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Princípios de uma filosofia fisiológica em Nietzsche ou a

elaboração de uma ética dietética


Renato Nunes Bittencourt*

Resumo
Apresentamos a reflexão nietzschiana sobre a indissociabilidade entre filosofia e
fisiologia, relação descartada pela tradição metafísica do pensamento ocidental,
que pouca importância concedeu ao corpo e aos seus elementos intrínsecos,
assim como aos seus processos orgânicos. A valorização da alimentação como
um problema ético e dos processos metabólicos do corpo humano torna-se, em
Nietzsche, uma questão de suma importância para a promoção de um genuíno
estado de saúde existencial.
Palavras-chave: Fisiologia; Alimentação; Saúde; Organismo; Criatividade.

Abstract
We present the nietzschian reflection on the indissociabilidade between
philosophy and physiology, discarded relation for the metaphysical tradition of
the occidental thought, who little importance granted to the body and to its
intrinsic elements, as well as its organic processes. The valuation of the feeding
as an ethical problem and of the metabolic processes of the human body
becomes, in Nietzsche, a question of utmost importance for the promotion of a
genuine state of existencial health.
Key words: Physiology; Alimentation; Organism; Healthiness; Creativity.

*
RENATO NUNES BITTENCOURT é Doutor em Filosofia pelo PPGF-UFRJ/Professor do
Curso de Comunicação Social da Faculdade CCAA/Membro do Grupo de Pesquisas Spinoza & Nietzsche.

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Introdução “fisiológico” na filosofia nietzschiana
extrapola o âmbito do “biológico”,
A filosofia de Nietzsche, caracterizada
referindo-se a uma unidade decorrente da
pela intensa contestação ao ideário moral
interação de um conjunto de forças ou
da tradição do pensamento ocidental,
impulsos, ocorrendo assim uma
apresenta no decorrer de sua maturidade
surpreendente dissolução entre os
intelectual uma surpreendente
âmbitos da cultura e do biológico,
aproximação conceitual com a noção de
fundidos em uma matriz comum, a vida
“fisiologia”: esta, em Nietzsche, não se
criativa do indivíduo em suas interações
reduz apenas a uma compreensão
cotidianas.
material/corporal, mas apresenta campo
semântico muito mais amplo, Posta esta questão preliminar, eis a
significando a conjuntura dos processos apresentação de nosso argumento
de assimilação e regulação do organismo principal: uma vez que Nietzsche
como um todo e aos instintos e fundamenta a sua atividade filosófica a
atividades que potencializam ou partir de critérios “fisiológicos”, não
diminuem a sua haveria na sua obra
vitalidade. Dessa indícios de uma possível
maneira, a acepção ética dietética, isto é, um
nietzschiana de conjunto de valorações
“fisiologia” inclui tanto a sobre o efeito da
o âmbito “físico” alimentação em nosso
(digestão, circulação de organismo e, por
fluidos corporais), conseguinte, em nossas
quanto o âmbito interpretações acerca da
“psíquico” (os afetos, os vida e do mundo?
instintos, os estímulos Nietzsche mesmo revela
nervosos). a sua proposta, conforme
podemos constatar
Podemos afirmar que
claramente no seguinte
uma compreensão
discurso:
filosófica calcada em
uma axiologia idealista- É decisivo, para a sina de
metafísica certamente se um povo e da humanidade,
esforçaria em refutar Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900) que se comece a cultura no
essa perspectiva lugar certo – não na “alma”
nietzschiana, considerando-a como um (como pensava a funesta
reducionismo de tendência estritamente superstição dos sacerdotes e semi-
biologizante, pelo fato de submeter toda sacerdotes): o lugar certo é o corpo,
os gestos, a dieta, a fisiologia, o
a criação cultural humana ao âmbito
resto é consequência disso...
orgânico/fisiológico. Entretanto, cabe (NIETZSCHE, 2006, p.97).
ressaltar que na obra de Nietzsche, a
perspectiva “fisiológica” não representa
apenas os elementos materiais da vida Dentre os pensadores contemporâneos
humana em sua corporeidade extensiva, que problematizam de maneira filosófica
mas também as valorações e símbolos a influência da alimentação na criação
criados através da interação do indivíduo intelectual e nos sistemas culturais,
com a realidade circundante. destacamos em especial o nome de
Michel Onfray que, por sua articulação
Nessas condições, o símbolo do intelectual com a filosofia nietzschiana,

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será utilizado regularmente no decorrer necessidade a qualidade de uma poética”
deste artigo. Cabe ainda ressaltar que (ONFRAY, 1990, p. 87).
será deixada de lado qualquer articulação
intelectual com a relevante obra de Peter Mediante tal explanação, poderíamos
Singer e Jim Mason, A Ética da fazer a seguinte indagação: a formulação
Alimentação, pois o enfoque axiológico da perspectiva idealista-metafísica não
deste livro se sustenta em um viés seria resultante de uma má compreensão
ecológico de responsabilidade ambiental do corpo humano, considerado como
e conscientização pessoal perante os uma dinâmica pulsional de forças vitais
nossos hábitos alimentares cotidianos; tal em constante processo de assimilação de
circunstância evidencia a grande energia? Conforme esclarece Wilson
importância das reflexões de Singer e Frezzatti Jr.,
Mason, sustentada em análises empíricas O corpo ou a unidade orgânica nada
confiáveis, mas que, pelo viés que mais é, para Nietzsche, do que um
seguiremos neste texto, não encontraria conjunto de impulsos. Sendo este
possibilidade de debate mais frutífero. conjunto bem hierarquizado, ou seja,
sendo tornado uma “unidade” pela
Uma filosofia fisiológica e uma ética potência e dominação de um
dietética (alguns) impulso(s), o corpo é
saudável; sendo desorganizado ou
Nietzsche se diferencia da perspectiva anárquico, o corpo é mórbido (...). A
filosófica idealista, enraizada em disposição dos impulsos em um
organismo indica sua condição
valorações metafísicas, justamente por
fisiológica. Se os impulsos estiverem
sua ousadia em colocar o primado das hierarquizados, ou seja, organizados
atividades fisiológicas como fatores segundo um impulso ou conjunto de
determinantes para a elaboração da impulsos dominantes, o corpo é
criação filosófica e dos demais processos sadio; se estiverem desagregados, é
culturais. Por exemplo, no Ecce Homo, doente. Culturas, filosofias, morais e
no § 1 da seção “Por que sou tão sábio”, pensamentos são expressões desses
Nietzsche faz referência sobre suas impulsos (FREZZATTI JR, 2006, p.
peculiaridades metabólicas, e de que 25; 28).
modo elas influenciaram a constituição A enfática valorização da perspectiva
singular do seu filosofar (NIETZSCHE, orgânica, biológica e fisiológica da
2001, p. 24). atividade filosófica em Nietzsche
decorre justamente da compreensão de
Esses mecanismos de análise individual
que são a partir de tais instâncias
de sua organicidade nada mais são do
existenciais que se desenvolvem as
que um método rigoroso de
criações humanas, das mais “grosseiras”
“autoconhecimento” da dinâmica
às mais “elevadas” do ponto de vista
fisiológica de seu corpo: “Em tudo isso –
cultural, ocorrendo assim uma
na escolha da alimentação, de lugar e
desmistificação precisa das avaliações
clima, de distração – reina um instinto de
que representam juízos de valor onde se
autoconservação que se expressa de
revelam o quão eles são marcados pela
maneira mais inequívoca como instinto
herança espiritualista (platônica e cristã)
de autodefesa” (NIETZSCHE, 2001, p.
que perpassa o ideário ocidental.
46-47). Michel Onfray argumenta que “a
Nietzsche argumenta que
leitura de Ecce Homo convida a
considerar a alimentação como uma das De maneira bem outra interessa-me
belas-artes, ou pelo menos faz da uma questão da qual depende mais a

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“salvação da humanidade” do que em prol da secção entre carne e espírito,
qualquer curiosidade de teólogos: a imputado como dotado de uma
questão da alimentação. Para uso superioridade absoluta sobre o âmbito
imediato, podemos colocá-la assim: material. Michel Onfray detecta esse
“como você deve alimentar-se para
dispositivo moralizante na perspectiva
alcançar seu máximo de força, de
virtú no estilo da Renascença, de
metafísica ao sentenciar categoricamente
virtude livre de moralina?” da seguinte forma: “A resistência à
(NIETZSCHE, 2001, p. 36) gastronomia nos informa sobre o gênero,
a obra e o homem” (ONFRAY, 1990, p.
A questão apontada por Nietzsche é 22).
importantíssima para o desenvolvimento
de uma filosofia da cultura imanente; A “fisiologia” como parâmetro
esta se embasa a partir de uma ética axiológico de interpretação da
dietética, isto é, conforme os critérios existência
particulares pelos A “fisiologia” tal
quais o indivíduo como compreendida
norteia a sua axiologia por Nietzsche em seu
existencial para obter, discurso filosófico é a
mediante os seus matriz axiológica pela
cuidados alimentares, qual a “ciência” da
o nível conveniente de vida e da organicidade
saúde e vigor para que corporal estabelece o
sua vida se mantenha seu discurso imanente,
em elevado índice de e pela qual o discurso
plenitude. Porém, filosófico encontra a
Nietzsche, analisando sua mais potente
o desprezo filosófico significação, por ser
ao qual o âmbito do uma perspectiva que
fisiológico foi compreende
submetido pela intrinsecamente o
perspectiva metafísica, corpo humano e as
indaga: “Conhece-se qualidades existenciais
os efeitos morais dos que lhe inferem a
alimentos? Existe uma ampliação de seu nível
filosofia da de saúde.
alimentação?”
(NIETZSCHE, 2003, p. 59). A “fisiologia”, sendo uma espécie de
“ciência imanente do corpo”, estabelece
Se adotarmos uma perspectiva os critérios axiológicos que denunciam
generalizante, poderíamos responder os prejuízos motivados pela consciência
negativamente a tal indagação, pois o moral de mundo no âmbito de nossa
problema da alimentação e dos seus existência, e de que maneira adoecemos
efeitos dietéticos em nosso organismo foi efetivamente em decorrência dela, em
escamoteado nitidamente na corrente especial pela ausência de cuidados
metafísica do discurso filosófico, e tal precisos com a dietética reguladora das
disposição revela os interesses maiores funções nutricionais de nosso organismo.
dessa tendência: a desvalorização do Conforme argumenta Michel Onfray:
corpo, tanto em suas múltiplas funções “Ética e estética confundidas, a dietética
vitais como nos seus potenciais criativos, torna-se ciência da subjetividade. Ela

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demonstra que pode existir uma ciência Com efeito, a partir dessa disposição
do particular como rampa de acesso ao valorativa Nietzsche apresenta o seguinte
universal” (ONFRAY, 1990, p. 28). comentário no § 203 de Aurora:
A importância dos dispositivos
Contra a dieta ruim. – Que horror as
fisiológicos na filosofia de Nietzsche
refeições que fazem as pessoas
decorre de uma experimentação pessoal
atualmente, nos restaurantes e em
acerca das suas próprias dificuldades toda parte onde vive a classe bem
somáticas, provenientes de uma série de aquinhoada da sociedade! Mesmo
moléstias psicossomáticas que o quando prestigiosos eruditos se
afetaram constantemente ao longo de sua reúnem, é o mesmo costume que põe
vida adulta; a grande perspicácia a sua mesa, assim como a do
existencial de Nietzsche consistiu em banqueiro: segundo a regra de
analisar de maneira diligente os efeitos “coisas demais” e de “coisas
deletérios e os efeitos salutares dos variadas” – do que se segue que as
fatores externos do meio ambiente e dos comidas são preparadas em vista do
efeito e não da conseqüência, e
gêneros de consumo em seu organismo,
bebidas estimulantes têm de
obtendo assim um razoável equilíbrio contribuir para afastar o peso na
fisiológico em sua existência. Michel barriga e no cérebro. Que dissolução
Onfray aprofunda essa questão ao e superexcitabilidade devem resultar
esclarecer que disso! Que sonhos terão essas
pessoas! Que artes e que livros serão
Na realidade não escolhemos nosso
a sobremesa de tais refeições!
regime alimentar: encontramos
(NIETZSCHE, 2004, p. 147).
apenas aquele que é o mais
adequado à necessidade do próprio
organismo. A dietética é a ciência da Uma vez que as atividades
aceitação do reino da necessidade psicofisiológicas são, conforme a
por intermédio da inteligência: trata- axiologia imanente de Nietzsche, as
se de compreender o que melhor instâncias reguladoras de nossa
convém ao corpo e não de escolher criatividade ou passividade, a
ao acaso, seguindo critérios que assimilação dos alimentos manifesta
ignoram a necessidade física
importância fundamental para a
(ONFRAY, 1990, p. 90).
constituição das atividades culturais e
Dessa maneira, a influência da intelectuais do indivíduo, determinando
alimentação e dos seus processos assim nossas valorações existenciais e
orgânicos no corpo humano de forma mesmo perspectivas morais. Uma vez
alguma pode vir a ser descartada e que os nutrientes assimilados por nosso
imputada como ontologicamente organismo geram afecções
“inferior” pelo filósofo, pois talvez ele psicossomáticas, não é extravagante
use muito mais o ventre do que a mente afirmarmos que determinadas
para criar os seus conceitos. Anunciando composições químicas dos alimentos
polemicamente tal tese, Nietzsche diz: ingeridos ou influências climáticas
“Todos os preconceitos vêm das interfiram em nossos estados de ânimo e,
vísceras” (NIETZSCHE, 2001, p. 38); tal por conseguinte, em nossas criações nos
sentença merece ser compreendida mais diversos ramos. Michel Onfray,
intelectualmente com probidade abordando esse tema, afirma que “a
analítica, pois decorre de uma questão gastronômica é uma questão
compreensão intrínseca das capacidades estética e filosófica: a cozinha relaciona-
criativas e degenerativas do organismo. se com as belas artes e com as práticas

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culturais das civilizações de todas as se caracteriza pela demora no processo
épocas” (ONFRAY, 1999, p. 124). de assimilação dos nutrientes, exigindo,
necessariamente, a frugalidade de
Nietzsche e a crítica ao cornarismo Cornaro: “Ele não tinha a liberdade de
Pensar a importância da alimentação e comer pouco ou muito, sua frugalidade
dos seus subseqüentes processos não era um ‘livre-arbítrio’: ele ficava
fisiológicos se torna uma espécie de doente quando comia demais”
“ética aplicada” em Nietzsche, pois não (NIETZSCHE, 2006. p. 39). Portanto,
existe uma instância normativa externa Cornaro errara ao estabelecer como
que regule aquilo que é bom ou ruim causa de sua constante saúde o baixo
para o corpo, pressupondo-se apenas a consumo de alimentos, quando em
própria perspicácia individual em verdade esta circunstância nada mais
compreender de forma conveniente o seria do que uma conseqüência imediata
potencial assimilador do organismo. Em de seu baixo índice de ação metabólica.
sua Genealogia da Moral, Nietzsche, ao
A partir dessa problematização, Michel
analisar os pormenores da experiência
Onfray comenta: “Nietzsche chama
dietética proposta por Alvise Cornaro em
cornarismo a essa perversão que consiste
seu Tratado da vida sóbria, considerará
em crer que podemos escolher nosso
que o sábio renascentista veneziano,
regime, quando na verdade é ele que nos
apesar de sua honestidade intelectual,
escolhe. Pois nosso corpo não tem como
cometera um grande equívoco de
escapar a necessidade que o faz ser
compreensão em relação aos seus
frugal ou guloso” (ONFRAY, 1999, p.
próprios processos metabólicos.
155). De alguma maneira, podemos
Cornaro acreditava piamente que o afirmar que tal direcionamento
primado para uma vida saudável se daria fisiológico consiste na negação do
mediante a aplicação de uma rigorosa primado metafísico da noção de livre
dieta frugal, tendência que permitiria ao arbítrio, que postula a autonomia
organismo manter uma constante individual para escolhermos aquilo que é
sobriedade vital e o equilíbrio dos seus mais conveniente para a realização plena
humores corporais, pois “a natureza se dos nossos propósitos desiderativos e nos
satisfaz com pouco” (CORNARO, 1999, torna moralmente responsáveis por todas
p. 48); o desregramento provém do vício as nossas decisões práticas.
da gula e a vida sóbria provém da virtude
da continência (CORNARO, 1999, p. Uma vez que é a esfera “fisiológica” que
36). A proposta dietética proposta pelo conduz nossa vida prática, suprime-se,
longevo veneziano é a de que cada por conseguinte, qualquer traço
indivíduo deve ser médico de si mesmo, axiologicamente estranho ao âmbito
através de sua própria auto-observaçao orgânico na realização de nossa
orgânica: “Não tendo o homem portanto existência; ao invés do ser humano
melhor médico de si próprio nem melhor vislumbrar a adequação pessoal aos
medicamento que a vida regrada, deve-se parâmetros normativos de valores
abraçá-la” (CORNARO, 1999, p. 51). morais, seria para ele mais conveniente
conhecer o potencial assimilador do
Entretanto, Nietzsche destacará que de metabolismo de seu corpo. “O tempo do
modo algum é o baixo consumo metabolismo mantém relação precisa
alimentício que causara a surpreendente com a mobilidade ou a paralisia dos pés
longevidade de Cornaro, mas sim o seu do espírito. O próprio “espírito” não
metabolismo lento que, por tal condição, passa de uma forma desse metabolismo”

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(NIETZSCHE, 2006, p. 38). Por de seu organismo processos
conseguinte, Nietzsche estabelece uma psicofisiológicos próprios, cuja margem
hierarquização simbólica na qual a de diferenciação em relação aos demais
“alma” e suas funções cognitivas se indivíduos se dá por critérios
tornam partes do grande todo que é o rigorosamente específicos,
corpo, perdendo, no entanto, a herança surpreendentes para a concepção
abstrata que lhe foi atribuída pela metafísica de mundo, sustentada por um
tradição metafísica do pensamento viés valorativo emancipado da
ocidental de filiação platônica e sua corporeidade: a alimentação, a digestão,
subseqüente versão moralista cristã. Para a influência do clima e da pressão
Michel Onfray, atmosférica na constituição orgânica do
indivíduo, dentre outros fatores afins. De
A dietética nietzschiana é dinâmica
essencial da confusão da ética e da acordo com Nietzsche,
estética, uma das belas artes cuja Com a questão da alimentação
finalidade é o estilo do querer. Ela é relaciona-se antes de tudo a questão
um auxiliar do exercício de do lugar e do clima. A ninguém é
autojubilação, ou pelo menos do dado viver em qualquer lugar. E
esforço em direção à alegria. Arte de quem tem grandes tarefas a resolver,
si próprio, consumação da que desafiam toda a sua força, tem
necessidade, técnica da imanência, mesmo opção muito limitada. A
ela vale como lógica teórica e como influência climática sobre o
desejo de enobrecimento do corpo metabolismo, seu retardamento, sua
por um estilo de vida nobre aceleração, é tal que um equívoco
(ONFRAY, 1990, p. 100). quanto a lugar e clima pode não
apenas alhear um homem de sua
Por conseguinte, a valoração
tarefa, como inclusive ocultá-la de
“psicofisiológica” da filosofia tudo: ele não consegue tê-la em vista
nietzschiana restabelece o estatuto (NIETZSCHE, 2001, p. 38).
efetivo de importância da corporeidade,
sem que haja, contudo, uma eliminação Assim como um estado de espírito
das funções ditas “superiores” da depressivo tende a criar algo triste, por
condição humana: que um filósofo assolado por uma série
de afetos tristes não elaboraria conceitos
Nós filósofos não temos a liberdade que negam a importância da efetividade
de separar entre alma e corpo como do mundo concreto em que vivemos,
o povo separa, e menos ainda temos
postulando a ascese, a depreciação da
a liberdade de separar entre alma e
espírito. Não somos rãs pensantes,
corporeidade, da experiência imanente
nem aparelhos de objetivação com da realidade? A tipologia do filósofo, no
vísceras congeladas. Temos âmbito do projeto nietzschiano de
constantemente de parir nossos transvaloração dos valores, consiste em
pensamentos de nossa dor e ser uma espécie de “fisiólogo da
maternalmente transmitir-lhe tudo o cultura”, e de certa maneira lhe caberia
que temos em nós de sangue, denunciar os estados de decadência vital
coração, fogo, prazer, paixão, promovidos pelas instituições que
tormento, consciência, destino, tradicionalmente propuseram uma
fatalidade (NIETZSCHE, 2003, p. depreciação efetiva da corporeidade e
222).
das suas funções orgânicas,
Cabe ainda ressaltar que, segundo a compreendidas como ontologicamente
interpretação nietzschiana, cada inferiores diante da sublimidade da
indivíduo vivencia na dinâmica pulsional “alma”.

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Conforme o desenvolvimento da compreensão plena do ser humano, não
argumentação cumpre ainda destacar que obstante a sua busca pela “interioridade
o próprio ressentimento, disposição da alma”. Afinal, o problema
afetiva própria do indivíduo incapaz de fundamental para Nietzsche em sua
expressar adequadamente as suas forças “filosofia fisiológica” é a interpretação e
plásticas de criatividade e que por isso valoração sobre a vida enquanto
projeta a responsabilidade por sua processo de constante criação existencial
própria fraqueza em uma figura externa e assimilação de forças, e não uma
imputada como “inimiga”, encontraria, compreensão teleológica da existência
conforme a “filosofia fisiológica” de sustentada por uma perspectiva
Nietzsche, um enraizamento orgânico: transcendente.
“Alguém deve ser culpado que eu Em decorrência da inexistência de um
esteja mal” – esta maneira de método fisiológico de interpretação das
raciocinar é comum a todos os pulsões orgânicas do corpo humano e
doentes, tanto mais quanto lhes for das condições de vida em suas relações
desconhecida a verdadeira causa do com o meio ambiente, a tradição
seu mal-estar, a fisiológica (ela pode filosófica metafísica e a moral cristã em
encontrar-se, digamos, numa
especial estabelecem seus postulados
enfermidade do nervus sympathicus,
numa anormal secreção de bílis,
especificamente no plano das abstrações
numa pobreza de sulfato e fosfato de existenciais e das superstições; por
potássio no sangue, em estados de conseguinte, tais perspectivas
tensão do baixo ventre que impedem empobrecem assim os seus âmbitos
a circulação do sangue, ou ainda valorativos e, tanto pior, promovem o
numa degeneração dos ovários etc.). contínuo adoecimento do indivíduo que
Os sofredores são todos se filia a tais sistemas discursivos.
horrivelmente dispostos e Nietzsche expressa de maneira
inventivos, em matéria de pretextos esclarecedora sua crítica ao projeto
para seus afetos dolorosos; eles moralista, incapaz de perceber como nos
fruem a própria desconfiança, a
encontramos irremediavelmente
cisma com baixezas e aparentes
prejuízos, eles revolvem as vísceras
entrelaçados aos processos orgânicos:
de seu passado e seu presente, atrás Pobre humanidade! – Uma gota de
de histórias escuras e questionáveis, sangue a mais ou a menos, em nosso
em que possam regalar-se em uma cérebro, pode tornar extremamente
suspeita torturante, e intoxicar-se de miserável e dura a nossa vida, de tal
seu próprio veneno de maldade – modo que sofremos mais com essa
eles rasgam as mais antigas feridas, gota do que Prometeu com seu
eles sangram de cicatrizes há muito abutre. O mais terrível, porém,
curadas, eles transformam em acontece quando não se sabe que
malfeitores o amigo, a mulher, o essa gota é a causa. E sim “o
filho e quem mais lhes for próximo Diabo!” Ou o “pecado!” −
(NIETZSCHE, 2000, p. 117). (NIETZSCHE, 2004, p. 83).
Mediante esta exposição de Nietzsche, A “fisiologia” em Nietzsche se
poderíamos destacar que a visão moral apresenta, nessas condições, como um
de mundo, manifestada nas religiões instrumento de interpretação da vida
normativas e nas concepções filosóficas humana que resgata de maneira precisa o
sustentadas por axiologias metafísicas, valor da corporeidade como questão
não são capazes de apresentar filosófica crucial, promovendo assim um
argumentações plausíveis para a importante campo de debate intelectual

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sobre os cuidados convenientes para a corriqueiros da vida cotidiana, que
promoção da saúde orgânica e, por influenciam, talvez imperceptivelmente,
conseguinte, da própria sociedade que se a realização das suas inúmeras ações e
beneficia da ampliação do grau de bem- criações intelectuais. Da mesma maneira
estar fisiológico dos indivíduos. que o uso de remédios influencia a
percepção humana, como podemos
Considerações finais
descartar a influência dos alimentos em
Conforme vimos no decorrer deste texto, nossas valorações e interações
a filosofia nietzschiana se caracteriza por cotidianas? A dietética se trata, portanto,
conceder importância capital para a de uma questão ética fundamental para
relação entre a criação intelectual e as um discurso filosófico imanente.
condições orgânicas do corpo em seus
processos nutritivos e interativos com o
meio ambiente. Antes de denotar uma Referências
submissão da atividade filosófica a CORNARO, Alvise. Tratado da vida sóbria.
parâmetros materialistas, em verdade Trad. de José Colaço Barreiros. Lisboa:
essa concepção “fisiológica” de Antigona, 1999.
Nietzsche promove a afirmação dos FREZZATTI JR, Wilson Antonio. A Fisiologia
caracteres imanentes da vida, de Nietzsche: a superação da dualidade
legitimando axiologicamente todas as cultura/biologia. Ijuí: Ed.Unijuí, 2006.
esferas recalcadas pelo viés metafísico MASON, Jim; SINGER, Peter. A Ética da
que perpassa nossa tradição intelectual. Alimentação: como nossos hábitos alimentares
influenciam nosso bem-estar. Trad. de Cristina
Nessas circunstâncias, após essas Yamagami. Rio de Janeiro: Ed. Campos/Elsevier,
explanações é pertinente que façamos a 2007.
seguinte indagação: “de que maneira as NIETZSCHE, Friedrich. Aurora: Reflexões
filosofias caracterizadas pela sobre os problemas morais. Trad. de Paulo
desvalorização do corpo, da sexualidade, César de Souza. São Paulo: Companhia das
da vida física, assim como dotadas de Letras, 2004.
acentos pessimistas e tristonhos, seriam ___________. Crepúsculo dos Ídolos ou como
talvez axiologicamente distintas, se se filosofa com o martelo. Trad. de Paulo César
de Souza. Companhia das Letras: São Paulo:
porventura os seus pensadores tivessem
2006.
mantido os devidos cuidados para com
as suas respectivas funções ___________. Ecce Homo – como alguém se
torna o que se é. Trad. de Paulo César de Souza.
psicofisiológicas, preocupando-se de São Paulo: Companhia das Letras, 2001.
forma mais detalhada com os seus
regimes alimentares e com a assimilação ___________. A Gaia Ciência. Trad. de Paulo
César de Souza. São Paulo: Companhia das
adequada de nutrientes para o seu Letras, 2003.
próprio organismo, assim como pela
___________. Genealogia da Moral – Uma
influência do meio ambiente sobre os polêmica. Trad. de Paulo César de Souza. São
nervos?” Paulo: Companhia das Letras, 2000.
Tal questionamento de modo algum ONFRAY, Michel. A razão gulosa: filosofia do
pretende enveredar pelo âmbito da gosto. Trad. de Ana Maria Scherer. Rio de
jocosidade, pois é um assunto Janeiro: Rocco, 1999.
rigorosamente digno de seriedade que o ________. O Ventre dos Filósofos – Crítica da
filósofo se considere como um indivíduo razão dietética. Trad. de Ana Maria Scherer. Rio
imediatamente integrado aos elementos de Janeiro: Rocco, 1990.

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