Juntos ponderáramos factos e questões.
Tratara-me com uma pessoa mais velha do que eu, e continuara a fazê-lo.

279

Apercebia-se de demasiadas coisas, não tinha a mesma paciência para comigo. Parara de me fazer
as vontades. Nunca se ria das coisas que eu fazia. Dir-se-ia que esperara que eu tivesse crescido
durante aquelas sem nas e deixasse de precisar dela. Se pretendia que eu agisse sozinho por
instinto, era isso precisamente o que estava a fazer; mas ainda necessitava dela. Precisara que ela
me levasse a Hoopdance. Não precisava dela de uma forma que entretanto perdera para sempre
Naquele dia, no caminho de regresso de Hoopdance, depois de ter murmurado aquela expressão
acerca dos pecados que clamam ao céu, perguntei-lhe, de forma direta, o que o meu pai não se
atrevia a perguntar-lhe. Era uma atitude infantil, mas também adulta.
Mãe, comecei, porque é que não foste capaz de mentir? Porque não disseste que a fronha tinha
caído? Que tropeçaste em qualquer coisa, levantaste a mão, tiraste o saco e viste o chão? Que sabias
onde acontecera? Não importaria o local, desde que o tivesses nomeado.
Ela ficou calada durante tanto tempo que achei que não iria responder. Não senti da parte dela
qualquer raiva, surpresa ou embaraço, apenas um momento de concentração.
Quem me dera saber porque não fui capaz de mentir, disse ela por fim. Na semana passada, no
hospital, sentada à cabeceira do teu pai a olhar para ele, dei por mim a desejar ter mentido logo
desde o início. «Oxalá tivesse mentido, Joe!» Mas eu não sabia onde tinha acontecido. E o teu pai
sabia que eu não sabia. E tu também. Disse-o aos dois. Como poderia alterar a minha história
depois? Cometer perjúrio? E não te esqueças de que eu também sabia que não sabia onde tudo se
passou. Que aconteceria com a imagem que tenho de mim mesma? No entanto, se tivesse percebido
aquilo que adviria do facto de não saber, tudo o que aconteceria, ele ter sido posto em liberdade e
ter tido a desfaçatez de aparecer na reserva, teria mentido. Fico contente por saber. Ela olhou em
frente.
Era óbvio que não queria falar mais sobre o assunto. Olhei para a estrada que se precipitava na
nossa direção, pensando: «Se tivesses mentido, se tivesses mudado a tua versão dos
acontecimentos, que importaria. És a minha mãe. Eu amar-te-ia à mesma. O pai também. Mentiste
para salvar a Mayla e o seu bebé. Fizeste-o sem problemas.»

280

Se Linden Lark tivesse ido a tribunal, eu não teria de mentir acerca da munição nem me punha a
praticar tiro para fazer o que alguém tinha de fazer. E depressa, antes que a minha mãe decidisse
qual era a sua versão de jazê-lo parar. Não havia mais ninguém que o pudesse fazer, percebia isso.
Só tinha treze anos e, se fosse apanhado, só estaria sujeito às leis penais relativas a menores, já para
não falar de que era claro que existiam circunstâncias atenuantes. O meu advogado poderia realçar
as minhas boas notas e socorrer-se da reputação de bom rapaz que eu aparentemente desenvolvera.
Porém, não era que eu o quisesse fazer, ou achasse tão-pouco que seria capaz de fazê-lo. Era um
péssimo atirador e sabia-o. Era provável que não melhorasse grande coisa. Para além de tudo, havia
ainda a realidade da coisa. Por isso, não me permitia ter plena consciência dela por completo em
momento algum. Apenas a contemplava peça a peça, como se de um quebra-cabeças se tratasse.
Voltámos a ficar em silêncio. Ao fim de um tempo, vislumbrei mais uma nova peça: teria de ir falar
com Linda Wishkob. Tinha de descobrir se o seu irmão ainda jogava golfe e se mantinha algum tipo
de horário. Tinha de arranjar umas bananas maduras e manchadas ou comprar umas quantas ainda
firmes e esperar que apodrecessem estrategicamente.
Três dias de prática de tiro mais tarde, apareci na estação dos correios com um saco de bananas que
supervisionara com todo o cuidado no meu quarto. Estavam moles e com manchas, mas não pretas.
Linda fitou-me por cima da balança com os seus olhos arregalados e cintilantes. E aquele
insuportável sorriso de cachorro. Comprei seis selos para Cappy e dei-lhe o saco das bananas. Ela
pegou no saco com as suas mãozinhas sapudas e, quando o abriu, o seu rosto iluminou-se como se
lhe tivesse dado uma coisa preciosa. É a tua mãe que as manda? Não, respondi, sou eu. Ela corou
de prazer e surpresa.
São perfeitas, disse ela. Farei um pão assim que chegar a casa e levo-to amanhã, depois de sair do
trabalho.
Fui-me embora. Com o erro que cometera com o padre Travis aprendera que uma simpatia
inusitada por parte de uma rapaz da minha idade desperta suspeitas imediatas. Teria de manter o
meu rumo

281

Até ao momento certo. Teria de ter mais do que ter mais do que uma conversa, talvez várias, antes
de me atrever a colocar uma pergunta ou duas sobre irmão de Linda. Assim, assegurei-me de que
estava em casa no dia seguinte por volta das cinco horas, quando Linda entrou com o carro pelo
caminho de acesso à garagem. Espreitei pela janela e disse para o meu pai:
Vem aí a Linda. Aposto contigo em como traz pão de banana. Ganhas tu, respondeu ele sem
levantar a cabeça. Bebericava água enquanto lia o Fargo Fórum do dia anterior. A minha mãe
desceu as escadas. Vestia umas calças pretas e uma T-shirt cor-de-rosa. O cabelo, com algum
volume, exibia uma tonalidade preta e brilhante. Colocara uns brincos de missangas pretas e rosa e
vinha descalça. Reparei que pintara as unhas dos pés de cor-de-rosa. No rosto tinha vestígios de
uma leve maquilhagem, que conferia um certo dramatismo às suas feições. E senti o aroma da sua
loção de limão quando passou por mim. Aproximei-me. Coloquei-me atrás dela quando abriu a
porta e aceitou o familiar tijolo de alumínio. Arranjara-se para o meu pai. Não era tão parvo que
não tivesse chegado a essa conclusão. Pusera-se bonita para o animar. Linda entrou, sentou-se na
sala de estar e o meu pai pousou o jornal.
Joe, aqui tens mais um pão. Tirou outro tijolo do saco. Não me agradeceu pelas bananas à frente
dos meus pais, o que me surpreendeu. A maior parte dos adultos acha que tudo o que um jovem faz
deve ser do conhecimento geral. Gabam-se do gesto mais insignificante de um rapaz. Estava
preparado para desvalorizar a minha oferenda de bananas, mas Linda não me colocou nessa
posição. Em lugar disso, começou a falar sobre o tempo com o meu pai. Tal como haviam feito
anteriormente, lançaram-se no seu tema de conversa preferido, sempiterno e repleto de lugares-
comuns. Como seria de esperar, a minha mãe dirigiu-se à cozinha para fazer um chá e fatiar o pão
de banana. Decidi experimentar um estratagema diferente e sentei-me no sofá em frente a eles.
Mais cedo ou mais tarde, acabariam por dizer qualquer coisa importante. Ou então o meu pai
abandonaria a sala e eu poderia abordar o tema do golfe. Falavam da chuva: da precipitação
registada em vários condados e nas probabilidades de virmos a ter granizo.

282

Comentavam as saraivadas que já tinham visto e os vários tipos de estragos que podiam provocar,
quando bocejei, me recostei e fechei os olhos. Fingi que tombara num sono profundo, impermeável,
estremecendo uma vez e depois respirando com regularidade, crente de que os convencera. Deixei-
me relaxar por completo. Eles falavam de granizo do tamanho de bolas de golfe, redondas como
ervilhas, granizo que atravessava telhados como um projétil de uma espingarda de ar comprimido.
O sofá era largo, as almofadas confortáveis. Acordei uma hora mais tarde. Sentada na beira do sofá,
a minha mãe chamava-me suavemente, dando-me palmadinhas na canela da perna. Como por vezes
sucede quando acordamos de um sono inesperado, não sabia ao certo onde estava. Mantive os olhos
fechados. A voz da minha mãe e a sensação, que retinha da infância, da mão dela acariciando-me o
tornozelo, que era sempre como me acordava, inundou-me de paz. Permiti que a minha consciência
se esgueirasse para um esconderijo ainda mais remoto da minha infância, onde nada poderia
atingir-me.
Quando por fim despertei, a casa estava silenciosa e às escuras. Pearl arfava a dormir, enroscada no
tapete oval entrançado da sala. Alguém me tapara com uma manta de croché. Durante o sono,
acabara por fazê-la cair e acordara com frio. Não jantara e estava com fome, por isso, embrulhei-me
na manta e desloquei-me até à cozinha. Pearl levantou-se e seguiu-me. Um prato coberto com papel
de alumínio brilhava em cima da mesa. A Lua estava de novo cheia e uma energia pálida dava vida
à cozinha. Uma vez que já tenho uma certa idade, compreendo o que me aconteceu naquela noite, e
porque sucedeu naquele momento. Durante o sono, baixara a guarda. Os pensamentos que
protegiam os meus pensamentos tinham-se desvanecido. Fiquei com os meus verdadeiros
pensamentos, com o conhecimento do que planeara. Com esses pensamentos veio o medo. Nunca
antes sentira medo à séria, por mim. Pela minha mãe e pelo meu pai, sim, mas esse medo fora
partilhado e imediato, não secreto; e os meus piores receios, relacionados com a perda, não se
haviam concretizado. Embora danificados, os meus pais dormiam no piso de cima, no mesmo
quarto, na mesma cama. Compreendia que a paz deles era temporária. Lark voltaria a aparecer.

283

A não ser que Mayla fosse encontrada morta ou aparecesse com vida e apresentasse queixa contra
ele por rapto, Lark era livre de fazer o que quisesse e ir para onde lhe apetecesse.
Eu tinha de fazer o que tinha de fazer. Aquele ato apresentava-se perante mim. Sob a sinistra luz,
fui invadido por uma sensação de pavor tão esmagadora que os meus olhos encheram-se de
lágrimas e um som estrangulado, um soluço talvez ou uma pontada, irrompeu do meu peito. Cruzei
os punhos fechados sob a manta e apertei-os contra o coração. Não queria deixar escapar aquele
som. Não queria dar voz àquele tumulto de sensações. Contudo, encontrava-me despido e
impotente perante o seu poder. Não tinha escolha. Abafei os sons que saíam de mim para que só eu
conseguisse escutá-los, grosseiros e estranhos. Deitei-me no chão, permiti que o medo tomasse
conta de mim e esforcei-me por continuar a respirar enquanto me sacudia como um cão abana uma
ratazana.
Permaneci sob este feitiço durante perto de meia hora, e depois passou. Não soubera se passaria ou
não. Retesara o corpo com tanta força que relaxar os músculos provocava dor. Estava todo dorido
quando me levantei do chão, assemelhando-me a um idoso com dores nas articulações. Arrastei-me
lentamente escadas acima até ao meu quarto. Pearl ficara comigo o tempo todo. Deitara-se ao meu
lado. Mantive-a comigo no quarto. Tombando num sono ainda mais sombrio, compreendi que
aprendera uma coisa: sabia entretanto o que era o medo, mas sabia também que não era
permanente. Por mais poderoso que fosse, o seu domínio sobre mim abrandaria. Passaria.
Não podia usar o ardil das bananas uma segunda vez, portanto, decidi simular um encontro casual
com Linda por volta do meio-dia. Sabia que, na maior parte dos dias, ela levava o almoço para o
trabalho, mas uma vez por semana dava-se a uma extravagância e ia ao Mighty's comer o que todas
as mulheres costumavam pedir: sopa e salada. Controlava a montra todos os dias ou então entrava e
pedia um refrigerante de uva. Ao terceiro dia vi Linda aproximar-se do café com a sua maneira de
andar pesadona. Acenou a Bugger, sentado na estreita faixa de relva descolorada entre os dois
edifícios.

284

Parou e deu-lhe um cigarro. Era uma surpresa para mim que ela fumasse, mas mais tarde fiquei a
saber que costumava andar com um maço na mala só para poder dar um cigarro a quem lho
cravava. Estacionei a bicicleta de onde a pudesse ver de dentro do café e entrei a seguir a ela. É
claro que ela conhecia e falava com toda a gente. Só reparou em mim quando se sentou. Fiz de
conta que apenas reparara nela naquele instante. Os olhos de Linda esbugalharam-se de felicidade.
Joe!
Aproximei-me da mesa dela e fiquei de pé a olhar em redor, como se procurasse os meus amigos,
até que ela me perguntou se tinha fome.
Mais ou menos.
Então, senta-te.
Pediu um cesto de camarões. Depois, sem me perguntar, mais outro. Era o que havia de mais caro
no menu. E um café para ela e um copo de leite para mim, porque eu estava a crescer mesmo à
frente dos seus olhos. Encolhi os ombros. Fiz de conta que me sentia encurralado ali.
Não te preocupes, disse Linda. Quando os teus amigos chegarem, podes ir sentar-te com eles. Eu
não me importo.
Ora essa, argumentei. Não era minha intenção... Seja como for, obrigado. Só tinha o suficiente para
um refrigerante. Costuma pedir sempre o cesto de camarões?
Nunca! Linda piscou-me o olho. É uma extravagância. E um dia especial, Joe. É o meu aniversário.
Dei-lhe os parabéns. Ocorreu-me que era também o dia de anos do seu irmão gémeo. Será que
podia abordar o assunto? Recordei-me então de um pormenor acerca da história do nascimento
dela.
Mas não era inverno quando vocês os dois nasceram?
Era, sim, tens uma boa memória. Só nasci fisicamente nesse dia. Da forma como a minha vida
decorreu, renasci várias outras vezes. De entre esses importantes pontos de viragem, escolhi uma
data como sendo a do meu aniversário.
Assenti com a cabeça. Snow Goodchild trouxe as nossas bebidas. Conseguia escutar o crepitar dos
nossos camarões e das batatas fritas. De repente, senti-me esfomeado.

285

Fiquei satisfeito por Linda de conversar com ela e que ela sempre adorara os meus pais e esta
inclusive a tentar ajudá-los. A espécie de picadas que sentia na garganta desapareceu. O momento
certo para fazer perguntas chegar' Bebi um trago de leite frio e depois um sorvo de água fresca do
copo de plástico estriado.
Que dia escolheu? Aquele em que a Betty a levou para casa? Não, respondeu Linda, escolhi o dia
em que a assistente social me levou de regresso a casa pela segunda vez. Estava assinalado no
calendário da Betty. Ela só anotava no calendário dela as coisas mais importantes. Soube assim que
ela me amava, Joe.
Foi uma boa ideia, comentei. Depois fiquei sem saber que mais dizer. Estávamos a ter uma
conversa de adultos, e eu não tinha muita experiência nesse campo. Senti-me bloqueado. Presumi
que Linda me iria perguntar como estavam a correr as férias de verão ou se estava desejoso de
voltar à escola, como os adultos faziam quando não me perguntavam como estava o meu pai.
Nunca ninguém me perguntava pela minha mãe com as letras todas. Ao invés disso, faziam um
qualquer comentário, do tipo, vi a tua mãe quando ia para o trabalho ou vi a tua mãe na bomba de
gasolina. O conselho tribal notificara Lark de que estava proibido de entrar na reserva, mas, na
verdade, não havia forma de fazer cumprir a notificação. Não teria melhor resultado do que a
persuasão. Quando as pessoas diziam que tinham visto a minha mãe, isso significava que olhavam
por ela. Achei que talvez Linda fizesse um comentário desse género, mas ela surpreendeu-me.
Escuta, Joe, tenho de te dizer uma coisa. Lamento ter salvado a vida ao meu irmão. Desejava que
estivesse morto. Pronto, já o disse.
Fiz uma pequena pausa e respondi: Eu também.
Linda fez que sim com a cabeça e olhou para as mãos. Os seus olhos arregalaram-se de novo.
Ele diz que vai ficar rico, Joe. Diz que nunca mais terá de trabalhar. Tem a certeza de que agora terá
dinheiro no banco e diz que vai arranjar a casa da mãe e viver aqui para sempre.

286

A sério? Fiquei tonto ao pensar em Sonja.


Deixou-me tudo isto gravado no atendedor de chamadas. Dizia que uma mulher lhe ia dar o
dinheiro em troca de qualquer coisa, e soltou uma gargalhada.
Não, não dará, disse. A minha cabeça clareou e vi a garrafa partida na mesa de cabeceira de Sonja.
Vi a expressão no seu rosto quando lançou ao chão o saco com as coisas da época em que era Red
Sonja. Lark não lhe deitaria a mão.
Isto são coisas de adulto, disse Linda. Provavelmente, não fazem qualquer sentido para ti. Para mim
também não.
Os nossos cestos de camarões chegaram e Linda tentou pôr um pouco de ketchup. Sacudiu o frasco
com ambas as mãos, como uma criança. Tirei-lho e dei uma pequena palmada no fundo do frasco,
como o meu pai fazia, deixando cair uma pequena porção de ketchup. Oh, nunca consigo fazer isso,
disse Linda.
É assim que se faz. Pus um pedaço de ketchup no meu prato. Linda anuiu com a cabeça e
experimentou a técnica.
Estamos sempre a aprender, comentou ela, e começámos a comer, empilhando as pequenas caudas
dos camarões, cor-de-rosa e aparentemente plastificadas, ao lado do cesto.
O que ela dissera acerca do irmão estava tão carregado de uma complexidade adulta, de tal maneira
que fiquei desorientado. Não fora daquela forma que tencionara mencionar Linden Lark. Não sabia
se conseguia digerir mais informações, portanto, para contrariar os efeitos da sua honestidade,
abordei o tema que me pareceu mais seguro.
Uau, está calor.
No entanto, ela não mordeu o meu isco e não discutiu o tempo comigo. Com um aceno de cabeça
concordou, fechou os olhos e disse «hum!», ao mesmo tempo que desfrutava do seu camarão de
aniversário.
Vai com calma, Linda, ordenou a si mesma. Riu e levou o guardanapo aos lábios.
«Tenho de fazer isto», pensei.
Okay, disse. Entendo o que quer dizer em relação ao seu irmão. Claro. Agora ele acha que vai ser
um filho da mãe rico. Estava apenas aqui a pensar, se me sabe dizer quando é que ele joga golfe?

287

Se é que joga? Ainda...


Ela manteve o guardanapo colado aos lábios e pestanejou para mim por cima do papel branco.
Bom, preciso de saber porque...
Atafulhei a boca de batatas fritas e comecei a mastigar e a pensar a toda a velocidade.
... porque, e se o meu pai lhe apetecer jogar golfe ou assim? Estava a pensar que seria bom para ele
jogar golfe. Não podemos correr o risco de nos cruzarmos lá também com o Lark.
Oh, meu Deus, exclamou Linda. Fez uma expressão de pânico. Nunca tinha pensado nisso, Joe.
Não sei com que frequência ele o faz, mas sim, o Linden joga golfe e gosta de ir bem cedo, assim
que o campo abre as portas, às sete da manhã. É que ele não dorme, ou mal dorme. Não que eu
conheça os hábitos dele. Devia falar com o teu... Não! Porquê?
Estávamos os dois estacados, olhando fixamente um para o outro por cima da comida. Peguei em
dois camarões e comi cada um deles com a testa franzida, descascando-lhes as caudas e comendo-
as também.
É uma coisa que eu queria fazer sozinho. Uma coisa entre pai e filho. Uma surpresa. O tio Edward
tem tacos de golfe. Tenho a certeza de que nos deixará usá-los. Iremos até lá, ao campo. Só eu e o
meu pai. É uma coisa que eu quero fazer. Okay? Oh, claro. Isso é muito bonito da tua parte, Joe.
Aliviado, comi tão depressa que terminei o meu cesto todo e ainda comi algumas das batatas fritas
de Linda e o resto da sua salada antes de tomar consciência de que tinha tudo o que necessitava: a
informação e uma garantia de sigilo, o que me concedeu ao mesmo tempo uma sensação de
desafogo e o regresso daquele pânico vertiginoso.
Bugger passou do lado de fora da montra. Ia montado na minha bicicleta.

288

Tenho de ir, disse para Linda. Obrigada, mas o Bugger está a roubar-me a bicicleta.
Corri para a rua e alcancei Bugger, que ia apenas a meio do parque de estacionamento. Avançava
lentamente e aos esses, e não desmontou da bicicleta, limitando-se a olhar para mim com o seu olho
vesgo. Caminhei a seu lado. Na verdade, nem me importava de andar, uma vez que não me sentia
muito bem. Comera muito e demasiado depressa, talvez de estômago nervoso como o meu pai por
vezes dizia que lhe acontecia. Para além disso, aqueles camarões congelados, afinal de contas,
tinham viajado uns milhares de quilómetros desde onde foram apanhados até ao meu prato. Vira-me
obrigado a tapar a pilha de caudas com o guardanapo enquanto Linda esperava pela conta.
Caminhar parecia-me então melhor do que sujeitar-me aos solavancos numa bicicleta. Também
queria afastar-me das pessoas, para o caso de ter de vomitar.
A medida que caminhava ao lado de Bugger sob o quente sol, comecei a sentir-me melhor, e ao fim
de menos de dois quilómetros já me sentia bem. Bugger parecia não ter um destino que fizesse
qualquer sentido para mim.
Já me pode devolver a bicicleta? Primeiro tenho de ir a um sítio, disse ele. Onde?
Preciso de ver se foi apenas um sonho. O que é que foi apenas um sonho? Se o que vi foi apenas
um sonho. Tenho de ver. O que quer que tenha sido, foi um sonho, assegurei. A bicicleta é minha.
Pode dar-ma de volta?
Bugger estava a afastar-se demasiado da povoação, seguindo na direção oposta à da casa de Cappy.
Temia que ele guinasse para a frente de algum carro. Assim, convenci-o a dar meia volta, gabando a
avó Ignatia e as suas generosas pratadas de comida.
É verdade. Um homem fica cheio de fome de tanto pedalar, disse Bugger.
Chegámos ao lar de idosos e ele largou a bicicleta à minha frente. Afastou-se a cambalear como um
homem controlado por uma força magnética. Montei na bicicleta e pedalei até casa de Cappy.

289

Tínhamos combinado ir praticar tiro, mas Randall saíra do trabalho mais cedo e estava a arranjar o
seu bustle (Nota 41) à mesa da cozinha. As compridas e elegantes penas de águia, cuidadosamente
abertas, espalhavam-se desde o círculo onde estavam presas. Randall tratava de uma pena solta
Tinha um magnífico trajo tradicional de powwow, que herdara, em grande medida, do pai, embora
as tias lhe tivessem enfeitado os aventais e as braçadeiras de veludo com missangas. Quando vestia
o trajo completo, era uma visão magnífica. Todo o tipo de coisas comuns e invulgares formavam o
seu trajo de gala. Duas gigantescas penas da cauda de uma águia-real encimavam o seu penacho.
Estabilizadas por porções de antena de automóvel, as penas balançavam com a ajuda de molas de
esferográfica. As ligas de uma cinta velha de uma das tias foram forradas com pele de veado e
adornadas com guizos para fazerem as vezes de tornozeleiras. Randall tinha também um bastão de
dança que supostamente pertencera a um guerreiro dakota, embora, na realidade, tivesse sido feito
na aula de trabalhos manuais no colégio interno. Fosse qual fosse a origem dos componentes do
trajo de Randall, estavam todos adaptados a ele, cada pena fixada no seu lugar e fortalecida com
lascas de madeira talhadas e cola Elmer's, as solas dos mocassins reforçadas uma e outra vez com
pele por curtir. Randall ganhava prémios em dinheiro, de quando em quando, mas dançava porque
o pai também dançara, e ainda porque os saltitantes adornos captavam a atenção das raparigas.
Preparava-se para o nosso powwow anual de verão, que seria no fim de semana seguinte. Como de
costume, Doe iria estar atrás do microfone, no lugar de mestre de cerimónias, a fazer piadas e a
assegurar-se de que as coisas, como ele dizia, corriam pelo melhor.
'Bora, vamos apanhar avôs para a tenda de sudação do Randall, disse Cappy. Oferendávamos
sempre tabaco a essas pedras antigas. Por isso se apelidavam de avôs. Não era tarefa que nos
agradasse muito, ir recolher pedras. Gostávamos mais de ser guardiões do fogo, mas Randall
prometera que se Cappy conseguisse fazer pegar o seu velho carro encarnado, poderia conduzi-lo.

Nota 41 - Arranjo de penas, tradicionalmente circular, usado nas costas pelos dançarinos de
powwow. O estilo do dançarino dita o número e o tipo (os mais modernos são em forma de U) de
bustle usado. (N. da T.)

290

Havia um sítio afundado e pedregoso nas terras deles, que se enchia de água na primavera e que
tinha o tipo certo de pedra, se escavássemos com os pés para as retirar. Randall necessitava de um
número específico de pedras de acordo com o tipo de sudação que iria fazer. Arrastámos connosco
um velho tobogã de plástico para recolher as pedras. Encontrá-las era um processo moroso. Tinha
de ser um género especial de rocha, que não se rachasse com facilidade ou explodisse quando
estivesse incandescente e fosse salpicada com água no centro da cabana. Também tinham de ter um
determinado tamanho, para que, quando as passássemos a Randall com a pá, ele as conseguisse
segurar com os chifres de veado. Encontrar vinte e oito avôs era trabalho para ocupar uma tarde
inteira, e muitas vezes, em especial se Randall tivesse pressa, recorríamos aos montes de pedras nos
campos fora da reserva e carregávamos a carrinha de Doe. Porém, daquela vez precisávamos de
estar sozinhos.
Contei a Cappy o que Linda me dissera acerca de o irmão jogar golfe de manhã.
Cappy pontapeou a erva e dobrou-se para deslocar uma pedra cinzenta e arredondada.
Nesse caso, tens de te despachar, disse Cappy, antes que o tipo mude de hábitos. Devias levar a
espingarda do meu pai quando estivermos no powwow.
Só de pensar em roubar a Doe senti um enorme desânimo e uma grande angústia. Os camarões
começaram de novo às voltas no meu estômago; mas Cappy tinha razão.
Tens de forçar a entrada entre as oito e as dez da noite de sábado, sugeriu Cappy. Há sempre a
hipótese remota de o meu pai ou o Randall precisarem de ir a casa buscar qualquer coisa depois do
arrear das bandeiras, mas de certeza que o Randall vai estar por lá a noite toda a bater com os
cascos no chão. Ou a curtir com as miúdas. E é claro que o meu pai não vai poder largar o
microfone. Portanto, tu entra sem problema, mas é melhor mesmo forçares a entrada, Joe. Deixa
tudo desarrumado. Tens de abrir com um pé de cabra o armário onde estão as armas. Já estive a
pensar nisso. Rouba uma coisa ou outra, ou faz de conta que querias roubar. O televisor, por
exemplo.
Eu não consigo carregar com ele!.

291

Arranca-o simplesmente da tomada, derruba a tralha que estiver em cima dele. Rouba o leitor de
cassetes do Randall! Não, espera ele vai levá-lo com ele. Leva antes a caixa das ferramentas boas,
mas deixa-as espalhadas pelo alpendre, como se tivesses fugido ao ouvir um carro a passar.
Okay.
Quanto à arma, certifica-te de que não te enganas na espingarda. Eu mostro-te qual é. Está bem.
E leva uns sacos de plástico pretos para a embrulhares, pois tens de a esconder.
Não posso levá-la para casa, disse. Terei de a esconder noutro sítio.
Na atalaia, sugeriu Cappy. Nos arbustos por trás do carvalho.
Depois de termos empilhado os avôs junto à fogueira, passámos o resto da tarde a marcar o trilho
que eu utilizaria e a escolher um esconderijo que eu fosse capaz de encontrar às escuras. A Lua iria
estar em quarto minguante, mas é claro poderia haver nuvens. Queríamos assegurar-nos de que
conseguia fazer tudo sem o recurso a uma lanterna. Para além disso, depois ainda teria de chegar ao
powwow, a cinco quilómetros de distância, atravessando campos e percorrendo trilhos sem usar a
bicicleta para que ninguém me visse. Nos últimos dois anos acampara com a família de Cappy: as
tias numa autocaravana, os homens numa tenda. Uma fogueira. Randall saltitando de tipi em tipi,
sorrateiramente. De manhã, acordávamos com ele ao nosso lado, podre de bêbado e com um leve
odor a perfume de rapariga. Os meus pais já contariam que eu voltasse a ir naquele ano, e mesmo
que se opusessem, esgueirar-me-ia de qualquer maneira. Tinha de ser.
Aqueles camarões, ou qualquer outra coisa que comera, andaram às voltas no meu estômago toda a
semana. Ficava maldisposto de cada vez que olhava para comida e tonto quando olhava para a
minha mãe ou para o meu pai, por isso não olhava para ninguém e mal comia. Dormia
principalmente. Adormecia como se estivesse tomado comprimidos, e de manhã não conseguia
levantar-me da cama. Uma vez, ao acordar, peguei no livro que o padre Travis me dera.
292

Duna era um livro de bolso grosso com três silhuetas negras a caminharem no deserto sob uma
rocha gigantesca. Abri-o ao calhas e li qualquer coisa acerca de um rapaz com um formidável
sentido de missão e determinação. Arremessei o livro para a outra ponta do quarto e deixei-o lá.
Muitos meses depois dessa manhã, peguei no livro e li-o, uma e outra vez. Foi o único livro que li
durante um ano inteiro. A minha mãe disse que eu devia estar a crescer. Ouvi-a dizê-lo. Ou então
escutei-a às escondidas. Escutar atrás de portas tornara-se entretanto um hábito. Tal comportamento
derivava da minha necessidade de saber que não tinha alternativa, que tinha de fazer aquilo. Se
Lark se mudasse, partisse de súbito ou fosse envenenado como um cão, ou preso por algum motivo,
eu estaria livre. Não obstante, não confiava que, caso alguma destas coisas sucedesse, os meus pais
me contassem, por isso tinha de esconder-me atrás de portas ou agachar-me debaixo de janelas
abertas e prestar atenção, nunca ouvindo o que queria. O fim de semana do powwow chegou por
fim.
Os meus pais tinham decidido deixar-me acampar com os rapazes do Doe, como costumavam dizer,
e portanto segui com eles na parte de trás da carrinha de caixa aberta, sentado em cima do meu
saco-cama. No bolso levava cinco dólares para comida. Randall conduzia tão depressa pela estrada
de gravilha que os nossos dentes matraqueavam e por pouco não saímos disparados pelas traseiras
da pickup, mas chegámos a tempo de montar acampamento no sítio do costume. A família de
Cappy estacionava sempre a autocaravana na extremidade sul do recinto circular reservado para o
acampamento durante o powwow, mesmo junto aos campos por ceifar. Naquela altura do ano, o
feno costumava já estar pronto para ser cortado outra vez. Na orla do campo vi o feno ondular
suavemente por uma pequena colina acima, fazendo um risco ora para um lado, ora para outro,
como o cabelo de uma mulher. A família gostava de acampar ali para assim ficar afastada do que
Suzette e Josey apelidavam de «agitação». As irmãs de Doe eram robustas e bem-dispostas.
Dançavam com o trajo tradicional, e quando se vestiam na pequena autocaravana, esta balançava
com os seus pesados movimentos e os ataques de riso. Os maridos não dançavam, mas ajudavam na
organização e na segurança do powwow.

293

A primeira coisa que fizemos ao chegar foi tirar as cadeiras de jardim, de tiras de plástico
entrelaçado, da caixa da pickup. Decidirão onde íamos acender a fogueira e colocámos as cadeiras
em redor da cova. Era importante ter um lugar para receber as visitas e oferecer-lhes chá ou Kool-
Aid, servido de uma das gigantescas garrafas-termos que Suzette e Josey haviam abastecido com
antecedência. Também tinham geleiras, uma cheia de sanduíches, pickles, recipientes de feijão
guisado e salada de batata, frybread, gelatina, maçãs e barras de queijo, daquele que o Governo
distribuía. A outra geleira carregava salsichas e coelho frito. Pouco tempo depois, os filhos casados
de Suzette e Josey começaram a chegar nos seus carros velhos e baixos. Quando as portas se
abriam, os netos pulavam lá de dentro como bolas saltitonas. Juntavam-se com outras crianças de
acampamentos vizinhos e deslocavam-se pelo recinto num torvelinho de cabelos desgrenhados,
pernas a correr e braços a agitarem-se. De vez em quando, escutava-se um anúncio pelo altifalante:
eram apenas testes de som. Só ao meio-dia é que Doe pegava no microfone. Deu as boas-vindas
várias vezes e fez lembrar aos dançarinos que a Entrada de Honra era à uma hora.
Calcem os sapatos de dança! A sua voz de apresentador era tão melíflua como xarope de ácer
quente. Adorava dizer: «Oh, misericórdia», bem como: «Ena, pá», «Macacos me mordam» e
«Howahh) Adorava fazer piadas, que eram ao mesmo tempo amistosas e pavorosas.
Ainda ontem um indivíduo branco me perguntou se eu era um índio verdadeiro. «Não», respondi-
lhe, «o Colombo meteu os pés pelas mãos. Os verdadeiros índios estão na índia. Eu sou um
verdadeiro chippewa. Chip quê? Porque é que não tem tranças?» «Estão debaixo do chipéu», disse-
lhe eu. A nossa antiga designação é Anishinaabe, sabia? Eyyyy. Por vezes não se pode dizer uma
coisa a uma verdadeira mulher anishinaabe. Ela manda-nos aquele olhar e temos de lhe dizer tudo.
Eyyyy.
Doe também anunciava o paradeiro crianças que se perdiam. «Cria tresmalhada! Temos aqui um
menino à procura da família. Não se assuste quando vier buscá-lo, mãe, isto não são pinturas de
guerra. E apenas ketchup e mostarda. É que ele tem estado a preparar-se para enfrentar a Quinta
Cavalaria na banca dos cachorros quentes.»

294

Quando apresentava os tambores, enumerava-os acrescentando um epíteto elogioso a cada um


deles: Cauda de Urso, Vento Inimigo, Rio Verde. Os lugares em pé começaram a encher-se e
Suzette e Josey mandaram os maridos ir colocar cadeiras de jardim na orla da arena, no lado sul,
para evitarem o brilho ofuscante do Sol que iria pôr-se num ocaso aparentemente interminável.
Cappy e eu montámos a nossa tenda com o seu toldo quadrado, onde Randall se podia vestir e
aperaltar. Suzette e Josey adoravam ter um dançarino masculino na família e não paravam de
perguntar a Cappy e a mim quando é que íamos começar. Cappy dançara até aos dez anos.
Estou a fazer-te um trajo novo para a Dança da Erva, disse Josey, abanando o dedo para Cappy.
Cappy limitou-se a sorrir para a tia. Nunca dizia não a ninguém. Ele e Randall tinham trazido
pequenas faias, cortadas nas suas terras, e com elas montámos um caramanchão para as tias estarem
à sombra e à fresca. O calor começava a apertar, e os yokes (Nota 42), carregados de missangas,
bem como as peles curtidas, os peitilhos de osso e os xailes de lã, os cintos com enfeites em prata,
todos os ornamentos e as compridas franjas de cabedal deviam pesar uns trinta quilos ou mais.
Suzette e Josey eram corpulentas, mas extraordinariamente fortes, por isso conseguiam deslocar-se
com dignidade sob o peso de tanta tradição, e sem tombar. Por contraste, Randall não tinha nada
vestido que lhe pesasse, estando coberto por tantas penas que Cappy comentou que quase parecia
que esbarrara num bando de águias. Vestia um par de ceroulas vermelhas e uma espécie de avental
ou tanga de couro que pendia pela parte da frente e de trás.
Certifica-te de que o avental está bem posto, disse Cappy. Não vais querer que ninguém veja o que
não tens.
Caluda, pilinha de gato, respondeu ele a Cappy. E tu, nem comeces, meia-leca, disse para mim.
Segurou um espelho e pintou duas faixas negras desde a linha do cabelo até às sobrancelhas,
recomeçando sob as pálpebras inferiores e continuando pelas faces abaixo.

Nota 42 - Parte do trajo feminino (à letra, significa «canga») das dançarinas de powwow, que se
veste pela cabeça e assenta em cima dos ombros, abarcando uma parte do peito e das costas.
Assenta por cima do vestido e é totalmente enfeitado com missangas, dele pendendo tiras de pele
quase até ao chão. [N. da T.)

295

Os olhos de Randall tornaram-se de repente impenetráveis como os de um guerreiro. Lançou-nos


um olhar ameaçador de debaixo do seu penacho de penas ondulantes. Mostra-nos o teu olhar
fulminante, pediu Cappy. Era este, disse Randall. Observem o seu efeito. Foi colocar-se ao sol e
pôs-se a fazer alongamentos ao lado da caravana do vendedor de algodão-doce. Randall afirmava
que as suas ceroulas encarnadas eram tradicionais, mas Cappy e eu achávamos que lhe arruinavam
o visual.
Uma rapariga de top de cabedal afastou-se das amigas. Sorvendo um refrigerante por uma palhinha,
muito delambida, observou Randall fazendo ginástica. Ele assentou o pé no engate da caravana e
inclinou-se com esforço para tocar nos dedos dos pés, como se estivesse a alongar os tendões da
curva do joelho. Fê-lo por duas vezes, e à terceira soltou um boogid. Tentou disfarçar como se nada
tivesse acontecido. A rapariga riu tanto que se engasgou e cuspiu o refrigerante de esguicho.
Aprende com o mestre, disse Cappy. O que quer que o Randall faça, faz o contrário.
A família de Angus chegara entretanto, saindo em peso de um carro, por isso fomos ter com ele, e
depois saímos à procura de Zack. Reunidos os quatro, apeteceu-nos frybread e fomos arranjá-lo.
Estávamos a comê-lo à sombra das barracas quando umas miúdas da escola vieram ter connosco.
Falavam sempre primeiro com Angus, depois com Zack e comigo, e no final centravam-se no seu
verdadeiro alvo, Cappy. As raparigas do nosso ano tinham todas nomes que eram uma qualquer
versão de Shawn. Havia Shawnas, Dawnas, Shawnees, Dawnalis, Shalanas e as que se chamavam
simplesmente Dawn e Shawn. Havia ainda uma chamada Margaret, que herdara o nome da avó,
funcionária dos correios. Acabei à conversa com Margaret. Dawn, Shawn e as restantes traziam os
cabelos penteados para trás e fixados com laca; tinham sombra nos olhos, gloss nos lábios, dois
pares de brincos em cada orelha, calças de ganga justas, T-shirts curtas às riscas e colares cintilantes
cor de prata. Hoje em dia, ainda troço com Margaret por causa do que ela tinha vestido naquele
powwow, pois recordo cada pormenor, até o medalhão que trazia ao pescoço e que continha não a
fotografia do seu namorado, mas do irmão mais novo.

296

O que Cappy fazia para atrair as miúdas era limitar-se a ser quem era. Não lançava olhares
fulminantes como Randall, não usava uma única pena. Vestia, como sempre, uma T-shirt desbotada
e calças de ganga. O cabelo tombava-lhe de forma natural sobre um olho, e ele não se dava ao
trabalho de o prender atrás da orelha, afastando-o com aquela sacudidela de cabeça. Tirando isso,
limitava-se a falar, e cativava-nos a todos. Uma coisa em que reparei é que colocava perguntas às
miúdas quase como um professor o faria. Que tal estavam a correr as férias, como iam as suas
famílias. A conversa deixou-nos à vontade e fomos passeando, contornando a arena por detrás das
bancas, as raparigas sendo observadas, nós reparando nelas a serem observadas. Demos várias
voltas. As miúdas compraram algodão-doce. Arrancavam tiras dele para nos dar. Nós bebemos
refrigerantes e tentámos esmagar as latas com as mãos. O espetáculo começou. Os veteranos
fizeram a sua entrada com a bandeira americana, a bandeira MIA-POW, em honra dos
desaparecidos em combate e dos prisioneiros de guerra, a bandeira da nossa nação tribal e o nosso
Bastão de Penas de Águia tradicional. Seguiram-se os dançarinos principais, e depois os dançarinos
da Entrada de Honra alinharam-se e entraram na arena por categoria, até aos mais pequenos. Fomos
para a última bancada para conseguirmos abarcar tudo: os tambores, a vibrante sincronia dos
guizos, dos chocalhos, das unhas de veado e a música tilintante das dançarinas de jingle (Nota 43).
A Entrada de Honra sempre me cortou a respiração e me deu vontade de seguir o compasso dos
dançarinos. Era uma coisa imponente, contagiosa, desafiadora, alegre. Contudo, naquela noite só
conseguia pensar que tinha de ir buscar a minha mochila e esgueirar-me dali.
Parti em linha reta, seguindo os trilhos da floresta, atravessei um par de pastagens, atalhei por
caminhos secundários. Quando cheguei a casa de Doe, ainda havia luz. O cão do quintal ladrou,
reconhecendo-me. Ei, Fleck, cumprimentei-o, e ele lambeu-me a mão.

Nota 43 - A palavra jingle quer dizer «tinir», «chocalhar». Tanto a dança quanto o trajo a ela
associado têm origem numa lenda e possuem supostos efeitos medicinais ou curativos. As saias das
dançarinas exibem várias filas com centenas de cones metálicos, que, com os movimentos da
dança, chocalham e tinem. (N. da T.)

297
Esperei uma meia hora atrás do barracão, até ao lusco-fusco. Depois aguardei mais um pouco, para
que ficasse bem escuro. Calcei um par de luvas de cabedal da minha mãe, justas, e dirigi-me à porta
das traseiras, levando o pé de cabra que Cappy me deixara.
Quando arrombei a porta, a cadela que estava dentro de casa ladrou, mas pôs-se abanar a cauda
assim que eu entrei e seguiu-me até ao armário das armas. O estilhaçar de vidros assustou-a, mas
latiu de animação quando me viu tirar a espingarda. Achou que íamos à caça. Em vez disso,
coloquei a munição na mochila, desarrumei o móvel do televisor, despejei a caixa das ferramentas e
despedi-me dos cães. Atravessei a estrada e encontrei o trilho que Cappy e eu marcáramos. Tive de
usar a lanterna, mas desliguei-a ao ver um carro chegar ao cimo da encosta pela estrada de gravilha.
Já tínhamos preparado um buraco junto à atalaia. Embrulhei muito bem a espingarda e a munição
nos sacos de lixo e enterrei-as, espalhando folhas e ramos por cima do buraco. A luz da Lua
minguante, pelo menos, o local parecia intacto. Bebi um gole de água e encetei o caminho de
regresso ao recinto do powwow. Voltei a percorrer os mesmos carreiros, contornando os mesmos
charcos, percorrendo os velhos caminhos de terra batida, os trilhos do bosque que algumas pessoas
ainda mantinham desbravados para irem à lenha. Atravessei uma pastagem de cavalos e comecei a
ouvir os tambores, ainda a retumbar, para as cantigas do forty nine (Nota 44) e para os jogos dos
mocassins. Em algumas das barracas, as pessoas ficavam acordadas a noite toda a jogar. Cheguei à
nossa tenda e corri o fecho da aba mosquiteira. Cappy ainda não dormia. Randall não estava. Cappy
perguntou-me como correra. Nas calmas, respondi. Acho que correu bem. Otimo, disse ele.
Deitámo-nos de costas, acordados. Doe já teria ido a casa e descobrira talvez que fora arrombada,
dando pela falta da espingarda. Teria chamado a Polícia Tribal e alertado o BIA. Não tinha forma
de saber que fora eu, mas ainda assim não sabia como iria conseguir olhá-lo na cara.

Nota 44 - A origem do termo forty nine (quarenta e nove) não é clara. Trata-se de uma reunião
informal que acontece no final das atividades do powwow. Os cantores e dançarinos juntam-se para
conviver, partilhar histórias e cantam quarenta e nove cantigas, cujas letras são uma combinação de
inglês e das suas línguas nativas e contêm uma mensagem humorística. (N. da T.)

298

As manhãs eram sempre a melhor altura do dia: acordar com o ar fresco a atravessar as paredes da
tenda, sentir o aroma do café, do frybread, dos ovos e das salsichas. Lá fora, o sol e a alfafa
acabada de cortar para os cavalos. Suzette e Josey faziam os seus planos para aquele dia e
alimentavam os netos em pratos finos de papel, que se dobravam sempre ou desintegravam sob a
carrada de comida.
Ei! Toma. Tu, põe outro prato aí por baixo.
As crianças caminhavam encurvadas até à orla da erva e comiam sentadas no chão. Cada garfada
sabia bem. As irmãs tinham um fogão Coleman e uma botija de gás propano. Fritavam bacon e
depois os pães na gordura que se soltava. Os ovos mexidos que faziam eram leves, fofos, nunca os
deixavam queimar. O pão de forma era torrado na chapa quente. Havia vários frascos de doce
abertos. Sabiam como alimentar rapazes. Algumas horas depois do pequeno-almoço quente, havia o
pequeno-almoço frio: melancia, cereais, frybread frio, manteiga amolecida e carne. As tias de
Cappy tinham uma magnífica cafeteira de esmalte azul pintalgado e outra em aço inoxidável, só
para o chá. As cadeiras de jardim estavam sempre ocupadas por homens a tagarelar, e a
autocaravana começou a encher-se de crianças, até que uma das irmãs colocou um ponto final na
invasão e trancou a porta. Depois do pequeno-almoço frio, Suzette e Josey fizeram pilhas de
sanduíches e esconderam-nas na geleira sob a supervisão das filhas. A seguir retiraram-se para a
caravana, para se prepararem para a Entrada de Honra daquele dia. Nada as perturbava. Nem as
súplicas para usar a casa de banho, nem os gritos de vingança de rapazes à bulha, nem o pânico
fingido das suas filhas. O aroma a glicéria queimada emanava das pequenas janelas mosquiteiras.
Suzette e Josey levavam muito a sério os seus trajos de cerimónia e asseguravam-se de que todos os
olhares malévolos e os pensamentos invejosos das outras mulheres eram purificados dos tecidos e
das missangas por meio do fumo. E os seus próprios pensamentos também, talvez, já que era sabido
que os olhares dos seus maridos vadiavam, embora não houvesse provas disso.

299

O interior da autocaravana, engenhosamente apetrechado de armários e camas desdobráveis, arcas


escondidas e uma minúscula casa de banho, estava sempre bem arrumado e limpo Ao abandonarem
a caravana, uma delas fechou a porta a cadeado e escondeu a chave na bolsa adornada de missangas
ou bainha para faca que pendia do seu cinto. Afastaram-se em uníssono, o seu cabelo comprido,
grisalho apenas nas fontes, entrançado com pele de marta Com grandiosidade e graciosidade,
juntaram-se à torrente de dançarinas. As franjas de pele de veado balançavam com uma precisão
espantosa. Toda a gente gostava de as observar para ver se seriam desorientadas pelo remoinho da
dança intertribal, durante a qual toda a gente podia entrar na arena. Os rapazinhos mais pequenos,
com apenas meio trajo da Dança da Erva, copiavam os movimentos dos mais velhos e chocavam
contra Suzette e Josey. As meninas pequenas, de olhos vidrados, tal era a sua concentração,
pulavam nos seus fatos de jingle, imitando as irmãs, e atravessavam-se no caminho delas. Suzette e
Josey nem titubeavam. Conversavam uma com a outra, riam, mas nunca perdiam o ritmo ou
quebravam o uniforme balançar das franjas das suas mangas, xailes e yokes.
Duas peles para cada trajo, disse Cappy. E, provavelmente, mais uma só em franjas. Se caíssem em
cima uma da outra, ficavam de tal modo enredadas que nunca mais as separávamos.
Venham todos para a arena, senhores espectadores, chamava Doe, é a dança intertribal! Pisem o
chão com o que quer que tiverem nos pés: botas, mocassins, até sandálias de hippie. Como se
chamam? Birkenstock, segundo aqui alguém me diz. Ontem à noite encontrámos uma Birkenstock
à porta da tenda do Randall. Oh, sim. Howah.
Doe estava sempre a meter-se com Randall e os amigos por causa dos seus contínuos esforços para
arranjarem miúdas.
Foda-se, exclamou Randall atrás de nós. Uns filhos da puta quaisquer arrombaram a nossa casa
ontem à noite e roubaram uma das espingardas do pai.
Levaram mais alguma coisa?, perguntou Cappy. Não se virou para olhar para Randall, franzindo,
em vez disso, o sobrolho para a arena.
Não, respondeu Randall. Se encontro aquela espingarda, rebento a cabeça a quem a tiver.
Como é que o pai reagiu?

300

Ficou chateado, disse Randall, encolhendo os ombros, mas não furioso. Diz que acha estranho que
apenas tenham roubado aquela espingarda. Talvez tenham tentado levar o televisor, e deixaram a
caixa das ferramentas para trás, toda espalhada no chão. Amadores. Não consegui encontrar nem
pegadas nem nada. Drogados de merda.
Podes crer, disse Cappy.
Podes crer, disse eu.
E os cães ou não fizeram o que lhes competia, ou conheciam quem arrombou a porta.
Ou alguém lhes deu uns pedaços de carne, opinou Cappy.
Randall emitiu um som de reprovação. Seja como for, não era a espingarda preferida dele. Se
tivessem levado essa, estaria furibundo.
Nesse caso, melhor assim, comentei.
Sentia-me tão abjeto que só me apetecia esgueirar-me para debaixo das bancadas e agachar-me aí
com as beatas dos cigarros, os invólucros dos cones de granizados, as fraldas sujas enroladas e os
escarros castanhos de tabaco de mascar.
A partir de agora, mantemos a casa bem trancada, declarou Cappy
Esta noite vou dormir a casa, afirmou Randall. Durmo no sofá com a minha espingarda até
consertarmos a porta.
Vê lá, não rebentes os tomates, troçou Cappy.
Não te preocupes, destomatado. Se aqueles cabrões regressarem para terminar o trabalhinho, vão-se
arrepender.
É assim mesmo, disse Cappy. Deu uma palmada no ombro do irmão e afastámo-nos dali num passo
descontraído.
Deambulámos várias vezes em redor da arena. Ao fim de um tempo, Cappy deu-me também uma
palmada no ombro.
Fizeste tudo na perfeição.
Ainda assim, odeio-me.
Tens de ultrapassar isso, irmão, aconselhou-me Cappy. O Doe nunca saberá, e mesmo que
soubesse, compreenderia.
Okay, disse depois de um momento, mas quando o fizer... o que resta fazer, fá-lo-ei sozinho.
Cappy suspirou.

301

Escuta, Cappy, argumentei, numa voz rouca, quase a sussurrar. Vou chamar isto pelo nome:
homicídio... em nome da justiça, talvez. Não deixa de ser homicídio. Tive de o dizer um milhar de
vezes para mim mesmo antes de o conseguir dizer em voz alta, mas pronto, já disse. Eu sou capaz
de acabar com ele.
Cappy deteve-se.
Okay, já o disseste, mas a verdadeira questão não é essa. Se alguma vez tivesses acertado em cinco,
não, em três latas de seguida, apenas uma vez, eu diria talvez. Mas Joe...
Eu aproximo-me dele.
Ele assim vai ver-te. Pior ainda, tu irás vê-lo a ele. Tens uma oportunidade, Joe. Eu irei apenas para
te acalmar, para te estabilizar a pontaria. Não serei implicado, Joe.
Está bem, acedi em voz alta.
Nem pensar, disse mentalmente. Decidira não contar a Cappy em que manhã iria à atalaia. Limitar-
me-ia a ir até lá e acabaria com tudo.
As previsões meteorológicas para a primeira parte daquela semana davam céu limpo e calor. Linda
dissera que o irmão ia cedo para o campo de golfe, antes de a maior parte dos jogadores chegar.
Assim, pouco depois de o Sol nascer, esgueirei-me escadas abaixo. Disse aos meus pais que
começara a correr para me treinar para o corta-mato de outono, e é certo que corri. Corri pelos
trilhos do bosque, onde não seria visto. Estava a ficar perito em contornar quintais e usar vedações
para me esconder. Levei um frasco de pickles limpo e cheio de água numa mão e um chocolate no
bolso da camisa. Assegurei--me de que a pedra que Cappy me dera estava no bolso das calças de
ganga. Vestia uma camisa de xadrez castanha por cima de uma T-shirt verde. Fora o melhor que
conseguira em termos de camuflagem. Quando cheguei à atalaia, varri para o lado as folhas e os
galhos que cobriam o buraco. A seguir, sacudi a terra dos sacos de plástico que continham a arma e
coloquei-a de lado também. Tirei a espingarda dos sacos e carreguei-a. Os meus dedos tremiam.
Tentei respirar fundo, várias vezes. Torci as mãos e levei a espingarda até ao carvalho, sentei-me e
segurei nela. Coloquei o frasco a meu lado. E esperei.

302
Avistaria qualquer golfista no quinto tee muito antes de este chegar ao local onde eu planeava
disparar sobre Lark. Então, enquanto ele percorria o fairway por trás de uma fila de jovens
pinheiros, eu desceria a colina com a espingarda e esconder-me-ia atrás de um matagal de arbustos.
A partir daí faria pontaria até que ele estivesse próximo o suficiente. A proximidade de Lark
dependeria de onde bateria a bola, da direção da mesma, de onde se colocasse para a introduzir no
buraco e de outros fatores. Havia muitas variáveis. Tantas que estava ainda a ponderar
possibilidades quando, pela altura do Sol no céu, me dei conta de que estava ali sentado há horas.
Assim que começou o fluxo costumeiro de jogadores, levantei-me e descarreguei a espingarda.
Guardei-a num dos sacos, embrulhei o outro em redor, voltei a enterrá-la e espalhei as folhas e os
galhos por cima do buraco. A caminho de casa, comi o chocolate e enfiei o invólucro no bolso. O
meu estômago parara de andar às voltas. Despachado por aquele dia, sentia-me quase eufórico.
Bebi o que restava da água e carreguei o frasco de vidro na mão sem pensar. Contemplava cada
árvore por que passava e ficava espantado com todos os pormenores. Parei e observei dois cavalos
que pastavam no prado cheio de erva. A sua elegância era inata. Quando cheguei a casa, estava tão
animado que a minha mãe me perguntou que bicho me mordera. Fi-la rir. Comi e comi. Depois subi
ao meu quarto e dormi uma hora, acordando com a mesma sensação de pavor com que despertava
de cada vez que abria os olhos. Teria de voltar a fazer a mesma coisa na manhã seguinte. E foi o
que fiz. Sentado com as costas apoiadas no carvalho, havia momentos em que me esquecia por que
motivo ali estava. Levantava-me para ir embora, crente de que estava doido. Recordava-me então
da minha mãe, aturdida e ensanguentada no banco traseiro do carro. Da minha mão no seu cabelo.
Ou do seu olhar vazio, deitada na cama, como se olhasse o mundo desde o fundo de uma caverna
negra e recôndita. Pensava no meu pai, impotente no chão de linóleo do supermercado. Pensava no
jerricã de gasolina no fundo do lago, na prateleira do armazém de ferragens. Pensava noutras
coisas. E sentia-me preparado. Contudo, ele não apareceu nessa terça-feira. E também não apareceu
na quarta. Para quinta-feira, a previsão era de chuva, por isso achei que seria melhor ficar em casa.

303

Acabei por ir. Chegado à atalaia, executei todos os movimentos que por aquela altura já se tinham
tornado uma rotina. Sentei-me sob o carvalho com a espingarda e com o trinco de segurança
ativado A água a meu lado. Um manto de nuvens baixas cobria o céu e o ar cheirava a chuva.
Estava ali há cerca de uma hora, talvez, à espera de que as nuvens abrissem, quando Lark apareceu
no tee a arrastar os seus tacos num velho carrinho de lona manchada. Desapareceu por trás dos
pinheiros. Segurando a espingarda como Cappy me ensinara desci a encosta. Dissera tantas vezes
para mim mesmo o que devia fazer, que a princípio acreditei que me sairia bem. Encontrei o local
marcado mesmo na orla dos arbustos, onde poderia posicionar-me quase escondido. A partir daí,
podia ver e fazer pontaria a praticamente qualquer lugar onde Lark pudesse estar no green. Com o
polegar, soltei o trinco de segurança. Respirei fundo pela boca e soltei o ar de forma explosiva.
Segurei a arma com suavidade, conforme praticara, e tentei controlar a respiração, porém, cada
inspiração parecia ficar encravada. E lá estava Lark. Tacou a bola a partir de um pequeno
promontório perto dos pinheiros. A bola subiu em arco e aterrou na extremidade do círculo do
green com um ressalto que a fez avançar mais um metro na direção do buraco. Lark desceu o
montículo a passo apressado. O aroma a minerais começou a desprender--se do solo. Coloquei a
espingarda ao ombro e segui-o com o cano. Ele pôs-se de lado, a contemplar a sua bola,
semicerrando os olhos, abrindo-os, semicerrando-os de novo, totalmente absorto. Vestia calças
castanho-claras, sapatos de golfe, um boné cinzento e uma T-shirt castanha de mangas curtas.
Estava tão próximo de mim que conseguia ler o logótipo da sua defunta mercearia: Vinland. A bola
de golfe rebolou pela relva e parou a quinze centímetros do buraco. Imaginei que a faria entrar com
uma pancada leve. Curvar-se-ia para a apanhar e, quando se endireitasse, eu dispararia.
Lark avançou e, antes que tivesse tempo de a meter, disparei fazendo pontaria ao logótipo mesmo
por cima do seu coração. Acertei--lhe noutro sítio, talvez na barriga, e ele caiu ao chão. Seguiu-se
um silêncio estrondoso. Baixei a espingarda. Lark rebolou-se, pôs-se de joelhos e levantou-se,
cambaleando. Recuperou o equilíbrio e gritou. Era um guincho agudo como eu nunca escutara.

304

Voltei a encostar a arma ao ombro e recarreguei. Tremia tanto que apoiei o cano num ramo. Sustive
a respiração e premi de novo o gatilho. Não fazia ideia de onde acertara. Mais uma vez, recarreguei,
fiz pontaria, mas o meu dedo escorregou do gatilho: não conseguia disparar. Lark tombou para a
frente. Seguiu-se outro silêncio. Tinha a cara toda transpirada. Limpei os olhos à manga. Lark
começou de novo a fazer barulho.
Por favor, não, por favor, não. Pareceu-me ouvir estas palavras, mas talvez as tenha dito eu. Lark
tentava levantar-se mais uma vez. Esperneou, girou sobre si mesmo, fincou-se nos joelhos e
ergueu-se meio agachado. Olhou-me nos olhos. A sua negrura fez-me cambalear para trás. A
espingarda foi-me tirada das mãos. Cappy deu um passo e colocou-se a meu lado. Não ouvi o
disparo. Todo o som, todo o movimento tinham ficado suspensos no ar soturno. A minha cabeça
zunia. Cappy pegou nos invólucros vazios em redor dos meus pés e guardou-os nos bolsos das
calças de ganga.
Vamos, disse ele, tocando-me no braço. Virando-me: Anda.
Segui-o colina acima debaixo das primeiras gotas de chuva.

305

<Página em branco>

Capítulo Onze A Criança


Ao chegarmos ao carvalho, virámo-nos para olhar para trás. Lark estava tombado de costas, os
tacos de golfe aguardando ordenadamente no respetivo carrinho, o putter caído a seus pés. Não se
mexera. Ao meu lado, Cappy caiu de joelhos. Inclinou-se para a frente até tocar com a testa no chão
e colocou os braços em redor da cabeça como uma criança num simulacro de tornado. Ao fim de
um momento, levantou a cabeça e sacudiu-a. Embrulhámos a espingarda nos sacos e pusemo-la de
lado enquanto tentávamos voltar a encher o buraco onde estivera escondida. Cappy usou um ramo
para eriçar a erva que eu pisara.
Não está ninguém em minha casa, disse Cappy. Temos de esconder isto. Segurava a espingarda.
Esperámos que um carro que passava se afastasse para atravessarmos a estrada. A chuva caía então
fininha. Quando chegámos a casa de Cappy, fomos direitos à torneira da cozinha. Lavámos as
mãos, molhámos a cara e bebemos um copo de água atrás de outro.
Devia ter pensado num lugar onde escondê-la, recriminei-me. Não sei porque não me ocorreu.
Também não sei porque não pensei nisso, disse Cappy.

307

Pôs-se a remecher na mesa de centro carregada de tralha, até achar um conjunto de chaves. Doe
levara o seu carro para o trabalho e Randall partira na sua pickup, mas Randall também tinha o
velho Oldsmobile vermelho que Cappy tentava pôr a andar. A porta do condutor era preta e o para-
brisas estava rachado. Saímos, guardámos a espingarda na bagageira e metemo-nos no carro.
O motor de arranque não está bom, referiu Cappy.
Gemeu da primeira vez que ele rodou a chave. Acelerou um pouco. Foi-se abaixo.
E preciso apanhá-lo desprevenido, disse Cappy. Enquanto eu tento convencer o carro a pegar, tu vai
pensando onde vamos.
Já sei onde vamos.
Cappy tentou de novo. O carro quase pegou.
Onde vamos?
A casa da Linda. A velha quinta dos Wishkob.
Recostámo-nos nos assentos, contemplando o barracão por entre as duas metades do para-brisas.
Isso não faz muito sentido, comentou Cappy.
De repente, inclinou-se para a frente, rodou a chave com determinação e pisou no acelerador.
Engage (Nota 45), disse ele. O motor rugiu.
Chovia a potes. Cappy abriu a janela do seu lado e meteu a cabeça de fora para ver a estrada
enquanto conduzia. O limpa-para-brisas funcionava no lado do pendura, mas não no do condutor.
Cappy conduzia lenta e ponderadamente, como um idoso. A quinta dos Wishkob ficava na outra
ponta da reserva, nas colinas castanhas semelhantes a dunas onde a erva servia sobretudo para
pasto. Era um sítio agradável, antigo, com canteiros de lilases, uns quantos carvalhos retorcidos e
arbustos inclinados que suportavam os ventos fortes. A caminho de lá passámos talvez por dois
carros, e como a casa de Linda ficava num local isolado, ninguém nos viu tomar o desvio para a
quinta. Cappy estacionou o carro e deixou o motor a trabalhar, pois não sabia se voltaria a pegar.
Saímos e caminhámos em redor da casa para escolher um sítio.

Nota 45 - Outra das expressões por que o capitão Picard ficou conhecido, podendo ser traduzida
como «acionar». (N. da T.)

308

No interior da casa, o velho cão de Linda desatou nuns latidos asmáticos. Acabámos por arrancar
um pedaço do gradeado de madeira pregado à parte inferior do alpendre. Rastejei lá para baixo e
empurrei a espingarda para o mais longe que consegui. Usámos um desmonta pneus para pregar o
pedaço de madeira no seu lugar e depois reparámos que todo o gradeado desaparecera do lado onde
o cão gostava de dormir. Metemo-nos de novo no carro e arrancámos. Não falámos. Cappy parou
para me deixar sair no cimo da minha rua. Na estrada mais acima, que conduzia à povoação, vimos
o carro da Polícia Tribal passar rumo a leste, em direção ao campo de golfe, com as luzes a piscar,
mas sem sirenes.
Está morto de certeza, disse Cappy. Caso contrário, iriam a toda a velocidade. E com as sirenes
ligadas.
Ficámos sentados no carro. A chuva não passava então de uns salpicos.
Salvaste-me o couro, irmão.
Nem por isso. Tu terias acertado naquele...
Cappy não continuou. Não gostamos de falar mal dos mortos, e ele conteve-se.
Teria morrido de qualquer maneira, disse. Não o mataste. Esta morte não pesa sobre os teus
ombros.
Claro. Okay.
Conversávamos sem qualquer emoção. Como se falássemos de outras pessoas. Ou como se o que
fizéramos se tivesse apenas passado na televisão. No entanto, eu estava a ficar sem fala. Cappy
limpou o rosto com a palma da mão.
Não podemos voltar a falar do sucedido depois disto, disse ele.
Afirmativo.
Não é assim que o teu pai diz que as pessoas são apanhadas?
Porque se gabam aos amigos?
Embebedam-se, dão com a língua nos dentes. Apetecia-me embebedar-me, declarou Cappy.
Com o quê?
O motor do carro ameaçou ir abaixo, e Cappy pressionou um pouco o pedal do acelerador.
Não sei. O Randall deixou de beber.

309

Eu podia fazer as pazes com o Whitey, aventei,


A sério? Cappy olhou de relance para mim. Fiz que sim com a cabeça e desviei o olhar. Depois de
deixares o carro em casa... Certo.
Vai ter comigo à bomba de gasolina. Eu vou falar com ele. Saí do carro. Afastei-me, estiquei o
braço e bati com a palma da mão na janela. Cappy arrancou, e eu dirigi-me sem pressas à bomba de
gasolina, passando pela velha escola do BIA e pelo centro comunitário, pelo único sinal de stop da
reserva e pela casa de Clemence e Edward. Atravessei na perpendicular a estrada estadual, desci a
valeta coberta de ervas e subi-a do outro lado. Quando cheguei à bomba, a chuva secara por
completo, salvo em alguns troços de gravilha ou cimento. Whitey estava de pé à porta da oficina a
limpar as mãos a um trapo ensebado. Observou-me por um momento e depois desapareceu na
escuridão. Voltou a aparecer com duas garrafas de refrigerante de uva Crush. Dirigi-me a ele e
peguei numa delas. O recetor de rádio crepitava, emitindo sinais da polícia. Bebi um trago de sumo,
que quase voltou a sair por onde entrou.
Deves ter o estômago revoltado, disse Whitey. Precisas de uma fatia de pão.
Foi buscar-me pão de forma ao frigorífico, e depois de comer uma fatia senti-me melhor. Sentámo-
nos em cadeiras de jardim na sombra que a oficina projetava, onde Sonja e LaRose se tinham
sentado há uma eternidade, dir-se-ia.
Lembra-se de quando eu era pequeno? Costumava dar-me um trago de vez em quando, fiz notar.
A tua mãe detestava que eu o fizesse, disse Whitey. Tens fome? Queres uma sanduíche de carne da
reserva?
Ainda não, respondi. Bebi mais um pouco do sumo de uva.
Desta vez desceu melhor, realçou Whitey.
Observava-me com atenção. Abriu e fechou a boca um par de vezes antes de falar.
Alguém apagou o Lark, disse ele. No campo de golfe. Deixou-o num estado lastimável, como uma
criança a disparar a um fardo de palha. Depois, um tiro certeiro na cabeça.

310

Tentei permanecer sentado, muito quieto, mas não fui capaz. Pus-me de pé de um pulo e corri para
as traseiras da oficina. Cheguei lá mesmo a tempo. Whitey não foi atrás de mim. Estava a atender
um cliente quando eu regressei. Sentia os joelhos trémulos e tive de me sentar.
Vou antes dar-te ginger ale, meu rapaz.
Entrou na loja e voltou com uma lata à temperatura ambiente.
Esta não esteve no frigorífico e irá cair-te melhor no estômago.
Acho que apanhei uma gripe de verão.
Pois, uma gripe de verão, concordou ele. Tem atacado muita gente. Os teus amigos também a
apanharam?
Não sei. Não os vi.
Whitey assentiu com a cabeça e sentou-se a meu lado.
Tenho estado a ouvir as comunicações da polícia. Quem quer que o tenha apagado, não deixou
vestígios, referiu ele. Não há pistas. Ninguém viu nada. E depois choveu a potes. Recuperarás desta
gripe não tarda. Mesmo assim, talvez fosse melhor deitares-te um pouco, Joe. Há um pequeno divã
no escritório. A Sonja costumava dormir lá a sesta, e voltará a fazê-lo. A Sonja vai regressar a casa,
Joe. Já to tinha dito?
Ela telefonou-lhe?, perguntei, odiando-o.
Podes crer que me telefonou. Vai ser diferente a partir de agora, disse ele, vai ser à maneira dela.
Mas eu não me importo. Não quero saber. Penses o que pensares, desviou o olhar do meu, estou
perdidamente apaixonado por aquela rapariga. Compreendes? Ela vai voltar para mim, Joe.
Entrei no escritório e deitei-me no sofá durante uma boa meia hora. Não cheirava a Sonja. Fiquei
satisfeito, pois não teria suportado isso. Quando me levantei e saí, Cappy ainda não aparecera.
Acho que já estou capaz de comer a tal sanduíche, tio.
Whitey dirigiu-se ao frigorífico e tirou o salame, o queijo e o pão. Havia alface iceberg, e ele
arrancou-lhe três folhas verde-pálidas e colocou-as sobre a carne antes de fechar a sanduíche.
Alface?, perguntei, estranhando.
Ando a tentar comer de forma mais saudável.
Estendeu-me a sanduíche e fez outra para ele. Depois deu-ma também.

311

O teu amigo chegou.


Cappy entrou e eu ofereci-lhe a sanduíche. Saímos os três e fomos sentar-nos nas cadeiras de
jardim. Tio, comecei, sabia-nos bem uma coisita.
Whitey comeu a sua sanduíche toda. Não me admira, disse ele depois de engolir a última dentada.
Mas se contarem à Geraldine ou ao Doe, é o meu triste traseiro flácido e vermelho que as pagará.
Para além do que comprometerão qualquer abastecimento futuro. E têm de o beber lá atrás, nas
traseiras da bomba, ali à sombra daquelas árvores, onde eu vos possa manter debaixo de olho.
Acataremos as suas condições, respondeu Cappy num tom formal. O seu rosto era impassível.
Tomem conta do negócio, pediu Whitey. Não havia ninguém à vista. Foi ao escritório abrir o cofre
onde guardava a bebida. Trouxe uma garrafa de Four Roses e apontou com ela na direção das
árvores. Cappy pegou na garrafa e escondeu-a debaixo da camisa. Apareceu um cliente. Whitey
acenou e dirigiu-se ao carro. Ele sabe?
Parece-me que sim, respondi. Vomitei quando me contou do Lark.
Eu vomitei enquanto vinha para aqui, disse Cappy.
É só a gripe de verão, fiz notar.
Isso é uma opinião médica, Joe?
Olhámos um para o outro e tentámos sorrir, mas, em vez disso, caiu-nos o queixo. Os nossos rostos
adotaram as suas verdadeiras expressões.
Que somos nós?, inquiriu Cappy. Que somos nós agora?
Não sei, meu. Não sei.
Vamos esterilizar as nossas entranhas.
Vamos a isso.
Por baixo das árvores havia quatro ou cinco blocos de cimento, um monte de latas amolgadas, um
círculo de cinza. Sentámo-nos nos blocos e abrimos a garrafa. Cappy deu um gole prudente e
passou-me a garrafa. Enchi a boca com aquele líquido ardente e deixei que me escorresse aos
poucos pela garganta abaixo. O ardor foi-se desvanecendo à medida que o líquido se espalhava
dentro de mim, relaxando-me o peito com um agradável calor, tranquilizando-me as tripas.

312
Ao fim do segundo trago já me sentia melhor. Tudo tinha um tom âmbar. Respirei fundo pela
primeira vez.
Oh, disse, pendendo a cabeça e passando de novo a garrafa a Cappy. Oh, oh, oh.
Sim?, perguntou Cappy.
Oh.
Cappy bebeu um trago maior. Peguei num ramo e varri os pedaços de madeira carbonizada e de
gravilha negra para longe da cinza, destruindo o círculo. Cappy observou os movimentos do ramo,
e eu continuei a movê-lo até termos terminado a garrafa. A seguir, deitámo-nos na erva.
Irmão, que te fez ir à atalaia?, perguntei.
Estive lá sempre, respondeu Cappy. Todas as manhãs. Estive lá sempre para te proteger.
Logo vi, disse. E deixámo-nos dormir.
Depois de acordarmos, Whitey fez-nos enxaguar a boca, bochechar com elixir e comer outra
sanduíche.
Dá-me a tua camisa, Joe, ordenou ele. Deixa-a aqui. Toca na garrafa de novo.
Tu também, Cappy.
Dei-lhe a camisa e regressei a casa. Cappy seguiu na bicicleta a meu lado. Não nos sentíamos
particularmente embriagados. Não sentíamos nada. Todavia, seguíamos aos ziguezagues pela
estrada, incapazes de avançar em linha reta. Ocorreu-nos que Angus e Zack andariam à nossa
procura.
A partir de agora, devíamos andar os quatro sempre juntos, o tempo todo, disse Cappy.
Continuaremos a treinar para o corta-mato, de manhã.
Isso mesmo.
Pearl saiu de debaixo do seu arbusto e acompanhou-me até casa. Antes de entrar, brinquei com ela e
fiz-me rir a mim mesmo. Levei-a para dentro comigo, pois receava que os meus pais estivessem
sentados à mesa da cozinha, à minha espera, como de facto estavam. Quando abri a porta e me
deparei com eles, inclinei-me e afaguei o pescoço de Pearl ao mesmo tempo que falava com ela.
Endireitei-me para os cumprimentar e desfiz o sorriso que tinha na cara.

313

Que foi?, perguntei.


O uísque de Whitey fizera entretanto o seu efeito, separando-me de quem era quando, por exemplo,
arrancara aquelas arvorezinhas das fundações da casa, quando chorara à porta do quarto da minha
mãe, quando vira o anjo, o meu doodem, atravessar as paredes cobertas de sol do meu quarto.
Ajoelhei-me com o braço em redor do pescoço de Pearl e ignorei o olhar fixo e interminável dos
meus pais. Mantive-me afastado deles para que não sentissem o meu cheiro, mas reparei que a
minha mãe olhou de relance para o meu pai.
Onde estiveste?, perguntou ela.
A correr.
A manhã toda?
Também estive na bomba do Whitey.
Pressenti um ligeiro alívio em ambos.
A fazer o quê?
Só por lá. O Whitey deu-nos almoço. A mim e ao Cappy.
Queriam tanto acreditar em mim que percebi que fariam qualquer esforço nesse sentido. Só tinha de
ser coerente. Não quebrar. Não vomitar.
Senta-te, filho, pediu o meu pai. Embora tenha dado um passo em frente, não me sentei. Disse-me
que Lark morrera. Permiti que o meu rosto espelhasse todas as minhas emoções. Isso é bom, disse
por fim.
Joe, disse o meu pai, com a mão a segurar o queixo, os olhos cravados em mim, o seu peso
intolerável. Joe, sabes alguma coisa, por mais insignificante que seja, acerca disto? Disto? Disto o
quê? Ele foi assassinado, Joe.
Contudo, eu já tinha usado a palavra. Já me calejara. Usara-a com Cappy e comigo mesmo, na
minha cabeça. Preparara-me para aquela questão e para responder a ela da forma que o antigo Joe,
que existiu antes daquele verão, teria respondido. Falei de uma maneira infantil, num súbito
frenesim de emoção, que nada tinha de fingido.
Morto? Eu queria que ele morresse, okay? Mentalmente. Se estás a dizer-me que foi assassinado,
então fico contente. Mereceu-o.

314

A mãe agora está livre. Tu estás livre. O tipo que o matou devia receber uma medalha.
Pronto, disse o meu pai. Já chega. Empurrou a cadeira para trás. A minha mãe não tirou os olhos da
minha cara. Estava decidida a acreditar em qualquer coisa que eu dissesse. De repente, porém,
estremeceu da cabeça aos pés. Uma pequena onda atravessou todo o seu corpo, chegando até mim.
Ela vê o assassino que há dentro de mim, pensei.
Estonteado, inclinei-me para Pearl, mas ela fora para junto da perna do meu pai. Endireitei-me.
Não mentirei. Estou satisfeito que ele esteja morto. Já posso ir?
Passei por eles e continuei até chegar às escadas. Subi os degraus cuidadosamente. Enquanto subia,
arrastado pela fadiga como se de uma corda se tratasse, sentia os olhos deles em mim. Recordei-me
de uma cena igual àquela ocorrida numa outra ocasião, em que o observador era eu. Ia a meio
caminho do quarto quando me lembrei da minha mãe a subir as escadas em direção àquele lugar de
solidão do qual receámos que nunca viesse a descer.
Não, pensei, ao mesmo tempo que me enfiava na cama, tenho o Cappy e os outros. Fiz o que tinha
de fazer. Não há como voltar atrás. Aconteça o que acontecer, eu aguento.
Estava em baixo. Doente de verdade, com a gripe de verão, tal como fizera de conta. Whitey
ajudou-nos. Quando, primeiro Vince Madwesin, depois outro agente da Polícia Tribal e por fim o
agente especial Bjerke o pressionaram, Whitey contou que fôramos ao seu esconderijo da bebida e
que bebêramos até cair nas traseiras da bomba de gasolina. Mostrou-lhes o nosso refúgio junto das
árvores, a garrafa cheia de impressões digitais e a minha camisa. A minha mãe identificou-a como a
que lavara para eu vestir naquele dia. Eu estava com uma febre que me fazia alternar entre suores e
calafrios e tinha os lençóis ensopados. Enquanto estive doente, observei a luz dourada atravessar as
paredes do quarto. Não sentia nada, mas os meus pensamentos precipitavam-se freneticamente.
Não parava de regressar ao dia em que arrancara as árvores das fundações da nossa casa.

315

A força com que as suas raízes se haviam fixado, Talvez tivessem arrancado as vigas que
sustinham a nossa casa de pé. E tão curioso, tão estranho, que uma coisa pudesse crescer com
aquela vitalidade mesmo estando plantada no local errado. O mesmo acontece com as ideias,
murmurei. Ideias. Os precedentes do meu pai, o Manual de Cohen e depois aquele tabuleiro. Pensei
nas massas negras. As massas transformaram-se numa carcaça: o ser humano, o búfalo, o corpo
sujeito à lei. Interroguei-me de que modo é que a minha mãe conseguira que o seu espírito
regressasse ao corpo, e se regressara de facto, e se o meu se estaria a escapar naquele momento por
causa do que fizera. Tornar-me-ia um wiindigoo? Infetado por Lark? E ocorreu-me que, enquanto
arrancava raízes naquele dia, há tão poucos meses, estava no céu. Inconsciente. Ignorante ao
mesmo tempo que o mal ocorria. Ainda não fora tocado. Pensar esgotou-me por fim. Virei-me de
costas para a luz e dormi.
Pai, disse uma vez, quando ele entrou no meu quarto. A Linda sabe? Ela está bem?
Trouxera-me um copo do remédio de Whitey: ginger ale à temperatura ambiente.
Não sei, respondeu ele. Não atende o telefone. E não tem ido trabalhar.
Tenho de falar com ela, pensei. E depois voltei a adormecer profundamente até à manhã seguinte.
Quando acordei, tudo me parecia nítido. Não tinha febre nem me sentia sequer doente. Tinha fome.
Levantei-me e tomei um duche. Vesti roupa lavada e desci as escadas. As árvores na orla do quintal
balançavam e a folhas mostravam o seu argênteo avesso mate. Enchi um copo de água da torneira e
pus-me à janela da cozinha. A minha mãe estava lá fora, ajoelhada na horta com um coador,
apanhando o feijão que o meu pai e eu plantáramos. Por vezes, colocava-se de gatas e avançava
assim pelo carreiro. Outras, sentava-se sobre os calcanhares. Deu uma sacudidela no coador, para
acamar os feijões. Foi por isso que o fiz, pensei. E, nesse momento, senti-me satisfeito. Para que ela
pudesse dar uma sacudidela no coador. Não teria de olhar por cima do ombro ou recear que ele
surgisse de repente. Podia apanhar o seu feijão durante todo o dia que ninguém iria incomodá-la.

316

Enchi uma tigela de cereais e acrescentei leite. Comi-os devagar. Os cereais souberam-me bem.
Lavei a tigela e saí para o quintal.
A minha mãe levantou-se e foi ter comigo. Pressionou a palma da mão suja de terra contra a minha
testa. Já não tens febre. Estou bom!
Devias descansar um pouco, ficar por casa a ler ou... Não farei grande coisa, respondi. É só que a
escola começa daqui a duas semanas. Não queria desperdiçar os últimos dias de férias.
Suponho que seriam certamente desperdiçados se ficasses em casa comigo. Não estava zangada,
mas não sorriu.
Não foi isso que quis dizer, argumentei. Eu venho cedo para casa. Os seus olhos, um mais triste que
o outro por causa da pálpebra descaída, observaram-me com ternura. Penteou-me o cabelo para
trás. Olhei por cima do ombro dela e vi um frasco de pickles vazio no degrau da cozinha. Fiquei
petrificado. O frasco. Deixara o frasco na atalaia.
Que é aquilo? Ela virou-se.
O Vince Madwesin apareceu por aqui. Deu-me o frasco e disse--me para o lavar muito bem.
Acrescentou que gosta muito dos meus pickles caseiros. Creio que era uma indireta.
Voltou a fitar-me, com atenção, mas eu não alterei a minha expressão.
Estou preocupada contigo, Joe.
Ainda guardo esse momento na memória. Ela ali de pé, à minha frente, no meio do tumulto do meu
crescimento. O cheiro quente a terra que emanava das mãos dela, a fina camada de transpiração no
seu pescoço, o seu olhar inquiridor.
O Whitey disse que vocês se embebedaram. Foi uma experiência com resultados negativos,
expliquei. Desperdicei preciosos dias de férias por estar doente. Eu e a bebida não nos damos bem.
Soltou uma gargalhada de alívio que lhe ficou embargada na garganta. Disse que me amava, e eu
murmurei o mesmo em resposta. Olhei para os meus pés.

317

Agora estás bem?, perguntei, em voz baixa.


Oh, claro, filho. Estou muito bem; voltei a ser eu mesma. Está tudo ótimo agora, tudo ótimo.
Tentava convencer-me.
Pelo menos, ele está morto, mãe. Pagou pelo que fez.
Quis acrescentar que não morrera de forma fácil, que soubera por que motivo ia ser morto, que vira
quem o matara, mas assim teria de dizer que fora eu quem o matara.
Não conseguia olhar mais para ela e fui buscar a minha bicicleta. Afastei-me dali com o seu olhar
silencioso cravado nas costas.
Primeiro, pedalei até à estação dos correios. Corria o risco de me cruzar com o meu pai se fosse
hora de almoço, por isso o meu plano era chegar lá antes do meio-dia e verificar se Linda fora
trabalhar. Não fora. Margaret Nanapush, a avó de Margaret, a minha colega de turma, a rapariga do
powwow com a qual casei, disse-me que Linda tinha aproveitado uns dias de folga ainda por gozar.
Tanto quanto a Sr.a Nanapush sabia, Linda estava em casa; assim, fui até lá.
Estava fraco o suficiente para o percurso me ter parecido interminável. Naquele extremo da reserva,
o vento sopra com força. Pedalei contra ele durante uma hora antes de chegar ao desvio para casa
de Linda, e por fim cheguei à sua porta. O carro dela estava estacionado num alpendre de madeira.
Conduzia, surpreendentemente, devo admitir, um bonito Mustang azul. Lembrei-me de que ela
dissera que gostava de se fazer à estrada. Encostei a bicicleta ao alpendre. Tanto vento e parece que
fiquei sem ar, disse em voz alta, e desejei que Cappy estivesse ali para rir da minha fraca piada.
Arrastei-me até à porta e bati, fazendo a rede mosquiteira abanar na sua estrutura de alumínio.
Linda apareceu por trás dela. Joe! Nem te ouvi chegar!
Tocou na rede mosquiteira, franzindo a testa. Abanou-a. Tenho de consertar isto. Entra, Joe.
O seu cão desatou a ladrar, tarde demais. Correndo, subiu a encosta de um campo que ficava mais
abaixo da saliência inclinada sobra a qual a casa se erguia. Quando chegou perto de nós, já arfava.
Era um velho e atarracado cão preto com o focinho embranquecido.

318

Buster, sorri, ordenou Linda. Ele deitou a língua de fora, sorrindo e ofegando de uma forma
cómica. Lembrei-me do que ouvira dizer acerca de as pessoas se assemelharem aos seus cães. Era
verdade. Linda deixou-o entrar ao mesmo tempo que eu.
Creio que não devíamos estar a rir, tendo em conta o que aconteceu, referiu ela ao mesmo tempo
que me conduzia à cozinha. Senta-te, Joe. Que te apetece? Enumerou tudo o que tinha. Todos os
tipos de bebidas e sanduíches que poderia preparar. Não a travei. Por fim, Linda disse que gostava
muito de uma sanduíche de ovo estrelado com maionese de rábano e que, se eu escolhesse essa,
faria uma para cada um. Respondi que me parecia muito bem.
Enquanto ela estrelava os ovos, convidou-me a dar uma vista de olhos pela casa, por isso, dirigi-me
à sala de estar e observei a estranha ordem das coisas. Em minha casa, embora a mantivéssemos
suficientemente arrumada, havia sempre pilhas de papéis e outras tralhas interessantes aqui e ali.
Ou livros que tinham saído das estantes. Nem tudo era guardado de imediato. Poderia haver um
casaco nas costas de uma cadeira. Os nossos sapatos não estavam alinhados junto à porta. A casa de
Linda estava muito bem arrumada, da forma habitual, mas também de uma maneira que me
desorientou até a ter compreendido. Tudo tinha o seu duplo, embora não fosse um gémeo idêntico.
A estante continha dois livros de cada autor, não a mesma obra, embora por vezes houvesse um
exemplar de capa dura e o seu equivalente em capa mole. Eram na sua maioria romances históricos.
Os objetos que escolhera para colecionar e exibir também estavam aos pares. Figuras em vidro das
personagens da Disney, formando pares de cores diferentes, decoravam as mesas de cada lado do
sofá, rodeando os candeeiros em cujos quebra-luzes ela colara folhas artificiais segundo o mesmo
princípio. Da parede atrás da televisão pendiam cestos feitos com ramos de salgueiro. Cada qual
continha quase o mesmo arranjo de flores secas e vagens vazias. Tinha também uma casa de
bonecas vitoriana com um telhado de duas águas, que apenas um adulto podia ter. Receava olhar
para o interior, mas acabei por fazê-lo e, como seria de esperar, cada divisão estava mobilada ao
mais ínfimo pormenor, inclusive com velas da grossura de palitos, duas escovas de dentes e
bisnagas de dentífrico mínimas na casa de banho.

319
Já estava com os cabelos em pé e ainda nem tínhamos conversado. Linda chamou-me, e eu
regressei à cozinha mudo e calado. Sentámo-nos à mesa, de madeira antiga. Pelo menos era peça
única. Não havia mais nenhuma que a ela se assemelhasse. Cobrira-a com uma toalha garrida e
dispusera pratos e copos. Serviu chá gelado. O pão estava bem torrado, estaladiço. Havia um prato
a mais. Apontei para ele. Para quem é?
Naquela tenda de sudação, Joe, o Doe disse-me que, já que eu tinha um espírito duplo comigo, mais
valia acolhê-lo. Assim, organizei a minha casa para duas pessoas, vês? Até para as mais pequeninas.
E quando como, ponho sempre mais um prato e coloco nele um pouco da comida que fiz.
Havia uma côdea de pão no prato. Os espíritos não comem muito.
Este, pelo menos, não, respondeu Linda, com tranquilidade. E, de repente, tudo me pareceu bem.
Tinha fome como quando recuperamos de uma doença. Estava esfomeado.
Linda foi trincando e mastigando, sorrindo de orelha a orelha para mim, e depois para a sanduíche.
Pousou o pão no prato, quase carinhosamente, e pôs-se a falar com ele.
Será pecado desfrutar de ti quando o meu irmão está estendido morto numa morgue? Não faço
ideia, mas estás a saber-me muito bem. Engoli em seco. A outra sanduíche teve dificuldades em
descer. Bebe um pouco de chá para desembuchares. Serviu-me um pouco mais de chá de um jarro
de plástico onde flutuavam rodelas de limão e cubos de gelo.
Não faltei ao trabalho por motivos de luto, como saberás, pois já me conheces bem, disse ela. Foi
por outras razões. Ainda tinha dias para gozar e pensei, mais vale usá-los para colocar algumas
coisas em ordem.
Que coisas? Pensei na sua arrumada sala de estar duplicada, mas depois percebi que se referia aos
seus pensamentos.
Eu digo-te, respondeu Linda, se tu me disseres porque vieste até aqui.
Pousei a sanduíche, desejando tê-la comido toda antes de termos chegado àquele ponto da
conversa.

320

Espera, pediu Linda. Como se tivesse lido a minha mente, disse que devíamos comer primeiro e
conversar depois. Pediu desculpa por ser tão má anfitriã. Depois pegou na comida com as suas
mãozinhas sapudas, as unhas afiadas recentemente envernizadas, e dirigiu-me um tal olhar: foi uma
piscadela alegre, mas ao mesmo tempo sugestiva de insanidade. Comi devagar, mas às tantas tive
de dar a última dentada.
Linda limpou os lábios ao guardanapo de papel e dobrou-o num quadrado.
O campo de golfe, declarou ela. Sacaste-me informações. Advertiu-me com o indicador. Dois e dois
são três. Contudo, decidi que és demasiado novo para teres feito aquilo. Talvez não sejas, mas eu
decidi que és. A minha teoria é que passaste a informação que te dei acerca do Linden a uma pessoa
mais velha. Mas alguém míope, não ao teu pai. O teu pai tem uma pontaria muito boa.
A sério?
Era, é claro, lima grande surpresa para mim.
Toda a gente o sabe. Quando era jovem, abatia tudo aquilo a que fazia pontaria. Os miúdos nunca
conhecem a história dos seus pais. Porque vieste visitar-me?
Posso confiar em si?
Se é preciso perguntares-me, então não.
Fiquei tramado. Aquela centelha de loucura regressou e iluminou-lhe os minúsculos olhos
esbugalhados. Parecia prestes a rebentar de riso. Em lugar disso, inclinou-se para mim e olhou em
redor como se as paredes tivessem ouvidos. Então, sussurrou:
Faria qualquer coisa pela tua família. Sou-vos fiel e dedicada. Se bem que me tenhas usado, Joe; e
agora também queres qualquer coisa de mim. O que é?
Naquele momento pensei em perguntar-lhe pela espingarda. Ao invés disso, dei por mim a colocar-
lhe a questão que eu sabia que não tinha resposta.
Porquê, Linda? Porque é que ele o fez?
Apanhei-a desprevenida. Os seus olhos arregalaram-se e humedeceram-se. Não obstante,
respondeu. Respondeu como se achasse que era tão óbvio que eu nem necessitava de ter
perguntado.

321

Ele odiava a tua família. O teu pai em especial, quero dizer. Mas o Whitey e a Sonja também. A
mente dele era muito retorcida, Joe. Odiava o teu pai, mas tinha medo dele. Ainda assim, não teria
ido atrás da Geraldine se não se tivesse transformado num monstro por causa da Mayla. Ao
preencher aquele formulário no escritório da Geraldine, a Mayla apontara o velho Yeltow como pai
da sua filha, o que significava que engravidara enquanto trabalhava para ele. Uma aluna de liceu.
Daquele velho devasso... desculpa. Arranjou um carro e regressou nele a casa levando uma boa
soma de dinheiro para manter a boca calada, mas ainda assim insistiu em ir registar a filha. O
Linden trabalhava para o governador, mas sempre foi ciumento, possessivo, e estava louco pela
Mayla. Queria que ela pegasse no dinheiro e fugisse com ele, mas ela não estava disposta a
partilhá-lo. Recusou-se a ir. Provavelmente odiava-o e tinha medo dele. Tentou então pedir ajuda à
Geraldine, e assim ficaram as duas a saber da verdade. Tudo isto o deve ter consumido por dentro.
O Linden idolatrava o Yeltow. Talvez acreditasse que, se conseguisse aquele ficheiro, salvaria o
governador. Ou talvez pretendesse usá-lo para o chantagear. Acho que seria capaz de ambas as
coisas. E é claro que a tua mãe não lhe deu o ficheiro. Mas o motivo por que fez aquilo à tua mãe
teve mais que ver com um homem que libertou o monstro que tinha dentro de si. Nem toda a gente
tem um monstro, e a maioria das pessoas que o tem, mantém-no fechado a sete chaves. Porém, eu
vi o monstro que havia no meu irmão há muito tempo, no hospital, e fiquei fatalmente doente.
Sabia que um dia ele o libertaria. Emergiria do Linden a cambalear com uma parte de mim dentro
dele. Sim. Eu também fazia parte desse monstro. Dava e dava, mas sabes que mais? Ele tinha
sempre fome. Sabes porquê? Porque por mais que comesse, nunca era aquilo que queria. Precisava
sempre de outra coisa. Algo que também faltava à mãe dele. Eu digo-te o que era: eu. O meu
poderoso espírito. Eu! A mãe dele não conseguia enfrentar o que fizera à filha, mas mais do que
isso, não suportava que o que fizera não me tivesse destruído. Anda assim, cismou Linda, foi capaz
de me telefonar depois de ter dito ao médico que me deixasse morrer. Tantos anos depois, telefona-
me e diz: «Olá, é a tua mãe.» Fiquei em silêncio.

322

E ele não conseguia libertar-se, disse ela por fim, pois regressava, uma e outra vez, como se
quisesse que alguém matasse o seu monstro, embora me tenha ocorrido outro motivo também.
Qual?
Estava nervoso por causa da Mayla. Sei que ela está algures na reserva. Ele tinha de a manter
debaixo de olho, assegurar-se de que ninguém a encontrava.
Acha que ela está viva?
Não.
Ao fim de um momento, fui invadido por um verdadeiro terror.
Sou igual a ele?, perguntei.
Não, disse ela. Isto irá afetar-te. Ou a quem quer que o tenha feito, quero dizer. Isto poaerá destruir-
te. Não deixes que isso aconteça, Joe. Que poderias fazer? Ou quem quer que tenha sido...
Linda encolheu os ombros.
Quanto a mim, isso é outra história. Eu é que não sou muito diferente dele, Joe. Eu é que devia tê-lo
matado com a velha caçadeira do Albert. Se bem que, se dependesse do Linden, creio que teria
preferido ser morto com a espingarda de caça grossa.
Sim, em relação a essa espingarda, fiz eu notar.
A espingarda.
Está debaixo do seu alpendre. Pode escondê-la? Tirá-la da reserva?
Sorriu para mim mais uma vez, como se fosse rebentar de riso e de uma forma que me pareceu
alucinada, mas depois mordeu o lábio modestamente e piscou-me o olho.
O Buster já a encontrou, Joe. Ele percebe quando uma coisa nova invade o seu território. Pensei
que farejava um toirão, mas depois espreitei lá para baixo e vi o rebordo do saco de plástico preto.
Linda reparou no meu ar chocado.
Não te preocupes, Joe. Queres saber onde estive durante os meus dias de folga? Em Pierre, em casa
do meu irmão Cedric. Fez a instrução militar em Fort Benning, na Geórgia, e sabia muito bem
como desmontar aquela espingarda. Lançámos umas quantas peças ao Missouri. Regressei à
reserva pelo caminho mais longo que consegui arranjar, por estradas secundárias, e fui lançando o
resto em pântanos.

323

Levantou as mãos e acrescentou: Diz a quem quer que tenha feito aquilo que fique descansado.
Os seus olhos toldaram-se, a sua expressão suavizou-se. E a tua mãe? Como está?
Estava na horta quando vim, a apanhar feijão. Disse-me que estava ótima, mas repetiu-o várias
vezes para que acreditasse nela. Irei visitá-la. Quero que lhe dês isto.
Linda tirou uma coisa do bolso e segurou-a no punho fechado por cima da minha mão. Quando o
abriu, um pequeno parafuso preto aterrou na minha palma.
Diz-lhe que pode pô-lo no seu guarda-joias. Ou enterrá-lo. O que ela preferir.
Guardei o parafuso no bolso.
A caminho de casa, empurrado pelo vento e com o habitual tijolo congelado de pão de banana
embrulhado em papel de alumínio a entorpecer-me o sovaco, dei-me conta de que o parafuso que
levava no bolso pertencia à espingarda. Equilibrado pelo vento, não tive de parar ou agarrar-me ao
guiador. Saquei-o do bolso e lancei-o para a sarjeta.
Dessa vez era a garrafa de Captain Jack roubada ao namorado da mãe de Angus, um punhado de
comprimidos Valium e um saco de plástico cheio até meio com latas geladas de cerveja Blatz.
Estávamos a beber na orla do estaleiro. Depois de os indolentes buldózeres e as escavadoras
pararem de mover os mesmos montes de terra de um lado para o outro, o local era nosso. Havia
dias em que deixavam a nossa pista em paz, noutros davam cabo do nosso trabalho. Não fazíamos
ideia do que ali iria ser construído. Dir-se-ia que a quantidade de terra era sempre a mesma. E um
projeto federal, assegurou Zack.
Cappy bebeu o último trago de cerveja com um comprimido, recostou-se e contemplou as folhas
das árvores. A luz começava a ficar dourada.
Esta é a minha altura preferida do dia, disse ele. Tirou uma pequena fotografia de Zélia do bolso da
camisa de ganga e segurou-a contra a testa.

324

Chiu, estão a comunicar, disse Angus.


Também tenho saudades tuas, querida, disse Cappy ao fim de um momento. Voltou a guardar a
fotografia no bolso, pressionou as molas de madrepérola da aba para o fechar e deu uma
palmadinha no tecido da camisa, por cima do coração.
É um amor muito bonito, comentei. Virei-me de lado, inclinei-me sobre a terra e vomitei um pouco.
Tapei o vomitado com terra. Ninguém reparou. Não me importava de ter um amor assim,
murmurei.
Cappy deu-me um folheto.
A última carta dela, meu. Era acerca do Arrebatamento. O panfleto vinha junto com a carta. Cappy
sorriu na direção do céu.
Olhei para o folheto com atenção, lendo as palavras várias vezes para captar o seu significado.
Arrebatamento, pois, meu, disse Zack.
Não é esse tipo de arrebatamento, argumentou Cappy. Trata-se de uma ascensão, de uma
descolagem em massa. Só um determinado número de pessoas é que poderá ir. Pelos vistos, não
aceitam católicos, por isso a família da Zélia está a pensar converter-se antes da Tribulação. Ela
quer que eu me converta ao mesmo tempo que eles, para sermos arrebatados juntos.
Uma escadaria para o céu, riu Zack.
Arrebatados como se fossem um só. Um só. O meu cérebro entrara em modo de repetição e tive de
forçar a boca a parar de dizer cinquenta vezes tudo o que me vinha à cabeça.
Acho que vocês os dois não vão conseguir, opinou Angus, num tom de devaneio. Não poderão
entrar com esse pecado mortal.
Foi como se me cravassem uma estaca de gelo nos pensamentos. O assunto não fora abordado entre
nós os quatro. Não faláramos acerca da morte de Lark. O frio alastrou. O meu cérebro clareou, mas
o resto do meu corpo estava demasiado confortável, relaxado. Cappy lidou com a situação e, como
de costume, fez derreter o medo que eu sentia.
Starboy, disse Cappy, estendendo a mão. Angus apertou-lha num gesto fraternal. A verdade é que
nenhum de nós conseguirá entrar. Apenas nos aceitam totalmente sóbrios.

325

Toda a vida?, perguntou Angus.


Toda a vida, Starboy respondeu Cappy. Não pode haver deslizes. Ah, disse Angus, então, estamos
fodidos. A minha família toda está fodida. Não haverá arrebatamento para nós.
Não precisamos de arrebatamento, alegou Zack. Temos a confissão. Conta os teus pecados ao padre
e ficarás esterilizado. Eu fiz isso, disse Cappy. O padre tentou bater-me. Rimos e durante um tempo
falámos acerca da fuga de Cappy. A seguir ficámos em silêncio e observámos as folhas que
oscilavam. A Zélia provavelmente confessou-se em casa, comentou Cappy depois de uma pausa. Se
calhar, conseguiu purificar-se.
A não ser que tenha engravidado. Não planeara dizer semelhante coisa, mas não consegui conter a
citação de A Guerra das Estrelas: Luke, a essa velocidade, achas que conseguirás retirar-te a tempo?
Se ao menos não o tivesse feito, disse Cappy. Se ao menos ela estivesse grávida. Nesse caso,
teríamos de casar. Tens treze anos, fiz-lhe lembrar.
A Zélia disse que o Romeu e a Julieta tinham a mesma idade. Detesto esse filme, comentou Zack.
Angus dormia, a sua respiração assemelhando-se ao zunido regular de uma cigarra.
Comida. A minha voz de novo. Os restantes dormiam. Ao fim de um tempo, pus-me de pé, porque
alguém gemia. Era Cappy. Choramingava, desolado, depois assustado, gritando em sonhos: «Não,
por favor.» Abanei-o, e ele avançou para outro sonho. Velei-o até me parecer mais tranquilo.
Deixei-os a dormir ali e segui para casa de bicicleta aos ziguezagues. Quando cheguei ao quintal, o
espaço debaixo do arbusto de Pearl tinha um aspeto tão acolhedor que me enfiei no meio das folhas
escuras ao lado dela e dormi até ao pôr do Sol. Acordei bastante alerta e entrei pela cozinha.
Joe? Onde estiveste?, chamou-me a minha mãe desde a outra divisão. Pressenti que estivera o
tempo todo à minha espera. Agarrei num copo, servi-me de leite e bebi-o depressa. A andar de
bicicleta por aí, respondi. Perdeste o jantar. Posso aquecer-te um pouco de esparguete.
326

Estava já a comê-lo frio, diretamente do frigorífico. A minha mãe entrou na cozinha e enxotou-me.
Não podias ao menos pôr isso num prato? Joe, estiveste a fumar? Tresandas a tabaco.
Os outros tipos estavam a fumar.
Sempre a mesma desculpa que eu dava aos meus pais.
Gosto do esparguete frio.
Preparou-me um prato e pediu-me que não fumasse.
Não voltarei a fazê-lo, prometi.
Sentou-se a ver-me comer.
Queria dizer-te uma coisa esta manhã, Joe. Chamaste enquanto dormias, ontem à noite. Gritaste.
A sério?
Levantei-me e fui até à porta do teu quarto. Falavas com o Cappy.
Que dizia eu?
Não consegui perceber, mas chamaste pelo Cappy duas vezes.
Continuei a comer.
É o meu melhor amigo, mãe. É como um irmão para mim.
Veio-me à cabeça a imagem dele a chorar em sonhos, no estaleiro, e pousei o garfo. A minha
vontade era sair de casa, encontrar Cappy de novo. Sentia que não devia tê-lo deixado a dormir. A
greta de luz por baixo da porta do meu pai alargou-se e ele saiu e veio sentar-se à mesa connosco.
Parara de beber café de manhã à noite e pela noite adentro. A minha mãe deu-lhe um copo de água.
Estava bem barbeado e já andava de roupão. Trabalhava menos horas no escritório.
Comecei hoje, Joe.
Começaste o quê? Continuava com a cabeça noutro lado. Se telefonasse para a casa de Cappy,
talvez ele conseguisse uma boleia até ali e pudesse passar a noite comigo. Ficaríamos juntos na
escuridão. O meu pai continuou a falar.
Comecei as minhas caminhadas, na pista do liceu. Fiz oitocentos metros. Planeio caminhar todos os
dias. Tu também sairás para correr. Creio que me darás várias voltas de avanço.
A minha mãe esticou o braço e pegou-lhe na mão. Ele fechou os dedos em redor da mão dela e
tocou-lhe na aliança de casamento.

327

A mãe não me deixa ir sozinho, disse ele, olhando para ela. Oh, Geraldine!
Estavam ambos mais magros e as rugas em torno dos cantos da boca haviam-se aprofundado. No
entanto, o sulco entre as sobrancelhas da minha mãe desaparecera. Graças a mim, tinham parado de
viver sob aquela nuvem de medo. Deveria ter ficado feliz ao contemplá-los do outro lado da mesa,
mas, em vez disso, fiquei zangado com a sua ignorância. Como se eu fosse o adulto, e eles os dois,
de mãos dadas, fossem as alheadas crianças. Não faziam ideia do que passara por eles. Ou Cappy.
Eu e Cappy. Taciturnamente, dei uma topada na perna da mesa.
Há uma coisa que não me sai da cabeça, Joe, afirmou o meu pai. Parei de dar pontapés na perna da
mesa. Talvez compreendas se conversar sobre isso contigo. Okay, respondi, muito embora sentisse
que o meu coração batia a mil à hora. Não queria escutar o que ele tinha para me dizer.
Sinto alívio com a morte do Lark, disse o meu pai. Tal como tu disseste quando te dei a notícia.
Sinto o mesmo que tu. A tua mãe está a salvo dele, ele não aparecerá no supermercado nem na
bomba de gasolina do Whitey. Agora já podemos seguir em frente, não é? Sim, disse eu. Tentei
levantar-me da mesa, mas ele voltou a falar. Contudo, a questão sobre quem matou o Lark tem de
ser colocada. Não houve justiça para a tua mãe, sua vítima, ou para a Mayla, e, no entanto, a justiça
existe.
Aplicada de forma desigual, pai. Mas ele teve o que merecia. A minha voz era neutra. O coração
martelava-me o peito.
A minha mãe largara a mão do meu pai. Não queria ouvir-nos discutir.
Sou da mesma opinião que tu, fez notar o meu pai. O Bjerke interrogar-nos-á amanhã. E rotina.
Mas nada é rotina. Vai querer saber onde cada um de nós estava quando o Lark foi assassinado. O
que não me sai da cabeça é isto, Joe. Pergunto a mim mesmo nesta situação, tendo jurado fazer
cumprir a lei em todas as circunstâncias, o que faria eu se tivesse qualquer informação que
conduzisse à identidade do assassino. Da última vez que falei com a tua mãe sobre isto, não tinha a
certeza do que faria.

328

Olhei para a minha mãe, cujos lábios apertados formavam uma linha sombria.
Decidi que não faria nada. Não prestaria informação nenhuma. Qualquer juiz sabe que existem
muitos tipos de justiça. Por exemplo, a justiça ideal, por oposição à justiça «melhor possível», que é
o que acabamos por fazer em tantas das nossas decisões. Não foi nenhum linchamento. Não
restavam dúvidas acerca da culpa dele. Pode ser até que quisesse ser apanhado e castigado. Não
sabemos o que ele pensava. O homicídio do Lark é uma coisa errada, que serve uma justiça ideal.
Resolve um enigma legal. Atravessa aquele injusto labirinto que é a lei da propriedade, graças à
qual o Lark não pôde ser acusado. A morte dele foi a saída. Não diria nada, não faria nada para
obscurecer a deliberação. Porém...
O meu pai calou-se e tentou dirigir-me aquele velho olhar que costumava fixar em mim e noutras
pessoas a partir do seu lugar de juiz. Senti-o, mas recusei-me a entreolhá-lo.
... Porém, continuou ele, também isto supõe um abandono das minhas responsabilidades. A pessoa
que matou o Lark viverá com as consequências humanas de ter tirado uma vida. Como não matei o
Lark, mas queria tê-lo feito, tenho de pelo menos proteger a pessoa que assumiu essa tarefa. E fá-
lo-ia, inclusive até ao ponto de tentar estabelecer um precedente legal.
Como?
Um precedente tradicional. Poderia argumentar-se que o Lark cumpria a definição de um wiindigoo
e que, sem qualquer outro recurso, a sua morte satisfez os requisitos de uma lei muito antiga.
Senti o olhar penetrante da minha mão sobre mim.
Queria apenas que soubesses isto, concluiu o meu pai, incitando-me.
Muita gente tinha ressentimentos contra o Lark, realcei.
Olhei do meu pai para a minha mãe. Por trás deles, na divisão contígua, as estantes de livros
antigos esmoreciam sob a sombra que crescia com o final do dia. O couro castanho e coçado.
Meditações. Platão. A Ilíada. Shakespeare num vermelho sóbrio e os ensaios de Montaigne. Logo
abaixo, uma coleção de Grandes Obras subscrita pelo correio. Havia um volume de O Livro de
Mórmon, que um missionário de passagem deixara.

329

Havia também William Warren, Basil Johnston, The Narrative ofthe Captivity and Adventures of
John Tanner (Nota 46), e as obras completas de Vine Deloria Jr. Estavam lá também os romances
que liam juntos: edições de bolso, grossas, bastante manuseadas e empilhadas. Olhei para os livros
como se pudessem ajudar-nos, porém, já nos tínhamos afastado bastante deles, penetrando nas
histórias que Mooshum contava nos seus sonhos. No repertório do meu pai não havia pontos de
referência para onde nos encontrávamos, e na altura não me ocorreu encarar os relatos sonâmbulos
de Mooshum como uma interpretação da jurisprudência tradicional. Portanto, se ouvires alguma
coisa, Joe, disse o meu pai. Se ouvir alguma coisa, sim, pai. Captara a minha atenção. Havia até um
certo refrigério para mim no que ele dissera. Todavia, o meu pai também estava errado, e acerca de
uma coisa em particular. Dissera que eu agora estava a salvo, mas não estava exatamente a salvo de
Lark. Tão-pouco Cappy. Todas as noites, vinha atrás de nós em sonhos.
Estávamos de volta ao campo de golfe no momento em que Lark me olhou nos olhos. Aquele
contacto terrível. Depois o disparo. Nesse momento, trocámos de corpo. Lark está no meu corpo, a
observar. Eu estou no dele, a morrer. Cappy corre colina acima com Joe e a arma, mas não sabe que
Joe alberga a alma de Lark. Morrendo no campo de golfe, sei que Lark vai matar Cappy quando
chegarem à atalaia. Tento gritar para avisar Cappy, mas sinto a vida esvair-se de mim para a relva
do green.
Tenho esse sonho ou um outro em que volto a ver o fantasma do quintal das traseiras. O mesmo que
Randall viu na tenda de sudação — o seu olhar áspero, a boca tensa. Só que, à semelhança da visão
de Randall, o fantasma está inclinado sobre mim, falando comigo por entre um véu de escuridão,
iluminado pela retaguarda, o seu cabelo branco brilhando. E sei que é a polícia.

Nota 46 - Narrativa do Cativeiro e das Aventuras de John Tanner é uma autobiografia de John
Tanner (c.]780-c. 1846). Filho de um pregador branco, aos nove anos foi raptado por dois índios
ojibwa, vivendo entre os nativos durante cerca de três décadas. Aculturou-se na perfeição,
esquecendo inclusive o inglês. (TV. da T.)

330

Como sempre, acordei gritando o nome de Cappy. Para abafar o som, tapara a frincha inferior da
porta com uma toalha. Lancei um olhar perscrutador à luz do dia, fazendo figas para que ninguém
me tivesse ouvido. Pus-me à escuta. Fiquei com a sensação de que os meus pais já tinham descido,
ou então saíram. Voltei a deitar-me. O ar era fresco, mas eu suava e a adrenalina corria-me ainda
nas veias. Tinha o coração aos pulos. Passei a mão no peito para o desacelerar e tentei acalmar a
respiração. Os sonhos tornavam-se mais reais de cada vez que ocorriam, como se abrissem um
caminho para o meu cérebro. Preciso de feitiçaria, disse em voz alta, referindo-me à feitiçaria
ojibwa. Os feiticeiros do antigamente sabiam como lidar com sonhos, segundo o que Mooshum
dissera, porém, o espírito dele estava entretanto bem longe, tentando despojar-se do corpo no catre
junto à janela. A única feiticeira que eu conhecia era a avó Thunder. Talvez lhe pudéssemos
perguntar o que havíamos de fazer. Sem lhe contarmos todos os pormenores, é claro, ou revelarmos
o que sucedera. Pedir-lhe-íamos apenas um conselho acerca daqueles sonhos. Bugger Pourier, de
todas as pessoas, veio-me à cabeça naquele momento. Provavelmente porque, da última vez que
pensara na avó Thunder, o mandara visitá-la, e mesmo antes disso Bugger roubara-me a bicicleta.
Qualquer coisa relacionada com um sonho.
Sentei-me na cama. Bugger queria confirmar se uma coisa que vira fora um sonho. A realidade dos
meus próprios sonhos, que nunca me abandonava, e a fixação ébria e decidida de Bugger fundiram-
se. Que vira ele? Eu manipulara Bugger apelando à sua fome e desviara-o do seu caminho para
conseguir recuperar a minha bicicleta. Nunca lhe chegara a perguntar o que vira. Levantei-me e
vesti-me, tomei um pequeno-almoço rápido e saí. Para encontrar Bugger era preciso procurar atrás
de sítios, começando pelo Dead Custer. Procurei-o toda a manhã e perguntei por ele a toda a gente
com que me cruzei, mas ninguém sabia dele. Por fim, fui à estação dos correios. Era onde deveria
ter ido logo de início, afinal de contas. Não me ocorrera fazê-lo, uma vez que o pobre Bugger não
tinha um domicílio fixo. Está no hospital, disse Linda.

331

Está mesmo, não é?, perguntou a Sr.a Nanapush, na sala das traseiras a organizar a
correspondência.
Deu cabo de um pé a roubar uma caixa de cervejas. Deixou-a cair em cima dele. Agora está na
horizontal, e as irmãs dizem que foi um mal que veio por bem. Talvez assim se desintoxique.
Fui de bicicleta até ao hospital visitar Bugger. Estava num quarto com mais três homens. Tinha o pé
engessado e imobilizado em tração. Interroguei-me se tal seria mesmo necessário para a sua cura ou
se o objetivo não seria mantê-lo preso à cama.
Meu rapaz! Ficou contente por me ver. Trouxeste-me uma pinguita? Não, respondi.
A sua expressão de ansiedade converteu-se num beicinho de desagrado.
Vim perguntar-lhe uma coisa.
Nem sequer um ramo de flores, resmungou. Ou uma panqueca. Quer uma panqueca?
Tenho visto panquecas. Uísque. Aranhas. Panquecas. Lagartos. As panquecas são as únicas coisas
boas que vejo... Mas aqui só dão as malditas papas de aveia a um pobre velho. Café e papas de
aveia. Triste pequeno-almoço.
Nem sequer uma torrada?, perguntei.
Davam-mas, se eu quisesse, mas eu só peço panquecas. Bugger lançou-me um olhar feroz. Estou a
guardar-me para as panquecas! Tenho de lhe perguntar uma coisa.
Vá, pergunta. Dou-te a resposta em troca de uma panqueca. Okay.
E uísque. Inclinou-se para a frente num gesto conspirador. Traz-me uma pinguita, mas não deixes
que esses aí vejam. Esconde a garrafa na camisa.
Está bem
Bugger recostou-se, preparado, o seu rosto expectante.
Lembra-se de quando me levou a bicicleta?
Fez um ar perplexo. Falei lentamente, fazendo uma pausa no final de cada frase para que ele fizesse
que sim com a cabeça.
Estava sentado à porta do Mighty Al's. Viu a minha bicicleta. Montou-se nela e começou a pedalar.
Eu saí do café e perguntei-lhe onde ia.

332

Você disse-me que queria ir confirmar se uma coisa que vira era um sonho.
O rosto de Bugger iluminou-se. Já se lembra? Não.
Descrevi a cena umas cinco ou seis vezes, até que a mente de Bugger finalmente voltou atrás no
tempo e começou a vasculhar no passado mais recente. Estava então muito quieto e tão concentrado
que quase se conseguia escutar o guinchar das engrenagens dentro da sua cabeça. A medida que os
seus pensamentos se organizavam, a sua expressão alterou-se, mas foi uma mudança tão gradual
que só depois de ter desviado o rosto impacientemente e ter voltado a olhar para ele é que reparei
que estava petrificado. Fitava qualquer coisa entre nós, na colcha. Pensei que estivesse a ter uma
alucinação, não com panquecas, o que o teria deixado muito feliz, mas com algum tipo de réptil ou
um inseto. Então, a sua expressão tornou-se compassiva e sussurrou:
Pobre rapariga! Que rapariga? Pobre rapariga.
Começou a soluçar com violentos sacões. Continuou a chorar por causa dela. Murmurou qualquer
coisa acerca de construção, e eu percebi. Estava no estaleiro, com a terra amontoada sobre ela. Não
consegui impedir a imagem de se formar. Nós aos pulos com as bicicletas, voando de um lado para
o outro, e ela lá por baixo. Levantei-me da cadeira, sobressaltado. No mais fundo do meu ser soube
que ele vira Mayla Wolfskin. Vira o cadáver dela. Se não tivéssemos matado Lark, ele teria ido de
qualquer maneira para a cadeia para o resto da vida. Dei meia volta, pensando que devia ir à
polícia, mas detive-me. Não podia deixar que a polícia soubesse sequer no que andava a pensar.
Tinha de sair por completo do alcance do radar deles, com Cappy, desaparecer. Não podia contar a
ninguém. Nem mesmo eu queria saber o que entretanto sabia. A melhor coisa que tinha a fazer era
esquecer. E depois, durante o resto da minha vida, tentar não pensar em como as coisas teriam sido
diferentes se, logo de início, tivesse seguido o sonho de Bugger.
333

Precisava de encontrar Cappy. Não para lhe contar aquilo. Nunca lhe contaria. Não contaria a
ninguém. Enquanto pedalava rumo à casa dos Lafournais, fui invadido por uma desconexão tão
profunda que não conseguia pensar em mais nada, salvo na minha própria obliteração. Encontraria
alguma maneira de me embebedar. O mundo adquiriria aquela cor de âmbar. As coisas diluir-se-iam
aos poucos, até ganharem o tom de sépia das fotografias antigas.
Zack e Angus estavam no parque de estacionamento do supermercado. As bicicletas deles
encontravam-se lá, bem como a de Cappy, mas eles os dois estavam sentados no carro do primo
mais velho de Zack. Saíram ao ver-me e disseram-me que Cappy fora aos correios saber se tinha
recebido alguma carta.
Mas por esta altura já devia ter voltado, fez notar Zack. Fui buscar Cappy e encontrei-o por fim nas
traseiras do edifício, sentado numa cadeira partida onde os empregados da estação faziam as suas
pausas para fumar um cigarro. Tinha o cabelo a pender à frente da cara. Fumava e não olhou para
mim quando me coloquei a seu lado. Limitou-se a estender-me uma folha de papel.

Cessará e desistirá de qualquer contacto com a nossa filha. A minha esposa encontrou o molho de
cartas que a Zélia escondia. Perante o sucedido, poderemos processá-lo legalmente até às últimas
consequências.
Para além disso, a Zélia será castigada e em breve mudaremos de residência. Roubou a inocência
da nossa filha e arruinou as nossas vidas.

Os braços e as pernas de Cappy estavam esparramados à sua frente, sem forças e sem esperança.
Tinha o rosto da cor da cinza e uma nuvem de fumo em redor da cabeça. Sentei-me a seu lado
numa caixa de cartão. Não havia nada a dizer em relação a coisa nenhuma. Segurei a cabeça entre
as mãos.
Pois, disse Cappy, furioso. Foda-se! Castigá-la? Aposto que a vão manter trancada até mudarem de
casa. Para ela não poder ir à estação dos correios.

334

Arruinei a vida deles!. Arruinei-lhes a vida, amando a filha deles com um amor verdadeiro?
Olha para mim, irmão, supliquei.
De facto, foi o que fiz.
Olha para mim.
Ele lançou o cabelo para trás, bateu com as pontas dos dedos no
peito.
Acaso arruinaria a vida dela? O Criador fez-nos um para o outro. Eu aqui. A Zélia lá. O espaço
colocado entre nós foi um erro humano, mas os nossos corações escutaram uma vontade divina. Os
nossos corpos também. E então, foda-se? Tudo o que fizemos, até ao mais insignificante gesto foi
feito no céu. O Criador é bondade, irmão. Na sua misteriosa misericórdia, deu-me a Zélia. O dom
do nosso amor, não posso lançá-lo de volta à cara do Criador, pois não?
Não.
É o que os pais dela me estão a pedir que faça, mas não o farei. Não vou atirar o nosso amor à cara
de Deus. Existirá para todo o sempre, quer os pais dela o aceitem, quer não. Nada do que possam
fazer se meterá entre nós.
Okay.
Sim, disse Cappy. O cabelo voltou a tapar-lhe a cara. Incendiou a carta com a beata do cigarro.
Observou-a pegar fogo, flamejar e arder até à ponta dos seus dedos. Largou o pedaço que restou, e
os fragmentos de papel queimado flutuaram em redor dos seus pés.
Vou a casa buscar o dinheiro que me deste para o autocarro, afirmou Cappy. E depois vou atestar o
carro do Randall. Passo em tua casa para te buscar.
Onde vamos?
Não consigo ficar de braços cruzados, Joe. Não posso ficar aqui. E sei que não terei paz enquanto
não a vir.
Deixámos Zack e Angus a beber refrigerantes no carro do primo e fomos para casa. A minha estava
vazia. Enchi uma mochila com uma muda de roupa e todo o dinheiro que tinha, que perfazia a soma
de setenta e oito dólares. Ainda tinha algum do que Sonja me deixara e nunca gastara o dinheiro
que Whitey me dera por aquela semana de trabalho.

335

Pagara-me a mais, talvez para garantir que eu mantinha a boca fechada. Levei um casaco. Uma vez
que ainda estava à espera de Cappy, e porque, apesar do que fizera, era uma pessoa previdente e
preparava sempre alguma coisa para comer, fiz uma dúzia de sanduíches de manteiga de amendoim
e pickles. Comi uma e bebi um pouco de leite. Ele continuava sem aparecer. Recordei-me de como
era difícil fazer o carro de Randall pegar. Engage, pensei. Pearl seguia-me para todo o lado. Entrei
no escritório do meu pai. Tentei abrir a gaveta da secretária que ele há algum tempo mantinha
fechada. Estava trancada, porém, ele não rodara a chave por completo, por isso, abanei-a até a
conseguir abrir. Na gaveta encontrava--se uma pasta de arquivo recheada de fotocópias
gordurentas. Havia uma cópia de um formulário de registo tribal com o nome de Mayla Wolfskin.
Segundo o impresso, tinha dezassete anos e era mãe de uma criança chamada Tanya. Curtis W
Yeltow figurava como o pai da menina, tal como Linda dissera. Fechei a pasta e devolvi-a à gaveta.
Consegui rodar a fechadura com um clipe, para que o meu pai não notasse que a gaveta fora aberta;
se isso teria tido alguma importância, não sei. Estava satisfeito por não ter de falar com Bjerke.
Tirei uma folha de papel de uma caixa de cabedal. O meu pai tinha uma caneca cheia de lápis
afiados na sua secretária. Peguei num e escrevi um bilhete aos meus pais a dizer que ia acampar.
Não precisavam de se preocupar, iria estar com Cappy, e lamentava avisá-los tão em cima da hora.
Acrescentei que estaria fora uns três ou quatro dias. Telefonaria. Imaginei-me a deixar como post
scriptum: perguntem a Bugger Pourier acerca do seu sonho. Mas não o fiz. Escutei um barulho na
rua. Pearl ladrou. Eram Angus e Zack. Queriam saber porque os deixáramos pendurados, e eu
contei-lhes acerca da carta, acrescentando que Cappy fora buscar o carro de Randall. Tenho uma
coisa, declarou Angus.
Mostrou-me um documento. Era uma carta de condução que o seu primo fingira perder para poder
pedir uma segunda via. Vendera a carta a Angus, embora a fotografia não se parecesse nem um
pouco com ele.
Mas não achas que se parece com o Cappy? Ele podia comprar para nós.

336

Parece-se bastante com ele, sim, respondi. Mais ou menos nesse momento, Cappy chegou e
entrámos os três para o carro. Sentei-me à frente, e Zack e Angus foram para trás.
Onde vamos?, inquiriu Zack.
Montana, disse a Cappy.
Os dois no banco de trás desataram a rir, mas eu olhei pela janela, para Pearl. Não tirava os olhos
de mim.
Sei que existe muito mundo para norte e para sul da Autoestrada 5, mas quando se segue por ela —
quatro rapazes num carro, e é tão pacífico, tão deserto quilómetro após quilómetro, quando as
emissoras de rádio deixam de ter alcance e só se ouvem interferências, o som das nossas próprias
vozes e o vento quando tiramos o braço de fora e o apoiamos no tejadilho —, sentimo-nos
equilibrados. Deslizando pela orla do universo. Tínhamos meio depósito quando saímos de casa, e
voltámos a enchê-lo duas vezes antes de passarmos a fronteira estadual para Plentywood. Aí
rumámos a sul, passando ao largo de Fort Peck em direção a Wolf Point. Cappy confiou-me então o
volante e, sem desligar o motor, parámos em frente a uma loja de bebidas, para ele ir comprar uma
garrafa de sete e meio, uma caixa de cervejas e mais outra garrafa de setenta e cinco centilitros.
Zack levara a sua guitarra. Cantou cantigas para afogarmos as mágoas nas cervejas, uma a seguir à
outra, fazendo-nos rebolar de riso. E seguimos viagem. A conversa abordava tudo e nada, às vezes
coisas divertidas, outras ridículas, como o plano que Cappy traçara para raptar Zélia da sua casa em
Helena, que ainda ficava bastante longe.
Zack e Angus deram para se pôr nervosos numa bomba de gasolina e telefonaram para casa. Foi
nessa altura que Zack ouviu das boas. Meteu-se de volta no carro, olhou para mim e disse: «Ups!»
Comemos as sanduíches. Comemos carne seca, salsichas picantes, batatas fritas e latas de frutos
secos compradas em bombas de gasolina. Bebemos água numa área de descanso e o carro foi-se
abaixo. Tivemos de o empurrar por uma encosta abaixo, colocá-lo em ponto-morto e saltar para
dentro dele em movimento. O motor voltou a pegar e, eufóricos, soltámos um grito de guerra. Zack
e Angus deixaram-se dormir no banco de trás, encostados um ao outro, roncando. Cappy e eu
começámos a conversar e prosseguimos em direção a oeste sob o longo crepúsculo.

337

O Sol brilhou interminavelmente e permaneceu em equilíbrio no horizonte durante uma eternidade,


depois flamejou abaixo daquela linha escura durante outra eternidade. Parecia que o tempo parara.
Avançámos sem esforço, como que num sonho.
Falei a Cappy da pasta que encontrara na gaveta da secretária do meu pai. Contei-lhe tudo acerca
do impresso de registo. Sobre o governador do Dakota do Sul.
Então, foi daí que veio o dinheiro, disse ele. De certeza. Ela era uma dessas raparigas espertas de
liceu que são escolhidas para levar cafés e arquivar papéis. Para aparecerem nas notícias, em
especial uma índia bonita com o braço do governador em torno do seu ombro. A LaRose contou-
me. A Linda também sabia. Foi assim que o Yeltow a conheceu. E o Lark manteve o segredo, mas
tinha ciúmes. Achava que era dono dela.
O governador deu-lhe dinheiro para ela manter a boca fechada. Começar uma vida nova, talvez.
Ela escondeu o dinheiro na boneca da filha para o manter a salvo. A salvo do Lark.
Contei a Cappy que vira o vestido da boneca no carro quando fora tirado do lago, que a boneca
devia ter flutuado pela janela aberta do carro e fora dar à margem oposta.
Depois disto, creio que acabará por vir tudo ao de cima, disse Cappy. Há ainda aquele ficheiro com
o nome dele. Portanto, porque não? A Mayla era menor, uma espécie de Lolita. Há de acabar na
prisão de certeza, afirmei. Contudo, o Yeltow nunca foi preso.
O silêncio do vento em nosso redor, o carro cortando a noite ao longo do rio Milk, onde Mooshum
caçara outrora, afastando-se cada vez mais para oeste, onde Nanapush vira búfalos até perder de
vista, e no ano seguinte nem um só. Depois disso, a família de Mooshum voltara para trás e
adquirira uma parcela de terra na reserva. Aí conhecera Nanapush, e juntos tinham erigido a casa
redonda, a mulher adormecida, a mãe que não se pode matar, a velha mulher-búfalo. Construíram
esse lugar para manter o seu povo unido e para pedir misericórdia ao Criador, uma vez que a justiça
era tão vagamente aplicada na Terra.

338
Passámos Hinsdale. Sleeping Buffalo também, para sul mais à frente, em Havre. Traçáramos a
nossa rota no mapa da bomba de gasolina.
Continuemos, disse Cappy. Sinto-me bem. Continuemos noite adentro.
Make it so.
Rimos, e Cappy desacelerou e colocou o carro em ponto-morto enquanto eu saía a correr,
contornava o carro pela frente, sentava-me atrás do volante e acelerava. O ar era fresco e cheirava a
salva. As luzes incidiam nos olhos de coiotes que se esgueiravam pelas bermas, entrando e saindo
de vedações de arame. Cappy enrolou o meu casaco, apoiou a cabeça nele contra a janela e dormiu.
Continuei a conduzir até me sentir cansado e voltei a trocar com Cappy. Zack e Angus foram para o
banco da frente para manterem Cappy acordado. Recostei-me no banco de trás. Havia um velho
cobrejão que cheirava a pó. Encostei a cabeça e pus o cinto, porque a fivela magoava-me a anca.
Dormitando ao mesmo tempo que os escutava aos três a conversar e a rir, fui acometido pela
mesma sensação que experimentara no carro dos meus pais. Um deles passou a garrafa para trás e
dei um trago longo, para me ajudar a dormir. Adormeci rapidamente. Dormi sem sonhar, mesmo
enquanto o carro se precipitava para fora da estrada, capotando, rebolando, abrindo as portas de par
em par e detendo-se num campo não arado.
Apercebi-me de um movimento violento e prolongado. Antes que conseguisse entender o seu
significado, tudo ficou imóvel. Quase me deixei dormir de novo, achando que tínhamos parado.
Todavia, abri os olhos para ver onde estávamos e o ar era negro. Chamei por Cappy, mas não tive
resposta. Escutei um som distante de aflição, não era um choro, mas uma respiração ofegante,
penosa. Tirei o cinto e saí do carro pela porta aberta. Os sons provinham de Zack e Angus,
emaranhados um no outro, rebolando-se pelo chão, depois pondo-se de pé e tombando. O meu
cérebro fez clique. Procurei no carro — vazio. Um dos faróis piscava. Voltei a sair e contornei o
carro num círculo largo, porém, Cappy parecia ter desaparecido. Deve ter ido buscar ajuda, pensei,
aliviado, enquanto avançava sem pressa. A única luz era a das estrelas e a do trémulo farol; algumas
partes do chão eram tão negras que se assemelhavam a buracos que chegariam ao centro da Terra.

339

Por um momento, desorientado, achei que me encontrava na entrada do poço de uma mina, e receei
que Cappy se tivesse precipitado lá para dentro. Era apenas uma sombra. A mais profunda e negra
que jamais vira. Pus-me de quatro e gatinhei para a sombra. Avancei às cegas pela erva invisível. O
vento levantou-se e levou os gritos dos meus amigos para longe de mim. Também os sons que fiz
quando encontrei Cappy foram levados pelo bramido do vento.
Estava sentado na esquadra de polícia, preso à cadeira. Zack e Angus estavam no hospital em
Havre. Cappy tinha sido levado com o objetivo de ser composto para que Doe e Randall o
pudessem ver. O fantasma levara-me ali. Vira-o no campo enquanto segurava Cappy. O meu
fantasma inclinara-se sobre mim, iluminado pela lanterna que segurava ao ombro, como um halo
argênteo, olhando para mim com um desprezo amargo. Abanou-me suavemente. Os seus lábios
tinham-se mexido, mas a única palavra que percebera fora «larga-o», e eu recusara-me a fazê-lo.
Dormi e acordei na cadeira. Devo ter comido, bebi água também. Não me recordo de nada disso.
Apenas que, uma e outra vez, olhei para a pedra redonda e preta que Cappy me dera, o ovo de
thunderbird. E depois houve aquele momento em que a minha mãe e o meu pai entraram pela porta
disfarçados de idosos. Achei que os quilómetros de viagem os tinham encurvado, embaciado o seu
olhar, inclusive encanecido os seus cabelos e feito as suas mãos e as suas vozes tremerem. Ao
mesmo tempo descobri, ao levantar-me da cadeira, que envelhecera como eles. Estava destroçado e
débil. Perdera os sapatos no acidente. Caminhei no meio deles, tropecei. A minha mãe deu-me a
mão. Quando chegámos ao carro, ela abriu a porta de trás e entrou. Havia uma almofada e a mesma
manta velha. Sentei-me à frente com o meu pai. Ele ligou o motor. Arrancámos sem mais e
encetámos a viagem de regresso a casa.
Ao longo de todos aqueles quilómetros, durante todas aquelas horas, com o vento a soprar e o céu
precipitando-se para nós, fundindo-se no horizonte seguinte, depois no outro a seguir, durante todo
esse tempo não houve nada para dizer.

340

Não me recordo de falar nem de o meu pai ou a minha mãe o terem feito. Sabia que eles sabiam de
tudo. A pena era para suportar. Ninguém verteu lágrimas e ninguém se zangou. A minha mãe ou o
meu pai conduziam, segurando o volante cora uma concentração neutra. Não me lembro de terem
sequer olhado para mim, ou eu para eles, depois do choque daquele primeiro momento em que
todos nos demos conta de que éramos velhos. Recordo-me, porém, da familiar visão do café de
beira de estrada mesmo antes de atravessarmos a fronteira da reserva. Em todas as minhas viagens
de infância, esse café constituiu sempre um lugar de paragem para um gelado, uma tarte, um café e
um jornal. Foi sempre o que o meu pai apelidava de a última etapa da viagem. Não obstante,
daquela vez. não parámos. Passámos em frente a ele numa onda de pesar, que perduraria pela nossa
pequena eternidade. Seguimos simplesmente em frente.

341

<Página em branco>

Epílogo

Esta história passa-se em 1988, mas o emaranhado de leis que impedem a instauração de ações em
casos de violação em muitas reservas ainda existe. «Maze of Injustice», um relatório de 2009 da
Amnistia Internacional, incluía as seguintes estatísticas: 1 em cada 3 mulheres nativas será violada
no decurso da sua vida (e esse número é seguramente mais elevado, uma vez que as mulheres
muitas vezes não denunciam a violação); 86 por cento das violações e das agressões sexuais contra
mulheres nativas são perpetradas por homens não-nativos; poucos são processados. Em 2010, o
então senador do Dakota do Norte, Byron Dorgan, apoiou a Tribal Law and Order Act. Ao assinar a
lei, o presidente Barack Obama apelidou a situação de «uma agressão à nossa consciência
nacional». As organizações abaixo destacadas a negrito trabalham para restaurar a justiça soberana
e garantir a segurança das mulheres nativas.

343

Obrigada às muitas pessoas que me assessoraram ao longo da escrita deste livro: Betty Laverdure,
antiga juíza tribal da reserva Turtle Mountain; Paul Day, Gitchi Makwa, antigo juiz tribal da reserva
Mille Lacs, e diretor-executivo dos Anishinabe Legal Services; Betty Day, guardiã da sabedoria e
doula; Peter Meyers, doutorado em Psicologia, psicólogo forense; Terri Yellowhammer, antiga
consultora dos serviços de proteção de menores do estado do Minnesota, especialista em assessoria
técnica e juíza associada da reserva White Earth Ojibwe; N. Bruce Duthu, Dartmouth College,
autor de American Indians and the Law; os alunos da turma de Literatura e Direito Nativo
Americano do Prof. Duthu; o Montgomery Fellow Program da Universidade de Dartmouth, e
Richard Stammelman; Philomena Kebec, advogada do Bad River Band of Lake Superior Chippewa
Indians; Tore Mowatt Larssen, advogado; Lucy Rain Simpson, Indian Law Resource Center; Ralph
David Erdrich, enfermeiro, Indian Health Service, Sisseton, Dakota do Sul; Angela Erdrich,
médico, Indian Health Board, Minneapolis; Sandeep Patel, médico, Indian Health Service,
Belcourt, Dakota do Norte; Walter R. Echo-hawk, autor de In the Courts of the Conqueror: The Ten
Worst Indian Law Cases Ever Decided; Suzanne Koepplinger, diretora-executiva do Minnesota
Indian Women's Resource Center, que me facultou o relatório que escreveu em parceria com
Alexandra «Sandi» Pierce, «Shattered Hearts: The Commercial and Sexual Exploitation of
American Indian Women and Girls in Minnesota»; Darrell Emmel, consultor da TNG; o meu
revisor, Trent Duffy; Terry Karten, a minha editora na HarperCollins; Brenda J. Child, historiadora
presidente do Departamento de Estudos sobre os Nativos Norte-Americanos da Universidade do
Minnesota; Lisa Brunner, diretora-executiva da Sacred Spirits First Nation Coalition; e Carly Bad
Heart Buli, advogada. O meu obrigada ainda a Memegwesi; chi-miigwech (muito obrigada) ao
Prof. John Borrows, cujo mais recente livro, Drawing Out Law: A Spirit's Guide, me ajudou imenso
a compreender o funcionamento da lei wiindigoo, bem como a tese de 2010 de Hadley Louise
Friedland, «The Wetiko (Windigo) Legal Principies: Responding to Harmful People in Cree,
Anishinabek and Saulteaux Societies».
O meu primo Darrell Gourneau, que faleceu em 2011, contribuiu com a sua pena de águia, as suas
canções e as suas histórias de caça. A sua mãe, a minha tia Dolores Gourneau, deu-me a manta dele
para a cadeira onde me sento a escrever.

344

Por fim, quero agradecer a toda a gente que me ajudou a ultrapassar o período de 2010-2011: em
primeiro lugar, à minha filha Pérsia, pelas suas ponderadas leituras do manuscrito, pelas suas
valiosas e sinceras sugestões, e por ter cuidado carinhosamente de mim, em especial durante as
semanas atribuladas do meu diagnóstico. Toda a gente se uniu de forma magnífica para me ajudar
ao longo do tratamento a que me submeti para um cancro da mama: obrigada aos doutores Margit
M. Bretzke, Patsa Sullivan, Stuart Bloom e Judith Walker por me terem salvado a vida. A minha
filha Palias intercedeu por mim, levou-me aos tratamentos e ministrou-me o seu próprio tratamento
— Battlestar Galáctica, música e comida com misteriosos poderes curativos. Manteve a família
unida. Aza travou a sua própria e difícil batalha e venceu-a para todos nós com a sua arte. Foi uma
das consultoras do manuscrito, bem como uma atenta e exigente leitora. Nenaa'ikiizhikok
contribuiu com gargalhadas e coragem. Dan foi o centro de gravidade para todos nós com a sua
paciência e o seu bom coração.
Os acontecimentos relatados neste livro baseiam-se em tantos casos, relatórios e histórias diferentes
que o resultado é puramente ficcional. O livro não pretende retratar qualquer pessoa viva ou morta
e, como sempre, quaisquer erros na língua ojibwa são única responsabilidade minha e não devem
refletir-se nos meus pacientes professores.
345

O Clube do Autor agradece a sua preferência e convida-o a visitar os nossos espaços virtuais,
onde encontrará mais informações sobre os nossos livros.
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FIM

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