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Impunidade na Baixada Fluminense

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Dedicado a

Alessandro de Moura Vieira Leonardo Felipe da Silva


Bruno da Silva Souza Leonardo da Silva Moreira
Calupe Florindo Ferreira Luciano de Souza Coutinho
Cesar de Souza Penha Luis Jorge Barbosa Rodrigues
Douglas Brasil de Paula Luiz Henrique da Silva
Elizabete Soares de Oliveira Manuel Domingos Lima Pereira
Fábio Vasconcelos Marcelo Junior do Nascimento
Felipe Soares Carlos Márcio Joaquin Martins
Francisco José da Silva Neto Marco Aurélio Alves
Jailton Vieira da Silva Marcos Vinicius Cipriano
João da Costa Magalhães Rafael da Silva Couto
Jonas de Lima Silva Renato Azevedo dos Santos
José Augusto Pereira da Silva Robson Albino
José Gomes de Oliveira Wagner Oliveira
Lenilson de Souza Coutinho Willian Pereira do Santos

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Índice
Apresentação .............................................................................................................. p. 4

Instituições envolvidas ............................................................................................... p. 8

Capítulo1
Dilemas e desafios para a cidadania da Baixada Fluminense
................................................................................................................................... p. 10

Capítulo 2
Violência e política numa região: Caso dos grupos de extermínio
................................................................................................................................. p. 21

Capítulo 3
A incidência da Violência na Baixada Fluminense
.................................................................................................................................. p. 31

Capítulo 4
Mídia e violência - como os jornais retratam a violência e a segurança pública na
Baixada ..................................................................................................................... p. 51

Capítulo 5
Violência policial e impunidade ............................................................................... p. 57

Capítulo 6
Propostas contra a impunidade ................................................................................. p. 71

3
Apresentação

A questão da (in)segurança pública e, mais especificamente, da impunidade em


relação à violência no estado Rio de Janeiro vem despertando cada vez mais interesse na
opinião pública devido ao seu caráter de urgência: a cada dia, nos deparamos com
situações de brutalidade e descaso assustadores.
O foco desta publicação é a Baixada Fluminense1, região historicamente
desfavorecida sócio-economicamente e de maneira geral percebida pela sociedade
sobretudo por seus altos índices de criminalidade. Este livro pretende aprofundar a
discussão a esse respeito e perscrutar os desafios que se apresentam à Baixada numa
perspectiva que abrange sua história, sua formação, sua imagem e seus personagens.
Esta obra é resultado de um processo de pesquisa e reflexão. As instituições e autores
nela envolvidos lidam com a temática da violência e exclusão social há tempos, e
reuniram para trabalhar conjuntamente após a trágica chacina de 31 de março de 2005
que marcou este triste capitulo na história da Baixada.
Durante um intervalo de menos de duas horas, ainda no inicio da noite, 29
pessoas foram assassinadas na porta de suas casas, bares ou trabalhos, nos municípios
de Nova Iguaçu e Queimados. O processo judicial está seguindo seu curso, mas pouca,
ou nenhuma dúvida, há de que este episódio foi cometido, mais uma vez, com a
participação direta de agentes estatais.
Os familiares das vítimas deste homicídio seqüencial, cujas vidas foram
reviradas da noite para o dia, mostram a dura expressão do medo, desesperança e
desamparo e como esta população está permanentemente exposta às mazelas sociais de
nosso país.
Organizações da sociedade civil mobilizaram-se imediatamente após a Chacina
e, como pólo catalisador, foi criado o Fórum Reage Baixada que desde então segue
reunindo esforços para apontar soluções efetivas para os principais problemas
encontrados na Baixada. Vale ressaltar, ainda, a dedicação de duas instituições locais
que, em muitas ocasiões, lideraram os movimentos de protesto e cobrança aos diferentes
governos para a imediata tomada de providências específicas sobre o episódio referente

1
O termo Baixada Fluminense realiza uma fusão entre o geográfico e o social. Inicialmente definia a
região que fica entre o litoral e a Serra do Mar, no estado do Rio de Janeiro, formada por um relevo de
baixas planícies, composta pelos municípios: Belford Roxo, Duque de Caxias, Guapimirim, Itaguaí,
Japeri, Magé, Mesquita, Nilópolis, Nova Iguaçu, Paracambi, Queimados, São João de Meriti e
Seropédica.
4
à Chacina: SOS Queimados e o Centro de Defesa dos Direitos Humanos de Nova
Iguaçu.
O sentimento e desejo de Justiça e Paz se destacavam nas manifestações e voz
dos familiares. A aproximação de outros familiares de vítimas da violência reforçou
estas idéias. As mães do Rio, mães da Via Show, mães de Acari, Borel, Vigário Geral,
dentre outras, ao mesmo tempo que traziam esperança e indignação, lembravam os altos
níveis de impunidade de casos cotidianos que envolvem agentes públicos.
Muitas iniciativas contribuíram para que propuséssemos a realização deste
trabalho. Nada disso seria possível de imaginar sem a perseverança e força dos
familiares das vítimas, desde as inúmeras reuniões noturnas no Colégio Manuel Pereira
em Queimados; as caminhadas pela paz de Nova Iguaçu e Queimados; a viagem a
Brasília para encontro com o Ministro da Justiça, o Presidente da Câmara dos
Deputados, o Procurador Geral e Deputados Federais do estado do Rio de Janeiro e da
Comissão de Direitos Humanos da Câmara Federal; encontros com os Prefeitos
Lindberg Farias (Nova Iguaçu) e Rogério do Salão (Queimados); encontros com o
Ministério Público Estadual, reuniões na Secretaria Estadual dos Direitos Humanos, e
na Secretaria Especial dos Direitos Humanos enfim, larga peregrinação por órgãos
estatais; atos públicos, entrevistas aos meios de comunicação, estruturação do Fórum
Reage Baixada, missas, entre outras ações.
A grande motivação que nos impulsionou foi a certeza que aquelas pessoas
cruelmente assassinadas não podiam ser esquecidas. A cada encontro cresciam as
demandas, a cada reunião novas possibilidades se abriam, e ao mesmo tempo em que
desejávamos minimizar a perda de entes queridos, queríamos ampliar a discussão para a
presente situação da Baixada, especialmente em relação a questão referente a
impunidade.
Desta maneira, surgiu a idéia de reunir textos que preservassem as
particularidades da pesquisa desenvolvida por cada instituição e que, ao mesmo tempo,
dialogassem entre si. Assim, este volume se configurou a partir da união de uma
reflexão responsável com propostas práticas de ação para reverter o quadro violento
com que a Baixada Fluminense se depara.
A parceria entre as instituições proponentes: Fase, Laboratório de Análises da
Violência da UERJ, CESEC, Justiça Global, SOS Queimados e Viva Rio, contando
ainda com a ótima contribuição do professor José Claudio Alves, registra para a
posteridade a aliança construída coletivamente.

5
O capítulo Dilemas e desafios para a cidadania da Baixada Fluminense, da
Fase, abre esta publicação abordando a história da ocupação da Baixada, mostrando o
complexo percurso deste território marcado pela exclusão social e apontando para a
necessidade da implementação de políticas sociais integradas, com especial atenção à
juventude.
Em Violência e política na Baixada: Caso dos grupos de extermínio, José
Cláudio Souza Alves traça um panorama certeiro e corajoso sobre os grupos de
extermínio da região e suas raízes profundamente vinculadas ao poder político.
Em A incidência da violência na Baixada Fluminense, o LAV/UERJ mostra,
baseado em dados e análises acuradas, o que está além da fácil rotulação da Baixada
como região violenta e desvinculada do resto do estado do Rio de Janeiro. E deixa claro
que o poder público apresenta uma mobilização insuficiente e limitada diante dos altos
índices de homicídios da região.
O texto do CESEC, Mídia e violência - como os jornais retratam a violência
e a segurança pública na baixada fluminense, traz uma original e reveladora análise
da produção jornalística sobre o tema da segurança pública na Baixada Fluminense,
mostrando seu importante e duplo papel de denúncia e fonte de estigmatização.
No capítulo Violência policial e impunidade, da Justiça Global, são relatados
três casos de homicídio, ocorridos no Rio de Janeiro entre 2003 e 2004. Um texto
instigante que trata de casos emblemáticos de impunidade por diferentes causas, cada
qual com sua peculiaridade, onde lembramos seus desdobramentos, nomeamos os
envolvidos, as vítimas e seus familiares.
Finalizando, no último capítulo, organizado pelo SOS Queimados e com a
participação das demais instituições, são apresentadas 29 propostas contra a
impunidade, tanto no âmbito nacional quanto no estadual e municipal. O número é
significativo: trata-se de homenagem a cada uma das vítimas da chacina da Baixada, na
esperança de que esse tipo de barbárie não volte a acontecer e que seus responsáveis
sejam punidos.
Em comum, os artigos enfatizam a importância de uma atuação ativa e eficaz do
poder público, com uma aplicação ampla e efetiva de políticas sociais integradas e
pautadas localmente. Por outro lado, alertam contra uma grande arma da violência: a
invisibilidade das regiões mais pobres e a indiferença que assola o resto da sociedade.
Citando a conclusão do capítulo A incidência da violência na Baixada Fluminense: a
indiferença é o principal combustível da impunidade.

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Contudo, estes caminhos não estão marcados apenas por discursos, promessas e
choro. Houve também abraços, sorrisos e conquistas, como uma maior aproximação de
organizações sociais que trabalham com as temáticas da Baixada Fluminense; a criação
da Afaviv Associação de familiares e amigos das vítimas de violência na Baixada
Fluminense como forma de organização na luta contra a impunidade; a aprovação do
projeto de lei 2.749/05 que obriga o governo do estado a pagar pensão de até três
salários mínimos para as famílias das vítimas até a data em que a vítima, se estivesse
viva, completasse 65 anos, e de forma vitalícia ao único sobrevivente da Chacina. Essas
são importantes conquistas decorrentes da mobilização de diversos indivíduos, grupos e
instituições, que devem ser continuamente rearticulados para ampliar e fortalecer a
batalha contra a impunidade.
Resta-nos a esperança e desejo que o Poder Público, seja ele local, estadual ou
federal reconheça e faça sua parte, não apenas neste caso específico, mas de maneira
ampla e efetiva. Não se trata de justificativas ou medidas paliativas, mas de propostas
concretas que sirvam para a construção de uma política mais participativa e justa
socialmente.

Por fim nossa homenagem aos milhares de familiares de vítimas da violência na


Baixada Fluminense, que mostram a cara de um Brasil que não podemos esquecer ou
relegar.

Instituições responsáveis
CESEC
FASE
JUSTIÇA GLOBAL
Laboratório de Análise da Violencia / UERJ
SOS QUEIMADOS
VIVA RIO

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Instituições envolvidas:

CESEC Centro de Estudos de Segurança e Cidadania


O Cesec trabalha com pesquisas aplicadas, consultorias, cursos e eventos na área de
segurança pública, justiça e cidadania. Seu compromisso é ajudar a modernizar o
sistema de justiça criminal brasileiro como forma de fortalecer a democracia no país.
www.cesec.ucam.edu.br.

FASE - Educação e Solidariedade.


A Fase Rio concentra a sua atuação na Baixada Fluminense, território síntese da
desagregação urbana que caracteriza a região metropolitana do RJ. A razão desta
identidade territorial ocorre pelo princípio norteador da Ação Fase Rio: o enfrentamento
da desigualdade social. O programa enfoca o debate sobre políticas públicas urbanas,
com ênfase no saneamento ambiental e na habitação. Um outro vértice importante é a
formação e capacitação de atores locais, trabalho no qual a Fase Rio amplia a
capacidade técnico-politica de cidadãos, na perspectiva de que ocupem a cena pública.
Em síntese, este programa regional quer assegurar o direito à cidade, a democratização
da cidade e fortalecer os atores coletivos de uma região de 3,5 milhões de habitantes,
que é marcada por uma histórica desigualdade social e urbana. www.fase.org.br.

Justiça Global A Justiça Global é uma organização não governamental de direitos


humanos que trabalha com a proteção e promoção dos direitos humanos e o
fortalecimento da sociedade civil e da democracia. Nesse sentido, nossas ações visam
denunciar as violações de direitos humanos, incidir nos processos de formulação de
políticas públicas baseadas nos direitos fundamentais, impulsionar o fortalecimento das
instituições democráticas, e exigir a garantia de direitos para os excluídos e vítimas de
violações de direitos humanos. www.global.org.br.

LAV/UERJ - O Laboratório de Análise da Violência é um núcleo de extensão, pesquisa


e ensino do Departamento de Ciências Sociais e da Pós-Graduação em Ciências Sociais
da UERJ. Seus objetivos principais são fomentar a pesquisa e a formação na área de
violência, segurança pública e direitos humanos e participar no debate público sobre
políticas públicas nessa área através da divulgação de informações qualificadas. O

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Laboratório conta com a participação de professores e alunos da graduação e da pós-
graduação e atende demandas de diferentes setores sociais em relação à divulgação de
informações e realização de pesquisas, bem como participa de diferentes foros e
iniciativas.

S.O.S Queimados - O S.O.S. Queimados é um grupo político suprapartidário, formado


para defender os interesses coletivos e para lutar, nas esferas político-administrativas,
sociais e culturais, por democracia, pluralidade, solidariedade, pelo bem estar social,
pela valorização e elevação moral do ser humano, bem como contra todas as formas de
exploração, dominação, opressão, exclusão, desigualdade e injustiça, com o objetivo de
construir uma cidade, um estado e um país prósperos, justos e fraternos.

VIVA RIO - Integrar a sociedade partida e formar uma cultura de paz, interagindo com
a sociedade civil e as políticas públicas, sobretudo nas favelas e bairros pobres é o
objetivo do Viva Rio desde sua criação, em dezembro de 1993. O Viva Rio desenvolve
programas e projetos nas áreas de inclusão social, segurança pública e direitos humanos
e comunicação. Hoje, a ONG atua em cerca de 350 favelas e comunidades de baixa
renda da Região Metropolitana do Rio de Janeiro, sempre em parceria com entidades
locais, governo municipal ou estadual, investindo principalmente nos jovens, mais
vulneráveis aos riscos sociais, buscando a superação da violência. O Viva Rio também
tem atuado nacionalmente na Campanha do Desarmamento, em conjunto com o
Governo Federal, para a diminuição da violência armada no país. www.vivario.org.br

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Dilemas e desafios para a cidadania da Baixada Fluminense
FASE-Educação e Solidariedade2

Procuraremos neste artigo introdutório discutir a questão social da Baixada


Fluminense, tendo em vista que qualquer plano de segurança na região não pode
prescindir de uma visão social do problema da violência. Nesse sentido, abordaremos
num primeiro momento a história de ocupação da Baixada a fim de contextualizar a
região e o papel da mesma no desenvolvimento da capital. Num segundo momento
abordaremos o processo de desigualdade que marca a região e por fim, concluiremos
com a sinalização de alguns desafios para a elaboração de uma proposta de combate à
violência na Baixada Fluminense.
Baixada Fluminense já foi o nome dado a toda área do recôncavo da Serra do
Mar. Uma extensão que ia do atual município de Itaguaí, ao sul, até o município de
Campos dos Goytacazes, ao norte. Hoje, conforme a divisão político administrativa do
governo do estado do Rio de Janeiro, é o nome usado para designar a região que ocupa
boa parte da metrópole do Rio de Janeiro3, composta por 13 municípios4. No entanto, o
mais usual é considerar como Baixada Fluminense a área restrita às cidades originárias
do município de Nova Iguaçu conhecido como Maxambomba até 1916 - integrando os
municípios de Duque de Caxias, São João de Meriti, Nilópolis, Queimados, Japeri,
Belford Roxo e Mesquita, que começaram a se emancipar a partir dos anos 40, com
características socioenômicas semelhantes e próximos a cidade-pólo da metrópole, Rio
de Janeiro.
Uma breve história da ocupação da região

No território da Baixada viveram índios Tupinambás; escravos encontraram


refúgio e formaram quilombos; além disso, foi lugar de passagem de tropeiros e do
caminho do ouro vindo de Minas Gerais e do café produzido no Vale do Paraíba -
ambos chegavam no porto da Baía da Guanabara para serem transportados para o outro
lado do Oceano Atlântico. Antes do ouro de Minas ou do café do Vale, foi o açúcar o

2
Escrito por Aercio de Oliveira e Mauro Santos.
3
Rio de Janeiro, Belford Roxo, Duque de Caxias, Guapimirim, Itaboraí, Itaguaí, Japeri, Magé,
Mangaratiba, Marica, Mesquita, Nilópolis, Niterói, Nova Iguaçu, Paracambi, Queimados, São Gonçalo,
São João de Meriti, Seropédica e Tanguá.
4
Belford Roxo, Duque de Caxias, Guapimirim, Itaguaí, Japeri, Magé, Mesquita, Nilópolis, Nova Iguaçu,
Paracambi, Queimados, São João de Meriti e Seropédica.
10
responsável pelo desenvolvimento econômico e adensamento populacional da região
fluminense no entorno da Baía de Guanabara. Durante o século XVII existiram centenas
de engenhos de açúcar e aguardente, onde se construíam capelas e igrejas que acabaram
possibilitando a criação de vilarejos que ocupavam as bacias dos rios Meriti, Sarapui,
Iguaçu, Inhomirim, Estrela e Magé. Ainda nessa época, os rios eram importantes para
realizar o transporte fluvial de mercadorias que subiam e desciam a Serra do Mar.
Localidades como Pavuna e Meriti, considerados o melhor ponto para entrar na
Baixada, eram o principal entreposto comercial dotado de infra-estrutura com armazéns
para guardar mercadorias, vendas e hospedarias.
Mas a partir da metade do século XIX, com a difusão da estrada de ferro, as
coisas começaram a mudar. Parte significativa das mercadorias deixou de ser
transportada através dos cursos d água passando a sê-lo dentro de vagões sobre a linha
férrea. A primeira estrada de ferro que cortou a Baixada foi construída no início do
século XIX por Irineu Evangelista de Souza, o Barão de Mauá, ligando ao Porto de
Mauá. Depois veio a Estrada de Ferro Pedro II, hoje Central do Brasil, que em 1884
começou a transportar passageiros da região. Em 1935 foi feita uma expansão e suas
linhas foram eletrificadas, o que, combinado a produção e declínio da laranja, que
abordaremos mais à frente, afetou a dinâmica sócio-econômica da Baixada Fluminense
passando a sofrer profundas alterações.
Entre rios e estradas de ferro, com uma política de incentivo do governo como
maneira de compensar o declínio da produção de café do Vale do Paraíba, implantou-se
no início do século XX a produção de laranja: a citricultura. Para isso, portugueses e
agricultores do norte do estado do Rio de Janeiro foram atraídos para plantar laranja em
chácaras e fazendas. Conforme registros, Nova Iguaçu colocava o Brasil - uma
economia dependente de um padrão agrário-exportadora - entre os principais
exportadores de laranja do mundo.
No entanto, a prosperidade econômica produzida pela citricultura na região foi
abalada por alguns fatores, principalmente como conseqüência da Segunda Guerra
Mundial (1939-1945), que produziu grandes prejuízos e, com isso, alterou
profundamente a função econômica e social da região dentro do estado. O transporte
utilizado para exportar a laranja para os países do continente europeu era marítimo,
realizado por embarcações de empresas estrangeiras. Devido aos riscos de navegar no
Oceano Atlântico, ocorreu uma drástica redução na exportação e a laranja passou a
apodrecer nos galpões, além das plantações serem atingidas pela praga da mosca do
mediterrâneo . Assim, a citricultura entrou em declínio. Para compensar parte dos
11
prejuízos, os Barões da Laranja associaram-se às incorporações imobiliárias e
autorizaram que suas fazendas, sítios e chácaras fossem recortados em centenas de lotes
para serem vendidos a preços populares. Procedimento que causou intensos conflitos,
nos anos 50 e 60, entre posseiros, grileiros e fazendeiros. Muitos posseiros se
organizaram para não perder o seu pedaço de terra. À medida em que eram atacados
pela força policial e por jagunços que chegaram a cometer assassinatos, fazendeiros se
aliavam a empreendedores imobiliários aproveitando a valorização das terras para
transformá-las em grandes loteamentos e obter lucros que fossem capazes de minorar o
prejuízo com o fim do comércio da laranja. Este período, além de ser influenciado pela
Segunda Guerra Mundial, é também aquele em que ocorre a transição de uma região
que era predominantemente agrícola para uma região urbana que cumprirá um
importante papel para o desenvolvimento econômico e social da capital do estado. É
também o período em que o país acelera sua industrialização intensificando a migração
campo-cidade.
Nessa onda desenvolvimentista, realizações de infra-estrutura contribuíram para
a valorização de muitos loteamentos da região. Houve a eletrificação da Estrada de
Ferro de Dom Pedro II, em 1935; a construção da Avenida Brasil, em 1946, e da
Rodovia Presidente Dutra, em 1951; a criação do Serviço de Malária da Baixada
Fluminense, em 1947; a instalação de um parque industrial químico de uma empresa
multinacional em Belford Roxo, em 1958, e da Refinaria de Petrolífera de Duque de
Caxias, em 1961. Além disso, as reformas que vinham ocorrendo na cidade do Rio de
Janeiro, como a construção da avenida Presidente Vargas em 1944, e as diversas
remoções tirando os pobres do centro da cidade, das favelas e de bairros nobres da
cidade do Rio de Janeiro iniciadas em princípios do século passado, no governo
estadual de Pereira Passos - fizeram com que a demanda por lotes na Baixada
aumentasse. Os impactos produzidos pela combinação de tais fatores podem ser notados
no número de loteamento e lotes autorizados na região. Até 1929, havia sido aprovados
21 loteamentos com 20.524 lotes. Mas de 1940 a 1949 são aprovados 447 loteamentos
com 73.025 lotes; e de 1950 a 1959, período em que inicia a onda nacional-
desenvolvimentista, são registrados 1.168 loteamentos e 273.208 lotes na Baixada
Fluminense.5
Esses loteamentos eram constituídos sem passar por uma fiscalização digna de
confiança. Isso possibilitava que os terrenos fossem ofertados em locais inadequados à

5
ALVES, José Cláudio Souza. Dos barões ao extermínio: uma história da violência na Baixada
Fluminense. 2003.
12
habitação, sem nenhuma infra-estrutura urbana. A topografia da Baixada Fluminense da
época naturalmente dificultava a habitação humana; a área era ocupada por alagadiços e
charques, rios, mananciais, vales, e manguezais que durante muito tempo causaram na
população violentos surtos de malária e cólera. Um caso emblemático foi o da
ampliação da extensão da estrada de ferro de Queimados até a estação que hoje se
chama Japeri, realizada em 1855, quando morreram cerca de cinco mil trabalhadores
chineses por causa de malária. A história nos mostra que questões como drenagem e
saneamento sempre foram um problema muito grave na região. No final do século XIX,
o governador José Thomaz da Porciúncula (1892-1894), criou a primeira Comissão de
Saneamento para a Baixada, pois dos 17.800km2 da região, oito mil eram formados por
pântanos e mangues.

Desde então o saneamento vem servindo para alimentar a corrupção e


procedimentos políticos clientelistas na região. Em 1901, o governador do estado do Rio
de Janeiro Quintino Bocaiúva, ao tomar posse, descobriu a existência de 46 decretos, 11
leis e quatro resoluções sobre o assunto na região, sendo o mais antigo datado de 1839.

Podemos finalizar esta resumida história da ocupação da Baixada Fluminense


escrevendo que, para o migrante, da primeira onda desenvolvimentista do país, o
destino havia reservado um terreno em áreas ilegais da cidade do Rio de Janeiro,
antiga Guanabara, próximo ao local do trabalho. Já para os da segunda onda
desenvolvimentista, de migração mais recente, e para os filhos adultos do migrante da
primeira onda, que se casaram e constituíram uma nova família, restava um terreninho
ou uma meia-água em um dos loteamentos da Baixada Fluminense por um valor bem
mais barato, se comparado com os terrenos colocados à venda na capital. Desta forma,
ir morar na Baixada Fluminense era a possibilidade de ter acesso à moradia, mesmo que
em péssimas condições de habitabilidade.6

A Baixada Fluminense7 cumpria o papel de receptáculo daqueles que eram


removidos compulsoriamente, devido ao processo de segregação urbana engendrada
com maior vigor a partir dos anos 50. Sua ocupação serviu para atenuar o crescimento

6
A população da Baixada, como um todo, havia saído dos 140.600 habitantes, em 1940, para os
360.800, de 1950. Um salto maior ainda seria dado entre 1950 e 1960. Neste último ano chegava aos
891.300 habitantes, num crescimento de quase 150% na década . ALVES, José Cláudio Souza. Dos
barões ao extermínio: uma história da violência na Baixada Fluminense. 2003. Atualmente, há cerca de
3,5 milhões de habitantes distribuídos em treze municípios Itaguaí, Seropédica, Paracambi, Japeri,
Queimados, Nova Iguaçu, Mesquita, Nilópolis, Belford Roxo, São João de Meriti, Duque de Caxias,
Magé, Guapimirim.
7
Até 1943, quando o distrito de Duque de Caxias virou um novo município, Nova Iguaçu tinha como
distritos Belford Roxo, São João de Meriti, Nilópolis, Queimados, Japeri, Mesquita e Magé.
13
das construções ilegais na cidade-pólo da metrópole e abrigar uma mão-de-obra barata e
de baixa qualificação; até pouco tempo atrás, as cidades da região eram apelidadas de
cidades-domitórios. No entanto, com o desenvolvimento econômico na região, a partir
dos anos 1980, esse quadro vem sofrendo alterações. Municípios como Duque de
Caxias e Nova Iguaçu absorvem parte da população economicamente ativa (PEA) da
região, mas isso não tira o peso da capital como o principal centro de atividades
econômicas que absorve parcela significativa da PEA dos municípios da Baixada
Fluminense.

Concluímos esta parte histórica assinalando que a ocupação e as características


socioeconômicas nos municípios da Baixada Fluminense evidenciam as mudanças
provocadas por um país que era predominantemente agrícola e passou por um acelerado
e desordenado processo de industrialização e urbanização.

A Baixada e o processo de exclusão e desigualdade social

A Baixada Fluminense é um território marcado pela desigualdade urbana, com


potencialidades para o desenvolvimento, amenidades naturais e uma rica diversidade
cultural. Esta complexidade se apresenta de várias formas:
a) mesmo com o intenso adensamento populacional e o conseqüente processo de
urbanização, ainda há áreas rurais em alguns municípios;
b) em algumas cidades da região modificou-se o padrão imobiliário com o
surgimento de condomínios residenciais com segurança e área de lazer,
ocupados por famílias com padrão econômico acima da média da região.
c) existem amenidades naturais, tais como a Reserva Ambiental de Tinguá e a
Serra do Vulcão, parques ecológicos, mananciais, etc.
d) há uma produção artístico-cultural densa nas periferias e outras que vão
adquirindo notabilidade em todo país, inclusive contribuindo para a
lucratividade da indústria cultural.
e) O número de indústrias, estabelecimentos comerciais e de serviços participam de
forma substantiva no desenvolvimento econômico do estado do Rio de Janeiro.
Proliferam-se os shoppings centers com as mesmas redes de loja da zona sul do
Rio de Janeiro. Em Duque de Caxias existe a refinaria petrolífera e um pólo
moveleiro; em Nova Iguaçu está instalado o principal pólo de produção de
cosméticos do estado, além de ter um centro comercial dos mais dinâmicos do

14
Brasil. Em Queimados há um pólo de indústrias de bebida e em diversos
municípios que margeiam a Presidente Dutra, inaugurada em 1951, estão
edificados depósitos para a armazenagem de produtos que circulam entre o eixo
Rio - São Paulo. Como exemplo há o Porto Seco, área de armazenagem de
containers, na recém emancipada cidade de Mesquita.
f) podemos constatar que, sem entrar na qualidade dos serviços executados, têm
ocorrido investimentos públicos que favorecem a região, tais como a construção
da Linha Vermelha, da Via Light e a expansão do metrô até a Pavuna; o
Programa Nova Baixada e o Programa de Despoluição da Baía da Guanabara.
Também está prevista a construção do arco rodoviário, ligando os municípios da
Baixada com o porto de Sepetiba.

Entretanto, esses macro-projetos, por si só, são incapazes de viabilizar um projeto de


desenvolvimento mais justo e eqüitativo para a região, que distribua parte da riqueza
oriunda desse dinamismo econômico para a população da Baixada. Um projeto de
desenvolvimento para a região não é viável se não estiver claramente identificado com a
superação da exclusão social e a afirmação de cidadania para todos e todas. Um caso
exemplar é o fato da maioria dos postos de trabalho de média e alta qualificação da
refinaria de petróleo e do pólo gás-químico serem preenchidos por pessoas que moram
na cidade do Rio de Janeiro.
As políticas sociais no plano nacional, estadual e municipal com perfis focalistas ou
assistencialistas são ineficientes num contexto onde a maior parte da população carece
de direitos básicos de cidadania. E em muitos casos, as políticas públicas que por
princípio e por direito deveriam ser para todos ficam sob o controle das oligarquias
políticas locais que, através do clientelismo, transformam direitos em privilégios,
limitando o conceito de cidadão a meros usuários e beneficiários dos serviços. Essas
mesmas oligarquias que assumem a administração pública colocam diversos obstáculos
para o fortalecimento de relações horizontalizadas entre o poder público e a sociedade
civil, inibindo desta maneira a perspectiva de se estabelecer governos democráticos e
participativos. Esta ausência de políticas públicas aparece desde a falta de segurança - o
número de óbitos decorrentes de atos de violência é o mais alto da metrópole
fluminense - até a precária rede de saneamento ambiental que muitas vezes, devido a
doenças de veiculação hídrica, tira a vida de muitos.
Pouco destaque tem sido dado no espaço público, na imprensa em particular, ao
tema das regiões metropolitanas e do formato explosivo que estas vêem adquirindo
15
através da combinação entre desigualdade e violência8. Vários temas estão ausentes ou
são tratados de forma superficial, como o dos indicadores sócio-econômicos, que em
muitos casos são próximos aos do Nordeste; a quantidade de pessoas afetadas pelos
constantes racionamentos de água; as enchentes recorrentes, o estado de conservação
dos rios e a poluição da Baía de Guanabara; e os inúmeros casos de desnutrição infantil,
ocasionados pela má qualidade da água ou pela contaminação do esgoto a céu aberto. A
rede hospitalar de média e alta complexidade, dispersa e insuficiente a quantidade de
famílias abaixo da linha da pobreza, a inexistência de acesso à educação infantil, ao
esporte, ao lazer e à cultura e os altos custos do transporte inter e intra-municipal são
alguns dos exemplos dos processos geradores e reprodutores da desigualdade.
Também em relação aos grandes projetos, com o Programa de Despoluição e o
Nova Baixada, nenhum governo estadual foi responsabilizado por suas gestões
ineficientes, que não asseguraram a participação da sociedade e colocaram em risco os
investimentos já realizados. São vistas estações de tratamento de esgotos sem esgoto
para tratar devido a não conclusão da rede que liga as residências às estações e
reservatórios de água, concluídas sem que a obra de duplicação da adutora de água
tenha sido realizada, inviabilizando a sua utilidade. Sem falar na qualidade das obras e
na realização de intervenções na planície sem a urbanização da parte dos morros dos
bairros.
Esses programas também não enfrentam o problema das enchentes da região, já
que a maior parte dos rios que interligam os municípios da Baixada e servem à Baía de
Guanabara, hoje encontram-se assoreados em sua maior parte. São eles: Iguaçu-Botas;
Pavuna-Meriti e Sarapui. A quantidade de sedimentos e lodo nos rios é tão grande, que
especialistas dizem que para retirar o material do rio Sarapui, somente no trecho de
Mesquita com cerca de 80.000 m³, seriam necessárias dez mil viagens de caminhão. A
ausência de manutenção da limpeza (a última dragagem foi realizada no inicio dos anos
90), a inexistência de tratamento de esgoto, de educação ambiental e de fiscalização das
empresas poluidoras e de despejo clandestino de entulhos aprofundam a degradação
ambiental e contribuem para debilitar a saúde de milhares de pessoas. Deve ser
ressaltado que a maioria das redes coletoras de esgotos são unitárias, ou seja, coletam
esgotos juntamente com as águas pluviais, o que torna mais dispendiosa a realização de
tratamento.

8
ver pesquisa do capítulo Mídia e Violência - como os jornais retratam a violência e a segurança
pública na Baixada Fluminense.
16
Questões ainda mais ausentes do debate público são as que dizem respeito à
contribuição da Baixada na geração de riquezas do Rio de Janeiro, como os processos
amortecedores de conflito social na capital através da transferência de parte da demanda
por habitação para os municípios da Baixada. Inúmeros são os exemplos desse
processo: (i) reclama-se da superlotação dos hospitais do Rio pela população da Baixada
devido à insuficiência da rede da Baixada, mas esquecem de dizer que as consultas,
exames e cirurgias realizadas pelos seus moradores são pagos pelo Sistema Único de
Saúde para o município do Rio; (ii) o Rio de Janeiro exporta grande parte do seu lixo
para o aterro de Gramacho em Duque de Caxias (que já deveria estar desativado); (iii) a
água do Guandu faz manobra para atender com prioridade os moradores do Rio e
somente abastecer a Baixada com as sobras; (iv) milhares de pessoas se deslocam
diariamente da Baixada para a capital para trabalhar, o que gera maior consumo e
pagamento de impostos na cidade do Rio de Janeiro; (v) a distribuição de recursos do
governo federal e do governo estadual não corresponde às necessidades mínimas da
Baixada e a um padrão mais justo e eqüitativo de distribuição dos benefícios do
desenvolvimento.

Com tantos problemas interligados, não se observa ainda por parte dos governos
do estado, dos municípios da região e da capital o estabelecimento de espaços de
soluções pactuadas. Independente dos partidos, os governos estaduais têm investido na
região, mais para deixar a sua marca do que para gerar processos de divisão de
atribuições e responsabilidades. Esse modelo, com pequenas alterações, perpassou os
programas Reconstrução Rio, Nova Baixada e de Despoluição da Baía de Guanabara.
Também são comuns as verbas discricionárias, ou seja, de acordo com a afinidade
política existente entre a prefeitura e o governo do Estado. Quando a pactuação existe,
esta se faz sem participação e controle da sociedade, como é o caso do CISBAF
Consórcio Intermunicipal de Saúde da Baixada Fluminense, que reúne os secretários de
saúde da Baixada, que tomam decisões sem consultar os Conselhos de Saúde e sem
levar em conta as deliberações do Fórum de conselheiros de saúde da Região
Metropolitana I (conselheiros municipais da Baixada).
Cabe destacar a criação da Associação de Prefeitos da Baixada, entretanto a
atuação da Associação tem se concentrado na busca de mais recursos para a região, não
significando ainda um espaço de formulação de projetos integrados. Nem mesmo a
chacina de 29 moradores mobilizou a Associação de Prefeitos em torno da política de

17
segurança, da cobrança de ações do governo estadual e de possíveis respostas no plano
das prefeituras.
O problema da Baixada não se resume a falta de acesso a recursos. Há uma
significativa carência de técnicos qualificados e estrutura de trabalho e de diagnóstico
que permitam a elaboração de políticas consistentes e o estabelecimento de metas e
parâmetros que orientem a prestação própria de serviços ou a concessão dos mesmos. A
mudança na relação da região com o governo do Estado exige a construção de
condições e vontade política de desenvolver com autonomia uma política municipal e
regional capaz de dialogar acerca dos macro-projetos do governo estadual na região, de
resgatar o poder de concessão dos serviços de água e esgoto, no caso a CEDAE, e
fomentar a abertura de espaços de pactuação em torno de áreas estratégicas, como a
segurança pública, a saúde, o saneamento ambiental, o transporte e o desenvolvimento
econômico.
Mesmo com todos os impactos sócio-econômicos negativos sobre o
associativismo, são as organizações da sociedade civil que têm procurado colocar esses
temas em pauta regional. A criação do Comitê de Saneamento Ambiental em 1984 pelas
Federações das Associações de Moradores da região provocou a implantação dos
programas Reconstrução Rio e Despoluição da Baía de Guanabara. As duas
Conferências da Cidade da Baixada, realizadas em 2003 e 2005, indicaram a
necessidade e a urgência de se estabelecer a gestão compartilhada dos serviços de
saneamento ambiental através de um diagnóstico dos serviços e da elaboração de um
Plano Global para a região. No plano da saúde, a maioria dos participantes do Fórum de
Conselheiros da Saúde da Metropolitana I é integrante da sociedade civil e apoia o
Consórcio, mas exige que este tenha como referência as deliberações do Fórum. E,
recentemente, após a chacina de 31 de março, o debate sobre a violência começa a
adquirir notoriedade e a mobilizar organizações da sociedade, ficando mais nítida a
importância do envolvimento das prefeituras e da adoção de ações integradas dos
municípios com o governo do Estado a fim de enfrentar a violência e o extermínio.
Anteriormente, a violência era um tema que normalmente restringia-se ao Centro de
Direitos Humanos da região, ligado à igreja católica ou a líderes comunitários que
participavam de cafés da manhã nos Batalhões9 e a outros poucos interessados.

9
Esses cafés da manhã proporcionaram pouquíssimos resultados. Quando alguma liderança tinha
coragem de denunciar algum policial, geralmente a conseqüência era a morte.
18
Sinalizando alguns desafios

De acordo com os problemas existentes, comuns a quase todos os municípios da


região, faz-se necessário buscar a elaboração e implementação de políticas sociais
integradas, sob a responsabilidade do poder público. Associações e organizações da
sociedade civil, alguns técnicos de prefeituras e agentes sociais da região começam a
manifestar a importância de se buscar soluções para esse quadro, norteados pelo
princípio da cooperação, pautados por uma agenda social integrada numa escala de
abrangência regional e até metropolitana. Compreende-se que para se enfrentar este
elevado passivo social as soluções não devem ser baseadas em políticas públicas sociais
minimalistas ou localistas que beneficiam apenas um determinado município.
Consideramos que o problema da violência na região deve ser enfrentado com
medidas de curto, médio e longo prazo e não deve se restringir às ações de polícia. A
violência não pode ser entendida sem associá-la às condições cotidianas de vida, que
são violentas, mas que são comumente invisíveis ou naturalizadas. Esse contexto de
invisibilidade é propício para a certeza da impunidade por parte de grupos criminosos,
seja ele constituído por membros que trabalham em instituições do Estado, como a
polícia militar, ou não. Mais do que polícia, a Baixada precisa de uma política integrada
de direitos humanos, econômicos, sociais e culturais.
A revisão ou elaboração dos planos diretores10 dos municípios da região pode
ser uma oportunidade para elaboração de diretrizes básicas que garantam o direito à
cidade e a aplicação dos princípios da reforma urbana, de forma a enfrentar o padrão de
segregação e exclusão urbana, e a viabilizar o direito à habitação com qualidade, onde
se inclui o acesso à infra-estrutura e aos serviços públicos necessários. Entretanto, é
preciso envolver as prefeituras, inclusive a da capital, o governo estadual e o federal
para estabelecer ações compartilhadas e promover uma melhor distribuição das
atribuições e das responsabilidades no financiamento das políticas. Obviamente, esse
processo precisa estar permeado pela participação das organizações da sociedade civil
na formulação e controle das ações.
Fortalecer as experiências existentes também pode ser um bom ponto de partida.
A Conferência das Cidades da Baixada, realizada em 2005, apontou para processos

10
Plano Diretor é definido como instrumento básico para orientar a política de desenvolvimento e
ordenamento da expansão urbana do município. Nele há a oportunidade de se estabelecer um pacto sócio-
territorial que se transformará em lei. Conforme o Estatuto da Cidade, Lei Federal nº10257/2001, os
municípios com mais de 20.000 habitantes têm até o mês de outubro de 2006 para elaborá-lo ou adequá-
lo ao Estatuto da Cidade.
19
concretos de pactuação em torno da formação e articulação dos Conselhos Municipais
da Cidade, que tratam das políticas urbanas de forma integrada: habitação, saneamento
ambiental e transporte e mobilidade urbana. Serão realizados cinco seminários
temáticos11 que favoreçam a elaboração de planos diretores com uma perspectiva
regional e a instalação do Fórum de Saneamento Ambiental da Baixada, que teria como
tarefa experimentar ações compartilhadas em torno do diagnóstico dos serviços de
saneamento na região, dos macro-programas já existentes na região, das bacias e das
sub-bacias como referência de planejamento e gestão dos recursos hídricos e da
elaboração de um plano global de saneamento, juntamente com a definição do modelo
de gestão compartilhada dos serviços de saneamento. Na área da saúde, destaca-se a
reivindicação de que o consórcio de saúde entre os municípios tenha como referência os
debates e os pactos estabelecidos no âmbito do Fórum de conselheiros de saúde.
Por fim, deve ser ressaltado que, além da importância da implantação de
políticas urbanas que assegurem a moradia e os direitos básicos para a vida na cidade, é
preciso ser dada uma especial atenção às políticas voltadas para a juventude, pelo fato
deste segmento ser o mais afetado e envolvido no processo da violência. A carência
financeira aliada a um grande apelo ao consumo, a falta de perspectivas de emprego e a
inexistência de uma política cultural tornam esses jovens em vítimas e algozes da
violência. Mas, como diversos estudos têm apontado, é preciso dar voz aos jovens, que
de forma minoritária e invisível na Baixada têm procurado responder a essa grave
situação em movimentos como rádios comunitárias, hip-hop, grêmios estudantis e em
diversas manifestações culturais.
Em síntese, poderíamos afirmar que a Baixada Fluminense é uma região que
evidencia as marcas mais perversas resultantes de um modelo de desenvolvimento
econômico e social desordenado, desigual e excludente implementado com mais força a
partir da segunda metade do século XX pelas elites econômicas e políticas do nosso
país. Hoje, contudo, ela conta com potencialidades, tais como organizações da
sociedade civil e alguns governos locais que começam a incorporar aspectos que
assegurem uma governança democrática, capazes de superar esta realidade e construir
cidades onde predomine a democracia e a justiça social.

11
Além das políticas urbanas citadas anteriormente, foram incluídos os temas do desenvolvimento
econômico e da segurança pública.
20
Violência e política na Baixada: o caso dos grupos de
extermínio

José Cláudio Souza Alves12

A Baixada Fluminense13 é uma das maiores concentrações urbanas do Brasil e


da América Latina. Nela configura-se uma realidade sócio-espacial onde se condensam
as mais dramáticas contradições vivenciadas pela sociedade brasileira. Além da
proximidade geográfica e do grau de urbanização, as cidades que compõem esta região
possuem uma formação histórica, espacial e social marcada por um padrão comum de
segregação da classe trabalhadora, original pela extrema violência expressa na média de
aproximadamente dois mil assassinatos por ano, ou seja, mais de 70 homicídios por 100
mil habitantes (ver capítulo 3). Em 1997, Duque de Caxias aparecia em 14o lugar no
ranking das 100 cidades mais violentas do país, com 76,6 homicídios por 100.000
habitantes; Belford Roxo em 19o, com 73,1; São João de Meriti em 22o, com 72,4;
Nilópolis em 24o, com 70,5; Queimados em 26o com 69,4; Japeri em 37o, com 61,8 e
Nova Iguaçu em 38o, com 61,2 (TOLEDO, 1999).
É no campo político, entretanto, que se estabelecem as maiores ambigüidades
desta realidade na qual se insere a Baixada. A trajetória política de vários membros de
grupos de extermínio, eleitos a partir da notoriedade adquirida enquanto matadores, nos
dá toda a dimensão da tragédia das milhares de pessoas cuja única referência de
segurança pública foi dada pela atuação dos esquadrões da morte, pelo controle
exercido recentemente por traficantes e pela atuação comprometida do aparelho
judiciário que, em mais de 90% dos casos de homicídios não consegue identificar a
autoria dos crimes nem constituir processo (SOARES, 1996).
Assim, enquanto assistimos à violência na cidade do Rio de Janeiro ganhar
diariamente uma cobertura privilegiada da mídia e atuações espetaculares de governos e
ONGs, nos deparamos com o silêncio e a conivência frente ao massacre que se perpetua

12
José Cláudio Souza Alves é sociólogo, professor e Pró-Reitor de Extensão da Universidade Federal
Rural do Rio de Janeiro. É autor do livro Dos barões ao extermínio, uma história da violência na
Baixada Fluminense .
13
O termo Baixada Fluminense realiza uma fusão entre o geográfico e o social. Inicialmente definia a
região que fica entre o litoral e a Serra do Mar, no estado do Rio de Janeiro, formada por um relevo de
baixas planícies, muitas delas inundáveis, que se estendia do município de Itaguaí ao de Campos, no
Norte do estado. Posteriormente, na década de 70, a partir dos inúmeros casos de assassinatos ocorridos
na região à oeste da cidade do Rio de Janeiro, oito municípios passaram a ser definidos por este termo,
identificando mais o aspecto da violência.
21
na Baixada (ver capítulo 4). Entretanto, não se trata aqui de exclusão, pelo contrário, só
se compreende o ocultamento da violência na Baixada quando se percebe sua relação
com a visibilidade do Rio de Janeiro. É necessária uma perspectiva histórica e política
de análise, que evidencie como ao longo do tempo foram construídos mecanismos
eficientes de controle sobre este quarto mercado consumidor do país14, onde se
concentra quase 25% do eleitorado do estado15.

Saque, cassações e extermínio

A explosão dos loteamentos, clandestinos ou não, que fizeram a população da


Baixada duplicar e, em algumas regiões, triplicar a cada década a partir dos anos 50,
acumulou um conjunto de contradições econômicas e políticas que conheceu a sua fase
mais aguda no final dos anos 50 e início dos 60, a exemplo do que ocorria no país. Por
um lado, os despejos de lavradores atingidos pela ambição desenfreada dos grileiros
possibilitaram o surgimento de um forte movimento camponês, cuja resistência, armada
em alguns casos, revelou a covardia e o conservadorismo dos grupos dominantes, lhes
impondo inúmeras derrotas16. Por outro lado, o grande saque de cinco de julho de 1962,
com seus 42 mortos, 700 feridos e dois mil estabelecimentos comerciais atingidos,
colocava em dúvida a capacidade de controle da massa urbana da Baixada a partir dos
esquemas de dominação até ali construídos (TORRES e MENEZES, 1987). A recusa
do governador do Estado do Rio de Janeiro, Celso Peçanha, em fornecer policiais para
que a Associação Comercial e Industrial de Duque de Caxias os equipasse, construísse
instalações e pagasse seus salários não impediu que as estruturas pára-oficiais de
segurança ganhassem dimensões cada vez maiores na região, diante da possibilidade do
freguês tornar-se saqueador.
O golpe militar de 1964 encarregou-se de dar uma resposta mais do que
suficiente para os problemas dos grupos políticos dominantes da Baixada. Os mais
sólidos empreendedores políticos, com sua alquimia entre populismo, clientelismo,
coronelismo e violência, tais como Getúlio de Moura e Tenório Cavalcanti, conheceram
a cassação da primeira hora. Os refugiados no MDB, enquanto prefeitos, sofreram
processos sumários de cassação organizados pelos comandantes da Vila Militar. Os

14
Dado veiculado pela FIRJAN ao longo de 1998 na imprensa, a fim de justificar o crescimento dos
investimentos na região.
15
Fonte: Tribunal Superior Eleitoral. Dados a partir das eleições municipais de 1996.
16
Destaco aqui, como homenagem e exemplo de trajetória política, Josefa Paulino, viúva do líder
camponês deste período, José Pureza. Tendo falecido em dezembro de 1999, sua biografia nos deixa um

22
demais mandatos eletivos sentiram o impacto da reconfiguração das estruturas de poder
político na região, na qual passaram a predominar, em pouco tempo, os alinhados com
os militares, abrigados na Arena. Entre os exemplos deste rearranjo do mapa político, o
município de Nova Iguaçu teve 8 prefeitos em seis anos, de 1963 a 1969, incluindo
eleitos, presidentes de Câmaras ocupando cargos vacantes e interventores. Nilópolis
conheceu a mistura entre clã político, jogo-do-bicho e carnaval. E Duque de Caxias será
definida como Área de Segurança Nacional por causa da REDUC17 e da Rodovia
interestadual Washington Luís, perdendo o direito de eleger o seu prefeito, que passou a
ser nomeado pela ditadura, até 1985.
Percebendo, porém, a importância nacional da Baixada - Nova Iguaçu era a
oitava cidade brasileira em população - e a originalidade da conjuntura sociopolítica e
econômica local, a ditadura militar deu apoio à montagem de um dos mais poderosos
esquemas de execuções sumárias da história do país. A partir da criação da Polícia
Militar, em 1967, como força auxiliar no processo de repressão e patrulhamento
preventivo, iniciou-se a escalada dos grupos de extermínio. A participação direta e
posteriormente indireta de policiais nestes grupos, o financiamento por parte de
comerciante e empresários locais e o respaldo por parte dos grupos políticos locais
forneceram as condições adequadas para o funcionamento deste aparato criminoso.
Os poucos casos de homicídios transformados em processos na época já
permitiam entender a lógica destas execuções. Conforme constatou o promotor José
Pires Rodrigues, o envolvimento direto de policiais nas execuções estava associado à
prestação de serviços para comerciantes, empresários e grupos locais que pagavam por
isto. Uma milícia calcada no uso privado do aparato da justiça que era mantida pelos
recursos públicos do Estado. Esta perversão da política pública de segurança revelava
também, para o promotor, os limites da sua ação, visto que em vários processos jamais
conseguiu apurações nem condenações. A maior dificuldade era a falta de testemunhas
para os casos, já que o aparato policial que devia dar garantias a estas testemunhas era o
que estava no banco dos réus.

dos maiores legados quanto à atuação de mulheres neste período e inspiração para o presente. Quanto à
análise deste movimento camponês, ver: GRYNSZPAN, 1987.
17
Refinaria Duque de Caxias, da Petrobrás.
23
18
Os anos 80, com o surgimento do Mão Branca , trouxeram consigo uma
inovação no funcionamento deste aparato de execuções sumárias. Sofrendo com a
maior exposição e cobrança da mídia, numa conjuntura de abertura política, os grupos
de extermínio iniciaram um processo de autonomização frente ao aparelho policial.
Progressivamente, policiais militares e civis se transformaram em agenciadores dos
serviços destes grupos, mantendo o envolvimento, mas lidando agora com um mercado
mais competitivo, onde vários outros grupos atuavam. Frente a esta escalada, que já se
pronunciava no final da década de 70, destaca-se a atuação de D. Adriano Hypólito,
bispo da diocese de Nova Iguaçu. Recusando o silêncio, mesmo tendo sido seqüestrado,
despido e abandonado pintado de vermelho, além de ter o carro explodido na frente da
CNBB em 1976, D. Adriano revelou, juntamente com o detetive Ayres, uma
testemunha chave, ex-amante de um dos principais policiais envolvidos com o
extermínio na região. Isto favoreceu o início da atuação do primeiro governo de Leonel
Brizola (1983-1986) na área de segurança, sobretudo com a criação da comissão
especial para apurar os crimes atribuídos a grupos de extermínio na Baixada.
Contudo, os resultados das políticas públicas na área de segurança na década de
80 serviram mais para demonstrar a força do esquema de execuções montado do que
para impor-lhe limites. O fracasso neste aspecto do primeiro governo Brizola seria,
porém, facilmente esquecido frente à liberação da atuação dos grupos de extermínio ao
longo do governo Moreira Franco, sobretudo no seu último ano, 1989, quando a
Baixada conheceu seu mais alto índice de homicídios: 95,55 mortos por 100 mil
habitantes (ALVES, 1998:127).

Segurança pública: trajetórias pessoais mais que projetos políticos

O combate aos grupos de extermínio e a luta contra os assassinatos na Baixada


tiveram nos anos 90 um diferencial, dado não pela política da área de segurança em si
mesma, mas pelo impacto que nela causou a atuação de duas pessoas. Isto revela, por
um lado, um incomparável esforço pessoal e, por outro, os limites das políticas desta
área, dependentes de iniciativas individuais, verdadeiras brechas no sistema, que
possibilitaram desvelar um pouco esta estrutura de assassinatos.

18
A expressão Mão Branca surge neste período a partir das inúmeras denúncias de autoria de chacinas
atribuídas a um grupo de extermínio com este nome. Na verdade, um artifício para ocultar e promover a
atuação de inúmeros grupos de extermínio.
24
A atuação de Tânia Maria Salles Moreira como promotora pública na comarca
de Duque de Caxias desconstruiu a rede que a partir do próprio Fórum de Justiça da
cidade coordenava as execuções. O caso de Pedro Capeta, eleito no final dos anos 80
suplente de vereador, pelo PTB, revelou-se exemplar. Preso numa tentativa de
assassinato, era assíduo freqüentador do Fórum e possuía uma carteira de oficial de
justiça Ad Hoc dada pelo então juiz. A arma com ele encontrada tinha lhe sido entregue
pelo próprio juiz, após ter sido apreendida em um outro crime (MOREIRA, 1996: 102-
103 e 111-114).19 Assim, um dos mais famosos matadores da época agia com arma e
carteira fornecidas pelo juiz, que represava processos de homicídios por anos em suas
gavetas para arquivá-los em seguida, alegando ausência de tempo para operacionalizá-
los. Desnecessário dizer que Pedro Capeta foi absolvido no processo por falta de
testemunhas.
Já Hélio Luz, convidado em 1991 pelo Secretário de Segurança Nilo Batista, no
segundo governo Brizola, para ser o delegado do Departamento Geral de Polícia da
Baixada, impôs a condição de ter poder sobre a nomeação dos demais delegados da
região, conseguindo mudar 16 deles. Os resultados da sua atuação foram significativos,
com redução expressiva das taxas de homicídios na Baixada, passando de 93,95/100
mil habitantes em 1990 para 78,03/100 mil hab. em 1991 e 69,95/100 mil hab. em
1992. O mesmo aconteceu quando assumiu a chefia da Policia Civil do Estado do Rio
de Janeiro, reduzindo os assassinatos na região de 82,03/100 mil hab. em 1995 para
69,36/100 mil hab. em 1996 (ALVES, 1998:127). Para Hélio, a redução dos homicídios
estava diretamente associada à sua capacidade de interferir na nomeação de delegados,
destituindo aqueles vinculados ao esquema de execuções, que por sua vez agiam
associados ao poder político local, responsável pela indicação das suas nomeações e
sustentação no cargo. O que explicaria o fato de que em anos de eleições municipais a
permanência de Hélio Luz à frente do cargo que ocupava tornava-se insustentável20.

19
Sobre este e outros casos nos quais atuou a Promotora Tânia Maria S. Moreira, ver
Moreira, 1996;1999
20
Entrevista com Hélio Luz realizada em 18/12/1997.
25
Quando os matadores chegam ao poder

Tânia Maria e Hélio Luz demonstraram a profundidade com a qual o esquema


de execuções sumárias e os grupos de extermínio permeiam o aparelho judiciário que,
por sua vez, acopla-se às estruturas do poder local. Ambos obtiveram resultados até o
momento insuperáveis no combate a esse esquema, mas deixam também o legado do
limite frente a ele. Isso explica que, com a chegada dos matadores à chefia do poder
executivo municipal, também nos anos 90, pessoas como Tânia e Hélio tenham
simplesmente desaparecido da Baixada.
A eleição de dois dos mais destacados representantes dos grupos de extermínio
da Baixada à prefeitura de duas das mais populosas cidades da região, que juntas
somam quase 1 milhão de eleitores, confere aos anos 90 o amargo gosto da derrota. A
não citação dos nomes, por motivos óbvios para um morador da região como eu,
permite avançar na análise desta nova conjuntura e perceber suas implicações. Ambos
davam sustentação a blocos de poder que estão muito além da esfera local, reeditando a
tradicional aliança, que povoa nossa história, entre representantes da classe dominante
nacional e os criminosos.
O primeiro, acusado em várias denúncias por roubo de carga e venda das
mesmas para os comerciantes que contratavam o serviço do seu grupo de extermínio,
elegeu-se, nos anos 80, vereador e, na década seguinte, prefeito, com mais de 60% dos
votos. Por trás da popularidade, o velho binômio clientelismo-violência, expressos na
distribuição de alimentos numa das regiões mais pobres do país e no uso do seu grupo
de extermínio na intimidação eleitoral e na corrupção do processo de apuração eleitoral.
Foi processado, porém jamais condenado por ausência de testemunhas. Quando
organizava sua participação no mapa político eleitoral das eleições municipais que se
aproximavam, acabou assassinado, naquilo que a polícia concluiu como latrocínio. Um
parente diretamente ligado a ele se elegeu para ocupar a prefeitura. Seu lema de
campanha foi apenas a vinculação ao defunto. Ao longo da sua administração,
remanescentes do grupo de extermínio do qual fazia parte o falecido ampliaram seu
poder dentro da esfera pública. Qualquer forma de manifestação de desagrado à atuação
da prefeitura, como uma manifestação dos professores ao desfilarem vestidos de luto,
no final da parada estudantil de 7 de setembro, era tratada pelos truculentos capangas
destes matadores, agora autoridades públicas, com agressões e armas em riste. Após um
mandato sem conseguir se reeleger, retoma a prefeitura, perpetuando sua estrutura de
poder e violência.
26
O segundo implementou uma outra estratégia. Eleito vereador com base na
limpeza que realizou no bairro onde morava, executando não só os possíveis ladrões
e bandidos como qualquer um que o contestasse, assumiu a presidência da Câmara
Municipal. Tendo acesso às máquinas da prefeitura, em troca do apoio e sustentação
dados ao prefeito, ampliou sua já notória rede de clientelismo, realizando agora obras
públicas de impacto coletivo. Arrolado como réu em um processo de homicídio doloso
e após ter sido preso duas vezes pelo Ministério Público, elegeu-se deputado estadual,
ganhando imunidade parlamentar por quatro anos, neste absurdo da legislação brasileira
que, naquela época, garantia imunidade também para crimes comuns. Presidente do
diretório local do seu partido, elegeu-se prefeito e se reelegeu. Nesta reeleição,
conseguiu emplacar dois parentes seus como prefeitos em outras duas cidades da
Baixada e um outro familiar ocupando a Assembléia Legislativa do Estado. Somados os
votos dessa família, aproximamo-nos do meio milhão de votos.
Derrotado na tentativa de sucessão e de reeleição, juntamente com seus dois
outros parentes, não perdeu sua base política e eleitoral. Pelo contrário, infiltrou-se
dentro de partidos de base popular e de esquerda, como o próprio Partido dos
Trabalhadores.

O aparato político, estatal e econômico da violência

A riqueza da discussão sobre a violência na Baixada, nos limites aqui


apresentados, demonstra o quanto os aparelhos do Judiciário, Legislativo e Executivo
foram permeados pelas estruturas de poder locais calcadas nas execuções sumárias,
com seus beneficiados e dividendos eleitorais. Entende-se a razão de uma pessoa da
área de segurança não possa permanecer no cargo ao fazer denúncias contra a banda
podre da polícia em ano eleitoral, pois vereadores, deputados e prefeitos de um dos
maiores colégios eleitorais do país estabeleceram sua base de sustentação em cima de
grupos de extermínio e policiais vinculados a eles. Matadores presos precisam ser
soltos em anos eleitorais para fazer serviços para candidatos que, por sua vez, devem
solucionar problemas daqueles que lhe dão sustentação financeira em campanhas e que
são, portanto, seus melhores cabos-eleitorais. Delegados indicados por estes políticos
precisam ser mantidos juntamente com policiais que dêem cobertura a todo o esquema
que vai da fraude, sumiço, controle e adulteração de processos à eliminação de
testemunhas. Governadores precisam de deputados estaduais para aprovação de leis,
sobretudo a orçamentária, e a respectiva aprovação de contas. Precisam também de
27
prefeitos que com o seu apoio mantém pelo clientelismo e pelo medo uma base eleitoral
cativa. Deputados que estão diretamente vinculados ao aparato de execuções e crimes,
ou dele se beneficiam indiretamente, triangulam relações entre os executivos
municipais e estaduais fortalecendo e ampliando sua base de atuação política e eleitoral.
É necessário reconhecer que a entrada dos grupos de traficantes esquadrinhando
toda a Baixada e rearranjando as formas do poder local amplia a mortalidade dos
grupos envolvidos em disputas e acertos, somando-se à estrutura de execuções já
consolidada. Suas relações com o aparelho policial e, por conseguinte, com a face do
Estado na área de segurança, desabona qualquer visão dos traficantes como
construtores de um pára-Estado ou poder paralelo. Integrados, recobrem com mais uma
instância de fragmentação e de submissão à população empobrecida e entregue à luta
cotidiana. Uma população que, malgrado este cenário, formula inúmeras respostas e
alternativas. Estabelece comportamentos de resistência que vão da solidariedade
pessoal e familiar à participação em diferentes grupos, com destaque para os religiosos.

A chacina de 31 de março de 2005

A chacina que ocorreu em Nova Iguaçu e Queimados no dia 31 de março de


2005, traz como novidade a quantidade de executados na mesma operação. Mortos em
locais e momentos diferentes ao longo de uma semana, como freqüentemente ocorre,
sequer teriam atraído a atenção da mídia. Coincidência ou não, o dia 31 de março fica
como uma referência ao golpe militar, que institucionalizou na região a existência dos
grupos de extermínio, nos moldes que até hoje funcionam.
A versão divulgada de imediato pela mídia foi a de uma operação que visava
obstruir o processo de moralização e identificação de policiais envolvidos em crimes na
região, iniciada por um novo comando. Confirmada, essa versão nada mais é do que a
continuidade de uma prática comum ao longo da história dos grupos de extermínio na
Baixada. A cada movimento de controle e limite para a operação desses grupos, reações
como o aumento do número de vítimas sempre foram identificadas, gerando, a seguir,
uma acomodação das políticas de segurança.
O indiciamento de onze policiais, enquanto suspeitos, já enfrenta problemas nos
seus procedimentos investigativos. Ao invés de serem detidos em locais separados, a
fim de se aproveitar das contradições dos depoimentos para se aprofundar as
investigações, simplesmente foram mantidos todos juntos, numa única cela, permitindo

28
a construção de uma única versão, controlando as contradições e dificultando o
processo judicial.
Acompanhar, passo a passo, o processo sobre a chacina nos revelará, tão
somente, os limites existentes em tantas outras chacinas, como a de Vigário Geral, há
aproximadamente doze anos. As dificuldades na investigação, somadas ao controle e
poder que o próprio aparato policial possui na formulação de provas, a todos os
elementos do processo penal sempre explorados pela defesa, e à tradicional
morosidade, não permitem previsões muito otimistas. Sem dizer que mesmo ocorrendo
condenações exemplares, nada garante a interrupção do funcionamento dos grupos de
extermínio. Pelo contrário, se agora uma redução das execuções na região é percebida
enquanto efeito imediato da exposição pública resultante da chacina (ver capítulo 3),
isso confirma o grau de envolvimento do aparato policial na operacionalização das
execuções. Assim, o início dos anos 2000 indica a retomada dessa atividade sob o
monopólio do aparato policial. A fonte de recursos gerada pelos homicídios que
beneficia vários clientes: comerciantes, empresários, traficantes de drogas,
seqüestradores, ladrões de carros e residências, políticos locais em seus acertos de conta
e disputa, etc. sofre uma reincorporação operacional por parte das agências de
segurança pertencentes ao Estado. Assim, o 31 de março de 2005 saúda, com nostálgica
sordidez, as condições originais dos grupos de extermínio, criadas pela ditadura militar.
O próprio aparelho do Estado assume para si esse mercado tão antigo e promissor, na
certeza de uma conjuntura favorável num país onde a lei e justiça funcionam para
garantir a perpetuação desse projeto.
As raízes profundas dos grupos de extermínio na Baixada, aqui relatadas na sua
perspectiva histórica, indicam que somente atuando nos elementos constituidores dessa
estrutura é que se poderá limitá-la e controlá-la.
Enquanto os matadores continuarem com suas trajetórias de sucesso, elegendo-
se; o aparato policial atuando sem qualquer controle, responsável pelas investigações
dos seus próprios crimes; os detentores do poder econômico, legal ou ilegal,
financiando ações de execuções, sem serem sequer denunciados; o tráfico de drogas
sendo mais um cliente da rede de execuções sumárias e os grupos políticos dominantes
valendo-se das execuções e da violência para a prestação de serviços, obtenção de
apoio financeiro, controle de currais eleitorais e eliminação dos opositores, estaremos
muito longe de vivenciarmos o fim desse genocídio perpetrado contra trabalhadores
pobres, segregados em favelas e periferias, na sua maioria negros e jovens.

29
Bibliografia

ALVES, José Cláudio Souza. Baixada Fluminense: a violência na construção do poder. Tese
de Doutorado em sociologia. São Paulo: USP/FFLCH. 1998.
GRYNSZPAN, Mário. Mobilização Camponesa e Competição Política no Estado do Rio de
Janeiro (1950-1964). Rio de Janeiro: Dissertação de Mestrado em Antropologia Social do
Museu Nacional. 1987.
MOREIRA, Tânia Maria Salles. Projeto: Procurando Eles. Duque de Caxias, Mimeo. 1996.
_______, Chacinas e Falcatruas. Rio de Janeiro: Ed. Lumen Júris. 1999.
SOARES, L.E. et al. (1996). Violência e Política no Rio de Janeiro. ISER. Relume-Dumará.
TOLEDO, José Roberto de. 1,8% das cidades concentram 51% dos homicídios . Folha de
São Paulo. 17 de outubro de 1999. Cotidiano. p. 3.
TORRES, Rogério e MENEZES, Newton. Sonegação Fome Saque. Duque de Caxias:
Consórcio de Administração de Edições. 1987.

30
A INCIDÊNCIA DA VIOLÊNCIA NA BAIXADA
FLUMINENSE
Laboratório de Análise da Violência (UERJ)21

O objetivo desse capítulo é dimensionar a incidência da violência e da


criminalidade na Baixada Fluminense, dentro do contexto do estado do Rio de Janeiro e
do Brasil. De acordo com o Centro de Informações e Dados do Rio de Janeiro (CIDE),
órgão oficial do estado do Rio, a Baixada Fluminense inclui os seguintes municípios da
área metropolitana: Belford Roxo, Duque de Caxias, Guapimirim, Itaguaí, Japeri, Magé,
Mesquita, Nilópolis, Nova Iguaçu, Paracambi, Queimados, São João de Meriti e
Seropédica.
A imagem do Rio de Janeiro está indissoluvelmente ligada à contradição entre a
beleza natural e o caos humano, entre a sensualidade do samba e do carnaval e o horror
das imagens de chacinas que, periodicamente, marcam o modo como os fluminenses
encaram a segurança pública e o modo como a cidade é percebida no exterior. Por outro
lado, a participação de policiais em várias dessas chacinas aprofunda a desconfiança da
população nos agentes do Estado. No entanto, a trajetória do Rio de Janeiro, para além
da sua especificidade, não está desvinculada do destino geral das metrópoles brasileiras.

O fato mais grave e mais marcante da violência no Rio é a alta incidência da


violência letal. De acordo com os dados oferecidos pela Secretaria Nacional de
Segurança Pública do Ministério da Justiça, a taxa de homicídios da Região
Metropolitana do Rio de Janeiro no ano de 2002 era a terceira entre as 26 regiões
consideradas, atrás apenas de Vitória e Recife. Entre os anos de 1998 e 2002, o Rio de
Janeiro apareceu sempre entre o terceiro e o quinto lugar nessa classificação.

Assim, o nível da violência letal no Rio pode ser considerado muito alto tanto
em termos relativos quanto absolutos, considerando que o Brasil é um dos países com
maior taxa de homicídios da América Latina e, por sua vez, esta região é uma das mais
violentas do mundo. Contudo, a taxa de homicídios do Rio não é, como se poderia
pensar, a maior do Brasil, apesar da visibilidade que a violência no Rio possui nacional
e internacionalmente.

21
Esse relatório foi elaborado por Eduardo Ribeiro, Ignacio Cano, João Trajano Sento-Sé e Márcio
Lázaro.
31
TABELA 1
Taxa de Homicídios por 100 mil habitantes nas Regiões Metropolitanas brasileiras
1998-2002
Regiões Metropolitanas 1998 1999 2000 2001 2002

Vitória 92,5 85,1 71,2 70,7 80,4

Recife 80,9 74,2 72 81,3 69,4

Rio de Janeiro 64,7 64,1 55,9 53,3 60,2

São Paulo 61,9 68,8 64,1 60,8 58,1

Baixada Santista 56,3 65,2 60,7 52,7 57,2

Maceió 26,3 24,9 35 45,2 50,1

Campinas 40,0 46,6 44,7 43,0 40,5

Salvador 34,9 19,5 28,0 31,1 38,4

Belo Horizonte 23,5 22,1 29,4 31,5 37,9

RIDE-DF 34,8 35,0 35,7 34,3 33,0

Goiânia 23,5 25,6 24,5 25,4 32,8

Londrina 15,4 14,5 17,3 24,9 31,1

Curitiba 23,3 26,0 28,4 28,3 29,5

Porto Alegre 23,4 23,7 27,5 26,8 29,0

Fortaleza 17,7 21,6 24,8 23,6 26,2

Belém 25,2 17,9 18,3 20,2 23,6

Natal 18,3 21,3 20,8 20,1 20,8

Foz do Rio Itajaí 9,9 10,7 10,3 15,1 20,3

Florianópolis 8,8 7,2 9,9 12,9 18,2

São Luis 20,6 16,0 15,1 22,0 17,8

Vale do Aço 6,8 6,7 10,8 11,8 14,3

Maringá 12,4 8,6 7,6 8,7 10,3

Norte/Nordeste catarinense 9,6 8,1 9,5 9,1 9,3

Carbonífera 6,6 5,4 5,5 5,4 8,4

Tubarão 4,4 2,6 3,4 4,2 5,0

Vale do Itajaí 5,1 3,2 2,5 6,4 4,3


1
Fonte: SENASP, com base nos dados das certidões de óbito processados pelo Ministério da
Saúde.
32
Diversas pesquisas mostram que os homicídios no Brasil são, sobretudo, um
fenômeno metropolitano, o que tem feito com que o estado do Rio de Janeiro, que tem
três de cada quatro dos seus cidadãos morando na área metropolitana, encontre-se
sempre entre os estados com maior taxa do Brasil. No entanto, a incidência da violência
letal não se distribui de forma homogênea dentro da região metropolitana.

A seguinte tabela mostra a taxa de homicídios de cada município da região


metropolitana no ano de 2002, estimada a partir das certidões de óbito do DATASUS
(Ministério da Saúde), utilizando uma estimativa que permite corrigir a subestimação
decorrente das mortes violentas sem uma classificação precisa (Cano & Santos, 200122).

Esses dados nos permitem comparar a Baixada Fluminense com o resto da área
metropolitana, principalmente com o município do Rio de Janeiro, que concentra a
maioria da população da região. Assim, a Baixada Fluminense apresenta uma taxa de
homicídios que é superior, em aproximadamente 21%, à taxa tanto do município do Rio
quanto do conjunto do estado. De fato, a Baixada teve 73 homicídios para cada 100.000
habitantes nesse ano. A totalidade dos municípios da Baixada, com a exceção de
Paracambi, Magé e Mesquita, apresentam valores próximos ou superiores a 70 por
100.000. Por sua vez, Itaguaí e Belford Roxo superam a barreira de 80 por 100.000 e
são, junto a Itaboraí, os três municípios com as taxas mais altas do estado.

O município do Rio aparece em décimo sexto lugar entre os vinte municípios da


Região Metropolitana. Dessa forma, apesar da grande atenção suscitada pela violência
na capital tanto por parte da mídia quanto do poder público, o seu entorno apresenta
uma incidência ainda mais preocupante.
Esses resultados, que podem ser conferidos graficamente no Mapa 1, confirmam
a fama da Baixada Fluminense como um lugar violento, afetado pela existência de
grupos de extermínio e de violência política, relacionada à tomada do poder. Assim, o
poder público deveria conferir prioridade às suas intervenções nessa área tanto para
prevenir quanto para reprimir essa alta incidência de violência letal

22
Cano, I. & Santos, N. Violência Letal, Renda e Desigualdade Social no Brasil. 7
Letras. Rio de Janeiro. 2001.

33
TABELA 2
Taxa de Homicídios por 100 mil habitantes dos Municípios da Região Metropolitana do
Rio de Janeiro: 2002

Homicídios¹
População Taxa por
Municipio de residencia Dolosos
residente² 2002 100.000 hab.
Estimados
Belford Roxo 387 456.559 84,69
Duque de Caxias 631 806.133 78,25
Guapimirim 28 40.205 69,61
Itaguaí 95 88.428 107,29
Japeri 64 88.544 72,56
Magé 121 218.051 55,65
Mesquita 109 173.801 62,56
Nilópolis 113 152.595 74,33
Nova Iguaçu 591 791.096 74,75
Paracambi 16 40.950 39,16
Queimados 88 128.950 68,17
São João de Meriti 340 456.701 74,52
Seropédica 53 70.373 75,67

Baixada Fluminense 2.637 3.597.734 73,29

Itaboraí 192 200.667 95,85


Mangaratiba 9 27.518 33,32
Maricá 55 85.348 65,03
Niterói 301 463.429 65,00
São Gonçalo 669 920.182 72,68
Tanguá 15 27.890 54,73

Rio de Janeiro 3.644 6.010.004 60,64

Região Metropolitana 7.524 11.247.424 66,89

Estado do Rio de Janeiro 8.930 14.888.576 59,98


¹ Fonte: Declarações de óbito - SUS/Ministério da Saúde
² Projeção populacional obtida através do Censo 2000/ IBGE

34
MAPA 1

Taxa de homicídios dolosos por 100.000 hab.


Região Metropolitana do Rio de Janeiro: 2002

GUAPIMIRIM

DUQUE DE CAXIAS
PARACAMBI MAGÉ

JAPERI
NOVA IGUAÇU

QUEIMADOS BELFORD ROXO


ITABORAÍ

SEROPÉDICA TANGUÁ

S O J O O DE MERI TI S O GON ÇALO

ITAGUAÍ

NITERÓI
MANGARATIBA MARICÁ
RIO DE JANEIRO

Legenda:

Até 50 por 100 mil habitantes

De 50 a 60 por mil habitantes

De 60 a 70 por 100 mil habitantes

De 70 a 80 por 100 mil habitantes


Mais de 80 por 100 mil habitantes

35
Esse quadro particularmente dramático na Baixada Fluminense, em termos de
homicídios, não é um fenômeno de apenas um ano nem um fato recente. O próximo gráfico
mostra a estimativa de homicídios da Baixada, da Capital e da Região Metropolitana, a
cada cinco anos, a partir de 1980. Os dados mostram que na década de 80, em que a
violência letal começa a aumentar de forma intensa, a Baixada já apresenta taxas de
homicídio sistematicamente mais elevadas do que o município do Rio. Com efeito, as taxas
na Baixada continuaram subindo até 1995, enquanto as da capital tinham se estabilizado
cinco anos antes. No ano de 2000, a diferença parece diminuir junto com as taxas gerais,
mas ela se incrementa de novo em 2002. Em outras palavras, o diferencial de homicídios na
Baixada é um fenômeno histórico que começou, no mínimo, nos anos oitenta.

GRÁFICO 1

Taxa de Homicídios na Região Metropolitana do Rio


de Janeiro, Capital do Estado do Rio de Janeiro e na
Baixada Fluminense - ano: 2004

120,00
Taxa por 100.000

100,00 Baixada
80,00
Capital
hab.

60,00
RM
40,00
20,00 Estado
0,00
1980 1985 1991 1995 2000 2002
Ano

37
A outra fonte relevante para a mensuração da violência é a Polícia Civil que, com
base nos Registros de Ocorrência, contabiliza as ocorrências criminais. Para realizar um
diagnóstico resumido da criminalidade violenta, escolhemos os três crimes violentos de
maior relevância: homicídios dolosos, lesões dolosas e roubos. Os dois primeiros são
categorizados como crimes contra a pessoa e o último crime é tipificado como crime contra
a propriedade. A tabela seguinte mostra as taxas de cada um desses três crimes para cada
município da região metropolitana.
Os homicídios dolosos estão subestimados nos dados da polícia, fundamentalmente
porque a polícia registra o fato inicial. Assim, se uma pessoa for ferida, o caso pode ser
registrado como tentativa de homicídio ou como lesão dolosa, mesmo que a pessoa venha a
falecer posteriormente como conseqüência dos ferimentos. De qualquer forma, mesmo com
taxas mais reduzidas do que as obtidas com os registros da saúde, a taxa da Baixada
continua sendo superior em aproximadamente 25% às taxas do município do Rio e do
estado. Em outras palavras, mantém-se o diferencial negativo da Baixada.
As lesões dolosas, entretanto, seguem um padrão diferente. A taxa da Baixada é
similar à do município do Rio e à da região metropolitana. A do estado é levemente
superior, o que mostra que as lesões, diferentemente dos homicídios, não constituem um
fenômeno preferencialmente metropolitano. De fato, alguns dos municípios com maiores
taxas de lesões, como Paracambi, Mangaratiba e Maricá, são justamente aqueles que
apresentam uma incidência de homicídios relativamente baixa. Por outro lado, lugares
como Belford Roxo e Itaboraí apresentam taxas reduzidas de lesões e elevadas de
homicídios. Assim, diferentemente dos homicídios, as lesões não parecem afetar à Baixada
de forma mais aguda do que o resto da região metropolitana ou do estado. De qualquer
forma, a interpretação da taxa de lesões é mais complicada do que a de homicídios, pois o
nível de subnotificação ou sub-registro, ou seja, a proporção de pessoas que deixa de
denunciar o fato à polícia, é significativamente superior.
Por sua vez, os roubos, como era previsível em função das pesquisas nessa área,
incidem fundamentalmente nas áreas mais ricas, onde o botim do crime contra a
propriedade é maior. Esse é o caso da cidade do Rio de Janeiro. Município que concentra
mais de um terço da população de todo o estado, maior e mais dinâmico centro de atividade
econômica, a cidade do Rio de Janeiro apresenta, de longe, as maiores taxas de crimes

38
contra o patrimônio em todo o estado, seguida por Duque de Caxias, Niterói e Nilópolis.
No seu conjunto, a Baixada Fluminense revela uma taxa que representa menos da metade
do valor da capital. Como já foi mencionado, a renda significativamente inferior na
Baixada faz com que esse resultado não seja surpreendente. O panorama geral confirma os
resultados de diversas pesquisas no sentido de que os lugares com baixa renda tendem a
sofrer maior violência letal enquanto os de alta renda padecem de crimes contra o
patrimônio. No entanto, não existe uma correlação negativa perfeita entre ambos
fenômenos, como mostra o fato de que alguns municípios, como Duque de Caxias,
registram altas taxas de homicídio e de roubo, enquanto existem outros, como Mangaratiba,
contam com uma incidência baixa nos dois tipos de crimes. De qualquer forma, mais uma
vez é preciso mencionar a ressalva do problema da subnotificação, que costuma ser forte no
caso do roubo algumas pesquisas mostram que apenas um em cada quatro roubos é
denunciado e que pode apresentar intensidades diferentes em municípios diferentes.
Os resultados das taxas de roubos e lesões podem ser observados graficamente nos
mapas 2 e 3, respectivamente.

39
TABELA 3
Taxa de Homicídio Doloso, Roubo e Lesão Corporal por 100 mil habitantes

Municípios da Região Metropolitana do Rio de Janeiro: 2004

População Taxa de
Taxa de Taxa de Lesão
Municípios residente Homicídio
Roubos² Corporal²
2004¹ Doloso²
Belford Roxo 480.469 58,69 241,22 346,12
Duque de Caxias 839.418 56,47 914,56 428,87
Guapimirim 42.675 140,60 663,15 1260,69
Itaguaí 95.502 82,72 284,81 504,70
Japeri 93.180 37,56 52,59 450,74
Magé 231.442 21,60 165,48 343,50
Mesquita 182.902 41,01 448,87 518,31
Nilópolis 151.151 54,91 851,47 572,28
Nova Iguaçu 832.525 55,73 420,53 367,44
Paracambi 41.428 19,31 214,83 786,91
Queimados 135.703 70,74 200,44 579,21
São João de Meriti 464.200 42,44 455,19 506,46
Seropédica 76.003 59,21 331,57 486,82
Baixada Fluminense 3.666.598 53,13 495,23 441,91
Itaboraí/Tanguá 245.067 60,80 462,32 414,58
Mangaratiba 30.410 26,31 174,28 766,20
Maricá 94.871 29,51 275,11 637,71
Niterói 467.288 40,87 859,43 572,67
São Gonçalo 951.516 39,31 428,79 401,67
Rio de Janeiro 6.172.467 42,98 1227,08 438,07
Região Metropolitana 11.628.217 46,02 889,58 443,71
Estado do Rio de Janeiro 15.425.822 41,74 720,67 483,48
¹ Projeção populacional obtida através do Censo 2000/ IBGE
² Fonte: Registros de Ocorrência da Polícia Civil - Secretaria de Segurança Pública

40
MAPA 2

Total de roubos - taxa por 100.000 hab.


Região Metropolitana do Rio de Janeiro: 2004

GUAPIMIRIM

DUQUE DE CAXIAS
PARACAMBI MAGÉ

JAPERI
NOVA IGUAÇU

QUEIMADOS BELFORD ROXO


ITABORAÍ

SEROPÉDICA TANGUÁ

S O J O O DE MERI T I S O GON ÇALO

ITAGUAÍ

NITERÓI
MANGARATIBA MARICÁ
RIO DE JANEIRO

Legenda:

Até 300 por 100 mil habitantes

De 300 a 600 por 100 mil habitantes

De 600 a 900 por 100 mil habitantes


Mais de 900 por 100 mil habitantes

41
MAPA 3

Lesão Corporal Dolosa - taxa por 100.000 hab.


Região Metropolitana do Rio de Janeiro: 2004

GUAPIMIRI M

DUQUE DE CAXIAS
PARACAMBI MAGÉ

JAPERI
NOVA IGUAÇU

QUEIMADOS BELFORD ROXO


ITABORAÍ

SEROPÉDICA TANGUÁ

S O J O O DE MERI TI S O GONÇALO

ITAGUAÍ

NITERÓI
MANGARATIBA MARICÁ
RIO DE JANEIRO

Legenda:

Até 400 por 100 mil habitantes

De 400 a 600 por 100 mil habitantes

De 600 a 800 por 100 mil habitantes


Mais de 800 por 100 mil habitantes

42
Em suma, o problema específico da Baixada Fluminense parece ser a sua altíssima
incidência de violência letal e é nesse ponto que as ações do poder público deveriam se
concentrar. Por sua vez, a violência não letal, tanto contra a pessoa quanto contra a
propriedade, não parecem ser fenômenos que atinjam preferencialmente a Baixada.
Um dos indicadores mais importantes para examinar a atenção do poder público é o
número de policiais por habitante. A tabela seguinte mostra essa taxa para os municípios da
Região Metropolitana. No entanto, foi preciso agregar vários municípios em função das
áreas de delegacias e, sobretudo, de batalhões. Por essa razão, não é possível ter um
indicador preciso para cada município.
De qualquer forma, os dados revelam grandes desigualdades geográficas. O
município do Rio conta com quase dois policiais para cada 1.000 habitantes, um patamar
semelhante ao de Niterói e Maricá, por um lado, e de Magé e Guapimirim, por outro. Do
outro lado, a grande maioria dos habitantes da Baixada encontram-se numa situação bem
diferente, com uma taxa que é menos da metade do que a do município do Rio. Com efeito,
Duque de Caxias, Nova Iguaçu, Mesquita, Belford Roxo e Nilópolis apresentam menos de
1 policial para cada 1.000 habitantes, idêntica situação à de São Gonçalo. Por sua vez, São
João de Meriti, por um lado, e Seropédica, Itaguaí, Paracambi, Queimados e Japeri, por
outro, situam-se num patamar intermediário, mas ainda longe dos níveis do Rio e de
Niterói.
A conclusão evidente é que o poder público dirige seus recursos de segurança
pública preferencialmente para a capital e para alguns outros municípios, como Niterói,
enquanto que o policiamento na Baixada é muito mais escasso, a despeito das altas taxas de
homicídio observadas. Nesse sentido, a existência de uma única delegacia de homicídios
para o conjunto da Baixada, com menos de 40 policiais e pouco mais de 100 inquéritos
abertos, não contribui para diminuir os níveis de impunidade que consigam conter a
gravidade do problema.

43
TABELA 4
Número de Policiais para cada 1.000 habitantes na Região Metropolitana do Rio de Janeiro
2004

Número Número de
Número Número
de Policiais
de de População
Municípios Policiais para cada
Policiais Policiais 2004
(Militares 1.000
Militares Civis
e Civis) habitantes
Duque de Caxias 622 83 705 839.418 0,84
Magé / Guapimirim 505 63 568 274.117 2,07
Niterói / Maricá 778 273 1.051 509.963 2,06

Nova Iguaçu / Mesquita / Belford Roxo / Nilópolis 1.041 239 1.280 1.649.027 0,78
Rio de Janeiro 9.492 2.076 11.568 6.172.467 1,87
São Gonçalo 728 188 916 951.516 0,96
São João de Meriti 477 56 533 464.200 1,15

Seropédica / Itaguaí / Paracambi / Queimados / Japeri 557 142 699 439.836 1,59

De qualquer modo, a presença dos policiais é percebida ao mesmo tempo pelas


populações da Baixada como uma necessidade, mas também, às vezes, como um problema,
dada a participação de agentes policiais em chacinas contra a população e os indícios de
envolvimento de policiais e ex-policiais nos grupos de extermínio.
Infelizmente, não existem registros confiáveis que permitam contabilizar as mortes
que são resultado da ação de grupos de extermínio ou aquelas que são produto da ação de
policiais. Entretanto, um dos elementos que podem ajudar a explorar a questão do
envolvimento dos policiais nos altos índices de homicídio são os chamados Autos de
Resistência . Essa é a categoria mais usada pela polícia para classificar os casos de mortes
de civis pelos agentes, em supostos confrontos armados. No entanto, algumas pesquisas
anteriores (Cano, 1997; 199823) revelaram que uma parte desses fatos corresponderia, na

23
Cano, I. Letalidade da Ação Policial no Rio de Janeiro. ISER. 1997. Cano, I. Letalidade
da Ação Policial no Rio de Janeiro: A Atuação da Justiça Militar. ISER. 1999.

44
verdade, à execuções sumárias. De fato, vários dos policiais acusados de participarem na
chacina da Baixada no dia 31 de março de 2005 tinham registrado casos de autos de
resistência nos últimos tempos e há fortes suspeitas de que muitos desses casos poderiam
tratar-se, na verdade, de execuções. Em outras palavras, os autos de resistência poderiam
ser uma forma usada por policiais para esconder as execuções relativas a grupos de
extermínio, embora não a única, pois em outros casos, especialmente aqueles que envolvem
ex-policiais, os cadáveres podem simplesmente ficar na rua sem que os policiais que
participaram façam registro algum. Nessas circunstâncias, o mais provável é que o fato
seja classificado como um simples homicídio.
A tabela seguinte mostra o número de vítimas fatais registradas como auto de
resistência pela polícia por município durante o ano de 2004. Como já foi explicado
anteriormente, foi preciso agregar vários municípios para poder ter uma estimativa dos
policiais civis e militares em cada área.
A primeira conclusão é que, contrariamente ao que poderia se pensar, a incidência
desses autos de resistência é muito maior na capital do que nos municípios da Baixada. Isso
é verdade tanto em termos absolutos quanto relativos, isto é, em número de vítimas para
cada 100.000 habitantes. O segundo município com maior taxa é Niterói, junto com
Maricá. E o terceiro valor corresponde à área que inclui Nova Iguaçu, Mesquita, Belford
Roxo e Nilópolis.
Um fator que pode estar afetando os resultados é justamente a intensidade da
presença policial em cada município, pois caberia esperar mais casos nos lugares em que o
número de policiais é maior. Esse é o caso do Rio de Janeiro e de Niterói. Para examinar
melhor essa possibilidade, calculamos o número de vítimas para cada 1.000 policiais. Nesse
caso, os municípios de Nova Iguaçu, Mesquita, Belford Roxo e Nilópolis aparecem com
uma taxa maior e a capital passa para o segundo lugar, com um valor próximo ao de Duque
de Caxias. Em suma, o número de vítimas fatais reconhecidas pela polícia é maior no
município do Rio, quando o consideramos em relação à população, mas é maior ou igual na
Baixada, quando o colocamos em relação com o contingente policial. Assim, o elevado
número de pessoas mortas em intervenções policiais registradas na Baixada é um fato
muito preocupante, mas os dados não mostram que se trate de um fenômeno com especial
incidência na Baixada, em comparação com a capital.

45
TABELA 5
Vítimas de Autos de Resistência para cada 100.000 habitantes e para cada 1.000
policiais Região Metropolitana do Rio de Janeiro: 2004
Número Vítimas Vítimas
de Vítimas de para para
População
Municípios Policiais Autos de cada cada
Estimada
(PM & resistência 100.000 1.000
PC) hab. policiais
Duque de Caxias 705 839.418 38 4,5 53,9
Magé / Guapimirim 568 274.117 4 1,5 7,0
Niterói / Maricá 1.051 509.963 42 8,2 40,0

Nova Iguaçu / Mesquita / Belford Roxo / Nilópolis 1.280 1.649.027 114 6,9 89,1
Rio de Janeiro 11.568 6.172.467 676 11,0 58,4
São Gonçalo 916 951.516 34 3,6 37,1
São João de Meriti 533 464.200 12 2,6 22,5

Seropédica / Itaguaí / Paracambi / Queimados / Japeri 699 439.836 4 0,9 5,7

Um outro dado que sublinha o papel dos grupos de extermínio e dos agentes do
estado na violência geral da região é a redução dos homicídios registrados após a prisão, em
abril de 2005, dos policiais militares acusados pela chacina de 31 de março. O próximo
gráfico mostra o número de homicídios registrados mensalmente em Nova Iguaçu, em
Queimados, no resto da Baixada, no município do Rio, e no resto do estado, no período de
janeiro de 2004 até junho de 2005. A grande flutuação de um mês para outro dificulta a
interpretação dos resultados. Uma conclusão mais clara pode ser extraída da tabela
seguinte.

46
GRÁFICO 2

Número Mensal de Homicídios Dolosos Registrados, por Região

Jan 2004-Junho 2005

300

250

200
Nova Iguaçu
Queimados
150 Capital
Outros da Baixada*
Outros do Estado*
100

50

0
4

5
04

04

05

05
4

04

5
4

04

04
4
4

5
04

05
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ab

ab
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ja

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ag

no

de
m

m
fe

fe
m

No trimestre de abril a junho de 2005, o número de homicídios registrados nas


delegacias de Nova Iguaçu e Queimados caiu 26% em relação ao trimestre de dezembro de
2004 a fevereiro de 200524. O efeito foi particularmente marcado em Queimados, onde
apenas 6 homicídios foram contabilizados no trimestre. Nesse mesmo período, a queda no
resto da Baixada foi de 18%, na capital de 15%, enquanto que no resto dos municípios do
estado houve um aumento de 3%. Em outras palavras, houve uma queda significativa nos
municípios de Nova Iguaçu e Queimados, onde o grupo de policiais militares presos é
acusado de fazer parte do grupo de extermínio local. A redução dos homicídios foi menor

24
O mês de Março foi desconsiderado justamente para evitar o efeito da própria chacina nessa comparação.

47
no resto da Baixada e ainda menor na capital, sendo que os outros municípios do estado
experimentaram um aumento.
Entretanto, essa comparação de trimestres sucessivos pode estar sendo influenciada
por problemas de sazonalidade, já que o número de homicídios varia, sabidamente, em
função do período do ano. Para reduzir esse problema, comparamos também o trimestre de
abril a junho de 2005 com o mesmo período do ano anterior. Nessa comparação dos
mesmos meses, a redução dos homicídios de Queimados e Nova Iguaçu atinge 33%, bem
superior à diminuição experimentada nos outros municípios da Baixada (13%) ou na capital
(7%). Os outros municípios do estado sofreram um aumento de 21%.

TABELA 6
Número de Homicídios Dolosos registrados trimestralmente nas delegacias,
por município
Incremento Incremento no
no período período
Dez03- Abr- Dez04- Abr- Abr-Jun/05 Abr-Jun/05 em
Área
Fev04 Jun/04 Fev05 Jun/05 em relação a relação a Abr-
Dez-Fev04, Jun04,
em % em %
Queimados e Nova Iguaçu 160 146 131 97 -26% -33%
Outros Municípios da Baixada* 328 379 402 328 -18% -13%
Capital 706 624 682 579 -15% -7%
Outros Municípios do Estado 513 472 556 571 +3% +21%
TOTAL ESTADO 1867 1767 1902 1672 -12% -5%
(*) Fonte: Instituto de Segurança Pública do estado do Rio de Janeiro, com base nos Registros de Ocorrência da Polícia Civil.

Assim, os dados parecem confirmar de forma clara que a prisão dos acusados de
fazer parte do grupo de extermino reduziu significativamente os homicídios nos municípios
onde eles supostamente atuavam, em comparação com o resto da Baixada e com o
município do Rio. A diminuição é tão significativa que compensa, em termos quantitativos,
o número de vítimas da própria chacina. Dessa forma, não é aventurado supor que a ação

48
rápida do estado em decorrência das vítimas do dia 31 de março pode ter poupado a vida de
muitas outras.
Esse resultado reforça a idéia do impacto que o controle da violência exercida pelos
próprios agentes do estado pode supor na redução da violência geral. Em particular,
enfatiza a importância que a desarticulação dos grupos de extermínio na Baixada possui
para poder reduzir o diferencial de violência letal que assola essa região.
É possível que essa queda dos homicídios seja devida não apenas a que pessoas que
poderiam fazer parte dos grupos de extermínio locais tenham sido presas, mas também a
que os integrantes de outros grupos de extermínio podem estar agindo de forma mais
limitada em função da reação do estado à chacina do dia 31 de março. Nesse sentido, é
crucial que o estado continue fazendo um esforço para desmantelar os diferentes grupos de
extermínio na Baixada pois, caso contrário, eles voltarão a atuar nos níveis habituais.

Conclusão

A Baixada Fluminense apresenta um índice elevadíssimo de homicídios, inclusive


em comparação com a capital e com o resto da região metropolitana, cujos valores já são
dramáticos. Isto condiz com a percepção da Baixada como um lugar violento, açoitado pelo
efeito dos grupos de extermínio e da violência política. Esse diferencial negativo em termos
de violência letal na Baixada acontece, no mínimo, desde os anos oitenta.
Por sua vez, a violência não letal, operacionalizada pela taxa de lesões, está no
mesmo patamar do que o resto da região metropolitana, enquanto que os crimes violentos
contra o patrimônio, os roubos, apresentam uma incidência menor na Baixada do que na
capital ou Niterói. Esse último resultado não é surpreendente, visto que os crimes contra a
propriedade costumam afetar mais as regiões mais ricas, como seria o caso do Rio e
Niterói, e menos áreas de renda mais reduzida, como é o caso da Baixada.
Apesar da alta incidência de violência letal na Baixada, o poder público dedica a ela
uma atenção menor em termos de segurança pública, preferindo concentrar os agentes
policiais na capital e em alguns outros municípios. O contingente policial na Baixada está
claramente abaixo do que seria esperável em termos de população.

49
O número de pessoas registradas oficialmente como mortas pela polícia na Baixada
Fluminense é muito alto, mas os dados não revelam que o problema seja necessariamente
maior do que na capital.
Por outro lado, o número de homicídios em Nova Iguaçu e, sobretudo, em
Queimados diminuiu significativamente no trimestre seguinte à prisão dos policiais
militares acusados pela chacina de 31 de março, o que sublinha a importância do controle
dos próprios agentes do estado e da desarticulação dos grupos de extermínio para reduzir os
homicídios na região a patamares menos dramáticos. Mas se não houver continuidade nesse
esforço, as cifras poderão voltar a aumentar.
Os cidadãos da Baixada têm o direito de exigir do poder público uma reação que
interrompa essa máquina de matar que atua impunemente na região, investindo
maciçamente na prevenção e na repressão dos assassinatos. A reação do Estado não pode
estar limitada a eventos pontuais, como as chacinas, em que algumas das vítimas que
corriqueiramente acontecem na região estão simplesmente concentradas no tempo e no
espaço. O primeiro passo é que as autoridades, a imprensa e a própria sociedade tomem
consciência da gravidade do problema, deixando a indiferença de lado. A indiferença é o
principal combustível da impunidade.

50
MÍDIA E VIOLÊNCIA
COMO OS JORNAIS RETRATAM A VIOLÊNCIA E A
SEGURANÇA PÚBLICA NA BAIXADA FLUMINENSE

CESeC*

A pesquisa mídia e violência

O Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Candido Mendes


acompanhou, durante cinco meses (maio a setembro de 2004), a produção jornalística sobre
violência e segurança pública de nove jornais do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais:
O Dia, O Globo e Jornal do Brasil; Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo e Agora
São Paulo; O Estado de Minas, Diário da Tarde e Hoje em Dia. Utilizando uma técnica de
amostragem estatística (semana composta), foram analisadas em profundidade 2514
matérias (incluindo reportagens, editoriais, artigos de opinião e notas) entre as mais de dez
mil produzidas por esses jornais no período.25

A invisibilidade da Baixada Fluminense no noticiário

A despeito do fato de que quase a metade (48,2%) das notícias publicadas por todos
os jornais analisados tem como foco geográfico o Estado do Rio de Janeiro, apenas 5,4%
delas referem-se a municípios da Baixada Fluminense. Ou seja, das 1.213 notícias sobre o
Rio, apenas 66 são sobre fatos ocorridos na Baixada. Como se vê na tabela abaixo, os
assuntos em foco nas notícias sobre a Baixada também são desproporcionais em relação à
distribuição geral das notícias sobre o Rio. Enquanto no noticiário em geral o foco principal

25
A pesquisa foi coordenada por Silvia Ramos e Anabela Paiva. O relatório completo da investigação
encontra-se no site do CESeC: www.ucamcesec.com.br

51
recai sobre as forças de segurança (polícia militar, polícia civil, forças armadas e guardas
municipais), no caso da Baixada a maioria das notícias refere-se a atos violentos.

Tabela 1 - Matérias segundo foco central da notícia


Foco central da notícia RJ Baixada Baixada/
RJ (*)
Forças de segurança (Polícia Militar, Civil, Federal, FA e GM) 529 23 4,3%
Ato violento/ Criminoso 251 28 11,2%
Repercussões do ato violento/ criminoso 186 14 7,5%
Sistema penitenciário 91 0 0
Fenômenos da Violência (causas e soluções) 41 0 0
Políticas de segurança pública 37 0 0
Judiciário/ Ministério Público/ Legislação 27 1 3,7%
Sociedade civil/ Direitos Humanos/ Campanhas 26 0 0
Perfil 13 0 0
Estatísticas/ Pesquisas 10 0 0
Questões do setor privado (segurança privada) 2 0 0
Total 1213 66 5,4%
(*) A coluna de percentual não é uma soma. Trata-se da proporção de notícias sobre a Baixada
Fluminense em relação às notícias sobre o Rio de Janeiro.

Os jornais têm cumprido um importante papel, especialmente no Rio de Janeiro, de


controle externo da polícia, ao denunciar casos de violência policial, corrupção e abuso de
poder. É o que se observa quando as notícias são sobre as forças de segurança.
Considerando todas as matérias cujo foco central são as polícias, observa-se que embora a
maioria das notícias (56%) seja sobre ações policiais , uma parcela significativa de 21,5%
refere-se a crimes cometidos pelas polícias. No caso da Baixada, 65,2% das matérias sobre
polícia noticiam ações policiais e 30,5% referem-se a crimes cometidos pelas polícias.
Ainda que o número absoluto (apenas sete matérias) sobre crimes cometidos pelas polícias
seja pequeno, a amostra indica uma tendência importante, mostrando que também nessa
região a imprensa cumpre o papel de fiscalizar as ações das forças de segurança.

52
Tabela 2 - Matérias segundo tipo de notícias sobre Forças de Segurança

Notícias sobre Forças de segurança (polícias) RJ % Baixada %


Ação Policial 296 56,0% 15 65,2%
Crimes cometidos pelas forças 114 21,5% 7 30,5%
Crimes cometidos contra as forças 69 13,0% 1 4,3%
Questões corporativas 21 3,9% - -
Uso das FFAA 13 2,4% - -
Outros 12 2,2% - -
Desarmamento 4 0,7% - -
Total 529 100% 23 100%

Chama a atenção, por outro lado, a absoluta ausência de matérias sobre políticas de
segurança, sociedade civil, campanhas e protestos, direitos humanos, estatísticas e
pesquisas.

Os jornais: "venda em banca" ou "formadores de opinião

Quando considerados os veículos que mais abordam fatos ocorridos na Baixada, o


destaque é o jornal O Dia, com quase 60% das matérias. O Globo vem em segundo lugar,
com 22,7%. O Jornal do Brasil situa-se no outro extremo, com apenas duas matérias
durante os cinco meses analisados, ficando atrás até mesmo de um jornal de São Paulo e
um de Minas Gerais. Se as notícias sobre a Baixada já são em número reduzido no
noticiário geral, pode-se dizer que nos jornais formadores de opinião elas são ainda mais
escassas. Considerando que a importância da mídia impressa reside na sua capacidade de
agendar políticas públicas e criar pressão através de mobilização de lideranças da sociedade
e que essa tarefa é cumprida especialmente pelos grandes jornais preocupa ainda mais o
fato de que as reduzidas notícias sobre a Baixada concentrem-se tão fortemente em um
veículo que se caracteriza por seu perfil de venda em banca. Acrescente-se à menor
capacidade de agendamento de políticas públicas, o fato de que, de modo geral, o
tratamento da notícia pelos jornais baseados em venda em banca (algumas vezes chamados
populares ) tende a ser menos qualificado que o tratamento dos veículos formadores de
opinião. Características como referências a mais de uma fonte, presença de quadros e

53
boxes, histórico, dados estatísticos e opiniões de especialistas, tudo isso ajuda o leitor a
entender e a dimensionar a informação e não apenas a considerá-la mais uma tragédia, que
tende a ser tão mais naturalizada e banalizada quanto menor, mais solta e mais
descontextualizada é a notícia.

Tabela 3 - Matérias sobre a Baixada segundo os jornais

Jornais Nº de %
matérias
O Dia 39 59,1%
O Globo 15 22,7%
Folha de São Paulo 3 4,5%
Diário da Tarde 3 4,5%
O Estado de São Paulo 2 3,0%
Agora São Paulo 2 3,0%
Jornal do Brasil 2 3,0%
Total 66 100%

Estigmatização x omissão: "a dor da gente não sai no jornal

Quando são considerados os municípios aos quais as notícias se referem, observa-se


uma distribuição que não corresponde nem à população dos municípios nem à gravidade da
problemática da violência e da segurança pública em cada localidade. Diversos municípios
da Baixada não foram objeto de uma única notícia publicada sobre o tema durante os cinco
meses na amostra analisada.

54
Tabela 4 - Matérias publicadas segundo os municípios da Baixada, população
residente e taxa de homicídios por 100 mil habitantes

Municípios da Baixa Nº de matérias População Taxa de


Fluminense publicadas nos residente
jornais homicídios
2002
por 100 mil
habitantes (*)

Belford Roxo 20 456.559 84,69


Duque de Caxias 19 806.133 78,25
Nova Iguaçu 13 791.096 74,75
São João de Meriti 6 456.701 74,52
Nilópolis 5 152.595 74,33
Mesquita 2 173.801 62,56
Japeri 1 88.544 72,56
Guapimirim 0 40.205 69,61
Itaguaí 0 88.428 107,29
Magé 0 218.051 55,65
Paracambi 0 40.950 39,16
Queimados 0 128.950 68,17
Seropédica 0 70.373 75,67
Baixada Fluminense 66 3.512.386 74,84

(*) Dados do SUS para o ano de 2002.

A forte presença de Belford Roxo no noticiário aparentemente deve-se não só à


existência de casos que chamaram a atenção de diversos órgãos de imprensa no período
(perseguição de estuprador; encontro dos corpos de três jovens cujos assassinos seriam
policiais; assassinato de um jovem de 16 anos por um adolescente de 14 anos dentro de
uma escola), mas também ao uso sistemático de policiais da 54a DP (Belford Roxo) como
fontes jornalísticas, especialmente pelo jornal O Dia.
Quando são tomados os títulos das 66 notícias sobre a Baixada, verifica-se que em
13 casos (20%) o nome Baixada ou o nome do município ou do bairro encontra-se na

55
chamada das matérias (por exemplo, Dois mortos em festa de igreja em Baixada , O Dia,
18/05/04; Adolescente achado morto em Japeri , O Dia, 31/05/04; Jovem é assassinado
em Nova Campina , JB, 14/06/04; Maníaco de Belford Roxo pára na cadeia , O Dia,
29/06/04; Achados corpos de três jovens na Baixada , FSP, 28/07/04; PMs de Caxias são
acusados de mais um crime , O Globo, 28/07/04; Polícia prende falso dentista em
Xerém , O Dia, 28/07/04; Tiroteio em Nova Iguaçu , O Dia, 08/09/04.).
É verdade que notícias de crimes e tragédias tendem a estigmatizar áreas das
cidades, quando as associa sistematicamente a eventos que se repetem, aparentemente sem
solução, como se fossem a confirmação infinita de uma violência natural destes locais,
sem que os jornais acompanhem seus desdobramentos de forma séria e eficiente. No
entanto, não é o exagero , mas o silencio que parece predominar na relação entre os
problemas de criminalidade e segurança pública de municípios da Baixada Fluminense
(como de resto em outras áreas pobres do estado e da cidade do Rio de Janeiro) e os jornais,
especialmente os formadores de opinião, lidos pelas elites dirigentes e pelas classes médias
e abastadas. É como se violência na Baixada não fosse um problema do Rio , mas uma
mazela da Baixada . Em outras palavras, a letra do samba Notícia de Jornal, de Haroldo
Barbosa e Luiz Reis, expressa bem o sentimento de muitos moradores afastados das áreas
ricas sobre o silêncio e a indiferença acerca da violência cotidiana que testemunham.
O fato é que autoridades de segurança são pressionadas a tomar medidas eficazes
quando grandes órgãos de comunicação focalizam um problema com editoriais, artigos e
matérias investigativas, ouvindo fontes diversas, fornecendo dados estatísticos e
levantamentos históricos. Como ocorreu, por exemplo, no caso Tim Lopes e no início da
cobertura sobre a chacina ocorrida em Nova Iguaçu e Queimados em 2005. Os governos
não sofrem a mesma pressão quando predomina o jornalismo factual, curto e descuidado,
em que o crime do dia é substituído pelo do crime do dia seguinte e as notícias têm como
fonte quase exclusiva policiais que atuam nas delegacias e batalhões da área. A despeito
dos seus vários avanços, as imprensas fluminense e brasileira estão devendo ainda uma
cobertura abundante, proativa e qualificada para os problemas de violência e segurança
pública da Baixada Fluminense.

56
Violência policial e impunidade
Justiça Global

O caso conhecido como Chacina da Baixada traz perplexidade tanto pela


brutalidade com a qual aquelas pessoas foram executadas, quanto pela morosidade em se
elucidar o crime e reparar os familiares. Conforme desabafo de um morador do município
de Queimados, ... Esse caso só chamou a atenção porque foram todos na mesma noite . O
número de vítimas 29 e o curto período de tempo menos de duas horas levaram à
uma grande comoção pública.
Mas esse caso não foi o único. A seguir, relatamos alguns que julgamos se
assemelhar ao episódio que deu motivo ao presente relatório. Também são vidas ceifadas,
famílias abandonadas, que guardam entre si algumas diferenças e muitas semelhanças. E
retratam que as causas e motivos de tanta violência insuficiência ou precariedade da
presença do poder público, raízes culturais de resolução de conflitos através da violência (o
atirar primeiro, perguntar depois ), discriminação contra populações marginalizadas,
invisibilidade dessas regiões, etc são os mesmos.
As investigações, os efeitos, e, conseqüentemente, os destinos dos diferentes casos
variam. Temos situações em que as instituições de investigação e denúncia funcionam, mas
o processo permanece estagnado, devido à ineficácia do Poder Judiciário.
Em outras situações, os agentes públicos acusados escoram-se no chamado auto de
resistência , e assim trocam de papel, tornando os algozes vítimas. São comuns também
alguns fatos graves que revelam o descaso de agentes estatais para a resolução dos crimes,
impossibilitando ou dificultando a resolução dos mesmos, como o desaparecimento da
arma do crime.
Estes são apenas alguns casos, que costumamos chamar de exemplares, não por se
tratarem dos únicos ou com maior importância. Mas certamente por serem símbolos do
descaso que caracterizam o quadro de impunidade que queremos evitar como
particularidade das ações de órgãos estatais polícia, Ministério Público e Poder Judiciário
e por mostrarem que violência, exclusão e impunidade não se restringem à Baixada
Fluminense.

57
Morro do Borel, Rio de Janeiro
Vítimas: Carlos Magno de Oliveira Nascimento, Tiago da Costa Correia, Carlos Alberto da
Silva Ferreira e Everson Gonçalves Silote.

Em 17 de abril de 2003, entre 18h00 e 19h00, uma operação que contou com a
participação de 16 policiais do 6º Batalhão da Polícia Militar (BPM), na comunidade do
Borel, no Rio de Janeiro, resultou na morte de quatro moradores. Embora a versão oficial
da polícia tenha sido a de que os mortos eram traficantes locais e que estariam trocando
tiros com os policiais, nenhum dos quatro tinha antecedentes criminais, três deles
trabalhavam e um era estudante.26
Carlos Magno de Oliveira Nascimento27 tinha 18 anos de idade e residia na Suíça,
onde estudava. Ele encontrava-se no Brasil passando férias com a avó. No final da tarde do
dia 17, dirigiu-se a uma barbearia onde foi cortar o cabelo com o amigo de infância Tiago
da Costa Correia28, 19 anos, técnico em manutenção de máquinas a vácuo.
Na saída da barbearia, Magno e Tiago não tiveram sequer tempo de entender o que
ocorria. Eles foram avistados por policiais militares que se encontravam em cima de uma
casa e foram instantaneamente alvejados. Magno morreu na hora. Tiago, porém, agonizava
no chão, alertando aos gritos que era trabalhador e necessitava de atendimento médico. Os
policiais mantiveram-se alheios ao seu pedido até que morresse.29
Carlos Alberto da Silva Ferreira30, 21 anos, tinha três empregos: era pintor, pedreiro
e, em épocas de carnaval, fazia armação de carros alegóricos. No dia 17, encontrava-se de

26
PMs acusados de matar 4 no Borel , O Globo, 09/05/03. O subcomandante do 6º BPM, tenente-coronel
José Luiz Nepomuceno, informou à imprensa que os mortos faziam parte de uma quadrilha de traficantes, e
que teria sido apreendido com eles drogas, armas e munição.
27
Carlos Magno morreu com seis tiros, dentre os quais três pelas costas (cabeça, braço direito e região
escapular esquerda), três tiros pela frente (ombro esquerdo, bacia, clavícula). Laudo cadavérico 26258/2003
IML.
28
Tiago levou cinco tiros, quatro pela frente e um pelas costas (região dorsal direita). Laudo cadavérico n.º
2659/2003 IML. O laudo ainda atesta uma alta energia cinética na saída dos projéteis, o que demonstra
que alguns dos disparos foram efetuados à queima roupa . Tiago não morreu instantaneamente. Agonizou
por cerca de meia hora, tendo os policiais impedido seu socorro. O fato pôde ser confirmado pela testemunha
Pedro da Silva Rodrigues, uma vez que o mesmo encontrava-se baleado, escondido e ciente do que se passava
a sua volta. Pedro contou que ouviu Tiago clamar por socorro médico, no que foi respondido por um dos
policiais que o mesmo era bandido e que iria morrer. Ver Sobrevivente vira testemunha , O Dia, 19/05/03.
29
Encontro com a morte , O Dia, 18/05/03.
30
Carlos Alberto sofreu 12 disparos, 7 deles pelas costas, além de fratura no antebraço e no fêmur. É
importante salientar que cinco dos disparos atingiram seu braço direito e mãos direita e esquerda o que
demonstra que Carlos tentava se defender dos tiros efetuados contra ele. O laudo também aponta para uma

58
folga e jogava futebol em um campo da comunidade. Na volta, resolveu passar na
barbearia, quando se deparou com o tiroteio e correu. Uma bala de fuzil acertou em cheio
sua cabeça.
Everson Gonçalves Silote, 26 anos, era taxista e havia passado todo o dia nas
unidades do DETRAN da Tijuca e São Cristóvão a fim de regularizar seu automóvel. Na
volta estacionou seu carro em uma das ruas próximas, pois o acesso estava fechado pela
polícia. Ele voltava à pé quando foi abordado, tentou se identificar, mas recebeu um golpe
que quebrou seu braço direito. Ele foi executado antes mesmo que pudesse mostrar seus
documentos.31
A ocorrência foi apresentada na delegacia de Polícia pelos próprios policiais
militares que participaram da operação32. A versão apresentada pelos milicianos foi de que
houve intensa troca de tiros com traficantes da localidade, caracterizando o que se
convencionou chamar de auto de resistência , isto é, o registro formal do fato na
delegacia, mas sem a lavratura da prisão em flagrante dos policiais militares.
Inúmeras providências investigativas foram realizadas pelo delegado de polícia
responsável pelo caso, tais como a inquirição de várias testemunhas e dos policiais militares
que participaram da operação, realização de reconstituição do fato no local dos
acontecimentos, exames de corpo de delito, perícia técnica de confronto balístico entre os
projéteis encontrados nos corpos das vítimas e as armas usadas pelos milicianos,
reconhecimento de pessoas etc. Segundo os familiares das vítimas, o delegado Orlando
Zaconne agiu sempre com muito respeito e eficiência junto ao caso.
Encerradas as investigações policiais com a firmação da autoria e materialidade do
delito, o Ministério Público oferece denúncia em face dos acusados, imputando-lhes a
prática de determinada infração penal.
A denúncia do Caso Borel foi oferecida pelo Ministério Público oito meses após a
chacina, mais precisamente no dia 08/12/03, perante o II Tribunal do Júri da Comarca da
Capital do Rio de Janeiro. A imputação criminosa atribuída a cinco policiais militares

alta energia cinética na saída dos projéteis, o que confirma a tese dos disparos a curta distância. Laudo
cadavérico n.º 2657/2003, IML.
31
Everson levou cinco tiros, um pelas costas (próximo à coluna cervical), 4 pela frente (dois em regiões vitais:
cabeça e coração). Laudo IML n. 2660/2003.
32
Inquérito policial n 1633/2003 19o-Delegacia Policial.

59
refere-se à prática de quatro crimes de homicídio qualificado (vítimas Carlos Magno,
Tiago, Carlos Alberto e Everson) e quatro crimes de tentativa de homicídio qualificado
(vítimas Leandro e Pedro). A pena prevista para crime de homicídio qualificado varia entre
12 e 30 anos de reclusão em regime integralmente fechado.
Por ocasião do oferecimento da denúncia, o Ministério Público requereu ao juiz a
decretação da prisão preventiva de todos os acusados, para que respondessem presos às
respectivas acusações. Em 12/12/03, o juiz presidente do II Tribunal do Júri recebeu a
denúncia ofertada contra os policiais militares33, dando início ao processo criminal na
justiça. Neste mesmo ato de recebimento da denúncia o juiz decretou as prisões preventivas
de todos os acusados, expedindo os mandados de prisão.
A competência para o processo e julgamento dos crimes dolosos contra a vida, ou
seja, crime praticado com vontade e intenção de matar alguém, como é o caso do delito de
homicídio, é afeta ao Tribunal do Júri por determinação da Constituição da República
Federativa do Brasil.
No Caso Borel o Ministério Público requereu a pronúncia de todos os acusados,
postulando o julgamento deles pelo Conselho de Sentença. Já as Defesas dos réus
requereram a impronúncia de seus clientes.
A sentença de pronúncia, como dito, é a decisão do juiz que julga admissível a
acusação formulada contra os acusados e determina o julgamento deles pelo Conselho de
Sentença.
No dia 27.07.04 foi proferida a sentença de pronúncia pelo juiz do II Tribunal do
Júri, visto a apresentação dos requisitos-prova da materialidade dos crimes e indícios de
autoria, aceitando toda as acusações formuladas contra os acusados e mantendo, ainda, a
prisão de todos eles.
O Código de Processo Penal prevê o recurso em sentido estrito como o meio
processual hábil a combater a sentença de pronúncia. Trata-se de recurso dirigido ao
Tribunal de Justiça, órgão de segundo grau que pode, julgando o recurso, manter a decisão
de pronúncia, impronunciar os acusados ou, ainda, absolvê-los em razão de estarem
presentes os requisitos da legítima defesa.

33
Processo número 2003.001.148150-4.

60
Todos os cinco policiais militares interpuseram o recurso em sentido estrito. Com
tal recurso evita-se a submissão dos réus ao julgamento popular até que o Tribunal de
Justiça decida acerca dos recursos.
O recurso em sentido estrito foi encaminhado para a Quinta Câmara Criminal do
Tribunal de Justiça sob o n° 2005.051.00048 e julgado no dia 21.06.05. As razões do
recurso não foram aceitas pelo Tribunal, que o rejeitou e manteve a decisão de pronúncia
do juiz do II Tribunal do Júri. Significa dizer que os acusados serão julgados pelo Conselho
de Sentença.
Aqui devemos fazer duas observações: A primeira é de que o recurso do acusado
Sidnei Pereira Barreto sequer chegou ao Tribunal de Justiça porque foi interposto fora do
prazo previsto em lei. Por essa razão é que este acusado foi o primeiro a ser julgado pelo
Conselho de Sentença. A segunda observação é de que o acusado Rodrigo Lavandeira
Pereira desistiu do recurso em sentido estrito que havia manejado. E é por este motivo que
este acusado também já foi julgado pelo Tribunal Popular (júri).
Assim, a decisão da Quinta Câmara Criminal34 só atinge aos acusados Marcos
Duarte Ramalho, Washington Luiz de Oliveira Avelino e Paulo Marco da Silva Emílio, que
ainda serão, portanto, submetidos a julgamento pelos jurados.
O primeiro acusado a ser julgado pelo Conselho de Sentença foi Sidnei Pereira
Barreto. Como o recurso que interpôs não foi aceito por ter sido fora do prazo legal, o
Ministério Público ofereceu contra ele o libelo crime acusatório, que é a peça processual
que contém a acusação de forma detalhada a ser apresentada na sessão plenária.
A sessão de julgamento do acusado Sidnei iniciou-se em 27.10.04 (menos de um
ano após o início do processo na justiça) e terminou no dia seguinte. Dos sete jurados que
integravam o Conselho de Sentença, quatro aceitaram a tese de defesa de negativa de
autoria e absolveram o acusado de todos os crimes. Por força desta decisão, o acusado
Sidnei foi colocado em liberdade. Os outros três jurados proferiram decisão condenando o
acusado Sidnei.
O acusado Rodrigo Lavandeira Pereira, apesar de ter interposto recurso em sentido
estrito contra a decisão de pronúncia, desistiu da impugnação. Com isso, seu recurso não

34
Recurso número 2005.051.00048.

61
foi ao Tribunal de Justiça e permitiu que o Ministério Público oferecesse contra ele o libelo
crime acusatório.
No dia 14.02.05 foi julgado pelo Tribunal do Júri o acusado Rodrigo Lavanderira
Pereira, oficial da Polícia Militar que comandava a operação policial no morro do Borel. A
sessão plenária durou 24 horas e terminou com a sua absolvição: também por apertada
maioria (quatro votos) o Conselho de Sentença acatou a tese de defesa e absolveu o
acusado. A exemplo do réu Sidnei, Rodrigo foi posto em liberdade.
O Ministério Público interpôs recurso de apelação contra a decisão do Conselho de
Sentença que absolveu os acusados Sidnei Pereira Barreto e Rodrigo Lavandeira Pereira.
Os recursos35 estão em trâmite na Quinta Câmara Criminal do Tribunal de Justiça.
Caso sejam aceitas as razões do Ministério Público e da Assistência de Acusação, os dois
acusados serão novamente julgados pelo Conselho de Sentença do II Tribunal do Júri. Na
hipótese contrária, eles estarão definitivamente absolvidos.
O julgamento destes recursos deve acontecer em breve, já que praticamente todos os
caminhos do recurso no tribunal já foram trilhados. Mas ainda não há data marcada para o
julgamento dos recursos.
O Núcleo de Defesa dos Direitos Humanos da Defensoria Pública36 ajuizou ação de
responsabilidade por danos materiais e morais contra o Estado do Rio de Janeiro buscando
reparação em favor dos familiares de Tiago Correia (mãe, pai e irmão). Esta ação está em
curso na 4ª Vara de Fazenda Pública da Comarca da Capital do Rio de Janeiro.

35
Há dois números distintos para cada um: 2005.050.01415 Recurso contra a decisão que absolveu Sidnei
Pereira Barreto, 2005.050.01909 Recurso contra a decisão que absolveu Rodrigo Lavandeira Pereira.
36
O Núcleo de Direitos Humanos da Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro atuou como assistente
de acusação representando familiares de duas vítimas da chacina do Borel: Carlos Magno e Tiago Correia.

62
São João do Meriti, Rio de Janeiro

Vítimas: Geraldo Sant anna de Azevedo Júnior, Bruno Muniz Paulino e os irmãos Rafael e
Renan Medina Paulino, 06/12/03.

Rafael e Renan Medina Paulino, 18 e 13 anos, Bruno Muniz Paulino, 20 anos, e


Geraldo Sant anna, 21 anos, moravam no Jardim Santo Antônio, no bairro de Guadalupe,
no estado do Rio de Janeiro. Eram amigos de infância. Bruno, filho único, era universitário,
cursava Matemática. Seus primos Rafael e Renan ainda estavam na escola. Aquela foi a
primeira vez que a família permitiu que o mais novo, Renan, saísse à noite com o irmão
mais velho. Geraldo Sant anna era soldado do exército e exercia a função de motorista do
Comandante do 2° Batalhão de Infantaria e, nas horas vagas, animava festas infantis no
bairro em que morava37.
No dia cinco de dezembro de 2003, os amigos foram juntos a um show na casa
noturna Via Show na Baixada Fluminense. Na madrugada do dia seis de dezembro, os
rapazes foram vistos pela última vez por um amigo, Wallace Lima, que também estava na
casa de shows. Ele afirmou tê-los visto por volta das 04:40h no estacionamento do local38.
Depois desse momento, os rapazes não foram mais vistos com vida.
Uma denúncia anônima ajudou a polícia a encontrar, na madrugada do dia nove de
dezembro de 2003, os corpos dos quatro garotos que estavam desaparecidos desde a
madrugada do sábado, dia seis de dezembro, quando saíam do Via Show. Os corpos
estavam dentro de um poço, em uma fazenda abandonada, conhecida como Morambi, na
localidade de Imbariê, distrito de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense.39
Segundo o delegado Renato Soares Vieira, da 62ª Delegacia Policial, as vítimas
apresentavam marcas de tiro, principalmente na cabeça, com pelo menos três tiros cada um,
o que revela um forte indício de que os rapazes tenham sido vítimas de uma execução
sumária40. Pelo avançado estado de decomposição dos corpos, foi possível constatar que os

37
Os rapazes eram amigos de infância , O Globo, 06/12/03.
38
Policiais suspeitos de matança , O Dia, 10/12/2003.
39
Amiga de jovens mortos suspeita de seguranças de casa de show , Tribuna da Imprensa on-line,
10/12/2003.
40
Idem.

63
jovens haviam sido mortos há pelo menos dois dias antes de serem encontrados. Havia
sinais de tortura e as cabeças dos rapazes estavam destruídas por tiros de fuzil41.
O caso foi transferido para a delegacia de homicídios da Baixada, ficando sob
responsabilidade do delegado Herold Spíndola Filho. A linha de investigação42 seguida pela
polícia afirma que uma das vítimas, o soldado do exército Geraldo Sant anna, teria furtado
o carro43 de um dos policiais que fazia a segurança na casa de shows e, por isso, teria sido
abordado pelos seguranças que pediram reforços a outros policiais que estavam de
serviço44.
Segundo a família45, Geraldo teria tentado se identificar e apontou para os outros
três rapazes, afirmando que teria ido ao Via Show com os amigos apenas para se divertir.
Os policiais então teriam capturado os quatro jovens e, ao invés de conduzi-los à delegacia
para averiguações, teriam levado os rapazes para a fazenda Morambi, onde os executaram.
Em dois de março de 2004, oito soldados e um sargento da Polícia Militar tiveram a
prisão temporária decretada por suspeita de envolvimento na morte dos quatro rapazes. Foi
confirmado que quatro, dos nove policiais presos, trabalhavam como segurança da casa
noturna Via Show e os outros cinco estavam em serviço próximo ao local46. Entretanto, em
15 de abril de 2004, o Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro revogou as prisões
temporárias de todos, concedendo aos acusados o direito de responder ao processo em
liberdade47.
Em 31 de julho de 2004 a promotora, Márcia Colonose, do Ministério Público de
Duque de Caxias, ofereceu a denúncia ao Juiz da 4a Vara Criminal de Caxias, Paulo César
Vieira de Carvalho, que acatou o pedido. Os policiais denunciados são: o capitão Ronald
Paulo Alves, os soldados Gilberto Ferreira de Paiva, Luiz Carlos de Almeida, Vagner Luís

41
Policiais suspeitos de matança , jornal O Dia, 10/12/2003.
42
Inquérito policial, IP n° 77/03. Informação fornecida pela Secretaria de Estado de Direitos Humanos à
equipe do Centro de Justiça Global, no dia 08/07/04.
43
Um veículo modelo Kadett, cor vinho, que pertencia ao soldado Henrique Vitor Oliveira do 15° Batalhão
da Polícia Militar, PMs são acusados de morte na Baixada , jornal Extra, 03/03/04.
44
Os policiais militares que estavam de serviço eram do 21° Batalhão da Polícia Militar.
45
Informação fornecida por Siley Muniz Paulino, mãe de Bruno Muniz Paulino, e Elizabeth Medina Paulino,
mãe de Rafael e Renan Medina Paulinno, em entrevista à equipe do Centro de Justiça Global, em 23/06/04.
46
PMs são acusados de mortes na Baixada , jornal Extra, 03/03/04.
47
Hábeas Corpus de n° 2004.059.01278; 2004.05901185; 2004.059.01342. Informação fornecida pela
Secretaria de Estado de Direitos Humanos à equipe do Centro de Justiça Global, no dia 08/07/04.

64
da Silva Victorino, Henrique Vitor de Oliveira Vieira, Fábio de Guimarães Vasconcelos,
Paulo César Manoel da Conceição e Eduardo Neves dos Santos.48
No dia nove de junho de 2005, o juiz Paulo César Vieira de Carvalho Filho decretou
a prisão de quatro policiais militares envolvidos na chacina do Via Show: Eduardo Neves
dos Santos, Paulo César Manoel da Conceição, Henrique Vítor de Oliveira Vieira e Fábio
de Guimarães Vasconcelos, que na época do crime eram lotados no 15° BPM (Caxias) e no
21° BPM (Vilar dos Teles).
Os policiais vão enfrentar júri popular e, caso não venham a obter aprovação no
recurso no Tribunal de Justiça, permaneceram presos até o julgamento. Segundo
familiares49 das vítimas, a promotora Márcia Colonese l. Guimarães já pediu a prisão dos
outros cinco policiais envolvidos no caso. Por questões técnicas, o processo foi
desmembrado em duas partes. Após a fase de depoimento das testemunhas de acusação, o
juiz poderá pedir a prisão dos outros cinco policiais que ainda aguardam em liberdade.
Fato grave que acompanha a chacina do Via Show foi a destruição de provas no
curso da instrução criminal. Segundo a Promotora Márcia Colonese Guimarães50, verifica-
se na prova dos autos que os denunciados já procuraram, após os eventos criminosos, sumir
com valiosos elementos de prova, sendo exemplos marcantes a queima e o desmanche do
veículo da vítima Geraldo; a venda do veículo Chevrolet Kadett utilizado nos crimes pelo
terceiro denunciado; e ainda o gravíssimo desaparecimento de arma de fogo de grosso
calibre de uso da polícia militar empregada no evento criminoso (fuzil),... .
O policial Ronald Freitas Feitosa do 15o BPM de Caxias, preso este ano acusado de
envolvimento na morte de dois homens, está indiciado no Inquérito Policial Militar
(IPM)51, que apura o desaparecimento do fuzil deste batalhão após o episódio do Via Show.
Pouco depois do assassinato destes dois homens, a cabeça de uma das vítimas apareceu
sobre o capô de uma patrulha dentro do Batalhão. Ronald Feitosa também recebeu punição
da Comissão de Revisão Disciplinar (CDR) da Corporação, ano passado, em função das

48
Divulgadas fotos de policiais suspeitos de mortes, Jornal O Dia, 14/09/2004, p.14.
49
Informação dada por Siley Muniz Paulino e Elizabeth Medina Paulino, em entrevista à equipe do Justiça
Global, em 09/08/05.
50
Processo número 2003.021.021302-0 e Inq.Pol. n 77/03 DHBF. 2o- Promotoria de Justiça junto à 4o- Vara
Criminal e Tribunal do júri da Comarca de Duque de Caxias.
51
IPM número 169/2538-2004.

65
investigações referentes ao caso Via Show. Na madrugada do dia 30 de março de 200552,
véspera da chacina da Baixada, André Luiz de Almeida Sales e Anderson Ferreira Gomes
foram seqüestrados e assassinados. André teve a cabeça arrancada e colocada sobre uma
viatura do 15o BPM, enquanto o corpo esfaqueado foi encontrado na rua Jorge Vieira de
Medeiros, atrás do Batalhão.
Até o fechamento desta publicação, os cinco policiais denunciados aguardavam o
julgamento em liberdade.

52
PM de novo sob suspeita, Jornal O Dia , 30 de abril de 2005.

66
Caju, Rio de Janeiro
Vítimas: Wallace Damião Gonçalves de Miranda, Julio César Pereira de Jesus, Flávio
Moraes de Andrade, Eduardo Moraes de Andrade e José Manoel da Silva, 06/01/2004.

Na noite do dia seis de janeiro de 2004, os jovens Wallace Damião Gonçalves de


Miranda, 13 anos, Júlio César Pereira de Jesus, 16 anos, Flávio Moraes de Andrade, 19
anos, Eduardo Moraes de Andrade, 17 anos e José Manoel da Silva, 26 anos estavam
reunidos jogando dominó, próximos a um mercado do Complexo do Parque da Alegria, na
comunidade do Caju, Rio de Janeiro, quando dois policiais militares chegaram
repentinamente atirando contra os rapazes, sem que eles pudessem reagir53.
Segundo informações dos familiares54, as testemunhas contam que os rapazes ainda
tentaram se identificar, solicitando que fossem levados até suas casas para que pudessem
mostrar seus documentos, mas não foram atendidos. Indícios provam que a execução foi
realizada ali mesmo, onde os rapazes estavam reunidos.55
Houve ainda uma sexta vítima que sobreviveu: William Borges dos Reis, que
também foi atingido pelos disparos dos policiais, mas conseguiu fugir e ser socorrido por
vizinhos56.
Na manhã do dia sete de janeiro, três dos cinco corpos foram encontrados em um
lamaçal que fica localizado na própria comunidade, atrás da garagem de uma empresa de
ônibus. Trata-se de um local ermo, onde certamente ninguém poderia presenciar o
momento em que os corpos foram deixados e, principalmente, por quem foram deixados.
Os outros dois corpos foram levados ao Hospital Souza Aguiar e identificados pelos
policiais como supostos traficantes que teriam morrido em troca de tiros com a polícia. 57

53
De acordo com Elizabete Maria de Souza, irmã de Wallace, onze policiais militares se envolveram na ação
daquela noite no morro do Caju. Informações fornecidas, pessoalmente, em entrevista concedida ao Centro de
Justiça Global em 31/05/04.
54
Informações fornecidas por Elizabete Maria de Souza, irmã de Wallace, pessoalmente, em entrevista
concedida ao Centro de Justiça Global em 31/05/04.
55
em frente ao mercado Ribeiro muito sangue espalhado no chão e pedaços de cérebro e cabelo no
local paredes sujas de sangue Informações fornecidas por Elizabete Maria de Souza, em declaração
prestada na 17ª Delegacia Policial, em 15/04/04. Procedimento no. 017-00092/2004.
56
Informações fornecidas por Elizabete Maria de Souza, irmã de Wallace Miranda, em declaração prestada na
17ª Delegacia Policial, em 15/04/04. Procedimento no. 017-00092/2004.
57
Vide nota 2

67
Os corpos das vítimas que foram deixados no lamaçal ficaram horas expostos no
local antes que fossem recolhidos ao IML Instituto Médico Legal. Durante esse período,
os familiares esperaram ao lado dos corpos dos seus filhos e presenciaram a chegada de
policiais que pareciam estar ali para vigiá-los. Sem respeito à dor das famílias um dos
58
policiais disse: Menos um porco para a gente prender .
A ocorrência foi registrada e, segundo familiares, os policiais militares envolvidos
na execução continuam trabalhando na comunidade, tendo sido apenas alocados em
batalhões diferentes.59
Após o crime, alguns policiais militares do 4° Batalhão da Polícia Militar visitaram
a associação de moradores do bairro, onde Elisabete60 trabalhava. Antes das execuções,
policiais nunca haviam visitado a associação, o que leva a crer que essa foi mais uma forma
de amedrontar Elisabete para que ela desistisse de denunciar os policiais. Atualmente, ela
não trabalha mais na associação, preferindo proteger seus colegas de trabalho, que
justificadamente também se sentiam ameaçados pela situação.
O sobrevivente William prestou depoimento logo após o ocorrido. Inicialmente ele
··
alegou ter sido atingido por uma bala perdida , mas depois, a pedido das famílias das
vítimas fatais, voltou à 17ª Delegacia Policial e contou o que realmente lhe havia
acontecido, ou seja, que havia sobrevivido a uma execução realizada por policiais militares.
Logo após seu segundo depoimento, Willam e toda sua família se mudaram da
comunidade. Eles disseram que temiam a presença dos policiais. Na última vez que Willian
foi visto, em fevereiro de 2004, foi possível notar que ele ainda mancava em função do tiro
que havia levado na noite da execução61.
Elisabete, irmã da vítima Wallace, conta que três meses depois, durante uma
passeata organizada pelas mães das vítimas, policiais do 4° Batalhão da Polícia Militar,
onde trabalham os envolvidos na execução dos garotos, tentaram atrapalhar a manifestação.

33
Informações fornecidas por Elizabete Maria de Souza, pessoalmente, em entrevista concedida à equipe do
Centro de Justiça Global em 31/05/04.
59
Idem
60
Informações fornecidas por Elizabete Maria de Souza, pessoalmente, em entrevista concedida à equipe do
Centro de Justiça Global no dia 31/05/04.
61
William foi atingido em uma das pernas. Informações fornecidas pela senhora Aldeci Andrade, mãe de
Eduardo e Flávio Moraes de Andrade, ao Centro de Justiça Global, em encontro na Secretaria Estadual de
Direitos Humanos, em 08/07/2004.

68
Eles ameaçaram os vizinhos para que estes não aderissem à passeata e arrancaram os
cartazes afixados nos postes pelos manifestantes.62
O inquérito policial foi iniciado na 17ª Delegacia Policial63, mas foi transferido para
a delegacia de homicídios64, onde, até o fechamento do presente relato, se encontra em
processo de investigação. Tramita ainda, na Corregedoria Geral Unificada das Polícias
Civil e Militar e do Corpo de Bombeiros, inquérito administrativo que se encontra em fase
investigatória.65 Os familiares dos demais jovens executados continuam a morar na
comunidade do Caju, convivendo com os policiais militares que executaram seus filhos,
sem que o Estado tenha garantido qualquer proteção às sua vidas e integridades pessoais.66
Das quatro mães do referido caso, três estão desempregadas e uma trabalha numa
cooperativa sem carteira assinada.
Segundo as famílias67, desde maio de 2005, elas não recebem mais qualquer
informação referente ao caso. Afirmam que não possuem mais esperança e que na
delegacia de homicídios pediram paciência, pois a orientação da governadora era prioridade
absoluta para a chacina da Baixada. Afirmam também que até hoje o exame de balística não
ficou pronto68.
No dia dois de junho de 2005, o jovem Luis Manoel da Silva, irmão de José Manoel
da Silva69, foi morto por policiais do 4o Batalhão de Polícia dentro da favela do Caju. A
Justiça Global foi avisada do acontecimento e imediatamente as advogadas Renata Lira e
Nadine Borges foram ao local para prestar solidariedade e auxiliar as famílias no que fosse
necessário. Ao chegarem ao local, enquanto aguardavam a chegada do Subsecretário de
Direitos Humanos do Governo do Rio de Janeiro, Professor Paulo Baía e do Defensor

62
Informações fornecidas por Elizabete Maria de Souza, pessoalmente, em entrevista concedida à equipe do
Centro de Justiça Global em 31/05/04.
63
Inquérito Policial n° 0092/20004.
64
Inquérito Policial n° 027/20004.
65
Inquérito Militar N° E-32/0674/0006/2004. Informações fornecidas pela Corregedoria Geral Unificada /
Secretaria de Estado de Direitos Humanos, do estado do Rio de Janeiro, protocolo n°E-32/3281/0006/04.
66
Informações fornecidas por Elizabete Maria de Souza à equipe do Centro de Justiça Global em 31/05/04.(
Conforme anteriores).
67
Informações fornecidas por Elizabete Maria de Souza e Dulcinéia Pereira de Jesus à equipe do Justiça
Global em 09/08/05.
68
O Centro de Justiça Global tentou confirmar, por telefone, esta informação com o delegado Dr. Henrique e
com o inspetor Juarez, não obtendo contato.
69
Uma das vítimas da chacina do Caju.

69
Público Leonardo Rosa, membro do núcleo de Direitos Humanos da Defensoria Pública,
colheram informações com os moradores da região.
As pessoas que estavam na praça, próxima ao local do fato, afirmaram que os
policiais entraram na comunidade de São Sebastião e prenderam um menino, levando-o
para a 17o DP. Outros policiais ficaram sobre uma laje e aguardaram a saída da viatura para
executar Luis Manoel. Os moradores disseram que o rapaz estava sentado em frente ao
mercado da Célia e que a polícia chegou atirando. Os policiais estavam com o rosto
pintado e após a execução colocaram o corpo dentro de um saco. A moradora Elisabete70
ligou para o delegado Fábio da 17o-DP que respondeu ter conhecimento da morte do jovem,
afirmando porém tratar-se de um bandido morto em uma troca de tiros com a polícia.
Assim que o subsecretário chegou ao local, ouviu os mesmos informes dos
moradores e imediatamente ligou para o delegado da 17o DP. Além da preocupação com a
execução de Luis Manoel, todos estavam aflitos com a possibilidade do outro jovem preso
ser também executado. O delegado afirmou ao subsecretário que foram os policiais do 4o
Batalhão que mataram o jovem e que no confronto um policial havia sido ferido. A
ocorrência havia sido de auto de resistência. Quanto ao menino detido, o delegado afirmou
que ele já havia sido liberado.
Até o momento do fechamento desta publicação o caso continua na delegacia de
homicídios e os policiais em liberdade, atuando na mesma área.
Em 20 de julho de 2004, o Centro de Justiça Global enviou um informe (ofício JG/RJ n
192/04) sobre o caso acima narrado para a Relatoria Especial da ONU sobre Execuções
Extrajudiciais, Sumárias ou Arbitrárias.

70
Elizabete Maria de Souza é do grupo mães do Caju, formado após a chacina do Caju.

70
Propostas contra a Impunidade

S.O.S. Queimados71

Ao tratar da complexa área da segurança pública inúmeras são as dúvidas técnicas e


políticas que aparecem, muitas vezes deixando pouco claro quais são as vias que devem ser
percorridas para viabilizar o combate contra a impunidade. Este último capítulo, organizado
pelo S.O.S. Queimados, apresenta propostas concebidas nas discussões entre as instituições
envolvidas, divididas de acordo com a instância política competente para sua
implementação. Em comum, todas buscam soluções viáveis para a questão da violência na
Baixada.

Estas propostas finais visam adicionar ao caráter de reflexão e análise de todo o livro uma
forma de canalizar a indignação e a perplexidade diante de tantos casos como a Chacina da
Baixada e propor medidas que levem a Baixada Fluminense a ser conhecida como um lugar
de paz e não mais pelos alarmantes índices de violência, sobretudo dos óbitos, que muitas
vezes são provocados pelos grupos de extermínio.

Escolhemos então 29 propostas contra a impunidade e a violência, não por acaso, mas para
lembrar a todos as 29 vítimas fatais daquela barbárie que ocorreu na noite de 31 de março
de 2005. Aqui, entretanto, lembrando da única vítima sobrevivente, lançamos a 30ª
proposta: um pacto pela paz, que envolva todos os setores da sociedade neste esforço
necessário.

71
Organizado por Ismael Lopes e Ozias Inocencio

71
A) Para o Ministério da Justiça

1) Criação de um Conselho de Direitos Humanos da Baixada Fluminense com


composição paritária que inclua as três esferas governamentais (prefeituras,
estado e União) e representantes da sociedade civil;

2) Criação de uma força tarefa composta pela Polícia Federal e pela Polícia Civil
para investigar e desmontar os Grupos de Extermínio da Baixada
Fluminense;

B) Para a Secretaria Nacional de Direitos Humanos

3) Implementação do programa nacional de proteção aos defensores de Direitos


Humanos;

C) Para o Congresso Nacional (Câmara e Senado)

4) Imediata aprovação da Lei que cria o Fundo Nacional de Amparo às Vítimas


de Violência FUNAV, cujo Projeto de Lei nº 3.503/04 se encontra para entrar em
pauta na Câmara Federal;

5) Efetivação do controle externo da atividade policial pelo Ministério Público;

6) Aprovação da Lei nº 9.299/96 que prevê ampliação da competência da justiça

comum na elucidação e no julgamento dos crimes praticados por policiais


militares;

72
D) Para o Governo do estado do Rio de Janeiro

7) Ampliação e investimentos para o programa de proteção às testemunhas e


vítimas da violência;

8) Iniciativa de indenização por parte do Estado para as vítimas e familiares de


vítimas de violência policial, assim como ocorreu no caso da Baixada segundo a
Lei nº 2749/05;

9) A adoção por parte das autoridades da segurança pública do Estado de um


plano semestral de redução de homicídios no estado e particularmente na
Baixada Fluminense;

10) Cumprimento da Resolução Nº 73, de 19/11/98, do Conselho Nacional de


Trânsito CONTRAN, que determina os níveis de transmissão luminosa e de
transparência emitidos para as áreas envidraçadas dos veículos, impedindo a
camuflagem nos veículos, que dá a falsa sensação de proteção ao cidadão comum,
mas que acaba protegendo criminosos;

11) Melhoria na remuneração dos policiais e busca de alternativas como o pagamento


de horas-extras para evitar os bicos dos policiais;

12) Reformulação dos métodos de treinamento e dos cursos de formação;

13) Reestruturação e aprimoramento dos procedimentos de seleção dos policiais;

14) Reciclagem dos policiais da ativa a começar pelos Batalhões da Baixada


Fluminense;

73
15) Implementação de programa de atendimento psicológico aos policiais e agentes
de segurança envolvidos em ocorrências seguidas de morte, bem como aos
vitimados por estes e aos seus familiares;

16) Criação de programas que retirem temporariamente das ruas policiais que
participem de eventos com resultado de morte;

17) Premiação para Batalhões, delegacias, equipes e policiais que elucidarem


situações complexas sem o emprego da força, bem como diminuírem o número de
mortes, particularmente na Baixada Fluminense;

18) Fortalecimento e ampliação da Delegacia de Homicídios da Baixada


Fluminense;

19) Elaboração de cartilha sobre direitos e deveres de policiais e cidadãos na


abordagem policial;

20) Campanha pública na Baixada Fluminense sobre a prática policial correta e


ampla divulgação dos canais de denúncia dos abusos praticados por policiais;

21) Garantia de acesso por parte das organizações de Direitos Humanos às perícias
realizadas pelos Institutos de Medicina Legal;

22) Modernização da estrutura dos órgãos periciais e desvinculação da Secretaria


de Segurança Pública;

23) Aparelhamento adequado, autonomia e independência para as corregedorias


dos órgãos de segurança pública, assim como uma gratificação para os
funcionários lotados nelas;

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24) Plena autonomia e independência das ouvidorias de polícia, além de poder de
investigação de denúncias relativas à crimes cometidos por policiais;

25) Afastamento imediato do agente de segurança pública acusado de tortura,


homicídio ou corrupção, durante a fase de investigação;

E) Para as Prefeituras Municipais do estado do Rio de Janeiro

26) Criação da Secretaria Municipal ou Coordenadoria de Direitos Humanos com


uma ouvidoria independente do tipo disque-denúncia, em conformidade com
recomendação dos Planos Nacional e Estadual de Direitos Humanos;

27) Criação ou Reformulação de Guarda Municipal, em sintonia com os Planos


Nacional e Estadual de Direitos Humanos;

28) Criação de Comissões Permanentes de Direitos Humanos nas Câmaras de


Vereadores;

F) Para a mídia

29) Cobertura da violência na Baixada Fluminense condizente com a importância


e gravidade do problema.

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