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Os crocodilianos ou crocodilos são os répteis da ordem Crocodilia (ou Crocodylia), na qual existem 24

espécies vivas e numerosos fósseis. São répteis maioritariamente grandes, predadores e


semiaquáticos. Pertencem a esta ordem os crocodilos (família Crocodylidae), os aligátores e caimões
(ambos da família Alligatoridae) e os gaviais (da família Gavialidae). Embora por vezes a palavra
crocodilo seja utilizada vulgarmente para se referir a todos os membros da ordem, propriamente
falando só são verdadeiros crocodilos os da família dos crocodilídeos (Crocodylidae). Surgiram há 83,5
milhões de anos no Cretáceo tardio (na época Campaniana) e são os parentes vivos mais próximos
das aves, dado que os dois grupos são os únicos sobreviventes do grande grupo Archosauria. O clado
Pseudosuchia, que é membro do grupo total da ordem, surgiu há uns 250 milhões de anos no
Triássico, diversificando-se durante o Mesozoico.

Répteis de grande porte, compactos e com forma corporal que lembra os lagartos, os crocodilianos
apresentam focinhos longos e achatados, caudas comprimidas lateralmente e olhos, ouvidos e
narinas voltados para o topo da cabeça. São bons nadadores e em terra podem caminhar
naturalmente, com "passo alto" (levantando o corpo do chão) ou com "passo baixo" (perto do chão),
e as espécies menores são até mesmo capazes de galopar. A sua pele é grossa e coberta de escamas
que não se sobrepõem. Os dentes são cónicos e possuem uma mordida muito poderosa. O coração
dos crocodilianos apresenta quatro câmaras; tal como as aves, possuem um sistema unidirecional de
ventilação ao redor dos pulmões e, conforme outros répteis não avianos, são ectotérmicos.

Durante décadas foram se utilizando indiferentemente as ortografias Crocodilia e Crocodylia,


começando pela redescrição do grupo feito por Schmidt a partir do termo anteriormente conhecido
por Loricata.[1] Schmidt usou o termo mais antigo Crocodilia, baseando-se no nome original que
havia sido dado por Richard Owen.[2] Pouco depois, Wermuth optou por usar Crocodylia como nome
mais apropriado para este grupo redescrito,[3] baseando-se no nome do género-tipo Crocodylus
(Laurenti, 1768).[4] Dundee, numa revisão de muitos nomes de répteis e anfíbios, argumentou
fortemente em favor de Crocodylia como melhor ortografia para o grupo.[5] Este uso justifica-se pela
existência de outros táxons com um "y", como a superordem Crocodylomorpha. No entanto, quando
publicou o nome em 1842, Richard Owen utilizou o "i". Essa ortografia também é mais consistente
com o termo em grego κροκόδειλος.[6] Contudo, até à chegada da cladística e da nomenclatura
filogenética não foram apresentadas justificações mais sólidas para optar por uma ortografia ou por
outra.[7]

Antes de 2003, Crocodilia/Crocodylia era um grupo que compreendia tanto os animais modernos de
hoje em dia (o grupo coroa) como os seus parentes mais distantes, mas que agora estão situados em
grupos maiores chamados Crocodylomorpha e Pseudosuchia.[7] Com a actual definição, Crocodylia
está restrito apenas aos antepassados mais recentes dos crocodilianos actuais (jacarés, crocodilos e
gaviais), ficando excluídos os mais distantes.[7] Esta distinção é mais importante para os
paleontólogos que estudam a evolução dos crocodilos. Portanto, as ortografias alternativas Crocodilia
e Crocodylia são ainda intercambiáveis na literatura neontológica (que estuda só os organismos
existentes, não os extintos).

Crocodilia parece ser uma latinização da palavra grega κροκόδειλος (crocodeilos), que significa lagarto
e crocodilo-do-nilo.[8] Crocodylia, tal como Wermuth cunhou, em relação ao género Crocodylus,
parece que deriva do antigo grego κρόκη (kroke),[9] que significa praia de cascalho, e de δρîλος ou
δρεîλος (dr(e)ílos) que significa "verme". O nome pode referir-se ao hábito que o animal tem de
apanhar banhos de sol nas ribeiras de gravilha do Nilo.[10]
O tamanho dos crocodilianos varia entre o das espécies pequenas de Paleosuchus e Osteolaemus,
que atingem entre 1 a 1,5 metro, à do crocodilo-de-água-salgada, que alcança os 7 metros e pode
pesar até 2 mil quilogramas, embora algumas das espécies pré-históricas, como o Deinosuchus do
Cretáceo tardio, eram ainda maiores e alcançavam os 11 metros[11] e 3 450 quilogramas.[12]
Costumam apresentar dimorfismo sexual, no qual os machos são bem maiores do que as fêmeas.[13]
Apesar de apresentarem certa diversidade na forma do focinho e dentes, todas as espécies de
crocodilianos possuem essencialmente a mesma morfologia corporal. Têm um corpo robusto com
aparência de lagarto, com focinhos alongados e aplanados e costas lateralmente compridas
(conduplicadas).[12] As patas são de tamanho reduzido; as patas anteriores têm cinco dedos com
pouca ou nenhuma membrana interdigital, e as patas traseiras têm quatro dedos palmados e um
quinto dedo rudimentar.[14] O esqueleto é bastante característico dos tetrápodes, embora o crânio,
pelve e costelas sejam especializados;[13] em particular, os processos cartilaginosos das costelas
permitem que o tórax colapse quando mergulham e a estrutura da pelve pode acomodar grandes
massas de comida[15] ou mais ar nos pulmões.[16] Ambos os sexos têm cloaca, uma só câmara com
uma única saída na base da cauda na qual se abrem os orifícios intestinal, urinário e o tracto
reprodutivo,[13] que abriga o pénis dos machos e o clítoris das fêmeas.[17] O pénis dos crocodilianos
está permanentemente erecto e depende de músculos cloacais para a sua eversão, e de ligamentos
elásticos e um tendão para ser recolhido.[18] Os testículos ou ovários estão localizados perto dos
rins.[19]

Os olhos, ouvidos e orifícios nasais dos crocodilianos estão na parte superior da cabeça. Isto
permite-lhes caçar as suas presas com a maior parte do seu corpo submerso.[20] Os crocodilianos
possuem nos olhos um tapetum lucidum que aperfeiçoa a visão em condições de pouca
luminosidade.[14] A sua vista para o ar é muito boa, mas é significativamente pior debaixo de
água.[21] A fóvea doutros articulados normalmente é circular, mas nos crocodilos consiste numa
barra horizontal formada por muitos receptores apertadamente juntos que cruza a parte do meio da
retina. Possuem ainda uma membrana nictitante que cobre os olhos sempre que o animal mergulha
por completo. Além disso, algumas glándulas da membrana nictitante segregam um lubrificante
salgado que mantém o olho limpo. Quando um crocodiliano abandona a água e se seca, esta
substância torna-se visível, parecendo-se com "lágrimas".[14]

Os ouvidos estão adaptados para ouvir tanto no ar como na água, e as membranas timpânicas estão
protegidas por solapas que podem abrir-se ou fechar-se por acção muscular.[22] Os crocodilianos têm
uma elevada amplitude auditiva, com uma sensibilidade comparável à da maioria das aves e
mamíferos.[23] Possuem apenas uma câmara olfactiva e o órgão vomeronasal ausenta-se nos
adultos,[24] o que indica que toda a percepção olfactiva está limitada ao sistema olfactivo.
Experimentos feitos com olfactómetros sobre o comportamento indicam que os crocodilos detectam
tanto as substâncias químicas que viajam pelo ar como as solúveis em água e utilizam o seu sistema
olfactivo para caçar. Quando estão sobre a água, os crocodilos intensificam a sua capacidade de
detectar substâncias olorosas voláteis por meio dum bombeio gular, que é um movimento rítmico do
fundo da faringe.[25][26] O seu bem desenvolvido nervo trigémeo permite-lhes detectar vibrações na
água.[27] Não conseguem mexer livremente a língua, que se mantém fortemente fixa por uma
membrana rogada.[15] Apesar de o cérebro do crocodilo ser bastante pequeno, possuem capacidade
de aprendizagem maior do que a maioria dos répteis.[28] Embora não possuam cordas vocais como
as dos mamíferos nem de siringe como a das aves,[29] os crocodilianos podem produzir vocalizações
fazendo vibrar três abas que têm na laringe.[30]