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CAPA

Ivo Andric

A Ponte sobre o Drina

Publicações Europa América

Prémio Nobel 1961

Badana da CAPA

Ivo Andric, Prémio Nobel de 1961, nasceu em Travnik, na Bósnia, em 1892.


órfão de pai aos 2 anos, foi viver, com a mãe, para casa de uns parentes
em Visegrad, pequena e pitoresca cidade junto do rio Drina, onde decorreu
a sua infância até conclusão dos estudos primários. Frequentou depois o
curso liceal em Serajevo, e, terminados estes, as Universidades de
Zagreb, Viena e Cracóvia, onde cursou História e Línguas Eslavas. Os seus
estudos superiores foram, porém, interrompidos bruscamente por ter sido
preso pelas autoridades austríacas em Julho de 1914 em virtude das suas
actividades como patriota jugoslavo.

Em 1918 retoma os estudos, que, finalmente, conclui, após o que ingressa


na carreira diplomática e presta serviço em várias capitais e grandes
cidades europeias.

A carreira literária de Andric iniciou-se em 1918. É contudo depois da


segunda guerra mundial que vêm a lume as suas obras mais significativas,
A Crónica de Travnik, A Rapariga e A Ponte sobre o Drina, que lhe valeu,
à data da sua publicação, o 1.° prémio de romance instituído pelo Governo
Federal da Jugoslávia e é geralmente considerada a sua obra-prima.

Badana da Contracapa

A SEMANA SANTA por Louis Aragon


A SEMANA SANTA é o primeiro livro de Aragon publicado no nosso país.
Poeta e romancista de génio, escritor dos mais autênticos das letras
francesas e até mesmo das letras contemporâneas, traz até nós uma obra
empolgante, um romance cujas seiscentas páginas decorrem precisamente
durante a Semana Santa de 1815, quando Napoleão, evadido da ilha de Elba,
desembarcou em Cannes e empreendeu a marcha sobre Paris, e reflectem a
perplexidade, a confusão, o pânico, de um mundo ávido em demanda de
salvação numa das épocas mais conturbadas da história da França.

DONA BARBARA por Rómulo Gallegos

Rómulo Gallegos é um dos mais eminentes escritores da literatura de


língua espanhola e um dos mais venerados cidadãos da América do Sul.

DONA BÁRBARA é um painel magnífico onde a grandeza quase selvagem da


paisagem venezuelana e os grandes dramas da terra e do povo assumem
fulgores de epopeia.

SPARTACUS por Howard Fast

SPARTACUS é uma história de homens e mulheres corajosos que viveram há


muito tempo, mas cujos nomes jamais foram esquecidos. Os seus heróis
amavam a liberdade e a dignidade humana e a sua vida foi nobre e bela.
Foi escrita para que os que a lerem possam encontrar nela a força
bastante para enfrentar as perturbações do nosso futuro incerto e lutar
contra a opressão e o mal — de modo que o sonho de Spartacus seja uma
realidade ainda no nosso tempo.

Contracapa

Situada na confluência dos dois mundos cristão e islâmico, do império dos


Habsburgos e do otomano, Visegrad, pequena cidade da Bósnia, foi durante
muito tempo uma verdadeira encruzilhada de raças, de religiões e de
civilizações. O autor, ao escolher como personagem central da sua crónica
romanceada a ponte famosa sobre o rio que a atravessa — o Drina —,
constrói um imenso fresco que abrange mais de três séculos de história.
Desde a tomada de Constantinopla ao atentado de Serajevo, sucedem-se as
gerações, uma após outra, mas a ponte permanece, testemunha imponente dos
acontecimentos históricos e dos dramas do dia a dia, dos bons e dos maus
momentos, da alegria ou, o que é mais frequente, do sofrimento dos
homens.
Unindo a riqueza sugestiva da lenda aos poderosos recursos da crónica, a
fluência da narração à argúcia da observação psicológica, A Ponte sabre o
Drina proporcionará certamente ao leitor português a descoberta de um
mundo vibrante que lhe não era familiar e, ao mesmo tempo, a de um grande
escritor dos nossos dias.

Obras publicadas na Colecção ONTEM E SEMPRE:

1 — A Semana Santa, Louis Aragon

2 — Dona Bárbara, Rómulo Gallegos

3 — Spartacus, Howard Fast

4 — A Ponte sobre o Urina, Ivo Andric

A PONTE SOBRE O DRINA

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Europa-América), basta que envie ao editor, Rua das Flores, 45 — Lisboa-
2, num simples postal, o seu nome e morada.

Folha de Rosto

COLECÇÃO ONTEM E SEMPRE

Ivo ANDRIC

A PONTE SOBRE O DRINA

Crónica de Visegrad

Publicações Europa-América

Lisboa
Esta obra foi traduzida da edição inglesa com o título The Bridge on the
Drina.

Título da edição original, em servo-croata: Na Drini Cuprija.

Tradução de Fernando Moreira Ferreira e H. Silva Letra.

Copyright by Genossenschaft Biichergilde Gutemberg.

Todos os direitos reservados para a língua portuguesa.

N. E. — No final do livro encontrará o leitor um glossário com o


significado dos termos grafados em itálico no texto e nele não
explicados.

Na maior parte do seu curso, o rio Drina corre através de estreitas


gargantas, entre montanhas abruptas ou profundas ravinas com ribas
escarpadas. Somente em alguns pontos as margens do rio se abrem de ambos
os lados, em trechos lisos ou ondulados de terra fértil, próprios para
cultura e povoamento. Uma destas planuras começa aqui, em Visegrad, onde
o Drina irrompe numa súbita curva da profunda e estreita ravina formada
pelos rochedos de Butkovo e as montanhas Uzavnik. A curva que o Drina
aqui descreve é extraordinariamente acentuada, e as montanhas, nos dois
lados, são tão escalvadas e tão juntas que parecem uma massa sólida da
qual o rio corre directamente, como de uma muralha escura. Depois as
montanhas alargam-se bruscamente e formam um anfiteatro irregular, cuja
maior dimensão tem cerca de vinte quilómetros, em linha recta.

No lugar onde o Drina se precipita com toda a impetuosidade das suas


águas verdes e espumosas da massa aparentemente fechada das montanhas
escalvadas e negras ergue-se uma grande ponte de pedra bem talhada, com
onze arcos de largo vão. Da ponte estende-se, como um leque, todo o vale
ondulante, com a pequena cidade oriental de Visegrad e as suas cercanias,
com povoações aninhadas nas faldas das colinas, cobertas de prados,
pastagens e pomares de ameixas divididos por muros e sebes e salpicados
de pequenos bosques e raros tufos de verdura. Olhando à distância,
através dos arcos amplos da branca ponte, parece divisar-se não só o
verde Drina, mas também esse campo fértil e cultivado, com os céus
meridionais por cima.

Na margem direita do rio, partindo da própria ponte, fica o centro da


cidade, com a praça do mercado, parte na planura e parte na encosta da
colinas.

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No outro lado da ponte, ao longo da margem esquerda, estende-se o
Maluhino Polje, com algumas casas espalhadas ao longo da estrada para
Serajevo. Desta maneira a ponte, unindo os dois trechos da estrada de
Serajevo, liga a cidade às suas aldeias circundantes.

Na verdade, dizer «liga» é precisamente tão correcto como afirmar que o


Sol nasce de manhã para que os homens possam ver em redor e iniciem as
suas tarefas quotidianas e se põe à tarde para que possam dormir e
repousar das labutas do dia. Pois esta grande ponte de pedra, uma
estrutura rara, de beleza única, como muitas cidades mais ricas e
movimentadas não possuem (há somente duas outras semelhantes a esta em
todo o império, costumava dizer-se nos tempos antigos), era a única
passagem real e permanente em todo o curso médio e superior do Drina e
uma ligação indispensável na estrada entre a Bósnia e a Sérvia e, mais
além, para Já da Sérvia, com outras parcelas do império turco, até
Istambul. Ora; uma cidade e os seus arrabaldes são os únicos aglomerados
que têm necessariamente de se erguer à volta de um importante centro de
comunicações e de grandes e imponentes pontes.

Aqui também, com o decorrer do tempo, as casas amontoaram-se e as


povoações multiplicaram-se em ambas as extremidades da ponte. A cidade
devia a sua existência à ponte e brotava dela como de uma raiz
imperecível.

Para dar com clareza uma imagem da cidade, para a compreender e à sua
relação com a ponte, deve dizer-se que havia outra ponte e outro rio na
cidade. Este era o Rzav e era atravessado por uma ponte de madeira. No
limite extremo da cidade o Rzav desagua no Drina, de modo que o centro e,
simultaneamente, a parte principal da cidade, fica numa língua de terra
arenosa entre dois rios, o grande e o pequeno, que se reúnem aqui;
enquanto os arrabaldes se alargam de ambos os lados das pontes, sobre a
margem esquerda do Drina e a margem direita do Rzav. É uma cidade sobre a
água. Mas ainda que outro rio existisse e outra ponte, as palavras «na
ponte» nunca se referem à do Rzav — uma estrutura simples de madeira, sem
beleza e sem história, sem outra razão de existência que não seja servir
como passagem a população da cidade e os animais —, mas apenas e
unicamente à ponte de pedra sobre o Drina.

Esta tem cerca de duzentos e cinquenta passos de comprimento e quase dez


de largura, excepto no meio, onde se dilata em dois terraços
completamente iguais, colocados simetricamente em cada lado da faixa de
rodagem, dando-lhe duas vezes a largura normal. É esta a parte da ponte
conhecida por kapia.

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Numa e noutra face do pilar central, que se bifurca para o topo, foram
acrescentados dois esteios de modo que para a direita e para a esquerda
da faixa de rodagem há dois terraços que se projectam ousada e
harmoniosamente no espaço sobre as rumorosas águas verdes, lá muito em
baixo. Os dois terraços têm cerca de cinco passos de comprimento e outro
tanto de largura e são circundados, como toda a extensão da ponte, por um
parapeito de pedra. Além disso, são amplos e descobertos. Ao que fica à
direita de quem chega da cidade chama-se sofá. Dão-lhe acesso dois
degraus e adornam-no bancos aos quais o parapeito serve de costas;
degraus, bancos e parapeito são todos feitos da mesma pedra brilhante. O
da esquerda, do lado oposto ao sofá, é semelhante, mas sem bancos. A meio
do parapeito a pedra eleva-se a mais altura que a de um homem e nele,
perto do topo, está embutida uma placa de mármore branco, com uma
magnífica inscrição turca, uma tarih, com um cronograma gravado que
indica em treze versos o nome do homem que construiu a ponte e o ano da
construção. Perto do sopé desta pedra encontra-se uma fonte, um fio de
água que mana da boca de uma serpente de pedra. Nesta parte do terraço
instalou-se um cafeteiro com as suas vasilhas de cobre, chávenas turcas e
uma braseira de coque sempre acesa, e um aprendiz que serve o café aos
clientes no sofá. Assim é a kapia.

Na ponte e na sua kapia, cerca dela ou em ligação com ela, flui e


desenvolve-se, como iremos ver, a vida dos habitantes da cidade. Em todas
as histórias sobre os acontecimentos pessoais, familiares ou públicos
podem sempre ouvir-se as palavras «na ponte». Na verdade, na ponte sobre
o Drina iniciam-se os primeiros passos da infância e os primeiros jogos
da adolescência.

As crianças cristas, nascidas na margem esquerda, atravessam a ponte logo


nos primeiros dias da sua existência, pois conduzem-nas por ela sempre na
primeira semana para as baptizarem. Mas todas as outras crianças, as que
nascem na margem direita, e as muçulmanas, que não são baptizadas,
passam, como já acontecera com os pais e os avós, a parte principal da
infância na ponte ou na sua vizinhança. Pescam em redor dela ou caçam
pombos sob os seus arcos. Desde os mais tenros anos os seus olhos
acostumam-se às linhas encantadoras desta grande estrutura de pedra
brilhante e porosa, cortada regularmente e sem falhas. Conhecem todas as
bossas e concavidades da cantaria, como também as histórias e as lendas
associadas à existência e à construção da ponte, nas quais se entrelaçam
e misturam, maravilhosa e inextricavelmente, a realidade e a imaginação,
a verdade e o sonho. Sempre conheceram estas coisas, inconscientemente,
como se tivessem vindo ao mundo com elas, tão bem como sabem as suas
orações, mas não conseguem recordar quem lhas ensinou nem quando as
ouviram pela primeira vez.

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Sabem que a ponte foi construída por ordem do grão-vizir Mehmed Paxá, que
nascera na vizinha aldeia de Sokolovic, que fica atrás de uma das
montanhas que circundam a ponte e a cidade. Somente um vizir poderia
fornecer tudo o que fora preciso para construir esta duradoura maravilha
de pedra (para as mentes infantis um vizir era uma personagem
extraordinária imensa, terrível e nebulosa). Construíra-a Rade, o mestre
canteiro, que devia ter vivido centenas de anos para que tivesse podido
construir tudo o que era encantador e duradouro nas terras da Sérvia,
mestre lendário e, de facto, obscuro, como todo o mundo anseia e sonha,
visto que não quer ter de recordar ou ser devedor a muitos, ainda que só
em pensamento. Eles sabem que a vila dos barqueiros estorvara a
construção — como sempre e em toda a parte há alguém que contrarie a
construção —, destruindo de noite o que fora feito de dia, até que uma
voz se elevou das águas e aconselhou Rade a procurar duas crianças de
tenra idade, gémeos, irmão e irmã, chamados Stoja e Ostoja, e a emparedá-
las no pilar central da ponte. Uma recompensa foi prometida a quem quer
que as encontrasse e as trouxesse à sua presença.

Por fim, os guardas descobriram os gémeos, ainda no berço, numa aldeia


distante, e deles se apoderaram pela força; mas quando os levaram a mãe
não quis apartar-se dos filhos e, chorando e lamentando-se, insensível a
pancadas e pragas, seguiu-os até à própria Visegrad, onde conseguiu
chegar à presença de Rade.

As crianças foram emparedadas no pilar, pois não pôde ser de outra


maneira, mas Rade, dizem, apiedou-se delas e deixou aberturas no pilar,
através das quais a infeliz mãe podia alimentar os filhos sacrificados.
Estas são as falsas janelas finamente cinzeladas> estreitas como
seteiras, nas quais os pombos bravos fazem agora ninho. Como memória, o
leite da mãe flui, há centenas de anos, daquelas paredes. Este é o fino e
alvo fio de água que, em certas alturas do ano, brota da lisa cantaria e
deixa uma marca indelével na pedra. A ideia do leite da mulher provoca
nas mentes infantis um sentimento ao mesmo tempo muito íntimo e muito
secreto, mas tão vago e tão misterioso como vizires e canteiros que as
perturba e lhes causa repulsa. Os homens raspam aqueles traços leitosos
dos pilares e vendem-nos como pó medicinal às mulheres que não têm leite
depois de darem à luz.

No pilar central da ponte, abaixo da kapia, há uma abertura mais larga,


um comprido e estreito portal sem cancelas como uma seteira gigante.

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Neste pilar, dizem, fica uma vasta sala, um átrio penumbroso onde vive um
árabe negro. Todas as crianças sabem isto. Nos seus sonhos e fantasias
ele desempenha um grande papel. Aquele a quem ele aparece deve morrer.
Nem sequer uma criança o viu ainda, pois as crianças não morrem. Mas
Hamid, o carregador asmático, de olhos raiados de sangue, continuamente
bêbado ou a sofrer os efeitos da embriaguez, viu-o uma noite e nessa
mesma noite morreu, ali mesmo, junto da muralha. É verdade que ele estava
perdido de bêbado na altura e passara a noite debaixo da ponte, sob céu
aberto, a uma temperatura de quinze graus negativos. As crianças costumam
espreitar para além daquela abertura como para dentro de um abismo ao
mesmo tempo terrível e fascinante. Elas concordam em olhar sem pestanejar
e aquela que primeiramente observar alguma coisa deve gritar. De boca
aberta, espreitam para o interior daquele buraco profundo e escuro,
tremendo de curiosidade e medo, até que a alguma mais débil parece que a
abertura começa a oscilar e a mover-se como uma cortina negra, ou até que
uma delas, motejadora e irreflectida — há sempre pelo menos uma assim —,
grite «o árabe» e finja fugir. Aquilo estraga o jogo e provoca desilusão
e indignação entre os que cultivam o gosto da imaginação, odeiam a ironia
e acreditam que ao olharem intencionalmente podem realmente ver alguma
coisa e experimentar qualquer sensação. À noite, no sono, muitas desafiam
e batem-se com o árabe da ponte como com o destino, até que as mães as
acordam e assim as libertam do pesadelo. Depois dão-lhes água fria a
beber, «para afugentar o medo», e fazem-nas invocar o nome de Deus. E as
crianças, fatigadas pelas suas brincadeiras diurnas, adormecem novamente
no profundo sono da infância, onde os terrores não podem já desenvolver-
se ou durar muito tempo.

Num ponto na parte superior do rio, a começar da ponte, nas vertentes


escarpadas de pedra cinzenta, nas duas bordas, podem ver-se cavidades
arredondadas, sempre aos pares, a intervalos regulares, como se tivessem
sido talhadas na pedra as marcas das patas de um cavalo de tamanho
descomunal; elas prolongam-se, em plano inferior, para além da velha
fortaleza, descem a escarpa em direcção ao rio e então surgem novamente
na margem oposta, onde se perdem na terra escura e na folhagem rala.

As crianças, que pescam todo o dia durante o Verão ao longo das margens
pedregosas, sabem que estas marcas são de dias remotos e de guerreiros há
muito desaparecidos.

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Grandes heróis viviam então no mundo, a pedra não endurecera ainda e era
mole como a terra, e os cavalos, bem como os guerreiros, tinham um
tamanho colossal. Somente as crianças sérvias imaginavam que estas marcas
pertenciam aos cascos de Sarac, o cavalo de Kraljevic Marko, e estavam
ali desde que o próprio Kraljevic Marko, que se encontrava prisioneiro lá
em cima, na velha fortaleza, escapara do cativeiro, descera
vertiginosamente a encosta e galgara o Drina, pois ao tempo não existia
nesse local uma ponte. Mas as crianças turcas não acreditavam nesse feito
maravilhoso de Kraljevic Marko — pois como podia um cão cristão ter tanta
força ou tal cavalo — e diziam que não podia ter sido cometido senão por
Djerzelez Alija no seu ginete alado que, como todos sabiam, desprezava
barcas e barqueiros e galgava rios como se pulasse por cima de estreitas
valas. As duas facções nem mesmo discutiam este facto, tão certas estavam
da razão do seu próprio convencimento, e jamais qualquer delas conseguira
persuadir a outra ou perdera a sua crença.

Nestas covas, que eram arredondadas, largas e profundas como tigelas de


tamanho descomunal, a água permanecia, tépida, ainda por muito tempo após
a chuva, como que em vasos de pedra. As crianças chamavam-lhes minas ou
poços e, sem distinção de fé, ali conservavam os peixes que apanhavam com
as suas linhas.

Na margem esquerda, logo acima da estrada, erecta e solitária, achava-se


uma campa bastante ampla, de terra dura, cinzenta, quase petrificada.
Nela nada crescia ou floria, salvo relva baixa, dura e aguçada como arame
farpado. Aquele túmulo era termo e fronteira de todos os jogos das
crianças em redor da ponte. Certa vez denominaram-no «tumba de Radisav».
Dizia-se que Radisav fora um herói sérvio, um homem poderoso. Quando o
vizir Mehmed Paxá decidiu construir a ponte sobre o Drina e enviou os
seus homens a esta região, todo o povo se submeteu ao ser intimado a
prestar trabalho forçado. Apenas Radisav incitou o povo à desobediência e
fez saber ao vizir que não continuasse com a obra, pois encontraria
grandes dificuldades na construção da ponte sobre o Drina. E o vizir teve
de fazer face a muitos dissabores antes de conseguir derrotar Radisav,
pois ele era um homem com maior estatura que os outros; não havia arma de
fogo ou espada que lhe pudessem causar dano nem corda ou grilheta que o
pudessem amarrar. Ele quebrava-as todas como se fossem fios, tão grande
era o poder do talismã que trazia consigo. E quem sabe o que poderia ter
acontecido — e se o vizir teria porventura sido capaz de construir a
ponte — se alguns dos seus homens, os mais sábio e expeditos, não
tivessem subornado e interrogado o criado de Radisav.

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Então capturaram-no de surpresa e arrastaram-no enquanto dormia, ligado


com cordas de seda, porque contra a seda o seu talismã não tinha poder
algum. As mulheres sérvias crêem: que há uma noite no ano em que se pode
ver uma intensa luz branca caindo sobre a campa, vinda directamente do
céu. Isso verifica-se uma vez em cada Outono, entre a Natividade e a
Assunção da Virgem. Mas as crianças, que, acreditando ou não nesta lenda,
permanecem em vigília junto das janelas que davam para a tumba de
Radisav, jamais conseguiam ver este fogo celeste, pois a todas o sono
vencia antes que chegasse a meia-noite. Mas havia viajantes que, nada
sabendo deste facto, tinham; visto uma luz branca cair sobre o túmulo
quando regressavam de noite à cidade.

Os turcos, por outro lado, declararam que, há muito tempo, naquele local,
um certo dervixe, Turhanija de nome, morrera como um mártir pela fé. Ele
fora um grande herói e impedira que, ali, um exército infiel atravessasse
a ponte. E que neste lugar não existe nem memorial nem tumba, porque fora
esse o desejo do próprio dervixe, que desejara ser sepultado em campa
rasa e sem memória, de modo que ninguém soubesse quem, lá se encontrava,
pois, se novamente outro exército infiel tentasse avançar para a cidade
por este caminho, ele levantar-se-ia então do túmulo e repeti-lo-ia como
outrora fizera, de maneira que não pudessem marchar para além da ponte e
penetrar em Visegrad. E, por tal motivo, o céu derramava de vez em quando
a sua luz sobre a tumba.
Assim, a existência das crianças da cidade desenrola-se, debaixo e em
redor da ponte, em jogos inocentes e fantasias infantis. Nos primeiros
anos da maturidade, com o advento das inquietações, das lutas e dos
labores da vida, o centro da sua actividade transfere-se para a própria
ponte, ou, melhor, para a kapia, onde a imaginação da juventude encontra
outro alimento e novos campos.

Na kapia e à sua volta produzem-se as primeiras emoções de amor, os


primeiros olhares momentâneos, namoros e murmúrios. Ali também se
efectuam as primeiras transacções e compras, disputas e reconciliações,
encontros e esperas. Ali, no parapeito de pedra da ponte, são expostos
para venda as primeiras ginjas e melões, o primeiro salep da manhã e
pãezinhos quentes. Ali também se juntam os mendigos, os aleijados e os
leprosos, bem como os jovens saudáveis que desejam ver e ser vistos e
todos aqueles que têm alguma coisa de notável para exibir em produtos,
vestuário ou armas. Ali também os anciões se sentam muitas vezes para
discutir assuntos públicos e dissabores comuns, mas com mais frequência
os jovens, que só sabem cantar e gracejar.

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Ali, nas grandes ocasiões ou nos tempos de mudança, eram afixadas


proclamações e comunicações ao povo (no muro levantado sob a placa de
mármore com a inscrição turca e acima da fonte), mas lá também,
precisamente até 1878, eram suspensas ou empaladas as cabeças daqueles
que, por qualquer motivo, tinham sido executados, pois as execuções
naquela cidade da fronteira, especialmente em anos conturbados, eram
frequentes; em certos anos, como iremos ver, constituíam quase
ocorrências diárias.

Os casamentos e os funerais não podem atravessar a ponte sem se deterem


na kapia. Ali os convivas das bodas costumam ataviar-se e confraternizar
com os amigos antes de entrarem na praça do mercado. Se os tempos são de
paz e propícios a folguedos, eles passeiam animadamente em redor, com
copos de aguardente de ameixa na mão, cantam, dançam o kola, e muitas
vezes demoram-se mais tempo do que fora sua intenção. Quanto aos
funerais, aqueles que carregam o ataúde pousam-no para descansarem por um
momento ali, na kapia, onde, em qualquer caso, o defunto passara bom
quinhão da sua vida.

A kapia é a parte mais importante da ponte, embora esta seja

o ponto mais importante da cidade, ou, como um viajante turco

a quem o povo de Visegrad acolhera com muita hospitalidade,

escreveu no seu diário de viagem: «A kapia é o coração da ponte,

a qual é o coração desta cidade onde fica para sempre o coração


do visitante.» Afirmava que os antigos canteiros que, de acordo

com as velhas lendas, tinham defrontado vilas e todo o género

de seres de maravilha, sendo compelidos a emparedar crianças vivas,

haviam imbuído no seu trabalho não só o sentido da permanência

e da beleza, mas também um sentido utilitário para benefício das

gerações mais remotas. Quando se conhece bem a vida de todos

os dias aqui na cidade e reflectimos nela cuidadosamente, devemos

então dizer-nos a nós próprios que há realmente apenas um número

muito diminuto de pessoas nesta nossa Bósnia que desfrutam de

tanto prazer e divertimento como o que fruem os habitantes da

cidade na kapia.

Naturalmente, não se deve levar em linha de conta o Inverno, pois somente


quem é forçado a fazê-lo atravessa a ponte nessa quadra do ano, e, mesmo
assim, estuga os passos e dobra a cabeça ante o vento gélido que sopra
ininterruptamente sobre o rio. Então, e é compreensível, não se preguiça
nos terraços abertos da kapia. Mas em qualquer outra estação a kapia é a
dádiva real que se oferece a grandes e a pequenos. Todos os cidadãos
podem em qualquer momento do dia ou da noite sair até à kapia e sentar-se
no sofa ou passear por ali, para tratarem dos seus negócios ou
simplesmente para conversar.

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Suspenso uns quinze metros acima das águas verdes e turbulentas, o soja
de pedra flutua no espaço, com colinas verde-escuras por três lados, os
céus, cheios de nuvens ou estrelas, no alto, e a perspectiva aberta do
rio como um estreito anfiteatro confinado, ao fundo, pelas montanhas
azul-escuras.

Quantos vizires ou homens ricos houve no mundo que pudessem ter


satisfeito as suas alegrias ou os seus prazeres, dissipado as suas
tristezas ou os seus cuidados num lugar destes ? Poucos, muito poucos.
Mas quantos dos habitantes da nossa cidade se sentaram aqui, no decurso
dos séculos e no decorrer das gerações, na alva ou no crepúsculo, ou nas
horas da noite e mediram inconscientemente toda a abóbada estrelada que
domina as alturas? Muitos e muitos de nós nos sentámos ali, a cabeça nas
mãos, reclinados na bem talhada pedra lisa, contemplando os eternos jogos
de luz nas montanhas e as nuvens no céu e desenredámos os fios dos nossos
anónimos destinos, eternamente os mesmos, contudo eternamente emaranhados
numa nova maneira. Alguém afirmou há muito tempo — é verdade que se
tratava de um estrangeiro que gracejava — que esta kapia tivera
influência na fortuna da cidade, bem como no carácter dos seus cidadãos.
Em conversas infindáveis o estrangeiro disse que se devia procurar nela a
propensão de muitos dos nossos concidadãos para a reflexão e para o sonho
uma das principais razões desta melancólica serenidade que distingue os
habitantes da cidade.

Em qualquer caso, não se pode negar que desde tempos remotos o povo de
Visegrad tem, em comparação com as gentes de outras cidades, sido
considerado pachorrento, inclinado ao prazer e descuidado com o seu
dinheiro. A cidade está bem situada, as aldeias que a circundam são ricas
e férteis e o dinheiro, na verdade, passa abundantemente através de
Visegrad, mas não se demora lá muito tempo. Se acaso se encontrar algum
cidadão frugal e económico, sem qualquer espécie de vício, então: é,
certamente, um recém-chegado, pois as águas e o ar de Visegrad são de tal
natureza que as suas crianças nascem já com mãos abertas e dedos
estendidos, tocadas pela infecção geral de prodigalidade e negligência, e
vivem com esta divisa: «Outro dia, outro ganho.»

Conta-se que Starina Novak, quando se deu conta da sua decadência física
que o forçou a abandonar a vida de salteador nas montanhas da Roménia,
instruiu desta maneira o jovem Grujic, que iria suceder-lhe:

«Quando estiveres de emboscada, fixa bem o viajante que se aproxima.

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Se vires que cavalga orgulhosamente e que usa um colete vermelho com


botões de prata e polainas brancas, então ele é de Foca. Ataca
imediatamente, pois tanta riqueza traz consigo como nos alforges. Se
vires um viajante pobremente vestido, de cabeça inclinada, curvado sobre
o cavalo, como se tivesse saído para pedir esmola, então atira sem
hesitação, pois é um homem de Rogatica. São todos semelhantes, sovinas e
mãos de fome, mas cheios de dinheiro. Mas se vires algum tipo de ar
amalucado, com as pernas cruzadas sobre a sela, rufando um tambor e
cantando a plenos pulmões, não atires e não sujes as tuas mãos por nada.
Deixa que o velhaco passe sem o importunares. Ele é de Visegrad e não
possui um centavo, pois o dinheiro não adere às mãos de tais homens.»

Tudo isto serve para confirmar a opinião do estrangeiro. Mas nem por isso
seria menos difícil dizer com veracidade que esta opinião é correcta.
Como em relação a tantas outras coisas, também não é fácil determinar
aqui o que é causa e o que é efeito. A kapia fez deles o que são, ou,
pelo contrário, foi ela imaginada nas suas almas e no seu entendimento e
construída em conformidade com as suas necessidades e os seus costumes ?
Ê uma pergunta vã e supérflua. Não há construções fortuitas, nem estes
homens nasceram apartados da sociedade humana onde cresceram bem como as
suas necessidades, esperanças e entendimento, assim como não se encontram
linhas arbitrárias nem formas sem motivação no trabalho dos canteiros. A
origem e a existência de toda a construção grande, bela e útil, bem como
a sua relação com o local onde foi erguida, contém muitas vezes dentro de
si mesma dramas e histórias complexos e misteriosos. Porém, uma coisa é
certa: entre a vida dos habitantes da cidade e a ponte existiu sempre um
vínculo velho de séculos. Os seus destinos estão tão intimamente
entrelaçados que não se podia imaginá-los nem reconhecê-los
separadamente. Portanto, a história da fundação e destino da ponte é, ao
mesmo tempo, a história da vida da cidade e do seu povo, de geração em
geração, do mesmo modo como através de todas as narrações acerca da
cidade avulta o perfil da ponte de pedra com os seus onze arcos e a kapia
no meio, como uma coroa.

18

II

Devemos agora voltar ao tempo em que nem sequer se pensava na construção


de uma ponte naquele local, quanto mais uma ponte como esta.

Talvez que nessa época longínqua o viandante que por ali passava, exausto
e encharcado, desejasse que, por milagre, este rio largo e turbulento
pudesse ser atravessado, permitindo-lhe assim chegar mais fácil e
rapidamente ao seu destino. Pois não há dúvida de que os homens, desde
que viajaram, pela primeira vez por estes sítios e transpuseram os
obstáculos que defrontaram ao longo do caminho, pensaram sempre na
maneira de aqui fazer uma travessia, do mesmo modo que todos os viajantes
em todos os tempos têm sonhado com uma boa estrada, companheiros de
viagem seguros e uma estalagem confortável. Porém nem todos os desejos
dão fruto nem ninguém tem o poder e o arbítrio para tornar reais os seus
sonhos.

A primeira ideia destinada a concretizar-se sobre a ponte brotara,


naturalmente confusa e nebulosa, na imaginação de um rapaz de 10 anos da
vizinha aldeia de Sokolovic, numa manhã de 1516, quando o conduziam pela
estrada rumo à longínqua, brilhante e terrível Istambul.

Nesse tempo, este mesmo verde e temeroso Drina, este rio da montanha «que
muitas vezes crescia em fúria», rumorejava entre margens áridas, nuas e
pedregosas. A cidade já existia então, embora com outra forma e
diferentes dimensões. Na margem direita do rio, na crista de uma colina
alcantilada onde agora só existem ruínas, erguia-se a bem conservada
fortaleza velha, com as suas vastas fortificações datando da época áurea
do reino da Bósnia, com vigias e baluartes, obra de Paviovic, um dos mais
poderosos nobres desse período. Sobre os flancos da fortaleza e sob a sua
protecção ficavam os povoados cristãos de Mejdan e de Bikovac e a
recentemente convertida povoação turca de Dusce.
19

Na planura entre o Drina e o Rzav, por onde mais tarde se estenderia a


verdadeira cidade, havia somente prados com uma estrada serpenteando
através deles, à beira da qual existia uma estalagem antiquada e algumas
cabanas e azenhas.

No local onde o Drina intersectava a estrada navegava a famosa barca de


Visegrad, um xaveco velho e negro, tripulado por um rude, pachorrento e
velho barqueiro chamado Jamak, a quem era mais difícil despertar quando
adormecido do que qualquer outro homem mergulhado no mais profundo sono.
Jamak era um homem de estatura gigantesca e de força extraordinária, mas
que fora ferido nas muitas guerras em que ganhara renome. Tinha apenas um
olho, uma orelha e uma perna (a outra era de pau). Sem uma saudação e sem
um sorriso, transportava, indiferente, mercadorias e passageiros somente
quando lhe apetecia, mas com honradez e segurança, de modo que a
confiança que inspirava e a sua probidade eram lendárias, assim como o
seu vagar e a sua obstinação. Não conversava com os passageiros que
conduzia, nem a eles se chegava. Todos arremessavam as moedas com que
pagavam a travessia para o fundo do barco negro, onde jaziam todo o dia,
em areia e água, e apenas à noitinha o barqueiro as reunia
descuidadamente na pá de madeira de que se servia para esgotar a água do
barco e levava-as para a sua cabana na margem do rio.

A barca somente navegava quando a corrente e a altura do rio eram normais


ou um pouco acima do normal, mas, logo que o rio corria impetuosamente ou
se erguia além de certos limites, Jamak trazia para a margem a sua tosca
barca e prendia-a firmemente num remanso das águas, ficando o Drina tão
intransponível como o maior dos oceanos. Jamak fazia ouvidos de mercador
a quem o chamasse ou subia simplesmente à fortaleza para trabalhar no
campo. Depois, durante todo o santo dia, podiam ver-se os viandantes
chegados da Bósnia rondando desesperados na margem mais afastada,
transidos de frio e ensopados, contemplando inutilmente barca e barqueiro
e de vez em quando clamando em altos brados: — O... o... o... o... o...
Jama... a... a... k.... Ninguém respondia e ninguém aparecia até que as
águas serenassem, e esse momento era decidido pelo próprio Jamak, sombrio
e implacável, sem discussão ou explicação'.

A cidade, que era então pouco mais que um povoado, estava situada na
margem direita do Drina, nas encostas da colina escarpada, abaixo das
ruínas do que já fora uma fortaleza; por isso não tinha o tamanho e os
contornos que havia mais tarde de possuir quando se construiu a ponte e
as comunicações e o comércio se desenvolveram.

20
Nesse dia de Novembro uma caravana chegou à margem esquerda do rio e
deteve-se aí para passar a noite. O agá dos janízaros, com escolta
armada, regressava a Istambul depois de ter reunido nas aldeias da Bósnia
Oriental o número designado de crianças cristãs para o tributo de sangue.

Tinham passado seis anos sobre a última colecta deste tributo, e por isso
a escolha fora, desta vez, fácil e rica; o número necessário de garotos
saudáveis, espertos e de boa aparência, entre os 10 e os 15 anos, fora
conseguido sem dificuldade, embora muitos pais tivessem escondido os
filhos nas florestas e os ensinassem a fazerem-se passar por semi-
idiotas, os vestissem de farrapos e os deixassem emporcalhar-se para
evitar a escolha do agá. Alguns chegaram mesmo a mutilar as crianças
cortando-lhes um dos dedos com um machado.

Os garotos escolhidos foram carregados a dorso de pequenos cavalos


bósnios, numa longa caravana. Em cada cavalo havia dois cestos de verga,
semelhantes aos da fruta, um de cada lado, e em cada cesto era metida uma
criança, com uma pequena trouxa e um bolo redondo, a última coisa que
levava de casa dos pais. Dos cestos, que balançavam e rangiam em
uníssono, despontavam as faces frescas mas apavoradas das crianças.
Algumas delas contemplavam serenamente por cima da garupa dos cavalos,
enquanto podiam, a terra natal; outras comiam, ao mesmo tempo que
choravam, e outras dormiam com a cabeça recostada nas albardas.

Um pouco atrás da cauda dessa estranha caravana arrastavam-se,


desgrenhados e exaustos, muitos pais e parentes daquelas crianças, que
eram conduzidas, para sempre, para um mundo estranho, onde seriam
circuncisadas, se tornariam turcas e, esquecendo a sua fé, a sua pátria e
a sua origem, passariam as suas vidas nas fileiras dos janízaros ou em
qualquer outro serviço mais elevado do império. Eram, na sua maioria,
mulheres — mães, avós e irmãs das crianças roubadas.

Quando se aproximavam de mais, os cavaleiros do agá afastavam-nas à


chicotada, empinando sobre elas os cavalos com ruidosas invocações a Alá.
Depois escapavam-se em todas as direcções e escondiam-se nas florestas ao
longo das bermas da estrada, para dali a pouco se agruparem novamente na
cauda da caravana, esforçando-se, com os olhos rasos de lágrimas, por
lobrigar uma vez mais, acima dos cestos, as cabeças das crianças de que
as apartavam. As mães eram as mais persistentes e difíceis de conter.

21

Algumas avançavam pressurosamente sem olhar para onde, com os peitos nus
e os cabelos desgrenhados, esquecidas de tudo o mais, gemendo e
lamentando-se como num funeral, enquanto outras, quase fora da razão,
gritavam como se as dores do parto lhes fendessem o ventre, e, cegas
pelas lágrimas, precipitavam-se em direcção às chicotadas dos cavaleiros,
respondendo a cada golpe com a infrutífera pergunta: «Para onde o levam?
Porque o apartam de mim?» Algumas tentavam falar aos filhos com clareza,
como para lhes ofertarem um último pedaço de si mesmas, tanto quanto
podia dizer-se em poucas palavras, uma recomendação ou um conselho para a
jornada:

— Rade, meu filho, não te esqueças da tua mãe.

— Ilija, Ilija, Ilija! — gritava outra, procurando desesperadamente


lobrigar a cabeça do seu querido filho e repetindo isto incessantemente,
como se desejasse gravar na memória da criança o nome que um dia ou dois
mais tarde lhe seria arrancado para sempre.

Mas a jornada era longa, o solo duro, o corpo débil e os Osmanlis


poderosos e sem piedade. A pouco e pouco as mulheres ficavam para trás,
exaustas pela marcha e pelas pancadas, e, uma após outra, abandonavam os
seus vãos esforços. Aqui, no ancoradouro da barca de Visegrad, mesmo as
mais pertinazes tiveram de deter-se, pois negava-se-lhes passagem na
barca e sentiam-se impotentes para transpor o rio. Agora podiam sentar-se
em paz na margem e chorar, pois ninguém mais as perseguia. E ali ficaram,
como que reduzidas a pedra, insensíveis à fome, à sede e ao frio, até
conseguirem divisar uma vez mais na distância a longa caravana que
prosseguia a sua marcha rumo a Dubrina e tentarem ainda entrever em
último e fugidio vislumbre as crianças que se perdiam da sua vista.

Nesse dia de Novembro, num daqueles numerosos cestos um garoto de tez


escura, de cerca de 10 anos, nascido na aldeia montanhosa de Sokolovic,
olhava silenciosamente e de olhos enxutos à sua volta. Numa das mãos,
gelada e vermelha, segurava uma pequena faca curva, com a qual, com ar
ausente, ia aparando as extremidades do cesto. Fixava aquela margem
pedregosa bordada de salgueiros cinzentos esparsos, nus e solitários, o
rude barqueiro e a azenha seca e desabrigada, pejada de teias de aranha,
onde tinha de passar a noite antes que fosse possível transportá-lo e aos
companheiros através das águas revoltas do Drina, sobre as quais
crocitavam corvos.

22

Algures dentro de si sentia uma dor acerada, como um golpe de punhal, que
uma vez por outra parecia fender-lhe subitamente o peito e que para
sempre associaria à lembrança daquele local onde a estrada era cortada,
onde a deslocação e o desespero, extintos, permaneciam nas margens
pedregosas do rio, através do qual a travessia era tão difícil, tão
custosa e tão segura. Aqui neste lugar particularmente penoso, naquela
região rochosa e miserável, na qual o infortúnio era aberto e evidente, o
homem detinha-se sob a imposição de poderes mais fortes que ele e,
envergonhado da sua pequenez, era forçado a reconhecer com mais clareza a
sua miséria e a dos outros, a sua ignorância e a dos outros.
Tudo isto se resumia na sensação de mal-estar físico que o garoto sentira
naquele dia de Novembro, para não o abandonar jamais completamente,
embora mudassem a sua fé, o seu nome e a sua pátria.

O que este jovem chegaria a ser mais tarde seria contado em mil histórias
e em todas as línguas e conhece-se melhor no resto do mundo que entre
nós. No decurso do tempo tornou-se um jovem e bravo oficial da corte do
sultão, depois grande almirante da esquadra, a seguir genro do sultão,
general e estadista de renome mundial, Mehmed Paxá Sokolli, que
empreendeu, em três continentes, guerras conduzidas vitoriosamente na sua
maioria, e que dilatou as fronteiras do império otomano, pacificando-o no
exterior e consolidando-o, através de sábia administração, no interior.
Durante sessenta bem extraordinários anos serviu três sultões,
experimentou tanto o bem e o mal como só criaturas invulgares e
escolhidas podem provar e elevou-se, como poder e autoridade, a alturas
para nós desconhecidas, que poucos homens atingem e raros conservam. O
homem novo que ele se tornara num mundo estranho que nós não conseguimos
compreender nem sequer nos nossos pensamentos devia ter esquecido tudo o
que deixara para trás de si no país donde o haviam trazido. Certamente
olvidou também a travessia do Drina em Visegrad, as margens nuas nas
quais os viandantes tiritavam de frio e de incerteza, a barca lenta e
carunchosa, o estranho barqueiro e os corvos famintos que adejavam sobre
as águas revoltas. Mas aquela sensação de desconforto que restara nele
jamais se extinguira. Por outro lado, com o decorrer dos anos e com a
idade, surgia cada vez com mais frequência; sempre a mesma pena sombria
que lhe retalhava o peito com aquela dor bem singular e conhecida da
infância, que podia claramente distinguir de entre todas as penas e dores
que a vida lhe trouxe mais tarde. De olhos fechados, o vizir esperava até
que o> tormento, como um golpe negro de punhal, passasse e a dor
diminuísse.

23

Num desses momentos pensava poder libertar-se dessa agonia se acabasse


com aquela barca no Drina distante, à volta do qual tanta miséria e
estorvos se acumulavam e cresciam incessantemente e erguesse uma ponte
entre as margens escalvadas e sobre a água demoníaca, ligasse as duas
extremidades da estrada que fora cortada pelo Drina e estabelecesse assim
uma estreita e eterna união entre a Bósnia e o Oriente, o lugar da sua
origem e os lugares da sua existência. Por conseguinte, foi ele quem, num
momento fugaz, entreviu, de pálpebras cerradas, a silhueta graciosa e
firme da grande ponte de pedra que iria ser construída aqui.

Naquele mesmo ano, por ordem do vizir e a expensas suas, foi iniciada a
construção da grande ponte sobre o Drina. Durou cinco anos. Este período
devia ter sido excepcionalmente animado e importante para a cidade e para
toda a região, pleno de transformações e de pequenos e grandes
acontecimentos. Mas o mais estranho é que na cidade que recordaria e
discutiria durante séculos toda a sorte de acontecimentos, incluindo os
que directamente se relacionavam com a ponte, não foram preservados
muitos pormenores acerca do começo desta operação.

A gente simples lembra e conta o que é capaz de entender e o que é capaz


de transformar em lenda. Qualquer coisa mais passa por si sem deixar
traços profundos, com a muda indiferença pelos fenómenos naturais
inomináveis que não tocam a imaginação ou permanecem na memória. Este
processo de construção, árduo e longo, foi para ela uma tarefa estranha
empreendida a expensas de outrem. Somente quando, como fruto do seu
esforço, a grande ponte se elevou, os homens começaram a recordar
pormenores e a bordar a criação de uma ponte real, habilmente construída
e duradoura, com histórias fabulosas que sabiam bem como tecer e evocar.

24

III

Na Primavera do ano em que o vizir tomou a decisão de construir a ponte,


os seus homens chegaram à cidade para preparar tudo o que se relacionasse
com os trabalhos de construção. Vieram muitos, com cavalos, carros,
várias ferramentas e tendas. Tudo isto suscitou temor e apreensão na
pequena cidade e nas aldeias circundantes, especialmente entre os
cristãos.

À testa deste grupo achava-se Abidaga, que era responsável perante o


vizir pela edificação da ponte; com ele encontrava-se o canteiro Tosun
Effendi. Circulavam já histórias acerca deste Abidaga, que diziam ser um
homem que nada fazia deter, severo e impiedoso além de todos os limites.
Logo que acamparam, abaixo de Mejdan, Abidaga convocou os chefes locais e
os notáveis turcos para uma reunião. Mas não houve nada que se parecesse
com uma conversa, pois apenas um homem falou, e esse foi Abidaga. Os que
tinham sido convocados viram um homem de elevada estatura, de olhos
verdes e rosto violáceo que não denotava saúde, vestido com ricos trajos
de Istambul, de barba ruiva e bigode de guias voltadas para cima à
maneira magiar. As palavras que este homem violento dirigiu aos notáveis
espantaram-nos ainda mais que a sua aparência.

«É mais que provável já terdes ouvido falar de mim antes de eu cá chegar;


eu sei, sem ter de perguntar, que essas referências não foram agradáveis
nem favoráveis. Certamente ouvistes que eu exijo trabalho e obediência de
todos e que espancarei ou matarei todo aquele que não labutar como deva e
não obedeça sem discussão; que não conheço o significado de «não posso»
«ou não há nada»; que onde quer que me encontre as cabeças rolarão à mais
ligeira palavra e que, em resumo, sou um homem sanguinário e duro. Quero
declarar-vos que essas referências não são nem imaginárias nem
exageradas. Ninguém me faz o ninho atrás da orelha.
25

Ganhei esta reputação em longos anos de serviço, durante os quais cumpri


devotadamente as ordens do grão-vizir. Confio em que Alá me permitirá
levar a cabo este cometimento que me ordenaram e quando, após a conclusão
da tarefa, me for embora, espero que ainda referências mais cruéis e
sombrias que aquelas que já escutastes me precedam.»

Depois desta insólita introdução, que todos escutaram em silêncio e de


olhos no chão, Abidaga explicou que se tratava de uma obra de grande
importância, sem par ainda em terras mais ricas, que o trabalho duraria
cinco, talvez seis anos, mas que a vontade do vizir seria cumprida no
mais ínfimo dos pormenores e com uma pontualidade tão rigorosa que não
haveria sequer a tolerância de um minuto. Então deu-lhes a conhecer as
suas primeiras exigências e o que, portanto, esperava dos turcos locais e
reclamava dos rayah.

A seu lado achava-se sentado Tosun Effendi, um renegado, pequeno, pálido,


amarelado, que nascera nas ilhas gregas, um canteiro que construíra
muitas das obras legadas por Mehmed Paxá em Istambul. Calmo e
indiferente, como se não estivesse a ouvir ou não compreendesse as
palavras de Abidaga, fitava as mãos e só raramente levantava o olhar.
Depois todos puderam ver os seus grandes olhos negros, belos e míopes,
com um brilho aveludado, os olhos de um homem que somente vê o seu
trabalho e não vê, não sente e não compreende nada mais na vida ou no
mundo.

Os notáveis saíram em fila da tenda, pequena e abafada, perturbados e


deprimidos. Sentiam-se como se estivessem a suar sob os seus trajos novos
de cerimónia e cada um experimentava um pavor e uma ansiedade que,
incontrolavelmente, os ia possuindo.

Uma calamidade, imensa e incompreensível, caíra sobre a cidade e toda a


região, uma catástrofe cujo fim não se podia prever. Em primeiro lugar,
começou o derrube de florestas e o transporte de madeiras. Tão grande
quantidade de andaimes se ergueu em ambas as margens do Drina que por
muito tempo o povo pensou que a ponte seria construída de madeira. Depois
deu-se início aos socalcos, às escavações, aos revestimentos das margens
gredosas. Esta tarefa era, na sua maior parte, realizada com a utilização
de trabalho forçado. Assim, a obra continuou até aos fins do Outono-,
quando se interrompeu temporariamente o trabalho e se completou a
primeira fase da construção.

Tudo isto foi realizado sob a supervisão de Abidaga e do seu longo bordão
verde, que o converteria em lenda.

26
Quem quer que ele apontasse com este bordão, depois de ter notado que o
visado se fingia doente ou não trabalhava como devia, era filado pelos
guardas, que o espancavam no próprio local, derramando-lhe a seguir água
sobre o corpo inconsciente e a sangrar, ordenando-lhe que regressasse ao
trabalho. Quando, nos fins de Outono, abandonou a cidade, Abidaga mandou
novamente convocar os notáveis e declarou-lhes que ia partir para outro
lugar a fim de passar o Inverno, mas que não deixaria de os vigiar
convenientemente. A todos caberia responsabilidade pelo que viesse a
suceder. Se se verificasse que qualquer parcela do trabalho tinha sido
danificada, se um simples madeiro estivesse fora do seu lugar nos
andaimes, castigaria a cidade inteira. Quando se arriscaram a dizer que
os estragos poderiam ser causados pelas inundações, Abidaga replicou,
friamente e sem hesitação, que esta zona se encontrava sob a jurisdição
deles, que o rio estava sob a sua alçada, bem como os danos que pudesse
causar.

Durante todo o Inverno os habitantes da cidade guardaram o material e


vigiaram os trabalhos de construção com inexcedível rigor e atenção. E
quando, na Primavera, Abidaga regressou, acompanhado de Tosun Effendi,
vinham com eles canteiros da Dalmácia, a quem o povo chamava «mestres
latinos». A princípio havia trinta e cinco destes operários, chefiados
por um certo Mastro António, um cristão de Ulcinj, homem alto e belo, de
olhos penetrantes, olhar atrevido, nariz aquilino e cabelos louros que
lhe caíam sobre os ombros e trajando como um nobre à moda ocidental.
Trazia como assistente um negro retinto, um jovem alegre que a cidade
inteira e os trabalhadores logo crismaram de O Árabe. No ano anterior, a
julgar pelo grande volume de vigamento, parecia ser intenção de Abidaga
construir a ponte de madeira; porém, agora, toda a gente imaginava que
ele queria construir uma nova Istambul aqui, sobre o Drina. Começou então
o transporte de pedra das pedreiras que tinham sido já abertas nas
colinas perto de Banja, a uma hora de caminho da cidade.

No ano seguinte, a Primavera foi incomum junto do ancoradouro da barca de


Visegrad. Além de tudo o que irrompia da terra e floria em cada ano,
naquela estação brotou também um extenso povoado, constituído por
inúmeras cabanas; foram rasgadas novas estradas e traçaram-se novos
acessos até à beira da água. Numerosos carros de bois e cavalos de carga
formigavam por todos os lados. Os homens de Mejdan e Okoliste observavam
como, em cada dia, à semelhança de uma seara, crescia, junto do rio, o
enxame infatigável de homens, animais e material de construção de todo o
género.

27

Nas margens escalvadas labutavam os mestres canteiros. Toda área se


revestiu de uma espécie de cor amarelada proveniente do pó da pedra. E um
pouco mais adiante, no plaino arenoso, trabalhadores locais afagavam a
cal, movendo-se, esfarrapados e pálidos, através do fumo branco que se
escapava dos fornos. As estradas eram retalhadas pelos carros carregados
em demasia. A barca funcionava todo o dia, levando de uma margem para a
outra materiais de construção, capatazes e trabalhadores. Patinhando nas
águas primaveris, que lhes davam' quase pela cintura, trabalhadores
especiais transportavam estacas e postes e punham em posição gabiões
cheios de argila destinados a desviar a corrente.

Tudo isto era observado pelos que até então tinham vivido pacificamente
nas suas casas dispersas nas encostas junto ao ancoradouro da barca do
Drina. E poderiam dar-se por muito felizes se somente lhes fosse
permitido contemplar o progresso da obra; porém, para sua desfortuna,
cedo a extensão dos trabalhos cresceu com tal ímpeto que arrastou para a
voragem todos os seres vivos e as coisas inanimadas, não só da cidade mas
também de povoações situadas a grande distância. No segundo ano o número
de trabalhadores aumentou a tal ponto que igualou em quantidade o
conjunto dos residentes do sexo masculino da cidade. Todos os carros,
cavalos e bois eram utilizados apenas para serviço na ponte. Tudo o que
pudesse mover-se era lançado sem explicação naquele torvelinho, umas
vezes mediante salário, outras compulsivamente. Havia mais dinheiro que
antes, mas os preços subiam e o déficit aumentava num ritmo crescente,
superando os ganhos, de maneira que o dinheiro quando chegava às mãos dos
homens era já insuficiente para suprir as despesas. Ainda mais
inquietante que a alta dos preços e as dívidas era o desassossego, a
confusão e insegurança que agora envolviam a cidade, como* consequência
da chegada contínua de trabalhadores oriundos de longínquas regiões.
Apesar da severidade de Abidaga, registavam-se frequentes disputas entre
os trabalhadores e muitos roubos eram perpetrados em jardins e pátios. As
mulheres muçulmanas tinham de conservar o rosto velado mesmo quando saíam
para os pátios das suas casas, sujeitas como estavam aos olhares
maliciosos e indiscretos de número sem conta de trabalhadores, locais e
estranhos. Os turcos da cidade mantinham muito estritamente as práticas
do Islão, ainda mais porque apenas recentemente haviam adoptado a
religião dominante e, na sua maioria, recordavam ainda um pai ou um avô
que se mantivera cristão ou se convertera não há muito à fé maometana.

28

Por tudo isto, os mais velhos que seguiam os ditames do Islão


manifestavam o mais indignado desprezo por esta massa caótica de
trabalhadores, animais de tracção, madeira, terra e pedras que se
amontoavam em volume cada vez maior e desordenado em ambos os lados do
embarcadouro e que, nas operações de escoramento, invadiam as suas ruas,
pátios e jardins.

A princípio nenhum deixara de sentir orgulho em face do grande legado que


o vizir ia, com a construção da ponte, ofertar à sua região. Não haviam,
então, compreendido, do modo que os seus olhos podiam testemunhar, que as
gloriosas dádivas desta sorte envolviam muita desordem, desassossego,
esforço e despesa. Era magnífico, pensavam, pertencer à pura casta
dominante; era excelente ter como concidadão o vizir de Istambul, e ainda
mais admirável visionar na férvida imaginação a imponente e dispendiosa
ponte que uniria as duas margens do rio; porém o que agora se lhes
deparava era nada se parecia com as furtivas miragens tecidas nas suas
mentes deslumbradas. A sua cidade fora transformada num inferno, num
torvelinho demoníaco de obras incompreensíveis, de fumo, poeira, gritos e
tumulto. Os anos passavam, o trabalho prolongava-se e a perspectiva
tornava-se cada vez mais grandiosa; contudo, não se entrevia sequer um
vislumbre do fim deste poderoso cometimento. Como as coisas estavam,
podia, naquele local, divisar-se o que se quisesse, mas nunca uma ponte.

Assim pensavam os turcos de conversão recente. Entre eles, na intimidade,


confessavam estar fartos até à raiz dos cabelos de senhoria, orgulho e
glória futura e que o seu quinhão de inquietude e tormento proveniente da
construção da ponte excedia o razoável. Oravam fervorosamente a Alá para
que os livrasse desta confusão e lhes restaurasse nos espíritos e nos
lares a paz antiga e a tranquilidade das suas existências humildes,
vividas junto ao embarcadouro do rio. A presente conjuntura não afectava
somente os turcos, mas, e ainda mais, os rayab de todo o distrito de
Visegrad, com a agravante de que ninguém lhes pedia a opinião acerca do
que se passava; nem sequer mesmo se sentiam- capazes de exprimir a mais
leve indignação perante as arbitrariedades a que estavam expostos.
Decorria o terceiro ano após o povo ter sido, com os seus cavalos e bois,
compelido a prestar trabalho obrigatório para a construção da ponte. E
tal não se verificara apenas para o rayah local, mas também para o das
povoações vizinhas. Por toda a parte os guardas e os cavaleiros de
Abidaga arrebanhavam os rayah das aldeias, e mesmo das cidades, e
traziam-nos para o serviço da obra do vizir. Geralmente surpreendiam-nos
enquanto dormiam e conduziam-nos, de pernas e braços manietados, como
carneiros.

29

Por toda a Bósnia os viandantes diziam a quem topavam no seu caminho que
não se aproximassem do Drina, pois quem quer que por lá passasse era
forçado, pelo menos por alguns dias, a mourejar na obra sem que lhe fosse
perguntado nome, profissão ou destino. Os jovens das aldeias tentavam
fugir para as florestas, mas os guardas tomavam, em contrapartida, reféns
nas suas casas, muitas vezes mulheres, para substituírem os que se
escapavam.

Decorria o terceiro Outono após o começo da construção da ponte; contudo


ninguém conseguia lobrigar que o trabalho se encontrasse a progredir e
que o termo do seu infortúnio estivesse à vista. As inundações provocadas
pelas chuvas obstruíam as estradas. O Drina crescia, turbulento, e sobre
o restolho dos campos ceifados adejavam, em voos curtos, os corvos.
Porém, Abidaga não suspendia o trabalho. Sob o sol pálido de Novembro os
camponeses arrastavam madeira e pedra, patinhavam de pés nus ou com
sandálias feitas da pele de rezes recentemente abatidas ao longo das
estradas enlameadas, suarentos devido às pesadas cargas ou gelados pelo
vento cortante, envolvendo-se nos seus capotes, coalhados de novos
buracos e velhos remendos, e atando as extremidades esfarrapadas das suas
camisas de linho grosseiro, enegrecidas pela chuva, pelo fumo e pela
lama, que não ousavam lavar com receio de que se desfizessem na água.
Sobre as suas cabeças pairava o bordão verde de Abidaga, que visitava,
várias vezes por dia, tanto as pedreiras de Banja como os trabalhos em
redor da ponte. Enchera-se de raiva e fúria contra toda a gente porque os
dias se tornavam cada vez mais curtos e a obra não progredia à medida dos
seus desejos. Vestindo um pesado gibão de pele da Rússia e de botas
altas, trepava, com o rosto violáceo e congestionado, aos andaimes dos
pilares logo que estes se erguiam das águas, visitava forjas,
acampamentos e cabanas de trabalhadores e praguejava contra quem
encontrasse, fossem capatazes ou mestres.

— Os dias são pequenos. Cada vez mais pequenos. Vocês, filhos de uma
cadeia, nem merecem o pão que comem.

Rebentava em fúria, como se eles fossem culpados de a alva despontar


tarde e o escurecer chegar cedo. Antes do crepúsculo, aquele inexorável e
implacável crepúsculo de Visegrad —• em que as colinas escalvadas
pareciam abater-se sobre a cidade—, que precedia uma noite que não
tardava a cair tão pesada e surda como a anterior, a cólera de Abidaga
atingia o auge; não havendo ninguém em quem descarregar o seu furor,
voltava-o contra si mesmo, e não conseguia dormir ao pensar que tanto
trabalho estava ainda por realizar e que tanta gente se fingia doente e
calaceava.

30

Os dentes rangiam-lhe de tamanha cólera. Convocava os capatazes,


indicava-lhes como fazer, daí para o futuro, melhor uso da luz do dia e
incitava-os a explorar mais efectivamente as energias dos trabalhadores.

As gentes quedavam-se a dormir nas suas cabanas e nos estábulos,


repousando e restaurando as forças. Mas nem todos dormiam; e estes sabiam
como aproveitar da melhor maneira os momentos de vigília. Num dos
estábulos, seco e espaçoso, estava aceso um fogo, ou, mais exactamente,
estivera, pois agora só restavam alguns pedaços de carvão incandescentes
no espaço semi-iluminado que sobrava. Todo o recinto se enchera de fumo,
com o acréscimo do cheiro pesado e acre das roupas húmidas, das sandálias
e das exalações de cerca de treze corpos humanos. Pertenciam todos ao
número dos mais oprimidos e eram camponeses dos arrabaldes, rayah
cristãos. Encontravam-se completamente cobertos de lama, encharcados e
exaustos. Ressentiam-se com este trabalho forçado, não remunerado e sem
proveito pessoal, enquanto mais acima, nas aldeias, os seus campos
esperavam em vão a lavra outonal. O maior número deles mantinha-se ainda
acordado. Secavam as alpergatas junto do fogo, reparavam as sandálias ou
apenas fitavam as brasas. Entre eles encontrava-se um certo montenegrino,
cuja proveniência ninguém conhecia, preso pelos guardas na estrada e
obrigado a prestar serviço por vários dias, embora se mantivesse
constantemente a afirmar-lhes, provando-o inclusivamente, como este
trabalho era duro e exaustivo, considerando-o inconveniente para a sua
dignidade e próprio apenas para os escravos. Muitos dos camponeses
despertos, especialmente os mais jovens, juntaram-se-lhe à volta. Do
bolso fundo do gibão o montenegrino sacou um gusle e um arco curto. Um
dos camponeses saiu e pôs-se de sentinela diante do estábulo, com receio
de que algum turco surgisse subitamente. Todos olhavam para o
montenegrino como se o vissem pela primeira vez e para o gusle, que
parecia desaparecer nas suas amplas mãos. Ele curvou-se, o gusle no
regaço, apertou o topo ao queixo, untou a corda com resina e soprou
profundamente no arco; tudo se achava húmido e frouxo. Enquanto se
ocupava destas tarefas comezinhas, serenamente e pleno de confiança, como
se estivesse sozinho no mundo, todos o olhavam sem um movimento. Por fim
as primeiras notas gemeram, agudas e irregulares. O espírito dos
circunstantes cresceu de exaltação. O montenegrino encontrou a chave e
começou a cantar através do nariz, acompanhando-se com o gusle. Todos
estavam concentrados, na expectativa do canto maravilhoso.

31

Bruscamente, depois de ter mais ou menos harmonizado a voz com o tom do


gusle, o montenegrino arremessou para trás a cabeça num rompante de
orgulho, de modo que a maçã-de-adão sobressaiu no pescoço delgado e o seu
perfil anguloso recortou-se no braseiro. Então cantou, numa voz
estrangulada e constrita, a... a... a... a... a... a... a... a..., e
logo, imediatamente, num tom claro e ressoante:

O czar sérvio Stefan

Bebia vinho na fértil Prizren;

A seu lado sentavam-se os velhos patriarcas;

Quatro eram eles, os velhos patriarcas;

Havia também nove bispos

E vinte vizires com três caudas de cavalo

E, conforme a sua posição, os nobres sérvios.

Mihaito, o copeiro, servia o vinho,

E no peito de sua irmã Kandosia

Cintilava o brilho de pedras preciosas...


Os camponeses comprimiram-se mais à roda do cantor, mas sem fazerem o
mais ligeiro ruído, podendo ouvir-se-lhes a própria respiração.
Conservavam os olhos semicerrados, num transporte de encantamento.
Estremecimentos percorriam-lhes a espinha, as suas costas retesavam-se,
os peitos dilatavam-se, os dedos abriam-se e fechavam-se e os músculos do
queixo esticavam-se. O montenegrino fazia subir a melodia cada vez com
maior intensidade, tornando-a mesmo mais bela e ousada, enquanto os
trabalhadores ensopados e insones, de expressão ausente e insensíveis a
tudo o mais, seguiam o canto como se fosse o seu próprio destino, mais
belo e mais glorioso, que vibrasse naquela melodia fascinante.

Entre os inúmeros camponeses empregados no árduo labor da ponte achava-se


um certo Radisav, de Uniste, uma pequena aldeia quase pegada à cidade.
Era um homem de pouca altura, de rosto escuro e olhos inquietos,
ligeiramente curvado, de passada rápida e nervosa, que retesava as pernas
quando caminhava e movia a cabeça e os ombros da esquerda para a direita
e da direita para a esquerda como se ceifasse trigo. Não era tão pobre
como parecia ser, nem tão simples como os seus ares davam a entender. A
sua família era conhecida pelo nome de Heraci; tinham boas terras e havia
muitos familiares do sexo masculino na sua casa; como quase toda a aldeia
se convertera ao Islão há mais de quarenta anos, eles encontravam-se sós
e isolados.

32

Este Radisav, pequeno e encurvado, andara de um estábulo para outro


nestas noites de Outono a semear a revolta e introduzir-se como uma
enguia entre os camponeses, murmurando conselhos que oferecia a um de
cada vez. O que dizia era mais ou menos isto:

— Irmão, já sofremos mais do que seria justo nesta empresa. Devemos


defender-nos. Podeis ver com os vossos próprios olhos que este trabalho
de construção será a morte de todos nós; devorar-nos-á a todos. Mesmo os
nossos filhos terão que prestar trabalho forçado na ponte, se algum de
nós restar. Uma ponte não é coisa útil aos pobres e aos rayah, mas
somente aos turcos; nós não podemos alistar-nos no exército nem ocupar-
nos no comércio. Para nós a barca é mais que suficiente. Assim, alguns de
nós concordámos secretamente em ir, de noite, na hora de maior escuridão,
danificar tanto quanto possível o que foi feito e espalhar o boato de que
é um vila que destrói os trabalhos da ponte porque não deseja que esta se
erga sobre o Drina. Veremos se isto nos servirá de ajuda. Não nos resta
outra alternativa e algo deve ser feito.

Houve, como sempre, alguns medrosos e desconfiados, que pensavam ser esta
uma ideia estéril, visto que os turcos, astutos e poderosos, não se
desviariam dos seus intentos e teria de prestar-se trabalho forçado ainda
por mais tempo do que era vontade de Deus.
Não deviam tornar pior o que de si já era mau. Mas havia também quem
compreendesse que existia algo melhor do que continuarem a dobrar-se à
escravidão até que tombasse o último farrapo do vestuário e a última gota
de energia se esgotasse devido ao labor pesado e às insuficientes rações
fornecidas por Abidaga, e que se devia seguir quem estivesse disposto a
empreender uma acção até às últimas consequências. Estes eram, na sua
maioria, jovens, mas havia também graves chefes de família que
concordavam, embora sem entusiasmo ou paixão, dizendo com ar inquieto:

—- Vamos demoli-la; que o seu sangue o devore antes que ele nos devore a
nós. E, se isto não nos servir de nada...

Nesta altura agitavam as mãos, cépticos quanto à desesperada decisão.

Assim, nos primeiros dias do Outono começou a espalhar-se o rumor,


primeiramente entre os trabalhadores, depois na própria cidade, de que o
vila das águas interviera no trabalho da ponte, que destruíra e derrubara
de noite o que fora construído durante o dia e que todo o projecto não
resultaria. Ao mesmo tempo, danos ir explicáveis começaram a surgir nos
revestimentos e na própria cantaria.

33

As ferramentas que os canteiros deixavam até esse momento nos pilares


começaram a extraviar-se e a desaparecer, os revestimentos a ruir e a ser
levados pelas águas.

Os rumores de que a ponte jamais seria concluída espalharam-se por toda a


região. Tanto os turcos como os cristãos os difundiam e a pouco e pouco
tomaram forma como crença firme.

Os rayah rejubilaram ao murmurarem as novas furtiva e imperceptivelmente,


mas animosos. Os turcos locais, que a princípio manifestavam grande
orgulho pelo plano do vizir, começaram a franzir desdenhosamente a testa
e a sacudir as mãos. Muitos dos turcos convertidos, que, ao mudarem de
fé, não haviam encontrado o que esperavam, mas tinham continuado a
sentar-se à mesa diante apenas de uma sopa magra e a andar de cotovelos
remendados, ouviam as novas e repetiam com prazer a história da falência
do empreendimento, encontrando certa satisfação no pensamento de que nem
mesmo o vizir podia realizar o que projectava. Dizia-se já que o maestri
estrangeiro estava a preparar-se para deixar a cidade e que não se
ergueria ponte alguma no local onde nenhuma outra fora construída antes e
onde esta nem se devia ter começado. Todas estas histórias se fundiram e
espalharam com rapidez.

A gente simples facilmente tece fábulas e depressa as divulga, e nelas a


realidade estranha e inextricavelmente se mistura e entretece com a
lenda. Os camponeses que à noite escutavam o tocador de gusle diziam que
o vila que estava a destruir a ponte declarara a Abidaga que não cessaria
a sua tarefa de destruição antes que duas crianças gémeas, de nome Stoja
e Ostoja, fossem emparedadas nas fundações. Muitos juravam ter visto os
guardas que se afadigavam em procurar estas duas crianças nas aldeias (os
guardas encontravam-se, na verdade, em contínuas idas e vindas às
aldeias. Porém não andavam à procura de crianças, mas a captar os rumores
e a interrogar as pessoas de modo a poderem descobrir quem eram os
desconhecidos que estavam a destruir a ponte).

Pouco tempo antes acontecera que na aldeia que ficava pouco acima de
Visegrad uma rapariga gaga e semi-idiota que trabalhava como serviçal
fora engravidada, e não dizia, ou não sabia dizer, por quem. Era um
acontecimento raro e quase incompreensível que uma rapariga, e
especialmente uma rapariga como esta, concebesse, e, o que era mais, que
não se soubesse quem era o pai. A história circulou até regiões muito
distantes. Na altura normal a rapariga deu à luz, num estábulo qualquer,
dois gémeos, ambos com vida.

34

A aldeã que lhe assistira ao parto, que fora excepcionalmente difícil,


enterrara logo as crianças num pomar de ameixas. Mas passados três dias a
infortunada mãe levantou-se e começou a procurar os filhos por toda a
aldeia. Em vão lhe explicaram que as crianças haviam nascido mortas e
tinham sido enterradas. Por fim, para se verem livres destes incessantes
interrogatórios, disseram-lhe, ou, antes, explicaram-lhe por gestos, que
as crianças haviam sido levadas para a cidade onde os turcos estavam a
construir uma ponte. Débil e agitada, ela pôs-se a caminho rumo à cidade
e começou a vaguear em redor da barca e do local das obras, fitando
receosamente os olhos dos homens que encontrava por ali e perguntando,
por meio de incompreensíveis tartamudeies, pelas crianças. Os homens
olhavam-na espantados ou desembaraçavam-se bruscamente dela para que a
jovem não lhes estorvasse o trabalho. Vendo que não compreendiam o que
desejava, ela desabotoava a sua grosseira blusa de camponesa e mostrava-
lhes os seios, doloridos e inchados, nos quais os mamilos tinham já
começado a estalar e a sangrar devido ao leite que deles fluía
irresistivelmente. Ninguém sabia como a ajudar e explicavam-lhe que as
crianças tinham sido emparedadas na ponte, pois perante toda a espécie de
palavras, afirmativas, pragas e ameaças ela somente tartamudeava
sofredoramente e, com furtivos olhares, penetrantes e desconfiados,
espreitava para todos os cantos. Por fim deixaram de a perseguir e
permitiram-lhe vaguear em redor da obra, evitando-a com dorida compaixão.
Os cozinheiros davam-lhe da comida que tinha ficado no fundo dos
caldeiros. Chamavam-lhe a louca Ilinka, e logo a cidade a começou a
denominar assim. O próprio Abidaga passava por ela sem a amaldiçoar,
voltando a cabeça supersticiosamente e ordenando que lhe dessem esmola.
Deste modo ela continuou a viver por ali, como uma idiota inofensiva. E
foi por causa da sua história que se criou a lenda de que os turcos
tinham emparedado crianças na ponte. Houve quem acreditasse, mas também
quem não desse crédito a tal narrativa; porém, de uma maneira ou de
outra, foi repetida e espalhou-se por longes terras.

Entretanto continuavam a verificar-se danificações, em maior ou menor


escala, e com ela difundiram-se com maior persistência os rumores de que
os vilas não permitiriam que se construísse uma ponte sobre o Drina.

Abidaga estava furioso. Encolerizava-o o facto de haver quem ousasse


empreender qualquer acção daninha contra o seu trabalho ou as suas
intenções, apesar da sua proverbial severidade, que ele cultivava como
motivo especial de orgulho.

35

Toda esta gente lhe causava repulsa, quer se tratasse de turcos ou


cristãos; lentos e inábeis nas suas tarefas, mofavam de tudo, denotavam
bem pouco respeito e somente sabiam encontrar, com bastante pertinácia,
motivos de zombaria ou palavras corrosivas ante o que não compreendiam ou
não sabiam realizar. Fez postar guardas nas duas margens do rio. Os danos
provocados nos revestimentos cessaram então, mas os estragos causados nos
trabalhos de construção no rio continuaram. Somente nas noites de luar se
não verificavam prejuízos. Tal bastou para confirmar a Abidaga, que não
acreditava em vikts, a crença de que estas não eram invisíveis e não
desciam das alturas. Durante longo tempo não quis, ou não pôde, acreditar
naqueles que diziam que os danos eram obra de manhosos camponeses, mas
agora estava convencido de que a origem não era outra. E tal certeza fê-
lo ferver com ainda mais intensa fúria. Porém sabia que devia mostrar-se
calmo e ocultar a sua cólera se desejava desmascarar estas pestes e
acabar de uma vez para sempre com as histórias que se contavam sobre
vilas e a origem das interrupções de trabalho verificadas na ponte, as
quais se estavam a tornar demasiado perigosas. Fez vir à sua presença o
comandante da guarda, um homem de Plevjle, indivíduo pálido e doentio que
fora criado em Istambul.

Os dois odiavam-se instintivamente e sempre que se encontravam na


presença um do outro a chama do conflito esboçava-se--lhes, vivaz, nos
olhos. Entre eles teciam-se permanentemente incompreensíveis sentimentos
de ódio, aversão, medo e desconfiança. Abidaga, que não alardeava
maneiras suaves ou corteses em relação a ninguém, mostrava incontrolável
repulsa por este renegado de pálidas faces. Tudo o que ele fazia ou dizia
causava a Abidaga tal frenesi que dava origem a que o amaldiçoasse e
humilhasse; contudo, quanto mais este homem se rebaixasse e o tratasse
cerimoniosamente maior se tornava a aversão que Abidaga nutria contra
ele. Logo no seu primeiro encontro o comandante dos guardas se sentira
possuído de tão supersticioso e terrível terror em relação a Abidaga que
este se lhe tornara um pesadelo que jamais o abandonava. Não dava um
passo ou fazia um movimento, muitas vezes mesmo nos seus sonhos, que não
pensasse: «Que dirá disto Abidaga?» Tentava, mas em vão, agradar-lhe e
cumprir os seus desejos. Tudo o que partia dele era aceite com desdém por
Abidaga. E esse ódio incompreensível embaraçava e desconcertava de tal
modo o homem de Plevlje que o entontecia e transtornava ainda mais. Cria
que, devido a Abidaga, havia de perder um dia não só o emprego e a
posição, como a cabeça.

36

Por isso vivia num estado de permanente agitação, que o fazia passar de
um entorpecedor desencorajamento para um zelo cruel e febril. Agora que,
pálido e retesado, se encontrava perante Abidaga, este declarou-lhe numa
voz rouca de cólera:

— Escuta, idiota, tu conheces as manhas destes filhos de uma cadela, a


sua linguagem e os seus malditos expedientes. Contudo, és incapaz de
descobrir quem é o tratante que ousa arruinar esta empresa do vizir. Isto
acontece porque tu próprio és também um tratante como eles e o único
patife, no fim de contas, é quem te fez comandante e não achou ninguém
que te desse a recompensa que mereces. É o que farev já que não há outro.
Tem bem presente na memória que te farei enterrar na terra de maneira a
não dares nem sequer a sombra que lança a erva mais fina e mais curta se
os danos provocados na ponte não cessarem dentro de três dias. Se não
apanhares quem quer que lhes dê origem e não puseres cobro a estas
estúpidas histórias que se contam acerca dos vilas e das interrupções do
trabalho, fica ciente de que te farei colocar vivo num poste na parte
mais alta dos tabuleiros para que todos te possam ver e se amedrontem de
maneira a fazerem voltar o juízo às suas cabeças. Declaro-o pela minha
vida e pela minha fé, que não invoco por um motivo fútil. Hoje é quinta-
feira. O prazo que te concedo expira no domingo. Agora vai para o Diabo
que te carregue. Vá. Põe-te a andar!

Mesmo sem tal jura, o homem de Plevlje teria acreditado na ameaça de


Abidaga, pois até nos seus sonhos ele costumava estremecer ante estas
palavras e este olhar. Saiu, dominado por um acesso de imenso pânico, e
entregou-se logo e desesperadamente ao trabalho. Convocou os seus homens
e, passando bruscamente de paralisante torpor a louca cólera, começou a
amaldiçoá-los.

— Vocês, cegos e inúteis... — rugiu o homem de Plevlje como se estivesse


já colocado vivo no poste, gritando no rosto de cada um deles. — É assim
que vocês montam guarda e velam pelos interesses do sultão? Vocês são
bastante expeditos e vivazes quando se dirigem para os caldeiros da
cozinha, mas quando se encontram no cumprimento dos deveres têm as pernas
pesadas como chumbo e a mente embotada. Tenho vergonha de vocês. Mas não
preguiçarão mais durante o serviço. Chaciná-los-ei a todos; nenhum de
vocês conservará a cabeça sobre os ombros se no prazo de dois dias não
apanharem e matarem estes canalhas. Têm mais dois dias de vida. Juro-o
pela minha fé e pelo Corão!
Continuou a gritar desta maneira durante longo tempo. Depois, não sabendo
que mais dizer-lhes ou com que mais ameaçá-los, cuspiu-lhes na cara, a um
por um.

37

Mas logo que se desempenhou da primeira incumbência e se libertou da


pressão do seu terror (que tomara a forma de cólera) entregou-se
imediatamente à sua tarefa com desesperada energia. Passou a noite para
cá e para lá nas margens do rio com os seus homens. A certa altura
pareceu-lhes ouvir ruídos provenientes de um dos andaimes armados na zona
mais distante do rio e para lá se dirigiram rapidamente. Ouviram uma
tábua estalar e uma pedra cair ao rio, mas quando chegaram ao local
deparou-se-lhes apenas um andaime danificado e parte da cantaria
despedaçada; porém não deram fé sequer do mais leve vestígio que
indicasse a presença por ali dos miseráveis. Face a este vazio espectral,
os guardas estremeceram de supersticioso pavor devido à escuridão e à
humidade da noite. Chamaram-se uns aos outros, perscrutaram as trevas,
agitaram tochas acesas, mas tudo foi inútil. Havia-se perpetrado novo
dano e os seus autores ficariam impunes, como se, na realidade, fossem
invisíveis.

Na noite seguinte o homem de Plevlje dispôs melhor a sua rede. Mandou


novamente alguns dos seus homens para a margem oposta, e quando a noite
caiu pôs vários guardas de atalaia no último andaime; ele próprio, com
dois outros, instalou-se num barco que fizera deslocar pela calada, na
escuridão, para a margem esquerda. Daí, em poucas passadas, podia atingir
um dos dois pilares cuja construção já fora iniciada. Deste modo podia,
de dois lados, cair sobre os miseráveis de forma que não conseguissem
escapar-se, a menos que tivessem asas ou fossem capazes de nadar debaixo
de água.

Durante toda aquela gélida noite o homem de Plevlje permaneceu no barco,


coberto com peles de carneiro, atormentado pelos sombrios pensamentos que
lhe redemoinhavam na mente; cumpriria realmente Abidaga a sua ameaça de
lhe tirar a vida, a qual, sob as ordens de tal chefe, não era, em
qualquer caso, vida, mas somente tormento e terror? Mas ao longo de toda
a obra nem um murmúrio sequer se ouvia, a não ser o sussurro monótono das
ocultas águas. Assim amanheceu, e o homem de Plevlje sentiu em todo o seu
corpo entorpecido que a sua vida, mergulhando já na escuridão, se
aproximava do fim.

Na noite seguinte, a terceira e a última, houve a mesma vigília, os


mesmos preparativos, o mesmo escutar receoso. Passou-se a meia-noite. O
homem de Plevlje sentia-se possuído de mortal apatia. Mas a dada altura
ouviu um ligeiro patinhar e, depois, mais audível, uma pancada nas
estacas de carvalho enterradas no rio, sobre as quais assentava o
tabuleiro. Soou um agudo assobio. Mas o barco do comandante já se movera.

38

De pé, rígido, ele perscrutou a escuridão, agitando as mãos e gritando


numa voz rouca:

— Remem, remem...

Os homens, semidespertos, remaram vigorosamente, mas uma corrente forte


apanhou o barco mais cedo do que devia. Em vez de atingir o tabuleiro, o
barco ultrapassou-o. Foram incapazes de remar contra a corrente e teriam
sido arrastados para muito longe se um acaso os não tivesse detido.

Ali, bem no meio da força da corrente, onde não havia nem estacas nem
andaimes, o barco embateu contra algo pesado que, com o choque, emitiu um
som cavo de madeira. Só então se aperceberam de que no andaime acima
deles os guardas se batiam com alguém. Os guardas, renegados oriundos da
região, gritavam todos à uma; caíram uns sobre os outros na escuridão,
numa confusão de gritos estrangulados e incompreensíveis:

— Apanha aí, não largues!

— Eh, camaradas, aqui!

— Sou eu!...

No meio do clamor distinguia-se o chapinhar de um objecto pesado ou de um


corpo humano na água.

O homem de Plevlje não teve, durante alguns momentos, a certeza de onde


se encontrava ou do que acontecia, mas logo que recobrou a presença de
espírito começou a puxar com um comprido croque, firmado nas estacas
contra as quais o barco batera, conseguindo puxar o barco corrente acima
e aproximar-se cada vez mais do andaime. Pouco depois achava-se sobre as
estacas de carvalho e, tomando fôlego, gritou a plenos pulmões:

— Luzes! Acendam um archote aqui! Lancem-me uma corda! A princípio


ninguém respondeu. Então, após vários gritos que nenhum escutava ou
compreendia, uma débil tocha bruxuleou, incerta e caprichosamente, no
alto. A primeira centelha de luz somente ofuscou ainda mais os olhos e
confundiu, num vertiginoso rodopio, homens, coisas e sombras com os
rubros reflexos na água. Mas depois outro archote flamejou em mão
diferente. A luz tornou-se firme e os homens começaram a aproximar-se e a
reconhecerem-se uns aos outros. E pouco depois tudo se mostrou claro e
explicável.

Entre o barco do homem de Plevlje e o andaime achava-se uma pequena


jangada constituída somente por três tábuas; à frente encontrava-se um
remo, um verdadeiro remo de jangadeiro, apenas mais curto e mais delgado.
A jangada estava amarrada com um cabo a uma das estacas sob o andaime, e
mantida assim contra a corrente rápida das águas que rumorejavam em redor
dela, tentando com todo o seu ímpeto arrastá-la rio abaixo.

39

Os guardas instalados no tabuleiro ajudaram o comandante a atravessar a


jangada e a subir até junto deles. Todos se sentiam estonteados e sem
fôlego. Nas tábuas jazia um camponês cristão. O seu peito arfava rápida e
violentamente e os seus olhos, saídos das órbitas, mostravam o terror que
o possuía.

O mais velho dos quatro guardas explicou ao seu excitado superior que
tinham exercido apertada vigilância em vários pontos do tabuleiro. Quando
ouviram o ruído dos remos na escuridão pensaram que se tratava do barco
do comandante, mas tinham sido suficientemente hábeis para não se
mostrarem e esperarem os acontecimentos. Depois deram-se conta de que
dois camponeses se aproximavam dos pilares e, com alguma dificuldade,
amarraram a jangada a um deles, Deixaram-nos subir e, logo que os viram
entre eles, atacaram-nos com machados, dominando-os e prendendo-os. Um,
que ficara inconsciente depois de derrubado, tinha sido manietado
facilmente, mas o outro, após fingir-se semimorto, escapara-se como um
peixe através das vigas e atirara-se à água. O assustado guarda
interrompeu a narração e o homem de Plevlje gritou:

— Quem o deixou fugir? Digam-me quem o deixou fugir ou faço-os a todos em


pedaços!

Os homens ficaram calados e a pestanejar ante a luz rubra e trémula,


enquanto o comandante dava largas passadas em redor como que a perscrutar
a escuridão, vociferando impropérios que nunca nenhum deles jamais lhe
ouvira. Depois, deteve-se subitamente e inclinou-se sobre o camponês
amarrado como se ele fosse um tesouro precioso e começou a falar entre
dentes, numa voz surda e lacrimosa.

— Vigiem-no, vigiem-no bem, canalhas! Se o deixarem escapar-se nem um só


de vós conservará a cabeça sobre os ombros. Os guardas cercaram o
camponês. Dois mais vieram apressadamente juntar-se-lhes, vindos, na
barca, da margem oposta. O homem de Plevlje ordenou-lhes que amarrassem
mais fortemente o prisioneiro. Assim, transportaram-no como a um cadáver,
lenta e cuidadosamente, para a margem. O homem de Plevlje acompanhou-os,
sem olhar o caminho que pisava e sem desviar a vista do camponês.
Parecia-lhe que a cada passo crescia de estatura e que somente a partir
desse momento começava a viver.

Na margem novos archotes principiaram a tremeluzir. O cativo foi


encerrado numa das barracas dos trabalhadores, onde ardia uma fogueira, e
amarrado firmemente a um poste com cordas e correntes retiradas da
lareira.

40

Era o próprio Radisav de Uniste.

O homem de Plevlje acalmou-se levemente; já não bramia nem praguejava,


mas não era capaz de se conservar quieto. Mandou guardas pelas margens do
rio em busca do camponês que se lançara à água, embora fosse evidente
que, numa noite tão escura e caso ele não se tivesse afogado, seria
impossível encontrá-lo. Deu ordens sobre ordens, saiu e entrou novamente,
ébrio de excitação. Começou a interrogar o camponês amarrado, mas pouco
depois desistiu também. Procurava somente conter e dissimular o seu
nervosismo, pois tinha, na verdade, apenas um pensamento na cabeça:
esperava por Abidaga, que não tardou a chegar.

Logo que acordou do primeiro sono, Abidaga, que, como era seu hábito,
despertava pouco depois da meia-noite, não mais conseguindo dormir,
aproximou-se da janela e perscrutou a escuridão. De dia divisava da sua
varanda em Bikovac toda a extensão do vale ribeirinho e o conjunto dos
trabalhos da construção, com as barracas, os moinhos, os estábulos e todo
aquele espaço devastado e em desordem à volta. Agora, na escuridão,
adivinhava a sua presença e pensava com amargura quão lentamente a obra
avançava, e que este estado de coisas chegaria, mais cedo ou mais tarde,
aos ouvidos do vizir. Alguém se encarregaria certamente de o revelar. E,
na falta de outro, esse adulador frio e oportunista Tosun Effendi. Então
poder-se-ia seguramente vaticinar que cairia em desgraça perante o vizir.
Era isso que o impedia de dormir e, quando conseguia adormecer, o fazia
tremer de inquietação nos sonhos. O seu alimento parecia-lhe veneno, os
homens odiosos e a vida sombria quando pensava nos seus infortúnios.
Desonra... Era mais que certo que seria banido da presença do vizir, que
os seus inimigos haviam de rir na sua cara — ah! tudo menos isso! —, que
nada seria nem ninguém, mas apenas um farrapo, um imprestável, não
somente aos olhos dos outros, mas também aos seus. Teria certamente de
renunciar aos seus bens estrenuamente agenciados, ou, se os conseguisse
conservar, teria de os transferir, sem que o suspeitassem, para longe de
Istambul, para uma obscura localidade perdida nos confins do império,
onde viveria esquecido, supérfluo, ridículo, naufragado. Não, tudo menos
isso! Era melhor não ver o Sol, não respirar. Seria cem vezes melhor não
ser ninguém nem nada ter. Eis os pensamentos que sempre lhe acudiam à
mente e que várias vezes ao dia lhe punham o sangue a latejar penosamente
no cérebro e nas têmporas.

41
Noutros momentos, mesmo estas reflexões não o deixavam completamente,
conservavam-se como sombria nuvem no seu espírito. Eis o que a desonra
para si significava; e ela podia em qualquer instante abater-se sobre a
sua vida, pois que todos pareciam apostados em lançá-lo para o abismo.

Porém, ele defrontava-a e dela se defendia; era um homem que lutava


contra todos e contra tudo. Batera-se assim durante quinze anos, até ao
próprio momento em que o vizir lhe confiara uma tarefa magnífica. Quem a
poderia levar a bom termo? Quem poderia dormir, tranquilo, entre tais
escolhos?

Embora fosse uma noite de Outono, fria e húmida, Abidaga abriu a janela e
fixou a escuridão, pois o aposento, fechado, parecia-lhe sufocante. Então
distinguiu luzes e movimentos nos andaimes e ao longo das margens. Ao
notar que isto aumentava de forma desusada, pensou que um acontecimento
invulgar devia ter acontecido na obra. Assim, vestiu-se e despertou o
criado. Chegou ao estábulo iluminado precisamente no momento em que o
homem de Plevlje já não sabia que imprecações vociferar, a quem dar
ordens e o que fazer para matar o tempo.

A chegada inesperada de Abidaga desnorteou-o completamente. Esperara com


grande ansiedade este instante; porém, agora que chegara, não sabia como
arrancar dele os frutos que imaginara. Tartamudeava na sua excitação e
esquecera-se por completo dos eventos relacionados com o camponês que ali
se encontrava amarrado. Abidaga olhou-o desdenhosamente, de relance, e
aproximou-se imediatamente do prisioneiro.

Tinham acendido no estábulo um: grande fogo, ao qual os guardas lançavam,


uma vez por outra, algumas achas a fim de aquecer todo o recinto.

Abidaga baixou os olhos para fitar o camponês, pois era muito mais alto
que o homem. Estava calmo e pensativo. Todos esperavam que começasse a
falar, mas ele achava-se imerso nos seus pensamento: «Então é este o
homem com quem tive de me bater e defrontar, foi disto que dependeram a
minha posição e a minha fortuna; do renegado desprezível e semi-idiota de
Plevlje e da incompreensível e obstinada oposição deste miserável rayab.»
Depois encolheu os ombros, começando então a dar ordens e a interrogar o
camponês.

O estábulo encheu-se de guardas, e de fora podiam ouvir-se as vozes dos


capatazes e dos trabalhadores que haviam despertado. As perguntas de
Abidaga eram feitas por intermédio do homem de Plevlje.

42

Radisav disse primeiramente que ele e um companheiro, após terem decidido


fugir, tinham preparado uma pequena jangada que fizeram navegar rio
abaixo. Quando lhe apontaram a inconsistência desta história — era
impossível descer na escuridão o rio turbulento, cheio de redemoinhos,
rochedos e baixios; além disso, os que querem escapar-se não trepam aos
andaimes e provocam danos na obra — ele ficou calado e somente murmurou,
ensimesmado:

— Bem, estou nas vossas mãos. Façam o que quiserem.

— Cedo saberás o que queremos — retorquiu Abidaga.

Os guardas removeram-lhe as correntes e despiram-no até à cintura.


Lançaram as correntes para o meio do fogo e aguardaram. Depois de as
correntes terem aquecido ao rubro, Merdjan, o cigano, aproximou-se e
prendeu com um longo par de tenazes uma extremidade, enquanto um dos
guardas se encarregava da outra.

O homem de Plevlje traduziu as palavras de Abidaga.

— Talvez agora nos contes toda a verdade.

— Que tenho eu para lhes contar? Sabem tudo e podem fazer o que quiserem.

Os dois homens trouxeram as correntes e envolveram nelas o peito largo e


cabeludo do camponês. O cabelo, chamuscado, começou a crepitar. A boca
contraiu-se-lhe, as veias do pescoço incharam, as costelas pareceram
querer furar a pele e os músculos do estômago retesaram-se e distenderam-
se como quando se vomita. Ele gemeu de dor, forçou as cordas que o
ligavam e contorceu-se em vão para diminuir o contacto do corpo com o
ferro ao rubro. Os olhos fecharam-se-lhe e as lágrimas deslizaram-lhe
rosto abaixo. Tiraram-lhe as correntes.

— Isto é apenas o princípio. Não achas, agora, que é preferível dizer a


verdade?

O camponês respirou profundamente pelo nariz e continuou calado.

— Quem era o teu companheiro ?

— Chama-se Jovam, mas não sei onde vive nem donde é.

Trouxeram novamente as correntes, e os cabelos e a pele, queimados,


voltaram a crepitar. Tossindo, devido ao fumo, e gemendo de dor, o
camponês começou a falar espasmodicamente.

Ele e o companheiro haviam combinado destruir o trabalho da ponte.


Pensaram ser esse o seu dever, e, assim, procuraram cumpri-lo. Ninguém
mais se dera conta da sua acção ou colaborara nela. Começaram por
diversos pontos da margem, alcançando êxito absoluto. Mas ao darem fé da
presença dos guardas nos andaimes e ao longo das margens pensaram juntar
três pranchas a fim de formarem uma jangada, e deste modo, sem que os
pressentissem, aproximaram-se da obra, partindo do rio.

43
Isso acontecera três dias antes. Na primeira noite quase os surpreendiam,
de maneira que se afastaram. Na noite seguinte nem sequer tentaram sair.
Quando, na terceira noite, fizeram, na jangada, rumo à ponte, acontecera
o que todos já sabiam.

— É tudo. Eis como agimos. Agora façam o que quiserem.

— Não, não, não é isso o que desejamos. Diz-nos de quem recebeste ordens
para tal acção! O que até agora sofreste nada é em comparação com o mais
que te espera!

— Bem, façam, o que quiserem.

Então Merdjan aproximou-se com uma pinça. Ajoelhou-se diante do camponês


e começou a arrancar-lhe as unhas dos pés nus. O homem continuou calado e
cerrou os dentes, mas um estranho estremecimento sacudiu-lhe todo o corpo
até à cintura, embora estivesse ligado, o que indicava que a dor devia
ter sido excepcionalmente forte. Momentos depois o camponês deixou
dolorosamente escapar algumas palavras, murmuradas entre dentes. O homem
de Plevije, atento a cada palavra, na ávida expectativa da confissão, fez
um sinal ao cigano para que se detivesse e perguntou imediatamente:

— Que era? Que disseste?

— Nada. Disse apenas: Porquê, em nome de Deus, desperdiçam o vosso tempo


a torturar-me?

— Diz-nos de quem recebias instruções para agires.

— Quem me dava instruções? Ora, o Demónio.

— O Demónio?

— O Demónio. Certamente o mesmo demónio que vos fez construir aqui a


ponte!

O camponês falava mansamente, mas com clareza e decisão.

«O Demónio! Uma estranha palavra, proferida com bastante amargura numa


situação invulgar. O Demónio! O Demónio deve certamente vaguear por
algures neste mesmo local», pensou o homem de Plevije, de pé, com a
cabeça baixa, como se a sua posição e a do supliciado se tivessem
invertido. As palavras tocaram-no num ponto sensível e nele despertaram
subitamente todas as suas ansiedades e terrores, como se não tivessem
sido dissipados com a captura do culpado. Na verdade, talvez tudo o que
se relacionava com Abidaga, a construção da ponte e o camponês louco
fosse obra do Demónio. O Demónio! Talvez que devesse ser ele a única
coisa a recear. O homem de Plevije foi sacudido por um espasmo de
angústia. Nesse momento a voz potente e irada de Abidaga fê-lo volver das
suas cogitações.

44
— Que se passa contigo? Dormes, parasita? — gritava ele, desferindo, com
o seu curto chicote de couro, um golpe na bota direita.

O cigano achava-se ainda ajoelhado com a pinça na mão, os olhos negros


brilhantes, assustados e humildes voltadas para cima, fitos na figura
gigante de Abidaga. Os guardas aglomeraram as brasas do fogo, que chiava
já, fazendo luzir o estábulo como uma fornalha. O que naquela noite
parecera uma construção sombria e indistinta transformara-se subitamente,
alargara-se, ampliara-se. No estábulo e em redor dele reinava uma espécie
de solene emoção e um silêncio especial que domina os lugares onde se
arranca uma confissão, um homem é torturado ou onde ocorrem coisas
funestas. Abidaga, o homem de Plevije e o camponês supliciado moviam-se e
expressavam-se como actores e todos os outros caminhavam nas pontas dos
pés, de olhos baixos, sem falar, a não ser que os obrigassem, e quando o
faziam apenas emitiam breves murmúrios. Todos desejavam encontrar-se
algures e não neste lugar nem a cumprir tais incumbências. Mas já que tal
não1 sucedia, baixavam a voz e moviam-se o menos que podiam, como a
quererem manter-se quanto possível afastados deste assunto.

Vendo que o interrogatório prosseguia lentamente e não indicava poder


fornecer resultados satisfatórios, Abidaga, com movimentos de impaciência
e a praguejar num tom de voz ressonante, saiu do estábulo. Após ele
marchou, cambaleante, o homem de Plevije, seguido pelos guardas.

Amanhecia. O Sol não nascera ainda, mas todo o horizonte estava claro.
Amontoadas no meio das colinas, as nuvens recortavam-se em longos
retalhos púrpura e entre elas distinguia-se o céu claro, de uma
tonalidade quase verde. Sobre a terra humedecida flutuava um manto de
neblina, no qual se recortavam as copas das árvores de fruto com folhas
amareladas esparsas. Ainda brandindo o chicote que fazia estalar nas
botas, Abidaga dava ordens: o criminoso devia continuar a ser
interrogado, especialmente acerca dos seus comparsas, mas sem que o
torturassem demasiadamente, pois podia não resistir. Era necessário que
apressassem tudo, de modo que na tarde desse mesmo dia ele fosse empalado
vivo na parte mais saliente da obra e no ponto mais alto, a fim de que
toda a cidade e todos os trabalhadores pudessem observá-lo das margens do
rio; Merdjan devia fazer os preparativos convenientes e o pregoeiro
anunciaria a execução em todos os bairros da cidade para que ao meio-dia
o povo desse conta do que acontecia àqueles que se opunham à construção
da ponte e para que toda a população masculina, tanto turcos como rayah,
das crianças aos anciães, se reunissem numa ou noutra das margens para a
testemunharem.

45

Era domingo o dia que estava a nascer. Aos domingos o trabalho não era
interrompido, mas hoje até os capatazes se mostravam distraídos. Logo que
a manhã rompeu espalharam-se as novas de que o criminoso fora preso e
torturado e que a sua execução teria lugar ao meio-dia. A grave quietude
que pairava sobre o estábulo propagou-se a toda a área da obra. Os homens
a quem era imposto trabalho obrigatório mourejavam silenciosamente, cada
um evitando olhar para o vizinho, fixando-se somente na tarefa que tinham
de realizar como se isso fosse o princípio e o fim do seu mundo. A partir
das onze horas, o povo, na sua maioria turcos, aglomerava-se num espaço
plano próximo da ponte. As crianças foram guindadas para altos blocos de
pedra de construção que por ali havia. Os trabalhadores encontravam-se em
grande número por volta dos estreitos assentos onde habitualmente lhes
distribuíam as magras rações que os mantinham com vida. Mastigavam no
meio do mais profundo silêncio e olhavam inquietamente em redor. Um pouco
mais tarde surgiu Abidaga, acompanhado por Tosun Effendi, Mastro António
e um ou dois dos turcos mais proeminentes. Todos se instalaram num
pequeno e seco cômoro entre a ponte e o estábulo no qual se encontrava
encerrado o condenado. Abidaga dirigiu-se uma vez mais ao estábulo, onde
lhe comunicaram que tudo estava em ordem. Aí achava-se uma estaca de
carvalho com cerca de cinco metros de comprimento, aguçada como era
preciso, e rematada com uma ponta de ferro, muito fina e afiada; a estaca
achava-se bem untada com banha de porco. No andaime tinham sido colocados
os blocos entre os quais a estaca seria incrustada e pregada, um macete
de madeira destinado ao empalamento, cordas e o mais que era necessário.

O homem de Plevlje encontrava-se muito agitado, com o rosto terroso e os


olhos raiados de sangue. Mesmo agora não se sentia capaz de suportar os
olhos chamejantes de Abidaga.

— Escuta, tu! Se a execução não decorrer com os devidos cuidados e se me


ridicularizares em público, que nem tu nem o canalha do cigano me
apareçam mais, pois que os lançarei ao Drina, como um par de cachorros,
com uma venda nos olhos.

Depois, voltando-se para o cigano, que tremia apavorado, disse com mais
brandura:

Apanharás seis grosh pelo trabalho e outros seis se ele se conservar com
vida até ao cair da noite. Faz por isso.

46

O hodja gritava o seu pregão da mesquita principal, na praça do mercado,


com um tom de voz claro e agudo. A inquietação propagou-se entre o povo e
alguns momentos mais tarde a porta do estábulo abriu-se. Dez guardas
formaram em duas fileiras, cinco de cada lado. Entre eles estava Radisav,
de pés e cabeça nus, com o seu ar vigilante e, como sempre, curvado, mas
agora já não semeava enquanto caminhava. Marchava estranhamente, em
passadas curtas, quase aos pulos, com os pés mutilados. Onde tivera as
unhas havia agora feridas sangrando; nos ombros carregava uma estaca
branca e afilada. Atrás dele seguia Merdjan com dois outros ciganos, que
iriam servir-lhe de ajudantes na execução. Bruscamente, de algures surgiu
o homem de Plevlje, que, montado no seu cavalo baio, tomou lugar à testa
do cortejo; este tinha somente de avançar cerca de cem passos para
atingir o primeiro andaime.

Os populares estendiam o pescoço e punham-se nas pontas dos pés para


verem o homem que maquinara a trama e destruíra parte da obra. Ficaram
surpreendidos ao observar a aparência miserável do pobre homem, que
haviam imaginado inteiramente diferente. Naturalmente, nenhum deles sabia
o que ele esperava ao conduzir-se de maneira tão jocosa e dando pequenos
passos abruptos, e ninguém pôde distinguir as queimaduras das correntes
que, como amplos cintos, lhe tinham envolvido o peito, pois a camisa e o
gibão escondiam-nas. Portanto, ele pareceu ao povo demasiado miserável e
insignificante para haver realizado a façanha que originara a sua
execução. Somente a longa estaca branca dava uma espécie de macabra
grandeza à cena e mantinha os olhos de todos fixados nele.

Quando atingiram o local da margem onde tinham sido iniciados os


trabalhos para as fundações, o homem de Plevlje desmontou e, com um ar um
tanto solene e teatral, entregou as rédeas a um ajudante; depois perdeu-
se, com os outros, no caminho lamacento e escalvado que descia até à
beira da água. Um pouco mais tarde o povo viu-os novamente ao surgirem,
na mesma ordem, no tabuleiro, a que ascendiam lenta e cautelosamente. Nas
passagens estreitas, feitas de pranchas e vigas, os guardas rodearam
Radisav cerradamente, não se afastando dele com receio de que se lançasse
à água. Caminhavam a custo e com lentidão, detendo-se, por fim, no ponto
mais alto. Aí, a grande altura da água, achava-se um pequeno espaço
assoalhado, quase do tamanho de uma pequena sala. Nele, como num
palanque, tomaram lugar Radisav, o homem de Plevlje e os três ciganos; os
restantes guardas postaram-se em redor deles no tabuleiro. A multidão
movia-se inquieta. Apenas cem passos a separavam das pranchas, de modo
que distinguiam cada homem e cada movimento, mas não podiam ouvir
palavras nem descortinar pormenores.

47

O povo e os trabalhadores que se encontravam na margem esquerda estavam


cerca de três vezes mais afastados; mudavam quanto podiam de posição e
faziam os maiores esforços para tentar ver e ouvir melhor. Mas nada
conseguiam ouvir e o que lhes foi possível distinguir pareceu-lhes
imediatamente vulgar e sem interesse; por fim a cena tornou-se tão
horrível que desviaram os olhos e muitos regressaram rapidamente a casa,
lamentando terem-se deslocado para assistir a tal espectáculo.

Quando ordenaram a Radisav que se estendesse no solo, o infeliz hesitou


um momento. Mais tarde, volveu o olhar para longe dos ciganos e dos
guardas, alheio à sua presença; depois aproximou-se do homem de Plevlje e
disse quase confidencialmente, numa voz tersa e mansa, como se falasse
para um amigo:
— Por amor de Deus, faz com que me perfurem bem o corpo para que não
sofra como um cão.

O homem de Plevlje sobressaltou-se e gritou-lhe, como a defender-se


daquela aproximação tão íntima.

— Marcha, covarde! Tu que tiveste a coragem bastante para destruir a obra


do sultão, pedes agora clemência como uma mulher. Tudo decorrerá como foi
previsto e como mereces.

Radisav baixou ainda mais a cabeça. Os ciganos abeiraram-se e começaram a


rasgar-lhe em tiras a camisa e o gibão. No peito do supliciado ficaram a
descoberto, vermelhas e inchadas, as feridas causadas pelas correntes.
Sem mais uma palavra, o camponês estendeu-se no solo como lhe fora
ordenado, o rosto para o chão. Um dos ciganos ligou-lhe as mãos atrás das
costas; em seguida, atou cada uma das pernas, à volta do tornozelo, com
uma corda. Depois os dois ciganos puxaram, cada um para o seu lado, um
pedaço de corda, afastando-lhe bem as pernas. Entretanto Merdjan colocava
a estaca sobre dois pequenos tacos de madeira, a apontar para o meio das
pernas do camponês. A seguir sacou do cinto uma pequena navalha de lâmina
larga, ajoelhou-se diante do corpo distendido e inclinou-se sobre ele a
fim de lhe cortar o tecido das calças e alargar a abertura através da
qual o poste lhe perfuraria o corpo. Esta fase mais horrível da sangrenta
tarefa não puderam, por sorte, lobrigar os curiosos. Viam apenas o corpo
ligado que o curto e inesperado golpe de navalha fez estremecer e depois
levantar-se até meio, como se fosse erguer-se, para logo cair, embatendo
com um ruído surdo nas vigas. Findo isto, o cigano levantou-se de um
salto, pegou no macete de madeira e com pancadas lentas e calculadas fez
penetrar a extremidade aguçada da estaca.

48

Entre cada dois golpes detinha-se por um momento e olhava, em primeiro


lugar, para o corpo do condenado, e, depois, para os dois ciganos,
recomendando-lhes que puxassem lenta e uniformemente. O corpo do camponês
estorcia-se convulsivamente; a cada pancada do macete a espinha torcia-se
e arqueava-se, mas as cordas puxavam-no e conservavam-no rígido. Era tal
o silêncio nas duas margens do rio que podiam ouvir-se distintamente, de
qualquer ponto da margem escarpada, não só os ruídos produzidos por cada
pancada, como também os seus ecos. Os que se encontravam mais próximos
ouviam a fronte do homem bater centra as tábuas e, mais ainda, um outro
ruído inabitual, que não era nem um grito nem um lamento, um queixume ou
um som humano; aquele corpo rígido e convulso parecia chiar e emitir
estalidos como uma cerca a abater-se ou uma árvore a cair por terra. Após
cada pancada o cigano examinava minuciosamente o corpo a fim de observar
se a estaca seguia na direcção certa; depois de verificar que não tocara
nenhum dos órgãos internos mais importantes, prosseguiu o seu trabalho.
Das margens mal podia ouvir-se e ainda menos ver-se esta hedionda tarefa,
mas ninguém arredava pé. Todos tremiam e tinham o rosto pálido e os dedos
gelados do frio.

Por um momento o bater do macete cessou. Merdjan reparou que, rente aos
músculos do ombro direito, a pele estava esticada e entumescida.
Rapidamente, cortou essa região com dois golpes cruzados. Sangue pálido
fluiu, a princípio lentamente, depois com rapidez crescente. Após vibrar
mais dois ou três golpes leves e cautelosos, a ponta de ferro da estaca
começou a aparecer através da região ferida. Depois de mais algumas
pancadas a ponta da estaca atingiu o nível do ouvido direito. O homem
estava empalado na estaca como um cordeiro no espeto, com a única
diferença de que a ponta não o penetrara através da boca, mas das costas,
e não danificara seriamente os intestinos, o coração ou os pulmões. A
seguir Merdjan lançou o macete para o solo e aproximou-se. Observou o
corpo imóvel, evitando o sangue que escorria dos pontos por onde a estaca
penetrara e saíra novamente e se acumulava em pequenas poças nas tábuas.
Os dois ciganos voltaram o corpo rígido de costas e começaram a ligar as
pernas à base da estaca. Entretanto Merdjan verificou se o homem ainda
estava vivo, examinando cuidadosamente o rosto que inchara subitamente e
se tornara mais comprido e largo. Os olhos encontravam-se completamente
abertos e agitados, com as pálpebras imóveis, a boca escancarada, os
lábios rígidos e contraídos; entre eles alvejavam os dentes cerrados.
Como o infeliz não podia já controlar alguns dos músculos faciais, o
rosto assemelhava-se a uma máscara.

49

Porém, o coração batia pesadamente e os pulmões funcionavam com


respiração curta e rápida. Os, dois ciganos começaram a erguê-lo como se
fosse um carneiro no espeto. Merdjan gritou-lhes para cuidarem de não
sacudirem o corpo; ele próprio se aproximou para os ajudar. Então
incrustaram a extremidade inferior, mais espessa, da estaca entre duas
vigas e fixaram-na aí com dois grossos pregos; em seguida, na parte de
trás e à mesma altura, pregaram um curto pedaço de madeira, a servir de
suporte, à estaca e a uma viga do tabuleiro. Depois, os ciganos desceram
e juntaram-se aos guardas, e naquele espaço aberto, em posição vertical,
com uns bons dois metros e meio, rígido e nu até ao peito, o homem no
poste ficou só. Â distância dificilmente podia imaginar-se que a estaca à
qual lhe tinham ligado as pernas nos tornozelos lhe perfurava o corpo.
Assim, o povo via-o como uma estátua, bem erecta no espaço, na própria
extremidade do tabuleiro, a grande altura do rio.

Um murmúrio e uma vaga de comoção alastraram por entre a multidão que se


encontrava nas margens. Alguns dos curiosos baixaram os olhos e outros
afastaram-se rapidamente em direcção a suas casas sem sequer voltarem a
cabeça. Mas, na maioria, observavam, mudos, esta forma humana, levantada
no espaço, invulgarmente rígida e direita. O medo gelou-lhes as entranhas
e as pernas ameaçaram tremer-lhes; contudo, sentiam-se ainda incapazes de
se moverem ou de desviar os olhos daquela visão. E entre a multidão
aterrorizada serpeava a louca Ilinka, olhando para todos fixamente,
tentando descobrir nos seus olhos um fugidio vislumbre que lhe indicasse
o lugar onde se encontravam os seus filhos sacrificados.

Então o homem de Plevlje, Merdjan e os dois ciganos aproximaram-se do


homem empalado e começaram a examiná-lo mais detidamente. Apenas um leve
fio de sangue corria poste abaixo. O infeliz achava-se vivo e consciente.
As suas costelas dilatavam-se e comprimiam-se, as veias do pescoço
pulsavam e os olhos continuavam a revolver-se lenta mas incessantemente.
Através dos dentes cerrados evolava-se um gemer longo e arrastado de que
se distinguiam algumas palavras imperceptíveis.

— Turcos, turcos... — murmurava, plangente, o homem na estaca. — Turcos


da ponte, Deus queira que acabem todos como cães... como cães.

Os ciganos apanharam os seus utensílios e depois, acompanhados pelo homem


de Plevlje, desceram do tabuleiro para a margem.

50

O povo afastou-se para lhes dar passagem e começou a dispersar. Somente


as crianças, instaladas nos altos blocos de pedra e nas árvores nuas,
ficaram ainda mais alguns instantes — não sabendo se esta cena era a
única ou se haveria outra — a fim de observarem o que aconteceria em
seguida àquele homem estranho suspenso sobre as águas como se tivesse
bruscamente gelado- no meio de um salto.

O homem de Plevlje aproximou-se de Abidaga e anunciou-lhe que tudo se


cumprira conforme as suas instruções e de maneira satisfatória; que o
criminoso ainda vivia e que dava mostras de continuar a viver, pois os
órgãos internos não haviam sofrido dano. Abidaga não respondeu, acenou
apenas com a mão para que lhe trouxessem o cavalo e despediu-se de Tosun
Effendi e de Mastro António. Todos começaram a retirar-se. Podia ouvir-se
a voz do pregoeiro que, na praça do mercado, anunciava que a sentença
fora executada e que castigo igual ou pior estaria destinado a quem, de
futuro, cometesse semelhantes depredações.

O homem de Plevlje ficou, mergulhado em pasmo, no pequeno plaino agora


vazio. O seu ajudante segurava-lhe as rédeas do cavalo e os guardas
esperavam ordens. Sentiu que devia dizer alguma coisa, mas não era capaz,
pois uma onda de comoção percorria-o agora e sufocava-o. Somente neste
momento tomava consciência do que esquecera após ter sido encarregado de
dar cumprimento à sentença. Lembrava-se de que Abidaga ameaçara colocá-
lo, a ele, numa estaca se não conseguisse filar o criminoso. Escapara
apenas por um fio àquele horror, e somente no último instante. As coisas
haviam tomado outro rumo. A visão do homem empalado e ainda vivo sobre o
rio encheu-o de horror e também de uma amarga alegria por tal destino não
o ter atingido, por o seu corpo não ter sofrido tortura igual e por ser
livre e capaz de se mover. Ante estes pensamentos álgidas dores rasgaram-
lhe o peito e percorreram-lhe as pernas e os braços e impeliram-no a
mover-se em redor, sorrindo e falando para provar a si próprio que a sua
integridade física não sofrera ofensa, que conseguia mover-se livremente,
que podia falar e rir de modo bastante audível, que era capaz de cantar
se assim o desejasse, e não apenas resmonear de uma estaca inúteis
blasfémias na expectação da morte, a única felicidade que restava para
além daquela tortura. As mãos e os braços moveram-se-lhe, de maneira
independente do seu querer, os lábios abriram-se-lhe e deles se escapou,
como num acesso de loucura, um riso estrangulado e uma copiosa torrente
de palavras.

51

- Ah, ah, ah, Radisav, tu, vila da montanha, porque estás tão
esticado?... Porque não vais sabotar a ponte?... Porque te estorces e
gemes? Canta, vila! Dança, vila!

Surpresos e perplexos, os guardas observavam a dança do seu comandante,


com os braços estendidos, ouviram-no cantar e sufocar de riso
entrecortado por estranhas palavras, notaram a escuma branca que lhe
manava continuamente dos cantos dos lábios. E o seu cavalo baio,
apavorado, lançava-lhe olhares de través.

52

IV

Todos os que, de uma e de outra margem, tinham assistido à execução,


espalharam na cidade e nas aldeias circundantes medonhos relatos. Um
pavor indescritível invadiu os habitantes da cidade e os trabalhadores.
Lenta e gradualmente penetrou na consciência da população a ideia precisa
do que sucedera nas proximidades no decurso de um breve dia de Novembro.
Todas as conversas tinham como fulcro o homem que, no alto dos andaimes,
vivia ainda, cravado na estaca. Cada um fazia por não falar dele; mas de
que lhes valia isso, se todos os pensamentos se voltavam continuamente
para ele e todos os olhares se fixavam naquele ponto?

Os camponeses que chegavam de Banja com carregamentos de pedra nos seus


carros de bois desviavam a vista e, rapidamente, apressavam os animais.

Os trabalhadores que mourejavam ao longo das margens e nos andaimes


interpelavam-se o menos que podiam e em voz abafada.
Os próprios capatazes, com as suas chibatas de madeira nas mãos, estavam
menos brutais e mais brandos. Os canteiros dálmatas, pálidos e de
mandíbulas cerradas, voltavam as costas para a ponte e golpeavam
furiosamente a pedra com os seus cinzéis, o que, na quietude geral, dava
a impressão do ruído produzido por um bando de picanços.

O crepúsculo tombou depressa e os operários precipitaram-se para os seus


casebres, no desejo de se afastarem o mais possível dos andaimes. Antes
do cair da noite Merdjan e um criado de Abidaga treparam uma vez mais ao
tabuleiro e asseguraram-se, sem qualquer dúvida, de que Radisav, quatro
horas após a execução da sentença, estava ainda vivo e consciente.
Consumido pela febre, rolava os olhos lenta e dolorosamente. Quando se
apercebeu da presença do cigano por baixo de si começou a gemer com mais
alento.

53

Destes gemidos, últimos sopros da vida que se evolava, distinguiam-se


somente algumas palavras isoladas:

— Os turcos... os turcos... a ponte!

Satisfeitos, voltaram a Bikovac, à residência de Abidaga, dizendo a quem


encontravam no caminho que o criminoso ainda estava vivo; e como ele
rangia os dentes e falava, do alto da estaca, em voz clara e distinta,
era de supor que resistisse até à tarde do dia seguinte. Abidaga ficou,
ele também, satisfeito e ordenou que dessem a Merdjan a recompensa
prometida.

Naquela noite todos os que viviam na cidade e nas cercanias da ponte


dormiram um sono intranquilo. Ou, melhor, os que puderam dormir, pois
muitos houve que não conseguiram pregar olho.

O dia seguinte, segunda-feira, amanheceu soalhento. Não houve em toda a


cidade ou nas imediações da obra olhos que se não voltassem para aquele
complicado volume de tábuas e de pranchas entrecruzadas sobre a água, na
extremidade mais distante do qual, erecto e só, se impunha à vista o
homem na estaca. Muitos foram os que, ao despertar, pensaram ter sonhado
o que na véspera ocorrera na ponte aos olhos de todos; agora, imóveis,
contemplavam a visão real do pesadelo doloroso, que se prolongava e
durava, à luz do Sol,

Entre os trabalhadores mantinha-se ainda o mesmo silêncio da véspera,


pleno de piedade e amargor. Da cidade ouviam-se os mesmos murmúrios e
reflectia-se a mesma perplexidade. Merdjan e o criado de Abidaga subiram
uma vez mais aos andaimes e examinaram o condenado; trocaram algumas
palavras, levantaram os olhos e fitaram o rosto do camponês. Em dado
momento, Merdjan puxou-lhe as calças. Bastou a maneira como eles desceram
até à margem e passaram silenciosamente por entre os homens ocupados no
seu trabalho para todos compreenderem que o camponês morrera, por fim. Os
sérvios sentiram certo alívio como ante uma vitória invisível.

Agora olhavam com mais ousadia para o alto, para os andaimes e para o
condenado. Sentiam que, nos corpo-a-corpo contínuos com que se mediam com
os turcos, a balança inclinara-se agora para o seu lado. A morte era o
maior trunfo no jogo. As bocas, até então contraídas pelo medo, começavam
já a abrir-se. Cobertos de lama, ensopados, a barba cerrada e pálidos,
rolando grandes blocos de pedra de Banja com alavancas de pinho, faziam
alto, por um momento, para cuspirem nas palmas das mãos e dizerem uns aos
outros, em voz abafada:

— Que Deus lhe perdoe e tenha piedade dele!

54

— Oh, o mártir! Pobres de nós!

— Não vês que o santificou o sofrimento? É um santo, o pobre!

E todos contemplavam discretamente o morto, que se elevava, direito, como


se marchasse à testa de uma companhia. Lá em cima, no alto, ele não mais
lhes parecia medonho ou digno de compaixão. Por outro lado, era agora
claro para todos até que ponto ele se exalçara e engrandecera. Já não
pertencia a este mundo, as suas mãos a nada se apegavam, não nadava, não
voava; já não tinha peso. Libertado de todo., os laços, e de todos os
fardos terrenos, não sofria já; ninguém podia fazer-lhe mais nada,
ninguém podia já atacá-lo, nem armas de fogo, espadas, maus pensamentos,
as palavras dos homens, os tribunais turcos. Nu até à cintura, os braços
e as pernas ligados, a cabeça lançada para trás contra a estaca, aquela
figura não se parecia agora com um corpo humano, que cresce e depois se
decompõe, mas assemelhava-se a uma estátua colocada nas alturas, que,
sólida e imperecível, lá permanecesse para

sempre.

Os trabalhadores sujeitos ao trabalho forçado voltavam-se e,

furtivamente, persignavam-se.

Em Mejdan as mulheres atravessavam, céleres, os pátios, para cochichar


umas com as outras durante uns momentos e verter algumas lágrimas; depois
voltavam apressadamente a casa a fim de ver se o almoço se esturrara. Uma
delas acendeu uma lamparina defronte de um ícone. Depressa em todas as
casas começaram a arder lamparinas, dissimuladas nos cantos das alcovas.
As crianças piscavam os olhos nesta solene atmosfera, observavam estes
clarões pálidos e escutavam as frases entrecortadas e incompreensíveis
dos mais velhos. «Defende-nos, Senhor, e protege-nos!» «Ah! mártir, que
criou méritos aos olhos de Deus, como se tivesse construído a maior das
igrejas!» «Ajuda-nos, Senhor, Tu, Poderoso e Único, escorraça o inimigo e
não permitas que ele reine mais tempo sobre nós!» Incessantemente, as
crianças interrogavam os adultos: «Que quer dizer a palavra «mártir»?
«Quem construiu uma igreja e onde?» Os garotos eram particularmente
curiosos e as mães procuravam apaziguá-los.

— Cala-te, minha alma. Cala-te e escuta a tua mãe. Enquanto viveres,


conserva-te afastado desses malditos turcos!

Antes de escurecer, Abidaga inspeccionou ainda uma vez mais a construção


e, satisfeito com o resultado deste terrível exemplo, ordenou que
tirassem o camponês dos andaimes.

— Lancem esse maldito aos cães!

55

Naquela noite, que caiu bruscamente, macia e húmida como de Primavera,


produziu-se entre os operários uma efervescência e uma agitação
incompreensíveis. Mesmo os que se haviam recusado a ouvir falar de
sabotagem e resistência estavam agora prontos a fazer grandes sacrifícios
e tudo empreender. O corpo do supliciado tornara-se para todos um objecto
de interesse, como se fosse sagrado. Algumas centenas de homens,
exaustos, movidos por um instinto inato, pela força da sua compaixão e de
costumes antigos, juntaram-se pressurosamente para, num esforço, se
apoderarem do cadáver do mártir, a fim de o subtraírem à profanação e
para lhe darem uma sepultura cristã. Reunidos em conselho nas cabanas e
nos estábulos, entre cautelosos murmúrios, os homens sujeitos ao trabalho
escravo conseguiram juntar, mercê da contribuição de todos, a
considerável soma de sete grosh, que utilizariam para subornar Merdjan.
Para realizar esta operação foram escolhidos três dos mais expeditos de
entre eles, os quais conseguiram entrar em contacto com o executor.
Ensopados e exaustos devido ao trabalho, os três camponeses negociaram
lenta e astutamente e com os maiores rodeios. Franzindo a testa, coçando
a cabeça e gaguejando intencionalmente, o mais velho dos camponeses disse
ao cigano:

— Bem, tudo está agora acabado. O destino assim o quis. Contudo, sabes
que ele é um ser humano, uma criação de Deus... e não devia... como
dizer... não devia ser devorado pelas feras ou esventrado pelos cães.

Merdjan, que logo se apercebera do fim que os trouxera à sua presença,


defendeu-se, mais pesaroso que obstinado.

— Não. Nem me falem em tal coisa. Querem meter-me num grande assado. Não
sabem que lobo é Abidaga.

Perturbado, o camponês reflectia de testa franzida: «Ele é um cigano, uma


criatura sem religião e sem alma, a quem não se pode chamar nem amigo nem
irmão e em cuja palavra se não pode, em circunstância alguma, confiar.»
Manteve a mão no bolso pouco profundo do gibão e nela apertou os sete
grosh,

— Sei isso muito bem. Aliás, todos nós sabemos que te não é fácil. E
ninguém te pode censurar. Juntámos quatro grosh para te darmos, os quais,
pensamos, devem ser o suficiente...

— Não, não, a minha vida é-me mais preciosa que todos os tesouros deste
mundo. Não tenho a menor dúvida de que Abidaga me mandaria matar, pois
ele tudo vê, mesmo quando dorme. Quando penso nisso, quase me sinto
morrer.

— Quatro grosh, mesmo cinco, eis quanto podemos dar. Não te faltaremos
nem com um.

56

— Não ouso, não ouso...

— Muito bem, tu recebeste instruções para lançares o... o corpo... aos...


aos cães. E fá-lo-ás. Mas o que acontecer depois não será da tua conta,
nem ninguém te interrogará a esse respeito. Como vês, se nós, por
exemplo, nos apoderarmos do corpo... e o enterrarmos algures segundo o
nosso rito, mas, evidentemente, em segredo, de maneira que nem sequer uma
criatura dê fé disso, poderás dizer no dia seguinte que foram os cães,
por exemplo, que deram sumiço àquele... àquele corpo. E sem que tivesses
corrido qualquer risco, obterias a devida recompensa...

O camponês falava cuidadosa e circunspectamente e apenas se deteve,


possuído por estranha inquietação, ante a palavra «corpo».

— Crês que vá arriscar a cabeça por cinco grosh? Não, não!

— Por seis — acrescentou o camponês com calma.

O cigano empertigou-se, separou as mãos e tomou uma expressão de tocante


sinceridade, própria de homens que não são capazes de distinguir a
verdade da mentira. Estava diante do seu interlocutor como se ele fosse
ele o juiz e o camponês o criminoso.

— Que pague com a vida, se for esse o meu destino e que a minha mulher
fique viúva e os meus filhos mendigos; dá-me sete grosh e leva o corpo
contigo, mas que ninguém mais o veja ou saiba do caso.

O camponês sacudiu a cabeça, lamentando profundamente ter de dar a este


canalha mesmo o último centavo, como se o cigano se tivesse dado conta do
que continha o seu punho cerrado.

Chegaram a acordo quanto aos pormenores. Merdjan traria o cadáver, mal o


apeasse do andaime, para a margem esquerda do rio, e, logo que começasse
a escurecer, lançá-lo-ia numa nesga de terra pedregosa junto da estrada,
de modo que os criados de Abidaga e os passantes o vissem. Os camponeses
estariam escondidos numa moita um pouco mais além. Logo que a noite
caísse, apoderar-se-iam do corpo, levá-lo-iam consigo para o enterrarem
num recanto oculto e sem deixarem qualquer traço visível, de maneira a
parecer, sem a menor dúvida, que os cães o tinham esventrado durante a
noite e devorado. Receberia três grosh adiantados e os restantes logo que
o caso estivesse arrumado.

Naquela mesma noite tudo se desenrolou conforme o combinado.

Ao escurecer, Merdjan transportou o cadáver e arremessou-o para o berma


da estrada. Não se assemelhava já ao corpo por todos contemplado durante
os últimos dois dias, erecto e rígido na estaca; era novamente Radisav,
como fora antes, pequeno e curvado, mas agora exangue e sem vida.

57

O cigano regressou imediatamente na barca, acompanhado dos seus


assistentes, à cidade, na outra margem. Os camponeses aguardavam nas
moitas o momento propício. Passaram somente alguns operários atrasados e
um turco que voltava para casa. Depois o silêncio desceu sobre todo o
campo mergulhado na escuridão. Começaram a surgir então os cães, mastins
enormes, pelados, poderosos, esfaimados e cobardes, sem dono e sem
abrigo. Escondidos nas moitas, os camponeses atiravam-lhes pedras e
afastavam-nos. Os cães fugiam, baixando o rabo, mas sem se afastarem mais
que uma vintena de passos do cadáver; imóveis, aguardavam o que se ia
passar a seguir. Na escuridão entreviam-se-lhes os olhos cintilando.
Quando se deram conta de que a noite invadira toda a região e que
realmente ninguém mais se aproximava, os camponeses abandonaram o
esconderijo trazendo consigo uma enxada e uma pá. Carregavam também duas
tábuas, que colocaram uma sobre a outra, depositando entre elas o
cadáver, que assim transportaram. Numa ravina originada pelas águas
outonais e primaveris, ao descerem da colina para o Drina, removeram os
pesados calhaus que formavam como que o leito de um pequeno curso de água
seco e, rápida e silenciosamente, cavaram uma profunda sepultura, sem
dizer palavra ou fazer ruído. Nela colocaram em seguida o corpo frio,
rígido e contorcido. O mais velho dos camponeses pulou para a cova,
riscou algumas vezes, com precaução, um fuzil sobre um sílex e acendeu em
seguida um cavaco e depois uma delgada vela de cera, protegendo-a com as
mãos; em seguida colocou-a em cima da cabeça do defunto e persignou-se
três vezes rapidamente, dizendo em voz alta: «Em nome do Pai, do Filho e
do Espírito Santo.» Os outros dois persignaram-se, em seguida, na
escuridão. O camponês fez por duas vezes um gesto com uma das mãos por
cima do morto, como se derramasse com a sua mão vazia o vinho invisível,
e duas vezes também disse em voz suave e piedosa:

— Recebe, Cristo, entre os Teus santos, a alma do Teu escravo. Por fim
murmurou mais algumas palavras, desconexas e incompreensíveis, como de
oração, mias solenes e compadecidas, enquanto os dois camaradas, na beira
da sepultura, se persignavam. Terminada a pequena cerimónia, os
camponeses passaram-lhe as duas tábuas, que dispôs por cima do cadáver,
como uma abóbada, de modo a formar um pequeno telhado.

O camponês persignou-se uma vez ainda, apagou a vela e pulou para fora da
cova.

58

Em seguida, lenta e cuidadosamente, encheram a sepultura com a terra dela


removida, batendo-a bem, de modo a não deixarem nenhum montículo visível.
Acabada esta tarefa, repuseram as pedras nas posições anteriores, sobre a
terra antes revolvida, persignaram-se uma vez mais e voltaram a suas
casas, dando uma longa volta a fim de retomarem a estrada num ponto o
mais possível distante da sepultura.

Nessa mesma noite caiu uma chuva densa e macia, sem vento, e de manhã
todo o vale do rio estava coberto com uma névoa viscosa e uma pesada
humidade. Devido a um branco resplendor que ora despontava, para logo
diminuir, via-se que o sol tentava penetrar; algures, a neblina, sem no
entanto o conseguir. A paisagem parecia vaga e espectral, nova e
estranha. Bruscamente surgiam homens cujo perfil se recortava na névoa e
de súbito se dissipava. Foi com um tempo assim que, aos primeiros alvores
da manhã, passou pela praça do mercado uma singela carroça transportando
dois guardas, que vigiavam o homem de Plevlje, que ainda na véspera era o
seu comandante e que agora seguia amarrado e sob prisão.

Desde que no dia precedente, num acesso de inesperada comoção, ao


encontrar-se ainda vivo, e não na estaca, começara a dançar diante deles,
ele não apaziguara a sua excitação, todos os seus músculos vibravam, não
conseguia manter-se quieto e atormentava-o permanentemente o impulso
irresistível de provar a si próprio e mostrar aos outros que conservava a
sua integridade física e podia mover-se. Por momentos recordava-se de
Abidaga (uma sombra negra sobre o seu regozijo) e tombava numa dolorosa
meditação, mas durante todo este tempo acumulava-se nele uma força nova,
que o impelia, incontrolavelmente, a fazer movimentos furiosos e
espasmódicos de louco. E de novo se levantava e começava a dançar de
braços estendidos e a estalar os dedos, contorcendo-se como um bailarino,
provando com actos bruscos e vivos que não estava empalado e ofegando ao
ritmo da dança.

— Vejam... vejam... Posso fazer isto... e aquilo... e aquilo!...

Recusava alimentar-se e interrompia de súbito toda a conversa iniciada


para recomeçar a sua dança, afirmando de modo pueril a cada movimento:

— Vejam, vejam, eu posso fazer isto... e isto!...

Quando nessa noite deram finalmente, conhecimento do caso a Abidaga, ele


respondera, fria e abruptamente:
— Levem esse louco para Plevlje e deixem-no manietado na sua casa, para
que não exiba mais a sua loucura.

59

Ele não foi feito para este trabalho!

Assim se fez. Mas como o seu comandante era incapaz de se conservar


quieto, os guardas viram-se forçados a amarrá-lo à carroça no qual o
conduziam. Ele chorava e defendia-se e, enquanto pôde mover uma parte do
corpo, debateu-se, soltando os seus gritos: «Vejam, vejam!» Por fim
tiveram de lhe ligar braços e pernas, ainda que ele estivesse sentado na
carroça, direito como um saco de trigo bem atado. Mas, como já não podia
mexer-se, começou a imaginar que o estavam a empalar na estaca e torcia-
se e resistia, entre gritos desesperados:

— Não a mim, não a mim! Apanhem o vila! Não, Abidaga!

Desde as últimas casas à saída da cidade o povo ocorreu, alarmado pelos


gritos, mas a carroça com o doente e os guardas perdeu-se rapidamente, ao
longo da estrada de Dobruna, na espessa neblina através da qual se
adivinhava o Sol.

A partida imprevista e lamentável do homem de Plevlje instilou medo ainda


mais profundo no âmago do povo. Começou a murmurar-se que o camponês
condenado estava inocente e que o homem de Plevlje era o responsável pela
sua morte. Entre os sérvios de Mejdan as mulheres contavam que os vilas
tinham enterrado o cadáver do infeliz Radisav sob os rochedos de Butkovo
e que de noite luz abundante se derramava sobre o sua sepultura: milhares
e milhares de velas acesas, que flamejavam e tremeluziam numa longa linha
que se projectava do céu à terra. Elas tinham-nas visto através das suas
lágrimas.

Murmurou-se toda a espécie de coisas que se acreditaram, mas o medo era


mais forte que tudo.

A obra na ponte prosseguiu em ritmo acelerado, sem incidentes e


interrupções. E continuaria, sabe Deus até quando, se no princípio de
Dezembro não surgisse uma geada inesperada e excepcionalmente rigorosa,
contra a qual Abidaga, por mais poderoso que fosse, nada podia fazer.

Jamais se conheceram frios e tempestades de neve como os que surgiram na


primeira metade de Dezembro. O gelo colava as pedras ao chão e a madeira
estalava. Uma neve fina e cristalina cobriu os objectos, ferramentas e
cabanas inteiras, e no dia seguinte um vento caprichoso arrastava-a para
outro lado e envolvia outra região. O trabalho teve de cessar e o terror
que Abidaga inspirava empalideceu e desapareceu, por fim, completamente.
Abidaga tentou lutar durante alguns dias contra o tempo, mas teve que
render-se. Deixou partir os trabalhadores e suspendeu o trabalho.
60

No meio de um forte turbilhão de neve ele próprio deixou a cidade com o


seu séquito. Nesse mesmo dia, depois dele, partiram Tosun Effendi num
trenó de camponês, agasalhado com cobertas e enterrado em palha, e Mastro
António, que seguiu na direcção oposta. E todo o campo dos trabalhadores
forçados se dispersou nas aldeias e nos profundos vales, desapareceu sem
um ruído, tão despercebidamente como a água absorvida pela terra. A obra
ficou como um brinquedo abandonado.

Antes da sua partida Abidaga convocou uma vez mais os notáveis turcos.
Estava deprimido devido à colérica impotência que o dominava, e disse-
lhes, como no ano anterior, que confiava tudo aos seus cuidados e à sua
responsabilidade.

— Parto, mas os meus olhos ficam cá. Tomai atenção: é melhor para vós
cortar vinte cabeças rebeldes do que deixar perder um simples prego do
Sultão. Logo que desponte a Primavera encontrar-me-ei de novo aqui e
pedir-vos-ei contas de tudo.

Os notáveis fizeram-lhe todas as promessas, como acontecera no ano


precedente, e cada um se dirigiu para sua casa, possuído de grande
ansiedade, envoltos nos seus gibões, capas e mantas, agradecendo a Deus
por ter feito desabar sobre o mundo tempestades de neve no Inverno, para
assim mostrar que o Seu poder podia impor limites à força dos potentados.

Mas logo que rompeu a Primavera, não foi Abidaga quem chegou, mas um
outro homem da confiança do vizir, Arif Beg, em companhia de Tosun
Effendi. Produzira-se o que Abidaga tanto receara. Alguém (alguém que
conhecia bem a situação e que tudo conhecia de perto) enviara ao grão-
vizir relatórios pormenorizados e exactos sobre a sua actividade na ponte
de Visegrad. O vizir fora concisamente informado de que durante aqueles
dois anos cada dia duzentos ou trezentos trabalhadores tinham sido
forçados a prestar trabalho escravo, sem receberem uma simples moeda de
salário, alimentando-se muitas vezes à sua custa, enquanto Abidaga
guardava para si o dinheiro do vizir. (A soma de que se apropriara era
calculada com precisão.) Como tantas vezes acontece na vida, ele ocultava
a sua desonestidade mercê de zelo excessivo e exagerada severidade, de
tal modo que o povo de toda esta região, não só os rayah, mas também os
turcos, em vez de se mostrarem gratos por este legado, maldiziam a hora
em que fora iniciada a ponte e o homem que a fizera construir. Mehmed
Paxá, que toda a sua vida lutara contra as concussões e a desonestidade
dos seus servidores, ordenara ao seu corrupto agente que restituísse a
soma total e, com o resto da sua fortuna e o seu harém, partisse
imediatamente para uma pequena cidade da Anatólia, donde não desse
notícias de si, se não desejava que um castigo mais cruel caísse sobre a
sua cabeça.
61

Dois dias após Arif Beg, chegou da Dalmácia Mastro António com os
primeiros operários. Tosun Effendi apresentou-o ao novo chefe e num dia
soalhento de Abril inspeccionaram a obra e fixaram o plano dos primeiros
trabalhos. Quando Arif Beg se retirou, deixando os outros dois sozinhos
na margem, Mastro António olhou mais atentamente para o rosto de Tosun
Effendi, que, mau-grado este dia soalhento, se encontrava envolto num
amplo manto negro.

— Aquele homem é de um género completamente diferente. Alá seja louvado!


Pergunto somente a mim próprio quem foi tão astuto e corajoso para
informar o vizir e fazer afastar aquele animal.

Tosun Effendi olhou bem na sua frente e disse com uma voz calma:

— Não há dúvida, este é melhor.

— Suponho que devia ser alguém que conhecia bem os negócios de Abidaga,
que tinha acesso junto do vizir e gozava da sua confiança.

— Certamente, certamente, este é melhor — replicou Tosun Effendi sem


levantar os olhos e envolvendo-se ainda mais no seu manto.

Assim recomeçaram os trabalhos sob as ordens do novo chefe, Arif Beg.

Ele era, na verdade, um homem muito diferente. Excepcionalmente alto, um


pouco curvado, imberbe, os pomos salientes, os olhos semicerrados,
negros, risonhos. O povo logo o crismou Misir-Baba, Velha Múmia. Sem
gritos, sem bordão, sem grandes tiradas ou esforço aparente, dava ordens
e distribuía o trabalho bem-humorado, com confiante autoridade, sem nada
subestimar ou sem lhe escapar o mais ínfimo pormenor. Mas também residia
nele um senso de severo zelo por tudo o que era vontade e ordem do vizir,
mas com a diferença de que era um homem calmo, são e honesto, que nada
tinha a recear ou a ocultar, não necessitando, por conseguinte, de
apavorar ou perseguir os outros. O trabalho prosseguiu com a mesma
presteza (pois era presteza o que o vizir desejava), as faltas eram
punidas com a mesma severidade, mas o trabalho escravo sem retribuição
foi abolido desde o primeiro dia. Todos os trabalhadores recebiam, além
do salário, rações de farinha e sal e tudo marchava com mais rapidez e
melhor que no tempo de Abidaga.

62

Mesmo a louca Ilinka desaparecera; durante o Inverno perdera-se, sem


deixar rasto, algures numa das aldeias.

A obra cresceu e dilatou-se.


Podia ver-se agora que a obra do vizir compreendia não somente uma ponte,
mas também uma han, ou caravansará, onde os viajantes vindos de terras
distantes que atravessassem a ponte poderiam encontrar alojamento para
si, para os seus cavalos e para as suas mercadorias, caso a noite aí os
surpreendesse. Sob as directivas de Arif Beg iniciou-se a construção do
caravansará. À entrada da praça do mercado, a duzentos passos da ponte,
precisamente onde a estrada para Mejdan subia num declive abrupto, havia
um plaino no qual se realizara até então o mercado das quintas-feiras.
Foi aqui que se começou a construir-se a nova han. O trabalho avançava
lentamente, mas desde o primeiro momento se pôde verificar que dali
sairia um edifício sólido, concebido numa grande escala. O povo mal
notara ainda que a grande han de pedra crescia com lentidão, mas sem
paragem, pois toda a sua atenção estava concentrada na construção da
ponte.

O que se fazia agora no Drina era tão complicado, a obra era tão complexa
e desconcertante, que os ociosos da cidade, que observavam a obra das
duas margens como se fosse um fenómeno natural, não podiam mais segui-la
mercê do raciocínio. Molhes e fossos sempre novos eram abertos em
diversas direcções e o rio dividido e cortado por braços e represas,
trasfegado de um a outro leito. Mastro António trouxera da Dalmácia
operários especializados em corda e comprara antecipadamente a produção
de cânhamo das povoações vizinhas. Estes artesãos fabricavam cordas de
uma resistência e de uma espessura extraordinárias. Segundo desenhos seus
ou da autoria de Tosun Effendi, carpinteiros gregos construíam grandes
gruas de madeira, munidas de uma roda. Dispunham-nas em jangadas e assim
com estas cordas levantavam mesmo os blocos de pedra mais pesados e
transportavam-nos até aos pilares que, um a um, brotavam do leito do rio.
O transporte de cada um destes grandes blocos da margem até à sua posição
na base do pilar da ponte durava quatro dias.

À força de observarem tudo isto, dia após dia, anos após ano, os
habitantes da cidade começaram a perder a conta ao tempo e a não se
aperceberem das intenções reais dos construtores. Parecia-lhes que a
construção, além de não avançar sequer uma polegada, se complicava cada
vez mais por causa de trabalhos complementares e subsidiários e quanto
mais se prolongava menos dava ideia do que se pretendia que fosse. Os
homens que não trabalham e que nada empreendem na sua vida perdem
facilmente a paciência e cometem erros quando julgam o trabalho dos
outros.

63

Os turcos começaram novamente a encolher os ombros e a fazer com as mãos


gestos de cepticismo quando falavam da ponte. Os cristãos guardavam
silêncio, mas observavam a obra com pensamentos secretos e hostis,
desejando que a sua construção se malograsse, voto que faziam a todos os
cometimentos empreendidos pelos Turcos. Foi nesta época que o igumân do
mosteiro de Banja, perto de Pribog, escreveu na última página em branco
de um dos seus livros sagrados : «Que seja conhecido que por volta desta
data Mehmed Paxá empreendeu a construção da ponte sobre o Drina em
Visegrad. Grande terror dominou o povo cristão, forçado que foi a prestar
trabalho pesado e obrigatório. Do mar vieram mestres-canteiros. Durante
três anos se empenharam na construção e muitos aspers foram gastos
inutilmente. Dividiram as águas em duas e em três partes, mas não foram
capazes de levantar a ponte.»

Os anos passaram, Verões e Outonos, Invernos e Primaveras se sucederam;


os trabalhadores e os mestres-canteiros chegaram e partiram. Agora todo o
Drina estava coberto não pela ponte mas por andaimes de madeira, que se
assemelhavam a uma aglomeração complicada e absurda de vigas e tábuas de
pinho. De ambas as margens se elevavam gruas de madeira fixadas sobre
jangadas solidamente amarradas. Nos dois lados fumegavam fornos, nos
quais era derretido o chumbo que seria vazado nas concavidades dos blocos
e que uniria de maneira invisível as pedras umas às outras.

No fim do terceiro ano produziu-se um destes acidentes aos quais as


grandes construções raramente escapam. O pilar central, que era um pouco
mais alto e ligeiramente mais largo no topo que os outros, visto que
devia sustentar a ktipia, achava-se em vias de acabamento. Durante o
transporte de um grande bloco de pedra o trabalho foi subitamente
interrompido. Os operários formigavam em volta da enorme pedra
rectangular que, ligada por grossas cordas, estava suspensa sobre as suas
cabeças. A grua não a conseguira pousar exactamente no seu lugar. O
ajudante de Mastro António, o negro, acorreu impaciente, e aos berros,
nessa linguagem estranha e compósita que se formara, com o decorrer dos
anos, entre estes homens originários de diversas partes do mundo, deu
ordens aos que em baixo, sobre a água, manobravam a grua. Nesse momento,
de maneira incompreensível, as cordas cederam e o bloco desabou, a
princípio por uma extremidade, depois com todo o seu peso, sobre o negro,
que, excitado, não olhava para cima, mas apenas para a água. Por um
estranho motivo o bloco caiu exactamente no devido lugar, mas, na queda,
apanhou o negro e esmagou-lhe a parte inferior do corpo.

64

Todos se puseram a correr, a dar o alarme, a pedir socorro. Mastro


António chegou poucos momentos depois. Após o primeiro desfalecimento, o
jovem negro recobrou os sentidos; gemia, de dentes cerrados, e fitava,
desesperado e possuído de intenso pavor, Mastro António nos olhos. De
testa franzida, pálido, Mastro António deu ordem para reunir os
operários, trazer ferramentas e tentar levantar o bloco. Mas tudo foi
inútil. Bruscamente, uma golfada de sangue jorrou da boca do jovem, a
respiração começou a faltar-lhe e os olhos encheram-se de bruma. Meia
hora mais tarde morreu, apertando convulsivamente as mãos de Mastro
António nas suas.
O enterro do negro foi um acontecimento solene, que se recordou durante
muito tempo. Todos os muçulmanos o acompanharam e seguraram durante
alguns metros o ataúde no qual jazia somente a parte superior do seu
corpo jovem, pois a outra metade ficara sob o bloco de pedra. Mastro
António erigiu sobre a sua sepultura um belo memorial feito da mesma
pedra da ponte. A morte deste jovem, que ele roubara à miséria, ainda
criança, em Ulcinj, onde viviam ainda algumas famílias de negros, abalou-
o profundamente. Mas o trabalho não foi interrompido nem sequer um só
instante.

Nesse ano e no seguinte o Inverno foi ameno e o trabalho prosseguiu até


meados de Dezembro. O quinto ano da construção chegou. Agora, esta largo
círculo irregular de madeira, pedra, meios técnicos e materiais de
diversas espécies começou a contrair-se.

No plaino paralelo à estrada que conduzia a Mejdan erguia-se já a nova


han, liberta dos seus andaimes. Era um grande imóvel de um só piso,
construído com a mesma pedra de que era feita a ponte. Trabalhava-se
ainda no interior e no exterior da han, mas podia já prever-se, mesmo à
distância, como ela se distinguia, pela grandeza e pela harmonia das suas
linhas e pela solidez do material, de tudo o que se construíra ou
conhecera na cidade. Aquele edifício de pedra clara e amarelada, com um
telhado coberto de telhas vermelho-escuras e uma fila de janelas
finamente recortadas, parecia aos habitantes da cidade uma coisa
espantosa, que se tornaria para o futuro parte integrante da sua vida
quotidiana. Construída por um vizir, dava ideia de que somente os vizires
a deviam habitar. Reflectia-se em todo o edifício um ar de grandeza,
gosto e luxo que os fazia pasmar.

Ao mesmo tempo que esta massa informe de vigas e andaimes entrecruzados


sobre o rio começara a reduzir-se e a estreitar-se a a largura, entrevia-
se sempre melhor e com mais clareza a verdadeira ponte de bela pedra de
Banja.

65

Os operários, isolados ou em pequenos grupos, eram ainda empregados em


trabalhos que aos olhos dos curiosos pareciam não ter sentido e ligação
com a construção principal, mas agora) mesmo para os mais incrédulos dos
habitantes, tornava-se evidente que desta obra emergia a ponte, em
conformidade com uma concepção única e um plano infalível que se
encontrava por trás de cada uma destas acções individuais.

A princípio surgiram os arcos, os mais pequenos, pela altura e pelo vão,


e os mais próximos do rio; depois, um por um, revelaram-se os outros, e
logo que o último deles foi libertado dos andaimes a ponte inteira se
revelou, apoiada nos seus onze arcos, sólidos, perfeitos e estranhos na
sua beleza, uma paisagem nova e curiosa aos olhos dos habitantes.
Dado aos bons como aos maus pensamentos, o povo de Visegrad envergonhava-
se agora das suas dúvidas e da sua incredulidade. Já não tentava
dissimular a sua admiração ou refrear o seu entusiasmo. Não era ainda
permitida a passagem pela ponte, mas juntavam-se muitos curiosos nas duas
margens, especialmente na direita, onde se situava a praça do mercado e a
maior parte da cidade; observavam os operários que a atravessavam no seu
trabalho e os que se ocupavam a polir a pedra do parapeito e os assentos
talhados na kapia. Os habitantes de Visegrad, em grupos, contemplavam
este trabalho feito por outros e a expensas de outrem, ao qual durante
cinco anos haviam crismado com toda a espécie de nomes e a que tinham
profetizado o pior dos futuros.

— Mas eu sempre afirmei — disse com grande emoção e alegria um hodja de


pequena estatura, natural de Dusce — que nada escapa à mão do sultão e
que esta gente, hábil como é, acabaria por construir o que tinha em
mente; porém, tu não deixavas de dizer: «Eles nada farão, ou não o
poderão fazer.» Agora aí tens a ponte construída. E que ponte e que bela
e boa obra!

Todos o aprovaram, embora nenhum se lembrasse, em boa verdade, das suas


palavras, e todos sabiam que ele também ridicularizara a construção e o
homem que a fizera erguer. E todos eles se sentiam sinceramente
fascinados por tanta beleza.

— Amigos, oh amigos! Vejam o que está a nascer aqui, na nossa cidade!

— Vejam quão grande é o poder e a inteligência do vizir. Para onde quer


que volte os olhos eleva-se uma obra piedosa e chega a felicidade.

66

— E, contudo, isto ainda não é nada — acrescentou o pequeno hodja, alegre


e vivaz. — Estão-nos ainda reservadas coisas mais belas. Vejam como eles
a estão a ajaezar e a ornamentar como a um cavalo para uma feira!

Assim competiam nas suas expressões de entusiasmo, procurando novas,


melhores e mais fortes palavras de exaltação. Somente Ahmedaga Sheta, o
rico negociante de cereais, um homem carrancudo e avarento, olhava ainda
com desdém para a obra e para os que a elogiavam. Alto, amarelo e seco,
de olhos negros e penetrantes, de lábios finos, como que colados,
pestanejava ante o sol deste belo dia de Setembro e era o único que não
renunciava às suas anteriores opiniões (pois há certos homens possuídos
de ódio e inveja irracionais maiores e mais fortes que tudo o que outros
possam criar ou inventar). Aos que exaltavam a grandeza e a resistência
da ponte, dizendo que era mais sólida que uma fortaleza, respondia
desdenhosamente:

— Esperem então por uma inundação, uma das verdadeiras inundações de


Visegrad! Depois verão o que restará da ponte!
Todos redarguiam com azedume, refutando as suas afirmações e elogiando
quem labutara na ponte, sobretudo Arif Beg, que, sempre com um sorriso de
grande senhor nos lábios, criara tal obra como se ela não fosse mais que
uma brincadeira infantil. Mas Sheta estava firmemente decidido a nada
reconhecer, nem a concordar com ninguém.

— Sim, mas se não fora Abidaga com o seu bordão verde, a sua tirania e a
sua disciplina, eu queria ver se esta espécie de eunuco teria podido
acabar a ponte apesar do seu sorriso e das suas mãos sempre apertadas
atrás das costas.

E, magoado pelo entusiasmo geral, como se se tratasse de um insulto


pessoal, Sheta partia, furioso, para a sua loja, a fim de se sentar no
lugar habitual, donde não podia lobrigar nem o sol nem a ponte, nem
escutar o ruído e o rumor das gentes entusiasmadas.

Mas Sheta era apenas um exemplo isolado. A alegria e o entusiasmo da


população continuavam a crescer e a propagar-se às aldeias vizinhas. Nos
primeiros dias de Outubro Arif Beg organizou uma grande solenidade por
ocasião do termo das obras da ponte. Este homem, de maneiras senhoriais,
de severidade discreta e de rara honestidade, que consagrara todo o
dinheiro a ele confiado à realização da empresa de que o incumbira o
vizir, não guardando sequer um centavo para si, era considerado pelo povo
o principal obreiro deste cometimento. Falava-se mais dele que do próprio
vizir.

67

Assim, a cerimónia desenrolou-se de maneira brilhante e com toda a pompa.

Os capatazes e os operários receberam gratificações em dinheiro e roupas,


e a festa, na qual podia participar quem desejasse, durou dois dias.
Comeu-se, tocou-se música, dançou-se, cantou-se e bebeu-se à saúde do
vizir; organizaram-se corridas pedestres e de cavalos e distribuiu-se
carne e doces pelos pobres. Na praça do mercado, que ligava a ponte ao
centro da cidade, cozinhou-se halva em grandes caldeirões, e o manjar foi
servido, quente, ao povo. Também se regalaram com esta iguaria mesmo os
que viviam nas povoações vizinhas, e todos os que a comeram não deixaram
de desejar boa saúde ao vizir e longa vida às suas obras. Houve crianças
que voltaram umas catorze vezes aos caldeirões, até que os cozinheiros,
reconhecendo-as, as puseram em fuga, fazendo menção de lhes bater com as
suas compridas colheres de madeira. Uma criança cigana morreu depois de
ter comido excessiva quantidade de halva quente.

Tais acontecimentos foram recordados durante muito tempo e contadas


muitas histórias sobre a construção da ponte, sempre com mais fervor, já
que vizires generosos e intendentes honestos pareciam ter desaparecido
nos anos seguintes e solenidades como esta se tornaram cada vez mais
raras, depois inteiramente desconhecidas, para, por fim, passarem à
lenda, como os vilas, Stoja e Ostoja e maravilhas semelhantes.

Enquanto a festa durou e, em geral, durante os primeiros dias, o povo


atravessou a ponte, de uma margem à outra, vezes sem conta. As crianças
faziam-no correndo, enquanto os mais velhos caminhavam lentamente,
conversando ou contemplando de cada lado os horizontes inteiramente novos
que se lhes abriam da ponte. Os inválidos, os enfermos, os coxos eram por
ela conduzidos em liteira, pois ninguém queria perder a festa ou
renunciar ao seu quinhão neste maravilhoso acontecimento. Mesmo o mais
humilde dos habitantes da cidade tinha a impressão de que as suas
capacidades se haviam subitamente multiplicado e que a sua força
aumentara, como se qualquer proeza miraculosa e sobre-humana fosse
trazida à medida das suas forças e aos limites da sua vida quotidiana,
como se, ao lado de todos os elementos até agora conhecidos — a terra, a
água, o céu — fosse bruscamente descoberto mais um; como se, mercê de um
esforço benfazejo, cada um deles pudesse de súbito materializar um dos
seus desejos mais caros, aquele antigo sonho do homem — caminhar sobre a
água e assenhoreasse do espaço.

68

Os jovens turcos começaram a dançar o kolo à volta dos caldeirões de


halva e depois prolongaram a dança através da ponte, pois parecia-lhes
estarem voando, e não a caminhar sobre a terra. Depois fizeram uma roda
no interior da kapia, batendo os tacões nas lajes novas como se quisessem
experimentar a solidez da ponte. À volta do kolo cerrado e circular
destes corpos jovens, que pulavam incansavelmente e sempre com o mesmo
ritmo, brincavam as crianças, entremetendo-se-lhes pelas pernas como
através de uma cerca móvel, postando-se no meio do kolo, dançando pela
primeira vez na sua vida sobre esta ponte acerca da qual tanto se falara
durante anos, e mesmo sobre a kaph, onde, dizia-se, estava emparedado o
negro infeliz cujo fantasma aparecia de noite. Divertindo-se com o kolo
dos jovens, não deixava contudo de os dominar o medo que o próprio negro,
quando vivia e labutava na ponte, lhes inspirava constantemente.

Naquela ponte alta, nova e extraordinária, parecia-lhes que tinham há


muito abandonado as mães e os lares e que se perdiam na terra dos homens
negros, de construções maravilhosas e danças estranhas; estremeciam, mas
sentiam-se incapazes de separar os seus pensamentos da memória do negro
ou de se afastarem do kolo que se desenrolava sobre a maravilhosa kapia.
Somente uma nova maravilha os podia desviar desta atracção.

Um certo Murat, conhecido como O Mudo, um jovem semi-idiota da nobre


família Turkovic, de Nezuk, que era muitas vezes o bobo da cidade, trepou
subitamente para o parapeito de pedra da ponte. Ouviu-se o clamor das
crianças, gritos de espanto dos mais velhos, mas o idiota, como que
enfeitiçado, os braços estendidos e a cabeça lançada para trás, avançava
sobre as pedras estreitas, passo a passo, como se não caminhasse por
sobre as águas e o abismo, mas participasse na mais bela dança. Ao seu
lado caminhava um bando de garotos e ociosos, que o encorajavam. E na
outra extremidade da ponte esperava-o seu irmão Aliaga que o mimoseou
depois com alguns açoites, como a uma criança.

Muitos desceram o rio, numa caminhada de meia hora, até Kalata ou


Mezalim, e daí contemplaram a ponte, que se destacava, branca e grácil,
com os seus onze arcos, qual estranho arabesco, sobre as águas verdes e
entre as colinas sombrias.

Foi por esta altura que trouxeram uma grande placa branca com uma
inscrição gravada, que fixaram na kapia, no muro de pedra avermelhada que
se elevava bem a metro e meio do parapeito da ponte. O povo juntou-se em
redor da inscrição e mirou-a, até que um seminarista ou um teólogo
corânico que se encontrava entre a multidão a leu, com maior ou menor
fidelidade, a troco de um café ou de uma talhada de melancia, ou mesmo
por puro amor a Alá.

69

Naqueles dias foram soletradas uma centena de vezes as palavras do tarih,


composto por um certo Badi, escritor de Constantinopla, que nele
assinalava o nome, a origem e o título do homem que fizera erguer esta
obra piedosa, assim como o feliz ano de 979, segundo a Hégira, isto é,
1571 no calendário cristão, em que fora concluída. Este Badi, em troca de
bom dinheiro, escrevia frases ligeiras e sonantes e sabia como as impor
facilmente aos poderosos deste mundo que faziam erguer ou restaurar
grandes construções. Os que o conheciam (e que de certo modo o invejavam)
costumavam dizer ironicamente que a abóbada celeste era o único edifício
sobre a qual não se gravara uma inscrição sua. Mas ele, apesar de belas
remunerações, era um pobre diabo famélico, eternamente em luta com esta
miséria peculiar que acompanha muitas vezes os poetas como uma maldição
que nenhuma recompensa pode minorar.

Em virtude da pouca instrução do nosso povo, da sua fraca inteligência e


da sua viva imaginação, cada um dos semieruditos locais lia e
interpretava à sua maneira a inscrição de Badi, a qual, como qualquer
outro texto, uma vez revelado ao público, ali ficava para sempre na pedra
eterna, exposta para sempre e irrevogavelmente aos olhares e às
interpretações de todos, dos sábios aos loucos, dos malévolos aos mal-
intencionados. E cada um dos auditores retinha os trechos que mais
convinham ao seu gosto ou correspondiam ao seu carácter. Assim, o que
estava gravado na pedra dura repetia-se de boca em boca, muitas vezes
transformado e deformado até ao absurdo.

Era o seguinte o texto da inscrição:

Eis Mehmed Paxá, o maior entte os sábios e os grandes do seu tempo. Ele
realizou o juramento do seu coração e pelo seu desvelo e pelos seus
esforços elevou uma ponte sobre o rio Drina. Sobre esta água profunda e
viva os seus predecessores não puderam construir. Oro para que, mercê da
graça divina, esta ponte seja sólida e que a sua existência decorra na
felicidade e jamais conheça o infortúnio, pois que durante a sua vida ele
investiu ouro e prata nas suas obras piedosas e ninguém pode dizer que
esta fortuna é esbanjada se for gasta em tais intentos. Badi, que tudo
isto viu, quando esta construção foi concluída compôs este tarih. Que
Deus abençoe este edifício, esta maravilhosa e bela ponte.

70

Por fim o povo acabou de admirar e de se maravilhar com a grandeza da


ponte, por ela caminhou suficientemente e escutou os versos da inscrição
para regalo do coração. Esta maravilha dos primeiros dias começou a fazer
parte da sua vida quotidiana e toda a gente atravessava já a ponte
apressada, indiferente, preocupada, distraída, como as águas tumultuosas
que corriam sob ela, como se fosse somente um dos numerosos caminhos que
eles e o gado calcassem, e a placa com a inscrição ficou tão ignorada no
alto do muro como qualquer das outras pedras.

Agora a estrada da margem esquerda do rio estava directamente ligada a


este pedaço de estrada que se encontra sobre o plaino do outro lado.
Desaparecera a sombria e carcomida barca e o seu excêntrico barqueiro.
Profundamente, sob os últimos arcos da ponte, ficaram os rochedos
arenosos e as ribas abruptas, pelas quais noutros tempos se descia e
subia com iguais dificuldades e sobre as quais se esperava penosamente e
se chamava inutilmente de uma margem para a outra. Tudo isto, juntamente
com o rio torrencial, era transposto como que por magia. Os homens
passavam agora bem no alto, como que com asas, directamente de uma margem
à outra, através da ponte larga e longa, firme e permanente como uma
montanha, que ressoava sob os cascos dos cavalos como se fosse feita
somente de uma fina placa de pedra.

Desapareceram também os moinhos de madeira e as cabanas nas quais os


viajantes passavam a noite em caso de necessidade. No seu lugar erguia-se
um caravansará sólido e luxuoso, que recebia cada vez maior número de
viandantes. Entrava-se na han por uma larga porta, de linhas harmoniosas.
Em cada lado da porta havia duas amplas janelas com barras, não de ferro,
mas talhadas em calcário, cada uma de uma única peça. No vasto pátio
rectangular encontrava-se um espaço para mercadorias e bagagens e a toda
a volta do pátio abriam-se as portas de trinta e seis quartos. Atrás, sob
a colina, achavam-se os estábulos; para pasmo geral, eram também de
pedra, como se construídos para a coudelaria do sultão. Não havia
estalagem semelhante de Serajevo a Hedrene. Aqui cada viajante podia
ficar um dia e uma noite e receber gratuitamente pousada, fogo e água
para si, criados e cavalos.

Tudo isto, como a própria ponte, é a obra piedosa do grande vizir Mehmed
Paxá, que nasceu há mais de sessenta anos atrás destas montanhas, na
aldeia de Sokolovic, incrustada nas colinas, e que na infância fora
levado com um bando de outros garotos, filhos de camponeses da Sérvia,
como tributo de sangue para Istambul.

71

As despesas de manutenção do caravansará provinham do vakuj que Mehmed


Paxá fundara mercê das ricas propriedades tomadas como despojos de guerra
nos territórios recentemente conquistados da Hungria.

Assim, com a construção da ponte e com a fundação da han, desapareceram,


como se vê, muitos sofrimentos e incómodos. Dissipou-se também aquela
estranha dor que o vizir trouxera na infância da Bósnia, na barca de
Visegrad, este golpe negro, lancinante, que de tempos a tempos lhe
cortava o peito em dois. Mas não quis o destino que ele pudesse viver sem
esta dor nem gozar por muito tempo nos seus pensamentos a obra piedosa
que erguera em Visegrad. Pouco depois da conclusão dos últimos trabalhos,
precisamente quando o caravansará começava verdadeiramente a funcionar e
a ponte a tornar-se conhecida no mundo, Mehmed Paxá sentiu ainda uma vez
mais no peito a dor da «negra faca». E isso pela última vez.

Numa sexta-feira, quando entrava com o seu séquito numa mesquita,


aproximou-se dele um derviche semilouco e esfarrapado, de mão esquerda
estendida, a pedir esmola. O vizir voltou-se e ordenou a um membro do seu
séquito que lhe desse algum dinheiro, mas o derviche retirou então da sua
manga direita uma pesada faca de açougueiro e feriu com violência o vizir
entre as costelas. O séquito chacinou o homem. O vizir e o seu assassino
soltaram no mesmo instante o último suspiro — o assassino, corpulento,
sanguíneo, braços e pernas afastados como se o possuísse ainda o impulso
furioso do seu golpe insensato, ao lado do grande vizir, de peito seminu
e sem turbante, que rolara para longe. Nos últimos anos da sua vida
tornara-se magro e curvado, quase de aparência mirrada e endurecida. E
agora, com o peito seminu, de testa nua, contorcendo-se e a sangrar,
dobrado sobre si mesmo, mais parecia um velho camponês de Sokolovic
espancado até à morte que o dignitário que até há pouco antes
administrara o império turco.

Muitos meses decorreram antes que chegasse à cidade a notícia da morte do


vizir, mas mesmo assim não como um facto claro e definido, mas como um
secreto murmúrio que podia ser ou não exacto, pois no império turco não
era permitido divulgar notícias e contar de boca em boca acontecimentos
funestos, mesmo que eles se tivessem produzido num país vizinho, e com
mais forte razão quando se tratava de uma catástrofe nacional. De resto,
neste caso, não era do interesse de ninguém falar muito acerca da morte
do grão-vizir. O partido dos seus adversários, que tinham por fim
conseguido abatê-lo, esperava com o seu solene funeral enterrar com ele a
memória da sua vida.
72

Quanto aos parentes, colaboradores e partidários de Mehmed Paxá em


Istambul, não faziam na maior parte, objecção a que se falasse o menos
possível do velho grão-vizir, porque assim aumentavam as suas
possibilidades de captar as boas graças dos novos dirigentes e de ser
esquecido o seu passado.

Mas as duas belas construções sobre o Drina tinham já começado a exercer


a sua influência sobre o comércio e as comunicações, sobre a cidade de
Visegrad e sobre todos os arredores. E exerciam esta influência sem
atenção pelos vivos ou pelos mortos, pelos que subiam ou pelos que
tombavam. A cidade começou a descer das colinas para a orla do rio e a
expandir-se e desenvolver-se cada vez mais em redor da ponte e do
caravansará, a que o povo dava o nome de «han de pedra».

Assim nasceu a ponte com a sua kapia e assim se desenvolveu a cidade em


volta dela. Depois disso, durante um período de mais de trezentos anos, o
seu papel na expansão da cidade e o seu significado na vida dos seus
habitantes foram similares ao que já acima descrevemos. E o significado e
a substância da sua existência residiam, por assim dizer, na sua
permanência. A sua linha luminosa na composição da cidade não mudou mais
que os perfis das montanhas contra o céu. Na série de fases da Lua e no
declínio rápido das gerações humanas permanece inalterável como a água
que corre sob os seus arcos. Ela envelheceu, também, naturalmente, mas
numa escala de tempo mais larga não só que a existência humana, mas
também que a duração de uma série de gerações, se bem que a este
envelhecimento não se possam aperceber os olhos dos mortais. A sua vida,
ainda que em si finita, assemelha-se à eternidade, pois o seu termo não é
previsível.

75

O primeiro século passou. Pareceu longo e foi mortífero para os homens e


para muitos dos seus trabalhos, mas escoou-se sem deixar vestígios sobre
as construções bem concebidas e solidamente assentes. A ponte, com a sua
kapiu e a han vizinha, continuaram de pé e a servir os que delas
necessitavam como no primeiro dia. Assim teria passado também sobre elas
o segundo século, com a alternância das estações e o suceder das gerações
humanas e as construções teriam durado sem alteração. Mas o que o tempo
não pudera fazer foi provocado pelo acaso flutuante e imprevisível de
circunstâncias remotas.
Nesta época, pelos fins do século XVII, na Bósnia era muitas vezes tema
das canções, das conversas e dos colóquios íntimos, que, na Hungria, o
exército turco, após uma ocupação que durara um século, começava a
retirar. Numerosos senhores bósnios, ao defenderem de armas na mão os
seus domínios húngaros, deixaram, durante a debandada, os ossos na terra
magiar. Esses foram, poder-se-á dizer, os mais felizes, porque muitos
outros senhores voltaram nus como os dedos das mãos à velha pátria
bósnia, onde os aguardava uma terra pouco fértil, uma existência estreita
e indigente, depois da vida rica e descuidada e da soberania sobre os
grandes domínios que haviam possuído na Hungria. Um eco longínquo e vago
destes acontecimentos chegou mesmo até aqui, mas ninguém pensou que esta
Hungria, terra de canções, pudesse ter quaisquer liames com a vida real e
quotidiana da pequena cidade. Foi este, porém, o caso. Com a retirada
turca da Hungria perderam-se, por ficarem fora das fronteiras do Império,
os bens do vakuj, aos quais a hm de Visegrad devia os seus meios de
subsistência.

A população da pequena cidade e os viajantes que um século depois ainda


frequentavam a han de pedra estavam habituados a ela e jamais pensaram
nos rendimentos de que ela vivia, donde provinham e qual fora a sua
origem.

74

Todos se serviam dela, utilizavam-na como uma árvore de fruto produtiva e


bendita à beira da estrada, árvore que a ninguém pertencia e era de
todos. Faziam mecanicamente votos pelo repouso eterno da alma do vizir,
mas não imaginavam que o vizir morrera há mais de um século e não faziam
questão de saber quem agora administrava e defendia as terras do Império
e os bens do vakuj. Quem havia mesmo que pudesse conceber que as coisas
deste mundo se encontram de tal modo dependentes umas das outras e
ligadas entre si a semelhante distância? Eis porque a princípio ninguém
na cidade notou que os recursos se tinham esgotado. Os criados
continuavam a trabalhar e a han acolhia os viajantes como antes. Pensava-
se que o dinheiro destinado à manutenção do estabelecimento fora
retardado, como já acontecera de outras vezes. Entretanto, os meses e os
anos passavam e o dinheiro não chegava. Os criados abandonaram o
trabalho. O mutevelia administrador do legado em funções nessa época,
Dauthodja Mutevelic, assim crismado pelo povo após a sua nomeação, bateu
a todas as portas, mas ninguém lhe deu resposta. Os viajantes cuidavam
das suas necessidades e faziam a limpeza da han na medida das suas
conveniências; mas, ao partir, cada um deixava atrás de si sujidade e
desordem a cargo dos que chegavam após a sua partida. E sempre o novo
hóspede deixava aos cuidados de outro mais porcaria do que a que
encontrara.

Dauthodja fez tudo o que pôde para salvar a han e para a manter a
funcionar. Logo no começo despendeu do seu bolso o dinheiro necessário
para fazer face às despesas e começou depois a pedir emprestado aos
parentes. Assim, de ano para ano, restaurava e embelezava o que cria ser
preciso de maneira a conservar a antiga beleza do precioso edifício.
Àqueles que o censuravam por se arruinar tentando preservar o que não
podia ser mantido ele respondia que colocava bem o seu capital, pois
emprestava-o a Alá, e que, na sua qualidade de administrador dos bens do
vakuj, seria o último a abandonar esta fundação piedosa que,
aparentemente, todos tinham já abandonado.

Este homem sábio e piedoso, pertinaz e obstinado, cuja memória a cidade


muito tempo guardou, não permitiu que alguém o desviasse dos seus vãos
esforços. Trabalhando com devoção, resignara-se havia muito à ideia de
que o nosso destino na Terra reside na nossa luta contra a decadência, a
morte e a dissolução e que o homem deve perseverar nesta luta, mesmo que
ela seja completamente inútil.

75

Sentado diante da han, que decaía ante os seus olhos, respondia àqueles
que procuravam dissuadi-lo dos seus esforços ou o lamentavam:

— Não é preciso que me lastimem, pois nenhum de nós morre senão uma vez,
enquanto os grandes homens, esses, morrem duas vezes: a primeira quando
deixam este mundo e a segunda quando desaparece a obra por eles criada.

Depois de se encontrar sem meios para pagar aos que o servissem, ele
próprio, velho como era, arrancava com as mãos as ervas daninhas que
cresciam em volta da han e fazia as reparações menores. Foi assim que a
morte o surpreendeu num dia em que subira ao telhado para substituir uma
telha partida. Era natural que um hodfa de uma pequena cidade não pudesse
manter um estabelecimento fundado por um grão-vizir e condenado à
falência em razão dos acontecimentos históricos.

Depois da morte de Dauthodja a han começou bruscamente a cair na ruína.


Os primeiros sinais de decadência apareciam por toda a parte. As caleiras
começaram a fender e a exalar um cheiro fétido, o telhado a deixar
penetrar a água da chuva, as janelas e a porta a darem passagem ao vento
e nos estábulos a entranhar-se esterco e ervas daninhas. Mas do exterior
o edifício de pedra, construído com perfeição, parecia sempre imutável e
indestrutível na sua serena beleza. As grandes janelas em ogiva do rés-
do-chão, com as suas grades, que, delicadas como as mais finas rendas,
haviam sido cortadas num único bloco de pedra macia, observavam da sua
quietude o mundo. Porém, sobre as janelas sem ornamento do piso superior
surgiam já sinais de miséria, abandono e desordem interior.

Pouco a pouco os viajantes começaram a evitar passar a noite na cidade,


ou, se o faziam, alojavam-se na estalagem de Ustamujic, onde pagavam a
hospedagem. Os viajantes tornaram-se cada vez mais raros no caravansará,
embora como pagamento tivessem somente de desejar paz à alma do vizir.
Quando acreditaram, por fim, que o dinheiro não mais viria e como não
houvesse ninguém que quisesse tomar a seu cargo a manutenção da obra do
vizir, todos, incluindo o novo administrador dos bens do vakuf,
abandonaram qualquer cuidado relativo ao edifício, e a han, silenciosa e
deserta, caiu na ruína como todos os edifícios onde ninguém vive e de que
ninguém cuida. Em redor dela irromperam da terra cardos e ervas bravias.
Sobre o telhado, deram as gralhas em fazer ninho e os corvos começaram a
juntar-se-lhes em bandos negros e ruidosos.

76

Assim, abandonada prematura e inesperadamente (todas as coisas deste


género acontecem, na aparência, de maneira imprevista), a han de pedra do
vizir começou a desintegrar-se e a ruir.

Mas se, devido a circunstâncias insólitas, o caravansará foi forçado â


trair a sua missão e a cair prematuramente na ruína, a ponte, que não
exigia nem vigilância nem manutenção, permanecia firme e imutável.
Continuou a ligar as duas margens e a lançar no lado oposto fardos vivos
ou mortos como nos primeiros dias da sua existência.

As aves faliam ninho nas suas paredes e nas fendas abertas pelo tempo
cresciam pequenos tufos de erva. A pedra amarela e porosa de que era
construída endureceu e contraiu-se sob a acção alternada da humidade e do
calor. Perpetuamente batida pelo vento que soprava, das duas direcções,
no vale do rio, lavada pelas chuvas e seca pelo calor sufocante do Verão,
esta pedra tomou com o tempo uma brancura mate de pergaminho escuro,
luzindo nas trevas como que iluminada por dentro.

As grandes e frequentes inundações, que constituíam pesada e constante


ameaça para a cidade, nada podiam contra ela. Verificavam-se todos os
anos na Primavera e no Outono, mas nem sempre eram perigosas e nefastas
para a parte da cidade junto da ponte. Pelo menos uma ou duas vezes por
ano, o Drina crescia em fúria e as suas águas rumorosas arrastavam
através dos arcos da ponte cercas derrubadas nos campos, pés de árvores
arrancados das raízes e escuros aluviões cheios de folhagem e ramaria das
florestas ribeirinhas. Na cidade, os jardins, os pátios e as arrecadações
das casas vizinhas sofriam os efeitos da enxurrada. Mas tudo aí se
detinha.

Porém, a intervalos irregulares de vinte a trinta anos, sobrevinham


grandes inundações, que, depois, deixavam profunda recordação, como as
insurreições ou as guerras, sendo por muito tempo usadas como datas a
partir das quais se calculava a idade dos cidadãos e a duração das vidas
humanas. («Cinco ou seis anos após a grande inundação» ou «Durante a
grande inundação».)

A seguir a estas grandes inundações pouca coisa dos bens móveis restava
naquela parte da cidade — a mais extensa —, situada no plaino sobre a
pequena língua arenosa entre o Drina e o Rzav. Uma inundação de tal
envergadura fazia recuar de alguns anos a economia de toda a cidade. Essa
geração passava o resto da existência a reparar os estragos e as
calamidades que atrás de si deixava «a grande inundação». Até ao fim da
sua vida a população evocava nas conversas o terror daquela noite de
Outono em que, sob uma chuva gelada e um vento infernal, à luz de raras
lanternas, cada um retirava as mercadorias da sua loja e transportava-as
para o alto de Mejdan, para casas e armazéns pertencentes a outrem.

77

Quando no dia seguinte, na alva nebulosa, observavam do cimo da colina a


cidade que amavam tão apaixonada e inconscientemente como o seu próprio
sangue, contemplavam as águas turvas e escumosas que desciam as ruas ao
nível dos telhados, tentavam adivinhar a quem pertencia a casa cujo tecto
se abatia, viga após viga, com grande estrondo, e de quem era a casa que
ainda se encontrava de pé.

Por ocasião da slavas e das festas do Natal ou durante as noites do


Ramada, os chefes de família, encanecidos, quebrantados e inquietos,
animavam-se e tornavam-se loquazes quando a conversa tocava o
acontecimento mais importante e mais penoso da sua vida: «a inundação».
Após uns quinze ou vinte anos, durante os quais tinham restaurado as
economias e reparado as casas, a inundação era evocada como se fora algo
de grande e de terrível, de próximo e de caro para eles. E o facto era um
íntimo liame entre os homens ainda vivos desta geração, pois nada há que
congregue mais os homens que um infortúnio vencido com êxito mercê do
esforço comum. Sentiam-se fortemente unidos pela recordação desta
provação passada. Eis porque gostavam de desenredar da teia do tempo a
lembrança do golpe mais penoso que ferira as suas existências e aí
encontravam prazeres que os jovens achavam incompreensíveis. As suas
memórias eram inesgotáveis e evocavam-nas infatigavelmente. No decurso
das conversas completavam mutuamente as suas descrições e revelavam
reciprocamente as suas reminiscências. Fitavam-se uns aos outros nos
olhos senis, de um branco esclerótico e amarelecido, e entreviam o que os
jovens não podiam sequer pressentir. Entusiasmavam-se com as suas
palavras e diluíam os seus cuidados presentes e quotidianos na evocação
de maiores amarguras há longo tempo experimentadas.

Sentados nas salas bem aquecidas das casas através das quais a inundação
passara outrora, contavam pela centésima vez, com prazer especial, certas
cenas comoventes ou trágicas. E quanto mais penosa e torturante era a
recordação maior era o prazer de a contar. Vistas através do fumo do
tabaco, ou através de um copo de aguardente de ameixa, estas cenas eram
muitas vezes transformadas, exageradas e embelezadas pela imaginação e
pela distância, mas jamais um de entre eles o notara e teria jurado que
de facto assim acontecera, pois todos participavam inconscientemente
neste embelezamento involuntário.
78

Assim viviam ainda alguns velhos que se lembravam da última inundação, da


qual continuavam a falar entre si, repetindo aos jovens que não havia já
catástrofes semelhantes h de outrora nem prosperidade e boa vontade como
antigamente.

Uma das maiores inundações da história da cidade ocorrera no último ano


do século XVIII e ficara longo tempo gravada nas memórias e fora objecto
de numerosas narrativas. Nessa geração, como os velhos contaram mais
tarde, não se encontrava praticamente alguém que se lembrasse das últimas
grandes inundações. Contudo, durante estes dias chuvosos de Outono todos
se mantinham alerta, porque sabiam que «as águas eram hostis». Esvaziavam
os armazéns mais próximos do rio, faziam rondas nocturnas, com lanternas,
ao longo da margem, atentos aos ruídos surdos da água, pois os velhos
afirmavam que, em face de um rumor especial da corrente, podiam saber se
a inundação seria semelhante às que anualmente afectam a cidade sem
causar outra coisa que estragos insignificantes ou se era uma das que,
felizmente raras, submergiam tanto a ponte como a cidade e arrastavam
tudo que não fora construído com solidez nem se apoiava sobre alicerces
firmes. No dia seguinte verificava-se que o Drina não subira e a cidade
mergulhava nessa noite num sono profundo, pois todos se encontravam
extenuados pela insónia, após as emoções da noite precedente. Foi assim
que a água os enganou. Nessa noite, de modo imprevisto, o Drav subiu
bruscamente e, vermelho e lamacento, uniu-se na sua confluência com o
Drina. Desta maneira, os dois rios inundaram a cidade.

Suljaga Osmanajic, um dos turcos mais ricos da cidade, possuía então um


alazão árabe, um puro-sangue de grande valor e de rara beleza. Logo que o
Drina, engrossado, principiou a subir, e duas horas antes de submergir as
ruas, o alazão começou a relinchar, só se calando quando conseguiu
despertar os criados e o dono da casa e escapar-se do estábulo, que se
encontrava à beira do rio. Assim foi despertada a maior parte dos
habitantes da cidade. Sob a chuva fria e o vento furioso de uma noite
sombria de Outubro, a população pôs-se em fuga, tentando antes salvar do
desastre tudo o que podia ser salvo. Semivestidos, patinhavam na água até
aos joelhos, carregando às costas as crianças despertas e em lágrimas.
Ouviam-se a cada instante ruídos surdos produzidos pelos troncos e pelos
pés das árvores que, arrastados pelo Drina das florestas inundadas,
embatiam nos pilares da ponte de pedra.

Lá no alto, em Mejdan, que jamais e em circunstância alguma as águas


tinham conseguido atingir, as janelas encontravam-se iluminadas e débeis
lanternas balançavam sem cessar, tremulando nas trevas.

79
As casas, abertas, acolhiam os sinistrados, que, ensopados e desvairados,
traziam nos braços as crianças e os objectos indispensáveis. Nos
estábulos ardiam braseiros, junto dos quais se aqueciam e secavam os que
não haviam conseguido lugar dentro das casas.

Os principais mercadores da cidade, depois de terem instalado todos os


foragidos — os turcos nas residências dos turcos, os cristãos e os judeus
nas dos cristãos —, reuniram-se na sala grande do rés-do-chão da casa de
Hadji Ristic. Aí se encontravam os mukhtats e os kmets, exaustos e
encharcados, após terem despertado e posto em segurança todos os seus
concidadãos. Turcos, cristãos e judeus achavam-se juntos. A violência dos
elementos e o fardo do infortúnio comum reunira todas estas pobres
criaturas e lançara uma espécie de ponte sobre o fosso que separa uma fé
da outra, e, em especial, os cristãos dos turcos: Suijaga Osmanagic, o
ricaço Petar Bogdanovic, Mordo Papo, o pope Mihailo, cura corpulento,
pouco loquaz e espiritual, o gordo e grave Mula Ismet, o hodja de
Visegrad, e Elias Levi, conhecido por Hadji Liacho, o rabi judeu
apreciado mesmo em regiões distantes da cidade em virtude do seu
julgamento leal e são e da sua natureza franca. Havia ainda uma dezena de
outros, representando as três fés. Todos estavam ensopados, pálidos, de
cenho carregado, mas calmos na aparência; sentados, fumavam- e falavam
das medidas tomadas para salvar a população e do que devia ser feito
ainda. A cada instante entravam jovens, a escorrer água, para relatar que
todos os seres vivos haviam sido conduzidos para Mejdan e para os fundos
da fortaleza e aí instalados nas casas de turcos e cristãos, e que no
plaino a água subia sempre e conquistava rua após rua. À medida que a
noite avançava -— mas fazia-o lentamente, parecia enorme, crescendo cada
vez mais como as águas no vaie — os chefes e os ricos começaram a
aquecer-se, bebendo café e aguardente de ameixa. Formou-se ura círculo
estreito e cálido, como uma existência nova, toda feita de realidade,
mas, contudo, irreal, diferente da do dia anterior como o seria do dia
seguinte, mas agora uma ilha transitória sobre a inundação do tempo. A
conversa generalizava-se, de súbito mudava de sentido. Evitava-se mesmo
falar de inundações anteriores que se conheciam das narrativas. Falava-se
de coisas que em nada se relacionavam com as águas e com a calamidade que
se verificava neste instante.

Esta gente desesperada fazia esforços inauditos para tomar um ar


tranquilo e indiferente.

80

Em virtude de um acordo tácito e supersticioso e em conformidade com


regras não escritas, mas consagradas, de dignidade e porte, regras que
são as da classe dos ricos proprietários e comerciantes e que têm força
de lei desde tempos imemoriais, cada um considerava como seu dever fazer
um esforço de vontade, e nesse momento, pelo menos aparentemente, ocultar
as suas apreensões e os seus receios e, em presença de uma desgraça
contra a qual nada podiam, falar num tom ligeiro de coisas longínquas.
Mas justamente quando haviam já começado a retomar a calma conversando
desta maneira e a encontrar um momento de esquecimento e, com ele, o
repouso e a energia que lhes seriam grandemente necessários no dia
seguinte, chegaram alguns desconhecidos, trazendo consigo Kosta Baranac.
Este proprietário, ainda jovem, achava-se completamente encharcado,
coberto de lama até aos joelhos e desgrenhado. Perturbado pela luz e
confundido pela presença de tanta gente, olhava em frente, sem nada ver,
como num sonho, limpando com as mãos abertas a água que lhe escorria pela
cara. Deram-lhe lugar e ofereceram-lhe um copo de aguardente de ameixa
que não foi capaz de fazer chegar aos lábios. Todo o seu corpo tremia. Um
murmúrio percorreu a sala: ele tentara meter-se à corrente sombria que
agora se quebrava contra a margem arenosa, precisamente no local onde se
encontravam os seus celeiros.

Era um homem novo, que, chegado à cidade há uns vinte anos, simples
aprendiz, casara mais tarde com uma jovem de boa família e enriquecera
rapidamente. Era um filho de camponeses, que no decurso dos últimos anos
acumulara uma rápida fortuna devido a golpes audaciosos e sem escrúpulos,
suplantando assim, subitamente, muitas das maiores famílias da cidade;
não estava habituado a perder e não sabia suportar o infortúnio. Neste
Outono comprara grandes quantidades de ameixas e nozes, mais do que
permitiam realmente os seus recursos, esperando no Inverno impor os
preços no mercado desses frutos, desembaraçando-se assim das suas dívidas
e realizando bons lucros como acontecera no ano anterior. Agora estava
arruinado.

Um certo tempo passou antes que se dissipasse a impressão produzida por


este homem perdido, porque todos, mais ou menos, tinham sido atingidos
por esta inundação e somente em virtude de um sentimento inato de
dignidade se dominavam melhor que este novo-rico.

Os mais velhos e mais considerados dos presentes mudaram de novo a


conversa para assuntos fúteis.

81

Contaram outras histórias sobre acontecimentos antigos, que não tinham


qualquer ligação com o desastre que os forçara a reunir-se aqui e que a
todos envolvia.

Bebiam aguardente de ameixa quente e evocavam memórias de épocas


volvidas, ressuscitavam personagens curiosas, recordações originais da
cidade e toda a espécie de acontecimentos aprazíveis e insólitos. O pope
Mihailo e Hadji Liacho davam o exemplo a seguir. Quando a conversa
evocava de novo, involuntariamente, uma inundação passada, eles
recordavam somente os aspectos leves e agradáveis, ou que ao menos assim
parecessem, após tantos anos, como se empregassem fórmulas mágicas e
deste modo desafiassem a inundação.
Evocou-se a figura do pope Jovan, que aqui fora pároco outrora e de quem
os paroquianos asseveravam ser um bom homem; não tinha, porém, mão feliz,
e Deus dava pouco crédito às suas preces.

No Verão, durante os períodos de grande seca que muitas vezes destruíam


todas as colheitas, o pope Jovan, sempre em vão, organizava uma procissão
e orava para que a chuva viesse; contudo, procissões e preces foram
seguidas habitualmente de seca ainda maior e de calor sufocante. E quando
num Outono que se seguiu a um Estio dos mais secos o Drina começou a
engrossar e se desenhou a ameaça de uma inundação geral, o pope Jovan
desceu à margem, reuniu os fiéis e pôs-se a rezar para que a chuva
cessasse- e as águas deixassem de subir. Foi então que um tal Jokic,
ébrio e calaceiro, reconhecendo que Deus fazia sempre o contrário do que
o pope rogava, gritou em altos berros:

— Essa prece não, padre, mas a do Verão, aquela da chuva, e ela


certamente ajudará a fazer baixar as águas.

O obeso Ismet Effendi falou dos seus predecessores e da sua luta contra
as inundações. Por altura de uma destas calamidades, há longos anos, dois
hodjas de Visegrad puseram-se a caminhar a fim de fazerem uma prece
destinada a sustar a catástrofe. Um vivia na parte baixa da cidade,
ameaçada pela inundação, enquanto que o outro residia na colina, onde a
água não podia chegar. O hodja da colina foi quem primeiro orou, mas,
como a água não baixasse sequer um centímetro, um cigano, cuja casa
começava já a mergulhar na água, pôs-se a gritar:

— Eh, amigos, trazei agora o hodja que tem, como nós, uma

casa inundada. Não vêem que ao da colina não lhe dói a fazenda ?

Hadji Liacho, corado e sorridente, com madeixas exuberantes

da cabeleira branca despontando da base do fez extraordinariamente baixo,


ria de todos estes gracejos e gritava ao pope e ao hodja:

82

— Não falem muito das preces contra as inundações, se não a nossa gente
pode recordar-se do passado e forçar-nos a sair com este temporal para
rezar novamente.

Assim eram desfiadas as histórias, que, incompreensíveis e sem


significado para os outros, só tinham sentido para eles e para os da sua
geração — sempre alguma recordação inocente, íntima e somente deles
conhecida, lembrança que evocava a vida monótona, bela, porém dura, da
pequena cidade, esta existência que era também a sua. Embora todas estas
coisas tivessem mudado com os anos, permaneciam ainda estreitamente
ligadas às suas vidas, posto que distantes do drama daquela noite, que os
fizera reunir-se naquele círculo fantástico.
Assim estes homens respeitados, endurecidos e habituados desde a infância
a calamidades de toda a espécie, dominavam «a noite da grande inundação»
e encontravam em si força suficiente para gracejar em face do desastre
que se abatera sobre a região, fazendo por dissimular o infortúnio que
não podiam evitar.

Mas no seu foro íntimo estavam todos grandemente inquietos e cada um, sob
os chistes e o riso amarelo, como que sob uma máscara, revolvia
continuamente no espírito inquietos pensamentos e escutava sem cessar o
rumor da água e do vento, este ruído que vinha da cidade baixa onde se
encontrava tudo o que possuíam. Na manhã seguinte, após terem passado
deste modo a noite, observaram do cimo de Mejdan o plaino onde as suas
casas se achavam cercadas pelas águas, algumas somente meio submersas,
outras mesmo até ao telhado. Então, pela primeira e última vez na sua
vida, viram a cidade sem ponte. A superfície da água elevara-se dez
metros, de maneira que os largos e altos arcos estavam cobertos e as
águas corriam mais altas que a ponte, oculta pela torrente. Somente a
parte elevada, onde se situava a kapia, emergia da superfície das águas
revoltas que corriam à volta dela formando uma pequena cascata,

Contudo, dois dias mais tarde a água baixou subitamente, o céu clareou e
o sol rompeu, quente e rico como por vezes sucede nalguns dias de Outubro
nesta terra fértil. A cidade, neste dia magnífico, apresentava um aspecto
terrível e desolador. As casas dos ciganos e dos pobres junto à margem
estavam inclinadas na direcção da corrente, muitas delas sem tecto; a cal
e a argila haviam desaparecido e somente se viam as hastes negras dos
ramos de salgueiro, que tinham o aspecto de esqueletos.

83

Nos pátios sem vedação as casas dos ricos encontravam-se às escâncaras e


as janelas despedaçadas; em cada uma delas uma linha de lama avermelhada
mostrava até que nível subira a inundação. Muitos estábulos tinham sido
arrastados pela corrente e havia celeiros deitados por terra. Nas lojas
baixas a lama chegava até aos joelhos e nela nadavam as mercadorias que
não puderam ser retiradas a tempo. As ruas achavam-se juncadas de árvores
inteiras que a água arrastara não se sabe donde e de cadáveres
entumecidos de animais afogados.

Tal era o estado da cidade, à qual era preciso descer e continuar a


viver, E entre as margens inundadas, sobre a água que ainda corria com um
grande rumor, elevava-se a ponte, branca e imutável, ao sol. A água
atingia o meio dos pilares e a ponte dava a impressão de estar noutro rio
mais profundo que aquele que habitualmente corria sob os seus arcos. Em
cima da ponte, ao longo do parapeito, acumulavam-se camadas de lama que,
sob a acção do sol, secava e abria fendas; sobre a kapia haviam-se
amontoado sedimentos de pequenos ramos e aluviões, mas tudo isto em nada
alterava o aspecto da ponte, que, solitária, atravessara a inundação sem
estragos e dela emergira incólume.
Todos na cidade se lançaram imediatamente ao trabalho para reparar os
estragos e ninguém teve tempo para pensar no significado da vitória da
ponte, mas, ao cuidarem dos seus afazeres nesta cidade malfadada, na qual
quase nada fora poupado pelas águas, sabiam que na sua vida havia
qualquer coisa que podia resistir a todos os elementos e que a ponte,
mercê da estranha harmonia das suas formas e a solidez invisível e
permanente das suas fundações, sairia de cada prova indestrutível e
inalterada.

O Inverno que se seguiu foi rude. Todos os produtos, cuidadosamente


armazenados nos pátios e nos celeiros — madeira, trigo, feno — tinham
sido arrastados pela inundação. Era preciso restaurar as casas,
reconstruir os estábulos e as cercas e obter a crédito novas mercadorias
para substituir as destruídas nos armazéns e nas lojas. Kosta Baranac,
que fora quem mais sofrera devido às suas ousadas especulações com as
ameixas e nozes, não sobreviveu a este Inverno: morreu de mortificação e
vergonha. Deixou os filhos, de tenra idade, quase sem vintém, assim como
pequenas mas numerosas dívidas dispersas por todas as aldeias. Deixou de
si mesmo a memória de um homem que tentara dar um salto demasiado grande
para as suas forças.

No Verão seguinte a lembrança da grande inundação começou a esfumar-se na


mente dos velhos, onde deveria permanecer ainda longo tempo, enquanto os
jovens, cantando e tagarelando, se sentavam na branca kapia de pedra lisa
sobre a água que corria lá muito em baixo, e que, com o seu rumor, fazia
o acompanhamento das canções.

84

O esquecimento tudo cura e o canto é a mais bela maneira de esquecer,


pois ao cantar o homem só se lembra do que ama.

Assim, sobre a kapia, entre o céu, o rio e as montanhas, gerações


sucessivas aprenderam a não se afligir demasiadamente com o que as águas
revoltas do Drina provocavam. Foi assim que adoptaram a filosofia
Inconsciente da cidade: a vida é um milagre incompreensível, porque se
consome e dilui sem cessar, e, todavia, continua e mantém-se solidamente
«como a ponte sobre o Drina».

85

VI
Além das inundações, houve também outras investidas contra a ponte e a
sua kapia, provocadas pelo desenrolar dos acontecimentos e pelo curso dos
conflitos humanos; porém, os danos por eles causados à ponte eram menores
que os das águas tumultuosas ou não lhes ocasionavam uma mutação
duradoura.

No princípio do século passado rebentou uma insurreição na Sérvia. Esta


cidade, situada na própria fronteira da Bósnia e da Sérvia, estivera
desde sempre em ligação directa e em contacto permanente com todos os
acontecimentos desencadeados na Sérvia, associando com ela os seus
interesses «como a unha com a carne». Nada do que acontecia na região de
Visegrad — seca, epidemia, opressão ou revolta — era indiferente aos
habitantes da região de Uzice, e vice-versa. Apenas a princípio a conexão
parecia longínqua e insignificante, longínqua porque se desenrolava no
outro extremo do pashaluk de Belgrado, insignificante porque os rumores
da revolta não eram de modo algum uma novidade. Desde os primórdios do
império que se registavam tais rumores, pois não existe dominação sem
revoltas e sem conspirações, da mesma maneira que não há fortuna sem
trabalhos e sem perdas. Mas, com o tempo, a insurreição da Sérvia começou
a afectar cada vez mais a vida de todo o pashaluk da Bósnia, e
especialmente a vida desta cidade, situada apenas a uma hora de marcha da
fronteira. À medida que o conflito alastrava na Sérvia, mais era exigido
aos turcos da Bósnia, que se viam contrangidos a dispensar homens ao
exército e a contribuir para o seu equipamento e manutenção. A força
militar e o comboio de viaturas enviados para a Sérvia passaram em grande
parte através da cidade, do que resultaram despesas, inconvenientes e
perigos não só para os Turcos, mas, sobretudo, para os Sérvios,
considerados suspeitos, que eram, mais do que nunca, perseguidos e
multados.

86

Por fim, num Verão, a insurreição estendeu-se a estas paragens. Evitando


Uzice, os insurrectos chegaram a um ponto situado a duas horas de marcha
da cidade. Aí, em Veletovo, destruíram a tiros de canhão a herdade
fortificada de Lufti Beg e incendiaram certo número de casas de turcos em
Crnce.

Havia na cidade turcos e sérvios que juravam ter ouvido o troar do canhão
de Karageorge (Nota 1) (com sentimentos absolutamente opostos,
naturalmente). Mas, se podia duvidar-se de que o eco do canhão da revolta
sérvia se ouvira mesmo na cidade, pois o homem pensa geralmente ouvir o
que teme ou o que aguarda, não restavam dúvidas quanto aos incêndios que
os revoltosos atearam durante a noite no Panos, crista escarpada e nua
entre Veletovo e Gostilje, na qual se podiam contar da cidade, a olho nu,
os grandes pinheiros solitários. Os turcos e sérvios lobrigavam-nos bem e
observavam-nos atentamente, fingindo, uns e outros, não os notar. Na
penumbra das janelas ou ocultos na obscuridade dos densos jardins, uns e
outros observavam o braseiro, depois o avolumar e a extinção do fogo. As
mulheres sérvias persignavam-se e choravam, presas de inexplicável
comoção, mas nas suas lágrimas reflectiam-se os fogos ateados pelos
insurrectos como as chamas fantasmagóricas que noutros tempos desciam
sobre o túmulo de Radisav e que as suas remotas avós, quase três séculos
antes, entreviam da mesma maneira através das lágrimas daquele mesmo
Mejdan.

As chamas que crepitavam, disformes e dispersas, no fundo sombrio de uma


noite de Verão, em que céus e montanhas se fundiam, pareceram aos sérvios
uma nova constelação, na qual, avidamente, liam ousados presságios e,
tremendo de emoção, a sua sorte e os acontecimentos futuros. Para os
turcos constituíam as primeiras vagas de um mar de fogo que, depois de
submergir a Sérvia, se quebravam contra as colinas ao cimo da cidade.
Durante aquelas noites de Verão os desejos e as súplicas de uns e de
outros gravitavam à volta dessas chamas. Porém em direcções opostas. Os
sérvios oravam a Deus para que as chamas salvadoras, semelhantes às que
desde sempre tinham acalentado nos corações e cuidadosamente escondido,
se expandissem até estas montanhas, enquanto os turcos rogavam a Alá que
as sustivesse e extinguisse, a fim de frustrar os desígnios sediciosos
dos infiéis e restaurar a antiga ordem e a paz da verdadeira fé.

Nota 1 - Chefe da insurreição nacional sérvia contra os Turcos em 1804.


(N. dos T.)

87

As noites achavam-se então cheias de murmúrios prudentes e apaixonados,


onde pulsavam vagas invisíveis dos mais ousados sonhos e desejos, dos
mais inverosímeis pensamentos e planos que triunfavam ou se esbatiam nas
trevas azuis por cima da cidade. Mas no dia seguinte, ao romper da alva,
turcos e sérvios entregavam-se aos seus negócios, cruzavam-se com olhos
baços e rostos sem expressão, saudavam-se e conversavam, usando as
centenas de lugares-comuns da polidez provinciana que em todos os tempos
circulavam na cidade, passando de uns para outros como moeda falsa mas
que, no entanto, tornavam possíveis e facilitavam as relações sociais.

Quando, pouco depois das festas de Santo Elias, as chamas desapareceram


do monte Panos e as revolta foi sufocada na região de Uzice, nem uns nem
outros manifestaram os seus sentimentos, sendo difícil saber o que para
uns representavam os outros. Os turcos sentiam-se satisfeitos por verem a
revolta afastada e esperavam vê-la extinguir-se completamente e
desaparecer da maneira que acabam as façanhas dos ímpios e dos perversos.
Contudo, este contentamento era incompleto e velado, pois se tornava
difícil esquecer um perigo tão recente. Muitos deles veriam ainda nos
seus sonhos, longo tempo decorrido, as chamas fantásticas dos revoltosos
como miríades de centelhas faiscando sobre as colinas que circundam a
cidade e ouviriam o canhão de Karageorge não como um eco surdo e
longínquo, mas como um canhoneio devastador que semeasse ruína.

Os sérvios, como é natural, ficaram desapontados após o desaparecimento


das chamas no Panos; mas no mais profundo dos seus corações, que a
ninguém se abre, subsistia a lembrança do que acabava de ocorrer e a
sensação de que podia produzir-se de novo o que já sucedera. Restava
sempre demasiada esperança, uma esperança sem sentido, o grande lenitivo
dos oprimidos. Pois os que governam e têm de oprimir para governar são
forçados a agir de acordo com a razão. Mas se, transportados pela paixão
ou obrigados pelo adversário, ultrapassam o limite dos actos razoáveis, a
sua descida não tem obstáculos e ela marca o começo da sua queda, ao
passo que os oprimidos e os espoliados se utilizam com a mesma facilidade
da razão e da insensatez, pois essas são as únicas duas armas de que
podem servir-se na luta incessante, ora dissimulada, ora aberta, contra o
opressor.

Naquela época a importância da ponte, como única via segura de


comunicação entre o pashaluk da Bósnia e a Sérvia, crescera
extraordinariamente.

88

Na cidade encontrava-se ainda, com carácter permanente, um destacamento


militar, que não fora desmobilizado mesmo nos largos períodos de calma e
que se mantinha vigilante na ponte. Para cumprir o melhor possível a sua
missão com um mínimo de labor, os soldados começaram a erguer um fortim
de madeira a meio da ponte, um verdadeiro monstro de fealdade pela forma
e posição e pelo material empregado. Mas todos os exércitos do mundo
erguem para os seus fins especiais e para as suas necessidades
esporádicas construções semelhantes a esta, que, mais tarde, vistas à luz
da vida normal e pacífica, parecem absurdas e incompreensíveis. Era um
verdadeiro edifício de dois pisos, grosseiro e feio, feito de vigas
toscas e de pranchas não aplainadas, com uma passagem em túnel nos
baixos. Assentava em fortes colunas, escarranchando-se na ponte e apoiado
somente nas duas extremidades da kapia, uma no terraço da esquerda e
outra no da direita. Em baixo havia espaço livre para viaturas, cavalos e
peões; mas, em cima, no piso onde dormiam os guardas, que tinha por
acesso uma escada descoberta, era possível observar quem passava,
examinar papéis e bagagens e, a qualquer momento,

Ise fosse preciso, barrar a passagem. Aquele fortim alterava


verdadeiramente o aspecto da ponte. A bela kapia ficara oculta pela
estrutura de madeira, que, equilibrada nos seus pilares, parecia
empoleirar-se nela como uma ave gigante.

No dia em que se concluiu, o fortim exalava ainda o forte odor da madeira


resinosa e os passos ressoavam no vazio. A guarda instalou-se
imediatamente. Logo ao despontar do dia, na primeira manhã, o fortim,
como uma ratoeira, apanhara já as primeiras

vítimas.

Sob um sol baixo e rubro, juntaram-se sob o fortim alguns soldados e


civis turcos armados que, de noite, faziam a ronda em redor da cidade,
ajudando deste modo a tropa. Nomeio deste grupo, sentado num cepo,
achava-se o comandante da guarda, e diante dele, de pé, um velho de
pequena estatura, um peregrino religioso, vagabundo, algo entre monge e
mendigo, de aspecto inofensivo, asseado e doce na sua pobreza, de sorriso
fácil, apesar dos seus cabelos brancos e do rosto enrugado. Era um pobre
excêntrico chamado Jelisije, de Cajnice. Visitava há muitos anos igrejas
e mosteiros, sempre afável, solene e sorridente, frequentava as
assembleias de fiéis e festividades, orava, prosternava-se e jejuava. As
autoridades turcas não lhe davam atenção e deixavam-no circular como um
pobre de espírito e servo de Deus, permitindo-lhe andar por onde quisesse
e dizer o que lhe agradasse.

89

Mas agora, devido à insurreição na Sérvia, os tempos eram outros,


obrigando a medidas severas. Chegaram à cidade algumas famílias turcas
cujos bens haviam sido totalmente destruídos pelos revoltosos. Pregavam o
ódio e clamavam vingança. Distribuíram-se guardas por toda a parte e
reforçou-se a vigilância; os turcos locais continuavam amedrontados e
cheios de rancor, lançando sobre toda a gente olhares desconfiados e
sanguinários.

O velho viera pela estrada de Rogatica e, por infelicidade sua, era o


primeiro viajante a querer atravessar a ponte no dia em que se concluíra
o fortim e em que se instalara a primeira guarda. Escolhera, de facto, a
pior altura, pois o dia ainda não despontara de todo. Trazia diante de
si, como se traz uma vela acesa, um pesado bordão decorado com letras e
estranhos sinais. O fortim absorveu-o como uma aranha captura uma mosca.
Submeteram-no a um interrogatório sumário. Perguntaram-lhe quem era, o
que fazia e que significavam os enfeites e as letras do bordão. Ele
respondeu livre e abertamente mesmo a perguntas que não lhe tinham
formulado, como se estivesse perante o Juiz Supremo, e não diante de
turcos cruéis. Disse que nada era, nem ninguém, mas somente um viandante
nesta terra, um caminheiro num mundo transitório, uma sombra ao sol. Os
breves dias que lhe restavam para viver passava-os orando, indo de
mosteiro em mosteiro até que tivesse visitado todos os lugares santos,
instituições piedosas e os túmulos dos czars e dos grandes senhores
sérvios. Quanto às inscrições que ornavam o seu bordão, simbolizavam as
diversas épocas da liberdade e da grandeza sérvias, passadas e futuras.
Pois, dizia o velho, sorrindo timidamente e com modéstia, a hora da
ressurreição aproximava-se, e segundo o que lera nos livros e o que vira
na Terra e nos Céus, essa hora não tardaria. O Reino dos Céus
ressuscitaria resgatado por provações e alicerçado na verdade.

— Sei que o que ouvis não é do vosso agrado, senhores, e que não deveria
fazer-vos estas revelações, mas haveis-me prendido e exigido que vos
dissesse toda a verdade, qualquer que ela fosse. Deus é a verdade e é
Único! Agora, peço-vos, deixai-me partir, pois tenho de chegar ainda hoje
a Banja, ao mosteiro da Santíssima Trindade.

O intérprete Shefko traduzia, esforçando-se em vão por encontrar nos seus


elementares conhecimentos da língua turca expressões equivalentes àquelas
palavras abstractas. O comandante da guarda, um anatólio de aspecto
doentio, escutava, semidesperto, as palavras nebulosas e incoerentes do
intérprete; de vez em quando lançava um olhar ao ancião, que, sem temor
ou maus presságios, o observava, aprovando com o olhar tudo o que o
intérprete dizia, apesar de não conhecer a língua turca.

90

Algures, num recanto da consciência do comandante, tornou-se óbvio que


este homem era uma espécie de derviche infiel e semilouco, um tolo
inofensivo de boa natureza, No bordão singular do velho, que já haviam
feito em pedaços, pois julgaram ocultar mensagens no interior, nada
encontraram. Mas, segundo a tradução de Shefko, as palavras do
prisioneiro pareciam suspeitas, ressumavam política e intenções
sediciosas. O comandante teria permitido que aquele pobre de espírito
prosseguisse o seu caminho, mas encontravam-se ali reunidos outros
militares, assim como guardas civis, e todos haviam seguido com atenção o
interrogatório. Achava-se presente o sargento Tahir, indivíduo de má
índole e dissimulado, que já por várias vezes o caluniara junto do seu
chefe e o acusara de falta de vigilância e de severidade. Havia ainda
este Shefko, que, na sua missão de intérprete, deformara manifestamente
as palavras, dando-lhes o pior sentido; ele gostava de se intrometer em
tudo e, como detractor sem escrúpulos, era bem capaz de fazer ou
confirmar falsos depoimentos, mesmo sem provas. Ali se encontravam também
turcos da cidade, voluntários que, com ar carrancudo e importante,
participavam em rondas, prendiam viajantes suspeitos e, sem necessidade,
se imiscuíam no seu serviço. E todos eles, nestes dias, se achavam
sedentos de vingança, de punição e de crime, desejando matar quem quer
que lhes caísse nas mãos, pois não podiam punir ou matar aqueles que
pretendiam. Ele não os compreendia nem os aprovava, mas via bem que todos
estavam de acordo em que o fortim, logo na primeira manhã, tivesse a sua
vítima. Receava as consequências da exasperação dos outros, no caso de se
opor aos seus desejos. O pensamento de que lhe pudessem advir
aborrecimentos desagradáveis por causa daquele velho tolo parecia-lhe
intolerável. De qualquer modo, o ancião, com as suas histórias acerca do
império sérvio, não iria longe entre os turcos daquele país em
efervescência, abelhas furiosas de um cortiço derrubado. O acaso que o
trouxera era o responsável pela sua sorte.
Logo que o preso foi amarrado e o comandante se preparava para ir à
cidade a fim de não assistir ao suplício, surgiram alguns guardas e
vários civis turcos conduzindo um jovem sérvio pobremente vestido. As
suas roupas estavam em farrapos, o rosto e as mãos a sangrar. Chamava-se
Mile, um pobre diabo de Lijesko, que vivia só numa azenha de Osojnica.

91

Teria, no máximo, 19 anos, saudáveis e vigorosos.

Naquela manhã, antes do nascer do Sol, colocara cevada no moinho para ser
moída, abrira a represa e depois penetrara profundamente na floresta que
ficava acima do moinho a fim de cortar lenha. Empunhava um machado e
cortava ramos tenros, gozando a frescura da manhã e a facilidade com que
o bosque se rendia aos golpes da lâmina. Sentia prazer nos próprios
movimentos. O machado estava bem afiado e os troncos delgados eram
demasiado frágeis ante o vigor que sentia em si. No seu peito qualquer
coisa crescia e o fazia soltar uma exclamação a cada movimento,
multiplicando-se a intervalos cada vez mais curtos. Como todos os que
viviam em Lijesko, Mile tinha mau ouvido e não sabia cantar. No entanto,
cantava ou bradava naquele lugar sombrio de densa vegetação. Em nada
pensando, sem saber já onde se encontrava, cantava o que a outros ouvira.

No tempo da revolução sérvia o povo fizera da velha canção:

Quando Alibeg era um jovem bei,

uma jovem conduzia o seu estandarte...

uma nova canção:

Quando Karageorge era um jovem bei,

uma jovem conduzia o seu estandarte.,.

Durante esta grande e estranha luta que se desenrolava há séculos naquela


Bósnia, dividida por duas crenças, e a pretexto da terra e do poder e
devido a uma diferente concepção da vida e da ordem, os adversários
tinham arrebatado, uns aos outros, não só mulheres, cavalos e armas, mas
também canções. Muitas poesias passaram, assim, de uns para outros como
troféus de guerra preciosos.
Era esta canção, que se entoava nos últimos tempos entre os Sérvios, mas
cautelosamente e em surdina, longe dos ouvidos dos Turcos, nas habitações
fechadas por ocasião de aniversários, nas pastagens distantes onde os
Turcos não paravam nem sequer uma vez no ano e onde o homem, pelo preço
da sua solidão e pobreza numa região selvagem, vivia como queria e
cantava o que lhe apetecia. E era esta a canção que Mile, o moço de
moleiro, cantava no bosque, mesmo abaixo do caminho que os Turcos tomavam
para ir de Olujac ou de Orahovac ao mercado da cidade.

A aurora mal iluminava o cume das colinas e no lugar sombrio onde se


encontrava reinava ainda uma escuridão quase completa.

92

O corpo de Mile estava molhado pelo orvalho, mas quente do sono da noite,
do pão a escaldar e do trabalho duro. Feria a golpes de machado amieiros
delgados, que cortava pela raiz, e a árvore dobrava-se como a jovem noiva
que beija a mão do padrinho que a leva ao altar. O amieiro salpicava-o de
orvalho frio, como chuva fina, e ficava suspenso sobre a vegetação
rasteira, que, por ser espessa, não o deixava tombar. O jovem quebrava
então os ramos verdes com uma só mão, como se brincasse. Ao mesmo tempo
cantava a plenos pulmões, pronunciando com volúpia certas palavras.
«Karageorge» era qualquer coisa de obscuro, mas forte e audacioso.
«Jovem» e «estandarte» eram para ele coisas também desconhecidas, mas
que, em certa medida, correspondiam aos desejos mais profundos dos seus
sonhos: ter uma namorada que transportasse um estandarte. De uma maneira
ou de outra, sentia prazer em articular aquelas palavras. Todo o vigor
que nele existia levava-o a pronunciá-las em voz alta e numerosas vezes,
e,, à medida que as proferia, a força que nele residia crescia de novo e
obrigava-o a repeti-las ainda mais alto.

Assim cantava Mile ao nascer do dia, enquanto cortava e aparava ramos


pelos quais viera à floresta. Depois desceu a encosta húmida, arrastando
um molho de lenha. Alguns turcos encontravam-se defronte da azenha.
Tinham prendido os cavalos e esperavam por alguém. Eram dez. Mile sentia-
se novamente como quando partira em busca de lenha, só, andrajoso e
embaraçado sem Karangeorge diante dos olhos, sem rapariga e sem
estandarte junto de si. Os turcos esperaram que pousasse o machado,
caindo depois sobre ele de todos os lados, após o que, depois de breve
luta, o manietaram com longas cordas e o conduziram à cidade. Durante o
caminho deram-lhe pauladas no dorso e pontapés, perguntando-lhe o que
representava agora Karageorge para ele e injuriando-o por causa do
estandarte e da jovem.

Sob o fortim na kapia, onde acabavam de amarrar o velho tonto, estavam já


reunidos ao lado dos soldados um certo número de desocupados da cidade,
apesar de ainda não há muito ter rompido o dia. Entre eles encontravam-se
também alguns refugiados turcos, chegados da Sérvia, cujas casas haviam
sido completamente incendiadas. Todos estavam armados e tinham uma
expressão solene como se se tratasse de um grande acontecimento ou de um
combate decisivo. A sua emoção crescia com o nascer do Sol. Este rompia
rapidamente, acompanhado de neblinas claras, lá em baixo, na linha do
horizonte, sobre Goles.

93

Acolheram o aterrado jovem como se ele fosse um chefe rebelde, embora


estivesse esfarrapado e miserável e proviesse da margem esquerda do
Drina, onde a insurreição não penetrara.

Os turcos de Olujac e Orahovac, exasperados pela arrogância do jovem, que


eram incapazes de crer que não fosse intencional, testemunharam que ele
entoava de maneira provocante, mesmo na beira do caminho, canções sobre
Karageorge e os combatentes infiéis. A bem dizer, o jovem não tinha ar de
herói ou de chefe de um bando perigoso: aterrorizado, vestido com
farrapos encharcados, arranhado e espancado, pálido e com os olhos
turvados pela emoção, o que o fazia parecer estrábico, fitava o
comandante como se dele esperasse a salvação. Como descia raramente à
cidade, não sabia que haviam construído um fortim sobre a ponte. Assim,
toda a cena lhe era estranha e irreal como se em sonhos se tivesse
perdido numa estranha cidade povoada de gente ruim e perigosa. Gaguejando
e com os olhos cravados no chão, jurou que jamais cantara fosse o que
fosse, que nunca atacara a honra dos Turcos, que era um pobre servo que
trabalhava num moinho, que estivera a cortar lenha, ignorando porque o
tinham aqui conduzido. Tremia de medo e, de facto, não chegara ainda a
compreender o que sucedera e como, depois da solene emoção que
experimentara na frescura do ribeiro, se encontrara subitamente manietado
e espancado, aqui, sobre a kapia, alvo de todas as atenções, diante de
tanta gente a quem tinha de responder. Esquecera-se, mesmo, completamente
se alguma vez entoara sequer a mais inocente das canções.

Mas os turcos mantinham as suas afirmações: o jovem entoara canções


rebeldes no momento em que passavam e resistira-lhes quando o quiseram
manietar. Cada um deles o confirmou, sob juramento, ao comandante, quando
este os interrogava:

— Juras por Alá?

— Juro por Alá.

— Garantes que é a verdade ?

— Garanto que é a verdade.

Repetiram-no três vezes. Depois colocaram o jovem ao lado de Jelisije e


foram despertar o carrasco, que,, parecia, tinha o sono pesado. O velho
olhou para o jovem que, perplexo e envergonhado, pestanejava, pois não
estava acostumado a ser alvo de todas as atenções, em pleno dia, no meio
da ponte, entre tanta gente.
— Como te chamas ? — perguntou o velho.

— Mile — respondeu o jovem humildemente, como se estivesse ainda a


responder ao interrogatório dos turcos.

94

— Mile, meu filho, abracemo-nos. — E o velho inclinou a cabeça branca


sobre o ombro de Mile. — Abracemo-nos e façamos o sinal da Cruz. Em nome
do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Em nome do Pai, do Filho e do
Espírito Santo. Ámen.

Ele persignou-se e benzeu o jovem, somente com palavras, porque as mãos


de ambos encontravam-se ligadas, e fê-lo rapidamente, pois o carrasco já
chegara.

O executor, um dos soldados da guarda, depressa concluiu a sua tarefa, e


os primeiros passantes que desceram das colinas — era dia de mercado — e
atravessaram a pente puderam ver as duas cabeças colocadas em novas
estacas perto do fortim. O local da ponte onde os infelizes haviam sido
decapitados estava coberto de cascalho e alisado, para ocultar as manchas
do sangue derramado.

Foi assim que o fortim começou a «funcionar».

A partir deste dia foram conduzidos para a kapia todos os que eram
suspeitos ou culpados de participação na revolta, presos quer na própria
ponte ou em qualquer ponto da fronteira. Aí decapitavam os insurrectos ou
simplesmente os infortunados, colocando as suas cabeças sobre as estacas
dispostas em redor do fortim. Quanto aos corpos, lançavam-nos do alto da
ponte para o Drina, caso ninguém se apresentasse a reclamá-los.

A insurreição, com períodos de acalmia mais ou menos curtos, prolongou-se


durante anos, sendo muito grande o número de homens lançados ao Drina
para «procurarem uma outra cabeça melhor e mais razoável». Quis a sorte —
o acaso que perde os fracos e os imprudentes — que tivesse sido este
cortejo aberto por duas almas simples, dois homens pobres e inocentes da
massa iletrada, pois que, muitas vezes, são vítimas deste género as
capturadas pela vertigem dos grandes acontecimentos e que o turbilhão
irresistivelmente atrai e engole. Assim o jovem Mile e o velho Jelisije,
executados no mesmo momento e no mesmo lugar, unidos como dois irmãos,,
foram os que primeiro adornaram com as suas cabeças o fortim militar da
kapia, a qual, daí em diante e enquanto durou a insurreição, jamais se
encontrou privada de tal ornato. Deste modo, a lembrança de dois seres
malfadados, que ninguém antes vira ou de quem jamais ouvira falar, ficou
gravada na memória dos homens, profundamente e por muito mais tempo que a
de muitas outras vítimas mais importantes.

Assim, a kapia desapareceu sob o fortim cruel e de sinistra reputação e,


com ela, também as reuniões, as conversas, os cantos e os prazeres. Os
próprios turcos por lá passavam de má vontade; quanto aos sérvios,
somente atravessava a ponte quem não podia deixar de o fazer, porém de
cabeça baixa e apressadamente.

95

Em volta do fortim de madeira, cujas tábuas, com o tempo, se tornaram


cinzentas e depois negras, criou-se depressa a atmosfera que envolve
sempre os edifícios onde a tropa se demora de modo permanente. Nas
estacas secavam as roupas dos soldados, das janelas eram arremessados
para o Drina detritos, água suja e toda a espécie de imundícies da vida
da caserna. Esta é a razão por que permaneceram ao longo do pilar branco
do meio da ponte os extensos veios de sujidade que se distinguem de
longe.

A função do carrasco foi, durante muito tempo, exercida sempre pelo mesmo
soldado. Era ele um anatólio gordo e escuro, de olhos amarelados e
turvos, de boca negróide e rosto seboso, de cor terrosa, sempre
sorridente, com o sorriso dos homens bem nutridos e bem-humorados.
Chamava-se Hairudin e depressa se tornou conhecido em toda a cidade e em
lugares distantes ao longo da fronteira. Fazia o seu trabalho com prazer
e de maneira conscienciosa; e, certamente, era extremamente hábil e
rápido. Os habitantes diziam que ele tinha a mão mais ligeira que Mushan,
o barbeiro da cidade. Jovens e velhos conheciam-no pelo menos de nome, e
este nome provocava, simultaneamente, estremecimentos e curiosidades ao'
povo. Nos dias de sol, ficava todo o tempo sentado ou deitado na ponte, à
sombra, sob o fortim de madeira. De vez em quando levantava-se para
examinar as cabeças expostas nas estacas, como um hortelão procede em
relação aos melões; depois estendia-se de novo sobre a sua tábua, à
sombra, bocejando, pesado, remeloso e bem-humorado como um velho cão-
pastor. No fundo da ponte, por trás da muralha, juntavam-se garotos
curiosos, que o olhavam timidamente.

Mas quando se tratava do seu trabalho, Hairudin era atento e preciso até
ao mínimo pormenor. Não gostava de que ninguém interferisse na sua
tarefa, coisa que acontecia cada vez com mais frequência à medida que a
insurreição se desenvolvia. Quando os revoltosos incendiaram algumas
aldeias na parte superior da cidade, a cólera dos Turcos ultrapassou
todos os limites. Não só prenderam todos os insurrectos e os espiões, ou
os que consideravam como tal, e os trouxeram à presença do comandante, na
ponte, como, no seu rancor, desejaram imiscuir-se mesmo na execução da
sentença. Um dia, a alva revelou a presença da cabeça do cura de
Visegrad, aquele mesmo pope Mihailo que, por altura da grande inundação,
achara ânimo para gracejar com o rabino e o hodja. Perecera, embora
inocente, na fúria geral desencadeada contra os Sérvios, e as crianças
ciganas introduziram-lhe um cigarro na boca morta.
96

Hairudin condenava com firmeza estas coisas e evitava-as sempre que


podia.

Quando um dia o gordo anatólio morreu inesperadamente vitimado por um


antraz, um novo carrasco, na verdade menos hábil, continuou o seu
trabalho; durante muitos anos ainda, enquanto não se apaziguou a
insurreição na Sérvia, viram-se sempre emergir duas ou três cabeças
cortadas sobre a kapia. Em épocas destas as gentes depressa endurecem e
se insensibilizam. Tanto se habituaram a tal cena que por ela passavam
indiferentes e sem lhe prestarem atenção, de modo que se não deram
imediatamente conta do facto quando cessou esta sinistra exposição. E
quando a situação acalmou na Sérvia e na região fronteiriça, o fortim
perdeu a importância e a razão de ser. Mas a guarda continuou a lá
dormir, embora a passagem da ponte se tornasse, após muito tempo,
completamente livre. Em todos os exércitos as coisas evoluem lentamente;
porém no exército turco com mais lentidão que em qualquer outro. E teriam
continuado assim só Deus sabe por quanto tempo mais se uma noite, devido
a uma vela esquecida, não tivesse lavrado um incêndio no fortim. A
construção, feita de tábuas resinosas ainda quentes do calor sufocante do
dia, consumiu-se quase até à base, quer dizer, até às lajes da hipia.

Na cidade, o povo, impressionado, contemplou a chama enorme que iluminava


não somente a ponte branca, mas ainda as colinas circundantes e se
reflectia, com, clarões rubros e ondulantes, sobre a superfície do rio. E
quando a manhã rompeu, a ponte surgiu, após ter retomado o seu aspecto
primitivo, desembaraçada da pesada construção de madeira que durante anos
ocultara a kapia. As lajes brancas achavam-se tostadas e enegrecidas, mas
as chuvas e a neve cedo as lavaram. Assim, do fortim e dos acontecimentos
sangrentos com ele relacionados nada restou, salvo recordações amargas,
que se começaram a dissipar e desapareceram por fim com aquela geração e
uma única viga de carvalho que não ardera por virtude de se encontrar
fixada nos degraus de pedra da kapia.

A kapia tornou-se uma vez mais o que sempre fora para a cidade. No
terraço do lado esquerdo quando se chegava da cidade um cafeteiro acendeu
de novo o braseiro e dispôs os utensílios. Apenas a fonte sofrera, pois a
cabeça do dragão donde a água fluía fora esmagada. A população começou
novamente a deter-se no soja e a aí passar o tempo a conversar, a tratar
de negócios ou a preguiçar.

97

Nas noites de Verão os jovens aí cantavam em grupos; era lá também que se


sentavam os jovens solitários curtindo as suas mágoas de amor ou tecendo
um desejo vago e doloroso de partir rumo a um mundo distante onde
praticassem grandes feitos e participassem em extraordinárias aventuras,
desejo que atormenta muitas vezes os jovens nos meios restritos e
sonolentos.

Vinte anos após estes acontecimentos era já outra a geração que cantava e
se divertia sobre a ponte, uma geração que não se recordava da carcaça
disforme que constituía o fortim de madeira, dos gritos surdos da guarda
que de noite capturava os viajantes, de Hairudin ou das cabeças expostas
que ele cortava com uma perícia profissional que nenhum outro excedera.

Somente algumas velhas, ao perseguirem os gaiatos que lhes vinham roubar


pêssegos, gritavam maldições, numa voz forte e

irritada: «Que Deus mande Hairudin para te cortar a cabeça!

Que a tua mãe te reconheça na Kapia!»

Mas os garotos, que se escapavam por entre os cercados, não

podiam compreender o verdadeiro sentido destas maldições. Eles

sabiam, naturalmente, que não significavam nada de bom nem de favorável.

Assim, as gerações sucederam-se ao redor da ponte; a ponte sacudia de si,


como pó, todos os traços que lhe deixavam os caprichos ou os
acontecimentos efémeros provocados pelos homens e permanecia, quando tudo
cessava, imutada e inalterável.

98

VII

O tempo passava pela ponte e pela cidade, por anos, por décadas.
Decorriam aqueles decénios dos meados do século XIX durante os quais o
Império Turco acabara por se consumir de febre lenta. Avaliados pelos
contemporâneos, esses anos pareceram relativamente pacíficos e felizes,
embora tivessem as suas parcelas de inquietações e receios, embora
conhecessem secas e inundações, epidemias perigosas e alarmes de todas as
espécies. Estes acontecimentos, porém, chegavam com lentidão,
gradualmente, breves convulsões a agitarem longos períodos de calma.

O limite entre os dois pashaluks da Bósnia e de Belgrado, que passava


mesmo acima da cidade, principiou nesses anos a definir-se cada vez mais
acentuadamente e a tomar o aspecto e o significado de uma fronteira entre
Estados. Esta situação mudava as condições de vida em toda a região,
inclusive na cidade, influía no comércio, nas comunicações e nas relações
mútuas entre Turcos e Sérvios.
Os turcos mais idosos franziam o sobrolho, piscavam os olhos, recusando
crer nestas mudanças, como se desejassem dissipar esse espectro
desagradável, encolerizavam-se, ameaçavam, reuniam-se em conselhos, para
em seguida se esquecerem disso durante meses, até que a realidade crua
volvia à sua lembrança e os alarmava novamente.

Foi assim que, num dia de Primavera, um dos turcos de Veletovo, chegado
da fronteira, se sentou na kapia e, bastante emocionado, relatou aos
notáveis turcos reunidos o que acabava de suceder em Veletovo.

Numa dada altura do Inverno,, contou o homem de Veletovo, chegou a esta


aldeia Jovan Micic, personagem de péssima reputação, seriar de Ruyan,
vindo de Arilje, com um bando armado, começando a inspeccionar e a marcar
a fronteira.

99

Quando lhe perguntaram quais as suas intenções e o que fazia ali,


respondeu com arrogância que não tinha contas a dar a ninguém e muito
menos a Bósnios renegados, mas, se pretendiam, dizia ele, sabê-lo, dava-
lhes a conhecer que fora enviado pelo príncipe Milos para ver onde
passaria a fronteira e até onde iria estender-se a Sérvia. — Pensámos —
continuou o homem de Veletovo — que ele tivesse bebido e não soubesse o
que dizia, pois conhecíamo-lo de longa data como um bandoleiro inconfesso
e um porco. Viramos-lhe as costas, por imbecil, e não pensámos mais nele.
Voltou ainda não eram decorridos dois meses, desta vez com uma companhia
inteira de soldados de Milos e com um delegado do sultão, um homem mole e
pálido de Istambul. Nem queríamos acreditar nos nossos olhos. Mas o
delegado confirmou tudo. Baixou os olhos de vergonha, mas confirmou.
Havia, disse, ordem do Governo imperial para que Milos administrasse a
Sérvia em nome do sultão e para que se determinasse a fronteira para
saber até onde se alargaria a sua jurisdição. Quando os homens do
delegado começaram a cravar estacas ao longo da vertente abaixo de
Tebrebica, Micic foi de poste em poste arrancando-os e deitando-os por
terra logo após eles. O cristão, furioso (que os cães devorem o seu
cadáver!), atirou-se ao delegado, berrou-lhe aos ouvidos como a um lacaio
e ameaçou-o com a morte. «A fronteira não passa aqui», disse. «A
fronteira foi fixada pelo sultão e pelo czar da Rússia, que deram um
ferman ao príncipe Milos; ela corre agora ao longo do Lim, passa mesmo
pela ponte de Visegrad, para em seguida seguir o Drina; todo este
território faz, portanto, parte da Sérvia. E isto provisoriamente, pois
mais tarde será necessário fazê-la avançar bastante.» O delegado
conseguiu persuadi-lo com grande custo e fixaram então a fronteira logo
acima de Veletovo. As coisas ficaram neste pé, pelo menos por agora.
Todavia, depois desse momento, a dúvida e um certo receio assaltaram-nos
e não sabemos nem que fazer nem onde nos fixarmos. Conversámos com a
gente de Urice, mas também eles não sabem o que acontecerá, nem como
terminará tudo isto. O velho Hadji Zuko, que fez duas vezes a
peregrinação a Meca e que tem mais de noventa anos, diz que antes de
decorrida uma geração a fronteira turca recuará para o mar Negro, a
quinze jornadas daqui.

Os notáveis turcos ouviram o homem de Veletovo. Pareciam ter um ar calmo,


mas interiormente estavam perturbados e confusos. Sob o efeito das
palavras, não podiam permanecer quietos, as suas mãos fincavam-se no
banco de pedra, como se um choque poderoso e invisível viesse de qualquer
parte atingir e sacudir a ponte debaixo dos seus pés.

100

Contendo-se, encontraram palavras para minimizar e rebaixar a importância


deste acontecimento.

Não gostavam de palavras desagradáveis, nem de pensamentos penosos, nem


de conversas sérias e preocupadas na kapia, mas viram por si mesmos que
isto não pressagiava nada de bom; não puderam negar o que o homem de
Veletovo relatara, nem souberam ao certo como acalmá-lo e reconfortá-lo.
Nestes termos, esperaram apenas que o camponês regressasse à sua aldeia
nas montanhas. Isso não reduziria a sua inquietação, com certeza, mas
afastá-la-ia deles. Efectivamente, quando o homem partiu sentiram-se
felizes por poderem voltar aos sus hábitos e por poderem continuar a
sentar-se tranquilamente na kapfo, sem conversas que tornam a vida
desagradável e o futuro aterrador; deixaram ao tempo o cuidado de atenuar
e diminuir a gravidade dos acontecimentos que se desenrolavam atrás das
montanhas.

E o tempo realizou a sua obra. A vida continuou, aparentemente imutável.


Mais trinta anos decorreram após esta conversa na kapia. Mas as estacas
que o delegado do sultão e o serdar de Ruyan tinham implantado na
fronteira ganharam raízes e deram frutos, serôdios mias amargos, para os
Turcos: estes tiveram mesmo de abandonar as últimas cidades que possuíam
na Sérvia. Num dia de Verão, a ponte de Visegrad foi enxameada por um
cortejo lastimável de refugiados de Uzice.

Decorria um desses dias quentes de longos e agradáveis crepúsculos na


kapia quando os turcos do bairro do mercado encheram os dois terraços
sobre a água. Nesses dias os melões chegavam em cestos, a dorso de
burros. Refrescavam-se amiúde os melões e as melancias e, à tardinha, os
ociosos compravam-nos e comiam-nos no soja. Normalmente dois amigos
faziam uma aposta: a melancia era vermelha ou branca por dentro?
Cortavam-na então, o que perdia pagava e comiam-na a meias, conversando e
gracejando ruidosamente.

Dos terraços de pedra irradiava ainda o calor tórrido do dia, mas da água
subia já uma fresca aragem, acompanhando o crepúsculo. O meio do rio
brilhava, mas junto das margens, debaixo dos salgueiros e dos vimes, ele
estava cheio de sombras e tinha um matiz verde-escuro. Todas as colinas
circundantes tomavam ao Sol poente tons vermelhos, resplandecentes numas
e mal se notando noutras. Por cima delas, em toda a metade sudoeste do
anfiteatro que se abrange da kapia, estendiam-se nuvens estivais, cuja
cor mudava continuamente. Estas nuvens são um dos grandes espectáculos
que a kapia oferece no Verão.

101

Logo que o dia vence a noite e o Sol sobe no céu, vêm detrás das
montanhas em massas compactas, brancas, prateadas e cinzentas, em
paisagens fantásticas, em cúpulas irregulares e multicolores de edifícios
sumptuosos. Uma vez atingido um certo grau de crescimento, ficam assim
todo o dia, imóveis e pesadas, por cima das colinas que envolvem a cidade
requeimada pelo Sol. Os turcos que, ao crepúsculo, se sentavam na kapia
tinham sempre diante dos olhos essas nuvens, como tendas de seda branca
do sultão, que despertavam na sua imaginação visões e cenas de vagas
campanhas e imagens de um vigor e de um luxo maravilhosos e dantescos,
até que a obscuridade extinguia e dissipava essas nuvens estivais e o céu
criava novas magias com as estrelas e o luar.

Nunca essa beleza bizarra e excepcional da kapia pode ser mais bem
desfrutada que nesses dias de Verão, a essa hora. O homem acha-se como
sobre um tapete mágico: atravessa a terra, voga sobre a água, voa pelo
espaço e encontra-se unido solidamente, seguramente, à cidade e à sua
casa branca, lá adiante, cercada pelo jardim e pelo pomar de ameixieiras.
Ali, bebendo café e fumando, muitos dos modestos habitantes da cidade,
que de seu só têm a casa e uma lojeca na praça do mercado, são
transportados nessa hora às riquezas do mundo e à infinidade dos dons de
Deus. Tudo isto pode uma ponte, bela e forte, oferecer aos homens, pelos
séculos fora, construção edificada no momento exacto, no local apropriado
e construída com felicidade.

Eis-nos aqui numa dessas tardes, cheias de conversas, plena de risos e de


gracejos que os habitantes trocam entre si ou dirigem aos que passam.

Aquele à volta do qual se entrecruzavam os gracejos mais animados e mais


picantes era um jovem, pequeno, robusto e de aspecto ímpar. Era Salko
Corkan, O Zarolho.

Salko era filho de uma cigana e de um soldado ou oficial da Anatólia,


outrora em serviço na cidade, que a deixara antes mesmo do nascimento
desse filho que não desejava. Bem depressa a mãe morreu, por sua vez, e a
criança cresceu sem família. Alimentava-o a cidade inteira; pertencia a
todos e não era de ninguém. Trabalhava nas lojas e nas casas, executando
os trabalhos que ninguém mais queria fazer, limpando as fossas e as
canalizações, enterrando tudo o que tinha morrido ou o que a água
carreara. Nunca teve um lar a que pudesse chamar seu, nem sequer um
apelido de família ou uma profissão determinada. Comia ao deus-dará, em
pé ou caminhando, dormia pelos celeiros, vestia-se de farrapos que os
outros lhe davam. Ainda criança, perdera o olho esquerdo.
102

Bizarro, corajoso, alegre companheiro e bom copo, prestava muitas vezes


serviços aos habitantes da cidade a troco de uma palavra ou de

um gracejo.

à volta de Salko tinham-se reunido alguns jovens, filhos de

mercadores, rindo e dirigindo-lhe pesadas graças.

O ar cheirava a melão maduro e a café torrado. Das grandes lajes, ainda


quentes do calor do dia e polvilhadas de água, ascendia o vapor e
evolava-se o aroma especial da kapia, que libertava os homens das agruras
e evocava encantadas fantasias. Era o momento entre o dia e a noite. O
Sol declinara, mas não se distinguia ainda a grande estrela que brilha
por cima de Moljevnik. Foi num momento semelhante a este, em que as
coisas mais simples podem tomar as proporções de quimeras plenas de
grandeza, de receio e significado particular, que apareceram na ponte os
primeiros refugiados de Uzice.

A maior parte dos homens caminhava a pé, cobertos de poeira e curvados;


no dorso de garranos balouçavam as mulheres envoltas nos seus véus, de
olhos semicerrados, ou criancinhas atadas a alforges ou a malas. Por
vezes um homem mais importante montava um cavalo melhor, mas a passo de
enterro e de cabeça baixa, de tal maneira que revelava ainda mais o
infortúnio que os arrastava. Havia quem trouxesse uma cabra pela arreata.
Alguns carregavam um cordeiro nos braços. Todos caminhavam calados, e nem
mesmo as crianças choravam. Somente se ouviam o ruído do bater das
ferraduras dos cavalos e dos passos dos homens e o chocalhar monótono dos
utensílios de cobre e de madeira sobre os cavalos derreados pela carga.

A aparição desta gente extenuada e arruinada fez cessar bruscamente a


animação na kapia. Os velhos tornaram-se brancos de pedra. Os jovens
levantaram-se, um após outro, e formaram de cada lado da kapia uma parede
viva; o triste cortejo passou pelo meio deles. Alguns dos habitantes da
cidade olhavam com compaixão para os refugiados e ficaram calados, outros
saudaram-nos com gritos de «merhaha» e tentaram fazê-los parar para lhes
ofertar qualquer coisa, mas eles não voltaram a cabeça para ver o que
lhes ofereciam e mal responderam às palavras de saudação. Unicamente se
apressavam para chegar antes do cair da noite ao fim da jornada, em
Okoliste.

Eram ao todo cerca de cento e vinte famílias. Pouco mais de cem dirigiam-
se para Serajevo, onde havia oportunidade de encontrarem albergue,
enquanto quinze ficaram logo na cidade: eram, na generalidade, pessoas
que ali tinham parentes.
103

Um único desses homens extenuados, na aparência um pobre sem família,


descansou um momento na kapia, bebeu água em abundância e aceitou um
charuto que lhe ofereceram. Estava completamente branco da poeira da
estrada, os olhos brilhavam como se tivesse febre e o seu olhar não se
quedava sobre qualquer objecto. Lançando vigorosamente baforadas de fumo,
deitava em redor de si um olhar brilhante e desagradável, nada
respondendo às perguntas cerimoniosas e tímidas de alguns. Contentava-se
em limpar as guias dos longos bigodes, agradecia laconicamente e com a
amargura que imprimem no homem a fadiga e o sentimento do seu desamparo,
pronunciava breves palavras, olhando-os a todos com um desses olhares que
nada vêem.

— Estão sentados aqui, divertindo-se, e não sabem o que acontece em


Stanisevac. Eis-nos refugiados em terra turca, mas para onde fugirão
vocês, quando, tal como a nós, chegar a vossa vez? Ninguém o sabe e
nenhum de vocês pensa nisso.

O homem cessou bruscamente de falar. O pouco que havia dito era muito,
para esta gente livre, ainda por algum tempo, de preocupações, e; porém,
bastante pouco para a sua amargura, que não lhe permitia nem calar-se nem
chegar a exprimir-se claramente. E foi ele próprio que rompeu o silêncio
penoso, despedindo-se, agradecendo e apressando-se para se reunir aos
fugitivos. Todos se levantaram para lhe formular num tom encorajador
votos de prosperidade.

Toda essa tarde pairou na kapia uma impressão de desânimo. Todos


permaneciam sombrios e silenciosos.

O próprio Salko se quedava sentado, mudo e imóvel, sobre um dos degraus


de pedra. À sua volta o chão estava juncado de cascas de melancias que
comera graças a uma aposta. A cabeça tinha-a apoiada no braço e estava
triste, os olhos baixos, absorto, como se não fitasse a pedra à sua
frente, mas sim um longínquo abismo, que mal entrevia. As pessoas
começaram a dispersar mais cedo que de costume.

Mas no dia seguinte tudo corria como dantes, porque os habitantes da


cidade não queriam lembrar-se de desgraças e não pretendiam ralar-se
adiantadamente; bem no íntimo, pensavam que a verdadeira vida é feita
desses períodos calmos, que seria vã loucura quebrar esses raros momentos
de paz aspirando a uma outra vida, mais sólida e mais estável, que não
existe.

Durante esses vinte e cinco anos dos meados do século XIX, em Serajevo
grassou duas vezes a peste e uma a cólera.

104
Nessas ocasiões a cidade seguiu os princípios que, segundo a tradição,
Maomé havia legado aos seus fiéis para lhes regular a conduta em caso de
epidemia: «Quando a peste assola um lugar não onde se propaga, não partas
de lá, para que não infectes os outros.» E como as pessoas não observam
os preceitos mais salutares, mesmo quando invocados pelo Enviado de Deus,
se a isso não são obrigadas pela força da autoridade, então a
autoridade,, por ocasião de cada peste, limitava ou suspendia a
circulação dos viajantes e do correio. A vida na kapia mudava então de
aspecto. Os habitantes, afadigados ou ociosos, pensativos ou
cantarolando, desapareciam, e no sofá deserto era posta de novo, como em
tempo de revolta ou de guerra, uma guarda de alguns homens. Estes faziam
parar os viandantes que chegavam de Serajevo e mandavam-nos voltar para
trás, brandindo as espingardas e gritando em voz forte. Recebiam o
correio da mão dos cavaleiros, mas tomando todas as medidas de precaução.
Acendia-se na kapia uma pequena fogueira de madeira aromática, que
desprendia um abundante fumo branco. Os soldados pegavam nas cartas uma a
uma por meio de tenazes e passavam-nas por este fumo. As cartas assim
desinfectadas eram logo enviadas para o seu destino. Nenhuma mercadoria
era aceita. A tarefa principal, contudo, não consistia em ocuparem-se das
cartas, mas sim das pessoas. Todos os dias chegavam algumas: viajantes,
mercadores, mensageiros, vagabundos. Um guarda esperava-os logo à entrada
da ponte e logo que os via ao longe indicava-lhes com um gesto que era
proibido aproximarem-se mais. O viajante parava ou começava a parlamentar
para se justificar ou expor o seu caso. Cada um deles teimava que era
absolutamente indispensável que o deixassem entrar na cidade e todos
asseguravam que estavam sãos como peros e não tinham tido contacto algum
com a cólera — que vá para o Diabo, a cólera — que grassava lá longe,
para as bandas de Seravejo. Dando estas explicações, os viajantes
alcançavam pouco a pouco o meio da ponte e aproximavam-se da kapia. Aqui
os outros guardas metiam-se na conversa e, como discutissem à distância
de alguns passos, todos berravam e gesticulavam. Gritavam também por
outra razão: é que os guardas de serviço na kapia passavam todo o dia a
beberricar aguardente de ameixa e a comer cebola crua; o serviço dava-
lhes direito a isso, pois, segundo se crê, estas duas coisas são eficazes
contra a epidemia, e eles usavam e abusavam desse direito.

Muitos dos viajantes, cansados de suplicar e de tentar convencer os


guardas, regressavam derrotados, sem ter executado o seu trabalho, pela
estrada de Okoliste.

105

Mas havia os que eram perseverantes e batalhadores, que não arredavam pé,
durante horas, da kapia, espreitando um instante de cansaço ou de
desatenção ou aguardando um acaso inesperado e feliz. Se lá se
encontrava,, por sua infelicidade, o chefe dos guardas da cidade, Salko
Hedo, então nenhuma esperança restava aos caminhantes de poder obter
alguma tolerância. Hedo era essa autoridade verdadeira, consagrada, que
não vê e mal escuta com quem fala e não se ocupa dele mais do que o
necessário para o colocar no lugar que lhe compete segundo as ordens e
regulamentos existentes. No exercício das suas funções era cego e surdo e
por fim tornava-se, ainda por cima, mudo. Em vão o viajante lhe dirigia
súplicas ou o lisonjeava.

— Salik-Aga, estou bem de saúde...

— Então está bem, volta para donde vieste e passa bem. Vai-te, e que o
Diabo te carregue!

Com Hedo não valia a pena discutir. Mas se se negociava somente com os
guardas subalternos, então ainda havia um meio. Bastava que o viandante
permanecesse na ponte, que continuasse a trocar gritos com eles, que
questionasse, conduzisse a conversação, lhes relatasse as suas desgraças,
a causa da sua viagem e todas as infelicidades que conhecera na vida, e
tornar-se, então, de qualquer forma, mais chegado, mais familiar, e, aos
seus olhos, fosse parecendo cada vez menos um doente de cólera. Por fim
um dos guardas oferecia-se para ir à cidade dar o recado do viajante à
pessoa a quem se destinava. Era o primeiro grau de contemporização. Mas o
caminheiro sabia que a sua tarefa não pode ser levada a cabo por
interposta pessoa e que os guardas, tal como se encontravam,
constantemente de cabeça transtornada ou meio embriagados, à força de se
tratarem com aguardente, não estavam bem em si e davam os recados às
avessas. Era por isso necessário não interromper o palavreado, rogando,
oferecendo copos de vinho, pedindo por amor de Alá e pela salvação das
suas almas. E tocar sempre a mesma tecla até ao momento em que ficasse
sozinho na ponte o guarda que se notara ser o mais acessível. Então o
negócio achava-se quase concluído. O soldado que tinha bom coração
voltava a cabeça para a parede, fingindo ler a inscrição que aí está
gravada, punha as mãos atrás das costas e abria a direita. O viajante
tenaz metia na mão do guarda a quantia combinada entre eles, olhava para
um lado e para o outro, atravessava a correr a outra metade da ponte e
desaparecia na cidade. O soldado voltava ao seu posto, mastigava uma
cebola e regava-a com aguardente. Isto enchia-o de certa alegria e
despreocupada decisão e dava-lhe força para velar e proteger a cidade
contra a cólera.

106

As tristezas, porém, não duram eternamente (isto têm elas em comum com as
alegrias); acabam ou, pelo menos, diminuem e mergulham no esquecimento.
Mas a vida na kapia renova-se sempre e, apesar de tudo, a ponte não muda
nem com os anos, nem com os séculos, nem com as transformações mais
dolorosas nas relações entre os homens. Tudo isto passa sobre ela
exactamente do mesmo modo que a água tumultuosa corre por baixo dos seus
arcos, lisos e perfeitos.
107

VIII

Não foram somente guerras, pestes e êxodos que se precipitaram sobre a


ponte e interromperam a vida na kapia. Houve também outros acontecimentos
excepcionais, que deram o seu nome ao ano que os vira produzir-se e cuja
recordação perdurou por muito tempo.

À esquerda e à direita da kapia, em ambas as direcções, o parapeito de


pedra da ponte tornara-se há já muito tempo uma superfície polida e um
pouco mais escura que o resto. Durante centenas de anos os camponeses ali
colocaram as suas cargas quando queriam tomar .alento ao atravessarem a
ponte ou os ociosos aí encostaram costas e cotovelos enquanto
conversavam, esperavam por alguém ou quando, sós e apoiados nos
cotovelos, contemplavam, nas profundezas abaixo, as águas que corriam
escumantes e rápidas, sempre renovadas e, todavia, sempre iguais.

Mas nunca houve tantos desocupados e curiosos que se apoiassem no


parapeito e olhassem a superfície do rio como se a tentassem ler e
decifrar, como nos derradeiros dias de Agosto desse ano. A água estava
turvada pelas chuvas, embora ainda se estivesse no fim do Verão. Nos
redemoinhos debaixo dos arcos formava-se uma espuma branca que rodopiava
de mistura com lascas de madeira, pequenos ramos e molhos de palha. Mas,
na realidade, os habitantes ociosos, a cabeça apoiada nos braços, não
contemplavam do parapeito este rio que conheciam de sempre e que nada
tinha já para lhes dizer; na superfície das águas, como nas suas
conversas, buscavam uma explicação para as suas existências e tentavam
encontrar como que um traço visível de um destino negro e cruel que por
essa altura os tinha surpreendido e perturbado a todos.

Nessa época deu-se na kapia um acontecimento deveras excepcional,


daqueles que não tiveram par no! passado e que provavelmente não se
reproduzirão no futuro enquanto houver no Drina uma ponte e uma cidade.

108

Emocionou e fez tremer Visegrad, espalhando-se por muito longe, por


outros lugares, por outras regiões, como uma dessas histórias com que se
formam as lendas.

Esta foi, na realidade, a história de dois lugarejos, Velje Lug e Nezuke,


situados nas duas extremidades opostas do anfiteatro que as colinas
escuras e os verdes outeiros formam em redor da cidade.
A grande aldeia de Straziste, a nordeste do vale, era a mais próxima da
cidade. As suas casas, os seus campos e os seus jardins achavam-se
disseminados por algumas encostas e enquadrados nos vales que os
separavam. No flanco arredondado de uma destas eminências encontrava-se
uma quinzena de casas dispersas nos pomares de ameixas e circundadas de
todos os lados pelos campos. Era a povoação de Velje Lug, um povoado
turco pacífico, belo e rico, situado na encosta. Pertencia à aldeia de
Straziste, mas ficava mais próximo da cidade que da sua comuna, pois quem
descia de Velje Lug quase apenas meia hora a chegar ao bairro comercial,
onde tinha a sua loja e fazia os seus negócios como os outros habitantes
da cidade. Entre os habitantes do povoado e os da cidade havia, na
verdade, pouca ou nenhuma diferença, excepto talvez que os seus bens eram
mais estáveis e duradouros, pois achavam-se sobre a terra firme, não
sujeita às inundações, e os homens eram mais modestos, viviam mais
retirados, sem os maus hábitos da cidade. O solo de Velje Lug era bom,
pura a água e belo o povo.

Lá vivia um ramo da família dos Osmanagic, de Visegrad. E, ainda que os


da cidade fossem mais ricos e mais numerosos, considerava-se geralmente
que eles tinham degenerado e que os verdadeiros Osmanagics eram os de
Velje Lug, donde a família proviera. Era uma bela raça de homens,
susceptíveis e orgulhosos da sua linhagem. A sua casa, a mais vasta da
região, que se via, toda branca, sobre a encosta, exactamente no
contraforte da crista da colina; exposta ao sudoeste, estava sempre bem
caiada de branco, com um telhado de colmo enegrecido e quinze janelas
envidraçadas. Esta casa era visível de longe e a primeira coisa a
apresentar-se aos olhos do viajante que descia, pela estrada, a Visegrad,
e a última que via ao deixar a cidade. Os derradeiros raios do Sol, que
declina atrás da crista de Lijestan detinham-se e esvaneciam-se sempre na
face branca e cintilante desta casa. Os habitantes da cidade há muito que
se haviam acostumado a mirá-la da kapia, ao primeiro palor do crepúsculo,
para ver como o Sol poente se reflectia nas janelas dos Osmanagic e como
a luz as deixava a todas, uma após outra. Logo que o Sol declinava e a
cidade mergulhava na sombra, uma destas janelas era iluminada por um
último reflexo perdido no meio das nuvens, que cintilava alguns momentos
mais como uma grande estrela vermelha sobre a cidade afundada na
penumbra.

109

Bem conhecido também e personagem estimada na cidade era o dono da casa,


Avdaga Osmanagic, um homem intrépido e fogoso tanto na sua vida privada
como nos negócios. Ele possuía uma loja no bairro do mercado, local baixo
e semiobscuro, onde, sobre tábuas e esteiras entrançadas, eram expostos
milho, ameixas secas e pinhas. Avdaga fazia apenas comércio por grosso,
de modo que não mantinha a loja aberta todos os dias, mas, regularmente,
nos dias de mercado, e, durante a semana, de acordo com as necessidades
comerciais. Na loja encontrava-se sempre um dos filhos de Avdaga,
enquanto o pai usualmente se sentava num banco diante do estabelecimento.
Aí cavaqueava com os clientes e com os conhecidos. Era um homem grande,
imponente e rubicundo, mas com barba e bigode completamente brancos, de
voz rouca e gutural. Há anos já que sofria cruelmente de asma. Sempre que
se excitava no decorrer de uma conversa e levantava a voz, o que era
frequente, uma tosse violenta cortava-lhe inopinadamente a palavra, as
veias do pescoço tornavam-se salientes, o rosto escarlate, os olhos
enchiam-se de lágrimas, o peito parecia estalar e produzia um som
sibilante como o ressoar de uma borrasca nas montanhas. Quando este
acesso de tosse passava, ele endireitava-se, respirava profundamente e
retomava o fio da conversa, apenas com. um tom de voz mais fino. Na
cidade e nos arredores conheciam-no como homem duro de palavra, mas
generoso e mãos largas. Era assim em tudo, mesmo nos negócios, embora
muitos vezes em prejuízo próprio. Amiúde, devido a uma palavra atrevida,
diminuía ou aumentava o preço das ameixas ou do milho, mesmo quando não
retirava daí lucro, e fazia-o somente para vexar algum camponês mesquinho
' ou um negociante rapace. Em geral, a sua palavra era escutada e aceita
no bairro do mercado, embora o considerassem muitas vezes apressado e
pessoal nos seus julgamentos. Quando Avdaga descia de Velje Lug e se
sentava diante da loja raramente se encontrava só, pois os conhecidos
gostavam de o ouvir e desejavam saber as suas opiniões. Ele era franco e
vivaz, sempre pronto a afirmar ou a defender o que os outros achavam
preferível que passasse em silêncio. A sua asma e os penosos acessos de
tosse cortavam-lhe a cada instante a palavra, mas, coisa extraordinária,
tal ocorrência não nublava o efeito do que dizia, tornava-o, pelo
contrário, mais convincente, e conferia à maneira de se exprimir uma
dignidade grave e dolorosa, à qual não era fácil resistir.

Avdaga tinha cinco filhos casados e apenas uma filha, que era a mais nova
de todos e justamente em idade de se casar.

110

Dizia-se que esta filha, Fata, era extraordinariamente bela e o vivo


retrato do pai. A questão do seu casamento começava a preocupar a cidade
e, a pouco e pouco, os próprios arredores. Sempre fora uso, entre nós,
fazer passar em cada geração uma jovem à lenda e às canções, devido à sua
beleza, às suas qualidades e à sua nobreza. Ela fora, assim, durante
estes últimos anos, o objecto de todos os desejos e o exemplo
inacessível; à menção do seu nome as imaginações inflamavam-se. Cercava-a
o entusiasmo dos homens e o ciúme das mulheres. Ela era IBB desses seres
de excepção que a natureza distingue e eleva a perigosas alturas.

Esta filha de Avdaga parecia-se com o pai não somente pela figura e pelo
rosto, mas ainda pela lucidez do espírito e pelo dom de palavra. Quem
melhor o sabia eram os jovens que, em casamentos ou reuniões, tentavam,
mercê da lisonja banal ou do atrevimento, conquistá-la ou embaraçá-la.
Portanto, a canção sobre Fata, a filha de Avdaga (as canções acerca
destas criaturas de excepção nascem espontaneamente em qualquer parte)
dizia

Tu és sábia e tu és bela, Bela Fata Avdagina...

Assim cantavam e assim falavam na cidade e nas suas cercanias, mas bem
poucos foram os que ousaram pedir a mão da jovem de Velie Lug. Depois de
todos os pretendentes terem sido sucessivamente rejeitados, formou-se
rapidamente em torno de Fata um círculo encantado de ódio e de inveja, de
desejos irrevelados e de maliciosa expectativa que cerca regularmente as
criaturas com dons e destino excepcionais. Estes seres, de quem se canta
e de quem se fala, são rapidamente arrebatados pelo seu destino especial
e deixam atrás de si, em vez de uma vida realizada, uma canção ou uma
história.

Entre nós, acontece frequentes vezes que uma jovem de quem se fala muito
não tenha, a partir de certa altura, e justamente por esta razão,
cortejadores, e «fique para tia», enquanto se casam fácil e rapidamente
as jovens que, sob todos os aspectos, estão muito longe de possuírem o
seu valor. Esta desventura não atingiu Fata, pois acabou por aparecer um
pretendente que teve a audácia de a desejar e o talento de alcançar os
seus fins.

No círculo irregular que forma a bacia de Visegrad, exactamente no lado


oposto de Velje Lug, acha-se o povoado de Nezuke.

Acima da ponte, a menos de uma hora de marcha, a montante do rio, entre o


maciço de montanhas escarpadas donde, corno de uma muralha, o Drina
irrompe numa curva brusca, havia uma estreita faixa de terra boa e fértil
na margem rochosa.

111

Esta era formada pelas aluviões do rio e das torrentes que desciam das
ribas abruptas dos rochedos de Butkovo. Nela havia campos e jardins e,
nos flancos, prados abruptos de erva esparsa, que se perdiam, na direcção
do cume, no meio de onteiros escalvados, de vegetação rasteira e sombria.
O povoado inteiro pertencia à família Hamzic, que era também conhecida
pelo nome de Turkovic. Em metade dele viviam cinco ou seis famílias de
servos e na outra ficavam as casas dos irmãos Hamzic, cujo chefe era
Mustajbeg Hamzik. A povoação estava toda ela apartada e exposta ao norte,
sem sol, mas também sem vento, mais rica em fruta e em feno que em trigo.
Cercada e fechada de todos os lados por colinas abruptas, ela estava
mergulhada em sombra e silêncio na maior parte do dia, de maneira que
qualquer chamado dos pastores e cada movimento mais forte dos chocalhos
repercutia-se nas montanhas num eco sonoro e múltiplo. O único caminho
que a ela conduzia era o de Visegrad. Quando, ao sair-se da cidade, se
atravessava ¦a ponte, deixando-se a estrada principal, que voltava para a
direita, para a beira do rio, dava-se com um estreito caminho pedregoso,
que tornejava à esquerda da ponte, atravessava uma extensão escarpada e
inculta e subia o Drina, ao longo da borda da água, como uma orla branca
nas vertentes sombrias que mergulham no rio. Quando, do alto do ponte, se
observava um cavaleiro ou um peão que marchava ao longo deste caminho,
dizia-se que ele ia sobre um estreito tronco de árvore lançado entre a.
água e a rocha e a sua imagem durante todo o percurso não cessava de se
reflectir na água tranquila e verde do rio.

Esse era o caminho que conduzia da cidade a Nezuke; e a partir de Nezuke


não existia outro, pois não havia onde se ir. Acima das casas a encosta
abrupta, coberta de floresta esparcelada, era cortada por dois córregos
profundos e brancos, que os pastores trepavam quando levavam o gado para
as pastagens na montanha. Só se encontrava a grande casa branca do mais
velho dos Hamzik, Mustajbeg. Não era, de nenhuma maneira, mais pequena
que a casa dos Osmanagic em Velje Lug, com a diferença, porém, de ser
completamente invisível na depressão ao longo do Drina. Dispostas em
volta dela em semicírculo estendiam-se onze grandes álamos, cujos
murmúrios e movimentos davam vida àquele lugar, tão fechado e de tão
difícil acesso. Abaixo encontravam-se, mais pequenas e mais modestas, as
casas dos dois outros irmãos de Hamzic.

112

Todos tinham muitos filhos e todos eram esbeltos, altos, pálidos de pele,
taciturnos e reservados, mas unidos e activos no trabalho, habituados a
estimar e a defender o que lhes pertencia. Como a gente mais rica de
Velje Lug, eles tinham também as suas lojas na cidade, aonde desciam para
vender tudo o que produziam em Nezuke. Durante todo o ano eles e os seus
servos fervilhavam e percorriam como formigas o carreiro estreito e
pedregoso à beira do Drina, carregando produtos para a cidade ou
regressando, o negócio concluído, com o dinheiro nas bolsas, à sua aldeia
invisível entre as colinas.

A casa grande e branca de Mustajbeg Hamzic acolhia, como agradável


surpresa, o visitante no extremo do carreiro rochoso que parecia conduzir
a nenhures. Mustajbeg tinha quatro filhas e um filho, Nail. Este Nailbeg
de Nezuke, filho único de uma nobre família, foi dos primeiros a lançar
os olhos para Fata de Velje Lug. Ele admirava a beleza da jovem, num
casamento ou outro,, através de uma porta semiaberta, à qual um grupo de
jovens se suspendiam como um cacho de uvas. Logo que teve a oportunidade
de a ver, cercada por um grupo de amigas, tentou um galanteie atrevido:

— Possam Deus e Mustajbeg dar-te o nome de jovem esposa! Fata teve um


riso abafado.

— Não rias — disse o jovem, excitado, através da estreita abertura da


porta—, esta maravilha acontecerá bem cedo.
—i Sim, mas somente quando Velje Lug descer a Nezuke! — replicou a jovem
com outro riso e um movimento orgulhoso do corpo, que apenas mulheres
como ela e da mesma idade sabem fazer e que dizia mais do que as palavras
e o riso.

É assim que esses seres especialmente dotados pela natureza provocam o


seu destino, ousada e inconsideradamente. A resposta dela ao jovem Hamzic
repetiu-se de boca em boca como acontecia com tudo o que ela dizia ou
fazia.

Mas os Hamzics não eram homens que se detivessem ou desencorajassem à


primeira dificuldade. Mesmo quando se tratava de questão de somenos
importância, eles não a abandonavam imediatamente, muito menos uma
questão como esta. Uma tentativa feita por intermédio de parentes da
cidade não obteve melhor êxito. Mas a determinada altura o velho
Mustajbeg Hamzic tomou em mãos o caso do casamento do filho. Sempre
mantivera negócios com Osmanagic. Devido à sua natureza explosiva e ao
seu orgulhoso carácter, Avdaga sofrera recentemente perdas consideráveis.
Mustajbeg ajudara-o e sustivera-o como somente os bons negociantes
procedem em tais circunstâncias e em momentos difíceis: simplesmente,
naturalmente e sem palavras desnecessárias.

113

Nestes estabelecimentos frescos e semiobscuros e nos bancos de pedra


polida colocados junto da frontaria não se regulavam apenas os assuntos
de dinheiro e de comércio, mas também os destinos humanos. Que se passara
entre Avdaga Osmanagic e Mustajbeg Hamzic, como pediu Mustajbeg a mão de
Fata para o seu filho único, Nail, e de que maneira Avdaga, recto e
orgulhoso como era, deu a jovem? Ninguém jamais o saberá. Do mesmo modo,
não se soube com exactidão como se passaram as coisas lá em cima em Velje
Lug, entre o pai e a sua encantadora filha. Bem entendido, não fora caso
de resistência da parte da jovem. Um olhar pleno de dolorosa surpresa e
aquele movimento orgulhoso e inato de todo o seu corpo, e depois muda
submissão à vontade paternal, como era e ainda é em toda a parte e foi
sempre entre nós. Como num sonho, ela começou a mostrar-se, a completar e
a arranjar o seu enxoval.

Nem sequer uma simples palavra transpirou de Nezuke. Os prudentes Hamzics


não pediam aos outros que confirmassem os seus êxitos em conversas
frívolas. Haviam alcançado o que desejavam e, como sempre, contentavam-se
com a sua fortuna. Não necessitavam de que ninguém participasse da sua
alegria, como nunca haviam pedido a compaixão dos outros nos seus azares
e nos seus infortúnios.

Todavia o povo não deixou de falar ampla e impensadamente no caso, como é


seu hábito. Disse-se por toda a cidade e pelos arredores que os Hamzics
tinham realizado os seus desejos e que a encantadora, orgulhosa e sábia
filha de Avdaga, para quem não se encontrara pretendente digno de si em
toda a Bósnia, fora seduzida e domada; e, o que era mais, «Velje Lug
descera a Nezuke», embora Fata tivesse proclamado publicamente que tal
não aconteceria. O povo sente prazer em falar da queda e da humilhação
dos que foram muito glorificados e voavam a grandes alturas. Durante um
mês o povo saboreou o acontecimento e embriagou-se com as histórias da
humilhação de Fata como com o licor mais delicioso. Durante um mês
fizeram-se preparativos em Nezuke e em Velje Lug.

Durante um mês Fata trabalhou com as suas amigas, parentes e servas no


seu enxoval. As jovens cantavam. Ela cantava também. Fata encontrou
energia mesmo para isso. E deu por si a cantar, embora continuasse ainda
a seguir o curso dos seus pensamentos. A cada golpe da agulha dizia a si
mesma que nem ela nem os seus bordados veriam jamais Nezuke.

114

Nunca esqueceu isto um instante sequer. Mas ao trabalhar e ao cantar


assim parecia-lhe que havia ainda muito caminho a percorrer de «Velje Lug
a Nezuke e que um mês era muito tempo. À noite sucedia o mesmo. À noite,
quando com o pretexto de que tinha um trabalho a acabar, ela ficava só, o
mundo abria-se diante de si, pleno de luz e de mutações maravilhosas e
ilimitadas.

Em Velje Lug os dias eram quentes e as noites frescas. As estrelas


pareciam baixas e oscilantes, iluminadas todas por uma radiosidade branca
e vacilante. De pé diante da janela, os olhos de Fata perdiam-se na
noite. Em todo o corpo sentia um calmo vigor, desbordante e doce, e cada
parte do seu ser parecia uma fonte especial de força e de alegria: as
pernas, as ancas, os braços, o pescoço e, sobretudo, o peito. Os seios,
generosos e cheios, mas firmes, tocavam com os botões a moldura da
janela. E aqui sentia a colina inteira com tudo o que nela pousava:
casas, anexos, campos, que exalavam uma respiração cálida, profunda,
igual, que subia e baixava com o céu luminoso e o espaço nocturno. Sob
esta respiração, a moldura de madeira da janela descia e ascendia,
tocava-lhe os botões dos seios, deixava-os para se perder numa Vasta
distância, voltava para os tocar novamente, depois baixava ei subia
ainda; e sempre assim, sucessivamente...

Sim, o mundo era grande, o mundo não tinha limites, mesmo durante o dia,
quando o vale de Visegrad flamejava de calor e se podia perceber 01
amadurecer do trigo, quando a cidade se estirava, branca, ao longo do rio
verde, emoldurada pela linha regular da ponte e pelas colinas negras. Mas
à noite, somente à noite, quando os céus reviviam e se animavam, é que se
revelava a infinita dimensão e a força pujante do mundo, onde o homem
vivia e se perdia e não podia ter consciência nem de si mesmo, para onde
caminhava, o que desejava ou o que devia fazer. Somente aí se vivia
verdadeiramente, serena e longamente; aí não existiam as palavras que
limitam tragicamente os seres por toda a vida, nem promessas mortais, nem
situações de que se não pode escapar, com o tempo breve que corre e corre
inexoravelmente, com a morte e a vergonha como única saída. Sim, aí nesse
espaço, a existência não fluía como a vida diurna, onde o dito permanece
irrevogável e o prometido se mantém inevitavelmente. Aí tudo era livre,
infinito, anónimo e silencioso.

Estão de algures, em baixo, como vinda de longe, ouvia-se uma voz pesada,
profunda e sufocada:

«Aaaach, kkkh! Aaaach, kkkh!»

115

Era Avdaga, que, no rés-do-chão, lutava com os seus acessos nocturnos de


tosse.

Não somente reconheceu esta voz, como viu claramente o pai, como se ele
estivesse ali, junto de si, a fumar, sentado, insone e atormentado pela
tosse. Ela julgava distinguir os seus olhos castanhos, que conhecia como
uma paisagem querida, olhos em tudo semelhantes aos seus, simplesmente
ensombrados pela idade e banhados por um clarão de lágrimas e de riso, os
olhos nos quais lera pela primeira vez a inevitabilidade do seu destino,
no dia em que ele lhe dissera que a prometera a um Hamzic e que devia
fazer os preparativos para daí a um mês. «Kkha, kkha, kkha! Aaaah!»

Aquele êxtase que sentira há alguns momentos ante a beleza da noite e a


grandeza do mundo esmaecera subitamente. O hálito perfumado da terra
extinguira-se. Os seios da jovem crisparam-se num breve espasmo. As
estrelas e os espaços desvaneceram-se. Restava somente o seu destino,
inelutável, cruel, prestes a realizar-se, que se cumpria e se consumia à
medida que o tempo passava, nesta serenidade feita de imobilidade e vazio
que permanecia após todas as coisas.

O som surdo da tosse subia do rés-do-chão. Sim, ela via-o e escutava-o,


como se ele se encontrasse junto de si. Era o seu querido, poderoso e
único pai, a quem se sentia unida, indissoluvelmente, docemente unida,
desde que se dera conta da sua própria existência. E mesmo essa tosse,
que o sacudia dolorosamente, ela a sentia no seu peito. Na verdade, fora
aquela boca que dissera «sim», quando a sua diria «não». Mas, em tudo,
ela não constituía, com o pai, mais que um único ser, mesmo nisto. E o
«sim» que o pai pronunciara ela sentiu-o como seu (embora sentisse também
o «não»). Assim, o seu destino era cruel, extraordinário, imediato, e,
portanto, não via como escapar-lhe; se não distinguia uma saída era
porque ela não existia. A jovem sabia uma só coisa. Por causa do «sim» do
pai, que a ligava tanto como o seu próprio «não», tinha de aparecer ante
o cadi com o filho de Mustajbeg, pois era inconcebível pensar que Avdaga
Osmanagic não mantivesse a sua palavra. Mas ela sabia também que, após a
cerimónia, não podia dirigir os seus passos para Nezuke, porque, então,
seria ela quem não manteria a sua palavra. E isso afigurava-se-lhe
igualmente impossível, pois a sua palavra era a palavra de um Osmanagic.
Era aí, nesse ponto morto, entre o seu «não» e «sim» do pai, entre Velje
Lug e Nezuke, aí, nesse impasse insolúvel, que ela devia procurar uma
solução.

116

Era nisso que ela agora pensava, e não já nos espaços do mundo grande e
rico, nem mesmo em todo o caminho entre Velje Lug e Nezuke, mas somente
nesta pequena e lúgubre faixa de caminho que ia da casa da justiça, onde
o cadi a casaria com o filho de Mustajbeg, à saída da ponte, onde o
declive pedregoso descia pelo estreito caminho que conduzia a Nezuke e
que ela não percorreria, sabia-o com certeza.

O seu pensamento não deixava de percorrer, de um extremo ao outro, esta


pequena faixa de caminho, como a agulha através do linho. Da casa da
justiça atravessava a praça do mercado e caminhava até ao fim da ponte,
mas de lá voltava imediatamente, como se tivesse visto um abismo: pela
ponte, pela praça do mercado, até à casa da justiça. E assim sempre: ida
e volta, ida e volta. Aí se tecia o seu destino.

E o seu pensamento, que não podia deter-se, nem era capaz de encontrar
uma saída, parava a maior parte das vezes na kapia, no belo e claro sofá
de pedra, onde, sentadas, as pessoas conversavam, onde os jovens
cantavam, sob o qual corriam, rumorosas, as águas rápidas e profundas do
rio' verde. Então, aterrada por semelhante expediente, voava de novo,
como sob o golpe de uma maldição, de um extremo ao outro do caminho;
depois, não tendo achado outra solução, detinha-se de novo na kapia. E em
cada noite mais e mais vezes os seus pensamentos lá se detinham e aí se
demoravam mais tempo. E a ideia somente daquele dia, em que devia
realmente, e não apenas nos seus pensamentos, percorrer este caminho e
encontrar uma solução antes de atingir o fim da ponte, continha em si
todo o terror da morte e o pavor de uma vida manchada pela vergonha.
Impotente e abandonada como estava, parecia-lhe que o horror mesmo
daquele pensamento devia arredar, ou pelo menos adiar aquele dia.

Porém os dias passavam, nem rápidos nem lentos, mas regulares e fatais. E
com eles chegou, por fim, o do casamento.

Na última quinta-feira de Agosto (era esse o dia fixado) os Harhzic


vieram, a cavalo, buscar a noiva. Coberta com um véu novo, negro e
pesado, como que de couro, montaram-na num cavalo e conduziram-na à
cidade. Entretanto, no pátio, carregaram os cavalos com as malas que
encerravam o enxoval da jovem. Na casa da justiça, perante o cadi, foi
celebrado o casamento. Assim se manteve a palavra pela qual Avdaga dera
sua filha, em casamento ao filho de Mustajbeg. Depois o pequeno cortejo
tomou o caminho de Nezuke, onde estavam preparadas as solenidades do
enlace.
117

Atravessaram a praça do mercado, isto é, uma parte do caminho sem saída


no qual Fata tantas vezes divagara em pensamento. Era sólido, real e
costumeiro, quase mais fácil de percorrer na realidade que na imaginação.
Não havia mais estrelas, nem espaço, nem a tosse surda do pai, nem o
desejo de que o tempo se escoasse mais rápida ou mais lentamente. Logo
que atingiram a ponte, a jovem sentiu de novo, como nas noites de Verão,
diante da sua janela, cada parte do seu corpo forte e distintamente,
sobretudo o peito, levemente crispado como numa couraça. Chegaram à
kapia. Como muitas vezes fizera nos seus pensamentos naquelas últimas
noites, a jovem inclinou-se e, num murmúrio, pediu ao irmão mais novo,
que cavalgava a seu lado, que lhe subisse um pouco mais o estribo, pois
aproximavam-se agora da passagem em declive por onde se descia da ponte
para o caminho pedregoso que conduzia a Nezuke. Fizeram alto, em primeiro
lugar, os dois, depois, um pouco mais longe, os convidados. Nada havia de
extraordinário nisso. Não era a primeira nem a última vez que os
convidados de uma boda se detinham na kapia. Enquanto o irmão desmontava,
contornava o cavalo e lançava as rédeas em torno do braço, a jovem fez
avançar o animal para a beira da ponte, pôs o pé direito no parapeito de
pedra, saltou da sela com a ligeireza de uma ave, pulou sobre o parapeito
e atirou-se ao rio rumoroso. O irmão precipitou-se atrás dela, lançou-se
a todo o comprimento sobre o parapeito de pedra, conseguindo tocar com a
mão o véu desfraldado, mas não a pôde reter. Os outros convidados
saltaram dos cavalos, soltando as exclamações mais extraordinárias, e
permaneceram ao longo do parapeito de pedra em estranhas atitudes, como
que petrificados.

Nesse mesmo dia, quase ao crepúsculo, começou a cair uma chuva abundante
e excepcionalmente fria para a estação. O Drina subiu e cresceu em fúria.
No dia seguinte as águas amareladas, em torrente, lançaram o cadáver de
Fata num baixio perto de Kalata. Aí o viu um pescador, que, imediatamente
foi anunciar a sua descoberta ao chefe da Polícia. Um pouco mais tarde,
este chegou, acompanhado do mukhtar, do pescador e de Salko Corkan, pois
sem O Zarolho nenhuma coisa deste género se costumava fazer. O cadáver
jazia na areia húmida e macia. As vagas moviam-no para trás e para a
frente e, a espaços, cobriam-no completamente com a água escura. O véu
novo de tecido negro que a água não pudera retirar fora levantado para
trás e lançado sobre a cabeça; assim, com a cabeleira longa e espessa,
formava uma massa negra e estranha ao lado do corpo alvo e encantador da
jovem, do qual a corrente arrancara as finas roupas do casamento.

118
Franzindo a testa e com as maxilas contraídas, Salko e o pescador
patinharam para o baixio, pegaram no corpo nu da jovem e, cuidadosamente,
embaraçados como se ela ainda estivesse viva, levaram-no da areia húmida,
onde já havia começado a afundar-se, para a margem. Aí cobriram-no
imediatamente com o véu manchado de lama.

Nesse mesmo dia a jovem foi enterrada no cemitério muçulmano mais


próximo, na encosta alcantilada abaixo da colina na qual se situava Velje
Lug. E antes do cair da noite os ociosos da cidade reuniram-se na
estalagem, em volta de Salko e do pescador, com a mórbida e pruriente
curiosidade que se desenvolve especialmente entre aqueles que vivem uma
existência vazia, privada de toda a beleza e carecida de emoção e
eventos. Brindaram--nos com aguardente de ameixa e ofereceram-lhes
tabaco, a fim de escutarem pormenores acerca do cadáver e do enterro. Mas
nada conseguiram. O próprio Salko não disse coisa alguma. Fumava
continuamente e, com a sua única vista, mirava o fumo, que soprava o mais
longe que podia de si com fortes baforadas. Porém, os dois, Salko e o
pescador, olhavam a espaços um para o outro, levantavam os seus copos em
silêncio, como que brindando a algo invisível, e esvaziaram-nos de um
trago.

Foi assim que aquele insólito e inaudito acontecimento se desenrolou na


kapia. Velje Lug não desceu a Nezuke e Fata, filha de Avdaga, não se
tornou mulher de um Hamzic.

Avdaga Osmanagic não mais voltou à cidade. Morreu naquele mesmo Inverno,
sufocado pelo tosse, sem ter dito fosse a quem fosse uma só palavra
acerca do desgosto que o havia de matar.

Na Primavera seguinte Mustajbeg Hamzic casou o filho com uma rapariga de


Brankovic.

Durante algum tempo os habitantes da cidade falaram sobre o incidente e


depois começaram a esquecê-lo. Subsistiu somente uma canção acerca de uma
jovem cuja beleza e sabedoria resplandeciam nas alturas do mundo, como se
fossem imortais.

119

IX

Cerca de setenta anos depois da insurreição de Karageorge, a guerra


rebentou novamente na Sérvia, e bem depressa as regiões fronteiriças
responderam com um levantamento. Uma vez mais arderam casas turcas e
sérvias nos montes — em Zlijeba, Gostilje, Crnce e Veletovo. Pela
primeira vez depois de tantos anos tornaram a ver-se na kapia, ao romper
da aurora, as cabeças cortadas dos sérvios mortos. Eram cabeças de
camponeses esquálidos, de cabelo rente e nuca espalmada, com uma face
ossuda e longos bigodes -— na aparência as mesmas de há setenta anos. Mas
tudo isto não durou muito tempo. Logo que a guerra entre a Turquia e a
Sérvia findou, o povo foi de novo deixado em paz. Era, na realidade,
apenas um simulacro de paz, sob o qual se escondiam muito temor, vozes
excitadas e murmúrios inquietos. Falava-se cada vez mais abertamente da
entrada do exército austríaco na Bósnia.

Nos princípios do Verão de 1878, unidades do exército regular turco que


se dirigiam de Serajevo para Priboj atravessaram a cidade. A ideia de que
o sultão entregava a Bósnia sem resistência tomou corpo. Algumas famílias
prepararam-se para emigrar até Sanjak, entre elas muitas das que já treze
anos antes tinham abandonado Uzice, não querendo viver sob o domínio dos
Sérvios, e agora novamente procuravam fugir a uma outra autoridade
cristã. Mas a maioria dos habitantes deixou-se ficar, aguardando os
acontecimentos, presa de uma dolorosa perplexidade e afectando
indiferença.

Nos começos de Julho, o mufti de Plevlje chegou, com um pequeno número de


homens, mas grande decisão, para organizar na Bósnia a resistência aos
Austríacos. Este homem sisudo, louro, de ar pacífico, mas de natureza
ardente, instalou-se na kapia, onde, num radioso dia de Verão, reuniu os
notáveis turcos da cidade, tentando aliciá-los ao combate contra os
Austríacos.

120

Assegurou-lhes que a maior parte do exército regular, embora com desprezo


das instruções oficiais, ficaria para, ao lado do povo, se opor ao novo
invasor, e lançou um apelo a todos os jovens para que se lhe reunissem
imediatamente e para que lhe enviassem víveres para Serajevo. O mufti
sabia que os habitantes de Visegrad nunca haviam tido fama de grandes
guerreiros e que preferiam uma vida louca a uma louca morte, mas ficou
mesmo assim surpreendido com a moleza e as reticências que se lhe
depararam. Não podendo esperar mais tempo, ameaçou-os com a justiça do
povo e as represálias do Céu, deixando ao seu imediato, Osman Effendi
Karamanli, o cuidado de tentar convencer os turcos de Visegrad da
necessidade da sua participação num levantamento geral.

Durante as conferências com o mufti, quem se opôs com firmeza foi


Alihodja Mutevelic, cuja família era uma das mais antigas e consideradas
da cidade, não se tendo nunca distinguido por grande fortuna, mas pela
probidade e franqueza. A sua reputação fora sempre a de teimosos, mas
inacessíveis à corrupção, ao medo, à lisonja e a todas as outras
motivações e incitamentos de ordem inferior. Durante mais de dois séculos
o membro mais idoso da família havia sido o curador, guarda e
administrador do legado de Mehmed Paxá na cidade. Dirigia também a han de
pedra que ficava junto da ponte. Já vimos como, depois da queda da
Hungria, a han perdera os rendimentos que permitiam a sua manutenção e
como, devido a um conjunto de circunstâncias, caíra em ruínas, restando
apenas da fundação criada pelo vizir a ponte, bem comum que não exigia
despesas e não rendia juros. O apelido dos Mutevelic ficou-lhes como a
altiva recordação da função que tantos e tantos anos exerceram tão
honestamente. O cargo tinha, efectivamente, deixado de existir, desde a
época em que Dauthodja sucumbira na luta para manter o albergue, mas o
orgulho subsistira e, com ele, o hábito inato dos Mutevelic se
considerarem como encarregados, primeiro que ninguém, da conservação da
ponte e, de certo modo, responsáveis pela sua existência, pois que ela,
pelo menos sob o ponto de vista arquitectónico, fora parte integrante da
grande e bela fundação religiosa que a família havia administrado e que
desaparecera tão lamentavelmente. Existia ainda nessa família um outro
costume, remontando ao passado mais longínquo: em cada geração, pelo
menos um dos Mutevelic fazia os seus estudos e ingressava, como ulema, no
corpo douto do clero muçulmano. Agora coubera a vez a Alihodja.

121

Por outro lado, o número de familiares e a sua fortuna tinham diminuído


consideravelmente. Possuíam ainda alguns servos e uma loja, que era sua
desde tempos imemoriais, no melhor local da praça do mercado, nas
vizinhanças da ponte. Os dois irmãos mais velhos de Alihodja haviam
morrido na guerra, um, na Rússia, outro no Montenegro.

Alihodja era um homem ainda novo, vivo, sorridente e sanguíneo. Como


verdadeiro Mutevelic, formava normalmente de todas as coisas uma opinião
fora do vulgar, que defendia com denodo e, teimoso, nunca queria mudar.
Por virtude do seu carácter franco e da teimosia de que dava bastas
provas, estava muitas vezes em desacordo com o clero local e com os
notáveis muçulmanos. Tinha o grau e o título de hodja, mas não
desempenhava nenhum lugar e o título não lhe granjeava quaisquer
proventos. Por ser assim tão obstinadamente independente, geria ele
próprio a loja que lhe ficara da herança paterna.

Como a maioria dos muçulmanos de Visegrad, Alihodja opunha-se à ideia de


uma resistência armada. No seu caso, isso não podia considerar-se nem
cobardia nem tibieza religiosa. Tanto como o mufti ou qualquer outro dos
insurrectos, detestava o domínio estrangeiro que se aproximava e tudo que
dele podia advir, mas, vendo que o sultão abandonava realmente a Bósnia
aos Austríacos e conhecendo o carácter dos seus compatriotas, opusera-se
a uma resistência popular desorganizada, que só traria como consequência
a derrota e tornaria o infortúnio ainda maior. Uma vez que esta opinião
se fixou na sua mente, expô-la abertamente e defendeu-a com vigor. Ainda
desta vez formulou perguntas insidiosas e fez subtis reparos, que
especialmente descontentaram o mufti. Mesmo sem querer, fomentava entre
os habitantes de Visegrad, já de si renitentes em combater e pouco
dispostos a sacrifícios, um espírito de revolta declarada às intenções
bélicas do mufti.
Quando Osman Effendi Karamanli ficou para continuar as reuniões com os de
Visegrad, encontrou Alihodja contra si. Alguns beis e agás, que
mastigavam as palavras e mediam as suas expressões, estando, na
realidade, plenamente de acordo com Alihodja, deixaram o sincero e
irascível hodja abrir-se e entrar em conflito com Karamanli.

Os notáveis turcos de Visegrad achavam-se sentados à tardinha na kapia,


de pernas cruzadas, colocados em círculo segundo a sua importância. Entre
eles encontrava-se Osman Effendi, homem alto, magro e pálido. Todos os
músculos da sua face estavam estranhamente contraídos, os olhos febris e
a fronte e as maçãs do rosto cheios de sulcos, como as dos epilépticos.

122

Diante dele encontrava-se, de pé, Alihodja. sanguíneo, muito mais baixo,


mas ainda assim imponente, que, em voz sibilante, fazia ininterruptamente
novas perguntas. «Qual a quantidade das forças ? Onde se dirigiam? De que
meios dispunham? Como alcançariam o seu destino? Qual o seu objectivo?
Que sucederia em caso de insucesso?» A altivez fria e quase maligna com
que o hodja tratava deste assunto apenas escondia os receios e a amargura
que lhe inspiravam a superioridade dos Cristãos e a fraqueza evidente e o
desacordo que reinavam entre os Turcos. Mas o exaltado e sombrio Osmân
Effendi não era homem para notar ou compreender este género de coisas. De
seu natural violento e impetuoso, fanático de nervos doentes, bem
depressa perdia a paciência e o sangue-frio e caía sobre cada indício de
dúvida e de hesitação com uma fúria selvagem. Este hodja tinha o condão
de o irritar e levava-o a responder, com ira mal contida, com
generalidades e palavras ocas.

— Ir-se-á até onde seja necessário e com os meios disponíveis. O


essencial era não deixar o inimigo invadir o território sem

combate e aquele que fazia muitas perguntas somente entravava a conclusão


do empreendimento e auxiliava o inimigo. Por fim, completamente fora de
si, respondia com desprezo mal velado a cada pergunta do hodja: «Chegou a
hora de morrer»; «Queremos entregar as nossas cabeças»; «Morreremos todos
até ao último».

— Mas, afinal — interrompia o hodja —, eu pensava que querias expulsar os


Boches da Bósnia e que esta era a razão que motivava as nossas reuniões.
Mas, se se trata de perecer, sabemos nós próprios morrer, Effendi, mesmo
sem ti. Nada mais fácil do que morrer.

- Mas vejo que tu não tomas esse caminho — replicava grosseiramente


Karamanli.

— Observo que, realmente, tomas o partido de morrer — respondia-lhe o


hodja em voz cortante —, somente não vejo porque procuras companhia para
um cometimento tão insensato.
A conversa degenerou por fim numa verdadeira querela no decurso da qual
Osman Effendi chamou a Alihodja porco cristão e traidor, um desses
traidores cuja cabeça deveria ser sangrada, como a dos cristãos, naquela
kapia, enquanto o hodja continuava imperturbavelmente reclamando com
insistência razões e provas, como se não escutasse as ameaças e os
insultos.

Seria de facto impossível achar piores negociadores e dois homens mais


casmurros.

123

Deles não se podia esperar outra coisa além do agravamento da confusão


geral e mais um conflito. Era de lamentar, mas inevitável, porque nas
ocasiões em que uma sociedade se encontra oscilante ou quando se produzem
extensas e fatais mudanças são, em geral, homens desta espécie que se
guindam ao poder e que, desequilibrados ou incapazes, conduzem as
ocorrências ao insucesso e se digladiam. Este é um dos sinais de tempos
de crise.

Esta querela estéril veio, portanto, ao encontro dos desejos dos beis e
dos agás, porque assim o problema da sua participação na revolta ficou
sem solução e eles não tiveram que definir imediatamente as suas
posições. Tremendo de cólera e vociferando ameaças, Osman Effendi partiu
no dia seguinte com alguns dos seus homens para se avistar com o mufti.

As notícias que chegaram nesse mês confirmaram mais e mais aos beis e
agás a sua opinião calculista de que era preferível olhar pela cidade e
pelas próprias casas. Em meados de Agosto os Austríacos ocuparam
Serajevo. Pouco depois, um combate infeliz travou-se no planalto do
Glasinac, que foi também o termo de toda a resistência. Pelo caminho
escarpado que desce a colina de Lijeska, passando por Okoliste, o
remanescente das tropas turcas derrotadas começou a chegar à cidade. Eram
uma miscelânea de soldados do exército regular que, a despeito da ordem
do sultão, tomavam parte, por sua própria conta e risco, na resistência,
e de insurrectos locais. Os soldados apenas pediam pão e água e
perguntavam onde ficava a estrada para Uvac, mas os guerrilheiros eram
homens duros e combativos que as derrotas não tinham abatido.
Enegrecidos, cobertos de poeira, esfarrapados, respondiam num tom acre às
perguntas dos turcos de Visegrad, gente nada belicosa, e preparavam-se
para cavar trincheiras e para defender a passagem da ponte sobre o Drina.

Uma vez mais Alihodja se impôs: sem rodeios e sem desfalecimento,


demonstrou que aquela cidade não podia resistir e que a defesa era
absurda naquela altura em que o Boche já penetrara até ao coração da
Bósnia. Os insurrectos bem o sabiam, mas não queriam reconhecê-lo, porque
essa gente decentemente vestida e anafada, que tinha conservado casas e
bens, pondo-se, covarde e prudentemente, à margem da revolta, irritava-os
e provocava-os. Entretanto chegou o próprio Osman Effendi, como um
insensato, ainda mais pálido e magro, ainda mais belicoso e frenético.
Era um desses homens para quem não existem insucessos. Só falava em
resistência, em todos os lugares e a todo o preço, e da necessidade de
lutar até à morte.

124

Diante do seu ardor infernal todos se afastavam e retiravam, com excepção


de Alihodja. Demonstrava ao agressivo Osman Effendi, sem a menor réstea
de alegria maldosa, fria e brutalmente, que o levantamento havia seguido
a evolução que, nesta mesma kapia, um mês antes, tinha profetizado.
Recomendou-lhe que partisse o mais depressa possível com os seus homens
para Plevlje e que não agravasse a situação. Sentia-se agora menos
agressivo, cheio de atenções dolorosas e comovidas para com Karamanli,
como se tratasse um doente, porque, no seu foro íntimo, sob as suas
aparências contundentes, o hodja ficara penosamente tocado pela desgraça
que se aproximava. Andava triste e irritado, como só pode sentir-se um
muçulmano crente que vê chegar, inexoravelmente, uma força estrangeira em
face da qual sabe que a velha ordem islâmica não poderá sobreviver muito
tempo. Nas suas palavras transparecia, bem contra a sua vontade, esta dor
secreta.

A todos os insultos de Karamanli respondia quase tristemente:

— Acreditas, Effendi, que será fácil para mim esperar aqui, vivo, a
entrada do Boche na minha pátria? Como se não entrevíssemos o que nos
aguarda nos tempos que estão para vir... Nós sabemos, sim, nós sabemos
onde reside o mal e o que perdemos; sabemo-lo bem. Se vieste explicar-nos
isto, não tinhas necessidade de voltar pela segunda vez, não valia a pena
teres vindo de Plevlje. Porque tu não compreendes os seus problemas, eu
sei. Se os conhecesses não terias feito o que fizeste e não dirias o que
dizes. É um tormento maior do que julgas, meu caro Effendi; não conheço
remédio para ele, mas sei que não está no que aconselhas.

Mas Osman Effendi era surdo a tudo o que não correspondia à sua profunda
e sincera paixão pela resistência e detestava o hodja tanto como o Boche
contra o qual se revoltara. Dá-se sempre isto quando um inimigo poderoso
se avizinha e se prevêem grandes derrotas, surgindo em todas as
sociedades condenadas ódios fratricidas e dissenções internas. Não
achando expressões novas, chamava continuamente traidor a Alihodja,
recomendando-lhe ironicamente que se baptizasse antes da chegada dos
Boches.

— Os meus antepassados não se baptizaram e eu também não o farei. Eu,


Effendi, não quero nem ser baptizado por um boche nem lutar ao lado de um
imbecil — respondia tranquilamente o hodja.
Todos os notáveis turcos de Visegrad eram da opinião de Alihodja, mas
todos consideravam não ser próprio afirmá-lo, e ainda menos de maneira
tão brutal e tão firme.

125

Tinham medo dos Austríacos, que chegavam em massa, mas também de Kara-
manli, que, com os seus homens, se tornara senhor da cidade. Por isso se
encerravam em casa ou se retiravam para as suas propriedades no campo e,
quando não podiam evitar encontros com Karamanli e com os soldados, os
seus olhares eram fugidios e as palavras equívocas, buscando o pretexto
mais cómodo e mais seguro para se esquivarem.

No pequeno planalto, diante das ruínas do caravansará, Karamanli mantinha


uma reunião permanente de manhã à noite. Ali acudia constantemente uma
multidão barulhenta: homens de Karamanli, passantes de acaso, pessoas
vindas para solicitar qualquer favor ao novo senhor da cidade e também
habitantes que os insurrectos traziam, mais ou menos à força, para
ouvirem o chefe, Karamanli arengava continuamente. Quando se dirigia a
alguém em especial berrava como se discursasse para centenas de pessoas.
Estava ainda mais pálido, revirava os olhos, cujo branco tinha
amarelecido nitidamente, e uma espuma branca aflorava aos cantos dos seus
lábios. Um dos habitantes da cidade falou-lhe de uma crença popular
muçulmana relativa ao xeque Turhania, que tinha perecido em tempos
remotos neste local quando se opunha à passagem do Drina pelo exército
dos infiéis e que descansava agora no seu túmulo, na outra margem, mesmo
na direcção da ponte, mas que, sem dúvida alguma, se ergueria no momento
em que o primeiro guerreiro infiel pisasse a ponte. Osman agarrou-se
logo, apaixonada e convulsivamente, a esta lenda, apresentando-a aos
habitantes como um auxílio inesperado e real.

— Irmãos, esta ponte é o legado piedoso de um vizir. Está escrito que as


forças dos infiéis não podem atravessá-la. Não somos só nós a defendê-la,
mas também esse santo, contra o qual nada podem os tiros e os golpes de
sabre. Quando o nosso inimigo chegar ele erguer-se-á do túmulo, postar-
se-á a meio da ponte, de braços abertos, e quando os Boches o virem os
seus joelhos tremerão, o seu coração desfalecerá subitamente e nem sequer
poderão fugir, tão grande será o seu terror. Irmãos turcos, não vos
separeis mas, todos unidos a mim, vinde para a ponte! Assim gritava
Karamanli diante da multidão. Esguio, dentro do gibão negro e coçado,
abrindo os braços e mostrando como faria o santo, era tal e qual uma alta
cruz, negra e fina, coroada por um turbante.

Os turcos de Visegrad conheciam a lenda melhor que Karamanli, pois cada


um deles a havia escutado ainda na infância e depois repetido muitas
vezes, mas não mostravam a menor tendência para misturar a realidade com
a fantasia e para contar com a ajuda dos mortos numa empresa em que
nenhum vivente podia auxiliá-los.
126

Alihodja, que não se afastava do armazém mas a quem contavam o que se


dizia e o que se passava diante da han de pedra, contentava-se em fazer
com a mão, com ar triste e compadecido, um gesto desaprovador.

— Sabia que esse imbecil não deixaria em paz nem vivos nem mortos. Que
Alá nos ajude!

Ora Karamanli, impotente em face do inimigo real, voltava toda a sua ira
contra Alihodja. Ameaçava, gritava e jurava que antes de deixar a cidade
pregaria o teimoso hodja sobre a kapia, como um texugo, para que
esperasse, nessa posição, a chegada dos Boches, contra os quais não
queria bater-se, não permitindo aos outros que o fizessem.

Toda esta discussão foi interrompida pela aparição dos Austríacos, vindos
dos lados de Lijeska. Viu-se então que a cidade não podia realmente ser
defendida. Karamanli foi o último a abandoná-la, deixando no pequeno
planalto que se estendia diante do caravansará dois canhões de ferro que
tinham sido arrastados até ali. Mas antes de retirar pôs em execução a
ameaça feita. Ordenou a um dos seus criados, ferreiro de profissão, de
estatura gigantesca e cérebro de pássaro, que amarrasse Alihodja e, uma
vez este ligado, que o pregasse pela orelha direita à viga de carvalho
que ficara do antigo reduto, metida entre dois degraus de pedra, na
kapia.

No meio da confusão e emoção gerais que reinavam na praça do mercado e à


volta da ponte, toda a gente ouviu esta ordem, dada em voz forte, mas
ninguém pensou que seria executada. Que se não diz e que enormidades e
injúrias altissonantes se não ouvem em tais circunstâncias ? Dava-se o
mesmo agora. À primeira vista, o caso parecia completamente inverosímil.
Somente podia ser interpretado como uma ameaça, como um insulto ou
qualquer coisa deste género. Alihodja também não o tomou mais a sério e o
próprio ferreiro, a quem cabia a execução da ordem e que estava ocupado a
encravar os canhões, parecia hesitar e reflectir. Mas a ideia de que era
preciso pregar o hodja sobre a kapia estava lançada e nesse momento essas
gentes perturbadas e irritadas faziam cálculos sobre a possibilidade de
execução ou não execução de um tal crime. Faz-se... Não se faz... À
primeira impressão, a maioria julgava o caso como ele era de facto:
absurdo, odioso, impossível. Mas nesses momentos de emoção geral era
necessário cometer qualquer feito, qualquer coisa de grande, de insólito.
Essa era a única coisa que se poderia fazer.

127
Não se faz... Faz-se... Esta possibilidade concretizava-se cada vez mais
e tornava em cada minuto que passava a acção mais verosímil e natural.
Porque não ? Dois homens prenderam o hodja, que nem mesmo procurou
defender-se com convicção. Ataram-lhe os braços atrás das costas. Tudo
isto estava ainda longe de uma realidade tão terrível e tão louca. No
entanto, todos se aproximaram mais e mais. O ferreiro, como se
subitamente tivesse vergonha da sua fraqueza e irresolução, sacou, não se
sabe donde, do martelo com que havia encravado os canhões. O pensamento
de que os Boches estavam, por assim dizer, já ali, a meia hora de marcha
da cidade, deu-lhe ânimo e decidiu-o a meter realmente mãos à obra. Desta
mesma ideia dolorosa extraiu o hodja a sua indiferença obstinada em
relação a tudo, mesmo ao castigo imerecido, louco e ignominioso que lhe
infligiam.

Assim, em alguns instantes, deu-se o que em cada um deles, separadamente,


parecia impossível e irrealizável. Ninguém considerava que o acto fosse
bom e possível, mas cada um, porém, contribuiu um pouco para que o hodja
desse consigo sobre a ponte, pregado pela orelha direita à trave de
carvalho, na kapia. Quando todos se dispersaram diante dos Boches que
desciam para a cidade, o hodja ficou nessa posição estranha, dolorosa e
ridícula, condenado a manter-se de joelhos, imóvel, pois que o menor
movimento lhe causava dor e ameaçava arrancar-lhe a orelha, que lhe
parecia grande e pesada como uma montanha. Pedia socorro, mas ninguém
estava ali para o ouvir e tirá-lo dessa situação! torturante, porque
todos os seres vivos se tinham escondido nas casas ou espalhado pelas
aldeias, com medo não só dos Boches que chegavam, mas também' dos
insurrectos que batiam em retirada. A cidade parecia morta e a ponte
estava deserta, como se a morte tivesse soprado sobre ela. Não houve
ninguém que o socorresse e Alihodja manteve-se encolhido e imóvel na
kapia, a cabeça encostada à trave, gemendo de dor e, mesmo neste estado,
imaginando novas contestações à tese de Karamanli.

Os Austríacos aproximaram-se lentamente. As guardas avançadas viram, da


outra margem, os dois canhões postados diante do caravansará, perto da
ponte, e pararam logo para aguardarem os canhões de montanha. Por volta
do meio-dia dispararam de um pequeno bosque algumas granadas sobre o
caravansará abandonado,, causando danos na han já oscilante e quebrando
as grades extraordinariamente belas colocadas nas janelas, talhadas num
só bloco de pedra macia.

128

Só quando atingiram os dois canhões turcos, verificando que estavam


abandonados e não respondiam aos tiros, os Austríacos cessaram o fogo e
principiaram a aproximar-se cautelosamente da ponte e da cidade. Soldados
húngaros aproximaram-se da kapia em passo lento e a espingarda pronta a
atirar. Pararam espantados diante do hodja enrolado em si mesmo, e que,
com medo das granadas que passavam sibilando por cima da sua cabeça,
tinha esquecido momentaneamente a dor que lhe causava a orelha pregada.
Quando viu os soldados inimigos, de espingardas aperradas, começou a
soltar gemidos suplicantes e prolongados, pensando para si que esta era
uma linguagem compreendida por toda a gente. Em face disto os soldados
não atiraram. Enquanto uns continuavam a avançar a passo sobre a ponte,
alguns permaneceram junto dele, examinando-o de perto sem compreenderem a
situação. Só com a chegada de um enfermeiro se arranjou um alicate e se
retirou cuidadosamente o cravo, um daqueles com que se ferram os cavalos,
libertando Alihodja. Estava tão curvado e exausto que caiu sobre os
degraus de pedra, sem interromper os gemidos.

O enfermeiro aplicou-lhe na orelha ferida um líquido que provocava ardor.


Através das lágrimas, como num sonho extraordinário, o hodja contemplava,
na manga do braço esquerdo do soldado, a larga braçadeira branca com uma
grande e regular cruz de tecido vermelho sobreposta. Só quando se tem
febre podem aparecer pesadelos tão repulsivos e terríveis. Esta cruz
nadava e dançava ante as suas lágrimas como um pesadelo, tapando-lhe todo
o horizonte.

Depois o soldado ligou a ferida e por cima do penso colocou o turbante.


De cabeça ligada, rins doridos, o hodja levantou-se e quedou assim alguns
instantes, apoiado ao parapeito de pedra da ponte. Com dificuldade,
recompôs-se e recuperou a calma.

Na sua frente, no outro lado da kapia, mesmo por baixo dá inscrição turca
gravada na pedra, um soldado colava um grande papel branco. Embora ainda
sentisse a cabeça cheia de dores, o hodja não pôde conter a curiosidade
natural e apressou-se a ler o cartaz.

Era uma proclamação do general Filipovic, em sérvio e turco, dirigida à


população da Bósnia e da Herzegovina na altura da entrada do exército
austríaco na Bósnia. Com o olho direito tapado, Alihodja mal soletrava o
texto em turco e, ainda assim, somente as frases escritas em grandes
letras:

Povo da Bósnia e da Herzegovina! O exército do imperador da Áustria e rei


da Hungria atravessou a fronteira do vosso país.

129

Não vem como inimigo, para conquistar o país pela força. Vem como amigo,
para pôr termo às desordens que perturbam há já anos não só a Bósnia e a
Herzegovina mas também as regiões fronteiriças com a Áustria-Hungria.

O imperador-rei não podia ver por mais tempo a violência e as


perturbações reinarem na vizinhança dos seus territórios e a miséria e o
infortúnio baterem à porta dos seus Estados.
Chamou a atenção das potências estrangeiras para a vossa situação e um
conselho de nações decidiu por unanimidade que a Áustria-Hungria vos
voltasse a dar a paz e a prosperidade que havíeis perdido há muito.

Sua Majestade o Sultão, a quem a vossa felicidade é tão cara, foi servido
confiar-vos à protecção do seu poderoso amigo, o imperador-rei.

O imperador-rei ordena que todos os habitantes deste país gozem dos


mesmos direitos, segundo a lei, e a vida, a fé e os bens de todos sejam
protegidos.

Povo da Bósnia e da Herzegovina! Ponde-vos confiadamente sob a protecção


da gloriosa bandeira da Áustria-Hungria. Acolhei os nossos soldados como
amigos, submetei-vos às autoridades, voltai aos vossos afazeres, que os
frutos do trabalho serão protegidos.

O hodja leu em voz entrecortada, frase após frase, não compreendendo


todas as palavras, embora todas lhe causassem dor; era uma dor especial,
completamente diferente das que sentia na orelha ferida, na cabeça e nos
rins. Foi somente nessa ocasião, por causa daquelas palavras, «as
palavras do imperador», que visionou claramente que tudo acabara para ele
e para os seus, que tudo o que possuía acabava, de uma estranha maneira,
de uma vez para sempre; os olhos vêem, a boca fala; o homem continua a
viver, mas vida, vida real; já não o anima. Um imperador estrangeiro
submetera-os e uma fé estranha conquistara-os. Isto ressaltava claramente
dessas palavras pomposas e dessas ordens obscuras, e ainda com mais
clareza dessa pesada opressão no peito, mais cruel e mais penosa que toda
a dor humana imaginável. Não são os milhares de imbecis do género desse
Osman Karamanli que podem socorrer alguém nesta emergência ou mudar-lhe a
feição.

130

(Assim o hodja continuava a arengar dentro de si próprio.) «Pereceremos


todos! Temos que morrer!» Para que servem as lamentações quando chega
para o homem a época de uma queda tal que ele não pode morrer nem viver,
mas apodrece como um poste enterrado e pertence a todos, excepto a si
mesmo. É uma verdadeira, uma enorme desgraça que os Karamanlis de
qualquer espécie não vejam e não pensem e que, pela sua incompreensão,
não a tornem senão mais pesada e ignominiosa.

Mergulhado nos seus pensamentos, Alihodja deixou lentamente a ponte. Não


notou mesmo que o soldado do serviço de saúde o acompanhava. A orelha
causava-lhe menos dor que esse nó de chumbo e de amargura que,
subitamente, após a leitura das «palavras do imperador», se lhe alojou no
peito. Caminhava devagar e parecia-lhe que nunca chegaria à outra margem,
que essa ponte, orgulho da cidade e que, depois da edificação, ficara
sempre intimamente ligada à sua família, sobre a qual se fez homem e
junto da qual decorreu a sua vida, fora de repente destruída no centro,
ali junto à kapia; que esse grande papel branco da proclamação austríaca
a partira pelo meio, como uma explosão silenciosa, e que ali existia
agora um abismo hiante; que pilares isolados se erguiam ainda de um lado
e de outro desse corte, mas que não existia passagem), porque a ponte não
unia já as duas margens, e que todos os homens tinham de permanecer
eternamente no lado em que ele se encontrava nesse instante.

Alihodja caminhava com lentidão, mergulhado nestas visões febris,


cambaleando como um homem gravemente ferido e chorando continuamente.
Marchava com passo hesitante, como um mendigo que, doente, atravessasse a
ponte pela primeira vez e penetrasse numa cidade estranha e desconhecida.

O som de vozes fê-lo sobressaltar. Junto dele passavam soldados. Entre


eles distinguiu de novo a face bonacheirona e irónica do soldado que
trazia uma cruz vermelha no braço e que o tinha despregado. Sempre com o
mesmo sorriso, o soldado apontava o penso e perguntava qualquer coisa
numa linguagem incompreensível. O hodja imaginou que ele lhe oferecia uma
vez mais os préstimos e logo se empertigou e disse, carrancudo:

— Não preciso de ajuda, posso bem andar sozinho. Não preciso de ninguém.

E, com passo mais vivo, mais decidido, dirigiu-se para casa.

131

A entrada oficial e solene das tropas austríacas só teve lugar no dia


seguinte.

Que o povo se lembrasse, nunca a cidade conhecera um tal silêncio. Nem


sequer as lojas tinham sido abertas e nesse quente e soalhento dia dos
fins de Agosto as casas mantinham portas e janelas fechadas. As vielas
estavam desertas, os pátios e jardins como mortos. Nas casas turcas
reinavam o desânimo e a confusão; nas cristãs a circunspecção e a
desconfiança. Todos estavam tomados de medo. Os Boches que entravam
temiam as emboscadas, os Turcos receavam os Boches, e os Sérvios os
Boches e os Turcos. Os Judeus, esses, tremiam diante de todos, porque,
especialmente em tempo de guerra, todos eram mais fortes que eles. Os
habitantes conservavam ainda nos ouvidos os ecos do canhoneio da véspera.
Se só tivessem ouvido o seu fragor, nem sequer um vivente teria posto os
pés na rua nesse dia. Mas o homem tem outros senhores. O destacamento de
austríacos que na véspera penetrara na cidade desencantara o chefe da
Polícia e os seus agentes. O oficial que comandava o destacamento não
retirou o sabre ao chefe da Polícia e encarregou-o de continuar a exercer
as funções e de manter a ordem na cidade. Informaram-no de que o coronel
chegaria no dia seguinte, às 11 horas, e que os notáveis, isto é, os
representantes dos três cultos, deveriam recebê-lo à entrada da cidade.
Sombrio e resignado, o chefe da Polícia convocou imediatamente Mula
Ibrahim, Husseinaga, o mestre-escola, o pope Nikola e o rabino David Levi
e fez-lhes saber que, «como representantes da fé e como notabilidades»,
teriam de no dia seguinte, ao meio-dia, receber o comandante austríaco na
kapia, saudá-lo em nome da população e acompanhá-lo até ao centro da
cidade.

132

Muito antes da hora marcada, os quatro «representantes da fé» reuniram-se


na praça deserta e tomaram, com lentidão, o caminho da kapia. Neste lugar
o adjunto do chefe da Polícia, Salko Hedo, tinha já, com a ajuda de um
agente da Polícia, estendido um grande tapete turco de cores vivas e
coberto com ele os degraus e o assento de pedra em que deveria sentar-se
o comandante austríaco. Permaneceram ali uns bons momentos, solenes e
silenciosos, e, não descortinando sinal algum do comandante no branco
caminho que desce para Okoliste, entreolharam-se e, como que por acordo
tácito, sentaram-se na parte não coberta do assento de pedra. O pope
Nikola puxou da sua grande tabaqueira de couro e ofereceu-a aos outros.

Achavam-se sobre o soja, como outrora, quando, jovens e sem preocupações,


matavam o tempo na kapia, à semelhança dos outros jovens. Somente agora
eram muito mais velhos. O pope Nikola e Mula Ibrahim eram anciãos, o
mestre-escola e o rabino, homens já maduros. Ali cada um, envergando o
fato dos grandes dias, receava apenas por si e pelos seus. Sob o
causticante sol de Verão, durante muito tempo se observaram de perto,
parecendo a cada um que os outros estavam velhos de mais para a idade que
tinham e muito decaídos. Cada um deles revia os vizinhos tal como haviam
sido na sua adolescência ou na sua infância, crescendo junto dessa ponte,
cada um da sua geração, essa árvore tenra que nunca se sabe que fruto
dará.

Fumavam, falando de uma coisa e pensando noutras, deitando a todo o


momento um olhar para os lados de Okoliste, donde surgiria o comandante,
de quem tudo dependia presentemente e que podia trazer-lhes, à sua gente
e à cidade inteira, o bem e o mal, a tranquilidade ou novos perigos.

O pope Nikola era, sem dúvida alguma, o mais plácido, o mais senhor de
si, ou pelo menos dava essa impressão. Passava já dos setenta, mas estava
ainda bem conservado e forte. Filho do célebre pope Mihailo, que os
Turcos tinham decapitado nessa mesma ponte, havia tido uma juventude
agitada. Fugira várias vezes para a Sérvia para se pôr a salvo do ódio e
da vingança de certos

turcos.

Pelo carácter indomável e pela conduta, fora objecto desse ódio e


espírito de vingança. Passados os anos de tempestade, o filho do pope
Mihailo instalara-se na paróquia de seu pai, casara e assentara. Esses
eram tempos longínquos e esquecidos. («Há muito que o meu temperamento
mudou e os nossos turcos tornaram-se mais sociáveis», dizia o pope em ar
de gracejo.)

133

O pope Nikola pastoreava há já cinquenta anos na sua pobre paróquia,


estendida e dispersa ao longo da fronteira. Dirigia-a calmamente, com
prudência, sem que ela tivesse experimentado outros sobressaltos ou
outras desgraças além daqueles que a vida acarreta por si mesma,
governando-a com a devoção de um servo e a dignidade de um príncipe,
sempre justo e equitativo para com os turcos, o povo e os seus
superiores.

Nem antes nem depois dele, em nenhum meio e em nenhuma religião, houve
homem que gozasse de um respeito tão geral, de uma consideração tão
grande, por parte dos seus concidadãos, sem distinção de credo, sexo e
idade, como este pope a quem todos continuavam a chamar «avôzinho». Ele
simbolizava, para toda a cidade, a Igreja sérvia e tudo o que o povo
denomina e considera como cristão. Além disto, todos viam nele o
protótipo do padre e do chefe tal como os imaginavam naquela cidade e
naquelas circunstâncias,

Era homem de grande estatura e de força pouco comum, sem grande cultura,
mas de bom coração, de mente sã, alma serena e intemerata. O seu sorriso
desarmava, acalmava e encorajava. Era o sorriso indiscritível e
inestimável do homem robusto e generoso que vive em paz consigo próprio e
com o que o rodeia. Os seus grandes olhos verdes contraíam-se por vezes
até se tornarem em dois finos traços castanhos, donde jorravam centelhas
de ouro. Assim permanecera até à velhice. Desta maneira, envolvido na
enorme peliça de pele de raposa, a face aureolada por uma barba ruiva,
que começava a embranquecer com a idade e lhe descia pelo peito, coberto
com o grande capuz sob o qual se enrolava, na nuca, uma forte trança
feita da abundante cabeleira, atravessava o mercado como se fosse o padre
desta cidade aconchegada à ponte e de toda esta região montanhosa não só
há cinquenta anos, nem somente dos ortodoxos, mas desde sempre, desde
tempos imemoriais, quando as diversas religiões e as diferentes Igrejas
do presente não tinham ainda surgido neste mundo. Dos dois lados da rua,
os mercadores, fosse qual fosse o seu credo, saudavam-no das lojas. As
mulheres curvavam-se e, de cabeça baixa, esperavam que o «avôzinho»
passasse. As crianças (mesmo os pequenos judeus) interrompiam os jogos e
cessavam a gritaria, e os mais velhos, com respeito e solenidade,
aproximavam-se da mão do «avôzinho», enorme e rude, para sentirem por um
momento, acima da cabeça rapada e da face corada pela brincadeira, o
bálsamo benfazejo da voz potente e jovial:

— Que Deus te dê vida! Que Deus te dê vida, meu filho!


134

Estes testemunhos de respeito ao «avôzinho» tinham-se tornado um hábito


antigo, atávico mesmo, pois que as gerações que nasciam o possuíam já.

Uma sombra, porém, havia amargurado a vida do pope Nikola: do seu


casamento não tinham nascido filhos. Fora, sem dúvida, um facto terrível,
mas, quer a culpa fosse sua ou da esposa, ninguém se lembra de lhes ter
ouvido um lamento ou mesmo de lhes ter distinguido nos olhos um só
indício de amargura. Em sua casa viviam sempre pelo menos duas crianças
da parentela do campo, que adoptavam. Cuidavam delas até se casarem,
tornando a adoptar outras depois.

Ao lado do pope Nikola sentava-se Mula Ibrahim. Grande, magro e seco, a


barba e o bigode caído, não era mais novo que o pope. De família numerosa
e possuindo bens, herdados do pai, era de tal modo despreocupado, magro e
tímido, com olhos azuis e límpidos de rapazinho, que se assemelhava mais
a um eremita ou a um peregrino piedoso e sem recursos que ao hodja de
Visegrad, de ilustre ascendência. Mula Ibrahim sofria de forte gaguez.
(«Era necessário não ter mesmo nada que fazer para se poder conversar com
ele», dizia o povo como gracejo.)

Contudo, Mula Ibrahin era conhecido em muitos lugares da região pela


bondade e generosidade. Toda a sua pessoa respirava doçura e serenidade e
logo ao primeiro contacto com ele se esquecia depressa o seu aspecto
exterior e o defeito na fala. Atraía irresistivelmente a si todos os que
a doença, a indigência ou qualquer outro infortúnio apoquentavam. Vinham
das aldeias mais distantes pedir-lhe conselho. Diante da sua casa havia
continuamente gente que o aguardava. Homens e mulheres que lhe
solicitavam a opinião ou ajuda abordavam-no muitas vezes na rua. Nunca
repelia ninguém e não aconselhava fórmulas caras ou amuletos, como os
outros hodjas. Sentava-se logo debaixo da primeira sombra ou sobre a
primeira pedra que aparecia, um pouco afastado da pessoa que lhe expunha,
um murmúrio, a causa dos seus males. Mula Ibrahim escutara com atenção e
piedade; por fim, dirigia-lhe algumas palavras bondosas, encontrando
sempre a melhor solução possível, ou então, mergulhando o braço delgado
na profunda algibeira da peliça e, certificando-se de que ninguém o
observava, metia-lhe na mão algumas moedas. Nada se lhe antolhava coisa
difícil, repugnante ou impossível quando era necessário ajudar algum
muçulmano. Para isto tinha sempre bastante tempo e arranjava sempre
dinheiro. Nessas ocasiões a gaguez não o incomodava, porque, cochichando
com o seu sectário sobre o caso, se esquecia mesmo de tartamudear.

135
Se nem todos saíam de sua casa completamente confortados, sentiam-se,
pelo menos momentaneamente, arrimados por verem que alguém havia
compartilhado da sua dor como se fosse dele próprio.

O mestre-escola de Visegrad, Husseinaga, era um homem de estatura mais


baixa que alta, gordo, apesar de ainda novo, vestido com elegância e
esmero. A curta barba negra, cuidadosamente cortada numa oval regular,
emoldurava-lhe a face branca e rosada, de olhos redondos e negros. Era um
letrado; sabia muitas coisas, tinha fama de bastante instruído, mas
julgava-se ele próprio ainda mais sábio. Gostava de falar e de ter
ouvintes. Exprimia-se rebuscadamente e com afectação, valendo-se de
gestos estudados — braços ligeiramente erguidos, as mãos ao mesmo nível,
as suas mãos, brancas e macias, de unhas rosadas, sombreadas por uma
espessa penugem curta e negra. Ao falar comportava-se como diante de um
espelho. Era sua a biblioteca mais valiosa da cidade — um baú com
ferragens cuidadosamente fechado, cheio de livros, que antes de morrer
lhe legara o seu mestre, o ilustre Araphodja —, que ele não só guardava
ao abrigo da poeira e das traças, como só lia raramente e com espírito de
economia. No entanto, apenas o facto de possuir uma tal quantidade de
livros de preço conferia-lhe prestígio entre os que ignoravam o que fosse
um livro, elevando-lhe o valor.

Sabia-se que escrevia a crónica das ocorrências de maior relevo na


história de Visegrad. Isto dera-lhe entre os habitantes renome de pessoa
excepcional e de erudito, pois se considerava que, desse modo, estava nas
suas mãos a reputação da cidade e de todos os indivíduos. Na realidade,
esta crónica nem era minuciosa nem de muito perigo. Iniciada há cinco ou
seis anos, enchia apenas quatro páginas de um pequeno caderno, pois o
mestre-escola não julgara os acontecimentos, na sua maioria, dignos de
figurarem na narrativa por falta de importância ou de interesse. Por isso
ela apresentava-se tão estéril, tão seca e tão vazia como uma solteirona
orgulhosa.

O quarto «representante da fé» era David Levi, rabino de Visegrad, neto


do célebre rabino Hadji Liacho, que lhe deixara em herança o nome, o
cargo sacerdotal e a fortuna, mas nem uma migalha do seu espírito e
serenidade.

Era um homem novo, fraco e pálido, de olhos castanhos de veludo, cheios


de melancolia, mais tímido e taciturno do que possa imaginar-se. Casara
logo que ascendera ao grau de rabino.

136

Para parecer mais importante e robusto, usava uma larga e rica veste de
tecido espesso, tinha barba e bigode, mas por baixo desta farpela
adivinhava-se um corpo débil e friorento e através dessa barba negra e
rara entrevia-se a oval de uma face juvenil e doentia. Sofria
horrivelmente quando era necessário conviver e participar nas discussões
e resoluções, pois nunca deixara de se sentir muito pequeno, fraco,
inferior.

Nessa ocasião achavam-se os quatro sentados à torreira do sol,


transpirando, vestidos com os fatos de cerimónia, mais comovidos e
receosos do que gostariam de parecer.

— Vamos, fumemos. Ainda temos tempo, que raio! Esse homem do Diabo não é
pássaro que pouse sem mais nem menos na ponte — disse o pope Nikola, como
homem que aprendera há já muito a esconder com um gracejo o fundo do seu
pensamento, os seus receios e os dos outros.

Os seus olhares voltaram-se para a estrada de Okoliste e depois


recomeçaram a fumar.

A conversa arrastava-se, lenta, cheia de prudência, e girava


continuamente à volta do acolhimento a prestar ao comandante. Todos
estavam de acordo em dizer que ao pope Nikola competia saudá-lo e dar-lhe
as boas-vindas. Silencioso, o pope mirou os três, longa e atentamente, de
pálpebras semicerradas e sobrancelhas unidas, de modo que os seus olhos
formavam o tal fino traço escuro donde nasciam, como um sorriso,
centelhas de ouro.

O jovem rabino estava aterrado. Nem sequer tinha força para soprar o fumo
para longe, ficando este a pairar na sua barba e no bigode, em longas
volutas. O mestre-escola também não estava mais confiante. Toda a
eloquência, toda a sua dignidade de homem instruído o haviam subitamente
abandonado nessa manhã. Nem se dava conta, mesmo aproximadamente, do
ponto a que chegara a sua perturbação e em que grau se achava
aterrorizado, porque a alta opinião que formava de si próprio o impedia
de apreciá-lo. Tentava proferir um dos seus discursos literários, com os
seus gestos comedidos que tudo explicavam, mas as mãos tombavam inertes e
a palavra embrulhava-se e interrompia-se. Admirava-se de que a dignidade
natural o abandonasse e esforçava-se afincadamente por reencontrá-la, mas
em vão, tal como sucede com um objecto que se nos tornou de há muito
familiar mas que desaparece justamente quando mais necessitamos dele.

Mula Ibrahim estava um pouco mais pálido que de costume, ainda que calmo,
mantendo o sangue-frio. Os seus olhares cruzavam-se frequentemente com os
do pope Nikola, como se isto fosse um meio de se compreenderem
mutuamente.

137

Eram velhos conhecidos, amigos de infância, se é que se podia falar de


amizade entre Turcos e Sérvios nessa época. Quando, na juventude, o pope
Nikola andou às turras com os turcos de Visegrad e teve de se esconder e
fugir, Mula Ibrahim, cujo pai tinha bastante influência na cidade,
prestara-lhe favores. Mais tarde, quando vieram tempos menos agitados, as
relações entre os dois credos tornaram-se razoáveis e os dois homens,
mais amadurecidos, ficaram amigos. Por graça, tratavam-se por «vizinhos»,
pois as casas respectivas situavam-se em extremidades da cidade
diametralmente opostas, Nos períodos de seca, inundação, epidemias ou
logo que uma outra calamidade caía sobre a região, achavam-se empenhados
na mesma tarefa, cada um entre o seu povo. Quando, em outras
circunstâncias, se encontravam em Mejdan ou Okoliste, cumprimentavam-se
como em nenhum outro local se saúdam e se falam um pope e um hodja. Era
muitas vezes a altura de o pope Nikola apontar com o seu cachimbo para
baixo, para a cidade que se estendia ao longo do rio, e de dizer, meio
sério, meio a rir:

— Por tudo o que lá em baixo respira, rasteja e fala com voz humana, tu e
eu somos responsáveis.

(Os habitantes, que habitualmente troçavam de tudo, diziam das pessoas


que viviam em boa harmonia: «Gostam um do outro como o pope e o hodja». E
a frase pegara.)

Nesse momento, se bem que nenhum deles tivesse proferido uma só palavra,
ambos se compreendiam. O pope Nikola sabia como tudo isto era penoso para
Mula Ibrahim e este percebia que para o pope a ocasião era dura.
Entreolhavam-se como se isto já lhes tivesse acontecido um grande número
de vezes na vida, num também grande número de situações diferentes, como
homens responsáveis por todos os bípedes da cidade, um pelos que se
persignavam, outro pelos que se prosternavam.

Nesse instante um trote fez-se ouvir e um guarda chegou, cavalgando um


pobre sendeiro. Deitando os bofes pela boca e amedrontado, gritou de
longe, como um mensageiro:

— Aí vem o comandante; ei-lo montado no seu cavalo branco! O chefe da


Polícia surgiu então, sempre calmo, sempre amável, sempre silencioso.

Vinda de Okoliste, uma nuvem de poeira erguia-se no ar.

Estes homens, nascidos e criados na época da decadência turca do século


XIX nunca tiveram, bem entendido, ocasião de conhecer o exército
autêntico, forte e bem organizado, de uma grande potência. Tudo o que
haviam podido apreciar até então eram regimentos incompletos do exército
do sultão, mal abastecidos, miseravelmente fardados e pagos
irregularmente, ou, o que era ainda pior, irregulares bósnios recrutados
à força, indisciplinados e sem entusiasmo.

138

Tinham agora, pela primeira vez, a revelação da força real de um império,


vitoriosa, brilhante e segura de si. Este exército ofuscava-lhes a visão
e prendia-lhes a fala. Logo ao primeiro olhar lançado aos arreios dos
cavalos e aos botões das túnicas dos soldados sentia-se, para além dos
cavaleiros e dos caçadores em uniforme de parada, uma presença profunda e
poderosa, a força, a ordem e a prosperidade de um outro mundo. A surpresa
era grande, a impressão dominadora.

Na vanguarda marchavam dois corneteiros montados em cavalos lanudos e bem


tratados. Seguia-se um destacamento de hussardos montando cavalos pretos.
Estes estavam bem escovados e trotavam a passo miúdo e sofreado. Os
hussardos, de barretinas vermelhas sem viseira, o peito ornado de galões
amarelos, todos jovens de tez rosada e tostada, bigode frisado, pareciam
tão frescos e repousados como se tivessem saído directamente da caserna.
Atrás deles cavalgava um grupo de seis oficiais, com o coronel à cabeça.
Todos os olhares se fixavam nele. O seu cavalo era maior que os outros,
mosqueado, de pescoço espantosamente comprido e recurvo. A alguma
distância dos oficiais vinha uma companhia de infantes e caçadores de
uniformes verdes, um penacho de plumas coroando o quépi de couro e
correias brancas cruzadas no peito. Ocupavam toda a área visível e davam
a impressão de uma floresta em movimento.

Os corneteiros e hussardos desfilaram diante dos sacerdotes e do chefe da


Polícia, fizeram alto na praça do mercado e formaram aos lados.

Os quatro homens perfilavam-se, pálidos e emocionados, na kapia, a meio


da ponte, a face voltada para os oficiais que se aproximavam. Um destes
dirigiu o cavalo para junto do coronel e disse-lhe qualquer coisa. Todos
os cavaleiros diminuíram o andamento. Chegado a alguns passos dos
«representantes da fé», o coronel parou bruscamente o cavalo, apeou-se e,
como a um dado sinal, todos os oficiais o imitaram. Acorreram soldados
que tomaram as rédeas dos cavalos e os conduziram alguns passos para
trás. Logo que tocou o solo com os pés, o coronel pareceu transfigurar-
se. Era um indivíduo de fraca compleição, sem aparência, extenuado,
desagradável e feroz. Poder-se-ia crer que tinha sido ele só a combater
por todos. Agora via-se tal como era na realidade: vestido com
simplicidade, pouco cuidado, mesmo desleixado(contrastando no aspecto com
os seus oficiais, de tez branca, de uniformes impecáveis.

139

Era o protótipo do homem que se esforça desmedidamente, que se devora a


si mesmo, face curtida coberta de barba, os olhos turvados e inquietos, o
boné alto ligeiramente de través, o uniforme amarrotado, dentro do qual
nadava o corpo magro, os pés calçados com botas de cavalaria de cano mole
e sem brilho. Aproximou-se andando de pernas abertas e brandindo o
chicote. Um dos oficiais, apontando os homens alinhados diante dele, pô-
lo ao corrente do que se passava. O coronel mirou-os com o seu olhar
fugaz, sombrio e irritante, com esses olhos penetrantes do homem a quem
competem sempre tarefas penosas e a quem espreitam grandes perigos. Via-
se logo que ele não sabia olhar de outra maneira.

Nesse momento, com voz calma e profunda, o pope Nikola tomou a palavra. O
coronel levantou a cabeça e fixou os olhos nesse homem imponente de
sotaina negra. A cara larga e pacífica de patriarca bíblico reteve por um
instante a sua atenção. Podia ser que não compreendesse ou fingisse não
ouvir o que o velho dizia, mas a face do pope não passava despercebida.

O pope Nikola exprimia-se naturalmente e com facilidade, dirigindo-se


mais ao jovem oficial que traduzia as suas palavras que propriamente ao
coronel. Em nome dos padres de todos os credos ali presentes, assegurava
ao coronel que estavam desejosos, assim como o povo, de se submeterem à
boa vontade dos ocupantes e de fazerem o possível por manterem a paz e a
ordem que a nova autoridade exigia. Pediam que o exército os protegesse,
a eles e às famílias, e lhes permitisse viver em paz e trabalhar
honestamente.

O pope Nikola foi breve e terminou de maneira súbita. O nervoso coronel


não teve tempo de perder a paciência. Mas, por vingança, não esperou pelo
fim da tradução feita pelo jovem oficial. Brandindo o chicote,
interrompeu-o com voz cortante e desigual:

— Está bem, está bem! Serão protegidos todos os que se portarem bem, mas
a ordem e a paz deverão ser mantidas em toda a parte. Não será de outra
forma, mesmo que eles não queiram. Dito isto e sacudindo a cabeça,
recomeçou a caminhar em frente, sem um cumprimento, sem um olhar. Os
padres desviaram-se. O coronel passou diante deles, seguido dos oficiais
e dos palafreneiros. Ninguém se importou com os «representantes da fé»,
que ficaram sós na kapia.

Estavam todos decepcionados, porque ainda de manhã e na noite precedente,


durante a qual nenhum deles dormira muito, se tinham perguntado como
decorreria esse momento em que, na kapia, receberiam o comandante do
exército imperial.

140

Tinham-no imaginado de mil maneiras, segundo o seu carácter, a sua


inteligência, e estavam preparados para o pior. Alguns deles julgavam-se
já conduzidos ou exilados para essa longínqua Áustria, sem nunca mais
poderem voltar a ver a casa e a cidade. Outros lembravam-se do que se
contava de Hairudin, que outrora cortava as cabeças nesta mesma kapia.
Haviam concebido a cerimónia de todos os modos, excepto da forma como se
tinha desenrolado realmente com esse oficial franzino mas terminante e
irascível, cuja razão de viver era a luta, que não pensava em si e não
contava com os outros, só considerando os habitantes e as regiões que
percorria como um objectivo ou como um meio de guerra e de combate e
comportando-se como se lutasse por conta própria e em seu nome.

Permaneciam ali, entreolhando-se, perplexos. Os seus olhares pareciam


outras tantas interrogações mudas: «Estamos ainda vivos? O pior está
realmente passado? Que nos espera ainda? Que fazer?».
O chefe da Polícia e o pope foram os primeiros a recuperar a presença de
espírito. Concluíram que a missão de «representantes da fé» estava
cumprida e que o mais que havia a fazer era regressarem às respectivas
casas e persuadirem os habitantes a não terem receio e a não fugirem,
tomando apenas cuidado com a maneira de proceder. Os outros, de face
exangue e cabeça vazia de ideias, aceitaram esta conclusão como o fariam
com outra qualquer, pois o seu estado não era de molde a tomarem qualquer
iniciativa.

O chefe da Polícia, que nada fazia sair da sua calma, afastou-se para
desempenhar as suas funções. O guarda voltou a enrolar o grande tapete
multicor, que afinal não estava destinado a receber o comandante, sempre
acompanhado de Salko Hedo, insensível e frio como a fatalidade. Os
«representantes da fé» separaram-se em seguida, cada um à sua maneira e
partindo em direcções diferentes.

O rabino afastou-se em passos curtos, desejoso de chegar a casa o mais


depressa possível e de apreciar o conforto e o calor do lar, onde viviam
a mãe e a esposa. O mestre-escola caminhava um pouco mais lentamente,
profundamente embebido nos seus pensamentos. Agora que tudo tinha corrido
bem e com facilidade inesperada, parecia-lhe evidente que não existia
motivo para inquietações e que nunca, até ali, tivera medo de ninguém.

141

Interrogava-se sobre o interesse que este acontecimento poderia ter para


a sua crónica e que espaço deveria ocupar: vinte linhas chegariam, talvez
quinze, ou ainda menos. Quanto mais se aproximava de casa mais lhes
reduzia o número. Cada linha poupada dava-lhe a impressão de que via tudo
à sua volta diminuir de importância enquanto ele se valorizava e crescia
aos seus próprios olhos.

Mula Ibrahim e o pope Nikola caminharam juntos até às proximidades de


Mejdan. Calavam-se surpresos e abatidos pela desenvoltura e pelo
comportamento do coronel do exército imperial. Ambos estavam impacientes
por chegar a casa e por tornar a ver os seus familiares. Ali, onde os
seus caminhos divergiam, pararam um momento e miraram-se em silêncio.
Mula Ibrahim semicerrava os olhos e remexia os lábios como se mastigasse
continuamente as mesmas palavras, sem chegar a pronunciá-las. O pope
Nikola tinha recuperado o seu sorriso esmaltado de centelhas de ouro e
isto teve o condão de os encorajar, a ele e ao hodja. Foi então que
exprimiu a sua opinião pessoal, concordante com a de Mula Ibrahim:

— Amarga obra a deste exército, Mula Ibrahim!

— D... d... dizes bem, amarg... g... ga! — gaguejou o hodja erguendo os
braços e despedindo-se a seguir do amigo com uma inclinação de cabeça e
um esgar.
O pope Nikola dirigiu-se para casa em passo lento e arrastado. A mulher
acolheu-o sem nada lhe perguntar. Apressou-se a descalçar as botas, a
despir a sotaina e a tirar o capuz enfiado por cima da grossa trança de
cabelos cinzentos e ruivos, empastada em suor. Sentou-se no pequeno divã
baixo. Sobre o braço deste estava já um copo de água com um pequeno
torrão de açúcar. Depois de se dessedentar, acendeu o cachimbo e,
fatigado, fechou os olhos. Mas perante o seu olhar interior perpassava
constantemente o nervoso coronel, ofuscante como o relâmpago que nos cega
e preenche todo o nosso campo visual, se bem que não o vejamos e não
possamos, portanto, distinguir a sua imagem. O pope, com um suspiro,
soprou com força o fumo, murmurando para consigo: «Ah! Homem de um
raio!... Ah! Filho de uma cadela!»

Da cidade vinham, numa melodia incomum e nova, o som cavo dos tambores e
o som agudo das cornetas do destacamento de caçadores.

142

XI

Assim, a grande mudança operada na vida da cidade perto da ponte


efectuou-se sem que alguém tivesse de sofrer, excepto Alihodja. Alguns
dias depois a vida retomou o seu curso normal e parecia, em substância,
imutável. O próprio Alihodja tomou ânimo e, com os outros comerciantes,
abriu a sua loja próximo da ponte; somente agora usava o fez ligeiramente
inclinado à direita para dissimular a cicatriz da orelha ferida. O peso
de chumbo que sentira no peito após ter visto a cruz vermelha na manga do
soldado austríaco e lido, através das lágrimas, o edital do imperador,
não tinha, a bem dizer, desaparecido, mas tornara-se pequeno como a conta
de um rosário, de modo que era possível viver com ele. Nem era ele o
único a trazer semelhante carga no coração.

Assim, sob a ocupação, começou um período novo, que o povo, não o podendo
evitar, pensou, com todo o coração, ser provisório. O que não passou
sobre esta ponte durante os primeiros anos da ocupação! Veículos
militares de cor amarela atravessaram-na em longas filas com
carregamentos de víveres, roupas, móveis, instrumentos e equipamentos até
então desconhecidos.

A princípio, viu-se somente o exército. Como água que irrompe da terra,


os soldados surgiram, de todos os cantos e de cada moita. A praça do
mercado estava cheia deles, bem como todos os outros locais da cidade. A
cada instante ressoavam gritos de uma mulher apavorada que, no pátio ou
no pomar de ameixas atrás da sua casa, topara imprevistamente com um
soldado. Tisnados por dois meses de marchas e de combates, contentes por
estarem vivos, ávidos de repouso e de diversões, eles deambulavam nos
seus uniformes azul-escuros pela cidade e pelos arredores. Na ponte,
havia-os a todas as horas do dia. Poucos cidadãos frequentavam a kapia,
pois este recanto da ponte encontrava-se sempre cheio de soldados.

143

Aí instalados, cantavam em diversas línguas, compravam fruta, que


colocavam nos seus bonés azuis de pala de couro com um distintivo de
metal amarelo no qual sobressaíam as iniciais do régio nome do imperador
Francisco José: F J I.

Mas logo que chegou o Outono os soldados começaram a partir. Progressiva


e imperceptivelmente, parecia haver cada vez menos. Ficaram apenas os
destacamentos da guarda. Requisitaram alojamentos e prepararam-se para
uma longa estada. Ao mesmo tempo, começaram a chegar funcionários do
serviço civil com a família e pessoal doméstico e, depois deles, artesãos
e técnicos para certos trabalhos e ofícios que não existiam até então na
cidade. Entre eles, checos, polacos, croatas, húngaros e alemães. A
princípio dava a impressão de que todos tinham aqui caído por acaso, como
que impelidos pelo vento e como que vindos provisoriamente para viver
mais ou menos a existência que sempre se vivera neste lugar, como se as
autoridades civis fossem prolongar ainda por algum tempo a ocupação
iniciada pelo exército. Mas, com o decorrer dos meses, via-se aumentar o
número dos estrangeiros. Porém, o que mais surpreendeu a gente da cidade
e o que mais a encheu de espanto e de descontentamento não foi já a
quantidade dos recém-chegados, mas os seus enormes e incompreensíveis
planos, a sua actividade infatigável e a perseverança com que procediam à
realização dos seus empreendimentos. Estes estrangeiros jamais se
sentiram tranquilos e nunca permitiram que alguém vivesse em paz. Dir-se-
ia que, com a sua teia invisível, mas cada vez mais sensível, de leis,
regulamentos e ordenações, estavam decididos a envolver todas as formas
de vida, gente, animais e coisas, e a tudo transformar e remexer: o
aspecto exterior da cidade, os hábitos e costumes da população, do berço
à tumba. Tudo faziam tranquilamente, sem muitas palavras, sem violência
ou provocação, de modo que ninguém tinha de que protestar. Se encontravam
resistência ou falta de compreensão, detinham-se imediatamente, discutiam
o caso algures, fora das vistas dos curiosos, e então modificavam somente
a direcção e o método do seu trabalho, realizando, contudo, o que sempre
haviam tido em mente. Cada tarefa que empreendiam parecia inútil e
absurda. Mediam os terrenos baldios, numeravam as árvores nas florestas,
inspeccionavam as sentinas e os esgotos, examinavam os dentes dos cavalos
e das vacas, informavam-se das doenças de que sofria o povo, do número e
do nome das árvores de fruto e da raça dos carneiros e da criação. (Dava
a impressão de que se divertiam, tão incompreensíveis, vãs e fúteis
pareciam estas ocupações aos olhos do povo).

144
De súbito, tudo o que haviam realizado com tanto escrúpulo e zelo diluía-
se em qualquer parte, sem deixar traços, como se jamais tivesse sido
encetado. Todavia, alguns meses depois, por vezes um ano mais tarde, já o
povo esquecera completamente a questão, eis que se revelava o sentido
destas medidas tão absurdas na aparência. Convocavam-se ao konak os
mukhtars dos bairros e comunicava-se-lhes a nova regulamentação sobre o
corte das florestas, a luta contra o tifo, o modo de venda da fruta e das
doçarias ou as normas acerca da circulação do gado. E assim em cada dia
surgia novo regulamento. E com cada um deles viam restringir-se parte da
sua liberdade individual ou ampliarem-se as suas obrigações, mas a vida
da cidade, das aldeias e de todos os seus habitantes, como grupo humano,
alargava-se e tomava volume.

Porém, nas casas, não só dos turcos, mas também dos sérvios, nada mudara.
Nelas se vivia, se trabalhava e se folgava como dantes; fazia-se o pão na
masseira, torrava-se o café na lareira, expunham-se as roupas ao vapor
nas caldeiras de cobre e lavavam-se numa solução de soda que feria os
dedos das mulheres; elas ainda teciam e bordavam em teares e bastidores.
Os velhos costumes das slavas e dos casamentos eram conservados em todos
os pormenores; quanto aos novos hábitos que os recém-chegados haviam
introduzido, murmurava-se somente aqui e ali como de algo incrível e
longínquo. Numa palavra: na maioria das casas, trabalhava-se e vivia-se
como em todos os tempos e como se trabalharia e viveria quinze ou vinte
anos após a chegada dos ocupantes.

Mas, por outro lado, o aspecto exterior da cidade modificou-se


visivelmente e com rapidez. E as mesmas pessoas que nas suas casas
mantinham rigorosamente as velhas tradições e não sonhavam sequer em
alterá-las acomodavam-se com bastante facilidade às transformações
operadas na cidade e aceitavam-nas após um espanto e um resmonear mais ou
menos longos. Aqui, naturalmente, como sempre e em toda a parte em
circunstâncias semelhantes, o recente teor de vida significava, na
realidade, uma mescla do antigo e do novo. As velhas concepções e os
velhos valores colidiam com os novos e opunham-se-lhes, combinavam-se ou
coexistiam como se se conservassem à espera para ver quais deles
sobreviviam aos outros. O povo contava em florins e em kreutzers, do
mesmo modo que em grosh e paM, fazia as suas avaliações, em medidas e
pesos, em arshins, em okas e drams, mas também em metros, quilos e
gramas, fixava as datas para os pagamentos e encomendas pelo novo
calendário, mas também, e na maior parte das vezes, ainda segundo o velho
costume: no dia de S. Jorge ou de S. Demétrio.

145
Conforme uma lei natural, o povo resistia a todas as inovações, mas não
ia nunca até ao extremo, porque, para a maioria, a vida era sempre mais
importante e mais urgente que os padrões com os quais se revestia.
Somente os indivíduos excepcionais são arrebatados, verdadeiramente, pelo
drama profundo da luta entre o antigo e o moderno. Para eles o teor de
vida está ligado de maneira íntima e incondicional à própria vida.

A esta última categoria pertencia Shemsibeg Brankovic, de Crnce, um dos


beis mais ricos e mais respeitados da cidade. Tinha seis filhos, quatro
dos quais casados. As suas casas formavam toda uma pequena povoação
cercada de campos, de pomares de ameixas e maciços de verdura. Shemsibeg
era o chefe incontestado, taciturno e severo desta comunidade. Alto,
curvado pelos anos, com um grande fez branco bordado a ouro na cabeça,
descia à cidade somente às sextas-feiras para orar na mesquita. Depois do
primeiro dia da ocupação, não se detinha mais em parte alguma do burgo,
não falava a ninguém e não lançara sequer um olhar em redor de si. Em
casa das Brankovic não se ousava introduzir a mínima peça dos novos
trajos, uma nova ferramenta ou uma nova palavra. Nenhum dos seus filhos
tinha qualquer contacto com as actuais autoridades, nem sequer um dos
seus netos ia à escola. Toda a comunidade sofria com esta situação. O
descontentamento fazia-se sentir entre os filhos, devido à obstinação do
velho, mas ninguém ousava opor-se-lhe por meio de uma simples palavra ou
de um simples olhar. Os turcos do bairro comercial, que mantinham
negócios com os recém-vindos e com eles se associavam, saudavam Shemsibeg
quando o velho atravessava a praça do mercado com um respeito mudo, no
qual estavam misturados medo, admiração e inquietação de consciência. Os
turcos da cidade, os mais velhos e os melhores, dirigiam-se por vezes a
Crnce, como se em peregrinação, para se sentarem junto de Shemsibeg e
conversarem com ele. Eram reuniões de homens que estavam decididos a
preserverar na sua resistência até ao extremo e não queriam inclinar-se
ante a realidade. Na verdade, eram longas sessões em que se trocavam
poucas palavras e que terminavam sem conclusões concretas.

Shemsibeg, envolto num gibão todo abotoado, tanto no Inverno como no


Verão, sentava-se no seu pequeno tapete vermelho e fumava cercado pelos
hóspedes.

146

As conversas decorriam habitualmente, plenas de dignidade, sobre qualquer


nova medida incompreensível e odiosa das autoridades de ocupação ou ainda
sobre os turcos que se acomodavam cada vez mais ao novo estado de coisas.
Diante deste homem severo e digno todos experimentavam a necessidade de
mostrar a sua amargura, os seus receios e a sua perplexidade. Cada
conversa terminava com as perguntas: «Onde é que isto nos leva, e onde é
que se deterá? Quem são e o que querem estes estrangeiros que não parecem
conhecer folga e descanso, nem medidas nem limites? Que desejam eles? Com
que planos vieram? Que é esta inquietação que os possui sem cessar como
uma maldição e que os incita a todos estes novos trabalhos e
empreendimentos de que se não vê fim?»

Shemsibeg somente os fitava e conservava-se calado na maior parte das


vezes. O seu rosto era sombrio, não que tivesse sido tisnado pelo sol,
mas porque fora ensombrado pelos seus pensamentos mais secretos. O seu
olhar era duro, mas ausente e perdido, os olhos carregados, com as
pupilas negras cercadas por círculos de um branco acinzentado, como uma
águia velha. A boca, grande, com os lábios pouco perceptíveis, achava-se
fortemente cerrada, movendo-se lentamente como se ele estivesse a pesar
uma palavra, sempre a mesma, que não chegava jamais a pronunciar.

Não obstante, os homens deixavam-no com um sentimento de conforto, nem


calmos nem consolados, porém tocados e exaltados pelo seu exemplo de
intransigência dura e desesperada.

Sempre que, na sexta-feira seguinte, Shemsibeg descia à praça do mercado,


deparava-se-lhe uma nova modificação, nos homens ou nos edifícios, de que
não se apercebera na semana anterior. Para não ter que a ver, conservava
os olhos fixos no chão, mas, ali, na lama seca das ruas, notava as marcas
dos cascos dos cavalos e apercebia-se de que ao lado dos ferros
arredondados e largos dos cavalos turcos os ferros curvos e de pontas
aceradas dos cavalos austríacos se tornavam cada vez mais numerosos.
Assim, aí mesmo, na lama, os seus olhos liam a mesma condenação
desapiedada que por todo o lado distinguia nos rostos e nas coisas que o
cercavam, o julgamento impiedoso do tempo, cuja marcha não pode ser
detida.

Ao dar-se conta de que não podia pousar mais os olhos em parte alguma,
deixou por completo de descer à cidade. Retirou-se na sua Crnce, onde se
sentava, chefe de família taciturno mas severo e implacável, duro para
todos, porém ainda mais para si mesmo. Os turcos mais velhos e mais
respeitados da cidade continuavam a visitá-lo como a uma relíquia viva.

147

Entre eles, em particular, Alihodja. E durante o terceiro ano da ocupação


Shemsibeg morreu sem sequer ter estado doente. Deixou este mundo sem
jamais pronunciar aquela palavra amarga que sempre rolara sem cessar nos
seus lábios e sem ter posto mais os pés bairro comercial, onde tudo
seguia uma nova orientação. Na verdade, a cidade metamorfoseara-se
bruscamente: os estrangeiros abatiam as árvores, plantavam outras em
diferentes lugares, reparavam os caminhos, traçavam novas estradas,
cavavam canais de drenagem, construíam edifícios públicos. Nos primeiros
anos, demoliram as lojas do mercado que se não encontravam no alinhamento
mas que, para dizer a verdade, não tinham até então constituído motivo de
desagrado ou inconveniência para ninguém. Em lugar dessas velhas lojas de
portais de madeira, outras foram construídas, bem localizadas, com
telhados cobertos de telha e portas guarnecidas de estores metálicos.
(Vítima destas medidas, a loja de Alihodja devia, ela também, ser
demolida, mas o hodja resistiu com decisão, levou o caso ao tribunal,
contestou-o e defendeu-se de todas as maneiras possíveis, até que, por
fim, ganhou a questão. E a sua loja ficou precisamente como estava e onde
estava.) A praça do mercado foi ampliada e nivelada. Elevou-se um novo
kanak, um grande edifício destinado a instalar o tribunal e a
administração local. Também o exército estava a trabalhar por sua conta,
embora com mais rapidez e menos consideração do que as autoridades civis.
Construíram quartéis, arrotearam, plantaram e modificaram o aspecto de
colinas inteiras.

Os habitantes mais velhos não podiam compreender o que se passava, mas


não deixavam de exprimir o seu espanto; logo que pensavam que este ardor
incompreensível tocava o fim os estrangeiros iniciavam novo
empreendimento, mais incompreensível ainda. E os habitantes detinham-se a
examinar todos estes trabalho! mas não como as crianças gostam de olhar
as obras das pessoal de mais idade, porém, pelo contrário, como os
grandes se detém um instante para lançar uma vista de olhos às diversões
das crianças. Mas esta necessidade incessante que os estrangeiros tinham
de fazer e desfazer, de escavar e reconstruir, de erguer e modificar,
este perpétuo desejo de prever a acção das forças da natureza, de as
evitar ou sobrepujar, isso, ninguém aqui podia compreender, nem sabia
apreciar. Pelo contrário, todos os habitantes, em especial os mais
velhos, consideravam, tudo isto um fenómeno malsão e aí viam um sinal de
mau augúrio.

148

A cidade, segundo a sua vontade, conservaria sempre a aparência de todas


as pequenas cidades orientais: o que estava usado seria reparado, o que
se inclinasse, escorado, mas, além disso, ninguém empreenderia, sem
necessidade e com planos e previsões, novos trabalhos, nem tocaria nos
alicerces dos edifícios e modificaria o aspecto que Deus dera à cidade.

Mas os estrangeiros continuavam! com as suas empresas, uma após outra,


com celeridade e coerência, de acordo com planos desconhecidos e
cuidadosamente estudados, para ainda maior surpresa dos habitantes da
cidade. Assim bem depressa e inesperadamente chegou a vez do caravansará,
decrépito e abandonado, que formava ainda um todo com a ponte, como
trezentos anos antes. De facto, o que se chamava han de pedra era, há
muito, somente ruínas. As portas estavam apodrecidas, as grades das
janelas, talhadas em pedra pouco consistente, encontravam-se quebradas, o
telhado tombara no interior do edifício; nele crescera uma grande acácia
e numerosos arbustos e ervas daninhas sem nome, mas as paredes exteriores
achavam-se ainda inteiras, formando um rectângulo de pedra branca,
regular e harmonioso. Aos olhos dos habitantes da cidade, do seu
nascimento à morte, estas ruínas não eram banais, mas o complemento da
ponte, parte integrante da cidade, como as suas próprias casas, e jamais
alguém pudera imaginar que se pudesse tocar na velha han e que aí se
devesse modificar fosse o que fosse dela que o tempo e a natureza não
tivessem já operado.

Porém, um belo dia chegou a sua vez. Em primeiro lugar, os engenheiros


ocuparam-se durante longo tempo a fazer medições em redor das ruínas,
depois operários e trabalhadores começaram a demoli-la pedra por pedra,
assustando e espantando todas as espécies de aves e de pequenos animais
que nela tinham os seus ninhos. Rapidamente, o espaço plano ao cimo da
praça do mercado, perto da ponte, ficou vazio e da han nada mais restou
que um monte de pedras cuidadosamente empilhadas.

Pouco mais de um ano depois no lugar do antigo caravansará de pedra


branca ergueu-se um quartel, edifício alto e maciço, de dois pisos,
caiado de azul-claro, recoberto de chapas onduladas e cinzentas de ferro
e flanqueado por seteiras. No espaço plano os soldados faziam todos os
dias exercício e, como mártires, à voz tonitruante dos graduados,
distendiam os membros ou tombavam a cabeça no pó como suplicantes. E à
noite, através das numerosas janelas deste feio edifício, ressoavam, as
estrofes de canções guerreiras incompreensíveis, acompanhadas dos acordes
da harmónica.

149

Isto continuava até que o som penetrante do clarim, com a sua melodia
melancólica que punha a uivar os cães da cidade, fazia cessar todos estes
ruídos e extinguir as últimas luzes nas janelas. Assim desapareceu a bela
fundação piedosa do vizir e, deste modo, o quartel, que a gente, fiel aos
seus hábitos, continuava a chamar a han de pedra, começou a sua
existência sobre o espaço plano junto da ponte, em desacordo completo com
tudo o que o rodeava. A ponte ficou então completamente isolada.

A bem da verdade, deve dizer-se que na ponte se estavam a passar as


coisas que davam origem a que os hábitos imutáveis do povo colidissem com
as inovações que os estrangeiros e o seu regime haviam introduzido; e daí
resultava que tudo o que era velho e local se via regularmente condenado
a um recuo e a uma adaptação.

No que dizia respeito à nossa gente, a vida na kapia continuava a correr


como dantes. Agora notava-se apenas que os Sérvios e os Judeus vinham
mais livremente à kapia, sempre em maior numero e a toda a hora do dia,
não fazendo caso; corno noutro tempo, dos Turcos, dos seus costumes e dos
seus privilégios. No decurso do dia, nela se instalavam activos homens de
negócios que iam ao encontro das camponesas a quem compravam lã, criação
e ovos; perto deles viam-se passeantes e ociosos que, como o Sol, se
deslocavam de uma extremidade à outra da cidade. Perto da noite, outros
cidadãos começavam a chegar, comerciantes e trabalhadores circulavam em
redor, conversando um pouco ou olhando em silêncio para o grande rio
verde bordado de salgueiros anões e de bancos de areia. A noite pertencia
aos jovens e aos bêbados. Eles nunca conheceram, nem conheciam agora,
limites para o tempo que passavam na ponte nem para o que lá faziam.

A vida nocturna fora, pelo* menos nos primeiros dias, submetida a


mudanças que ocasionaram desacordos. As novas autoridades tinham
instalado iluminação permanente na cidade. Nos primeiros anos da ocupação
dependuraram, nas ruas principais e nos cruzamentos, postes verdes com
lampiões onde ardiam lâmpadas a petróleo. Era o grande Ferhat, um pobre
diabo com um rancho de filhos e que até então fora criado da
municipalidade, quem limpava estes lampiões, os enchia e os acendia. Ele
atirava os morteiros que anunciavam as festas do Ramada e encarregava-se
de tarefas semelhantes sem salário fixo ou assegurado. Também a ponte foi
iluminada em certos recantos, incluindo a kapia. O poste que sustentava
este lampião estava fixado à trave de carvalho remanescente do antigo
fortim. Este lampião da kapia teve de sustentar uma longa luta contra os
hábitos dos estou-me-nas-tintas, dos que amavam cantar na escuridão, ou
fumar, ou discutir, como também contra os impulsos destruidores dos
jovens em que se entrechocavam a melancolia amorosa, a solidão e a
aguardente.

150

Aquela luz trémula irritava-os e muitas vezes lampião e lâmpada foram


feitos em pedaços. Este lampião dera origem a muitas multas e
condenações. Em certa altura mesmo, um agente da Polícia fora destacado
especialmente para vigiar o local onde se encontrava. Assim os vigilantes
nocturnos tiveram uma testemunha viva ainda mais desagradável que o
lampião. Porém o tempo exerceu a sua influência e as novas gerações
habituaram-se e acomodaram-se a ele, dando curso livre aos seus
sentimentos nocturnos sob a luz débil do lampião municipal e não mais lhe
arremessaram tudo o que vinha à mão — paus, pedras ou algumas coisas
mais. Esta reconciliação foi assaz fácil, porque nas noites luarentas, em
que a kapia era frequentada, o lampião não era geralmente aceso.

Somente uma vez por ano a ponte era submetida a profunda iluminação.
Todos os anos, na véspera de 18 de Agosto, data do aniversário do
Imperador, as autoridades decoravam a ponte com grinaldas e com filas de
pinheiros jovens, e, ao cair da noite, alumiavam-se fieiras de lampiões e
luminárias; centenas de latas de conservas das rações do exército, cheias
de sebo e de estearina, flamejavam em longas linhas ao longo do seu
parapeito. Alumiava-se o meio da ponte, deixando-se as extremidades e os
pilares imersos na escuridão, de maneira que a parte iluminada parecia
flutuar no espaço. Mas cada lâmpada se consumia rapidamente e a
solenidade passava. No dia seguinte, a ponte era uma vez mais o que
sempre fora. Somente nos olhos das crianças restava a imagem nova e
inabitual da ponte banhada por este efémero jogo de luzes, visão animada
e impressionante, mas breve e fugidia como um sonho. Além da iluminação
permanente, as novas autoridades introduziram também o asseio na Kapia,
ou mais exactamente, um género especial de asseio em conformidade com as
novas concepções. As cascas de frutos e de nozes e as sementes de melão
não mais juncaram durante dias as lajes de pedra até que a chuva e o
vento as varressem. Todas as manhãs um varredor da municipalidade
encarregava-se da limpeza do local. Porém, isso não irritava ninguém,
pois depressa as pessoas se acostumam ao asseio, mesmo quando ele não
faça parte dos seus hábitos e costumes, apenas com a condição de não
terem pessoalmente de o observar. Houve ainda outra novidade que a
ocupação e os estrangeiros trouxeram: pela primeira vez na existência da
Kapia, as mulheres começaram a frequentá-la.

151

As esposas e as filhas dos funcionários, as criadas e as amas das


crianças aí se detinham para tagarelar ou para se sentarem nos dias de
festa na companhia de cavalheiros, militares ou civis. Isto não era
frequente, mas o suficiente para perturbar o humor dos velhos que para lá
iam fumar os seus cachimbos em paz e em silêncio e desconcertar e
exasperar os jovens.

Naturalmente, sempre existira uma certa relação entre a kapia e as


mulheres da cidade, pois os jovens sempre nela se juntaram para dirigir
galanteios às jovens que atravessavam a ponte ou ainda para exprimirem o
seu entusiasmo, as penas do seu coração, regular querelas de que as
mulheres eram a causa ou para lá examinarem os agravos a elas relativos e
os sararem. Muitos eram os solitários que aí passavam horas e dias a
cantar em voz doce Por Minha Alma, Somente, a fumar ou apenas a
contemplar, mudos, as águas rápidas, pagando tributo à exaltação de que
nós todos somos devedores e da qual poucos escapam. Na kapia se decidiram
muitas disputas entre rivais e muitas intrigas de amor se imaginaram.
Muito se falou de mulheres, de amor; muitas paixões nela nasceram e nela
se extinguiram. Porém, jamais mulher alguma se detivera ou se sentara na
kapia, cristã ou, menos ainda, muçulmana. Agora tudo mudara.

Nos domingos e nos dias de festa viam-se na kapia cozinheiras de faces


rubicundas, muito apertadas no- busto, com rolos de gordura emergindo dos
espartilhos nos quais mal podiam respirar. Acompanhavam-nas os seus
sargentos em uniformes bem escovados, com botões de metal brilhantes e
pompons de atiradores no peito. Nos outros dias, ao crepúsculo, os chefes
e os funcionários dos serviços civis passeavam na kapia com as esposas,
detinham-se nela, cavaqueavam na sua linguagem incompreensível, rindo
ruidosamente e deambulando sem pressas.

Estas mulheres ociosas, desenvoltas e joviais, eram um espectáculo


chocante para todos, embora mais para uns que para outros. O povo pasmava
com tais cenas e muitos foram os que se sentiram vexados; porém não
tardou muito a habituar-se, como se tinha já acostumado a outras
novidades, ainda que sem nunca as aceitar.
Pode dizer-se que, em geral, estas transformações na ponte foram
insignificantes, superficiais e de curta duração. As numerosas e
importantes metamorfoses operadas no espírito e nos hábitos dos
habitantes da cidade e no aspecto exterior desta deram a impressão de
terem passado pela ponte sem a afectarem.

152

Parecia que a ponte branca e antiga que os homens haviam atravessado


durante três séculos permanecia inalterável, sem traço ou marca, mesmo
sob o domínio do novo imperador e que triunfaria desta inundação de
transformações e inovações como já triunfara de maiores inundações,
elevando-se uma vez mais, branca e intocada, da massa furiosa de águas
revoltas que tinham desejado correr sobre ela.

153

XII

A vida na kapia tornara-se mais animada e diversa. Durante todo o dia, e


mesmo a certas horas da noite, essa gente numerosa e variegada — os
nossos e os estrangeiros, os velhos e os novos — se reunia lá. Não se
ralavam senão consigo próprios e só se ocupavam dos pensamentos, dos
prazeres e das paixões que os tinham conduzido até ali. Por isso não
prestavam atenção alguma aos viandantes, que, movidos por outras ideias,
pelas preocupações próprias, atravessaram a ponte de cabeça baixa ou de
olhar ausente, sem lançarem uma olhadela para um lado ou para outro, sem
se aperceberem das pessoas que se sentavam na kapia.

No número desses transeuntes contava-se infalivelmente mestre Milan


Glasicanin, de Okoliste, homem de alta estatura, seco e corcovado, de
face pálida. Todo o seu corpo parecia diáfano e etéreo, preso ao chão
somente por calcanhares de chumbo. Era por isso que oscilava ao caminhar
e se dobrava como uma vela votiva entre as mãos de um menino de coro,
numa procissão. Os seus cabelos e bigode eram prateados como os de um
velho e mantinha sempre os olhos baixos. Desta maneira andava por ali, no
seu passo de sonâmbulo. Não se dava conta de que qualquer coisa mudara na
kapia e no comportamento dos habitantes, e ele mesmo passava quase
despercebido dos que se iam sentar ali, sonhar, cantar, vender, discutir
ou matar o tempo. Os mais velhos haviam-no esquecido, os novos não se
lembravam dele e os estrangeiros ignoravam-no.
O seu destino, contudo, estivera estreitamente ligado com o da kapia, a
avaliar, pelo menos, pelo que se contava na cidade, pelo que se murmurava
a seu respeito dez ou doze anos atrás.

O pai de Milan, o velho Nikola Glasicanin, instalara-se na cidade mais ou


menos na altura em que a revolta fermentava na Sérvia. Adquirira uma bela
propriedade em Okoliste.

154

Sempre se pensara que fugira de qualquer lado com uma riqueza importante
mas mal ganha. Ninguém conseguira prová-lo e, ainda que só em parte
acreditassem nisto, não rejeitavam totalmente a hipótese. Casara duas
vezes, sem que por esta razão lhe nascessem mais filhos. Nascera-lhe
somente este, Milan, e legara-lhe tudo o que possuía. Milan tinha também
um filho único, Pedro. Os seus bens seriam abundantes e deixaria muito
deles se não tivesse uma única e exclusiva paixão, que inteiramente o
dominava — o jogo.

Os naturais de Visegrad não eram por índole jogadores. Como vimos, as


suas paixões eram de um género completamente diferente: amor imoderado
pelas mulheres, um fraco pela bebida, pelas canções, pela indolência e
pela ociosidade sonhadora junto do rio natal. Todavia, a capacidade do
homem tem os seus limites, mesmo nisto. Por isso as paixões entrechocam-
se, repelem-se e, muitas vezes, eliminam-se mutuamente. Isto não quer
dizer que não houvesse na cidade nenhum habitante dado àquele vício, mas
o número de jogadores era realmente menor que em outras cidades e
constituído principalmente por estrangeiros ou recém-chegados. Fosse como
fosse, Milan Glasicanin era um deles. Desde a mais tenra adolescência se
entregara ao jogo de corpo e alma. Quando não encontrava na cidade a
companhia indispensável para jogar, dirigia-se ao distrito mais próximo,
donde voltava recheado de dinheiro, como um comerciante de regresso da
feira, ou de algibeiras vazias, sem relógio, sem corrente mesmo, sem
cigarreira e sem anel, mas sempre pálido e descomposto, como se estivesse
doente.

Além disto, o seu poiso habitual era na pousada de Ustamujic, na


extremidade do bairro comercial de Visegrad. Havia ali uma salinha
estreita, sem janela, onde bruxuleava, mesmo durante o dia, uma candeia,
e onde se achavam invariavelmente três ou quatro homens para os quais o
jogo era mais precioso que tudo neste mundo. Ali encerrados, respirando o
fumo do tabaco e o ar viciado, os olhos raiados de sangue, a garganta
seca e as mãos trementes, passavam muitas vezes o dia e a noite em
sacrifício à sua paixão, como mártires. Nesta pequena sala ocupara Milan
uma boa parte da sua juventude e gastara muito das suas forças e riqueza.
Não tinha mais de 30 anos quando se deu nele a mudança, brusca e
inexplicável para a maior parte das pessoas, que deveria curá-lo para
sempre do absorvente vício, alterando, porém, ao mesmo tempo, a sua vida
e transformando-a por completo.
Em certo Outono, talvez há uns catorze anos, entrou na pousada um
estrangeiro.

155

Não era novo nem velho, nem bonito nem feio, mas sim de meia-idade e de
estatura meã, de poucas falas e sorrindo somente com os olhos — um homem
de negócios inteiramente absorvido pelo que o tinha trazido até ali.
Pernoitou na pousada e, à tardinha, deu com a pequena sala onde, desde o
meio-dia, os jogadores tinham estado metidos. Acolheram-no com
desconfiança, mas procedia de um modo tão discreto e tão calmo que nem
repararam: quando começara a fazer paradas mais que modestas numa carta.
Perdia mais que ganhava; perturbado, franzia os sobrolhos e com mão mal
segura tirava dinheiro das algibeiras interiores. Quando já perdera uma
bonita soma, chegou a sua vez de dar cartas. A princípio distribuía-as
lentamente e com precaução, mas depois com mais vivacidade e
desenvoltura. Jogava não só sem emoção, mas também com audácia e até ao
fim. O monte de moedas crescia diante dele. Os jogadores começaram, um
após outro, a abandonar a partida. Um deles colocou a corrente de ouro
sobre uma carta, mas o estranho recusou com frieza, salientando que se
jogava unicamente a dinheiro.

O jogo terminou à hora das últimas orações, pois ninguém tinha já


dinheiro suficiente consigo. Milan Glasicanin foi o último a ficar em
jogo, mas por fim teve também de se afastar. O estranho despediu-se com
delicadeza e retirou-se para o seu quarto.

No dia seguinte recomeçaram o jogo e novamente o estrangeiro perdeu e


ganhou a seguir, sempre mais do que perdera, de modo que os da cidade
ficaram uma vez mais sem dinheiro. Observaram-lhe as mãos, espreitaram-
lhe as mangas, miraram-no por todos os lados, mudaram de lugar no banco
coberto por um tapete, mas nada resultou. Jogaram ao trinta-e-um, jogo
simples, mas de má fama, que praticavam desde a infância; não puderam,
contudo, ficar a conhecer o jogo do estrangeiro. Por vezes tinha vinte e
nove pontos, ou trinta, outras vezes ficava-se nos vinte e cinco;
replicava a cada aposta, à mais pequena ou à maior, passava sobre as
pequenas irregularidades de alguns jogadores como se as não tivesse
visto, mas denunciava as mais flagrantes, fria e laconicamente.

A presença desse estranho na pousada torturava e irritava Milan


Glasicanin. Sentia-se nesses dias mais febril e derreado. Prometeu a si
mesmo nunca mais jogar, mas insistiu e perdeu tudo até ao último centavo,
voltando para casa cheio de bílis e de vergonha. No quarto ou quinto dia
conseguiu dominar-se e ficou em casa. Meteu dinheiro na algibeira e
vestiu-se, sentindo a cabeça pesada e a respiração ofegante.

156
Jantou à pressa, enquanto o Diabo esfrega um olho e sem saber o que
comia. Depois saiu de casa várias vezes, fumou e passeou, contemplando a
cidade adormecida a seus pés, nessa clara noite de Outono. Andava já há
algum tempo de um lado para o outro quando entreviu de repente uma
silhueta indistinta que caminhava pela estrada e diminuía o passo

diante da cerca.

— Boa noite, vizinho! — exclamou o desconhecido. Reconheceu a voz; era o


estrangeiro da pousada. O homem tinha vindo, evidentemente, vê-lo e
falar-lhe. Milan aproximou-se da cerca.

— Não foste esta tarde à pousada? — perguntou o estranho com calma e


indiferença, como que por acaso.

— Não tenho disposição para lá ir hoje. Os outros estão lá?

— Já lá não está nenhum. Foram-se embora mais cedo que de costume. Mas
podemos lá ir os dois.

— Está bem, já é tarde e não temos outro sítio para onde ir.

— Vamos sentar-nos lá em baixo na kapia. A Lua vai nascer.

— Mas ainda não é altura... — defendeu-se Milan. Mas os seus lábios


cerravam-se e as suas palavras pareciam-lhe estranhas, como se outro as
pronunciasse.

O estranho demorava-se e esperava, como se pensasse que aconteceria o que


tinha dito. Milan, efectivamente, abriu o portão do jardim e acompanhou-
o, apesar da sua resistência e da sua antipatia por esse estrangeiro, e
ainda que por palavras, por pensamentos ou pelos últimos resquícios da
sua vontade tentasse subtrair-se a essa força insidiosa que o apertava e
de que não podia desembaraçar-se.

Desceram com rapidez a vertente de Okoliste. A Lua,, grande mas já a


minguar, nascia realmente atrás de Stanisevac. A ponte parecia ilimitada
e irreal, pois as extremidades perdiam-se numa bruma leitosa e os pilares
mergulhavam ,a base nas trevas. Um dos lados de cada pilar e de cada arco
estava bem iluminado, enquanto o outro lado se escondia numa sombra
total. Estes planos iluminados e sombrios findavam e cortavam-se em
linhas agudas, de tal modo que a ponte parecia toda ela um arabesco
nascido do jogo momentâneo da luz e da sombra.

Na kapia nem vivalma. Sentaram-se. O estrangeiro, puxou pelas cartas.


Milan tentou dizer ainda uma vez que era incómodo, que não se distinguiam
bem as cartas e o dinheiro, mas o estranho não lhe deu ouvidos. O jogo-
começou.

A princípio ainda trocaram algumas palavras, mas logo que o jogo tomou
emoção calaram-se.
157

Unicamente enrolavam os cigarros e os acendiam, uns nos outros. As cartas


mudaram várias vezes de mão até que se fixaram por fim nas do
estrangeiro. O dinheiro caía sem ruído sobre a pedra coberta de fino
orvalho. Chegava o momento, o momento que Milan conhecia tão bem, em que
o estranho, tendo já vinte e nove, tirava dois pontos, ou, tendo trinta,
arrancava um. A garganta cerrava-se-lhe e o olhar nublava-se. A face do
estrangeiro, banhada pelo luar, parecia ainda mais calma que de costume.
Em menos de uma hora Milan ficou sem dinheiro. O estranho propôs-lhe ir a
casa buscar mais — ele acompanhá-lo-ia. Foram, vieram e continuaram.
Milan jogava como um mudo e como um cego — pelo pensamento adivinhava a
carta e por gestos mostrava o que queria. Dava quase a impressão de que
as cartas colocadas no meio dos dois se tinham tornado qualquer coisa de
acessório, uma espécie de motivo nesse duelo desesperado e sem par.
Quando Milan ficou novamente sem dinheiro, o estranho mandou-o buscar
mais a casa e ficou a fumar na kapia. Não julgara necessário acompanhá-
lo, pois não podia imaginar que Milan lhe desobedecesse ou o enganasse e
ficasse em casa. Milan seguiu as suas ordens, partiu sem discutir e
voltou docilmente. Então a sorte mudou bruscamente. Milan ganhou tudo o
que perdera. Sob a emoção, o nó que lhe apertava a garganta fechava-se
mais e mais. O estranho começou por dobrar a parada, e por triplicá-la
depois. O jogo tornava-se cada vez mais rápido, cada vez mais duro. As
cartas zuniam entre eles, tecendo uma trama de moedas de prata e ouro.
Ambos se calavam. Contudo, Milan respirava a custo, ora suando, ora
tremendo de frio, nessa noite calma, sob esse luar. Jogava, distribuía e
escondia as suas cartas, não porque isso lhe desse prazer, mas porque a
isso era forçado. Tinha a impressão de que esse estrangeiro não lhe
sugava somente o dinheiro, ducado a ducado, mas também a medula dos ossos
e o sangue das veias, gota a gota, e que as forças o abandonavam, bem
como a vontade, a cada nova perda. De quando em quando lançava um. olhar
ao adversário. Esperava ver uma cara satânica, de dentes ameaçadores e
olhos em brasa, mas diante dele, pelo contrário, o estranho mantinha
sempre a face habitual, que conservava a expressão concentrada do homem
que desempenha o trabalho de cada dia, que se apressa a terminar a tarefa
empreendida, uma tarefa nem fácil nem agradável.

Uma vez mais Milan perdeu rapidamente todo o dinheiro. O estrangeiro


propôs-lhe então jogarem o gado, as propriedades e a terra.

158

— Quatro belas moedas húngaras, sonantes e não falsas, contra o teu


cavalo baio e a sela. Estás de acordo?

— Sim.
E assim se foi o cavalo baio, seguido depois de dois cavalos de tiro, das
vacas e dos vitelos. Como comerciante consciencioso e calmo, o
estrangeiro sabia o nome de todos os animais do estábulo de Milan e
avaliava cada cabeça exactamente pelo seu valor, como se fosse nado e
criado naquela casa.

— Agora serão onze ducados meus contra o teu campo chamado «Salkusha».
Tenho a tua palavra?

— Sim.

O estrangeiro fez um trejeito. Com cinco cartas, Milan tinha ao todo


vinte e oito pontos.

— Mais uma? — perguntou calmamente o estranho.

— Mais uma ainda — proferiu Milan num murmúrio quase inaudível, com todo
o sangue refluindo ao coração.

O estranho voltou delicadamente a carta. Era um dois, uma boa carta.


Milan, com indiferença, sussurrou entre dentes:

— Chega!

Juntou as cartas convulsivamente e escondeu-as, esforçando-se por dar à


voz e ao semblante uma expressão indefinida, para que o adversário não
adivinhasse quantos pontos tinha.

O estrangeiro começou então a tirar as cartas para si próprio,


abertamente. Quando chegou a vinte e sete parou, mirando calmamente
Milan, olhos nos olhos, mas este baixou as pálpebras. O estrangeiro
voltou mais uma carta. Era um dois. Parecia ir ficar nos vinte e nove.
Pressentindo a alegria da vitória, o sangue começou a subir à cabeça de
Milan, mas o estranho estremeceu, inflou o peito, aprumou a cabeça de
modo que a fronte e os olhos reluziram ao luar e virou mais uma carta.
Era ainda um dois. Parecia impossível que três duques aparecessem um após
outro, e, contudo, era assim mesmo. Virada a carta, Milan entreviu o seu
campo na Primavera, quando, lavrado e gradado, apresentava o seu melhor
aspecto. Os sulcos rodavam em turbilhão à sua volta, como se estivesse em
síncope, mas a voz calma do estrangeiro chamou-o a si.

- Trinta e um! Ganhei!

159

Depois foi a vez dos outros campos, das duas casas, do pequeno bosque de
carvalhos de Osojnica. Nas avaliações estavam invariavelmente de acordo.
De quando em quando Milan ganhava e apanhava ávida e apressadamente
alguns ducados. A esperança brilhava como o ouro, mas depois de duas ou
três mãos infelizes ficou sem dinheiro e apostou novamente os bens.
Quando o jogo, como uma torrente, levou tudo, os dois jogadores pararam
um instante, não para tomar alento, pois quase se poderia dizer que ambos
temiam isso, mas para reflectir sobre o que serviria ainda de aposta. O
estranho conservava o sangue-frio e tinha o ar do trabalhador preocupado
que repousa após ter realizado a primeira parte da sua tarefa mas que
está impaciente por meter mãos à segunda. Milan ficara enregelado e
completamente aturdido: o sangue batia-lhe nas têmporas e tinha a
impressão de que o banco de pedra em que se sentava subia e descia. Nesse
momento o estranho tomou a palavra e disse na sua voz monocórdica,
aborrecida, ligeiramente nasalada:

— Sabes o que vamos fazer, meu amigo? Vamos à última, mas desta vez
jogaremos tudo por tudo. Dar-te-ei tudo o que ganhei esta noite, e tu a
vida. Se ganhares, será tudo para ti como antigamente — dinheiro, gados e
terra. Se perderes, deitar-te-ás da kapia ao Drina.

Proferiu tudo isto como o resto, secamente e em tom de homem de negócios,


como se se tratasse do acordo mais banal entre dois jogadores absortos no
jogo. Milan pensou que chegara o momento de perder ou salvar a alma e
tentou levantar-se, arrancar-se ao torvelinho incompreensível que lhe
tirara tudo e que agora o arrastava nos seus redemoinhos irresistíveis,
mas, com um único olhar, o homem reteve-o no seu lugar. Como se
estivessem na pousada e numa aposta de três ou quatro grosh, baixou a
cabeça e estendeu a mão.

Escolheram uma carta cada um. O estranho tinha um quatro e Milan um dez.
Era este a dar cartas. Isto encheu-o de esperança.

— Mais uma, ainda mais uma!

Ficou com cinco cartas e disse simplesmente:

— Já chega!

Milan começou, por sua vez, a tirá-las para si mesmo. Chegado a vinte e
oito, parou um instante, contemplou as cartas agrupadas do estrangeiro e
a sua face enigmática. Não se podia adivinhar quantos pontos tinha, mas
era muito provável que mais de vinte e oito, primeiro porque esta noite
não se ficara em totais de menos valor, depois porque tinha cinco cartas.

160

Apelando para as derradeiras forças, Milan voltou ainda uma carta. Era um
quatro. Somava assim trinta e dois, isto é, perdera.

Olhava a carta sem poder acreditar nos seus olhos. Parecia-lhe impossível
ter perdido tudo de uma só vez. Qualquer coisa de ardente e ruidoso lhe
percorreu o corpo, da cabeça aos pés. De repente tudo se mostrou claro: o
preço da vida, o valor do homem e o que era a maldita e inexplicável
paixão que o possuía de jogar com os amigos e com os estranhos, sozinho
ou mesmo com alguém à sua volta. Tudo era luminoso e claro como ao romper
do dia e como se sonhasse que jogava e perdia, mas tudo era, ao mesmo
tempo, real, irrevogável e irreparável.

Quis dizer qualquer coisa, gemer, gritar por socorro, nem que fosse só
com um suspiro, mas nem mesmo para isto teve forças.

Junto dele o estranho esperava.

De súbito, algures na margem, um galo cantou, alto e bom som, uma vez. E
logo a seguir outra. Estava tão perto que se ouvia como que o bater das
asas. No mesmo instante as cartas dispersas voaram como que arrastadas
por uma tempestade, o dinheiro espalhou-se e a kapia inteira foi abalada
nas suas fundações. Assombrado, Milan fechou os olhos, julgando que
chegara a sua última hora. Quando reabriu as pálpebras, verificou que
estava só. O seu adversário volatilizara-se como uma bola de sabão, e com
ele as cartas e o dinheiro que se achavam sobre a pedra.

A lua minguante, cor de laranja, flutuava no fundo do horizonte.


Levantara-se uma brisa fresca. O tumulto das águas, lá em baixo,
acentuava-se. Milan palpou com cautela a pedra onde estava sentado,
tentando recompor-se, saber onde estava e o que sucedera, e levantou-se
depois a custo, dirigindo-se para sua casa, em Okoliste, como que
transportado por pernas estranhas.

Gemendo e titubeando, mal chegou junto de casa tombou como morto,


chocando pesadamente contra a porta. Despertados, os seus levaram-no para
a cama. Durante dois meses delirou com febre. Julgava-se que não se
recomporia. O pope Nikola veio administrar-lhe a extrema-unção. Todavia
restabeleceu-se e pôs-se a pé, mas não era já o mesmo homem, mas sim um
velho prematuro e singular, que vivia à margem, falava pouco e limitava
ao mínimo as relações com os outros. Na sua face, que ignorava o que
fosse sorrir, transparecia constantemente uma atenção dolorosa, levada ao
extremo. Ocupava-se unicamente da casa e do seu trabalho como se jamais
tivesse conhecido a companhia dos amigos.

161

Durante a doença, tinha contado ao pope Nikola tudo o que lhe sucedera
nessa noite na kapia e, mais tarde, confiou ainda os factos a dois dos
seus melhores amigos, pois sentia que lhe seria impossível viver com esse
segredo na alma. O povo soube qualquer coisa disto, mas, como o que se
passara era, na realidade, pouco esclarecedor, juntou-lhe pormenores e
compôs uma história, e depois, como é hábito, concentrou a atenção sobre
a sorte de outro e acabou por esquecer Milan e a sua aventura. Assim, o
homem que não era mais que a sombra do Milan Glasicanin de outrora vivia,
trabalhava e passeava entre os habitantes da cidade. A geração nova não o
conhecia senão como era actualmente e não pensava que houvesse sido
diferente. Ele próprio procedia como se tivesse esquecido tudo, e quando,
saindo de casa para descer à cidade, atravessava a ponte no seu passo
lento e pesado de sonâmbulo, passava junto à kapia sem a menor emoção,
mesmo sem recordações. Não lhe vinha à memória que esse sofa guarnecido
de bancos de pedra branca ocupados por gente despreocupada pudesse ter
qualquer relação com esse lugar terrível, lá para os confins do mundo, em
que numa noite jogara a última partida, apostando nessa carta traiçoeira
tudo o que possuía — a própria pessoa e a própria vida neste mundo e no
outro.

Milan perguntava-se muitas vezes se toda a aventura dessa noite na kapia


não era senão um pesadelo que sonhara quando perdera os sentidos diante
da porta de casa, mais a consequência que propriamente a causa da sua
doença. A bem dizer, o pope Nikola, assim como os dois amigos a quem o
contara, inclinavam-se mais a considerar todo o relato de Milan como uma
fantasia, uma alucinação provocada pela febre, porque, realmente, nenhum
deles acreditava que o Diabo jogasse ao trinta-e-um e que atraísse à
kapia aqueles que queria perder. Todavia as nossas aventuras são muitas
vezes tão confusas, tão penosas, que não é de admirar que o povo veja
nelas a intervenção do próprio Satã, tentando deste modo explicá-las ou,
pelo menos, torná-las mais toleráveis.

Neste caso, fosse como fosse, com Diabo ou sem Diabo, sonho ou realidade,
o certo é que Milan Glasicanin, depois de ter, numa noite, perdido a
saúde, a juventude e um monte de dinheiro, se achara, como por milagre,
livre para sempre do seu vício. Mas não era tudo. A história de Milan
Glasicanin juntava-se, em estreita ligação, o caso de um outro destino, e
o fio condutor tomava a kapia como ponto de partida.

O dia seguinte à noite em que Milan (em sonhos ou realmente) jogara a


última e horrorosa partida na kapia foi um soalhento dia de Outono.

162

Era um sábado. Como em todos eles, os judeus de Visegrad reuniram-se na


kapia, os comerciantes com os filhos. Ociosos e solenes nas suas calças
de seda e coletes de lã, cobertos com o fez chato, vermelho-escuro,
celebravam meticulosamente o dia do Senhor, passeando ao longo do rio
como se procurasse alguém, mas na maior parte do tempo sentavam-se na
kapia e sustentavam barulhentas e animadas conversas em espanhol, só
falando sérvio para rogarem pragas.

Bukus Gaon, o filho mais velho do devoto barbeiro Abraham Gaon, pobre e
honesto, foi um dos primeiros a chegar à kapia nessa manhã. Com 16 anos,
não tinha ainda trabalho certo nem profissão definida. O jovem, ao
contrário dos Gaon, era ligeiramente tresloucado, o que o impedira de se
tornar sensato e de se ocupar num trabalho estável, buscando sempre por
toda a parte qualquer coisa mais vantajosa e mais atraente para si.
Quando quis sentar-se, certificou-se de que a pedra estava limpa. Foi
então que notou, na fenda entre duas lajes, um fino traço amarelo que
brilhava. Tinha o resplandecer do ouro, tão caro aos olhos dos homens.
Olhou melhor. Não podia haver dúvida, um ducado caíra para ali. O jovem
deitou um olhar em volta para ver se alguém o observava e para procurar
qualquer coisa que servisse para tirar o ducado que lhe sorria na fenda.
Logo a seguir, porém, veio-lhe à ideia que era sábado e portanto uma
vergonha e um pecado executar qualquer tarefa. Emocionado e hesitante,
sentou-se, e até ao meio-dia ficou ali. Quando chegou a hora do almoço e
todos os judeus, novos e velhos, se dirigiram para casa, avistou um
pedaço de palha de cevada mais grosso que os outros e, esquecendo pecado
e sábado, retirou com precaução o ducado de entre as pedras. Era uma bela
moeda húngara, fina, não pesando mais que uma folha seca. Chegou atrasado
para o almoço. Quando se sentou à pobre mesa baixa, à volta da qual treze
faziam círculo (onze filhos, pai e mãe), não prestou atenção aos ralhos
do pai, que o acusava de preguiçoso e que o repreendia por nem mesmo
chegar a horas do almoço. As orelhas zuniam-lhe e os olhos estavam
nublados. O sonho que há muito possuía de uma vida de luxo inaudito
realizava-se. Parecia-lhe transportar o Sol na algibeira.

No dia seguinte, sem mais reflexões, Bukus dirigiu-se para a pousada de


Ustamujic com o ducado e penetrou nessa salinha onde se jogava às cartas
em quase todas as horas do dia e da noite. Tinha sonhado isto muitas
vezes, mas nunca possuíra dinheiro suficiente para ousar entrar ali e
tentar a sua sorte.

163

Podia agora realizar esse sonho.

Passou lá algumas horas cheias de angústia e emoção. De começo acolheram-


no com desdém e desconfiança. Quando o viram trocar a moeda húngara,
pensaram logo que a roubara a alguém, mas consentiram em aceitar a sua
aposta. (Porque se os jogadores procurassem saber qual a origem do
dinheiro de cada um deles nunca se poderia jogar.) Para o principiante
iniciaram-se então novas provações. Quando ganhava, o sangue subia-lhe à
cabeça e o olhar velava-se-lhe sob o efeito do calor e da transpiração.
Quando sofria uma perda mais forte parecia-lhe que a respiração parava e
que o coração desfalecia. Após estes tormentos, que se lhe afiguravam
todos sem solução, saiu contudo nessa noite da pousada com quatro ducados
na algibeira e ainda que, sob o choque da emoção, estivesse derreado e
febril como se o tivessem espancado com varas a arder, caminhava direito
e altivo. Aos seus olhos esbraseados abriam-se perspectivas longínquas e
brilhantes, que lançavam um relâmpago ofuscante sobre a pobreza do seu
lar e que abalavam: a cidade nas suas fundações. Inebriado, caminhava,
por isso, em passo solene. Pela primeira vez na vida apreciava não só o
brilho e o tinido do ouro, mas também o seu peso.

Nesse mesmo Outono, Bukus, ainda que jovem e sem experiência, tornou-se
vagabundo e jogador profissional e deixou a casa paterna. O velho Gaon
consumia-se de vergonha e de dó pelo filho mais velho e toda a comunidade
judaica sentia essa dor como se fosse sua. Mais tarde abandonou a cidade
para ir pelo mundo fora cumprir o seu triste destino de jogador. Por fim,
há cerca de catorze anos, nunca mais se ouviu falar dele. A causa de tudo
isto, dizia-se, fora esse «ducado diabólico» que achara na kapia e que
tinha retirado da fenda no dia do sabbat.

164

XIII

Estava-se no quarto ano da ocupação. Parecia que tudo se tinha, de certo


modo, acalmado e corria bem. E, embora a doce paz dos velhos tempos dos
Turcos se não tivesse restabelecido, pelo menos tinha-se instaurado a
ordem de acordo com as novas ideias. Foi então que outras perturbações
surgiram no país, o que motivou a chegada inesperada de mais tropas e,
uma vez mais, a instalação de uma guarda na kapia. Foi assim que as
coisas se passaram.

As novas autoridades começaram nesse ano a fazer o recrutamento de


mancebos na Bósnia e Herzegovina, o que provocou uma enorme agitação
entre o povo, especialmente entre os turcos. Já cinquenta anos antes,
quando o sultão tinha criado o nizam, fardado, exercitado e equipado à
moda europeia, eles se tinham revoltado e desencadeado uma série de
pequenas mas sangrentas guerras, por não quererem; de maneira alguma,
envergar aqueles uniformes dos infiéis nem correias que se cruzavam no
peito e lhes traziam à memória o tão odiado símbolo da cruz. Mas agora,
ainda por cima, era ao serviço de um governador estrangeiro, com outro
credo, que tinham de enfiar novamente essa mesma e tão odiosa fardeta em
que tão apertados e constrangidos se sentiam.

Nos primeiros anos que se sucederam à ocupação, quando as autoridades


começaram a pôr números nas casas e a fazer o censo da população, essas
medidas já tinham dado azo a desconfianças entre os turcos e excitado
receios que, embora mal definidos, eram profundamente sentidos.

Como sempre acontece em tais casos, os mais instruídos e respeitados dos


turcos de Visegrad reuniram-se clandestinamente para discutir o
significado dessas medidas e a atitude que deveriam adoptar em relação a
elas.

165

Numa bela manhã de Maio, juntaram-se todos na kapia com o ar mais


indiferente deste mundo e ocuparam todos os lugares do sofa. Bebendo
pacatamente o seu café e olhando em frente, como quem não liga
importância ao que se passa à volta, lá foram, como quem não quer a
coisa, falando, numa voz quase segredada, das novas e suspeitosas medidas
tomadas pelas autoridades. Todos eles se sentiam constrangidos com as
novas ideias, não só por elas serem, por natureza, contrárias às suas
ideias e hábitos, mas ainda porque cada um deles considerava essa
interferência das autoridades nos seus assuntos pessoais e na sua vida
familiar como uma desnecessária e incompreensível humilhação. Mas nenhum
deles sabia como interpretar o sentido real daquela medida de numerar as
casas nem era capaz de apresentar qualquer sugestão sobre a melhor
maneira de lhe resistir. Entre eles encontrava-se Alihodja, que
normalmente era raro aparecer na kapia porque a orelha direita sempre lhe
latejava dolorosamente quando lhe acontecia olhar para aquela escadaria
de pedra que conduzia ao soja.

O mestre-escola de Visegrad, Husseinaga, homem bastante instruído e


loquaz, na qualidade de pessoa entre todas mais competente para o fazer,
interpretava assim o significado de uma tal numeração de casas e contagem
de homens e crianças:

— Parece que se trata de um costume que os infiéis sempre têm tido; já há


uns trinta anos, ou mais, houve um vizir em Travnik, um tal Tahir Paxá, o
qual não passava de um falso convertido que, no íntimo, se conservava o
cristão que um dia fora. Dizem que tinha sempre uma sineta junto de si e
que quando queria chamar algum dos criados tocava a tal sineta, como faz
um padre cristão, até que alguém acorresse. Pois foi este Tahir Paxá que
começou a numerar as casas em Travnik e que em cada casa mandou pregar
uma tabuleta com o respectivo número (por isso era conhecido pela alcunha
de O Pregador). Mas o povo insurgiu-se, arrancou todas as tabuletas das
casas, fez delas uma pilha e deitou-lhes fogo. A coisa ia fazendo correr
sangue, mas, graças a um relatório que felizmente chegou a Istambul o
nosso homem foi, entretanto, afastado da Bósnia. Oxalá tivesse
desaparecido sem deixar rastro! Mas estou a ver que isto agora é algo do
mesmo género. Os Boches querem ter registos de tudo, até das nossas
cabeças.

Sem deixar de olhar em frente, todos escutavam o que dizia o mestre-


escola, que, como bem sabiam, preferia contar longas e pormenorizadas
histórias do passado a dar simples e claramente a sua opinião acerca do
que se estava a passar no presente.

166

Como sempre, Alihodja foi o primeiro a perder a paciência. — Isto nada


tem que ver com a fé dos Boches, caramba!, mas sim com os seus
interesses. Eles não estão a brincar nem, perdem tempo, mesmo quando
estão a dormir, para poderem zelar bem os seus assuntos. Nós hoje não
conseguimos perceber bem o que tudo isto significa; mas havemos de
percebê-lo dentro de um mês ou dois, ou talvez um ano. Porque, como
costumava dizer o falecido e saudoso Shemsibeg Brankovic, «as bombas dos
Boches têm rastilhos compridos»! Ou me engano muito, ou esta numeração
das casas e dos homens é-lhes precisa para qualquer imposto novo, se é
que não estão a pensar em arrebanhar homens para o trabalho forçado ou
para o exército deles, ou talvez uma coisa e outra. Se vocês me perguntam
o que devemos fazer, a minha opinião é esta. Não podemos contar com um
levantamento imediato do exército. É uma coisa que Alá bem vê e todos os
homens sabem. Mas daí não se conclui que tenhamos de obedecer a tudo o
que nos mandam fazer. Ninguém tem necessidade de se lembrar do número da
sua porta ou de dizer a sua idade. Deixem-nos lá deitar-se a adivinhar
quando é que cada um de nós nasceu. E se eles forem longe de mais, a
ponto de interferirem com os nossos filhos e a nossa honra, nesse caso
não cederemos, defender-nos-emos com unhas e dentes, e seja o que Alá
quiser!

Continuaram durante muito tempo a discutir as intragáveis medidas das


autoridades mas, quanto ao fundamental, todos concordaram com o que
Alihodja recomendara: resistência passiva. Os homens ocultaram as idades
ou deram informações falsas, desculpando-se com o facto de serem
analfabetos. No tocante às mulheres, nem sequer ninguém se lembrou nunca
de inquirir a respeito delas, porque isso seria considerado como um
insulto mortal. A despeito de todas as instruções e ameaças das
autoridades, as tabuletas com os números das casas foram pregadas ao
contrário ou escondidas em sítios onde se tornavam quase invisíveis.
Muitos resolveram caiar logo a seguir as suas casas e então aconteceu
que, como por acaso, o número foi caiado também.

Ao verem que a resistência era firme e enérgica, ainda que dissimulada,


as autoridades fingiram que não davam por nada e evitaram a aplicação
rígida das leis, com todas as consequências e disputas que
inevitavelmente daí adviriam.

Assim se passaram dois anos. Já a agitação em torno do recenseamento


estava esquecida quando o recrutamento de mancebos, feito sem distinção
de credos e de classes, foi decretado.

167

Estalou imediatamente uma revolta na Herzegovina Oriental, em que


participaram não apenas turcos, mas também sérvios. Os chefes dos
rebeldes procuraram estabelecer ligações com países estrangeiros,
especialmente com a Turquia, e alegaram que as autoridades de ocupação
tinham excedido os poderes que lhes foram concedidos no Congresso de
Berlim e que não lhes assistia o direito de recrutar mancebos nos
distritos ocupados que nominalmente ainda permaneciam sob a suserania
turca. Na Bósnia não houve resistência organizada, mas a revolta,
alastrando pelas regiões de Foca e Gorazda, chegou até aos limites do
distrito de Visegrad. Insurrectos isolados ou restos de bandos
destroçados atravessaram a ponte em Visegrad, para tentarem procurar
refúgio em Sanjak ou na Sérvia. Como sempre acontece em tais ocasiões,
além da rebelião, começou também a alastrar o banditismo.

E assim uma vez mais, após tantos anos, uma guarda voltou a ser instalada
na kapia. Apesar de ser Inverno e de cair uma neve cerradíssima, havia
duas sentinelas em permanente alerta na kapia, de dia e de noite, que
mandavam parar todas as pessoas desconhecidas ou suspeitas que
atravessavam: a ponte, interrogando-as e inspeccionando tudo o que
traziam.

Quinze dias depois um destacamento de streifkorps apareceu na cidade para


render os guardas da kapia. O streifkorps tinha sido organizado quando a
rebelião na Herzegovina começara a assumir proporções sérias. Eram tropas
de choque, com grande mobilidade, seleccionadas, com homens equipados
para actuar em terrenos difíceis e constituídas por voluntários bem:
pagos. Entre eles havia homens que tinham respondido à primeira chamada
das tropas de ocupação e não queriam voltar para casa, preferindo ficar
para servir no streifkorps. Outros havia que tinham transitado das forças
de polícia para as novas unidades móveis. Finalmente, existia ainda um
certo número de habitantes locais que serviam como informadores e guias.

Durante todo aquele Inverno, que não foi curto nem benigno, manteve-se
sempre uma guarda, constituída por dois streifkorps, de vigia à ponte.
Consistia geralmente essa guarda num estranho e num homem da terra. Não
construíram um fortim como tinham feito os Turcos durante a insurreição
de Karageorge na Sérvia. Não houve mortes nem cabeças cortadas. Mas nem
por isso deixou de haver desta vez, como sempre que a kapia estava
encerrada, acontecimentos invulgares que deixaram rastro na cidade.
Porque os tempos difíceis nunca passam sem qualquer infortúnio para
alguém.

168

Entre os homens pertencentes ao streifkorps que estavam de sentinela à


kapia havia um jovem ruténio da Galícia Oriental, de nome Gregor Fedun.
Era este jovem, que andava pelos 23 anos de idade, de gigantesca
estatura, mas de mentalidade infantil, forte como um touro, mas tímido
como uma donzela. Já estava quase a completar o seu serviço militar
quando o regimento a que pertencia foi enviado para a Bósnia. Tomara
parte em combates em Maglaj e nos montes Glasinac e passara então dezoito
meses em serviço de guarnição na Bósnia Oriental. Cumprido o seu tempo de
serviço, não quisera voltar para a sua cidade natal de Kolomea, na
Galícia, e, consequentemente, para casa do pai, cuja riqueza, por assim
dizer, quase só era constituída pelo abundante numero de filhos.
Encontrava-se em Pest, com a sua unidade, quando surgiu o apelo para o
alistamento de voluntários no streifkorps. Tratando-se de um soldado que
conhecia a Bósnia através de vários meses de luta, foi imediatamente
admitido. Ficou sinceramente contente ao pensar que ia tornar a ver
terras e lugarejos da Bósnia, onde passara dias ora difíceis ora
agradáveis, podendo dizer-se que na sua memória os dias duros permaneciam
mais vivos e envoltos em maior beleza ainda que os dias de prazer. Todo
ele se desvanecia e se enchia de orgulho ao imaginar a cara que fariam os
seus pais, irmãos e irmãs quando recebessem os primeiros florins de prata
que ele havia de lhes mandar, porque isso lho permitiria o belo soldo que
iria receber no streifkorps. Acima de tudo, tivera ainda a sorte de não
ser mandado para a Herzegovina Oriental, onde as lutas com os insurrectos
eram fatigantes, e não raro perigosíssimas, mas sim para esta cidadezinha
à beira do Drina, onde os seus deveres se reduziam a serviços de patrulha
e sentinela.

Ali passou ele o Inverno, batendo com os pés e soprando nos dedos durante
as longas noites geladas e muito claras na kapia, quando as pedras
estalavam com o gelo e o céu empalidecia por cima da cidade de maneira a
reduzir o brilho das grandes estrelas outonais ao de minúsculas e
mortiças candeiazinhas. Ali aguardou ele a chegada da Primavera e
espreitou o aparecimento dos seus primeiros sinais na kapia: o lento e
pesado movimento dos blocos de gelo que começavam a deslocar-se no Drina,
coisa que um homem sente no mais fundo das suas entranhas, e o murmúrio
taciturno de um certo vento novo que soprou toda a noite através das
florestas nuas das montanhas que se comprimem na parte de cima da ponte.

O mancebo fazia o seu turno de sentinela e sentia que a Primavera, com


todos os seus sinais na terra e nas águas, ia lentamente penetrando nele,
invadindo todo o seu ser e perturbando-lhe os sentidos e os pensamentos.

169

Ao mesmo tempo que vigiava, ia cantarolando todas as canções ruténias que


se cantavam na sua terra. E enquanto cantava, mais e mais, à medida que
cada aurora se avizinhava, tinha a impressão de que estava esperando por
alguém naquele sítio desabrigado e ventoso.

No princípio de Março veio uma ordem do quartel-general para que o


destacamento de guarda à ponte redobrasse de precauções, uma vez que,
segundo informações fidedignas, o conhecido bandido Jakov Cekrlija tinha
cruzado os territórios da Herzegovina em direcção à Bósnia e devia estar
agora escondido algures perto de Visegrad, donde, conforme todas as
previsões, iria procurar atingir a fronteira sérvia ou, então, a turca.
Aos homens do streifkorps que compunham a guarda foi feita uma descrição
física do bandido, com a indicação de que ele, embora pequeno de estatura
e aparentemente insignificante, era, na realidade, fortíssimo, valente e
de uma astúcia excepcional, tendo já várias vezes conseguido escapar às
patrulhas que o haviam cercado.

Fedun ouvira esta advertência quando fora apresentar o seu relatório de


guarda e tomara-a inteiramente a sério, como fazia com todas as
comunicações oficiais. Mas achara-a desnecessariamente exagerada porque
não podia imaginar como é que fosse possível que alguém atravessasse sem
ser surpreendido aquele bocado da ponte, cujo comprimento não ia além de
dez passos. Calmo e sem se preocupar, passou várias horas, de dia e de
noite, na kapia. Mesmo assim, redobrou de atenção, mas esta, em vez de
ser solicitada pelo aparecimento de Jakov, de quem não havia novas nem
mandados, foi-o sobretudo por aqueles inúmeros sinais e prenúncios com
que a Primavera anunciava a sua chegada.

Não é fácil concentrar uma pessoa toda a sua atenção num único objecto
quando se tem 23 anos de idade, quando o corpo está transbordante de
força e de vida e quando em torno; por toda a parte, a Primavera rebenta,
brilha e enche o ar de perfumes, A neve derretia-se nas ravinas, o rio
corria veloz e pardacento como um espelho enegrecido pelo fumo e o vento
que soprava do nordeste trazia o bafo da neve das montanhas e os
primeiros botões de flor para os vales. Tudo isto inebriava e distraía
Fedun enquanto ia percorrendo o espaço que vai de um terraço para o outro
ou, durante os quartos da noite, se encostava ao parapeito e cantarolava
as suas canções ruténias com o acompanhamento do vento. Quer de dia, quer
de noite, a sensação de que estava esperando por alguém nunca o
abandonava, uma sensação a um tempo tormentosa e doce, que parecia ter
confirmação em tudo o que se estava a passar à sua volta, nas águas, na
terra e no céu.

170

Um dia, à hora do almoço, uma rapariguinha turca passou diante da


sentinela. Tinha aquela idade em que as raparigas turcas, embora ainda
não usem o pesado jeridjah, já não podem apresentar-se de cara destapada,
pelo que se enrolam num chale largo e fino que envolve todo o corpo, o
cabelo e as mãos, o queixo e a testa, mas deixa ainda descoberta uma
parte do rosto: olhos, nariz, boca e faces. Encontrava-se precisamente
naquela tão curta fase intermédia entre a criança e a mulher, em que as
raparigas muçulmanas mostram inocente e despreocupadamente as suas
feições ainda infantis, mas já um tanto senhoris, que mais tarde, e
talvez até no dia seguinte, hão-de vir a ser cobertas para sempre pelo
jeridjah.

Não havia vivalma na kapia. O companheiro de guarda de Fedun era um tal


Stevan, de Praca, um dos camponeses agregados ao streifkorps. Era um
homem de certa idade, bastante amigo da sua bagaceira, que ficava a
curtir as pielas, contra o que estabeleciam os regulamentos, sentado num
banco de pedra do soja.

Fedun observou a rapariga tímida e cautelosamente. O chalé de cores


berrantes esvoaçava-lhe em volta, ondeando e tremulando ao sol, como se
estivesse vivo, movendo-se ao ritmo das rajadas do vento e do andar da
rapariga. A sua encantadora e calma face surgia justa e firmemente
emoldurada pelo tecido esticado do chale. Baixara os olhos, mas de
maneira vacilante. E assim passara diante dele, para depois desaparecer
para além da ponte em direcção ao mercado.

O rapaz começou a girar mais rapidamente de um terraço para o outro, sem


tirar os olhos do largo do mercado. Parecia-lhe agora que tinha realmente
alguém por quem esperar. Meia hora depois — ainda a calma do meio-dia se
não tinha quebrado na ponte — a rapariguita turca voltou do mercado e
tornou a passar diante do perturbado mancebo. Desta vez ele olhou para
ela com um pouco mais de insistência e ousadia, e, o que ainda foi mais
maravilhoso, também ela olhou para ele, num rápido mas cândido relance de
olhos, acompanhado de uma espécie de meio sorriso, um tanto ou quanto
ladino, parecido com o das crianças que levam a palma às outras nos seus
jogos infantis. E depois voltou a sumir-se, andando devagar, mas nem por
isso se desvanecendo menos rapidamente da sua vista, no meio de uma
infinidade de movimentos do ondeante e largo chalé que lhe envolvia a
jovem mas robusta figura. O desenho oriental e as cores vivas daquele
chale podiam ainda ser vistos durante muito tempo por entre as casas da
outra margem do rio.

171

Só então o jovem acordou daquela espécie de sonho. Permanecia no mesmo


lugar e na mesma posição em que estava no momento em que ela passara
diante dele. Num impulso, afagou a espingarda e olhou em volta com ar de
quem deixou escapar a sua oportunidade. Stevan continuava meio
adormecido, sob um enganoso sol de Março. O jovem tinha a sensação de que
qualquer deles tinha de certo modo traído o seu dever e de que poderia,
ter-lhes passado pela frente um pelotão inteiro que ele não seria capaz
de dizer quantos homens eram nem que importância isso poderia ter tido
para ele ou para outrem. Envergonhado consigo próprio, acordou Stevan com
zelo exagerado e ambos permaneceram vigilantes até que vieram rendê-los.

Durante todo aquele dia, quer nas horas de serviço, quer nas de folga, a
imagem da rapariguita turca, como uma visão, passou-lhe vezes sem conto
pela ideia. No dia seguinte, uma vez mais, por volta do meio-dia, quando
havia muito poucas pessoas na ponte, voltou ela a aparecer. E Fedun viu
de novo aquele rosto emoldurado pelo chale garrido. Tudo se passou como
no dia anterior. Apenas os olhares que trocaram foram mais demorados,
mais vivos e mais atrevidos. Dir-se-ia que ambos estavam a participar num
mesmo jogo. Stevan estava uma vez mais a dormitar no banco de pedra, e
mais tarde, como sempre, jurava a pés juntos que não tinha dormido e que
nem mesmo em casa, na sua própria cama, era capaz de pregar olho. No
regresso, a rapariga pareceu na disposição de parar e olhou o moço bem
nos olhos, enquanto ele balbuciava umas quantas palavras vagas e semi
importância, sentindo, ao fazê-lo, que as pernas se lhe iam abaixo com a
emoção e esquecendo completamente o sítio em que se encontrava.

Só em sonhos uma pessoa se atreve tanto. Quando a moça se perdeu de vista


uma vez mais, do outro lado do rio, o jovem sentiu um calafrio de susto.
Era incrível que uma rapariga turca pensasse sequer em olhar para um
soldado austríaco. Uma tal coisa nunca ouvida e sem precedentes, só podia
acontecer em sonhos, em sonhos... ou, então, na kajria, em plena
Primavera. Bem sabia que, neste país e na posição dele, nada era tão
escandaloso nem tão perigoso como tocar numa mulher muçulmana. Já lho
tinham dito quando estava no exército e voltaram a dizer-lho no próprio
strerfkorps. A punição para um tal atrevimento era bastante severa.
Alguns houvera que o tinham pago com a própria vida, às mãos dos turcos
insultados e enfurecidos.

172

Tudo isso ele sabia, e muito sinceramente desejava cumprir as ordens e os


regulamentos, mas nem por isso deixou de agir em contradição com o que
eles estabeleciam. O infortúnio dos homens infelizes reside precisamente
no facto de aquelas coisas que para eles são impossíveis ou lhes são
vedadas se tornarem num momento fáceis e acessíveis, ou pelo menos
parecerem-no. O pior é que, uma vez bem firmadas nos seus desejos, elas
lhes aparecem, de novo como eram, inatingíveis e proibidas, com todas as
consequências que daí advêm para aqueles que, a despeito de tudo,
insistem em procurar obtê-las.

Também no terceiro dia, cerca do meio-dia, a rapariga apareceu. E, como


em sonhos, tudo aconteceu como ele desejaria, como uma única realidade à
qual tudo o mais se subordinava. Uma vez mais, Stevan estava a passar
pelas brasas, convencido e sempre pronto a convencer os outros de que não
tinha dormido; e não havia vivalma em redor da kapia. O mancebo voltou a
falar, balbuciando meia dúzia de palavras, e a rapariga afrouxou o passo
e respondeu, também de modo tímido e vago.

O perigoso e inacreditável jogo prosseguiu. No quarto dia, a rapariga, ao


passar, escolhendo um momento em que não havia ninguém na kapia,
perguntou-lhe muito baixinho quando é que ele voltava a estar de guarda.
Ele disse-lhe que voltaria a fazer o seu turno ao anoitecer.

— Nessa altura eu vou acompanhar a minha velha avó ao mercado, onde ela
vai ficar de noite, e voltarei sozinha — murmurou a rapariga, sem parar
nem voltar a cabeça, mas dirigindo-lhe uma provocante e eloquente
olhadela. E em cada uma daquelas vulgaríssimas palavras que lhe dirigiu
pairava a secreta alegria da perspectiva de voltar a vê-lo muito em
breve.

Seis horas depois Fedun estava de novo na kapia com o dorminhoco do seu
camarada. Depois da chuva veio um anoitecer fresco, que lhe pareceu cheio
de promessas. Os transeuntes tornaram-se cada vez mais raros. Então a
jovem turca desembocou da estrada de Osojnica, embrulhada no seu chale
com as cores ofuscadas pela escuridão. A seu lado caminhava uma mulher
turca, velha e curvada, envolvida num espesso feridjah negro. Andava
quase de gatas, amparando-se a um bordão com a mão direita e apoiando-se
na rapariga com a esquerda.

Passaram junto de Fedun. A rapariga seguia devagar, ajustando os passos


ao lento caminhar da velha carcaça que ia conduzindo. Os seus olhos, que
as sombras do princípio da noite parecia tornarem maiores, procuravam
agora afoita e abertamente os do rapaz como se não pudessem desviar-se
dele.

173

Quando desapareceram em direcção à praça do mercado um calafrio percorreu


o jovem, que começou a andar com passos mais rápidos de um terraço para
outro, como quem quer compensar o tempo perdido. Com uma excitação
temperada pelo medo, esperou o regresso da rapariga. Stevan passava, como
sempre, pelas brasas.

— Que irá ela dizer-me quando passar outra vez? — pensava o moço. — E que
hei-de eu dizer-lhe? Acaso irá sugerir que nos encontremos algures, de
noite, num local retirado e tranquilo? Estremeceu de prazer, e nessa
ideia participava a própria excitação do perigo a que se sujeitaria.

Assim na expectativa, se escoou uma hora inteirinha e mais metade de


outra. E a rapariga sem voltar. Mas mesmo nessa espera havia prazer. A
sua ansiedade avolumou-se com o adensar das trevas. Por fim, em vez da
rapariga, chegou o momento de ser rendido. Mas desta vez não só vieram os
dois homens do costume para ficar de guarda, mas também o próprio
sargento Drazenovic em pessoa. Homem rigoroso, com umas barbas pretas e
curtas, deu ordem a Fedun e a Stevan, numa voz aguda e estridente, para
se dirigirem ao dormitório logo que chegassem ao aquartelamento e para
não saírem de lá até nova ordem. As faces de Fedun ruborizaram-se à ideia
de que ele era, de certo modo, digno de censura.

O vasto e frio, dormitório, com doze camas regularmente espaçadas entre


si, estava vazio. Os homens estavam todos no rancho ou na cidade. Fedun e
Stevan aguardaram, perturbados e impacientes, pensando as coisas mais
variadas e fazendo vãs conjecturas sobre os motivos que tinham levado o
sargento a ser tão áspero e a detê-los no aquartelamento de maneira tão
inesperada. Passada uma hora, quando o primeiro soldado chegou para se
deitar, um cabo entrou por ali dentro e ordenou-lhes em voz alta e de
maneira brusca que o seguissem. Havia nele qualquer coisa que os fez
sentir que a severidade contra eles ia alastrando cada vez mais e que
tudo isto era muito mau sinal. Logo que deixaram o dormitório foram
separados um do outro e interrogados.

A noite foi passando lentamente. Já as últimas luzes da cidade se tinham


apagado, mas as janelas do aquartelamento continuavam iluminadas. De
tempos a tempos ouvia-se uma campainhada numa das portas principais, a
que se seguia o tilintar de chaves e o ranger de pesadas portas.
Estafetas iam e vinham, atravessando a toda a pressa a cidade sem luz e
adormecida, estabelecendo contacto entre o aquartelamento e o konak, onde
também havia luzes acesas no primeiro andar.

174

Podia ver-se, por todos estes sinais, que algo de anormal se estava
passando.

Quando, cerca das 11 horas da noite, conduziram Fedun ao gabinete do


sargento, parecia-lhe que já tinham passado dias e semanas desde que
saíra da kapia. Em cima da mesa ardia um candeeiro de petróleo com um
quebra-luz de porcelana verde. Junto dela estava sentado o major, de nome
Krcmar. A luz incidia-lhe nos braços até ao cotovelo, mas a parte
superior do corpo e a cabeça estavam na sombra lançada pelo quebra-luz
verde. O rapaz já conhecia aquela cara pálida, cheia, quase feminina,
sempre impecavelmente barbeada, com uns bigodes finos e umas grandes
olheiras escuras. Os soldados receavam as palavras lentas e pesadas do
plácido homenzarrão que era aquele oficial. Poucos havia entre eles que
pudessem suportar por muito tempo o peso daqueles grandes olhos cinzentos
e que não gaguejassem ao responder às suas perguntas, nas quais cada
palavra era pronunciada devagarinho mas soletrada clara, distinta e
separadamente da primeira à última sílaba como na escola ou no teatro. Um
pouco afastado da mesa, estava o sargento Drazenovic. Tinha também a
parte superior do corpo completamente na sombra e apenas as suas mãos
estavam fortemente iluminadas, pendendo, abandonadas, ao lado do corpo;
num dos dedos brilhava um grande anel de ouro.

Foi Drazenovic quem iniciou o interrogatório:

— Diga-nos como passou o tempo entre as 5 e as 7 horas da tarde, quando


estava com o soldado assistente do streifkorps Stevan em serviço de
guarda à kapia.

O sangue afluiu à cabeça de Fedun. Toda a gente passava o tempo o melhor


que podia, mas ninguém iria pensar que teria mais tarde de responder por
ele perante um juiz severo e dar-lhe conta de tudo o que se passara, até
ao mais pequeno pormenor, aos mais íntimos pensamentos, até ao último
minuto. Ninguém, e muito menos quando se tem 23 anos de idade e se passou
esse tempo na kapia, em plena Primavera. Que havia ele de responder?
Aquelas duas horas de guarda tinham-se passado como se passavam sempre,
como no dia anterior e no outro, e ainda no outro. Mas naquele momento
não era capaz de se lembrar de nada usual, daquilo que acontece
diariamente e que pudesse relatar. Apenas pormenores incidentais,
proibidos, lhe acudiam à memória, daqueles que acontecem com toda a
gente, mas que uma pessoa não vai contar aos seus superiores: que Stevan
tinha passado pelas brasas como habitualmente; que ele, Fedun, tinha
trocado meia dúzia de palavras com uma rapariga turca, uma desconhecida,
e que depois, enquanto a noite ia caindo, tinha cantarolado devagarinho e
com fervor, esperando o regresso da rapariga e, com ele, algo de
excitante e invulgar.

175

Que difícil era responder uma vez que era impossível contar tudo mas
também era embaraçoso ficar calado! E tinha de se desenvencilhar, porque
o tempo ia correndo e isso só vinha aumentar a sua confusão e o seu
embaraço. Quanto tempo teria ele já permanecido em silêncio? — Então? —
perguntou o major.

Toda a gente conhecia aquele seu «então», claro, uniforme e potente como
o som de uma máquina forte, complexa e bem: lubrificada.

Fedun começou a gaguejar e ficou confundido como quem desde o início se


sentisse culpado.

A noite continuou a passar, mas as luzes não se extinguiram nem no


aquartelamento nem no konak. Interrogatórios, provas e acareações de
testemunhas seguiram-se uns atrás dos outros. Foram também interrogados
outros soldados que naquele dia tinham estado de guarda à kapia. Mas era
evidente que a rede se apertava cada vez mais em torno de Fedun e de
Stevan, insistindo os interrogatórios no caso de uma velha turca que
teria atravessado a ponte pela mão de uma rapariguita.

Afigurava-se ao jovem que todas as mágicas e inextricáveis


responsabilidades que sentira em sonhos lhe caíam agora sobre os ombros.
Antes do alvorecer foi acareado com Stevan. O camponês fechou astutamente
os olhos e falou com uma voz forçada, repisando continuamente a afirmação
de que era um pobre analfabeto, um campónio, e furtando-se a todas e
quaisquer responsabilidades, que endossava a «esse Sr. Fedun» (insistia
em tratar desta maneira o seu companheiro de guarda).

— Esta é que é a boa maneira de responder — pensou o jovem de si para si.

Tinha uma tal fome que sentia o estômago pegado às costas e todo ele
tremia de emoção, embora não estivesse ainda a ver claramente para que
era tanto aparato nem onde residia precisamente o motivo da sua culpa ou
inocência. Com a manhã, porém, veio a completa explicação do caso.

Durante toda aquela noite tinha rodopiado em torno dele uma autêntica
dança fantástica, tendo como fulcro o major, frio e implacável. Mudo e
hirto, não permitia que ninguém mais estivesse em silêncio ou em paz. No
porte e na aparência já não era um homem, mas o próprio dever
personificado, o terrível agente da justiça, inacessível a fraquezas e
sentimentalismos, dotado de força sobrenatural e isento das vulgares
necessidades humanas como sejam comer, descansar ou dormir.
176

Quando rompeu a alvorada, Fedun foi uma vez mais conduzido à presença do
major. No gabinete havia agora, além do major e de Drazenovic, um
gendarme armado e uma mulher, que, à primeira vista, lhe pareceu qualquer
coisa de irreal. O candeeiro tinha sido apagado. O compartimento, que era
virado ao norte, estava frio e mergulhado em semiobscuridade. O jovem
teve como que a impressão de que o sonho da noite anterior, recusando
desvanecer-se e extinguir-se a despeito da luz do dia, continuava.

— Era este o homem que estava de guarda? — perguntou Drazenovic à mulher.

Com um grande e penoso esforço, Fedun só então pode encarar bem com ela.
Era, nem mais nem menos, a rapariguita muçulmana da véspera, mas agora
sem chale, em cabelo, com umas grandes tranças castanhas enroladas na
cabeça. Vestia umas calças reluzentes, à maneira turca, mas o resto do
vestuário — blusa, faixa e bolero — era o das raparigas sérvias das
aldeias do planalto que fica por cima da cidade. Sem o chale parecia mais
velha e mais forte. O rosto parecia diferente, a boca larga e mal-
humorada, as pálpebras avermelhadas e os olhos claros e faiscantes como
se as sombras do dia anterior deles tivessem desertado.

— Era ele — replicou a mulher com indiferença, numa voz endurecida, tão
nova e estranha para ele como a sua actual aparência.

Drazenovic perguntou-lhe ainda quantas vezes tinha ela ao todo


atravessado a ponte e o que tinha dito a Fedun e ele a ela. Respondeu
quase sempre com precisão, mas orgulhosa e indiferentemente.

— Está bem, Jelenka, mas que é que ele te disse da última vez que
passaste?

— Disse qualquer coisa, mas não posso precisar o que foi, porque eu não
estava a tomar sentido, mas sim a pensar na maneira de fazer passar
Jakov.

— Era nisso que estavas a pensar?

— Era — respondeu a mulher de má vontade.

Via-se claramente que estava cansada e que não queria dizer mais do que
devia. Mas o sargento era inexorável. Numa voz ameaçadora, que traía a
sua convicção de que era obrigatório responder-lhe sem subterfúgios,
obrigou a mulher a repetir tudo o que tinha dito durante o seu primeiro
interrogatório no konak.

177
Ela procurou esquivar-se, tentou minimizar e omitir parte do seu
testemunho anterior, mas ele cortou-lhe sempre as vazas e, com perguntas
incisivas e hábeis, levou-a a contar tudo outra vez.

Pouco a pouco toda a verdade veio à superfície. Chamava-se Jelenka e


vinha da aldeia de Tasic, na Lijeska Superior. No último Outono, o haiduk
Jakov Cerkrlija chegara ao seu distrito para passar o Inverno escondido
num estábulo próximo da sua aldeia. Levaram-lhe comida e roupas de casa
dela. A maior parte das vezes era ela própria que lhas levava. Tinham-se
agradado um do outro e tornado amantes. Quando as neves começaram a
derreter e os esquadrões de streifkorps a aparecer com mais frequência,
Jakov decidiu passar-se para a Sérvia, custasse o que custasse. Naquela
época do ano o Drina era difícil de atravessar, mesmo que não estivesse
patrulhado e que não houvesse uma guarda permanente na ponte. Ela
acompanhara-o, disposta a ajudá-lo, ainda que com risco da própria vida.
Primeiro desceram até Lijeska e depois refugiaram-se numa caverna próximo
de Okoliste. Antes disso, em Glasinac, Jakov tinha conseguido obter de
uns ciganos umas quantas roupas turcas de mulher: um feridjah, calças à
moda turca e um chalé. Então ela, seguindo instruções que ele lhe dera,
começou a atravessar a ponte a horas em que não houvesse muitos turcos
nas imediações, para evitar que algum deles se lembrasse de perguntar
quem seria aquela rapariga desconhecida e de maneira que a guarda se
fosse habituando cada vez mais a vê-la passar. Assim atravessou três dias
consecutivos e acabou por se decidir a levar Jakov consigo.

— Mas porque é que o fizeste passar quando estava precisamente este


soldado de sentinela ?

— Porque me pareceu o mais trouxa de todos.

— Palavra?

— Palavra!

Insistida pelo sargento, a mulher continuou. Depois de tudo preparado,


Jakov embrulhou-se no feridjah e, quando estava a começar a anoitecer,
ela fê-lo atravessar a ponte, mesmo nas barbas da sentinela, disfarçado
de avozinha. A guarda não deu por nada porque aquele jovem que estava ali
presente só tinha olhos para ela, e não para a velhota, ao passo que o
outro, o mais velho, estava a dormitar, sentado no sofa.

Ao chegarem ao mercado tinham tomado a precaução de não o atravessarem,


preferindo seguir por caminhos desviados. Foi isso que lhes fez fracassar
os planos. Acabaram por se perder na cidade, que nenhum deles conhecia,
e, em vez de irem ter à ponte que atravessava o Rzav e tomar a estrada
que leva à fronteira, foram parar em frente de um café turco,
precisamente na altura em que iam umas pessoas a sair.

178
Uma delas era um gendarme turco nascido na cidade. Aquela velha assim tão
embuçada e a rapariga, que ele nunca antes tinha visto, pareceram-lhe
suspeitas e resolveu segui-las. Não as perdeu de vista até chegarem ao
Rzav. Nessa altura abordou-as para lhes perguntar quem eram e para onde
iam. Jakov, que o tinha estado a observar atentamente através do véu que
lhe cobria o rosto, considerou que era chegado o momento de se pôr ao
fresco. Arrancou o feridjah e empurrou Jelenka contra o gendarme com tal
violência que ambos se estatelaram. («Sim, porque ele é pequeno e
insignificante de aspecto, mas tão forte como a própria Terra e mais
corajoso que todos os outros homens.») Ela, por sua vez, conforme calma e
claramente confessou, fez de propósito para se emaranhar ainda mais nas
pernas do gendarme. E assim, quando este conseguiu safar-se dela, já
Jakov tinha atravessado o Rzav como um relâmpago, apesar de a água lhe
dar pelos joelhos, e desaparecera por entre os salgueirais da outra
margem. Levaram-na a ela então para o konak, bateram-lhe e ameaçaram-na,
mas ela nada mais tinha a dizer e nada mais diria.

Em vão experimentou o sargento perguntas evasivas, lisonjas e ameaças


para obter mais informações da rapariga, para saber, por intermédio dela,
de outros que ajudassem ou escondessem bandidos ou conhecer algo das
ulteriores intenções de Jakov. Nada disto tinha o mais leve efeito sobre
ela. Tinha contado livremente já o bastante daquilo que queria confessar,
mas, a despeito de todos os esforços de Drazenovic, não foram capazes de
lhe arrancar uma palavra acerca daquilo que ela não queria dizer.

— Era melhor para ti se dissesses tudo o que sabes do que para nós se
tivermos que interrogar e torturar Jakov, que a estas horas com certeza
já foi capturado na fronteira.

— Capturado quem? Ele! Ah! Ah! Deixem-me rir!

A rapariga olhou mesmo o sargento com certo ar de dó, como quem olha para
um homem que não sabe o que está a dizer. O canto esquerdo do seu lábio
superior fez um esgar desdenhoso. Na realidade, o movimento desse lábio,
que parecia uma sanguessuga a torcer-se, exprimia os seus sentimentos de
ódio, desdém ou orgulho sempre que esses sentimentos eram mais intensos
do que ela podia exprimi-los por palavras. Esse movimento contorcivo dava
por momentos ao seu rosto, naturalmente formoso e regular, uma expressão
conturbada e desagradável.

179

Depois, com uma outra expressão, já infantil e fervorosa, que contrastava


com o esgar anterior, olhou através da janela, como um camponês olha para
um campo quando quer avaliar a influência do tempo na colheita.

— Benza-os Deus! Já está a amanhecer. Desde a noite passada até agora


tinha ele tido tempo de atravessar toda a Bósnia, quanto mais uma
fronteira que não fica a mais de uma ou duas horas de caminho! Sei bem o
que digo. A mim, podem, bater-me e matar-me, que foi para isso mesmo que
vim com ele. Mas a ele, não lhe tornam a pôr a vista em cima. Nem sonhem
sequer!

O seu lábio superior contorceu-se e levantou-se e todo o seu rosto


pareceu de repente mais velho, mais experiente, atrevido e feio. E quando
esse lábio deixou de repente de se mover, as suas feições voltaram de
novo a apresentar aquela expressão infantil de inocente atrevimento.

Não sabendo que mais fazer, Drazenovic olhou para o major, que fez sinal
para mandar a rapariga embora. Então reduziu ao mínimo o interrogatório
de Fedun, pois agora já não havia motivos para ser comprido ou
trabalhoso. O rapaz confirmou tudo e nada teve a acrescentar em sua
defesa, nem mesmo aquilo que Drazenovic dera a entender nas suas
perguntas. E nem sequer as palavras do major, que continham um julgamento
implacável e sem mercê, mas em que se vislumbrava uma secreta compaixão
implícita na sua própria severidade, poderiam acordá-lo do seu torpor.

— Eu sempre o considerei, Fedun — disse Krcmar, em alemão —, um rapaz


sério, cônscio dos seus deveres e sabendo o que quer na vida. Cheguei a
pensar que um dia viria a ser um soldado perfeito, daqueles que honram a
nossa unidade. Mas deixou-se cegar pela primeira fêmea que lhe apareceu à
frente. Procedeu como uma criatura fraca, a quem se não pode confiar um
trabalho sério. Vejo-me forçado a enviá-lo a conselho de guerra. Mas,
seja qual for a sentença, a sua maior punição será a consciência de que
se não mostrou digno da confiança que depositaram em si e de que no
momento próprio foi incapaz de se manter no seu posto como um homem e um
soldado. Pode sair!

Nem mesmo estas palavras, pesadas, secas, pronunciadas com todo o


cuidado, vieram dizer nada de novo ao mancebo. Tudo isso ele sentia já. O
aparecimento e o depoimento daquela mulher, que era a amante do bandido,
o comportamento de Stevan e tudo o que se passara durante aquele curto
interrogatório tinham-lhe subitamente revelado à sua verdadeira luz a
irreflectida, ingénua e imperdoável febre primaveril que dele se apossara
na kapia.

180

As palavras do major pareceram-lhe apenas vir pôr o selo oficial em tudo


aquilo; eram mais necessárias ao próprio major, para satisfação de uma
exigência de ordem e de lei que não está escrita mas é eterna, do que a
Fedun. Depois de ter vislumbrado uma perspectiva insuspeita de
felicidade, o jovem achou-se perante uma realidade que lhe custava
entender e que era a consequência de uns momentos de abandono que tivera
em má hora e num lugar perigoso. Se esses momentos na kapia tivessem sido
vividos e passado despercebidos, não teriam tido qualquer significado, a
não ser como uma daquelas travessuras da mocidade, boas para contar mais
tarde aos amigos durante as insípidas patrulhas nocturnas. Mas assim,
reduzidos a uma questão de responsabilidade bem definida, significavam
tudo. Significavam mais do que a morte, significavam o fim de tudo, um
fim indigno e indesejável. Já nunca mais poderia haver explicações
completas e francas, nem consigo mesmo nem com os camaradas. Já nunca
mais poderia haver cartas recebidas de Kolomea, nem fotografias de
família, nem vales de correio como aqueles que, cheio de orgulho, já
tinha enviado para casa. Era o fim de alguém que se tinha desiludido a si
próprio e dava aos outros motivos suficientes para se desiludirem também.

Por tudo isto, não conseguiu arranjar palavras para responder ao major.

A fiscalização exercida sobre Fedun não foi particularmente apertada.


Deram-lhe almoço, que ele comeu como se fosse com a boca de outrem, e
ordenaram-lhe que recolhesse os seus haveres pessoais, fizesse entrega
das armas e outros bens governamentais que tinha a seu uso e se
aprontasse para partir às 10 horas, acompanhado por um gendarme, no carro
que leva o correio para Serajevo, onde seria entregue ao tribunal da
guarnição.

Quando o rapaz estava a tirar as suas coisas da prateleira que tinha por
cima da cama, os camaradas que ainda se encontravam no dormitório saíram
na ponta dos pés, sem dizer palavra, tendo o cuidado de fechar a porta.
Em torno dele apertou-se aquele círculo de solidão e profundo silêncio
que se forma sempre em torno de um homem que os maus fados atingiram,
como se fosse um animal repelente. Primeiro desenganchou a placa negra
que tinha escritos, a tinta de óleo, em alemão, o seu nome, patente,
número do destacamento e unidade, e pousou-a nos joelhos, com os dizeres
para baixo. No verso negro da placa escrevinhou à pressa, com um pedaço
de giz: «Agradeço que enviem tudo o que eu deixo para meu pai, em
Kolomea.

181

Saúdo todos os camaradas e rogo aos meus superiores que me perdoem. G.


Fedun.» Depois olhou uma vez mais através da janela, saboreando aquele
pedacinho do mundo exterior que lhe era dado ver através dos estreitos
caixilhos. Tirou em seguida a espingarda e carregou-a com uma bala ainda
untada com massa. Descalçou então as botas e, com um canivete, cortou a
meia em volta do dedo grande; deitou-se na cama, entrançou os braços e as
pernas em volta da espingarda de maneira a apoiar firmemente a boca do
cano por baixo do queixo, deslocou a perna direita de modo a assentar o
dedo do pé no gatilho e fez pressão. O tiro ecoou por todo o
aquartelamento.

Depois de uma grande decisão, tudo se torna simples e fácil. Veio o


médico. Nomeou-se uma comissão de inquérito, que juntou ao que apurou uma
cópia em duplicado do interrogatório de Fedun.
Surgiu então a questão do funeral. Mandaram Drazenovic avistar-se com o
pope Nikola para discutir o assunto com ele: poderia Fedun ser sepultado
no cemitério apesar de ter posto termo à vida, e, tendo em conta que o
defunto seguia o culto dos Gregos Unidos, estaria o sacerdote na
disposição de dirigir o serviço fúnebre?

No último ano o pope Nikola envelhecera de repente e a sua saúde decaíra


bastante, pelo que tomara como coadjutor da sua grande paróquia o pope
Joso, homem taciturno e nervoso, magro e negro como um fósforo ardido.
Durante os últimos meses era ele que fazia quase todo o serviço do
sacerdote, incluindo enterros na cidade e nas aldeias, enquanto o pope
Nikola, que só com dificuldade se podia mexer, se ocupava principalmente
do que pudesse fazer em casa ou na igreja ao lado.

Por ordem do major, Drazenovic foi procurar o pope Nikola. O velhote


recebeu-o deitado num divã; junto dele estava o pope Joso. Depois de
Drazenovic ter explicado as circunstâncias da morte de Fedun e a questão
do funeral, ambos os sacerdotes permaneceram calados por momentos. Ao ver
que o pope Nikola nada dizia, o pope Joso decidiu-se a falar primeiro,
fazendo-o de maneira tímida e insegura: o caso era excepcional e fora do
comum, havia dificuldades tanto segundo os cânones da Igreja como em
relação aos hábitos estabelecidos, mas, se se pudesse provar que o
suicídio não tinha sido cometido no pleno uso das faculdades mentais do
finado, então talvez fosse possível fazer alguma coisa.

182

Nessa altura, porém, o pope Nikola ergueu-se no seu leito duro e


estreito, coberto por uma manta velha e desbotada. O seu corpo pareceu
voltar a assumir aquele aspecto monumental que outrora tivera quando
passeava pela praça do mercado e recebia saudações de todos os lados. A
primeira palavra que pronunciou iluminou-lhe a cara bolachuda e ainda
rosada, com aqueles enormes bigodes que se enredavam na barba e umas
sobrancelhas espessas, quase completamente brancas, a cara de um homem
que aprendera desde nascença a pensar com independência, a dar com
sinceridade a sua opinião e a defendê-la bem. Sem hesitação e sem grandes
palavreados, respondeu directamente ao que os outros dois tinham dito:

— Agora que a desgraça aconteceu, já não há mais nada a fazer. Quem é que
no pleno uso das suas faculdades mentais seria capaz de levantar a mão
contra si próprio? E quem é que havia de ter o coração tão duro que se
contentasse com sepultá-lo, como se fosse uma pessoa sem fé, por trás de
uma cerca qualquer e sem o conforto de um sacerdote? Vá, sargento, e dê
ordens para prepararem tudo para o enterrarmos o mais depressa possível.
No cemitério, pois claro! Eu próprio lhe cantarei o requiem. Mais tarde,
se se der o caso de passar por aqui algum sacerdote do seu credo, ele que
acrescente ou altere o que entender, se achar que a nossa cerimónia não
foi a seu contento.
Quando Drazenovic se despediu, voltou-se de novo para o pope Joso, que
estava atónito e humilhado.

— Como poderemos proibir a um cristão que seja sepultado no cemitério? E


por que não havia eu de lhe cantar o requiem? Não lhe basta já o ter tido
pouca sorte quando estava vivo? Deixemos que lá no outro mundo lhe peça
contas dos seus pecados quem nos há-de pedir a todos nós conta dos
nossos.

Assim o jovem que na kapia cometera um erro fatal ficou para sempre na
cidade. Foi sepultado na manhã seguinte. O pope Nikola cantou-lhe o
requiem, ajudado pelo sacristão Dimitrije.

Um por um, os seus camaradas do streifkorps desfilaram diante da campa e


lançaram-lhe um punhado de terra. Enquanto dois coveiros trabalhavam com
toda a rapidez, detiveram-se uns segundos mais, como que a esperar
ordens, e notaram que do outro lado do rio, junto dos barracões do
aquartelamento, uma estreita coluna de fumo branco se erguia no céu. Ali,
num pequeno prado sobranceiro aos barracões, estava a ser queimada a
palha ensanguentada do colchão de Fedun.

A cruel sorte do mancebo, de cujo nome nunca ninguém se lembrava e que


pagara com a vida uns quantos momentos primaveris de desatenção e de
emoção na kapia, foi um daqueles acidentes que o povo da cidade olhou com
muita compreensão e que por muito tempo recordou e repetiu.

183

A memória daquele rapaz sensível e desafortunado subsistiu por mais tempo


que a guarda na kapia.

No Outono seguinte a revolta na Herzegovina estava completamente


debelada. Uns quantos chefes dos mais importantes, muçulmanos e sérvios,
escaparam-se para o Montenegro ou para a Turquia. Ficaram apenas uns
quantos haiduks, que, a bem dizer, nunca tinham tido ligação muito
directa com a insurreição, provocada pelo recrutamento e agiam mais
propriamente por sua conta. Também esses, porém, foram capturados ou
coagidos a fugir. A Herzegovina estava pacificada. A Bósnia forneceu
recrutas sem resistência. Mas a partida dos primeiros não foi simples nem
fácil. Em todo o distrito não foram alistados mais de cem mancebos, mas
no dia em que foram reunidos diante do konak — camponeses, com os seus
sacos, e um reduzido número de habitantes da cidade, com os seus baús de
madeira — parecia que havia peste e tumultos na cidade. Muitos dos
recrutas desde manhãzinha cedo que tinham andada a beber constantemente e
a misturar bebidas uns com os outros. Os camponeses traziam umas camisas
brancas muito limpas. Poucos havia que não tivessem estado a beber, e
esses poucos estavam sentados junto das suas coisas, a dormitar, atrás de
uma parede. Mas a maioria deles estavam excitados, vermelhos com a bebida
e a transpirar com o calor. Grupos de quatro ou cinco rapazes da mesma
aldeia abraçavam-se e, juntando as cabeças e inclinando-se para um lado e
para o outro, como uma floresta viva, desatavam numa cantoria áspera e
arrastada, como se fossem as únicas pessoas que existiam no mundo. — Ai,
mi-nha-ca-cho-pa-a-a-ai!

Mas muito maior que a dos próprios recrutas era a impressão que faziam as
mulheres — mães, irmãs e outras parentes dos rapazes —, que tinham vindo
de aldeias distantes para lhes dizer adeus, para os ver até ao último
instante, para chorar, carpir e dar-lhes qualquer derradeira lembrança ou
um último sinal de estima. O largo junto da ponte estava coalhado de
mulheres. Permaneciam ali como que petrificadas ou falavam umas com as
outras e de tempos a tempos limpavam as lágrimas com as pontas dos
lenços. Em vão lhes tinham já antes explicado, lá na aldeia, que os
rapazes não iam para a guerra nem para a escravatura, mas sim servir o
imperador em Viena e que seriam bem alimentados, bem vestidos e bem
calçados; que, depois de cumpridos os dois anos de serviço militar,
voltariam para as suas casas; que mancebos de todas as outras partes do
Império serviam: no exército e que até o faziam por um período de três
anos.

184

Tudo isso eram palavras que o vento levava, tão incompreensíveis como se
fossem pronunciadas numa língua estrangeira. Só se fiavam nos seus
instintos e só por eles se deixavam guiar. E esses velhos instintos
ancestrais faziam-lhes vir lágrimas aos olhos e enchiam-lhes as gargantas
de soluços, forçando-as persistentemente a seguir até onde lhes era
possível e contemplar com um último olhar aqueles que amavam mais que a
própria vida e que um imperador desconhecido ia arrastar para um país não
menos desconhecido, desconhecidas provações e desconhecidas tarefas. Em
vão, mesmo agora, os gendarmes e oficiais do konak andavam pelo meio
delas e lhes asseguravam que não havia razão para um pesar tão exagerado,
ao mesmo tempo que as aconselhavam a não bloquearem o caminho e a não se
precipitarem atrás dos recrutas, o que criaria perturbações e desordem,
visto que todos eles haviam de voltar sãos e salvos. Tudo era em vão. As
mulheres escutavam-nos, concordavam humildemente e com ar estúpido com
tudo o que eles diziam e voltavam uma vez mais às suas lágrimas e
soluços. Dir-se-ia que amavam as lágrimas e os soluços tanto como àqueles
por quem choravam.

Quando chegou o momento da partida e os mancebos foram formados em quatro


filas, como era da ordem, ao começarem a marchar para atravessar a ponte
as tropelias e o amontoado de gente foram de tal ordem que até ao mais
aprumado dos gendarmes seria difícil manter a sua compostura. As mulheres
corriam e arrancavam-se das mãos dos gendarmes para tentarem ir pôr-se ao
lado dos seus, empurrando-se e atirando-se ao chão umas às outras. Os
seus soluços misturavam-se com gritos, súplicas e recomendações da última
hora. Algumas delas correram mesmo para a frente da formatura dos
recrutas que quatro gendarmes mantinham alinhados e caíram-lhes aos pés,
agarrando os peitos descobertos e gritando:

— Só se passarem; por cima do meu corpo! Por cima do meu corpo!

Os homens levantavam-nas do chão com dificuldade, desenredando


cuidadosamente as botas e as esporas dos cabelos desalinhados e das saias
em desordem.

Alguns dos recrutas, envergonhados, tentavam, com gestos irritados, fazer


com que as mulheres voltassem para casa. Mas muitos dos rapazes cantavam
ou gritavam, o que ainda mais aumentava a confusão geral.

185

Os poucos de entre eles que eram da cidade, pálidos de emoção, cantavam


em coro, à sua moda;

Na Bósnia e em Serajevo

Das mães é grande a dor

Quem lhes mandou os filhos

Servir o Imperador?...

Esta canção provocou ainda maior choradeira. Quando, melhor ou pior,


conseguiram atravessar a ponte para onde toda aquela tropa se dirigiu e
meteram pela estrada de Serajevo, foram encontrar todo o povo da cidade à
espera deles, postado de um lado e do outro da estrada, de maneira a
poder ver os recrutas e chorar por eles como se os estivessem a levar
para serem fuzilados. Havia também ali muitas mulheres que choravam por
todos eles, embora nenhum das suas relações se encontrasse entre os que
partiam. Porque todas as mulheres têm sempre alguma razão para chorar e
porque o chorar é mais doce quando se chora com pena de outrem.

Mas pouco a pouco as alas ao longo da estrada foram-se tornando mais


escassas. Até algumas das camponesas começaram a desistir. As mais
persistentes eram as mães que corriam em torno da formatura como se
tivessem 15 anos de idade, pulavam de um lado para outro as valas da
berma da estrada e tentavam ludibriar os gendarmes para estarem o maior
tempo possível junto dos filhos. Quando viam aquilo, os próprios rapazes,
pálidos de emoção e com um certo embaraço, se voltavam e lhes gritavam: —
Vá para casa, já lhe disse!
Mas as mães continuavam na sua obstinação, cegas para tudo o que não
fossem os filhos que lhes estavam a tirar e nada ouvindo para além do seu
próprio choro.

Mas também esses dias de perturbação passaram. O povo dispersou,


recolhendo cada um à sua aldeia, e a calma voltou à cidade. Quando
começaram a chegar de Viena as primeiras cartas e fotografias dos
recrutas tudo se tornou mais fácil e mais tolerável. As mulheres regaram
por muito tempo essas cartas e essas fotografias com lágrimas, mas, desta
vez, mais calma e suavemente.

O streifkorps foi licenciado e abandonou o aquartelamento. Deixara há


muito de haver a guarda na kapia e as pessoas da cidade voltaram a
frequentá-la como faziam anteriormente.

186

Depressa se passaram dois anos. Nesse Outono, os primeiros recrutas


regressaram de Viena, limpos, de cabelo cortado à escovinha e bem
alimentados. O povo, agrupava-se à sua volta enquanto eles contavam
histórias da vida militar e da grandeza das cidades que tinham visto,
entremeando na sua narrativa nomes estranhos e expressões desconhecidas.
Na incorporação seguinte já não houve tanto choro nem tanta agitação.

De um modo geral, tudo se estava a tornar mais fácil e mais normal.


Cresciam novas gerações, que já não tinham nenhuma memória viva ou clara
dos tempos dos Turcos e que aceitavam, nas suas linhas gerais, os novos
costumes. Mas na kapia continuava-se ainda a viver de acordo com os
velhos hábitos da terra. Sem atender às novas maneiras de vestir e de
negociar nem às novas profissões, a gente da terra continuava a reunir-se
ali como sempre o fazia desde há séculos, em conversas que sempre tinham
sido e continuavam a ser uma real necessidade do seu coração e da sua
imaginação. Os recrutas partiam para o serviço militar sem alaridos e sem
comoções. Os haiduks apenas eram mencionados nas histórias contadas pelos
velhotes. O streifkorps estava já tão completamente esquecido como a
guarda turca que o precedera no tempo em que tinha havido um fortim na
kapia.

187

XIV

A vida na cidadezinha à beira da ponte foi-se tornando cada vez mais


animada, parecendo cada vez mais ordenada e mais rica, atingindo um grau
de desenvolvimento e de equilíbrio até então desconhecido, esse
equilíbrio para que a vida sempre tende, em toda a parte e em todos os
tempos, e que só rara, parcial e temporariamente é atingido.

Nas grandes cidades distantes que por essa altura tinham nas mãos as
rédeas do poder e da administração em relação àqueles distritos (estava-
se no último quartel do século XIX) e que o povo da cidadezinha
desconhecia imperava uma daquelas curtas e raras acalmias que por vezes
surgem nas relações humanas e nos acontecimentos sociais. Algo dessa
acalmia podia sentir-se até naqueles remotos distritos, como um mar calmo
pode sentir-se mesmo nas mais distantes enseadas.

Assim decorreram aquelas três décadas de relativa prosperidade e paz


aparente à maneira de Francisco José, numa altura em que muitos europeus
havia que acreditavam em que existia qualquer fórmula infalível para a
realização de um multicentenário sonho de um total e feliz
desenvolvimento da individualidade na liberdade e no, progresso, quando o
século XIX estendeu perante os olhos de milhões de homens a sua
prosperidade multifacetada e ilusória e criou a sua fata morgana de
conforto, segurança e felicidade para todos e para cada qual, a preços
razoáveis, e mesmo a crédito. Mas a esta remota cidade da Bósnia apenas
chegavam ecos entrecortados de toda esta vida do século XIX, e mesmo
esses apenas na medida em que esta sociedade atrasada e oriental podia
recebê-los, compreendê-los e aceitá-los à sua maneira.

Depois dos primeiros anos de desconfiança, desinteligências e hesitação,


quando se desvaneceram as primeiras impressões de transitoriedade da
situação, a cidade começou a encontrar o seu lugar na nova ordem de
coisas.

188

O povo conquistou paz, trabalho e segurança, o que era o bastante para


lhe dar a convicção de que também aqui a vida, pelo menos a vida
exterior, tinha enveredado pelo caminho da perfeição e do progresso. Tudo
o mais era relegado para aquela zona profunda e turva da consciência em
que vivem e fermentam os sentimentos básicos e as crenças indestrutíveis
das raças, da fé e das castas individualizadas, que, embora aparentemente
mortos e enterrados, vão preparando o terreno para futuras mudanças
insuspeitadas e catástrofes, sem as quais, ao que parece, os povos não
podem existir, e mais do que quaisquer outros os povos deste país.

As novas autoridades, depois das primeiras desinteligências e conflitos,


deixaram na gente da cidade uma impressão bem definida de firmeza e de
permanência (elas próprias estavam impregnadas dessa crença, sem a qual
não é possível haver autoridade forte e duradoura). A sua acção era
impessoal e indirecta e, por isso mesmo, mais facilmente suportável que a
dos anteriores governantes turcos. Tudo o que era cruel e feria o orgulho
local era dissimulado pela dignidade e brilho das fórmulas tradicionais.
O povo continuava a ter medo das autoridades, mas da maneira que se tem
medo da doença e da morte, e não da maldade, da miséria e da opressão. Os
representantes dos novos governantes, quer os civis, quer os militares,
eram, na sua maioria, pessoas recém-chegadas àquelas paragens e
inexperientes na forma de tratar com o povo, e eram, eles próprios,
figuras de reduzida importância. Mas a cada passo que avançavam iam
tomando consciência de fazerem parte de um mecanismo mais vasto e de que
por trás de cada um deles havia homens mais poderosos e organizações mais
importantes, formando uma longa carreira com sucessivas gradações. Isso
dava-lhes uma categoria que excedia em muito a sua própria personalidade
e a influência mágica que tornava mais fácil o suhmeter-se-lhes. Pelos
seus títulos, que se apresentavam pomposos, pela sua calma e pelos seus
hábitos europeus, despertavam entre o povo, de que tanto diferiam,
sentimentos de confiança e respeito e não excitavam quaisquer invejas ou
verdadeiras críticas, mesmo quando se não tornavam agradáveis nem:
estimados.

Por outro lado, depois de um certo tempo, eram esses mesmos homens vindos
de fora que não podiam furtar-se completamente à influência daquele
estranho meio oriental em que tinham de viver.

189

Os seus filhos deram a conhecer aos filhos do povo nativo estranhas


frases e nomes estrangeiros, trouxeram-lhes novos jogos e brinquedos
desconhecidos, mas também aprenderam facilmente com as crianças locais as
velhas canções, maneiras de falar, pragas e os jogos tradicionais de
pedrinhas, eixo e outros semelhantes. Acontecia o mesmo com os adultos;
também eles trouxeram uma nova ordem, com palavras e hábitos estranhos,
mas, ao mesmo tempo, iam a pouco e pouco aceitando algo das maneiras de
dizer e de viver dos antigos habitantes. É certo que as gentes locais,
especialmente os cristãos e os judeus, começaram a parecer-se cada vez
mais com os recém-chegados na maneira de vestir e de proceder, mas também
estes últimos não deixavam de sofrer a influência do meio em que tinham
de viver. Muitos desses funcionários, os orgulhosos magiares ou os
soberbos polacos, atravessavam a ponte com relutância e entravam na
cidade com aversão, formando, a princípio, um mundo à parte, como manchas
de óleo na água. Mas um ou dois anos depois já os iam encontrar na kapia,
onde ficavam horas esquecidas, fumando por grossas boquilhas de âmbar e,
tal como se tivessem nascido na cidade, observando o fumo a espalhar-se e
a diluir-se no céu límpido, no ar calmo do entardecer; outras vezes eram
vistos na companhia dos notáveis da terra nalgum cabeço verde, a fazer
horas para o jantar, com aguardente de ameixa, aperitivos e um pequeno
ramo de manjericão na frente, conversando pachorrentamente acerca de
trivialidades, bebendo devagar ou trincando um desses aperitivos que na
cidade tão bem sabiam fazer. Alguns houve entre esses novos habitantes,
funcionários ou artífices, que acabaram por se casar na cidade e
decidiram nunca mais a deixar.
Mas para ninguém do povo local a nova vida significava a realização das
suas mais íntimas aspirações, daquilo que sempre tinham desejado. Pelo
contrário, todos, tanto cristãos como muçulmanos, se tinham adaptado a
ela sob muitas e definitivas reservas, mas essas reservas permaneciam
secretas e eram dissimuladas, pelo que a vida parecia aberta e
poderosamente rica de novas e aparentemente grandes possibilidades.
Depois de um período maior ou menor de instabilidade, muitos deles
integraram-se nas novas ideias, trataram dos seus negócios, fizeram,
novas aquisições e viveram de acordo com os novos hábitos e conceitos,
que ofereciam mais vastas perspectivas e pareciam dar maiores
possibilidades a cada indivíduo.

Não que a nova existência estivesse de algum modo menos sujeita a


condicionalismos e restrições do que no tempo dos Turcos, mas sempre era
mais fácil e mais humana, e esses condicionalismos e restrições pareciam
agora muito mais distantes e eram habilmente impostos, de modo que,
individualmente, ninguém os sentia de maneira directa.

190

Por isso se afigurava a cada um que a vida à sua volta se tinha tornado
de repente mais aberta e mais límpida, mais variada e de maior plenitude.

O novo estado, com o seu belo aparato administrativo, tinha conseguido


extorquir ao povo local, de uma maneira suave, sem brutalidades nem
atritos, taxas e contribuições que as autoridades turcas só tinham podido
obter através de métodos cruéis e irracionais ou por simples pilhagem; e,
ainda por cima, a coisa rendeu tanto ou mais precisamente por ter sido
feita de maneira mais leve e eficiente.

Assim como os gendarmes, no seu tempo, tinham vindo substituir os


soldados, e depois dos soldados tinham vindo os funcionários, agora,
depois dos funcionários, vinham os mercadores. Nas florestas iniciou-se o
corte das árvores e, com ele, vieram empreiteiros estrangeiros,
engenheiros e operários, o que trouxe várias fontes de lucro para a
maioria das pessoas e para os negociantes, com permutas de trajo e
vocabulário. Construiu-se o primeiro hotel, acerca do qual teremos muito
que contar mais adiante. Multiplicaram-se as cantinas e as oficinas, que
antes nem sequer eram conhecidas. Aos judeus de fala espanhola, os
sephardi, que havia centenas de anos viviam, na cidade, visto que ali se
tinham estabelecido mais ou menos no tempo em que a ponte fora
construída, vieram agora juntar-se os judeus da Galícia, os askenazi.

Como sangue fresco, o dinheiro começou a circular em quantidades nunca


antes vistas e, o que era mais importante, publicamente, abertamente, às
claras. Naquela excitante circulação de ouro, prata e papel negociável
qualquer pessoa podia aquecer as mãos, ou pelo menos recrear os olhos,
porque ela dava até ao mais pobre dos pobres a ilusão de que a sua pouca
sorte era apenas temporária e, portanto, mais suportável.
Noutros tempos também houvera dinheiro e ricaços, mas estes últimos eram
então raros e ocultavam e aferrolhavam o dinheiro, apenas revelando a sua
superioridade como uma forma de poder e protecção, cuja manutenção era
difícil não só para eles como para os que os rodeavam Agora a riqueza, ou
aquilo que passava por sê-lo e assim, era chamado, era abertamente
ostentada sob a forma de prazeres e satisfação de desejos pessoais, de
modo que a massa do povo podia ver algo do seu fausto e dos seus
requintes.

Assim acontecia com tudo o mais.

191

Prazeres que até então só clandestinamente e de maneira dissimulada se


podiam obter eram agora procurados ostensivamente, à luz do dia, o que
aumentava o seu poder de atracção e o número daqueles que os perseguiam.
O que antes era inatingível, de difícil alcance ou caríssimo (proibido
pela lei ou por hábitos todo-poderosos) tornava-se agora, em muitos
casos, possível e perfeitamente ao alcance de todos os que tivessem
posses e soubessem fazer as coisas. Um sem-número de paixões, apetites e
exigências que até então ficavam por satisfazer, ou, quando muito, eram
satisfeitos à sucapa, em lugares escondidos, podiam ser ousada e
abertamente procurados e, quando não completamente, pelo menos
parcialmente, satisfeitos. Bem vistas as coisas, mesmo neste particular
havia maiores restrições, maior ordem, e mais obstáculos legais; os
vícios eram punidos e os prazeres pagavam-se mais caro e de maneira mais
pesada que dantes, mas as leis e os métodos eram diferentes e davam ao
povo, nisto e em tudo o mais, a ilusão de que a vida se tinha tornado de
repente mais folgada, mais luxuosa e mais livre.

Não havia muitos mais prazeres reais, nem, certamente, mais felicidade,
mas era sem dúvida mais fácil a uma pessoa abordar esses prazeres e
parecia que havia lugar para todos serem felizes. A velha tendência inata
do povo de Visegrad para uma vida descuidada de folgança encontrava apoio
e possibilidades de realização nos novos costumes e nas novas maneiras de
negociar e de obter lucros que os novos habitantes trouxeram. Os judeus
polacos que vieram instalar-se na cidade com as suas famílias numerosas
basearam todos os seus negócios nessa febre de abastança e prazeres.
Schreiber abriu aquilo a que ele chamou um «armazém geral»; Gutemplan,
uma cantina para os soldados; Zahler pôs-se à testa de um hotel; os
irmãos Sperling montaram, uma fábrica de água gasosa e um atelier de
fotógrafo, e Zveker uma ourivesaria e relojoaria.

Depois do aquartelamento que veio substituir a han de pedra, as


repartições municipais foram construídas com a pedra que Sobrou, ficando
no mesmo edifício instalados os serviços administrativos locais e os
tribunais. O edifício maior que existia na cidade, depois daquele, era o
do Hotel Zahler. Foi construído na margem do rio, mesmo junto da ponte.
Essa margem, a direita, era amparada por um antigo paredão, que a
escorava de um lado e do outro da ponte e que era da mesma época desta.
Acontecia assim que, tanto à direita como à esquerda da ponte, se
estendiam dois espaços planos, como que dois terraços sobranceiros ao
rio. Nestes espaços livres, que o povo da terra baptizara de
«picadeiros», tinham brincado crianças de sucessivas gerações.

192

Agora as autoridades locais tomaram conta do «picadeiro» da esquerda


puseram-lhe uma cerca em volta e fizeram dele uma espécie de jardim
botânico municipal. Foi no da direita que o hotel se construiu. Até essa
altura, o primeiro edifício que havia antes de chegar ao mercado era a
taberna de Zarije. Ficava mesmo no sítio ideal, porque o viajante cansado
e sequioso que entrasse na cidade pela ponte era logo com ela que topava.
Mas agora estava ofuscada pele imponente edifício do novo hotel. A velha
e atarracada taberna parecia cada vez mais baixa e mais humilhada, como
se estivesse a sumir-se pela terra dentro.

Oficialmente tinha sido dado ao novo hotel o nome da ponte junto da qual
fora construído. Mas o povo da cidade dava a todas as coisas o nome que
estivesse de acordo com a sua lógica muito especial e com o real
significado que para ele tivessem. Por cima da entrada do Hotel Zahler a
inscrição «Hotel zur Brücke» (Nota 1) que um soldado entendido no ofício
tinha pintado em letras gordas, depressa perdeu a cor. O povo chamava-lhe
«Hotel de Lotte», e o nome pegou. É que o hotel era dirigido pelo gordo e
fleumático judeu Zahler, que tinha uma mulher enfermiça, Deborah, e duas
filhas pequenas, Mina e Irene, mas a verdadeira proprietária era a
cunhada de Zahler, de nome Lotte, uma jovem e lindíssima viúva, com uma
linguagem muito livre e uma energia masculina. No andar de cima tinha o
hotel seis quartos de hóspedes, asseados e bem mobilados, e no rés-do-
chão duas salas públicas, uma maior e outra mais pequena. A grande era
frequentada pelos clientes mais modestos, vulgares cidadãos, oficiais na
reserva e artífices. A outra estava separada da primeira por duas grandes
portas envidraçadas e foscadas, numa das quais estava escrito Extra e na
outra Zimmer (Nota 2).

Era o ponto de reunião dos altos funcionários, dos oficiais e das pessoas
gradas e mais ricas da terra. Ali se bebia e se jogava as cartas, se
cantava e se dançava, se mantinham conversações serias e se fechavam
negócios, se comia bem e se dormia melhor. Não raro acontecia que o mesmo
grupo de beis, comerciantes e funcionários ali permanecia desde o pôr ao
romper do Sol e lá se mantinham aqueles pândegos até caírem de bêbados ou
de sono ou estarem tão cansados de jogar às cartas que já não eram
capazes de as distinguir (já não precisavam de ir jogar à sucapa e em
segredo para aquele cubículo abafado e escuro que havia na taberna de
Ustamujic).
Nota 1 - Hotel da Ponte. (Em alemão no original.)

Nota 2 - Extrazimmer: sala privada. (Em alemão no original.)

193

Lotte encarregava-se de pôr ao fresco os que tinham bebido de mais ou


perdido tudo ao jogo e de acolher com a maior hospitalidade os novos
hóspedes que vinham ainda frescos e não toldados pela bebida, ansiosos
por beber e por jogar. Ninguém sabia e ninguém perguntava nunca quando é
que aquela mulher descansava, dormia ou comia, nem quando é que ela tinha
tempo para mudar de roupa e arranjar-se. Porque o certo é que ela estava
sempre presente (ou pelo menos assim parecia), pronta a acorrer ao
primeiro aceno ou chamada, sempre atenciosa, sempre a mesma e sempre, a
um tempo, atrevida e discreta. Bem proporcionada, roliça, com uma pele
que parecia marfim, cabelos negros e olhar ardente, tinha uma maneira
perfeitamente segura de tratar com os fregueses, que gastavam à grande
mas eram muitas vezes agressivos e grosseiros quando estavam com uma
pinga a mais. Tinha um jeito especial para lhes falar com doçura, com à-
vontade, com graça, subtilmente, lisonjeando-os a todos e a todos
amansando. A sua voz era roufenha e desigual, mas conseguia transformar-
se por momentos numa espécie de profundo e embalador arrulho. Falava
incorrectamente, porque nunca aprendeu bem o idioma sérvio, naquela sua
linguagem picante e pitoresca em que os casos nunca estavam certos e os
géneros se confundiam mas em que a entoação e o sentido eram inteiramente
ajustados aos modos de expressão locais. Cada cliente tinha-a sempre à
disposição para lhe ouvir desabafos a respeito dos seu problemas,
dificuldades e desejos, em troca do dinheiro e do tempo que gastava. Mas
estas duas coisas, gastar dinheiro e desperdiçar tempo, eram as únicas de
que podiam estar certos; cada qual pensava que era capaz de haver mais
alguma coisa por trás disso, mas, de facto, não havia nada. Para duas
gerações de ricos gastadores da cidade, Lotte foi uma brilhante,
dispendiosa e fria fata morgana que se divertiu a excitar-lhes os
sentidos. Aqueles raros indivíduos que se supunha terem conseguido alguma
coisa dela — mas que eram perfeitamente incapazes de dizer quanto nem o
quê — eram objecto de mexericos locais.

Não era muito fácil tarefa saber como lidar com os ricaços da cidade
embriagados, não raro possuídos de insuspeitados e baixos desejos. Mas
Lotte, essa incansável e fria mulher de paixões arrefecidas, inteligência
rápida e coração másculo, quebrava qualquer fúria, matava à nascença toda
e qualquer exigência de homens descontrolados pelo sortilégio do seu
corpo perfeito, pela sua grande astúcia e não menor bravura, e sempre
conseguia manter a necessária distância entre eles e ela, o que mais
contribuía ainda para lhes inflamar os desejos e lhe aumentar o próprio
valor.
194

Brincava com aqueles homens descontrolados, nos momentos mais perigosos e


grosseiros de embriaguez e de raiva, como um toureiro brinca com um
touro. É que depressa aprendia a conhecer as pessoas com que tinha de
lidar e facilmente encontrava a chave das suas exigências aparentemente
complexas e todos os pontos fracos daqueles cruéis e sensuais
sentimentalistas. Oferecia-lhes tudo, prometia muito e dava pouco, ou
mesmo nada. Porque os desejos deles eram, por natureza, daqueles que
nunca podem ser satisfeitos, e acabavam, no fim de contas, por ter de se
contentar com pouco. Com muitos dos seus hóspedes lidava ela como se
fossem homens doentes que têm, de tempos a tempos, crises e alucinações
passageiras. De facto, podia-se dizer que, a despeito da ocupação que
tinha, a qual, por natureza, não era agradável nem particularmente casta,
ela era uma mulher compreensiva, de natureza afável e coração compassivo,
capaz de ajudar e consolar aqueles que tinham gasto mais do que deviam em
bebidas ou perdido mais do que o devido às cartas. Punha-os a todos com a
cabeça à roda, porque eles eram dessa qualidade; causava-lhes desilusões,
porque eles gostavam de ser desiludidos; e, finalmente, acabava por lhes
extorquir apenas o dinheiro que eles já tinham destinado para deitar fora
ou perder. De facto, ganhou imenso dinheiro, administrou-o bem e em
poucos anos tinha já conseguido acumular uma considerável fortuna, mas
também sabia como passar magnanimamente a esponja por cima de uma dívida
e como esquecer um prejuízo sem uma palavra. Dava bastante aos mendigos e
aos doentes e ajudava com muito tacto antigas famílias ricas que tinham
caído na decadência, órfãos e viúvas das melhores casas, toda aquela
pobreza envergonhada que não sabia mendigar e que se via embaraçada ao
aceitar esmolas. Tudo isto ela fazia com a mesma habilidade que revelava
na orientação do hotel e na maneira que tinha de controlar aqueles
fregueses embriagados, luxuriosos e agressivos, extorquindo deles tudo
quanto podia, nada lhes dando, mas ao mesmo tempo nunca os repelindo
definitiva e completamente.

Homens conhecedores do mundo e da sua história pensavam amiúde que era


uma pena que os fados tivessem dado àquela mulher tão limitadas e
obscuras oportunidades de agir. Se o seu destino tivesse sido outro e a
levasse a outras paragens, quem sabe se aquela mulher esperta e humana,
que não pensava só em si própria e que, voraz e generosa a um tempo,
bonita e sedutora, mas também fria e casta, dirigia um pequeno hotel
provinciano e esvaziava os bolsos de uns Casanovas de pacotilha, não
teria sido alguém e não teria dado algo de grande ao mundo.

195
Talvez tivesse sido uma daquelas mulheres famosas de que a história fala
e que controlaram os destinos de grandes famílias, de cortes e de
Estados, sempre exercendo uma acção benéfica.

Naquele tempo, por volta de 1875, quando Lotte estava no auge do seu
esplendor, houve filhos-família ricos que passaram dias e noites no
hotel, naquele compartimento especial com portas de vidros foscados. Ao
princípio da noite passavam pelas brasas junto do fogão, esquecendo, em
sonhos ou por acção da fadiga, onde estavam, por que estavam ali ou que
coisa esperavam. Aproveitando esse momento de calma, Lotte retirava-se
então para um pequeno compartimento do primeiro andar, em, princípio
destinado a quarto dos paquetes, que não existiam no hotel, e que
convertera no seu «escritório», onde ninguém era autorizado a entrar.
Esse quarto acanhado estava atravancado com toda a espécie de móveis,
fotografias e objectos de ouro, prata e cristal. Também ali se encontrava
o cofre-forte de Lotte, escondido por trás de uma cortina, e a sua
pequena secretária, que quase se não via tão grande era a pilha de papéis
que a ocultava: contas, recibos, facturas, jornais austríacos, recortes
da Bolsa do Dia e listas da lotaria.

Nesse quarto exíguo, atravancado e mal ventilado, cuja única janela, mais
pequena que qualquer outra do edifício, dava directamente para o arco
mais pequeno da ponte, nada mais abrangendo, passava Lotte os seus
momentos de folga e vivia aquela outra parte secreta da sua vida que só a
ela pertencia.

Aí Lotte, naquelas horas de liberdade roubada, lia as cotações da Bolsa,


estudava prospectos, passava facturas, respondia a cartas dos bancos,
tomava decisões, dava instruções, distribuía os depósitos pelos bancos e
fazia pagamentos novos. Para todos os que estavam lá em baixo e para o
mundo em geral era esta uma faceta desconhecida da actividade de Lotte, a
verdadeira e invisível parte da sua vida. Era ali que ela punha de lado a
máscara sorridente que afivelava em público e que a sua face endurecia e
o seu olhar se tornava severo e sombrio. Era daquele quarto que ela se
correspondia com os seus numerosos parentes, os Apfelmayers de Tarnovo,
com as irmãs casadas e os irmãos vários sobrinhos e sobrinhas e todas as
hordas de judeus pobres da Galícia Oriental, agora dispersos pela
Galícia, Áustria e Hungria.

196

Controlava os destinos de cerca de uma dúzia de famílias judaicas,


imiscuía-se nos mais pequenos pormenores das suas vidas, arranjava os
casamentos, aconselhava tratamentos aos doentes, censurava e admoestava
os calaceiros e os esbanjadores e elogiava os que eram poupados e
laboriosos. Resolvia-lhes as desavenças familiares, dava conselhos nos
casos de desinteligência e dúvida e a todos incitava a uma mais
compreensiva, melhor e mais dignificante conduta de vida; e o certo é que
lhes dava ao mesmo tempo maiores possibilidades de o conseguirem mais
facilmente, uma vez que, com cada uma das suas cartas, enviava um vale de
correio com uma importância suficiente para garantir não só a satisfação
de certas necessidades espirituais e corporais, sem a qual se passariam
privações, mas ainda a certeza de os seus conselhos serem ouvidos e as
suas recomendações seguidas. Nesta elevação do nível de vida de toda a
família e na dignificação individual de cada um dos seus membros achava
ela a sua única satisfação verdadeira e uma compensação para todas as
frustrações e renúncias da sua vida. Por cada membro da família
Apfelmayer que subia nem que fosse só um degrau na escala social sentia
Lotte que também ela se elevava, e nisso encontrava um galardão para o
seu trabalho extenuante e forças para continuar a lutar.

Acontecia por vezes que, quando ela vinha do extrazimmer, tão exausta ou
desalentada que não tinha sequer forças para escrever ou ler cartas e
contas, ia simplesmente até à pequena janela para respirar o ar fresco do
rio. Então o seu olhar detinha-se naquele forte e gracioso arco de pedra
que era tudo o que se avistava, juntamente com as águas que corriam
velozmente por baixo dele. Ao entardecer ou ao romper da alva, com sol,
luar de Inverno ou à luz branda das estrelas, aquele arco era sempre o
mesmo. Os seus dois lados elevavam-se majestosamente, juntavam-se em bico
no topo e amparavam-se mutuamente, num perfeito e firme equilíbrio. Ã
medida que os anos iam passando, tornou-se essa a sua única paisagem
familiar, a testemunha muda para que essa judia de duas faces se voltava
nos momentos em que requeria descanso e frescura e quando, nos negócios e
nos problemas familiares, que sempre resolvia só por si, chegava a um
ponto morto e a um beco sem saída.

Mas tais momentos de sossego nunca duravam muito, porque sempre acontecia
serem interrompidos por algum grito que vinha do café em baixo: o de
novos clientes que reclamavam a sua presença ou de algum bêbado que
acordava e se aprontava para novas investidas, berrava por mais bebida,
queria que as luzes se acendessem ou que viesse a orquestra e nunca
deixava de chamar por Lotte.

197

Então ela abandonava o seu covil e, fechando cuidadosamente a porta comi


uma chave especial, descia para dar as boas--vindas aos fregueses ou
então para amansar o borracho com os seus sorrisos e o seu vocabulário
especial, como se faz a uma criança que desperta, e ajudá-lo a sentar-se
numa cadeira onde iria recomeçar a sua sessão nocturna de bebida,
conversa, canções e despesa.

Cá em baixo tudo corria mal quando ela não estava. Os fregueses


altercavam uns com os outros. Havia um bei natural de Crnce, jovem,
pálido e macilento, que entornava todas as bebidas que lhe traziam,
retorquia a tudo o que lhe diziam e por tudo e por nada armava discussões
com o pessoal e os outros clientes. À excepção de uns raros e curtos
intervalos, há muitos dias já que passava o tempo todo no hotel a beber e
a cobiçar Lotte, mas tinha bebido tanto e manifestado os seus desejos com
tal veemência que se tornava evidente que o movia qualquer infortúnio
maior, mais profundo, que ele próprio desconhecia, algo mais vasto que o
seu amor não correspondido pela encantadora judia de Tarnovo e que a sua
imoderada ciumeira.

Lotte correu para ele com segurança, à-vontade e naturalidade:

— Que é isso, Eyub? Porque é que está a fazer uma barulheira dessas?

— Onde é que tem estado? Quero saber onde é que tem estado... — gaguejou
o borracho, com uma voz já mais calma e olhando para ela como se fosse
uma visão. — Estão a dar-me qualquer veneno. Estão a envenenar-me, é o
que é! Mas não sabem que eu... Ah! Se eu...

— Sente-se, sente-se e esteja quietinho — consolava-o a mulher com um


gesto das suas mãos brancas e perfumadas quase a afagarem-lhe a face. —
Sente-se que eu vou buscar-lhe leitinho para beber, se quiser. Eu mesma é
que lho vou buscar.

Chamou o criado e deu-lhe uma ordem em alemão.

— Não me fale essa língua de trapos na minha frente; não percebo nada
dessa algaraviada. Olhe que eu... a senhora bem me conhece...

— Conheço, conheço, Eyub, ora, se conheço! Não há ninguém a quem eu


conheça melhor do que a você, Eyub...

— Hum! Com quem é que a senhora tem estado? Diga-me! O diálogo entre o
homem que estava bêbado e a mulher que o não estava prolongava-se
infinitamente, sem qualquer sentido ou significado, sem chegar a uma
conclusão, ao lado de umas quantas garrafas de vinho caro e dois copos:
um, o de Lotte, sempre cheio, e o outro, o de Eyub, continuamente enchido
e esvaziado.

198

Enquanto o jovem gastador tartamudeava e remoía considerações, na sua


pesada voz de bêbado, acerca do amor, da morte, dos desejos sem esperança
e outros temas similares que Lotte sabia de cor, porque eram a moeda
corrente de todos os borrachos locais, ela levantava-se e ia dar uma
volta pelas outras mesas a que se sentavam outros fregueses que
frequentavam regularmente o hotel todas as noites.

A uma das mesas estava um grupo de rapazes da melhor sociedade que só


agora começavam a frequentar os cafés e a beber, uns snobzitos para quem
a taberna de Zarije era demasiado enfadonha e ordinária e aos quais o
hotel intimidava ainda. Nas outras havia funcionários e estrangeiros, com
um ou dois oficiais que nesse dia tinham trocado a messe pelo hotel com a
intenção de tentar comover Lotte e levá-la a conceder um empréstimo a
curto prazo. Havia ainda uma terceira roda, de engenheiros que estavam a
construir o primeiro caminho de ferro através da floresta, para
exportação de madeira de construção.

A um canto, fazendo quaisquer contas, encontravam-se Pavle Rankovic, um


negociante ainda jovem, mas dos mais ricos, e um outro homem, austríaco,
ou coisa que o valha, empreiteiro da linha em construção. Pavle estava
vestido à moda turca, com um fez vermelho que nunca tirava no café. Os
seus olhos pequeninos pareciam duas fendas luminosas, negras e estreitas,
na sua face pálida, mas susceptíveis de se alargarem e de se tornarem:
desusadamente grandes e diabolicamente joviais em momentos excepcionais
de satisfação ou de triunfo. O empreiteiro usava um fato cinzento de
corte desportivo e umas botas altas amarelas, com atacadores que lhe
chegavam aos joelhos. Escrevia com uma lapiseira de ouro, presa a uma
corrente de prata, e Pavle servia-se de uma pontinha de lápis que
qualquer negociante de madeiras ou empreiteiro militar devia ter deixado
esquecida na sua loja ao ir comprar pregos e dobradiças. Estavam a fazer
um contrato para fornecimento da alimentação aos operários que
trabalhavam na linha. Completamente enfronhados nas suas tarefas,
multiplicavam, dividiam e somavam; alinhavam números e mais números, que
tinham uma coluna visível - a do papel... —, em que cada um deles
procurava convencer e iludir o outro, e uma outra invisível — no
cérebro... —, calculada com a maior rapidez e exactidão, em que cada um
avaliava para si secretas possibilidades de lucros.

199

Para cada um destes fregueses encontrava Lotte as palavras apropriadas e


tinha um sorriso pleno, ou mesmo um olhar mudo, cheio de compreensão.
Depois voltava para junto do jovem pretendente, que mais uma vez começava
a tornar-se difícil e agressivo.

No decurso dessa noite, mesmo com os assaltos insistentes do bêbado


apaixonado, com todas as suas fases que ela bem conhecia — a barulhenta,
a suspirante, a lacrimosa e a da grosseria —, Lotte ainda conseguiu
arranjar uns momentinhos para voltar para o seu quarto uma vez mais e, à
luz láctea do candeeiro de porcelana, continuar a descansar ou a escrever
a sua correspondência, até que voltasse a surgir qualquer cena lá em
baixo ou que a chamassem.

E o dia de amanhã era outro dia, precisamente um outro igual, com as


mesmas cenas de esbanjamento por parte dos beberrões, e, para Lotte, com
as mesmas ansiedades que ela enfrentava com um sorriso nos lábios e as
mesmas tarefas que sempre se afiguravam um jogo fácil mas desesperado.

Parecia incompreensível e inexplicável como Lotte podia aguentar a


quantidade e a variedade de tarefas com que arrostava dia após dia e que
exigiam dela maior astúcia do que uma mulher normalmente tem e maior
força do que aquela que um homem pode reunir. Mas nem por isso ela era
menos capaz de tudo concluir, nunca se queixando, nunca explicando nada a
ninguém, nunca falando de nenhuma tarefa que tivesse precisamente acabado
ou que ainda a esperasse. A despeito de tudo isto, ainda conseguia
arranjar uma hora ou duas por dia para dedicar a Alibeg Pasic. Era este o
único homem que a cidade acreditava ter conquistado a simpatia de Lotte,
uma simpatia real, independente de quaisquer fontes de lucros. Mas ele
era também, o mais reservado e taciturno dos homens que havia na cidade.
O mais velho dos quatro irmãos Pasic nunca tinha casado (dizia-se na
terra que era por causa de Lotte) e nunca tomava parte em negócios ou na
vida pública. Nunca bebia excessivamente nem ia para cafés com homens da
sua idade. Tinha sempre os mesmos modos, amistosos na generalidade, mas
pouco familiares para todos, sem distinção. Pouco falador e reservado,
não evitava as companhias nem as conversas, mas ninguém se lembrava nunca
de lhe ter ouvido uma opinião nem era capaz de repetir fosse o que fosse
que ele tivesse dito. Bastava-se a si próprio e sentia-se completamente
satisfeito com o que era e com o que aparentava aos olhos dos outros. Não
sentia qualquer necessidade de ser ou de parecer, de qualquer modo,
diferente do que era, e ninguém dele esperava ou lhe pedia que fosse de
outra maneira.

200

Era um daqueles homens que sustentam a sua posição social como um nobre e
pesado apelo que completamente lhes enche a vida: uma inata, grande e
dignificada posição que por si só se justifica e que não pode ser
explicada, negada ou imitada.

Com os fregueses do compartimento maior Lotte tinha pouco contacto. A


criada Malcika e o gerente, Gustav, é que tinham esse encargo. Malcika
era uma rapariga húngara, finória, bem conhecida de toda a cidade e que
parecia ser a mulher de algum domador de leões, e Gustav, um germano-
checo avermelhado, franzino, de natureza irascível, olhos sanguíneos,
pernas cambaias e pés chatos. Ambos eles conheciam todos os fregueses e
toda a gente da cidade; sabiam quais os que eram e os que não eram de
boas contas, quais os hábitos de cada um quando estava com um grãozinho
na asa, a quem deviam receber com frieza ou desejar cordialmente boas-
vindas, ou ainda a quem não deviam permitir a entrada por ser «reservado
o direito de admissão». Faziam o possível por que os fregueses bebessem
bastante e pagassem com regularidade, mas, ao mesmo tempo, providenciavam
por que tudo se passasse com lisura e acabasse em bem, a fim de cumprirem
a palavra de ordem de Lotte: Nur kein Skandal! (Nota 1) Se alguma vez,
excepcionalmente, acontecia que alguém exorbitava, por acção dos copos a
mais, ou pretendia entrar à força, depois de já se ter embebedado em
qualquer outro café de reputação mais duvidosa, era a vez de intervir um
outro criado, Milan, um latagão espadaúdo e peludo, natural de Lika, com
uma força hercúlea, um destes homens que falavam pouco e fazem todos os
serviços extraordinários. A sua apresentação, como criado de hotel, era
sempre correcta (Lotte fazia questão disso). Estava sempre em mangas de
camisa, com um, colete castanho e camisa muito branca, com um longo
avental de pano verde, com as mangas arregaçadas tanto de Verão como de
Inverno, para mostrar os tremendos braços, peludos como duas escovas, e
com umas grandes bigodaças muito bem aparadas e uns cabelos negros
empastados com brilhantina perfumada. Milan era o homem que fazia morrer
à nascença todo e qualquer esboço de escândalo.

Existia uma táctica já de há muito estabelecida e consagrada para esta


desagradável operação.

Nota 1 - Acima de tudo, nada de escândalo. (Em alemão no original.)

201

Gustav procurava entreter o cliente bêbado e furioso até que Milan vinha
colocar-se por trás deste; então o gerente afastava-se de repente e Milan
agarrava o borracho por trás com um braço à roda da cintura e outro à
roda do pescoço, com tal destreza e rapidez que ninguém era capaz de dar
por isso senão quando já estava bem preso. Então até os mais possantes
dos valdevinos da cidade voavam como uma boneca de trapos pela porta
fora, porta essa que Malcika abria no momento próprio, e iam parar ao
meio da rua. No mesmo instante Gustav atirava também lá para fora o
chapéu, a bengala ou qualquer outra coisa que o indesejável tivesse
deixado, e Milan, empregando todo o peso de seu corpo, corria a porta
ondulada para baixo. Tudo isto se fazia num abrir e fechar de olhos, em
perfeita colaboração e com a maior limpeza, e, quase sem dar tempo para
que os outros clientes se voltassem para ver, já o importuno estava no
meio da rua, de nada lhe valendo então a reacção, que era frequente nos
mais enfurecidos, como mostravam as marcas existentes na chapa ondulada,
de bater umas quantas vezes na porta metálica com uma navalha ou com uma
pedra. Mas, neste caso, já não se tratava de um escândalo no hotel, mas
sim, na rua, um caso que dizia respeito à Polícia, que, para o que desse
e viesse, sempre mantinha um homem de guarda em frente do hotel. Nunca
tinha acontecido a Milan, como já acontecera noutros cafés, que o cliente
deitasse alguém a terra ou desarvorasse pela casa fora partindo mesas e
cadeiras ou se agarrasse à porta com unhas e dentes de tal modo que nem
uma junta de bois pudesse depois arrancá-lo dali. Milan nunca ostentava
mau humor nem excessivo zelo ao desempenhar a sua tarefa e muito menos
prazer na luta ou preconceitos pessoais; por isso resolvia a questão com
rapidez e perfeição. Um minuto após a expulsão já estava de volta ao seu
trabalho na cozinha ou na copa, como se nada tivesse acontecido. Só
Gustav é que ia, como quem não quer a coisa, ao extrazimmer, e, olhando
para Lotte, que estava sentada a uma das mesas com os melhores fregueses,
fechava de repente ambos os olhos, o que queria dizer que algo tinha
acontecido mas que tudo estava já em ordem. Então Lotte, sem interromper
a conversa nem deixar de sorrir, também piscava os olhos rápida e
imperceptivelmente, o que significava: — Está bem, obrigada; não deixes
de estar com atenção! Ficava apenas por resolver o problema do apuramento
do que o cliente expulso tinha bebido ou partido. A importância
correspondente era abatida nas contas de Gustav por Lotte quando ambos
ajustavam as contas do dia, coisa que eles faziam a altas horas da noite,
atrás de um biombo vermelho.

202

XV

Havia várias maneiras de o turbulento freguês, tão habilmente expulso, no


caso de não ir parar com os costados à prisão, recuperar energias e
forças após o contratempo sofrido. Podia ir a cambalear até à kapia e
refrescar as ideias com a brisa fresca das águas e dos montes
circundantes; ou então ir para a taberna de Zarije, que ficava só um
bocadinho mais adiante, no largo principal, e aí, livremente e sem
obstáculos, ameaçar e amaldiçoar a mão invisível que tão penosa e
definitivamente o expulsara do hotel. Aí, depois de terem debandado os
cidadãos e artesãos que apenas tinham vindo beber a «pinga da noite» ou
dar dois dedos de conversa aos amigalhaços, não havia qualquer escândalo,
nem podia havê-lo, porque cada um bebia até querer e até onde lhe desse a
bolsa e toda a gente dizia o que lhe apetecia. Ali não se exigia a
ninguém que, incitado a beber e a gastar o mais possível, se conduzisse
como se não tivesse tocado em álcool. Não obstante, se alguém se
lembrasse de pisar o risco, lá estava, sempre pronto a metê-lo na ordem,
o próprio Zarije, sólido e taciturno, cuja cara sombria e mal-humorada
fazia perder a coragem até ao mais inveterado dos bêbados e dos
arruaceiros. Fazia-os acalmar apenas com um movimento lento da sua mão
pesada e umas quantas palavras pronunciadas na sua voz áspera:

— Eh! Você aí! Pare lá com isso! Basta de brincadeiras!

Mas até naquela taberna antiquada, onde não havia compartimentos


separados nem criados, porque havia sempre um ou outro fabiano do Sanjak
para servir as bebidas, os novos hábitos se misturavam admiravelmente com
os antigos.

Relegados para os cantos mais afastados, os partidários convictos da


velha aguardente de ameixa permaneciam calados. Apreciavam a penumbra e o
silêncio e sentavam-se diante da bebida predilecta como se fosse algo de
sagrado. Detestavam o movimento e a excitação.

203
Com o estômago queimado, o fígado inflamado e os nervos destrambelhados,
de barba crescida e aspecto de desamparados, indiferentes a tudo o mais
neste mundo e mais não sendo que uns fardos até para eles próprios, para
ali ficavam a beber e, sempre bebendo, esperavam até que essa luz mágica
que brilha para aqueles que completamente se entregaram à bebida viesse
finalmente espalhar-se sobre eles, essa alegria pela qual é doce sofrer,
decair e, por fim, morrer, mas que infelizmente aparece cada vez com mais
raridade e cujo brilho é cada vez mais fraco.

Os mais barulhentos e faladores eram os principiantes, na maior parte


filhos de notáveis da terra, jovens que se encontravam naquela idade
perigosa em que se dão os primeiros passos na senda da ruína, pagando
aquele tributo que todos têm de pagar aos vícios da bebida e da
ociosidade, uns por menos, outros por mais tempo. Muitos deles não
permaneciam muito tempo nesta senda; antes, pelo contrário, afastavam-se
dela, constituíam família e dedicavam-se a uma vida regrada e ao
trabalho, à vida quotidiana de um cidadão de vícios suprimidos e paixões
moderadas. Apenas uma insignificante minoria, excomungada e predestinada,
continuava nesse caminho para sempre, escolhendo o álcool em vez da vida,
a mais curta e falaz ilusão nesta curta e ilusória vida; viviam para o
álcool e eram consumidos por ele, até que se tornavam taciturnos,
entorpecidos e inchados como aqueles que se acolhiam aos cantos sombrios.

Tal como Sumbo, o cigano, que durante os últimos treze anos acompanhara
todas as orgias dos homens da terra com a sua zurla, também agora, que a
maneira de viver se tornou diferente, sem disciplina ou consideração,
mais movimentada e com melhores salários, era frequente aparecer pela
taberna Franz Furlan com o seu acordeão. Era um homem franzino e de cor
avermelhada, com uma argola de ouro pendurada na orelha direita,
entalhador de profissão, mas grande amante de vinho e de música. Os
soldados e operários estrangeiros gostavam de o ouvir.

Não raro acontecia encontrar-se ali também algum guslar, normalmente


montenegrino, magro como um eremita, pobremente vestido mas orgulhoso no
porte, faminto mas envergonhado, soberbo mas forçado a aceitar esmolas.
De uma maneira geral, senta-va-se por algum tempo a um canto,
ostensivamente afastado, sem nada mandar vir e olhando sempre em frente,
afectando não reparar em nada e estar indiferente a tudo. Mas nem por
isso deixava de se ver que ele tinha outros pensamentos e intenções
diferentes daqueles que aparentava.

204

No seu íntimo travava-se uma luta invisível entre muitos sentimentos


contrários e inconciliáveis, movida principalmente pelo conteste entre a
grandeza que sentia na sua alma e a miséria e fraqueza daquilo que ele
podia exprimir e revelar perante os outros. Por isso estava sempre um
pouco confuso e embaraçado. Altiva e pacientemente esperava que alguém
lhe pedisse uma canção e então tirava com gestos hesitantes o gusle da
caixa, soprava-o, olhava para ver se o arco não estava frouxo com a
humidade e afinava o instrumento. Fazia tudo isto dando claramente a
entender que desejava atrair o menos possível a atenção para aqueles
preparativos de ordem técnica. Quando, pela primeira vez, passava o arco
pela corda, apenas se produzia um som ondulante, desigual como uma
estrada com sulcos de rodas. Mas como, precisamente, melhor ou pior,
sempre se passa uma tal estrada, assim ele, pelo nariz, com a boca
fechada, começava a acompanhar o som muito baixinho, completando-o e
harmonizando-o com a sua voz. Quando, por fim, os dois sons se fundiam
numa única nota, melancólica e uniforme, que tecia um acompanhamento para
a sua canção, o miserável cantor transformava-se como por artes de magia
e todas as hesitações e perturbações desapareciam, acalmadas as suas
contradições íntimas e esquecidos todos os seus cuidados externos. O
guslar levantava subitamente a cabeça, como um homem que deita fora a
máscara da humildade, porque já não precisa de ocultar quem era e o que
era, e ataca via inesperadamente, com voz forte, os versos introdutórios:

O ramo de manjerico

Começou a lamentar-se:

Orvalho, gentil orvalho,

Porque não vens borrifar-me?

Os clientes, que até aí tinham fingido não dar por ele e continuavam a
tagarelar, calavam-se todos. Ao ouvirem estes primeiros versos, todos
eles, turcos e cristãos, sentiam o mesmo estremecimento de desejo
indefinido, de sede dessa gota de orvalho que vivia neles como na canção,
sem distinção ou diferença. Mas quando, logo a seguir, o guslar
prosseguia suavemente:

Mas não era o manjerico...

e, levantando o véu da sua metáfora, começava a enumerar os reais desejos


dos turcos e dos sérvios que se ocultavam por trás daquelas palavras
«orvalho» e «manjerico», entre os ouvintes manifestavam-se sentimentos
desencontrados, que os guiavam por caminhos opostos, consoante o que cada
um sentia no seu íntimo e o que cada qual desejava e em que acreditava.

205
Mas de qualquer modo, por um como que acordo tácito, todos ouviam a
canção até ao fim, no mais completo silêncio e, paciente e
tolerantemente, não revelavam a sua disposição de ânimo, mas apenas
olhavam para dentro dos copos que tinham na frente, onde, na superfície
brilhante da aguardente de ameixa, pareciam ver as vitórias tão
desejadas, os combates, os heróis, a glória e o esplendor, tal como não
existiam em parte alguma do globo.

A taberna era mais animada quando a rapaziada nova, os filhos dos ricaços
mais importantes da terra, iam até lá beber. Então havia trabalho para
Sumbo, Franz Furlan, Corkan, O Zarolho, e Saha, a Cigana.

Saha era uma cigana estrábica, uma mulher de armas, que bebia com quem
lhe pagasse sem nunca se embebedar. Não era possível imaginar uma orgia
em que não entrasse Saha com as suas suculentas piadas.

Os homens que entravam com eles nas farras mudavam mas Corkan, Sumbo e
Saha eram sempre os mesmos. Viviam de música, gracejos e aguardente de
ameixa. O seu trabalho apoiava-se no tempo esbanjado por outros e o seu
ganho nas despesas dos outros. Viviam de noite a sua verdadeira vida,
especialmente durante aquelas horas mortas que as pessoas saudáveis e
felizes reservam ao sono, quando a aguardente de ameixa e os instintos
até então recalcados criavam uma disposição turbulenta e brilhante e
fomentavam entusiasmos inesperados, que são sempre os mesmos mas que
parecem sempre novos e incrivelmente belos. Eram testemunhas pagas e
mudas perante as quais todos ousavam mostrar-se tal como eram na
realidade, ou, como se diz na expressão local, «mostrar o sangue que está
por baixo da pele», sem terem mais tarde motivos para se arrepender ou
ficar envergonhados; com eles e na sua presença era permitido tudo o que
pudesse ser considerado encandaloso pelo resto do mundo e que em casa
seria pecaminoso e impossível. Todos estes ricos e muito respeitáveis
pais e filhos de boas famílias podiam, em seu nome e à sua custa, ser por
momentos aquilo que não ousavam mostrar ser, pelo menos em certas
ocasiões e em certas facetas da sua personalidade. Os cruéis podiam
troçar deles e bater-lhes, os cobardes gritar-lhes insultos, os pródigos
gratificá-los generosamente; os frívolos compravam-lhes lisonjas, os
melancólicos e mal-humorados as suas piadas e gracejos, os debochados a
sua intrepidez e os seus serviços.

206

Eram uma eterna mas não reconhecida necessidade para os homens da cidade
cuja vida espiritual estava enfezada e deformada. A sua posição era, a
bem dizer, a de artistas num meio em que a arte é desconhecida. Numa
pequena cidade há sempre pessoas daquele tipo: cantores, bobos, bufões,
excêntricos. Quando um deles está já gasto ou morre, aparece sempre outro
para o substituir, porque, ao lado dos mais reputados e conhecidos,
outros surgem sempre de novo a dar a sua contribuição, para fazer passar
as horas mais depressa e alegrar as vidas das novas gerações. Mas muito
tempo há-de passar-se antes que apareça outro como Salko Corkan, O
Zarolho.

Quando, depois da ocupação austríaca, o primeiro circo veio à cidade,


Corkan apaixonou-se pela equilibrista que trabalhava na corda e por causa
dela fizera tais disparates e loucuras que acabaram por lhe bater e
pregar com ele na prisão, para o livrar da qual os homens importantes da
terra, que negligentemente o tinham desencaminhado e encorajado a perder
a cabeça, tiveram de pagar pesadas multas.

Desde então vários anos tinham passado, o povo já se acostumara a muitas


coisas e a chegada de tocadores estranhos, palhaços e prestidigitadores
já não causava tão grande e tão geral sensação como esse primeiro circo,
mas o amor de Corkan pela equilibrista ainda continuava a ser recordado.

Durante muito tempo tinha ele esbanjado energias a fazer trabalhos


pesados durante o dia e a ajudar os beis e ricaços da terra, durante a
noite, a esquecer as suas penas, afogando-as na bebida e na estúrdia. À
medida que alguns, depois de terem feito as suas travessuras da mocidade,
se retiravam, casavam e assentavam vida, outros mais novos vinham,
substituí-los, ansiosos por pagar também o seu tributo à juventude.
Corkan, agora, estava já gasto e velho antes de tempo; passava muito mais
horas na taberna do que a trabalhar e vivia não tanto do que ganhava como
das bebidas que os frequentadores lhe pagavam, e dos bocados de comida
que repartiam com ele.

Nas noites chuvosas de Outono os fregueses da taberna de Zarije morriam


de tédio. Só lentamente as ideias lhes acudiam à mente e todas elas se
relacionavam com questões melancólicas e pouco agradáveis; as palavras
saíam com dificuldade, soavam a vazio e de maneira irritante e os rostos
estavam frios, distantes ou desconfiados. Nem mesmo a aguardente de
ameixa conseguia reavivar e melhorar a sua disposição.

207

Num banco, a um canto da taberna, Corkan estava a dormitar, arrasado pela


fadiga, pelo calor húmido da sala e pelos primeiros copos de aguardente
de ameixa. Chovia a cântaros.

Então um dos fregueses taciturnos que estavam na mesa principal


mencionou, como por acaso, a tal rapariga do circo e o amor infeliz de
Corkan. Todos deitaram uma olhadela para o canto em que ele se
encontrava, mas Corkan não tugiu nem mugiu, fingindo que continuava a
passar pelas brasas. Deixá-los dizer o que lhes apetecesse; tinha
decidido firmemente nessa mesma manhã, depois de uma noite de bebida
intensa, não replicar às troças e gracejos dos outros nem consentir que
se divertissem tão cruelmente à sua custa como alguns deles tinham feito
na noite anterior nessa mesma taberna.

— Creio que ainda se correspondem — disse um deles.


— Vocês estão a ver? — replicou outro. — O patife anda a escrever cartas
de amor a uma, enquanto tem outra aqui presa pelo beicinho!

Corkan bem se esforçava por permanecer indiferente, mas aquela conversa


irritava-o e excitava-o, como se o sol lhe estivesse a queimar a cara; o
seu único olho válido parecia que se lhe queria abrir à força e todos os
músculos da face se lhe dilataram numa risada feliz. Já não foi capaz de
manter a mesma silenciosa imobilidade. Primeiro moveu a mão num gesto
casual e indiferente e disse:

— Tudo isso já passou há muito tempo!

— Já passou, dizes tu! Mas que grande pirata este Corkan me saiu! Tem uma
moça lá longe a morder-se toda por sua causa, enquanto uma outra cá na
terra anda doidinha por ele. Já pôs uma com vento fresco, a esta de cá
pouco falta para acontecer a mesma coisa, e amanhã será a vez de uma
terceira. Mas o que é que tu tens, meu grande pirata, para lhes pores
assim a cabeça à roda, uma após outra ?

Corkan levantou-se e aproximou-se da mesa. Esquecera toda a sonolência e


fadiga, bem como a recente decisão de não se deixar arrastar pelas
conversas. Com a mão no peito, afiançou aos presentes que a culpa não
tinha sido dele e que, afinal de contas, não era assim tão grande
conquistador como se dizia. Tinha as roupas ainda húmidas e o rosto
manchado e sujo, porque a cor vermelha do seu fez barato desbotara, mas
iluminava-o um sorriso de alcoólica bem-aventurança. Sentou-se junto da
mesa.

— Tragam rum para o Corkan! — berrou Santo Papo, um judeu gordo e de pele
oleosa, que era filho de Mente e neto de Morde Papo, importantes
negociantes de quinquilharias.

208

Corkan começara recentemente a beber rum em vez de aguardente de ameixa


sempre que conseguia apanhá-lo. A nova bebida parecia mesmo feita de
propósito para as pessoas como ele; era mais forte, de efeito mais rápido
e agradavelmente diferente da aguardente de ameixa. Vinha em pequenas
garrafas de dois decilitros cada, com um rótulo em que se via uma
rapariga mulata de lábios suculentos e olhar ardente, com um enorme
chapéu de palha na cabeça, grandes argolas de ouro nas orelhas e, por
baixo, a inscrição: «Jamaica». (Era qualquer coisa de exótico para um
bósnio que se encontrava nos últimos degraus do alcoolismo, quase à beira
do delírio. Era feito em Slavonski Brod pela firma Eisler, Sirowatka &
C.a) Quando olhava para a imagem da mulata, Corkan também sentia o fogo e
o aroma da nova bebida e logo lhe acudia à ideia que nunca poderia ter
conhecido um tal tesouro deste mundo se tivesse morrido um ano antes. «E
quantas coisas assim maravilhosas não haverá por esse mundo fora!»
Sentia-se profundamente enternecido com esta ideia e por isso sempre
guardava alguns momentos de contemplação antes de abrir uma garrafa de
rum. Mas, depois da satisfação dessa ideia, vinha o encanto da própria
bebida.

Também desta vez segurou a garrafa, mantendo-a por um tempo diante dos
olhos, como que a conversar com ela sem que ninguém ouvisse. Mas o
indivíduo que primeiro tinha lançado a bisca para ver se o fazia falar
perguntou-lhe manhosamente:

— Porque é que estás a sonhar com essa rapariga, meu malandrote?


Tencionas casar com ela ou vais divertir-te à sua custa como fizeste com
todas as outras?

A rapariga em questão era uma tal Pasa, de Dusce. Era a mais linda
rapariga que havia na cidade, pobre e órfã de pai, costureira como a mãe.

Durante os inúmeros piqueniques e patuscadas do ano anterior os rapazes


solteiros tinham feito frequentemente de Pasa e da sua inacessível beleza
o motivo central das suas conversas e canções. Ao ouvi-los, Corkan tinha-
se começado também a entusiasmar gradual e imperceptivelmente, nem ele
próprio sabia como nem porquê. E assim os outros começaram a espicaçá-lo
por causa dela.

Numa sexta-feira levaram Corkan com eles quando foram namoriscar as


raparigas e por trás das portas dos quintais ou das gelosias das janelas
se ouviam risos abafados e a voz ciciante das raparigas invisíveis que
ocultavam. De um quintal onde se encontravam Pasa e as suas amigas foi
arremessado por cima do muro um pé de atanásia, que foi cair junto de
Corkan.

209

Ele hesitou, confuso, não querendo pisar a flor e sem saber se a havia de
apanhar ou não. Os rapazes que o tinham trazido deram-lhe palmadas nas
costas e felicitaram-no, afirmando que Pasa o havia escolhido entre
tantos e que dera a ele maior atenção do que nunca ninguém tinha ainda
conseguido dela.

Nessa noite tinham ido beber para junto do rio, debaixo das nogueiras, em
Mezalin, e continuaram até de manhã. Corkan sentou-se perto do fogo,
solene e distante, umas vezes jovial, outras pensativo. Nessa noite não o
deixaram servir as bebidas nem preparar o café e os petiscos.

— Não sabes, compincha, o que significa um pé de atanásia atirado por uma


rapariga? — disse um deles. — Significa que Pasa está a dizer-te: «Estou
a murchar por tua causa como esta flor arrancada; mas tu nem pedes a
minha mão nem me deixas pertencer a outro.» Aí está o que quer dizer.

Começaram todos a falar-lhe de Pasa, tão encantadora, tão séria, sozinha


no mundo, aguardando uma mão que a viesse colher; essa mão por que ela
esperava, diziam, era a de Corkan, e só ela. Fingiam-se zangados e
gritavam espalhafatosamente. Como é que ela podia ter dado atenção a
Corkan? Mal empregada rapariga! Outros defendiam-no. Enquanto ia bebendo,
Corkan chegou quase a acreditar numa coisa tão maravilhosa como aquela,
mas logo a seguir a rejeitava como impossível. Na conversa insistia em
dizer que não era rapariga para os seus dentes e defendia-se dos motejos
dos outros dizendo que era um pobre homem, que se estava tornando velho e
muito pouco atraente; mas, nos momentos de silêncio, deixava os seu
pensamentos correr para Pasa, evocava a sua beleza e imaginava a alegria
que ela lhe havia de trazer, sem cuidar de pensar se uma tal alegria era
possível para ele ou não. Nessa encantadora noite de Verão que, com a
aguardente de ameixa, as canções e o fogo a arder em cima da relva,
parecia infinita, tudo era possível ou, pelo menos, não completamente
impossível. Bem sabia que os outros estavam, a troçar e a metê-lo a
ridículo; as pessoas gradas não podiam viver sem se rir, alguém tinha de
ser o seu bobo, sempre assim tinha acontecido e havia de continuar a
acontecer. Mas se tudo isto era apenas uma paródia, o seu sonho de uma
mulher maravilhosa e de um amor inatingível, com que sempre tinha sonhado
e ainda continuava a sonhar, esse é que não era paródia nenhuma. Nem o
eram aquelas canções em que o amor era ao mesmo tempo real e irreal e as
mulheres simultaneamente próximas e inatingíveis, como no seu sonho.

210

Para os outros tudo aquilo também era uma paródia, mas para ele era uma
verdade e uma coisa sagrada que ele sempre tinha acolhido dentro de si
próprio e que se tornara real e indubitável, independentemente das
chacotas dos outros, do vinho e das canções, de tudo, em suma, e mesmo da
própria Pasa.

Tudo isto ele bem sabia, mas, mesmo assim, esquecia depressa. Porque a
sua alma se evaporava e o seu cérebro se despejava como água.

E assim Corkan, três anos depois do seu grande amor e do escândalo em


volta da linda alemã que dançava na corda, se deixou prender por um novo
feitiço amoroso e os ricos e ociosos fregueses da taberna encontraram um
novo motivo de gozo suficientemente cruel e excitante para lhes dar uma
oportunidade de rir que chegasse para os meses e anos mais próximos.

Passava-se isto em meados do Verão. Mas o Outono e o Inverno passaram e a


paródia acerca do amor de Corkan pela bela Pasa continuou a encher as
noites e a ajudar a passar os dias aos negociantes do bairro do mercado.
Sempre se referiam a Corkan como «o noivo» ou «o amante». De dia,
arrasado pelas noites sem dormir e a beber em excesso, quando Corkan
fazia nas lojas trabalhos pesados, transportando coisas e carregando com
fardos, ficava surpreendido e zangado quando se lhe referiam assim, mas
limitava-se a encolher os ombros. Porém, quando a noite chegava e as
luzes se acendiam na taberna de Zarije, então tudo mudava como que por
encanto logo que alguém se lembrava de gritar «Rum para Corkan!» ou de
começar a cantar baixinho, como por acaso:

Vem a noite e põe-se o Sol

Que já não brilha no teu rosto...

Não mais cargas, acabou-se o encolher de ombros, era uma vez uma cidade e
uma taberna e o próprio Corkan tal como era na realidade, fanhoso, de
barba por fazer, maltrapilho, vestido com os restos esfarrapados de
outros homens. Tudo isso desaparecia para existir apenas uma alta varanda
coberta de parreiras e acariciada pela luz do poente, com uma rapariga
que olhava para ele e estava à espera do homem a quem tinha atirado uma
flor de atanásia. Continuava a haver, é certo, risadas grosseiras em
volta dele e piadas impiedosas, mas tudo isso parecia distante, envolto
em bruma, e perto dele, junto dos seus ouvidos, apenas ficava aquele que
cantava:

211

Quem pudera uma vez mais

Aquecer-se, confortável,

Ao calor da sol que trazes...

E aquecia-se, de facto, àquele Sol que já se tinha posto, como nunca se


aquecera ao Sol verdadeiro que nascia e se punha todos os dias.

— Rum para Corkan!

E assim as noites de Inverno iam passando. Quando essa estação estava a


acabar, Pasa casou-se. A pobre costureira de Dusce, no auge da sua beleza
e com 19 anos incompletos, desposou, na qualidade de segunda mulher,
Hadji Omer, um rico e respeitável homem de 55 anos que vivia por trás da
fortaleza. Hadji Omer era casado havia mais de trinta anos. A primeira
esposa pertencia a uma família reputada e era famosa pela sua
inteligência e bom senso. A propriedade que possuíam por trás da
fortaleza era como que um outro povoado dentro da cidade, rico e
progressivo em tudo. As lojas de que eram donos tinham sólidas
construções e lucros seguros e abundantes. Tudo isso era devido não tanto
ao pachorrento e pouco activo Hadji Omer, que pouco mais fazia que dar
todos os dias duas voltas pela cidade, mas sim à sua hábil, enérgica e
sempre sorridente esposa. A opinião dela constituía em muitas questões a
última palavra para todas as mulheres turcas da terra.
A sua família era, sob todos os aspectos, uma das melhores e mais
respeitadas da cidade, mas o casal, que já não era nada novo, não tinha
filhos. Por muito tempo ainda tiveram esperanças. Hadji Omer tinha mesmo
feito uma peregrinação a Meca e a esposa fizera legados a instituições
religiosas e dera esmolas aos pobres. Os anos passaram, tudo foi
aumentando e prosperando na vida deles, mas neste particular e
importantíssimo pormenor não receberam qualquer benesse dos Céus. Hadji
Omer e sua exemplar esposa lá foram levando com calma e suportando o
melhor possível a sua desdita, mas acabaram por perder completamente a
esperança num herdeiro. Andava então a mulher pelos 45 anos.

A grande herança que Hadji Omer havia de deixar começou a constituir um


problema. Não só os muitos parentes dele e da mulher começaram a
interessar-se pelo assunto, mas também, até certo ponto, toda a cidade.

212

Alguns desejavam que o casal permanecesse sem filhos até ao fim, enquanto
outros pensavam que era uma pena que um homem daqueles morresse sem
herdeiros e que os seus bens se dispersassem por uma infinidade de
parentes, pelo que lhe aconselharam que arranjasse uma segunda esposa
mais jovem, enquanto era ainda tempo de se poder esperar um herdeiro. Os
turcos locais estavam divididos pelos dois campos em questão. Mas foi a
própria esposa estéril quem resolveu o assunto. Aberta, resoluta e
sinceramente, como fazia em tudo, disse ao esposo indeciso:

— O bom Alá tudo nos deu (graças lhe são devidas): harmonia, saúde e
riqueza. Mas não nos deu o que dá a qualquer pobre: a alegria de ter
filhos e de saber a quem deixar o que fica após a morte. Tem sido esta a
minha única infelicidade. Mas pelo facto de eu, pela vontade de Alá, ter
de a suportar, isso não é razão para que tu tenhas de a sofrer também.
Vejo que toda a gente lá no mercado está a preocupar-se com os nossos
problemas e a insistir contigo para que tornes a casar. Pois bem: uma vez
que assim acontece, quero ser eu a arranjar-te esse casamento porque
ninguém te tem mais amizade que eu.

Então contou-lhe o seu plano; como já não havia hipótese alguma de virem
a ter filhos, o melhor seria ele trazer para o seu lar, para junto dela,
uma segunda mulher, mais nova, de quem ele pudesse ainda ter
descendência. A lei dava-lhe esse direito. Ela, naturalmente, continuaria
a viver junto dele, na qualidade de dona da casa, e zelaria por que tudo
corresse como devia.

Hadji Omer resistiu por muito tempo, jurando que não podia encontrar nem
desejar melhor companheira que ela, que não tinha necessidade de uma
segunda esposa, mas ela levou a sua avante e chegou mesmo a informá-lo
sobre a rapariga que tinha escolhido para o efeito. Uma vez que ele devia
casar na mira de ter filhos, o melhor era fazê-lo com uma rapariga de
famílias modestas, que, além de jovem, fosse saudável e bonita e que lhe
desse herdeiros saudáveis e que ficaria grata, enquanto vivesse, pela
sorte que a bafejara. A sua escolha recaiu na bela Pasa, filha da
costureira de Dusce.

Assim aconteceu. A instâncias da esposa mais velha, e com a sua


assistência, Hadji Omer desposou a encantadora Pasa, que, onze meses
depois, deu à luz um saudável rapagão. E desse modo ficou arrumada a
questão da herança de Hadji Omer, desvanecendo-se as esperanças de muitos
parentes e tapando-se as bocas que badalavam na praça do mercado. Pasa
era feliz, a velha dona da casa ficou satisfeita, e ambas passaram a
viver juntas em casa de Hadji Omer, em boa harmonia, como mãe e filha.

213

Essa feliz solução do caso do herdeiro de Hadji Omer foi o início dos
grandes sofrimentos de Corkan. Naquele Inverno o principal divertimento
dos inúteis que frequentavam a taberna de Zarije foi o desgosto de Corkan
por causa do casamento de Pasa. O infeliz apaixonado embebedava-se como
nunca antes o tinha feito; os outros riam até lhes virem as lágrimas aos
olhos. Todos bebiam à saúde dele e nenhum dava por mal empregado o
dinheiro que gastava em tais brindes. Escarneciam dele, inventando
imaginárias mensagens de Pasa, assegurando-lhe que ela chorava de noite e
de dia e que estava louca por ele, mas não confessava a ninguém qual a
verdadeira razão do seu penar. Corkan punha-se num frenesi, cantava,
chorava, respondia a todas as perguntas com a maior seriedade e
pormenorizadamente, maldizendo a sorte que o criara assim tão pouco
atraente e tão pobre.

— Está bem, Corkan, mas esqueces-te de uma coisa. Quantos anos és tu mais
novo que Hadji Omer? — dizia um dos frequentadores para lhe puxar pela
língua.

— Sei lá! E ainda que fosse mais novo, de que é que me servia? —
respondia Corkan amargamente.

— Eh! — intrometia-se um outro. — Se fôssemos a avaliar pelo coração e


pela frescura, nesse caso Hadji Omer nunca teria aquilo que tem, nem o
nosso Corkan estaria aqui sentado onde está.

Não era preciso muito para provocar em Corkan uma disposição branda e
sentimental. Iam-lhe deitando no copo rum, ao mesmo tempo que lhe
afiançavam que ele não só era mais novo, elegante e, portanto, mais
apropriado para Pasa, mas até, bem vistas as coisas, não era assim tão
pobre como pensava ou parecia.. Durante as longas noites, debruçados
sobre os copos de aguardente, aqueles homens inúteis forjaram toda uma
história a respeito do pai de Corkan, um presumível oficial turco que
nunca ninguém tinha visto e que deixara em testamento ao seu filho
ilegítimo que se encontrava em Visegrad, na qualidade de único herdeiro,
uma grande propriedade situada algures na Anatólia. Todavia uns parentes
que lá viviam tinham impedido a execução desse testamento. Bastaria
contudo que Corkan se deslocasse a essa rica e distante cidade de Brusa
para fazer cair por terra as intrigas e mentiras desses falsos herdeiros
e recuperar o que de direito lhe pertencia. Então poderia meter num
chinelo Hadji Omer e toda a sua fortuna.

Corkan ouvia, continuava a beber e limitava-se a suspirar.

214

Tudo aquilo o atormentava, mas, ao mesmo tempo, não o impedia de pensar


por vezes que as coisas se tinham passado mesmo assim e de se comportar
como um homem que tinha sido defraudado e roubado, ao mesmo tempo, aqui
nesta cidade e lá longe, numa terra distante e bela que era a pátria do
seu suposto pai. Os que o cercavam simulavam fazer preparativos para a
sua viagem a Brusa. As partidas que eles pregavam eram demoradas, cruéis
e não descuravam os mais pequenos pormenores. Uma noite apareceram com um
hipotético passaporte e, no meio de grosseiras piadas e ruidosas
gargalhadas, levaram o pobre Corkan para o meio da casa e fizeram-no
voltar-se para um lado e para outro, sob pretexto de o examinarem, para
poderem escrever no passaporte as suas características pessoais. De outra
vez puseram-se a fazer o cálculo do dinheiro de que ele havia de precisar
para a viagem a Brusa e a fazer um projecto da jornada, com indicação até
dos sítios onde havia de pernoitar. Também isso serviu para passar uma
boa parte da longa noite.

Quando não estava bêbado, Corkan protestava; umas vezes acreditava


naquilo que lhe diziam e outras não; mas eram mais as vezes em que não
acreditava. Na realidade, quando não estava com a pinga, não acreditava
mesmo nada, mas, mal começava a sentir os vapores do álcool, procedia
como se, de facto, acreditasse. É que logo que a bebida lhe começava a
subir à cabeça o nosso homem já não queria saber o que era verdade e o
que era mentira. A verdade era que depois da segunda garrafinha de rum
ele até parecia que sentia o ar rescendente dessa distante e inatingível
Brusa e via, numa visão encantadora, os seus jardins verdes e as suas
casas brancas. Tinha sido defraudado e infeliz em tudo desde que nascera:
na família, nos bens e no amor; tinham-lhe feito mal, um mal tão grande
que Alá e os homens eram por igual seus devedores. O que era evidente é
que ele não era o que parecia nem como os homens o viam. A necessidade de
o dizer a todos os que o rodeavam atormentava-o cada vez mais a cada copo
que emborcava, embora ele próprio sentisse quanto era difícil provar uma
verdade que para ele era clara e evidente mas contra a qual clamava tudo
o que existia nele e à sua volta. Após o primeiro copo de rum, explicava
isto mesmo a quem o quisesse ouvir e repetia-o pela noite fora, em frases
entrecortadas e com gestos grotescos e lágrimas de bêbado. Quanto mais
ele explicava mais os outros troçavam e riam. Riam tanto e com tanto
gosto que esse riso contagioso, irresistível e mais doce que qualquer
comida ou bebida, acabava por lhes fazer doer as costas e os músculos da
face.
215

Riam e esqueciam o tédio da noite de Inverno e, tal como Corkan, bebiam


tolamente.

— Mata-te! — berrava Mehaga Sarac, que, com os seus modos frios e


aparentemente sérios, era quem melhor sabia como provocar e excitar
Corkan. — Já que não foste homem com unhas para arrancar Pasa das mãos
desse palerma do Hadji Omer, não tens mais o direito de existir. Mata-te,
Corkan! É este o conselho que te dou.

— Mata-te, mata-te! — arremedava Corkan. — Julga que não tenho pensado


nisso? Não têm conto as vezes que fui para me atirar da kapia para o
Drina, mas sempre houve alguma coisa que me reteve.

— Que é que te reteve ? Foi o medo, Corkan, o rabinho tefe-tefe!

— Não, não! Não foi o medo, juro por Alá, não foi o medo! No meio da
algazarra e das gargalhadas gerais, Corkan ergueu-se, bateu com as mãos
no peito, arrancou um pedaço de um pão que tinha na frente e, apontando à
cara fria e imperturbável de Mehaga, exclamou:

— Está a ver isto ? Juro pelo meu pão e pela minha salvação que não foi
medo, foi...

De repente alguém começou a murmurar numa voz arrastada:

Já não brilha no teu rosto...

Todos à uma pegaram na música da canção e abafaram a voz de Mehaga, que


gritava para Corkan: — Ma...ta...te...!

E assim, cantando, caíram eles próprios naquele estado de exaltação para


que tinham procurado arrastar Corkan. A noite transformou-se numa orgia
louca.

Uma noite de Fevereiro tinham estado assim até amanhecer, às voltas com a
sua vítima habitual e acabando por ser eles próprios vítimas da loucura
de Corkan. Já era dia claro quando saíram da taberna. Quentes da bebida,
com as veias inchadas e a estalar, foram até à ponte, que nesse tempo
estava coberta por uma fina camada de gelo.

Com brados e risadas, sem ligar importância aos poucos transeuntes


madrugadores, começaram a apostar quem é que seria capaz de atravessar a
ponte sempre por cima do estreito parapeito de pedra que brilhava sob a
leve camada de gelo. — Corkan é capaz! — berrou um dos bêbados.
216

— Corkan ? Sempre queria ver!

— Quem é que não é capaz ? Eu? Sou capaz de fazer o que nenhum homem
neste mundo se atreve a fazer — gritou Corkan, dando fortes palmadas no
peito.

— Não tens tripas para isso! Experimenta, se és capaz!

— Isso é que sou, juro por Alá!

— Corkan é capaz!

— Aldrabão!

Aqueles bêbados e fanfarrões não cessavam de se desafiar uns aos outros,


embora mal se pudessem manter de pé em cima da ponte, que era bastante
larga, cambaleando e agarrando-se uns aos outros para se ampararem.

Quando Corkan pulou para cima do parapeito de pedra nem sequer deram por
isso. De repente, porém, viram-no como que a flutuar por cima deles, e,
bêbado e desgrenhado como estava, começar a endireitar-se e a caminhar
por cima das lajes do parapeito.

Este tinha, aproximadamente, a largura de meio metro. Corkan ia seguindo


ao longo dele, inclinando-se ora para a esquerda, ora para a direita. À
esquerda estava a ponte, e aí, num plano mais baixo, o grupo dos bêbados,
que seguiam ansiosos cada um dos seus passos e lhe gritavam palavras que
ele mal compreendia e apenas chegavam aos seus ouvidos como um
incompreensível murmúrio; à direita, um vácuo, e nesse vácuo, algures, lá
muito no fundo, o rio invisível; uma espessa névoa pairava sobre ele e ia
subindo, como fumo branco, no ar fresco da manhã.

Os poucos transeuntes, aterrorizados e com os olhos arregalados,


observavam ansiosamente aquele beberrão que ia seguindo por ali fora, por
cima do parapeito estreito e escorregadio, quase suspenso sobre o abismo,
agitando freneticamente os braços abertos para manter o equilíbrio.
Naquele grupo de borrachos, os poucos que estavam menos toldados pelo
álcool e que ainda conservavam algum senso comum ficaram parados a
observar aquele jogo perigoso. Mas os outros, sem consciência do perigo,
iam andando ao lado do parapeito e, com os seus gritos, acompanhavam o
bêbado que oscilava, pendia e dançava à beira do abismo.

De repente, naquela arriscada posição, Corkan sentiu-se separado dos seus


companheiros. Era agora como que um monstro gigantesco muito acima deles.
Os seus primeiros passos foram lentos e hesitantes. As suas pesadas
sapatorras escorregavam nas pedras cobertas de gelo. Parecia-lhe que as
pernas lhe estavam a falhar, que o precipício o atraía irresistivelmente,
que iria certamente escorregar, se é que não ia já a cair.
217

Mas essa mesma posição invulgar em que se encontrava e a iminência do


perigo enorme deram-lhe forças e poderes até então desconhecidos. Lutando
para manter o equilíbrio, ia dando pulinhos cada vez maiores e dobrando
cada vez mais os joelhos e a cintura. Em vez de andar, começou a fazer
verdadeiros passos de dança, nem ele próprio sabia como, tão
descuidadamente como se estivesse num vasto campo verde, e não naquele
parapeito estreito e coberto de gelo. Sentia-se subitamente leve e destro
como um homem só é, por vezes, em sonhos. O seu corpo pesado e exausto
como que não tinha peso. O beberrão do Corkan dançava e parecia flutuar
por sobre o abismo como se tivesse asas. Sentia como que uma força jovial
a fluir-lhe no corpo, que dançava ao ritmo de uma música que se não ouvia
e lhe dava segurança e equilíbrio. E a dança transportou-o até onde os
simples passos não o poderiam ter levado. Tendo deixado de pensar no
perigo ou na possibilidade de cair, lá foi pulando, apoiado ora numa
perna ora na outra, ao mesmo tempo que cantava e abria os braços de
maneira que dava a impressão de que se estava a acompanhar a si próprio
num tambor:

Tiridão, tiridão, tiridao-dão-dão...

Corkan cantava e marcava ele próprio o ritmo a que ia fazendo a sua


arriscada travessia em compassos de dança. Flectia as pernas pelos
joelhos e movia a cabeça para a esquerda e para a direita:

Tiridão, tiridao-dão-dao-ai-ai...

Naquela invulgar e arriscada posição, exaltado mais que qualquer dos


outros, deixara de ser Corkan, O Zarolho, o bobo da cidade e da taberna.
Por baixo dele deixara de existir aquele parapeito de pedra estreito e
escorregadio daquela ponte tão familiar onde tinha vezes sem conto roído
a sua côdea de pão, pensando em como seria doce morrer nas ondas que
corriam ali ao pé, para depois acabar por ir dormir à sombra da kapia.

Não! Esta é que era realmente a tal viagem distante e inatingível de que
eles falavam todas as noites na taberna no meio de apupos e piadas
grosseiras, e que agora, finalmente, começava a empreender. Era este
aquele caminho dos grandes feitos tão desejado há tanto tempo, no fim do
qual, lá longe, se encontrava a cidade imperial de Brusa, com as suas
riquezas e a herança que lhe pertencia, o Sol poente e a encantadora Pasa
com o seu filho: a sua esposa e o seu filho.
218

E assim dançando, numa espécie de êxtase, ele atravessou todo o parapeito


à roda do sofa e depois a parte final da ponte. Quando chegou ao fim
pulou para baixo e olhou confusamente em torno de si como que espantado
de ter vindo uma vez mais desembocar naquela dura e familiar estrada de
Visegrad. O grupo dos que até então o tinham acompanhado com incitamentos
e piadas felicitou-o. Os que o medo fizeram estacar precipitaram-se para
ele. Todos começaram a abraçá-lo, a dar-lhe palmadinhas nas costas e no
fez descolorido, todos eles bradaram em coro:

— Bravo, Corkan! Viva o nosso falcão! — Bravo, meu herói!

— Tragam rum para Corkan! — gritou Santo Papo numa voz roufenha, com uma
pronúncia espanholada, julgando que estava na taberna.

No meio desta algazarra geral e da comoção colectiva, alguém propôs que


continuassem juntos e, em vez de irem para casa, fossem beber em honra da
façanha de Corkan.

As crianças que nessa altura tinham 8 ou 9 anos e que naquela manhã


atravessaram a ponte apressadamente para se dirigirem a escola, que
ficada longe, detinham-se, pasmadas com o espectáculo invulgar que viam.
Abriam as bocas de espanto e delas saiam pequenas nuvens de vapor.
Encolhidas na sua pequenez, embuçadas, com as suas ardósias e os seus
livros escolares debaixo dos braços, não podiam compreender aquela
brincadeira da gente crescida. Mas pela vida fora nunca esqueceriam,
juntamente com as linhas da sua própria ponte, a imagem de Corkan, O
Zarolho, esse homem que tão bem conheciam e que, transfigurado e leve,
dançando alegre e temerariamente, como que transportado por artes de
magia, andava por onde era proibido e por onde nunca ninguém se atrevera
a andar.

219

XVI

Passaram muitos anos desde que os primeiros veículos militares


austríacos, de cor amarela, tinham atravessado a ponte. Vinte anos de
ocupação constituem uma longa sequência de dias e de meses. Cada um
desses dias e desses meses, tomado isoladamente, parecia incerto e
temporário, mas todos, em conjunto, constituíam o mais longo período de
paz e de prosperidade material de que a cidade se lembrava e que
correspondia precisamente à parte mais importante da vida daquela geração
que no momento da ocupação atingia aquela idade em que se começa a pensar
a sério na vida.

Foram anos de aparente prosperidade e de ganhos seguros, mesmo quando


pequenos, em que as mães, falando dos filhos, diziam; «Deus queira que
ele viva, seja saudável e lhe seja fácil ganhar o seu pão!» E até a
mulher daquele girafa do Ferhat, o eterno pobretana que acendia os
candeeiros das ruas e recebia pelo seu trabalho o ordenado de doze
florins por mês, dizia com orgulho: «Graças a Deus que até o meu Ferhat
conseguiu ser um funcionário público!»

Os últimos anos do século XIX, anos sem levantamentos nem factos


importantes, deslizaram como um rio largo e calmo antes de atingir a sua
foz desconhecida. A julgar por eles, parecia que os momentos trágicos
tinham deixado de perturbar a vida dos povos europeus ou a da cidade ao
pé da ponte. Mesmo que alguns ainda tivessem lugar por esse mundo fora, o
certo é que não chegavam a penetrar em Visegrad e permaneciam distantes e
incompreensíveis para os seus habitantes.

Foi assim que, em certo dia de Verão, voltou a aparecer afixado na kapia
um papelinho branco com uma proclamação oficial, coisa que já não
acontecia há muitos anos. Era pequeno e, desta vez, com uma larga
cercadura preta, anunciando que Sua Majestade a Imperatriz Isabel tinha
morrido em Genebra, vítima de um cobarde atentado perpetrado por um
anarquista italiano chamado Lucchieni.

220

A notícia seguia por ali fora, exprimindo o desgosto e a profunda mágoa


de todos os povos da grande monarquia austro-húngara e apelando para eles
no sentido de se unirem cada vez mais firmemente em volta do trono, num
espírito de leal devoção, e assim darem o maior consolo ao chefe tão
fortemente atingido pelo destino. O edital foi afixado por baixo da placa
branca com uma inscrição turca, tal como em tempos acontecera com a
proclamação do general Filipovic acerca da ocupação, e toda a gente o leu
com emoção, uma vez que se tratava de uma imperatriz, de uma mulher, mas
sem verdadeira compreensão nem profunda simpatia. Durante alguns dias,
por ordem das autoridades, não houve canções nem reuniões ruidosas na
kapia.

Havia apenas um homem na cidade a quem esta notícia profundamente


impressionara. Era Pietro Sola, o único italiano que aqui habitava, um
empreiteiro e construtor, pedreiro e artista, em resumo, o homem dos sete
ofícios e o especialista da cidade. Mestre Pedro, como toda a cidade lhe
chamava, viera no tempo da ocupação e tinha-se fixado e casado com uma
tal Stana, uma rapariga pobre, com reputação de pouco delicada. Ela era
rosada, forte, tinha quase o dobro do tamanho de mestre Pedro e era
considerada uma mulher de língua cortante e mão pesada, com quem era
preferível não ter questões. Pietro, por sua vez, era um homem pequeno,
curvado, de bom feitio, com uns doces olhos azuis e bigodes pendentes.
Trabalhava bem e ganhava muito. Com o tempo, tornou-se um autêntico
visegradense, em tudo, menos no facto de, tal como acontecia com Lotte,
nunca ter sido capaz de dominar a língua e a pronúncia locais. Em virtude
das suas mãos habilidosas e da sua natureza afável, era estimado por toda
a cidade e a sua atlética esposa guiava-lhe os passos na vida rigorosa e
maternalmente, como a uma criança.

Quando, ao voltar a casa depois do trabalho, empoado e sujo de tinta,


mestre Pedro leu o edital afixado na kapia, puxou o chapéu para os olhos
e deu uns piparotes febris no pequeno cachimbo que trazia sempre preso
nos dentes. Explicou aos mais sérios e respeitados cidadãos que encontrou
que ele, ainda que italiano, nada tinha de comum com esse Lucchieni e com
o seu crime hediondo. As pessoas ouviam-no, consolavam-no e afiançavam-
lhe que acreditavam nele e que, para mais, nem lhes tinha passado sequer
pela cabeça tal ideia. Mas nem por isso ele deixou de continuar a
explicar a cada um que se envergonhava de ser vivo, que nunca tinha morto
sequer um frango na sua vida, quanto mais um ser humano, e ainda por cima
uma mulher e uma tão importante personalidade.

221

Por fim, a sua timidez acabou por se tornar uma verdadeira mania. A gente
da terra começou a rir das preocupações de mestre Pedro, do seu zelo e
das suas supérfluas afirmações de que não tinha nada de comum com
anarquistas e assassinos. Os gaiatos da cidade logo inventaram uma
brincadeira cruel. Escondidos por trás de uma cerca, gritavam para mestre
Pedro: «Lucchieni!» O pobre diabo defendia-se destes berros como de um
enxame de vespas: puxava o chapéu para os olhos e corria para casa a
lamentar a sua sorte e a carpir as mágoas no vasto regaço da sua Stana.

— Estou envergonhado, estou envergonhado — soluçava o homenzinho —, não


posso olhar ninguém de frente.

— Deixa-te disso, meu tonto, de que é que tens que te envergonhar? Porque
um italiano matou a imperatriz? O rei de Itália que se envergonhe por
isso! Mas tu, quem és e que fizeste para te envergonhares?

— Envergonho-me de estar vivo — lamentava-se mestre Pedro para a mulher,


que o sacudia e procurava instilar-lhe um pouco de força e de vontade e
ensinar-lhe a andar pelo mercado com a cabeça bem levantada, sem baixar o
olhar perante ninguém.

Entretanto, os homens mais velhos reuniram-se na kapia, de rostos


empedernidos e olhar abatido, e escutavam as mais recentes notícias com
pormenores do assassínio da imperatriz austríaca. Essas notícias não
passavam de um pretexto para uma discussão sobre o destino das cabeças
coroadas e dos grandes homens. Rodeado por um grupo de respeitáveis
mercadores turcos, curiosos e analfabetos, o mestre-escola de Visegrad,
Husseinaga, ia explicando quem eram e que eram os anarquistas.

O mestre-escola continuava ainda tão afectado, solene e asseado como


vinte anos antes quando estava aguardando a chegada dos primeiros Boches
com Mula Ibrahim e o pope Nikola, ambos já há muito tempo a descansar nas
suas campas. Tinha a barba, já muito grisalha, cuidadosamente arranjada e
aparada num rosto ainda sem rugas, calmo e tranquilo, que os homens de
pensar rígido e coração duro envelhecem devagar. A alta consideração em
que sempre tivera a sua própria pessoa vincara-se ainda mais nestes
últimos vinte anos. Deve dizer-se de passagem que a estante de livros em
que assentava em grande parte a sua reputação de homem culto tinha ainda
muita coisa que nunca tinha sido lida e que da sua tão apregoada crónica
da cidade só tinha escrito, nestes últimos vinte anos, quatro páginas,
porque, quanto mais velho se ia tornando em mais estima o mestre-escola
tinha a sua crónica e a sua pessoa e cada vez ligava menos importância
aos acontecimentos que se passavam à sua volta.

222

Agora falava numa voz baixa, lentamente, como quem está a decifrar um
manuscrito obscuro, com solenidade e severamente, utilizando o que
acontecera à imperatriz infiel apenas como um pretexto que de modo algum
devia fazer parte do verdadeiro sentido da sua interpretação Segundo esta
interpretação (e mesmo esta não era dele, porque a encontrara nos bons
livros antigos que herdara do famoso Araphodja, que tinha sido em tempos
seu professor), aqueles que agora são conhecidos como anarquistas sempre
tinham existido e haviam de existir sempre enquanto o mundo fosse mundo.
A vida humana estava de tal modo ordenada — e Alá, o Único, o
Misericordioso, assim o determinara — que por cada grama de bem havia
dois gramas de mal e não podia haver bondade neste mundo sem o
correspondente ódio, nem grandeza sem inveja, tal como não podia existir
objecto, por mais pequeno que fosse, sem a respectiva sombra. Isto era
especialmente verdadeiro quando se tratava de gente famosa. Ao lado de
cada grande figura, à sombra da sua glória, havia sempre também um
carrasco esperando a sua oportunidade e que, umas vezes mais cedo, outras
mais tarde, nunca a deixava fugir.

— Vejam, por exemplo, o nosso compatriota Mehmed Paxá, que há muito está
no Paraíso— disse o mestre-escola apontando para a placa de pedra por
cima da proclamação. — Serviu três sultões, era mais sábio que Asaf,
piedoso e tinha tal poder que até erigiu este monumento em que agora
estamos. Mas morreu apunhalado. A despeito de todo o seu poder e
sabedoria, não pôde escapar à hora que lhe estava destinada. Aqueles a
quem o grão-vizir transtornava os planos, e que constituíam um grande e
poderoso partido, arranjaram maneira de armar e subornar um derviche
louco para o matar, precisamente no momento! em que ia a entrar para a
mesquita a fim de fazer as suas orações. Com a capa esfarrapada pelas
costas e um rosário na mão, o derviche barrou o caminho à comitiva do
vizir para pedir humilde e hipocritamente esmola, e, quando o vizir ia a
meter a mão ao bolso para lha dar, apunhalou-o. E assim Mehmed Paxá
morreu como um mártir pela sua fé.

Os homens escutavam e, soprando para longe o fumo dos cigarros, olhavam


ora para a placa de pedra com a inscrição ora para o papel branco tarjado
de negro. Escutavam atentamente,

223

embora nenhum deles compreendesse perfeitamente a interpretação do


mestre-escola. Mas, olhando para a distância através do fumo dos
cigarros, para além da inscrição e do edital, pareciam ver algures neste
mundo uma outra vida diferente, uma vida de grandes ascensões e súbitas
quedas, em que a grandeza se fundia com a tragédia e que de certo modo
contrabalançava esta pacífica e monótona existência que era a deles ali
na kapkt.

Mas também esses dias passaram. A velha ordem voltou à kapia, com as suas
habituais conversas barulhentas, gracejos e canções. Acabaram as
discussões acerca de anarquistas; o anúncio da morte daquela imperatriz
estrangeira e pouco conhecida foi-se deteriorando sob a influência do
sol, da chuva e do pó, até que o vento, por fim, o arrancou e ele voou em
pedaços, que foram cair no rio.

Por algum tempo ainda o rapazio da cidade chamou a mestre Pedro, em altas
vozes, Lucchieni, sem saber porque o fazia nem o que tal nome queria
dizer, mas apenas por aquela necessidade infantil de irritar e atormentar
as criaturas fracas e sensíveis. Por fim até isso esqueceu; o. rapazio
encontrou qualquer outra distracção e deixou de gritar aquele nome. Para
isso contribuiu em não pequena parte Stana de Mejdan ao sovar sem piedade
dois dos mais turbulentos gaiatos.

Dois meses depois já ninguém fazia a mais pequena referência a


anarquistas nem à morte da imperatriz. Aquela vida de fim de século, que
parecia amansada e domesticada para sempre, ocultava tudo sob o seu curso
amplo e monótono e deixava entre os homens a sensação de que ia iniciar-
se uma era de prosperidade e paz que conduzia a um distante e inatingível
futuro.

Aquela incessante e irresistível actividade a que os administradores


estrangeiros pareciam condenados e à qual a gente da terra dificilmente
se adaptara, embora a ela devesse a sua boa vida e prosperidade,
transformara muitas coisas no decurso daqueles vinte anos, no aspecto
exterior da cidade, no vestuário e nos hábitos dos seus habitantes. Era
natural que tais modificações se não detivessem perante a velha ponte,
que mantinha eternamente o mesmo aspecto.
Foi em 1900, ao extinguir-se aquele século feliz e começar um novo, que,
na opinião de muitos, havia de ser ainda mais feliz, que vieram uns
engenheiros examinar a ponte. O povo estava já acostumado a coisas
daquelas; até as crianças sabiam já de que se tratava quando aqueles
homens de casaco de couro, com os bolsos superiores cheios de lápis de
várias cores, começavam a rondar algum cabeço ou algum edifício: tratava-
se de alguma coisa que ia ser demolida, construída, escavada ou
transformada.

224

O que ninguém, porém, era capaz de imaginar era o que eles poderiam fazer
à ponte, que para todas as almas da cidade era uma coisa tão eterna e
inalterável como a terra que pisavam ou o céu que as cobria. Mas os
engenheiros inspeccionaram-na, mediram-na e tomaram apontamentos; depois
foram-se embora e o assunto foi esquecido. Mas em meados do Verão, na
altura em que o rio estava mais vazio, começaram de repente a chegar
empreiteiros e operários, que fizeram umas barraca provisórias perto da
ponte para arrumar as ferramentas. Logo se espalhou o rumor de que a
ponte ia ser reparada e complicados andaimes foram armados junto dos
pilares, ao mesmo tempo que na própria ponte se instalaram umas espécies
de elevadores movidos pelo sistema de cabrestante; com a ajuda destes, os
operários podiam andar para baixo e para cima como se estivessem numa
estreita varanda de madeira e parar nos sítios onde houvesse algum buraco
ou montes de ervas que se tivessem desenvolvido no meio das pedras.

Todos os buracos foram tapados, as ervas arrancadas e os ninhos de


pássaros removidos. Acabada essa tarefa, começaram a trabalhar na base
dos pilares. A corrente foi detida e o seu curso desviado de modo a
deixar em seco e à vista a pedra enegrecida e corroída, bem como uma
ocasional viga de carvalho, consumida e petrificada pelas águas ao longo
de 330 anos. Os incansáveis elevadores iam transportando lá para baixo
cargas sobre cargas de cimento e de cascalho, e os três pilares centrais,
que eram os mais expostos à forte corrente e os mais corroídos, foram
reforçados nas bases como quem obtura um dente cariado.

Nesse Verão não houve reuniões na kapia e suspendeu-se o habitual


movimento nas imediações da ponte. Esta estava atravancada com cavalos e
carroças que transportavam areia e cimento. A vozearia dos operários e as
ordens dos capatazes ecoavam de todos os lados. Até na própria kapia foi
construído um barracão de madeira para arrecadação de utensílios.

Os homens da terra observavam, atónitos e perplexos, as obras da grande


ponte. Alguns fizeram delas alvo de zombaria, enquanto outros se
limitavam a encolher os ombros e a seguir o seu caminho, mas a todos dava
a impressão de que os estrangeiros estavam a fazer este trabalho como
faziam qualquer outro, apenas porque tinham de trabalhar nalguma coisa. O
trabalho para eles era uma necessidade e não podiam proceder de outra
maneira. Ninguém disse isto, mas toda a gente o pensou.
225

Todos aqueles que estavam acostumados a passar o tempo na kapia paravam


agora pela porta do hotel de Lotte, pela taberna de Zarije ou defronte
dos taipais de madeira das lojas das proximidades da ponte. Bebiam café e
contavam histórias, aguardando que a kapia voltasse a estar outra vez
livre e que acabasse o ataque à ponte como quem espera que passe um
aguaceiro ou qualquer outro contratempo.

Em frente da loja de Alihodja, que estava entalada entre a han de pedra e


a taberna de Zarije e que tinha um ângulo donde se podia ver a ponte,
encontravam-se desde manhã cedo dois turcos, dois parasitas, que eram
assíduos no mercado, os quais cavaqueavam acerca de tudo, mais
particularmente acerca da ponte. Alihodja escutava-os num silêncio mal-
humorado, olhando pensativamente para a ponte, que estava pejada de
operários semelhantes a formigas.

Durante aquele espaço de vinte anos o hodja tinha-se casado três vezes.
Agora tinha uma mulher muito mais nova do que ele e diziam as línguas
maldosas que era essa a razão por que estava sempre mal-humorado até ao
meio-dia. Daquelas três esposas tinha ele catorze filhos. A sua casa
estava sempre cheia de uma garotada barulhenta durante todo o santo dia e
dizia-se no mercado, à guisa de piada, que o hodja não sabia os nomes do
todos os filhos. Contavam até uma história, segundo a qual um dos
pequerruchos da sua numerosa ninhada o teria encontrado numa das ruas
laterais e teria corrido a beijar-lhe a mão, mas o hodja limitara-se a
afagar-lhe a cabeça e a dizer: — Alá te dê saúde, meu filho! A quem
pertences tu?

Aparentemente, o hodja não mudara muito; apenas estava agora mais roliço
e com a cara mais vermelha. Já não se movimentava com tanta ligeireza e,
ao ir para casa, subia a íngreme rampa que fica no caminho para Mejdan
mais devagar que dantes, porque há uns tempos que o coração lhe andava a
pregar partida e a incomodá-lo mesmo quando dormia. Já tinha ido ao
médico do distrito, o Dr. Marovski, a única pessoa de fora que ele
reconhecia e respeitava. O doutor deu-lhe umas gotas que lhe não curaram
os padecimentos mas que o aliviaram. Por ele soube Alihodja qual era o
nome latino do seu mal: angina pectoris.

Era Alihodja um dos poucos turcos locais que não tinham aceitado nenhuma
das novidades e modificações que os de fora tinham introduzido, quer no
vestuário e nos costumes, quer no falar e nos métodos de comerciar e
negociar.

226
Com aquela mesma amarga obstinação que em tempo firmemente mantivera
contra a resistência escusada, também durante muitos anos se manteve em
oposição a tudo o que era austríaco e estrangeiro e contra tudo o que à
sua volta era impulso de fusão e de adesão aos novos hábitos de vida. Por
essa razão, entrava por vezes em conflito com outros e tinha de pagar
multas à Polícia. Agora estava já um pouco cansado e desiludido, mas, no
fundo, continuava a ser o mesmo que tinha discutido com Karamanli na
kapia, obstinado em tudo e em todos os tempos; a única diferença era que
a sua proverbial liberdade de expressão se transformara em subtileza e o
seu espírito combativo num azedume sombrio que nem mesmo as palavras mais
atrevidas podiam exprimir e que só no silêncio e na solidão se acalmava e
extinguia.

Com o tempo, o hodja mergulhara cada vez mais numa espécie de calma
meditação, que fazia com que não tivesse necessidade de mais ninguém e
achasse todos os homens difíceis de tolerar. Toda a gente, os indolentes
negociantes do mercado, os fregueses, a jovem esposa e toda aquela horda
de catraios que lhe enchia a casa de barulhos, tudo o irritava. Antes de
o Sol nascer escapava-se de casa para a loja, que abria antes de qualquer
dos outros comerciantes. Aí procedia ele às suas devoções matinais. Até
lá lhe levavam o almoço. E quando, durante o dia, as conversas, os
visitantes e o próprio negócio o aborreciam, punha os taipais de madeira
e retirava-se para um. pequeno gabinete que tinha atrás da loja e a que
ele chamava «o seu esquife». Era um sítio secreto, acanhado, baixo e
escuro; o hodja quase o enchia todo quando lá se refugiava. Tinha ali um
pequeno banco coberto com uma manta, onde se podia sentar de pernas
cruzadas, umas quantas prateleiras com caixas vazias, balanças velhas e
toda a espécie de refugo para que não havia lugar na loja. Daquele buraco
estreito e sombrio podia o hodja ouvir, através das paredes delgadas da
sua loja, o fervilhar da vida no mercado, o som dos cascos dos cavalos e
os pregões dos vendedores. Tudo isso lhe parecia vir de uni outro mundo.
Podia também ouvir alguns dos transeuntes que paravam diante da sua loja
fechada e diziam piadas ou faziam comentários maliciosos a seu respeito.
Mas ouvia-os calmamente, porque para ele esses homens estavam mortos e
não tinham dado por isso; conhecia-os e esquecia-os no mesmo instante.
Escondido por trás daquela meia dúzia de tábuas, sentia-se completamente
protegido de tudo o que esta vida lhe pudesse trazer, esta vida que, em
sua opinião, há muito se tornara podre e continuava por maus caminhos.

227

Ali se embrenhava o hodja nas suas meditações acerca do destino do mundo


e do curso que tomavam os problemas humanos, esquecendo tudo o mais: o
mercado, as suas preocupações por causa de dívidas e maus rendeiros, a
sua mulher, jovem de mais para ele, cuja juventude e beleza descambara de
repente num estúpido e malicioso mau humor, e ainda aquele rancho de
filhos, cuja manutenção havia de pesar até no tesouro de um imperador e
em que ele pensava sempre com horror.
Depois de ter cobrado ânimo e descansado, o hodja voltava a tirar os
taipais e a abrir a loja com ar de quem regressava depois de ter saído
para fazer qualquer coisa.

Era assim que ele estava agora a ouvir a conversa oca dos seus dois
vizinhos.

— Agora é que a gente está a ver o que o tempo faz e as benesses que Alá
concede. O tempo até as pedras consome como as solas de um sapato. Mas os
Boches não se conformam com isso e logo vêm consertar o que estava
avariado — filosofava um deles, um bem conhecido mandrião que andava
sempre pelo mercado, enquanto saboreava o café de Alihodja.

— Enquanto o Drina for Drina a ponte há-de ser ponte. Mesmo que eles lhe
não tivessem mexido, ela há-de durar o tempo que lhe está destinado. Toda
esta despesa e canseira não lhes servirá de nada — disse o outro freguês,
que tinha a mesma ocupação do primeiro.

Aquela conversa tola iria prolongar-se indefinidamente se Alihodja os não


interrompesse.

— Pois eu sempre lhes digo que não virá nenhum bem desta ideia de mexerem
na ponte. Vocês hão-de ver, nada de bom sairá de todo este restauro. O
que hoje estão a reparar talvez deitem abaixo amanhã. O falecido e
saudoso Mula Ibrahimi costumava dizer-me que tinha aprendido em velhos
livros que é grande pecado meter-se a gente com a água corrente, desviar-
lhe o curso ou modificá-lo nem que seja por um dia ou dois. Mas os Boches
não estão bem sem andar a meter martelo ou escopro numa coisa ou noutra.
Se pudessem, eram capazes de virar o mundo todo de pernas para o ar!

O primeiro dos que falara tentou mostrar que, depois de tudo dito e
feito, talvez não tivesse sido mau que os estrangeiros tivessem reparado
a ponte. Se isso não lhe prolongasse a vida, também não havia de lhe
fazer grande mal.

— E como sabe você que eles não lhe fazem nenhum mal ? — replicou o
hodja, com ar zangado. — Quem lho disse ? Não sabe que uma simples
palavra pode destruir cidades inteiras? Quanto mais uma babel como esta!
Todo este mundo foi construído sobre uma palavra.

228

Se você fosse instruído e educado, coisa que não é, havia de saber que
esta ponte não é uma construção como outra qualquer, mas uma daquelas que
foram erigidas pela vontade de Alá e por amor a Alá: num certo tempo e
por determinados homens, foi construída, e num outro tempo e por outros
homens há-de ser destruída. Você sabe o que os velhos dizem acerca da han
de pedra; não havia outra como ela em todo o Império. E, no entanto, quem
a destruiu? Se fosse apenas uma questão de solidez e de perícia na sua
construção, havia de durar um milhar de anos; no entanto derreteu-se como
se fosse feita de cera e agora no lugar em que se erguia grunhem os
porcos e ouvem-se os sons das cornetas dos Boches.

— Mas, se é como penso, acredito... — ia a replicar o outro.

— Acredita mal — interrompeu o hodja, — De acordo com as suas ideias,


nunca nada teria sido construído nem destruído. Foi coisa que nunca lhe
ocorreu. Mas eu afianço-lhe que nada disto é bom, pressagia qualquer mal
para a ponte, para a cidade e para todos nós, que estamos a ver isto com
os nossos próprios olhos.

— Tem razão. O hodja sabe melhor o que a ponte representa — confirmou o


outro, recordando maliciosamente o martírio que em tempo Alihodja sofrera
na kapia.

— Não podem pensar que não sei — replicou o hodja com convicção. E logo
começou, com a maior das calmas, a contar uma das suas histórias de que a
gente da terra costumava troçar mas que gostava de ouvir uma vez, e
outra, e outra.

— Uma vez o meu falecido e chorado pai ouviu dizer ao sheik Dedije, e
contou-me quando eu era pequeno, como é que as pontes primeiro apareceram
neste mundo e como é que a primeira ponte foi construída.

Quando Alá, o Misericordioso, criou este mundo, a Terra era plana e lisa
como uma salva finamente cinzelada. Isso desagradava ao Diabo, que
invejava aos homens essa dádiva de Alá. E quando a Terra estava ainda
como tinha saído das mãos do Criador, húmida e macia como barro antes de
ir ao forno, o Demo conseguiu aproximar-se dela às ocultas e arranhar com
as suas garras a superfície dessa terra de Alá o mais que pôde e o mais
profundamente de que foi capaz. E assim, diz a historiazinha, profundos
rios e ravinas se formaram, dividindo um distrito do outro e separando os
homens, impedindo-os de viajar por essa terra que Alá lhes tinha dado
para seu governo e sustento. E Alá teve pena quando viu o que o
Excomungado tinha feito, mas já não foi capaz de remediar os estragos
causados pelas garras deste; contudo, enviou os seus anjos a ajudar os
homens e a aliviar-lhes as dificuldades.

229

Quando os anjos viram que os desventurados homens não podiam atravessar


aquelas ravinas e precipícios para irem concluir os trabalhos que tinham
para fazer e se atormentavam e olhavam em vão, gritando os que se
encontravam de um lado para os que estavam no outro, e vice-versa,
estenderam as suas asas por cima desses lugares e os homens puderam
passar. Assim estes aprenderam com os anjos a construir pontes, e por
isso, depois das fontes, a maior bênção está em construir uma ponte e o
maior pecado em interferir nela, porque cada ponte, desde o simples
tronco de árvore que atravessa uma corrente na montanha até esta obra
grandiosa de Mehmed Paxá, tem o seu anjo da guarda que cuida dela e a
mantém por tanto tempo quanto aquele que Alá lhe destinou.

— É isso, é isso, por vontade de Alá! — exclamaram, humildes e


maravilhados, os dois inúteis.

E deste modo iam passando o tempo a conversar, enquanto o dia ia passando


também e as obras seguiam o seu curso na ponte, onde se ouviam o chiar
dos carros e as pancadas das máquinas a misturar a areia com o cimento.

Como sempre, também nesta discussão o hodja teve a última palavra.


Ninguém desejava manter um argumento com ele até ao fim, e muito menos
aqueles dois cabeças de alho chocho que ali bebiam o seu café e bem
sabiam que no dia seguinte teriam de passar boa parte do dia, que tão
comprido achavam, em frente da loja dele.

Assim falava Halihodja a quem quer que passasse diante da porta da loja,
quer em serviço, quer apenas para dar dois dedos de cavaco. Todos o
ouviam com curiosidade trocista e aparente atenção, mas ninguém na cidade
partilhava das suas ideias nem compreendia bem aquele pessimismo e
aqueles presságios funestos, que ele próprio não era capaz de explicar
nem de sustentar dom provas. Além, do mais, há muito tempo que se tinham
acostumado a ver no hodja um excêntrico e um, homem obstinado, que agora,
sob a influência dos anos, das condições difíceis e do facto de ter uma
mulher jovem,, via o lado negro de tudo e a tudo atribuía um especial e
fatídico significado.

As pessoas da terra eram, na sua maior parte, indiferentes às obras da


ponte, como o eram em relação a tudo o que os novos senhores faziam de há
anos a esta parte na cidade e suas redondezas. Só as crianças é que
ficavam desapontadas quando viam que os operários penetravam com os seus
escadotes naquela abertura negra do pilar central, esse «quarto» em que,
segundo a crença geral da miudagem, o Árabe vivia.

230

De lá tiraram os operários inúmeras cestadas de dejectos de pássaros, que


arremessavam ao rio. E foi tudo. O Árabe nunca apareceu. A miudagem
atrasava-se ao ir para a escola, esperando em vão, durante horas, que o
homem negro emergisse da escuridão e batesse no primeiro operário que se
lhe atravessasse no caminho, que lhe batesse com tal força que o fizesse
voar do seu andaime móvel e, depois de descrever uma curva no ar,
precipitar-se no rio. Ficaram furiosos por tal não ter acontecido, e
alguns dos garotos tentaram convencer os outros de que assim tinha
sucedido, mas os seus argumentos não foram convincentes e as suas
«palavras de honra» não produziram efeito.

Logo que as obras de reparação da ponte foram dadas por concluídas,


começaram a trabalhar num sistema de abastecimento de água. Até então a
cidade tinha-se governado com umas fontes grosseiras, das quais apenas
duas, em Mejdan, davam água pura proveniente de nascentes; todas as
outras, situadas lá em baixo na planície, recebiam água do Drina ou do
Rzav e corriam com abundância sempre que a água daqueles dois rios era
abundante, mas secavam completamente durante os calores do Verão, quando
o nível dos rios baixava. Os engenheiros agora acharam que essa água era
insalubre. A nova água era trazida directamente das montanhas do outro
lado do Drina, pelo que tiveram de fazer os canos atravessar a ponte para
haver água canalizada dentro da cidade.

Mais uma vez houve barulho e excitação na ponte. Levantaram-se lajes e


cavou-se um canal para as condutas. Acenderam-se fogueiras para ferver
alcatrão e derreter chumbo. Entrançou-se cânhamo para fazer cordas. A
gente da terra observava os trabalhos com desconfiança e curiosidade,
como sempre antes tinha feito. Alihodja irritava-se com o fumo que o
vento impelia, através da praça, para a sua loja, e falava com desdém da
nova água suja que passava por tubos de ferro, pelo que não era capaz
para beber nem para as abluções antes das preces, e que nem os próprios
cavalos haviam de beber, se é que ainda eram da boa e velha raça de
outros tempos. Troçavam de Lotte, que andava a proceder a uma instalação
de água canalizada no hotel. Provava a quem o quisesse ouvir que as obras
de canalização mais não eram que um dos sinais da futura calamidade que,
mais tarde ou mais cedo, havia de cair sobre a cidade.

De qualquer maneira, no Verão seguinte, o abastecimento de água estava


pronto, do mesmo modo que muitas outras obras tinham anteriormente sido
introduzidas e completadas.

231

Água limpa e abundante, que já não estava dependente de secas nem de


inundações, jorrava de novas bicas de ferro. Muitos levaram a água
canalizada até aos seus quintais e alguns instalaram-na mesmo dentro de
casa.

Foi nesse mesmo Outono que começou a construção do caminho de ferro. Era
esta uma tarefa mais demorada e mais importante. A princípio parecia que
não tinha qualquer relação com a ponte. Mas isso era apenas na aparência.

Tratava-se da linha de via reduzida que os artigos dos jornais e os


papéis oficiais descreviam como a «linha do Leste». Iria ligar Serajevo
com a fronteira sérvia, em Vardiste, e em Uvce com os limites da
província de Novi Pazar, sob domínio turco. A linha atravessava mesmo a
cidade, que era a mais importante estação no seu trajecto.

Muito se disse e escreveu acerca do significado político e estratégico


desta linha, da iminente anexação da Bósnia e Herzegovina, das ulteriores
aspirações do Império Austro-Húngaro sobre Salonica, alimentadas através
daquela província, e todos os problemas complicados que a elas se
ligavam. Mas na cidade todas estas coisas pareciam ainda completamente
inocentes, e até atraentes. Havia novos empreiteiros, novas hordas de
operários e novas fontes de lucro para muitos.

Estava-se num tempo em que tudo era em grande escala. A construção da


nova linha, com 166 quilómetros de comprimento, em que haveria umas 100
pontes e viadutos e cerca de 130 túneis, custava ao Estado 74 milhões de
coroas. O povo falava deste número astronómico e, ao fazê-lo, olhava
vagamente para longe, como que a tentar em vão lobrigar essa enorme
montanha de dinheiro, que ia muito além do que se podia calcular ou
imaginar. «Setenta e quatro milhões!», repetiam muitos deles, com ar
entendido, como se os pudessem contar ali mesmo na palma da mão. Porque a
verdade é que, mesmo nesta remota cidadezinha, onde a vida, em dois
terços das suas formas, era ainda completamente oriental, os homens
começavam a ficar escravizados pelos números e a acreditar em
estatísticas. «Um pouco menos de meio milhão por quilómetro, ou, para
sermos exactos, 445.782 coroas e 12 cêntimos.» Assim o povo enchia a boca
de grandes somas, mas nem por isso ficava mais rico nem mais sabedor.

Foi durante a construção do caminho de ferro que o povo sentiu pela


primeira vez que os lucros fáceis dos primeiros anos que se sucederam à
ocupação já não existiam.

232

Há já alguns anos que os preços dos géneros e artigos de primeira


necessidade tinham começado a subir. Subiam, mas nunca voltavam a descer;
antes, pelo contrário, depois de um período maior ou menor durante o qual
estacionavam, davam outro pulo. É certo que continuava a haver processos
de ganhar dinheiro e que os salários eram elevados, mas eram sempre
inferiores em, pelo menos, 20 por cento às necessidades reais. Parecia um
jogo diabólico e engenhoso, que cada vez mais amargurava a vida de um
número sempre crescente de pessoas, mas em que elas nada podiam fazer
porque dependia de algo que estava longe, dessas mesmas inatingíveis e
desconhecidas fontes de que tinha brotado também a prosperidade dos
primeiros anos. Muitos homens que tinham enriquecido imediatamente após a
ocupação, uns quinze ou vinte anos antes, eram agora pobres e os seus
filhos tinham de trabalhar para os outros. É certo que havia quem tivesse
mais recentemente ganho bom dinheiro, mas, mesmo nas mãos dos que o
conseguiram, o dinheiro parecia que tinha azougue, era como um feitiço
por acção do qual uma pessoa facilmente se podia achar de um momento para
o outro com as mãos vazias e a reputação manchada. Cada vez mais se
tornou evidente que os ganhos chorudos e a vida folgada que os mesmos
trouxeram tinham a sua contrapartida e eram apenas pedras de qualquer
gigantesco e misterioso jogo de que ninguém sabia as regras todas e cujo
resultado ninguém podia prever. E; no entanto, todos tomavam parte nesse
jogo, uns com uma parada maior, outros com uma menor, mas todos com
permanente risco. Quatro anos depois, no Verão, o primeiro comboio,
decorado com ramos verdes e bandeiras, atravessou a cidade. Foi um
momento de grande regozijo popular. Aos operários foi servido um almoço
de graça, com grandes barris de cerveja à discrição. À volta da primeira
locomotiva viam-se os retratos dos engenheiros. Durante todo aquele dia
as viagens de comboio foram gratuitas («Por um dia gratuito, um século
inteiro a pagar», dizia Alihodja, com ar trocista, àqueles que
aproveitaram a oportunidade.)

Só agora, que o caminho de ferro estava concluído e entrara em


funcionamento, é que se podia ver o que ele significava para a ponte e o
papel que esta tinha na vida da cidade. A linha descia para o Drina, por
um declive abaixo de Mejdan, aberto na vertente da montanha, circundava a
cidade e tornava a descer para umas terras planas ao pé das casas mais
afastadas de Visegrad, junto da margem do Rzav, onde ficava a estação.
Todo o tráfego, quer de passageiros, quer de mercadorias, com, Serajevo
e, através de Serajevo, com o resto do mundo ocidental, estava agora
centralizado na margem direita do Drina.

233

A margem esquerda, e com ela a ponte, ficara completamente paralisada.


Apenas a atravessavam agora os habitantes das aldeias da margem esquerda,
camponeses com os seus burricos ajoujados, e carros de bois ou carroças
que transportavam madeira das florestas distantes para a estação. A
estrada que, na sequência da ponte, conduzia a Semec, pasmando por
Lijeska, e daí, através das pradarias de Giasinac e Romaria, até Será
vejo — estrada onde noutros tempos ecoavam as canções dos guardadores de
gado e o ruído das patas dos cavalos de Irga —, começava a cobrir-se de
erva e daquele musgo verde fino que gradualmente acompanha o declínio das
estradas e dos edifícios. A ponte deixou de ser utilizada nas viagens, as
despedidas deixaram de se fazer na kapia e os homens não mais desmontaram
naquele sítio para ir beber os clássicos cálices de aguardente de ameixa
«para dar ânimo para o caminho».

Os proprietários de cavalos de carga, os próprios cavalos, as carroças


com cobertura e os pequenos carros antiquados que em tempos se utilizavam
para ir de longada até Serajevo ficaram sem trabalho. A jornada já não
demorava dois dias inteiros, com uma paragem em Rogatica para pernoitar,
como até aqui, mas umas escassas quatro horas. Era esse um dos números
que davam que pensar aos homens, mas a que eles sempre se referiam sem
verdadeira compreensão e com emoção, calculando todas as vantagens e
economias que a velocidade lhes proporcionava. Foi com espanto que
olharam para os primeiros visegradenses que um dia foram a Serajevo,
trataram dos seus negócios e regressaram a casa ainda na mesma noite.

Alihodja, sempre desconfiado, cabeçudo, sem papas na língua e espírito de


contradição, como em tudo o mais, constituía a única excepção. Àqueles
que se vangloriavam da rapidez com que agora podiam concluir os seus
negócios e faziam contas ao tempo, ao dinheiro e ao esforço que tinham
poupado, replicava, de mau humor, que o importante não era saber quanto
tempo um homem poupava, mas sim o que fazia desse tempo quando o tinha
poupado. Se o usasse para fins reprováveis, então teria sido melhor que
não pudesse dispor dele. Tentava provar que o mais importante para um
homem não era andar depressa, mas saber para onde ia e com que
finalidade, e ainda que, bem vistas as coisas, a velocidade nem sempre
trazia vantagens.

- Se fores para o Inferno, sempre é melhor que vás devagar - disse ele,
de um modo conciso, a um jovem mercador.

234

— És um imbecil se pensas que os Boches foram gastar o seu dinheirinho e


trazer para aqui aquela engenhoca só para tu viajares depressa e fazeres
os teus negócios mais convenientemente. Tudo o que vês é que podes andar
naquela caranguejola, mas não és capaz de perguntar a ti mesmo o que é
que ela nos traz e leva, a não ser a ti próprio e a outros como tu. Isso
é que não te passa pela cabeça, pois não? Então viaja naquilo, meu rico
menino, viaja à tua vontadinha mas tenho bastante receio de que, com
tantas viagens, um dia te estampes. Há-de vir tempo em que os Boches te
obriguem a viajar para onde não queiras nem tenhas sequer sonhado ir.

Sempre que ouvia a máquina apitar nas curvas das terras que ficavam por
trás da han de pedra, Alihodja franzia o sobrolho e os lábios moviam-se-
lhe em incompreensíveis murmúrios; da sua loja, olhando então de soslaio
para a ponte inalterável, ruminava uma vez mais a sua ideia de sempre,
segundo a qual os maiores edifícios são criados por uma palavra e a paz e
existência de uma cidade inteira e dos seus habitantes podem depender de
um simples apito. Ou assim, pelo menos, se afigurava àquele homem
enfraquecido, que se lembrava de muitas coisas e estava de repente a
fazer-se velho.

Mas naquilo, como em tudo o mais, Alihodja, como um excêntrico e um


sonhador, não tinha quem o acompanhasse nas suas opiniões. No fundo,
também os camponeses se acostumaram com dificuldade ao comboio. Serviam-
se dele, mas não se podiam sentir à vontade nem compreender os seus
processos e hábitos. Desciam das montanhas mal rompia a aurora e chegavam
à cidade ao nascer do Sol; ao chegarem às primeiras lojas, começavam logo
a perguntar a toda a gente que encontravam:

— O comboio já se foi embora ?

— Valha-o Deus, vizinho, há que tempos que ele partiu! — mentiam sem dó
nem piedade os indolentes lojistas.

— Partiu mesmo?

— Não faz mal. Amanhã há outro.


Iam perguntando sempre, sem parar um instante, estugando o passo e
gritando às mulheres e aos filhos que vinham mais atrasados para que se
apressassem.

Quando chegavam à estação, iam já a correr. Um dos empregados do caminho


de ferro tranquilizava-os, dizendo-lhes que tinham sido mal informados e
que tinham de esperar bem umas três horas pela chegada do comboio. Então
descansavam um pouco para se recomporem da estafa que tinham apanhado,
sentavam-se ao longo das paredes dos edifícios da estação, sacavam dos
farnéis, comiam-nos, e depois cavaqueavam, ou dormitavam um pouco, sem
deixar de estar sempre alerta.

235

Mal ouviam o apito de algum comboio de mercadorias, levantavam-se num


pulo, entrouxavam rapidamente as suas coisas e gritavam:

— Levantem-se! Aí vem o comboio!

O empregado da estação que estava no cais amaldiçoava-os e punha-os outra


vez a mexer:

— Eu não lhes tinha já dito que o comboio ainda demorava mais de três
horas? Que fúria é essa? Vocês perderam o juízo ou quê?

Voltavam para o mesmo sítio, mais uma vez, mas sempre suspeitosos e
desconfiados. Ao primeiro apito, ou mesmo só ao ouvirem qualquer ruído
indefinido, lá se precipitavam outra vez, invadindo o cais, apenas para
serem de novo repelidos e voltarem a esperar pacientemente e a escutar
com atenção. Porque, a despeito de tudo quanto os empregados lhes
dissessem e explicassem, não se lhes tirava da cabeça a ideia de que a
«máquina» era uma espécie de mecanismo infernal que os Boches tinham
inventado, veloz, misterioso e enganador, e que, à menor distracção, se
escapulia num abrir e fechar de olhos, como se tivesse uma única ideia:
intrujar o camponês e pôr-se na alheta sem ele.

Mas tudo isto — a estupidez dos campónios e o resmungar irritado de


Alihodja — eram coisas sem importância. O povo ria-se deles e, ao mesmo
tempo, depressa se foi acostumando ao caminho de ferro, como se
acostumava a tudo o que era novo, cómodo e agradável. As pessoas ainda
iam até à ponte e sentavam-se na kapia, como sempre tinham feito, e
continuavam a atravessá-la nos seus afazeres diários, mas para viajar
seguiam a direcção e o meio de transporte impostos pelos novos tempos.
Depressa e facilmente se foram reconciliando com a ideia de que a estrada
que havia do outro lado da ponte já não conduzia ao mundo exterior e
portanto a própria ponte deixara de ser aquilo que em tempos tinha sido:
o elo de ligação entre o Oriente e o Ocidente. Para dizer melhor, muitas
delas nunca pensaram sequer em tal coisa. Mas a ponte mantinha-se firme,
a mesma que sempre fora, com a eterna juventude de uma perfeita
concepção, uma das grandes e boas obras do homem, que não sabem o que
significa mudar e envelhecer e que, pelo menos assim parecia, não
participam da sorte de todas as coisas passageiras deste mundo.

236

XVII

Mas ali, junto da ponte, na cidade a ela ligada pelo destino, os frutos
dos novos tempos estavam a amadurecer. O ano de 1908 trouxe consigo
grande mal-estar e uma espécie de obscura ameaça, que daí em diante nunca
deixou de pairar sobre a cidade.

Na realidade, essa ameaça tinha começado muito mais cedo, no tempo em que
a linha do caminho de ferro fora construída e nos primeiros anos do novo
século. Com o aumento dos preços e as incompreensíveis mas sempre
perceptíveis flutuações dos papéis de crédito, dividendos e câmbios,
começou-se a falar cada vez mais de política.

Até então a gente da cidade tinha-se ocupado exclusivamente daquilo que


lhe era familiar e bem conhecido — dos seus lucros, dos tempos passados
e, em geral, apenas dos problemas familiares e caseiros, dos relativos à
sua cidade ou à sua comunidade religiosa, mas sempre directamente e sem
limites definidos, sem olhar muito para o futuro nem se embrenhar muito
no passado mais distante. Agora, contudo, apareciam cada vez mais nas
conversas problemas que iam muito além dos estreitos limites das suas
preocupações habituais. Em Serajevo fundaram-se partidos e criaram-se
organizações religiosas e nacionalistas, sérvias e muçulmanas, que logo
estabeleceram subcomissões em Visegrad. Novos jornais foram postos a
circular em Seravejo e começaram a chegar à cidadezinha. Inauguraram-se
salas de leitura e sociedades corais; primeiro, sérvias, depois,
muçulmanas e, logo a seguir, judaicas. Estudantes das escolas secundárias
e Universidades de Viena e Praga vinham a casa em férias e traziam novos
livros, panfletos e uma nova maneira de se exprimir. Pelo seu exemplo,
mostravam às camadas mais jovens da população que nem sempre deviam calar
a boca e guardar as suas ideias para si, como constantemente afirmavam,
com convicção, os mais idosos.

237

Nas conversas começaram a surgir, com insistência cada vez maior, os


nomes de novas organizações religiosas ou nacionalistas, de bases amplas
e objectivos arrojados, e, por fim, também os de organizações operárias.
Foi então que se ouviu pela primeira vez na cidade a palavra «greve». Os
jovens aprendizes tomaram um ar mais sério. À noite, na kapia,
sustentavam uns com os outros conversas que ninguém mais compreendia e
trocavam pequenos panfletos brochados com títulos como os seguintes: Que
é o Socialismo?; Oito Horas de trabalho, Oito Horas de Descanso, Oito
Horas de Aperfeiçoamento Cultural, e Objectivos e Meios de Acção do
Proletariado Mundial.

Falavam aos camponeses no problema agrário, nas relações entre servos e


terratenentes, no carácter feudal do sistema de posse da terra utilizado
pelos Turcos. Os camponeses escutavam, olhando um pouco de lado, com um
imperceptível mover de bigodes e um leve enrugar da testa, como que a
fazer um esforço para reter na memória tudo o que ouviam, de molde a
poderem mais tarde meditar no assunto, a sós, ou discuti-lo com os
outros. Muita gente havia que continuava a manter um discreto silêncio e
rejeitava aquelas novidades e semelhante arrojo de ideias e de linguagem.
Mas muito mais ainda, sobretudo entre os mais novos, os pobres e os
preguiçosos, que aceitavam tudo aquilo como uma agradável confirmação que
correspondia aos seus mais secretos desejos, durante muito tempo
recalcados, e inoculava nas suas vidas algo de grande e excitante que até
então lhes faltara. Ao ler discursos e artigos, panfletos e memorandos
emanados das organizações religiosas e partidárias, cada um tinha a
impressão de que algo nele se libertava de velhas grilhetas, de que o seu
horizonte se tornava mais vasto, as suas ideias mais livres e as suas
forças se uniam às de outros homens mais distantes e a outras forças até
então insuspeitadas.

Começaram agora a olhar uns para os outros sob um ângulo completamente


diferente. Parecia-lhes, em suma, que, neste aspecto, também a vida se
lhes tornara mais expansiva e mais rica, que as fronteiras do ilícito e
do impossível tinham recuado e que se abriam na sua frente perspectivas e
possibilidades como nunca antes tinham existido e que eram acessíveis até
àqueles que anteriormente jamais as possuíram.

Para dizer a verdade, eles agora também não possuíam nada de novo nem
viam melhorias palpáveis, mas podiam ver algo mais para além do limitado
horizonte da vida quotidiana da cidade, e isso dava-lhes uma exaltante
ilusão de espaço e de força. Os seus hábitos não tinham mudado, o seu
modo de vida e as formas das suas relações mútuas permaneciam os mesmos,
apenas com uma variante: é que no velho ritual da cavaqueira ociosa em
torno do café, do tabaco ou da aguardente de ameixa se introduziram novos
métodos de conversação e palavras mais arrojadas.

238

Homens havia que começavam a abandonar as suas antigas companhias e a


formar novos grupos, a ser repelidos ou atraídos de acordo com novos
critérios e novas ideias, mas sempre sob a influência de velhas paixões e
de instintos ancestrais.
Também agora os acontecimentos externos começaram a achar eco na cidade.
Primeiro as alterações dinásticas na Sérvia, em 1903, e depois a mudança
de regime na Turquia. A cidade, que se encontrava quase na fronteira da
Sérvia e não muito longe dos limites da Turquia, estando, de mais a mais,
ligada por laços profundos e invisíveis a um ou a outro destes dois
países, sentiu essas transformações, viveu-as e interpretou-as, muito
embora nada daquilo que se pensou ou sentiu acerca delas tivesse alguma
vez sido dito publicamente ou discutido abertamente.

As actividades e pressões das autoridades começaram a fazer-se sentir


mais abertamente em Visegrad. Primeiro, as das autoridades civis, mas,
logo a seguir, também as das militares. E tudo isto de uma forma
absolutamente nova: a princípio começaram a observar o que cada um fazia
e como se conduzia, mas depois, não contentes com isso, começaram a
inquirir do seu modo de pensar e da maneira como o exprimia. O número de
gendarmes nas aldeias circunvizinhas situadas junto da fronteira foi
aumentando gradualmente. No comando local veio apresentar-se um oficial
dos seus serviços especiais de informação, proveniente de Lika. A Polícia
começou a prender e a multar os jovens por declarações imprudentes ou por
cantarem canções sérvias proibidas. Os estrangeiros suspeitos passaram a
ser expulsos. E entre a própria gente da terra as divergências de opinião
começaram a dar azo a disputas e rixas.

Com a introdução do caminho de ferro, não só as viagens se tornaram mais


rápidas e o transporte de mercadorias mais fácil, mas ainda, e quase
simultaneamente, os acontecimentos tomaram, também eles, um ritmo mais
acelerado. A gente da cidade não dava por isso porque a aceleração era
gradual e todos nela estavam envolvidos. Iam-se habituando a novas
emoções; as notícias sensacionais já não constituíam algo de raro e
desusado, mas sim uma verdadeira necessidade e eram o pão nosso de cada
dia. E a própria vida, no seu todo, parecia precipitar-se para qualquer
parte, bruscamente acelerada, como a água da torrente acelera o seu curso
antes de ir quebrar-se nos rápidos, galgar os rochedos escarpados e
transformar-se em cascata.

239

Quatro anos apenas tinham passado desde o aparecimento do primeiro


comboio na cidade quando, numa manhã de Outubro, foi afixada na kapia,
por baixo da placa com a inscrição turca, uma enorme proclamação branca.
Foi Drago, um funcionário municipal, que a foi colar. Começaram a juntar-
se primeiro em frente dela os ociosos e a miudagem, mas, mais tarde, caiu
lá a cidade em peso. Os que sabiam ler alguma coisa decifravam a
proclamação, soletrando-a e detendo-se quando encontravam alguma
expressão estrangeira ou frase desconhecida. Os outros ouviam em silêncio
e de olhos baixos e, depois de terem estado um bocado a ouvir,
dispersavam sem tirar os olhos do chão, cofiando a barba e o bigode, como
que a sacudir palavras que estiveram quase para sair mas que neles
ficaram presas.
Após as suas orações do meio-dia, veio também Alihodja, depois de ter
posto uma barra atravessada na porta da loja como sinal de que estava
fechada. Desta vez a proclamação não estava escrita também em turco, pelo
que o hodja não conseguiu lê-la. Mas havia um rapazito que estava a lê-la
em voz alta, mecanicamente, como quem está na escola. Era do seguinte
teor:

PROCLAMAÇÃO

Ao povo da Bósnia e Herzegovina

Nós, Francisca José, Imperador da Áustria, Rei da Boémia, etc., e Apo-


apo-apo-stólico Rei da Hungria, aos habitantes da Bósnia e Herzegovina,
fazemos saber:

Quando, há uma ge-ge-er-geração, os Nossos exércitos atravessaram as


fronteiras dos Vossos países...

Alihodja sentiu a orelha direita a latejar-lhe por baixo do fez branco e,


como se tivesse sido ontem, passaram-lhe como um relâmpago diante dos
olhos a querela que tivera com Karamanli, o ultraje que então sofrera,
aquela cruz vermelha que lhe bailava diante dos olhos marejados de
lágrimas enquanto o soldado austríaco lhe despregava cuidadosamente a
orelha e o edital branco com a proclamação então dirigida ao povo. O
rapazito continuou:

... foi-Vos então dada ga-ga-a-garantia de que eles não tinham vindo como
inimigos, mas sim como Vossos amigos, na firme intenção de arrancar pela
raiz todos os males que durante anos Vos tinham: op-op-oprimido.

240

A palavra que Vos foi dada nesse momento cri-... nesse momento crítico...

Toda a gente se pôs a barafustar contra aquele leitor tão desajeitado,


que, confuso e ruborizado, se escapuliu por entre a multidão. O seu lugar
foi ocupado por um desconhecido de casaco de couro, que parecia ter
estado à espera desta ocasião e que se pôs a ler rápida e fluentemente,
como quem reza uma oração que sabe de cor e salteado.
A palavra que Vos foi dada nesse momento crítico foi honestamente
cumprida. O Nosso Governo sempre se tem seriamente empenhado e trabalhado
na manutenção da ordem e da paz e em conduzir a Vossa pátria para um
futuro mais feliz.

E é com imensa alegria que ousamos afirmar francamente: a semente que foi
lançada nos sulcos de um solo assim preparado produziu uma rica colheita.
Também Vós deveis considerar estes factos como uma bênção: em vez de
violência e tirania, passou a haver ordem e segurança; o trabalho e a
vida encontram-se em incessante desenvolvimento; sob esta acção benéfica,
multiplicaram-se as oportunidades de progresso cultural; e ainda sob a
protecção de uma administração regular, deu-se a todos a possibilidade de
saborearem o fruto do seu trabalho.

Constitui solene dever de todos nós continuar o caminho que traçámos.

Sempre com esse objectivo diante dos olhos, consideramos que ê chegado o
momento de darmos aos habitantes destes dois países uma nova prova da
Nossa confiança na sua maturidade política. No intuito de elevar a Bósnia
e a Herzegovina a um mais alto grau de vida política, decidimos dotar os
dois países com instituições constitucionais — aquelas que correspondam
às suas condições actuais e aos seus interesses comuns — e dar assim uma
base legal à representação dos seus desejos e aspirações.

Que a Vossa voz se faça também ouvir quando, de futuro, forem tomadas
decisões que digam respeito aos problemas do Vosso país, o qual
continuará a ter, como até aqui, a sua administração em separado.

241

Mas a primeira condição indispensável para que seja introduzida esta


constituição nacional é a definição, em bases claras e indubitáveis, da
situação legal de ambos os países. Partindo deste princípio e sem
esquecer os laços que nos velhos tempos existiam entre os Nossos
gloriosos predecessores no trono da Hungria e estes países, estendemos os
nossos direitos de soberania sobre a Bósnia e Herzegovina e desejamos que
estes países aceitem a ordem de sucessão que é válida na Nossa Casa Real.

Assim, os habitantes de ambos os países receberão a sua quota-parte nos


benefícios que lhes pode assegurar o reforço duradouro dos laços que até
ao presente os têm ligado a Nós. O novo estado de coisas será a garantia
de que a cultura e a prosperidade continuarão a encontrar um abrigo
seguro na Vossa pátria.

Cidadãos da Bósnia e Herzegovina!

Entre as muitas preocupações que envolvem o Nosso trono, a que teremos


com a Vossa prosperidade material e moral não será a mais pequena. A
suprema ideia da igualdade de todos perante a lei, a participação na
confecção dias leis e na administração do país, uma igual protecção
concedida a todos os credos, línguas e características nacionais — eis os
principais de entre os benefícios de que gozareis plenamente.

A liberdade do indivíduo e o bem da comunidade serão as estrelas que


guiarão o Nosso Governo em relação a estes dois países...

Com a boca meio aberta e a cabeça inclinada, Alihodja escutava aquelas


palavras, que, na sua maior parte, lhe eram pouco, familiares, ou
totalmente desconhecidas, e mesmo aquelas que não o eram em si próprias
se tornavam, naquele contexto, de certo modo estranhas e
incompreensíveis: «Semente... lançada nos sulcos de um solo assim
preparado... primeira e necessária condição para que seja introduzida
esta constituição local... definição em bases claras e indubitáveis da
situação legal... a estrela que guiará o Nosso Governo!» Sim, não havia
dúvida! Lá vinham, mais uma vez; «as palavras imperiais»! E cada uma
delas ora abria perante a visão interior do hodja uma perspectiva
longínqua, extraordinária e perigosa, ora era como uma espécie de cortina
negra e plúmbea que se lhe fechava diante dos olhos. Assim, cada coisa
por seu turno; ou não via nada ou via algo que não compreendia e que não
pressagiava nada de bom.

242

Nesta vida nada é impossível e todas as maravilhas são possíveis. Podia


mesmo acontecer que um homem estivesse a ouvir com toda a atenção, sem
perceber nada em pormenor, mas compreendendo simultaneamente com
perfeição e imaginando de maneira completa o que tudo queria dizer em
bloco. Aquela semente, aquela estrela, aquelas preocupações com o trono.
Muito embora tudo aquilo estivesse escrito numa língua estrangeira, nem
por isso o hodja deixava de compreender, ou pelo menos assim lhe parecia,
o que se queria dizer e onde se queria chegar. Estes imperadores havia já
trinta anos que lançavam apelos por cima dos países, Cidades e da cabeça
dos povos; e cada palavra de cada proclamação de cada imperador tinha
pesadas consequências. Porque esses países estavam partidos em pedaços e
nesses países as cabeças rolavam por causa dessas palavras. Assim, se se
fala em «semente... estrela... preocupações do trono» é para não ter de
chamar as coisas pelo seu verdadeiro nome e dizer o que na realidade se
passa: que os países e as províncias e, com eles, os homens vivos e as
suas habitações, passam de mão em mão, como moeda miúda; que um homem de
boa fé e bem intencionado já não pode achar paz neste mundo, como também
não pode encontrar o pouco de que precisa durante a sua curta vida; que a
sua situação e os seus bens mudam independentemente da sua vontade e
contra os seus desejos e as suas melhores intenções.

Alihodja ia ouvindo e tinha constantemente a impressão de que aquelas


palavras continuavam a ser as mesmas de há trinta como era o mesmo o peso
de chumbo que sentia no peito e também a mesma a mensagem que anunciava
que o tempo dos Turcos tinha acabado, e que «a vela turca se tinha
consumido»; palavras, contudo, era sempre necessário repeti-las porque
eles as entendiam ou não lhes davam o verdadeiro significado, iludindo-se
a si próprios e fingindo não ter delas o mais pequeno conhecimento.

Em troca, ireis mostrar-Vos certamente dignos da confiança em Vós


depositada, de modo que a nobre harmonia existente entre o soberano e o
povo, que é a mais preciosa garantia do progresso do Estado, acompanhe
sempre o Nosso trabalho comum.

Outorgado na Nossa Capital e Residência Real de Budapeste.

Francisco José

243

O homem do casaco de couro parou repentinamente de ler e gritou


inesperadamente:

— Viva Sua Majestade o Imperador!

— Viva! — gritou, como que obedecendo a uma voz de comando, o grandalhão


do Ferhat, o tal que acendia os candeeiros de iluminação pública.

Todos os outros dispersaram no mesmo instante, em silêncio.

Nesse mesmo dia, ainda a noite não tinha caído, já a proclamação branca
tinha sido arrancada e atirada ao Drina. No dia seguinte alguns jovens
sérvios eram presos como suspeitos, uma cópia nova da proclamação afixada
na kapia e um gendarme da guarnição local colocado de guarda a ela.

Sempre que um Governo sente a necessidade de prometer paz e prosperidade


aos seus cidadãos por meio de uma proclamação, é a altura de estes se
precaverem e esperarem o contrário. Em fins de Outubro as tropas
começaram a chegar, vindas não só por caminho de ferro, mas ainda
utilizando a velha estrada deserta. Tal como trinta anos antes, desciam a
íngreme rampa que vem de Serajevo e atravessavam a ponte, para entrarem
na cidade, com armas e mantimentos. Havia unidades de todas as armas,
excepto de cavalaria. Todos os aquartelamentos se encheram. Muitas
unidades tiveram de armar tendas e acampar. Continuamente iam chegando
mais forças, que permaneciam uns dias na cidade e depois eram destacadas
para as aldeias ao longo da fronteira sérvia. Os soldados eram
principalmente reservistas de várias nacionalidades, com bastante
dinheiro no bolso. Faziam as suas pequenas compras pessoais nas lojas e
compravam frutas e doces pelas esquinas. Os preços subiram. O feno e a
aveia esgotaram-se por completo. Começaram a construir-se fortificações
nos montes que rodeiam a cidade. E na própria ponte iniciou-se uma tarefa
muito estranha. A meio dela, logo a seguir à kapia, para quem vem da
cidade para a margem esquerda do Drina, operários, deslocados
especialmente para isso, começaram a abrir num dos pilares um buraco com
cerca de um metro quadrado. O local onde trabalhavam estava tapado com
uma tenda verde, por baixo da qual se ouvia um incessante martelar, que
cada vez vinha mais de dentro do pilar. A pedra da escavação era
imediatamente atirada do parapeito para o rio. Por muito que o trabalho
fosse ocultado, sempre se veio a saber na cidade que a ponte estava a ser
preparada para ser dinamitada, isto é, que estavam a abrir nela um buraco
profundo, que atravessaria o pilar até à base, no qual se colocariam
explosivos no caso de estalar uma guerra e ser necessário destruí-la.

244

Foram colocadas umas compridas escadas de ferro pelo buraco abaixo e a


abertura, quando tudo estava concluído, foi coberta com uma placa também
de ferro. Poucos dias depois já essa placa se não distinguia das pedras e
da poeira. As carroças passavam por cima, os cavalos trotavam, os homens
apressavam-se para irem às suas ocupações, sem pensarem no pilar minado
nem nos explosivos. Apenas a miudagem que ia para a escola parava naquele
sítio, dava umas pancadinhas de curiosidade naquela porta de ferro,
procurando adivinhar o que se escondia por trás dela. Os garotos
começaram a fantasiar a existência de um novo Árabe escondido na ponte e
a discutir o que viria a ser um explosivo, que efeitos produzia e se
seria possível que destruísse uma tão grandiosa construção.

Dos adultos, apenas Alihodja rondava por ali e examinava, com ar sombrio
e desconfiado, enquanto o trabalho seguia o seu curso, a tenda verde, e,
mais tarde, depois de ele estar concluído, a placa de ferro que ficou na
ponte. Escutava tudo o que se dizia e murmurava, ou seja: que no pilar
tinham aberto um buraco tão fundo como um poço, que nele tinham colocado
explosivos, os quais estavam ligados à margem por um fio eléctrico de
modo que o comandante, a qualquer hora do dia ou da noite, podia destruir
a ponte mesmo no meio, como se fosse feita de açúcar, e não de pedra. O
hodja ouvia, meneava a cabeça e ia meditar no assunto para o «seu
esquife», se era de dia, para a cama, de noite, quando devia estar a
dormir; ora acreditava, ora recusava uma tal ideia como coisa demasiado
louca e ímpia, mas o assunto preocupava-o constantemente, a ponto de até
em sonhos lhe ter aparecido o antigo administrador dos bens do vakuf de
Mehmed Paxá e lhe ter perguntado com ar severo o que era tudo aquilo e
que estavam a fazer à ponte. Tais preocupações ia-as ele revolvendo
sempre no seu cérebro. Não queria perguntar nada a ninguém no mercado
porque considerava que já há muito tempo; que não havia ninguém a quem um
homem sensato pudesse consultar ou com quem pudesse conversar
razoavelmente, uma vez que toda a gente, ou tinha perdido o juízo e a
reputação, ou estava tão indignada e confusa como ele.

Mesmo assim, não demorou muito tempo que não tivesse uma oportunidade de
saber mais coisas acerca do assunto. Muhamed Brankovic, um dos beis de
Crnce, que tinha feito o seu serviço militar em Viena, permanecera na
tropa muito tempo para além do que era obrigatório, sempre naquela
cidade, e chegara mesmo a atingir o posto de primeiro-sargento (era o
neto daquele Shemsibeg que, após a ocupação, se tinha encerrado em Crnce
e morrido de desgosto, pelo que ainda agora era citado pelos turcos mais
velhos como, um exemplo inacessível de elevação: moral e de coerência de
atitudes)

245

Aconteceu que nesse ano Muhamed veio a casa de licença. Era um homem
forte e alto, ruivo, envergando um impecável uniforme azul-escuro com
divisas amarelas, dragonas vermelhas, umas estrelinhas prateadas no
colarinho, luvas de pele muito brancas e um fez vermelho na cabeça.
Cortês, risonho, impecavelmente limpo e apresentado, passeava pelo bairro
do mercado batendo discretamente com a sua enorme espada no pavimento e
mostrando-se amável e confiante para toda a gente, como um homem que
comeu o pão do imperador, que não duvida da sua própria importância e que
não tem razões para ter medo dos outros.

Quando Muhamed chegou à sua loja, lhe perguntou pela saúde e se sentou
para beber uma chávena de café, Alihodja aproveitou a oportunidade para
lhe perguntar se, na qualidade de homem do imperador que vivia longe da
cidade, lhe podia dar uma explicação acerca daquilo que o preocupava e
oprimia. Explicou-lhe em que consistia o problema, o que tinham feito na
ponte e o que se dizia na terra e perguntou-lhe se uma coisa daquelas
seria possível e se era de admitir que se planeasse realmente a
destruição de um legado de interesse público tão grande como este era.

Logo que viu o que estava em causa, o sargento pôs-se de repente muito
sério. O seu largo sorriso sumiu-se e o seu rosto corado e bem barbeado
tomou uma expressão dura, como se estivesse na parada no momento em que a
voz de comando gritava: «Sentido!». Calou-se por momentos, como que
indeciso, e depois replicou numa voz sumida:

— Há alguma coisa de verdadeiro em tudo o que o senhor diz. Mas se quer


que realmente lhe diga a minha opinião, acho que o melhor é não fazer
muitas perguntas acerca do assunto nem falar muito nele, porque faz parte
dos preparativos de guerra, dos segredos militares, etc., etc.

O hodja detestava todas as expressões novas e especialmente aqueles «etc,


etc.» Não era só porque a palavra lhe feria os ouvidos, mas sobretudo
porque sentia claramente que, na boca destes estrangeiros, ela vinha
substituir a verdade não confessada e que tudo o que antes tinha sido
dito não tinha a menor importância.

— Por amor de Alá, não me venha para cá com esses «etc., etc.» que eles
empregam. Trate mas é de me explicar, se pode, o que é que eles andam a
fazer à ponte. Isso é que não deve constituir segredo para ninguém.
246

E, de qualquer maneira, que diabo de segredo é esse que até as crianças


da escola falam nele? — interrompeu o hodja num tom zangado. — E, para
mais, que é que a ponte tem a ver lá com a guerra deles?

— Tem, sim, Alihodja; tem muito que ver com ela — disse Muhamed, voltando
a sorrir.

E explicou a Alihodja, num tom amável mas um pouco em ar de


condescendência, como quem está a falar com uma criança, que tudo aquilo
estava previsto nos regulamentos militares, que era para isso que existia
no Exército a arma de engenharia e que no exército imperial cada um sabia
apenas aquilo que dizia respeito à sua especialidade e não tinha que se
intrometer nas atribuições dos outros.

O hodja escutava-o e olhava para ele, mas não estava a perceber grande
coisa. Por fim, acabou por não se conter.

— Tudo isso é muito bonito, meu rico menino, mas sabem eles que esta
ponte é um legado de um vizir, construído para bem da sua alma e para
glória de Alá, e que é um pecado arrancar-lhe uma só pedra que seja?

O sargento limitou-se a abrir os braços, encolher os ombros, morder os


lábios e fechar os olhos, de modo que todo o seu rosto assumiu uma
expressão astuta e polida, imóvel, cega e surda, uma daquelas expressões
que os homens só podem adquirir em longos anos de prática em
administrações antiquadas e decadentes, nas quais a discrição há muito
degenerou em insensibilidade e a obediência em cobardia. Uma folha de
papel absolutamente em branco ainda é mais eloquente que a muda prudência
de um rosto assim. Passado um momento, o homem do imperador abriu os
olhos, deixou cair as mãos, desenrugou a cara e mais uma vez retomou a
sua habitual aparência de confiança e serenidade, na qual o bom humor
vienense e a cortesia turca se encontravam e se misturavam como duas
águas. Mudando de assunto e felicitando o hodja, com palavras bem
escolhidas, pela sua saúde e aparência juvenil, despediu-se com a mesma
inesgotável amabilidade com que viera. E o hodja ficou embaraçado e
intimamente perturbado, mas não menos preocupado que anteriormente.
Perdido nos seus pensamentos, olhava da sua loja para a beleza esfusiante
daquele primeiro dia de Março. Quase na sua frente, mas um pouco ao lado,
lá estava a eterna ponte, eternamente igual a si mesma; através dos seus
arcos brancos podia ver-se as águas verdes, espumosas e agitadas do
Drina, como um estranho diadema a duas cores que brilhava ao sol.

247

XVIII
A tensão a que o mundo chamou «crise de anexação» e que tinha projectado
a sua sombra agoirenta sobre a ponte e a cidade à sua beira depressa
acalmou. Algures, lá longe, por meio da diplomacia e de conversações
entre as partes interessadas, encontrou-se uma solução pacífica.

A fronteira, sempre tão inflamável, não pegou fogo desta vez. O exército
que tinha enchido a cidade e as aldeias fronteiriças começou a ir-se
embora, a pouco e pouco, nos primeiros dias da Primavera. Mas, como
sempre, as transformações que a crise provocara permaneceram mesmo depois
dela passada. A guarnição permanente da cidade passou a ser muito maior
que dantes. A ponte continuou minada. Mas ninguém se importava com isso,
a não ser Alihodja Mutevelic. O terreiro que ficava no flanco esquerdo da
ponte, por cima do antigo muro de suporte, e que era o parque da cidade,
foi ocupado pelas autoridades militares. As árvores de fruto que havia no
centro do parque foram arrancadas para, no mesmo sítio, se construir um
belo edifício. Tratava-se da nova messe dos oficiais, porque a antiga,
uma casinha térrea que havia em Bikovac, era agora demasiado pequena para
o número sempre crescente de oficiais. Desta maneira, havia agora à
direita da ponte o hotel de Lotte e a messe dos oficiais à esquerda, dois
edifícios brancos quase iguais, ficando entre eles o largo rodeado por
lojas, e, por cima dele, numa pequena elevação, os enormes barracões do
quartel, a que o povo continuava a chamar han de pedra, em memória do
imponente caravansará de Mehmed Paxá que ali existira mas de que agora já
não restavam vestígios.

Os preços, que uma vez mais tinham trepado durante o Outono anterior por
causa do grande número de soldados, não sofreram alteração e via-se que
havia mais probabilidades de continuarem a subir do que de voltarem ao
nível anterior. Nesse ano abriram um banco sérvio e outro muçulmano.

248

A população começou a utilizar letras como quem toma remédios. Toda a


gente começou a endividar-se mais facilmente. Mas quanto mais dinheiro
uma pessoa tinha de mais precisava. Apenas para aqueles que gastavam mais
do que ganhavam parecia a vida fácil e boa. Mas os comerciantes e homens
de negócios estavam preocupados. Os prazos de pagamento iam-se tornando
cada vez mais curtos e os fregueses bons e dignos de confiança cada vez
mais raros. O número dos artigos cujo preço era inacessível à maioria das
bolsas aumentava também constantemente. O negócio fazia-se em pequena
escala e era cada vez maior a procura dos artigos de tipo mais barato. Só
os maus pagadores compravam à larga. O único negócio sólido e garantido
era o do fornecimento do exército ou de alguma instituição governamental,
mas nem todos podiam obter tais encomendas. Os impostos do Estado e as
taxas municipais iam-se tornando mais pesados e mais numerosos; o rigor
dos fiscais aumentava. Sentiam-se a distância as flutuações pouco
saudáveis dos câmbios. Os lucros que delas resultavam iam parar a mãos
desconhecidas, ao passo que as perdas iam atingir até os mais remotos
cantos da monarquia e ferir os pequenos comerciantes, quer como
vendedores, quer como consumidores.

O estado de espírito geral da cidade não era mais sereno nem mais calmo.
O repentino alívio da tensão existente não trouxe uma verdadeira
tranquilidade, nem entre os Sérvios nem entre os Muçulmanos; nos
primeiros deixou um secreto sentimento de desilusão e nos segundos
desconfiança e medo do futuro. Uma vez mais se acentuou a expectativa de
grandes acontecimentos, sem nenhuma razão visível ou causa directa. O
povo esperava ou receava alguma coisa (para dizer a verdade, uns
esperavam, enquanto outros receavam) e tudo apreciava à luz dessas
esperanças ou receios. Numa palavra: os corações dos homens estavam
inquietos, mesmo os da gente simples e analfabeta, especialmente os dos
jovens, e já ninguém conseguia sentir-se satisfeito com aquela maneira de
viver monótona que durante anos arrastara. Todos queriam mais, pediam
melhor ou tremiam com medo do pior. A gente mais idosa ainda continuava a
ter saudades daquela doce tranquilidade que no tempo dos Turcos era
considerada a finalidade primeira da existência e a mais perfeita
expressão da vida pública e privada, e que ainda existiu durante as
primeiras décadas da administração austríaca. Mas eram poucos os que
assim pensavam. Todos os outros aspiravam a uma vida animada, ruidosa e
excitante.

249

Queriam sensações ou o eco das sensações dos outros, ou, pelo menos,
aquele movimento, barulho e excitação que dessem a ilusão da sensação. Um
tal desejo não apenas transformava o estado de espírito dos homens, mas
até a aparência exterior da cidade. A própria vida na kapia, tão
tradicional e enraizada, essa vida de pachorrenta cavaqueira e serena
meditação, de dichotes inofensivos e de canções amorosas, entre as águas,
o céu e as montanhas, começou a mudar.

O vendedor de café arranjou um gramofone, uma pesada caixa de madeira com


uma grande campânula estanhada, com a forma da flor azul do mesmo nome. O
filho dele encarregava-se de mudar os discos e as agulhas e estava
constantemente a dar corda àquele instrumento fanhoso, que ecoava em
ambas as margens e fazia vibrar a kapia. Fora forçado a tomar aquela
iniciativa para não ser ultrapassado pelos competidores, uma vez que os
gramofones agora constituíam uma verdadeira praga que se ouvia não só nas
associações e salas de leitura, mas até nos mais humildes cafés em que os
fregueses se sentavam debaixo da tílias, na relva ou em varandas cheias
de luz, falando pouco e em voz baixa. Por toda a parte os gramofones
moíam e repisavam marchas turcas, canções patrióticas da Sérvia ou árias
de operetas vianenses, de acordo com os gostos dos clientes para quem
tocavam. Porque os homens já não frequentavam sítios onde não houvesse
barulho, muitas luzes e movimento. Os jornais eram lidos com avidez, mas
superficial e apressadamente; toda a gente procurava apenas as notícias
sensacionais impressas a grandes letras na primeira página. Poucos havia
que lessem os artigos ou as notícias impressos em tipo miúdo. Tudo o que
se passava era acompanhado pelo clamor e o brilho das grandes palavras.
Os jovens achavam que não tinham vivido verdadeiramente nos dias em que,
ao deitar, os ouvidos lhes não vibrassem ainda e os olhos não estivessem
ainda maravilhados com o que tinham ouvido e visto durante o dia.

Os agás e effendis da cidade apareciam na kapia, sérios e aparentemente


indiferentes, para ouvir as últimas notícias da guerra italo-turca em
Tripoli. Escutavam avidamente tudo quanto vinha escrito nos jornais
acerca do jovem e heróico major turco Enver Bey, que estava a bater os
Italianos e a defender as terras do sultão como um descendente dos
Sokollis ou dos Kuprulus. Franziam o sobrolho ao ouvir a música
barulhenta do gramofone, que os impedia de se concentrarem nos seus
pensamentos, e, sem o mostrarem, profunda e sinceramente tremiam pelo
destino daquela distante província turca em África.

250

Aconteceu por acaso que, mesmo numa dessas alturas, Pietro, o italiano,
aquele nosso tão conhecido mestre Pedro, ao voltar do trabalho, de fato-
macaco, todo branco de pó e manchado de tinta e de terebintina,
atravessou a ponte. Estava mais velho e curvado e ainda mais humilde e
tímido. Como no tempo em que Lucchieni assassinara a imperatriz, parecia,
de acordo com uma lógica que para ele era incompreensível, que uma vez
mais voltava a ter culpas em algo que os seus compatriotas italianos, com
os quais não mantinha contacto há uma imensidade de anos, tinham feito
algures lá fora. Um dos jovens turcos gritou:

— Com que então queres abarbatar Tripoli, meu grande filho da mãe! Sim,
tu, não estejas a fazer-te parvo!

E acompanhou estas palavras com gestos obscenos. Mas mestre Pedro,


curvado e cansado, com a ferramenta debaixo do braço, limitou-se a puxar
mais o chapéu para os olhos, a apertar mais o cachimbo nos dentes e a
estugar o passo para chegar mais depressa à sua casa no Mejdan, onde a
sua Stana o esperava.

Também ela tinha envelhecido e perdera muito da sua robustez, mas ainda
era uma mulher que metia respeito e sem papas na língua. Ele queixou-se
amargamente dos jovens turcos que tinham dito coisas que não deviam dizer
e lhe perguntaram por Tripoli, que até há poucos dias ele nem sequer
sabia que existia. Mas Stana, como sempre, em vez de o compreender e
consolar, ainda lhe disse que a culpa era toda dele e que ele bem merecia
que lhe gritassem injúrias.

— Se fosses um verdadeiro homem, coisa que tu não és, davas-lhes com o


formão ou com o martelo nas ventas, e então essa canalha nunca mais se
lembraria de troçar de ti e até era capaz de se levantar quando fosses a
atravessar a ponte.

— Ah! Stana, Stana — respondeu placidamente mestre Pedro, com um ar um


pouco triste —, como pode um homem bater na cara de outro com um martelo?

Assim foram decorrendo aqueles anos, numa sequência de sensações maiores


ou menores, ou numa necessidade constante delas. Assim se chegou ao
Outono de 1912; veio depois 1913, com as guerras nos Balcãs e as vitórias
sérvias. Por uma estranha excepção, precisamente estes acontecimentos,
que eram de tão grande importância para os destinos da ponte, da cidade e
de todos os que nela viviam, é que passaram em silêncio e quase
despercebidos.

Avermelhados ao amanhecer e ao pôr do Sol, dourados entre um e outro, os


dias de Outubro passaram sobre a cidade, que esperava a colheita do milho
e a aguardente nova. Era ainda agradável sentar-se uma pessoa na kapia,
ao sol do meio-dia.

251

Parecia que o tempo se tinha detido sobre a cidade. Foi então que a coisa
aconteceu.

Ainda as pessoas letradas da terra se não tinham orientado bem no


labirinto das notícias contraditórias dos jornais e já a guerra entre a
Turquia e os Estados Balcânicos tinha rebentado e alastrava, pelos
caminhos do costume, através dos Balcãs. E ainda o povo não tinha
apreendido bem o sentido e o significado dessa guerra, já ela tinha
terminado com a vitória das armas sérvias e cristãs; tudo se tinha
passado longe de Visegrad, sem tiros nas fronteiras, sem o troar dos
canhões e sem cabeças cortadas na kapia. Tal como acontecera com o
comércio e com o dinheiro, assim sucedia também com aquelas coisas que
eram de maior importância: tudo se consumava lá longe e com incrível
rapidez. Algures no vasto mundo, os dados foram lançados, as batalhas
travadas e foi aí que o destino de cada um dos visegradenses foi
decidido.

Mas se o aspecto exterior da cidade permaneceu tranquilo e imutável,


esses acontecimentos desencadearam nas cabeças dos homens verdadeiras
tempestades do mais vivo entusiasmo e da mais profunda depressão. Como
tudo o que se passara no mundo nos anos mais recentes, eles foram
acolhidos na cidade com sentimentos diametralmente opostos pelos Sérvios
e pelos Muçulmanos; só na intensidade e profundidade eram eles,
porventura, iguais. Porque esses acontecimentos ultrapassaram todas as
esperanças de uns, ao mesmo tempo que todos os receios dos outros
pareceram justificados. Aqueles desejos que há centenas de anos se
lançavam à frente da marcha lenta da história, precedendo-a de perto, não
podiam já agora acertar o passo com ela, nem acompanhá-la naquela espécie
de voo fantástico a caminho das mais ousadas realizações.

Tudo o que a cidade podia ver ou sentir dessa guerra fatídica acontecia
com simplicidade incrível e com a rapidez de uma flecha. Em Uvce, onde a
fronteira entre a Áustria-Hungria e a Turquia seguia o pequeno rio Uvac e
onde uma ponte de madeira separava o posto da polícia austríaca do fortim
turco, o oficial que comandava a guarnição desta passou-se com o seu
pequeno grupo de homens para o lado contrário. Num gesto teatral, quebrou
o seu sabre contra o parapeito da ponte e rendeu-se à polícia austríaca.
No mesmo instante, a infantaria sérvia, de uniforme cinzento, desceu das
colinas e veio substituir, ao longo de toda a fronteira entre a Bósnia e
o Sanjak, as tropas regulares turcas, de equipamento antiquado.

252

O triângulo entre a Áustria, a Turquia e a Sérvia desapareceu. A


fronteira turca, que ainda no dia anterior ficava a cerca de 10
quilómetros da cidade, recuou subitamente mais de 800 quilómetros,
fixando-se muito longe, para lá de Andrinopla.

Tantas e tão importantes transformações, processadas assim em tão pouco


tempo, abalaram a cidade até aos alicerces.

Para a ponte sobre o Drina esta mudança foi fatal. A ligação ferroviária
com Serajevo, tinha, como já vimos, reduzido quase a zero a sua
importância nas relações com o Ocidente, e agora, num ápice, ficava
também cortada a sua ligação com o Oriente. Na verdade, esse Oriente que
a tinha criado e que até ao dia anterior continuara a estar ali presente
— fortemente abalado e enfraquecido, é certo, mas tão permanente e real
como o céu e a Terra —, tinha-se agora desvanecido como uma aparição.
Agora a ponte, na realidade, já não ligava nada, a não ser as duas partes
da cidade e aquela dúzia de aldeias, pouco mais ou menos, que havia de um
lado e do outro do Drina.

A grande ponte de pedra que, de acordo com a ideia e as piedosas


intenções do grão-vizir de Sokolovic, se destinavam a unir as duas partes
do império e que, «por amor de Alá», tornava mais fácil a passagem do
Ocidente para o Oriente e do Oriente para o Ocidente, estava agora, na
verdade, separada tanto do Oriente como do Ocidente e abandonada como um
barco naufragado ou um santuário sem culto. Durante três séculos inteiros
tinha resistido e experimentado tudo e, firme, tinha cumprido fielmente a
sua missão; mas as necessidades humanas mudam e as condições do mundo
alteram-se. E agora era o próprio fim para que fora criada que a traía.
Pelo seu tamanho, a sua solidez e a sua beleza, poderiam ainda por muitos
e muitos séculos passar por cima dela exércitos e caravanas, uns atrás
dos outros: mas eis que, pelo eterno e imprevisível jogo das relações
humanas, o legado do vizir se achou de repente abandonado e, como que por
artes mágicas, afastado da principal corrente de vida. O actual papel da
ponte de nenhum modo correspondia à sua aparência eternamente nova e às
suas gigantescas mas harmoniosas proporções. Mas mantinha-se com a mesma
firmeza, como quando o gão-vizir a vira na sua visão interior, por trás
dos seus olhos fechados, ou quando os seus pedreiros a construíram:
imponente, bela e resistente, para além de todas as possibilidades de
mudança.

Foi preciso tempo, foi preciso esforço para que os habitantes da cidade
compreendessem tudo o que aqui foi dito em poucas linhas e que teve
lugar, efectivamente, em poucos meses.

253

Nem sequer em sonhos as fronteiras mudavam tão repentinamente ou se


deslocavam para tão longe.

Tudo o que nos homens permanecera adormecido, e que era tão velho com
aquela ponte e mudo e imóvel como ela, despertava agora subitamente e
começava a influenciar a sua vida quotidiana, o estado de espírito geral
e o destino pessoal de cada indivíduo.

Os primeiros dias do Verão de 1913 foram chuvosos e opressivos. Na kapia,


durante o dia, sentavam-se os muçulmanos da cidade, taciturnos e
deprimidos. Uma vez, um grupo deles, cerca de uma dúzia de velhos, estava
reunido em volta de um mais novo, que lhes lia o jornal, traduzindo as
expressões estrangeiras e os nomes pouco vulgares, ao mesmo tempo que
lhes ia dando esclarecimentos de ordem geográfica. Todos fumavam
tranquilamente e olhavam imperturbavelmente em frente, mas não podiam
ocultar por completo a ansiedade e a perturbação que no íntimo sentiam.
Dominando a emoção, debruçaram-se sobre o mapa que indicava a futura
partilha da Península Balcânica. Olhavam para o papel e nada podiam ver
naquelas linhas sinuosas, mas sabiam e compreendiam tudo porque a sua
geografia estava no próprio sangue e sentiam biologicamente a sua imagem
do mundo.

— Para quem ficará Uskub ? — perguntou um velhote, com aparente


indiferença, ao jovem que estava a ler.

— Para a Sérvia.

— Hum!

— E quem vai ficar com Salónica ?

— A Grécia.

— Hum! Hum!

— E Jedrene ? — perguntou outro em voz baixa.

— Provavelmente para a Bulgária.


— Hum! Hum! Hum!

Estes lamentos não eram ruidosos nem lúgubres, como os das mulheres ou
dos seres fracos, mas suspiros abafados e profundos, que se perdiam com o
fumo do tabaco que era impelido através dos bigodes para o ar quente do
Verão. Muitos daqueles homens já tinham ultrapassado os 70 anos. Na sua
infância, o domínio turco estendia-se da Lika e do Kordum até Istambul, e
daí até às fronteiras indeterminadas e desérticas da Arábia distante e
intransponível (esse domínio turco mais não tinha sido que a grande,
indivisível e indestrutível unidade do credo maometano e, na sua
concepção, estendia-se a todas as partes do globo terrestre onde o
muezzin chamava os fiéis à oração.

254

Lembravam-se bem disso, mas também não esqueciam como, mais tarde, no
decurso das suas vidas, esse domínio turco se tinha retirado da Sérvia
para a Bósnia e, depois, desta para o Sanjak. E eis que agora, diante dos
seus olhos, esse domínio, como o refluxo de uma maré fantástica, começava
a descer bruscamente e se retirava para muito longe, fora do alcance da
sua vista, deixando-os aqui, decepcionados e ameaçados, como ervas
aquáticas em terra firme, abandonados aos seus próprios planos e ao seu
destino infeliz. Tudo isto vinha de Alá e, sem dúvida, estava
compreendido nos próprios desígnios de Alá, mas era difícil de perceber
para os simples mortais. Com a respiração cortada e a consciência
perturbada, eles tinham a sensação de que a terra firme lhes fugia
debaixo dos pés como um tapete que se puxa e de que as fronteiras, que
deviam ser sólidas e duradouras, se tinham tornado fluidas e móveis,
afastando-se e perdendo-se na distância como os caprichosos regatos na
Primavera.

Tais eram os pensamentos e sentimentos dos velhotes que estavam sentados


na kapia e escutavam vagamente tudo o que vinha nos jornais. Escutavam em
silêncio, ainda que as palavras em que os jornais falavam de reinos e
Estados lhes parecessem loucas, impudentes e despropositadas e toda
aquela maneira de escrever se lhes afigurasse como algo de sacrílego,
contrário à lógica e às leis eternas da vida, algo que não traria nada de
melhor e com que nenhum homem decente e honrado poderia alguma vez
reconciliar-se. Por cima das suas cabeças pairavam nuvens de fumo de
tabaco, e lá mais no alto, nos céus, corriam, nuvens brancas e
esfarrapadas de um Verão chuvoso, projectando no solo sombras rápidas e
largas.

À noite, na mesma kapia, encontravam-se os jovens das famílias sérvias,


que ficavam até altas horas a cantar alto e de maneira provocadora a
canção que falava do canhão sérvio. E ninguém vinha multá-los nem puni-
los. Entre eles notava-se frequentemente a presença de estudantes das
Universidades ou de escolas secundárias. Eram, na maior parte, rapazes
magros e pálidos, de cabelos compridos e com um chapéu preto e baixo, com
umas grandes abas. Naquele Outono apareceram com muita frequência, se bem
que o ano escolar já tivesse começado. Vinham de Serajevo no comboio, com
instruções e recomendações, passavam a noite aqui na kapfa, mas ao
amanhecer do dia seguinte já não eram vistos na cidade porque os jovens
de Visegrad os ajudavam a passar clandestinamente para a Sérvia.

Nos meses de Verão, quando chegavam as férias escolares, a cidade e a


kapia animavam-se com a presença dos estudantes nascidos na cidade que
regressavam a casa.

255

Toda a vida local era influenciada por essa presença.

No fim de Junho chegou um grupo de estudantes do liceu de Serajevo e na


primeira metade de Julho começaram a aparecer, um a um, os que
frequentavam os cursos superiores de Direito, Medicina e Filosofia nas
Universidades de Viena, Praga, Graz e Zagreb. Com a sua chegada, até o
aspecto exterior da cidade começou a transformar-se. Os seus rostos
jovens viam-se no bairro do mercado e na kapia e facilmente se
distinguiam, pelas atitudes, pela linguagem e pelo vestuário, dos hábitos
estabelecidos e da maneira de vestir, sempre a mesma, da gente da terra.
Usavam fatos de cores escuras e de corte moderno, de acordo com a chamada
glockenfaçon, então considerada a última palavra nos domínios da moda e o
supra-sumo do bom gosto em toda a Europa Central. Cobriam a cabeça com
uns chapéus leves de palhinha, uma espécie de panamás com as abas viradas
para baixo e enfeitados com uma fita de seis cores diferentes mas
discretas; calçavam grandes sapatos americanos com as biqueiras muito
aguçadas e levantadas. Muitos deles usavam umas bengalinhas muito finas
de bambu e, na lapela do casaco, emblemas com as insígnias do Sokol ou de
qualquer organização académica.

Os estudantes trouxeram consigo novas palavras e gracejos, novas danças


que estavam na moda nos bailes do último Inverno e, sobretudo, novos
livros e panfletos sérvios, checos e alemães. Já noutros tempos
acontecera, durante os primeiros anos da ocupação austríaca, irem os
jovens da cidade estudar para fora, mas nunca em tão grande número, nem
inspirados pelo espírito que agora imperava. Durante essas primeiras
décadas apenas alguns, e muito poucos, tinham concluído o curso* da
Escola do Magistério em Serajevo, e dois ou três tinham mesmo cursado
Filosofia em Viena, mas estes não passavam de raras excepções, rapazes
modestos que tinham passado os seus exames discretamente e sem se
tornarem notados, e que, depois de completados os estudos, se tinham
diluído nas pardas e imensas fileiras da burocracia do Estado. Mas, de há
uns tempos a esta parte, o número de estudantes visegradenses tinha
aumentado de repente. Com o auxílio das instituições culturais nacionais,
até os filhos dos camponeses e dos pequenos artesãos iam frequentar a
Universidade. O próprio espírito e o carácter dos estudantes se
transformaram.
Estes estavam já muito longe de ser; como os dos velhos tempos dos
primeiros anos da ocupação, jovens tímidos e ingénuos, completamente
devotados aos seus estudos, no sentido mais restrito do termo.

256

Mas também não eram já os vulgares janotas e estróinas de outras épocas,


futuros terratenentes e comerciantes que num certo período das suas vidas
esbanjavam a sua mocidade e vigor na kapia, até que as famílias se
decidiam a dizer: «Toca a casá-lo, para acabar com este cantorio!» Estes
jovens de agora eram de uma nova espécie, educados em várias cidades e
países e sob as mais variadas influências. Das grandes cidades, das
Universidades e das escolas que frequentavam, voltavam eles intoxicados
com aquele sentimento de orgulhosa audácia que as primeiras luzes de um
saber incompleto inspiram a um jovem e entusiasmados com ideias acerca do
direito dos povos à liberdade e dos indivíduos a uma vida mais digna e
mais próspera. Nas férias grandes, em cada Verão, traziam consigo pontos
de vista que se caracterizavam pela liberdade de pensamento acerca dos
problemas sociais e religiosos e por um nacionalismo entusiasticamente
reanimado, que recentemente, em especial depois das vitórias sérvias nas
guerras balcânicas, se tornara uma convicção geral e, em muitos desses
rapazes, um fanático desejo de acção e de sacrifício pessoal.

A kapia era o principal cenário das suas reuniões. Era lá que se juntavam
depois do jantar. Na escuridão, sob um tecto de estrelas ou ao luar, por
cima do rio turbulento, ecoavam as suas canções, ditos, conversas
barulhentas e intermináveis discussões, novas, ousadas, um tanto
ingénuas, sinceras e desenvoltas.

Aos estudantes juntavam-se também os seus amigos de infância e antigos


condiscípulos na escola primária local que tinham permanecido na cidade
como aprendizes, caixeiros de lojas ou amanuenses das repartições
municipais. Havia dois tipos deles. Alguns estavam contentes com a sua
sorte e com a vida da cidade em que teriam de passar os seus dias.
Olhavam com curiosidade e simpatia para os seus camaradas mais
instruídos, admiravam-nos e nunca lhes passava pela cabeça a ideia de se
compararem com eles; antes, pelo contrário, seguiam a sua evolução e a
sua carreira sem a menor ponta de despeito. Outros, porém, estavam
descontentes com aquela vida provinciana a que, por força das
circunstancias, estavam condenados, e aspiravam a algo que consideravam
mais alto e melhor, mas que se lhes furtara e estava cada vez mais longe
e mais inacessível. Embora costumassem também encontrar-se com os seus
camaradas estudantes, estes jovens afastavam-se dos seus companheiros
mais instruídos, quer pela sua ironia grosseira, quer pelo seu silêncio
hostil.

257
Não podiam tomar parte de igual para igual nas suas conversas. Por isso,
constantemente atormentados pelo seu complexo de inferioridade, ora
exageravam e acentuavam, na conversação, a sua grosseria e ignorância, em
confronto com os seus camaradas mais afortunados, ora, do alto dessa
mesma ignorância, se riam de tudo o que não podiam compreender. Em
qualquer dos casos, a inveja emanava deles como uma força quase visível e
tangível. Mas a juventude suporta facilmente a presença dos piores
instintos e vive e movimenta-se livremente e sem cuidados no meio deles.

Sempre houvera e havia de continuar a haver na kapia noites estreladas,


constelações esplendorosas e luar, mas nunca tinha havido ainda, e só
Deus sabe se ainda voltaria a haver, jovens daqueles, que, com
semelhantes conversas e iguais sentimentos e ideias, mantivessem tais
vigílias na kapia. Era uma geração de anjos rebeldes, precisamente
naquela fase, que tão depressa passa, em que ainda têm todo o poder e
todos os direitos dos anjos e também o orgulho ardente dos rebeldes.
Aqueles filhos de camponeses, comerciantes e artífices de uma remota
cidade da Bósnia tinham recebido do destino, sem que para isso fosse
necessário nenhum esforço especial da sua parte, uma entrada livre no
mundo e a grande ilusão da liberdade. Com as suas inatas características
provincianas, partiam para outros meios, e escolhiam mais ou menos só por
si, de acordo com as suas inclinações, a disposição do momento ou os
caprichos do acaso, os estudos a seguir, os tipos de distracção e o
círculo dos seus amigos e conhecimentos. Na maior parte, não eram capazes
de, nem sabiam como, apreender e fazer uso daquilo que conseguiam ver,
mas não havia um único que não tivesse a sensação de que podia obter o
que desejava e de que tudo o que obtivesse era dele. A vida (este termo
surgia com muita frequência nas suas conversas, como na literatura e na
política da época, em que aparecia sempre escrito com maiúscula) estava
na sua frente como um objecto, como um campo de acção aberto aos seus
sentidos libertados, à sua curiosidade intelectual e às suas proezas
sentimentais, que não conheciam limites. Todos os caminhos lhes estavam
abertos, até ao infinito; em muitos deles nem sequer haviam de pôr nunca
o pé e, no entanto, a inebriante volúpia de viver que os dominava
alimentava-se da possibilidade que tinham (pelo menos em teoria) de
escolher livremente o que mais lhes aprouvesse e poder, querendo-o,
transitar de um para outro.

258

Tudo o que outros homens e outras raças, noutros tempos e noutras terras,
tinham conseguido atingir ao longo de muitas gerações, através de séculos
e séculos de esforço, à custa de vidas, de renúncias e de sacrifícios
maiores e mais caros que a própria vida, abria-se-lhes agora na frente
como uma herança casual e um dom perigoso do destino. Parecia fantástico
e improvável, mas nem por isso era menos verdadeiro: podiam fazer da sua
mocidade o que muito bem entendessem e dar as suas opiniões livremente e
sem restrições; ousavam dizer o que lhes apetecia e para muitos deles
essas palavras, pronunciadas sem peias, representavam autênticas
façanhas, que satisfaziam a sua atávica necessidade de heroísmo e de
glória, de violência e de destruição, ao mesmo tempo que não lhes
impunham nenhuma obrigação de agir nem acarretavam nenhuma
responsabilidade palpável. Os mais dotados de entre eles desdenhavam do
que tinham de aprender e subestimavam tudo o que eram capazes de fazer,
mas faziam alarde de um conhecimento que não tinham e entusiasmavam-se
com o que as suas forças lhes não permitiam realizar. É difícil imaginar
uma maneira mais perigosa de entrar na vida ou um caminho mais seguro
para façanhas excepcionais ou para uma derrocada total. Só os melhores e
os mais fortes deles é que se lançavam na acção com um fanatismo de
faquires, para nela se queimarem como moscas, serem logo glorificados
pelos companheiros como mártires e santos (visto que não há geração que
não tenha os seus santos) e colocados em pedestais como exemplos
inacessíveis.

Cada geração humana tem as suas ilusões próprias no tocante à


civilização; umas acreditam que estão a tomar parte no seu
desenvolvimento, outras que estão a assistir à sua extinção. A verdade é
que ela sempre brilha, está latente e extingue-se ao mesmo tempo,
consoante o lugar e o ponto de vista. Esta geração que agora estava
discutindo filosofia e questões sociais e políticas na kapia, sob o olhar
complacente das estrelas e acompanhada pelo murmúrio das águas do rio,
apenas era mais rica em ilusões; em tudo o mais era semelhante a qualquer
outra. Tinha a convicção de que estava ao mesmo tempo acendendo as
primeiras luzes de uma nova civilização e extinguindo as últimas chamas
de uma outra que estava praticamente consumida. O que em especial se
poderá dizer dela é que há muito tempo não surgia uma geração que com
tanta intrepidez tivesse sonhado com a vida e da vida falado, bem como
dos prazeres e da liberdade, e que, ao mesmo tempo, tão pouco tivesse
recebido da vida, mais tivesse sofrido, labutado pesadamente e morrido em
grande escala.

259

Mas nesses dias do Verão de 1913 tudo estava ainda mal definido,
indeterminado. Tudo tinha ainda a aparência de um novo e excitante jogo,
ali, ao abrigo da velha ponte, que brilhava ao luar daquelas noites de
Julho, limpa, jovem e inalterável, forte e encantadora na pureza das suas
linhas, mais forte que tudo o que o tempo podia trazer e os homens
imaginar ou fazer.

260
XIX

Tal como uma noite quente de Agosto se parece com outra, assim as
discussões daqueles colegiais e estudantes na kapia eram sempre iguais ou
semelhantes.

Logo a seguir a um bom jantar engolido à pressa (o dia tinha-se passado a


tomar banho e a secar ao sol), chegavam um após outro à kapia. Um deles
era Janko Stikovic, filho de um alfaiate de Mejdan, que já andava há dois
anos a estudar Ciências Naturais em Graz. Era um rapaz magro, de traços
angulosos e cabelos negros e lisos, vaidoso, susceptível e descontente
consigo próprio, mas ainda mais com tudo o que o rodeava. Lia muito e
escrevia artigos com um pseudónimo que era já bem conhecido nos jornais
juvenis revolucionários que se publicavam em Praga e Zagreb. Também
escrevia poemas, que publicava com um outro pseudónimo e dos quais tinha
um volume em preparação para ser publicado pela Zora, a editora
nacionalista. Era igualmente bom orador e um polemista inflamado nas
reuniões de estudantes. Velimir Stevanovic era um jovem saudável e bem
constituído, filho adoptivo de filiação incerta, irónico, de espírito
realista, económico e aplicado. Estava a concluir os seus estudos de
Medicina em Praga. Outro dos do grupo era Jacov Herak, filho de um
carteiro bonacheirão e popular de Visegrad, estudante de Direito,
pequeno, moreno, de olhar penetrante e resposta pronta, um socialista de
espírito polémico, que se envergonhava do seu bom coração e ocultava todo
e qualquer sinal de emoção. Havia ainda Ranko Mihailovic, rapaz taciturno
e amável, que também estudava Direito em, Zagreb e aspirava a fazer
carreira como funcionário. Poucas intervenções tinha, e essas mesmas eram
pouco entusiásticas, nas discussões dos seus camaradas acerca do amor, da
política, das maneiras de encarar a vida e das condições sociais.

261

Por parte da mãe, era bisneto daquele pope Mihailo, cuja cabeça, com um
cigarro na boca, fora espetada numa estaca e exposta naquela mesma kapia.

Além destes, havia também uns quantos estudantes do liceu de Serajevo,


que escutavam avidamente os colegas mais velhos e o que eles contavam
acerca da vida nas grandes cidades, ao mesmo tempo que, através da
imaginação que a vaidade e os secretos desejos dos rapazelhos chicoteiam,
vislumbravam tudo ainda maior e mais belo do que na realidade era ou
podia ser. Entre eles estava Nikola Glasicanin, um rapaz pálido e duro,
que, por força da pobreza, fraca saúde e fraco rendimento, se vira
obrigado a abandonar os estudos secundários depois de completado o 4.°
ano, a voltar para a cidade e a aceitar um lugar de escriturário numa
firma alemã exportadora de madeiras. Vinha de uma família de antigos
proprietários rurais de Okoliste em decadência. O avô, Milan Glasicanin,
morrera pouco tempo após a ocupação no manicómio de Serajevo, depois de
ter perdido ao jogo, na sua mocidade, a maior parte da sua fortuna. O
pai, Peter, criatura doentia e sem vontade, sem forças e sem reputação,
também tinha morrido há tempos. Agora Nikola passava os dias inteiros na
margem do rio com os operários que empurravam os pesados toros de pinho e
os ligavam em jangadas. Media os metros cúbicos da madeira e mais tarde,
no escritório, assentava-os nos livros. Esta tarefa monótona, realizada
no meio de tal gente, sem ideais e sem vistas largas, sentia-a ele como
uma tortura e uma humilhação, e a ausência de qualquer perspectiva de ser
capaz de mudar a sua condição social e melhorar a sua situação fizera
daquele rapaz sensível um homem velho antes do tempo, bilioso e
taciturno. Lia muito nas horas vagas, mas esse alimento espiritual não o
reconfortava nem lhe dava ânimo porque tudo nele tomava uma feição
amarga. A sua pouca sorte, a sua solidão e os seus sofrimentos abriram-
lhe os olhos e aguçaram-lhe os sentidos sob muitos aspectos, mas até os
mais belos pensamentos e os conhecimentos mais preciosos apenas
contribuíam para o desencorajar e azedar mais, pelo facto de lançarem uma
luz mais forte sobre a sua falta de sucesso e de perspectivas ali na
terra.

Havia também Vlado Maric, serralheiro de profissão, um rapaz alegre e


bem-humorado, que os seus companheiros das escolas superiores estimavam e
convidavam não só por causa da sua forte e bonita voz de barítono, mas
também pela sua simplicidade e bondade. Este jovem vigoroso, com o seu
boné na cabeça, era um daqueles tipos humildes que a si próprios se
bastam e que não por seu turno, com simplicidade e naturalmente, tudo o
que está ao seu alcance e que não pensam sequer em comparar-se com os
outros, aceitando, por outro lado, calma e reconhecidamente, tudo o que a
vida lhes proporciona, e dando, por seu turno, com simplicidade e
naturalmente, tudo o que está ao seu alcance.

262

Havia, finalmente, as duas professoras locais, Zorka e Zagorka, ambas


nascidas na cidade. Todos os jovens lhes disputavam os favores e jogavam
em torno delas essa ingénua, complicada, brilhante e torturante partida
do amor. Na sua presença, as discussões tornavam-se renhidas como, nos
séculos remotos, um torneio de amor; por causa delas jovens havia que,
depois de terem passado o serão a beber noutros locais, apareciam mais
tarde pela kapia, onde ficavam a fumar no escuro e na solidão ou a cantar
com os outros; por causa delas desencadeavam-se entre camaradas secretas
animosidades, despeitos mal disfarçados ou mesmo conflitos abertos. Por
volta das 10 da noite as raparigas recolhiam a casa; mas os rapazes ainda
continuavam por muito tempo na kapia, embora o entusiasmo afrouxasse e a
eloquência combativa diminuísse.

Stikovic, que habitualmente desempenhava naquelas discussões o principal


papel, permanecia nessa noite muito calado, fumando. Estava perturbado e
intimamente descontente consigo próprio, mas disfarçava o seu estado de
espírito, como sempre acontecia, embora nunca conseguisse disfarçar
completamente os seus reais sentimentos. Nessa tarde tivera a primeira
entrevista amorosa com a professora Zorka, uma rapariga atraente, de
formas cheias, rosto pálido e olhos ardentes. A instâncias de Stikovic,
tinham conseguido fazer aquilo que se torna tão difícil numa cidade
pequena: encontrarem-se um rapaz e uma rapariga num lugar discreto onde
ninguém os pudesse ver nem descobrir qualquer coisa. O encontro teve
lugar na escola dela, que nessa época estava deserta por causa das
férias. Ele tinha ido por uma rua e atravessando o jardim, ao passo que
ela fora por outra e entrara pela porta principal. Juntaram-se num
compartimento semiobscuro e cheio de pó, com bancos e carteiras
empilhados até ao tecto. Assim a paixão amorosa se vê frequentemente na
contingência de procurar abrigo em lugares escusos e feios. Não podiam
sentar-se nem deitar-se. Ambos se sentiam desajeitados e embaraçados.
Loucos de desejo, extremamente impacientes, beijaram-se e estreitaram-se
num daqueles bancos que ela tão bem conhecia, alheios a tudo o que os
rodeava. Foi ele o primeiro a voltar a si. Bruscamente, sem transição,
como é frequente nos homens, levantou-se para compor a roupa e ir-se
embora.

263

A rapariga debulhou-se em lágrimas. Foi uma desilusão para ambos. Logo


que conseguiu acalmá-la um pouco, ele saiu, quase a fugir, por uma porta
lateral.

Ao chegar a casa, encontrou o carteiro, que lhe levava um jornal juvenil


com o seu artigo «Os Balcãs, a Sérvia e a Bósnia-Herzegovina». Uma nova
leitura do artigo desviou-lhe o pensamento do incidente de poucos
instantes antes. Mas mesmo aí encontrou motivos de insatisfação. O artigo
vinha com gralhas e algumas frases pareceram-lhe ridículas; agora, quando
já não era possível introduzir alterações, é que se lhe afigurava que
muitas coisas podiam ter sido ditas melhor, com mais clareza e maior
concisão. Nessa mesma noite reuniram-se na kapia a discutir o artigo na
presença da própria Zorka. O principal adversário era o loquaz e
agressivo Herak, que tudo examinava e criticava de um ponto de vista
socialista ortodoxo. Os outros apenas de tempos a tempos intervieram na
discussão. As duas professores permaneciam, caladas, preparando uma
invisível coroa de louros para o vencedor. Stikovic defendia-se sem
convicção, primeiro porque ele próprio reconhecia agora quantas fraquezas
e incongruências havia no artigo que escrevera, embora nunca fosse capaz
de o confessar perante os colegas; depois, porque estava perturbado pela
recordação dos acontecimentos dessa tarde numa sala de aula abafada e
cheia de poeira, a recordação de uma cena que agora lhe parecia
simultaneamente cómica e feia, mas que durante muito tempo fora o alvo
dos seus mais intensos desejos e dos seus mais ardentes sentimentos para
com a bela professora, que também ali estava sentada, na obscuridade
daquela noite de Verão, olhando para ele com olhos brilhantes. Tudo isso
lhe dava uma sensação de culpa e de dívida não resgatada. Daria tudo por
não ter estado na escola naquela tarde, nem agora ali com ela. Num tal
estado de espírito, Herak dava-lhe a impressão de uma vespa agressiva, de
cujos ataques apenas se podia defender com dificuldade. Afigurava-se-lhe
que tinha de responder não só pelo artigo, mas também por tudo o que
acontecera nesse dia na escola. Desejava, sobretudo, estar só, longe,
onde pudesse pensar calmamente noutra coisa que não no artigo e na
rapariga. Mas o orgulho levou-o a defender-se. Stikovic citou Cvijic e
Strosmajer e Herak opôs-lhe Kautsky e Babel.

— Você põe o carro adiante dos bois — gritou Herak, analisando o artigo
de Stikovic. — Não é possível ao camponês dos Balcãs, mergulhado na
pobreza e em toda a espécie de miséria, criar uma boa e duradoura
organização política.

264

Só a prévia libertação económica das classes exploradas, dos camponeses e


dos trabalhadores, que é, como quem diz, da grande maioria do povo, pode
criar condições que permitam realmente a formação de Estados
independentes. É esse o processo natural e o caminho que todos devemos
seguir, e nunca o inverso. Assim, a libertação nacional e a unificação
devem ambas ser levadas a efeito dentro do espírito da libertação e da
renovação socialistas. De outro modo, pode acontecer que o camponês, o
trabalhador e o homem comum vão introduzir nas instituições do novo
Estado, como um contágio mortal, o seu pauperismo e a sua mentalidade de
escravos, ao mesmo tempo que o pequeno número dos exploradores instilará
neles a sua mentalidade parasitária e reaccionária e os seus instintos
anti-sociais. Nessas condições, não é possível a existência de Estados
com estabilidade nem de uma sociedade saudável.

— Tudo isso é ciência livresca estrangeira, meu rico filho — respondeu


Stikovic. — Tudo isso se desfaz em fumo perante o ímpeto vital das forças
nacionalistas acordadas, primeiro entre os Sérvios e depois entre os
Croatas e Eslovenos, todas convergindo para um mesmo fim. Os
acontecimentos não se desenrolam de acordo com as previsões dos teóricos
alemães; avançam em completo acordo com o sentido profundo da nossa
história e do nosso destino racial. Desde o célebre apelo de Karageorge —
«Que cada um mate o seu chefe turco!» —, o problema social dos Balcãs
tem-se sempre resolvido por si próprio, através de movimentos e guerras
de libertação nacional. Tudo se passa com uma lógica admirável, do mais
pequeno para o maior; do regional e tribal para o nacional e a formação
do Estado. Não foram as nossas vitórias em Kumanovo e Bregalnica as
maiores vitórias também do pensamento progressivo e da justiça social ?

— É um caso a ver — atalhou Herak.

— Quem o não vê agora, nunca o verá. Nós acreditamos...


— Nós acreditamos, não! Acredita você. Porque nós não acreditamos em
nada, queremos é ser convencidos com factos e provas reais — replicou
Herak.

— Então o desaparecimento dos Turcos e o enfraquecimento da Áustria-


Hungria, primeiro passo para a sua aniquilação, não serão realmente
vitórias dos pequenos povos democráticos e das classes escravizadas, na
sua aspiração de encontrar um lugar ao sol? — desenvolveu Stikovic o seu
pensamento.

— Se a realização das aspirações nacionalistas traz consigo a criação da


justiça social, então nos Estados da Europa Ocidental, que, na sua maior
parte, realizaram todos os seus ideais nacionalistas e se podem
considerar satisfeitos sob esse aspecto, não deveria já haver nenhuns
problemas sociais importantes, nem movimentos e conflitos.

265

Ora nós bem sabemos que assim não acontece. Muito pelo contrário.

— E eu digo e repito — respondeu Stikovic com ar enfastiado — que sem a


criação de Estados independentes, baseados na unidade nacional e nas
concepções modernas da liberdade individual e social, não se pode falar a
sério em libertação social. Porque, como disse uma vez certo francês,
primeiro está a política. ..

— Primeiro está o estômago — interrompeu Herak. Nesta altura os outros


começaram também a tomar calor e a simples discussão de estudantes
transformou-se em disputa juvenil, com todos a falar ao mesmo tempo e a
interromper-se uns aos outros, disputa essa que, aos primeiros ditos de
espírito, acabou por descambar em risada e gritaria.

Para Stikovic aquilo foi providencial porque lhe forneceu um pretexto


excelente para interromper o debate e se calar sem ter de dar a impressão
de que recuava ou se considerava vencido.

Depois de Zorka e Zagorka se terem ido embora, por volta das 10 horas,
acompanhadas por Vlimir e Ranko, os outros começaram também a dispersar.
Por fim, apenas ficaram Stikovic e Nikola Glasicanin.

Tinham ambos pouco mais ou menos a mesma idade. Tinham andado juntos no
liceu de Serajevo, onde estiveram hospedados na mesma casa. Conheciam-se
um ao outro muito bem, talvez até bem de mais, e por isso mesmo nenhum
deles tinha a certeza de estimar verdadeiramente o outro e de o apreciar.
Com o tempo, a distância que os separava tornou-se naturalmente maior e
mais difícil de transpor. Todos os anos, nos períodos de férias, voltavam
a encontrar-se aqui na cidade, e cada um como que media o outro e via
nele um inimigo, embora inseparável. Desta vez também a bela e caprichosa
Zorka veio contribuir para alimentar aquela animosidade. Durante os
longos meses do Inverno anterior tinha havido um derriço entre ela e
Glasicanin, que não dissimulava, nem era capaz de dissimular, que estava
apaixonado. Tinha-se atirado de cabeça para esse amor, com todo o ardor
que as pessoas recalcadas e insatisfeitas põem em tais sentimentos. Mas
logo que vieram os meses de Verão e os estudantes começaram a chegar, o
sensível Glasicanin não pôde deixar de notar o interesse que a professora
mostrava por Stikovic. Por esse motivo, a velha tensão entre eles
existente, que sempre fora ocultada aos outros, aumentou
consideravelmente.

266

Durante todas as férias ainda não tinham estado sós uma única vez, a não
ser agora.

Mas, já que o acaso ditara aquela situação, a primeira ideia que ambos
tiveram foi a de se separarem o mais depressa possível, para evitar
conversas que apenas podiam ser desagradáveis para qualquer deles.
Todavia, por força de uma ridícula reflexão, que só a juventude conhece,
não foram capazes de fazer o que desejavam. Como que pregados ao solo,
não querendo nenhum deles ter a fraqueza de ser o primeiro a retirar-se
foi ainda uma vez mais o acaso que veio tirá-los de embaraços e aliviar
por um momento o pesado silêncio que os oprimia.

Na escuridão podiam ouvir-se as vozes de dois jovens que andavam a


passear na ponte. Caminhavam devagar e, justamente nessa ocasião, tinham
parado junto da kapia, por trás do ângulo formado pelo parapeito, de modo
que Stikovic e Glasicanin, do lugar em que se encontravam no sofá, não
podiam vê-los nem ser vistos. Podiam, contudo, ouvir perfeitamente o que
diziam e reconhecer as vozes, que lhes eram bastante familiares. Tratava-
se de dois dos seus camaradas mais novos, Tomás Galus e Fehim
Bahtijarevic. Ambos se afastaram um pouco do grupo formado pela maior
parte dos estudantes que se reuniam todas as noites na kapia em torno de
Stikovic e Herak. Galus procedia assim porque, ainda que mais novo, era,
quer como poeta, quer como orador nacionalista, rival de Stikovic, de
quem não gostava e que não admirava. Por sua vez, Bahtijarevic seguia-lhe
o exemplo por ser pessoa excepcionalmente calada, orgulhosa e reservada,
como convinha a um verdadeiro descendente de uma família de beis.

Tomás Galus era um rapaz alto, de faces rosadas e olhos azuis. O pai,
Alban von Galus, último descendente de uma velha família de Burgenland,
viera para a cidade, na qualidade de funcionário civil, imediatamente
após a ocupação. Tinha sido durante doze anos inspector dos serviços
florestais e agora vivia na cidade, com uma pensão de reforma. Logo no
princípio casara com a filha de um dos ricaços da terra, Hadji Tomás
Stankovic, uma rapariga robusta, já um tanto madura, de pele morena e
vontade forte. Tiveram três filhos, duas raparigas e um rapaz, todos eles
baptizados na igreja ortodoxa sérvia, todos eles criados como autênticos
visegradenses e como verdadeiros netos de Hadji Tomás que eram.
O velho Galus, homem alto, que se via ter sido nos seus tempos um
perfeito rapaz, possuidor de um sorriso agradável e de uma cabeleira
abundante e toda branca, há muito que se tornara

267

um autêntico visegradense, «o Sr. Albo», que a geração mais nova já não


via como, um estrangeiro e um intruso. Tinha duas paixões, que não
prejudicavam ninguém: a caça e o seu cachimbo. Tinha conquistado muitas
amizades antigas e verdadeiras, quer entre os sérvios quer entre os
muçulmanos que, através de todo o distrito, partilhavam da sua paixão
pela caça. Assimilara completamente muitos dos costumes deles, como se
entre eles tivesse sido nado e criado, especialmente aqueles hábitos de
prazenteiro silêncio e calma conversação, tão característicos dos homens
que são fumadores inveterados e que amam a Caça, as florestas e a vida ao
ar livre.

O jovem Galus tinha concluído o seu curso liceal nesse ano em Serajevo e
tencionava ir depois das férias para Viena, a fim de prosseguir os seus
estudos. Quanto a estes, porém, as opiniões da família estavam divididas.
O pai queria que o filho fosse estudar Ciências Técnicas ou Silvicultura,
mas o interessado preferia um curso de Filosóficas. É que Tomás Galus
apenas aparentemente tinha semelhanças com o pai, uma vez que todos os
seus desejos o orientavam num sentido absolutamente oposto. Era um
daqueles bons estudantes, modestos e exemplares em tudo, que passam todos
os exames com uma perna às costas, mas que só fora da escola e dos
programas oficiais procuram satisfação para os seus mais verdadeiros e
sinceros interesses e para as suas aspirações espirituais, ainda um tanto
confusas e desordenadas. São estes estudantes de coração sereno e
simples, mas de espírito inquieto e curioso. Aquelas crises difíceis e
perigosas da vida sexual e sentimental por que passam tantos outros
jovens da sua idade são quase desconhecidas para eles, mas, em
contrapartida, dificilmente acham maneira de acalmar as suas inquietações
intelectuais, e não raro ficam sendo para toda a vida uns diletantes, uns
originais interessantes, sem ocupação fixa nem interesses definidos. Como
cada jovem deve não só submeter-se às eternas exigências naturais da
juventude e da maturidade, mas ainda pagar o tributo às correntes
espirituais contemporâneas e às modas e hábitos do tempo que
momentaneamente reinam entre a juventude, também Galus escrevia versos e
era membro activo das organizações revolucionárias e nacionalistas de
estudantes. Estudara também, francês durante cinco anos, como disciplina
de opção, e interessara-se pela literatura e, mais especialmente, pela
filosofia. Era um leitor apaixonado e infatigável. A principal fonte de
leitura dos jovens que estudavam nesse tempo em Serajevo eram as obras
incluídas no catálogo de uma enorme e bem conhecida colecção alemã, a

268
Reclams Universal-Bibliotek. Estes livrinhos, pequenos e baratos, de
capas amarelas e impressos num tipo excepcionalmente miúdo, constituíam o
principal alimento espiritual de que os estudantes dispunham nessa
altura; através deles podiam conhecer não só literatura alemã, mas ainda
as mais importantes obras da literatura mundial traduzidas em alemão. A
eles foi Galus buscar o seu conhecimento dos modernos filósofos alemães,
especialmente de Nietzsche e Stirner, acerca dos quais, durante os seus
passeios em Serajevo, ao longo das margens do Miljacka, mantinha
discussões que nunca mais acabavam, conduzidas sempre com uma espécie de
paixão fria, sem nunca misturar, como muitos jovens tantas vezes fazem,
os problemas culturais com a sua vida pessoal. Este tipo de jovem
finalista liceal, amadurecido cedo de mais e sobrecarregado de toda a
espécie de conhecimentos variados, caóticos e descoordenados, era vulgar
entre os estudantes desse tempo. Jovem, modesto e bom aluno, Galus
conhecia a liberdade e a insubordinação da juventude apenas nas audácias
do pensamento e nos exageros da leitura.

Fehim Bahtijarevic era um genuíno visegradense apenas pelo lado materno.


O pai nascera em Rogatica, onde agora era cádi, mas a mãe pertencia a uma
importante família local: os Osmanagic. Desde a mais tenra idade que ele
costumava passar as férias na cidade com a mãe e uns parentes desta. Era
um rapaz esbelto, elegante e bem proporcionado, miúdo de ossos, mas
forte. Tudo nele parecia feito com conta, peso e medida. O seu rosto
queimado pelo sol era finamente oval, a pele morena e cruzada aqui e além
por leves fios de uma cor azul-escura, os movimentos breves e raros, os
olhos negros com pupilas sombreadas de azul. Tinha um olhar ardente mas
sem brilho, umas espessas sobrancelhas que quase iam unir-se uma à outra
e uma fina penugem negra por cima do lábio superior. Em suma: uma
daquelas caras que fazem lembrar miniaturas persas.

Também ele nesse ano tinha concluído o curso dos liceus e esperava obter
uma bolsa do Estado para ir estudar línguas orientais em Viena.

Os dois jovens estavam empenhados no prosseguimento de uma conversa


começada antes. O tema dela era a escolha dos estudos de Bahtijarevic.
Galus tentava persuadi-lo de que era um erro seguir os estudos
orientalistas. Geralmente Galus falava muito mais e muito mais
animadamente que o seu companheiro, porque estava habituado a ser
escutado e a ser ele a ditar leis, ao passo que Bahtijarevic falava pouco
e com brevidade, como homem que tem as suas próprias convicções e não
sente nenhuma necessidade de convencer quem quer que seja.

269

Como muitos jovens que tinham lido bastante, Galus falava como quem sente
uma satisfação ingénua no uso de palavras, expressões pitorescas e
comparações e com uma certa tendência para generalizar, enquanto
Bahtijarevic falava de maneira seca, concisa e como que indiferente.

Escondidos na sombra e reclinados nos assentos de pedra, Stikovic e


Glasicanin permaneciam silenciosos, como se tivessem tacitamente acordado
em prestar atenção à conversa dos outros dois camaradas na ponte.

Ao terminar a conversa acerca dos estudos, Galus disse agressivamente:

— Nisso, vocês, os muçulmanos, filhos de beis, equivocam-se com


frequência. Desconcertados com os novos tempos, já não sabem qual é o seu
exacto e verdadeiro lugar no mundo. O amor que manifestam por tudo o que
é oriental não é mais que uma expressão contemporânea da vossa vontade de
poder; para vós, a maneira oriental de viver e de pensar está muito
intimamente ligada com uma ordem legal e social que esteve na base do
vosso domínio secular. É compreensível que assim seja. Mas isso não
significa de modo algum que tenhais o verdadeiro sentido do orientalismo
como estudo. Sois orientais, mas enganais-vos quando julgais estar por
isso fadados para ser orientalistas. Em geral, não tendes verdadeira
vocação nem inclinação para a ciência.

— Essa agora!

— Não tendes, não! E quando digo isto, não estou a dizer nada de ofensivo
nem de insultuoso. Muito pelo contrário. Sois, ou pelo menos fostes, os
únicos verdadeiros nobres neste país; durante séculos fostes expandindo,
consolidando e defendendo os vossos privilégios, pela espada e pela pena,
legalmente, religiosamente ou pela força das armas; isso fez de vós
típicos guerreiros, administradores e homens de Estado. Ora essa classe
de homens em parte alguma do mundo se preocupa com as ciências
abstractas; deixa-as para aqueles que não têm mais nada que fazer ou que
não podem fazer outra coisa. Os estudos que verdadeiramente vos convêm
são os de Direito e Económicas, porque sois homens de conhecimentos
práticos. Assim são os homens das classes governantes, sempre e onde quer
que seja.

— Quer você dizer que deveríamos permanecer incultos?

— Não, não quero dizer isso, mas sim que deveis ficar tal como sois ou,
se prefere, tal como fostes; e isto porque ninguém pode ser ao mesmo
tempo o que é e o contrário daquilo que é.

270

- Mas hoje já não somos uma classe dirigente. Hoje somos todos iguais-
redarguiu Bahtijarevic, com uma ponta de ironia em que havia amargura e
orgulho.

- Já não sois, não. E é natural. As condições que em determinado tempo


fizeram de vós o que fostes ha muito que mudaram já, mas isso não quer
dizer que tenhais de mudar com a mesma rapidez. Não é esta a primeira,
nem será a última vez em que uma casta social perde as suas razões de
existência sem deixar de ser a mesma. As condições de vida alteram-se,
mas uma classe continua a ser o que é, porque só assim pode existir e é
como tal que terá de morrer.

A conversa dos dois jovens invisíveis interrompeu-se por um instante,


esfriada pelo silêncio de Bahtijarevic.

No céu claro de Junho, por cima da silhueta negra das montanhas no


horizonte, a Lua surgiu. A placa branca com a inscrição turca brilhou de
repente ao luar como uma janela fracamente iluminada na obscuridade
azulada.

Bahtijarevic disse então qualquer coisa mas numa voz tão baixa que até
Stikovic e Glasicanin apenas chegaram palavras soltas e incompreensíveis.
Como acontece frequentemente era discussões de jovens, em que as mudanças
de assunto são rápidas e atrevidas, a conversa foi cair noutro motivo. Do
estudo das línguas orientais passaram ao conteúdo da inscrição da placa
branca que tinham em frente e daí para a ponte e quem a tinha construído.

A voz de Galus era a mais forte e a mais expressiva. Embora associando-se


aos elogios prodigalizados por Bahtijarevic a Mehmed Paxá Sokolovic e à
administração turca do seu tempo, que tornara possível a construção de
uma ponte daquelas, desenvolvia agora os seus pontos de vista
nacionalistas acerca do passado e do presente do povo, da sua cultura e
civilização (porque, naquelas discussões de estudantes cada um segue o
seu próprio pensamento).

— Tem razão - disse. - Deve ter sido um homem de génio. Não foi o
primeiro nem o último homem do nosso sangue que se distinguiu ao serviço
de um império estrangeiro. Demos centenas de homens desses - estadistas,
generais e artistas - a Istambul, Roma e Viena. O sentido da nossa
unificação nacional num estado único, grande e poderoso, reside
precisamente nisso. As nossas forças próprias devem permanecer no nosso
próprio pais, desenvolver-se nele e dar a sua contribuição para a cultura
geral em nosso nome, e não a partir de centros estrangeiros.

- Mas você pensa realmente que esses centros se ergueram por acaso e que
é possível criar outros novos, à vontade do freguês, quando e como se
quiser?

271

— Se foi por acaso ou não, é questão que já não interessa; não é


importante saber como se formaram; o importante é reconhecer que hoje em
dia estão a desaparecer, que já floresceram e entraram em decadência e
que têm de dar lugar a novos e diferentes centros, através dos quais
nações jovens e livres, aparecendo pela primeira vez no palco da
história, podem exprimir-se directamente.
— Você acha que Mehmed Paxá Sokolovic, se tivesse continuado a ser um
pequeno camponês perdido em Sokolovic, podia ter vindo a ser o que foi e
chegado, entre outras coisas, a promover a construção desta ponte em que
agora estamos a conversar?

— Naqueles tempos, certamente que não teria. Mas, no fim de contas,


pensando bem não era difícil a Istambul pôr de pé construções deste
quilate, quando nos vinha buscar, como a tantos outros povos submetidos,
não só as nossas riquezas e dinheiro, mas também os nossos melhores
homens e o nosso mais puro sangue. Se atentarmos bem no que somos e no
que nos foi roubado através dos séculos, chegaremos à conclusão de que
todas estas construções não passam de meras bagatelas. Mas quando,
finalmente, atingirmos a nossa liberdade nacional e a nossa
independência, então o nosso dinheiro e o nosso sangue serão nossos e só
nossos, e sempre continuarão a sê-lo. Tudo servirá única e simplesmente
para o desenvolvimento da nossa própria cultura nacional, que terá bem
gravados o nosso selo e o nosso nome e terá em mente a felicidade e a
prosperidade de todo o nosso povo.

Bahtijarevic permaneceu em silêncio, e esse silêncio espicaçou Galus,


como se fosse o mais vivo e eloquente dos discursos. Levantando a voz,
prosseguiu num tom mais agudo. Com toda a sua natural vivacidade e
servindo-se do vocabulário em moda na literatura nacionalista, expôs os
planos e objectivos do movimento revolucionário juvenil. Todas as forças
vivas da raça deviam ser despertadas e postas em actividade. Sob a acção
dos golpes por elas desferidos, a monarquia austro-húngara, essa prisão
dos povos, desintegrar-se-ia, como o império turco se tinha desintegrado.
Todas as forças reaccionárias e antinacionais que hoje entravam, dividem
e adormecem as nossas forças nacionais seriam destroçadas e espezinhadas.
Tudo isto poderia ser feito porque o espírito dos tempos em que vivemos é
o nosso mais forte aliado e porque todos os esforços de todas as outras
nações pequenas e oprimidas nos apoiam.

272

O nacionalismo moderno triunfaria das divergências religiosas e dos


preconceitos antiquados e havia de libertar o nosso povo da influência e
da exploração estrangeiras. E seria então que o Estado nacional nasceria.

Galus passou a descrever todas as vantagens e belezas do novo Estado


nacional, que, como uma espécie de Piemonte, iria unir todos os Eslavos
do Sul sob a bandeira da Sérvia, na base de uma unidade nacional
completa, da tolerância religiosa e da igualdade dos cristãos. O seu
arrazoado era um amálgama em que as palavras audaciosas e de sentido vago
se misturavam com expressões que indicavam com precisão as necessidades
da vida moderna, os mais fundos desejos de uma raça (muitos dos quais
estavam destinados a não passar de desejos) e as exigências justificadas
e realizáveis da realidade de todos os dias. Misturava as grandes
verdades que tinham amadurecido através de gerações, mas de que só a
juventude era capaz de ter prévia consciência e ousar exprimir, com as
eternas ilusões que nunca se extinguem, mas que nunca são realizáveis,
pelo que uma geração de jovens as transmite à seguinte como se fora um
facho mitológico. Nas palavras do rapaz havia, como é natural, muitas
afirmações que não resistiriam à crítica das realidades e muitas
suposições que não poderiam talvez suportar a prova da experiência, mas
nisso mesmo residia aquela frescura, aquela seiva preciosa graças à qual
se mantém e rejuvenesce a árvore da humanidade.

Bahtijarevic continuava calado.

—Você verá, Fehim — assegurava Galus ao seu amigo, entusiasticamente,


como se a coisa fosse para essa mesma noite ou para a manhã seguinte. —
Você verá. Vamos criar um Estado que dará a mais preciosa das
contribuições para o progresso da humanidade, em que cada esforço há-de
ser abençoado, cada sacrifício santificado, cada pensamento original
expresso em palavras perfeitamente adequadas e cada feito marcado com o
selo do nosso nome. Então realizaremos obras que serão o resultado do
nosso labor livre e a expressão do nosso génio rácico, construiremos
edifícios comparados aos quais todos os que foram feitos durante séculos
de administração estrangeira não passarão de meros brinquedos de criança.
Havemos de lançar pontes maiores e melhores sobre os rios, não para ligar
centros estrangeiros que conquistaram terras, mas para ligar as nossas
próprias terras com o resto do mundo. Já não podem subsistir quaisquer
dúvidas a esse respeito. O nosso destino consiste em realizarmos tudo
aquilo a que as gerações anteriores aspiraram: um Estado nascido na
liberdade e fundado com base na justiça, como uma parte do pensamento de
Deus realizada aqui na Terra.

273

Mais uma vez Bahtijarevic permaneceu silencioso. Também a voz de Galus


baixou de tom. À medida que as suas ideias se iam tornando mais
exaltadas, a voz, ao invés, ia baixando e enrouquecendo até se reduzir a
um forte e apaixonado murmúrio, para se perder finalmente no silêncio
profundo da noite. Acabaram por ficar os dois calados. Mas, mesmo assim,
o silêncio de Bahtijarevic parecia uma coisa à parte que pesava
obstinadamente no sossego nocturno. Era, na escuridão, como que um muro
intransponível que, pelo próprio peso da sua existência, rejeitava
resolutamente tudo o que o outro dissera e exprimia, claramente, na
própria mudez, a sua inflexível opinião.

— Os alicerces do mundo, as bases da vida e as relações humanas em si há


séculos já que estão fixados. Isto não quer dizer que não mudem, mas, em
confronto com a extensão da existência humana, parecem eternos. A relação
entre uma e outras pode comparar-se com a que existe entre a superfície
agitada, movediça e rápida de um rio e o seu leito estável e sólido,
cujas transformações são lentas e imperceptíveis. A própria ideia de que
estes centros mudem é, em si mesma, doentia e inaceitável. Seria como se
alguém quisesse mudar e medir as nascentes dos rios ou a localização das
montanhas. O desejo de modificações súbitas ou a ideia da sua realização
pela força surge frequentemente entre os homens como uma enfermidade e
ganha terreno sobretudo nos cérebros juvenis; simplesmente, estes
cérebros não pensam como deviam, não chegam a nenhuma conclusão concreta
e as cabeças que assim pensam não permanecem por muito tempo no seu
lugar. Porque não são os desejos humanos que dispõem das coisas deste
mundo e as administram. O desejo é como o vento: levanta o pó de um lado
para outro, por vezes chega a fazer escurecer todo o horizonte, mas acaba
por abrandar, desaparecer e deixar atrás de si, inalterável, a velha e
eterna imagem do mundo. As obras duradouras realizam-se neste planeta
apenas por vontade de Alá e o homem não passa de um Seu instrumento cego
e humilde. Uma obra que nasce do desejo, única e simplesmente do desejo
humano, ou não chega a atingir completa realização, ou, pelo menos, não
dura muito; mas em nenhum dos casos é boa. Todos estes desejos
tumultuosos e estas palavras ousadas que no céu nocturno se espalham e de
que a kapia é testemunha muda não conduzirão a nenhuma mudança
fundamental; passarão por cima das grandes e permanentes realidades do
mundo e irão perder-se onde todos os desejos e ventos se dissolvem.

274

A verdade é que os grandes homens e as grandes obras surgem e hão-de


sempre surgir onde a vontade divina assim o determinar, no sítio próprio,
independentemente de desejos vazios e passageiros e da vaidade humana.
Bahtijarevic não pronunciou, contudo, nenhuma destas palavras. Aqueles
que, como esse jovem muçulmano de nobres famílias, trazem a sua filosofia
no sangue e vivem e morrem de acordo com ela, não sabem como exprimi-la
em palavras nem sentem a necessidade de o fazer. Depois de um longo
silêncio, Stikovic e Glasicanin apenas viram um dos jovens arremessar por
cima do parapeito uma ponta de cigarro, que, como uma estrela cadente,
descreveu uma grande curva para ir cair no Drina. E simultaneamente
ouviram os dois amigos afastar-se lenta e sossegadamente na direcção da
praça do mercado. O som dos seus passos em breve se perdeu.

Novamente sós, Stikovic e Glasicanin sobressaltaram-se e olharam um para


o outro, como se só agora se tivessem visto.

À fraca luz da Lua os seus rostos apresentavam traços contrastantes de


luz e sombra, vivamente vincados, o que lhes dava o aspecto de muito mais
velhos do que o eram na realidade Os cigarros acesos pareciam pirilampos.
Embora por razões diferentes, ambos se sentiam deprimidos. Num e noutro
havia um mesmo desejo : o de se levantarem e irem-se embora. Mas ambos
pareciam pregados aos bancos de pedra, ainda quentes do calor que fizera
durante o dia. A conversa daqueles camaradas mais novos, a que casual e
ocultamente tinham assistido, fora providencial para eles como um
pretexto para adiarem uma conversa que certamente conduziria a uma
inevitável explicação. Mas agora já não podiam furtar-se a ela por mais
tempo.

Stikovic foi o primeiro a falar:

— Ouviste aqueles argumentos do Herak? — perguntou, referindo-se à


discussão de há pouco.

E sentiu imediatamente a fraqueza da sua posição. Glasicanin, que, por


seu turno, sentiu a vantagem momentânea da sua situação de árbitro, não
respondeu logo.

— Então não achas — prosseguiu Stikovic impacientemente — que nos tempos


que vão correndo é simplesmente ridículo falar de luta de classes e
recomendar um trabalho insignificante, quando é bem claro para toda a
gente, entre nós, que a unidade nacional e a libertação, servidas por
métodos revolucionários, constituem o objectivo mais urgente da nossa
comunidade?

Na sua voz havia, ao mesmo tempo, uma pergunta e um apelo.

275

Mas Glasicanin voltou a não replicar. Na quietação daquele silêncio


vingativo e hostil chegou até eles um som de música que vinha da messe
dos oficiais situada na margem do rio. As janelas do rés-do-chão estavam
abertas de par em par e profusamente iluminadas. Alguém tocava violino
acompanhado ao piano. Era o Dr. Balas, médico militar, acompanhado pela
esposa do comandante da guarnição, coronel Bauer. Estavam a ensaiar o
segundo andamento da Sonatina para piano de Schubert. Começaram por
acertar bem, mas, antes de chegar a meio do andamento, o piano adiantou-
se demasiado e o violinista parou de tocar. Depois de um breve silêncio,
durante o qual estiveram com certeza a discutir a passagem em que se
desentenderam, começaram de novo. Faziam ensaios quase todas as noites e
tocavam até altas horas, enquanto o coronel ficava no outro compartimento
a jogar partidas de solo que nunca mais tinham fim ou simplesmente a
dormitar com um copo de vinho Mostar ao lado e um cigarro entre os dedos
e os oficiais mais novos trocavam à sucapa gracejos acerca dos músicos
enamorados.

Entre a Sr.a Bauer e o jovem médico há muitos meses já que se vinha


tecendo uma história a um tempo difícil e complicada. Nem mesmo os mais
penetrantes observadores de entre os oficiais eram capazes de fazer uma
ideia segura da verdadeira natureza das suas relações. Uns diziam que o
laço que os prendia era unicamente espiritual (e, naturalmente, achavam a
coisa ridícula), ao passo que outros afirmavam que o corpo também não
deixava de ter o seu quinhãozinho no assunto. Fosse como fosse, o certo é
que os dois eram inseparáveis, com a paternal e completa aprovação do
coronel, que era um homem bonacheirão, já um tanto embrutecido pelo muito
tempo de serviço e o peso dos anos, o vinho e o tabaco. Toda a cidade
conhecia o médico e a esposa do coronel como um verdadeiro casal. De
resto, toda aquela oficialidade vivia uma vida completamente isolada, sem
qualquer espécie de ligação não só com o povo local e a gente mais grada,
mas até com os próprios funcionários estrangeiros. À entrada dos seus
parques, cheios de canteiros de flores raras, redondos ou em forma de
estrelas, havia sempre um letreiro que anunciava ao mesmo tempo que era
proibido levar cães e que o ingresso não era permitido aos civis. Os seus
divertimentos e os seus deveres eram igualmente inacessíveis a todos os
que não usassem uniforme. Toda a sua vida era efectivamente a de uma
casta imensa e absolutamente à parte, que cultivava esse exclusivismo
como o mais importante aspecto do seu poder e que, por trás de uma
aparência brilhante e rígida, ocultava tudo o que a vida a outros homens
dava de grandeza e pobreza, doçura e amargura.

276

Mas há coisas que, pela sua própria natureza, não podem permanecer
ocultas, que quebram todas as barreiras, por mais fortes que sejam, e que
atravessam todas as fronteiras, por mais guardadas que estejam. «Há três
coisas que se não podem esconder.» — dizem os Osmanlis — «São elas: o
amor, a tosse e a pobreza.» Era esse o caso daquele par de enamorados.
Não havia velho ou criança, homem ou mulher, na cidade, que os não
tivesse encontrado num dos seus passeios por cadinhos solitários em volta
da cidade, perdidos na sua conversa e completamente cegos e surdos para
tudo o que os rodeava. Os pastores estavam tão habituados a eles como
àqueles pares de escaravelhos que se vêem em Maio nas folhas ao longo dos
caminhos, sempre agrupados dois a dois, num amplexo amoroso. Eram vistos
em toda a parte: junto do Drina e do Rzav, ao pé das ruínas da velha
fortaleza, na estrada que vem da cidade ou nas imediações de Straziste,
fosse qual fosse a hora do dia. Ê que para os apaixonados o tempo é
sempre curto e nenhum caminho é longo de mais. Por vezes iam a cavalo ou
num pequeno trem, mas a maior parte das vezes iam a pé e passeavam
naquele andamento que é vulgar em duas pessoas que apenas existem uma
para a outra e com aquele passo característica de quem está indiferente a
tudo neste mundo> a não ser o que cada um tem a dizer ao outro.

Ele era um eslovaco meio húngaro, filho de um funcionário civil modesto e


educado a expensas do Estado, jovem, com um autêntico temperamento
musical. Era ambicioso, mas muito susceptível por causa das suas origens,
que lhe não permitiam sentir-se à vontade com os oficiais austríacos e
húngaros provenientes de famílias ricas e notáveis. Ela era uma senhora
já quarentona, oito anos mais velha que ele. Era alta e loura, já um
pouco gasta, mas de pele ainda branca e rosada. Comi uns olhos azul-
escuros, grandes e brilhantes, parecia-se, no ar e no porte, com um
daqueles retratos de rainhas que tanto encantam as raparigas.

Cada um deles tinha razões pessoais, verdadeiras ou imaginárias, mas, de


qualquer modo, profundas, para estar descontente" com a vida. Além do
mais, tinham de comum uma razão de peso: ambos se sentiam infelizes e
como que degredados nesta pequena cidade e neste círculo de oficiais, na
maioria frívolos e ocos. Por isso se agarravam um ao outro
desesperadamente como dois náufragos numa jangada. Essa a razão por que
se perdiam horas esquecidas em longas conversas ou, como agora, na
música.

277

Assim era o par invisível cuja música vinha preencher o penoso' silêncio
que reinava entre os dois rapazes.

Alguns instantes depois, essa música que se derramava na calma da noite


voltou a emaranhar-se em dificuldades e parou por uns tempos. No meio do
silêncio que se estabeleceu, Glasicanin começou a falar, numa voz rígida,
pegando nas últimas palavras de Stikovic:

— Ridículo, dizes tu? Havia muito mais coisas ridículas em toda essa
discussão, se fôssemos a ver bem a questão.

Stikovic tirou de repente o cigarro dos lábios, como que para lhe
responder, mas Glasicanin continuou, lenta mas resolutamente, a exprimir
opiniões que se via bem não serem produto dessa noite, mas de longas e
torturantes meditações.

— Oiço com a maior atenção todas estas discussões, não só as que vocês
têm os dois, mas ainda aquelas em que participam outras pessoas
instruídas da terra; leio também os jornais e as revistas. Mas quanto
mais vos oiço mais convencido fico de que a grande maioria dessas
discussões, orais ou escritas, não têm a mais pequena relação com a vida
e as suas exigências e os problemas reais. Porque a vida, a verdadeira
vida, essa, olho-a eu o mais de perto possível; vejo a sua influência nos
outros e sinto-a em mim próprio. É possível que esteja enganado e que não
me saiba exprimir bem, mas penso muitas vezes que o progresso técnico e a
paz relativa que agora existem no mundo criaram uma espécie de
entorpecimento, uma atmosfera especial, artificial e falsa, em que uma
classe de homens, a dos chamados intelectuais, pode a seu bel-prazer
entregar-se à ociosidade e a um estéril, se bem que interessante, jogo de
ideias e de pontos de vista acerca da vida e do mundo. É assim como que
uma espécie de estufa do espírito, com clima artificial e flores
exóticas, mas sem nenhum laço real com a terra, com o verdadeiro solo
firme em que a maior parte dos seres humanos se move. Vocês pensam que
estão a discutir o destino destas massas e a sua utilização na luta para
se atingirem os mais altos fins que vocês lhes fixaram, mas, na
realidade, todos esses planos e engrenagens que arquitectam não têm
relação alguma com a vida das massas, nem sequer com a vida em geral. É
um jogo que se torna perigoso, ou, pelo menos, poderá tornar-se não só
para os outros, mas também para vocês mesmos.
Glasicanin calou-se. Stikovic ficou tão perplexo com esta longa
exposição, tão reflectida, que nem sequer pensou em interrompê-lo ou em
responder-lhe. Só quando ouviu a palavra «perigoso» é que esboçou um
gesto irónico com a mão, o que irritou Glasicanin, que prosseguiu ainda
mais vivamente:

278

— Por amor de Deus! Quem vos ouve falar poderia pensar que todos os
problemas se encontravam resolvidos da melhor maneira, que todos os
perigos seriam solucionados para sempre, todos os caminhos aplanados e
abertos de maneira que tudo o que teríamos de fazer era caminhar por eles
fora. Mas na vida não há nada resolvido ou que possa sê-lo com
facilidade, ou mesmo que tenha a mais pequena possibilidade de ser
completamente resolvido. Tudo é duro e complicado, dispendioso e
acompanhado de riscos desproporcionadamente elevados; não há vestígios do
que sugerem as ousadas esperanças de Herak ou os teus vastos horizontes.
O homem vive atormentado durante toda a sua existência e nunca obtém
aquilo de que precisa, quanto mais aquilo que deseja. Teorias como as
vossas apenas satisfazem a eterna necessidade de jogo — neste caso, de
jogo intelectual—, lisonjeiam a vossa vaidade e servem para vos
enganardes a vós próprios e aos outros. Esta é que é a verdade, ou, pelo
menos, assim me parece.

— Isso é que não é. Basta que compares os vários períodos

históricos e logo verás os progressos e o sentido da luta do homem e, por


conseguinte, também a teoria que dá um sentido e um objectivo a essa
luta.

Glasicanin viu logo nesta observação uma alusão velada ao facto de ele
não ter continuado os estudos e, como sempre acontecia em tais casos,
sentiu um íntimo estremecimento.

— Ê certo que não estudei história...— começou. — Estás a ver! Se a


tivesses estudado, havias de compreender...

— Mas tu também não estudaste.

— O quê ? Sim... bem, pois claro que estudei...

— Tão bem como as ciências naturais ?

A sua voz tremia, vingativamente. Stikovic ficou por momentos embaraçado


e acabou por retorquir numa voz mortiça:

— Bem, se realmente te interessa saber, sempre te direi que, além das


ciências naturais, me tenho dedicado ao estudo dos problemas políticos,
históricos e sociais.
— Felizmente que tiveste essa sorte e oportunidade para tanta coisa.
Porque, pelo que sei, além do mais, ainda és não só um orador e um
agitador, mas ainda um poeta e um amante.

Stikovic sorriu sem naturalidade. O episódio daquela tarde na sala de


aula deserta passou-lhe pela mente como uma coisa distante mas irritante.
Só então lhe veio à ideia que Glasicanin e Zorka tinham sido amigos muito
chegados antes da sua vinda a férias.

279

Um homem que não ama é incapaz de sentir a grandeza do amor, de outrem ou


a força do ciúme e o perigo que nele se oculta.

A conversa dos dois jovens transformou-se, sem transição, naquela azeda


disputa pessoal que desde o início pairara no ar entre eles. Os jovens
não procuram evitar disputas, tal como os animais jovens se prestam
facilmente a tomar parte em brincadeiras furiosas e brutais.

— O que eu sou e o que faço não é da tua conta. Eu também não te pergunto
pelos teus barrotes e pelos teus troncos de árvores.

O espasmo de cólera que sempre oprimia Glasicanin quando se fazia alusão


à sua situação fê-lo sofrer.

— Deixa lá os meus barrotes em paz. Vivo deles mas não especulo com eles.
Não engano ninguém, nem seduzo ninguém.

— E eu, quem é que seduzo? — explodiu Stikovic.

— Quem se deixar seduzir.

— É falso.

— É verdade. E tu sabes bem que o é. Já que me obrigas a falar, sempre te


direi.

— Não sou curioso.

— Mas sou eu que to quero dizer, porque, mesmo quando tem de andar o dia
todo a saltar por cima dos troncos de árvores, um homem sempre vê alguma
coisa e aprende a pensar e a sentir. E eu quero dizer-te o que penso
acerca das tuas ocupações e interesses sem conta, das tuas teorias
audaciosas e também dos teus versos e dos teus amores.

Stikovic esboçou um movimento como que para se levantar, mas ficou


pregado ao banco. Na messe dos oficiais o piano e o violino tinham
retomado o seu diálogo havia já algum tempo (o terceiro andamento da
sonatina, alegre e cheio de vivacidade) e os sons iam perder-se na noite
e no murmúrio do rio.
— Obrigado. Já ouvi isso tudo, da boca de outros mais inteligentes que
tu.

— Oh! Não! Os outros, ou não te conhecem bem, ou mentem-te, ou então


pensam o mesmo que eu, mas calam-se. Todas as tuas teorias, as tuas
múltiplas ocupações espirituais, assim como os teus amores e as tuas
amizades, provêm apenas de uma coisa: a tua ambição. E essa ambição é
falsa e doentia porque vem da tua vaidade, única e exclusivamente da tua
vaidade.

280

— Homessa!

— É assim mesmo. Até essa ideia nacionalista que pregas tão calorosamente
não passa de uma forma especial de vaidade. Porque tu és incapaz de amar
a tua mãe, as tuas irmãs ou o teu próprio irmão, quanto mais uma ideia.
Só por vaidade poderás ser bom, generoso, sacrificar-te. Porque a tua
vaidade é a força principal que te move, a tua única relíquia, a única
coisa que amas mais que a ti próprio. Quem não te conhecer facilmente se
poderá enganar ao ver a tua força e a tua actividade, a tua dedicação ao
ideal nacionalista, à ciência, à poesia ou a qualquer outro grande
objectivo que está para além dos sentimentos pessoais. Mas não podes em
caso algum servir nenhum grande ideal por muito tempo porque a tua
vaidade não to consente. No momento em que ela deixa de estar em causa
tudo para ti perde o sentido. Já não desejas coisa alguma nem mexerás
sequer um dedo para a obter. Por causa dela trais-te a ti mesmo, porque
és escravo da tua própria vaidade. Tu próprio não sabes quanto és
vaidoso. Mas eu conheço-te a fundo e bem sei que és um monstro de
vaidade.

Stikovic não replicou. A princípio ficara surpreendido com a explosão, a


um tempo apaixonada e ponderada, do seu camarada, que agora, subitamente,
lhe aparecia a uma nova luz e num papel inesperado. Por isso as suas
palavras cáusticas e monocórdicas, que a princípio o irritaram e
insultaram, lhe pareciam agora interessantes e quase divertidas. Uma
frase ou outra, em separado, tinha realmente acertado em cheio, ferindo-
o, mas, no conjunto, aquela análise arguta e profunda do seu carácter
lisonjeara-o e, de certo modo até, agradara-lhe. Ê que o facto de se
dizer a um jovem que ele é um monstro é o mesmo que espicaçar o seu
orgulho e o seu amor-próprio. Na realidade, desejava que Glasicanin
continuasse a dissecar cruelmente o seu mundo íntimo e a trazer com
clareza à superfície o lado oculto da sua personalidade, porque em tudo
isso via apenas uma prova a mais da sua excepcional superioridade. O seu
olhar fixou-se na placa branca que, diante dele, brilhava ao luar, e
deteve-se na incompreensível inscrição turca como que a lê-la e a
procurar nela a decifração do sentido profundo daquilo que o amigo, a seu
lado, tinha estado a dizer de maneira penetrante e ponderada.
— Para ti nada é verdadeiramente importante e, no fundo, não sentes amor
nem ódio, porque, para sentires um ou outro, terias, pelo menos, de sair
por um momento de ti próprio, esquecer-te de ti, dar um passo para além
de ti e da tua vaidade. Mas isso é coisa que não podes fazer, nem havia
nada que te levasse a fazê-lo, mesmo que fosses capaz.

281

O infortúnio de outrem não pode dar-te pena, e muito menos desgosto; nem
sequer o teu próprio infortúnio, desde que te lisonjeie a vaidade. Nada
desejas e em nada encontras satisfação. Nem mesmo és invejoso, não por
bondade, mas por um egoísmo ilimitado, porque não chegas a reparar na
felicidade ou na infelicidade dos outros. Nada te pode demover nem
desviar dos teus intentos. Nada te faz parar, não porque sejas corajoso,
mas porque em ti todos os impulsos sadios estão atrofiados, porque para
além da tua vaidade nada existe para ti, nem os laços de sangue, nem
questões de consciência, nem Deus, nem o mundo, nem a família, nem
amigos. Nem sequer aprecias as tuas próprias qualidades naturais. Em vez
da consciência, é apenas a tua própria vaidade ferida que te pode
estimular, porque só ela, sempre e em tudo, fala pela tua boca e dita os
teus actos.

— Isso é alguma alusão a Zorka? — perguntou de repente Stikovic.

— Sim. E, se quiseres, podemos também falar desse caso. Sim. Pois claro
que é também por causa de Zorka que falo. Não gostas dela, nem tanto como
a ponta de um dedo. Só lhe deste atenção por força dessa tua incapacidade
para te deteres e te absteres perante seja o que for que momentaneamente
se te oferece e lisonjeia a tua vaidade. Sim, é também por isso. Seduzes
uma pobre professora perturbada e inexperiente da mesma forma que
escreves artigos e poemas ou fazes discursos e conferências. É ainda
antes de teres conquistado qualquer dessas coisas completamente já estás
saturado, porque a tua vaidade se enfastia e procura qualquer outra coisa
nova. Mas é precisamente nisso, no facto de nada te deter, de nada te
satisfazer ou saciar, que está também a tua perdição. Tudo submetes à tua
vaidade, mas tu próprio és o primeiro dos seus escravos e o seu maior
mártir. É muito possível que venhas a obter ainda maior glória e sucesso,
um sucesso muito maior que o que te pode proporcionar a fraqueza de uma
simples rapariga entontecida, mas nunca encontrarás satisfação em nada,
porque a tua vaidade te arrastará sempre para mais longe, porque ela tudo
engole, até os maiores sucessos, esquecendo-os imediatamente, ao passo
que nunca esquecerá as frustrações e as ofensas, por mais pequenas que
sejam. E quando tudo estiver consumido, quebrado, maculado, humilhado
desintegrado e destruído à tua volta, então ficarás só nesse deserto que
tu próprio criaste, face a face com a tua vaidade, e não terás nada para
lhe oferecer. Então devorar-te-ás a ti próprio, mas de nada te servirá,
porque a tua vaidade, acostumada a um alimento mais rico, há-de
desprezar-te e rejeitar-te.
282

Aqui está o que tu és, no fundo, muito embora possas parecer diferente
aos olhos de muita gente e tenhas de ti uma ideia também diferente. Mas
eu bem sei que assim é.

De repente, Glasicanin calou-se.

Sentia-se já na kapia a frescura da noite e o silêncio alastrava,


acompanhado pelo eterno murmúrio das águas. Eles nem sequer tinham dado
por que a música que vinha da margem tinha acabado. Ambos se tinham
completamente esquecido do sítio onde estavam e do que estar»» a fazer,
arrastados cada um pelos seus pensamentos, como só à juventude acontece.
O despeitado e infeliz medidor de barrotes limitara-se a exprimir aquilo
em que tantas vezes pensara apaixonada, profunda e intensamente, mas para
que nunca, até então, conseguira arranjar as palavras e expressões
adequadas, que nessa noite lhe tinham ocorrido facilmente,
eloquentemente, comi amargura e exaltação. Stikovic escutara, sem se
mexer, sem tirar os olhos da placa branca com a inscrição, como se se
tratasse de uma pantalha de cinema. Cada palavra de Glasicanin fora como
que uma picada de alfinete, mas, embora sentisse a dor fina de cada
comentário mais duro, já não podia ver em tudo aquilo que aquele camarada
que quase se não via lhe dissera nada de insultuoso ou perigoso. Por
outro lado, parecia-lhe que cada palavra do outro mais o elevava e que
ele voava agora, com asas invisíveis, sem ruído, veloz, exultante e
audacioso, muito acima de todos os homens que vegetam neste mundo e das
cadeias que os prendem, das suas leis e sentimentos, só, orgulhoso e
grandioso, feliz ou sentindo algo afim da felicidade. Voava acima de
todas as coisas. Aquela voz, aquelas palavras do seu rival, eram apenas o
som das águas e o murmúrio de um mundo invisível, rasteiro, muito abaixo
dele: pouco lhe importava o que esse mundo era, pensava ou dizia, porque
ele voava lá muito acima, qual uma ave.

O silêncio momentâneo de Glasicanin como que os fez acordar a ambos. Não


ousavam olhar um para o outro. Só Deus sabe de que maneira a disputa
teria acabado se não tem aparecido na ponte uma multidão de bêbados que
vinham do largo do mercado, fazendo uma enorme algazarra e cantando
pedaços de canções. Uma voz de tenor sobressaía de todas as outras e
cantava em falsete uma velha canção:

És ajuizada e bela,

Bela Fata Avdagina!...


283

Reconheceram as vozes de alguns jovens que eram filhos de comerciantes e


de ricos proprietários. Uns caminhavam direitos e devagar, mas outros iam
aos bordos, sem se aguentarem nas pernas. Dos seus dichotes barulhentos
podia-se concluir que vinham de Sob os Álamos.

Mais de quinze anos atrás, mesmo ainda antes de haver comboios, um certo
húngaro e a esposa tinham-se fixado na cidade. Ele chamava-se Terdik e a
mulher Julka. Esta falava sérvio porque nascera em Novi Sad. Depressa se
soube que tinham vindo com a intenção de montar na cidade um negócio para
designar o qual o povo da terra não tinha nome. Foram abri-lo nos
subúrbios da cidade, sob os altos álamos que existem na vertente do monte
Straziste, numa velha casa turca que reconstruíram completamente.

Era a casa de má reputação da terra. As janelas permaneciam fechadas


durante todo o dia. Mas, ao anoitecer, acendia-se na porta de entrada uma
lâmpada de acetilene branca, que ardia durante a noite inteira. No rés-
do-chão ecoavam canções e o martelar de um piano automático. Corriam de
boca em boca, entre os jovens e os homens debochados, os nomes das
raparigas que Terdik trouxera e ali mantinha. A princípio, eram quatro:
Irma, Hona, Frieda e Aranka.

Todas as sextas-feiras se viam as «pequenas de Julka» ir em dois trens ao


hospital para a inspecção semanal. Iam muito pintadas e empoadas, com
flores nos chapéus e umas sombrinhas de cabo muito comprido, em que
flutuavam folhos de renda. À passagem dos carros as mulheres da cidade
mandavam as filhas recolher e elas próprias desviavam a vista, com um
sentimento misto de vergonha, repulsa e piedade.

Quando começaram as obras do caminho de ferro e houve um afluxo de


dinheiro e de operários, o número de raparigas aumentou. Junto da velha
casa turca Terdik mandou construir uma outra, «segundo um plano», com um
telhado de telhas vermelhas que se via de longe. Tinha três
compartimentos: uma sala comum, o extrazimmer e o salão dos oficiais. Em
cada um deles havia preços diferentes e uma frequência também diferente.
Ali, «sob os álamos», como se dizia na cidade, podiam os filhos e netos
daqueles que em tempos iam beber para a taberna de Zarije e, mais tarde,
para o hotel de Lotte, esbanjar o dinheiro que tinham herdado ou ganho
com o seu próprio esforço. Ali tinham lugar as rixas de maior nomeada e
as mais desbragadas cenas de bebedeira colectiva, ali se pregavam
partidas de estalo e se desenrolavam dramas passionais.

284

Muitas desgraças pessoais e familiares tiveram a sua origem naquela casa.


A personagem central daquele grupo de beberrões que tinham passado a
primeira parte da noite «sob os álamos» e tinham vindo agora refrescar as
ideias para a kapia era um tal Nikola Pecikosa, um jovem simplório e boa
pessoa, que os outros tinham conseguido embebedar para se divertirem à
sua custa.

Antes de chegarem à kapia, os borrachos pararam junto do parapeito. Com


vozes avinhadas, estavam travando uma discussão barulhenta. Nikola
Pecikosa apostava dois litros de vinho em como era capaz de caminhar
sobre o parapeito de pedra até ao fim da ponte. Alguém aceitou a aposta e
o rapaz saltou para cima do parapeito e começou a andar, de braços
estendidos, pousando cautelosamente um pé diante do outro, como um
sonâmbulo. Quando chegou à kapia, viu os dois jovens retardatários; não
lhes disse nada e, trauteando uma canção qualquer e oscilando na sua
embriaguez, prosseguiu a sua perigosa travessia, acompanhado de perto por
todo o grupo de pândegos. À já fraca claridade do luar, a sua sombra,
muito alongada, dançava no pavimento da ponte e ia quebrar-se em pedaços
no parapeito do lado oposto.

Os bêbados passaram diante da kapia num frenesi de gritos sem nexo e


comentários idiotas. Depois de os deixarem, passar, os dois jovens
ergueram-se e, sem se darem sequer as boas-noites, tomaram cada um o seu
caminho em direcção a casa.

Glasicanin desapareceu na escuridão para os lados da margem esquerda onde


começava o caminho que o conduzia a sua casa, em Okoliste. Stikovic
caminhou com passo lento na direcção oposta, para os lados do bairro do
mercado. O seu andar era vagaroso e irresoluto. Não lhe apetecia sair
daquele sítio onde havia maior claridade e mais frescura que na cidade.
Deteve-se junto do parapeito. Sentia a necessidade de se agarrar a
qualquer coisa; de procurar um apoio qualquer.

A Lua tinha-se posto por trás do Vidova Gora. Encostado ao parapeito no


extremo da ponte, o rapaz ficou a olhar por muito tempo para as imensas
sombras e para as raras luzes da sua cidade natal, como se a visse agora
pela primeira vez. Apenas duas janelas estavam ainda iluminadas na messe
dos oficiais. A música já não se fazia ouvir. Quem sabe se os dois
infelizes amantes, o médico e a esposa do coronel, não estavam ainda ali,
a falar de música e de amor ou do seu próprio destino, que não lhes
permitia que estivessem em paz cada um consigo mesmo e um com o outro.

285

Do ponto em que agora se encontrava, Stikovic podia ver que uma janela
tinha ainda luz no hotel de Lotte. O jovem olhou para aquelas janelas
iluminadas de um lado e do outro da ponte como se delas esperasse alguma
coisa. Estava extenuado e melancólico. A temerária travessia daquele
idiota do Pecikova trouxe-lhe de repente à memória aquele momento em que,
sendo ainda muito criança, viu, quando ia a caminho da escola, a figura
atarracada de Corkan, no nevoeiro da manhã, a oscilar naquele mesmo
parapeito. Qualquer recordação da sua infância lhe dava tristeza e mal-
estar. Aquele sentimento de grandeza fatal e exaltante e de plenitude num
voo universal por cima de tudo e de todos, essa euforia que as palavras
azedas e ardentes de Glasicanin nele tinham despertado, tudo se tinha
agora perdido. Parecia-lhe que tinha subitamente caído das alturas e que
rastejava neste mundo de trevas como todos os outros. A lembrança do que
acontecera com a professora, e não devia ter acontecido, atormentava-o
como se algum outro tivesse agido em seu nome; o mesmo acontecia com o
artigo, que agora lhe parecia fraco e cheio de defeitos, como se um outro
o tivesse escrito e publicado em seu nome contra a sua vontade. Pensou na
longa conversa com Glasicanin, cujas palavras agora se lhe afiguravam, de
repente, cheias de malícia e de ódio, de amargas injúrias e verdadeiros
perigos.

Sentiu um arrepio, provocado ao mesmo tempo pelo seu estado de espírito e


pela humidade que vinha do rio. Como quem acorda de um sonho, notou que
as luzes das duas janelas da messe dos oficiais já se tinham apagado. Os
últimos frequentadores iam a sair nesse momento. Chegou-lhe aos ouvidos o
tilintar das espadas e o som de um palratório ruidoso e artificial quando
eles iam a atravessar a praça obscurecida. O jovem afastou-se
pesarosamente do parapeito e, olhando para a janela solitária ainda acesa
no hotel, última luz que brilhava na cidade adormecida, dirigiu-se
lentamente para a sua modesta casa, lá em cima, no Mejdan.

286

XX

A única janela acesa no hotel, que ficara como o último sinal de vida,
nessa noite, na cidade, era a pequena janela do primeiro andar, onde
estava instalado o quarto de Lotte. Mesmo àquelas horas da noite, lá
estava Lotte sentada à sua mesa sempre atravancada, tal como em tempos,
mais de vinte anos antes, quando vinha refugiar-se nesse mesmo quartinho
para repousar um pouco da balbúrdia e do barulho do hotel. Simplesmente,
agora, tudo lá em baixo estava escuro e sossegado.

Às 10 da noite Lotte retirava-se para o seu quarto, para dormir. Antes de


se deitar, foi até à janela para respirar o ar fresco do rio e lançar
mais um olhar para aquele arco da ponte que era a única vista, e
eternamente a mesma, que da janela abrangia. Então lembrou-se de qualquer
conta já antiga e sentou-se para a procurar. Mas logo que começou a
folhear as contas deixou-se absorver por elas e permaneceu à mesa por
mais de duas horas.

Já há muito tinha dado meia-noite, e ainda Lotte, concentrada e sem sono,


anotava número após número e folheava a papelada imensa.
Estava cansada. De dia, no meio da conversa e do trabalho, ainda era
animada e faladora, mas de noite, quando estava só, sentia o peso dos
anos e a fadiga. Estava velha. Da sua beleza de outros tempos poucos
vestígios restavam. Emagrecera e a pele tornara-se-lhe amarelada; o
cabelo perdera o brilho e começava a escassear no alto da cabeça; os
dentes, outrora brilhantes e fortes, eram agora amarelos e com muitas
falhas. Os seus olhos negros, cujo brilho ainda se não perdera, tinham,
contudo, uma expressão dura e, por vezes, triste.

Estava realmente cansada, mas não daquele cansaço abençoado e doce que
vem após o trabalho pesado e os grandes lucros, como aquele que em tempos
a levara a procurar descanso e sossego naquele mesmo quarto.

287

A velhice atingira-a e os tempos eram agora mais difíceis.

Muito embora não pudesse exprimir em palavras, nem fosse capaz de o


explicar a si própria, sentia a cada passo que os tempos se tinham
desajustado, pelo menos para quem tinha tido sempre em mente, como ela, o
seu próprio proveito e o da sua família. Quando, trinta anos antes, tinha
vindo para a Bósnia e começado a trabalhar, a vida parecia-lhe sólida.
Tudo caminhava na mesma direcção que ela para si tinha traçado: a do
trabalho e da família. Tudo estava no seu devido lugar e havia um lugar
para toda a gente. E sobre todos reinava uma ordem e uma lei, uma ordem
estabelecida e uma lei rígida. Assim Lotte via nessa altura o mundo. Mas
agora tudo tinha mudado e estava virado do avesso. Os homens estavam
divididos e separados por motivos a que ela não achava sentido. A lei do
lucro e da perda, essa lei divina que sempre tinha controlado as
actividades humanas, era como se já não fosse válida, visto que uma
infinidade de homens trabalhavam, falavam ou escreviam acerca de coisas
cuja finalidade ou sentido ela não podia vislumbrar e que só podiam
trazer, ao fim e ao cabo, infelicidades e prejuízos. A vida estava a cair
aos pedaços, a esboroar-se, a desintegrar-se. Afigurava-se-lhe que as
novas gerações estavam a ligar maior importância às suas ideias sobre a
vida do que à própria vida. A coisa parecia-lhe louca e absolutamente
incompreensível, mas era assim. Por isso a vida estava a perder o seu
valor e a perder-se em meras palavras. Lotte via-o claramente e a cada
passo o sentia.

Os seus negócios, que em tempos parecia que lhe saltitavam diante dos
olhos como um rebanho de cordeiros irrequietos, jaziam agora inertes e
mortos como as grandes pedras tumulares do cemitério. Nos últimos dez
anos o hotel vinha fazendo pouco negócio. As florestas em volta da cidade
já tinham sido completamente exploradas e os golpes de machado iam-se
afastando cada vez mais e, com eles, os melhores fregueses do hotel e a
maior parte dos lucros que este rendia. Aquele alarve do Terdik,
insolente e desavergonhado, abrira a sua casa «sob os álamos» e roubara
muita da clientela de Lotte, ao oferecer-lhe, fácil e imediatamente,
aquilo que nunca ninguém tinha conseguido obter no seu hotel, por muito
que pagasse. Lotte revoltou-se durante muito tempo contra aquela
concorrência desleal e vergonhosa e achou que eram chegados os últimos
dias, aqueles dias em que já não havia lei, nem ordem, nem a
possibilidade de uma pessoa honesta se governar.

288

A princípio referia-se amargamente a Terdik como «o patrão das rameiras»,


mas ele moveu-lhe um processo e o tribunal condenou-a a pagar uma multa
por difamação. Mas nem por isso deixou de se lhe referir nos mesmos
termos, embora agora tivesse mais cuidado com as pessoas que a ouviam. A
nova messe dos oficiais tinha o seu restaurante privativo, uma boa
garrafeira e os seus próprios quartos de hóspedes, onde os visitantes de
categoria podiam ser hospedados. Gustav, o taciturno e mal-encarado, mas
sempre fiel e hábil Gustav, tinha deixado o hotel, ao fim de muitos anos
de serviço, paia abrir também um café, por sua conta, na zona mais
frequentada do bairro do mercado, passando assim de colaborador a novo
concorrente. A sociedade coral e as várias salas de leitura que tinham
aberto na cidade nos últimos anos possuíam também os seus cafés
privativos e atraíam muitos frequentadores. Na sala maior já não havia a
mesma animação, e ainda menos no extrazimmer. Só ocasionalmente algum
funcionário solteiro lá ia almoçar, ler os jornais e tomar o seu café.
Mas Alibeg Pasic, o taciturno e apaixonado amigo de juventude de Lotte,
ainda lá ia todas as tardes. Comedido e discreto como sempre, quer nas
palavras quer nas acções, com a mesma correcção e cuidado no vestuário,
embranquecera e tornara-se mais pesado. Serviam-lhe o café com sacarina
por causa da forte camada de diabetes de que sofria já há alguns anos.
Fumava descansadamente e, calado como sempre, ouvia o palratório de
Lotte. Quando achava que eram horas, levantava-se com a mesma calma, sem
dizer palavra, e ia para casa, em Crnce. Havia também um outro visitante
de todos os dias, Pavle Rankovic, vizinho de Lotte. Há muito que deixara
de usar o trajo nacional e adoptara o vestuário corrente, «apertado», mas
conservava ainda o fez vermelho e baixo. Usava sempre uma camisa de
colarinho e punhos engomados. Estes últimos serviam-lhe para apontar
números e fazer contas. Há muito tempo que conseguira guindar-se ao
primeiro lugar no meio comercial de Visegrad. A sua posição estava agora
perfeitamente consolidada e firme, mas nem por isso deixava de ter também
os seus cuidados e dificuldades. Como todos os homens de idade que
possuíam bastante de seu, estava alarmado com os novos tempos e com a
avalancha tumultuosa de novas ideias, novos modos de vida, de pensar e de
se exprimir. Todas estas coisas, englobava-as ele numa única palavra:
«Política». Era essa «política» que o confundia e irritava, azedando-lhe
aqueles anos que deviam ser de descanso e satisfação, depois de tanto
trabalho, economia e renúncia. De modo algum queria apartar-se ou
separar-se da maioria dos seus compatriotas, mas, ao mesmo tempo, não
tinha nenhuma vontade de entrar em conflito com as autoridades, com as
quais desejava viver em boas relações e, pelo menos na aparência, em
perfeito acordo.

289

Mas isso era uma coisa difícil, se não impossível, de conseguir. Até com
os próprios filhos não era capaz de se entender como devia e queria. Como
toda a geração mais nova, eles eram para ele pura e simplesmente
desconcertantes e incompreensíveis; e, no entanto, muitas das pessoas
mais velhas, por necessidade ou por fraqueza, seguiam-lhes o exemplo. O
comportamento, as atitudes e a maneira de agir deles afiguravam-se
rebeldes a Pavle, como se pensassem que viver e morrer nas condições
presentes não era melhor que passar a vida como os bandidos nas
montanhas. Os jovens não pensavam no que diziam, não atentavam no que
faziam, não se preocupavam com o que gastavam e ainda menos com o
trabalho; comiam o pão sem se deterem sequer a pensar donde ele vinha, e
falavam, falavam e tornavam a falar, ou, como dizia Pavle nas suas
discussões com os filhos, «a ladrar à Lua».

Esta maneira de pensar sem limites, este modo de falar sem medir as
palavras e esta vida sem cálculos e hostil a todos e quaisquer cálculos
enfureciam e desesperavam Pavle, que toda a sua vida tinha trabalhado
fazendo cálculos e em conformidade com os cálculos. Onde quer que os
visse ou ouvisse, esses jovens inspiravam-lhe um autêntico pavor;
parecia-lhe que eles atentavam, imprudente e irresponsavelmente, contra
os próprios alicerces da vida e contra tudo o que para ele era mais caro
e mais sagrado. Quando lhes pedia uma explicação que o convencesse e
tranquilizasse, respondiam-lhes desdenhosa e altivamente com palavras
sonoras e vagas: liberdade, futuro, história, ciência, glória, grandeza.
Toda a pele se lhe arrepiava ao ouvir essas palavras abstractas. Por isso
gostava, em contrapartida, de se sentar a tomar o seu café na companhia
de Lotte, com a qual podia falar de negócios e de acontecimentos, sempre
com base num cálculo seguro e válido, muito diferente das tais
«políticas» e das grandes mas perigosas palavras que tudo punham em
causa, mas que nada explicavam nem afirmavam. Durante a conversa era
frequente vê-lo pegar na sua minúscula ponta de lápis, que não era,
evidentemente, a mesma de há vinte anos, mas uma outra tão sebosa e quase
tão invisível como aquela, para reduzir tudo o que se dizia à infalível e
irrefutável prova dos números. Não raro recordavam no seu diálogo algum
acontecimento já muito antigo ou qualquer brincadeira cujos protagonistas
tinham já morrido quase todos, após o que Pavle, curvado e preocupado, ia
até à sua loja do largo do mercado e Lotte ficava só com os seus cuidados
e as suas contas.

290
As especulações pessoais de Lotte não iam melhor que o negócio do hotel.
Nos primeiros anos após a ocupação bastava comprar quaisquer acções numa
qualquer empresa para uma pessoa ficar segura de ter investido bem o seu
capital, subsistindo apenas dúvidas quanto à maior ou menor importância
dos lucros. Mas nessa altura o hotel tinha começado a funcionar havia
pouco tempo e Lotte não tinha ainda dinheiro suficiente disponível nem o
crédito de que mais tarde veio „ gozar. Quando pôde dispor de ambos — o
dinheiro e o crédito — já as coisas tinham mudado radicalmente. Em fins
do século XIX e princípios do século XX a monarquia austro-húngara foi
atingida por uma das suas mais sérias crises cíclicas. Os papéis e
títulos de Lotte começaram a bailar como poeira ao vento. Todas as
semanas ela chorava de raiva ao ler as últimas cotações no Merkur de
Viena. Todos os lucros do hotel, que, nessa altura, fazia ainda bom
negócio, eram insuficientes para compensar as perdas causadas pela baixa
geral dos valores na Bolsa. Foi por essa ocasião que ela teve uma forte
depressão nervosa, que durou dois anos inteiros. Quase enlouqueceu de
desgosto. Falava com as pessoas sem ouvir o que elas diziam nem pensar no
que lhes estava a dizer. Quando olhava para as pessoas, era como se não
as visse, mas sim as colunas, em tipo miúdo, do Merkur, que deviam
trazer-lhe a boa ou a má sorte. Começou então a comprar bilhetes de
lotaria. Já que tudo se reduzia, de qualquer modo, a um jogo do acaso,
havia que ir até ao fim. Tinha bilhetes de lotaria de todos os países.
Chegou mesmo a conseguir comprar um quarto de bilhete da grande lotaria
espanhola do Natal, cujo primeiro prémio ascendia a quinze milhões de
pesetas. Pediu fervorosamente a Deus que lhe fizesse o milagre de lhe
proporcionar esse primeiro prémio. Mas nunca ganhou coisa alguma.

Sete anos antes, o cunhado de Lotte, Zahler, associara-se com dois ricos
aposentados e fundara na cidade a Moderna Cooperativa do Leite. Lotte
entrara com três quintos do capital. Previa-se um negócio em alta escala.
Calculava-se que os primeiros sucessos, que não podiam deixar de se
verificar, iriam atrair capital de fora da cidade, e até mesmo de fora da
Bósnia. Mas justamente na altura em que o empreendimento estava na sua
fase crítica teve lugar a crise resultante da anexação, o que veio
destruir toda e qualquer esperança de atrair novos capitais. Aqueles
distritos fronteiriços tornaram-se tão inseguros que até o capital já
investido neles começou a desertar.

291

A cooperativa foi liquidada ao fim de dois anos, com a perda total do


capital investido. Lotte teve de hipotecar os seus melhores e mais
sólidos valores, como as acções da Fábrica de Cerveja de Serajevo e da
Fábrica de Soda Solvaj, de Tuzla, para cobrir o déficit.

A par destes contratempos financeiros, e aliados a eles, registaram-se


perturbações e decepções de ordem familiar. É certo que uma das filhas de
Zahler, Irene, tinha feito inesperadamente um belo casamento (fora Lotte
que lhe dera o dote). Mas a mais velha, Mina, continuara a constituir um
encargo e um problema. Despeitada com o casamento da irmã mais nova e
infeliz com os seus pretendentes, tornara-se, antes de tempo, uma
solteirona cheia de azedume e com língua de palmo, para quem a vida em
casa e o trabalho no hotel pareciam ainda mais pesados e insuportáveis do
que na realidade eram. Zahler, que nunca tinha sido pessoa activa nem
desembaraçada, tornou-se ainda mais pesadão e mais indeciso e vivia em
casa como se fosse um hóspede mudo mas bonacheirão, de quem não vinha
prejuízo nem lucro. Deborah, a mulher, embora enfermiça e já entrada em
anos, dera à luz um filho, mas o rapaz saiu atrasado e raquítico. Ia já
nos 10 anos e ainda não era capaz de falar com clareza nem de se segurar
de pé, exprimindo-se em sons vagos e andando de gatas pela casa fora. Mas
esta miserável criatura era tão digna de dó e tão boa e pegava-se tão
desesperadamente à «titi», a quem queria muito mais que à sua própria
mãe, que Lotte, a despeito de todas as suas preocupações e deveres,
olhava por ele, dava-lhe de comer, vestia-o e cantava-lhe canções para o
adormecer. Com aquele cretino sempre diante dos olhos, o coração
apertava-se-lhe ao pensar que o negócio estava agora tão mau que não
havia dinheiro que chegasse para o levar a consultar os médicos famosos
de Viena ou para o internar em qualquer instituição apropriada, e ainda
que o tempo dos milagres fora chão que deu uvas e que seres daquela
natureza não podiam tornar-se saudáveis só por obra e graça de Deus e das
boas acções e preces dos homens.

Os protegidos que Lotte tinha na Galícia e que ela tinha educado ou


casado durante os anos bons também lhe causavam preocupações e não
pequenas decepções. Alguns deles tinham constituído família, alargado os
seus negócios e granjeado fortuna. Lotte recebia regularmente notícias
deles em cartas, cheias de respeito e gratidão, que relatavam
circunstanciadamente como as coisas iam lá pela família. Mas os
Apfelmayers, aos quais Lotte tinha ajudado a iniciar a vida, a educar e a
montar casa, não a ajudavam nem se importavam com outros parentes pobres
nascidos e criados na Galícia; uma vez instalados noutras terras
distantes, apenas se preocupavam com eles próprios e os seus filhos.

292

Para eles a parte mais importante do seu sucesso consistira em esquecer


Tarnovo e o meio acanhado e miserável em que se tinham criado e de que
tinham tido a sorte de se libertar tão rápida e completamente quanto
possível. Lotte, por seu turno, já não estava em condições de, como antes
fazia, pôr dinheiro de lado para ajudar a viver aqueles miseráveis de
Tarnovo. Nunca adormecia nem acordava agora sem se lembrar de que alguém
dos seus, lá em Tarnovo, estava para sempre atolado na lama da pobreza
sem remédio, para sempre condenado à ignorância e à imundície, no meio de
uma miséria vergonhosa que ela tão bem conhecia e contra a qual tinha
lutado durante toda a sua vida.

Mesmo entre aqueles a quem ela tinha conseguido deitar a mão e salvar
daquela situação degradante havia quem lhe desse bastantes motivos para
se lamentar e estar descontente. Até os melhores de entre eles se tinham
desviado do caminho recto e dado passos em falso, depois dos primeiros
sucessos e das esperanças mais brilhantes. Uma sobrinha, pianista de
talento, que, com a ajuda e os incitamentos de Lotte, tinha completado os
estudos no Conservatório de Viena, tinha-se envenenado alguns anos atrás,
quando estava a obter os seus primeiros e melhores sucessos. Nunca
ninguém soube porquê.

Albert, um dos sobrinhos, que era o orgulho de Lotte e a grande esperança


da família, depois de ter concluído todos os estudos, quer secundários,
quer universitários, com extraordinário brilho, só porque era judeu não
recebeu o seu diploma sub auspiciis regis nem obteve o sinete imperial
que Lotte secretamente ambicionava para ele. Mas nem por isso ela deixou
de imaginar que ele viria a ser pelo menos um advogado importante em,
Viena ou Lwow, uma vez que, por ser judeu, não podia enveredar pelo
funcionalismo superior, carreira que estaria mais de acordo com as
ambições dela. Era em sonhos deste género que ela encontrava compensação
para todos os sacrifícios feitos com a educação dele. Mas também neste
caso estava destinada a sofrer uma penosa desilusão. O jovem doutor em
leis dedicou-se ao jornalismo e tornou-se membro do partido socialista,
situando-se precisamente naquela ala mais extremista que deu que falar
quando da greve geral em Viena, no ano de 1906. Lotte passou pelo
desgosto de ler com os seus próprios olhos nos jornais vienenses a
notícia ae que «durante o processo de depuração dos elementos subversivos
estrangeiros em Viena, o bem conhecido agitador judeu Dr. Albert
Apfelmayer tinha sido expulso, depois de ter cumprido uma pena de vinte
dias de prisão».

293

Aquilo, na linguagem de Visegrad, tinha o mesmo significado como se ele


fosse um haiduk. Alguns meses depois Lotte recebeu uma carta do seu
querido Albert em que este lhe comunicava que ia emigrar para Buenos
Aires.

Naqueles dias de inquietação, ela não podia encontrar paz nem mesmo no
seu próprio quarto. De carta na mão, foi ter com a irmã e o cunhado, e
desesperadamente, como louca, investiu furiosamente com a pobre Deborah,
que não fazia senão chorar. Lotte gritou com fúria:

— Que vai ser de nós? Responde, anda! Que vai ser de nós se cada um não
sabe o caminho que tem a seguir nem governar-se a si próprio? Estes
idiotas, desde que uma pessoa não os está a segurar, caem. Mas que é que
nos há-de acontecer? Estamos amaldiçoados, é o que isto tudo quer dizer!

— Meu Deus! Meu Deus! Meu Deus! — suspirava a pobre Deborah, com as
lágrimas a correrem-lhe pelas faces e incapaz, bem entendido, de
responder às perguntas de Lotte.
A própria Lotte não conseguia encontrar resposta; de mãos postas, erguia
os olhos para o céu, não lacrimosos e aterrados como os da irmã, mas
cheios de cólera e desespero.

— Tornou-se socialista! Soc-ial-ista! Já não nos bastava o sermos judeus,


faltava agora mais esta! Ó Deus todo-poderoso, que pecado cometi eu para
Tu nos punires assim? Um socialista!

Carpiu a perda de Albert como se ele tivesse morrido, e depois nunca mais
falou nele.

Passados três anos, uma outra sobrinha, irmã desse mesmo Albert, fez um
bom casamento em Pest. Lotte tomou a seu cargo o enxoval da noiva e teve
o papel mais importante na crise moral que esse casamento provocou na
grande família dos Apfelmayer de Tarnovo, rica apenas no número de filhos
e na manutenção de uma tradição religiosa sem mácula. Ora o homem que a
sobrinha ia desposar, que era um rico especulador na Bolsa, mas cristão e
calvinista, impôs como condição que a rapariga se convertesse ao seu
credo. Todos os parentes se opuseram a isso, mas Lotte, tendo em mente
apenas o interesse geral da família, lembrou-lhes que era difícil manter
o barco a flutuar com tantas pessoas a bordo e que às vezes era preciso
deitar carga ao mar para poder salvar todo o resto. Apoiou a rapariga, e
a sua intervenção foi decisiva. A pequena baptizou-se e casou. Tinha
Lotte a esperança de fazer entrar no mundo de negócios de Pest, com o
auxílio daquele novo parente, pelo menos um dos muitos primos ou
sobrinhos que estavam agora na idade própria.

294

Mas quis a pouca sorte que o rico especulador de Pest morresse ainda
durante o primeiro ano de casado. A jovem esposa ia enlouquecendo de
desgosto. Os meses passavam e a sua dor não diminuía. Ia já para quatro
anos que a viúva vivia em Pest, entregue ao seu pesar doentio, que chegou
mesmo a atingir uma forma benigna de loucura. A sua casa enorme e
ricamente mobilada estava toda coberta de crepes. Todos os dias ia ao
cemitério, sentava-se junto da campa do marido e lia-lhe de uma ponta a
outra, numa voz impregnada de doçura e dedicação, as cotações diárias da
Bolsa. A todas as sugestões que lhe apresentavam tendentes a arrancá-la
daquela letargia em que caíra respondia suavemente que o defunto amara
acima de todas as coisas ouvir a leitura daquela lista, que era a música
mais melodiosa que jamais conhecera.

Assim, naquele pequeno quarto muitos destinos diversos se tinham


acumulado. Na importante e ramificada contabilidade de Lotte havia muitas
contas e muitas dívidas em suspenso ou duvidosas, muitas outras riscadas,
emendadas ou apagadas para sempre; mas o grande princípio de trabalho
continuava a ser o mesmo. Lotte estava cansada, mas não perdera a
coragem. Depois de cada perda ou insucesso, reunia todos os recursos,
cerrava os dentes e continuava a luta. Nos últimos anos, o combate em que
estava empenhada era de natureza defensiva, mas, mesmo assim, continuava
a lutar com o mesmo objectivo diante dos olhos e com o mesmo espírito
resoluto de que dera provas quando ganhara bom dinheiro e conseguira
prosperar na vida. Era o «homem» naquela casa e, para toda a cidade, a
«Tia Lotte». Havia muita gente ainda em Visegrad e fora dela que esperava
a sua ajuda, os seus conselhos ou, pelo menos, os seus incitamentos, sem
pensar nem imaginar sequer que ela pudesse estar cansada. E, contudo, ela
estava realmente cansada, mais do que ninguém supunha e mais do que ela
própria julgava.

Na parede, o pequeno relógio de madeira deu uma hora. Lotte ergueu-se com
dificuldade, levando as mãos aos quadris. Apagou com todo o cuidado o
grande candeeiro verde que estava em cima de uma mesinha ao lado e, com
passinhos miúdos de velha, maneira de andar que só usava no seu quarto e
antes de ir para a cama, foi-se deitar.

A cidade adormecida ficou envolta em total e completa escuridão.

295

XXI

Chegamos agora a 1914, o último ano da crónica da ponte sobre o Drina.


Veio, como todos os outros anos anteriores tinham vindo, com o passo
tranquilo do Inverno, mas também acompanhado pelo surdo rumor de
acontecimentos sempre novos e cada vez mais invulgares, que se
precipitavam uns atrás dos outros, como vagas.

Muitos anos tinham passado sobre a cidade, e muitos mais haviam de passar
ainda. Tinha-os havido, e ainda havia de havê-los, de todas as espécies,
mas o ano de 1914 permanecerá sempre na memória como um ano único. Pelo
menos era o que parecia aos que o estavam a viver. A esses afigurava-se-
lhes que nunca seriam capazes de falar de tudo o que tinham visto até
então e que se prendia com o curso dos destinos humanos, a despeito de
tudo o que mais tarde pudesse vir a ser dito ou escrito sobre o assunto e
que, mesmo assim, ficaria velado pelo tempo e pelos acontecimentos. Como
poderiam eles explicar e exprimir esses calafrios colectivos que de
repente abalavam todos os homens e que das criaturas vivas se transmitiam
aos objectos inertes, aos distritos e aos edifícios? Como haviam eles de
descrever essa corrente turbilhonante que arrastava os homens, fazendo-os
passar do medo mudo e animal a um entusiasmo suicida, dos mais baixos
instintos sanguinários e de pilhagem ao mais alto e mais nobre dos
sacrifícios, em que o homem se excede a si próprio e atinge por momentos
as esferas elevadas de outros mundos onde reinam outras leis ? Nada pode
ser dito porque aqueles que presenciaram esses acontecimentos e
sobreviveram perderam o dom, da palavra e os que estão mortos não podem
contar histórias. Eram coisas que não se contam, antes se esquecem.
Porque, se não fossem esquecidas, como poderiam repetir-se?

296

Naquele Verão de 1914, quando os senhores dos destinos humanos levaram as


homens da Europa do tablado do sufrágio universal para a arena, já pronta
a funcionar, do serviço militar não menos universal, a cidadezinha de
Visegrad forneceu um pequeno mas eloquente exemplo dos primeiros sintomas
de um contágio que depois iria estender-se a toda a Europa, para logo a
seguir se espalhar por todo o mundo. Estava-se num período que
estabelecia a separação entre duas épocas da história humana mas em que
uma pessoa podia distinguir mais facilmente o fim da época que se
encerrava do que o princípio dessoutra que estava a nascer. Então
procurava-se ainda uma justificação para a violência e ia-se pedir ao
tesouro espiritual do século passado qualquer nome pomposo para mascarar
os actos de selvajaria e a sede de sangue. Tudo o que acontecia cobria-se
ainda com a capa da dignidade e firmava-se na atracção exercida pelas
coisas novas, uma atracção terrível, efémera e inexpressiva, que mais
tarde veio a desaparecer tão radicalmente que até aqueles que mais
fortemente a tinham sentido já não eram; capazes de evocar a sua memória.

Mas tudo isto são coisas que recordamos apenas de passagem e que os
poetas e homens de ciência dos tempos futuros hão-de investigar,
interpretar e ressuscitar por métodos e processos de que nós não
suspeitamos e com uma serenidade, uma isenção e uma intrepidez de
espírito que estarão muito acima das nossas. É possível que venham mesmo
a encontrar uma explicação daquele estranho ano e a determinar o lugar
que lhe pertence na história do mundo e no desenvolvimento da humanidade.
Mas para nós ele foi um ano único porque, acima de tudo, foi o ano fatal
para a ponte sobre o Drina.

O Verão de 1914 ficará na memória dos que o viveram como o mais lindo
Verão de que jamais se recordavam, porque, na sua consciência, ele
brilhou e flamejou por cima de um gigantesco e sombrio horizonte de
sofrimentos e infortúnios que se estendia até ao infinito.

Tinha, na verdade, começado bem, esse Verão, melhor mesmo que muitos
Verões anteriores. Havia ameixas com uma fartura que há muito tempo se
não verificava e os cereais prometiam uma boa colheita. Depois de bem uns
dez anos de perturbações e convulsões, o povo tinha esperança em que
viesse finalmente uma acalmia e um ano bom que o compensasse em todos os
sentidos dos prejuízos e dos azares dos anos anteriores. (A mais
deplorável e trágica de todas as fraquezas humanas é, sem dúvida, a nossa
absoluta incapacidade de prever o futuro, que tão flagrantemente
contrasta com tantos dos nossos dons, talentos e conhecimentos.)
297

Poucas vezes acontece haver um ano excepcional como aquele em que o calor
do Sol e a humidade da terra se conjugam, e todo o vale de Visegrad
parece tremer de força transbordante, num anseio pletórico de fecundação.
A terra como que incha e tudo nela germina, dá folhas, flores e frutos em
centuplicado. Esse sopro de fecundidade facilmente se podia ver agitar-se
como um leve vapor quente e azulado que se desprendia de cada sulco e de
cada monte de terra. As vacas e as cabras andavam com' as patas traseiras
muito abertas e movimentavam-se com dificuldade por causa das tetas
cheias e inchadas. No rio, o peixe que todos os anos, no princípio do
Verão, descia do Rzav aos cardumes para desovar na foz, era tanto que as
crianças o tiravam dos baixios aos baldes e o lançavam para a margem. A
pedra porosa da ponte tornou-se mais macia e, como se estivesse viva,
inchou com a força e a abundância que brotava da terra e pairava sobre
toda a cidade naqueles dias de canícula em que tudo respirava mais
depressa e crescia com mais vigor.

Verões assim não eram frequentes no vale de Visegrad. Mas quando surgia
um, os homens esqueciam todos os dias maus que tinham passado e nem
sequer pensavam nas desditas que ainda estariam para vir, vivendo com
aquela vida três vezes mais intensa do vale, sobre o qual tinha caído a
bênção da fertilidade, identificando-se eles próprios com esse jogo de
humidade, calor e seiva transbordante.

Até os camponeses, que sempre encontravam motivos para se queixarem de


alguma coisa, não podiam deixar de concordar que esse ano tinha sido
bastante produtivo até então; não deixavam, porém, de acrescentar às
palavras com que o gabavam a expressão:. «Se este tempo continuar...» Os
negociantes do bairro do mercado atiraram-se de cabeça aos negócios como
as abelhas aos cálices das flores. Calcorrearam as aldeias vizinhas para
garantirem a compra antecipada dos cereais ainda a espigar e das ameixas
ainda em flor. Os camponeses, desnorteados por aquela invasão de
compradores ansiosos e, ao mesmo tempo, pela excepcional abundância das
colheitas, pensavam, junto das árvores já vergadas ao peso dos frutos ou
da seara ondulante, que toda a prudência era pouca para negociar com
aqueles homens da cidade que se tinham dado ao incómodo de vir procurá-
los. Essa prudência e reserva dava-lhes ao rosto uma expressão reservada
e preocupada, muito semelhante àquela máscara de aflição que apresentam
as caras dos camponeses nos anos de colheita pobre.

Quando os negociantes eram ricos e poderosos, eram os camponeses que os


iam procurar.

298
Nos dias de mercado, a loja de Pavle Rankovic estava sempre cheia de
campónios que precisavam de dinheiro. O mesmo acontecia com a de Santo
Papo, que já de há muito vinha sendo o mais poderoso dos judeus de
Visegrad, uma vez que, apesar de os bancos, as hipotecas e outras
facilidades de crédito há muito tempo existirem na cidade, os camponeses,
especialmente os mais velhos, gostavam de se endividar, à maneira antiga,
com os comerciantes a quem compravam os produtos de que necessitavam e
que eram os mesmos com os quais os seus pais, antes deles, tinham já
contraído dívidas. '

A loja de Santo Papo era uma das mais altas e mais sólidas do bairro
comercial de Visegrad. Era construída de pedra, com muros espessos e chão
de mosaico. As pesadas portas e taipais eram de ferro forjado e nas
janelas altas e estreitas havia grades, fortes e muito unidas.

A parte da frente do edifício servia de loja. Ao longo das. paredes havia


prateleiras de madeira cheias de louça esmaltada. Suspensas do tecto, que
era de uma altura excepcional, a ponto de se perder na obscuridade, havia
mercadorias leves: lanternas de todos os tamanhos, cafeteiras, gaiolas,
ratoeiras e outros objectos de arame entrançado. Tudo isto estava
pendurado em grandes cachos. Em volta do extenso balcão empilhavam-se
caixas de pregos, sacos de cimento, gesso e latas de tinta de várias
cores; enxadas, pás e alviões sem cabo estavam enfiados em arames,
formando pesados molhos. Nos cantos havia grandes bidões de lata com
parafina, terebintina e verniz. Havia ali fresco mesmo no pino do Verão e
fazia escuro mesmo ao meio-dia.

Mas a maior parte do fornecimento encontrava-se nos armazéns que ficavam


atrás da loja e com ela comunicavam por meio de uma abertura baixa com
portas de ferro. Era lá que se guardavam as mercadorias mais pesadas:
fogões de ferro, trancas, relhas de arado, picaretas e outros utensílios
de maior tamanho. Todos eles estavam amontoados em enormes pilhas, de
modo que mal se podia passar pelos estreitos corredores existentes entre
umas mercadorias e outras, como entre paredes altíssimas. Reinava ali uma
perpétua escuridão, pelo que ninguém lá podia entrar senão com uma
lanterna.

Uma atmosfera húmida e fria com cheiro a pedra e a metal, que nada
poderia aquecer ou dispersar, desprendia-se das espessas paredes, do
tecto e da ferragem empilhada. Uma tal atmosfera transformava em poucos
anos os aprendizes cheios de vida e corados em caixeiros taciturnos e
pálidos, mas tornava-os hábeis e económicos.

299

Ela era, sem dúvida, também prejudicial às sucessivas gerações de


lojistas, mas era-lhes, ao mesmo tempo, doce e cara, porquanto se ligava
no seu espírito ao sentimento de propriedade, à ideia de lucro, como
fonte de riqueza que era.
O homem que agora estava sentado a uma pequena mesa, no estabelecimento
frio e escuro ao lado de um grande cofre verde da marca Werthehn, já não
se parecia nada com aquele Santo Papo turbulento e cheio de vivacidade
que trinta anos antes gritava com uma entonação muito sua: «Tragam rum
para Corkan!» Os anos que por cima dele passaram e o trabalho na loja
tinham-no mudado. Estava agora pesadão, grave, com uma cor amarelada;
umas olheiras negras desciam-lhe quase até ao meio das faces; a vista
enfraquecera-lhe e os seus olhos negros e salientes espreitavam agora por
trás de uns óculos com lentes fortes e aros de metal, com uma expressão
severa mas, ao mesmo tempo, tímida. Ainda usava o fez cor de cereja como
único vestígio do seu antigo vestuário à maneira turca. O pai, Mente
Papo, um velhote calvo e seco, já com mais de 80 anos, tinha ainda uma
saúde muito razoável, se bem que a vista lhe começasse a falhar. Nos dias
de sol vinha até à loja. Com os seus olhos lacrimejantes que, por trás de
grossas lentes, pareciam estar a derreter-se, olhava para o filho sentado
junto do cofre e para o neto postado por trás do balcão, aspirava o
cheiro característico da sua loja e depois voltava para casa em passo
muito vagaroso, com a mão direita amparada ao ombro de um bisneto de 10
anos.

Santo Papo tinha seis filhas e cinco filhos, a maior parte deles já
casados. O filho mais velho, Rafo, já tinha filhos crescidos, que
ajudavam o pai na loja. Um deles, que tinha o nome do avô, frequentava já
o liceu de Serajevo. Era um rapazito pálido, míope e franzino, que aos 8
anos já sabia muito bem recitar os poemas do poeta patriótico Zmaj, mas,
tirante isso, não ia bem nos estudos, não gostava de ir à sinagoga nem de
dar uma ajuda na loja do avô durante o tempo de férias e dizia que havia
de vir a ser actor ou qualquer outra coisa igualmente famosa e invulgar.

Santo Papo estava debruçado sobre o seu grande livro de escrita, já muito
sujo e sebento, com um registo alfabético, e diante dele, com uma caixa
de pregos vazia a servir de banco, estava acocorado o camponês Ibro
Cemanovic, de Uzavnica. Santo Papo fazia as contas para ver quanto Ibro
lhe devia já e, portanto, quanto é que lhe poderia ainda emprestar e em
que condições.

— Cinquenta, cinquenta y ocho... sesienta y três... — ia murmurando Santo


Papo, que contava em espanhol macarrónico.

300

O camponês observava-o com um ar de expectativa ansiosa, como quem está a


assistir a uma sorte de feitiçaria, e não a ouvir uma conta que sabia de
cor e salteado e que não lhe saía da cabeça, nem mesmo quando estava a
dormir. Quando Santo Papo acabou de fazer as somas e lhe comunicou qual
era a importância total da dívida e dos juros, o campónio murmurou
devagarinho, apenas para ganhar tempo e poder comparar os seus próprios
cálculos com os de Santo Papo:
— Será mesmo isso?...

—É assim mesmo, e não de outra maneira — replicou Santo Papo, empregando


a sua fórmula já consagrada em semelhantes casos.

Depois de terem chegado a um acordo no tocante à situação actual da


dívida, era a vez de o campónio pedir um novo empréstimo e de Santo Papo
esclarecer quais as condições em que ele seria possível. Mas não era essa
uma tarefa rápida nem fácil. Travava-se então entre eles um diálogo,
semelhante em tudo, até nos mais pequenos pormenores, aos que, dez ou
mais anos antes, igualmente antes da collheita, tinham sido sustentados
naquele mesmo local entre o pai de Ibro de Uzavnica e o pai de Santo,
Mente Papo. O assunto principal da conversa era envolvido numa torrente
de palavras que nada queriam dizer em si e que pareciam inteiramente
supérfluas e quase sem sentido. Uma pessoa sem experiência daquelas
coisas que os observasse e ouvisse podia facilmente pensar que a conversa
nada tinha a ver com dinheiros nem com empréstimos, porque era essa a
impressão que frequentemente se colhia.

— As ameixas estão bastante adiantadas — dizia Santo Papo — e vão dar


muito fruto nestas terras, mesmo mais do que em qualquer outro distrito.
Já há muitos anos que não havia uma tão grande abundância.

— Sim, graças aos Céus, a colheita promete; e se Alá permitir que o tempo
se mantenha, haverá fruta e pão. Não se pode negar que assim seja. Mas
quem sabe o preço que irão atingir! —respondia o campónio com ar
preocupado, esfregando com o polegar a costura das calças de pano verde
grosso e olhando para Santo Papo de soslaio.

— Não podemos prever agora, mas logo o saberemos na altura em que


trouxeres os produtos a Visegrad. Bem sabes o que se diz: «Os preços
estão na mão do proprietário.»

— Sim, é isso. Se Alá permitir que a fruta se conserve e amadureça —


insinuou ainda o camponês.

301

— Sem a vontade de Deus, evidentemente, nada se apanha e nada se colhe,


por muito que o homem olhe por aquilo que semeou, isso de nada lhe serve
se não tiver a bênção divina — retorquiu Santo Papo apontando para o céu,
para indicar donde essa bênção havia de vir, de algures muito acima
daquelas pesadas vigas do sombrio tecto da loja, de que pendiam lanternas
rústicas de todos os tamanhos e feixes de outros artigos.

— Não servirá de nada, tens razão — suspirou Ibro. — Um homem semeia e


planta mas, se assim Alá o quiser, é como se tivesse deitado tudo à água;
farta-se uma pessoa de cavar, sachar; podar e mondar, e nada! Se assim
não estiver escrito, nenhum esforço será abençoado. Mas se Alá decide
dar--nos uma boa colheita, então nada faltará e a gente tem possibilidade
de se libertar das dívidas e de ficar de novo em condições de poder
endividar-se de novo. Desde que Alá nos conserve a saúde!

— Sim, é isso mesmo! A saúde é o principal. Nada é tão importante como a


saúde. É assim a vida de um homem: dêem--lhe tudo, mas tirem-lhe a saúde,
e é como se não lhe tivessem dado nada—afirmou Santo Papo, orientando a
conversa naquele sentido.

Então também o campónio expôs as suas ideias sobre a saúde, que eram
vulgares e banais como as de Santo Papo. Por instantes dava a impressão
de que toda a conversa se iria perder em futilidades e generalizações.
Mas, num momento favorável, como que seguindo um antigo ritual, voltou ao
ponto de partida. Começaram a regatear o novo empréstimo, sua
importância, juros, condições e prazos de pagamento. Discutiram o assunto
por muito tempo, ora com vivacidade, ora de maneira calma e preocupada,
mas ao fim e ao cabo chegaram a acordo. Santo Papo então levantou-se,
pegou num molho de chaves enfiadas numa argola que tinha no bolso e, sem
as separar, abriu o cofre, que começou por dar um estalo, se abriu
devagar e solenemente, e depois, como todos os grande cofres, se fechou
com um fino ruído metálico parecido com um suspiro. Contou o dinheiro ao
camponês, rigorosamente, até ao último centavo, sempre com o mesmo
cuidado e atenção e com uma solenidade que parecia um pouco triste.
Depois, numa voz diferente e mais animada, disse:

— Então? Está bem assim, Ibro? Estás satisfeito?

— Sim, por Alá — replicou o camponês, calma e pensativamente.

— Que Deus te abençoe e ajude! Até que nos tornemos a encontrar de boa
saúde e sempre amigos — volveu Santo Papo, agora muito animado e bem
disposto.

302

E mandou o neto buscar dois cafés ao café da frente, um amargo e outro


com açúcar.

Entretanto, diante da loja já estava outro camponês à espera de vez,


pronto a tratar do mesmo assunto e de contas semelhantes.

Com estes campónios e os seus cálculos a respeito da próxima colheita e


da produção de ameixas penetrava na obscuridade da loja de Santo Papo o
sopro quente e pesado de um ano excepcionalmente produtivo. O calor fazia
transpirar o aço verde do cofre e Santo Papo desapertava o colarinho da
camisa em volta do pescoço gordo, flácido e amarelado e limpava com um
lenço os óculos embaciados.

Assim começara o Verão.


Mas nem por isso, mesmo no princípio desse ano abençoado, deixou de se
projectar uma sombra passageira de medo e de tristeza. No começo da
Primavera, em Uvac, pequena localidade junto da antiga fronteira austro-
turca e da actual raia austro-sérvia, apareceu uma epidemia de tifo. Como
o lugarejo estava junto da fronteira e ocorreram dois casos no posto de
guarda, o médico militar de Visegrad, Dr. Balas, deslocou-se lá,
acompanhado de um enfermeiro e dos necessários medicamentos. O médico,
hábil e resolutamente, fez tudo o que era necessário para isolar os
doentes e encarregou-se pessoalmente de os tratar. Deste modo, das quinze
pessoas que tinham sido atacadas, só duas morreram e a epidemia ficou
confinada à aldeia de Uvac, tendo sido debelada logo no início. O último
homem a contrair a doença foi o próprio Dr. Balas. A maneira inexplicável
como ele se contagiou, a rapidez com que o mal progrediu, as complicações
inesperadas e a sua morte súbita, tudo tinha o selo da genuína tragédia.

Por causa do perigo de contágio, o jovem médico teve de ser sepultado em


Uvac. A Sr.a Bauer, com o marido e mais alguns oficiais, foram assistir
ao funeral. Ela deu dinheiro para ser colocada por cima da sepultura do
médico uma pedra tumular de granito toscamente talhado. Logo a seguir
abandonou a cidade e o marido e constou que tinha ido para um sanatório
perto de Viena. Era esta a história que corria entre as raparigas da
cidade; as pessoas, logo que o perigo passou e cessaram as medidas contra
a epidemia, esqueceram tanto o médico como a mulher do coronel. Sem
experiência e sem educação, as raparigas da cidade não sabiam bem o que
queria dizer a palavra «sanatório», mas sabiam, muito bem o que
significava o facto de duas pessoas como o médico e a esposa do coronel
andarem por veredas e encostas das montanhas, como pouco tempo antes
faziam.

303

Ao pronunciarem aquela palavra esquisita nas suas discussões


confidenciais acerca do infeliz par, gostavam de imaginai o tal sanatório
como uma espécie de lugar misterioso, distante e melancólico, em que as
mulheres bonitas e pecadoras iam expiar os seus amores proibidos.

Aquele Verão excepcionalmente belo e fecundo desenvolvia-se e amadurecia


nos campos e nas elevações que rodeavam a cidade. À noite, as janelas da
messe dos oficiais, debruçada sobre o rio, à beira da ponte, estavam
iluminadas e abertas de par em par, como no ano anterior, mas delas não
vinham já os sons do piano e do violino. O coronel Bauer sentava-se a sua
mesa habitual com um grupo dos seus oficiais mais antigos, bonacheirão,
sorridente e a suar por efeito do vinho tinto e do calor do Verão.

Os jovens iam para a kapia nas noites quentes e cantavam. Aproximava-se o


final de Junho e esperava-se que os estudantes chegassem de um momento
para o outro, como todos os anos acontecia. Em noites assim, na kapia,
parecia que o tempo parava, enquanto a vida corria sem fim, rica e fácil.
E não era possível prever quanto tempo duraria assim.
Aquela hora da noite as ruas principais estavam iluminadas, porque a
iluminação eléctrica tinha sido inaugurada na Primavera desse ano. Cerca
de um ano antes, uma serração eléctrica tinha sido construída na margem
do rio, pouco mais ou menos a um quilómetro da cidade, e, ao lado dela,
uma fábrica para extracção de terebintina dos resíduos de pinheiro e
produção de resina. Esta fábrica fizera um contrato com o Município para
fornecimento de energia da sua central eléctrica privativa para
iluminação das ruas da cidade. Deste modo, desapareceram os velhos
candeeiros verdes iluminados a petróleo e, com eles, o grandalhão do
Ferhat, que estava encarregado de os limpar e acender. A rua principal,
que se estende ao longo de toda a cidade, desde a ponte até ao bairro
novo, passou a ser iluminada com fortes lâmpadas de vidro de um branco
leitoso, ao passo que as ruas laterais que se ramificavam para a direita
e para a esquerda e serpenteavam em: volta de Bikovac, ou subiam para
Mejdan e Okoliste, eram iluminadas com lâmpadas vulgares. Entre estas
fileiras regulares de luzes estendiam-se vastas manchas irregulares de
sombra. Eram os pátios ou os grandes jardins existentes nos declives.

Num desses jardins escuros Zorka, a professora, estava sentada na


companhia de Nikola Glasicanin.

A desinteligência que entre eles tinha havido no ano anterior, quando, na


época das férias, surgira Stikovic, prolongara-se ainda por algum tempo,
mais concretamente, até ao início do novo ano.

304

Por essa altura, como em todos os Invernos, começaram no Srpski Dom os


preparativos para a festa de S. Sava, em que se incluíam um concerto e
uma peça de teatro. Zorka e Glasicanin tomavam ambos parte na festa e, ao
regressar a casa, depois dos ensaios, tinham-se falado pela primeira vez
desde o último Verão. A princípio, trocaram apenas algumas palavras
breves, reservadas e distantes. Mas nunca mais deixaram de se ver e de se
falar, porque os jovens preferem até a mais amarga e desesperada das
disputas amorosas ao aborrecimento e à solidão de uma vida sem as
distracções e os pensamentos amorosos. A certa altura, no decurso das
suas discussões sem fim, acabaram por fazer as pazes, nem eles próprios
sabiam como nem quando. Agora, nestas noites quentes de Verão,
encontravam-se com regularidade. De tempos a tempos a imagem do ausente
Stikovic interpunha-se entre eles e logo se reacendia toda aquela querela
sem solução, mas isso não os afastava um do outro porque cada nova
reconciliação os unia ainda mais.

Na escuridão quente, estavam agora sentados no tronco de uma velha


nogueira e, mergulhados cada um nos seus pensamentos, olhavam para as
grandes e as pequenas luzes da cidade que, lá em baixo, se estendia ao
longo do rio, que fazia ouvir a sua cantilena monótona. Glasicanin, que
tinha estado a falar durante imenso tempo, calara-se por momentos. Zorka,
que estivera calada todo o serão, continuava em silêncio, como só as
mulheres sabem permanecer quando estão a revolver em pensamento os seus
problemas amorosos, esses problemas que são mais íntimos e mais
importantes para elas que tudo o mais nesta vida.

No ano anterior, pela mesma altura, quando Stikovic aparecera pela


primeira vez em cena, Zorka tinha pensado que se abrira no seu caminho um
paraíso de felicidade infinda, em que a perfeita afinidade de
sentimentos, de ideias e de gostos tinha a doçura de um beijo e a duração
de uma existência humana. Mas essa ilusão não durou muito tempo. Mesmo
inexperiente como era e entontecida como estava, não poderia deixar de
notar que aquele homem depressa se incendiava, mas não menos rapidamente
se consumia, ao sabor das suas próprias ideias, sem a mais pequena
consideração por ela e sem nenhuma conexão com aquelas coisas que ela
considerava maiores e mais importantes que as suas próprias pessoas.
Tinha-a deixado quase sem dizer adeus, abandonada a um estado de
perplexidade que a fazia sofrer como uma ferida oculta.

305

A carta que dele recebeu era uma pequena obra-prima de composição e de


arte literária, mas tudo nela era calculado, medido, como o pensamento de
um advogado, e tão claro e transparente como um jarro de vidro vazio.
Falava-lhe do seu amor, mas como se ambos já estivessem há mais de um
século no cemitério como pessoas famosas e mortas há muito. Em resposta à
réplica viva e ardente dela, veio o seguinte bilhete: «No meio das
tarefas e ansiedades que me fatigam e aborrecem, penso em ti como uma
tranquila noite de Visegrad, toda cheia de murmúrios do rio e do perfume
de invisíveis ervas.» E era tudo. Em vão tentava ela lembrar-se de quando
ouvira os murmúrios do rio e aspirara o perfume dessas ervas invisíveis.
Existiam apenas no bilhete-postal que ele lhe enviara. Certamente não se
lembrava dessas coisas do mesmo modo que, ao que parecia, ele também se
não lembrava do que realmente acontecera entre ambos. As ideias turvavam-
se-lhe ao imaginar que tinha sido enganada e que fora ele, precisamente,
que a enganara, para depois ir achar consolação em algo que ela própria
não compreendia e que era menos verosímil que um milagre. «Não é possível
compreendê-lo», pensava com os seus botões, «ele é estranho e frio,
egoísta, extravagante e caprichoso, mas talvez todos os homens
excepcionais sejam assim.» De qualquer modo, o que ela sentia parecia-se
mais com o sofrimento que com o amor. As suas vacilações íntimas e a
sensação de que algo se quebrara no mais fundo de si mesma davam-lhe a
ideia de que todo o peso daquele amor, que ele provocara, se apoiava só
nela e de que ele estava perdido, lá longe, na bruma e na distância a que
ela não ousava dar o verdadeiro nome. É que uma mulher apaixonada, mesmo
quando já perdeu todas as ilusões, quer ao seu amor como a uma criança
que o seu ventre não pôde conceber. Fez um esforço enorme para se conter
e não respondeu ao bilhete dele. Mas, após um silêncio de dois meses,
recebeu novo bilhete. Tinha sido escrito num qualquer daqueles picos
muito elevados dos Alpes: «A uma altitude de 2000 metros, rodeado por
gente de várias línguas e nacionalidades, contemplo o horizonte infinito
e penso em ti e no Verão passado.» Mesmo para a sua pouca idade e a sua
reduzida experiência, aquilo já bastava. Ele não poderia ter sido mais
claro nem lhe teria causado maior pesar se tivesse escrito: «Não te amo.
Sim, não te amo agora, nem serei nunca capaz de te amar.» Porque, ao fim
e ao cabo, era o amor que estava em causa, e não vagas recordações, nem a
altitude a que se está quando se escreve, nem as pessoas que estão em
volta e as línguas que falam.

306

Ora, de amor, nem uma palavra!

Pobre e órfã, Zorka tinha sido criada em Visegrad, em casa de uns


parentes. Depois de ter concluído os estudos na Escola do Magistério
Primário de Serajevo, tinha sido colocada em Visegrad e voltara para casa
dos mesmos parentes, gente abastada, mas simplória, a quem nada a
prendia.

Começou a emagrecer, fez-se pálida e muito pouco comunicativa; não


confiava em ninguém e não respondeu sequer ao bilhete de boas-festas que
Stikovic lhe enviou pelo Natal e que era tão curto, frio e apurado no
estilo como as suas anteriores missivas. Queria resgatar ela própria,
sozinha, sem a ajuda nem consolação de ninguém, a sua falta e a sua
vergonha, mas, abatida como estava, e fraca, jovem, ignorante e sem
experiência, cada vez se enredava mais na rede inextricável dos
acontecimentos reais e dos grandes desejos, dos seus próprios pensamentos
e do comportamento incompreensível e desumano do seu sedutor. Se tivesse
sido capaz de se abrir com alguém ou pedir um conselho, tudo certamente
teria sido mais fácil para ela, mas a vergonha impedia-a de o fazer.
Mesmo assim, porém, bastantes vezes se lhe afigurava que toda a cidade
sabia da sua decepção e desonra e que quando atravessava o centro era
seguida por olhares trocistas e maliciosos que a queimavam. Nem as
pessoas nem os livros lhe davam nenhuma explicação; e também ela não
sabia como explicar coisa alguma. Se ele de facto não a amava, para que
tinha sido toda aquela comédia de promessas e palavras apaixonadas
durante as últimas férias? Qual tinha sido a razão daquele episódio no
banco da escola, que só o amor podia justificar e desculpar e que, sem
ele, caía na mais abjecta e insuportável das humilhações? Seria possível
que houvesse homens que a si próprios e aos outros tão pouco respeitassem
que se empenhassem de ânimo leve num acto tão comprometedor ? Que os
levou a praticá-lo, se não foi o amor? Que significavam aqueles olhares
ardentes, aquela respiração quente e resfolegante, aqueles beijos
apaixonados que ele lhe dera ? Que poderiam significar se não amor ? Mas
a verdade é que não se tratava realmente de amor. Bem o via agora, melhor
e mais claramente do que queria. Mas não podia conformar-se,
verdadeiramente e por muito tempo, com uma tal ideia. (Quem é que alguma
vez foi capaz de se conformar completamente com ela?) A conclusão natural
de todos estes conflitos íntimos era a ideia da morte que sempre espia
nas fronteiras de todos os sonhos de felicidade. «A solução é morrer»,
pensava Zorka, «precipitar-me da kapia no rio como se fosse por acidente,
sem cartas nem palavras de despedida, sem confissões nem humilhações.»

307

«Morrer!», era o que ela dizia para si própria a todo o momento: antes de
adormecer e ao acordar de manhã, no meio das conversas mais animadas e
por trás da máscara de cada sorriso. Tudo nela dizia e repetia essa
palavra — morrer! morrer! —, mas uma pessoa não morre assim com essa
facilidade e vai vivendo com aquela insuportável ideia dentro de si.

E o conforto veio precisamente donde ela menos esperava. Por altura das
férias do Natal o seu tormento oculto atingiu o ponto culminante.
Pensamentos destes e perguntas assim sem resposta destroem uma pessoa
mais ainda que uma doença. Toda a gente a achava mudada para pior e, quer
os parentes, quer o director da escola, um excelente homem com muitos
filhos, começaram a preocupar-se com ela e aconselharam-na a consultar um
médico.

Quis um feliz acaso que se realizassem justamente por essa altura os


ensaios para a festa de S. Sava e que, depois de muitos meses de
afastamento, ela voltasse a falar com Glasicanin. Até então ele tinha
evitado todo e qualquer encontro ou conversa com ela. Mas a cordialidade
que reina geralmente nas terras pequenas por ocasião daquelas ingénuas
mas sinceras récitas musicais e teatrais de amadores e a magia das noites
claras e frias, ao regressar a casa, fizeram com que de novo se
aproximassem esses dois jovens até aí incompatibilizados. Movia-os também
a isso a necessidade que ela tinha de achar alívio para o seu tormento e
o amor profundo e sincero que ele continuava a ter por ela. As primeiras
palavras que trocaram foram, naturalmente, frias, desconfiadas,
equívocas, e as primeiras conversas a sério longas explicações sem saída.
Mas bastou isso para dar alívio à rapariga. Pela primeira vez lhe era
possível falar com um ser vivo acerca daquelas íntimas desditas que a
cobriam de vergonha sem ter de confessar os pormenores mais vergonhosos e
dolorosos. Glasicanin falava-lhe naqueles assuntos demorada e
animadamente, mas com simpatia humana e consideração, sem lhe ferir o
orgulho. Não falava de Stikovic mais asperamente do que era necessário. O
que dizia era pouco mais ou menos o que já tivemos ocasião de lhe ouvir
naquela noite em que os dois rivais ficaram sós na kapia. As suas
explicações eram breves, concretas e impiedosas. Segundo elas, Stikovic
era um egoísta nato e um monstro, um homem incapaz de amar alguém e que,
enquanto vivesse, atormentado e insatisfeito ele próprio, havia de
torturar todos os que por ele se deixassem iludir e que dele se
aproximassem.

308
Glasicanin poucas alusões fazia ao seu próprio amor, mas esse amor estava
bem presente e evidente em cada palavra sua, em cada olhar, em cada
gesto. A rapariga escutava-o, quase sempre, sem dizer nada. Depois de
cada conversa que tinham sentia-se mais serena, mais em paz consigo
mesma. Pela primeira vez, depois de tantos meses, tinha momentos em que
se acalmavam as suas tempestades interiores e, também pela primeira vez,
conseguia olhar para si própria sem se considerar um ser indigno. É que
as palavras do rapaz, cheias de amor e respeito, vinham mostrar-lhe que
ela não estava irremediavelmente perdida e que o seu desespero não
passava de uma ilusão, como ilusão fora, aliás, o seu sonho de amor do
Verão passado. Essas palavras vieram arrancá-la do mundo sombrio em que
estava a começar a perder-se e trazê-la de novo à realidade humana viva
em que há cura e ajuda para todos e tudo, ou quase.

Os seus colóquios continuaram mesmo depois de passada a festa de S. Sava.


O Inverno passou e, depois dele, a Primavera. Viam-se quase todos os
dias. Com o tempo, a rapariga voltou a si, tornou-se mais forte e
saudável e em breve parecia outra, numa transformação rápida e natural
que só nos jovens é possível. E assim chegou aquele Verão, ao mesmo tempo
fecundo e perturbado. As pessoas tinham-se já habituado a olhar Zorka e
Glasicanin como dois jovens que «se catrapiscam».

Agora, para dizer a verdade, os longos discursos de Glasicanin, que ela a


princípio escutara avidamente, bebendo-lhe as palavras como se fossem
remédios, já não tinham tanto interesse. Por vezes aquela necessidade de
mútua confissão e confidência tornava-se pesada a Zorka. Com verdadeiro
espanto, perguntava a si mesma como tinham eles chegado a uma tal
intimidade e como isso tinha sido possível; mas lembrava-se então de que
ele, no Inverno anterior, «lhe tinha salvo a alma», e, dominando o tédio,
ouvia-o o mais atentamente que podia, como um bom devedor perante quem o
livrou de apuros.

Naquela noite de Verão ele tinha as mãos dela agarradas (era esse o
limite máximo da sua modesta ousadia). Através desse contacto, sentia
também penetrar nele a riqueza tépida da noite. Em momentos como aquele
via claramente que tesouro estava escondido nessa mulher e sentia, ao
mesmo tempo, quanto a amargura e a insatisfação da sua vida se estava
transformando em força fecunda, capaz de levar dois seres, a atingir até
os objectivos mais longínquos desde que o amor os una e os sustenha.

Na escuridão, alimentado por tais sentimentos, já não era o Glasicanin de


todos os dias, o mísero empregado de uma grande empresa de Visegrad, mas
sim um, outro homem muito diferente, forte e cheio de confiança em si
próprio, que comandava a sua própria vida livremente e com vistas largas.

309
Para um homem que Sente um amor sincero, grande e desinteressado, mesmo
que esse amor não seja correspondido, abrem-se perspectivas, horizontes e
caminhos que são desconhecidos ou se encontram fechados para muitos
homens hábeis, ambiciosos e egoístas.

Dizia ele para a mulher que estava a seu lado:

— Penso que não me engano; quanto mais não seja, pela simples razão de
que nunca seria capaz de te decepcionar. Enquanto uns falam e deliram e
outros fazem negócios e tiram lucros, eu vou acompanhando tudo e tudo
observando e cada vez vejo com maior clareza que não há possibilidade de
fazer vida aqui. Durante muito tempo não haverá paz, nem ordem, nem
trabalho aproveitável. Nem Stikovic, nem mesmo Herak, poderão criar
condições favoráveis. Antes, pelo contrário, tudo irá de mal a pior.
Temos de sair daqui como de uma casa que ameaça ruína. Estes salvadores
numerosos e inquietos que surgem a cada passo são a melhor prova de que
caminhamos para uma catástrofe. Já que não podemos evitá-la, podemos ao
menos salvar-nos a nós próprios.

A rapariga permaneceu silenciosa.

— Nunca te falei nisto, mas tenho pensado muitas e muitas vezes e até já
fiz alguma coisa nesse sentido. Lembras-te daquele Bogdan Djurovic, o meu
amigo de Okoliste, que já está há uns três anos na América? De há um ano
para cá que tenho mantido correspondência com ele. Mostrei-te a
fotografia que ele me mandou, não mostrei? Desafiou-me para ir para lá e
prometeu-me um trabalho seguro, com um bom ordenado. Sei que não é fácil
pôr em execução este plano, mas penso que também não é impossível.
Ponderei e calculei tudo muito bem. Vendo a pequena propriedade que tenho
lá em Okoliste. Se concordares, casamo-nos o mais depressa possível e
vamos para Zagreb sem dizer nada a ninguém. Há lá uma companhia que se
encarrega do embarque de emigrantes para a América. Podemos esperar
naquela cidade até que Bogdan nos mande uma carta de chamada. Entretanto,
podíamos ir aprendendo qualquer coisa de inglês. Se houver dificuldades,
talvez por causa da minha situação militar, poderemos passar-nos para a
Sérvia e partir de lá. Eu tratarei de tudo para te facilitar o mais
possível as coisas. Na América ambos podemos trabalhar. Há lá escolas
sérvias em que poderás ensinar. Eu encontrarei facilmente trabalho,
porque ali todas as ocupações são acessíveis e abertas a toda a gente.
Seremos livres e felizes.

310

Eu encarrego-me de tudo desde que tu queiras... desde que tu... estejas


de acordo.

Glasicanin calou-se. Como resposta, ela agarrou-lhe ambas as mãos entre


as suas e ele viu nesse gesto a expressão de uma enorme gratidão. Mas a
resposta propriamente dita não foi afirmativa nem negativa. Ela
agradeceu-lhe o cuidado e as atenções que tinha com ela, a sua bondade
infinita, e, em nome dessa mesma bondade, pediu-lhe que lhe concedesse o
prazo de um mês, até ao fim do ano escolar, para pensar bem no caso e lhe
dar uma resposta definitiva.

— Obrigada, Nikola, obrigada! Como tu és bom para mim!— murmurou,


apertando-lhe as mãos.

Lá de baixo, da kapia, chegava até eles o som das vozes dos rapazes que
cantavam. Eram jovens de Visegrad e talvez também alguns estudantes
vindos de Serajevo. Dentro de quinze dias deviam chegar os estudantes
universitários. Até essa altura ela não seria capaz de tomar uma decisão.
Tudo a fazia sofrer, e, mais do que tudo. a bondade daquele homem, mas
naquele momento não seria capaz de lhe dizer «sim», mesmo que a cortassem
aos bocados. Já nada mais desejava que não fosse voltar a ver uma vez
mais «o homem incapaz de amar alguém». Só ainda mais uma vez, e depois
fosse o que Deus quisesse! Nikola esperaria, isso sabia-o ela bem.

Levantaram-se e, de mãos dadas, começaram a descer vagarosamente o


declive que conduz à ponte, donde vinham as vozes dos que cantavam.

311

XXII

Como de costume, por ocasião das Festas de S. Guido, os Sérvios


organizaram um arraial em Mezalin. Sob as copadas nogueiras, nas margens
altas e verdes que ficam na confluência dos rios Drina e Rzav, armaram-se
barracas, em que se vendiam bebidas e em frente das quais se assavam
cordeiros no espeto que rodava por cima de um lume brando. As famílias
que tinham trazido os seus farnéis instalavam-se à sombra. Debaixo de uma
espécie de dossel de verdura tocava já uma orquestra. No espaço
descoberto, com a terra já bem batida, dançava-se o kolo desde pela
manhã. Mas só os mais novos e os mais ociosos, aqueles que tinham vindo
directamente da igreja para ali logo após os ofícios religiosos da manhã,
é que estavam já a dançar. Só de tarde é que deveria começar
verdadeiramente a festa. Todavia o kolo estava já animado e entusiástico,
mais bem dançado e com maior vigor do que seria mais tarde, quando
chegasse a multidão e as mulheres casadas, as viuvas insatisfeitas e as
crianças começassem a tomar parte nele e todo o recinto de dança se
transformasse numa única grinalda, enorme e garrida, mas sem harmonia e
sem ordem. Aquele kolo mais reduzido, em que tomavam parte mais rapazes
que raparigas, era rápido e volteava como um laço que se arremessa. Tudo
em torno parecia mover-se ondulando ao ritmo da música: o ar, as espessas
coroas das árvores, as nuvens brancas de Verão e as águas límpidas dos
dois rios. A terra tremia debaixo dos pés dos dançarinos e em volta
deles. Dir-se-ia que procurava adaptar o seu movimento aos movimentos dos
corpos juvenis. Os rapazes que iam chegando corriam desde a estrada para
vir tomar lugar no kolo, mas as raparigas continham-se e ficavam por
momentos a ver a dança, batendo o compasso e como que esperando que
qualquer secreto impulso as viesse arrastar para o rodopio; depois,
atiravam-se bruscamente para a dança, de joelhos flectidos e cabeça
baixa, como quem se atira avidamente para a água fria.

312

Uma forte corrente transmitia-se da terra ardente aos pés que bailavam e
espalhava-se através da cadeia de mãos quentes que se davam; nessa
cadeia, o kolo pulsava como um único ser vivo, aquecido pelo mesmo sangue
e arrastado pelo mesmo ritmo. Os jovens dançavam com a cabeça inclinada
para trás, pálidos e de nariz a tremer, enquanto as raparigas bailavam de
faces rosadas, baixando timidamente os olhos, não fossem os seus olhares
trair a paixão que a dança nelas instilara.

Na altura em que a festa ainda estava a começar, apareceu na orla do


prado um grupo de gendarmes, com os uniformes negros e as armas a brilhar
ao sol da tarde. Eram em maior número do que era vulgar nas patrulhas que
regularmente apareciam nas feiras e arraiais e dirigiram-se logo para o
sítio onde estavam os músicos a tocar. Um após outro, desordenadamente,
os músicos foram-se calando. O kolo oscilou e parou. Ouviram-se gritos de
protesto dos rapazes. Os dançarinos continuavam de mãos dadas. Alguns
estavam tão embalados e penetrados do ritmo da dança que continuavam a
bailar no sítio em que estavam, à espera de que a música recomeçasse. Mas
os tocadores levantaram-se apressadamente e guardaram as trompetes e os
violinos nos estojos. Os gendarmes prosseguiram o seu caminho e
dirigiram-se às barracas e aos grupos que estavam sentados na relva. Onde
quer que o sargento dizia umas palavras, numa voz baixa e áspera, a
alegria desaparecia como que por encanto, as danças cessavam e as
conversas interrompiam-se. À sua passagem, as pessoas abandonavam os
lugares em que estavam, arrumavam as suas coisas o mais depressa possível
e iam-se embora. Os últimos a dispersar foram os rapazes e as raparigas
que dançavam o kolo. Não queriam abandonar a dança e não se conformavam
com a ideia de que ia já acabar aquele arraial e aquela alegria. Mas
quando viram o rosto lívido e os olhos injectados do sargento dos
gendarmes, até os mais teimosos se resignaram a ir-se embora.

Desiludido e perplexo, o povo ia regressando de Mezalin pela estrada


larga e branca; quanto mais se aproximava da cidade, mais frequentemente
se ouviam vagos e assustados murmúrios acerca do assassínio, nessa manhã,
em Serajevo, do arquiduque Francisco Fernando e de sua esposa e da
perseguição que por esse motivo se admitia geralmente que os Sérvios
viessem a sofrer. Ao chegarem em frente do Município, os que regressavam
do arraial encontraram o primeiro grupo de presos que eram levados para a
cadeia, entre os quais se contava o jovem sacerdote Mihailo.
313

Assim, a tarde daquele dia de Verão, que devia ter sido de festa
transformou-se numa atmosfera perturbada, de amarga e receosa
expectativa.

Na kapia, em vez de um ambiente de festa e da alegria de homens que


gozavam o seu descanso semanal, havia o silêncio dos mortos. Já ali
tinham colocado uma guarda. Um soldado com um fardamento novo passeava
lentamente entre o sofa e o sítio em que a tampa de ferro dissimulava a
entrada para o pilar minado Repetia sem parar aquele caminho de cinco ou
seis passos, para cá e para lá, e de cada vez que dava meia volta a
baioneta brilhava ao sol, como um sinal. No dia seguinte, por baixo da
placa com a inscrição turca, apareceu afixado na parede um edital branco,
impresso em grandes caracteres e com uma larga tarja preta anunciava a
morte, por atentado, em Serajevo, de Sua Alteza o Príncipe Herdeiro e
exprimia a indignação que tão repelente acto tinha levantado. Nenhum dos
transeuntes parou para o ler e todos passavam diante dele e da sentinela
cabisbaixos e o mais rapidamente possível.

A partir dessa altura, a ponte continuou a estar guardada. E toda a vida


da cidade se interrompeu de repente, como o kolo em Mezalin e aquele dia
de Julho que devia ter sido um dia de festa.

Os dias que se seguiram foram dias estranhos, cheios de leituras ávidas


dos jornais, de murmúrios, de medo e desconfiança, acompanhados de
prisões de sérvios e de viajantes suspeitos e do reforço rápido das
medidas militares nas fronteiras. As noites de Verão passaram, mas sem
canções, sem grupos de rapazes na kapia e sem murmúrios de parzinhos na
escuridão. Na cidade quase só se viam soldados. Às 9 da noite, quando as
cornetas tocavam, nos acantonamentos de Bikovac e nos grandes barracões
junto da ponte, as notas melancólicas do toque de recolher austríaco, as
ruas ficavam quase completamente desertas. Os tempos estavam maus para os
jovens amantes, que tinham dificuldade em encontrar-se e ter conversas
sem dar nas vistas. Todos os dias, ao entardecer, Glasitanin passava
junto da casa de Zorka. Ela estava sentada a uma janela aberta, no rés-
do-chão. Era aí que falavam, mas por pouco tempo, porque ele tinha pressa
de atravessar a ponte e regressar a Okoliste antes de se fazer noite
cerrada.

Assim aconteceu também naquela tarde. Pálido, de chapéu na mão, pediu à


rapariga que viesse à porta da rua porque tinha uma coisa a dizer-lhe em
particular. Depois de algumas hesitações, ela veio. De pé, no limiar da
porta, encontrava-se agora à mesma altura do rapaz, que falava
excitadamente e num sussurro que mal se ouvia.

314
— Decidimos fugir. Esta noite. Vlado Maric e mais dois. Julgo que temos
tudo bem previsto e organizado e que conseguiremos passar. Mas se não...
se alguma coisa acontecesse... Zorka!

O murmúrio do rapaz cessou. Viu o medo e o embaraço estampados nos olhos


dela, muito abertos. Sentia-se também profundamente emocionado e quase se
arrependia de lhe ter falado no assunto e de ter vindo dizer-lhe adeus.

— Achei que era melhor dizer-te.

— Obrigada! Então fica sem efeito a nossa... o projecto da América!

— Não, não fica sem efeito. Se tivesses concordado quando, há um mês, te


propus que resolvêssemos o assunto imediatamente, talvez já estivéssemos
agora muito longe daqui. Mas é possível que seja melhor assim. Agora bem
vês qual é a situação. Tenho que ir com os meus amigos. Estamos
praticamente em guerra e a Sérvia precisa de todos nós. Tenho de ir,
Zorka, tenho de ir. É o meu dever. Se sair vivo de tudo isto e se nos
tornarmos livres, já não será preciso atravessar o mar e ir para a
América, porque teremos aqui a nossa própria América, um país em que uma
pessoa poderá trabalhar dura e honestamente, mas viver bem e com
liberdade. Haverá nessa nova vida lugar para nós ambos, se quiseres unir
o teu destino ao meu. Depende de ti. Eu... eu cá pensarei em ti lá por
onde andar, e tu, e tu... de vez em quando...

As palavras faltaram-lhe e levantou a mão para afagar, num gesto rápido,


a opulenta cabeleira castanha da rapariga. Tinha sido esse sempre o seu
maior desejo e agora, como um condenado, sentia-se no direito de o fazer.
A moça esquivou-se, assustada, e ele ficou com a mão no ar. A porta
fechou-se devagarinho e, instantes depois, Zorka apareceu à janela,
pálida, de olhos muito abertos e com os dedos febrilmente entrelaçados. O
rapaz chegou-se para junto da janela, deitou a cabeça para trás e
mostrou-lhe um rosto sorridente, despreocupado, quase belo. Como que a
recear ver o que a seguir aconteceria, a rapariga retirou-se para o seu
quarto, que já estava escuro. Sentou-se na cama, baixou a cabeça e
começou a chorar.

Esse choro era, a princípio, leve, mas foi-se tornando cada vez mais
forte, desencadeado por um sentimento de que as esperanças se iam total e
completamente desvanecendo. Quanto mais chorava mais razões achava para
chorar e mais lhe parecia que tudo em volta era cada vez mais
desesperado.

313

Não havia saída, nenhuma solução; nunca seria capaz de amar, a valer e
como ele merecia, aquele bom e honesto Nikola, que ia partir; nunca
chegaria para ela o dia em que viesse a ser amada pelo outro, o tal que
não amava ninguém. E nunca se repetiriam aqueles dias belos e felizes que
ela passara, havia apenas um ano, naquela mesma cidade. Nem um só dos
sérvios havia de conseguir regressar vivo dessas terras que ficavam para
além do círculo de montanhas negras que se perfilavam no horizonte, nem
chegaria a ver a América, nem poderia criar aqui um país em que, como
eles diziam, se trabalharia bastante mas se poderia viver em liberdade.
Nunca!

No dia seguinte espalhou-se a notícia de que Vlado Maric, Glasicanin e


mais alguns jovens tinham fugido para a Sérvia. Todos os outros sérvios,
com as suas famílias e tudo o que possuíam, ficaram naquele vale em
efervescência como se estivessem numa ratoeira. A cada dia que passava
sentia-se que a atmosfera de perigo e de ameaça se ia adensando sobre a
cidade. Até que, nos últimos dias de Julho, a tempestade desabou sobre a
fronteira, essa mesma tempestade que, com o tempo, havia de alastrar pelo
mundo inteiro e decidir do destino de muitos países e cidades como
decidiu do da ponte sobre o Drina.

Só então é que começou a verdadeira perseguição aos sérvios e a tudo o


que a eles estava ligado. Toda a população se dividiu em dois grupos: o