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O ROMANCE

10.5. Sintaxe da diegese

Se entendemos por diegese o significado do. te'A:to narrativo


literário, toma-se óbvio que a diegese de um romance abrange
personagem, eventos, objectos, um contexto temporal e um
contexto espacial. Por isso mesmo, a história de um romance
não é só constituída por uma sucessão de acções, mas também
por retratos, por descrições de estados, de objectos, de meios
geográficos e sociais, pela construção de uma determinada
"atmosfera", etc. É inegável, todavia, que a sequência de acções,
implicando relações estruturais entre as personagens, entre estas
e objectos, meios geográficos e sociais, envolvendo factores
~ociológicos, ideológicos e axiológicos, representa o elemento
nuclear da diegese.
A narratologia tem procurado com particular empenho
elaborar conceitos e modelos que possibilitem descrever a sintaxe
da diegese, isto é, o modo como se sucedem, se combinam,
se articulam os eventos da sintagmática diegética construída ao
longo da linearidade do discurso narrativo.
Em conformidade com os princípios heurísticos e metodo-
lógicos da análise estruturalista, diversos investigadores têm
proposto segmentar a sintagmática diegética nas suas unidades
funcionais mínimas. Está orientação metodológica foi iniciada
pelo formalismo russo, que desenvolveu, neste domínio, ideias
do historiador literário A. N. Veselovskij (1838-1906) {99).

( 99)-Sobre esta tradição russa de análise formal e estrutural de textos


narrativos, em particular de textos folclóricos, que alcança a sua cuhninmcia
teorética e prática com a Morfologija skazki (192B) de Prnpp, encontra~se infor-
mação em quase todos os estudos consagrados ao formal.ismo russo (veja-se,
no volume H desta nossa obra, o capítulo 15). Indicamos aqui alguns
estudos particularmente :atinentes a esta matéria: P. Maranda (ed.), Soviet
strnctural _fólkloristics, The Hague, Mouton, 1974 (pela sua importmcia, avulta
nesta obra o cap .. 4(pp. 73-139), da autoria de E. Mdetinsky, S. Nekludov,
E. Novik e D. Sega! e intitulado tProblems of the structurual analysis of
fairytales»); Berthd Nathhorst, Formal or structural studies of traditíonal tales,
Stockholm, Kungl Boktryckeriet P. A. Norstedt & Soner, 2 1970, pp. 16 ss.;
Gi:m Paolo Caprettini, La semiologia. Elementi per im' introduzione, Torino,
G. Giappichelli, 1976, pp. 58 ss.; Jurij Striedter, «The russian formalist
theory of prose», in PTL, 2,3(1977), pp. 429-470; Heda Jason, «Precursors
of Propp: Formalist theories of narrative in eady russían ethnopoetics», in PTL,
2,3(1977), pp. 471-516. De B. Tomasevskij, veja-se o estudo incluído em

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TEORIA DA LITERATURA

Para Veselovskij, como para Tomasevskij e outros forma-


listas, o 111oti110 representa a unidade narrativa simples, indecom-
ponível, consistindo a intriga (e também a fábula) numa com-
binação ·de motivos. Toma5evskij diferencia os motivos l~'?ados
ou associados, aqueles que não podem ser omitidos na fábula,
porqu,e a sua ausência afectaria: a sequência lógica e cronoló-
gica das acçõe5, dos motivos livres, isto é, aqueles que podem
ser eliminados da fábula, mas que podem ser funcionalmente
relevantes na intriga (100), contrapondo também os motivos
dinâmicos, aqueles que transformam uma situação, aos motivos
estáticos, aqueles que não alteram uma situação (retratos, descri-
ções, etc.) (101 ).
Propp, na sua análise da diegese de um corpus de fábulas
de magia russas, delimitou e caracterizou a função como a uni-
dade sintagqiática, invariante sob a diversidade das acções
narradas. e das dramatis. personae nelas intervenientes, que é
nuclear relativamente à progressão diegética: «por função enten-
de-se a acção da personagem determinada do ponto de vista do
seu significado para o desenvolvimento danarração»(1 º2). Segundo
Propp, as funções das fábulas de niagi.a são em ·número limi-
tado - trinta e uma - e a sua: ordem sequencial é sempre
idêntica, embora algumas delas possam ser reiteradas ou eli-
didas (1º3). A intriga do texto narrativo resulta da combinação
s,equencial de funções.
O conceito e o termo proppianos de "função" têm sido
utilizados, com modificações e ajustamentos, por investigadores
interessados sobretudo numa análise lógica - ou (morfo)l6girn,

Tzvetan Todorov (ed.), Théorie de la littérafllre, com o título de «Thématique•


(pode-se ler também em :a. Tomasevskij, Teoria della letterahira, Milano,
Feltrinelli, 1978, pp. 179 ss.). ·
( 100)-Esta distinção é tipica da inadequada concepção de diegese já
por nós criticada.
º
( 1 1)-Esta distinção conceptual reaparece na obra de diverxos nnrato-
logistas contemporâneos: funções vs. · ilid(dos em Barthes, preàicados dinAmicos
vs. predicados estáticos em Greimas, proposições atributivas vs. proposições verbais
em Todorov.
(102)-Cf. V. Ja. Propp, Morfologia de/la fiaba, p. 215 (veja-se também
a p. 27).
º
( 1 3)-Esta lei de Propp tem sido contestada por vários investigadores
(cf., e. g., Berthel Nathhorst, op. cit., pp. 23 ss.).

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O ROMANCE

como diz Larivaille (104) - da narrativa. De acordo com a


terminologia estruturalista e a fim de distinguir a função-
-tipo, paradigmática, da função-ocorrência, sintagmática, E. U.
Grasse propôs o termo fimcionema (105).
Claude Bremond, um dos reformadores da "herança"
Propp, ao traçar «o mapa das possibilidades lógicas da narrativa»,
conserva o conceito de função como unidade mínima, como
«átomo narrativo» (1º6). Num primeiro estes átomos
combinam-se numa sequência elementar narrativa, a qual é cons-
tituída pelas três funções que marcam obrigatoriamente as três
fases de qualquer processo:
a) uma função que abre a possibilidade do processo, esta-
belecendo portanto a virtualidade de uma acção;
b) uma função <.1ue realiza a virtualidade proposta;
e) uma função que encerra o processo.
Cada uma destas funções, exceptuando obviamente a última,
pode ser actualizada ou mantida pelo narrador no estado de
virtualidade (neste caso, o processo é interrompido). A combina-
ção das sequências elementares origina sequências complexas,
cujas configurações mais típicas são as seguintes:
a) a concatenação ({<enchainement "bout à bout"»): o fim
de uma sequência dementar constitui o ponto de partida de outra
sequência elementar (o mesmo evento desempenha simultanea-
mente duas funções diferenciadas, quebrando-se assim a mera
sucessão cronológica: A 1 - - A:.1/B 1 (=A3),B 2 ,B 3);
h) A inserção ou o encaixamento («enclave»): esta configu-
ração ocorre quando uma das funções de uma sequência
elementar, que o· fim do processo seja atingido, inclui
em si outra sequência elementar, que especifica a primeira
(a sequência encaixada pode, por sua vez, conter outra);
. e) a junção («accolement»): esta configuração caracteri-
za-se pelo facto de o mesmo evento desempenhar uma função
segundo a perspectiva de um agente e outra função segundo a
perspectiva de outro agente (as funções, nesta sequência com-

( 104)-Cf. Paul Larivaille, «L'malyse (morpho)logique du réciv, in


Poétique, 19(1974), pp. 368-388.
( 10 5)-Cf. Ernst Ulrich Grosse, «French structuralist views on narrative
grammar», in Wolfgang U. Dressler (ed.), Current trends in textlinguistics, p. 163.
( 106)-Cf. Claude Bremond, «La des possibles narratifo, in Ct111;-
n11.mications, 8(1966), p. 61.

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TEORIA DA LITfillATURA

plexa, especificam-se pois em relação à esfera de acção das


dramatis personae: o evento que, para um agressor, representa o
dano infligido, passa a representar, para um justiceiro, a maldade
que tem de ser reparada).
Estas leis ou constrições lógicas são aplicáveis a qualquer
narrativa, mas equivaleria a tombar num reducionismo estéril
adml.tir que elàs podem descrever e explicar a sintaxe diegética
de qualquer texto literário. Como o próprio Bremond acentua,
é necessário ter em conta as convenções de uma cultura, de uma
época, de um género literáijo, de um ·autor, e, no extremo
limite, de cada texto (107). E esta complexidade semiótica do
sistema e do texto literário, para a qual temos chamado
continuamente a atenção ao longo desta obra, que esquecem ou
ignoram todos quantos reduzem a descrição e a análise de um
texto literário narrativo a formalizações logicistas (em muitos
casos, a formalizações trivializadas ou a pseudo-formalizações),
Todorov propõe um modelo de sintaxe da narrativa que
apresenta evidentes afinidades com o de Brémond e que é
igualmente aplicável, dentro da sua capacidade descritiva -
Todorov sublinha que se limita a estudar a organização sintáctica
da narrativa "mitológica" - (1 º8), à análise do texto literário
narrativo. A unidade narrativa mínima, para Todorov, é a
proposição narrativa, constituída por actantes (sujdtos e objectos,
agentes e pacientes) e por predicados (predicados verbais e predi-
.cados adjectivais, consoante exprimam mudança de estado ou
permanência de estado). As proposições narrativas, conexionadas
entre si por relações de teor causal, temporal, espacial, etc.,
combinam-se en1 unidades de grau superior, as sequ~ncias, as
quais compreendem um número mínimo~ de proposições, mas
podem comportar um número variável mais elevado. Um texto
narrativo apresenta em geral múltiplas sequências, mter-relacio-
nadas sintagmaticamente segundo três tipos elementares de com.:..

º
( 1 7)-Cf. Claude Bremond, op. cit., p. 60. Esta advertência é similar,
em parte, à que Propp formufa no seu ensaio posfacial publicado na
edição italiana de Morfologija skazki e à quJl já fizemos referência, a propósito
do conceito de actante. .
( 108)-Cf. Tzvetan Todorov, Poétiqi1e, Paris, Éditious du Seuil, 1973,
p. 77. Sobre a sintaxe da narrativa, cf. também o estudo de Todorov,
«Les catégories du récit littéraire», in Co111mimications, 8(1966), pp. 140-141.

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O ROMANCE

binação (num texto, estes tipos elementares podem combinar-se


mutuamente):
a) o encaixamento («enchâsscment))): uma proposição da pri-
meira sequência é substituída por uma sequência inteira;
b) a concatenação («encha!nement»): uma sequência é colo-
cada a seguir a outra, linearmente, sem imbricação (1 9); º
e) a alternância ou o entrelaçamento («alternance», «entre-
lacement»): uma proposição pode ser seguida quer por outra
proposição da primeira sequência, quer por outra proposição
da segunda sequência e assim sucessivamente.
O conceito de tnotivo como unidade narrativa mínima foi
reelaborado por vários autores contemporâneos, quer no âmbito
da análise do texto narrativo folclórico, quer no âmbito da aná-
lise do texto narrativo literário. O folclorista norte-americano
Alan Dundes, reformulando a análise de Propp à luz da concepto-
logia e da terminologia de Kenneth L. Pike, designou a função
proppiana como motivo émico ou simplesmente motivema. Alo-
moti1'o é o termo utilizado por Dundes para designar os motivos
que ocorrem em qualquer contexto motivémico - o alomo-
tivo estaria assim para os motivemas tal como os alofones
para os fonemas - e motil'o denomina uma unidade do plano
ético, a realização concreta, num texto-ocorrência, de um moti-
vema (11 º). Lubomír Doldel, no seu estudo «From motifemes
to motifs», já atrás mencionado, alargou os conceitos e os termos
de Alan Dundes à análise do texto narrativo literário (111 ).
Aceitando um quadro conceptual muito semelhante ao
de Bremond, mas propondo uma terminologia original, Sini-
cropi define diegema como «uma unidade diegética :)imples,
completa e autónoma». O diegema seria analisável em pragme-
mas - unidades diegéticas mínimas - e da combinação de dois

( 109)-Esta combinação, que difere da configuração sequencial a que


Bremond chama enchaine111e11t «bout à bot1t•, devia ser designada antes por
''justaposição".
( 11 º)-Cf. Alan Dundes, «From ctic to emic units in the structural
study of folktales», in Walter A. Koch (ed.), Strnkturelle Textana/yse -Analysc
du récit- Discourse cmalysis, Hildesheim - New York, Georg Olms Verlag,
1972, pp. 104-114. Este ensaio de Dundes foi publicado prímeiramente
em 1962.
( 111 )-Em rigor, Dolezel não utiliza o conceito e o termo de"alomotivo"
e introduz o termo situema para designar os estados dos acta.ntt.s.

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TEOJRIA DA UTJBJ!IATURA

ou mais diegemas resultaria uma unid;de diegética complexa


o narrema (112 ).
O termo narrema já tinha sido proposto, cerca de uma
década antes, por um romanista canadiano, Eugene Dorfinan,
para designnar os "incidentes centrais'~ ou "nucleares'' estru-
tura da narrativa, isto é, aqueles "incidentes" cuja função "is
to serve as the central focus or core of a larger episode»
e que por isso se distinguem funcionalmente dos "incidentes
marginais", unidades estruturais <{which duster around the core,
supporting it and · filling out the episode)>
O modo como Dorfman caracteriza o e os
"incidentes marginais" apresenta afinidades com a
distinção estabelecidà por Roland Barthes, num famoso estudo
publicado no m.esmo ano em que foi editado o do
investigador canadiano, entre funções cardeais ou núcleos e catá-
(114). As funções cardeais desempenham na diegese o papel
de funções-charneiras, «inaugurando ou concluindo uma incer-
teza>), fazendo progredir a história numa direcção ou noutra;
as catálises são também elementos funcionais da narrativa, mas a
sua funcionalidade é subsidiária e atenuada, puramente cronoló-
gica - «descreve-se o que separa dois momentos da história}>
- e subordinada à funcionalidade forte, lógica e cronológica,
dos núcleos. Numa daquelas expressões engenhosamente densas
de que tinha o segredo, Barthes escreve que «les catalyses ne
sont que des unités consécutives, les fonctions cardinales sont
à la fois consécutives et conséquentes» (115). funcionalidade
diegeticamente débil das catálises, porém, aparentemente

( 112)-Cf. Giovanni Sinicropi, •La díegesi e suoi elementi», in


Strumenti críticí, 34(1977), pp. 494-495 e 500-501.
( 113)-Cf. Eugene Dorfman, The narreme i11 the medieval romance
An introduction to narrative strnctures, Toronto, University of Toronto Press,
1966, p. 5. . . .
( 114 )-Cf. Roland Barthes, olntroduction à l'analyse structurale des
récits», in Com1mmications, 8(1966), pp. 1-27 (estudo republicado em R. Barthe~
et alii, Poétique du ed. cit., cujo texto utilizamos).
( 115)-Por conseguinte, apenas as segundas seriam regidas pelo principio
da causalidade. Como Barthe.s observa, no âmago da actividade narrativa esta-
ria •la confusion même de la consécution et de la conséquence, ce qui vi.ent
étant lu dans le récit comme causé par; le récit serait, d:ms ce cas, une
application systématique de l'erreur logique dénoncé par fa scolastique sous la
formule post hoc, ergo propter hoc [... ]» (cf. op. cit., p. 22).
O ROMANCE

é explectiva ou decorativista, nem se restringe, como pretende


Barthes, à tensão semântica do discurso, à manutenção do conm
tacto entre o narrador e o leitor (e não entre o narrador e o narra-
tário, como diz Barthes), pois que ela muitas vezes prefigura,
prepara e justifica, na lógica interna da história e relativamente ao
horizonte expectacional do leitor, as funções cardeaís da diegese.
Sintacticamente, verifica-se uma relação implicação
simples entre as catálises e as fruições cardeais, pois uma catálise
só pode existir se existir o núcleo a que se liga, não se
ficando o inverso. As conexões entre as funções cardeais
caracterizam-se, pelo contrário, por uma relação solidariedade:
uma função implica outra e reciprocamente.
Tal como Bremond, Barthes designa por uma
sucessão lógica de núcleos entre os quais se manifesta uma relação
de solidariedade: «a sequência inicia-se quando um dos sem
termos não tem antecedente solidário e fecha-se outro
dos seus termos deixa de ter consequente)).
As outras unidades funcionais que Barthes discrimina na
diegese, os indícios propriamente ditos, que concernem um carác-
um sentimento, uma atmosfera ou uma filosofia, e as infor-
mações, que têm uma função identificadora cronotopológica,
gozam de liberdade sintáctica, podendo combinar-se entre si
sem restrições.

A explicação causal de facto aplicar·-se abusivamente a uma mera


sucessão cronológica de eventos. A admissão ou a rejeição do principio da
causalidade, na vida real como na diegese romanesca, dependem fundamental-
mente de uma visão do mundo, isto é, de uma ideologia. Esta problemática
é assim analisada pdo narrador de Nftido romance de Vergilio Ferreira:
«Ü prindpio dz causalidade. Não existe. Para pessoas não existe. Porque
uma causa só é causa quando a gente quer que o seja. Se não quer que o seja,
não é causa de nada. E é por isso que um juiz arreia num criminoso. Mas
curiosamente, quando o advogado de defesa fafa em «atenua11tes», já acre-
dita na causalidade. E o juiz também, que o ouve - um outro barco avança
na linha do horizonte. Vem no mesmo sentido do primeiro, vão ambos para
o norte, que é que haverá para o norte? Mas sem o principio da causa.lida.de
não saberia contar nada. Ha coisas que acontecem antes e outras que acon-
tecem depois; e o simples facto de contar umas antes e dizer que outras
aconteceram depois faz entender que as que aconteceram depois vêm na força
da sequência das que aconteceram antes. Como se aquilo que aconteceu,
pelo facto de ter acontecido, tivesse de acontecer. E não tem. Mas para o
sabermos teríamos de voltar atrás, o qne não é possível• (Nítido maio, Lisboa.
Portugália Editora, 1971, p. 25).

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TEORIA DA LITERATURA

O modelo barthesiano de siritaxe da diegese, embora teore-


ticamente enraizado na "herança" de Propp, revela-:se mais plás-
tico, mais compreensivo e mais adequado à fenomenologia do
. texto narrativo literário do que os modelos mais fortemente
logicizados e formalizados. Seymour Chatman, em cuja síntese
narratológica se procura conciliar - como se verifica também
em Genette - a análise estrutural da narrativa com o reconhe-
cimento da variabilidade e da complexidade históricas, socio-
culturais e estéticas dos textos narrativos literários (116 ), aceita
na essencialidade os conceitos fundamentais de Barthes, classi-
ficando os eventos da· narrativa em núcleos («kernels») e satélites
(«satellites») (117). Ao invés de Barthes, todavia - e acerta-
damente, em nosso entender-, Chatman não considera possível
atribuir sistematicamente nomes aos ''núcleos" e aos "satélites",
n:Uma operação taxinomista que pressupõe a possibilidade (ou a
exigência?) de decodificar todos os textos narrativos segundo
um modelo de tipo algébrico. Tal etiquetamento,. fundado em
·categorias lógico-semânticas extremamente genéricas, ignora
os parâmetros pragmáticos e semânticos de natureza histórica,
social e ideológica que configuram a diegese e conduz por
isso a uma trivialização reducionista da história narrada.

10.5.1. Romance fechado e romance aberto

A distinção entre romance fechado e romaúce aberto está


imediatamente relacionada com a sintaxe da diegcse (11 B).
O romance fechado caracteriza-se por possuir uma diegese
claramente demarcada, com princípio, meio e fim. O narrador

( 116)-0bserva Chatman: «I do not mean that Formalist-Structuralist


theories of macrostructural analysis are not valuable and should not be
pursued wherever applicable . .I only mean that thay must not form Procrustean
beds that individual narra tives cannot sleep im (cf. Story and discourse, pp. 92-93).
( 11 7)-Ibid., pp. 53-56.
( 118)-Sobre o "fechamento" e a "abertura" do romance, vide: Alan
Friedn;i.an, The t11rn of the novel, Ncw York, Oxford University Press, 1966;
Frank Kermode, The sense of an e11ding. Studies i11 the tlieory of fictio11,
New York, Oxford University Press, 1967; David H. Richter, Fable's end.
Co111pletness and closure ÍIJ rhetorical fiction, Chicago - London, The University
of Chicago Press, 1974.

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