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brasis Edição n.

3 / março 2019

Marinete
Silva
Uma brasileira em
busca de justiça

Quem mandou Lula Não somos


matar Marielle? Livre terroristas
A relação entre o assassinato A luta pela Ensaio fotográfico
e as milícias no RJ democracia no Brasil sobre o MST
E D I TO RI AL

Ano novo com Lula. Vígilia estende faixa de 60 metros em frente à Superintendência da PF em Curitiba. FOTO: Ricardo Stuckert

Olhar além do calendário eleitoral, séculos, apenas pela cúpula da socie- forte na luta contra o fascismo.”
até mesmo para visualizar correta- dade política, pelos estratos médios O deserto do real, enfim, aparece
mente o próprio calendário político e e superiores da pequena burguesia a todos e todas. Desde as sucessivas
eleitoral. e pela burguesia. Usufruiram desse quebras da pseudo autoridade da
A conjuntura, em sentido macro, contrato, apenas em períodos restri- ONU com as intervenções militares
aponta para um mundo em perma- tos, algumas camadas do proletaria- dos EUA, aos golpes constitucionais
nente “estado” de exceção. Note-se a do e parcelas da pequena burguesia na América Latina, assiste-se ao des-
inicial minúscula do vocábulo estado. situada em seus estratos inferiores. moronamento das ilusões com as
Estado como condição, atmosfera, Em 1940, Walter Benjamin, em suas tais regras democráticas alardeadas
cultura. Essa tem sido a história da polêmicas “Teses sobre o conceito e, quando conveniente ao capital,
humanidade, ainda que as altas es- de história”, precisamente na oitava desconstruídas diuturnamente.
feras de sua sociedade política na tese, desnudou o mito do contrato É assim que a Esquerda Popular
mordernidade, à direita e à esquer- social: “A tradição dos oprimidos nos Socialista, tendência interna do PT,
da, estivessem imersas num jogo de ensina que o ‘estado de exceção’ em convida à reflexão sobre a conjuntura
disputas de poder nos quais ainda que vivemos é na verdade a regra ge- brasileira e as tarefas da esquerda:
prevaleciam algumas regras. Ou, no ral. Precisamos construir um conceito criar aqui o nosso estado de emer-
termo cunhado por Rousseau: tais de história que corresponda a essa gência para confrontar o estado de
regras ganharam o formato de um verdade. Nesse momento, percebere- exceção. Marielle Vive! Lula vive! E
contrato social. mos que nossa tarefa é originar um viva a luta da classe trabalhadora!
Reiteramos: o mito do contrato verdadeiro estado de emergência;
social foi vivenciado, por quase três com isso, nossa posição ficará mais

EXPEDIENTE
Brasis é uma revista da Esquerda Popular Socialista, tendência interna do PT (EPSdoPT).
Edição: Gabriel Oliveira e Luís Carlos Design gráfico: Agnaldo Almeida e Jonas Santos Foto de capa: Jonas Santos Ilustrações gentilmente cedidas por
Daaniel Araújo, Raul Córdula e Christiano Mascaro
Conselho Editorial: Anderson Rodrigo, Carla Ayres, Elida Miranda, Elenira Vilela, Gabriel Oliveira, Ivan Alex Lima, João Daniel, Luis Carlos, Renata Rossi
Sheila Oliveira, Thiago Dhatt, Valmir Assunção, Tiago Soares e Yuri Brito.
Email: revistabrasis@gmail.com Facebook: Revista Brasis

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Í N D I CE

Lula é dever nosso, lutar por sua liberdade, para defender os

direitos do povo brasileiro! 4


Um ano sem Marielle 6

Marinete da Silva, brasileira 10

200 Anos marx 12

Mulheres petistas: resistência contra a violência14


Nota sobre as PM’s e a “filosofia da guerra” 16 “É uma dor profunda”
Quer que eu desenhe? 18

Cartuns 20

Poesia de Bell Puã 22

ENSAIO: Não somos terroristas 24

Mineração e autogestão: uma solução 28

Última página 29

“ É uma dor
profunda”
Benedita da Silva, deputada e ex-go-
vernadora do Rio de Janeiro, ao deixar
a sede da Superintendência da Polícia
Federal em Curitiba, onde Lula é preso
político há 01 ano.
Foto: Ricardo Stuckert

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LU L A L I V RE

Lula é dever nosso:


lutar por sua liberdade para defender
os direitos do povo brasileiro!
Tiago Soares
Secretário de Combate ao Racismo do PT - SP
Direção Nacional da EPS

Iniciamos o ano de 2019 com a também seus direitos individu-


maior injustiça já vista na histó-
ria política recente do país, a ma-
nutenção da prisão sem provas do
ex-presidente LULA nos traz a refle-

Foi preciso prender e
condenar o ex-presidente
ais garantidos em lei. Lula precisa
deixar de existir como líder.
Por isso, a decisão do PT e de ou-
tros setores e dos movimentos so-
xão sobre o quanto nossa democra- ciais de esquerda e progressistas
cia está fragilizada e cada vez mais Lula num julgamento em manter a campanha Lula Livre
distante dos direitos fundamenta- de exceção para tirar na rua é fundamental. A campa-
dos na Constituição de 88. nha pela liberdade de Lula, para
Como disse Cazuza uma vez,
o maior líder popular ser efetiva, precisa ter envolvi-
“nossos inimigos estão no po- da disputa nas urnas mento de toda sociedade, e em es-
der”. Foi preciso prender e con- em 2018. pecial de nossa militância. Precisa
denar o ex-presidente Lula num organizar ações efetivas de impac-
julgamento de exceção para tirar to e esclarecimento, combater dia-
o maior líder popular da disputa dirá esforços para quebrar o pacto riamente a naturalização da pri-
nas urnas em 2018. Uma eleição social constituído em 1988 para são, criar comitê e ações política
farsesca e totalmente em men- manter a economia brasileira sob nacionais, estaduais e nas locali-
tiras e fake news. Estamos ainda a tutela do capital internacional, dades onde estamos organizados.
num processo de transição para em especial do império estaduni- Faz-se absolutamente necessá-
um novo regime, onde a tríade dense. Mesmo que para isso tenha rio chegar naqueles que, de algu-
constitucional está quebrada. que promover retrocessos nos di- ma forma, direta ou indiretamen-
Não existe mais equivalência reitos dos trabalhadores, pobres, te, tiveram seus direitos assistidos
dos poderes da república. É per- das mulheres, da população ne- durante os 13 anos de governos do
ceptível que o poder judiciário gra, dos indígenas, e todos os seto- PT. É absolutamente urgente a de-
assume um protagonismo maior res populares de nossa sociedade. fesa enfática de nosso legado. E a
junto com o braço militar e arma- E a concretização dessa transi- defesa desse legado passa neces-
do do Estado. Foi nesse contexto ção que tira o Brasil de um regime sariamente pela defesa da demo-
que Sergio Moro virou ministro de crescimento, garantia de direi- cracia e da liberdade de Lula.
da Justiça. A violação dos direitos tos e democracia para um regime
sociais com a reforma da previ- de governo conservador e repres-
dência e trabalhista sugerida por sor só é possível com a manuten-
Guedes mostra que este governo ção da prisão de Lula, cerceando
ultraliberal e autoritário não me- não apenas os seus políticos, mas

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Foto Jonas Santos

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M ARI E L L E V I V E

Um ano sem

Marielle

Há um ano o país foi abalado pelo do, o senador recém-eleito pelo Rio que foi interrompida de forma trá-
violento assassinato da vereadora de Janeiro, Flávio Bolsonaro. gica e criminosa.
do Rio de Janeiro, Marielle Franco. Eleita em 2016 como uma das ve- Na noite do dia 14 de março de
Somente às vésperas de completar readoras mais votadas do Rio, Ma- 2018, Marielle voltava de um evento
um ano do crime, a investigação rielle Franco desempenhou duran- com jovens negras, na Lapa, quando
começa a apresentar alguns escla- te sua trajetória nos movimentos bandidos em um carro emparelha-
recimentos sobre os responsáveis, sociais e no legislativo fluminense ram ao lado do veículo onde estava
jogando luz sobre o submundo das um intenso trabalho de denúncia e dispararam. O ataque ocorreu na
milícias do Rio de Janeiro, expondo o dos excessos das ações policiais nas Rua Joaquim Palhares, no bairro do
envolvimento dessas organizações periferias da cidade, do terror que Estácio, Região Central do Rio, na al-
criminosas com o poder legislativo as milícias difundiam nas comuni- tura do edifício do Detran. Marielle
carioca e levantando suspeitas so- dades, do racismo, do genocídio da Franco e seu motorista Anderson
bre a relação dessas organizações população negra e do feminicídio. Gomes foram assassinados a tiros,
com todo o clã Bolsonaro, sobretu- Uma história de luta e dedicação enquanto outra passageira, asses-

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Mídia Ninja/Reprodução
sora da vereadora, foi atingida por interrupção do mandato de Dilma, núncia de testemunha que inte-
estilhaços. A assessora sobreviveu democraticamente eleita dois anos grava uma milícia na Zona Oeste
ao atentado. antes. O crescente fascismo à brasi- do Rio, o ex-PM Rodrigo Ferreira, co-
A precisão do ataque ao carro de leira se manifestou ferozmente nas nhecido como Ferrerinha. O ex-PM
Marielle, que possuía filme escuro redes sociais logo após a notícia do contou à polícia ter testemunhado
nos vidros, levou a polícia a traba- assassinato de Marielle. Uma série uma conversa entre o vereador do
lhar com a hipótese de os crimino- de ataques à sua memória nas re- Rio Marcello Siciliano e o miliciano
sos terem acompanhado os passos des sociais, com acusações das mais Orlando Curicica, na qual os dois
da vereadora por algum tempo, a vis. Mentiras sobre suas origens e arquitetaram a morte da vereado-
ponto de terem conhecimento pré- trajetória tentando ligá-la ao trá- ra. Ainda no final do ano passado,
vio da exata posição das pessoas fico e ao crime sempre no sentido Curicica pediu para ser ouvido e ale-
no interior do veículo. A vereadora de desqualificar sua atuação no gou que estava sendo pressionado
estava no banco de trás do carro, no enfrentamento às milícias e à vio- pela polícia do Rio para assumir a
lado do carona e foi atingida com lência contra a população negra e autoria do assassinato de Marielle.
pelo menos quatro tiros na cabeça. periférica no Rio. Já em fevereiro deste ano, a própria
Seu motorista foi atingido por pelo advogada de Ferreirinha, Camila
menos três tiros na lateral das cos- Quem matou e quem mandou Nogueira, afirmou que não confia
tas. Os responsáveis pelo atentado matar? mais na versão de seu cliente. Cami-
fugiram logo após o ataque, sem le- la também é investigada pelo MP.
var nada. Apesar da pressão popular, as Em janeiro último, pelo menos
A morte de Marielle causou gran- investigações se arrastaram por cinco suspeitos no envolvimento
de comoção e foi acompanhada quase um ano sem nenhuma nova no assassinato da vereadora e do
por uma série de atos pelo país. Em informação. Até a recente prisão motorista Anderson Gomes foram
Salvador, naquele período, o Fórum dos dois principais suspeitos pela presos pela Polícia Civil na operação
Social Mundial reunia ativistas de execução de Marielle, o caso já su- do MP chamada Os Intocáveis, que
todo mundo para pensar e debater perava em muito o tempo decorrido mobilizou cerca de 140 policiais,
saídas e enfrentamento ao capita- para o termino das investigações de expediu 13 mandados de prisão pre-
lismo no mundo. Na noite da quin- casos semelhantes, como o da juíza ventiva contra integrantes de milí-
ta-feira, 15 de março, o Fórum reali- Patrícia Acioli, assassinada em 2011 cias. Os principais alvos da opera-
zou a Assembleia Internacional em também em resposta à sua forte ção foram o major da Polícia Militar
Defesa das Democracias, no Estádio atuação no combate às milícias do Ronald Paulo Alves Pereira, o ex-ca-
de Pituaçu. O evento que reuniu di- Rio. À época, a polícia levou 74 dias pitão do Batalhão de Operações Es-
versas representações partidárias para concluir o inquérito indicando peciais (Bope), Adriano Magalhães
da América Latina, transformou-se o tenente-coronel Cláudio Oliveira da Nóbrega, chefe da milícia de Rio
num imenso ato em memória a Ma- — que na época comandava o bata- das Pedras; e o subtenente reforma-
rielle. Entre os presentes, militantes lhão de São Gonçalo - como o man- do da PM Maurício Silvada Costa, o
de diversos partidos e organizações dante do crime, juntamente com Maurição.
políticas da esquerda brasileira e mais dez policiais. Embora o objetivo desta ação do
mundial. Entre eles, o ex-presiden- Durante todo o ano que se passou MP-RJ tenha sido atacar a milícia
te Lula, que seria preso apenas um após a morte de Marielle, e antes de que explora o ramo imobiliário
mês depois, expressou o seu pesar chegar ao PM reformado Ronnie ilegal na comunidade de Rio das
e indignação que ecoou no estádio. Lessa e ao ex-PM Élcio de Queiroz, Pedras com ações violentas e assas-
A repercussão internacional ex- o Ministério Público, Polícia Civil e sinatos, há indícios de que dois dos
pôs para o mundo a deterioração da Polícia Federal vinham trabalhan- alvos de prisão comandem o Escri-
democracia no Brasil pós-impeach- do em diferentes linhas de investi- tório do Crime, braço armado da
ment, quando em 2016, a democra- gação. organização, especializado em as-
cia sofre um grande golpe com o a A primeira delas surgiu em de- sassinatos por encomenda. Os prin-

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cipais clientes do grupo de matado- A milícia no poder? zeram depósitos para Fabrício Quei-
res profissionais são contraventores roz.
e políticos. Não bastasse o brutal assassina- Como se sabe, a relações da famí-
Já a prisão em março dos possí- to de Marielle e todas as respostas lia Bolsonaro com as milícias já são
veis executores de Marielle resolve ainda não dadas sobre o caso, a ano antigas. O próprio Flavio é autor de
apenas um capítulo do brutal assas- de 2018 também foi marcado pela duas homenagens a milicianos que
sinato. A Polícia Civil e o Ministério eleição do candidato ultraconserva- depois foram presos na operação do
Público afirma ter provas convin- dor Jair Bosonaro à presidência da MP. Em 2003, o major Ronald Pau-
centes que colocam Ronnie e Élcio república. Uma coisa não teria ne- lo Alves Pereira, foi homenageado
na cena do crime, o primeiro como cessariamente relação com a outra com uma moção de louvor e con-
atirador o segundo como motorista não fosse um grande detalhe: a co- gratulações por serviços prestados
do carro, além do envolvimento de nhecida relação histórica da família à população, apenas três meses
ambos com as milícias no Rio de Bolsonaro com as milícias. E cada de ter sido indicado como um dos
Janeiro. Dentre os 32 mandados de vez mais indícios têm vindo à tona. suspeitos da chamada Chacina da
busca e apreensão que também fi- Em reportagem divulgada pelo O Via Show, quando quatro rapazes
zeram parte da operação que levou Globo foram reveladas ligações do foram encontrados mortos no esta-
a prisão de ambos, foram encontra- miliciano preso pela operação Os cionamento de uma casa de shows
dos 177 fuzis na casa de um amigo Intocáveis Adriano Magalhães com em São João de Meriti, na Baixada
pessoal de Ronnie, Alexandre Mota, Flávio Bolsonaro e Fabrício Queiroz, Fluminense. Um ano antes, o par-
que também foi preso em flagrante. ex-motorista de Flávio. A mãe e a lamentar já tinha concedido esse
No entanto, o caso está longe de mulher de Adriano trabalharam no mesmo tipo de homenagem ao
ser solucionado. A prisão dos execu- gabinete de Flavio na Assembleia mesmo Adriano Magalhães. Não
tores a dois dias de completar um Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). por mera coincidência, aliás, Flavio
ano da morte de Marielle, apesar de Além disso, desde o final de 2018, foi o único deputado a votar contra
ser um passo importante, pode ser- tanto Flavio Bolsonaro quanto a CPI das milícias na Assembleia
vir também apenas como cortina de Queiroz tem sido protagonistas de em 2015.
fumaça para impedir que as investi- sucessivos escândalos envolvendo São fartos os indícios de relação
gações cheguem aos mandantes do movimentações financeiras volu- do clã Bolsonaro com as milícias do
crime político, que muito provavel- mosas e irregulares na Assembleia. Rio de Janeiro, a relação delas com
mente envolve atores muito mais Relatório divulgado pelo Conselho os sucessivos mandatos da família.
poderosos do que apenas sargentos de Controle de Atividades Financei- Há elementos que relacionam o
e ex-policiais. ras - Coaf, revelou movimentações próprio Bolsonaro não apenas com
bancárias atípicas das contas de ou- as milícias como com o próprio exe-
tros assessores do então deputado cutor de Marielle, Ronnie Lessa. O
para a conta de Fa- PM reformado acusado de atirar na
brício. Ao todo, as vereadora residia no mesmo condo-
movimentações mínio e a apenas 50 metros da casa
alcançaram mais do agora presidente da República,
de R$ 7 milhões de que apesar de negado qualquer co-
reais. Raimunda nhecimento do policial, foi confir-
Veras Magalhães mado pela Polícia Civil que seu filho
– a mãe do ex-ca- namorava a filha de Ronnie.
pitão de Adriano Após o ano do assassinato, pode-
Magalhães– apa- mos estar diante de um caso que
rece no relatório signifique não só um crime político
do Coaf como uma contra a vereadora, mas também a
das pessoas que fi- elucidação do envolvimento direto

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Foto: Bárbara Dias/Fotoguerrilha
do presidente do Brasil e sua famí-
lia com a atuação ilegal e violenta
das milícias no Rio, e por consequên-
cia de inúmeros crimes e assassina-
tos cometidos por elas. Por isso a
pergunta fundamental permanece
ainda sem resposta: quem mandou
matar Marielle?

Foto Jonas Santos

A trajetória de Marielle Franco


Marielle foi uma brava guerreira Sua dedicação aos estudos lhe Comissão Parlamentar de Inquérito
das favelas cariocas que dedicou sua rendeu bolsa integral para cursar o levou a se exilar do país após di-
vida à luta em defesa dos direitos ciências sociais, na Pontifícia Uni- versas ameaças de morte.
humanos e pela melhoria da vida versidade Católica (PUC), do Rio. Em 2016, numa campanha muni-
da população que vive nessas loca- Cumpriu todo o curso levando uma cipal que levou Freixo ao segundo
lidades. jornada tripla de trabalho, estudo e turno como candidato a prefeito do
Nascida no dia 27 de julho de 1979, cuidado com a filha. Após a gradu- Rio de Janeiro, Marielle tornou-se a
cresceu no Morro do Timbau, no ação, tornou-se mestra em Admi- quinta vereadora mais votada nas
Complexo da Maré, um aglomerado nistração Pública pela Universidade eleições, com 46.502 votos, em sua
de 16 favelas, junto com Antônio, seu Federal Fluminense (UFF). Em sua primeira disputa eleitoral. Violen-
pai, e Marinete, sua mãe. Começou dissertação de mestrado, trabalhou tamente arrancada da vida pública,
sua atuação social aos 16 anos, atra- o com o tema “UPP: a redução da fa- Marielle cumpriu apenas um ano
vés da Pastoral da Juventude como vela a três letras”. de mandato. Apresentou 13 proje-
catequista na comunidade. Aos 18 Trabalhou em organizações da so- tos, entre eles o projeto de lei para
anos, após concluir o ensino médio, ciedade civil como a Brasil Founda- construção do Dossiê da Mulher Ca-
com o sonho de seguir os estudos, tion e o Centro de Ações Solidárias rioca.
passou a estudar no curso pré-ves- da Maré (Ceasm). Neste período co- Apresentado em novembro de
tibular comunitário da Maré. Foi ali nheceu Marcelo Freixo, professor de 2017, tratava-se de um projeto de
que conheceu Edson Dias, diretor da história, que se tornou um dos seus lei com o objetivo de pedir que a
ONG Redes da Maré, seu professor companheiros de luta. prefeitura disponibilize e organize
de História e pai da sua filha. Fez campanha para Freixo, eleito os dados sobre a violência contra a
Teve sua filha aos 18 anos. Dois deputado estadual em 2006. Passou mulher na cidade do Rio de Janeiro.
anos depois, retomou os estudos a trabalhar como assessora do de- Isso já é feito no Estado. O relatório
no mesmo curso pré-vestibular. É putado na Comissão de Direitos Hu- aborda os principais crimes que
quando a violência urbana marca a manos e Cidadania da Assembleia milhares de mulheres sofrem coti-
sua vida e a leva à luta social - uma Legislativa do Rio, onde acompa- dianamente, como a lesão corporal
amiga foi atingida por uma bala nhava casos de violações de direitos dolosa, a ameaça, o atentado violen-
perdida durante um confronto en- humanos, como as praticadas por to ao pudor, o estupro, o homicídio
tre polícia e traficantes no Morro do milicianos e policiais. O trabalho doloso e a violência doméstica.
Timbau. desenvolvido por Freixo à frente da

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M ARI E L L E V I V E

Marinete da Silva,

brasileira
Mãe de Marielle Franco. Era Desde cedo, segundo ela, as duas -RJ) à vereadora eleita com expres-
para ser apenas uma entrevista. integraram grupos de jovens e se siva votação, ela viu – com orgulho
Algo que desvendasse uma per- envolveram com trabalhos assis- – a vida de Marielle mudar radi-
sonagem que – de repente – sai tenciais patrocinados pela Igreja. calmente. Mesmo nesse momen-
do anonimato e passa a ter pro- “Nada ainda político”, ressalta Ma- to, nada que parecesse como risco
tagonismo político e social sem rinete. Algo que ocupasse o tempo pelo ativismo de defesa dos direi-
que o desejasse. A entrevista se das meninas e evitasse “coisas tos humanos a assustava.
transforma em matéria, dado que ruins”. Reuniões, festas, excursões É assim que ela responde às per-
a mãe da Marielle resiste – incons- aprofundaram essas relações das guntas sobre esses tempos difíceis
cientemente – a falar de si. filhas com o mundo, sempre in- depois da tragédia. Com habilida-
Perguntas sobre ela, Marinete, centivadas pela mãe e pelo pai. de política, Marinete da Silva dri-
pareciam não ser ouvidas. Todas as Questionada como via o fato de bla as perguntas sobre a demora
respostas tinham como ponto de Marielle começar a trabalhar aos na apuração do assassinato da
saída e de destino a militância da 11 anos, ele não titubeia: “era uma filha. Não por medo de ameaças.
filha brutalmente assassinada. Ain- necessidade”. Perguntamos sobre Mas, por priorizar seu objetivo
da assim, entre uma e outra fala, se havia apreensões quanto ao tra- maior na vida: descobrir os man-
foi possível captar alguns traços da balho precoce da filha e seus en- dantes do assassinato.
mãe e seu coração estraçalhado. volvimentos com o ativismo social Com habilidade, ela desvia das
Nordestina, veio cedo do interior inaugurado pela militância da filha perguntas que possam indispô-la
da Paraíba para o Rio de Janeiro, nas ações da Igreja. Ela transmite com os investigadores do crime.
onde adquiriu formação na polí- até uma certa tranquilidade: em ne- Percebe-se ali a clara convicção
tica tradicional. Na terra de ori- nhum momento ela teria agido para do que é prioritário. Quanto à sua
gem, Lagoa Grande, ela conheceu frear esse envolvimento da menina resistência de falar de si, o recado
a política tal como era feita, “nos que entrava na adolescência. ficou evidente: a hora e a priori-
tempos da Arena e do MDB”, pelo Perguntada sobre seus medos dade são Marielle. O tempo dela,
envolvimento de sua mãe, avó de acerca do início da militância po- Marinete, talvez chegue no dia em
Marielle. “Aqui eu não me envol- lítica propriamente dita da filha, que forem punidos não apenas os
vi”, registra. Já vivendo no Com- ela até sugere que não tinha a di- executores, mas os mandantes dos
plexo da Maré, ela teve Marielle mensão do impacto que isso teria executores.
e Anielle. De formação católica, em sua segurança pessoal. De as- Marielle vive também na mili-
Marinete da Silva, claro, levou as sessora do mandato do deputado tância de sua mãe.
filhas para o mesmo caminho. estadual de Marcelo Freixo (PSOL-

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Karl Marx
por Daaniel Araújo

200 anos do

Marx 175 anos de marxismo


Em 2018 celebramos os 200 anos do nascimento Mesmo depois da estagnação e da derrota de pro-
do autor e ativista social mais citado no século XX e, cessos revolucionários tentados desde o século XIX,
com o andar das coisas, provavelmente se manten- com destaque para a experiência russa, o cerco à re-
do como o mais mencionado no XXI. A vitalidade da volução cubana e a deterioração burocrática de ou-
obra de Karl Heinrich Marx é impressionante. A pre- tras iniciativas, o marxismo permanece como uma
ocupação de seus inimigos e críticos em detratar essa referência indispensável não só para a crítica dos fra-
obra é a prova mais contundente de sua vitalidade. cassos, mas também para o recomeço da caminhada

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pela superação do capitalismo. obra, que tinham a lavra – muitas anos 1920.
E o mais paradoxal: na prepara- vezes – até de contraposições às Pasmem. As obras de Marx que
ção e no exercício dos processos ideias de ambos. tanto inspiraram contingentes
revolucionários citados acima, As crises e paralisias nesse es- inteiros de gerações sucessivas
sobretudo os do século XX, a apro- forço acompanharam Riazanov ainda são um “mistério” para a
priação e compreensão dos textos até o momento em que foi conde- maioria de quadros e militantes
de Marx era muito precária, frag- nado por Stalin como sabotador do todo o Planeta. Apenas uma
mentada e restrita a círculos bem da União Soviética, no início da parte delas, durante o século XX,
restritos de quadros dirigentes. década de 1930 até sua execução esteve disponível para o estudo e
Um nome, em especial, contri- em 1938. Ainda assim, a força de assimilação desses contingentes
buiu para difundir a obra de Marx seu projeto original possibilitou militantes. Hoje, descobre-se que
para um público mais amplo: Da- que fosse dado continuidade des- centenas de milhares de militan-
vid Borisovich Goldendach, ou se trabalho, mesmo nas agruras tes se formaram a partir de textos
David Riazanov que – mesmo em da guerra imperialista. Após a mal traduzidos, apresentados em
constante conflito com a burocra- morte de Stalin, várias obras fo- sequências diversas daquelas re-
cia do Partido Comunista da União ram publicadas obedecendo, rela- digidas por seus autores e muitos
Soviética, com destaque para en- tivamente, o planejamento origi- desses escritos estavam impreg-
frentamentos públicos com Sta- nal, porém com forte influência da nados pela manipulação do PCUS.
lin, teve papel decisivo no levan- burocracia partidária, esta mais Se isso ocorria na Europa, na an-
tamento de acervo, aquisição dos tiga União das Repúblicas Socia-
mesmos e desenvolvimento de listas Soviéticas e na China, ima-
um ousado projeto de organiza-
ção dos escritos de Marx, Engels
e de outros autores essenciais ao
conhecimento da vasta obra dos
inauguradores do socialismo mo-

O marxismo permanece
como uma referência
ginem no Brasil. Só recentemente
é que traduções completas e qua-
lificadas começam a ficar disponí-
veis para um público mais amplo.
Antes disso tínhamos textos e in-
derno. Quadro militante e intelec- indispensável não só para terpretações contaminados por di-
tual sem comparações no seio da a crítica dos fracassos, mas versos “vícios”.
elite dos dirigentes da Revolução também para o recomeço O desafio contemporâneo é am-
Bolchevique, Riazanov, um mar- pliar o engajamento militante na
xista pleno, crítico da burocracia da caminhada pela apropriação da obra de Marx, e
do Partido, mesmo antes da era superação do capitalismo. também a de Engels, a partir do re-
Stalin, teve destacado papel no conhecimento de tateamos a com-
processo de encontro com o “mar- preensão rigorosa dessas obras. E,
xismo” da lavra direta de Marx. além disso, naquilo que for possí-
Ler Marx e Engels a partir de preocupada como os aspectos vel, fortalecermos esse esforço in-
seus próprios textos, traduzin- propagandísticos das demandas ternacional que foi reacendido na
do-os do alemão, do inglês e do do PCUS, do que – propriamente – Europa, em torno daquilo que foi
francês era por si só um esforço com o rigor editorial proposto no cunhado como “marxologia”.
inigualável. Demandava, pratica- esforço inicial do Instituto Marx e Essa é a melhor homenagem
mente, uma nova ciência. Riazo- Engels. que podemos prestar à memória
nov então cunhou o termo mar- Somente após o fim da União So- de Karl Henrich Marx.
xologia. Que seria o esforço reunir, viética, em 1989, que o riquíssimo Marx vive!
catalogar, contextualizar, editar acervo do citado Instituto passa a
com rigor, imprimir e divulgar a ser revisitado por pesquisadores
obra dos dois autores alemães. E interessados a retomar o caminho
dos trabalhos confluentes a essa editorial previsto nos início dos

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ARTIGO

Foto:Lula Marques/Agência PT

MULHERES PETISTAS:
RESISTÊNCIA CONTRA A VIOLÊNCIA
Brena Pinto
Secretária de Mulheres do PT Bahia

Diante do resultado da eleição cacional à de segurança, passando por maridos, namorados,


de 2018 e do cenário que vem se pelas áreas de geração de emprego pais ou filhos. Ou seja, mor-
desenhando com a chegada de e renda, saúde, assistência social e tes no âmbito doméstico. O
Bolsonaro à presidência, muitos previdência. O Brasil vivencia hoje maior acesso às armas au-
são os retrocessos vivenciados pelo o governo mais misógino da sua mentará bastante o número
povo brasileiro e, sobretudo, pelas história. de feminicídio, como destaca
mulheres. 2019 tem se configurado Em três meses desse governo po- a antropóloga Débora Diniz:
como um dos anos mais difíceis e demos destacar diversos episódios “Se, hoje, há casos em que as
desafiadores para o movimento de de ataque direto aos nossos direi- mulheres sobrevivem à ten-
mulheres no Brasil. tos e às nossas conquistas, gran- tativa de feminicídio é, em
Bolsonaro, sua família e correli- de parte delas conquistadas nos larga medida, porque o ins-
gionários têm um vasto histórico governos de Lula e Dilma, fruto de trumento de violência foi a
de discursos e práticas antifemi- muita luta das mulheres. Podemos força física ou outros instru-
nistas. Nos 28 anos de mandato citar aqui alguns desses fatos: mentos com mais baixa leta-
como deputado federal, Bolsonaro lidade, como facas ou cordas.
coleciona falas e fatos em que ata- 1. Decreto que facilita a posse Em caso de uso de armas, as
ca diretamente a vida das mulhe- de armas. Somos um dos pa- chances de uma mulher so-
res, o que se reflete em seu governo íses do mundo em que mais breviver são muito mais ra-
em diversas áreas: da política edu- mulheres são assassinadas ras.”

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2. A Reforma da Previdência, dores evitem o tema femi- e nos cargos eletivos. Que se mul-
proposta por Bolsonaro, pre- nismo em suas aulas. tiplique em nossos municípios
judica mais as mulheres do 5. Além disso, a nomeação de e estados mandatos combativos
que os homens, já que tere- figuras como Ricardo Velez e feministas como o de Marielle
mos que trabalhar mais sete Rodrigues e Damares Alves Franco. Queremos nos manter vi-
anos e contribuir mais 10 no primeiro escalão do go- vas, disputando e ocupando todos
para ter aposentadoria in- verno é uma afronta a toda os espaços que são nossos por di-
tegral. Homens terão mais a política integrada direcio- reito!
cinco anos de trabalho e nada às mulheres. Figuras
contribuição. Isso se agrava que não deixam de delimitar A defesa da liberdade de Lula
ainda mais para algumas ca- suas ideologias reacionárias também é uma plataforma que
tegorias, como professoras e na primeira oportunidade, não devemos abrir mão, não ape-
trabalhadoras domésticas e como a emblemática fala nas por se tratar de uma prisão
rurais. da ministra, em que defen- política e, portanto, arbitrária, mas
3. Retomada do Projeto Escola de que “menino veste azul e também porque é a defesa do lega-
Sem Partido, que tinha sido menina veste rosa”! do dos governos petistas que mais
arquivado em 2018, mas que Esses fatos exigem uma aten- fizeram pelas mulheres. Sem ne-
foi apresentado na primeira ção grande da esquerda brasileira, nhuma dúvida, o período que mais
semana de legislatura pela uma vez que mal assumiu esse acumulamos conquistas, seja em
Deputada Federal Bia Kicis, governo machista e misógino e já marcos legais, como também em
do mesmo partido de Bol- se aumentou significativamente o políticas públicas.
sonaro. O novo projeto vem número de agressões e feminicí-
ainda mais agressivo e, além dio. Só em janeiro de 2019, foram Nossa defesa é por uma educa-
de afrontar a liberdade de 146 casos de feminicídio, sendo ção libertadora, pela garantia dos
cátedra, traz em um dos seus que 94 foram consumados. Não se nossos direitos reprodutivos, por
pontos a defesa veemen- pode pensar um projeto à esquer- uma política de não-violência às
te contra a abordagem de da sem considerar que dezenas de mulheres, pela defesa das nossas
quaisquer questões de gê- mulheres estão sendo violentadas vidas, contra a Reforma Previdên-
nero em sala de aula. Quem enquanto lemos esse texto. cia e pela liberdade de Lula!
é da área de educação sabe o
quanto se reproduz no espa- Fazer oposição a esse governo e Lula Livre!
ço da escola, o machismo, a pensar um projeto como alternati- Marielle, presente!
misoginia, a homofobia, re- va perpassa obrigatoriamente por Não à Reforma da Previdência!
flexo de uma sociedade mar- defender a retomada nos nossos Nenhuma a menos!
cada por esse tipo de precon- direitos, a garantia das políticas Pela vida das mulheres!
ceito e violência. públicas integradas para as mu-
4. O projeto está em total con- lheres e, sobretudo, combater o fe-
sonância com o posiciona- minicídio, fruto do machismo e da
mento da família Bolsonaro, misoginia que estão entranhadas
que corriqueiramente se po- na nossa sociedade.
siciona contra o feminismo e
contra as questões de gêne- Fundamental também pensar
ro, como demonstra uma das o nosso espaço de representativi-
primeiras falas do Eduardo dade nessa sociedade machista.
Bolsonaro, deputado reeleito É uma prioridade garantir que as
pelo estado de São Paulo, em mulheres tenham condições de
que recomenda que educa- disputa nas instâncias internas

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Nota sobre as PM’s
e a “filosofia da guerra”


Desmilitarização das polícias. A luta
contra contra o golpe de 2016 eleva
a importância da retomada, em escala Desmilitarizar é quebrar
social, para além dos círculos de espe-
cialistas e iniciados, do debate pela des-
a cultura “infantarizada”
militarização das polícias. de que se deve aniquilar o
Desmilitarização que deve atingir até
mesmo as polícias judiciárias (PF e PC’s)
inimigo. É constituir
e as guardas municipais. polícias comunitárias
Mas, mantenhamo-nos na órbita da
centenária Polícia Militar. Criadas no
para gestão de pequenos
século XIX, as polícias militares nasce- conflitos de vizinhança e
ram no contexto da embrionária urba-
nização do Brasil e com a presença de
coibir ações criminosas de
escravos libertos ou fugitivos nas ruas. baixo efeito letal.
Tratava-se de proteger a elite branca da
presença da “vagabundagem” e dos
que ofendiam os costumes nos próprios palmente, favelas) e para a repressão à
públicos. justa luta fundiária urbana e rural.
De lá para cá, a profissionalização Urge repensar o aparato repressivo. E
da atividade de políciamento ostensivo isso tem que ser feito com toda a so-
tem sido correlata com sua crescen- ciedade e, principalmente, com suas
te militarização. E com sua filosofia da vítimas. Desmilitarizar é quebrar a cul-
guerra. Como não há inimigo externo tura “infantarizada” de que se deve
em território nacional desde as invasões aniquilar o inimigo. É constituir polícias
francesas e holandesas (séculos XVIII e comunitárias para gestão de pequenos
XIX), esse aparato repressivo elegeu um conflitos de vizinhança e coibir ações
adversário: o povo pobre nas ruas, nas criminosas de baixo efeito letal. É dis-
periferias carentes e nas lutas sociais. solver os ‘bopes’, os batalhões “táticos”
Somadas às polícias judiciárias e às e outros grupos de operações especia-
guardas municipais, as polícias militares lizadas. É romper a estética dos “ram-
se afirmam mais como defensoras da bos”, que agora passa a contaminar até
propriedade do que do cidadão. E fala- mesmo as guardas municipais. É criar
mos aqui do patrimônio dos mais ricos. órgãos controladores externos, dissol-
Ou seja, temos um braço do Estado, vendo as corregedorias que vivem sob
com vários tentáculos, se especializan- as pressões corporativas e, não raro,
do e treinando para a guerra da deso- integram até mesmo os malfeitos já de-
cupação de espaços públicos, tomados tectados em vários casos. Isso e muito
por manifestações populares; para a in- mais tem que ser discutido, reiteramos,
vasão dos territórios da pobreza (princi- com o conjunto da sociedade.

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FOTO: Mídia Ninja

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Raul Córdula
Ilustração para a Campanha Lula Livre

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CULTURAL

Quer que desenhe?


Sheila Oliveira
Membro do Diretório Nacional do PT e da EPS

Uma expressão conhecida que tem Um traço de desenho, uma pa-


sido muito utilizada ultimamente. lavra rimada, uma música em har-
O avanço obscurantista das intole- monia, uma dança em movimento
râncias, que chegaram na esteira das são capazes de nos levar a uma
crises e dos golpes nesta quadra da transcendência das mundanas re-
conjuntura, revela as insuficiências e lações humanas e proporcionar
distorções promovidas apelos canais transformações individuais e cole-
corriqueiros de diálogo e comunica- tivas fantásticas.
ção. Por outro lado, as mais fortes e É por isso que se diz que cultura
eficazes expressões de resistência é revolução. Vem dessa capacidade
tem sido aquelas surgidas de pessoas, que a arte tem de desalienar o ser
movimentos ou articulações artísti- humano da relação de explorado/
cas e culturais. explorador, oprimido/opressor, por
É que às vezes todo o esforço de de- meio da contemplação reflexiva e
bate e reflexões esbarra nas limitadas da possibilidade de mancomunar
exposições e interlocução de pensa- que a vivência cultural oferece.
mento e idéias. Esta página é o espaço da revista
Se como disse Lenin, as revoluções Brasis dedicado às expressões artís-
são as festas dos oprimidos, das que a ticas. Nela vamos publicar nossas
gente conhece, o artista sempre mar- culturas nas várias linguagens e for-
cou presença nessas baladas. Dizem mas. Seja traço, poesia, música ou
que o talento gera essa sensibilidade reflexões identitárias de classe, de
de vanguarda de seu tempo no artista. gênero, de raça, de geração. Nossa
E a arte tem uma poderosa capa- diversidade com identidade. Diver-
cidade de síntese de profundos sen- são levada sério.
timentos, sensações, pensamentos e, Vamos dançar para que a revolu-
principalmente, reflexão. ção seja nossa!

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28 Fato

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HQ de Christiano Mascaro, texto de Miró de Mirubeca - Publicado no livro Tô Miró
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21 04/04/16 18:25
como não estarmos adoecidos
com o avanço do conservadorismo
aquele velho individualismo que estimula
a pouco pensar e muito consumir
black friday mano?
o Haiti é aqui!
Bell Puã é Isabella Puente de Andrade,
Brasil: uns num guenta e se suicida
pernambucana poeta slamer, vencedora outros morre no fuzil
do Slam BR 2017, compondo o Slam das
minas PE como poeta e o UM Coletivo como tá lá no script da nossa história
dançarina e performer. Milita no Coletivo
vamo imitar europeu que um dia chega
Afronte, desenvolvendo atos e atividades de
conscientização racial em seu estado. nossos tempos de glória
na concorrência com os irmãos?
É também bacharel em História pela vida é competição
UFPE. Mestranda pelo PPGH, na linha de seja um vencedor
relações de poder, sociedade e ambiente,
pesquisa História Ambiental com ênfase
quanto mais dinheiro
nas relações humanas com o manguezal no mais valor
Recife, entre 1930-1945. não é assim que a tv ensinou?

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o vilão termina pobre
o mocinho cheio de grana
só branco pra papel de médico,
engenheiro, empresário, advogado Só há uma
só num falta papel pra preto forma de ver
quando é pra atuar como escravo
empregada, empregado.... as coisas até
não é esse nosso papel na história que alguém nos
ser marginalizado?
receber açoite do senhor
ensina a vê-las
e do patrão o mínimo de salário? com outros olhos
tais ligado que hoje tem negro na Líbia sendo vendido em mercado?
pablo picasso
a carne mais barata é a minha
aqui é luta a cada verso
a carne mais barata é a minha
e tu quer falar de racismo reverso?
aterriza na realidade-dor
achou ruim te mandarem
pegar bronze na praia? ô, governo Temer, muda o roteiro
imagina teus irmãos de cor no Brasil já proibiram samba,
ser 24 horas visto como ameaça axé, maracatu, côco, frevo
pra polícia que arrasta Cláudia dando desculpa que é música
atira em criança na favela indecente?
queria eu, meu deus, que ofensa admite que é porque é som de preto!
fosse ser chamada de “branquela” de favelado, mas quando toca
ninguém fica parado
na classe burguesa que cresci pensa que eu nunca vi MC Koringa
um playboy me falou de mérito tocando em carro importado?
disse que quando pirralho
os bacanas olhava pra ele e previa fiz as contas e tô
“esse aí vai dar pra médico” com Mãe Beth de Oxum
tá aí a diferença da cor no nosso destino não sei você, mas em tempo de solidão
meu tio apenas criança, ainda menino acompanhada, desigualdade escancarada
já sentenciavam esse preto vai dar é pra bandido tá na hora do pau comer
tá na hora do pau comer
com muita dignidade
tio Evandro limpa o chão da cidade e que a desgraça não seja
caótica que é o Rio de Janeiro nossa sina
salve COMLURB, galera de luta união europeia é o caralho
os garis guerreiros união américa latina
o funk do gueto que dá vida ansiosos, depressivos, cansados
aos nossos dias mas de cabeça erguida
fiquei sabendo que agora a elite tá na hora do pau comer
além de arrancar nossos direitos quando o morro descer
quer proibir arte da periferia cês vai sentir nossa ira

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ENSAIO

Não
somos
terroristas
Jonas Santos nasceu em Santo Amaro da Purificação, na Bahia.
É fotográfo profissional desde e há muitos anos realiza um traba-
lho que registra o cotidiano em acampamentos e assentamentos
do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra no estado. O
presente ensaio “Não somos terrroristas”, pretende afirmar a dig-
nidade política do MST e da luta pela reforma agrária frente às
recentes ameaças de criminalização dos movimentos sociais no
Brasil.Confira a seguir um pequeno extrato deste belo trabalho.
MST: a luta é pra valer!

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Fotos Corpo de Bombeiros Militar

MINERAÇÃO E AUTOGESTÃO:
UMA SOLUÇÃO?
Neila Batista
Assistente social e membro da executiva estadual do PT MG

A segunda catástrofe de enge- pena? triais afetadas por crimes como os


nharia (e não natural), de reper- Vale se não for com a racionali- que ocorreram, que teriam hege-
cussão planetária e com evidente dade das “Vales”. Tal racionalidade monia na gestão do processo de
responsabilidade criminal, no cur- é a do lucro a qualquer custo, a da explotação: incluindo as definições
to intervalo de três anos em Minas mera distribuição de dividendos de metas. Estas, as metas, teriam
Gerais (Mariana e Brumadinho) en- aos seus acionistas e é a da preda- que ser aprovadas numa estrutu-
volveu a mesma empresa: Vale S/A. ção ambiental e social, sem qual- ra de controle social mais ampla,
Além de leis muito maleáveis, que quer perspectiva até mesmo de mí- que envolvesse comitês de bacias,
resultam em processos de pesqui- nima recuperação paisagística. áreas de proteção ambientais e tra-
sa, instalação e operação em esca- A cadeia produtiva da mineração balhadores das cadeias produtivas
la, com danos sociais e ambientais em Minas Gerais emprega direta correlatas. E com forte fiscalização
indiscutíveis, temos – em ambos os e indiretamente cerca de dois mi- pública. Essa seria a indenização
casos mencionados – fortes indí- lhões de pessoas. E não pensemos social da Vale S/A pelos crimes co-
cios de operações fraudulentas por aqui apenas nos minerais metáli- metidos em Mariana e Brumadi-
parte da direção da empresa, no cos. Há ainda arenito, granito, ar- nho. Sem prejuízo de outras inde-
que tange ao monitoramento de gila, ardósia, mármore etc., para a nizações às vítimas diretas.
seus depósitos de rejeitos. Torna-se construção civil. Há a água e, se- Sustentabilidade deixa de ser re-
inevitável, com isso, a legítima in- gundo prospecções, muito gás no tórica vazia somente num arranjo
dignação com a atividade minerá- Norte do Estado. Além do garimpo como este. Fora disso, aguardemos
ria, genericamente posta. de pedras preciosas. novas catástrofes provocadas pelos
O apelo à paralisação dessas ati- Isso pode e deve ser minerado. interesses de mercado.
vidades tem bases sólidas. Na operação direta, pelos próprios
Pergunta-se: a mineração vale a trabalhadores das plantas indus-

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