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CAPA

Uma obra de grande fôlego. Brilhante.


New York Times

Um livro destinado a tornar-se um clássico.


USA Today

Absorvente. Marcante. Washington Post

A Rapariga Que Roubava Livros


MARKUS ZUSAK

Um livro extraordinário, marcante, de grande beleza.


Sunday Telegraph

Uma escrita soberba. Uma leitura impossível de interromper.


The Guardian

EDITORIAL PRESENÇA

BADANA DA CAPA

MARKUS ZUSAK nasceu em 1975, na Austrália. E filho de mãe alemã e pai austríaco, cujas
memórias da Segunda Guerra o inspiraram a escrever este livro. Este é o seu quinto romance e foi
distinguido com vários importantes prémios e nomeações internacionais. Permaneceu 40 semanas
no top dos livros mais vendidos do New York Times, tendo chegado ao 1º lugar, e 40 foi também o
número de semanas de permanência na lista de bestsellers da revista Veja (Brasil). Inicialmente
classificado como juvenil, este livro tem conquistado leitores de todas as faixas etárias em perto de
30 países do mundo.

CONTRACAPA

Grandes Narrativas

Molching, um pequeno subúrbio de Munique, durante a Segunda Guerra-Mundial. Na Rua Himmel


as pessoas vivem um dia-a-dia penoso, sob o peso da suástica e dos bombardeamentos cada vez
mais frequentes, mas não deixaram de sonhar. A Morte, narradora omnipresente e omnisciente,
cansada de recolher almas, observa com compaixão e fascínio a estranha natureza dos humanos.
Através do seu olhar intemporal, é-nos contada a história da pequena Liesel e dos seus pais
adoptivos, Hans, o pintor acordeonista de olhos de prata, e Rosa, a mulher com cara de cartão
amarrotado, do pequeno Rudy, cujo herói era o atleta negro Jesse Owen, e de Max, o pugilista
judeu, que um dia veio esconder-se na cave da família Hubermann e que escreveu e ilustrou livros,
para oferecer à rapariga que roubava livros, sobre as páginas de Mein Katnpf recuperadas com tinta
branca, ou ainda a história da mulher que convidou Liesel a frequentar a sua biblioteca, enquanto os
nazis queimavam livros proibidos em grandes fogueiras. Um livro sobre uma época em que as
palavras eram desmedidamente importantes no seu poder de destruir ou de salvar. Um livro
luminoso e leve como um poema, que se lê com deslumbramento e emoção.

PÁGINA DE ROSTO
MARKUS ZUSAK
A RAPARIGA QUE ROUBAVA LIVROS
Tradução de Manuela Madureira
EDITORIAL PRESENÇA

FICHA TÉCNICA

Título original: The Book Thief


Autor: Markus Zusak
Text copyright © Markus Zusak 2005
Illustrations copyright © Trudy White 2005
Tradução © Editorial Presença, Lisboa, 2008
Tradução: Manuela Madureira
Ilustração da capa: Finn Campbell – Notman/www.dutchuncle.co.uk
Composição, impressão e acabamento: Multitipo — Artes Gráficas, Lda.
1ª Edição, Lisboa, Fevereiro, 2008
Depósito legal n.º 271 138/08

Reservados todos os direitos para a língua portuguesa (excepto Brasil) à


EDITORIAL PRESENÇA
Estrada das Palmeiras, 59
Queluz de Baixo
2730-132 BARCARENA
Email: info@presenca.pt
Internet: http://www.presenca.pt

Para Elisabeth e Helmut Zusak, com amor e admiração.

PRÓLOGO

Uma cordilheira de escombros


onde o narrador apresenta:
a si próprio — as cores — e a rapariga que roubava livros

MORTE E CHOCOLATE
Primeiro as cores.
Depois os humanos.
E geralmente assim que eu vejo as coisas.
Ou, pelo menos, tento.

EIS UM PEQUENO FACTO


Vocês vão morrer.

Para falar francamente, estou a tentar mostrar-me prazenteira acerca deste tópico, embora a maioria
das pessoas sinta dificuldade em me acreditar, por muito que eu proteste. Por favor, confiem em
mim. Eu posso definitivamente ser prazenteira. Posso ser amável. Agradável. Afável. E isso só nos
A’s. Só não me peçam para ser simpática. Simpatia não tem nada a ver comigo.

REACÇÃO AO FACTO ACIMA MENCIONADO


Isto preocupa-os?
Peço-lhes — não tenham medo.
Sou seguramente justa.

É claro, uma apresentação.


Um começo.
Que é feito das minhas boas maneiras?
Podia apresentar-me devidamente, mas não é de facto necessário. Vocês conhecer-me-ão
suficientemente bem e suficientemente depressa, dependendo de um amplo leque de variáveis.

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Basta dizer que em determinado ponto do tempo, me encontrarão debruçada sobre vós, tão jovial
quanto possível. A vossa alma estará nos meus braços. No meu ombro pousará uma cor. Levar-vos-
ei docemente comigo.
Nesse momento, vocês estarão lá deitados (raramente encontro pessoas de pé). Estarão
amalgamados no vosso próprio corpo. Talvez haja uma descoberta; um grito que gotejará pelo ar. O
único som que ouvirei depois disso será a minha própria respiração, e o som do cheiro, dos meus
passos.
A questão é saber de que cor estará tudo nesse momento em que eu vos for buscar? O que estará o
céu a dizer?
Pessoalmente, gosto de um céu cor de chocolate. Chocolate preto, preto. As pessoas dizem que
condiz comigo. No entanto, procuro desfrutar de cada cor que vejo — de todo o espectro. Cerca de
um bilião de sabores, nenhum igual a outro, e um céu para sorver lentamente. Diminui o stress.
Ajuda-me a descontrair.

UMA PEQUENA TEORIA


As pessoas observam as cores de um dia apenas no seu princípio e fim, mas para mim é óbvio que
um dia se funde numa multitude de tonalidades e entoações, a cada momento que passa. Uma única
hora pode consistir em milhares de cores diferentes. Amarelos ceráceos, azuis de morrinha. Negros
tenebrosos. No meu trabalho, faço questão de os notar.

Como já aludi, a única coisa que me salva é a distracção. E o que me mantém sã de espírito. Ajuda-
me a aguentar, considerando a extensão de tempo a que venho desempenhando esta tarefa. O
problema é quem poderia alguma vez substituir-me? Quem poderia entrar, enquanto eu faço uma
pausa, no vosso destino de férias-padrão em estilo de resort, seja ele tropical ou na variedade de
prática de esqui? A resposta, claro, é ninguém, o que me levou a tomar uma decisão consciente e
deliberada — fazer da distracção as minhas férias. Desnecessário será dizer que faço férias em
acréscimos. Em cores.
Ainda assim, é possível que vocês estejam a perguntar: por que é que ela precisa sequer de férias?
Precisa de se distrair de quê?
O que me leva ao ponto seguinte.
São os humanos que ficam.
Os sobreviventes.
E para esses que eu não suporto olhar, embora em muitas ocasiões ainda falhe. Procuro
deliberadamente as cores para manter o espírito longe deles mas, de vez em quando, observo os que
são deixados para trás desintegrando-se por entre o puzzle da percepção, do desespero e da
surpresa.

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Têm corações destruídos. Têm pulmões exaustos.
O que, por sua vez, me leva ao assunto de que lhes estou a falar esta noite, ou neste dia, qualquer
que seja a hora e a cor. Trata-se da história de um desses sobreviventes perpétuos — um perito em
ser deixado para trás.
É apenas uma pequena história, na realidade, acerca, entre outras coisas, de:
- Uma rapariga
- Algumas palavras
- Um acordeonista
- Alguns alemães fanáticos
- Um pugilista judeu
- E uma boa dose de furtos
- Vi a rapariga que roubava livros três vezes.

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JUNTO À LINHA DE COMBOIO


A primeira é uma coisa branca. Do tipo ofuscante.
Alguns de vocês estão provavelmente a pensar que o branco não é realmente uma cor e todo esse
género de disparates estafados. Pois bem, eu estou aqui para lhes dizer que é. O branco é sem
qualquer dúvida uma cor e, pessoalmente, não creio que queiram discutir comigo.

UMA DECLARAÇÃO TRANQUILIZADORA


Por favor, fiquem calmos, apesar dessa ameaça anterior. Sou só uma atoarda...
Eu não sou violenta.
Eu não sou maliciosa.
Eu sou um resultado.

Sim, era branco.


Dava a sensação de que todo o globo se encontrava envolto em neve. Como se a tivesse vestido, da
mesma maneira que se veste uma camisola. Ao lado da linha férrea, havia pegadas enterradas até às
canelas. As árvores tinham cobertores de gelo.
Como podem calcular, morrera alguém.

Não podiam deixá-lo ficar no chão. Para já, não era grande problema, mas em breve a linha mais à
frente seria desimpedida e o comboio teria de prosseguir.
Havia dois guardas.
Havia uma mãe e a sua filha.
Um cadáver.
A mãe, a rapariga e o cadáver permaneciam obstinados e silenciosos.

Bem, que mais queres tu que eu faça?

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Os guardas eram um alto e outro baixo. O alto falava sempre primeiro, embora não fosse ele a
mandar. Olhou para o mais baixo e mais gordo. O de rosto forte e sanguíneo.
— Bem — foi a resposta —, não podemos deixá-los assim, não achas?
O mais alto começava a perder a paciência. — Por que não?
E o mais baixo quase explodiu. Ergueu os olhos para o queixo do mais alto e gritou: — Spinnst du?
És estúpido? — A fúria que lhe enchia as bochechas aumentava a cada instante. A pele dilatava-se.
— Anda — disse ele, avançando pela neve. — Levamo-los aos três, nem que tenhamos que os
transportar ao colo. Vamos informar a próxima paragem.

Quanto a mim, já cometera o mais elementar dos erros. Não consigo explicar-vos a severidade do
meu desapontamento. Originalmente, eu fizera tudo bem:
Estudara o céu de um branco ofuscante que se avistava pela janela do comboio em marcha. Inalei-o
praticamente, mas mesmo assim hesitei. Verguei — interessei-me. Pela rapariga. A curiosidade foi
mais forte do que eu, e resignei-me a ficar até o meu horário o permitir. E observei.
Vinte e três minutos mais tarde, quando o comboio foi parado, desci com eles.
Tinha nos braços uma pequena alma.
Desviei-me um pouco para a direita.

O dinâmico duo de guardas do comboio regressou para junto da mãe, da rapariga e do pequeno
cadáver masculino. Lembro-me perfeitamente de que a minha respiração nesse dia era sonora.
Surpreende-me que os guardas não tenham dado por mim quando passaram. O mundo cedia agora,
sob o peso de toda aquela neve.
Talvez uns dez metros para a minha esquerda, a rapariga pálida, de estômago vazio, mantinha-se de
pé, enregelada.
A boca tremia-lhe.
Tinha os braços frios cruzados.
Havia lágrimas geladas na face da rapariga que roubava livros.

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O ECLIPSE
A seguinte é uma assinatura preta, para mostrar os pólos da minha versatilidade, se quiserem. Era o
instante mais negro antes da alvorada.
Dessa vez eu fora buscar um homem, talvez de uns vinte e quatro anos. Foi uma coisa bela em
certos aspectos. O avião ainda tossicava. Escapava-se fumo dos seus dois pulmões.
Ao despenhar-se, abrira três profundas feridas no solo. As suas asas eram agora braços cortados.
Não haveria mais de adejar. Não para este pequeno pássaro metálico.

ALGUNS OUTROS BREVES FACTOS


Às vezes chego demasiado cedo.
Precipito-me, e algumas pessoas agarram-se mais
à vida do que seria de esperar.

Após uma pequena série de minutos, o fumo extinguiu-se. Não restara nada.
O primeiro a chegar foi um rapaz, com a respiração descontrolada e o que parecia ser uma caixa de
ferramentas. Muito agitado, aproximou-se da cabina e observou o piloto, avaliando se estaria vivo,
o que nessa altura ainda acontecia. A rapariga que roubava livros chegou talvez trinta segundos
mais tarde.
Os anos tinham passado, mas eu reconheci-a.
Vinha ofegante.

Da caixa de ferramentas o rapaz tirou, quem havia de dizer, um ursinho de pelúcia.


Esticou-se através do pára-brisas despedaçado e pousou-o no peito do piloto. O urso sorridente
ficou aninhado entre os destroços atravancados do homem e o sangue. Alguns minutos depois,
aventurei-me. Era a altura certa.

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Entrei, libertei a sua alma e levei-a suavemente comigo.


Ficou apenas o corpo, um vago cheiro a fumo e o ursinho sorridente.

Quando a multidão chegou em força, as coisas, é claro, haviam mudado. O horizonte começava a
incendiar-se. O que restava do negrume lá em cima era agora apenas um rabisco, a desaparecer
rapidamente.
O homem, em comparação, adquirira a cor do osso. Pele cor de esqueleto. Uma farda amarrotada.
Os seus olhos estavam frios e castanhos — como manchas de café — e a derradeira garatuja lá em
cima formava o que, a mim, me pareceu uma forma esquisita, mas familiar. Uma assinatura.

A multidão fez o que fazem as multidões.


À medida que eu abria caminho por entre elas, as pessoas iam-se debatendo com o sossego
envolvente. Era uma pequena mistura de movimentos de mãos desarticulados, frases abafadas, e
voltas mudas, constrangidas.
Olhando de relance para trás, para o avião, vi que a boca aberta do piloto parecia sorrir.
Uma graça final de mau gosto.
Mais uma piada humana.
Permaneceu amortalhado na sua farda enquanto a luz cinzenta desafiava o céu. Tal como com
muitos outros, quando comecei a afastar-me, pareceu cair de novo uma sombra rápida, um
momento final de eclipse — o reconhecimento de mais uma alma desaparecida.
Sabem, durante um instante, apesar de todas as cores que tocam e engolfam aquilo que vejo neste
mundo, eu capto frequentemente um eclipse quando morre um humano.
Já vi milhões.
Já vi mais eclipses do que gosto de recordar.

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A BANDEIRA
A última vez que a vi era vermelha. O céu assemelhava-se a sopa, fervilhando agitada. Em alguns
sítios queimara-se. Havia migalhas pretas, e castanhas, sulcando a vermelhidão.
Mais cedo, houvera garotos a jogar à macaca ali, na rua que apresentava o aspecto de páginas
manchadas de óleo. Quando eu cheguei, ainda lhes conseguia ouvir os ecos. Os pés a bater no chão.
As vozes infantis a rir, e os sorrisos como sal, mas deteriorando-se rapidamente.
Depois, bombas.

Dessa vez, tudo foi demasiado tarde.


As sirenes. Os gritos de cuco na rádio. Tudo demasiado tarde.

No espaço de minutos, amontoaram-se pilhas de cimento e terra. As ruas eram veias rasgadas. O
sangue correu até secar no solo, e os corpos ficavam ali presos, como despojos após a cheia.
Estavam colados ao chão, todos eles. Um monte de almas.
Seria o destino?
Infortúnio?
Seria isso que os colava assim ao solo?
Claro que não.
Não sejamos estúpidos.
E mais provável que tivesse a ver com as bombas caídas, atiradas por humanos escondidos nas
nuvens.
Sim, o céu estava agora de um vermelho devastador, intenso. A pequena cidade alemã fora uma vez
mais assolada. Flocos de cinzas tombavam de forma tão encantadora que nos sentíamos tentados a
estender a língua para os apanhar, para os saborear. Só que ter-nos-iam chamuscado os lábios. Ter-
nos-iam queimado a boca.

18

Vejo claramente a cena.


Preparava-me para me afastar quando a descobri ajoelhada ali. Havia uma cordilheira de escombros
escrita, desenhada, erigida à sua volta. Ela apertava com força um livro.

À parte todo o resto, a rapariga que roubava livros desejava desesperadamente regressar à cave,
para escrever, ou para reler a sua história uma última vez. Em retrospectiva, vejo-o muito
obviamente no seu rosto. Ela morria por isso — pela sua segurança, pelo seu aconchego — mas
não conseguia mover-se. Aliás, a cave já nem sequer existia. Fundira-se na paisagem mutilada.

Por favor, volto a pedir-lhes que me acreditem.


Eu quis parar. Curvar-me.
Quis dizer:
— Lamento, criança.
Mas isso não é permitido.
Não me curvei. Não falei.
Em vez disso, observei-a durante um bocado. Quando ela conseguiu mover-se, segui-a.

Ela deixou cair o livro.


Ajoelhou-se.
A rapariga que roubava livros soltou um uivo.

O livro dela foi pisado várias vezes quando a limpeza começou, e embora fossem dadas ordens
apenas para limpar os escombros de cimento, a peça mais preciosa da rapariga foi atirada para um
camião de lixo, e nessa altura senti-me compelida a agir. Subi para lá e peguei-lhe, sem me
aperceber de que o iria guardar e folhear vários milhares de vezes ao longo dos anos. Iria observar
os lugares em que nos cruzáramos, e admirar-me com o que a rapariga vira e como sobrevivera. É o
máximo que posso fazer — ver isso ajustar-se a tudo o resto que presenciei durante esse tempo.

Sempre que me lembro dela, vejo uma longa lista de cores, mas são as três em que a vi em carne e
osso que mais ressaltam. Por vezes consigo flutuar muito acima desses três momentos. Mantenho-
me suspensa, até uma verdade asséptica sangrar rumo à claridade.
E então que as vejo reduzidas a fórmulas.

19

AS CORES VERMELHO BRANCO PRETO:


Tombam em cima umas das outras. A assinatura preta rabiscada, sobre o branco global ofuscante,
sobre o vermelho espesso e pastoso.
Sim, lembro-me dela com frequência e num dos bolsos da minha vasta colecção, conservei a sua
história para contar. É uma de entre a pequena legião que trago comigo, cada uma delas
extraordinária por si só. Cada uma delas uma tentativa — um imenso salto tentativo — para me
provar que vocês, e a vossa existência humana, são merecedores.
Ei-la aqui. Uma de várias.
A Rapariga Que Roubava Livros.
Se vos apetece, vinde comigo. Contar-vos-ei uma história.
Mostrar-vos-ei uma coisa.

20

PARTE UM

o manual do coveiro apresentando:


a rua himmel — a arte de saumenschat — uma mulher com pulso de ferro — uma tentativa de beijo
— jesse owens — lixa — o cheiro da amizade — um campeão de pesos-pesados — e a mãe de
todas as watschens

A CHEGADA À RUA HIMMEL


Aquela última vez.
Aquele céu vermelho...
Como é que uma rapariga que rouba livros acaba ajoelhada e a uivar, rodeada por uma pilha de
ridículo entulho, gordurento e queimado, engendrado pelo homem?
Anos antes, o começo foi neve.
Chegara a hora. Para um.

UM MOMENTO ESPECTACULARMENTE TRÁGICO


Um comboio avançava velozmente.
Ia apinhado de humanos.
Na terceira carruagem morreu um rapaz de seis anos.

A rapariga que roubava livros e o irmão viajavam para Munique, onde em breve seriam entregues a
pais de acolhimento. Sabemos agora, é claro, que o rapaz não chegou lá.

COMO ACONTECEU
Houve um intenso estertor de tosse.
Um estertor quase inspirado.
E logo após — nada.

Quando a tosse cessou, não havia nada senão o nada da vida a continuar com um arrastar de pés, ou
um espasmo quase silencioso. Uma subitaneidade abriu então caminho para os seus lábios, que
apresentavam uma cor castanha corroída e a pelar, como tinta velha. A precisar desesperadamente
de retoques.
A mãe deles dormia.
Eu entrei no comboio.

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Os meus pés percorreram a coxia apinhada e a palma da minha mão pousou na boca dele num
ápice. Ninguém reparou. O comboio continuou a galopar. Excepto a rapariga.
Com um olho aberto e o outro ainda num sonho, a rapariga que roubava livros — também
conhecida por Liesel Meminger — pôde ver sem sombra de dúvida que o seu irmão mais novo,
Werner, se achava agora inclinado e morto.
Os seus olhos azuis fixavam o chão.
Sem ver nada.

Antes de acordar, a rapariga que roubava livros estava a sonhar com o Führer, Adolf Hitler. No
sonho, ela assistia a um comício em que ele discursava, e fitava o risco cor de crânio do cabelo dele
e o quadrado perfeito do seu bigode. Ela escutava satisfeita a torrente de palavras que se
derramavam da sua boca. As suas frases reluziam na claridade. Num momento mais calmo, ele
chegou mesmo a agachar-se e a sorrir para ela. Ela retribuiu o sorriso e disse, «Guten Tag, Herr
Führer. Wie geht's dir heut?» (Nota) Ainda não aprendera a falar muito bem, nem mesmo a ler, pois
raramente frequentara a escola. A razão para isso, descobri-la-ia ela a seu tempo.
Justamente quando o Führer ia responder, ela acordou.
Era Janeiro de 1939 - Ela tinha nove anos, quase dez.
O irmão estava morto.

Um olho aberto.
Outro ainda num sonho.
Seria melhor ter tido um sonho completo, penso eu, mas realmente não tenho controlo sobre isso.
O segundo olho acordou sobressaltado e ela apanhou-me, não há a menor dúvida. Foi exactamente
no instante em que eu me ajoelhei e extraí a alma dele, segurando-a molemente nos meus braços
inchados. Ele reanimou-se pouco depois, mas, quando lhe peguei inicialmente, o espírito do rapaz
estava mole e frio, como um gelado. Começou a derreter-se nos meus braços. Depois a reanimar-se
completamente. A sarar.

Nota - «Bom dia, meu Führer. Como estás hoje?» (NT)

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Para Liesel Meminger, havia a rigidez de movimentos confinados e a investida hesitante dos
pensamentos. Es stimmt nicht. Isto não está a acontecer. Isto não está a acontecer.
E as tremuras:
Por que é que eles tremem sempre?
Sim, eu sei, eu sei, presumo que tem algo a ver com instinto. Para deter o fluxo da verdade. Nesse
instante o coração dela estava escorregadio e quente, e ruidoso, tão ruidoso, tão ruidoso.
Estupidamente, eu fiquei. E observei.

A seguir, a mãe.
Ela acordou-a com a mesma tremura agitada.
Se não conseguem imaginar, pensem num silêncio inepto. Pensem em pedaços de desespero
flutuante. E em morrer afogado num comboio.

A neve tombava incessantemente há já algum tempo, e a composição para Munique foi obrigada a
parar devido a deficiências nos carris. Havia uma mulher a gemer. A seu lado encontrava-se uma
rapariga entorpecida.
Em pânico, a mulher abriu a porta.
Desceu para a neve, abraçando o pequeno corpo.
O que podia a rapariga fazer senão segui-la?
Como já foram informados, havia igualmente dois guardas no comboio. Eles discutiram e
altercaram acerca do que fazer. A situação era desagradável, no mínimo. Foi finalmente decidido
que todos três deviam ser levados para a próxima cidade e deixados aí para as coisas serem
resolvidas.
Desta vez, o comboio foi a manquejar através do campo coberto de neve.
Vacilou e estacou.
Eles desceram para a plataforma, a mãe com o corpo nos braços.
Permaneceram ali de pé.
O rapaz começava a ficar pesado.

Liesel não fazia a menor ideia de onde se encontrava. Estava tudo branco e enquanto
permaneceram na estação, ela apenas podia fixar as letras desbotadas do letreiro à sua frente. Para
Liesel, a cidade não tinha nome, e foi aí que, dois dias depois, enterraram o seu irmão, Werner. As
testemunhas incluíam um padre e dois coveiros a tiritar.

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UMA OBSERVAÇÃO
Um par de guardas ferroviários.
Um par de coveiros.
Chegada a altura, um deles deu as ordens.
O outro fez o que lhe mandavam.
A questão é, e se o outro é muito mais do que um?

Erros, erros, é só do que pareço ser capaz em certas alturas.


Durante dois dias tratei dos meus assuntos. Percorri o globo como sempre, entregando almas ao
tapete rolante da eternidade. Vi-as rolar passivamente. Por várias vezes disse a mim mesma que
devia manter--me bem longe do funeral do irmão de Liesel Meminger. Não segui o meu conselho.
A quilómetros de distância, ao aproximar-me, já conseguia avistar o pequeno grupo de humanos
enregelados, de pé no meio do deserto de neve. O cemitério recebeu-me como amigo, e em breve
os alcancei. Olhei para baixo.
À esquerda de Liesel, os coveiros esfregavam as mãos e lamentavam-se por causa da neve e das
presentes condições para cavar. «É tão difícil furar tanto gelo», e assim por diante. Um deles não
podia ter mais de catorze anos. Um aprendiz. Quando se foi embora, após meia dúzia de passos, um
livro preto caiu-lhe do bolso do casaco sem ele dar por isso.

Alguns minutos mais tarde, a mãe de Liesel começou a afastar-se com o padre. Estava a agradecer-
lhe os serviços prestados na cerimónia.
A rapariga, contudo, ficou.
Os seus joelhos penetraram no solo. O seu momento chegara.
Ainda descrente, começou a cavar. Ele não podia estar morto. Ele não podia estar morto. Ele não
podia...
Numa questão de segundos a neve gretou-lhe a pele.
O sangue gelado estalou-lhe nas mãos.
Algures, no meio de toda a neve, ela conseguia ver o seu coração despedaçado, partido em dois.
Cada uma das metades refulgia, e batia sob toda aquela brancura. Ela apenas se apercebeu de que a
mãe voltara para a ir buscar ao sentir uma mão ossuda no ombro. Estava a ser arrastada dali. Um
grito quente encheu-lhe a garganta.
UMA PEQUENA IMAGEM, TALVEZ UNS VINTE METROS ADIANTE
Terminado o arrastar, a mãe e a rapariga pararam e respiraram

26

Havia qualquer coisa preta e rectangular alojada na neve.


Só a rapariga a viu.
Curvou-se e apanhou-a, e segurou-a firmemente entre os dedos.
O livro tinha letras prateadas.

Elas deram-se as mãos.


Foi solto um último e encharcado adeus, e depois viraram-se e abandonaram o cemitério, olhando
várias vezes para trás. Quanto a mim, permaneci por uns momentos. Acenei. Ninguém
correspondeu ao meu aceno.
Mãe e filha saíram do cemitério e dirigiram-se para o comboio seguinte em direcção a Munique.
Eram ambas escanzeladas e pálidas.
Ambas tinham os lábios gretados.
Liesel deu por isso na janela suja e enevoada do comboio ao embarcarem, pouco antes do meio-dia.
Segundo as palavras escritas pela própria rapariga que roubava livros, a viagem prosseguiu como
tudo tinha acontecido (Nota) .

Quando o comboio entrou na Bahnhof de Munique, os passageiros deslizaram para fora como de
um embrulho rasgado. Havia pessoas de todas as condições mas, entre elas, os pobres eram os mais
facilmente reconhecíveis. Os necessitados procuram sempre manter-se em movimento, como se a
deslocação pudesse ajudar. Ignoram a realidade de que uma nova versão do mesmo velho problema
os espera no final da viagem — o parente que receiam beijar.
Penso que a mãe dela sabia isso muito bem. Não vinha entregar a filha aos escalões superiores de
Munique, mas fora aparentemente encontrado um lar de acolhimento e, quanto mais não fosse, a
nova família podia pelo menos alimentar a rapariga e o rapaz um bocado melhor, e proporcionar-
lhes a devida educação.
O rapaz.
Liesel tinha a certeza de que a mãe transportava a memória dele a tiracolo. Deixou-o cair. Viu-lhe
os pés e as pernas e o corpo abaterem-se sobre a plataforma.

Nota - No original: like everything had happened. O autor fez aqui um jogo de palavras com a
expressão «as if nothing had happened»: «como se nada tivesse acontecido». (NT)

27

Como podia aquela mulher caminhar?


Como podia mover-se?
Isto é o género de coisas que eu nunca saberei, nem compreenderei — aquilo de que os humanos
são capazes.
Ela apanhou-o e continuou a andar, com a rapariga agora colada a seu lado.

Houve encontros com as autoridades, e perguntas acerca de atrasos e do rapaz levantaram as suas
cabeças vulneráveis. Liesel permaneceu no canto do pequeno escritório poeirento, enquanto a mãe
se sentava, de pensamentos cerrados, numa cadeira muito dura.
Houve o caos da despedida.
Foi uma despedida molhada, com a cara da rapariga enterrada nas pregas de lã do casaco puído da
mãe. Uma vez mais tivera de ser arrastada.

A certa distância dos subúrbios de Munique havia uma cidade chamada Molching, que
insignificantes como vocês e eu deverão pronunciar «Molking.» Era para aí que a levavam, para
uma rua chamada Himmel.

UMA TRADUÇÃO
Himmel = Céu

Quem quer que tenha dado o nome à rua Himmel possuía indiscutivelmente um saudável sentido de
ironia. Não que ela fosse um inferno. Não era. Mas, c'os diabos, também não era o céu.
Seja como for, os pais de acolhimento de Liesel aguardavam.
Os Hubermann.
Estavam à espera de uma rapariga e de um rapaz e ser-lhes-ia paga uma pequena pensão por os
receberem. Ninguém queria dizer a Rosa Hubermann que o rapaz não sobrevivera à viagem. De
facto, nunca ninguém lhe queria verdadeiramente dizer nada. No que se refere a temperamento, o
dela não era realmente invejável, embora os seus antecedentes com crianças de acolhimento fossem
bons. Aparentemente, metera vários na ordem.
Para Liesel, foi uma viagem de automóvel.
Ela nunca entrara num.
Havia a subida e descida constantes do seu estômago, e as esperanças fúteis de que eles se
perdessem ou mudassem de ideias.

28

No meio de tudo isso, não conseguia evitar que os seus pensamentos se virassem para a mãe, de
volta à Bahnhof, à espera para partir de novo. A tiritar. Embrulhada naquele casaco inútil. Estaria a
roer as unhas, à espera do comboio. A plataforma seria comprida e desconfortável — uma fatia de
cimento frio. Procuraria descortinar o local aproximado da sepultura do filho na viagem de
regresso? Ou seria o sono demasiado pesado?
O carro movia-se, com Liesel antecipando, apavorada, a última e letal volta.

O dia estava cinzento, a cor da Europa. Em redor do carro cerravam-se cortinas de chuva. — Quase
lá. — A senhora da assistência, Frau Heinrich, virou-se e sorriu. — Dein neues Heim. O teu novo
lar.
Liesel limpou um círculo no vidro embaciado e olhou para fora.

UMA FOTOGRAFIA DA RUA HIMMEL


Os edifícios parecem grudados, na sua maioria casas pequenas e blocos de apartamentos com ar
nervoso.
Há neve lamacenta espalhada como uma alcatifa.
Há cimento, árvores como cabides de chapéus vazios, e ar cinzento.

Havia também um homem no automóvel. Ficou com a rapariga enquanto Frau Heinrich desaparecia
lá dentro. Nunca falou. Liesel partiu do princípio de que ele lá estava para garantir que ela não
fugiria ou para a obrigar a entrar à força se ela lhes levantasse problemas. Contudo, mais tarde,
quando começaram de facto os problemas, ele limitou-se a ficar ali sentado, a observar. Talvez ele
fosse apenas o último recurso, a solução final.
Após alguns minutos, surgiu um homem muito alto. Hans Hubermann, o pai de acolhimento de
Liesel. De um dos seus lados vinha a estatura mediana de Frau Heinrich. Do outro, a forma
atarracada de Rosa Hubermann, que parecia um pequeno guarda-roupa com um casaco atirado para
cima. Tinha um andar nitidamente bamboleado. Quase engraçado, se não fosse a cara, engelhada
como cartão amarrotado e expressando aborrecimento, como se ela apenas tolerasse tudo aquilo. O
marido caminhava direito, com um cigarro aceso entre os dedos. Era ele que os enrolava.

O facto era este:


Liesel recusava sair do automóvel.

29

— Was ist los mit dem Kind? — indagou Rosa Hubermann. E repetiu. — O que se passa com esta
criança? — Enfiou a cara dentro do carro e disse: — Na, komm. Komm. (Nota)
O lugar da frente foi empurrado para diante. Um corredor de luz fria convidava-a a sair. Ela não
conseguiu mover-se.
Lá fora, pelo círculo que traçara, Liesel via os dedos do homem alto, ainda a segurarem o cigarro.
Da ponta deste caiu cinza que pairou e se ergueu diversas vezes até atingir o solo. Demorou quase
vinte minutos a convencê-la a sair do carro. Foi o homem alto que conseguiu.
Serenamente.

Seguiu-se o portão, a que ela se agarrou.


Irrompeu-lhe dos olhos uma torrente de lágrimas enquanto ela resistia e recusava ir para dentro.
Começaram a juntar-se pessoas na rua até Rosa Hubermann as invectivar, após o que elas deram
meia-volta e regressaram por onde tinham vindo.

UMA TRADUÇÃO DA INVECTIVA


DE ROSA HUBERMANN
Para onde é que estão a olhar, seus bardamerdas?
Por fim, Liesel Meminger dirigiu-se cautelosamente para dentro. Hans Hubermann segurava-lhe
uma das mãos. A sua pequena mala segurava-a ela com a outra. Enterrado entre a camada de roupas
dobradas nessa mala encontrava-se um pequeno livro preto que, tanto quanto sabemos, um coveiro
de catorze anos, numa cidade sem nome, passara provavelmente as últimas horas a procurar.
«Juro», imagino-o a dizer para o patrão, «que não faço a menor ideia do que lhe aconteceu.
Procurei por toda a parte. Toda a parte!» Estou certa de que ele nunca suspeitaria da rapariga e
todavia ali estava — um livro preto com palavras prateadas escritas contra o tecto das suas roupas:

MANUAL DO COVEIRO
Um Guia em Doze Passos para
Cavar Sepulturas com Êxito
Editado pela Associação de Cemitérios da Baviera

A rapariga que roubava livros atacara pela primeira vez — o início de uma carreira ilustre.

Nota - Vá, anda. Anda. (NT)

30

CRESCER COMO SAUMENSCH


Sim, uma carreira ilustre.
Devo apressar-me a admitir, no entanto, que houve um hiato considerável entre o primeiro livro
roubado e o segundo. Outro ponto digno de nota é o facto de o primeiro ter sido roubado da neve e
o segundo do fogo. Sem esquecer que outros lhe foram também dados. Tudo contado, ela possuía
catorze livros, mas via a sua história como sendo predominantemente feita por dez deles. Desses
dez, seis foram roubados, um apareceu na mesa da cozinha, dois foram feitos para ela por um judeu
escondido, e um foi-lhe entregue numa tarde amena vestida de amarelo.
Quando ela se dedicou a escrever a sua história, interrogou-se sobre o momento em que os livros e
as palavras começaram a significar, não apenas alguma coisa, mas todas as coisas. Seria quando o
seu olhar pousou pela primeira vez na sala com estantes e estantes cheias deles? Ou quando Max
Vandenburg chegou à Rua Himmel trazendo mancheias de sofrimento e o Mein Kampf, de Hitler?
Seriam as leituras nos abrigos? A última marcha para Dachau? Seria A Sacudidora de Palavras?
Talvez nunca houvesse uma resposta precisa para quando e onde isso ocorrera. De qualquer
maneira, estou a adiantar-me. Antes de chegarmos a qualquer dessas coisas, temos de percorrer os
inícios de Liesel Meminger na Rua Himmel e a arte de saumenschat.

À chegada, ainda eram visíveis as marcas das dentadas da neve nas suas mãos e o sangue
congelado nos dedos. Tudo nela se achava subnutrido. Canelas semelhantes a arame. Braços de
cabide. Não o exibia facilmente, mas quando acontecia, o seu sorriso era faminto.
O cabelo era de uma marca muito parecida com o louro alemão, mas tinha olhos perigosos.
Castanho-escuros. Ninguém queria realmente ter olhos castanho-escuros na Alemanha por essa
época.

31

Talvez ela os tivesse recebido do pai, mas não podia saber porque não se lembrava dele. Na
realidade, havia apenas uma coisa que ela sabia acerca do pai. Era um rótulo que não entendia.

UMA PALAVRA ESTRANHA


Kommunist
Ouvira-a várias vezes nos últimos anos.
«Comunista.»
Houvera pensões apinhadas de gente, salas cheias de perguntas. E essa palavra. Essa estranha
palavra estava sempre lá algures, encostada a um canto, espreitando das sombras. Usava fatos
completos, fardas. Fossem para onde fossem, lá estava ela, sempre que o pai era mencionado.
Liesel conseguia sentir-lhe o cheiro e o gosto. Só não conseguia soletrá-la nem compreendê-la.
Perguntou à mãe o que ela significava, e foi-lhe dito que não era importante, que não devia
preocupar-se com tais coisas. Numa das pensões, havia uma mulher mais saudável que tentou
ensinar as crianças a escrever, usando carvão na parede. Liesel sentiu-se tentada a perguntar-lhe o
significado daquilo, mas nunca se proporcionou. Um dia, essa mulher foi levada para ser
interrogada. Não voltou.

Quando Liesel chegou a Molching, tinha pelo menos uma certa percepção de que estava a ser salva,
mas isso não a confortava. Se a mãe a amava, porquê deixá-la à porta de outros? Porquê? Porquê?
Porquê?
O facto de saber a resposta — ainda que ao mais básico dos níveis — parecia não interessar. A mãe
encontrava-se permanentemente doente e nunca havia dinheiro para a tratar. Liesel sabia isso. Mas
tal não significava que tivesse de o aceitar. Por mais que lhe dissessem que era amada, não havia
reconhecimento de que a prova disso estava no abandono. Nada alterava o facto de ela ser uma
criança escanzelada e perdida, em mais um lugar estranho, com mais gente estranha. Sozinha.
Os Hubermann viviam numa das pequenas casas semelhantes a caixas da Rua Himmel. Alguns
quartos, uma cozinha, e um anexo partilhado com vizinhos. O telhado era chato e havia uma cave
baixa para armazenagem. Era, supostamente, uma cave sem a profundidade adequada. Em 1939,
isso não constituía problema. Mais tarde, em 42 e 43, sim. Quando começaram os ataques aéreos,
eles precisavam sempre de correr rua abaixo até um abrigo melhor.

32

A princípio, foram as blasfémias que tiveram um impacto imediato. Eram tão veementes e
prolíficas. Em cada duas palavras uma era Saumensch ou Saukerl ou Arschloch. Para quem não
esteja familiarizado com estas palavras, eu passo a explicar. Sau, é claro, refere-se a porcos. No
caso de Saumensch, serve para castigar, repreender, ou claramente humilhar uma pessoa do sexo
feminino. Saukerl (que se pronuncia «zaukérl») é para o masculino. Arschloch pode traduzir-se
directamente como «barda-merdas». Essa palavra, no entanto, não diferencia os sexos. É
simplesmente.
— Saumensch, du dreckiges! — gritou a mãe de acolhimento de Liesel nessa primeira noite perante
a sua recusa em tomar banho. — Sua porca imunda! Por que é que não te despes? — Era óptima a
mostrar-se furiosa. Na verdade, podia dizer-se que Rosa Hubermann tinha uma cara decorada com
fúria permanente. Foi assim que surgiram as rugas na textura curtida da sua tez.
Liesel, naturalmente, achava-se afogada em ansiedade. Não ia de forma alguma enfiar-se num
banho, nem mesmo na cama, se vamos a isso. Estava enroscada num canto da divisão do tamanho
de um roupeiro, agarrada aos braços inexistentes da parede em busca de algum apoio. Mas não
havia nada excepto tinta seca, respiração difícil, e o dilúvio de injúrias soltadas por Rosa.
— Deixa-a em paz. — Hans Hubermann entrou na briga. A sua voz suave insinuou-se, como que
deslizando por entre uma multidão. — Deixa-a comigo.
Aproximou-se e sentou-se no chão, encostado à parede. Os azulejos eram frios e hostis.
— Sabes enrolar um cigarro? — perguntou-lhe ele. E durante a hora seguinte ficaram sentados na
poça crescente de escuridão, a manusear o tabaco e as mortalhas, e Hans Hubermann a fumar.
Ao fim dessa hora, Liesel sabia enrolar um cigarro razoavelmente bem. Continuara a não ter
tomado banho.

ALGUNS FACTOS ACERCA DE HANS HUBERMANN


Gostava de fumar.
Aquilo de que mais gostava no acto de fumar era o
enrolar dos cigarros.
Era pintor de profissão e tocava
acordeão. Isso fazia jeito, principalmente no Inverno,
altura em que podia ganhar uns dinheiritos a tocar nas
tabernas de Molching, como o Knoller.

33

Já me defraudara numa guerra mundial, mas seria


posteriormente metido noutra (numa espécie
de recompensa perversa), onde de algum modo
conseguiria evitar-me outra vez.

Para a maioria das pessoas, Hans Hubermann quase não era visível. Uma pessoa indistinta. E certo
que os seus méritos de pintor eram excelentes. Os seus dotes musicais eram superiores à média. No
entanto, e estou certa de que já conheceram pessoas assim, conseguia de certo modo surgir apenas
como parte do cenário, ainda que se encontrasse à frente de uma fila. Estava sempre apenas lá.
Inconspícuo. Nem importante nem particularmente valioso.
A frustração dessa aparência, como podem imaginar, era ser completamente ilusória, digamos
assim. Havia definitivamente valor nele, e isso não escapou a Liesel Meminger. (A criança humana
— muito mais arguta por vezes do que o tedioso adulto estupeficante.) Ela viu isso imediatamente.
Os seus modos.
A serenidade que o rodeava.
Quando, nessa noite, ele acendeu a luz na pequena casa de banho fria, Liesel observou a estranheza
dos olhos do seu pai de acolhimento. Eram feitos de bondade, e de prata. Como prata macia, a
derreter-se. Vendo esses olhos, Liesel compreendeu que Hans Hubermann possuía imenso valor.

ALGUNS FACTOS ACERCA DE ROSA HUBERMANN


Media um metro e cinquenta e dois e usava as madeixas cinzento-acastanhadas do seu cabelo
elástico num carrapito. Para aumentar os rendimentos
dos Hubermann, ela lavava e engomava para cinco casas
das mais abastadas de Molching.
Era uma cozinheira atroz.
Possuía a capacidade rara de exasperar praticamente
todos os que conhecia.
Mas amava de facto Liesel Meminger.
Acontecia apenas que a sua maneira
de o demonstrar era esquisita.
Incluía fustigá-la com uma colher de madeira e palavras,
a intervalos espaçados.

34

Quando Liesel finalmente tomou banho, duas semanas depois de estar a viver na Rua Himmel,
Rosa deu-lhe um abraço apertado, capaz até de a magoar. Quase a sufocá-la, exclamou: —
Saumensch, du dreckiges, já não era sem tempo!
Ao cabo de alguns meses já não eram o Sr. e a Sra. Hubermann. Com um típico punhado de
palavras, Rosa disse: — Ouve lá, Liesel
— de agora em diante chamas-me mãe. — Pensou um instante.
— Como é que chamavas à tua mãe verdadeira?
Liesel respondeu baixinho. — Auch Mama — também mãe.
— Bom, então eu sou a Mãe Número Dois. — Olhou para o marido. — E àquele. — Pareceu
juntar as palavras na mão, amassá-las e atirá-las por cima da mesa. — Àquele Saukerl, àquele
porco imundo
— chamas-lhe papá, verstehst? Percebes?
— Sim — concordou Liesel prontamente. Naquela casa apreciavam-se as respostas rápidas.
— Sim, mãe — corrigiu-a a mãe. — Saumensch. Chama-me mãe quando falares comigo.
Nesse momento, Hans Hubermann acabara de completar o enrolamento de um cigarro, depois de
ter lambido a mortalha e juntado tudo. Ergueu o olhar para Liesel e piscou-lhe o olho. Ela não teria
dificuldade em lhe chamar papá.

35

A MULHER COM PUNHO DE FERRO


Aqueles primeiros meses foram, indiscutivelmente, os piores.
Todas as noites Liesel tinha pesadelos.
A cara do irmão.
A fixar o soalho.
Acordava a nadar na cama, aos gritos, e a afogar-se na torrente de lençóis. Do outro lado do quarto,
a cama que estivera destinada ao irmão flutuava como um barco na escuridão. Lentamente, com a
tomada de consciência, ela afundava-se, aparentemente no chão. Essa visão não ajudava nada, e em
geral passava-se um bom bocado até os gritos cessarem.
Talvez a única coisa boa desses pesadelos foi trazerem Hans Hubermann, o seu novo papá, ao
quarto, para a acalmar, para a amar.
Ele vinha todas as noites sentar-se ao pé dela. Das primeiras vezes, limitava-se a ficar ali — um
estranho para matar a solidão. Após algumas noites, sussurrou: «Chiiiu, eu estou aqui, está tudo
bem.» Ao fim de três semanas, abraçou-a. A confiança acumulara-se depressa, principalmente
devido à força bruta da doçura do homem, à sua presença. A rapariga soube, desde o princípio, que
Hans Hubermann apareceria sempre a meio dos seus gritos, e não se iria embora.

UMA DEFINIÇÃO QUE NÃO SE ENCONTRA NO DICIONÁRIO


Não se ir embora: um acto de confiança e amor, frequentemente decifrado pelas crianças

Hans Hubermann sentava-se na cama, de olhos sonolentos, e Liesel chorava encostada às suas
mangas e respirava-o. Todas as madrugadas, logo após as duas horas, ela voltava a adormecer
sentindo o cheiro dele. Era uma mescla de cigarros velhos, décadas de tinta e pele humana.

36

A princípio, ela inspirava tudo aquilo, e depois respirava-o, até mergulhar novamente no sono.
Todas as manhãs ele estava a pouco mais de um metro dela, enrolado, quase dobrado ao meio, na
cadeira. Nunca usou a outra cama. Liesel levantava-se e beijava-lhe cuidadosamente a face, e ele
acordava e sorria.

Havia dias em que o papá lhe dizia para voltar para a cama e esperar um minuto, e depois
regressava com o seu acordeão e tocava para ela. Liesel sentava-se e cantarolava, os dedos dos pés
gelados e contraídos de excitação. Nunca ninguém lhe oferecera música antes. Ficava a sorrir
estupidamente, a ver as linhas dissolverem-se no rosto dele e o metal doce dos seus olhos — até se
ouvirem os insultos vindos da cozinha.
— ACABA COM ESSE BARULHO, SAUKERL!
O papá tocava um bocadinho mais.
Piscava o olho à rapariga, e ela retribuía desajeitadamente.

Algumas vezes, só para exasperar um pouco mais a mãe, ele levava o instrumento para a cozinha e
tocava durante o pequeno-almoço.
O pão com compota do papá estava semicomido no seu prato, encarquilhado com as marcas das
dentadas, e a música olhava Liesel de frente. Sei que parece estranho, mas era assim que ela sentia
as coisas. A mão direita do papá percorria as teclas cor de dentes. A mão esquerda manejava os
botões. (Ela gostava particularmente de o ver carregar no botão prateado, brilhante — o Dó maior.)
O exterior riscado, mas de um preto reluzente, do acordeão aproximava-se e afastava-se enquanto
os braços dele apertavam os foles poeirentos, obrigando-os a sugar o ar e a expeli-lo de novo.
Nessas manhãs, na cozinha, o papá dava vida ao acordeão. Suponho que faz sentido, se pensarmos
bem no assunto.
Como é que se sabe se uma coisa está viva?
Vemos se respira.
O som do acordeão era, de facto, também o anunciar da segurança. Claridade. Durante o dia era
impossível sonhar com o irmão. Liesel sentia saudades dele e chorava com frequência na minúscula
casa de banho, o mais silenciosamente possível, mas apesar disso sentia-se satisfeita por estar
acordada. Na primeira noite passada com os Hubemann, escondera o seu último elo de ligação com
ele — O Manual do Coveiro — debaixo do colchão, e de vez em quando tirava-o de lá e pegava-
lhe. Ao fitar as letras da capa e tocar nas do interior, não fazia ideia do que aquilo dizia.

37

A questão é que não tinha realmente importância saber do que tratava o livro. O mais importante
era o que ele significava.

O SIGNIFICADO DO LIVRO
1. A última vez que vira o irmão.
2. A última vez que vira a mãe.

Às vezes, ela murmurava a palavra mãe e via a cara da mãe centenas de vezes numa só tarde. Mas
isso eram pequenos infortúnios comparados com o terror dos seus sonhos. Nessas alturas, na
imensa extensão do sono, nunca ela se sentira tão completamente sozinha.
Como decerto já terão reparado, não havia outras crianças na casa.
Os Hubermann tinham dois filhos, mas eram mais velhos e já haviam abandonado o lar. Hans
Júnior trabalhava no centro de Munique, e Trudy era empregada doméstica e cuidava de crianças.
Em breve, ambos estariam na guerra. Uma a fazer balas. O outro a dispará-las.

A escola, como podem calcular, foi um fracasso tremendo.


Embora fosse gerida pelo estado, tinha uma forte influência católica, e Liesel era luterana. Não era
o mais auspicioso dos começos. Depois descobriram que ela não sabia ler nem escrever.
Humilhantemente, foi emparceirada com as crianças mais novas, as que estavam a começar a
aprender o alfabeto. Embora possuísse ossos delgados e fosse pálida, Liesel sentia-se gigante entre
as crianças anãs, e desejava com frequência ser suficientemente descorada para desaparecer por
completo.
Mesmo em casa, não havia muito onde procurar apoio.
— Não lhe peças ajuda a ele — disse a mãe. — Esse Saukerl. — O papá estava a olhar para lá da
janela, um hábito muito seu. — Largou a escola na quarta classe.
Sem se virar, o papá respondeu calmamente, mas com veneno: — Bem, não lhe peças tão-pouco a
ela. — Sacudiu a cinza lá para fora. — Ela largou a escola na terceira classe.
Não havia livros lá em casa (exceptuando o que ela escondera debaixo do colchão) e o mais que
Liesel podia fazer era ir repetindo o alfabeto baixinho até ser mandada calar muito claramente.
Todo esse ciciar. Só mais tarde, após um incidente em que ela molhou a cama a meio de um
pesadelo, é que começou uma educação de leitura extra. Oficiosamente, intitulava-se a aula da
meia-noite, apesar de em geral ter início por volta das duas da madrugada. Em breve falaremos
mais disso.

38

Em meados de Fevereiro, quando Liesel fez dez anos, recebeu uma boneca com cabelo amarelo e
uma perna a menos.
— Foi o melhor que conseguimos — desculpou-se o papá.
— O que é que queres dizer com isso? Ela é uma felizarda por ter tanto — corrigiu-o a mãe.
Hans prosseguiu o seu exame da perna restante, enquanto Liesel experimentava a sua nova farda.
Dez anos significavam Juventude Hitleriana. Juventude Hitleriana significava uma pequena farda
castanha. Sendo do sexo feminino, Liesel foi alistada naquilo a que se chamava BDM.

EXPLICAÇÃO DA SIGLA
Queria dizer Bund Deutscher Mädchen — Grupo de Raparigas Alemãs.

A primeira coisa que lá faziam era verificar se o «heil Hitler» de cada uma funcionava na perfeição.
Depois ensinavam-nas a marchar direitas, a enrolar ligaduras, e a coser roupas. Levavam-nas
igualmente a fazer longas caminhadas no campo e outras actividades do género. As quartas e os
sábados eram os dias marcados para reunião, das três até às cinco da tarde.
Todas as quartas e sábados, o papá levava lá Liesel e ia buscá-la duas horas mais tarde. Nunca
falavam muito acerca disso. Limitavam-se a dar as mãos e a escutar os seus passos, e o papá
fumava um ou dois cigarros.

A única ansiedade que o papá lhe trouxera devia-se ao facto de estar constantemente a sair. Muitas
noites, ele entrava na saleta (que era igualmente o quarto dos Hubermann), tirava o acordeão do
velho armário, e atravessava a cozinha rumo à porta da frente.
Enquanto ele subia a Rua Himmel, a mãe abria a janela e gritava: — Não venhas muito tarde!
— Tão alto não! — pedia ele, virando-se.
— Saukerl! Vai lamber sabão! Falo tão alto quanto quiser!
O eco dos palavrões dela seguia-o rua acima. Ele nunca olhava para trás ou, pelo menos, nunca até
ter a certeza de que a mulher desaparecera. Nessas noites, chegando ao fim da rua, o estojo do
acordeão na mão, virava-se ao passar pela loja da esquina pertencente a Frau Diller, e via a figura
que substituíra a mulher à janela. A sua mão comprida, fantasmagórica, erguia-se por instantes
antes de ele se virar de novo e seguir lentamente o seu caminho. Liesel só voltava a vê-lo às duas
da madrugada, quando ele a arrancava docemente ao seu pesadelo.

39

As noites na pequena cozinha eram, infalivelmente, tumultuosas. Rosa Hubermann falava


constantemente, e sempre que falava era sob a forma de schimpfen (Nota). Estava constantemente a
discutir e a queixar-se. Na realidade, não havia com quem discutir, mas a mãe aproveitava
habilmente todas as oportunidades que surgiam. Era capaz de discutir com o mundo inteiro naquela
cozinha, e fazia-o quase todas as noites. Depois de terem acabado de comer e o papá ter saído,
Liesel e Rosa em geral continuavam por ali, com Rosa a passar a ferro.
Umas quantas vezes por semana, Liesel chegava a casa da escola e ia percorrer as ruas de Molching
com a sua mãe, recolhendo e entregando roupa lavada e passada das zonas mais abastadas da
cidade. Knaupt Strasse, Heide Strasse. E mais algumas. A mãe entregava a roupa passada a ferro ou
recolhia a roupa para lavar com um sorriso perfunctório, mas assim que a porta se fechava e ela se
afastava, amaldiçoava aquela gente rica, com todo o seu dinheiro e a sua indolência.
— São demasiado g'schtinkerdt para lavarem a sua própria roupa — desdenhava Rosa, apesar de
depender deles.
— Esse — acusava ela Herr Vogel, da Heide Strasse. — Recebeu o dinheiro todo do pai. Esbanja-o
em mulheres e bebidas. E a mandar lavar e passar a roupa, é claro.
Era como que uma chamada de desprezo.
Herr Vogel, Herr e Frau Pfaffelhurver, Helena Schmidt, os Wein-gartner. Eram todos culpados de
qualquer coisa.
Além do seu alcoolismo e luxúria dispendiosa, Ernst Vogel, segundo Rosa, estava constantemente a
coçar o cabelo infestado de piolhos, e a lamber os dedos, e depois entregava o dinheiro. — Eu
devia lavá-lo antes de vir para casa — concluía ela.
Os Pfaffelhürver esmiuçavam os resultados. — «Nem uma prega nestas camisas, se faz favor» —
imitava-os Rosa. — «Nem uma ruga neste fato.» E depois ficam ali a inspeccionar tudo mesmo à
minha frente. Mesmo debaixo do meu nariz! Que G’sindel — que escória.
Os Weingartner eram aparentemente pessoas estúpidas, com uma Saumensch de uma gata que
passava a vida a largar pêlo. — Sabes o tempo que eu demoro a tirar aquele pêlo todo? Está por
toda a parte!
Helena Schmidt era uma viúva rica. — Essa velha aleijada, para ali sentada a definhar. Nunca teve
de trabalhar um só dia na vida dela.

Nota - Insultos, gritos. (NT)

40

Mas o maior desprezo de Rosa era reservado para o 8 de Grande Strasse. Uma casa enorme, no
topo de uma colina, na parte mais alta de Molching.
— Esta — apontara ela a Liesel na primeira vez em que lá foram
— é a casa do presidente da câmara. Esse vigarista. A mulher fica sentada em casa o dia inteiro,
demasiado semítica para acender uma lareira — está sempre um gelo ali. Ela é maluca. —
Acentuou as palavras. — Definitivamente. Maluca. — Chegadas ao portão, fez sinal à rapariga. —
Vai lá tu.
Liesel ficou horrorizada. No cimo de um pequeno lanço de escadas havia uma gigantesca porta
castanha com um batente de metal.
— Quê?
A mãe empurrou-a. — Não me venhas com «quês», Saumensch. Desanda.
Liesel desandou. Percorreu o caminho, subiu os degraus, hesitou e bateu.
Veio um roupão à porta.
Dentro dele, apresentou-se à sua frente uma mulher de olhos espantados, cabelo lanugento e uma
postura de derrota. Avistou a mãe no portão e entregou à rapariga um saco de roupa suja. —
Obrigada
— agradeceu Liesel, mas não houve resposta. Apenas a porta a fechar-se.
— Estás a ver? — comentou a mãe logo que ela regressou ao portão.
— E eu tenho de aturar isto. Estes sacanas ricos, estas porcas preguiçosas...
Ao afastar-se, com o saco de roupa na mão, Liesel olhou para trás. O batente de metal observava-a
lá de cima.

Quando acabava de criticar as pessoas para quem trabalhava, Rosa Hubermann passava em geral
para o seu outro tema de insultos preferido. O marido. Fitando o saco de roupa e as casas
corcundas, falava, falava, falava. — Se o teu papá prestasse para alguma coisa — informava Liesel
sempre que atravessavam Molching —, eu não teria de fazer isto.
— Fungava escarninha. — Um pintor! Porquê casar com aquele Arschlochl Foi o que eles me
disseram... quero dizer, a minha família.
— Os passos delas rangiam ao longo do caminho. — E aqui estou eu, a calcorrear as ruas e a
matar-me com serviço na minha cozinha porque aquele Saukerl nunca arranja trabalho. Trabalho a
sério, pelo menos. Só aquele acordeão patético naqueles buracos imundos todas as noites.
— Sim, mãe.
— E só o que sabes dizer? — Os olhos da mãe pareciam dois recortes azul-claros colados na sua
cara.
41

Prosseguiam no seu caminho.


Com Liesel a carregar o saco.
Em casa, a roupa era lavada numa caldeira ao lado do fogão, pendurada junto da lareira da saleta, e
depois passada a ferro na cozinha. A cozinha era o centro da acção.

— Ouviste isso? — perguntava-lhe a mãe praticamente todas as noites. Empunhava o ferro,


aquecido no fogão. A iluminação era fraca em toda a casa e Liesel, sentada à mesa da cozinha,
estaria a olhar para os intervalos das chamas diante de si.
— O quê? — perguntava ela. — O que foi?
— Foi aquela Holtzapfel. — A mãe saltara já da sua cadeira. — Aquela Saumensch acaba de cuspir
na nossa porta outra vez.
Para Frau Holtzapfel, uma das vizinhas, era de tradição cuspir na porta dos Hubermann sempre que
por lá passava. A porta de entrada ficava somente a uns metros do portão, e digamos apenas que
Frau Holtzapfel possuía o fôlego... e a precisão necessários.
A cuspidela devia-se ao facto de ela e Rosa Hubermann estarem envolvidas numa espécie de guerra
verbal que durava há décadas. Ninguém sabia a origem dessa hostilidade. Provavelmente elas
próprias se haviam esquecido.
Frau Holtzapfel era uma mulher ossuda e obviamente rancorosa. Nunca casara, mas tinha dois
filhos, alguns anos mais velhos do que a prole dos Hubermann. Estavam ambos no exército e
ambos farão breves aparições antes de termos concluído isto, garanto-vos.
No que se refere a rancores, devo igualmente dizer que Frau Holtzapfel era minuciosa também nas
suas cuspidelas. Nunca se esquecia de spuck na porta do número trinta e três e de dizer
«Schweine!» sempre que por lá passava. Uma coisa eu notei a respeito dos alemães:
Parecem gostar muito de porcos.

UMA PEQUENA PERGUNTA


E RESPECTIVA RESPOSTA
E quem acham que era obrigado a limpar o cuspo
da porta todas as noites?
Sim — adivinharam.

Quando uma mulher com um punho de ferro nos manda ir lá fora limpar o cuspo da porta,
obedecemos. Especialmente quando o ferro está quente.
Fazia tudo parte da rotina, na realidade

42

Todas as noites, Liesel saía, limpava a porta e contemplava o céu. Em geral assemelhava -se a
líquido derramado — frio e pesado, escorregadio e cinzento — mas de vez em quando algumas
estrelas tinham a lata de se erguer e flutuar, nem que fosse só por minutos. Nessas noites, ela ficava
um bocadinho mais e esperava.
Olá, estrelas.
A espera.
Da voz vinda da cozinha.
Ou de que as estrelas fossem de novo arrastadas para baixo, para as águas do céu alemão.

43
O BEIJO
(Um jovem decidido)
Como acontece na maioria das pequenas cidades, Molching estava cheia de tipos originais. Uma
mão-cheia deles vivia na Rua Himmel. Frau Holtzapfel era apenas um membro do elenco.
Os outros incluíam gente deste género:
- Rudy Steiner — o rapaz da casa ao lado, que tinha uma obsessão por Jesse Owens, o atleta
americano negro.
- Frau Diller — a proprietária da loja da esquina, ariana convicta.
- Tommy Müller — um garoto cujas crónicas infecções de ouvidos haviam resultado em várias
operações, num rio de pele cor-de-rosa a sulcar-lhe a face,, e numa tendência para tiques.
- Um homem conhecido essencialmente por «Pfiffikus» — cuja vulgaridade fazia Rosa Hubermann
parecer uma linguista e uma santa.

Em geral, era uma rua cheia de gente relativamente pobre, apesar da aparente melhoria da
economia alemã sob Hitler. Ainda existiam lados pobres da cidade.
Como já referido, a casa ao lado dos Hubermann encontrava-se alugada por uma família de apelido
Steiner. Os Steiner tinham seis filhos. Um deles, o notório Rudy, tornar-se-ia em breve o melhor
amigo de Liesel e mais tarde seu sócio, e por vezes catalisador, no crime. Ela conheceu-o na rua.

Alguns dias depois do primeiro banho de Liesel, a mãe deixou-a sair para brincar com os outros
miúdos. Na Rua Himmel, as amizades faziam-se lá fora, independentemente do tempo que
estivesse. As crianças raramente visitavam as casas umas das outras, pois estas eram pequenas e em
geral havia lá muito pouco.

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Além disso, praticavam o seu passatempo preferido, como profissionais, na rua. Futebol. As
equipas estavam bem definidas. Usavam-se caixotes de lixo para marcar balizas.
Liesel, a miúda nova na cidade, foi imediatamente enfiada entre um par de tais caixotes. (Tommy
Muller foi finalmente libertado, apesar de ser o mais inútil jogador de futebol que a Rua Himmel já
vira.)
Correu tudo bem durante um bocado, até ao momento fatal em que Rudy Steiner se viu espalmado
na neve por infracção de um Tommy Muller frustrado.
— Que foi? — gritou Tommy. O desespero provocava-lhe tiques faciais. — O que é que eu fiz?
A equipa de Rudy em peso determinou penalti, e agora era Rudy Steiner contra a miúda nova,
Liesel Meminger.
Ele colocou a bola num monte de neve suja, confiante no resultado habitual. Afinal de contas, Rudy
não falhara um penalti em dezoito pontapés, mesmo quando a oposição insistia em correr com
Tommy Muller da linha de golo. Fosse quem fosse o substituto, Rudy marcava.
Nessa ocasião, tentaram obrigar Liesel a sair. Como podem calcular, ela protestou, e Rudy
concordou.
— Não, não. — Sorriu. — Deixem-na ficar. — Esfregava as mãos. A neve parara de cair na rua
imunda, e as pegadas enlameadas
entrecruzavam-se. Rudy mudou de posição, disparou um tiro e Liesel mergulhou e, sabe-se lá
como, desviou-o com o cotovelo. Levantou-se a sorrir, mas a primeira coisa que viu foi uma bola
de neve a espalmar-se-lhe na cara. Metade era lama. Ardia como tudo.
— Gostaste? — O rapaz sorriu, e partiu a correr em perseguição da bola.
— Saukerl — murmurou Liesel. O vocabulário do seu novo lar pegava-se rapidamente.
ALGUNS FACTOS ACERCA DE RUDY STEINER
Era oito meses mais velho do que Liesel e tinha
pernas ossudas, dentes aguçados, olhos azuis brejeiros,
e o cabelo cor de limão.
Sendo um dos seis filhos dos Steiner, estava
permanentemente com fome.
Na Rua Himmel, era considerado um bocado maluco.
Isso devia-se a um acontecimento raramente mencionado,
mas geralmente encarado como «O Incidente Jesse
Owens», em que, uma noite, ele se pintara a si próprio
de preto, com carvão, e correra os cem metros
no campo de jogos local.

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Louco ou não, Rudy esteve sempre destinado a ser o melhor amigo de Liesel. Uma bola de neve na
cara é, sem dúvida, o início perfeito para uma amizade duradoura.
Alguns dias depois de Liesel ter começado a frequentar a escola, foi para lá com os Steiner. A mãe
de Rudy, Barbara, obrigou-o a prometer que acompanharia a nova garota, principalmente porque
ouvira falar da bola de neve. Diga-se em abono de Rudy que ele obedeceu de bom grado. Não era
de todo um rapaz do tipo misógino. Gostava bastante de raparigas, e gostava de Liesel (daí, a bola
de neve). De facto, Rudy Steiner era um desses audaciosos pequenos safados que realmente se
imaginava com as damas. Todas as infâncias parecem possuir exactamente um desses jovens no seu
meio. E o rapaz que se recusa a temer o sexo oposto, apenas porque todos os outros abraçam esse
receio específico, e é do tipo que não tem medo de tomar uma decisão. Neste caso, Rudy já tinha
tomado uma decisão a respeito de Liesel Meminger.
No caminho para a escola, procurou indicar-lhe alguns pontos de referência da cidade ou, pelo
menos, conseguiu enfiar tudo isso algures entre mandar os irmãos mais novos calar o bico e ouvir
os mais velhos mandarem-no calar o dele. O seu primeiro ponto de interesse foi uma pequena
janela no segundo andar de um edifício de apartamentos.
— Ali vive o Tommy Müller. — Percebeu que Liesel não se lembrava dele. — O dos tiques? Aos
cinco anos perdeu-se no mercado no dia mais frio do ano. Três horas depois, quando o
encontraram, estava completamente gelado e com uma tremenda dor de ouvidos provocada pelo
frio. Ao fim de um tempo, tinha os ouvidos completamente infectados lá por dentro e fez três ou
quatro operações e os médicos deram-lhe cabo dos nervos. Por isso agora é cheio de tiques.
Liesel fez coro. — E é mau no futebol.
— Péssimo.
A seguir foi a loja da esquina da Rua Himmel. Frau Diller's.

UMA NOTA IMPORTANTE ACERCA DE FRAU DILLER


Ela tinha uma regra de ouro.

Frau Diller era uma mulher ríspida, com óculos grandes e olhos malévolos. Cultivara aquele olhar
nefando para desencorajar sequer a ideia de roubos na sua loja, que ocupava com uma postura de
soldado, uma voz refrigerada, e uma respiração regular que soava a «heil Hitler». A própria loja era
branca e fria, e completamente inanimada. A pequena casa, comprimida a seu lado, estremecia com
um pouco mais de severidade do que os outros edifícios da Rua Himmel.

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Frau Diller geria esse sentimento, dispensando-o como o único artigo gratuito do seu
estabelecimento. Ela vivia para a sua loja e a sua loja vivia para o Terceiro Reich. Mesmo quando
começou o racionamento, mais para o fim desse ano, sabia-se que ela vendia à socapa certos artigos
difíceis de obter e doava o dinheiro ao Partido Nazi. Na parede, por trás do sítio onde ela se sentava
habitualmente, havia uma fotografia emoldurada do Fuhrer. Quem entrasse na loja dela e não
dissesse «heil Hitler» não era atendido. Ao passarem por lá, Rudy chamou a atenção de Liesel para
os olhos à prova de bala que os vigiavam da montra.
— Diz «heil» sempre que lá fores — avisou-a ele muito sério. — A não ser que tenhas vontade de
ir um bocado mais longe. — Mesmo depois de já terem ultrapassado a loja há um pedaço, Liesel
olhou para trás e os olhos ampliados ainda lá estavam, pregados à montra.
Ao virar da esquina, a Rua de Munique (a rua principal de entrada e saída de Molching) achava-se
juncada de neve suja e meio derretida.
Como acontecia frequentemente, passaram por eles algumas filas de soldados em treino de marcha.
As suas fardas caminhavam direitas e as suas botas pretas poluíam ainda mais a neve. Os seus
rostos iam fixos em frente, de concentração.
Depois de ter visto desaparecer os soldados, o grupo dos Steiner e Liesel passou por algumas
montras de lojas e pelo imponente edifício da câmara, que em anos posteriores seria cortado pelos
joelhos e enterrado. Algumas das lojas estavam abandonadas e ainda marcadas com estrelas
amarelas e rabiscos anti-semitas. Mais abaixo, a igreja projectava-se para o céu, o telhado, um
estudo de telhas cooperantes. A rua, globalmente, era um comprido tubo cinzento — um corredor
de humidade, pessoas curvadas ao frio, e o som característico de passos no molhado.
A certa altura, Rudy começou a correr, arrastando consigo Liesel.
Bateu na janela de uma alfaiataria.
Se ela fosse capaz de ler a tabuleta, teria notado que pertencia ao pai de Rudy. A loja ainda não
estava aberta, mas lá dentro havia um homem a dispor artigos de vestuário por trás do balcão.
Ergueu os olhos e acenou.
— O meu papá — esclareceu Rudy, e logo se viram rodeados por uma série de Steiner de diversos
tamanhos, a dizer adeus e a mandar beijos ao pai, ou simplesmente parados e a acenar um olá com a
cabeça (no caso dos mais velhos), prosseguindo depois em direcção ao último ponto de referência
antes da escola.

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A ÚLTIMA PARAGEM
A rua das estrelas amarelas.
Era um lugar onde ninguém queria deter-se e ficar a olhar, mas quase todos o faziam. Com a forma
de um longo braço partido, a rua continha diversas casas com janelas laceradas e paredes
lesionadas. Nas suas portas estava pintada a estrela de David. Essas casas eram quase como
leprosos. No mínimo, eram chagas infectadas na terra alemã ferida.
— Schiller Strasse — informou Rudy. — A rua das estrelas amarelas.
Lá ao fundo, moviam-se algumas pessoas. A cacimba conferia-lhes o ar de fantasmas. Não
humanos, mas formas, movendo-se sob nuvens cor de chumbo.
— Andem lá, vocês dois — chamou Kurt (o mais velho dos pequenos Steiner), e Rudy e Liesel
dirigiram-se apressados para ele.

Na escola, Rudy fazia questão de procurar Liesel durante os intervalos. Não se importava que os
outros soltassem comentários acerca da estupidez da nova rapariga. Apoiou-a logo de início, e
apoiá-la-ia mais tarde, quando a frustração de Liesel explodiu. Mas não o faria de borla.

A ÚNICA COISA PIOR DO QUE


UM RAPAZ QUE NOS ODEIA
Um rapaz que nos ama.

Em finais de Abril, de regresso da escola ao fim do dia, Rudy e Liesel esperavam na Rua Himmel
pelo habitual jogo de futebol. Estavam levemente adiantados e ainda não chegara mais nenhum
miúdo. A única pessoa à vista era o desbocado Pfiffikus.
— Olha — apontou Rudy.

UM RETRATO DE PFIFFIKUS
Ele era uma estrutura delicada.
Ele era cabelo branco.
Ele era uma gabardina preta, calças castanhas, sapatos em
decomposição, e uma boca — e que boca essa era.

— Eh, Pfiffikus!
Enquanto a figura ao longe se virava, Rudy começou a assobiar. Simultaneamente, o velho
endireitou-se e desatou a praguejar com uma ferocidade que só pode ser descrita como talento.

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Ninguém parecia conhecer o nome verdadeiro que lhe pertencia, ou, se o sabiam, nunca o usavam.
Só lhe chamavam Pfiffikus, porque é o nome que se dá a alguém que gosta de assobiar, coisa de
que Pfiffikus definitivamente gostava. Estava permanentemente a assobiar uma música intitulada
Radetzky March, e todos os garotos da cidade o chamavam e duplicavam a melodia. Nesse preciso
momento, Pfiffikus abandonava o seu modo de andar habitual (curvado, passadas largas e
desconjuntadas, braços atrás das costas da gabardina) e endireitava-se para injuriar. Era então que
qualquer impressão de serenidade se via violentamente interrompida, pois a sua voz transbordava
de raiva.

Nessa ocasião, Liesel seguiu a negaça de Rudy quase como um reflexo.


— Pfiffikus! — repetiu ela, adoptando rapidamente a crueldade apropriada que a infância parece
exigir. O seu assobio era horrível, mas não havia tempo para o aperfeiçoar.
Ele perseguiu-os, aos gritos. Começou com «Geh'scheissen!'» e deteriorou-se rapidamente a partir
daí. A princípio, dirigiu as injúrias apenas ao rapaz, mas depressa chegou a vez de Liesel.
— Putazita! — rugiu ele. As palavras atingiram-na nas costas.
— Nunca te tinha visto! — Imagine-se chamar puta a uma miúda de dez anos. Pfiffikius era assim.
Havia um consenso geral de que ele e Frau Holtzapfel teriam formado um casal encantador.
— Venham cá! — foram as últimas palavras que Liesel e Rudy ouviram enquanto continuavam a
correr. Correram até chegarem à Rua de Munique.

— Anda cá — disse Rudy, logo que recuperaram o fôlego. — Só um bocado aqui mais abaixo.
Levou-a a Hubert Oval, a cena do incidente Jesse Owens, e ali ficaram, de mãos nos bolsos. A pista
estendia-se diante deles. Só podia acontecer uma coisa. Foi Rudy que começou. — Cem metros
— espicaçou-a ele. — Aposto que não consegues bater-me. Liesel não ia aturar aquilo. — Aposto
que sim.
— O que é que apostas, minha pequena Saumensch? Tens algum dinheiro?
— Claro que não. Tu tens?
— Não. — Mas Rudy tinha uma ideia. Era o pinga-amor a mostrar-se. — Se eu ganhar, deixas-me
dar-te um beijo. — Agachou-se e começou a enrolar as calças.
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Liesel ficou alarmada, para não dizer pior. — Para que é que me queres dar um beijo? Eu estou
sujíssima.
— Eu também. — Era óbvio que Rudy não via razão para um pouco de sujidade interferir no andar
das coisas. Já decorrera algum tempo desde o último banho de ambos.
Ela ponderou o assunto por momentos enquanto examinava as pernas escanifradas da oposição.
Eram mais ou menos como as suas. E impossível que ele me ganhe, pensou. Acenou com ar grave.
Aquilo era sério. — Podes dar-me um beijo se ganhares. Mas se eu ganhar, deixo de ser guarda-
redes no futebol.
Rudy reflectiu. — Está certo — concordou ele, e apertaram as mãos.
Em redor apenas céu negro e nevoeiro. Começavam a cair pequenas gotas de chuva.
A pista estava mais lamacenta do que parecia.
Os concorrentes aprontaram-se.
Rudy atirou uma pedra ao ar para servir de tiro de partida. Quando tocasse no chão, podiam
começar a correr.
— Nem sequer consigo ver a linha do fim — queixou-se Liesel.
— E eu consigo?
A pedra enterrou-se na terra.
Correram ao lado um do outro, acotovelando-se e tentando passar para a frente. O solo
escorregadio gorgolejava debaixo dos seus pés e levou-os a cair talvez a uns vinte metros do fim.
— Jesus, Maria e José! — exclamou Rudy. — Estou coberto de merda!
— Não é merda — corrigiu Liesel, embora tivesse as suas dúvidas. — É lama. — Escorregaram
mais cinco metros em direcção à final. — Então, ficamos pelo empate?
Rudy fitou-a, todo ele dentes aguçados e olhos azuis brejeiros. Tinha metade da cara coberta de
lama. — Se for empate, tenho na mesma o meu beijo?
— Nem sonhes. — Liesel levantou-se e sacudiu parte da lama do casaco.
— Tiro-te de guarda-redes.
— Sabes onde podes meter o teu guarda-redes.
No caminho de regresso à Rua Himmel, Rudy avisou-a. — Um dia, Liesel — disse ele —, hás-de
estar mortinha por me dar um beijo.
Mas Liesel sabia.
E jurou.
Enquanto ela e Rudy Steiner vivessem, nunca beijaria aquele desgraçado daquele Saukerl imundo,
especialmente e não nesse dia. Tinha coisas mais importantes com que se preocupar.

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Baixou os olhos para o seu fato de lama e constatou o óbvio.


— Ela vai matar-me.
Ela, evidentemente, era Rosa Hubermann, também conhecida por mãe, e de facto ela quase a
matou. A palavra Saumensch surgiu repetidamente na administração do castigo. Ela fez Liesel em
picadinho.

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O INCIDENTE JESSE OWENS


Como todos sabemos, Liesel não se encontrava ainda na Rua Himmel na altura em que Rudy
executou o seu acto de infâmia juvenil. Todavia, ao olhar para trás, ela sentia-se como se tivesse de
facto estado lá. Na sua memória, Liesel transformara-se de algum modo num membro da
assistência imaginária de Rudy. Mais ninguém tocava no assunto, mas Rudy compensava
largamente esse facto, de tal maneira que, quando Liesel resolveu relembrar a sua vida, o incidente
Jesse Owens fazia tanto parte dela como tudo aquilo que Liesel testemunhara pessoalmente.

Estava-se em 1936. As Olimpíadas. Os jogos de Hitler.


Jesse Owens acabava de completar os 4 x 100 em estafetas e ganhar a sua quarta medalha de ouro.
A afirmação de que ele era sub-humano por ser negro e a recusa de Hitler em lhe apertar a mão
correram mundo. Até os alemães mais racistas se sentiram assombrados com os esforços de Owens,
e a notícia do seu feito escapou-se pelas fendas. Ninguém ficou mais impressionado do que Rudy
Steiner.
Todos os membros da sua família se encontravam reunidos na saleta quando ele se esgueirou e se
dirigiu à cozinha. Tirou uma quantidade de carvão do fogão e apertou-o nas pequenas mãos em
concha. — Agora. — Um sorriso. Estava pronto.
Espalhou o carvão com cuidado, numa camada grossa, até estar coberto de preto. Até o cabelo
levou uma passagem.
A janela, o rapaz sorriu com ar quase maníaco ao seu reflexo, e de calções e camisola interior,
fanou silenciosamente a bicicleta do irmão e pedalou rua acima, rumo a Hubert Oval. Num dos
bolsos escondera outros pedaços de carvão, não fosse parte do enfarruscado sair mais tarde.

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Na mente de Liesel, nessa noite a lua estava pregada no céu. Cosidas à sua volta havia nuvens.
A bicicleta enferrujada parou a desfazer-se junto à cerca de Hubert Oval e Rudy trepou por ela
acima. Aterrou do outro lado e trotou com as pernas magricelas até ao princípio dos cem metros.
Entusiasticamente, dedicou-se a executar uma desajeitada série de alongamentos. Cavou buracos de
partida na terra.
Aguardando o seu momento, andava de um lado para o outro, reunindo concentração sob o céu
escuro, com a lua e as nuvens a observarem, tensamente.
— Owens está com bom aspecto — começou ele a comentar. — Esta pode ser a sua maior vitória
desde...
Apertou as mãos imaginárias dos outros atletas e desejou-lhes sorte, apesar de saber. Eles não
tinham qualquer hipótese.

O fiscal mandou-os avançar. Em redor de cada centímetro quadrado da circunferência de Hubert


Oval materializou-se uma multidão. Todos gritavam uma única coisa. Entoavam o nome de Rudy
Steiner — e o seu nome era Jesse Owens.
Fez-se silêncio.
Os seus pés nus agarraram-se ao solo. Sentia-o preso entre os dedos.
A indicação do fiscal, ele colocou-se na posição agachada — e a pistola fez um furo na noite.

Durante o primeiro terço da corrida, mantiveram-se mais ou menos a par, mas foi apenas uma
questão de tempo até o Owens enfarruscado se destacar e se distanciar.
— Owens na frente — gritou a voz aguda do rapaz enquanto ele corria na pista vazia, directamente
para o trovejante aplauso de glória olímpica. Conseguiu mesmo sentir a fita partir-se ao meio contra
o peito ao irromper através dela em primeiro lugar. O mais rápido homem vivo.

Foi só na volta da vitória que as coisas se azedaram. No meio da multidão, o pai achava-se de pé
junto à linha final, como um papão. Ou, pelo menos, um papão de fato completo. (Como atrás
mencionado, o pai de Rudy era alfaiate. Raramente se via na rua sem ser de fato completo e
gravata. Naquela ocasião, trazia apenas o fato e uma camisa descomposta.)
— Was ist los? — perguntou ele ao filho que se apresentava em toda a sua glória enfarruscada. —
Que diabo se passa aqui? — A multidão sumiu-se.

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Ergueu-se uma brisa. — Estava a dormitar na minha cadeira quando o Kurt reparou que tu tinhas
desaparecido. Andam todos à tua procura.
O Sr. Steiner era um homem extraordinariamente delicado em circunstâncias normais. Descobrir
um dos seus filhos esborratado com carvão negro numa noite de Verão não era o que ele
considerava circunstâncias normais. — O rapaz é maluco — murmurou ele, embora admitisse que,
com seis filhos, era forçoso acontecer algo desse género. Pelo menos um tinha de ser uma maçã
podre. Nesse instante tinha-a diante dos olhos e esperava por uma explicação. — Então?
Rudy, ofegante, curvou-se e apoiou as mãos nos joelhos. — Estava a ser o Jesse Owens. —
Respondeu como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo para ele estar a fazer. Havia mesmo
algo implícito no seu tom que sugeria qualquer coisa do género «Que diabo lhe parece?» Mas o
tom desvaneceu-se ao ver a falta de sono cavada sob os olhos do pai.
— O Jesse Owens? — O Sr. Steiner era o tipo de homem que parecia esculpido em madeira. A voz
era angulosa e inalterável. O corpo era alto e pesado, como carvalho. O cabelo parecia farpas. — O
que há com ele?
— O papá sabe, o Negro Mágico.
— Eu dou-te a magia negra. — Prendeu a orelha do filho entre o polegar e o indicador.
Rudy estremeceu. — Ai, isso dói a valer.
— A sério? — O pai estava mais preocupado com a textura pegajosa de carvão que lhe
contaminava os dedos. Ele cobriu mesmo tudo, não? pensou. Até as orelhas, meu Deus. — Vamos
embora.

A caminho de casa, o Sr. Steiner resolveu falar de política com o rapaz, o melhor que pudesse. Só
nos anos vindouros é que Rudy compreenderia tudo — quando já era demasiado tarde para se
preocupar em compreender alguma coisa.

A POLÍTICA CONTRADITÓRIA DE ALEX STEINER


Ponto Um: Ele era membro do Partido Nazi, mas não
odiava os judeus, nem ninguém, a bem dizer.

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Ponto Dois: Secretamente, contudo, não conseguira deixar


de sentir uma percentagem de alívio
(ou pior — satisfação!) quando os proprietários de lojas
de judeus foram afastados do negócio — a propaganda
informara-o de que era apenas uma questão de tempo
até surgir uma praga de alfaiates judeus
e lhe roubar a clientela.
Ponto Três: Mas significaria isso que eles tinham de ser
totalmente exorcizados?
Ponto Quatro: A sua família. Era indiscutível que ele
tinha de fazer tudo o que pudesse para a sustentar.
Se isso significava ser do partido, pois significava
ser do partido.
Ponto Cinco: Algures, lá muito no fundo,
sentia um prurido
no coração, mas decidira não o coçar. Tinha medo do que de lá poderia escapar-se.

Dobraram algumas esquinas até à Rua Himmel, e Alex disse:


— Filho, não podes andar por aí a pintar-te de preto, estás a ouvir? Rudy sentiu-se interessado, mas
confuso. A lua estava solta agora, livre para se mover e erguer e tombar e escorrer pela cara do
rapaz, dando-lhe um ar agradável e turvado, como os seus pensamentos.
— Por que não, papá?
— Porque eles te levavam.
— Porquê?
— Porque não deves desejar ser como as pessoas negras ou judias ou qualquer uma que não seja...
nós.
— Quem são as pessoas judias?
— Conheces o meu antigo cliente, o Sr. Kaufmann? Onde comprámos os teus sapatos?
— Sim.
— Bem, ele é judeu.
— Não sabia. Tem de se pagar para ser judeu? É preciso uma licença?
— Não, Rudy. — O Sr. Steiner conduzia a bicicleta com uma das mãos e Rudy com a outra. Mas
estava a sentir dificuldade em conduzir a conversa. Ainda não soltara o lóbulo da orelha do filho.
Esquecera-se. — É como ser alemão ou católico.
— Oh. O Jesse Owens é católico?
— Eu não sei! — Nessa altura tropeçou num pedal da bicicleta e largou a orelha.
Caminharam em silêncio durante um bocado, até Rudy dizer:
— Eu só queria ser como o Jesse Owens, papá.

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Dessa vez, o Sr. Steiner pousou a mão na cabeça de Rudy e explicou:


— Eu sei, filho... mas tu tens um belo cabelo loiro e olhos azuis, grandes e seguros. Deves sentir-te
feliz por isso; fui claro?
Mas nada era claro.
Rudy não compreendia nada, e essa noite foi o prelúdio de acontecimentos futuros. Dois anos e
meio depois, a Sapataria Kaufmann era reduzida a vidros partidos, e todos os sapatos dentro das
suas caixas atirados para um camião.

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O OUTRO LADO DA LIXA


As pessoas têm momentos de definição, suponho, principalmente quando são crianças. Para
algumas é um incidente Jesse Owens. Para outras é um momento de histeria em que se molha a
cama.
Estava-se em finais de Maio de 1939, e a noite fora igual a tantas outras. A mãe agitara o seu punho
de ferro. O papá saíra. Liesel limpara a porta da entrada e contemplara o céu da Rua Himmel.
Antes, houvera um desfile.
Os camisas castanhas, membros extremistas do NSDAP (Nota 1) (também conhecido por Partido
Nazi) tinham descido a Rua de Munique a marchar, ostentando orgulhosamente as suas bandeiras,
as caras erguidas bem alto, como se estivessem espetadas num pau. As vozes entoavam canções,
culminando numa estrondosa interpretação de «Deutschland über Alles (Nota 2)». A Alemanha
Acima de Tudo.
Como sempre, tinham sido aplaudidos.
Tinham sido incitados enquanto caminhavam sabe-se lá para onde.
As pessoas na rua paravam e olhavam, algumas saudando de braço estendido, outras com as mãos a
escaldarem dos aplausos. Algumas exibiam rostos contorcidos pelo orgulho e adesão como Frau
Diller, e depois havia alguns homens dispersos, como Alex Steiner, que se mantinha como um
bloco de madeira de forma humana, aplaudindo com gestos lentos e obedientes. E belos.
Submissão.
Liesel estava no passeio com o seu papá e Rudy. Hans Hubermann apresentava um rosto com as
persianas descidas.

Nota 1- Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei. Os camisas castanhas pertenciam às


Sturmabteilmg, vulgarmente conhecidas pelas SA, fundadas por Hitler em Munique, em 1921. (ND
Nota 2 - Hino nacional alemão. (NT)

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ALGUNS NÚMEROS ESPEZINHADOS


Em 1933, noventa por cento dos alemães apoiavam
resolutamente Adolf Hitler.
O que significa que dez por cento não o fazia.
Hans Hubermann pertencia a esses dez por cento.
Havia uma razão para isso.

Nessa noite, Liesel sonhou como sempre. A princípio, viu os camisas castanhas a marchar, mas
depressa eles a conduziram a um comboio, onde a esperava a descoberta habitual. O irmão estava
outra vez de olhos fixos.

Ao acordar, aos gritos, Liesel percebeu imediatamente que nessa ocasião alguma coisa mudara.
Escapava-se de dentro dos lençóis um cheiro, quente e enjoativo. A princípio tentou convencer-se
de que nada acontecera, mas quando o papá se aproximou e a abraçou, começou a chorar e
confessou-lhe o facto ao ouvido.
— Papá — segredou ela —, papá — e foi tudo. Provavelmente ele sentia o cheiro.
O papá ergueu-a suavemente da cama e levou-a para a casa de banho. O momento chegou alguns
minutos depois.

— Tiramos os lençóis — decidiu o papá, e ao inclinar-se para puxar o tecido, algo se desprendeu e
caiu com um baque. Saltara de lá um livro preto com letras prateadas que foi aterrar no soalho,
entre os pés do homem alto.
Ele fitou-o.
Fitou a rapariga, que encolheu timidamente os ombros.
Depois, com toda a concentração, ele leu o título em voz alta: — O Manual do Coveiro.
Então é assim que ele se chama, pensou Liesel.
Entre eles havia agora um retalho de silêncio. O homem, a rapariga, o livro. O papá pegou-lhe e
falou em voz suave como algodão.

UMA CONVERSA ÀS DUAS DA MADRUGADA


«Isto é teu?»
«Sim, papá.»
«Queres lê-lo?»
De novo: «Sim, papá.»
Um sorriso fatigado.
Olhos metálicos, a derreterem.
«Bem, então vamos lá lê-lo.»

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Quatro anos mais tarde, quando ela começou a escrever na cave, dois pensamentos ocorreram a
Liesel acerca do trauma de ter molhado a cama. Primeiro, sentiu que tivera uma sorte tremenda por
ter sido o papá a descobrir o livro. (Felizmente, nas anteriores lavagens dos lençóis, Rosa mandara
Liesel desmanchar a cama e voltar a fazê-la. «E vê se te despachas, Saumensch! Achas que temos o
dia inteiro?») Segundo, sentiu-se claramente orgulhosa do papel desempenhado por Hans
Hubermann na sua educação. Ninguém diria, escreveu ela, mas não foi tanto a escola que me
ajudou a ler. Foi o papá. As pessoas pensam que ele não é esperto, e é verdade que não lê muito
depressa, mas eu em breve aprenderia que as palavras e a escrita lhe salvaram de facto a vida uma
vez. Ou, pelo menos, as palavras e um homem que lhe ensinou a tocar acordeão...

— Então vamos por ordem — declarou Hans Hubermann nessa noite. Lavou os lençóis e
pendurou-os a secar. — Agora — disse ele ao regressar —, vamos lá começar esta aula da meia-
noite.
A luz amarela fervilhava de poeira.
Liesel sentou-se em lençóis limpos e frios, envergonhada, alvoroçada. A ideia do chichi na cama
aguilhoava-a, mas ia ler. Ia ler o livro. A excitação crescia dentro dela.
Acendiam-se visões de um génio da leitura com dez anos. Se fosse assim tão fácil.

— Para te falar francamente — explicou o papá —, eu próprio não leio lá muito bem.
Mas não tinha importância que ele lesse devagar. Quando muito, o facto de a sua velocidade de
leitura ser mais lenta do que a média talvez tivesse mesmo ajudado. Talvez provocasse menos
frustração ao lidar com a falta de habilidade da rapariga.
Ainda assim, de início, Hans pareceu pouco à vontade a segurar o livro e a folheá-lo.
Foi sentar-se na cama, ao pé dela, e encostou-se para trás, as pernas penduradas de lado. Examinou
novamente o livro e pousou-o em cima do cobertor. — Ora por que é que uma rapariga simpática
como tu há--de querer ler uma coisa destas?
Liesel encolheu outra vez os ombros. Se o aprendiz de coveiro estivesse a ler as obras completas de
Goethe ou qualquer outra luminária do género, seria isso que se acharia diante deles. Tentou
explicar. — Eu... quando... Ele estava caído na neve e... — As palavras docemente soltadas caíram
pelo lado da cama, derramando-se para o chão como pó.
O papá, contudo, soube o que dizer. Sabia sempre o que dizer.

59

Sonolento, passou a mão pelo cabelo e pediu: — Bem, promete-me uma coisa, Liesel. Se eu morrer
em breve, tu certificas-te de que eles me enterram bem.
Ela acenou afirmativamente, com toda a sinceridade.
— Nada de saltar o capítulo seis ou o passo quatro do capítulo nove. — Riu-se e a causadora da
cama molhada também. — Belo, ainda bem que isso está decidido. Agora podemos avançar.
Ajeitou a posição e os seus ossos estalaram como tábuas de soalho rangentes. — Começa a
diversão.
Ampliado pelo silêncio da noite, o livro abriu-se — uma lufada de vento.

Olhando para trás, Liesel podia dizer exactamente o que o seu papá estava a pensar quando
examinou a primeira página de O Manual do Coveiro. Apercebendo-se da complexidade do texto,
compreendeu perfeitamente que tal livro estava longe de ser o ideal. Havia ali palavras em que ele
próprio teria dificuldades. Para não falar da morbidez do assunto. Quanto à rapariga, sentia um
súbito desejo de o ler que nem sequer tentava compreender. A um certo nível, talvez desejasse
certificar-se de que o irmão fora bem enterrado. Fosse qual fosse a razão, a sua ânsia de ler aquele
livro possuía toda a intensidade que qualquer ser humano com dez anos consegue sentir.
O capítulo um chamava-se «Primeiro Passo: Escolher o Equipamento Adequado». Numa curta
passagem introdutória, especificava o género de material que seria abordado nas vinte páginas
seguintes. Eram listados tipos de pás, picaretas, luvas, e assim por diante, bem como a necessidade
vital de os conservar devidamente. Aquele negócio de cavar sepulturas era sério.
Enquanto o papá o folheava, sentia indubitavelmente os olhos de Liesel pousados em si.
Adiantavam-se e agarravam-no, aguardando que alguma coisa, qualquer coisa, deslizasse dos seus
lábios.
— Toma. — Ajeitou-se de novo e estendeu-lhe o livro. — Olha para esta página e diz-me quantas
palavras consegues ler.
Ela olhou... e mentiu.
— Cerca de metade.
— Lê-me algumas. — Mas é claro que ela não pôde. Quando ele a mandou apontar as palavras que
conseguia ler e dizê-las mesmo, havia apenas três: as três principais palavras alemãs para o artigo
definido (Nota). A página inteira devia conter umas duzentas palavras.
Isto talvez seja mais difícil do que eu pensei.
Ela apanhou-o a pensar aquilo, apenas um instante.

Nota - Em alemão há masculino, feminino e neutro. (NT)

60

O papá endireitou-se, pôs-se de pé e saiu do quarto.


Dessa vez, ao voltar, disse: — Na verdade, tenho uma ideia melhor.
— Trazia na mão um grosso lápis de pintor e um maço de folhas de lixa. — Vamos começar do
zero. — Liesel não viu motivo para discutir.
No canto esquerdo de uma folha de lixa virada ao contrário, ele desenhou um quadrado, aí com uns
dois centímetros, e meteu-lhe dentro um A maiúsculo. No outro canto, colocou um minúsculo. Até
aí, tudo bem.
— A — disse Liesel.
— A de quê?
Ela sorriu. — Ameixa.
Ele escreveu a palavra com letras grandes e desenhou por baixo uma ameixa deformada. Era pintor
de casas, não era um artista. Quando terminou, ergueu os olhos e disse: — Agora vamos ao B.
A medida que avançavam pelo alfabeto, os olhos de Liesel iam ficando maiores. Ela fizera aquilo
na escola, na classe infantil, mas desta vez era melhor. Era a única a estar ali, e não se sentia um
gigante. Era agradável observar a mão do papá a escrever as palavras e a formar lentamente os
desenhos primitivos.
— Ah, anda lá, Liesel — incitou ele vendo-a debater-se mais tarde.
— Qualquer coisa que comece por S. É fácil. Estou muito desapontado contigo.
Ela não conseguia lembrar-se.
— Anda lá! — A sua voz sussurrante brincava com ela. — Pensa na mãe.
Foi então que a palavra lhe atingiu a cara como uma bofetada. Uma careta reflexa. —
SAUMENSCH! — gritou ela, e o papá torceu-se de riso, e depois acalmou.
— Chiu, não podemos fazer barulho. — Mas ainda assim soltou uma sonora gargalhada e escreveu
a palavra, completando-a com um dos seus esboços.
61

— Papá! — segredou ela. — Não tenho olhos!


Ele afagou o cabelo da rapariga. Liesel caíra na sua armadilha. — Com um sorriso desses — disse
Hans Hubermann —, não precisas de olhos. — Abraçou-a e depois voltou a fitar o desenho, com
um rosto de prata cálida. — Agora o T.
Com o alfabeto completo e estudado uma dúzia de vezes, o papá inclinou-se e perguntou: — Já
chega para esta noite?
— Só mais algumas palavras?
Ele foi firme. —Já chega. Quando acordares, toco acordeão para ti.
— Obrigada, papá.
— Boa noite. — Uma risada silenciosa, monossilábica. — Boa noite, Saumensch.
— Boa noite, papá.
Ele apagou a luz, voltou para trás e sentou-se na cadeira. Na escuridão, Liesel manteve os olhos
abertos. Estava a ver as palavras.

62

O CHEIRO DA AMIZADE
Aquilo continuou.
Durante as semanas seguintes e ao longo do Verão, a classe da meia-noite começava no fim de cada
pesadelo. Houve mais duas ocorrências de cama molhada, mas Hans Hubermann limitou-se a
repetir o seu anterior acto heróico de limpeza, e dedicou-se à tarefa de ler, desenhar e recitar. Altas
horas da madrugada, as vozes abafadas soavam alto.
Numa quinta-feira, logo depois das três da tarde, a mãe mandou Liesel arranjar-se para ir com ela
entregar roupa passada. O papá tinha outras ideias.
Entrou na cozinha e disse: — Desculpa, mãe, ela hoje não vai contigo.
A mãe nem se deu ao trabalho de levantar os olhos do saco de roupa.
— E quem é que te perguntou, Arschloch? Vamos, Liesel.
— Ela anda a ler — declarou ele. O papá atirou a Liesel um sorriso inabalável e uma piscadela de
olho. — Comigo. Estou a ensiná-la. Vamos até ao Amper, para a parte de cima do rio, onde eu
costumava praticar acordeão.
Agora conseguira captar a atenção dela.
A mãe pousou a roupa em cima da mesa e adoptou impaciente o nível adequado de cinismo. — O
que é que tu disseste?
— Acho que me ouviste, Rosa.
A mãe soltou uma gargalhada. — Que diabo podes tu ensinar-lhe?
— Um trejeito enérgico. Palavras como murros. — Como se tu soubesses ler muito, meu Saukerl.
A cozinha aguardava. O papá contra-atacou. — Nós levamos-te a roupa pronta.
— Seu sacan... — Deteve-se. As palavras estacaram-lhe na boca enquanto ela considerava o
assunto. — Voltem antes de escurecer.
— Não podemos ler às escuras, mãe — disse Liesel.

63

— O que foi isso, Saumensch?


— Nada, mãe.
O papá sorriu e apontou para a rapariga. — Livro, lixa, lápis — mandou ele —, e acordeão! — já
ela desaparecera. Em breve se acharam na Rua Himmel, transportando as palavras, a música e a
roupa.

A caminho da loja de Frau Diller viraram-se algumas vezes para ver se a mãe ainda estava ao
portão, a vigiá-los. Estava. A certa altura, gritou: — Liesel, leva essa roupa passada bem direita!
Não a amarrotes!
— Está bem, mãe!
Alguns passos mais: — Liesel, vais bem agasalhada?
— O que é que disse?
— Saumensch dreckiges, nunca ouves nada! Vais bem agasalhada? Pode arrefecer mais logo!
Virada a esquina, o papá curvou-se para apertar o atacador de um sapato. — Liesel — pediu ele —,
és capaz de me enrolar um cigarro? Nada lhe daria mais prazer.
Uma vez entregue a roupa, dirigiram-se para o rio Amper, que ladeava a cidade. Corria para lá dela,
apontando na direcção de Dachau, o campo de concentração.
Havia uma ponte feita de pranchas de madeira.
Sentaram-se talvez uns trinta metros abaixo, na relva, a escrever as palavras e a lê-las alto, e
quando o crepúsculo se aproximou, Hans pegou no acordeão. Liesel olhava para ele e escutava,
embora não reparasse imediatamente na expressão perplexa que a cara do seu papá apresentava
nessa noite, enquanto tocava.

A CARA DO PAPÁ
Viajava e interrogava,
mas não revelava respostas.
Ainda não.

Operara-se nele uma mudança. Uma leve alteração.


Ela viu-a, mas só se apercebeu disso mais tarde, quando todas as histórias se reuniram. Não o viu a
observar enquanto tocava, e não fazia ideia de que o acordeão de Hans Hubermann era uma
história. Em tempos vindouros, essa história chegaria de madrugada ao 33 da Rua Himmel,
envergando ombros amarrotados e um casaco trémulo. Traria uma mala, um livro e duas perguntas.
Uma história. História após história. História dentro de história.

64

Por agora, no que dizia respeito a Liesel, havia apenas uma e ela estava a desfrutá-la.
Instalou-se nos longos braços da relva, e estendeu-se. Cerrou os olhos e os seus ouvidos retiveram
as notas.

Havia também alguns problemas, é claro. Certas vezes, o papá quase perdia a paciência com ela. —
Anda lá, Liesel — dizia ele. — Tu sabes esta palavra; tu sabes! — Logo quando pareciam estar a
fazer progressos, as coisas emperravam sabe-se lá como.
Se o tempo estava bom, iam para o Amper, à tarde. Com mau tempo, era a cave. isso acontecia
principalmente por causa da mãe. A princípio, eles tentaram a cozinha, mas era impossível.
— Rosa — disse-lhe Hans a dada altura. Serenamente, as suas palavras interromperam uma das
frases dela. — És capaz de me fazer um favor?
Ela levantou os olhos do fogão. — O quê?
— Peço-te, suplico-te, és capaz de calar essa boca só por cinco minutos?
Podem imaginar a reacção. Eles acabaram na cave.
Numa das suas sessões na cave, o papá dispensou a lixa (estava a acabar-se rapidamente) e pegou
num pincel. Em casa dos Hubermann havia poucos luxos, mas havia um excesso de tintas que se
tornou extremamente útil para a aprendizagem de Liesel. O papá dizia uma palavra e a rapariga
tinha de a soletrar em voz alta e depois de a pintar na parede, desde que tivesse acertado. Ao fim de
um mês, a parede recebeu outra camada de tinta. Uma nova página de cimento.

Em algumas noites, depois de trabalhar na cave, Liesel sentava-se agachada na banheira e ouvia
exclamações oriundas da cozinha.
— Tu fedes — dizia a mãe para Hans. — A cigarros e a querosene. Sentada na água, ela imaginava
o cheiro entranhado nas roupas do papá. Mais do que qualquer outra coisa, era o cheiro da amizade,
e ela também o conseguia encontrar em si própria. Liesel adorava esse cheiro. Cheirava o seu braço
e sorria deixando a água arrefecer à sua volta.

65

A CAMPEÃ DE PESADOS DO PÁTIO DA ESCOLA

O Verão de 39 estava com pressa, ou talvez fosse Liesel. Passava o tempo a jogar futebol com Rudy
e os outros garotos da Rua Himmel (um passatempo de todo o ano), a entregar roupa pela cidade
com a mãe, e a aprender palavras. Pareceu-lhe que ele terminara poucos dias após ter começado.
Mais para o final desse ano, aconteceram duas coisas.

SETEMBRO-NOVEMBRO 1939
1. Começa a Segunda Guerra Mundial.
2. Liesel Meminger torna-se campeã de pesados do pátio da escola.

O princípio de Setembro.
Estava um dia frio em Molching quando a guerra começou e o meu trabalho aumentou.
O mundo conversou.
Os títulos dos jornais fizeram uma festa.
A voz do Führer trovejava nos rádios alemães. Não cederemos. Não descansaremos. Sairemos
vitoriosos. Chegou a nossa hora.
A invasão da Polónia pela Alemanha começara e as pessoas reuniam-se por toda a parte para
ouvirem as notícias. A Rua de Munique, tal como todas as outras ruas principais na Alemanha,
fervilhava com a guerra. O cheiro, a voz. O racionamento começara alguns dias antes — a escrita
na parede — e agora era oficial. A Inglaterra e a França tinham apresentado a sua declaração à
Alemanha. Para usar uma frase de Hans Hubermann:

Começa a diversão.

66

No dia do anúncio o papá teve a sorte de encontrar trabalho. A caminho de casa, apanhou um jornal
abandonado, e em vez de parar para o meter no meio das latas de tinta no seu carrinho de mão,
dobrou-o e enfiou-o por baixo da camisa. Quando chegou a casa e o tirou, o suor tinha sugado as
palavras para a sua pele. O jornal aterrou na mesa, mas as notícias estavam pregadas no seu peito.
Uma tatuagem. Segurando a camisa aberta, ele olhou para baixo à luz fraca da cozinha.
— O que é que diz? — perguntou-lhe Liesel, que olhava alternadamente dos caracteres negros na
pele dele para o jornal.
— Hitler toma a Polónia — foi a resposta, e Hans Hubermann abateu-se numa cadeira. —
Deutschland über Alles — murmurou ele, e a sua voz não era minimamente patriótica.
E lá estava novamente aquela cara — a sua cara do acordeão.

Isso foi o começo de uma guerra.


Liesel ver-se-ia em breve envolvida noutra.

Cerca de um mês após o recomeço das aulas, ela foi transferida para o seu nível certo. Talvez
pensem que isso se deveu a progressos na leitura, mas não. Apesar da melhoria, ela continuava a ler
com grande dificuldade. As frases estavam espalhadas por todo o lado. As palavras iludiam-na. A
razão pela qual ela subiu de ano teve mais a ver com o facto de se ter tornado uma distracção na
classe mais jovem. Respondia a perguntas dirigidas às outras crianças e falava alto. Algumas vezes
foi-lhe administrado, no corredor, aquilo a que se chamava uma Watschen (pronunciado
«vatchen»).

UMA DEFINIÇÃO
Watschen = uma boa surra

Foi levada para a sala, sentada numa cadeira lateral, e a professora, que por acaso era uma freira,
mandou-a manter-se de boca fechada. Na outra ponta da aula, Rudy olhou para lá e acenou. Liesel
acenou igualmente e esforçou-se por não sorrir.
Em casa, ia adiantada na leitura de O Manual do Coveiro com o papá. Faziam um círculo à volta
das palavras que ela não conseguia compreender e no dia seguinte levavam-nas para a cave. Liesel
pensava que chegava. Não chegava.
Algures no início de Novembro, houve alguns testes na escola para avaliar os progressos dos
alunos. Um deles era para a leitura.

67

Todas as crianças tinham de ficar de pé à frente da sala e ler uma passagem que a professora lhes
dava. Estava uma manhã gélida, mas brilhante de sol. As crianças moíam os olhos. Um halo
rodeava a ceifeira implacável, a Irmã Maria. (A propósito — gosto desta ideia humana da ceifeira
implacável. Gosto da foice. Diverte-me.)
Na aula inundada de sol, os nomes eram largados ao acaso.
— Waldenheim, Lehmann, Steiner.
Todos se levantaram e fizeram uma leitura, todos com diferentes níveis de capacidade. Rudy
mostrou-se surpreendentemente bom.
Durante o teste, Liesel manteve-se sentada com uma mescla de expectativa ardente e medo
lancinante. Desejava desesperadamente avaliar-se, descobrir de uma vez por todas como a sua
aprendizagem ia avançando. Estaria à altura? Conseguiria aproximar-se sequer de Rudy e dos
outros?
Sempre que a Irmã Maria olhava para a sua lista, um cordão de nervos apertava as costelas de
Liesel. Começara no estômago mas tinha vindo a subir. Em breve estaria a rodear-lhe o pescoço,
grosso como uma corda.
Quando Tommy Müller concluiu a sua tentativa medíocre, ela olhou em redor da sala. Toda a gente
tinha lido. Só faltava ela.

— Muito bem. — A Irmã Maria acenou, examinando a lista. — Estão todos.


O quê?
— Não!
Do outro lado da sala ergueu-se uma voz. Agarrado a ela vinha um rapaz com cabelo cor de limão,
cujos joelhos ossudos se tocavam sob as calças debaixo da secretária. Ergueu a mão e disse: —
Irmã Maria, acho que se esqueceu da Liesel.

A Irmã Maria.
Não se mostrou impressionada.

Pousou a pasta na mesa diante de si e inspeccionou Rudy com um suspiro de desaprovação. Era
quase melancolia. Por que teria ela, lamentou-se, de aturar o Rudy Steiner? Ele simplesmente não
conseguia ficar calado. Porquê, meu Deus, porquê?
— Não — declarou ela, em tom definitivo. A sua pequena barriga inclinou-se para a frente com o
resto do corpo. — Lamento, mas a Liesel não consegue fazer isto, Rudy. — A professora olhou para
o outro lado da sala, esperando a confirmação. — Lerá para mim mais tarde.

68

A rapariga pigarreou e falou num tom de desafio sereno. — Eu consigo fazer isto agora, Irmã. — A
maioria dos outros miúdos observava em silêncio. Alguns deles dedicavam-se à bela arte infantil
dos risinhos abafados.
A Irmã estava farta. — Não, não consegues!... Que estás tu a fazer?
Pois Liesel levantara-se da sua cadeira e caminhava lenta e rigidamente em direcção à frente da
sala. Pegou no livro e abriu-o numa página ao acaso.
— Então está bem — disse a Irmã Maria. — Queres ler? Lê.
— Sim, Irmã. — Após um breve relance a Rudy, Liesel baixou os olhos e examinou a página.
Quando voltou a erguê-los, viu a sala ser desmembrada e depois novamente aglutinada. Todos os
garotos se amalgamaram, ali, diante dos seus olhos, e num instante de fulgor ela imaginou-se a ler a
página inteira num triunfo de fluência impecável.

UMA PALAVRA-CHAVE
Imaginou

— Anda lá, Liesel! Rudy rompeu o silêncio.


A rapariga que roubava livros olhou novamente para as palavras.
Anda lá. Desta vez Rudy articulou em silêncio. Anda lá, Liesel.
O sangue dela tornou-se ruidoso. As frases ficaram enevoadas.
A página branca surgiu subitamente escrita noutra língua, e o facto de estarem agora a formar-se
lágrimas nos seus olhos não ajudou nada. Ela já nem conseguia ver as palavras.
E o sol. O terrível sol. Irrompia pela janela — havia vidros por toda a parte — e brilhava
directamente sobre a rapariga inútil. Gritava-lhe na cara. — Consegues roubar um livro, mas não
consegues ler um livro!
Então ocorreu-lhe. A solução.
Respira, respira, e começou a ler, mas não do livro diante dela. Era algo de O Manual do Coveiro.
Capítulo três: «Em Caso de Neve». Liesel decorara-o ouvindo a voz do papá.
— Em caso de neve — proferiu ela —, tem de certificar-se de que usa uma boa pá. Tem de cavar
fundo; não pode ser preguiçoso. Não pode abreviar. — Voltou a inspirar uma larga golfada de ar. —
É claro, é mais fácil esperar pela parte mais quente do dia, quando...
Acabou.
O livro foi-lhe arrebatado da mão e ordenaram-lhe: — Liesel... ao corredor.

69
Enquanto lhe era aplicada uma pequena Watschen, ela ouviu-os a todos a rir na aula, nos intervalos
da mão castigadora da Irmã Maria. Viu-os. Todas aquelas crianças amalgamadas. A fazerem caretas
e a rir. Banhadas de sol. Todos a rir menos Rudy.

No intervalo, foi escarnecida. Um rapaz chamado Ludwig Schmeikl aproximou-se dela com um
livro. — Eh, Liesel — disse ele —, estou a ter problemas com esta palavra. Es capaz de a ler? —
Riu-se; o riso presunçoso de um garoto de dez anos. — Dummkopf— idiota.
Surgiam nuvens agora, grandes e toscas, e havia mais garotos a invectivarem-na, a desfrutarem da
sua agitação.
— Não lhes dês ouvidos — aconselhou Rudy.
— Para ti é fácil dizeres isso. Não és tu o estúpido.
Perto do fim do intervalo, o total de comentários ia em dezanove. Ao vigésimo, ela explodiu. Era
Schmeikl, que voltara à carga. — Anda lá, Liesel. — Enfiou-lhe o livro por baixo do nariz. —
Ajuda-me, está bem?
Liesel ajudou-o, de facto.

Endireitou-se e tirou-lhe o livro, e enquanto ele sorria por cima do ombro para alguns outros
garotos, ela atirou-o fora e deu-lhe um pontapé com toda a força de que foi capaz nas proximidades
da virilha.
Bem, como podem imaginar, Ludwig Schmeikl dobrou-se indiscutivelmente, e a caminho do chão
levou um murro na orelha. Quando aterrou, foi atacado. Quando foi atacado, foi esbofeteado e
arranhado e obliterado por uma rapariga totalmente dominada pela raiva. A pele dele era tão cálida
e macia. Os nós dos dedos e as unhas dela eram tão terrivelmente rijos, apesar da sua pequenez. —
Saukerl. — Também a voz dela conseguia arranhá-lo. — Arschloch. És capaz de me soletrar
Arschloch?
Ah, como as nuvens tropeçavam e se aglomeravam estupidamente no céu.
Grandes nuvens obesas.
Negras e roliças.
Chocando umas com as outras. Desculpando-se. Prosseguindo e achando espaço.
Surgiram crianças, rápidas como... bem, rápidas como crianças gravitando em direcção a uma
briga. Um cozinhado de braços e pernas, de gritos e aplausos foi aumentando em volta deles.
Ficaram a ver Liesel Meminger administrar a Ludwig Schmeikl a surra da vida dele. —Jesus,
Maria e José — comentou uma rapariga em voz aguda —, ela vai matá-lo!

70

Liesel não o matou. Mas esteve muito perto.


Na verdade, provavelmente a única coisa que a impediu foi a cara sorridente e pateticamente cheia
de tiques de Tommy Müller. Ainda transbordante de adrenalina, Liesel avistou-o a sorrir de forma
tão absurda que o derrubou e começou a espancá-lo também a ele.
— Que estás tu a fazer? — gemeu Tommy, e só então, após o terceiro ou quarto sopapos e um fio
de sangue vivo a correr-lhe do nariz, é que ela parou.
De joelhos, aspirou profundamente o ar e escutou os queixumes debaixo dela. Observou o
torvelinho de rostos, à esquerda e à direita, e anunciou: — Eu não sou estúpida. Ninguém discutiu.

Só depois de toda a gente ter ido para dentro e a Irmã Maria ver o estado de Ludwig Schmeikl é
que a luta se reacendeu. Primeiro, foram Rudy e alguns outros a suportar o impacto da suspeita.
Passavam a vida à bulha. — Mãos — foi exigido a cada um dos rapazes. Mas estavam todas
limpas.
— Não acredito nisto — murmurou a Irmã. — Não pode ser — porque, não havia dúvida, quando
Liesel avançou para mostrar as suas mãos, Ludwig Schmeikl estava lá escarrapachado, e a secar
rapidamente. — Corredor — ordenou ela pela segunda vez nesse dia. Pela segunda vez nessa hora,
na realidade.
Dessa vez, não foi uma pequena Watschen. Nem uma média. Dessa vez foi a mãe de todas as
Watschens de corredor, uma ferroada após outra da vergasta, de maneira que Liesel mal se poderia
sentar durante uma semana. E não houve risos da sala. Antes o medo silencioso da escuta.

No fim do dia escolar, Liesel regressou a casa com Rudy e os outros garotos dos Steiner. Ao
aproximarem-se da Rua Himmel, numa precipitação de pensamentos, abateu-se sobre ela um
culminar de desgraças — o recital falhado de O Manual do Coveiro, a demolição da sua família, os
seus pesadelos, a humilhação do dia — e Liesel agachou-se na valeta e chorou. Tudo levava ali.
Rudy manteve-se lá, a seu lado.
Começou a chover, forte e feio.
Kurt Steiner chamou-os, mas nenhum deles se moveu. Um estava agora penosamente sentado entre
os pedaços de chuva que tombavam, e o outro permanecia junto dela, à espera.

71

— Por que é que ele tinha de morrer? — perguntou ela, mas Rudy continuou sem fazer nada, e sem
dizer nada.
Quando por fim ela terminou e se ergueu, ele passou-lhe o braço pelos ombros, tipo melhor amigo,
e continuaram. Não houve qualquer pedido de beijo. Nada que se parecesse. Podem gostar de Rudy
por isso, se quiserem.
Só não me dês um pontapé nos tomates.
Era o que ele ia a pensar, mas não o disse a Liesel. Passariam quase quatro anos até ele lhe dar essa
informação.
Por agora, Rudy e Liesel dirigiam-se para a Rua Himmel debaixo de chuva.
Ele era o maluco que se pintara de preto e derrotara o mundo.
Ela era a rapariga que roubava livros mas não tinha palavras.
No entanto, acreditem em mim, as palavras vinham a caminho e, quando elas chegassem, Liesel
agarrá-las-ia nas suas mãos como as nuvens, e torcê-las-ia como a chuva.
72

PARTE DOIS
o encolher de ombros

apresentando:
uma rapariga feita de trevas — a alegria dos cigarros percorrendo a cidade — algumas cartas
mortas o aniversário de Hitler — suor alemão cem por cento puro — os portões do roubo — e um
livro de fogo

UMA RAPARIGA FEITA DE TREVAS

ALGUMA INFORMAÇÃO ESTATÍSTICA


Primeiro livro roubado: 13 de Janeiro de 1939
Segundo livro roubado: 20 de Abril de 1940
Intervalo entre os citados livros roubados: 463 dias
Se quiséssemos tratar o assunto com frivolidade, diríamos que bastou apenas um bocadinho de
fogo, na realidade, e alguns gritos humanos como acompanhamento. Diríamos que Liesel
Meminger apenas necessitou disso para apreender o seu segundo livro roubado, apesar de ele lhe
fumegar nas mãos. Apesar de ele lhe incendiar as costelas.
O problema, contudo, é este:
Não é altura para frivolidades.
Não é altura para estar semivigilante, voltando-se ou verificando o fogão — porque quando a
rapariga que roubava livros roubou o seu segundo livro, não só houve muitos factores implicados
na sua ânsia de o fazer, como o acto de o roubar desencadeou o ponto crucial do que estava para vir.
Proporcionar-lhe-ia um local para continuar a roubar livros. Inspiraria Hans Hubermann a
engendrar um plano para ajudar o pugilista judeu. E mostrar-se-ia, uma vez mais, que uma
oportunidade leva directamente a outra, assim como um risco leva a mais riscos, vida a mais vida e
morre a mais morre.
De certo modo, foi o destino.

Sabem, as pessoas podem dizer-lhes que a Alemanha nazi foi edificada no anti-semitismo, um líder
um tanto ou quanto excessivamente zeloso, e uma nação de fanáticos empanturrados de ódio, mas
tudo isso teria dado em nada se os alemães não adorassem uma actividade especial.

75

Queimar.
Os alemães adoravam queimar coisas. Lojas, sinagogas, Reichtags, casas, artigos pessoais, gente
assassinada e, é claro, livros. Eles apreciavam realmente uma boa queima de livros — o que
proporcionava às pessoas parciais em relação a estes a oportunidade de deitar a mão a certas
publicações que não obteriam de outra maneira. Uma pessoa que possuía essa inclinação, como
sabemos, era uma rapariga franzina chamada Liesel Meminger. Ela pode ter esperado 463 dias, mas
valeu a pena. No fim de uma tarde recheada de muita excitação, muita maldade bela, um tornozelo
ensopado em sangue, e uma bofetada de uma mão em que ela confiava, Liesel Meminger obteve a
sua segunda história de sucesso. O Encolher de Ombros. Era um livro azul com letras vermelhas
gravadas na capa, e havia uma pequena imagem de um cuco, igualmente vermelho, sob o título.
Olhando para trás, Liesel não sentia vergonha por o ter roubado. Pelo contrário, o que mais se
assemelhava a essa pequena poça de sentir algo no estômago era orgulho. E fora a raiva e um ódio
negro que alimentara o seu desejo de o roubar. De facto, a 20 de Abril — o aniversário do Führer
—, quando arrebatou aquele livro debaixo de um monte de cinzas, Liesel era uma rapariga feita de
trevas.
A pergunta, como é óbvio, deveria ser porquê?
O que havia para justificar a raiva?
O que acontecera nos últimos quatro ou cinco meses para culminar em tal sentimento?
Resumindo, a resposta ia da Rua Himmel até ao Führer e à impossibilidade de localizar a sua mãe
verdadeira, e voltava de novo para trás.
Como a maior parte das desgraças, começou com uma felicidade aparente.

76

A ALEGRIA DOS CIGARROS


Lá para o final de 1939, Liesel já se adaptara bastante bem à vida em Molching. Ainda tinha
pesadelos com o irmão e sentia saudades da mãe, mas agora também havia confortos.
Amava o seu papá, Hans Hubermann, e até mesmo a sua mãe de acolhimento, apesar dos maus
tratos e ataques verbais. Amava e odiava o seu melhor amigo, Rudy Steiner, o que era
perfeitamente normal. E gostava do facto de, apesar do fracasso na sala de aula, a sua leitura e
escrita estarem definitivamente a melhorar e prestes a atingir um nível respeitável. Tudo isto
resultara, pelo menos, numa certa forma de contentamento, que em breve aumentaria aproximando-
se do conceito de Ser Feliz.

AS CHAVES DA FELICIDADE
1. Acabar O Manual do Coveiro.
2. Escapar à ira da Irmã Maria.
3. Receber dois livros pelo Natal.

17 de Dezembro.
Recordava-se bem da data, porque fora exactamente uma semana antes do Natal.
Como de costume, o pesadelo quotidiano interrompeu-lhe o sono e foi acordada por Hans
Hubermann. A sua mão segurava o tecido transpirado do pijama dela. — O comboio? — sussurrou
ele.
Liesel confirmou. — O comboio.
Absorveu o ar às golfadas até estar preparada, e começaram a ler do capítulo onze de O Manual do
Coveiro. Pouco depois das três acabaram--no, e ficou apenas o capítulo final, «Respeitar a Campa».
O papá, os olhos de prata inchados de fadiga e o rosto com a barba a despontar, fechou o livro e
aguardou os restos do seu sono. Não os obteve.

77

Ainda a luz se não apagara há um minuto quando Liesel lhe falou no escuro.
— Papá?
Ele emitiu apenas um ruído, algures na garganta.
— Está acordado, papá?
— Já.
Apoiada num cotovelo. — Podemos acabar o livro, por favor? Seguiu-se um longo suspiro, mãos a
coçar a barba e depois a luz. Ele abriu o livro e começou. — Capítulo Doze: Respeitar a Campa.

Leram ao longo das primeiras horas da madrugada, rodeando e escrevendo as palavras que ela não
compreendia e virando as páginas em direcção à luz do dia. Algumas vezes, o papá quase
adormeceu, sucumbindo à fadiga ardente dos seus olhos e à inclinação da cabeça. Liesel apanhou-o
em todas as ocasiões, mas não teve nem o altruísmo de lhe permitir que dormisse nem o
descaramento de se sentir ofendida. Era uma rapariga com uma montanha para escalar.
Finalmente, quando a escuridão lá fora começava a atenuar-se um pouco, terminaram. A última
passagem dizia o seguinte:

Nós, na Associação de Cemitérios da Baviera, esperamos ter-vos elucidado e distraído quanto às


tarefas, medidas de segurança e deveres de coveiros. Desejamos--vos o maior sucesso na vossa
carreira nas artes funerárias e esperamos que este livro tenha de alguma forma ajudado.

Fechado o livro, trocaram um olhar de viés. O papá falou.


— Conseguimos, hem?
Liesel, meio embrulhada no cobertor, observou o livro negro que empunhava, e as suas letras
prateadas. Anuiu, de boca seca e sentindo a fome da madrugada. Era um desses momentos de
fadiga perfeita, de ter vencido não apenas o trabalho em mãos, mas também a noite que lhe
bloqueara o caminho.
O papá espreguiçou-se de punhos cerrados, os olhos moídos a fecharem-se, e despontou uma
manhã que não se atreveu a estar chuvosa. Levantaram-se ambos e dirigiram-se à cozinha, e através
da névoa e da geada da janela, puderam ver as faixas de luz rosada nas bermas cobertas de neve dos
telhados da Rua Himmel.
— Observa as cores — disse o papá. E difícil não gostar de um homem que, além de reparar nas
cores, ainda fala delas.
Liesel continuava a segurar o livro. Apertou-o com mais força enquanto a neve se ia tingindo de
laranja.

78

Num dos telhados, via um rapazinho, sentado, a olhar para o céu. — Ele chamava-se Werner —
informou ela. As palavras saíram-lhe, involuntariamente.
— Sim — disse o papá.

Durante esse tempo não houvera mais testes de leitura na escola, mas à medida que Liesel foi
devagar ganhando confiança, uma manhã pegou num livro ao acaso diante da turma para ver se
conseguia ler sem problemas. Conseguiu ler todas as palavras, mas continuava emperrada num
ritmo muito mais lento do que os seus colegas. É muito mais fácil, apercebeu-se ela, estar prestes a
atingir uma coisa do que chegar realmente lá. Aquilo ainda ia levar tempo.
Uma tarde, sentiu-se tentada a roubar um livro da estante da aula, mas, francamente, a perspectiva
de outra Watschen no corredor às mãos da Irmã Maria foi um impeditivo suficientemente forte.
Além disso, ela não tinha realmente um desejo autêntico de levar os livros da escola.
Provavelmente era a intensidade do seu fracasso de Novembro que provocava tal falta de interesse,
mas Liesel não tinha a certeza. Só sabia que a sentia.
Na aula, não falava.
Nem sequer olhava para os lados.
Quando o Inverno se instalou, ela já deixara de ser a vítima das frustrações da Irmã Maria,
preferindo observar enquanto outros marchavam para o corredor e recebiam a sua justa
recompensa. O som de outro aluno a debater-se na entrada não era particularmente agradável, mas
o facto de ser outro era, se não um verdadeiro conforto, um alívio.

Houve uma breve interrupção das aulas por causa do Weihnachten, e Liesel permitiu-se mesmo
desejar um «Feliz Natal» à Irmã Maria antes de partir. Sabendo que os Hubermann estavam
essencialmente falidos, ainda a pagar dívidas e a renda de casa mais depressa do que o dinheiro
entrava, ela não esperava qualquer tipo de presente. Talvez apenas uma comida melhor. Para sua
surpresa, na véspera de Natal, ao chegar a casa depois da ida à igreja à meia-noite com a mãe, o
papá, Hans Junior e Trudy, encontrou uma coisa embrulhada em papel de jornal junto à árvore de
Natal.
— Do Pai Natal — disse o papá, mas a rapariga não se deixou iludir. Abraçou os pais de
acolhimento, com flocos de neve ainda sobre os ombros.
Abriu o jornal e desembrulhou dois pequenos livros. O primeiro, O Cão Fausto, fora escrito por um
homem chamado Matheus Ottleberg.

79
Tudo somado, ela leria esse livro treze vezes. Na véspera de Natal, leu as primeiras vinte páginas na
mesa da cozinha enquanto o papá e Hans Junior discutiam sobre uma coisa que ela não entendia.
Uma coisa chamada política.
Depois leram mais um bocado na cama, voltando à tradição de traçar um círculo em volta das
palavras que ela não conhecia e de as anotar. 0 Cão Fausto também tinha imagens — encantadoras
curvas e orelhas e caricaturas de um pastor alemão com um obsceno problema de salivagem e a
capacidade de falar.
O segundo livro chamava-se O Farol e fora escrito por uma mulher, Ingrid Rippinstein. Esse livro
era um pouco mais longo, de maneira que Liesel só conseguiu lê-lo nove vezes, e o seu ritmo
aumentou ligeiramente após tão prolíficas leituras.
Passavam alguns dias do Natal quando ela fez uma pergunta a respeito dos livros. Estavam na
cozinha a comer. Fitando a colher de sopa de ervilhas que avançava para a boca da mãe, Liesel
decidiu voltar a sua atenção para o papá. — Há uma coisa que eu preciso de perguntar.
A princípio, não houve reacção.
— E?
Era a mãe, a boca ainda semicheia.
— Só queria saber como é que arranjaram dinheiro para comprar os meus livros.
Um breve sorriso tombou na colher do papá. — Queres realmente saber?
— Claro.
O papá tirou do bolso o que restava da sua ração de tabaco e começou a enrolar um cigarro, perante
a impaciência de Liesel.
— Vai-me contar ou não?
O papá riu-se. — Mas eu estou a contar-te, criança. — Concluiu a produção de um cigarro, bateu-o
na mesa, e começou outro. — Foi assim mesmo.
Nessa altura a mãe terminou a sua sopa com um tinido metálico, abafou um leve arroto, e
respondeu por ele. — Esse Saukerl — disse ela. — Sabes o que ele fez? Enrolou todos os seus
imundos cigarros, foi à cidade no dia de mercado, e trocou-os com um cigano qualquer.
— Oito cigarros por livro. — Triunfante, o papá enfiou um na boca. Acendeu-o e inspirou o fumo.
— Demos graças a Deus pelos cigarros, hem, mãe?
A mãe limitou-se a dirigir-lhe um dos seus característicos olhares de desprezo, seguido da peça
mais vulgar do seu vocabulário. — Saukerl.

80

Liesel trocou a habitual piscadela de olho com o papá e acabou de comer a sopa. Como sempre, um
dos seus livros encontrava-se junto dela. Não podia negar que a resposta à sua pergunta fora mais
do que satisfatória. Não havia muita gente a poder dizer que a sua educação fora paga com cigarros.
A mãe, por outro lado, declarou que se Hans Hubermann prestasse para alguma coisa, trocaria
algum tabaco pelo vestido novo de que ela precisava desesperadamente ou por melhores sapatos.
— Mas não... — Despejou as palavras para o lava-louça. — Quando se trata de mim, preferes
fumar a ração inteira, não é? Mais alguns da casa ao lado.
Algumas noites depois, contudo, Hans Hubermann chegou a casa com uma caixa de ovos. —
Lamento, mãe. — Pousou-os em cima da mesa. — Eles não tinham sapatos.
A mãe não se queixou.
Chegou mesmo a trautear uma canção enquanto cozia aqueles ovos quase a ponto de os queimar.
Aparentemente havia muita alegria nos cigarros, e foi uma ocasião feliz em casa dos Hubermann.
Isso acabou algumas semanas mais tarde.

81
PERCORRENDO A CIDADE
A decomposição começou com a roupa suja e aumentou rapidamente.
Enquanto Liesel acompanhava Rosa Hubermann nas suas entregas por Molching, um dos seus
clientes, Ernst Vogel, informou-as de que não poderia mais suportar a despesa de mandar lavar e
passar a roupa fora. — São os tempos — desculpou-se ele —, o que posso eu dizer? Estão cada vez
mais difíceis. A guerra está a tornar as coisas apertadas. — Olhou para a rapariga. — Estou certo de
que recebe uma pensão por manter a pequena, não é?
Para assombro de Liesel, a mãe ficou sem palavras.
A seu lado tinha um saco vazio.
Anda, Liesel.
Não foi dito. Foi arrastado, com mão dura.
Vogel chamou do degrau de entrada. Teria perto de um metro e oitenta e as madeixas de cabelo
gordurento pendiam-lhe inertes para a testa. — Lamento, Frau Hubermann!
Liesel acenou-lhe.
Ele retribuiu.
A mãe ralhou.
— Não acenes a esse Arschloch — mandou ela. — E agora despacha-te.
Nessa noite, durante o banho de Liesel, a mãe esfregou-a com força desusada, resmungando
constantemente acerca daquele Saukerl Vogel e imitando-o de dois em dois minutos. — Deve
receber uma pensão pela rapariga... — Enquanto esfregava, ia censurando o peito nu de Liesel. —
Tu não vales assim tanto, Saumensch. Não me estás a tornar rica, sabes.
Liesel aguentou sem reagir.

82

Não mais de uma semana após esse incidente, Rosa arrastou-a para a cozinha. — Ora bem, Liesel.
— Sentou-a à mesa. — Uma vez que passas metade do tempo na rua a jogar futebol, podes tornar-
te útil lá fora. Para variar.
Liesel observa apenas as suas próprias mãos. — O que é, mãe?
— De agora em diante vais passar a recolher e a entregar a roupa por mim. É menos provável que
esses ricaços nos despeçam se fores tu a aparecer diante deles. Se te perguntarem onde é que eu
estou, dizes que estou doente. E faz um ar triste quando disseres isso. És suficientemente franzina e
pálida para lhes fazeres pena.
— Herr Vogel não teve pena de mim.
— Bem... — A sua agitação era evidente. — Talvez os outros tenham. Portanto não discutas.
— Sim, mãe.
Por momentos, pareceu que a sua mãe de acolhimento a iria consolar ou dar-lhe uma palmadinha
no ombro.
Boa menina, Liesel. Boa menina. Palmadinha, palmadinha, palmadinha.
Não fez nada de semelhante.
Em vez disso, Rosa Hubermann levantou-se, escolheu uma colher de pau, e segurou-a debaixo do
nariz de Liesel. Era uma necessidade, no que lhe dizia respeito. — Quando andares lá por fora na
rua, leva o saco a cada sítio e trá-lo imediatamente para casa, com o dinheiro, mesmo que seja
muito pouco. Nada de ir ter com o papá se ele excepcionalmente estiver mesmo a trabalhar. Nada
de ir vadiar com aquele pequeno Saukerl, o Rudy Steiner. Imediatamente. Casa.
— Sim, mãe.
— E quando pegares no saco, pega-lhe como deve ser. Não o balances, nem deixes cair, nem
amarrotes, nem o ponhas a tiracolo.
— Sim, mãe.
— Sim, mãe. — Rosa Hubermann era uma óptima imitadora e punha nisso grande fervor. — É
bom que não, Saumensch. Se o fizeres eu descubro; sabes isso, não sabes?
— Sim, mãe.
Dizer aquelas duas palavras era frequentemente a melhor maneira de sobreviver, bem como
cumprir com o que lhe diziam e, a partir daí, Liesel percorreu as ruas de Molching, da parte pobre à
parte rica, a recolher e a entregar roupa. A princípio, era um trabalho solitário de que ela nunca se
queixava.

83

Afinal, logo da primeira vez que levou o saco pela cidade, virou a esquina para a Rua de Munique,
olhou para ambos os lados, e deu-lhe um enorme balanço — uma volta inteira — e depois verificou
o conteúdo. Felizmente não havia rugas. Nem pregas. Apenas um sorriso e a promessa de não
voltar a balançá-lo.
Em geral, Liesel gostava daquilo. Não recebia qualquer parte do pagamento, mas estava fora de
casa, e percorrer as ruas sem a mãe era só por si o paraíso. Nada de dedos a apontar ou injúrias.
Nada de pessoas a fitarem-nas enquanto ela era insultada por segurar mal na saca. Nada senão
serenidade.
Acabou por gostar também das pessoas:
Os Pfaffelhurver, que inspeccionavam a roupa e diziam: —Ja, ja, sebr gut, sehr gut (Nota). —
Liesel imaginava que eles faziam tudo em duplicado.
A doce Helena Schmidt, a entregar o dinheiro com um gesto curvo da mão artrítica.
Os Weingartner, cujo gato de bigodes caídos os acompanhava sempre à porta. Chamavam-lhe
Pequeno Goebbels, o nome do homem que era o braço direito de Hitler.
E Frau Hermann, a mulher do presidente da câmara, de cabelo lanugento e a tremer de frio, parada
no limiar da sua enorme porta de onde se escoava um ar gélido. Sempre calada. Sempre sozinha.
Nem uma palavra, nem uma única vez.
Às vezes, Rudy acompanhava-a.
— Quanto dinheiro tens aí? — perguntou ele uma tarde. — Era quase escuro e iam a passar pela
loja, de regresso à Rua Himmel. — Já ouviste o que dizem da Frau Diller, não ouviste? Parece que
tem doces escondidos algures e que pelo preço certo...
— Nem penses nisso. — Liesel, como sempre, agarrava com força o dinheiro. — Para ti não é tão
mau... não tens de enfrentar a minha mãe.
Rudy encolheu os ombros. — Foi só a ver se pegava.
Em meados de Janeiro, os trabalhos escolares viraram a sua atenção para a escrita de cartas. Depois
de aprendidas as coisas básicas, cada aluno devia escrever duas cartas, uma para um amigo e outra
para alguém de outra turma.
A carta de Rudy para Liesel dizia o seguinte:

Nota - Sim, sim, muito bem, muito bem. (NT)

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Cara Saumensch.
Contínuas tão inútil no futebol como da última vez que jogámos? Espero que sim. Isso significa
que posso ultrapassar-te outra vez tal como o Jesse Owens nas Olimpíadas...

Quando a Irmã Maria a descobriu, fez-lhe uma pergunta, muito amavelmente.

A OFERTA DA IRMÃ MARIA


Apetece-lhe ir visitar o corredor, Sr. Steiner?

Desnecessário será dizer que Rudy respondeu na negativa, o exercício foi rasgado e ele recomeçou.
A segunda tentativa foi escrita a alguém chamado Liesel e indagava quais seriam os seus
passatempos preferidos.
Em casa, enquanto completava uma carta dos trabalhos desse dia, Liesel decidiu que escrever a
Rudy ou a outro Saukerl qualquer era na verdade ridículo. Não significava nada. Como se
encontrava na cave, dirigiu-se ao papá que estava outra vez a pintar a parede.
Tanto ele como as emanações da tinta se viraram. — Was wuistz?
— Aquilo era a forma mais rude de se expressar em alemão, mas foi dito com um ar de simpatia
absoluta. — Sim, que é?
— Eu seria capaz de escrever uma carta à mãe? Pausa.
— Para que é que lhe queres escrever uma carta? Tens de a aturar todos os dias. — O papá estava a
schmunzelir — um sorriso zombeteiro.
— Não é suficientemente mau?
— Não é essa mãe. — Engoliu em seco.
— Ah. — O papá virou-se de novo para a parede e continuou a pintar. — Bom, suponho que sim.
Podias mandá-la à, como-é-que-ela-se-chama... a que cá te trouxe e veio ver-te aquelas poucas
vezes... lá da gente do acolhimento.
— Frau Heinrich.
— Isso. Manda-lha. Talvez ela a possa mandar à tua mãe. — Mesmo então ele não parecera
convencido, como se estivesse a ocultar alguma coisa a Liesel. As conversas sobre a mãe tinham
também sido lacónicas durante as breves visitas de Frau Heinrich.
Em vez de lhe perguntar o que havia, Liesel principiou de imediato a escrever, optando por ignorar
a sensação de agouro que rapidamente cresceu dentro de si. Levou três horas e seis rascunhos a
aperfeiçoar a carta, a contar à mãe tudo a respeito de Molching, do seu papá e do seu acordeão, as
atitudes estranhas mas verdadeiras de Rudy Steiner, e as façanhas de Rosa Hubermann.

85

Explicou também como estava orgulhosa de já saber ler e escrever um bocadinho. No dia seguinte,
meteu-a no correio na loja de Frau Diller, com um selo da gaveta da cozinha. E começou a esperar.
Na noite em que escreveu a carta, ouviu por acaso uma conversa entre Hans e Rosa.
— Por que é que ela está a escrever à mãe? — dizia a mãe. A voz estava surpreendentemente
calma e carinhosa. Como podem calcular, isso preocupou imenso a rapariga. Teria preferido ouvi-
los a discutir. Adultos aos sussurros não inspiravam confiança.
— Ela perguntou-me — respondeu o papá —, e eu não consegui dizer que não. Como é que podia?
— Jesus, Maria e José. — Novamente o sussurro. — Liesel devia esquecê-la. Quem sabe onde ela
está? Quem sabe o que eles lhe fizeram?
Na cama, Liesel abraçou-se a si mesma com força. Enrolou-se toda.
Pensou na mãe e repetiu as perguntas de Rosa Hubermann.
Onde é que ela estava?
O que é que eles lhe tinham feito?
E, de uma vez por todas, quem, de facto, eram eles?

86

CARTAS MORTAS
Flash para a frente: a cave, Setembro 1943.
Uma rapariga de catorze anos está a escrever num pequeno livro de capa preta. É magra mas forte e
já viu muitas coisas. O papá está sentado com o acordeão aos pés.
Diz ele: — Sabes, Liesel? Eu quase te escrevi uma resposta assinada com o nome da tua mãe. —
Coça a perna, onde costumava ter o gesso. — Mas não fui capaz. Não fui capaz de me decidir.

Diversas vezes, durante o resto de Janeiro e todo o Fevereiro de 1940, sempre que Liesel ia à caixa
do correio procurar uma resposta à sua carta, era evidente que isso despedaçava o coração do seu
pai de acolhimento. — Tenho imensa pena — dizia-lhe ele. — Não foi hoje, hem? — Olhando para
trás, ela via que tudo aquilo fora inútil. Se a mãe estivesse em posição de o poder fazer, já teria
estabelecido contacto com a gente do centro de acolhimento, ou directamente com a rapariga, ou
com os Hubermann. Mas não houvera nada.
Para agravar ainda mais as coisas, em meados de Fevereiro, Liesel recebeu uma carta de outro
cliente de Rosa, os Pfaffelhürver, de Heide Strasse. Mantinham-se ambos em toda a sua altura à
entrada da porta, fitando-a com um olhar melancólico. — Para a tua mãe — proferiu o homem,
entregando-lhe o sobrescrito. — Diz-lhe que temos muita pena. Diz-lhe que temos muita pena.
Essa não foi uma boa noite na residência dos Hubermann.
Mesmo depois de se ter ido refugiar na cave para escrever a sua quinta carta à mãe (todas, menos a
primeira, ainda por enviar), Liesel ouvia Rosa a praguejar e a barafustar contra aqueles Arschlöcher
Pfaffelhürver e aquele nojento Ernst Vogel.
— Feuer soll'n's brunzen für einen Monat! — ouviu-a ela exclamar. Tradução: — Deviam todos
mijar fogo durante um mês!

87

Liesel escrevia.

No dia dos seus anos, não houve presente. Não houve presente porque não havia dinheiro e, nessa
altura, o papá estava sem tabaco.
— Eu bem te disse. — A mãe apontou-lhe o dedo. — Eu disse-te para não lhe dares os dois livros
pelo Natal. Mas não. Deste-me ouvidos? Claro que não!
— Eu sei. — Virou-se brandamente para a rapariga. — Lamento, Liesel. Não podemos mesmo
comprar nada.
Liesel não se importou. Não se queixou nem choramingou nem bateu com os pés no chão. Engoliu
simplesmente o seu desapontamento e resolveu correr um risco calculado — dar um presente a si
própria. Juntaria todas as cartas acumuladas para a mãe, enfiá-las-ia num sobrescrito, e usaria
apenas uma minúscula porção do dinheiro da roupa lavada e passada para o pôr no correio. Depois,
é claro, receberia a Watschen, muito provavelmente na cozinha, e não soltaria um som.

Três dias depois, o plano foi executado.


— Falta algum. — A mãe contou o dinheiro pela quarta vez, com Liesel junto ao fogão. Estava
quente ali e suavizava o fluir rápido do seu sangue. — O que aconteceu, Liesel?
Ela mentiu. — Eles devem ter-me dado menos do que o costume.
— Contaste-o?
Liesel cedeu. — Eu gastei-o, mãe.
Rosa aproximou-se mais. Isso não era bom sinal. Estava muito perto das colheres de pau. — Tu
quê?
Antes de ela poder responder, a colher de pau abateu-se sobre o corpo de Liesel Meminger como a
ira de Deus. Marcas vermelhas como pegadas, que queimavam. Do chão, quando aquilo acabou, a
rapariga olhou para cima e explicou.
Um latejar e luzes amarelas, tudo misturado. Os seus olhos piscavam. — Pus as minhas cartas no
correio.
O que lhe chegou então foi a poeira do soalho, a sensação de que a sua roupa se encontrava mais
junto dela do que nela, e a súbita compreensão de que tudo aquilo seria inútil — que a mãe nunca
responderia e que ela nunca mais voltaria a vê-la. Essa realidade foi como uma segunda Watschen.
Fustigou-a e demorou largos minutos a parar.
Acima dela, Rosa parecia uma mancha indistinta, que logo ficou nítida com o aproximar da cara
engelhada. A sua forma maciça mostrava-se abatida, segurando a colher de pau ao lado do corpo
como um cacete. Inclinou-se e deixou escapar: — Lamento, Liesel.

88

Liesel conhecia-a suficientemente bem para saber que ela não se referia à surra.
As marcas vermelhas aumentaram, formando manchas na sua pele, enquanto ela ali ficava,
estendida no meio do pó, da sujidade e da luz baça. A respiração acalmou, e pela cara escorreu-lhe
uma única lágrima amarela. Podia sentir-se contra o chão. Um braço, um joelho. Um cotovelo. A
face. Um músculo da barriga da perna.
O chão estava frio, especialmente contra a sua face, mas Liesel achava-se incapaz de se mover.
Nunca mais voltaria a ver a mãe.
Durante quase uma hora permaneceu estendida debaixo da mesa da cozinha, até que o papá chegou
a casa e tocou o acordeão. Só então ela se sentou e começou a recompor-se.
Quando escreveu acerca dessa noite, não guardava qualquer animosidade contra Rosa Hubermann,
nem tão-pouco contra a sua mãe. Para Liesel, elas eram apenas vítimas das circunstâncias.
O único pensamento recorrente era a lágrima amarela. Se estivesse escuro, apercebia-se ela, aquela
lágrima teria sido negra.
Mas era negra, disse ela a si mesma.
Por mais que tentasse imaginar essa cena com a luz amarela que sabia ter existido, precisava de se
esforçar para a visualizar. Fora espancada no escuro, e lá permanecera, num soalho de cozinha frio
e escuro. Até a música do papá era da cor da escuridão.
Até a música do papá.
O que era estranho é que esse pensamento reconfortava-a vagamente, em vez de a perturbar.
A escuridão, a luz.
Qual era a diferença?
Os pesadelos haviam aumentado em ambas, à medida que a rapariga que roubava livros começava
a compreender verdadeiramente como as coisas eram e como sempre seriam. Ainda que mais não
pudesse, podia preparar-se. Talvez tenha sido por isso que, no dia do aniversário do Fuhrer, quando
a resposta à questão do sofrimento da mãe se revelou completamente, ela foi capaz de reagir, apesar
da sua perplexidade e da sua raiva.
Liesel Meminger estava pronta.
Feliz aniversário, Herr Hitler.
Que conte muitos.

89

O ANIVERSÁRIO DE HITLER, 1940


Recusando perder a esperança, Liesel continuou a ir ver a caixa do correio todas as tardes, durante
o mês de Março e grande parte de Abril. E isso apesar de uma visita de Frau Heinrich, a pedido de
Hans, para explicar aos Hubermann que o gabinete de acolhimento perdera por completo o contacto
com Paula Meminger. Mesmo assim a rapariga insistia, e como seria de prever, todos os dias, ao
ver o correio, não havia nada.
Molching, tal como o resto da Alemanha, preparava-se para o aniversário de Hitler. Nesse ano
específico, com o desenvolvimento da guerra e a actual posição vitoriosa de Hitler, os partidários
nazis de Molching pretendiam que a celebração fosse particularmente adequada. Haveria uma
parada. Desfile. Música. Canto. Haveria uma fogueira.
Enquanto Liesel percorria as ruas de Molching, recolhendo e entregando roupa, os membros do
Partido Nazi andavam a acumular combustível. Algumas vezes, Liesel viu homens e mulheres
baterem às portas, perguntando às pessoas se possuíam algum material que em sua opinião devesse
ser deitado fora ou destruído. O exemplar do Molching Express do papá anunciou que haveria uma
fogueira comemorativa na praça da cidade, onde estariam presentes todas as divisões da Juventude
Hitleriana local. Celebraria não apenas o aniversário do Führer, mas também a vitória sobre os seus
inimigos e sobre as restrições que haviam oprimido a Alemanha desde o fim da Primeira Guerra
Mundial. «Quaisquer materiais dessa época» — solicitava o artigo —, «jornais, cartazes, livros,
bandeiras, bem como toda a propaganda dos nossos inimigos que seja encontrada, deverá ser
entregue na sede do Partido Nazi, na Rua de Munique.» Até Schiller Strasse — a rua das estrelas
amarelas —, que continuava a aguardar a sua renovação, foi saqueada uma última vez, em busca de
alguma coisa, qualquer coisa, para queimar em nome da glória do Führer.

90

Não seria de admirar que certos membros do partido tivessem resolvido publicar para aí uns mil
livros ou cartazes com assuntos de moral venenosa simplesmente para os incinerarem.
Estava tudo preparado para tornar o dia 20 de Abril magnífico. Seria um dia pleno de queima e
aplausos.
E de roubo de livros.

Nessa manhã, em casa dos Hubermann, tudo decorreu como habitualmente.


— Aquele Saukerl está outra vez a olhar pela janela — praguejou Rosa Hubermann. — Todos os
dias — prosseguiu ela. — O que é que estás a ver desta vez?
— Ohhh — gemeu o papá, encantado. Do cimo da janela, a bandeira ocultava-lhe as costas. —
Devias ver esta mulher que eu avistei. — Deitou um relance por cima do ombro e sorriu a Liesel.
— Talvez eu vá atrás dela. Mete-te num chinelo, mãe.
— Schwein! — Sacudiu a colher de pau na direcção dele.
O papá continuou a olhar para fora, para uma mulher imaginária e para uma fileira muito real de
bandeiras alemãs.

Nesse dia, nas ruas de Molching, cada janela fora decorada para o Führer. Em alguns sítios, como
na loja de Frau Diller, o vidro fora vigorosamente lavado e a suástica parecia uma jóia sobre um
manto vermelho e branco. Noutros, a bandeira pendia do beiral como roupa a secar. Mas estava lá.

Mais cedo, acontecera uma pequena calamidade. Os Hubermann não conseguiam encontrar a sua
bandeira.
— Eles vêm cá — a mãe avisou o marido. — Eles vêm cá e levam-nos. — Eles. — Temos de a
encontrar! — A dada altura pareceu que o papá teria de ir lá abaixo à cave pintar uma bandeira num
dos lençóis-de-pingos, lençóis velhos que usava para proteger as coisas dos pingos de tinta.
Felizmente, ela lá apareceu, sepultada atrás do acordeão, no armário.
— Esse infernal acordeão é que me estava a tapar a vista! — A mãe deu meia-volta. — Liesel!
A rapariga teve a honra de pregar a bandeira no caixilho da janela.
Hans Junior e Trudy foram lá a casa para a refeição da tarde, como acontecia no Natal ou na
Páscoa. Parece-me uma boa ocasião para os apresentar um pouco mais pormenorizadamente:

91

Hans Junior tinha os olhos e a altura do pai. O prateado dos seus olhos, contudo, não era caloroso,
como os do papá — os dele tinham sido Führerados. Havia também mais carne a cobrir-lhe os
ossos, e possuía cabelo louro espetado e pele semelhante a tinta branca suja.
Trudy, ou Trudel, como frequentemente a conheciam, era apenas alguns centímetros mais alta do
que a mãe. Tinha clonado o desastroso estilo gingado do andar de Rosa Hubermann, mas o resto era
muito mais adoçado. Sendo empregada a tempo inteiro numa casa de uma zona rica de Munique,
estava provavelmente farta de crianças, mas mostrava-se sempre disposta a soltar pelo menos
algumas palavras sorridentes na direcção de Liesel. Tinha lábios macios. Uma voz suave.
Foram juntos para casa no comboio de Munique, e não tardou que surgissem velhas tensões.

UMA PEQUENA HISTORIA DE HANS HUBERMANN VS. O SEU FILHO


O jovem era nazi; o pai não. Na opinião de Hans Junior,
o pai fazia parte de uma Alemanha velha e decrépita
— a que permitia que toda a gente a explorasse
enquanto o seu próprio povo sofria.
Na adolescência, apercebera-se de que chamavam ao pai
«Der Juden Maler» — o pintor judeu
— por pintar casas de judeus.
Depois ocorreu um incidente que em breve lhes
apresentarei em pormenor — o dia em que Hans perdeu
a cabeça, prestes a filiar-se no partido.
Toda a gente sabia que não se devia pintar por cima dos
insultos escritos na fachada de uma loja judia.
Tal comportamento era mau para a Alemanha,
e era mau para o transgressor.

— Então eles já te deixaram entrar? — Hans Junior retomava a conversa onde a haviam deixado
no Natal.
— Onde?
— Adivinha... no partido.
— Não, acho que se esqueceram de mim.
— Bom, e voltaste sequer a tentar? Não podes ficar sentado à espera de que o novo mundo te
apanhe. Tens de sair e fazer parte dele, apesar dos teus erros passados.

92

O papá ergueu os olhos. — Erros? Cometi muitos erros na minha vida, mas não me filiar no Partido
Nazi não é um deles. Eles ainda têm o meu requerimento, sabes isso, mas eu não fui capaz de lá
voltar para perguntar. Eu só...

Foi nessa altura que chegou um enorme arrepio.

Entrou dançando pela janela com a corrente de ar. Talvez fosse a brisa do Terceiro Reich, a adquirir
ainda mais força. Ou talvez fosse apenas a Europa outra vez, a respirar. Fosse como fosse, abateu-
se sobre eles quando os seus olhos metálicos chocaram como latas de tinta na cozinha.
— Tu nunca te importaste com este país — declarou Hans Junior. — Pelo menos, não o suficiente.
Os olhos do papá começaram a oxidar. Isso não deteve Hans Junior, que olhava agora para a
rapariga à procura de razões. Com os seus três livros de pé em cima da mesa, como que a
conversarem, Liesel articulava silenciosamente as palavras à medida que lia um deles. — E que
lixo está esta rapariga a ler? Ela devia estar a ler Mein Kampf.
Liesel ergueu os olhos.
— Não te preocupes, Liesel — aconselhou o papá. — Continua a ler. Ele não sabe o que diz.
Mas Hans Junior não acabara. Aproximou-se mais e afirmou: — Ou se é pelo Führer ou contra
ele... e vê-se bem que tu és contra ele. Sempre foste. — Liesel observava a cara de Hans Junior,
concentrada nos lábios delgados e na linha rochosa dos dentes de baixo. — É patético: como um
homem pode ficar parado sem fazer nada enquanto uma nação inteira limpa o lixo e se torna
grande.
Trudy e a mãe mantinham-se sentadas em silêncio, assustadas, como Liesel. Sentia-se o cheiro de
sopa de ervilhas, de algo a queimar-se, e de confronto.
Esperavam todos pelas palavras seguintes.
Vieram do filho. Apenas uma.

— Cobarde. — Atirou-a à cara do papá e saiu imediatamente da cozinha, e de casa.


Desprezando futilidades, o papá dirigiu-se à porta e gritou para o filho. — Cobarde? Eu é que sou
cobarde?! — Depois precipitou-se para o portão e correu atrás dele a defender-se. A mãe avançou
rapidamente para a janela, arrancou a bandeira e abriu-a. Ela, Trudy e Liesel amontoaram-se ali,
vendo um pai alcançar o filho e agarrá-lo, pedindo-lhe que parasse.

93

Não conseguiam ouvir nada, mas a maneira como Hans Junior se soltou, falou suficientemente alto.
A visão do papá observando-o a afastar-se chegou-lhes, atroadora, do cimo da rua.
— Hansi! — gritou por fim a mãe. Tanto Trudy como Liesel se encolheram à sua voz. — Volta!
O rapaz partira.

Sim, o rapaz partira, e gostaria de poder dizer-lhes que tudo se resolveu em bem para o Hans
Hubermann mais novo, mas não foi assim.
Quando, nesse dia, ele desapareceu da Rua Himmel em nome do Führer, iria chocar com os
acontecimentos de outra história, em que cada passo conduzia tragicamente à Rússia.
A Estalinegrado.

ALGUNS FACTOS ACERCA DE ESTALINEGRADO


1. Em 1942 e início de 1943, nessa cidade, o céu
tinha todas as manhãs a cor de um lençol branco.
2. Durante todo o dia, enquanto eu transportava as almas
através dele, esse lençol ia ficando manchado de sangue,
até estar cheio e a rebentar para a terra.
3. A noite, era torcido e lavado de novo,
pronto para o dia seguinte.
4. E isso era quando se lutava apenas durante o dia.

Desaparecido o filho, Hans Hubermann permaneceu ali ainda alguns momentos. A rua parecia tão
grande.
Ao regressar a casa, a mãe fixou o seu olhar nele, mas não trocaram palavras. Ela nem sequer o
admoestou, o que, como sabem, era extremamente invulgar. Talvez tenha achado que ele já fora
suficientemente insultado, ao ser apelidado de cobarde pelo seu único filho.
Terminada a refeição, ele manteve-se durante um bocado sentado à mesa, em silêncio. Seria
realmente um cobarde, como o filho tão brutalmente afirmara? Sem dúvida que, na Primeira Guerra
Mundial, assim se havia considerado. Atribuía a isso a sua sobrevivência. Mas então, haverá
cobardia no reconhecimento do medo? Haverá cobardia em sentir satisfação por ter sobrevivido?
Os seus pensamentos entrecruzavam-se na mesa enquanto ele a fixava.
— Papá? — chamou Liesel, mas ele não olhou para ela. — De que estava ele a falar? O que queria
ele dizer com...

94

- Nada — respondeu o papá. Falou em voz baixa e serena, para a mesa. — Não foi nada. Esquece-
o, Liesel. — Demorou talvez um minuto a falar de novo. — Não te devias ir arranjar? — Dessa vez
fitou-a. — Não tens de ir ver uma fogueira?
— Sim, papá.
A rapariga que roubava livros foi mudar para a sua farda da Juventude Hitleriana, e meia hora mais
tarde saíram, dirigindo-se à sede do BDM. Daí, as crianças seriam levadas para a praça da cidade
com os seus grupos.
Far-se-iam discursos.
Atear-se-ia uma fogueira.
Roubar-se-ia um livro.

95

SUOR ALEMÃO CEM POR CENTO PURO


As pessoas apinhavam-se nos passeios enquanto a juventude da Alemanha marchava em direcção à
câmara municipal e à praça da cidade. Foram várias as ocasiões em que Liesel esqueceu a sua mãe
e qualquer outro problema que tivesse no presente. Sentia o peito inchar ouvindo as pessoas
aplaudirem-nos. Alguns miúdos acenavam aos pais, mas muito rapidamente — havia instruções
explícitas para marcharem direitos e não olhar nem acenar para a multidão.
Quando o grupo de Rudy chegou à praça e lhe foi dada ordem para parar, houve uma discrepância.
Tommy Müller. O resto do regimento deixou de marchar e Tommy enfiou a direito no rapaz à sua
frente.
— Dummkopf! — cuspiu o rapaz antes de se virar.
— Desculpa — pediu Tommy, estendendo os braços a justificar-se. A sua cara era a imagem da
desolação. — Eu não ouvi. — Foi apenas um pequeno incidente, mas era igualmente uma antevisão
de problemas futuros. Para Tommy. Para Rudy.

Terminado o desfile, as divisões da Juventude Hitleriana foram autorizadas a dispersar. Teria sido
quase impossível mantê-los todos juntos enquanto a fogueira lhes ardia nos olhos e os excitava.
Gritaram em uníssono um «heil Hitler» e ficaram livres para vaguear. Liesel procurou Rudy, mas
uma vez debandada a multidão de garotos, ela foi apanhada no meio de uma confusão de fardas e
palavras estridentes. Miúdos a chamarem outros miúdos.

Pelas quatro e meia o ar arrefecera consideravelmente.


As pessoas brincavam dizendo que precisavam de se aquecer. — Aliás, é só para o que serve todo
este lixo.
Usaram-se carrinhos de mão para trazer as coisas. Foi tudo amontoado no meio da praça da cidade
e regado com algo doce.

96

Livros, papéis e outros materiais deslizavam ou tombavam para baixo, apenas para voltarem a ser
atirados para a pilha. De mais longe, aquilo parecia algo de vulcânico. Ou algo grotesco e estranho
que tivesse miraculosamente aterrado no centro da cidade e precisasse de ser extinto, e depressa.
O cheiro do que fora usado inclinava-se na direcção da multidão, que era mantida a uma boa
distância. Havia bem mais de mil pessoas, no solo, nos degraus da câmara, nos telhados que
rodeavam a praça.
Liesel tentou abrir caminho, pois o som de um crepitar levara-a a pensar que o fogo já tivera início.
Mas não. O som era energia cinética de humanos, a fluir, a carregar.
Eles começaram sem mim!
Embora algo no seu íntimo lhe dissesse que aquilo era um crime — afinal de contas, os seus três
livros eram a coisa mais preciosa que ela possuía —, sentia-se impelida a ver acender aquela coisa.
Era superior a si. Suponho que os humanos gostam de observar um pouco de destruição. Castelos
na areia, castelos de cartas, é por aí que começam. O seu grande talento é a capacidade de irem
refinando progressivamente essa actividade.
A ideia de perder aquilo dissipou-se logo que ela descobriu uma fenda por entre os corpos e
conseguiu ver o monte de culpa, ainda intacto. Estava a ser empurrado, salpicado, até cuspido.
Recordou-lhe uma criança impopular, desamparada e aturdida, impotente para alterar o seu destino.
Ninguém gostava dela. Cabeça baixa. Mãos nos bolsos. Para sempre. Ámen.
Continuavam a cair para os lados peças soltas enquanto Liesel procurava Rudy. Onde é que se
meteu aquele Saukerl?
Quando olhou para cima, o céu acaçapava-se.
Um horizonte de bandeiras e fardas nazis erguia-se diante dela, impedindo-lhe a vista sempre que
tentava olhar por cima da cabeça de uma criança mais pequena. Não adiantava. A multidão era ela
própria. Não se podia movê-la, furá-la, ou discutir com ela. Respirava-se com ela e cantavam-se as
canções dela. Esperava-se pela sua fogueira.

Um homem empoleirado num pódio pediu silêncio. Vestia uma impecável farda castanha. O ferro
estava praticamente ainda em cima dela. Fez-se silêncio.
As suas primeiras palavras foram: Heil Hitler!
O seu primeiro gesto: a saudação ao Führer.

97

— O dia de hoje é um belo dia — continuou ele. — Não só é o aniversário do nosso grande líder,
como estamos uma vez mais a deter os nossos inimigos. Impedimo-los de nos atingirem o cérebro...
Liesel continuava a tentar abrir caminho.
— Pomos fim à doença que tem vindo a alastrar pela Alemanha durante os últimos vinte anos, se
não mais! — Executava agora aquilo a que se chama um Schreierei — uma consumada exibição de
gritos apaixonados — aconselhando a multidão a manter-se atenta, vigilante, a procurar e destruir
as maquinações diabólicas que conjuravam para infectar a pátria com os seus deploráveis modos.
— Os imorais! Os Kommunisten! — Outra vez aquela palavra. Aquela velha palavra. Salas
escuras. Homens de fato completo. — Die Juden — os judeus!

A meio do discurso, Liesel rendeu-se. Quando a palavra comunista a apanhou, o resto do recital
nazi escorregou por ambos os lados, e perdeu-se algures no meio dos pés alemães que a rodeavam.
Cascatas de palavras. Uma rapariga a agitar as pernas para se manter à tona de água. Pensou-a de
novo. Kommunisten.
Até aí, no BDM, havia-lhes sido dito que a Alemanha era a raça superior, mas não fora mencionado
mais ninguém em especial. É claro que todos sabiam dos judeus, dado eles serem o principal
ofensor no que respeitava à violação do ideal alemão. Contudo, até hoje, os comunistas não haviam
sido mencionados uma única vez, apesar do facto de as pessoas de tal credo político deverem
igualmente ser punidas.

Tinha de sair dali.


Diante dela, uma cabeça loura com risco ao meio e rabichos mantinha-se absolutamente imóvel
sobre os ombros. A fitá-la com fixidez, Liesel revisitou aquelas salas escuras do seu passado e a
mãe a responder a perguntas formuladas com uma só palavra.
Viu tudo muito claramente.
A mãe faminta, o pai ausente. Kommunisten.
O irmão morto.
— E agora vamos despedir-nos deste lixo, deste veneno. Imediatamente antes de Liesel Meminger
dar meia-volta, nauseada,
para sair da multidão, a criatura reluzente, de camisa castanha, desceu do pódio. Recebeu um
archote de um cúmplice e incendiou o monte, que com a sua imensa culpabilidade o transformou
em anão. — Heil Hitler!
A assistência: — Heil Hitler!
Um grupo de homens saiu de uma plataforma e rodeou a pilha, inflamando-a, perante a aprovação
geral.

98

As vozes treparam por cima dos ombros e o cheiro de suor alemão puro debateu-se a princípio, e
depois extravasou. Transpôs esquina após esquina, até estarem todos a nadar nele. As palavras, o
suor. E a sorrir. Não esqueçamos os sorrisos. Seguiram-se muitos comentários jocosos, bem como
novo assalto de «heil Hitler». Sabem, pergunto-me realmente se alguém alguma vez perdeu um
olho ou magoou a mão ou um pulso com tudo aquilo. Bastava estar virado para o lado errado na
altura errada ou encontrar--se demasiado próximo de outra pessoa. Talvez tenha mesmo havido
gente que se magoou. Pessoalmente, posso apenas dizer-lhes que ninguém morreu disso, pelo
menos, não fisicamente. Houve, claro, a questão dos quarenta milhões de pessoas que eu recolhi até
tudo aquilo ter terminado, mas isso é tornarmo-nos metafóricos. Permitam-me que volte à fogueira.

As chamas cor de laranja acenavam à multidão enquanto o papel e as letras se dissolviam no seu
interior. Palavras incendiadas eram arrancadas às suas frases.
Do outro lado, para lá da neblina do calor, era possível verem-se as camisas castanhas e as suásticas
a darem-se as mãos. Não se viam pessoas. Apenas fardas e símbolos.
Lá em cima os pássaros davam voltas.
Descreviam círculos, atraídos pelo brilho... até se aproximarem demasiado do calor. Ou seria dos
humanos? O calor, seguramente, não era nada.

No meio da sua tentativa de fuga, uma voz encontrou-a.


— Liesel!
Abriu caminho e ela reconheceu-a. Não era Rudy, mas Liesel conhecia aquela voz.
Libertou-se e descobriu o rosto ligado a ela. Oh, não. Ludwig Schmeikl. Que, ao contrário do que
ela esperava, não desdenhou, nem troçou, nem entabulou qualquer conversa. A única coisa que
conseguiu fazer foi puxá-la para ele e apontar para o tornozelo. Fora esmagado no meio da
excitação e sangrava, negro e agourento, através da meia. A cara apresentava uma expressão de
impotência sob o cabelo louro emaranhado. Um animal. Não um veado apanhado por faróis. Nada
de tão típico ou específico. Era apenas um animal, magoado por uma miscelânea de seres da sua
própria espécie, prestes a ser pisado por ela.
Liesel lá conseguiu ajudá-lo a levantar-se e arrastou-o para trás. Ar fresco.

99

Foram a cambalear até aos degraus laterais da igreja. Havia ali algum espaço e eles descansaram,
ambos aliviados.
A respiração desmoronava-se da boca de Schmeikl. Escorregava para baixo, pela garganta.
Conseguiu falar.
Sentando-se, agarrou o tornozelo e encontrou o rosto de Liesel Meminger. — Obrigado — disse
ele, mais para a boca dela do que para os olhos. Mais pedaços de respiração. — E... — Ambos
visualizaram imagens do passado no pátio da escola, seguidas de uma surra no mesmo pátio. —
Lamento... tu sabes.
Liesel ouviu-a novamente.
Kommunisten.
Optou, todavia, por se focar em Ludwig Schmeikl. — Eu também.
Depois concentraram-se ambos em respirar, pois não havia mais nada a fazer ou dizer. A questão
existente entre eles estava encerrada.
O sangue aumentava no tornozelo de Ludwig Schmeikl.
Uma palavra solitária encostava-se à rapariga.
A esquerda deles, labaredas e livros incendiados eram aclamados como heróis.

100

AS PORTAS DO ROUBO
Ela permaneceu nos degraus à espera do papá, observando a cinza dispersa e o cadáver de livros
recolhidos. Tudo era triste. Brasas cor de laranja e encarnadas pareciam rebuçados deitados fora, e a
maior parte da multidão desaparecera. Vira partir Frau Diller (muito satisfeita) e Pfiffikus (cabelo
branco, uma farda nazi, os mesmos sapatos delapidados, e um apito triunfante). Agora nada mais
restava senão limpezas, e em breve ninguém imaginaria sequer que aquilo acontecera.
Mas podia sentir-se-lhe o cheiro.

— Que estás tu aí a fazer?


Hans Hubermann chegara aos degraus da igreja.
— Olá, papá.
— Devias ter esperado em frente da câmara municipal.
— Desculpe, papá.
Ele sentou-se ao lado dela, reduzindo a metade a sua estatura e pegando numa madeixa do cabelo
de Liesel. Os seus dedos ajeitaram--lha docemente por trás da orelha. — Liesel, o que há?
Durante uns instantes, ela ficou calada. Estava a fazer cálculos, apesar de já saber. Uma rapariga de
onze anos é muita coisa, mas não é estúpida.
UMA PEQUENA ADIÇÃO
A palavra comunista + uma grande fogueira + uma colecção de cartas mortas + o sofrimento da
mãe + a morte do irmão = o Führer

O Führer.
Era ele o eles de que Hans e Rosa Hubermann falavam naquela noite em que ela escrevera pela
primeira vez à mãe. Sabia-o, mas tinha de perguntar.

101

— A minha mãe é comunista? — O olhar fixo. A direito. — Eles estavam sempre a fazer-lhe
perguntas, antes de eu vir para aqui.
Hans inclinou-se um pouco, a formar o princípio de uma mentira.
— Não faço ideia, eu nunca a conheci.
— O Führer levou-a?
A pergunta surpreendeu-os a ambos, e obrigou o papá a levantar--se. Olhou para os homens de
camisas castanhas que atacavam a pilha de cinzas com pás. Podia ouvi-los a enterrá-las nela. Na
sua boca crescia outra mentira, mas foi-lhe impossível deixá-la sair. Disse apenas:
— Penso que é possível, sim.
— Eu sabia. — As palavras eram atiradas aos degraus e Liesel sentia o ímpeto de raiva a queimar-
lhe as entranhas. — Odeio o Führer
— disse ela. — Odeio-o. E Hans Hubermann? O que fez ele?
O que disse ele?
Curvou-se e abraçou a filha como desejava? Disse-lhe que lamentava o que lhe estava a acontecer a
ela e à mãe dela, e o que acontecera ao irmão?
Não exactamente.
Cerrou os olhos. Depois abriu-os. E esbofeteou Liesel Meminger em cheio na cara.
— Nunca digas isso! — Falara em voz baixa, mas firme. Enquanto a rapariga tremia vergada nos
degraus, ele sentou-se ao
lado dela e ocultou o rosto nas mãos. Seria fácil dizer que ele era apenas um homem alto, desolado,
sentado numa má postura nos degraus de uma igreja qualquer, mas não era. Na altura, Liesel não
fazia a menor ideia de que o seu pai de acolhimento, Hans Hubermann, estava a reflectir num dos
mais perigosos dilemas que podiam apresentar-se a um cidadão alemão. E não só isso, como
andava há perto de um ano a ponderá-lo.
— Papá?
A surpresa na sua voz impelia-a a mover-se, mas também a tornava impotente. Queria correr, mas
não conseguia. Podia aguentar uma Watschen de freiras e Rosas, mas vinda do papá doía muito
mais. As mãos tinham-se já afastado da cara do papá e ele encontrou coragem para voltar a falar.
— Podes dizer isso em nossa casa — disse ele, fitando com ar sério a face de Liesel. — Mas nunca
digas isso na rua, na escola, no BDM, nunca! — De pé diante dela, ergueu-a pelos braços. Abanou-
a. — Estás a ouvir?

102

De olhos arregalados. Liesel acenou a sua concordância.


Na realidade, aquilo era o ensaio para uma prelecção futura, quando todos os piores receios de
Hans Hubermann chegaram à Rua Himmel mais para o fim do ano, às primeiras horas de uma
madrugada de Novembro.
— Bom. — Voltou a pousá-la. — Agora vamos lá experimentar... — Ao fundo dos degraus, o papá
endireitou-se e dobrou o braço. Num ângulo de quarenta e cinco graus. — Heil Hitler.
Liesel levantou-se e ergueu igualmente o braço. Em tom angustiado, repetiu. — Heil Hitler. — Era
uma visão e tanto: uma garota de onze anos a esforçar-se por não chorar nos degraus da igreja e a
saudar o Führer enquanto as vozes por cima do ombro do papá golpeavam e demoliam a forma
negra em último plano.
— Continuamos amigos?
Talvez um quarto de hora depois, o papá segurou na palma da mão um ramo de oliveira — o papel
e o tabaco que acabara de receber. Sem uma palavra, Liesel pegou-lhe e começou a enrolar um
cigarro.
Durante alguns instantes permaneceram ali sentados.
O fumo subia por cima do ombro do papá.
Após mais dez minutos, os portões do roubo entreabrir-se-iam apenas uma nesga, e Liesel
Meminger forçá-los-ia um pouco para se esgueirar por lá.

DUAS PERGUNTAS
Fechar-se-iam os portões atrás dela?
Ou teriam a benevolência de a deixar sair?

Como Liesel viria a descobrir, um bom ladrão precisa de muitas coisas.


Dissimulação. Sangue-frio. Rapidez.
Contudo, mais importante do que qualquer dessas coisas, era um requisito final.
Sorte.

Na realidade.
Esqueçam os dez minutos.
Os portões abrem-se agora.

103

O LIVRO DE FOGO
A escuridão caía aos bocados, e, terminado o cigarro, Liesel e Hans Hubermann começaram a
encaminhar-se para casa. Para saírem da praça, iriam passar pelo local da fogueira e meter por uma
pequena rua lateral até à Rua de Munique. Não chegaram lá.
Um carpinteiro de meia-idade, chamado Wolfgang Edel, interpelou-os. Fora ele que construíra as
plataformas para os manda-chuvas nazis assistirem à fogueira e agora estava a desmontá-las. —
Hans Hubermann? — Tinha longas suíças apontando para a boca e uma voz negra. — Hansi!
— Eh, Wolfal — respondeu Hans. Seguiu-se a apresentação da rapariga e um «heil Hitler». —
Muito bem, Liesel.
Durante os primeiros minutos, Liesel manteve-se num raio de cinco metros da conversa. Passavam
por ela fragmentos, mas não lhes prestou muita atenção.
— Tens arranjado muito trabalho?
— Não, está tudo mais complicado agora. Sabes como é, principalmente quando não somos
membros.
— Disseste-me que ias filiar-te, Hansi.
— Tentei, mas cometi um erro — penso que eles ainda estão a ponderar.

Liesel vagueou em direcção à montanha de cinzas. Estava ali plantada como um íman, como uma
monstruosidade. Irresistível para os olhos, da mesma maneira que a rua das estrelas amarelas.
Tal como acontecera com a sua anterior ânsia de ver a ignição do monte, ela não conseguia desviar
o olhar. Sozinha, não tinha a disciplina necessária para se manter a uma distância segura. Aquilo
sugava-a e Liesel começou a andar à volta.
Por cima dela, o céu completava a sua rotina de escurecimento, mas lá ao longe, sobre o cume da
montanha, havia ainda um leve traço de luz.

104
— Pass auf, kind — disse-lhe a dada altura uma das fardas. — Cautela, pequena — enquanto
despejava mais pazadas de cinzas para um carrinho de mão.
Próximo do edifício da câmara, sob um candeeiro, havia algumas sombras a conversar, muito
provavelmente exultantes com o êxito da fogueira. Da posição em que Liesel se encontrava, as suas
vozes eram apenas sons. Não havia palavras.
Durante alguns minutos ela observou os homens que escavavam a pilha, começando por a diminuir
dos lados para permitir que se desmoronasse mais. Iam e vinham de um camião, e após três
viagens, já o monte ficara reduzido junto ao solo, escorregou de dentro das cinzas uma pequena
secção de material vivo.

O MATERIAL
Meia bandeira encarnada, dois cartazes com publicidade
a um poeta judeu, três livros e uma tabuleta
de madeira com algo escrito em hebraico.

Talvez estivessem húmidos. Talvez o fogo não tivesse durado o suficiente para atingir totalmente o
fundo onde eles se encontravam. Fosse por que razão fosse, estavam aninhados entre as cinzas,
abalados. Sobreviventes.
— Três livros. — Liesel falou baixinho e fitou as costas dos homens.
— Anda lá — disse um deles. — Vê se te despachas, estou a morrer de fome.
Moveram-se na direcção do camião. O trio de livros meteu o nariz de fora. Liesel avançou.
O calor era ainda suficientemente forte para a aquecer quando ela se aproximou da base do monte
de cinzas. Ao estender a mão, sentiu--lhe a mordedura, mas à segunda tentativa teve o cuidado de
ser bastante rápida. Agarrou o livro que lhe ficava mais perto. Estava quente, mas estava
igualmente húmido, queimado apenas nas bordas, mas exceptuando isso, incólume.
Era azul.
Ao toque, a capa parecia ter sido tecida com centenas de fios bem esticados e amassados. Nessas
fibras achavam-se estampadas letras vermelhas. A única palavra que Liesel teve tempo de ler foi
Ombro. Não havia tempo para o resto, e havia um problema. O fumo.

105

O fumo erguia-se da capa quando ela o escamoteou e se afastou apressada. Ia de cabeça baixa, e a
beleza mórbida dos nervos tornava--se mais horrível a cada passada. Foram catorze passos até à
voz.
Que se elevou por trás dela.
— Eh!
Nessa altura, ela quase voltou atrás a correr para devolver o livro ao monte, mas não foi capaz. O
único movimento à sua disposição foi o acto de se virar.
— Há aqui algumas coisas que não arderam! — Era um dos homens da limpeza. Não estava virado
para a rapariga, mas sim para as pessoas junto do edifício da câmara.
— Bom, então queima-as outra vez! — veio a resposta. — E vê-as arder!
— Acho que estão húmidas!
— Jesus, Maria e José, terei de fazer eu tudo? — O som de passos a avançar. Era o presidente da
câmara, com um sobretudo preto por cima da sua farda nazi. Não reparou na rapariga que
permanecia absolutamente imóvel apenas a uma curta distância.

UMA PERCEPÇÃO
No pátio erguia-se uma estátua da rapariga
que roubava livros... E muito raro, não acham, uma estátua surgir antes de o seu original se ter
tornado famoso.

Ela soçobrou.
A emoção de ser ignorada!

O livro parecia agora suficientemente arrefecido para ela o enfiar dentro da farda. A princípio,
sentiu-o agradavelmente quente contra o peito. Mas quando começou a andar, ele começou a
aquecer outra vez.
Ao chegar de novo ao pé do papá e de Wolfgang Edel, o livro principiara a queimá-la. Parecia estar
a arder.
Ambos os homens a fitaram.
Ela sorriu.
Imediatamente o sorriso lhe morreu nos lábios e ela sentiu outra coisa. Ou, mais exactamente, outra
pessoa. Aquela sensação de ser observada era inconfundível. Apanhava-a por completo e
confirmou-se logo que ela se atreveu a encarar as sombras junto ao edifício da câmara. De um dos
lados do grupo de silhuetas, via-se uma outra, alguns metros afastada, e Liesel apercebeu-se de
duas coisas.

106

ALGUNS PEQUENOS PEDAÇOS DE RECONHECIMENTO


1. A identidade da sombra e
2. O facto de que ela vira tudo

A sombra tinha as mãos enfiadas nos bolsos do casaco.


E cabelo lanugento.
Se tivesse rosto, a sua expressão seria de ultraje.
— Gottverdammt — exclamou Liesel, apenas para si própria. — Raios partam isto.

— Estamos prontos para ir?


Nos anteriores momentos de perigo assombroso, o papá despedira-se de Wolfgang Edel e
preparava-se para acompanhar Liesel a casa.
— Prontos — respondeu ela.
Começaram a abandonar a cena do crime, e agora o livro estava realmente a queimá-la
intensamente. O Encolher de Ombros aplicara-se à caixa torácica dela.
Ao passarem pelas sombras precárias da câmara municipal, a rapariga que roubava livros
estremeceu.
— Está tudo bem? — perguntou o papá.
— Está.
Havia, no entanto, algumas coisas que não estavam definitivamente bem.
Do colarinho de Liesel erguia-se fumo.
Em volta da sua garganta formara-se um colar de suor.
Por baixo da blusa, estava um livro a devorá-la.

107

PARTE TRÊS
mein kampf
apresentando:
a caminho de casa — uma mulher destroçada — um lutador — um malabarista — os atributos do
Verão — uma lojista ariana — uma mulher que ressona — dois trapaceiros e vingança sob a forma
de rebuçados sortidos

A CAMINHO DE CASA
Mein Kampf.
O livro escrito pelo próprio Führer.
Foi o terceiro livro de grande importância a chegar até Liesel Meminger; só que desta vez ela não o
roubou. O livro apareceu no n.° 33 da Rua Himmel talvez uma hora depois de Liesel ter voltado a
pegar no sono após o seu pesadelo obrigatório.
Haverá quem diga que foi um milagre ela ter chegado sequer a possuir esse livro.
A sua viagem começou no caminho para casa, na noite da fogueira.

Quase a meio do caminho para a Rua Himmel, Liesel não conseguiu aguentar mais. Curvou-se e
retirou o livro fumegante, deixando-o saltitar envergonhado de uma para outra mão.
Depois de ele ter arrefecido o suficiente, observaram-no ambos um momento, à espera das
palavras.
Papá: — Que diabo chamas tu a isso?
Estendeu a mão e pegou n' O Encolher de Ombros. Não eram necessárias explicações. Era óbvio
que a rapariga o arrebatara ao fogo. O livro estava quente e húmido, azul e encarnado —
embaraçado — e Hans Hubermann abriu-o. Páginas trinta e oito e trinta e nove. — Mais um?
Liesel esfregou as costelas.
Sim.
Mais um.
— Parece que não vou precisar de trocar mais cigarros, pois não? — sugeriu o papá. — Dado que
andas a roubar estas coisas tão depressa como eu as posso comprar.
Liesel, em compensação, não disse palavra. Talvez tenha sido a sua primeira tomada de consciência
de que a criminalidade falava melhor por si mesma. Irrefutável.

111

O papá analisou o título, provavelmente perguntando-se qual seria exactamente o tipo de ameaça
que aquele livro representava para os corações e mentes do povo alemão. Devolveu-o. E algo
aconteceu.
— Jesus, Maria e José. — Cada uma das palavras se desmoronou pelas bordas. Desmanchou-se e
formou a seguinte.
A criminosa não conseguiu resistir mais. — O que foi, papá? O que é?
— É claro.
Como acontece à maioria dos humanos assaltados por uma revelação, Hans Hubermann mantinha-
se quase petrificado. As palavras seguintes seriam gritadas ou não chegariam a passar-lhe pelos
lábios. Além disso, seriam muito provavelmente a repetição da última coisa que ele dissera, apenas
instantes antes.
— É claro.
Desta vez, a sua voz assemelhava-se a um murro dado na mesa.
O homem estava a ver qualquer coisa. Observava-a rapidamente, de uma ponta à outra, como uma
corrida, mas o que quer que fosse encontrava-se demasiado alto e demasiado longe para Liesel
poder ver também. Ela suplicou. — Vá lá, papá, o que é? — Receava que ele fosse contar do livro à
mãe. Como é habitual nos humanos, a sua preocupação era consigo mesma. — Vai-lhe contar?
— Como?
— O papá sabe. Vai contar à mãe?
Hans Hubermann continuava a observar, alto e distante. — O quê?
Ela ergueu o livro. — Isto. — Brandiu-o no ar, como quem agita uma arma.
O papá ficou atónito. — Por que haveria eu de fazer isso?
Liesel detestava perguntas daquelas. Forçavam-na a admitir uma verdade feia, a revelar a sua
natureza sórdida e desonesta. — Porque eu voltei a roubar.
O papá curvou-se até ficar acocorado, e depois endireitou-se e pousou a mão na cabeça dela.
Afagou-lhe o cabelo com os seus dedos longos e ásperos, e disse: — É claro que não, Liesel. Podes
estar sossegada.
— Então o que é que vai fazer? A questão era essa.
Que feito maravilhoso se preparava Hans Hubermann para fazer surgir do ar rarefeito da Rua de
Munique?
Antes de lhes mostrar, penso que devemos primeiro dar uma vista de olhos ao que ele estava a ver
nos momentos que antecederam a sua decisão.

112

AS VISÕES ACELERADAS DO PAPÁ


Primeiro, ele vê os livros da rapariga:
O Manual do Coveiro, O Cão Fausto, O Farol e, agora, O Encolher de Ombros.
A seguir vem uma cozinha e um volátil Hans Junior, a olhar para esses livros em cima da mesa,
onde a rapariga lê frequentemente.
Fala: «E que lixo está esta rapariga a ler?» O filho repete a pergunta três vezes, depois apresenta a
sua sugestão para material de leitura mais adequado.

— Ouve, Liesel. — O papá passou-lhe o braço pelos ombros, impelindo-a a começar a andar. —
Isto é o nosso segredo, este livro. Vamos lê-lo de noite ou na cave, tal como os outros, mas tens de
me prometer uma coisa.
— Tudo o que quiser, papá.
A noite estava serena e imóvel. Tudo escutava. — Se alguma vez te pedir para guardares um
segredo por mim, tu fá-lo-ás.
— Prometo.
— Bom. Agora vamos lá. Se nos atrasamos mais, a mãe mata-nos, e não queremos que isso
aconteça, pois não? Então não haveria mais livros roubados, hem?
Liesel sorriu.
O que ela não soube senão muito mais tarde foi que, poucos dias depois dessa conversa, o seu pai
de acolhimento conseguiu trocar alguns cigarros por outro livro, embora esse não fosse para ela.
Ele bateu à porta da sede do Partido Nazi em Molching e aproveitou a oportunidade para se
informar acerca do seu pedido de filiação. Uma vez discutida a questão, passou a dar-lhes os seus
últimos tostões e uma dúzia de cigarros. Em troca, recebeu um exemplar usado de Mein Kampf.
— Feliz leitura — desejou um dos membros do partido.
— Obrigado. — Hans baixou a cabeça.
Já na rua, conseguia ainda ouvir os homens lá dentro. Uma das vozes era particularmente nítida. —
Ele nunca será aprovado — dizia ela —, mesmo que compre cem exemplares de Mein Kampf. — A
declaração teve acordo unânime.
Hans empunhava o livro na sua mão direita, pensando em dinheiro para selos, numa existência sem
cigarros, e na filha adoptiva que lhe inspirara aquela ideia brilhante.
— Obrigado — repetiu ele, e um transeunte perguntou-lhe o que dissera.

113
Com a sua afabilidade típica, Hans respondeu: — Nada, meu bom homem, absolutamente nada.
Heil Hitler —, e prosseguiu pela Rua de Munique abaixo, segurando as páginas do Führer.
Deve ter experimentado uma boa mescla de sentimentos nesse momento, pois a ideia de Hans
Hubermann não surgira apenas de Liesel, mas também do filho. Recearia ele já não voltar a vê-lo?
Por outro lado, estava a desfrutar o êxtase de uma ideia, não ousando ainda prever as suas
complicações, perigos e absurdos perversos. Por agora, a ideia era suficiente. Era indestrutível.
Transformá-la em realidade, bom, isso era completamente diferente. Por agora, contudo, vamos
deixá-lo desfrutar.
Vamos dar-lhe sete meses.
Depois voltamos a ele.
E oh, como voltamos.

114

A BIBLIOTECA DO PRESIDENTE DA CÂMARA


Era indiscutível que algo de grande magnitude, de que Liesel se achava presentemente alheada,
avançava para o n.° 33 da Rua Himmel. Distorcendo uma expressão humana muito corrente, a
rapariga tinha de sair daquele assado:
Ela roubara um livro.
Alguém a vira.
A rapariga que roubava livros reagiu. Adequadamente.

Em cada minuto, em cada hora, havia preocupação, ou melhor, paranóia. As actividades criminosas
têm esse efeito numa pessoa, especialmente numa criança. Imaginam uma prolífica variedade de
apanhanços. Alguns exemplos: Pessoas a saltarem de vielas. Professoras apercebendo-se de súbito
de todos os pecados que já se cometeram. A polícia a surgir à porta cada vez que se vira uma página
ou bate um portão distante.
Para Liesel, a própria paranóia transformou-se no castigo, bem como o terror de ir entregar roupa
lavada e passada a casa do presidente da câmara. Não foi por engano, como decerto podem
calcular, que, chegada a altura, Liesel se esqueceu convenientemente da casa da Grande Strasse.
Fez a entrega à artrítica Helena Schmidt e a recolha na residência dos Weingartner amantes de
gatos, mas ignorou a casa pertencente ao Burgermeister Heinz Hermann e à sua esposa, Ilsa.

MAIS UMA TRADUÇÃO RÁPIDA


Burgermeister = presidente da câmara

Na primeira ocasião, afirmou que se esquecera simplesmente do sítio — uma das desculpas mais
esfarrapadas que já ouvi, dado que a casa encimava a colina, debruçada sobre a cidade, e era
inesquecível.

115

A segunda vez que lá voltou e regressou ainda de mãos vazias, mentiu dizendo que não estava
ninguém em casa.
— Ninguém em casa? — A mãe mostrou-se céptica. O cepticismo deu-lhe vontade de pegar na
colher de pau. Agitou-a na direcção de Liesel e disse: — Põe-te a andar já outra vez para lá, e se
não voltares para casa com a roupa, é melhor não voltares mesmo.

— Palavra?
Foi a reacção de Rudy ouvindo Liesel contar o que a mãe dissera. — Vamos fugir juntos?
— Morremos de fome.
— A morrer de fome já eu estou! — Riram-se.
— Não — disse ela —, tenho de fazer isso.
Percorreram a cidade como habitualmente faziam quando Rudy a acompanhava. Ele tentava sempre
portar-se como um cavalheiro e transportar-lhe o saco, mas Liesel recusava sempre. Só ela tinha a
ameaça de uma Watschen suspensa sobre a cabeça, e portanto só ela era de confiança para
transportar o saco correctamente. Qualquer outra pessoa tinha mais probabilidades de o amarfanhar,
de o torcer, ou de o maltratar ainda que infimamente, e não valia a pena correr o risco. Além disso,
era provável que se ela deixasse Rudy transportar-lhe o saco, ele esperasse receber um beijo pelos
seus serviços, e isso não era uma opção. Por outro lado, ela estava habituada ao seu peso. Mudava o
saco de um ombro para o outro, aliviando cada um dos lados mais ou menos a cada cem passos.
Liesel caminhava do lado esquerdo, Rudy do direito. Rudy tagarelava quase ininterruptamente,
acerca do último jogo de futebol na Rua Himmel, do trabalho na loja do pai, e do que quer que lhe
viesse à cabeça. Liesel esforçava-se por o escutar, mas falhava. Aquilo que ela ouvia era o terror, a
ressoar-lhe aos ouvidos, cada vez mais alto à medida que se iam aproximando da Grande Strasse.
— Onde é que tu vais? Não é aqui?
Liesel acenou indicando que Rudy tinha razão, pois ela tentara ultrapassar a casa do presidente da
câmara para ganhar tempo.
— Bom, então vai lá — apressou-a o rapaz. Molching começava a escurecer. O frio subia do solo.
— Mexe-te, Saumensch. — Ele esperou no portão.

Depois do caminho de acesso, havia oito degraus até à entrada principal da casa, e a enorme porta
era como um monstro. Liesel franziu a testa face ao batente de metal.

116

— De que é que estás à espera? — gritou Rudy.


Liesel virou-se e olhou para a rua. Haveria alguma maneira, fosse qual fosse, de evitar aquilo?
Haveria outra história, ou, vamos encarar, outra mentira, de que ela não se estivesse a lembrar?
— Não temos o dia todo. — De novo a voz distante de Rudy. — De que diabo estás tu à espera?
— Queres calar o bico, Steiner? — Fora um grito soltado em forma de murmúrio.
— O quê?
— Mandei-te calar, estúpido Saukerl...
E com isso ela virou-se de novo para a porta, ergueu o batente de metal e bateu três vezes, devagar.
Do outro lado aproximaram-se passos.
A princípio, Liesel não olhou para a mulher, concentrando-se no saco de roupa suja que esta
empunhava. Examinou o cordão que ela lhe passou. Foi-lhe entregue dinheiro e depois, nada. A
mulher do presidente da câmara, que nunca falava, limitou-se a ficar ali parada com o seu roupão, e
o seu macio cabelo lanugento apanhado atrás num pequeno rabo-de-cavalo. Sentiu-se uma corrente
de ar. Algo de semelhante ao suposto bafo de um cadáver. Mas continuava a não haver palavras, e
quando Liesel arranjou coragem para a fitar, a expressão da mulher não era de reprovação mas sim
de distanciamento total. Por um instante, ela olhou para o rapaz por cima do ombro de Liesel,
depois acenou, recuou e fechou a porta.
Durante um bom bocado, Liesel permaneceu ali, de frente para a cortina de madeira rígida.
— Eh, Saumensch! — Não houve resposta. — Liesel! Liesel inverteu a marcha.
Cautelosamente.
Desceu os primeiros degraus de costas, fazendo cálculos.
Talvez a mulher afinal não a tivesse visto roubar o livro. Fora já ao crespúsculo. Talvez se tratasse
de uma dessas ocasiões em que uma pessoa parece estar a olhar directamente para nós e está, de
facto, muito satisfeita a observar qualquer outra coisa ou simplesmente a sonhar acordada. Fosse
qual fosse a resposta, Liesel não tentou empreender mais análises. Safara-se e isso era suficiente.
Virou-se e desceu o resto dos degraus normalmente, saltando os últimos três.
— Embora, Saukerl. — Permitiu-se mesmo soltar uma gargalhada. Aos onze anos, a paranóia é
forte. Aos onze anos, o alívio é eufórico.

117

UM PEQUENO NADA PARA MODERAR A EUFORIA


Ela não se safara coisa nenhuma.
A mulher do presidente da câmara vira-a mesmo.
Estava apenas à espera do momento certo.

Decorreram algumas semanas. Futebol na Rua Himmel.


Ler O Encolher de Ombros entre as duas e as três todas as madrugadas, pós-pesadelo, ou durante a
tarde, na cave.
Outra visita benigna à casa do presidente da câmara.
Tudo encantador.
Até.

Na visita seguinte de Liesel, sem Rudy, a oportunidade apresentou--se. Era dia de recolha.
A mulher do presidente da câmara abriu a porta e não lhe estendeu o saco, como era habitual. Em
vez disso, afastou-se para o lado e fez um gesto com a mão e o pulso cor de giz convidando a
rapariga a entrar.
— Venho só buscar a roupa. — O sangue de Liesel gelara-lhe nas veias. Esfarelara-se. Ela quase se
fragmentou em pedaços nos degraus.
A mulher dirigiu-lhe então a palavra pela primeira vez. Estendeu a mão de dedos gélidos e disse: —
Warte — espera. — Certificando-se de que a rapariga se controlara, virou-se e encaminhou-se
apressadamente para dentro.
— Graças a Deus — suspirou Liesel. — Ela vai buscá-la. — A roupa para lavar.
Aquilo com que a mulher regressou, contudo, não era nada disso.
Quando surgiu e ficou ali de pé com uma firmeza incrivelmente frágil, segurava uma torre de livros
contra o estômago, desde o umbigo até ao início dos seios. Parecia tão vulnerável naquele
monstruoso vão de porta. Pestanas compridas e claras e apenas um ténue indício de expressão. Uma
sugestão.
Entra e vem ver, dizia.
Ela vai torturar-me, concluiu Liesel. Vai levar-me para dentro, acender a lareira, e atirar-me para lá,
com os livros e tudo. Ou então tranca-me na cave sem comida.
No entanto, fosse lá por que fosse — muito provavelmente a atracção dos livros —, deu por si a
entrar. O ranger dos sapatos nas tábuas de madeira do soalho fazia-a encolher-se, e ao pisar um sítio
sensível, provocando um gemido da madeira, quase estacou.

118

A mulher do presidente da câmara não se deteve. Limitou-se a lançar um breve olhar para trás e
prosseguiu, até uma porta castanha. Agora a sua cara fazia uma pergunta.
Estás pronta?
Liesel inclinou levemente o pescoço, como se pudesse ver para lá da porta que lhe ficava no
caminho. Isso foi claramente a deixa para ela lhe ser aberta.
— Jesus, Maria...

Disse aquilo em voz alta, as palavras distribuídas por uma sala que se encontrava repleta de ar frio
e de livros. Livros por toda a parte! Cada parede estava equipada com prateleiras sobrelotadas mas
impecáveis. Mal se conseguia ver a pintura. Havia todo o tipo de diferentes estilos e tamanhos de
letras nas lombadas dos livros pretos, encarnados, cinzentos, de todas as cores. Era das coisas mais
belas que Liesel Meminger já vira.
Sorriu, maravilhada.
Que existisse uma tal sala!
Ao tentar apagar o sorriso com o braço, percebeu imediatamente que era um exercício inútil. Sentiu
os olhos da mulher percorrerem-lhe o corpo, e fitando-a, viu que haviam pousado na sua cara.
O silêncio era mais profundo do que ela alguma vez julgara possível. Esticava-se como um elástico,
ansioso por quebrar. A rapariga quebrou-o.
— Posso?
A palavra ficou a pairar no meio de hectares e hectares de terreno vazio assoalhado a madeira. Os
livros estavam a quilómetros de distância.
A mulher acenou afirmativamente.
Podes, sim.

Resolutamente, a sala encolheu, até a rapariga que roubava livros conseguir tocar as estantes em
meia dúzia de passos. Passou as costas da mão ao longo da primeira prateleira, ouvindo o roçar das
unhas a deslizar pela espinha dorsal de cada livro. Soavam como um instrumento, ou pés
apressados. Usou as duas mãos. Percorreu-as rapidamente. Uma prateleira atrás de outra. E riu-se.
A sua voz esparramara-se no cimo da garganta, e quando finalmente parou, permaneceu largos
minutos no meio da sala a olhar das prateleiras para os seus dedos e vice-versa.

119

Em quantos livros tocara?


Quantos sentira?
Aproximou-se e repetiu os gestos, desta vez muito mais devagar, com a mão aberta, deixando a
palma sondar o pequeno obstáculo constituído por cada livro. A sensação era de magia, de beleza,
enquanto fios de luz brilhante irradiavam de um lustre. Por várias vezes quase puxou um título do
seu lugar, mas não ousou perturbá-los. Eram demasiado perfeitos.
A sua esquerda, viu de novo a mulher, de pé junto a uma grande secretária, ainda a segurar a
pequena torre contra o tronco. Apresentava uma curvatura encantada. Os seus lábios pareciam ter
sido paralisados por um sorriso.
— Quer que eu...?
Liesel não terminou a pergunta, e passou de facto à execução do que ia indagar, aproximando-se e
tirando docemente os livros dos braços da mulher. Depois colocou-os no espaço vazio da prateleira,
junto da janela levemente aberta. O frio exterior entrava a jorros.
Por instantes pensou em fechá-la, mas reconsiderou. Não estava em sua casa, e a situação não
permitia passos em falso. Portanto, virou-se para a senhora atrás de si, cujo sorriso assumira agora
o aspecto de uma ferida e cujos braços delgados pendiam de cada lado do corpo. Como braços de
rapariga.
E agora?
O constrangimento instalou-se na sala e Liesel deitou um último relance fugidio às paredes de
livros. As palavras debatiam-se-lhe nos lábios, mas saíram de rajada. — Tenho de ir.
Precisou de três tentativas para conseguir partir.
Esperou alguns minutos no vestíbulo, mas a mulher não apareceu, e Liesel, voltando à entrada da
sala, viu-a sentada à secretária, fitando um dos livros com o olhar vazio. Decidiu não a perturbar.
De novo no vestíbulo, pegou na roupa.
Desta vez, evitou os pontos sensíveis do soalho, e percorreu o longo corredor encostada à parede do
lado esquerdo. Ao fechar a porta atrás de si, soou-lhe aos ouvidos um baque metálico, e com o saco
da roupa apertado, afagou a carne da madeira. — Toca a andar — disse ela.

A princípio, dirigiu-se para casa, ofuscada.


A experiência surreal com a sala repleta de livros e a mulher petrificada, destroçada, caminhavam a
seu lado. Podia vê-las nos edifícios, como uma peça de teatro.

120

Talvez fosse algo semelhante à maneira como o papá tivera a sua revelação do Mein Kampf. Para
onde quer que olhasse, Liesel via a mulher do presidente da câmara com os livros empilhados nos
braços. Ao virar esquinas, ouvia o roçar das suas próprias mãos, perturbando as prateleiras. Viu a
janela aberta, o lustre de luz encantadora, e viu-se a sair, sem sequer uma palavra de agradecimento.
Em breve a sua serenidade se transformou em mortificação e asco de si mesma. Começou a
censurar-se.
— Não disseste nada. — Abanou vigorosamente a cabeça, continuando a caminhar com passos
apressados. — Nem um «adeus». Nem um «obrigada». Nem um «isto é a coisa mais bela que já
vi». Nada!
— É certo que ela roubava livros, mas isso não significava que não se soubesse comportar. Não
significava que não pudesse ser delicada.
Andou mais alguns minutos, a debater-se com a indecisão.
Na Rua de Munique, esta cessou.
Exactamente ao avistar a tabuleta que dizia STEINER — SCHNEIDER-MEISTER, virou-se e
voltou para trás a correr.
Desta vez, não houve hesitações.
Bateu com força, enviando um eco metálico através da madeira.
Scheisse!
Não era a mulher do presidente da câmara que se encontrava diante dela, mas o próprio presidente.
Na sua pressa, Liesel não reparara no automóvel estacionado na rua, em frente da casa.
De bigode e fato preto, o homem falou. — O que desejas?
Liesel não se sentia capaz de dizer nada. Ainda não. Estava curvada, ofegante, e felizmente a
mulher chegou quando ela se recompôs, pelo menos parcialmente. Usa Hermann parou atrás do
marido, um pouco desviada.
— Esqueci-me — disse Liesel. Levantou o saco e dirigiu-se à mulher do presidente da câmara.
Apesar da respiração entrecortada, atirou as palavras através da fenda no vão da porta — entre o
presidente da câmara e a ombreira — em direcção à mulher. O seu esforço para respirar era tal que
apenas se escapavam algumas palavras de cada vez.
— Esqueci-me... quer dizer, eu só... queria... queria agradecer-lhe — proferiu ela.
A mulher do presidente da câmara feriu-se de novo. Avançou até ficar ao lado do marido, acenou
muito levemente, esperou e fechou a porta.
Liesel demorou cerca de um minuto a partir.
Sorria para os degraus.

121

ENTRA O LUTADOR
E agora uma mudança de cenário.
Isto até agora tem estado demasiado fácil para nós, meus amigos, não acham? Que tal se
esquecêssemos Molching durante um ou dois minutos?
Far-nos-á bem.
Além disso, é importante para a história.
Viajaremos um pouco, até uma arrecadação secreta, e veremos o que virmos.

UMA VISITA GUIADA AO SOFRIMENTO


A vossa esquerda, talvez à vossa direita,
talvez mesmo em frente, encontrarão
uma pequena sala escura.
Nela está sentado um judeu.
Ele é escumalha.
Ele está faminto.
Ele está com medo.
Por favor — tentem não desviar o olhar.
Algumas centenas de quilómetros para noroeste, em Stuttgart, longe de raparigas que roubam
livros, mulheres de presidentes da câmara, e da Rua Himmel, um homem estava sentado no escuro.
Era o melhor sítio, tinham eles decidido. É mais difícil encontrar um judeu no escuro.
Estava sentado na sua mala, à espera. Há quantos dias já?
Comera apenas o gosto amargo do seu próprio bafo faminto durante o que lhe pareciam semanas, e
ainda nada. Ocasionalmente passavam por ali vozes e às vezes ele ansiava por que elas batessem à
porta, a abrissem, o arrastassem para fora, para a luz insuportável.

122

Por agora, podia apenas continuar serrado na sua mala-sofá, as mãos sob o queixo, os cotovelos a
queimarem-lhe as coxas.

Havia o sono, o sono faminto, e a irritação de uma semivigília, e o massacre do chão.


Ignora os pés dormentes.
Não coces as plantas dos pés.
E não te mexas demasiado.
Limita-te a deixar tudo como está, custe o que custar. Talvez em breve seja altura de partir. Luz
como uma pistola. Explosiva para os olhos. Talvez seja altura de partir. Talvez seja altura, portanto
acorda. Acorda agora, raios! Acorda.

A porta abriu-se e fechou-se, e uma figura curvou-se sobre ele. A mão agitou as ondas geladas da
sua roupa e as sombrias correntes subterrâneas. Atrás dela desceu uma voz.
— Max — segredou a voz. — Max, acorda.
Os olhos dele não fizeram nada do que é normalmente descrito como choque. Nem dardejar, nem
estremecer, nem surpresa. Tais coisas acontecem quando se acorda de um sonho mau, não quando
se acorda para um. Não, os olhos dele abriram-se com esforço, das trevas para a obscuridade. Foi o
corpo que reagiu, atirando os ombros para cima e estendendo um braço para agarrar o ar.
A voz acalmava-o agora. — Desculpa ter demorado tanto. Julgo que tenho andado a ser vigiado. E
o homem do bilhete de identidade levou mais tempo do que eu pensava, mas... — seguiu-se uma
pausa.
— Agora é teu. A qualidade não é grande coisa, mas esperemos que seja suficientemente boa para
te levar até lá, se chegarmos a isso.
— Agachou-se e fez um gesto em direcção à mala. Na outra mão, segurava algo pesado e chato. —
Anda lá... acorda. — Max obedeceu e ergueu-se a coçar-se. Sentia os ossos comprimidos. — O
bilhete de identidade está dentro disto. — Era um livro. — Devias meter também o mapa aqui, e as
indicações. E há uma chave... está presa na parte de dentro da capa. — Abriu a mala o mais
silenciosamente possível e enfiou lá o livro como quem coloca uma bomba. — Volto daqui a uns
dias.
Deixou um pequeno saco com pão, gordura e três pequenas cenouras. Ao lado, uma garrafa de
água. Não se desculpou. — Foi o melhor que consegui.
Porta aberta, porta fechada.
De novo sozinho.

123

O que então o assaltou imediatamente foi o som.


Era tudo tão desesperadamente ruidoso no escuro quando ele estava sozinho. Cada vez que se
mexia, havia o som de uma ruga. Sentia-se como um homem com um fato de papel.
A comida.

Max dividiu o pão em três partes e pôs duas de lado. Absorveu-se na que tinha na mão, mastigando
e engolindo, forçando-a a descer o corredor seco da sua garganta. A banha estava fria e dura, descia
às escamas, detinha-se de vez em quando. Grandes sorvos despegavam-na e enviavam-na para
baixo.
Depois as cenouras.
Uma vez mais, pôs duas de parte e devorou a terceira. O ruído era atroador. Com certeza o próprio
Führer conseguia ouvir o som da pasta cor de laranja na sua boca. Partia-lhe os dentes a cada
mordidela. Ao beber, teve a certeza absoluta de que os ia engolir. Para a próxima, aconselhou a si
próprio, bebe primeiro.

Mais tarde, depois de os ecos o deixarem e ter arranjado coragem para ir verificar com os dedos,
sentiu com alívio que os dentes ainda lá estavam todos, intactos. Tentou esboçar um sorriso, mas
ele não veio. Só conseguia imaginar uma débil tentativa e uma boca cheia de dentes partidos.
Durante horas, levou lá os dedos.
Abriu a mala e pegou no livro.
Não conseguiu ler o título às escuras, e o risco de acender um fósforo pareceu-lhe demasiado
grande nesta altura.
O que falou, foi o sabor de um sussurro.
— Por favor — disse ele. — Por favor.
Dirigia-se a um homem que nunca encontrara. Além de mais alguns pormenores importantes, sabia
o nome do homem. Hans Hubermann. Voltou a falar para ele, para o estranho distante. Suplicou.
— Por favor.

124

OS ATRIBUTOS DO VERÃO
Portanto, aí têm.
Estão bem cientes do que exactamente ia chegar à Rua Himmel em finais de 1940.
Eu sei.
Vocês sabem.
Liesel Meminger, contudo, não pode ser incluída nessa categoria.
Para a rapariga que roubava livros, o Verão desse ano foi simples. Consistiu em quatro elementos,
ou atributos, principais. Ocasionalmente, ela perguntava-se qual seria mais forte.

E OS NOMEADOS SÃO...
1. Avançar por O Encolher de Ombros todas as noites.
2. Ler no chão da biblioteca do presidente da câmara.
3. Jogar futebol na Rua Himmel.
4. Agarrar uma nova oportunidade de roubo.

O Encolher de Ombros, considerou ela, era excelente. Todas as noites, uma vez dissipado o
pesadelo, depressa se sentia satisfeita por estar acordada e poder ler. «Umas quantas páginas?»,
perguntava-lhe o papá, e Liesel acenava afirmativamente. Às vezes concluíam um capítulo na tarde
seguinte, lá em baixo, na cave.
O problema das autoridades em relação ao livro era óbvio. O protagonista era um judeu, e era
apresentado a uma luz favorável. Imperdoável. Tratava-se de um homem rico que estava farto de
deixar a vida passar-lhe ao lado — aquilo a que ele se referia como o encolher de ombros aos
problemas e prazeres do tempo de que uma pessoa dispunha na terra.
Durante a primeira parte do Verão, em Molching, enquanto Liesel e o papá avançavam livro fora,
aquele homem ia em viagem de negócios para Amesterdão, e a neve tiritava lá fora.

125

A rapariga adorava aquela expressão: a neve a tiritar. — É isso exactamente que ela faz ao cair
— comentou Liesel para Hans Hubermann. Estavam os dois sentados na cama, o papá meio a
dormir e a rapariga bem desperta.
Por vezes ficava a observar o papá a dormir, sabendo simultaneamente mais e menos acerca dele do
que qualquer dos dois se apercebia. Ouvia-o com frequência falar com a mãe acerca da sua falta de
trabalho ou conversarem melancolicamente sobre o facto de Hans ter ido visitar o filho, apenas para
descobrir que o jovem deixara o seu alojamento e se encontrava muito provavelmente já a caminho
da guerra.
— Schlaf gut, papá — dizia a rapariga nessas ocasiões. — Durma bem. — E deslizava em redor
dele para sair da cama e apagar a luz.

O atributo seguinte, como mencionei, era a biblioteca do presidente da câmara.


Para exemplificar essa situação específica, podemos observar um dia fresco em finais de Junho.
Rudy estava furioso, para não dizer pior.
Quem pensava Liesel Meminger que era para lhe dizer que hoje tinha de levar a roupa passada
sozinha? Ele não era suficientemente bom para a acompanhar pela rua?
— Pára de te queixares, Saukerl — repreendeu-o ela. — Não me sinto bem. Estás a perder o jogo.
Ele olhou por cima do ombro. — Bom, se pões as coisas nesse pé.
— Seguiu-se um Schmunzel. — Sabes onde podes meter a tua roupa passada. — Afastou-se a
correr e não perdeu tempo a juntar-se a uma equipa. Ao chegar ao cimo da Rua Himmel, Liesel
olhou para trás mesmo a tempo de o ver diante da mais próxima baliza fingida. Estava a acenar.
— Saukerl — riu-se e, ao erguer a mão, teve a certeza absoluta de que ele estava simultaneamente
a chamar-lhe Saumensch. Penso que isso é o que mais se aproxima de amor aos onze anos.
Liesel largou a correr até à Grande Strasse e à casa do presidente da câmara.

E certo que havia o suor e o arquejar amarrotado da respiração, estendendo-se diante dela.
Mas estava a ler.
A mulher do presidente da câmara, após ter deixado a rapariga entrar pela quarta vez, sentara-se à
secretária, olhando simplesmente para os livros. Na segunda visita, autorizara Liesel a tirar um e a
percorrê-lo, o que levara a outro e a outro, até um i meia dúzia de livros se acharem colados a ela,
apertados debaixo do braço ou entre a pilha que ia subindo na outra mão.

126

Nessa ocasião, enquanto Liesel permanecia no ambiente fresco da sala, o seu estômago resmungou,
mas não houve qualquer reacção da parte da mulher muda, danificada. Vestia de novo o seu roupão,
e embora observasse a rapariga várias vezes, nunca era por muito tempo. Prestava em geral mais
atenção ao que se encontrava a seu lado, a algo que faltava. A janela continuava escancarada, uma
boca fria quadrada, com lufadas ocasionais.
Liesel estava sentada no chão. Os livros achavam-se espalhados à sua volta.
Após quarenta minutos, ela partiu. Todos os volumes foram devolvidos aos seus lugares.
— Adeus, Frau Hermann. — As palavras chegavam sempre como um choque. — Obrigada. —
Depois a mulher pagava-lhe e ela saía. Todos os seus movimentos tinham de ser explicados, e a
rapariga que roubava livros corria até casa.

À medida que o Verão se instalava, a sala repleta de livros foi ficando mais quente, e a cada dia de
recolha ou entrega de roupa o chão ia-se tornando menos incómodo. Liesel sentava-se com uma
pequena pilha de livros ao lado, e lia alguns parágrafos de cada um deles, esforçando-se por decorar
as palavras que não conhecia, para perguntar ao papá ao chegar a casa. Mais tarde, na adolescência,
quando escreveu acerca desses livros, Liesel já não lhes recordava os títulos. Nem um. Talvez se os
tivesse roubado, se achasse mais bem qualificada.
Do que ela se lembrava era de que um dos livros ilustrados tinha um nome toscamente escrito na
capa interior.

O NOME DE UM RAPAZ
Johann Hermann

Liesel mordeu os lábios, mas não conseguiu resistir durante muito tempo. Do chão, virou-se,
ergueu os olhos para a mulher de roupão e fez uma pergunta. — Johann Hermann — indagou. —
Quem é?
A mulher olhou para lá dela, algures perto dos joelhos da rapariga.
A pequena desculpou-se. — Perdão. Eu não devia perguntar estas coisas... — Deixou a frase morrer
por si.
A cara da mulher não se alterou, e contudo ela conseguiu de algum modo falar. — Agora ele não é
nada neste mundo — explicou ela. — Era o meu...

127

OS ARQUIVOS DA MEMÓRIA
Oh, sim, eu lembro-me indiscutivelmente dele.
O céu estava lodoso e profundo como areia movediça.
Havia um jovem embrulhado em arame farpado,
como uma gigantesca coroa de espinhos.
Eu desenredei-o e levei-o.
Lá no alto, por cima da terra, afundámo-nos os dois
até aos joelhos. Foi apenas mais um dia, 1918.
— À parte todo o resto — disse a mulher —, ele morreu de frio. — Por instantes brincou com as
mãos, e depois repetiu. — Morreu de frio, tenho a certeza.
A mulher do presidente da câmara era apenas um membro de uma brigada mundial. Já a viram
antes, estou certa. Nas vossas histórias, nos vossos poemas, nos filmes a que gostam de assistir.
Estão em toda a parte, então por que não aqui? Por que não numa bonita colina numa pequena
cidade alemã? É um sítio tão bom para sofrer como qualquer outro.
A questão é que Usa Hermann tinha decidido fazer do sofrimento o seu triunfo. Tendo ele recusado
largá-la, ela abandonou-se-lhe. Abraçou-o.
Podia ter-se suicidado com um tiro, ter-se arranhado, ou entregado a outras formas de
automutilação, mas escolheu o que provavelmente considerou a opção mais fraca — suportar, pelo
menos, o desconforto do clima. Tanto quanto Liesel sabia, ela rezava por dias de Verão frios e
húmidos. Em geral, vivia no lugar certo.
Nesse dia, ao partir, Liesel disse uma coisa com grande constrangimento. Traduzindo, duas palavras
gigantescas com que se debateu, que levou aos ombros e deixou cair como um par atamancado aos
pés de lisa Hermann. Tombaram de lado quando a rapariga cambaleou com elas, incapaz de lhes
suportar o peso por mais tempo. Assentaram no chão juntas, enormes, sonoras e desajeitadas.

DUAS PALAVRAS GIGANTESCAS


Lamento muito

Mais uma vez, a mulher do presidente da câmara fitou o espaço ao lado dela. Uma expressão vazia.

128

— O quê? — perguntou ela, mas decorrera um certo tempo. A rapariga encontrava-se já fora da
sala. Ia quase a chegar à porta da frente. Ao ouvi-la, Liesel deteve-se, mas optou por não voltar
atrás, preferindo caminhar silenciosamente para fora de casa e degraus abaixo. Contemplou a vista
de Molching antes de mergulhar nela, e durante um bom bocado sentiu pena da mulher do
presidente da câmara.
Às vezes, Liesel perguntava-se se deveria simplesmente deixar a mulher em paz, mas Usa Hermann
era demasiado interessante, e a atracção dos livros era demasiado forte. Em tempos, as palavras
haviam deixado Liesel impotente, mas agora, sempre que se sentava no chão, com a mulher do
presidente da câmara à secretária do marido, sentia uma sensação de poder inata. Acontecia cada
vez que decifrava uma palavra nova ou juntava uma frase.
Era uma rapariga.
Na Alemanha nazi.
Que adequado estar a descobrir o poder das palavras.
E que sensação horrível (e contudo excitante!) quando, muitos meses mais tarde, ela libertasse o
poder dessa descoberta recente no próprio instante em que a mulher do presidente da câmara a
desiludiu. Quão depressa a pena a abandonaria, e quão depressa extravasaria em algo
completamente diferente...
Agora, contudo, no Verão de 1940, ela não sabia o que o futuro lhe reservava, sob vários aspectos.
Via apenas uma mulher desolada com uma sala repleta de livros que ela gostava de visitar. Era
tudo. Era a segunda parte da sua existência nesse Verão.
A terceira parte, graças a Deus, era um bocado mais leve — futebol na Rua Himmel.

Permitam-me que lhes faça um desenho:


Pés a arrastar pela rua.
O ímpeto da respiração infantil.
Palavras gritadas: «Aqui! Pr'áqui! Scheisse!»
O ressaltar tosco da bola na rua.

Tudo isso estava presente na Rua Himmel, assim como o som de desculpas, à medida que o Verão
se intensificava.
As desculpas pertenciam a Liesel Meminger.
E eram dirigidas a Tommy Miiller.
No princípio de Julho, ela conseguira finalmente convencê-lo de que não tencionava matá-lo.
Desde a sova que Liesel lhe dera em Novembro, Tommy continuava com medo de estar ao pé dela.

129

Nos jogos de futebol na Rua Himmel, mantinha-se bem longe. — Nunca se sabe quando lhe dará a
louca — confidenciara ele a Rudy, meio a falar, meio aos tiques.
Diga-se em defesa de Liesel que ela nunca desistiu de o tentar pôr à vontade. Desapontava-a ter
conseguido fazer as pazes com Ludwig Schmeikl e não com o inocente Tommy Miiller. Esse ainda
se encolhia nitidamente sempre que a via.
— Como é que eu podia saber que tu estavas a sorrir para mim naquele dia? — perguntava-lhe ela
repetidamente.
Chegara mesmo a substituí-lo algumas vezes como guarda-redes, até todos os outros membros da
equipa suplicarem a Tommy que voltasse para lá.
— Volta já para ali! — ordenou-lhe finalmente um rapaz chamado Harald Mollenhauer. — Es um
inútil. — Isso depois de Tommy o ter feito tropeçar quando ele se preparava para marcar um golo.
Harald teria concedido uma grande penalidade a si próprio não fora o facto de se acharem ambos na
mesma equipa.
Liesel saiu da baliza e acabava sempre por ficar no lado oposto a Rudy. Seguravam-se e
derrubavam-se um ao outro, insultavam-se. Rudy comentava: «Ela não vai conseguir contorná-lo
desta vez, essa estúpida Saumensch Arschgrobbler. Não tem hipóteses.» Parecia gostar de chamar
coça-cu a Liesel. Era uma das alegrias da infância.

Outra das alegrias, é claro, era roubar. Quarta parte, Verão 1940.
Na realidade, houve muitas coisas que reuniram Rudy e Liesel, mas foram os roubos que
cimentaram completamente a sua amizade. Aconteceram devido a uma oportunidade e foram
impulsionados por uma força inescapável — a fome de Rudy. O rapaz andava permanentemente
morto por alguma coisa para comer.
Além do estado de racionamento, o negócio do pai não ia tão bem ultimamente (a ameaça da
concorrência judia fora afastada, mas o mesmo acontecera aos clientes judeus). Os Steiner viam-se
e desejavam-se para sobreviver. Tal como muitas outras pessoas da parte da cidade em que ficava a
Rua Himmel, tinham de fazer trocas. Liesel ter-lhe-ia dado alguma comida de sua casa, mas
também aí ela não abundava. A mãe em geral fazia sopa de ervilhas. Preparava-a ao domingo à
noite — e não apenas para uma ou duas ocasiões. Fazia sopa de ervilhas suficiente para durar até ao
sábado seguinte. Depois, no domingo, preparava mais. Sopa de ervilhas, pão, às vezes uma pequena
porção de batatas ou carne. Comia-se e não se pedia mais, e nada de queixas.

130

Ao princípio, eles arranjavam coisas para tentar esquecer a fome.


Rudy não sentia fome se jogassem futebol na rua. Ou se pegassem nas bicicletas do irmão e da irmã
dele e pedalassem até à loja de Alex Steiner, ou fossem visitar o papá de Liesel, se ele estivesse a
trabalhar nesse dia específico. Hans Hubermann sentava-se ao pé deles e contava-lhes histórias
divertidas enquanto a última claridade da tarde desaparecia.
Com a chegada de alguns dias quentes, outra distracção foi aprender a nadar no rio Amper. A água
ainda estava um pouco fria de mais, mas eles iam na mesma.
— Anda lá — incitou-a Rudy. — Só até aqui. Aqui não é tão fundo.
— Liesel não conseguia ver o buraco enorme para onde caminhava e foi direita ao fundo. Salvou-
lhe a vida nadar à cão, apesar de quase sufocar com a água que engoliu.
— Grande Saukerl — acusou-o ela deixando-se cair na margem do rio. Rudy teve o cuidado de se
manter bem longe. Vira o que ela fizera
ao Ludwig Schmeikl. — Agora já sabes nadar, não sabes?
O que não a animou particularmente enquanto se afastava. O cabelo colava-se-lhe à cara e escorria-
lhe muco do nariz.
Ele gritou: — Isso quer dizer que eu não recebo um beijo por te ter ensinado?
— Saukerl!
A lata dele!
Era inevitável.

A deprimente sopa de ervilhas e a fome de Rudy acabaram por os arrastar para o roubo. Foi isso
que inspirou a sua ligação a um grupo de miúdos mais velhos que roubava a lavradores. Larápios
de fruta. Após um jogo de futebol, tanto Rudy como Liesel aprenderam as vantagens de manter os
olhos bem abertos. Sentados nos degraus da entrada de Rudy, notaram que Fritz Hammer — uma
réplica mais velha de si próprios — estava a comer uma maçã. Pertencia à variedade Klar, que
amadurece em Julho e Agosto, e tinha um aspecto magnífico na mão dele. Nos bolsos do casaco
via-se nitidamente o inchaço provocado por mais três ou quatro. Eles aproximaram-se.
— Onde é que arranjaste isso? — perguntou Rudy.
A princípio o rapaz limitou-se a uma careta sorridente. — Chiuuu...
— E calou-se. Depois tirou do bolso uma maçã e atirou-a. — Olhem só — avisou ele. — Não
comam.
Na vez seguinte que viram o mesmo rapaz com o mesmo casaco vestido, num dia demasiado
quente para isso, seguiram-no.

131

Ele conduziu-os em direcção ao Amper, andando contra a corrente. Era perto do sítio para onde
Liesel ia às vezes com o papá quando começara a aprender a ler.
Um grupo de cinco rapazes, uns esgalgados, outros baixos e magros, aguardava aí.

Nessa época havia meia dúzia de grupos semelhantes em Molching, alguns com membros de
apenas seis anos. O líder deste bando específico era um agradável criminoso de quinze anos
chamado Arthur Berg. Olhou em volta e avistou os dois pequenos de onze anos um pouco
afastados. — Und? — perguntou ele. — E?
— Estou morto de fome — respondeu Rudy.
— E ele é muito rápido — acrescentou Liesel.
Berg olhou para ela. — Não me lembro de ter pedido a tua opinião.
— Tinha a altura da idade e o pescoço comprido. No seu rosto, as borbulhas reuniam-se em grupos
semelhantes. — Mas gosto de ti.
— Mostrava-se amigável, à maneira pretensiosa dos adolescentes. — Não foi esta que deu uma
surra ao teu irmão, Anderl? — Não havia dúvida de que as coisas corriam. Uma boa sova
transcende as divisões etárias.
Outro rapaz, um dos baixos e magros, de cabelo louro emaranhado e pele cor de gelo, fitou-a. —
Acho que sim.
Rudy confirmou. — Foi pois.
Andy Schmeikl avançou e examinou-a de alto a baixo, a expressão pensativa, até se abrir num largo
sorriso. — Belo trabalho, miúda.
— Deu-lhe mesmo uma palmadinha entre os ossos das costas, apanhando um pedaço de omoplata
saliente. — Se tivesse sido eu a fazer isso levava de cinto.
Arthur aproximou-se de Rudy. — E tu és o tipo do Jesse Owens, não és?
Rudy acenou afirmativamente.
— És indiscutivelmente um idiota — comentou Arthur —, mas és o nosso género de idiota.
Venham daí.
Haviam sido admitidos.

Ao chegarem à quinta, atiraram uma saca a Liesel e Rudy. Arthur Berg agarrou o seu próprio saco
de serapilheira. Passou a mão pelas madeixas de cabelo. — Já algum de vocês roubou?
— Claro que sim — respondeu Rudy. — Montes de vezes. — Não foi muito convincente.
Liesel foi mais específica. — Eu roubei dois livros — ao que Andy riu, com três curtos roncos. As
borbulhas mudar; m de posição.

132

— Os livros não se comem, doçura.

De onde se encontravam, examinaram todos as macieiras, plantadas em longas filas irregulares.


Arthur Berg deu as ordens. Um — disse ele. — Não fiquem presos na vedação. Se ficarem presos
na vedação, são deixados para trás. Percebido? — Todos acenaram ou disseram que sim. — Dois.
Um em cima da árvore, outro no chão. Alguém tem de apanhar o que cai. — Esfregou as mãos.
Estava a gostar daquilo. — Três. Se virem aparecer alguém, gritam suficientemente alto para
acordar os mortos — e cavamos todos. Richtig?
— Richtig. — Em coro.

DOIS DEBUTANTES LADRÕES DE MAÇÃS, AOS SUSSURROS


«Liesel... tens a certeza? Ainda queres continuar
com isto?»
«Olha para o arame farpado, Rudy. É tão alto.»
«Não, não, olha. Atira-se a saca por cima.
Vês? Como eles.»
«Está bem.»
«Então anda lá!»
«Não consigo!» Hesitação. «Rudy, eu...»
«Mexe-te, Saumensch!»

Empurrou-a para a vedação, atirou a saca vazia por cima do arame farpado, subiram, e depois
correram até ao pé dos outros. Rudy trepou à arvore mais próxima e começou a arremessar as
maçãs ao chão. Liesel ficou lá em baixo, a enfiá-las na saca. Quando esta ficou cheia, deparou-se-
lhes um novo problema.
— Como é que voltamos a passar a vedação?
A resposta surgiu ao verem Arthur Berg trepar o mais chegado possível a um poste da vedação. —
O arame é mais forte ali. — Rudy apontou. Atirou a saca para o outro lado, mandou Liesel passar
primeiro e depois aterrou junto dela do outro lado, entre os frutos que se tinham espalhado.
Perto deles, as longas pernas de Arthur Berg observavam-nos divertidas.
— Nada mal — disse a voz lá de cima. — Nada mal mesmo.
Ao chegarem de novo ao rio, ocultos entre as árvores, ele pegou na saca e deu a Liesel e Rudy uma
dúzia de maçãs para os dois.

133

— Bom trabalho — foi o seu comentário final sobre o assunto. Nessa tarde, antes de regressarem a
casa, Liesel e Rudy consumiram,
cada um, seis maçãs em meia hora. De início, consideraram a ideia de partilhar a fruta com os
respectivos lares, mas isso implicava um risco considerável. Não se sentiam particularmente
interessados na oportunidade de explicar de onde é que a fruta viera. Liesel ainda pensou que talvez
se safasse contando apenas ao papá, mas não quis que ele pensasse que tinha em casa uma
criminosa compulsiva. Portanto comeu.
Na margem do rio onde ela aprendera a nadar, foi dado destino a cada uma das maçãs.
Desabituados de tal luxo, sabiam que o mais provável era ficarem doentes.
Comeram na mesma.
— Saumensch! — invecticou-a a mãe nessa noite. — Por que é que estás a vomitar assim?
— Talvez seja da sopa de ervilhas — sugeriu Liesel.
— É verdade — ecoou o papá. Estava novamente à janela. — Deve ser. Eu próprio me sinto um
bocado enjoado.
— E quem é que te perguntou, Saukerl? — Voltou-se rapidamente para fitar a Saumensch
agoniada. — Então? O que foi? O que foi, porca imunda?
E Liesel? Não disse nada.
As maçãs, pensou ela, feliz. As maçãs, e vomitou mais uma vez, para dar sorte.

134

A LOJISTA ARIANA
Estavam do lado de fora da loja de Frau Diller, encostados à parede caiada.
Na boca de Liesel, um pedaço de rebuçado.
Nos olhos, o sol.
Apesar das dificuldades, ela ainda conseguia falar e argumentar.

MAIS UMA CONVERSA ENTRE RUDY E LIESEL


«Despacha-te, Saumensch, com essa já são dez.»
«Não são nada, são só oito... ainda me faltam duas.»
«Bom, então despacha-te. Eu disse-te que devíamos
ter ido buscar uma faca para o partir ao meio...
Vá, foram duas.»
«Está bem. Toma. E não o engulas.»
«Tenho ar de idiota?»
(Uma pequena pausa)
«Isto é bestial, não é?»
«Se é, Saumensch.»

No final de Agosto e do Verão, encontraram um pfennig na rua. Pura excitação.


Estava caído, muito gasto, no meio de lixo, no percurso da roupa para lavar e passar. Uma moeda
solitária e corroída.
— Olha-me só para isto!
Rudy precipitou-se sobre ela. Sentiam ferroadas de excitação ao correr para a loja de Frau Diller,
sem admitirem sequer que um único pfennig poderia não ser o preço certo. Irromperam pela porta e
ficaram diante da lojista ariana, que os olhou com desdém.

135

— Estou à espera — disse ela. Trazia o cabelo apanhado na nuca e o vestido preto estrangulava-lhe
o corpo. A fotografia emoldurada do Führer vigiava da parede.
— Heil Hitler — começou Rudy.
— Heil Hitler — respondeu ela, endireitando-se ainda mais por detrás do balcão. — E tu? — O
seu olhar fulminou Liesel, que se apressou a conceder-lhe um «heil Hitler» pessoal.
Rudy não demorou a extrair a moeda do bolso e pousou-a firmemente no balcão. Fitou a direito os
olhos e os óculos de Frau Diller e pediu: — Mistura de rebuçados, por favor.
Frau Diller sorriu. Os dentes acotovelavam-se uns aos outros lutando por espaço dentro da sua
boca, e a inesperada amabilidade levou Rudy e Liesel a sorrirem igualmente. Não por muito tempo.
Ela curvou-se, procurou um pouco, e reapareceu. — Toma — disse ela, atirando um único rebuçado
para cima do balcão. — Misturem-no vocês.
Lá fora, eles desembrulharam-no e tentaram parti-lo ao meio, mas o açúcar parecia vidro.
Demasiado rijo, mesmo para as presas de Rudy. Portanto, tiveram de ir alternando chupadelas até
ele acabar. Dez chupadelas para Rudy. Dez para Liesel. E assim por diante.
— Isto — anunciou Rudy a dada altura, com um sorriso de rebuçado — é que é boa vida —, e
Liesel não discordou. Quando acabaram, tinham ambos a boca exageradamente vermelha, e ao
encaminharem-se para casa, incitaram-se mutuamente a manter os olhos bem abertos não fossem
encontrar outra moeda.
Naturalmente, não encontraram nada. Ninguém tem essa sorte duas vezes num ano, quanto mais
numa só tarde.
Ainda assim, de línguas e dentes vermelhos, desceram a Rua Himmel perscrutando alegremente o
solo à medida que avançavam.
O dia fora formidável, e a Alemanha nazi era um lugar maravilhoso.

136

O LUTADOR, CONTINUAÇÃO
Avançamos agora para uma luta numa noite gélida. Deixaremos a rapariga que roubava livros
apanhar-nos mais tarde.
Estava-se a 3 de Novembro, e o chão do comboio mantinha-se firme sob os seus pés. Segurando-o
diante de si, lia o exemplar de Mein Kampf. O seu salvador. O suor escorria-lhe das mãos. Dedadas
apertavam o livro.

AS PRODUÇÕES «A RAPARIGA QUE ROUBAVA LIVROS» APRESENTAM


OFICIALMENTE
Mein Kampf (A Minha Luta) de Adolf Hitler

Atrás de Max Vandenburg, a cidade de Stuttgart abriu os braços de troça.


Não fora bem recebido ali, e esforçou-se por não olhar para trás enquanto o pão cediço se
desintegrava no seu estômago. Mudou de posição algumas vezes e observou as luzes diminuírem
até se verem apenas meia dúzia e depois desaparecerem por completo.
Faz um ar orgulhoso, disse ele a si mesmo. Não podes fazer um ar de medo. Lê o livro. Sorri para
ele. É um livro formidável — o melhor livro que já leste. Ignora aquela mulher do outro lado. De
qualquer maneira, ela já adormeceu. Anda lá, Max, estás só a algumas horas de distância.
Afinal de contas, a prometida repetição da visita à sala das trevas não demorou uns dias; demorou
uma semana e meia. Depois nova semana até à seguinte, e mais outra, até ele ter perdido por
completo o sentido da passagem dos dias e das horas.

137

Foi uma vez mais mudado de sítio, para outra pequena sala de arrecadações, onde havia mais luz,
mais visitas, e mais comida. O tempo, contudo, começava a escassear.
— Vou partir em breve — informou-o o seu amigo Walter Kugler.
— Sabes como é... o exército.
— Lamento, Walter.
Walter Kugler, amigo de infância de Max, pousou a mão no ombro do judeu. — Podia ser pior. —
Fitou os olhos de judeu do amigo.
— Eu podia ser tu.
Fora o seu último encontro. Um derradeiro embrulho fora deixado ao canto, e dessa vez continha
um bilhete. Walter abriu Mein Kampf e enfiou-o lá dentro, ao lado do mapa que trouxera com o
livro.
— Página treze. — Sorriu. — Para dar sorte, valeu?
— Para dar sorte. — E abraçaram-se.
Quando a porta se fechou, Max abriu o livro e examinou o bilhete. Stuttgart a Munique a Pasing.
Partia daí a dois dias, à noite, com tempo calculado para apanhar a última ligação. A partir daí,
andaria. Já tinha o mapa na cabeça, dobrado em quatro partes. A chave continuava presa à capa
interior.

Permaneceu sentado uma hora antes de se aproximar da mala e a abrir. Além de comida, havia
alguns outros artigos no interior.

O CONTEÚDO SUPLEMENTAR DO PRESENTE DE WALTER KUGLER


Uma pequena navalha.
Uma colher — a coisa mais parecida com um espelho.
Creme de barbear.
Uma tesoura.

Depois da sua partida a arrecadação ficou vazia, exceptuando o soalho.


— Adeus — murmurou ele.
A última coisa que Max viu foi o pequeno monte de cabelo, displicentemente encostado à parede.
Adeus.

De cara barbeada e cabelo assimétrico mas bem penteado, saíra daquele edifício um homem novo.
De facto, saíra de lá alemão. Esperem aí um segundo, ele era alemão. Ou, mais exactamente, ele
tinha sido.
No seu estômago havia a combinação eléctrica de alimento e náusea.

138

Dirigiu-se para a estação.


Mostrou o seu bilhete e cartão de identidade, e agora estava sentado num pequeno compartimento
do comboio, directamente sob os focos do perigo.
— Documentos.

Era isso que ele sentia pavor de ouvir.


Já fora suficientemente mau quando o haviam detido na plataforma. Sabia que não seria capaz de
aguentar uma segunda vez.
As mãos trémulas.
O cheiro... não, o fedor... da culpa.
Não conseguiria simplesmente suportar isso outra vez.
Felizmente, eles passaram cedo e só pediram o bilhete, e agora tudo o que havia era uma janela de
cidadezinhas, a congregação de luzes, e a mulher a ressonar do outro lado do compartimento.
Durante a maior parte da viagem ele foi avançando pelo livro, tentando nunca levantar os olhos.
As palavras recostavam-se indolentes na sua boca à medida que ele as lia.
Estranhamente, enquanto ia virando as páginas e progredindo através dos capítulos, foram apenas
duas as palavras que saboreou.
Mein Kampf. A minha luta...
O título, incessantemente, enquanto o comboio ia tagarelando, de uma cidade alemã até à seguinte.
Mein Kampf.
O que haveria de o ter salvado.

139

TRAPACEIROS
Poderia argumentar-se que as coisas corriam bem a Liesel Meminger. Corriam seguramente bem
em comparação com Max Vandenburg. É certo que o irmão lhe morrera praticamente nos braços. A
mãe abandonara-a.
Mas tudo era melhor do que ser judeu.

No período que antecedeu a chegada de Max, perdeu-se mais um cliente da lavagem de roupa,
desta vez os Weingartner. O Schimpferei obrigatório decorreu na cozinha, e Liesel acalmou-se com
o facto de ainda restarem dois e, o que era melhor, sendo um deles o presidente da câmara, a
mulher, e os livros.
Quanto às outras actividades de Liesel, ela e Rudy Steiner continuavam a pintar a manta. Atrever-
me-ia mesmo a sugerir que eles andavam a apurar as suas patifarias.
Efectuaram mais algumas viagens com Arthur Berg e amigos, ansiosos por provar o seu valor e
alargar o seu repertório de roubos. Tiraram batatas de uma quinta, cebolas de outra. No entanto, a
sua maior vitória levaram-na a cabo sozinhos.
Como já vimos antes, um dos benefícios de caminhar pela cidade era a perspectiva de encontrar
coisas no chão. Outro era reparar nas pessoas, ou mais importante, em algumas pessoas, a fazerem
as mesmas coisas semana após semana.
Um rapaz da escola, Otto Sturm, era uma dessas pessoas. Todas as sextas-feiras à tarde, ia de
bicicleta até à igreja levar géneros aos padres.
Observaram-no durante um mês, enquanto o bom tempo ia dando lugar ao mau, e Rudy em especial
estava decidido a que numa sexta-feira, numa semana anormalmente gélida de Outubro, Otto não
chegasse lá.

140

— Todos esses padres — explicava Rudy enquanto percorriam a cidade. — Estão todos demasiado
gordos, de qualquer modo. Podem bem passar sem alimentos durante uma semana ou mais. —
Liesel não podia deixar de concordar. Primeiro que tudo, não era católica. Segundo, ela própria
sentia muita fome. Como sempre, levava na mão a roupa lavada. Rudy transportava dois baldes de
água fria ou, como ele dizia, dois baldes de futuro gelo.
Um pouco antes das duas horas deitou-se ao trabalho.
Sem qualquer hesitação, despejou a água na rua, no local exacto onde Otto pedalaria para fazer a
curva.
Liesel tinha de confessar.
A princípio sentira uma pequena parcela de culpa, mas o plano era perfeito, ou pelo menos tão
perfeito quanto possível. Todas as sextas-feiras, pouco depois das duas horas, Otto Sturm virava
para a Rua de Munique com o produto no cesto dianteiro, preso ao guiador. Nessa sexta-feira
específica, seria o mais longe que conseguiria chegar.
O pavimento já estava gelado, mas Rudy acrescentou-lhe uma camada suplementar, mal
conseguindo conter o riso, que lhe percorreu a face como um patim.
— Anda — comandou ele —, para aquela moita além.

Após cerca de quinze minutos, o plano diabólico deu frutos, por assim dizer.
Rudy apontou por uma fenda nos arbustos. — Lá vem ele.
Otto surgiu à esquina, ingénuo como um cordeiro.
Não tardou a perder o controlo da bicicleta, escorregar no gelo, e ficar estatelado de cara no chão.
Vendo que o rapaz não se movia, Rudy olhou alarmado para Liesel. — Meu santo Cristo —
exclamou ele —, acho que podemos tê-lo matado! — Saiu lentamente, tirou o cesto e fugiram.
— Ele estava a respirar? — perguntou Liesel já ao fundo da rua.
— Keine Ahnung — respondeu Rudy, apertando o cesto. Não fazia ideia.
De longe, na encosta, observaram Otto a levantar-se, coçar a cabeça, coçar a virilha, e procurar o
cesto por toda a parte.
— Estúpido Scheisskopf. — Rudy riu-se e examinaram os despojos. Pão, ovos partidos, e a sorte
grande, Speck. Rudy levou o suculento presunto ao nariz e inspirou gloriosamente. — Lindo.

141

Por muito tentador que fosse guardar a vitória só para eles, sentiram-se dominados por uma
sensação de lealdade para com Arthur Berg. Dirigiram-se à sua miserável habitação em Kempf
Strasse e mostraram-lhe o produto. Arthur não conteve a sua aprovação.
— A quem é que vocês roubaram isto?
Foi Rudy que respondeu. — Ao Otto Sturm.
— Bem — um aceno —, quem quer que ele seja, estou-lhe muito grato. — Foi lá dentro e voltou
com uma faca de pão, uma frigideira e um casaco, e os três ladrões percorreram o corredor dos
apartamentos. — Vamos buscar os outros — declarou Arthur Berg ao chegarem à rua. — Podemos
ser criminosos, mas não somos totalmente imorais. — À semelhança da rapariga que roubava
livros, também ele estabelecia limites.
Bateram a mais algumas portas. Chamaram nomes para apartamentos das ruas lá em baixo, e em
breve todo o conjunto da trupe de gama-fruta de Arthur Berg ia a caminho do Amper. Na clareira da
outra margem, acenderam uma fogueira e o que restava dos ovos foi recuperado e frito. O pão e o
Speck foram cortados. Com mãos e facas, todos os pedacinhos da entrega de Otto Sturm foram
comidos. Não havia padres à vista.
Só no fim é que se levantou uma discussão acerca do cesto. A maioria dos rapazes queria queimá-
lo. Fritz Hammer e Andy Schmeikl queriam guardá-lo, mas Arthur Berg, demonstrando a sua
incongruente capacidade moral, teve uma ideia melhor.
— Vocês dois — disse ele para Rudy e Liesel. — Talvez devessem levá-lo outra vez a esse tal
Sturm. Eu diria que o pobre coitado provavelmente merece isso.
— Ora, anda lá, Arthur.
— Nem quero ouvir falar nisso, Andy.
— Jesus.
— Ele também não quer ouvir falar nisso.
O grupo riu-se e Rudy Steiner pegou no cesto. — Eu levo-o e penduro-o na caixa do correio.
Percorrera apenas uns vinte metros quando a rapariga o alcançou. Chegaria a casa demasiado tarde
para seu bem, mas tinha plena consciência de que devia acompanhar Rudy Steiner na travessia da
cidade, até à quinta dos Sturm do outro lado.
Durante muito tempo caminharam em silêncio.
— Sentes-te mal? — perguntou Liesel por fim. Encontravam-se já de regresso a casa.
— A respeito de quê?

142

— Tu sabes.
— Claro que sinto, mas já não tenho fome e aposto que ele também não tem fome. Não penses por
um segundo que os padres levavam comida se lá em casa não houvesse o suficiente para todos.
— Mas ele bateu no chão com tanta força.
— Nem me lembres. — Mas Rudy Steiner não resistiu a sorrir. Nos anos vindouros, ele seria
alguém que dá pão, e não que o rouba — mais uma prova da contraditória natureza humana. Uma
parte de bem, uma parte de mal. É só acrescentar água.

Cinco dias após a sua pequena vitória agridoce, Arthur Berg emergiu de novo e convidou-os para o
seu próximo projecto de roubo. Encontraram-se na Rua de Munique, uma quarta-feira, no regresso
da escola para casa. Já envergava a sua farda da Juventude Hitleriana. — Vamos voltar amanhã à
tarde. Estão interessados?
Não conseguiram resistir. — Onde?
— Ao sítio das batatas.

Vinte e quatro horas depois, Liesel e Rudy enfrentaram de novo o arame farpado e encheram a sua
saca.
O problema surgiu ao prepararem-se para fugir.
— Cristo! — gritou Arthur. — O lavrador! — Todavia foi a palavra seguinte que os apavorou. O
rapaz soltou-a como se já tivesse sido atacado por ele. Escancarou a boca. A palavra voou para fora,
e essa palavra era machado.
E não há dúvida de que, virando-se, viram o lavrador a galopar para eles de arma erguida.
O grupo inteiro correu para a vedação e ultrapassou-a. Rudy, que se achava mais longe, alcançou-os
depressa, mas não suficientemente depressa para evitar ser o último. Ao passar a perna por cima,
ficou enredado.

— Eh!
O som do encalhado.

O grupo parou.
Instintivamente, Liesel voltou para trás.
— Despachem-se! — gritou Arthur. A sua voz vinha de muito longe, como se a tivesse engolido
antes de ela lhe sair da boca.
Céu branco.
Os outros corriam.

143
Liesel chegou e começou a puxar o tecido das calças. Rudy tinha os olhos arregalados de medo. —
Depressa — pediu —, ele vem aí.
A distância, ainda conseguiam ouvir o som de pés desertores quando uma mão extra agarrou o
arame e o afastou das calças de Rudy Steiner. Ficou um pedaço no nó metálico, mas o rapaz
conseguiu escapar.
— Agora mexam-se — aconselhou Arthur, instantes antes de o lavrador chegar, ofegante e a
praguejar. O machado achava-se agora bem seguro, contra a perna. Gritou-lhes as palavras fúteis
dos que são roubados:
— Hei-de-vos mandar prender! Hei-de-vos encontrar! Hei-de descobrir quem vocês são!
Foi aí que Arthur Berg respondeu.
— O nome é Jesse Owens! — Galopou até alcançar Liesel e Rudy. — Jesse Owens!

Ao chegarem a pouso seguro, debatendo-se para sorver ar para os pulmões, sentaram-se e Arthur
Berg aproximou-se. Rudy não se atreveu a olhar para ele. — Já nos aconteceu a todos — disse
Arthur, pressentindo o desapontamento. Estaria a mentir? Não tinham a certeza e nunca
descobririam.
Algumas semanas depois, Arthur Berg mudou-se para Colónia.
Viram-no mais uma vez, numa das voltas de entrega de roupa de Liesel. Numa viela transversal à
Rua de Munique, ele entregou a Liesel um saco de papel pardo contendo uma dúzia de castanhas.
Fez um trejeito. — Um contacto na indústria dos assados. — Depois de os informar da sua partida,
exibiu um derradeiro sorriso borbulhento e deu um pequeno murro na testa de ambos. — Agora não
comam isso tudo de uma vez. — E eles nunca mais viram Arthur Berg.
Quanto a mim, posso dizer-lhes que o vi indiscutivelmente.

UM PEQUENO TRIBUTO A ARTHUR BERG, UM HOMEM NATUREZA-MORTA


O céu de Colónia estava amarelo e apodrecido,
esboroando-se nas pontas.
Ele sentava-se encostado a uma parede com uma criança
nos braços. A irmã.
Quando ela cessou de respirar, ele permaneceu com ela,
e senti que a abraçaria durante horas.
No seu bolso havia duas maçãs roubadas.

144

Dessa vez, eles foram espertos. Comeram cada um uma castanha, e venderam o resto porta a poi ca.
— Se tem alguns pfennig de que possa dispor — dizia Liesel em cada casa —, eu tenho castanhas.
— Acabaram com dezasseis moedas.
— Agora — sorriso matreiro de Rudy —, vingança.

Nessa mesma tarde, voltaram à loja de Frau Diller, soltaram o seu «beil Hitler», e esperaram.
— Mistura de rebuçados outra vez? — Scbmunzelou ela, ao que eles acenaram afirmativamente. O
dinheiro espalhou-se em cima do balcão e o sorriso de Frau Diller alargou-se francamente.
— Sim, Frau Diller — disseram eles em uníssono. — Mistura de rebuçados, se faz favor.
O Führer emoldurado parecia orgulhoso deles. Triunfo antes da tempestade.

145

O LUTADOR, CONCLUSÃO
O malabarismo chega agora ao fim, mas a luta não. Tenho Liesel Meminger numa das mãos, Max
Vandenburg na outra. Em breve baterei as palmas. Dêem-me só mais algumas páginas.

O lutador:
Se eles o matassem esta noite, pelo menos morria vivo.
A viagem de comboio já ficara longe, com a mulher que ressonava provavelmente aconchegada na
carruagem em que improvisara a sua cama, prosseguindo o seu percurso. Agora havia apenas
passos entre Max e a sobrevivência. Passos e pensamentos, e dúvidas.

Seguiu o mapa que tinha na cabeça, de Pasing até Molching. Era tarde quando avistou a cidade. As
pernas doíam-lhe horrivelmente, mas estava quase lá — no sítio mais perigoso em que podia estar.
Suficientemente perto para lhe tocar.
Tal como descrito, encontrou a Rua de Munique e avançou pelo passeio.
Tudo se empertigou.

Focos brilhantes de candeeiros de rua.


Edifícios negros, passivos.
A câmara municipal erguia-se como um gigantesco jovem de punhos grossos, demasiado forte para
a sua idade. A igreja desaparecia na escuridão à medida que os seus olhos avançavam.
Todos o observavam.
Estremeceu.
Avisou-se a si próprio. — Olhos bem abertos.
(As crianças alemãs estavam de atalaia a moedas perdidas. Os judeus alemães vigiavam uma
possível captura.)

146

Mantendo o uso do treze para dar sorte, foi contando os passos em grupos desse número. Apenas
trezes passos, dizia a si mesmo. Anda lá, apenas mais treze. Como estimativa, completou noventa
passos, até que finalmente se encontrou à esquina da Rua Himmel.
Numa das mãos, segurava a mala.
A outra continuava a segurar Mein Kampf.
Eram ambos pesados, e eram ambos manuseados com uma leve secreção de suor.
Agora virou para a rua lateral, dirigindo-se ao número trinta e três, resistindo à vontade de sorrir,
resistindo à vontade de soluçar ou de imaginar sequer a segurança que podia estar à sua espera.
Lembrou a si mesmo que não era altura para ter esperança. É certo que quase podia tocar-lhe. Podia
senti-la, algures quase ao seu alcance. Em vez de a admitir, dedicou-se a decidir mais uma vez o
que fazer se fosse apanhado no último instante ou se por acaso estivesse a pessoa errada a aguardá-
lo lá dentro.
E claro, havia igualmente o incómodo sentimento de pecado.
Como podia ele fazer isto?
Como podia aparecer e pedir às pessoas que arriscassem a vida por ele? Como podia ser tão
egoísta?

Trinta e três.
Fitaram-se.

A casa era descorada, quase de ar doentio, com um portão de ferro e uma porta castanha manchada
de cuspo.
Tirou a chave do bolso. Ela não faiscou, antes quedou parda e lassa na sua mão. Durante um
instante, ele apertou-a, quase à espera de que ela lhe escorresse em direcção ao pulso. Não. O metal
era rijo e chato, com um saudável conjunto de dentes, e ele apertou-a até ela o magoar.
Então, lentamente, o lutador inclinou-se para a frente, a face contra a madeira, e retirou a chave do
punho cerrado.

147

PARTE QUATRO
o homem debruçado
apresentando:
o acordeonista — um cumpridor de promessas — uma boa rapariga — um pugilista judeu — a ira
de rosa — um sermão — um homem adormecido — a permuta de pesadelos — e algumas páginas
da cave

O ACORDEONISTA
(A Vida Secreta de Hans Hubermann)

Estava um jovem de pé na cozinha. A chave que empunhava parecia ir enferrujar-se-lhe na palma


da mão. Não disse nada do género de olá, ou por favor ajude-me, ou qualquer outra frase previsível.
Fez duas perguntas.

PERGUNTA UM
Hans Hubermann?

PERGUNTA DOIS
Ainda toca acordeão?

Enquanto ele fitava, constrangido, a forma humana à sua frente, a voz do jovem foi arrastada para
fora e entregue através das trevas como se fosse tudo o que restava dele.
O papá, alerta e aterrado, aproximou-se.
E sussurrou para a cozinha: — Claro que sim.
Tudo aquilo vinha de há muitos anos atrás, da Primeira Grande Guerra.

São estranhas, essas guerras.


Cheias de sangue e violência, mas também de histórias igualmente difíceis de conceber. «E
verdade», murmuram as pessoas. «Não me interessa que não acredites. Foi aquela raposa que me
salvou a vida», ou «Morreram todos à minha volta, e eu fiquei ali de pé, o único sem uma bala
entre os olhos. Porquê eu? Porquê eu e não eles?»
A história de Hans Hubermann era um bocado assim. Quando a encontrei nas palavras da rapariga
que roubava livros, apercebi-me de que nos havíamos cruzado ocasionalmente durante esse
período, embora nenhum de nós tivesse marcado encontro.

151

Pessoalmente, andava com imenso trabalho. Quanto a Hans, penso que andaria a esforçar-se por me
evitar.
A primeira vez que nos encontrámos perto um do outro, Hans tinha vinte e dois anos e combatia em
França. A maioria dos homens do seu pelotão mostrava-se ansiosa por combater. Hans não se sentia
assim tão certo. Eu levara alguns deles pelo caminho, mas pode dizer-se que nunca estive sequer
perto de tocar Hans Hubermann. Ou ele tinha muita sorte, ou merecia viver, ou havia uma boa
razão para ele viver.
No exército, ele não se distinguia em nenhum dos extremos. Corria medianamente, trepava
medianamente, e tinha a pontaria suficiente para não afrontar os seus superiores. E tão-pouco se
destacava o suficiente para ser um dos primeiros escolhidos para correr direito a mim.

UMA PEQUENA NOTA RELEVANTE


Tenho visto ao longo dos anos tantos jovens
que pensam estar a correr para outros jovens.
Não estão.
Estão a correr para mim.

Hans andava a combater há quase seis meses quando foi parar a França, onde, à primeira vista, um
estranho acontecimento lhe salvou a vida. Outra perspectiva sugeriria que, no meio do absurdo da
guerra, aquilo fez todo o sentido.

Em geral, o tempo passado na Grande Guerra assombrara-o desde o instante em que entrara para o
exército. Era como um folhetim. Dia após dia após dia. Após dia:
A conversa das balas.
Homens a descansar.
As melhores piadas porcas do mundo.
Suor frio — esse pequeno amigo perverso — a abusar da hospitalidade nas axilas e nas calças.

O que ele mais apreciava eram os jogos de cartas, seguidos dos raros jogos de xadrez, apesar de ser
pateticamente fraco nisso. E a música. Sempre a música.
Foi um homem um ano mais velho do que ele — um judeu alemão chamado Erik Vandenburg —
que lhe ensinou a tocar acordeão. Foram--se tornando amigos devido ao facto de nenhum deles
estar extremamente interessado em combater.

152

Preferiam enrolar cigarros a rolar na neve e na lama. Preferiam o som do acordeão ao som das
balas. Uma firme amizade foi cimentada com jogos, tabaco e música, para não falar de um desejo
partilhado de sobrevivência. O único problema foi que Erik Vandenburg viria posteriormente a ser
encontrado em diversos pedaços numa colina verdejante. Tinha os olhos abertos e a aliança fora--
lhe roubada. Removi a sua alma às pazadas junto com as dos outros e afastámo-nos. O horizonte
estava cor de leite. Frio e puro. Derramado por entre os corpos.
Tudo o que de facto restou de Erik Vandenburg foram alguns objectos pessoais e o acordeão com as
marcas dos seus dedos. Todas as coisas foram enviadas para casa, exceptuando o instrumento. Esse
foi considerado demasiado grande. Repousava quase com ar de auto-censura na sua cama de
campanha no acampamento e foi entregue ao seu amigo, Hans Hubermann, que, por casualidade,
fora o único homem a sobreviver.

ELE SOBREVIVEU ASSIM


Não entrou em combate nesse dia.
Tinha de agradecer a Erik Vandenburg por isso. Ou, mais exactamente, a Erik Vandenburg e à
escova de dentes do sargento.
Nessa manhã específica, pouco antes de eles saírem, o sargento Stephan Schneider entrou na
camarata e deu voz de sentido. Era popular entre os homens devido ao seu sentido de humor e
partidas, mas sobretudo pelo facto de nunca seguir ninguém para debaixo de fogo. Ia sempre à
frente.
Em certos dias, gostava de entrar na sala onde os homens descansavam e dizer algo do género,
«Quem daqui é de Pasing?» ou, «Quem é forte a matemática?» ou, no caso decisivo de Hans
Hubermann, «Quem tem uma letra bonita?»
Nunca havia voluntários, pelo menos depois da primeira vez que ele fizera aquilo. Nesse dia, um
jovem soldado alvoroçado levantou-se orgulhoso e disse: «Sim, meu sargento, eu sou de Pasing.» E
recebeu prontamente uma escova de dentes com ordens para ir limpar as latrinas.
Quando o sargento perguntou quem tinha melhor letra, podem decerto compreender a razão pela
qual ninguém se mostrou ansioso por avançar. Pensaram que poderiam ter de sujeitar-se a uma
inspecção de higiene completa ou de escovar as botas sujas de merda de algum excêntrico tenente
antes de saírem.

153

— Vá, andem lá — Schneider gozava com eles. Acamado com óleo, o seu cabelo brilhava, embora
uma pequena parte se mantivesse sempre em pé e vigilante no topo da cabeça. — Pelo menos um
de vocês, seus sacanas inúteis, deve saber escrever correctamente.

Ouviam-se canhões ao longe. O que desencadeou uma reacção.


— Olhem — afirmou Schneider —, isto não é como das outras vezes. Vai levar a manhã inteira,
talvez até mais. — Não conseguiu evitar um sorriso. — O Schlink andou a puxar o lustro àquela
latrina enquanto vocês jogavam às cartas, mas, desta vez, vocês vão para além.
A vida ou o orgulho.
Era evidente que ele esperava que um dos seus homens tivesse a inteligência de escolher a vida.
Erik Vandenburg e Hans Hubermann entreolharam-se. Se alguém desse agora um passo em frente,
o pelotão far-lhe-ia a vida num inferno durante o resto do tempo que passassem juntos. Ninguém
gosta de um cobarde. Por outro lado, se alguém fosse nomeado...

Continuava a não ter avançado ninguém, mas uma voz inclinou-se e encaminhou-se a furta-passo
para o sargento. Parou-lhe aos pés, à espera de um bom pontapé. E disse: «O Hubermann, meu
sargento.» A voz pertencia a Erik Vandenburg. Obviamente, ele achava que esse não era o dia certo
para o seu amigo morrer.
O sargento percorreu rapidamente a fila de soldados.
— Quem disse isso?
Era excelente naquilo, o Stephan Schneider, um homem baixo que falava, se movia e agia com
pressa. Enquanto ele dava largas passadas entre as duas filas, Hans meditava, aguardando as
novidades. Talvez uma das enfermeiras estivesse doente e precisassem de alguém para retirar e
substituir as ligaduras nos membros infectados de soldados feridos. Talvez houvesse uns mil
sobrescritos para lamber, selar e enviar para casa com notícias de mortes lá dentro.
Nesse instante, a voz avançou de novo, incitando mais algumas a fazerem ouvir-se. — Hubermann
— ecoaram elas. Erik acrescentou até: — Uma letra imaculada, meu sargento, imaculada.
— Então está resolvido. — Houve um leve sorriso circular. — Hubermann. Vais tu.
O jovem soldado desengonçado avançou e indagou qual ia ser a sua tarefa.

154
O sargento suspirou. — O capitão precisa que lhe escrevam algumas dúzias de cartas. Está com um
reumatismo terrível nos dedos. Ou artrite. Vais escrevê-las por ele.
Não era altura para discutir, principalmente quando Schlink fora mandado limpar as latrinas e o
outro, Pflegger, quase se matara a lamber sobrescritos. Tinha a língua de um azul inflamado.
— Sim, meu sargento. — Hans acenou e aquilo acabou ali. As suas capacidades de escrita eram, no
mínimo, dúbias, mas ele considerou-se afortunado. Escreveu as cartas o melhor que pôde enquanto
o resto dos homens ia combater.
Nenhum deles voltou.

Essa foi a primeira vez que Hans Hubermann me escapou. A Grande Guerra.
Uma segunda escapadela estava ainda para vir, em 1943, em Essen.
Duas guerras para duas escapadelas.
Uma em jovem, outra na meia-idade.
Não há muitos homens suficientemente afortunados para me iludirem duas vezes.

Transportou consigo o acordeão durante toda a guerra.


Após o seu regresso, procurou a família de Erik Vandenburg em Stuttgart, e a mulher de
Vandenburg disse-lhe que podia ficar com o instrumento. O apartamento encontrava-se atulhado
deles, e transtornava-a demasiado olhar para aquele em especial. Os outros já eram recordação
suficiente, assim como a profissão que em tempos haviam partilhado a dar aulas com eles.
— Ele ensinou-me a tocar — informou-a Hans, como se isso a pudesse ajudar.
Talvez tivesse ajudado, pois a desolada mulher pedira-lhe se podia tocar para ela, e chorara
silenciosamente enquanto ele carregava nos botões e nas teclas de uma tosca «Valsa do Danúbio
Azul». Era a peça preferida do marido.
— Sabe — explicou-lhe Hans —, ele salvou-me a vida. — A luz era fraca na sala, e o ar carregado.
— Ele... se a senhora alguma vez precisar de alguma coisa. — Fez deslizar pela mesa um pedaço de
papel com o seu nome e morada. — Eu sou pintor de profissão. Pinto-lhe o seu apartamento de
graça, quando quiser. — Sabia que era uma compensação fútil, mas ofereceu na mesma.
A mulher pegou no papel, e pouco depois apareceu uma criança que se lhe sentou ao colo.

155

— Este é o Max — disse a mulher, mas o rapaz era demasiado pequeno e demasiado tímido para
dizer o que quer que fosse. Era escanzelado, com cabelo macio, e os olhos densos e opacos
observavam o estranho enquanto ele tocava mais uma canção na sala abafada. Cara a cara, o garoto
observava o homem a tocar e a mulher a chorar. As diferentes notas percorriam-lhe os olhos. Tanta
tristeza.
Hans partiu.
— Nunca me contaste — disse ele para um Erik Vandenburg morto e a linha do horizonte de
Stuttgart. — Nunca me contaste que tinhas um filho.
Após uma paragem momentânea e um abanar de cabeça, Hans regressou a Munique, esperando
nunca mais voltar a ouvir falar daquela gente. O que ele não sabia era que a sua ajuda ia ser
definitivamente necessária, mas não para pinturas, e não antes de uns cerca de vinte anos.
Passaram-se algumas semanas antes de Hans começar a pintar. Nos meses de bom tempo,
trabalhava vigorosamente, e mesmo no Inverno, dizia com frequência a Rosa que o negócio podia
não estar a entrar em torrentes, mas pelo menos sempre ia pingando de vez em quando.
Durante mais de uma década, tudo correu bem.
Nasceram Hans Junior e Trudy. Cresceram a ir visitar o papá ao trabalho, a atirar tinta às paredes e
a limpar pincéis.
No entanto, quando Hitler subiu ao poder em 1933, o negócio das pinturas passou a andar um
bocado mal. Hans não se filiou no NSDAP como a maioria das pessoas. Ponderou longamente a sua
decisão.

O PROCESSO DE PONDERAÇÃO DE HANS HUBERMANN


Ele não era culto nem político,
mas era pelo menos um homem que apreciava
a justiça. Em tempos, um judeu salvara-lhe a vida,
e ele não podia esquecer isso. Não podia filiar-se
num partido que antagonizava as pessoas daquela
maneira. Além disso, tal como acontecia com Alex
Steiner, alguns dos seus mais fiéis clientes eram judeus.
À semelhança do que muitos judeus acreditavam,
ele achava que o ódio não podia durar, e não seguir
Hitler foi uma decisão consciente. A muitos níveis,
foi uma decisão desastrosa

156

Quando a perseguição começou, o seu trabalho foi lentamente secando. A princípio não foi muito
mau, mas em breve começava a perder clientes. Mãos cheias de citações pareciam desvanecer-se no
ascendente ar nazi.
Encontrando-se na Rua de Munique, um dos velhos fiéis chamado Herbert Bollinger, um homem
com uma cintura hemisférica que falava Hochdeutsch (Nota) (era de Hamburgo), abordou-o. A
princípio, o homem baixou os olhos para lá da sua rotundidade, e pousou-os no chão, mas ao fitar
de novo o pintor via-se que a pergunta o deixara nitidamente constrangido. Não havia razão para
Hans perguntar, e no entanto ele fazia-o.
— O que se passa, Herbert? Estou a perder clientes mais depressa do que consigo contar.
Bollinger não se esquivou mais. Endireitou os ombros e apresentou o facto como uma pergunta sua.
— Bem, Hans. Es membro?
— De quê?
Mas Hans Hubermann sabia exactamente ao que o outro se referia.
— Anda lá, Hansi — insistiu Bollinger. — Não me obrigues a soletrar.
O pintor alto fez um gesto de despedida e prosseguiu o seu caminho.

À medida que os anos passavam, os judeus eram aterrorizados aleatoriamente por todo o país, e na
Primavera de 1937, quase para sua vergonha, Hans Hubermann submeteu-se finalmente. Fez
algumas indagações e solicitou a filiação no Partido.
Após ter entregado o seu formulário na sede nazi da Rua de Munique, viu quatro homens a atirarem
vários tijolos a uma loja de roupas chamada Kleinmanns. Era uma das poucas lojas judias ainda a
funcionar em Molching. No interior, um homem baixinho gaguejava, esmagando o vidro partido
debaixo dos pés enquanto varria. Uma estrela cor de mostarda fora lambuzada na porta. Em letras
toscas, as palavras ESCÓRIA JUDIA escorriam nas pontas. O movimento lá dentro passou de
apressado a moroso, e depois cessou por completo.
Hans aproximou-se mais e enfiou a cabeça na porta. — Precisa de ajuda?
O Sr. Kleinmann ergueu os olhos. Tinha uma vassoura inútil colada à mão. — Não, Hans. Por
favor. Vá-se embora. — Hans pintara a casa de Joel Kleinmann no ano anterior. Recordava-se dos
seus três filhos. Estava a ver-lhes as caras, mas não se lembrava dos nomes.
Nota - Alemão académico. (NT)
157

— Venho cá amanhã — disse ele — e pinto-lhe a porta de novo. E assim fez.


Foi o segundo de dois erros.

O primeiro ocorreu imediatamente após o incidente.


Voltou ao local de onde viera e bateu com o punho na porta e depois na janela do NSDAP. O vidro
estremeceu mas ninguém respondeu. Já todos haviam ido para casa. Um último membro avançava
na direcção oposta. Ao ouvir o tilintar do vidro, reparou no pintor.
Voltou atrás e perguntou o que havia.
— Já não posso filiar-me — declarou Hans. O homem ficou chocado. — Por que não?
Hans olhou para os nós dos dedos da sua mão direita e engoliu em seco. Sentia já o sabor do erro,
como uma tablete de metal dentro da boca. — Esqueça. — Deu meia-volta e dirigiu-se para casa.
Foi seguido por palavras.
— Pense bem nisso, Herr Hubermann. E diga-nos o que decidiu. Ele não lhes respondeu.

Na manhã seguinte, conforme prometera, levantou-se mais cedo do que o habitual, mas não
suficientemente cedo. A porta de Roupas Kleinmann ainda estava húmida de cacimba. Hans secou-
a. Conseguiu arranjar uma cor o mais parecida possível e aplicou-lhe uma forte camada.
Inofensivamente, passou por ele um homem.
— Heil Hitler — disse ele.
— Heil Hitler — respondeu Hans.

TRÊS FACTOS MENORES MAS IMPORTANTES


1. O homem que passou era Rolf Fischer, um
dos maiores nazis de Molching.
2. No espaço de dezasseis horas a porta foi
de novo esborratada com tinta.
3. O pedido de filiação de Hans Hubermann
no Partido Nazi não foi aceite.
Pelo menos, para já.

Durante o ano que se seguiu, Hans teve a sorte de não ter cancelado oficialmente o seu pedido de
filiação. Enquanto muitas pessoas eram imediatamente aprovadas, ele foi acrescentado a i ma lista
de espera, e olhado com desconfiança.

158

Lá para finais de 1938, quando os judeus foram erradicados completamente após a Kristallnacht
(Nota), a Gestapo fez-lhe uma visita. Revistaram a casa, e como não foi encontrado nada nem
ninguém suspeito, Hans Hubermann foi um dos afortunados:
Deixaram-no ficar.
O que provavelmente o salvou foi o facto de as pessoas saberem que ele estava pelo menos à espera
de que o seu pedido de afiliação fosse aprovado. Por essa razão, era tolerado, embora não
sancionado como o pintor competente que era.
Depois houve o seu outro salvador.
Foi o acordeão que muito provavelmente o livrou de um ostracismo total. Pintores havia-os, vindos
de Munique inteira, mas sob a curta tutela de Erik Vandenburg, e após quase duas décadas de
prática constante, não havia ninguém em Molching que soubesse tocar como ele. Era um estilo não
de perfeição, mas de cordialidade. Até os enganos soavam bem.
Ele «heil Hitlerava» sempre que tal era exigido e arvorava a bandeira nos dias certos. Não havia
problemas visíveis.
Então, a 16 de Junho de 1939 (a data agora estava como que cimentada), pouco mais de seis meses
após a chegada de Liesel Meminger à Rua Himmel, deu-se um acontecimento que alterou a vida de
Hans Hubermann de forma irreversível.
Foi um dia em que ele teve trabalho.
Saiu de casa às sete em ponto da manhã.
Arrastava o seu carrinho das pinturas atrás de si, desconhecendo o facto de estar a ser seguido.
Ao chegar ao local do trabalho, um jovem estranho aproximou-se dele. Era alto e louro, e de
aspecto grave.
O par observou-se mutuamente.
— O senhor é Hans Hubermann?
Hans fez um pequeno aceno afirmativo. Procurava um pincel. — Sou.
— Por acaso, toca acordeão?
Dessa vez, Hans deteve-se, deixando o pincel onde estava. Voltou a acenar.
O estranho esfregou o queixo, olhou em volta, e depois falou muito baixo mas com grande clareza.
— O senhor é homem que goste de cumprir uma promessa?

Nota - Noite de 9-10 de Novembro de 1938, em que se deu um movimento concertado na


Alemanha e na Áustria contra os judeus e suas propriedades, que marcou a escalada de perseguição
aos judeus no Terceiro Reich. O nome refere-se aos vidros partidos das montras das lojas
destruídas. (NT)

159

Hans tirou duas latas de tinta e convidou-o a sentar-se. Antes de aceitar o convite, o jovem estendeu
a mão e apresentou-se. — Chamo-me Kugler. Walter. Venho de Stuttgart.
Sentaram-se e falaram baixinho durante cerca de um quarto de hora, combinando um encontro para
mais tarde, à noite.

160

UMA BOA RAPARIGA


Em Novembro de 1940, quando Max Vandenburg chegou à cozinha do 33 da Rua Himmel, tinha
vinte e quatro anos. Parecia vergado ao peso da roupa e o cansaço era tanto que um prurido poderia
parti-lo em dois. Parara na ombreira da porta, trémulo e abalado.
— O senhor ainda toca acordeão?
Claro que a pergunta era realmente: — O senhor ainda me ajudará?
O papá de Liesel dirigiu-se à porta da entrada e abriu-a. Cautelosamente, olhou para fora, dos dois
lados, e voltou. O veredicto foi «nada».
Max Vandenburg, o judeu, fechou os olhos e descaiu um pouco mais para a segurança. A ideia em
si era absurda, mas mesmo assim ele aceitou-a.
Hans verificou se as cortinas estavam devidamente corridas. Nem uma fenda podia ver-se.
Enquanto isso, Max não conseguiu aguentar mais. Agachou-se e apertou as mãos.
A escuridão afagou-o.
Os seus dedos cheiravam a mala, metal, Mein Kampf e sobrevivência.
Só ao levantar a cabeça é que a luz ténue do vestíbulo lhe chegou aos olhos. Reparou na rapariga de
pijama, ali de pé, bem à vista.
— Papá?
Max ergueu-se, como um fósforo riscado. A escuridão aumentava agora à sua volta.
— Está tudo bem, Liesel — disse o papá. — Volta para a cama. Ela atardou-se um momento antes
de os seus pés se arrastarem
atrás dela. Parando para lançar um último relance ao forasteiro na cozinha, conseguiu distinguir os
contornos de um livro em cima da mesa.

161

— Não tenhas medo — ouviu o papá sussurrar. — Ela é uma boa rapariga.
Durante a hora que se seguiu, a boa rapariga manteve-se acordada na cama, ouvindo as frases
hesitantes murmuradas na cozinha.
Faltava ainda jogar uma carta desconhecida.

162

UMA BREVE HISTÓRIA DO PUGILISTA JUDEU

Max Vandenburg nasceu em 1916. Cresceu em Stuttgart.


Quando era mais novo, aprendeu a gostar acima de tudo de uma boa luta a murro.

Disputou o seu primeiro assalto aos onze anos; era magro como um pau de vassoura.
Wenzel Gruber.
Foi com quem ele lutou.
Tinha muitas farroncas, aquele miúdo Gruber, e cabelo rijo e encaracolado. A malta local exigiu
que eles lutassem, e nenhum dos rapazes ia discutir.
Lutaram como campeões.
Durante um minuto.
Quando aquilo começava a ficar interessante, os dois rapazes foram afastados pelos colarinhos. Um
pai atento.
Da boca de Max pingava um fio de sangue.
Ele provou, e soube-lhe bem.

Não havia muitos lutadores entre a gente oriunda do seu bairro, e se os havia, não lutavam com os
punhos. Naquele tempo, dizia-se que os judeus preferiam aguentar as coisas. Aguentar os abusos
em silêncio e depois voltar a abrir caminho até ao topo. Obviamente, os judeus não são todos
iguais.

Max tinha quase dois anos quando o pai morreu, desfeito em pedaços numa colina verdejante.
Aos nove anos, a mãe encontrava-se completamente falida. Vendeu o estúdio de música que lhes
servia igualmente de habitação e mudaram-se para casa do tio.

163

Aí, cresceu com seis primos que o esmurravam, chateavam e adoravam. As lutas com o mais velho,
Isaac, foram o treino para a sua primeira luta com os punhos. Era triturado quase todas as noites.

Aos treze, a tragédia voltou a bater-lhe à porta com a morte do tio.


Tal como as percentagens indicam, o tio não era um exaltado como Max. Era o género de pessoa
que ia fazendo o seu trabalho sossegadamente a troco de baixa recompensa. Era introvertido e
sacrificava tudo pela família — e morreu devido a uma coisa que lhe estava a crescer no estômago.
Uma coisa semelhante a uma bola de bowling venenosa.
Como acontece frequentemente, a família rodeou o leito e assistiu à sua capitulação.
Algures, entre a tristeza e a perda, Max Vandenburg, que era então um adolescente susceptível, de
mãos duras e olhos frequentemente negros, ficou também um pouco desapontado. Irritado mesmo.
Vendo o tio afundar-se lentamente na cama, decidiu que nunca se permitiria morrer assim.
A cara do homem espelhava tanta aceitação.
Tão amarela e tranquila, apesar da violenta arquitectura do seu crânio: a infindável linha do queixo,
que se estendia por quilómetros; as maçãs do rosto salientes; e os olhos encovados. Tão calmo que
levou o rapaz a desejar perguntar uma coisa.

Onde está a luta?, interrogou-se ele.


Onde está a vontade de resistir?
E claro, com treze anos, a sua severidade foi um pouco excessiva. Não tinha enfrentado algo como
eu. Ainda não.
Junto com os outros, manteve-se em volta da cama e assistiu à morte do homem: uma fusão segura,
da vida para a morte. A luz na janela era cinzenta e laranja, a cor da pele do Verão, e o tio pareceu
aliviado ao deixar de respirar por completo.
— Quando a morte me capturar — prometeu o rapaz — vai sentir o meu punho na cara.
Pessoalmente, isso agrada-me. Um heroísmo tão estúpido.
Sim.
Agrada-me muito.

A partir desse instante, ele começou a lutar com maior regularidade. Um grupo de amigos e
inimigos intransigentes reunia-se num local reservado na Rua Steber, e lutavam enquanto escurecia.

164

Alemães típicos, o judeu acidental, os rapazes de leste. Não interessava. Não havia nada como uma
boa luta para expelir a energia da adolescência. Até os inimigos se achavam a centímetros da
amizade.

Ele gostava dos círculos apertados e do desconhecido.


A agridoçura da incerteza:
Ganhar ou perder.
Era uma sensação no estômago que se agitava até ele pensar que a não conseguia tolerar mais. O
único remédio era avançar e atirar socos. Max não era o género de rapaz para morrer a pensar nisso.

A sua luta preferida, agora que olhava para trás, fora a Luta Número Cinco contra um rapaz alto,
esguio e duro, chamado Walter Kugler. Tinham quinze anos. Walter ganhara os quatro combates
anteriores, mas dessa vez Max sentia algo diferente. Havia nele sangue novo — o sangue da vitória
— que possuía a capacidade de simultaneamente o assustar e excitar.
Como de costume, havia em redor deles um círculo de gente comprimida. Havia solo imundo.
Havia sorrisos praticamente estampados nas caras dos espectadores. O dinheiro era apertado em
dedos sujos, e os incitamentos e os gritos possuíam uma tal vitalidade que não havia mais nada
senão aquilo.
Céus, havia ali tanta alegria e medo, uma agitação tão brilhante. Os dois lutadores contraíam-se
com a intensidade do momento, as caras carregadas de expressão, exagerada com o stress de tudo
aquilo. A concentração profunda.
Após cerca de um minuto a testarem-se um ao outro, começaram a aproximar-se e a arriscar mais.
Afinal de contas, era uma luta de rua, não um combate de uma hora pelo título. Não tinham o dia
todo.
— Anda, Max! — gritava um dos seus amigos. Não respirava entre as palavras. — Anda, Maxi
Táxi, agora já o arrumaste, já o arrumaste, judeu, já o arrumaste, já o arrumaste!
Pequeno, com tufos de cabelo macio, um nariz achatado, e olhos nublados, Max era uma boa
cabeça mais baixo do que o seu oponente. O seu estilo de luta era totalmente deselegante, todo
dobrado, inclinado para diante, atirando rápidos socos à cara de Kugler. O outro rapaz, nitidamente
mais forte e mais habilidoso, mantinha-se direito, desferindo murros que aterravam constantemente
nas faces e no queixo de Max.
Max continuava a atacar.

165

Com a pesada absorção de socos e pancada, ele continuava a avançar. O sangue desbotava-lhe os
lábios. Não tardaria a secar-lhe nos dentes.
Houve um rugido enorme quando ele foi derrubado. O dinheiro chegou quase a trocar de mãos.
Max levantou-se.
Foi derrubado mais uma vez antes de mudar de táctica, atraindo Walter Kugler para um pouco mais
perto do que ele pretendera ir. Uma vez aí, Max conseguiu aplicar-lhe um soco curto e forte na cara.
Encaixou. Exactamente no nariz.
Kugler, subitamente cego, recuou, e Max agarrou a oportunidade. Seguiu-o até à direita e
esmurrou-o de novo, levando-o a abrir a guarda com um murro que o apanhou nas costelas. A
direita que acabou com ele aterrou-lhe no queixo. Walter Kugler estava no chão, o cabelo louro
salpicado de pó, as pernas abertas num V. Lágrimas como cristal deslizavam-lhe na pele, apesar de
ele não estar a chorar. As lágrimas tinham sido atiradas cá para fora pelos socos.

O círculo contava.
Contavam sempre, à cautela. Vozes e números.
O hábito após uma luta era o vencido levantar a mão do vencedor. Quando Kugler se ergueu
finalmente, dirigiu-se para Max Vandenburg com ar carrancudo e pôs-lhe o braço no ar.
— Obrigado — disse Max.
Kugler proferiu um aviso. — Para a próxima mato-te.

Ao todo, durante os anos que se seguiram, Max Vandenburg e Walter Kugler lutaram treze vezes.
Walter continuava à procura de vingança dessa primeira vitória de Max sobre si, e Max tentava
igualar o seu momento de glória. No fim, a contagem ficou em 10-3 a favor de Walter.
Lutaram um contra o outro até 1933, tinham ambos dezassete anos. O respeito relutante
transformou-se em amizade genuína, e a ânsia de lutar abandonou-os. Ambos tinham empregos até
Max ser despedido com o resto dos judeus da Jedermann Engineering Factory, em 1935. Foi pouco
depois da saída das Leis de Nuremberga, que proibiam os judeus de possuir cidadania alemã e os
casamentos entre alemães e judeus.
— Céus — exclamou Walter uma tarde em que se encontraram no sítio onde costumavam lutar. —
Aquilo é que eram tempos, não eram? Não havia esta loucura que nos rodeia. Nunca poderíamos
lutar assim agora.

166
Max discordou. — Podíamos, sim. Não podes casar com um judeu, mas não há lei que te proíba de
lutar com um.
Walter sorriu. — Provavelmente há é uma lei que recompensa... desde que se ganhe.
Ao longo dos anos seguintes viram-se esporadicamente. Max, tal como os outros judeus, era
consecutivamente rejeitado e repetidamente espezinhado, enquanto Walter desaparecera no interior
do seu trabalho. Uma impressora.
Se forem do género a quem isso interessa, sim, houve raparigas durante esses anos. Uma chamada
Tânia, outra Heidi. Nenhuma durou muito. Não havia tempo, provavelmente devido à incerteza e à
pressão crescente. Max teve de varrer ruas para trabalhar. O que podia ele oferecer a essas
raparigas? Em 1938 era difícil imaginar que a vida podia tornar-se ainda mais difícil.
Então chegou o 9 de Novembro. Kristallnacht. A noite de cristal.
Foi o incidente que destruiu tantos dos seus camaradas judeus, mas tornou-se o momento de fuga
para Max Vandenburg. Tinha vinte e dois anos.

Muitos estabelecimentos judeus estavam a ser metodicamente destruídos e saqueados quando se


ouviram nós de dedos a bater à porta do apartamento. Max encontrava-se na sala, comprimido
contra a tia, a mãe, os primos e os filhos deles.
— Aufmachen!
A família entreolhou-se. Houve uma tentação enorme de se espalharem pelas outras divisões, mas a
apreensão é uma coisa muito estranha. Não conseguiram mover-se.
De novo. — Abram!
Isaac levantou-se e dirigiu-se à porta. A madeira estava viva, ainda palpitante das pancadas que lhe
haviam dado. Ele olhou para trás, para os rostos impotentes de medo, deu a volta à chave e abriu a
porta.
Tal como se esperava, era um nazi. Fardado.

— Nunca.
Foi a primeira resposta de Max.
Agarrou a mão da mãe e a de Sarah, a mais chegada das primas — Não saio daqui. Se não podemos
ir todos, eu também não vou.
Mentia.
Quando o resto da família o empurrou, o alívio debateu-se no seu íntimo como uma obscenidade.
Era algo que ele não queria sentir, mas não obstante sentiu-o com tanto prazer que lhe deu vontade
de vomitar.

167

Como era possível? Como era possível? Mas era.


— Não tragas nada — avisou Walter. — Só o que tens vestido. Eu dou-te o resto.
— Max. — Era a mãe.
De uma gaveta, tirou um velho pedaço de papel e enfiou-lho no bolso do casaco. — Se acaso... —
Segurou-o uma derradeira vez, pelos cotovelos. — Isto pode ser a tua última esperança.
Ele fitou-lhe o rosto que começava a envelhecer e beijou-a, com toda
a força, nos lábios.
— Anda. — Walter arrancou-o às despedidas do resto da família que lhe entregava dinheiro e
alguns objectos de valor. — Lá fora está o caos, e é do caos que precisamos.

Partiram, sem olhar para trás.


Isso torturava-o.
Se ao menos se tivesse virado para um último olhar à família ao sair do apartamento. Talvez assim
o remorso não tivesse sido tão pesado. Não houvera um adeus final.
Não houvera um prender de olhos final.
Nada senão a partida.
Durante os dois anos seguintes, ele permaneceu escondido numa arrecadação vazia, num edifício
em que Walter trabalhara em anos anteriores. A comida era escassa. A desconfiança muita. Os
restantes judeus das vizinhanças que tinham dinheiro estavam a emigrar. Os judeus sem dinheiro
estavam também a tentar, mas sem grande êxito. A família de Max encaixava-se nesta última
categoria. Walter ia saber deles de vez em quando, o mais discretamente possível. Uma tarde em
que os ia visitar, a porta foi aberta por outra pessoa.
Ao ouvir a notícia, Max sentiu-se como se o seu corpo estivesse a ser amarrotado e feito numa bola,
como uma página coberta de erros.
Como lixo.
E contudo, em cada novo dia, ele conseguia desdobrar-se e endireitar--se, sentindo-se asqueroso e
grato. Arrasado, mas não despedaçado.

Em meados de 1939, pouco mais de seis meses após ter ficado escondido, decidiram que era
necessário tomar medidas diferentes. Examinaram o pedaço de papel que for i entregue a Max no
dia da sua deserção. E verdade — a sua deserção, não a sua fuga.

168

Era assim que ele a encarava, no meio do grotesco do seu alívio. Nós já sabemos o que estava
escrito naquele bocado de papel:

UM NOME, UMA MORADA


Hans Hubermann
Rua Himmel, 33, Molching

— As coisas estão a piorar — disse Walter a Max. — Podem descobrir-nos em qualquer altura. —
Tinham de se curvar no escuro. — Não sabemos o que pode acontecer. Eu posso ser apanhado. Tu
podes ter de procurar esse lugar... Eu sinto demasiado receio de pedir ajuda a alguém daqui. Podiam
prender-me. — Só havia uma solução. — Eu vou até lá e procuro esse homem. Se ele virou nazi, o
que é muito provável, dou meia-volta. Pelo menos ficamos a saber, richtig?

Max deu-lhe os seus últimos pfennigs para a viagem, e alguns dias depois, quando Walter
regressou, abraçaram-se antes de ele suster a respiração. — E?
Walter acenou afirmativamente. — Ele é bom. Ainda toca o acordeão de que a tua mãe te falou, o
do teu pai. Não é membro do partido. Deu-me dinheiro. — Nesta fase, Hans Hubermann era apenas
uma lista. — E bastante pobre, é casado, e há uma garota.
Isso despertou ainda mais a atenção de Max. — De que idade?
— Dez. Não se pode ter tudo.
— Pois. Os garotos são linguarudos.
— Mesmo assim, temos muita sorte.
Sentaram-se um bocado em silêncio. Foi Max que o quebrou.
— Ele já deve odiar-me, hem?
— Não creio. Deu-me o dinheiro, não deu? Disse que uma promessa é uma promessa.
Uma semana depois chegou uma carta. Hans informava Walter Kugler de que tentaria mandar
coisas para ajudar sempre que pudesse. Incluíra um mapa de Molching e da Grande Munique, bem
como um caminho directo de Pasing (a estação de comboios mais segura) até à sua porta. Na letra
de Hans, as últimas palavras eram óbvias.
Tenham cuidado.
Em meados de Março de 1940, chegou Mein Kampfcom uma chave presa na parte de dentro da
capa.

169

O homem é um génio, pensou Max, mas continuava a sentir arrepios ao pensar na viagem para
Munique. Era evidente que, tal como as outras partes implicadas, ele desejava que a viagem não
tivesse de ser feita.
Nem sempre se obtém aquilo que se deseja. Especialmente na Alemanha nazi.

Mais uma vez, o tempo passou.


A guerra expandiu-se.
Max continuou escondido do mundo noutra sala vazia.
Até ao inevitável.
Walter foi notificado de que ia ser enviado para a Polónia, a fim de continuar a asserção da
autoridade alemã sobre tanto polacos como judeus. Uns não eram muito melhor do que os outros.
Chegara a altura.
Max dirigiu-se a Munique e depois a Molching, e agora estava sentado na cozinha de um estranho,
a pedir a ajuda por que ansiava e a sofrer a condenação que sentia merecer.
Hans Hubermann apertou-lhe a mão e apresentou-se.
Preparou-lhe café às escuras.
A rapariga já desaparecera há um bocado, mas agora aproximavam--se novos passos. A carta
desconhecida.
Na escuridão, estavam os três completamente isolados. Todos se fixaram. Apenas a mulher falou.

170

A IRA DE ROSA
Liesel já voltara a adormecer quando a inconfundível voz de Rosa Hubermann entrou na cozinha,
despertando-a de chofre.
— Was ist los?
A curiosidade foi mais forte do que ela, ao imaginar uma invectiva atirada pela ira de Rosa. Houve
movimentos explícitos e o arrastar de uma cadeira.
Após dez minutos de torturante disciplina, Liesel dirigiu-se ao corredor e o que viu espantou-a
verdadeiramente, porque Rosa Hubermann estava curvada sobre o ombro de Max Vendenburg,
observando-o a devorar a sua notória sopa de ervilhas. Havia uma vela em cima da mesa. Não
vacilava.
A mãe estava séria.
A sua figura roliça reluzia de preocupação.
No entanto, de certo modo, havia igualmente um ar de triunfo no seu rosto, e não era o triunfo de
ter salvado outro ser humano da perseguição. Era algo mais do género de «Vêem? Pelo menos ele
não se queixa.» Olhava da sopa para o judeu e outra vez para a sopa.
Ao falar novamente, perguntou apenas se ele queria mais.
Max recusou, preferindo precipitar-se para o lava-louça e vomitar. As costas convulsionavam-se e
tinha os braços estendidos. Os dedos agarraram o metal.
— Jesus, Maria e José — murmurou Rosa. — Outro. Virando-se, Max desculpou-se. As palavras
vinham escorregadias e
curtas, sufocadas pelo ácido. — Desculpe. Penso que comi demasiado. O meu estômago, percebe,
há tanto tempo que... Creio que não consigo reter tanto...
— Afasta-te — ordenou Rosa. Começou a limpar.
171
No fim, encontrou o jovem sentado à mesa da cozinha, taciturno. Hans sentara-se do lado oposto,
as mãos em concha sobre o folheado de madeira.
Liesel, da entrada, avistava a cara pálida do estranho, e por detrás a expressão preocupada
estampada no rosto mãe.
Olhou para ambos os pais de acolhimento.

Quem eram aquelas pessoas?

172

O SERMÃO DE LIESEL
Saber exactamente que tipo de pessoas eram Hans e Rosa Hubermann não era problema fácil de
resolver. Pessoas bondosas? Pessoas ridiculamente ignorantes? Pessoas de sanidade mental
discutível?
Mais fácil era definir os apuros em que se encontravam.

A SITUAÇÃO DE HANS E ROSA HUBERMANN


Muito incómoda realmente.
De facto, terrivelmente incómoda.

Quando um judeu nos aparece no local de residência às primeiras horas da madrugada, no próprio
berço do nazismo, é natural que se sinta um nível extremo de desconforto. Ansiedade,
incredulidade, paranóia. Cada uma delas tem o seu papel, e cada uma delas leva a uma
desconfiança furtiva de que as consequências que nos aguardam são tudo menos celestiais. O medo
brilha com fulgor. Fere os olhos, implacável.
A questão surpreendente aqui é que, apesar desse medo iridescente cintilar daquela forma no
escuro, eles conseguiam controlar a histeria.
A mãe mandou Liesel deitar-se.
— Bett, Saumensch. — A voz calma mas firme. Altamente invulgar.
O papá entrou alguns minutos depois e levantou os cobertores da cama vaga.
— Alies Gut, Liesel? Está tudo bem?
— Sim, papá.
— Como vês, temos uma visita. — Ela mal distinguia a silhueta alta de Hans Hubermann no
escuro. — Ele vai dormir aqui esta noite.
— Sim, papá.

173

Alguns minutos mais tarde, Max Vandenburg estava no quarto, silencioso e opaco. O homem não
respirava. Não se movia. E no entanto, fosse como fosse, deslocou-se da entrada da porta até à
cama e meteu-se debaixo dos cobertores.
— Tudo bem?
Era de novo o papá, mas desta vez dirigindo-se a Max.
A resposta saiu-lhe da boca flutuando e depois colou-se ao tecto, como uma mancha, tal era o seu
sentimento de vergonha. — Sim. Obrigado. — Disse-o outra vez, quando o papá se dirigiu à sua
habitual posição na cadeira ao lado da cama de Liesel. — Obrigado.
Passou-se outra hora até Liesel adormecer.
Dormiu profunda e longamente.
Foi acordada por uma mão pouco depois das oito e meia da manhã seguinte.
A voz na outra extremidade informou-a de que não iria nesse dia à escola. Aparentemente, estava
doente.
Ao despertar completamente, observou o estranho na cama do lado oposto. O cobertor mostrava
apenas um ninho de cabelo inclinado no topo, e não se ouvia um som, como se o jovem se tivesse
treinado até a dormir mais silenciosamente. Com toda a cautela, Liesel passou ao lado dele e seguiu
o papá para o vestíbulo.
Pela primeira vez, a cozinha e a mãe encontravam-se dormentes. Era um tipo de silêncio
desnorteado, inaugural. Para alívio de Liesel, durou apenas alguns minutos.

Havia comida e o som de pessoas a comer.


A mãe anunciou a prioridade do dia. Sentou-se à mesa e disse:
— Agora ouve, Liesel. O papá vai contar-te uma coisa hoje. — Aquilo era sério; ela nem sequer
dissera Saumensch. Era uma proeza de abstinência pessoal. — Ele vai falar contigo e tu tens de o
ouvir. Está entendido?
A rapariga engolia ainda.
— Está entendido, Saumensch? Assim era melhor.
A rapariga acenou afirmativamente.

Ao regressar ao quarto para ir buscar a roupa, o corpo na cama em frente voltara-se e enroscara-se.
Já não era um tronco direito mas uma espécie de Z, que ia de um lado ao outro em diagonal. Em
ziguezague na cama.

174

Conseguia agora ver-lhe a cara, à luz fraca. Tinha a boca aberta e a pele da cor de casca de ovo. O
queixo estava coberto de pêlos e as orelhas eram duras e achatadas. Tinha um nariz pequeno mas
acidentado.
— Liesel! Virou-se.
— Desanda!
Ela desandou, para a casa de banho.

Uma vez vestida e na entrada, percebeu que não teria de ir longe. O papá esperava diante da porta
para a cave. Sorriu muito debilmente, acendeu a luz, e desceu à frente.

Entre os montes de lençóis-de-pingos e o cheiro a tinta, o papá disse-lhe para se instalar


confortavelmente. Gravadas nas paredes, as palavras pintadas aprendidas no passado. — Preciso de
te contar uma coisa.
Leisel sentou-se em cima de um monte de lençóis com cerca de um metro de altura, o papá numa
lata de quinze litros de tinta. Durante alguns minutos, procurou as palavras. Quando elas vieram,
ele levantou-se para as proferir. Esfregou os olhos.
— Liesel — começou ele em voz baixa —, eu nunca tive a certeza de que alguma destas coisas
aconteceria, por isso nunca te falei. A meu respeito. A respeito do homem que está lá em cima. —
Andava de um extremo ao outro da cave, a luz a ampliar-lhe a sombra. Transformava--o num
gigante na parede, a andar de um lado para o outro.
Estacou, e a sua sombra ergueu-se avantajada por trás dele, a observar. Havia sempre alguém a
observar.
— Conheces o meu acordeão? — indagou ele, e aí principiou a história.
Falou-lhe da Primeira Guerra Mundial e de Erik Vandenburg, e depois da visita à mulher do
soldado caído. — O garoto que entrou na sala nesse dia é o homem que está lá em cima. Verstebst?
Percebes?
A rapariga que roubava livros permaneceu sentada a ouvir a história de Hans Hubermann. Esta
durou uma boa hora, até ao momento da verdade, que implicava um sermão muito óbvio e
necessário.
— Liesel, tens de ouvir. — O papá fê-la levantar e pegou-lhe na mão.

Viraram-se para a parede.

175

Sombras negras e o treino de palavras.

Ele segurava-lhe os dedos firmemente.


— Lembras-te do aniversário do Führer... de quando regressámos a casa nessa noite, depois da
fogueira? Lembras-te do que me prometeste?
A rapariga concordou. Para a parede, disse: — Que guardaria um segredo.
— Exactamente. — Entre as sombras de mãos dadas, as palavras pintadas disseminavam-se,
empoleiradas nos seus ombros, apoiadas nas suas cabeças, penduradas nos seus braços. — Liesel,
se falares a alguém do homem que lá está em cima, ficaremos todos em muito maus lençóis. —
Avançava na fina linha entre assustá-la levando-a ao olvido e sossegá-la o suficiente para a manter
calma. Apresentava-lhe as frases e observava-a com os seus olhos metálicos. Desespero e placidez.
— No mínimo, a mãe e eu seremos levados. — Hans sentia claramente receio de se encontrar à
beira de a assustar demasiado, mas era um risco calculado, preferindo errar por excesso do que por
defeito. A obediência da rapariga tinha de ser um facto absoluto, imutável.

Perto do fim, Hans Hubermann olhou para Liesel Meminger e certificou-se de que ela estava
concentrada. Apresentou-lhe uma lista de consequências.
— Se falares a alguém deste homem... A professora dela.
Rudy.
Não interessava quem.
O que interessava era que todos podiam ser punidos.

— Para começar — disse ele —, eu pego em todos os teus livros e queimo-os. — Era impiedoso.
— Atiro-os para o fogão ou para a lareira. — Estava indiscutivelmente a agir como um tirano, mas
era necessário. — Percebes?
O choque abriu nela um buraco, muito certo, muito preciso. Extravasaram lágrimas.
— Sim, papá.
— A seguir. — Tinha de se manter duro e precisou de fazer um esforço. — Eles vêm separar-te de
mim. Queres isso?
Ela chorava agora, francamente. — Nein.
— Bom. — Apertou-lhe a mão com mais força. — Eles levam aquele homem que lá está em cima
embora, e talvez também a mim e à mãe. E nunca, nunca mais voltamos.

176

Foi o fim.
A rapariga começou a soluçar tão incontrolavelmente que o papá morria por a puxar para si e a
abraçar com força. Mas resistiu. Agachou-se e olhou-a a direito nos olhos. E soltou as palavras
mais serenas que dissera até aí. — Verstehst du mich? Percebeste-me?
A rapariga acenou. Chorava, e agora, vencido, destroçado, o seu papá abraçou-a no ar cheirando a
tinta e à luz do querosene.
— Eu percebo, papá, palavra.
A voz soava abafada contra o corpo dele, e permaneceram assim alguns minutos, Liesel de
respiração esmagada e o papá a afagar-lhe as costas.
Voltando para cima, encontraram a mãe sentada na cozinha, só e pensativa. Ao vê-los, ergueu-se e
fez sinal a Liesel para se aproximar, reparando nas lágrimas secas que lhe sulcavam a cara. Puxou a
rapariga para si e envolveu-lhe o corpo num abraço tipicamente tosco. — Alies gut, Saumensch?
Não precisou de resposta.
Estava tudo bem.
Mas estava igualmente horrível.

177

O HOMEM ADORMECIDO
Max Vandenburg dormiu durante três dias.
Em determinados excertos desse sono, Liesel observou-o. Pode dizer-se que ao terceiro dia aquilo
se transformara numa obsessão, ir examiná-lo, ver se ele ainda respirava. Ela era agora capaz de
interpretar os seus sinais de vida, a partir do movimento dos lábios, da barba que ia despontando, e
das madeixas de cabelo que se moviam tão levemente sempre que a cabeça lhe tremia na fase de
sonho.
Frequentemente, ali de pé junto dele, ocorria-lhe o pensamento mortificante de que ele acabava de
acordar, os olhos abrindo-se para a ver — para a observar a observá-lo. A ideia de ser apanhada era,
ao mesmo tempo, perturbadora e excitante. Temia-a. Provocava-a. Só quando a mãe chamava por
ela é que conseguia despegar-se dali, simultaneamente aquietada e desapontada com a ideia de
poder não estar presente para o ver acordar.

Por vezes, perto do fim da maratona de sono, ele falara.


Era um recital de nomes murmurados. Uma lista.
Isaac. Tia Ruth. Sarah. Mãe. Walter. Hitler.
Família, amigo, inimigo.
Estavam todos com ele debaixo dos cobertores, e a certa altura ele parecera estar a debater-se
consigo próprio. «Nein», sussurrara. E repetira sete vezes. «Não.»
Liesel, ao observá-lo, reparara já nas semelhanças entre o estranho e ela própria. Ambos tinham
chegado num estado de grande agitação à Rua Himmel. Ambos tinham pesadelos.

Chegada a altura, ele acordou com o desagradável frémito da desorientação. A boca abriu-se
segundos depois dos olhos e ele sentou-se, em ângulo recto.

178

— Ai!
Um farrapo de voz escapou-se-lhe dos lábios.
Ao ver a cara de uma rapariga por cima dele, deu-se o agitado momento de estranheza e a tentativa
de compreensão, de decifrar exactamente onde e quando estava sentado nessa altura. Após alguns
segundos, conseguiu coçar a cabeça (o sussurro da acendalha) e olhou para ela. Os seus
movimentos eram fragmentados, e agora, que se encontravam abertos, os olhos eram nublados e
castanhos. Espessos e pesados.
Num gesto reflexo, Liesel recuou.
Foi demasiado lenta.
O estranho inclinou-se e a sua mão, ainda quente da cama, agarrou--lhe o braço.
— Por favor.
A voz dele agarrava-se também, como se possuísse unhas. Comprimia-se contra a carne dela.
— Papá! — Alto.
— Por favor. — Baixinho.
Era ao final da tarde, cinzenta e reluzente, mas apenas uma claridade baça estava autorizada a
entrar no quarto. Era tudo o que o tecido dos cortinados permitia. Se forem optimistas, pensem nela
como bronze.
O papá chegou e começou por deter-se à entrada da porta, testemunhando os dedos apertados e a
cara desesperada de Max Vandenburg. Ambos presos ao braço de Liesel. — Vejo que já se
conhecem — disse ele.
Os dedos de Max começavam a arrefecer.

179

A PERMUTA DE PESADELOS
Max Vandenburg prometeu que nunca mais dormiria no quarto de Liesel. Em que estava ele a
pensar na primeira noite? Só a ideia o mortificava.
Concluiu que estava tão atordoado ao chegar que permitira tal coisa. A cave era o único lugar para
ele, pelo que lhe dizia respeito. Esqueçam o frio e a solidão. Ele era um judeu, e se havia um lugar
onde estivesse destinado a existir, era uma cave ou qualquer outro oculto local de sobrevivência.
— Lamento muito — confessou ele a Hans e Rosa nos degraus da cave. — A partir de agora
ficarei aqui em baixo. Não me ouvirão. Não soltarei um som.
Hans e Rosa, ambos mergulhados no desespero da situação, não discutiram, nem sequer por causa
do frio. Carregaram cobertores lá para baixo e encheram até cima o candeeiro de querosene. Rosa
admitiu que não poderia haver muita comida, e Max pediu fervorosamente para lhe levar apenas
restos, e só quando mais ninguém os quisesse.
— Na, na — garantiu-lhe Rosa. — Vais ser alimentado, o melhor que eu puder.
Levaram igualmente para baixo o colchão da cama sobresselente do quarto de Liesel, substituindo-
o por lençóis-de-pingos — uma excelente troca.

Lá em baixo, Hans e Max colocaram o colchão por baixo dos degraus e erigiram ao lado uma
parede de lençóis-de-pingos. Os lençóis eram suficientemente altos para cobrir a totalidade da
entrada triangular, e, quanto mais não fosse, afastavam-se com facilidade se Max precisasse
desesperadamente de mais ar.
O papá desculpou-se. — É patético, eu sei.

180

— É melhor do que nada — garantiu Max. — Melhor do que eu mereço. Obrigado.


Com meia dúzia de latas de tinta bem posicionadas, Hans chegou a admitir que parecia
simplesmente tralha amontoada a esmo ao canto, fora do caminho. O único problema era que uma
pessoa precisaria apenas de afastar algumas latas e retirar um lençol ou dois para farejar o judeu.
— Esperemos que esteja suficientemente bem — disse ele.
— Tem de estar. — Max rastejou lá para dentro. E voltou a dizer. — Obrigado.
Obrigado.
Para Max Vandenburg, aquela era a palavra mais deplorável que ele podia dizer, rivalizando apenas
com Lamento. Sentia uma necessidade constante de pronunciar ambas as expressões, espicaçada
pela angústia da culpa.
Quantas vezes, durante essas primeiras horas de vigília, sentira vontade de abandonar aquela cave e
sair de casa? Deviam ter sido centenas.
Todavia, de todas elas, fora apenas uma pontada.
O que tornava tudo ainda pior.
Ele queria ir-se embora — céus, como o queria (ou pelo menos queria querer) — mas sabia que o
não faria. Assemelhava-se à maneira como deixara a sua família em Stuttgart, sob um véu de
lealdade fabricada.
Para viver.
Viver era viver.
O preço era culpa e vergonha.

Durante os primeiros dias que passou na cave, Liesel não quis nada com ele. Ela negava a sua
existência. O seu cabelo sussurrante, os seus dedos frios e escorregadios.
A sua presença torturada.

A mãe e o papá.
Havia tanta gravidade entre eles, e imensas tomadas de decisão falhadas.
Ponderaram se poderiam mudá-lo.
Mas para onde?
Sem resposta.
Naquela situação, encontravam-se sem amigos e paralisados. Não havia mais lugar nenhum para
Max Vandenburg ir.

181

Eram eles. Hans e Rosa Hubermann. Liesel nunca os vira olhar tanto um para o outro, nem com
tanta solenidade.
Foram eles que lhe levaram comida para baixo e arranjaram uma lata de tinta vazia para os
excrementos de Max. O conteúdo seria despejado por Hans o mais prudentemente possível. Rosa
levou-lhe também alguns baldes de água quente para ele se lavar. O judeu estava imundo.

Lá fora, uma montanha de frio ar de Novembro aguardava à porta de cada vez que Liesel saía de
casa. Os chuviscos caíam às pazadas. Na rua amontoavam-se folhas mortas.

Depressa chegou a vez de a rapariga que roubava livros visitar a cave. Eles obrigaram-na.
Desceu os degraus hesitante, sabendo que não eram necessárias palavras. O arrastar dos seus pés
era suficiente para o despertar.
No meio da cave, parou e esperou, sentindo-se mais como se estivesse no centro de um grande
campo sombrio. O Sol punha-se por detrás de uma plantação de lençóis-de-pingos ceifados.
Max saiu, empunhando Mein Kampf. A chegada, pretendera devolvê-lo a Hans Hubermann, mas
este dissera-lhe que podia ficar com ele.
Naturalmente, Liesel, que segurava o jantar, não conseguia tirar os olhos dele. Era um livro que vira
diversas vezes na BDM, mas que não fora lido nem usado directamente nas suas actividades. Havia
referências ocasionais à sua grandeza, bem como promessas de que a oportunidade de o estudar
chegaria em anos posteriores, quando avançassem para a divisão seguinte da Juventude Hitleriana.
Max, seguindo-lhe o olhar, examinou também o livro.
— E? — segredou ela.
Surgiu-lhe uma estranha prisão na voz, que planou e se encaracolou na sua boca.
O judeu moveu apenas a cabeça, aproximando-a um pouco. — Bitu? Desculpa?
Ela entregou-lhe a sopa de ervilhas e voltou para cima, corada, apressada, e tola.

— É um livro bom?
Treinou aquilo que quisera dizer na casa de banho, no pequeno espelho. O cheiro de urina ainda a
rodeava, pois Max acabara de usar a lata de tinta antes de ela descer. So ein Cschtank, pensou ela.
Que pivete.

182

Não há urina que cheire tão bem como a própria.

Os dias foram-se arrastando.


Todas as noites, antes de mergulhar no sono, ouvia a mãe e o papá na cozinha, a discutirem o que
fora feito, o que estavam a fazer e o que teria de acontecer a seguir. Durante todo esse tempo,
pairava junto dela uma imagem de Max. Era sempre a expressão magoada e grata do seu rosto e os
olhos nublados.
Apenas uma vez houve uma explosão na cozinha.
O papá.
— Eu sei!
A voz era abrasiva, mas ele baixou-a imediatamente para um sussurro abafado.
— No entanto tenho de continuar a ir, pelo menos algumas vezes por semana. Não posso estar
sempre aqui. Precisamos do dinheiro, e se eu deixar de tocar lá, eles ficam desconfiados. Podem
perguntar-se por que parei. Eu disse-lhes que tu estavas doente na semana passada, mas agora
temos de fazer tudo como sempre.
Aí é que estava o problema.
A vida alterara-se da maneira mais brutal, mas era imperativo que eles agissem como se nada
tivesse acontecido.
Imaginem sorrir depois de uma bofetada. Depois pensem ter de o fazer vinte e quatro horas por dia.
Era assim esconder um judeu.

A medida que os dias se iam transformando em semanas, havia agora, pelo menos, uma aceitação
penosa do que se tornara conhecido: tudo em resultado da guerra, de um cumpridor de promessas, e
de um acordeão. Além disso, no espaço de apenas pouco mais de meio ano, os Hubermann tinham
perdido um filho e ganho um substituto de proporções perigosamente épicas.
O que mais chocou Liesel foi a mudança na mãe. Quer fosse a maneira calculada como ela dividia a
comida, a forte mordaça aplicada à sua famosa boca, ou mesmo a expressão mais suave do seu
rosto engelhado, uma coisa se tornava óbvia.

UM ATRIBUTO DE ROSA HUBERMANN


Ela era uma boa mulher para uma crise.

Até quando a artrítica Helena Schmidt cancelou o serviço de lavagem e passagem a ferro, um mês
após a estreia de Max na Rua

183

Himmel, ela sentou-se simplesmente à mesa e puxou a taça para si. — Boa sopa esta noite.
A sopa estav horrível.
Todas as manhãs, quando Liesel saía para a escola, ou nos dias em que se aventurava lá por fora
para jogar futebol ou completar o que restava da volta da roupa, Rosa dirigia-se serenamente à
rapariga. — E lembra-te, Liesel... — Apontava para a boca e era tudo. Liesel acenava, e ela dizia:
— Boa rapariga, Saumensch. Agora vai.
Dando razão às palavras do papá, e agora até às da mãe, ela era uma boa rapariga. Mantinha a boca
fechada onde quer que fosse. O segredo estava enterrado bem fundo.
Percorria a cidade com Rudy, como sempre fizera, ouvindo a sua tagarelice. Às vezes comparavam
notas acerca das suas divisões da Juventude Hitleriana, e Rudy mencionara pela primeira vez um
jovem líder sádico chamado Franz Deutscher. Sempre que não estava a falar dos excessos de
Deutscher, Rudy tocava o seu habitual disco riscado, proporcionando descrições e recriações do
último golo que metera no estádio de futebol da Rua Himmel.
— Eu sei — garantia-lhe Liesel. — Eu estava lá.
— E então?
— E então vi, Saukerl.
— Como é que eu sei isso? Tanto quanto sei, estavas provavelmente esparramada no chão, a
lamber a lama que eu deixei para trás ao marcar.
Talvez fosse Rudy a conservar-lhe a sanidade mental, com a estupidez das suas conversas, o seu
cabelo cor de limão e o seu convencimento.
Ele parecia ressoar com uma espécie de confiança de que a vida continuava a ser apenas uma
brincadeira — uma sucessão interminável de golos, trapacices, e um repertório constante de
tagarelices idiotas.

Havia também a mulher do presidente da câmara, e as leituras na biblioteca do marido dela. Fazia
agora frio lá, sempre mais frio a cada visita, mas mesmo assim Liesel não conseguia manter-se
afastada. Escolhia uma mão-cheia de livros e lia pequenos segmentos de cada um deles, até que
uma tarde encontrou um que não foi capaz de pousar. Chamava-se O Assobiador. O que
inicialmente a atraiu para ele foram as suas esporádicas visões do assobiador da Rua Himmel:
Pfiffikus. Guardara a recordação dele, curvado dentro do seu casaco, e da sua aparição na fogueira
do aniversário do Führer.

184

O primeiro acontecimento do livro era um crime. Uma punhalada. Uma rua de Viena. Não longe de
Stephansdom, a catedral na praça principal.

UM PEQUENO EXCERTO DE O ASSOBIADOR


Ela jazia ali, aterrada, numa poça
de sangue, uma estranha melodia a ressoar-lhe
ao ouvido. Recordava-se da faca, a entrar
e a sair, e de um sorriso. Como sempre,
o assobiador sorrira ao fugir para uma
noite escura e mortífera...

Liesel não tinha a certeza se eram as palavras ou a janela aberta que a faziam tremer. Sempre que ia
buscar ou entregar roupa a casa do presidente da câmara, lia três páginas e arrepiava-se, mas não
podia aguentar eternamente.
Da mesma maneira, Max Vandenburg não podia suportar a cave muito mais tempo. Ele não se
queixava — não tinha esse direito — mas sentia-se a deteriorar lentamente ao frio. Deu-se o caso
de a sua salvação se dever a um pouco de leitura e escrita, e a um livro intitulado 0 Encolher de
Ombros.

— Liesel — chamou Hans uma noite. — Anda daí.


Desde a chegada de Max, houvera um hiato considerável nos exercícios de leitura de Liesel e do
seu papá. Obviamente, ele achava que era boa altura para recomeçar. — Na, komm — disse-lhe ele.
— Não quero que te desleixes. Vai lá buscar um dos teus livros. Que tal O Encolher de Ombros?
O elemento perturbador em tudo aquilo fora que, ao regressar de livro na mão, Liesel vira o papá a
fazer sinal para ela o seguir até lá abaixo, à sua antiga sala de trabalho. A cave.
— Mas, papá — tentou ela protestar. — Nós não podemos...
— Que foi? Há algum monstro lá em baixo?
Era o início de Dezembro e o dia estivera gélido. A cave tornava-se mais desagradável a cada
degrau de cimento.
— Está demasiado frio, papá.
— Isso nunca te incomodou antes.
— Sim, mas nunca esteve tanto frio...
Chegados lá abaixo, o papá segredou para Max: — Podes emprestar-nos o candeeiro, por favor?

185

Com apreensão, os lençóis e as latas moveram-se e a luz foi passada para fora, mudando de mãos.
Fitando a chama, Hans abanou a cabeça, acompanhando o gesto de palavras. — Es ist ja Wahnsinn,
net? Isto é uma loucura, não? — Antes que a mão lá de dentro pudesse recolocar os lençóis, ele
agarrou-a. — Vem tu também. Por favor, Max.
Então, lentamente, os lençóis-de-pingos foram afastados para o lado e apareceram o corpo e a cara
macilentos de Max Vandenburg. A luz húmida, mostrava um embaraço mágico. Tremia.
Hans tocou-lhe no braço a fim de o puxar para mais perto.
— Jesus, Maria e José. Não podes ficar aqui em baixo. Morres gelado. — Virou-se. — Liesel, vai
encher a banheira. Não demasiado quente. Põe-na como fica quando começa a arrefecer.
Liesel correu para cima.
— Jesus, Maria e José.
Voltou a ouvi-lo ao chegar à entrada.

Depois de ele se encontrar na pequena banheira, Liesel escutou à porta da casa de banho,
imaginando a água tépida a transformar-se em vapor enquanto aquecia o icebergue formado pelo
corpo de Max. A mãe e o papá estavam no auge de uma discussão no quarto-saleta, as suas vozes
baixas presas no interior da parede do corredor.
— Ele morre lá em baixo, garanto-te.
— Mas e se alguém vê cá para dentro?
— Não, não, ele só sobe à noite. De dia, deixamos tudo aberto. Nada a esconder. E usamos este
quarto em vez da cozinha. E melhor mantermo-nos longe da porta da entrada.
Silêncio.
Depois a mãe. — Está bem... Sim, tens razão.
— Se vamos apostar num judeu — declarou o papá pouco depois —, prefiro apostar num vivo, —
E a partir desse momento, nasceu uma nova rotina.

Todas as noites, acendia-se a lareira no quarto da mãe e do papá, e Max aparecia silenciosamente.
Sentava-se ao canto, constrangido e perplexo, muito provavelmente pela bondade das pessoas, o
tormento da sobrevivência, e sobrepondo-se a tudo isso, o brilho do calor.
Com os cortinados bem corridos, dormia no chão, uma almofada por baixo da cabeça, enquanto o
lume esmorecia transformando-se em cinzas.
De manhã, regressava à cave.
Um humano destituído de voz.

186

O rato judeu, de volta à toca.

O Natal chegou e partiu com o cheiro de perigo acrescido. Tal como se esperava, Hans Júnior não
foi a casa (simultaneamente uma bênção e um tremendo desapontamento), mas Trudy chegou como
era habitual, e felizmente as coisas correram de forma amena.

OS ATRIBUTOS DA AMENIDADE
Max permaneceu na cave.
Trudy chegou e partiu
sem a menor suspeita.

Fora decidido que, apesar da atitude moderada de Trudy, não se podia confiar nela.
— Só confiamos nas pessoas em que temos de confiar — declarou o papá —, e isso somos nós os
três.
Houve comida suplementar e as desculpas a Max de que, embora aquela não fosse a sua religião,
era no entanto um ritual.
Ele não se queixou.
Que motivos teria?
Explicou-lhes que era judeu por educação, pelo sangue, mas também que o judaísmo era agora,
mais do que nunca, uma etiqueta, um ruinoso golpe da pior sorte possível.
Foi nessa altura que aproveitou a oportunidade para dizer como lamentava que o filho dos
Hubermann não tivesse ido a casa. Em resposta, o papá declarou que essas coisas estavam fora do
seu controlo. — Afinal de contas — comentou ele —, deves saber por ti próprio: um homem jovem
é ainda um rapaz, e um rapaz tem por vezes o direito de ser obstinado.
Deixaram as coisas por ali.

Durante as primeiras semanas passadas diante da lareira, Max permaneceu mudo. Agora que ele
tomava um bom banho uma vez por semana, Liesel reparou que o seu cabelo já não era um ninho
de gravetos, mas antes uma série de penas, adejando na sua cabeça. Ainda tímida perante o
estranho, ela segredou ao seu papá.
— O cabelo dele parece penas.
— O quê? — O crepitar do lume distorcera as palavras.
— Eu disse — segredou ela de novo, aproximando-se mais — que o cabelo dele parece penas...

187

Hans Hubermann olhou para o canto e acenou em concordância. Estou certa de que ele desejava ter
olhos como os da rapariga. Não se aperceberam de que Max ouvira tudo.
Ocasionalmente, vinha com o exemplar de Mein Kampf e lia-o chegado às chamas, agitado perante
o seu conteúdo. A terceira vez que ele o trouxe, Liesel encontrou finalmente coragem para fazer a
sua pergunta.
— É... bom?
Max levantou os olhos das páginas, cerrou os dedos até formar um punho e depois abriu-os de
novo. Varrendo a cólera, sorriu-lhe. Ergueu a franja de penas e deixou-a tombar sobre os olhos. —
É o melhor de todos os livros. — Fitou o papá e depois a rapariga. — Salvou-me a vida.
A rapariga mexeu-se um pouco e cruzou as pernas. Em voz baixa, perguntou:
— Como?

Assim começou, todas as noites na sala, uma espécie de fase de contar histórias. Recitada em tom
apenas suficientemente alto para se ouvir. As peças do puzzle de um judeu pugilista foram reunidas
diante deles todos.
Às vezes havia humor na voz de Max Vandenburg, embora a sua materialidade se assemelhasse a
fricção — como uma pedra suavemente esfregada contra uma grande rocha. Era profunda em
algumas alturas e arranhada noutras, quebrando por vezes completamente. Era mais profunda nos
arrependimentos, e quebrava no fim de uma piada ou de uma frase de autodepreciação.
— Cristo crucificado — era a reacção mais comum às histórias de Max Vandenburg, em geral
seguida de uma pergunta.

PERGUNTAS COMO
Quanto tempo permaneceste nessa sala?
Onde está agora Walter Kugler?
Sabes o que aconteceu à tua família?
Para onde ia a mulher que ressonava?
Um recorde de perdas de 10-3!
Por que é que continuavas a lutar com ele?

Ao recordar os acontecimentos da sua vida, essas noites na saleta eram das memórias mais nítidas
que Liesel possuía. Via a luz do lume na face cor de casca de ovo de Max e conseguia me: mo
sentir o sabor humano das suas palavras.

188

O percurso da sua sobrevivência foi relatado, pedaço a pedaço, como se ele estivesse a cortar de si
cada parte e a apresentá-la numa bandeja.
— Sou tão egoísta.
Dizendo isso, serviu-se do braço para ocultar o rosto. — Deixar pessoas para trás. Vir para aqui.
Pô-los a todos em perigo... — Arrancou tudo de dentro de si e começou a suplicar. A tristeza e a
desolação estampavam-se-lhe na cara. — Lamento. Acreditam em mim? Lamento muito, lamento
tanto, Iam...!
Tocou com o braço no lume e recuou-o rapidamente.
Observaram-no todos, em silêncio, até o papá se levantar e aproximar. Sentou-se ao lado dele.
— Queimaste o cotovelo?

Uma noite, Hans, Max e Liesel achavam-se sentados em frente da lareira. A mãe estava na cozinha.
Max lia outra vez Mein Kampf.
— Sabes uma coisa? — comentou Hans. Inclinou-se para o lume.
— Aqui a pequena Liesel também é uma grande leitora. — Max baixou o livro. — E tem mais em
comum contigo do que possas pensar. — O papá certificou-se de que Rosa lá não vinha. — Ela
também gosta de uma boa luta de punhos.
— Papá!
Liesel, na recta final dos onze anos e ainda magrizela, sentada encostada à parede, ficou devastada.
— Eu nunca andei à luta!
— Chiiu — riu-se o papá. Fez-lhe sinal para manter a voz baixa e inclinou-se novamente, desta
vez para a rapariga. — Então e a surra que ferraste ao Ludwig Schmeikl, hum?
— Eu nunca... — Fora apanhada. Era inútil continuar a negar.
— Como é que soube disso?
— Encontrei o pai dele no Knoller.
Liesel ocultou a cara nas mãos. Mais uma vez descoberta, fez a pergunta fundamental. — Contou à
mãe?
— Estás a brincar? — Piscou o olho a Max e segredou para a rapariga: — Ainda estás viva, não
estás?

Essa noite foi também a primeira vez desde há muitos meses que o papá tocou acordeão em casa.
Demorou cerca de meia hora até fazer uma pergunta a Max.
— Aprendeste?
O rosto do canto contemplou as chamas. — Sim. — Seguiu-se uma pausa considerável. — Até aos
nove anos.

189

Nessa idade, a minha mãe vendeu o estúdio musical e deixou de ensinar. Só guardou um
instrumento, mas desistiu de mim pouco depois de eu começar a resistir à aprendizagem. Eu era
idiota.
— Não — contrapôs o papá. — Eras um garoto.

Durante as noites, tanto Liesel Meminger como Max Vandenburg prosseguiam com a sua outra
semelhança. Nos seus quartos separados, tinham os seus pesadelos e acordavam, uma com um grito
a afogar-se nos lençóis, o outro com um arquejo ansioso por ar junto a uma lareira fumegante.
Às vezes, quando Liesel estava a ler com o papá, perto das três da madrugada, ouviam ambos o
momento do despertar de Max. — Ele sonha como tu — comentava o papá e, numa ocasião,
acordada pelo som da ansiedade de Max, Liesel decidiu sair da cama. Depois de ouvir a sua
história, fazia uma boa ideia do que ele via nesses sonhos, embora ignorasse a parte exacta da
história que o visitava em cada noite.
Silenciosamente, passou o vestíbulo e entrou no quarto-saleta.
— Max?
Um murmúrio suave, abafado na garganta do sono.
De início, não houve o som de uma resposta, mas logo ele se sentou e perscrutou as trevas.
Com o papá ainda na cama, Liesel sentou-se do outro lado da lareira, frente a Max. Por trás deles, a
mãe dormia ruidosamente. Competia com todo o vigor com a mulher que ressonava no comboio.
O lume não era agora mais do que um funeral de fumo, simultaneamente morto e moribundo. Nessa
manhã específica, houve também vozes.

A PERMUTA DE PESADELOS
A rapariga: «Diz-me uma coisa. O que vês
tu quando sonhas assim?»
O judeu: «... vejo-me a mim próprio
a virar-me e a dizer adeus.»
A rapariga: «Eu também tenho pesadelos.»
O judeu: «O que vês tu?»
A rapariga: «Um comboio e o meu irmão morto.»
O judeu: «O teu irmão?»
A rapariga: «Ele morreu quando
eu me mudei para aqui, no caminho.»
A rapariga e o judeu, juntos: «Ja — pois.»

190

Seria agradável dizer que depois desta pequena abertura, nem Liesel nem Max voltaram a sonhar
com as suas más visões. Seria agradável, mas falso. Os pesadelos chegavam como sempre, muito à
semelhança do melhor jogador do adversário quando se ouviram rumores de que ele podia estar
magoado ou doente — e afinal lá vinha ele, a fazer o aquecimento com os outros, pronto a entrar
em campo. Ou como um comboio à tabela, chegando a uma plataforma nocturna, arrastando atrás
de si as recordações presas por uma corda. Muito arrastamento. Muitos ressaltos desconfortáveis.
A única coisa que mudou foi Liesel dizer ao papá que já devia ter idade suficiente para controlar
sozinha os seus sonhos. Durante alguns instantes, ele pareceu um pouco magoado, mas como
sempre acontecia com o papá, deu à frase certa a oportunidade de ser proferida.
— Bem, graças a Deus. — E com um meio sorriso. — Pelo menos agora posso dormir como deve
ser. Aquela cadeira estava a dar cabo de mim. — Passou o braço pelos ombros da rapariga e
dirigiram-se à cozinha.

À medida que o tempo avançava, estabeleceu-se uma distinção nítida entre dois mundos muito
diferentes: o mundo dentro do 33 da Rua Himmel, e o que residia e girava lá fora. O truque estava
em mantê-los separados.
No mundo exterior, Liesel aprendera a descobrir mais alguns dos seus usos. Uma tarde, ao regressar
a casa com uma saca de roupa vazia, reparou num jornal a espreitar de um caixote do lixo. A edição
semanal do Molching Express. Puxou-o e levou-o para casa, oferecendo-o a Max. — Pensei que
talvez gostasses de fazer as palavras cruzadas para passar o tempo — disse ela.
Max apreciou o gesto, e para justificar o facto de ela o ter levado para casa, leu o jornal de ponta a
ponta e mostrou-lhe o passatempo algumas horas mais tarde, completo à excepção de uma palavra.
— Diabos levem essa dezassete horizontal — comentou ele.
Em Fevereiro de 1941, no seu décimo segundo aniversário, Liesel recebeu outro livro usado, e
sentiu-se grata. Chamava-se Os Homens de Lama e era acerca de um pai e um filho muito
estranhos. Abraçou a mãe e o papá, enquanto Max assistia constrangido do canto.
— Alies Gute zum Geburtstag. — Sorriu debilmente. — Tudo de bom para o teu aniversário. —
Tinha as mãos nos bolsos. — Eu não sabia, senão podia ter-te dado qualquer coisa. — Uma mentira
descarada: ele não tinha nada para dar, excepto talvez Mein Kampf, e de forma alguma daria tal
propaganda a uma jovem alemã. Seria como o cordeiro a entregar uma faca ao açougueiro.

191

Fez-se um silêncio embaraçado.


Ela tinha abraçado a mãe e o papá.
Max parecia tão só.

Liesel engoliu em seco.

E dirigindo-se para ele, abraçou-o pela primeira vez. — Obrigada, Max.


A princípio, ele limitou-se a permanecer imóvel, mas quando ela se manteve encostada a si, as suas
mãos ergueram-se gradualmente e apertaram suavemente os ombros da rapariga.
Só mais tarde ela decifraria a expressão de impotência do rosto de Max. Descobriria igualmente
que ele resolvera nesse momento dar-lhe alguma coisa em troca. Eu imagino-o muitas vezes
deitado sem dormir nessa noite, ponderando o que poderia oferecer.
Afinal, o presente foi entregue em papel, pouco mais de uma semana depois.
Ele iria entregá-lo às primeiras horas da madrugada, antes de descer os degraus de cimento e
recolher àquilo a que agora gostava de chamar lar.

192

PÁGINAS DA CAVE
Durante uma semana, Liesel foi afastada da cave a todo o custo. Eram a mãe e o papá que se
encarregavam de levar lá abaixo a comida de Max.
— Não, Saumensch — dizia a mãe de cada vez que ela se oferecia. Havia sempre uma nova
desculpa. — Que tal fazeres qualquer coisa de útil aqui para variar, tal como acabar de passar a
roupa a ferro? Achas que carregar com ela pela cidade é alguma coisa de especial? Experimenta
passá-la! — Pode fazer-se todo o tipo de coisas boas em segredo quando se tem fama de cáustica.
Resultou.

Durante essa semana, Max cortara uma série de páginas de Mein Kampf e pintara-as de branco.
Depois pendurou-as com molas numa corda, de uma ponta à outra da cave. Depois de todas secas,
começou a parte difícil. Ele tinha instrução suficiente para se safar, mas não era de maneira
nenhuma um escritor, nem um artista. Apesar disso, formulou as palavras mentalmente até
conseguir formulá-las sem erros. Só então, no papel que encurvara e formara bolhas sob a pressão
da tinta seca, é que começou a escrever a história. Fê-lo com um pequeno pincel preto.

O Homem Debruçado

Calculara que precisava de treze páginas, portanto pintou quarenta, esperando pelo menos o dobro
dos fracassos em relação aos sucessos. Houve versões experimentais nas páginas do Molching
Express, até conseguir levar os seus desenhos básicos e desajeitados a um nível que considerou
aceitável. Enquanto trabalhava, ouvia as palavras sussurradas de uma rapariga. «O cabelo dele»,
dizia-lhe ela, «parece penas.»

193

Depois de acabar, serviu-se de uma faca para furar as páginas e atá-las com um cordel. O resultado
foi um livrinho com treze páginas, como se segue:

Toda minha vida,


Tenho sentido medo de homens debruçados sobre mim.

194

Suponho que o meu primeiro homem


debruçado foi o meu pai
mas ele desapareceu
antes de eu poder recordar-me dele.

195
Fosse lá por que fosse, quando era garoto eu gostava de lutar. Grande parte das vezes, perdia. Outro
garoto, às vezes com sangue a escorrer do nariz, estava então debruçado sobre mim.

196

Muitos anos depois, precisei de me esconder. Tentava não dormir porque tinha medo de quem
poderia lá estar quando acordasse.
Mas tive sorte. Era sempre o meu amigo.

197

Quando estava escondido, sonhava com um certo homem. O mais difícil foi quando viajei para ir
ter com ele.

198

Com sorte e muitos passos, consegui chegar.

199

Dormi lá durante muito tempo.


Três dias, disseram-me…
e o que encontrei ao acordar? Não um homem, mas outra pessoa, debruçada sobre mim.

200

À medida que o tempo passava, a rapariga e eu percebemos que tínhamos coisas em comum.
Comboio
Sonhos
Punhos

201

Mas há uma coisa estranha.


A rapariga diz que eu pareço outra coisa.

202

Agora vivo numa cave.


No meu sono ainda vivem sonhos maus.
Uma noite, após meu habitual pesadelo, uma sombra debruçou-se sobre mim. Ela disse: «Conta-me
o que sonhas.». E eu assim fiz…

203

Em troca, ela explicou de que eram feitos os seus próprios sonhos.

204
Agora, acho que somos amigos, essa rapariga e eu. No dia dos seus anos, foi ela que me deu um
presente a mim.
O que me fez compreender que o melhor homem debruçado que já conheci não é de todo um
homem...

205

Valioso
Água
Movimento
Claridade

206

Em finais de Fevereiro, quando Liesel acordou às primeiras horas da madrugada, uma figura entrou
no seu quarto. Típico de Max, assemelhava-se o mais possível a uma sombra silenciosa.
Liesel, perscrutando a escuridão, apenas pressentiu vagamente o homem a dirigir-se a ela.
— Olá?
Não houve resposta.

Não houve nada senão o silêncio dos seus pés enquanto ele se aproximava da cama e colocava as
páginas no chão, ao lado das meias dela. As páginas estalaram. Muito levemente. Uma das pontas
enrolou--se na direcção do soalho.
— Olá?
Dessa vez houve resposta.
Ela não conseguiu dizer exactamente de onde vinham as palavras. O que interessa é que a
alcançaram. Chegaram e ajoelharam junto à cama.
— Uma prenda de anos atrasada. Vê de manhã. Boa noite.

Durante algum tempo ela dormitou e acordou, já sem ter a certeza se sonhara com a entrada de
Max.
De manhã, ao acordar, virou-se e viu as páginas pousadas no chão. Esticou-se e apanhou-as,
ouvindo o papel ranger nas suas mãos de madrugada.
Toda a minha vida, tenho sentido medo de homens debruçados sobre mim...
A medida que ela as ia voltando, as páginas emitiam ruídos, como o crepitar de electricidade
estática, que rodeavam a história escrita.
Três dias, disseram-me... e o que encontrei ao acordar?
Lá estavam as páginas de Mein Kampf, amordaçadas, sufocadas sob a tinta enquanto iam passando.
O que me fez compreender que o melhor homem debruçado que já conheci...

Liesel leu e observou o presente de Max Vandenburg três vezes, notando de cada uma delas uma
pincelada ou uma palavra diferente. Terminada a terceira leitura, saiu o mais silenciosamente
possível da cama e dirigiu-se ao quarto da mãe e do papá. O espaço junto à lareira encontrava-se
vazio.
Ao pensar nisso, compreendeu que era de facto apropriado, ou até melhor — perfeito — agradecer-
lhe onde as páginas tinham sido feitas.
Desceu os degraus da cave. Viu uma imaginária fotografia emoldurada ressumar da parede — um
segredo sorridente.

207
Não mais do que alguns metros, mas era um longo percurso até aos lençóis-de-pingos e à mescla de
latas de tinta que protegiam Max Vandenburg. Ela afastou os lençóis mais próximos da parede até
haver um pequeno corredor por onde olhar.
A primeira parte que viu dele foi o ombro, e através da estreita fenda, esticou lenta e penosamente a
mão até esta ali descansar. A roupa estava fria. Ele não acordou.
Ela sentia-lhe a respiração e o ombro movendo-se para cima e para baixo muito levemente. Ficou a
observá-lo alguns instantes. Depois sentou-se e encostou-se para trás.
O ar sonolento parecia tê-la seguido.
As palavras rabiscadas durante as tentativas erguiam-se magníficas na parede junto às escadas,
irregulares, infantis e ternas. Observaram o judeu escondido e a rapariga a dormirem, mão contra
ombro.
Respiravam.
Pulmões alemães e judeus.
Junto à parede, jazia O Homem Debruçado, mudo e satisfeito, como um belo anseio deposto aos
pés de Liesel Meminger.

208

PARTE CINCO
o assobiador
apresentando:
um livro flutuante — os jogadores — um pequeno fantasma — dois cortes de cabelo — a
juventude de rudy — perdedores e esboços — um assobiador e alguns sapatos — três actos de
estupidez — e um rapaz assustado de pernas geladas

<Página em branco>

O LIVRO FLUTUANTE (PARTE I)

Rio Amper abaixo flutuava um livro.


Um rapaz saltou lá para dentro, apanhou-o e segurou-o na sua mão direita. Fez uma careta
sorridente.
Ficou mergulhado até à cintura na água gelada de Dezembro.
— Que tal um beijo, Saumensch? — perguntou ele.
O ar envolvente estava maravilhoso, fantástico e nauseantemente frio, isto para não falar da dor
concreta da água que lhe ia subindo dos pés até às ancas.
Que tal um beijo?
Que tal um beijo?
Pobre Rudy.

UMA PEQUENA DECLARAÇÃO ACERCA DE RUDY STEINER


Ele não merecia morrer como morreu.

Nas vossas visões, vêem as pontas encharcadas do papel ainda presas aos dedos dele. Vêem uma
franja loura a tremer. Antecipando-se, concluem, como eu concluiria, que Rudy morreu nesse
mesmo dia, de hipotermia. Mas não. Reminiscências destas apenas me recordam que ele não
merecia o destino que o atingiu pouco menos de dois anos mais
tarde.
Sob muitos aspectos, levar um rapaz como Rudy foi roubo — tanta vida, tanto por que viver — e
contudo, tenho a certeza de que ele teria gostado de ver o aterrador entulho e o inchaço do céu na
noite em que partiu. Teria gritado e ter-se-ia virado e sorrido se pudesse ter visto a rapariga que
roubava livros ajoelhar ao lado do seu corpo dizimado. Teria ficado feliz por a ver beijar os seus
lábios poeirentos atingidos pela bomba.

211

Sim, sei isso.


Nas trevas do meu negro coração, eu sei. Ele teria realmente adorado isso.
Estão a ver?
Até a morte tem coração.

212

OS JOGADORES (UM DADO COM SETE FACES)


E claro, estou a ser grosseira. Estou a estragar o final, não apenas do livro inteiro, mas desta parte
em particular. Dei-vos dois acontecimentos antecipados, porque não me interessa grandemente
manter o mistério. O mistério enfastia-me. Sobrecarrega-me. Sei o que acontece e vocês também.
São as maquinações que nos conduzem para lá que me irritam, confundem, interessam e
surpreendem.
Há muitas coisas em que pensar.
Há muita história.
Sem dúvida, há um livro chamado O Assobiador, que precisamos realmente de discutir, assim como
a maneira exacta como ele apareceu a flutuar rio Amper abaixo na época que antecedeu o Natal de
1941. Devíamos tratar primeiro de tudo isso, não acham?

Então, está decidido.


É o que faremos.

Começou com uma aposta. Lancem um dado ao esconder um judeu e é assim que viverão. É este o
aspecto que tem.

O corte de cabelo: meados de Abril de 1941

A vida estava, pelo menos, a começar a imitar a normalidade com mais energia:
Hans e Rosa Hubermann discutiam na saleta, embora em voz muito mais baixa do que dantes.
Liesel, como habitualmente, assistia.
O argumento surgira na noite anterior, na cave, onde Hans e Max se achavam sentados com latas de
tinta, palavras e lençóis-de-pingos. Max perguntou se Rosa poderia cortar-lhe o cabelo em qualquer
altura.

213

— Está a cair-me para os olhos — explicara ele, ao que Hans respondera: — Vou ver o que posso
fazer.
Agora Rosa andava a vasculhar as gavetas. Atirava as palavras ao papá juntamente com o resto da
tralha. — Onde está o raio da tesoura?
— Não está na de baixo?
— Já corri essa toda.
— Talvez te tenha passado.
— Pareço-te cega? — Ergueu a cabeça e gritou: — Liesel!
— Estou aqui mesmo.
Hans encolheu-se. — Raios, mulher, queres ensurdecer-me?
— Calado, Saukerl. — Rosa continuou a procurar e dirigiu-se à rapariga. — Liesel, onde está a
tesoura? — Mas Liesel também não fazia ideia. — Saumensch, não serves para nada, pois não?
— Não a metas nisto.
Foram atiradas mais palavras de um lado para o outro, da mulher de cabelo elástico ao homem de
olhos de prata, até que Rosa fechou com força a gaveta. — De qualquer maneira, provavelmente
cometo uma série de erros.
— Erros? — Nessa altura já o papá parecia prestes a arrancar o 1 seu próprio cabelo, mas a voz
passou a um murmúrio apenas audível. — Quem diabo é que o vai ver? — Fez o gesto de ir falar
outra vez mas foi distraído pelo aparecimento emplumado de Max Vandenburg, que parou delicado,
embaraçado, à entrada da porta. Trazia a sua própria tesoura e avançou, estendendo-a não a Hans
nem a Rosa, mas à rapariga de doze anos. Era a opção mais calma. A boca tremeu-lhe um instante
antes de perguntar: — Não te importas?
Liesel pegou na tesoura e abriu-a. Estava ferrugenta e reluzente em zonas alternadas. Virou-se para
o papá e vendo-o acenar, seguiu Max
até à cave.
O judeu sentou-se numa lata de tinta. Passaram-lhe um pequeno lençol-de-pingos em volta dos
ombros. — Os erros todos que quiseres — disse-lhe ele.
O papá estacionou nos degraus.
Liesel ergueu os primeiros tufos de cabelo de Max Vandenburg.
Enquanto cortava as madeixas leves, escutava o som da tesoura. Não o ruído característico, mas o
rangido de cada braço metálico ao cortar cada grupo de fibras.
Terminado o trabalho, um bocado drástico nalguns sítios, um bocado torto noutros, subiu as escadas
com o cabelo nas mãos e deitou-o na fornalha. Acendeu um fósforo e ficou a ver a massa
encarquilhar e encolher, laranja e vermelho.

214

Max surgira de novo à entrada, desta vez no topo dos degraus da cave. — Obrigado, Liesel. — A
voz era alta e rouca e tinha o som de um sorriso oculto.
Mal falou desapareceu novamente, de volta à toca.

O jornal: princípio de Maio

— Há um judeu na minha cave.


— Há um judeu. Na minha cave.

Sentada no chão da sala repleta de livros do presidente da câmara, Liesel Meminger ouviu essas
palavras. A seu lado tinha o saco da roupa e a figura espectral da mulher do presidente da câmara
estava sentada à secretária, curvada como um ébrio sobre o tampo. Diante dela, Liesel lia O
Assobiador, páginas vinte e dois e vinte e três. Levantou os olhos. Imaginou-se a avançar, afastar
suavemente um pouco de cabelo lanugento para o lado, e a segredar ao ouvido da mulher:
— Há um judeu na minha cave.
Enquanto o livro estremecia no seu colo, o segredo sentou-se na sua boca. Instalou-se
confortavelmente. Cruzou as pernas.
— Tenho de ir indo para casa. — Dessa vez falou mesmo. As mãos cremiam-lhe. Apesar de uma
réstia de sol ao longe, uma brisa suave galopou pela janela aberta, acompanhada de chuva que
entrava como serradura.
Quando Liesel voltou a colocar o livro no lugar, a cadeira da mulher raspou o chão e ela
aproximou-se. Era sempre assim no final. Os círculos suaves de rugas doridas aumentaram um
instante ao estender a mão para recuperar o livro.
Depois ofereceu-o à rapariga.
Liesel recuou alarmada.
— Não — recusou ela —, obrigada. Tenho livros suficientes em casa. Talvez noutra ocasião. Estou
a reler uma coisa com o meu papá. Sabe, o que roubei da fogueira naquela noite.
A mulher do presidente da câmara baixou a cabeça. Uma coisa pode dizer-se de Liesel Meminger:
os seus roubos não eram indiscriminados. Ela só roubava livros com base no que considerava ser
uma necessidade-de-ter. Presentemente, tinha os suficientes. Já lera quatro vezes Os Homens de
Lama e estava a apreciar a renovação do contacto com O Encolher de Ombros. Além disso, todas as
noites antes de se deitar, abria um guia para cavar sepulturas que funcionava como cofre-forte.

215

Bem enterrado no seu interior, residia 0 Homem Debruçado. Ela articulava as palavras e tocava nos
pássaros. Virava, lentamente, as páginas ruidosas.
— Adeus, Frau Hermann.
Abandonou a biblioteca, percorreu o vestíbulo assoalhado e saiu pela porta monstruosa. Como era
seu hábito, parou um instante nos degraus, contemplando Molching lá em baixo. Nessa tarde, a
cidade encontrava--se coberta por uma neblina amarelada, que acariciava os telhados como se
fossem animais de estimação e enchia as ruas como uma banheira.
Chegando à Rua de Munique, a rapariga que roubava livros foi-se desviando dos homens e
mulheres de chapéu-de-chuva — uma rapariga de impermeável que ia percorrendo os caixotes do
lixo sem vergonha. Que nem um relógio.
— Aí está!
Riu-se para as nuvens acobreadas, celebrando antes de estender a mão e retirar o jornal amarrotado.
Embora a primeira e última páginas se achassem riscadas por lágrimas negras da impressão, ela
dobrou-o cuidadosamente em quatro e enfiou-o debaixo do braço. Há alguns meses que a cena se
repetia todas as quintas-feiras.
A quinta-feira era o único dia de entregas que restava agora a Liesel Meminger e, em geral,
conseguia proporcionar-lhe dividendos. Ela não era capaz de abafar a sensação de vitória de cada
vez que encontrava um Molching Express ou qualquer outra publicação. Encontrar um jornal
significava um dia bom. Se era um jornal em que as palavras cruzadas não estavam feitas, era um
dia óptimo. Ela dirigia-se para casa, fechava a porta atrás de si, e levava-o para baixo a Max
Vandenburg.
— Palavras cruzadas? — perguntava ele.
— Em branco.
— Excelente.
O judeu sorria ao aceitar o maço de papel e começava a ler à luz racionada da cave.
Frequentemente, Liesel ficava a observá-lo enquanto ele se concentrava na leitura do jornal,
completava as palavras cruzadas e depois recomeçava a ler, da primeira à última página.
Com o tempo a aquecer, Max permanecia agora sempre lá em baixo. Durante o dia, a porta da cave
era deixada aberta para permitir que a pequena réstia de luz natural do corredor o alcançasse. O
próprio vestíbulo não se encontrava exactamente banhado de sol mas, em certas situações, aceita-se
o que se pode ter. Uma luz melancólica era melhor do que luz nenhuma, e eles precisavam de ser
frugais. O querosene ainda não se aproximara de um nível perigosamente baixo, mas era melhor
manter o seu uso limitado ao mínimo.

216

Liesel geralmente sentava-se em alguns lençóis-de-pingos. Lia enquanto Max completava as


palavras cruzadas. Sentavam-se a alguns metros um do outro, raramente falando, e a única coisa
que se ouvia era de facto o ruído das folhas a virar. Amiúde, ela deixava também os seus livros para
Max ler durante as horas de escola. Enquanto Hans Hubermann e Erik Vandenburg haviam
basicamente sido unidos pela música, Max e Liesel mantinham-se juntos devido à silenciosa
reunião de palavras.
— Olá, Max.
— Olá, Liesel. Sentavam-se e liam.
Às vezes, ela observava-o. Concluiu que a melhor maneira de o descrever seria como uma imagem
de concentração pálida. Pele bege. Um pântano em cada olho. E respirava como um fugitivo. De
forma desesperada mas silenciosa. Apenas o peito o denunciava como algo vivo.
Com frequência, Liesel fechava os olhos e pedia a Max para a interrogar sobre palavras em que se
enganava constantemente, e praguejava se elas continuavam a escapar-lhe. Levantava-se então e
pintava essas palavras na parede, cerca de uma dúzia de vezes. Juntos, Max Vandenburg e Liesel
Meminger inspiravam o odor da tinta e do cimento.
— Adeus, Max.
— Adeus, Liesel.
Na cama, ela ficava acordada, imaginando-o lá em baixo, na cave. Nas suas visões nocturnas, ele
dormia sempre completamente vestido e calçado, para o caso de precisar de fugir de novo. Dormia
com um olho aberto.

O meteorologista: meados de Maio

Liesel abriu simultaneamente a porta e a boca.


Na Rua Himmel, a sua equipa trucidara a de Rudy por 6-1 e, triunfante, ela irrompeu na cozinha
para contar à mãe e ao papá tudo acerca do golo que metera. Depois correu para a cave a fim de o
descrever, movimento a movimento, a Max, que pousou o jornal e ouviu atentamente a rapariga,
rindo com ela.
Terminada a história do golo, fez-se silêncio durante vários minutos, até Max erguer lentamente os
olhos. — Fazes-me uma coisa, Liesel?
Ainda excitada pelo seu golo na Rua Himmel, a rapariga saltou dos lençóis-de-pingos. Não disse
nada, mas o movimento mostrava com toda a clareza a sua intenção de lhe proporcionar
exactamente o que ele quisesse.

217

— Contaste-me tudo a respeito do golo — disse ele —, mas eu não sei que género de dia está lá
fora. Não sei se marcaste ao sol, ou se as nuvens cobriram tudo. — Passou a mão pelo cabelo curto,
e os seus olhos nublados suplicaram a mais simples das coisas simples. — És capaz de ir lá acima e
me vir contar como está o tempo?
Naturalmente, Liesel correu escada acima. Afastou-se um pouco da porta manchada de cuspo e deu
uma volta no mesmo lugar, observando o céu.
Ao voltar para a cave, contou-lhe.
— O céu hoje está azul, Max, e há uma grande nuvem comprida, esticada como uma corda. No fim
dela, o Sol parece um buraco amarelo...
Nesse instante, Max compreendeu que só uma criança poderia ter--lhe dado um boletim
meteorológico assim. Na parede, pintou uma longa corda cheia de nós com um gotejante sol
amarelo na ponta, como se se pudesse mergulhar a direito nele. Na nuvem encordoada, desenhou
duas figuras — uma rapariga magra e um judeu definhado — que caminhavam, a balançar os
braços, em direcção ao sol gotejante. Por baixo do desenho, escreveu a seguinte frase.

AS PALAVRAS ESCRITAS NA PAREDE POR MAX VANDENBURG


Era segunda-feira, e eles caminharam por uma corda esticada até ao sol.

O pugilista: fim de Maio

Para Max Vandenburg, havia cimento frio e abundância de tempo para passar com ele.
Os minutos eram cruéis.
As horas eram suplícios.
Debruçada sobre ele em todos os momentos de vigília achava-se a mão do tempo, que não hesitava
em o torcer. Sorria e apertava e deixava-o viver. Que imensa perfídia podia haver em permitir que
alguma coisa vivesse.
Pelo menos uma vez por dia, Hans Hubermann descia os degraus da cave e conversava um bocado.
Rosa levava ocasionalmente uma côdea de pão extra. No entanto, era quando Liesel descia que
Max se descobria outra vez mais interessado na vida.

218

Ao princípio, tentara resistir, mas tornara-se mais difícil a cada dia que a rapariga surgia, sempre
com um novo boletim meteorológico, fosse ele de céu azul límpido, nuvens amontoadas, ou um sol
que irrompera como Deus a sentar-se após ter comido demasiado ao jantar.
Quando estava sozinho, a sua sensação mais forte era de desaparecimento. Toda a sua roupa era
cinzenta — quer tivesse começado assim quer não —, desde as calças até à camisola de lã e ao
casaco que agora lhe pingava como água. Verificava frequentemente se tinha a pele a descamar,
pois era como se estivesse a dissolver-se.
Do que ele precisava era de uma série de projectos novos. O primeiro era exercício. Começou com
elevações, deitando-se de barriga para baixo no solo frio da cave, e depois içando-se. Tinha a
sensação de que os braços estalavam nos cotovelos, e imaginou o coração a escoar-se de si e a
tombar pateticamente ao chão. Ainda adolescente, em Stuttgart, conseguia chegar às cinquenta
elevações de uma vez. Agora, aos vinte e quatro anos, talvez com uns vinte e três quilos a menos do
que o seu peso habitual, mal conseguia atingir as dez. Após uma semana, estava a completar três
séries, cada uma com dezasseis elevações e vinte e duas flexões. Quando acabava, sentava-se
encostado à parede da cave com as suas amigas latas de tinta, sentindo o pulso nos dentes. Os
músculos pareciam manteiga.
Por vezes, interrogava-se se valeria sequer a pena esforçar-se daquela maneira. Outras, contudo,
quando as batidas do coração normalizavam e o seu corpo ficava de novo funcional, ele apagava a
luz e erguia-se nas trevas da cave.
Tinha vinte e quatro anos, mas ainda era capaz de fantasiar.
— No canto azul — comentava ele silenciosamente — temos o campeão do mundo, a obra-prima
ariana: o Fubrer. — Respirava e virava-se. — E no canto vermelho, temos o challenger judeu com
cara de fuinha: Max Vandenburg.
A sua volta, tudo se materializava.
A luz branca descia sobre um ringue de boxe e havia uma multidão de pé e um murmúrio, aquele
som mágico de muitas pessoas a falarem em simultâneo. Como é que cada uma delas podia ter
tanto que dizer ao mesmo tempo? O ringue em si era perfeito. A lona perfeita, as cordas
maravilhosas. Até os fios soltos de cada corda esticada estavam impecáveis, reluzindo à crua luz
branca. A sala cheirava a cigarros e a cerveja.
Em diagonal, no canto oposto, encontrava-se Adolf Hitler com o seu séquito. As pernas saíam de
um roupão vermelho e branco com uma suástica preta gravada nas costas. Tinha o bigode soldado à
cara. O seu treinador, Goebbels, segredava-lhe palavras. Ele ia passando de um pé para o outro e
sorria.

219

Sorriu mais quando o ringmaster desfiou os seus muitos feitos, todos trovejantemente aplaudidos
pela multidão de adoradores. — Imbatível! — proclamou o ringmaster. — Contra muitos judeus, e
contra qualquer outra ameaça ao ideal alemão! Herr Führer — concluiu ele —, nós te saudamos! —
A multidão: delírio.
A seguir, depois de todos se terem sentado, chegou a vez do challenger.
O ringmaster voltou-se para Max, que se encontrava sozinho no seu canto. Sem roupão. Sem
séquito. Apenas um jovem judeu solitário, com mau hálito, de peito nu, de mãos e pés cansados.
Evidentemente, os calções eram cinzentos. Também ele se ia apoiando ora num pé ora noutro, mas
de forma muito moderada para conservar a energia. Suara muito no ginásio para atingir o peso.
— O challenger! — entoou o ringmaster. — De... — pausa para produzir efeito — sangue judeu.
— A multidão uivou, como vampiros humanos. — Com o peso de...
O resto do discurso não se ouviu. Foi abafado pelos insultos das bancadas, e Max observou
enquanto despiam o roupão ao seu oponente e este avançava até ao meio para ouvir as regras e
apertar as mãos.
— Guten tag, Herr Hitler. — Max baixou a cabeça, mas o Führer apenas lhe mostrou os dentes
amarelos, cobrindo-os depois novamente com os lábios.
— Cavalheiros — começou um árbitro robusto, de calças pretas e camisa azul. Trazia uma gravata-
borboleta ao pescoço. — Primeiro e acima de tudo, queremos um combate limpo. — Agora dirigia-
se apenas ao Führer. — A menos, é claro, Herr Hitler, que o senhor comece a perder. Caso isso
ocorra, estou inteiramente disposto a deixar passar quaisquer tácticas desonestas que possa
empregar para levar este pedaço de fedor e lixo judeu ao tapete. — Curvou-se, com toda a cortesia.
— Fui claro?
O Führer falou então pela primeira vez. — Como cristal.
A Max, o árbitro dirigiu um aviso. — Quanto a ti, camarada judeu, se estivesse no teu lugar, eu
teria muito cuidado. Muito cuidado mesmo. — E voltaram aos respectivos cantos.
Seguiu-se um breve silêncio.
A campainha.
O primeiro a avançar foi o Führer, ossudo e desajeitado, que correu para Max e o socou firmemente
na cara. A multidão vibrou, sentindo ainda a campainha nos ouvidos, e os seus sorrisos satisfeitos
transpuseram as cordas. O bafo fumegante de Hitler exalava-se da sua boca enquanto as mãos
martelavam o rosto de Max, atingindo-o diversas vezes, nos lábios, no nariz, no queixo — e Max
ainda não se aventurara a sair do seu canto.

220

Para amortecer a punição, ele ergueu as mãos, mas então o Führer fez pontaria às costelas, aos rins,
aos pulmões. Oh, os olhos, os olhos do Führer. Eram tão deliciosamente castanhos — como olhos
de judeus — e tão determinados que Max se sentiu por instantes transfigurado ao avistá-los entre a
névoa saudável das luvas de boxe.
Houve apenas um assalto, e durou horas mas, essencialmente, nada mudou.
O Führer martelava o saco de treinos judeu.
Havia sangue judeu por toda a parte.
Semelhante a nuvens de chuva vermelha no céu branco da lona a seus pés.
Eventualmente, os joelhos de Max começaram a ceder, as maçãs do rosto a gemer em silêncio, e a
face deliciada do Führer continuava a dar golpes, a dar golpes, até que, esgotado, vencido e
destruído, o judeu caiu ao chão.
Primeiro, um rugido.
Depois, silêncio.
O árbitro contou. Tinha um dente de ouro e excesso de pêlos no nariz.
Lentamente, Max Vandenburg, o judeu, pôs-se de pé e endireitou-se. A voz vacilou. Um convite. —
Anda lá, Führer — incitou ele, e dessa vez, quando Adolf Hitler se lançou contra o seu oponente
judeu, Max desviou-se e atirou-o para o canto. Aplicou-lhe sete socos, todos eles dirigidos a uma
única coisa.
O bigode.
Ao sétimo soco, falhou, e foi o queixo do Führer que aguentou o golpe. Imediatamente, Hitler caiu
sobre as cordas e dobrou-se para a frente, aterrando de joelhos. Dessa vez não houve contagem. O
árbitro estremeceu no seu canto. A assistência afundou-se, voltando às cervejas. De joelhos, o
Führer viu se tinha sangue e endireitou o cabelo, da direita para a esquerda. Quando voltou a
erguer-se, perante o gáudio da multidão de mais de duzentas pessoas, adiantou-se um pouco e fez
uma coisa muito estranha. Virou as costas ao judeu e tirou as luvas das mãos.
A multidão ficou atónita.
— Ele desistiu — segredou alguém, mas daí a instantes, Adolf Hitler estava junto às cordas, e
dirigia-se à arena.
— Compatriotas alemães — gritou ele —, podem ver uma coisa aqui, esta noite, não é verdade? —
De peito nu, olhos vitoriosos, apontou para Max. — Podem ver que aquilo que defrontamos é algo
muito mais sinistro e poderoso do que havíamos imaginado. Podem ver isso?
Eles responderam. — Sim, meu Führer.

221

— Podem ver que este inimigo achou meios, os seus desprezíveis meios, de penetrar a nossa
armadura, e que, obviamente, eu não posso ficar aqui sozinho a lutar com ele? — As palavras eram
visíveis. Tombavam-lhe dos lábios como jóias. — Olhem para ele! Olhem bem.
— Eles olharam. Para o ensanguentado Max Vandenburg. — Enquanto nós falamos, ele está a
preparar a sua entrada na vossa vizinhança. Está a mudar-se para a casa ao lado. Está a infectar-vos
com a sua família e está prestes a dominar-vos. Ele — Hitler deitou-lhe de relance um olhar
enojado — será em breve vosso dono, até ser ele a encontrar-se, não ao balcão da vossa loja, mas
sentado nas traseiras a fumar o seu cachimbo. Mal dêem por isso, estarão a trabalhar para ele por
um salário mínimo enquanto ele mal poderá andar com o peso dos bolsos. Vão ficar aí sentados e
deixá-lo conseguir isto? Vão deixar-se ficar parados como fizeram os vossos líderes no passado, ao
darem a vossa terra a toda a gente, ao venderem o vosso país pelo preço de algumas assinaturas?
Vão ficar aí, impotentes? Ou — e agora subiu mais um degrau — vão subir a este ringue comigo?
Max estremeceu. O horror enredou-se-lhe no estômago.
Adolf acabou com ele. — Vão subir aqui para podermos derrotar este inimigo juntos?
Na cave do número 33 da Rua Himmel, Max Vandenburg sentia os punhos de uma nação inteira.
Um a um eles subiram ao ringue e derrubaram-no. Fizeram-no sangrar. Deixaram-no sofrer.
Milhões deles
— até uma última vez, quando ele se punha de pé...
Observou a pessoa que passava pelas cordas. Era uma rapariga, e enquanto ela atravessava
lentamente a lona, ele notou uma lágrima a escorrer pela sua face esquerda. Na mão direita trazia
um jornal.
— As palavras cruzadas — proferiu ela docemente —, estão era branco. — E estendeu-lho.
Escuridão.
Nada excepto escuridão agora.
Apenas cave. Apenas judeu.

O novo sonho: algumas noites depois

Era de tarde. Liesel desceu os degraus da cave. Max ia a meio das suas elevações.
Observou-o durante um bocado, sem ele se aperceber, e quando foi sentar-se junto dele, Max
ergueu-se e encostou-se à parede. — Já te contei que ultimamente tenho tido um sonho novo? —
perguntou ele.
Liesel moveu-se um pouco, para lhe ver a cara.

222

— Mas este, sonho-o acordado. — Fez um gesto na direcção do candeeiro de queroseue apagado.
— Às vezes apago a luz. Depois fico aqui e espero.
— O quê?
Max corrigiu-a. — O quê, não. Quem.
Durante alguns momentos Liesel não disse nada. Era uma daquelas conversas que exigem que
decorra um certo tempo entre cada frase. — Quem é que esperas?
Ele não se mexeu. — O Führer. — Falou em tom casual. — É por isso que me ando a treinar.
— As elevações?
— Exacto. — Dirigiu-se à escada de cimento. — Todas as noites, espero no escuro e o Führer surge
nestes degraus. Desce, e eu e ele combatemos durante horas.
Liesel estava agora de pé. — Quem vence?
A princípio, ele ia responder que ninguém, mas depois reparou nas latas de tinta, nos lençóis-de-
pingos e na pilha crescente de jornais na periferia da sua visão. Contemplou as palavras, a nuvem
comprida e as figuras na parede.
— Eu — afirmou.
Era como se lhe tivesse aberto a palma da mão, oferecido a palavra, e voltado a fechá-la.
Debaixo do solo, em Molching, Alemanha, duas pessoas de pé numa cave conversavam. Parece o
começo de uma piada:
«Estão um judeu e uma alemã de pé numa cave, certo?...»
Isto, contudo, não era piada nenhuma.

Os pintores: princípio de Junho

Outro dos projectos de Max era o que restava de Mein Kampf. Cada página foi cuidadosamente
arrancada do livro e estendida no chão para receber uma camada de tinta. Foi depois pendurada a
secar e enfiada entre a capa e a contracapa. Um dia, ao voltar da escola, Liesel encontrou Max,
Rosa e o seu papá todos a pintarem páginas. Muitas estavam já penduradas com molas num cordel
esticado, tal como deviam ter feito para 0 Homem Debruçado.
Todos eles levantaram os olhos e falaram.
— Olá, Liesel.
— Toma um pincel, Liesel.
— Já não era sem tempo, Saumensch. Onde é que te demoraste tanto?

223
Começando a pintar, Liesel pensava em Max Vanderburg a lutar com o Fuhrer, exactamente como
ele lhe explicara.

VISÕES DA CAVE, JUNHO de 1941


Atiram-se socos, a multidão sai das paredes.
Max e o Führer lutam pelas suas vidas,
e ambos fazem ricochete nas escadas.
Há sangue no bigode do Führer, bem
como na risca do cabelo, do lado direito
da cabeça. «Vem cá, Führer», diz o judeu.
Chama-o com um aceno. «Vem cá, Führer.»

Quando as visões se dissiparam e ela terminou a primeira página, o papá piscou-lhe o olho. A mãe
ralhou-lhe por açambarcar a tinta. Max examinou as folhas uma a uma, talvez vendo aquilo que
tencionava produzir nelas. Muitos meses depois, pintaria igualmente a capa daquele livro e dar-lhe-
ia um novo título, inspirado numa das histórias que iria escrever e ilustrar no seu interior.
Nessa tarde, no solo secreto sob o número 33 da Rua Himmel, os Hubermann, Liesel Meminger e
Max Vandenburg prepararam as páginas de A Sacudidora de Palavras.
Era uma sensação agradável ser pintor.

Cartas na mesa: 24 de Junho

Então chegou a sétima face do dado. Dois dias depois de a Alemanha invadir a Rússia. Três dias
antes de a Grã-Bretanha e os soviéticos unirem forças.

Sete.
Atiram-no e vêem-no surgir, compreendendo claramente que este não é um dado normal. Afirmam
que foi pouca sorte, mas sempre souberam que aquilo teria de chegar. Foram vocês que o trouxeram
para a sala. A mesa podia sentir-lhe o cheiro no vosso bafo. Desde o início que o judeu vos saía do
bolso. Espalhou-se-vos para a lapela, e no momento em que lançam o dado, sabem que é um sete
— aquela coisa que há-de arranjar maneira de vos magoar. Aterra. Fita-vos nos olhos, miraculoso e
detestável, e afastam-se com ele a roer-vos o peito.
Apenas pouca sorte.
É o que dizem.
Sem importância.

224

É o que se obrigam a acreditar porque, lá bem no fundo, sabem que esta pequena porção de
mudança na sorte é um sinal de acontecimentos futuros. Escondem um judeu. Pagam. De uma
maneira ou de outra, têm de pagar.

Em retrospectiva, Liesel disse a si própria que aquilo não tivera assim tanta importância. Talvez
porque tantos acontecimentos mais se haviam já dado na época em que ela escreveu a sua história
na cave. No grande esquema das coisas, ela achou que o despedimento de Rosa pelo presidente da
câmara e a mulher não era de todo pouca sorte. Não tinha absolutamente nada a ver com o facto de
esconder um judeu. Tinha tudo a ver com o grande contexto da guerra. Na altura, contudo, houve
definitivamente uma sensação de castigo.
Na realidade, aquilo principiou cerca de uma semana antes de 24 de Junho. Liesel vasculhou o lixo
à procura de um jornal para Max Vandenburg como sempre fazia. Curvou-se para um caixote logo à
saída de Rua de Munique e enfiou-o debaixo do braço. Depois de o ter entregado a Max e ele ter
começado a sua primeira leitura, este olhou para ela e apontou para uma fotografia na primeira
página. — Não é para este que tu levas a roupa lavada e passada?
Liesel afastou-se da parede. Estivera a escrever a palavra discussão seis vezes, ao lado da pintura da
nuvem encordoada e do sol gotejante feita por Max. Max estendeu-lhe o jornal e ela confirmou. —
É sim.
Passando a ler o artigo, viu que citava Heinz Hermann, o presidente da câmara, como tendo
afirmado que, embora a guerra estivesse a progredir esplendidamente, os habitantes de Molching,
como todos os alemães responsáveis, deviam tomar medidas adequadas e preparar-se para a
possibilidade de tempos mais duros. «Nunca se sabe», declarava ele, «o que os nossos inimigos
estão a pensar, ou como tentarão debilitar-nos.»
Uma semana depois, as palavras do presidente da câmara deram frutos desagradáveis. Liesel, como
sempre, apresentou-se em Grande Strasse e leu O Assobiador no chão da biblioteca do presidente
da câmara. A mulher do presidente da câmara não mostrou sinais de anormalidade (ou, sejamos
francos, sinais suplementares) até serem horas de partir.
Dessa vez, ao oferecer O Assobiador a Liesel, insistiu para a rapariga o levar. — Por favor. —
Quase suplicou. O livro encontrava-se preso num punho fortemente cerrado. — Leva-o. Por favor,
leva-o.
Liesel, comovida com a estranheza daquela mulher, não suportou desapontá-la outra vez. O livro
encadernado de cinzento, com as suas páginas amareladas, achou-se na sua mão e ela começou a
percorrer o corredor.

225

Preparava-se para perguntar pela roupa quando a mulher do presidente da câmara lhe lançou um
último olhar de tristeza encoberta. Inclinou-se para as gavetas e retirou um sobrescrito. A voz, rouca
devido à falta de uso, tossiu as palavras. — Lamento. E para a tua mãe.
Liesel parou de respirar.
Sentiu-se de súbito consciente de como os pés pareciam deixar-lhe os sapatos vazios. Algo
escarnecia na sua garganta. Tremia. Ao estender finalmente a mão para tomar posse da carta, notou
o som do relógio na biblioteca. Desanimada, apercebeu-se de que os relógios não emitem um som
que se assemelhe sequer minimamente a tiquetaque. Era mais o som de um martelo, virado ao
contrário, malhando metodicamente a terra. Era o som de uma campa. Se ao menos a minha
estivesse pronta agora, pensou ela... porque nesse momento Liesel Meminger desejou morrer.
Quando os outros haviam cancelado, não doera tanto. Havia sempre o presidente da câmara, a
biblioteca dele, e a sua relação pessoal com a mulher dele. Além disso, este era o último cliente, a
última esperança. Perdidos. Desta vez, ela sentiu aquilo como a maior das traições.
Como poderia enfrentar a sua mãe?
Para Rosa, esses trocos tinham, ainda assim, ajudado de várias maneiras. Uma mão-cheia de farinha
a mais. Um pouco de gordura.
Ilsa Hermann, por sua vez, estava a morrer... por se ver livre dela. Liesel percebia isso pela maneira
como ela aconchegava mais o roupão. O constrangimento do pesar ainda a mantinha muito
próxima, mas era óbvio que desejava pôr fim àquilo. — Diz à tua mãe... — falou novamente. A voz
começava a adaptar-se, passando de uma a duas frases. — Que nós lamentamos. — Começou a
conduzir a rapariga em direcção à porta.
Liesel sentia agora aquilo nos ombros. A dor, o impacto da rejeição final.
E pronto? Perguntou-se ela intimamente. Limitas-te a pôr-me fora com um pontapé?
Lentamente, pegou na saca vazia e dirigiu-se para a porta. Lá fora, voltou-se e encarou a mulher do
presidente da câmara pela segunda e última vez nesse dia. Fitou-a nos olhos com uma espécie de
orgulho quase selvagem. — Danke schön — disse ela, e Ilsa Hermann sorriu com ar impotente,
vencido.
— Se alguma vez quiseres vir apenas ler — mentiu a mulher (ou pelo menos a rapariga, no seu
estado de choque e tristeza, tomou-a como mentira) —, és muito bem-vinda.

226

Nesse instante, Liesel sentiu-se espantada com a largura da porta. Havia tanto espaço. Por que é que
as pessoas precisavam de tanto espaço para passar pela porta? Se Rudy ali estivesse, ter-lhe-ia
chamado idiota
— era para meterem as suas tralhas todas lá dentro.
— Adeus — disse a rapariga, e devagar, com enorme morosidade, a porta fechou-se.

Liesel não partiu.

Durante muito tempo permaneceu sentada nos degraus a contemplar Molching. Não fazia calor
nem frio, e a cidade apresentava-se límpida e imóvel. Molching estava metida numa redoma.
Abriu a carta. Nela, Heinz Hermann, o presidente da câmara, explicava com toda a diplomacia
exactamente por que tinha de acabar com os serviços de Rosa Hubermann. Essencialmente,
esclarecia que seria hipócrita se mantivesse os seus pequenos luxos enquanto aconselhava os outros
a prepararem-se para tempos mais duros.
Quando por fim se ergueu e encaminhou para casa, o momento de reacção surgiu de novo ao avistar
a tabuleta STEINER-SCHNEIDER-MEISTER na Rua de Munique. A tristeza abandonou-a e
sentiu-se dominada pela cólera. — Aquele sacana do presidente da câmara
— murmurou ela. — Aquela mulher patética. — O facto de estarem para vir tempos mais duros era
com certeza a melhor das razões para manterem Rosa empregada, mas não, despediam-na. De
qualquer maneira, decidiu ela, bem podiam lavar e passar a porcaria da sua roupa, como gente
normal. Como gente pobre.
Apertou com mais força O Assobiador.
— E então dá-me o livro — continuou ela — por piedade... para se sentir melhor... — O facto de o
livro lhe ter sido oferecido já antes desse dia pouco importava.
Deu meia-volta, como já acontecera em tempos, e dirigiu-se novamente para o 8 da Grande Strasse.
A tentação de correr era enorme, mas ela reprimiu-se a fim de ter reservas suficientes para as
palavras.
Ao chegar, sentiu-se desapontada por o próprio presidente da câmara ainda lá não se encontrar. Não
havia carro nenhum impecavelmente estacionado na rua, o que era talvez uma coisa boa. Se lá
estivesse, sabe-se lá o que ela lhe poderia ter feito naquele momento de ricos contra pobres.
Aos dois degraus de cada vez, chegou à porta e bateu tão violentamente que magoou o punho
cerrado. Apreciou os pequenos fragmentos de dor.

227

Evidentemente, a mulher do presidente da câmara ficou chocada por a ver de novo. O seu cabelo
lanugento encontrava-se ligeiramente húmido e as rugas acentuaram-se ao notar a fúria óbvia no
rosto geralmente pálido de Liesel. Abriu a boca, mas não saiu nada, o que deu jeito, realmente, pois
era Liesel que possuía a conversa.
— Pensa — atirou ela — que me pode comprar com este livro? — A voz, embora trémula, foi
colar-se à garganta da mulher. Era uma raiva coruscante, espessa e enervante, mas Liesel labutou
através dela. Expandiu-a ainda mais, até ao ponto de precisar de enxugar as lágrimas dos olhos. —
Dá-me este Saumensch deste livro e pensa que isso compõe tudo quando eu for dizer à minha mãe
que acabamos de perder o nosso último cliente? Enquanto fica aqui sentada na sua mansão? Os
braços da mulher do presidente da câmara. Pendurados. A cara a escorregar.
Liesel, todavia, não vergou. Pulverizou as suas palavras directamente sobre os olhos da mulher.
— Você e o seu marido. Sentados aqui em cima. — Agora tornava--se perversa. Mais perversa e
rancorosa do que se julgara capaz.
A injúria das palavras.
Sim, a brutalidade das palavras.
Convocou-as de um lugar de que só agora tomava consciência e atirou-as a Usa Hermann. — De
qualquer forma, é mais que tempo — informou-a ela — de ser você a tratar da sua roupa fedorenta.
E mais que tempo de encarar o facto de o seu filho estar morto. Mataram-no! Foi estrangulado e
retalhado há mais de vinte anos! Ou morreu gelado? Seja como for, está morto! Está morto e é
patético que você fique aqui sentada a tremer de frio na sua própria casa para sofrer por isso. Pensa
que é a única?

Imediatamente.
O irmão surgiu a seu lado.
Segredou-lhe que parasse, mas também ele estava morto, e não valia a pena escutá-lo.
Morrera num comboio. Tinham-no enterrado na neve.

Liesel lançou-lhe um olhar de relance, mas não conseguiu parar. Ainda não.

228

— Este livro — continuou ela. Empurrou o rapaz pelos degraus abaixo, provocando-lhe uma
queda. — Não o quero. — As palavras saíam agora mais baixas, mas ainda com a mesma violência.
Atirou O Assobiador aos pés enfiados em chinelas da mulher, ouvindo o seu baque a aterrar no
cimento. — Não quero o seu livro miserável...
Agora conseguiu. Calou-se.
Agora tinha a garganta estéril. Sem palavras durante quilómetros.
O irmão, agarrado ao joelho, desapareceu.
Após uma pausa abortada, a mulher do presidente da câmara inclinou-se e apanhou o livro. Estava
contundida e maltratada, e desta vez não era por sorrir. Liesel via-o na sua face. O sangue escorria-
lhe do nariz e lambia-lhe os lábios. Os olhos haviam ficado negros. Tinham-se aberto cortes e uma
série de feridas surgia-lhe à superfície da pele. Tudo devido às palavras. Às palavras de Liesel.
De livro na mão, passando de agachada a corcovada, Ilsa Hermann iniciou novamente o processo
de dizer que lamentava, mas a frase não conseguiu sair.
Esbofeteia-me, pensou Liesel. Vamos, esbofeteia-me.
Ilsa Hermann não a esbofeteou. Limitou-se a recuar para o ar pérfido da sua bela casa, e Liesel
ficou outra vez sozinha, pregada aos degraus. Tinha medo de se virar porque sabia que, ao fazê-lo,
encontraria despedaçada a redoma que contivera Molching, e sentir-se-ia satisfeita por isso.

Como último ponto da ordem de trabalhos, ela leu uma vez mais a carta, e ao aproximar-se do
portão amarfanhou-a com toda a força e atirou-a à porta, como se fosse uma pedra. Não faço ideia
do que esperava a rapariga que roubava livros, mas a bola de papel embateu na poderosa placa de
madeira e ressaltou pipilante degraus abaixo. Aterrou aos seus pés.
— Típico — comentou ela, dando-lhe um pontapé para a relva. — Inútil.
De novo a caminho de casa, imaginou o destino daquele papel da próxima vez que chovesse,
quando a remendada redoma de Molching fosse virada ao contrário. Já via as palavras a
dissolverem-se, letra a letra, até não restar nada. Apenas papel. Apenas terra.

Em casa, por azar, Liesel entrou pela porta e deparou com Rosa na cozinha. — E? — perguntou ela.
— Onde está a roupa para lavar?
— Hoje não há — respondeu Liesel.
Rosa foi sentar-se à mesa da cozinha. Percebeu. De repente, pareceu muito mais velha. Liesel
imaginou como ela ficaria se desmanchasse o carrapito, e o deixasse cair-lhe sobre os ombros. Uma
toalha cinzenta de cabelo elástico.

229

— O que é que tu lá fabricaste, minha Saumensch? — Foi uma frase entorpecida. Ela não
conseguiu concentrar o seu habitual veneno.
— A culpa foi minha — declarou Liesel. — Inteiramente. Insultei a mulher do presidente da
câmara e disse-lhe para parar de chorar pelo filho morto. Chamei-lhe patética. Foi nessa altura que
eles a despediram. Tome. — Dirigiu-se às colheres de pau, agarrou em meia dúzia, e pousou-as
diante de Rosa. — Escolha.
Rosa tocou numa e pegou-lhe, mas não a manejou. — Não acredito.
Liesel achava-se dividida entre a perturbação e uma total mistificação. A única vez em que desejava
ardentemente uma Watschen, e não conseguia que lha dessem! — A culpa é minha.
— A culpa não é tua — contrapôs a mãe, e até se levantou para afagar o cabelo pegajoso e sujo de
Liesel. — Eu sei que não dirias coisas dessas.
— Mas disse!
— Está bem, disseste.
Ao sair da sala, Liesel ouviu as colheres de pau a voltarem com um clique à sua posição dentro do
pote de metal. Ao chegar ao seu quarto, todas elas, pote incluído, foram atiradas ao chão.

Mais tarde, desceu à cave e encontrou Max de pé no escuro, muito provavelmente a lutar com o
Fuhrer.
— Max? — A luz surgiu; uma moeda vermelha, a flutuar no canto. — Ensinas-me a fazer
elevações?
Max mostrou-lhe e ocasionalmente erguia-lhe o dorso para ajudar, mas apesar do seu aspecto
esquelético, Liesel era forte e conseguia aguentar perfeitamente o peso do corpo. Não contou a
quantas chegara, mas nessa noite, à luz da cave, a rapariga que roubava livros fez elevações
suficientes para ficar dorida durante vários dias. Mesmo quando Max a avisou de que eram
demasiadas, ela prosseguiu.

Já na cama, leu com o papá, que percebeu haver algo errado. Era a primeira vez desde há um mês
que ele ia sentar-se ao lado dela, e Liesel sentiu-se confortada, se bem que apenas levemente. Fosse
como fosse, Hans Hubermann sabia sempre o que dizer, quando o dizer, e quando a deixar só.
Talvez Liesel fosse a única coisa em que ele era verdadeiramente perito.
— E a roupa? — perguntou ele. Liesel abanou a cabeça.
O papá não se barbeava há alguns dias e coçava os pêlos ásperos a cada dois ou três minutos. Os
seus olhos de prata estavam apáticos e calmos, levemente calorosos, como sempre em se tratando
de Liesel.

230
Quando a leitura foi esmorecendo, o papá adormeceu. Foi então que Liesel disse o que sempre
pretendera dizer.
— Papá — segredou ela —, eu acho que vou para o inferno. Tinha as pernas quentes. Tinha os
joelhos frios.
Recordou as noites em que molhara a cama e o papá lavara os lençóis e lhe ensinara as letras do
alfabeto. Agora o bafo dele percorria o cobertor e ela beijou-lhe a face áspera.
— Precisa de se barbear — disse ela.
— Não vais nada para o inferno — respondeu o papá.
Durante alguns instantes, ela contemplou-lhe o rosto. Depois voltou a deitar-se, encostou-se a ele, e
adormeceram juntos, realmente em Munique, mas algures na sétima face do dado da Alemanha.

231

A JUVENTUDE DE RUDY

No fim, ela foi obrigada a dar-lho. Ele sabia como actuar.

UM RETRATO DE RUDY STEINER


JULHO DE 1941
Pedaços de lama oprimem-lhe a cara. A gravata
é um pêndulo há muito morto no seu relógio.
O luminoso cabelo cor de limão está despenteado
e ele exibe um sorriso triste, absurdo.

Rudy parou a alguns metros do degrau e falou com grande convicção, grande alegria.
— Alles ist Scheisse — anunciou ele.
É tudo uma merda.

Na primeira metade de 1941, enquanto Liesel se dedicava a esconder Max Vandenburg, a roubar
jornais, e a descompor mulheres de presidentes da câmara, Rudy andava a suportar uma nova vida
própria, na Juventude Hitleriana. Desde o início de Fevereiro que ele regressava das reuniões num
estado consideravelmente pior do que quando entrara. Em muitas dessas viagens de volta, Tommy
Müller achava-se a seu lado, nas mesmas condições. O problema tinha três elementos.

UM PROBLEMA EM TRÊS CAMADAS


1. Os ouvidos de Tommy Müller.
2. Franz Deutscher — o irado líder da Juventude Hitleriana.
3. A incapacidade de Rudy para se manter fora das coisas.

232

Se ao menos Tommy Müller não tivesse desaparecido durante sete horas num dos dias mais frios da
história de Munique, seis anos antes. As suas infecções de ouvidos e os nervos danificados
continuavam a distorcer o padrão de marcha na Juventude Hitleriana, o que, posso garantir-lhes,
não era uma coisa positiva.
De início, o impulso do resvalar descendente foi gradual, mas à medida que os meses avançavam,
Tommy foi consistentemente reunindo a ira dos líderes da Juventude Hitleriana, especialmente em
se tratando de marchar. Lembram-se do aniversário de Hitler no ano anterior? Há algum tempo que
as infecções de ouvidos vinham a piorar. Tinham chegado ao ponto de Tommy sentir verdadeiros
problemas de audição. Não conseguia perceber as ordens que eram gritadas ao grupo enquanto este
marchava em fila. Não interessava se era no salão ou no exterior, à neve ou na lama ou com chuva.
O objectivo era sempre levar todos a pararem ao mesmo tempo.
— Um clique! — diziam-lhes. — É só isso que o Führer quer ouvir. Todos unidos. Todos juntos
como um!
E então Tommy.
Era o ouvido esquerdo, creio eu. Era o mais problemático dos dois, e quando o duro grito de
«Haiti» inundava os ouvidos de todos os outros, Tommy continuava a marchar, cómico e incauto.
Era capaz de transformar uma fila de marcha na maior das confusões num abrir e fechar de olhos.
Num certo sábado, no início de Julho, logo a seguir às três e meia e a uma litania de tentativas de
marcha falhadas por inspiração de Tommy, Franz Deutscher (o nome supremo para o adolescente
nazi supremo) achava-se completamente farto.
— Müller, du Affe! — O espesso cabelo louro massajava-lhe o rosto e as palavras manipulavam o
rosto de Tommy. — Seu macaco! O que é que há de errado contigo?
Tommy recuou de ombros descaídos, temeroso, mas a face esquerda ainda conseguiu contorcer-se
num tique maníaco, prazenteiro. Ele pareceu estar não só a rir com um esgar triunfante, como a
receber a repreensão com prazer. E Franz Deutscher não ia tolerar nada disso. Os seus olhos claros
perfuraram-no.
— Então? — interpelou-o ele. — O que tens a dizer em tua defesa? O tique de Tommy acentuou-
se, tanto em rapidez como em
intensidade.
— Estás a gozar-me?
— Heil — contorceu-se Tommy, numa tentativa desesperada de conquistar alguma aprovação, mas
não conseguiu chegar a «Hitler».

233

Foi nessa altura que Rudy avançou. Fitou Franz Deutscher, erguendo os olhos. — Ele tem um
problema...
— Isso vejo eu!
— De ouvidos — concluiu Rudy. — Não consegue...
— Pronto, chega. — Deutscher esfregou as mãos. — Vocês os dois: seis voltas ao terreno. — Eles
obedeceram, mas não suficientemente depressa. — Schnell! — A voz perseguia-os.
Completadas as seis voltas, levaram com alguns exercícios do tipo corram, atirem-se ao chão,
levantem-se, de novo para o chão, e após quinze longuíssimos minutos, foram mandados atirar ao
chão pelo que deveria ter sido a última vez.
Rudy olhou para baixo.
Um deformado círculo de lama fez-lhe de lá uma careta.
Para onde estás tu a olhar?, pareceu aquilo perguntar.
— Para baixo! — mandou Franz.
Rudy, naturalmente, saltou por cima da lama, e deixou-se cair sobre o estômago.
— Para cima! — Franz sorria. — Um passo atrás. — Os rapazes obedeceram. — Para baixo!
A mensagem era clara e agora Rudy aceitou-a. Mergulhou na lama e susteve a respiração, e nesse
momento, estendido com o ouvido encostado à terra encharcada, o treino terminou.
— Vielen Dank, meine Herren — disse delicadamente Franz Deutscher. — Muito obrigado,
cavalheiros.
Rudy pôs-se de joelhos, fez um pouco de jardinagem no ouvido, e olhou para Tommy.
Tommy fechou os olhos e teve um tique.
Nesse dia, ao chegarem à Rua Himmel, Liesel estava a jogar à macaca com alguns dos garotos mais
novos, ainda com a farda da BDM vestida. Pelo canto do olho, viu as duas figuras melancólicas
caminharem para si. Uma delas chamou-a.
Encontraram-se no degrau da frente da caixa de sapatos de cimento a que os Steiner chamavam
casa, e Rudy contou-lhe pormenorizadamente o episódio do dia.
Ao fim de dez minutos, Liesel sentou-se.
Ao fim de onze minutos, Tommy, que estava sentado ao lado dela, disse: — E tudo por minha
culpa. — Mas Rudy calou-o com um gesto, algures entre uma frase e um sorriso, enquanto
esfarelava com o dedo um pedaço de lama. — É por minha... — tentou Tommy de novo, mas Rudy
interrompeu completamente a frase e apontou para ele.

234

— Tommy, por favor. — Havia na cara de Rudy uma estranha expressão de contentamento. Liesel
nunca vira ninguém com ar tão desgraçado e contudo tão entusiasticamente vivo. — Limita-te a
ficar aí sentado e... faz um tique... ou qualquer coisa. — E prosseguiu com a história.
Ele andou de um lado para o outro. Ele lutou com a gravata.
As palavras eram atiradas a Liesel, aterrando algures no degrau de cimento.
— Aquele Deutscher — concluiu ele, animadamente. — Lixou-nos, hem, Tommy?
Tommy acenou afirmativamente, teve um tique e falou, não necessariamente por esta ordem. — Foi
por minha causa.
— Tommy, o que é que eu disse?
— Quando?
— Agora! Vê lá se te calas.
— Está bem, Rudy.

Quando pouco depois Tommy se encaminhou tristemente para casa, Rudy tentou o que lhe pareceu
uma nova táctica magistral.
Compaixão.
Ainda no degrau, examinou a lama que secara como uma crosta dura sobre a sua farda, e depois
fitou Liesel com ar indefeso. — E então, Saumensch?
— Então o quê?
— Tu sabes...
Liesel respondeu da maneira habitual.
— Saukerl — riu-se e percorreu a curta distância até casa. Uma mistura desconcertante de lama e
compaixão era uma coisa, mas beijar Rudy Steiner era outra coisa completamente diferente.
A sorrir, melancólico, no degrau, ele gritou, passando a mão pelo cabelo. — Um dia — avisou ele.
— Um dia, Liesel!

Na cave, decorridos pouco mais de dois anos, Liesel ansiava por vezes ir à casa ao lado vê-lo,
mesmo se estivesse a escrever a altas horas da madrugada. Apercebia-se também de que,
provavelmente, tinham sido esses dias encharcados na Juventude Hitleriana que haviam alimentado
o desejo de crime dele, e subsequentemente o dela. O Afinal, apesar dos usuais aguaceiros, o Verão
começava a chegar devidamente. As maçãs Klar deviam estar a amadurecer. Havia mais roubos a
cometer.

235

OS VENCIDOS
No que dizia respeito a roubos, Liesel e Rudy começaram por se agarrar à ideia de que a união faz a
força. Andy Schmeikl convidou-os para uma reunião na margem do rio. Entre outras coisas, faria
parte da agenda um plano para roubar fruta.
— Então agora és tu o líder? — perguntara Rudy, mas Andy abanara a cabeça, desapontado. Era
óbvio que desejaria ter-se mostrado à altura.
— Não. — A voz estava invulgarmente calorosa. Semipassada. — Há outra pessoa.

O NOVO ARTHUR BERG


Tinha cabelo esvoaçante e olhos sombrios,
e era o género de delinquente
que não tinha outra razão para
roubar excepto gostar de o fazer.
Chamava-se Viktor Chemmel.

Ao contrário da maioria das pessoas que se dedicavam às diferentes artes do roubo, Viktor
Chemmel tinha tudo. Vivia na melhor zona de Molching, numa mansão da parte alta que havia sido
fumigada quando os judeus foram expulsos. Tinha dinheiro. Tinha cigarros. O que ele queria,
contudo, era mais.
— Não é crime querer um pouco mais — afirmava ele, estendido
na relva com um grupo de rapazes reunidos à sua volta. — Querer mais é nosso direito fundamental
de alemães. O que é que diz o nosso Führer? — Respondeu à sua própria retórica. — Devemos
apoderar--nos daquilo que é legitimamente nosso!
À primeira vista, Viktor Chemmel era claramente o típico adolescente fanfarrão. Infelizmente,
quando lhe apetecia exibi-lo, possuía igualmente um certo carisma, uma espécie de segue-me.

236

Quando Liesel e Rudy se acercaram do grupo junto ao rio, ela ouviu-o fazer nova pergunta. —
Então onde é que estão esses dois divergentes que vocês têm andado a gabar? Já são quatro e dez.
— Não pelo meu relógio — disse Rudy.
Viktor Chemmel soergueu-se, apoiado no cotovelo. — Tu não trazes relógio.
— Achas que estaria aqui se fosse suficientemente rico para ter relógio?
O novo líder endireitou-se totalmente e sorriu, com impecáveis dentes brancos. Depois virou o seu
olhar casual para a rapariga. — Quem é a pegazita? — Liesel, muito habituada a injúrias verbais,
limitou-se a fitar a textura baça dos seus olhos.
— No ano passado — enumerou ela —, roubei pelo menos trezentas maçãs e dúzias de batatas. As
cercas de arame farpado não me embaraçam e consigo acompanhar qualquer um dos que aqui
estão.
— Palavra?
— Sim. — Não se acanhou nem se desviou. — Só peço uma pequena parte daquilo que
conseguirmos. Uma dúzia de maçãs aqui e além. Alguns restos para mim e para o meu amigo.
— Bem, creio que isso se pode arranjar. — Viktor acendeu um cigarro e levou-o aos lábios.
Esforçou-se deliberadamente por expelir a baforada seguinte em cheio na cara de Liesel.
Liesel não tossiu.

Era o mesmo grupo do ano anterior, com a única excepção do líder. Liesel perguntou-se por que
não teria nenhum dos outros rapazes assumido a direcção, mas olhando de cara para cara,
compreendeu que nenhum deles tinha garra para isso. Não sentiam escrúpulos em roubar, mas
precisavam de ser mandados. Gostavam de ser mandados, e Viktor Chemmel gostava de ser o que
manda. Era um microcosmos confortável.
Por instantes, Liesel desejou o reaparecimento de Arthur Berg. Ou teria ele caído também sob a
liderança de Chemmel? Não interessava. Liesel sabia apenas que Arthur Berg não possuía um único
osso tirânico no seu corpo, ao passo que o novo líder tinha centenas. O ano passado, sabia que se
ficasse presa numa árvore, Arthur retrocederia para a ajudar, apesar das suas afirmações em
contrário. Este ano, em compensação, percebeu imediatamente que Viktor Chemmel nem sequer se
daria ao trabalho de olhar para trás.
Ele ergueu-se, fitando o rapaz esgalgado e a rapariga de aspecto malnutrido. — Portanto querem vir
roubar comigo?

237

Que tinham eles a perder? Acenaram afirmativamente. O outro aproximou-se mais e agarrou no
cabelo de Rudy. — Quero ouvir.
— Definitivamente — disse Rudy, antes de ser empurrado para trás, pela franja.
— E tu?
— Claro. — Liesel foi suficientemente rápida para evitar o mesmo tratamento.
Viktor sorriu. Esmagou o cigarro, inspirou profundamente e coçou o peito. — Cavalheiros,
pegazita, parece-me que é altura de irmos às compras.
Enquanto o grupo se punha em marcha, Liesel e Rudy seguiram na retaguarda, como sempre
haviam feito no passado.
— Gostas dele? — segredou Rudy.
— Tu gostas?
Rudy fez uma pequena pausa. — Acho-o um sacana completo.
— Eu também.
O grupo estava a afastar-se.
— Anda lá — incitou Rudy —, estamos a ficar para trás.

Ao cabo de alguns quilómetros chegaram à primeira quinta. Acolheu-os um choque. As árvores,


que haviam imaginado repletas de fruta, mostravam-se débeis e com aspecto danificado, com uma
meia dúzia de maçãs pendendo miseravelmente de cada ramo. A quinta seguinte encontrava-se na
mesma. Talvez fosse uma época má, ou a altura escolhida não estava certa.
Ao final da tarde, quando os despojos foram divididos, Liesel e Rudy receberam uma maçã
diminuta para os dois. Para ser justa, a captura fora incrivelmente parca, mas Viktor Chemmel
também reinava com mão de ferro.
— O que chamas tu a isto? — perguntou Rudy, com a maçã na palma da mão.
Viktor nem sequer se virou. — O que é que te parece? — As palavras foram atiradas por cima do
ombro.
— Uma miserável maçã?
— Toma. — Uma outra semicomida foi igualmente lançada na direcção deles, aterrando com o
lado dentado na terra. — Podes ficar também com essa.
Rudy explodiu. — Cos diabos! Nós não andámos quinze quilómetros para ficar com uma raquítica
maçã e meia, pois não, Liesel? Liesel não respondeu.

238

Não teve tempo, porque Viktor Chemmel saltara para cima de Rudy antes de ela conseguir proferir
uma palavra. Os joelhos imobilizaram os braços de Rudy e as mãos rodearam-lhe a garganta. As
maçãs foram guardadas nada menos que por Andy Schmeikl, por ordem de Viktor.
— Estás a magoá-lo — observou Liesel.
— Estou? — Viktor sorria novamente. Ela detestava aquele sorriso.
— Ele não me está a magoar. — As palavras de Rudy saíram precipitadamente e ele tinha a cara
congestionada pelo esforço. O nariz começou a sangrar.
Após um prolongado instante de pressão acrescida, Viktor largou Rudy e saiu de cima dele com
algumas passadas displicentes.
— Levanta-te, rapaz — mandou ele; e Rudy, sensatamente, optou por fazer o que lhe diziam.
Viktor aproximou-se de novo casualmente e fitou-o. Passou-lhe levemente a mão pelo braço. E
sussurrou: — A menos que queiras que eu transforme esse sangue numa fonte, sugiro que te raspes,
rapazinho.
— Olhou para Liesel. — E leva a rameirazita contigo. Ninguém se moveu.
— Então, de que é que estão à espera?
Liesel deu a mão a Rudy e partiram, mas não antes de Rudy se voltar uma última vez e cuspir
sangue e saliva aos pés de Viktor Chemmel. O que provocou uma observação final.

UMA PEQUENA AMEAÇA DE


VIKTOR CHEMMEL A RUDY STEINER
«Hás-de pagar por isso mais tarde, meu amigo.»

Diga-se o que se disser acerca de Viktor Chemmel, o certo é que ele tinha paciência e boa memória.
Levou aproximadamente cinco meses a transformar essa declaração numa verdade.

239

ESBOÇOS
Se o Verão de 1941 estava a cerrar-se em redor de pessoas como Rudy e Liesel, esse mesmo Verão
estava a escrever-se e a pintar-se a si próprio na vida de Max Vandenburg. Nos seus momentos mais
solitários, na cave, as palavras começaram a amontoar-se à volta de Max. As visões começaram a
extravasar e a tombar e, ocasionalmente, a manquejar das suas mãos para fora.
Max possuía aquilo a que chamava apenas uma pequena ração de ferramentas:
Um livro pintado.
Uma mão-cheia de lápis.
Uma cabeça cheia de pensamentos.
Como num simples puzzle, ele juntou-os.

Originalmente, Max tencionara escrever a sua própria história.


A ideia era escrever acerca de tudo o que lhe acontecera — tudo o que o levara até uma cave da
Rua Himmel — mas não foi isso que saiu. O exílio de Max produziu algo inteiramente diferente.
Era uma colecção de pensamentos aleatórios e ele optou por os acolher. Davam a sensação de ser
verdade. Eram mais reais do que as cartas que ele escrevia à família e ao seu amigo Walter Kugler,
sabendo bem que nunca as poderia enviar. As folhas profanadas de Mein Kampf começavam,
página após página, a transformar-se numa série de esboços que, para ele, resumiam os
acontecimentos que tinham trocado a sua vida anterior por uma outra. Alguns demoravam minutos.
Outros, horas. Resolveu que, depois de concluir o livro, o ofereceria a Liesel, quando ela tivesse
idade suficiente e, esperava-se, todo aquele disparate tivesse terminado.
A partir do momento em que experimentou os lápis na primeira página pintada, conservou o livro
próximo de si a todas as horas.

240

Frequentemente, tinha-o a seu lado ou ainda nos dedos enquanto dormia. Uma tarde, após as uas
elevações e flexões, adormeceu encostado à parede da cave. Ao descer, Liesel encontrou o livro
pousado ao lado dele, inclinado sobre a coxa, e a curiosidade venceu-a. Inclinou-se e pegou--lhe,
esperando que ele despertasse. Mas não. Max estava sentado com a cabeça e os ombros apoiados à
parede. Ela mal conseguia ouvir-lhe a respiração, inalar, exalar, enquanto abria o livro e lançava
uma vista de olhos por algumas páginas ao acaso...

241

<Páginas 242 e 243 – Imagens>

Assustada com o que viu, Liesel voltou a pousar o livro, exactamente como o encontrara, contra a
perna de Max. Sobressaltou-a uma voz.
— Danke schön — disse a voz, e quando Liesel olhou, seguindo o rasto do som até ao dono, os
seus lábios judeus exibiam um pequeno
sinal de satisfação.
— Jesus Cristo — exclamou Liesel, ofegante. — Assustaste-me,
Max.
Ele voltou ao seu sono, e a rapariga arrastou o pensamento atrás de
si, pelos degraus acima. Assustaste-me, Max.

244

O ASSOBIADOR E OS SAPATOS
Durante o fim do Verão e até meados do Outono prolongou-se o mesmo padrão. Rudy esforçava-se
por sobreviver à Juventude Hitleriana. Max fazia as suas elevações e os seus esboços. Liesel
descobria jornais e escrevia as suas palavras na parede da cave.
Vale a pena referir que todos os padrões possuem, pelo menos, um leve enviesado, que um dia
tropeça ou passa de uma página para outra. Neste caso, o factor dominante foi Rudy. Ou, pelo
menos, Rudy e um campo desportivo recentemente adubado.
Em finais de Outubro, tudo parecia decorrer como era habitual. Um rapaz imundo descia a Rua
Himmel. A família esperava a sua chegada daí a uns minutos, e ele mentiria dizendo que toda a sua
divisão da Juventude Hitleriana tivera de executar treinos suplementares no campo. Os pais
esperariam mesmo algumas risadas. Não as obtiveram.
Nesse dia, Rudy esgotara o riso e as mentiras.
Naquela quarta-feira específica, Liesel, olhando com mais atenção, viu que Rudy Steiner estava
sem camisa. E furioso.
— O que é que te aconteceu? — indagou ela, vendo-o seguir a arrastar os pés.
Rudy voltou atrás e estendeu-lhe a camisa. — Cheira — disse ele.
— O quê?
— Estás surda? Cheira.
Relutantemente, Liesel inclinou-se e apanhou uma nauseabunda baforada da peça castanha. —
Jesus, Maria e José! Isso é...?
O rapaz anuiu. — E também tenho no queixo. No queixo! Muita sorte não a ter engolido!
— Jesus, Maria e José!

245

— O campo na Juventude Hitleriana acabou de ser adubado. — Examinou novamente a camisa


com ar frio e enojado. — É esterco de vaca, acho eu.
— O como-é-que-ele-se-chama... Deutscher, sabia disso?
— Ele diz que não. Mas estava a sorrir.
— Jesus, Maria e...
— Queres parar com isso?!

Do que Rudy precisava nessa altura era de uma vitória. Tinha perdido nas suas negociatas com
Viktor Chemmel. Suportara problemas uns atrás dos outros na Juventude Hitleriana. Tudo o que
queria era um pequeno fragmento de triunfo, e estava decidido a obtê-lo.
Prosseguiu o seu caminho para casa mas, ao chegar ao degrau de cimento, mudou de ideias e
regressou lenta e deliberadamente para
junto da rapariga.
Falou em voz baixa e comedida. — Sabes o que me animaria?
Liesel arrepiou-se. — Se julgas que eu vou... nesse estado...
Ele pareceu desapontado com ela. — Não, não é isso. — Suspirou e aproximou-se mais. — É outra
coisa. — Após um instante de meditação, levantou ligeiramente a cabeça. — Olha para mim. Estou
imundo. Cheiro a merda de vaca, ou a merda de cão, como prefiras e, como habitualmente, estou a
morrer de fome. — Fez uma pausa. — Preciso de ganhar, Liesel. Palavra. Liesel sabia. E ter-se-ia
aproximado mais dele se não fosse o cheiro.
Roubar.
Tinham de roubar qualquer coisa.
Não.
Tinham de roubar qualquer coisa e conservá-la. Não interessava o
quê. Só precisava de ser em breve.
— Só tu e eu desta vez — sugeriu Rudy. — Nada de Chemmels, nem Schmeikls. Só tu e eu.
A rapariga não conseguiu resistir.
Sentiu picadas nas mãos, o pulso acelerado, e um sorriso nos lábios, tudo ao mesmo tempo. —
Acho bem.
— Então está combinado. — E embora se esforçasse, Rudy não foi capaz de ocultar o sorriso
adubado que lhe iluminou a cara. — Amanhã?
Liesel anuiu. — Amanhã.

O plano era perfeito, excepto numa coisa.


Eles não faziam ideia por onde começar.

246

A fruta estava fora de questão. Rudy franziu o nariz a cebolas e batatas, e recusaram ambos nova
tentativa aos míseros produtos da quinta de Otto Sturm. Uma vez era imoral. Duas era uma pulhice
completa.
— Então onde diabo havemos de ir? — perguntou Rudy.
— Como é que eu hei-de saber? A ideia foi tua, não foi?
— Isso não quer dizer que tu não possas também pensar um bocadinho. Não posso ser eu a pensar
em tudo.
— Tu nem consegues pensar em nada...
Discutiram enquanto atravessavam a cidade. Nos arredores, avistaram a primeira quinta e as
árvores erguendo-se como estátuas descarnadas. Os ramos estavam cinzentos e erguendo os olhos
para eles, não viram senão troncos e céu vazio.
Rudy cuspiu.

Regressaram atravessando Molching e fazendo sugestões.


— E a Frau Diller?
— O que tem ela?
— Talvez se dissermos «heil Hitler» e depois roubarmos qualquer coisa nos safemos.
Após vaguearem pela Rua de Munique durante cerca de uma hora, a claridade começou a diminuir
e eles estavam prestes a desistir. — Não adianta — declarou Rudy —, e estou mais faminto do que
nunca. Pelo amor de Deus, morro de fome. — Deu mais alguns passos antes de parar e olhar para
trás. — O que é que te deu? — porque Liesel encontrava-se completamente imóvel, com um ar de
iluminação estampado na cara.
Por que não pensara ela naquilo antes?
— O que foi? — Rudy começava a ficar impaciente. — Saumensch, o que é que há?
Nesse preciso momento, Liesel debatia-se com uma decisão. Conseguiria realmente concretizar
aquilo em que estava a pensar? Poderia realmente procurar vingar-se numa pessoa como aquela?
Poderia desprezar alguém assim tanto?
Começou a andar na direcção oposta. Quando Rudy a alcançou, abrandou um pouco na esperança
vã de conseguir ver com um bocado mais de clareza. Afinal, a culpa já se instalara. Era húmida. A
semente irrompia já numa flor de folhas negras. Ponderou se poderia realmente ir com aquilo para
diante. No cruzamento, estacou.
— Conheço um sítio.

Atravessaram o rio e subiram a colina.

247

Em Grande Strasse, contemplaram o esplendor das casas. As portas de entrada reluziam de verniz, e
as telhas assentavam como perucas, impecavelmente penteadas. As paredes e as janelas tinham ido
à manicura e as chaminés quase expeliam círculos de fumo.
Rudy cravou os pés no chão. — A casa do presidente da câmara?
Liesel acenou afirmativamente, muito séria. Pausa. — Eles despediram a mãe.
Ao virarem em direcção à casa, Rudy perguntou como raio é que iam entrar, mas Liesel sabia. —
Conhecimento local — respondeu ela.
— Conheci... — Mas, avistando a janela da biblioteca na outra ponta do edifício, sentiu um
choque. A janela estava fechada.
— Então? — indagou Rudy.
Liesel virou-se devagar e afastou-se rapidamente. — Hoje não — disse ela. Rudy riu-se.
— Eu sabia. — Alcançou-a. — Eu sabia, minha Saumensch safada. Tu não eras capaz de ali entrar
mesmo que tivesses a chave.
— Importas-te? — Apressou ainda mais o passo e ignorou o comentário de Rudy. — Só temos de
esperar pela oportunidade certa.
— Intimamente, tentou afastar uma espécie de satisfação por a janela se encontrar fechada.
Censurou-se. Porquê, Liesel? Indagou ela. Por que tinhas tu de explodir quando eles dispensaram a
mãe? Por que não foste capaz de calar essa boca grande? Tanto quanto sabes, depois do que tu lhe
gritaste, a mulher do presidente da câmara estará agora completamente reformada. Talvez ela se
tenha corrigido, se tenha controlado. Talvez nunca mais se deixe ficar a tremer de frio naquela casa
e a janela continue fechada para sempre... Saumensch estúpida!

Todavia, uma semana depois, na sua quinta visita à parte elegante de Molching, lá estava.
A janela aberta inspirava uma fatia de ar. Era tudo o que eles precisavam.

Rudy foi o primeiro a parar. Deu uma palmada nas costelas de Liesel, com as costas da mão. —
Aquela janela está aberta? — segredou ele. A ansiedade da sua voz debruçou-se da sua boca, como
um braço por cima do ombro de Liesel.
— Jawohl — respondeu ela. — Sem dúvida. E o seu coração começou a aquecer.
Nas ocasiões precedentes, em que haviam encontrado a janela firmemente cerrada, o
desapontamento exterior de Liesel ocultara um violento alívio.

248

Será que ela se teria atrevido a entrar? E, de facto, por quem e por quê ia ela entrar? Por Rudy?
Para encontrar comida?
Não, a repugnante verdade era esta:
A comida não lhe interessava. Rudy, por muito que ela tentasse resistir à ideia, ocupava um lugar
secundário no seu plano. O que ela queria era o livro. O Assobiador. Não toleraria que ele lhe fosse
oferecido por uma velha mulher solitária, patética. Roubá-lo, por outro lado, parecia-lhe um pouco
mais aceitável. Roubá-lo, num certo sentido doentio, era como ganhá-lo.

A luz mudava em blocos de tonalidade.


O par gravitou em direcção à enorme casa imaculada. Sussurraram os seus pensamentos.
— Tens fome? — perguntou Rudy.
Liesel replicou. — Estou a morrer. — Por um livro.
— Olha... acendeu-se uma luz lá em cima.
— Estou a ver.
— Continuas com fome, Saumensch?
Riram, nervosos, durante instantes, antes de discutirem quem deveria entrar e quem deveria ficar de
vigia. Sendo o elemento masculino da operação, Rudy achava indiscutivelmente que devia ser ele o
agressor, mas era óbvio que Liesel conhecia aquele lugar. Seria ela a entrar. Ela sabia o que havia
do outro lado da janela.
Ela disse-o. — Tenho de ser eu.

Liesel fechou os olhos. Com força.


Obrigou-se a recordar, a ver imagens do presidente da câmara e da mulher. Observou a sua amizade
com Ilsa Hermann a crescer e certificou-se de que a via igualmente levar um pontapé nas canelas e
ser abandonada à beira da estrada. Funcionou. Liesel detestava-os.

Examinaram a rua e atravessaram o pátio em silêncio. Agora encontravam-se agachados por baixo
da fresta da janela do rés-do-chão. O som das suas respirações amplificou-se.
— Olha — sugeriu Rudy —, dá cá os teus sapatos. Fazes menos barulho.
Sem protestar, Liesel desapertou os puídos atacadores pretos e deixou os sapatos no solo. Ergueu-se
e Rudy abriu suavemente a janela apenas o suficiente para ela se esgueirar. O ruído passou-lhes por
cima, como um avião a voar baixo.

249

Liesel içou-se até ao parapeito e espremeu-se para entrar. Descalçar os sapatos fora uma ideia
brilhante, percebeu ela ao aterrar no chão de madeira com muito mais força do que tencionara. As
solas dos pés expandiram-se daquela forma dolorosa que parece levá-las a subir até às extremidades
interiores das meias.
A sala em si encontrava-se como sempre.
Liesel, na penumbra poeirenta, sacudiu o seu sentimento de nostalgia. Avançou prudentemente e
deixou que os olhos se adaptassem.
— O que é que estás a fazer? — murmurou Rudy, asperamente, lá de fora, mas ela fez-lhe um sinal
com a mão para trás que significava Halt's Maul. Está calado.
— A comida — recordou-lhe ele. — Descobre a comida. E cigarros, se puderes.
Qualquer desses artigos, no entanto, era a última coisa em que ela pensava. Sentia-se em casa, no
meio dos livros do presidente da câmara, de todas as cores e feitios, com os seus títulos prateados e
dourados. Sentia o cheiro das páginas. Quase podia saborear as palavras amontoadas à sua volta. Os
pés levaram-na à parede do lado direito. Ela sabia aquele que queria — a sua posição exacta —,
mas quando chegou ao sítio habitual de 0 Assobiador na prateleira, ele não estava lá. Em seu lugar
havia um pequeno espaço.
Ouviu passos, vindos lá de cima.
— A luz! — segredou Rudy. As palavras foram sopradas pela janela aberta. — Apagou-se!
— Scbeisse.
— Eles vêm para baixo.
Nessa altura houve um momento de dimensão gigantesca, a eternidade de uma decisão instantânea.
Os olhos dela perscrutaram a sala e descobriu 0 Assobiador, pacientemente sentado na secretária do
presidente da câmara.
— Despacha-te — avisou-a Rudy. Mas com toda a calma e destreza, Liesel aproximou-se, pegou
no livro e dirigiu-se cautelosamente para fora. De cabeça para a frente, trepou pela janela e
conseguiu voltar a aterrar de pé, sentindo uma vez mais a dor, dessa vez nos tornozelos.
— Anda lá — implorou Rudy. — Corre, corre. Schnell! Passada a esquina, na rua que descia até ao
rio e à Rua de Munique,
ela parou e inclinou-se para recuperar o fôlego. Tinha o corpo dobrado ao meio, o ar semigelado na
boca, o coração a martelar nos ouvidos. Rudy estava na mesma.

250

Ao erguer os olhos, ele viu-lhe o livro debaixo do braço. Esforçou--se por falar. — O que —
debatia-se com as palavras — há com o livro?
A escuridão caía agora verdadeiramente. Liesel ofegava, o ar na garganta começava a descongelar.
— Foi tudo o que consegui encontrar.
Infelizmente, Rudy sentiu-lhe o cheiro. A mentira. Inclinou a cabeça e disse-lhe aquilo que
considerou como um facto. — Tu não foste lá à procura de comida, pois não? Conseguiste aquilo
que querias...
Nessa altura, Liesel endireitou-se e inundou-a a náusea de outra percepção.
Os sapatos.
Olhou para os pés de Rudy, depois para as mãos dele, e o solo em seu redor.
— O quê? — perguntou ele. — O que foi?
— Saukerl — acusou-o ela. — Onde estão os meus sapatos? — A cara de Rudy adquiriu uma
tonalidade lívida, não deixando margem para dúvidas. — Ficaram lá, ao pé da casa — sugeriu ela
—, não ficaram?
Rudy procurou desesperadamente à sua volta, rezando para que, apesar da realidade, os pudesse ter
trazido consigo. Imaginou-se a pegar neles, desejando que fosse verdade, mas os sapatos não
estavam ali. Estavam pousados inúteis ou, na realidade, pior ainda, incriminatórios, junto à parede
do 8 da Grande Strasse.
— Dummkopf! — repreendeu-o ela, dando-lhe uma palmada na orelha. Ele baixou os olhos,
envergonhado perante a soturna visão das meias de Liesel. — Idiota! — Não demorou muito até
decidir rectificar as coisas. — Espera aí — mandou ele, convicto, e dobrou novamente a esquina
apressado.
— Não te deixes apanhar — gritou Liesel, mas ele nãq ouviu.

Os minutos pesaram enquanto ele se ausentou. A escuridão era agora total e Liesel tinha a certeza
absoluta de que o mais provável era aguardá-la uma Watschen ao chegar a casa.
— Despacha-te — murmurou ela, mas Rudy continuava a não aparecer. Imaginou o som de uma
sirene da polícia a furar o ar e a calar-se. A recompor-se.
Ainda nada.
Só ao caminhar até ao cruzamento das duas ruas, apenas com as suas meias húmidas e sujas é que o
avistou. Rudy trazia o rosto triunfante bem levantado enquanto trotava seguramente na sua
direcção.

251

Os dentes vinham arreganhados num sorriso, e os sapatos pendiam-lhe da mão. — Eles quase me
mataram — disse ele —, mas consegui.
— Depois de atravessarem o rio, entregou os sapatos a Liesel e ela atirou-os para baixo.
Sentada no chão, ergueu os olhos para o seu melhor amigo. — Danke.
— Obrigada.
Rudy fez-lhe uma vénia. — O prazer foi meu. — Tentou algo mais.
— Suponho que não adianta perguntar se recebo um beijo por isso?
— Por trazeres os meus sapatos, que tu lá deixaste ficar?
— É justo. — Levantou as mãos e continuou a falar enquanto caminhavam, ao passo que Liesel se
esforçava por o ignorar. Ouviu apenas a última parte. — Provavelmente nem sequer te quereria
beijar... se o teu hálito se parece com os teus sapatos.
— Metes-me nojo — informou-o ela, esperando que Rudy não conseguisse ver o início de um
sorriso que se lhe escapara dos lábios.

Na Rua Himmel, Rudy agarrou no livro. Debaixo de um candeeiro, leu o título e perguntou de que
tratava.
Sonhadoramente, Liesel respondeu. — Apenas de um assassino.
— Só isso?
— Há também um polícia a tentar apanhá-lo.
Rudy devolveu-lho. — A propósito, acho que estamos os dois feitos quando chegarmos a casa.
Principalmente tu.
— Porquê eu?
— Tu sabes... a tua mãe.
— O que é que tem? — Liesel exercia o direito flagrante de todas as pessoas que já pertenceram a
uma família. Está muito bem para essas pessoas lamentarem-se, queixarem-se e criticarem outros
membros da família, mas não deixam que mais ninguém o faça. É nessa altura que endireitam as
costas e mostram a sua lealdade. — Alguma coisa de errado com ela?
Rudy recuou. — Desculpa, Saumensch. Não te quis ofender.
Mesmo sendo noite, Liesel via que Rudy estava a crescer. O seu rosto alongava-se. O emaranhado
de cabelo louro escurecia ligeiramente e as suas feições pareciam estar a mudar de forma. Mas
havia uma coisa que nunca mudaria. Era impossível ficar muito tempo
zangada com ele.
— Alguma coisa boa para comer esta noite em tua casa? — indagou ele.
— Duvido.
— Na minha também não. É uma pena não se poder comer livros. O Arthur Berg disse uma coisa
nesse género uma vez. Lembras-te?

252

Recordaram os bons velhos tempos durante o resto do caminho, enquanto Liesel ia lançando
olhares a O Assobiador, à capa cinzenta e ao título gravado a preto.
Antes de se dirigirem às respectivas casas, Rudy parou um instante e disse: — Adeus, Saumensch.
— Riu-se. — Boa noite, rapariga que rouba livros.
Era a primeira vez que Liesel se via rotulada com o seu título, e não conseguiu ocultar o facto de
ele lhe agradar imenso. Como ambos sabemos, ela já anteriormente roubara livros mas, em finais
de Outubro de 1941, tornou-se oficial. Nessa noite, Liesel Meminger tornou-se realmente a rapariga
que roubava livros.

253

TRÊS ACTOS DE ESTUPIDEZ DE RUDY STEINER

RUDY STEINER, GÉNIO PURO


1. Roubar a batata maior da Mamer's, a mercearia local.
2. Atacar Franz Deutscher na Rua de Munique.
3. Faltar a todas as reuniões da Juventude Hitleriana.

O problema do primeiro acto de Rudy foi a ganância. Era uma típica tarde sombria, em meados de
Novembro de 1941.
Antes, furara pelo meio das mulheres com os seus cupões de forma brilhante, quase, atrevo-me a
dizer, com um toque de génio criminal. Quase passou totalmente despercebido.
Apesar dessa discrição, contudo, conseguiu deitar a mão à maior batata do monte, a mesma que
diversas pessoas da fila tinham debaixo de olho. Todas elas olharam quando um pulso de treze anos
se estendeu e a agarrou. Um coro de robustas Helgas apontou-o a dedo, e Thomas Mamer veio que
nem um furacão até junto do seu fruto sujo.

— Meine Erdäpfel — exclamou ele. — As minhas maçãs da terra. A batata continuava nas mãos
de Rudy (não conseguia segurá-la só com uma), e as mulheres juntaram-se à sua volta como um
grupo de lutadores. Era preciso falar depressa.
— A minha família — explicou Rudy. Um conveniente regato de fluido claro começou a pingar-
lhe do nariz. Ele fez questão de não o limpar. — Estamos todos a morrer de fome. A minha irmã
precisa de um casaco novo. Roubaram-lhe o outro.
Mamer não era parvo. Ainda a segurar Rudy pelo colarinho, disse: — E tencionas vesti-la com uma
batata?

254

— Não, senhor. — Lançou um relance em diagonal para o único olho do seu captor que conseguia
ver. Mamer era um homem com a constituição de um barril, e dois pequenos buracos de bala para
olhar para fora. Os dentes assemelhavam-se a uma multidão amontoada. — Nós trocámos todos os
nossos pontos pelo casaco há três semanas e agora não temos nada que comer.
O merceeiro segurou Rudy com uma das mãos e a batata com a outra. E gritou à mulher a palavra
aterradora. — Polizei.
— Não — implorou Rudy —, por favor. — Mais tarde contaria a Liesel que não sentira medo
nenhum, mas nesse instante o seu coração parecia prestes a rebentar, tenho a certeza. — A polícia
não. Por favor, a polícia não.
— Polizei. — Mamer permaneceu inflexível enquanto o rapaz se debatia e esbracejava no ar.
Igualmente na fila nessa tarde, encontrava-se um professor, Herr Link. Fazia parte da percentagem
de professores da escola que não eram nem padres nem freiras. Rudy descobriu-o e atrelou-se-lhe
aos olhos.
— Herr Link. — Era a sua última oportunidade. — Herr Link, diga-lhe, por favor. Diga-lhe como
eu sou pobre.
O merceeiro fitou o professor com um olhar inquisitivo.
Herr Link deu um passo em frente e confirmou: — Sim, Herr Mamer. Este rapaz é pobre. É da Rua
Himmel. — Nessa altura a multidão, predominantemente feminina, conferenciou, sabendo que a
Rua Himmel não era exactamente o epítome da vida idílica em Molching. Era bem conhecida como
sendo uma zona relativamente pobre. — Ele tem oito irmãos e irmãs.
Oito!
Rudy teve de disfarçar um sorriso, apesar de ainda não estar safo. Pelo menos já pusera o professor
a mentir. Este conseguira adicionar mais três crianças à família Steiner.
— É frequente ele ir para a escola sem pequeno-almoço. — E a multidão de mulheres
conferenciou de novo. Aquilo era como que uma camada de tinta na situação, para acrescentar um
pouco mais de força e atmosfera.
— Então e isso significa que ele está autorizado a roubar as minhas batatas?
— A maior! — exclamou uma das mulheres.
— Esteja calada, Frau Metzing — avisou-a Mamer, e ela acalmou imediatamente.

255

Ao princípio, as atenções concentravam-se todas em Rudy e na sua nuca. Depois moveram-se de


um lado para o outro, do rapaz para a batata e desta para Mamer — do que tinha melhor aspecto
para o pior — e nunca se saberá exactamente o que levou o merceeiro a decidir a favor de Rudy.
Seria a patética natureza do rapaz?
A dignidade de Herr Link?
A irritação de Frau Metzing?
Fosse o que fosse, Mamer pousou a batata outra vez no monte e arrastou Rudy para fora da loja.
Deu-lhe um bom empurrão com a bota direita e avisou: — Não voltes cá.
Lá de fora, Rudy observou Mamer a chegar ao balcão para servir o seu cliente seguinte com comida
e sarcasmos. — Pergunto-me que batata irá a senhora pedir — comentou ele, mantendo o rapaz
debaixo de olho.
Para Rudy, foi mais um fracasso.

O segundo acto de estupidez foi igualmente perigoso, mas por razões diferentes.
Rudy iria terminar essa altercação específica com um olho negro, costelas partidas e um corte de
cabelo.
Uma vez mais, Tommy Müller andava com os seus problemas nas reuniões da Juventude Hitleriana
e Franz Deutscher só estava à espera que Rudy interferisse. Não demorou muito.
Rudy e Tommy apanharam com mais uma sessão de exercícios completos ao passo que os outros
iam para dentro aprender tácticas. Enquanto corriam ao frio, podiam ver as cabeças e os ombros
quentes através das janelas. Mesmo quando se juntaram ao resto do grupo, os exercícios ainda não
tinham acabado. Assim que Rudy se deixou cair ao canto e sacudiu a lama da manga à janela, Franz
disparou-lhe a pergunta preferida da Juventude Hitleriana.
— Quando nasceu o nosso Führer, Adolf Hitler?
Rudy ergueu os olhos. — Perdão?
A pergunta foi repetida, e o muito estúpido Rudy Steiner, que sabia muitíssimo bem que fora a 20
de Abril de 1889, respondeu com a data do nascimento de Cristo. Acrescentou-lhe até Belém como
informação adicional.
Franz esfregou as mãos.
Um péssimo sinal.
Dirigiu-se a Rudy e mandou-o outra vez lá para fora dar mais algumas voltas ao campo.

256

Rudy correu-as sozinho, e a seguir a cada volta, era-lhe novamente perguntada a data do aniversário
do Führer. Fez sete voltas antes de a enunciar correctamente.

O pior aconteceu alguns dias após a reunião.


Na Rua de Munique, Rudy avistou Deutscher que seguia pelo passeio com alguns amigos e sentiu a
necessidade de lhe atirar uma pedra. Podem muito bem perguntar o que diabo estava ele a pensar. A
resposta é, provavelmente nada. Ele provavelmente diria que estava a exercer o seu direito inato à
estupidez. Ou isso, ou a visão de Franz Deutscher provocava-lhe uma ânsia de destruição própria.
A pedra atingiu o alvo nas costas, embora não com tanta força quanto Rudy talvez esperasse. Franz
Deutscher deu meia-volta e fez um ar satisfeito por o ver ali, com Liesel, Tommy, e a irmãzinha de
Tommy, Kristina.
— Vamos fugir — incitou Liesel, mas Rudy não se moveu.
— Agora não estamos na Juventude Hitleriana — informou-a ele. Os rapazes mais velhos já se
tinham aproximado. Liesel permaneceu ao lado do amigo, e o mesmo fizeram Tommy, com os seus
tiques, e a delicada Kristina.
— Sr. Steiner — declarou Franz, antes de o levantar e o atirar ao chão.
Rudy ergueu-se, mas isso só serviu para encolerizar ainda mais Deutscher. Derrubou-o pela
segunda vez, e aplicou-lhe uma joelhada nas costelas.
De novo Rudy se levantou, e agora o grupo de rapazes mais velhos ria-se do amigo. O que não era
a melhor das notícias para Rudy. — Não és capaz de o obrigar a morder o pó? — troçou o mais
alto. Tinha os olhos tão azuis e frios como o céu, e as suas palavras foram o incentivo de que Franz
precisava. Estava decidido a que Rudy caísse ao chão e lá ficasse.
Um grupo maior rodeou-os enquanto Rudy disparava um murro ao estômago de Franz e falhava
por completo. Simultaneamente, sentiu a sensação abrasadora de um punho na órbita esquerda.
Chegou com faíscas, e mal deu por isso já estava no chão. Foi novamente esmurrado, no mesmo
sítio, e sentiu perfeitamente a contusão a ficar amarela e azul e negra tudo em simultâneo. Três
camadas de dor estimulante.
A multidão comprimiu-se e espreitou para ver se Rudy se levantava de novo. Não. Dessa vez
permaneceu no solo frio e húmido, sentindo-o penetrar através da roupa e espalhar-se por si.

257

Continuava a ver faíscas, e só quando já era demasiado tarde é que reparou que Franz se encontrava
agora por cima dele, empunhando um canivete novo em folha, prestes a agachar-se para o ferir.
— Não! — protestou Liesel, mas o rapaz alto agarrou-a. As suas palavras caíram profundas e
calejadas no ouvido dela.
— Não te preocupes — garantiu-lhe o rapaz. — Ele não faz nada. Não tem coragem.
Estava enganado.

Franz ajoelhou, debruçou-se mais sobre Rudy e segredou:


— Quando é que nasceu o nosso Führer? — Cada palavra era cuidadosamente formada e
derramada no seu ouvido. — Anda lá, Rudy, quando é que ele nasceu? Podes dizer-me, está tudo
bem, não tenhas medo.
E Rudy?
Como é que ele respondeu?
Respondeu prudentemente, ou deixou a sua estupidez afundá-lo ainda mais no atoleiro?
Fitou alegremente os olhos azul-claros de Franz Deutscher e segredou: — Segunda-feira de Páscoa.
Numa questão de segundos o canivete foi-lhe aplicado ao cabelo. Era o corte de cabelo número
dois nesta fatia da vida de Liesel. O cabelo de um judeu fora cortado com uma tesoura ferrugenta.
O do seu melhor amigo era levado por um canivete reluzente. Ela não conhecia ninguém que
realmente pagasse para cortar o cabelo.
Quanto a Rudy, até aí, nesse ano, engolira lama, tomara banho em adubo, fora semiestrangulado
por um criminoso em potência, e estava agora a receber algo que no mínimo se aproximava da
cereja no bolo: uma humilhação pública na Rua de Munique.
A maior parte da franja foi cortada descuidadamente, mas a cada golpe, havia sempre alguns
cabelos que se agarravam à vida e eram completamente arrepelados. A medida que cada um deles ia
sendo arrancado, Rudy estremecia, sentindo o olho negro pulsar e as costelas explodirem de dor.
— Vinte de Abril, mil oitocentos e oitenta e nove! — repisou Franz, e depois partiu com o seu
bando, a assistência dispersou, e ficaram somente Liesel, Tommy e Kristina com o seu amigo.
Rudy jazia imóvel no solo, sentindo a humidade trepar.

O que nos deixa apenas o acto estúpido número três — faltar às reuniões da Juventude Hitleriana.

258

Não deixou de ir de imediato, unicamente para mostrar a Deutscher que não tinha medo dele mas,
após mais algumas semanas, Rudy cessou completamente o seu envolvimento.
Vestindo orgulhosamente a sua farda, partia da Rua Himmel e continuava a andar, com o seu fiel
súbdito, Tommy, ao lado.
Em vez de irem para a Juventude Hitleriana, eles saíam da cidade e percorriam as margens do
Amper, atirando seixos, largando pedregulhos enormes para a água e, de um modo geral, só
fazendo disparates. Tinha o cuidado de sujar bastante a farda para iludir a mãe, pelo menos até
chegar a primeira carta. Foi nessa altura que ouviu o temido chamamento da cozinha.
Primeiro, os pais ameaçaram-no. Ele não foi.
Eles suplicaram-lhe que fosse. Ele recusou.
Eventualmente, foi a oportunidade de se alistar numa divisão diferente que levou Rudy a pender
para a direcção certa. O que era um acaso feliz, porque se ele não se mostrasse rapidamente, os
Steiner seriam penalizados pela sua falta de comparência. O irmão mais velho, Kurt, perguntou se
Rudy não poderia juntar-se à Flieger Division, que se especializava no ensino de aeronaves e voo.
Essencialmente, construíam modelos de aviões, e não havia lá nenhum Franz Deutscher. Rudy
aceitou, e Tommy alistou-se também. Foi a única vez na vida em que a sua conduta idiota lhe
trouxe resultados benéficos.
Na sua nova divisão, sempre que lhe faziam a famosa pergunta do Fuhrer, Rudy sorria e respondia,
«20 de Abril de 1889», e depois, para Tommy, segredava uma data diferente, como o aniversário de
Beethoven, ou Mozart, ou Strauss. Andavam a estudar os compositores na escola, onde, apesar da
sua óbvia estupidez, Rudy se distinguia.

259

O LIVRO FLUTUANTE (PARTE II)

No início de Dezembro, a vitória sorriu finalmente a Rudy Steiner, embora não de uma forma
típica.
Estava um dia frio, mas muito sereno. Aproximava-se um nevão.
Depois da escola, Rudy e Liesel pararam na loja de Alex Steiner e, ao dirigirem-se para casa,
avistaram o velho amigo de Rudy, Franz Deutscher, a virar a esquina. Liesel, como era seu hábito
nessa época, levava consigo O Assobiador. Gostava de o sentir na mão. Quer fosse a lombada
macia, quer as ásperas bordas do papel. Foi ela quem primeiro o viu.
— Olha. — Apontou para Deutscher que galopava na direcção deles com um outro líder da
Juventude Hitleriana.
Rudy retraiu-se. Passou a mão pelo olho quase sarado. — Desta vez não. — Olhou em volta. — Se
formos pelo outro lado da igreja, podemos seguir o rio e regressar por aí.
Sem mais palavras, Liesel seguiu-o, e conseguiram escapar ao atormentador de Rudy — para irem
cair em cheio no caminho de outro.

A princípio, eles não ligaram.


O bando que atravessava a ponte a fumar cigarros podia ser qualquer um, e quando os dois grupos
se reconheceram era demasiado tarde para retroceder.
— Oh, não, eles viram-nos.

Viktor Chemmel sorriu.


Falou em tom amistoso O que só podia significar que estava com o seu humor mais perigoso. —
Bem, bem, então não é o Rudy Steiner e a sua pegazita. — Calmamente, aproximou-se deles e
arrancou O Assobiador da mão de Liesel. — O que estamos nós a ler?
— Isto é entre nós. — Rudy tentou convencê-lo. — Não tem nada a ver com ela. Anda lá, devolve-
lhe isso.

260

— O Assobiador. — Dirigia-se agora a Liesel. — Presta para alguma coisa?


Liesel pigarreou. — Não é mau. — Infelizmente, denunciou-se. Pelos olhos. Espelhavam agitação.
Ela soube o momento exacto em que Viktor Chemmel decidiu que o livro era um objecto precioso.
— Fazemos uma coisa — propôs ele. — Por cinquenta marcos, devolvo-to.
— Cinquenta marcos! — Fora Andy Schmeikl. — Anda lá, Viktor, com isso compram-se mil
livros.
— E eu pedi-te opinião?
Andy imobilizou-se. A sua boca pareceu fechar-se com estrondo. Liesel tentou fazer bluff. — Então
fica com ele. Eu já o li.
— O que é que acontece no fim? Raios!
Ela ainda lá não chegara.
Hesitou, e Viktor Chemmel decifrou imediatamente a hesitação.
Rudy invectivou-o. — Anda lá, Viktor, não lhe faças isso. É a mim que tu queres. Faço tudo o que
tu quiseres.
O rapaz mais velho limitou-se a afastá-lo, com o livro seguro no ar. E corrigiu-o.
— Não — declarou ele. — Eu faço tudo o que eu quiser. — E dirigiu-se para o rio. Seguiram-no
todos, com a velocidade necessária para o acompanhar. Meio passo, meio corrida. Alguns
protestaram. Outros incitaram-no.

Foi tão rápido e descontraído. Ouviu-se uma pergunta, e uma voz trocista, amável.
— Diz-me lá — indagou Viktor. — Quem foi o campeão de lançamento de disco nas últimas
olimpíadas, em Berlim? — Virou--se para eles. Aqueceu o braço. — Quem foi ele? Raios, tenho-o
na ponta da língua. Foi aquele americano, não foi? Carpenter ou coisa assim...
— Por favor! — Rudy.
A água cedeu.
Viktor Chemmel executou a rotação.
O livro soltou-se gloriosamente da sua mão. Abriu-se e adejou, as páginas a chocalharem enquanto
ele avançava pelo ar. Mais abruptamente do que seria de esperar, deteve-se e pareceu ser sugado
para a água. Fechou-se com estrondo ao atingir a superfície e começou a flutuar corrente abaixo.

261

Viktor abanou a cabeça. — Pouca altura. Um mau lançamento.


— Sorriu de novo. — Mas ainda assim, suficientemente bom para vencer, hem?
Liesel e Rudy não se deixaram ficar para ouvir as gargalhadas. Rudy, principalmente, disparara pela
margem do rio abaixo, tentando localizar o livro.
— Consegues vê-lo? — gritou Liesel.
Rudy corria.

Continuou ao longo da margem, indicando-lhe a situação do livro.


— Além! — Parou, apontou e correu mais para baixo a fim de o ultrapassar. Em breve estava a
despir o casaco e a saltar para a água, avançando penosamente até ao meio do rio.
Liesel, que abrandara a corrida, viu o tormento de cada passo. O frio doloroso.
Quando se aproximou, viu-o passar por Rudy, mas ele depressa o apanhou. A sua mão estendeu-se e
agarrou o que era agora um bloco ensopado de cartão e papel. — 0 Assobiador! — gritou o rapaz.
Era o único livro a flutuar rio Amper abaixo nesse dia, mas mesmo assim ele sentiu a necessidade
de o anunciar.
Outra nota com interesse é que Rudy não se esforçou por sair daquela água terrivelmente fria assim
que teve o livro na mão. Ficou ali durante um bom minuto. Nunca explicou isso a Liesel, mas
penso que ela sabia muito bem que as razões eram duas.

OS MOTIVOS PARA O CONGELAMENTO DE RUDY STEINER


1. Após um mês de fracassos, esse momento era a sua única oportunidade de festejar uma vitória.
2. Uma tal posição de altruísmo era um bom sítio para pedir a Liesel o habitual favor.
Como poderia ela recusar-lho?

— Que tal um beijo, Saumensch?


Permaneceu com água até à cintura durante mais alguns instantes antes de trepar cá para fora e lhe
entregar o livro. Sentia as pernas das calças coladas ao corpo e não parou. Na verdade, eu penso
que ele estava assustado. Rudy Steiner tinha medo do beijo da rapariga que roubava livros. Devia
tê-lo desejado tanto. Devia tê-la amado tão tremendamente. Tão tremendamente que nunca mais
voltaria a pedir-lhe os lábios e iria para a cova sem eles.

262

PARTE SEIS
o portador de sonhos
apresentando:
o diário da morte — o homem de neve — treze presentes — o livro seguinte — o pesadelo de um
cadáver judeu — um céu de jornais - uma visita — um schmunzeler — e um beijo final em faces
envenenadas
O DIÁRIO DA MORTE: 1942

Foi um ano para a eternidade, como 79, como 1346, para citar apenas alguns. Esqueçam a foice,
raios, eu precisava era de uma vassoura ou de uma esfregona. E precisava de férias.

UMA PEQUENA VERDADE


Eu não trago nem foice nem gadanha.
Só uso uma capa preta com capuz quando está frio.
E não tenho essas feições
tipo caveira que vocês parecem gostar de
me atribuir à distância. Querem
saber qual é realmente o meu aspecto?
Eu ajudo-os a descobrir. Vão buscar
um espelho enquanto eu prossigo.

Sinto-me de facto bastante autocomplacente de momento, a falar--vos só de mim, de mim, de mim.


Das minhas viagens, do que eu vi em 1942. Por outro lado, vocês são humanos, devem
compreender a auto--obsessão. A questão é que há um motivo para eu explicar o que vi nessa
altura. Grande parte disso viria a ter repercussões para Liesel Meminger. Levou a guerra para mais
perto da Rua Himmel, e arrastou-me consigo.

Houve, indiscutivelmente, várias voltas a fazer nesse ano, da Polónia à Rússia e a África e regresso.
Poderão argumentar que eu faço as voltas seja em que ano for, mas às vezes a raça humana gosta de
acelerar um bocado as coisas. Aumenta a produção de corpos e das almas que se evolam. Meia
dúzia de bombas resolve em geral o problema. Ou algumas câmaras de gás, ou a tagarelice de
a'rmas distantes. Se nenhum deles concluir o processo, pelo menos despoja as pessoas das suas
habitações, e vejo gente sem abrigo por toda a parte.

265

Frequentemente, perseguem-me quando eu vagueio pelas ruas de cidades danificadas. Suplicam-me


que os leve comigo, sem se aperceberem de que, mesmo assim, já estou demasiado ocupada. «A
vossa hora chegará», convenço-os eu, e tento não olhar para trás. Por vezes, desejaria poder dizer
algo do género: «Não vêem que já tenho o suficiente com que me entreter?», mas nunca o faço.
Queixo-me intimamente enquanto prossigo no meu trabalho e, em alguns anos, as almas e os
corpos não se somam; multiplicam-se.

UMA CHAMADA RESUMIDA PARA 1942


1. Os judeus desesperados — os seus espíritos no meu colo enquanto nos sentávamos no telhado,
junto às chaminés fumegantes.
2. Os soldados russos — transportando apenas pequenas quantidades de munições, contando
com os caídos para obter o resto.
3. Os corpos encharcados de uma costa francesa — encalhados nos seixos e na areia.

Poderia continuar, mas decidi que, por agora, três exemplos chegam. Três exemplos, se mais não
fizerem, proporcionam-lhes o gosto a cinzas na boca que definiu a minha existência durante esse
ano.

Tantos humanos.
Tantas cores.
Disparam permanentemente no meu íntimo. Atormentam-me a memória. Vejo-os alto nas suas
pilhas, todos amontoados uns por cima dos outros. Há ar que parece plástico, um horizonte como
cola a secar. Há céus manufacturados por gente, furados e a pingar, e há nuvens macias, cor de
carvão, a bater como corações negros.
E depois.
Há a morte.
A abrir caminho por entre tudo isso.
A superfície: resoluta, imperturbável.
Por baixo: nervosa, perturbada e destroçada.

Para ser franca (e sei que estou a queixar-me excessivamente agora), eu ainda estava a recuperar de
Estaline, na Rússia. A pseudo-segunda revolução — o massacre do seu próprio povo.
Então veio Hitler.

266

Dizem que a guerra é a melhor amiga da morte, mas vejo-me obrigada a apresentar-lhes um ponto
de vista diferente. Para mim, a guerra é como um novo chefe que espera o impossível. Debruça-se
sobre o nosso ombro a repetir uma única coisa, incessantemente: «Despacha--te, despacha-te.»
Portanto trabalhamos mais. Acabamos o serviço. O chefe, contudo, não agradece. Quer sempre
mais.

Frequentemente, tento recordar os pedaços soltos de beleza que vi igualmente nessa altura.
Vasculho a minha biblioteca de histórias.
De facto, vou agora mesmo buscar uma.
Penso que já conhecem metade e, se vierem comigo, mostro-lhes o resto. Mostro-lhes a segunda
metade de uma rapariga que roubava livros.
Sem saber, ela está reservada para muitas coisas importantes a que eu aludi apenas há um minuto,
mas também espera por vocês.
Está a transportar neve para uma cave, imagine-se.
Mãos cheias de água gelada podem fazer quase qualquer um sorrir, mas não o podem fazer
esquecer.
Aí vem ela.

267

O HOMEM DE NEVE

Para Liesel Meminger, as primeiras etapas de 1942 podem resumir-se assim:


Fez treze anos. Continuava com o peito chato. Ainda não sangrara. O jovem da sua cave
encontrava-se agora na sua cama.

P&R
Como é que Max Vandenburg acabou na cama de Liesel?
Caiu.

As opiniões variaram, mas Rosa Hubermann afirmou que as sementes haviam sido lançadas no
Natal do ano anterior.
O 24 de Dezembro fora faminto e frio, mas houvera um bónus importante: nada de visitas
prolongadas. Hans Junior continuava, simultaneamente, a disparar contra russos e a manter a sua
greve no que dizia respeito a relações familiares. Trudy só pôde aparecer no fim-de-semana antes
do Natal, por algumas horas. Ia para fora com a sua família do emprego. Umas férias para uma
classe muito diferente da Alemanha.
Na véspera de Natal, Liesel levou para baixo uma dose dupla de neve como presente para Max. —
Fecha os olhos — dissera ela. — Estende as mãos. — Assim que a neve foi transferida, Max
arrepiou-se e riu, mas continuou sem abrir os olhos. Provou apenas rapidamente a neve, deixando-a
derreter nos lábios.
— Isto é o boletim meteorológico de hoje?
Liesel estava ao lado dele.
Docemente, tocou-lhe no braço.
Ele levou-a de novo à boca. — Obrigado, Liesel.

268

Foi o início do melhor Natal de sempre. Pouca comida. Presentes, nenhuns. Mas tinham um homem
de neve na cave

Após ter entregado as primeiras mãos-cheias de neve, Liesel verificou se não havia ninguém à vista
e depois dedicou-se a transportar lá para fora o maior número possível de baldes e panelas. Encheu-
os com os montes de neve e gelo que cobriam a pequena faixa de mundo formada pela Rua
Himmel. Uma vez cheios, entrou com eles e levou-os para a cave.
Para ser franca, devo dizer que ela começou por atirar uma bola de neve a Max e receber outra no
estômago em resposta. Max atirou mesmo uma a Hans Hubermann que surgira entretanto nos
degraus da cave.
— Arschloch! — exclamou o papá. — Liesel, dá-me um bocado dessa neve. Um balde cheio! —
Durante alguns minutos todos se esqueceram. Não houve mais gritos nem exclamações, mas não
conseguiam conter as pequenas risadas. Eram apenas humanos, a brincar na neve, dentro de casa.
O papá olhou para as panelas cheias de neve. — O que é que fazemos com o resto?
— Um homem de neve — respondeu Liesel. — Temos de fazer um homem de neve.
O papá chamou Rosa.
A habitual voz distante gritou. — O que é agora, Saukerl?
— Anda cá abaixo, está bem?
Quando a sua mulher apareceu, Hans Hubermman arriscou a vida atirando-lhe uma excelente bola
de neve. Falhou por pouco, e ela foi desintegrar-se ao atingir a parede, o que proporcionou à mãe
uma desculpa para praguejar durante muito tempo sem tomar fôlego. Uma vez recomposta, desceu
e foi ajudá-los. Levou até os botões para os olhos e o nariz, e um pedaço de cordel para um sorriso.
Surgiram ainda um lenço e um chapéu para o que era, na realidade, apenas um boneco de neve com
sessenta centímetros.
— Um anão — comentara Max.
— O que é que fazemos quando ele se derreter? — indagou Liesel. Rosa tinha a resposta pronta.
— Tu enxugas com a esfregona,
Saumensch, e bem rápido.
O papá discordou. — Não vai derreter. — Esfregou as mãos e soprou-lhes. — Está um gelo aqui
em baixo.
Derreteu, de facto, mas algures em cada um deles, aquele homem de neve continuou de pé. Deve
ter sido a última coisa que viram na véspera de Natal ao adormecerem por fim.

269
Tinham um acordeão nos ouvidos, um homem de neve nos olhos, e quanto a Liesel, tinha o
pensamento das derradeiras palavras de Max antes de ela o deixar junto à lareira.

VOTOS DE NATAL DE MAX VANDENBURG


«Desejo frequentemente que tudo isto
acabe, Liesel, mas depois tu fazes
qualquer coisa como descer as escadas
da cave com um homem de neve nas mãos.»

Infelizmente, essa noite assinalou um sério agravamento na saúde de Max. Os primeiros sinais
foram bastante inocentes e típicos. Frio constante. As mãos transpiradas. Aumento das visões de
combate com o Führer, Só vendo que já nem conseguia aquecer depois das suas elevações e flexões
é que ele começou verdadeiramente a preocupar-se. Por mais perto da lareira que se sentasse, não
conseguia sequer atingir um nível mínimo de saúde normal. Dia a dia, o peso abandonava-o. O
regime de exercícios vacilou e desmoronou-se, com a sua cara contra o chão duro da cave.
Durante todo o mês de Janeiro conseguiu aguentar-se mas, no início de Fevereiro, Max achava-se
num estado deplorável. Esforçava-se por acordar junto à lareira, mas dormia pela manhã fora, a
boca distorcida e as faces a começarem a inchar. Se o interrogavam, dizia que estava bem.
Em meados de Fevereiro, alguns dias antes de Liesel fazer treze anos, chegou ao pé da lareira à
beira de um colapso. Quase tombou sobre o lume.
— Hans — sussurrou ele, e a cara pareceu ficar paralisada. As pernas cederam e a cabeça foi
embater na caixa do acordeão.
Imediatamente uma colher de pau caiu dentro da sopa e Rosa Hubermann apareceu a seu lado.
Pegou na cabeça de Max e invectivou Liesel que se encontrava do outro lado da sala. — Não fiques
aí parada, vai buscar os cobertores de reserva. Leva-os para a tua cama. E tu! — Foi a vez do papá.
— Ajuda-me a pegar nele e a levá-lo para o quarto de Liesel. Schnell!
O rosto do papá alongara-se de preocupação. Os olhos cinzentos retiniram e pegou-lhe sozinho.
Max era leve como uma criança. —Não podemos pô-lo aqui, na nossa cama?
Rosa já considerara essa hipótese. — Não. Temos de manter os cortinados abertos durante o dia
para não levantar suspeitas.
— Bem pensado. — Hans levou-o para fora. Empunhando os cobertores, Liesel observava.
Pés flácidos e cabelo tombado no vestíbulo. Caíra-lhe um sapato.
— Mexe-te.

270

A mãe marchou atrás deles, com o seu andar gingado.

Uma vez Max deitado, amontoaram os cobertores por cima dele e apertaram-nos em volta do seu
corpo.
— Mãe?
Liesel não foi capaz de dizer mais nada.
— Que é? — O carrapito de Rosa Hubermann estava suficientemente apertado para ser assustador
mesmo de costas. Pareceu ficar ainda mais apertado quando ela repetiu a pergunta. — O que é,
Liesel?
Ela aproximou-se mais, receosa da resposta. — Ele está vivo?
O carrapito acenou afirmativamente.
Nessa altura, Rosa virou-se e disse uma coisa com grande segurança.
— Ouve-me bem, Liesel. Eu não recebi este homem em minha casa para o ver morrer.
Compreendes?
Liesel acenou.
— Agora vai.

No vestíbulo, o papá abraçou-a.


Ela precisava desesperadamente disso.

Mais tarde, ouviu Hans e Rosa a falarem durante a noite. Rosa podia dormir no seu quarto, e ela
ficou estendida ao lado da cama deles, no chão, no colchão que haviam trazido da cave. (Houve
alguma preocupação quanto ao facto de poder estar infectado, mas chegaram à conclusão de que
era uma ideia infundada. O problema de Max não era nenhum vírus, portanto levaram-no para cima
e mudaram o lençol.)
Convencidos de que a criança já dormia, a mãe exprimiu a sua opinião.
— O raio do boneco de neve — sussurrou ela. — Aposto que isto começou com o boneco de
neve... brincadeiras com gelo e neve com o frio que lá está em baixo.
O papá foi mais filosófico. — Rosa, isto começou com o Adolf. — Levantou-se. — Temos de ir ver
como ele está. Durante essa noite, Max foi visitado sete vezes.

LISTA DE PRESENÇAS DOS VISITANTES DE MAX VANDENBURG


Hans Hubermann: 2
Rosa Hubermann: 2
Liesel Meminger: 3

271

De manhã, Liesel trouxe-lhe da cave o livro de desenhos e colocou-o na mesa-de-cabeceira. Sentiu-


se pessimamente por o ter folheado no ano anterior, e dessa vez manteve-o firmemente cerrado, por
respeito.
Quando o papá entrou, ela não se virou, falando antes por cima de Max Vandenburg, para a parede.
— Por que é que eu tinha de levar toda aquela neve lá para baixo? — perguntou ela. — Foi o que
começou tudo isto, não foi, papá? — Apertou as mãos, como que a rezar. — Por que é que eu tinha
de fazer aquele homem de neve?
O papá, deve continuar a dizer-se em seu favor, foi peremptório.
— Porque tinhas, Liesel — afirmou ele.

Ficou sentada ao lado de Max durante horas, vendo-o tremer e dormir.


— Não morras — segredou ela. — Por favor, Max, não morras. Era o segundo homem de neve a
desagregar-se diante dos seus olhos, só que este era diferente. Era um paradoxo.
Quanto mais frio ficava, mais se desagregava.

272

TREZE PRESENTES

Era o reviver da chegada de Max.


As penas transformaram-se de novo em gravetos. A face suave ficou áspera. A prova de que ela
precisava estava aí. Ele estava vivo.
Durante os primeiros dias, ela sentava-se a conversar com ele. No dia dos seus anos, disse-lhe que
havia um enorme bolo à espera na cozinha, se ele acordasse.
Não houve acordar algum.
Não havia bolo algum.

UM EXCERTO NOCTURNO TARDIO


Percebi muito mais tarde que visitei
realmente o 33 da Rua Himmel nessa época.
Deve ter sido num dos raros momentos em que a
rapariga não estava com ele, porque a única coisa
que vi foi um homem deitado. Ajoelhei-me. Preparei-me
para enfiar as mãos através dos cobertores. Então houve
um ressurgimento — uma imensa luta contra o meu peso.
Retraí-me, e com tanto trabalho à minha espera,
foi-me agradável ser repelida naquele pequeno
quarto sombrio.
Consegui mesmo cerrar os olhos e fazer uma breve
pausa de serenidade antes de partir.

Ao quinto dia, a excitação foi enorme porque Max abriu os olhos, ainda que apenas por alguns
instantes. O que ele essencialmente viu (e que visão assustadora deve ter sido em grande plano) foi
Rosa Hubermann, atirando-lhe praticamente uma braçada de sopa para dentro da boca. — Engole
— aconselhou ela. — Não penses. Engole só. — Assim que a mãe recolheu a taça, Liesel tentou
ver-lhe novamente a cara, mas havia no caminho o traseiro de uma fornecedora de sopa.

273

— Ele ainda está acordado?


Quando se virou, Rosa não precisou de responder.

Após cerca de uma semana, Max despertou uma segunda vez, nessa ocasião com Liesel e o papá no
quarto. Estavam ambos a observar o corpo estendido na cama e ouviram um ténue gemido. Se tal
coisa é possível, o papá deu um salto da cadeira para o ar.
— Olhe — ofegou Liesel. — Fica acordado, Max, fica acordado. Ele fitou-a brevemente, mas não
houve sinais de reconhecimento.
Os olhos estudaram-na como se ela fosse um enigma. Depois foi-se novamente.
— Papá, o que é que aconteceu? Hans voltou a cair na cadeira.
Mais tarde, sugeriu que talvez ela devesse ler-lhe. — Anda lá, Liesel, tu lês tão bem actualmente...
ainda que seja um mistério para todos nós a origem desse livro.
— Já lhe disse, papá. Foi uma das irmãs da escola que mo deu. O papá ergueu as mãos num
arremesso de protesto. —Já sei, já sei.
— Suspirou, de muito alto. — Só... — escolheu as palavras gradualmente. — Não te deixes
apanhar. — Isto vindo de um homem que roubara um judeu.

Desse dia em diante, Liesel leu O Assobiador a Max, em voz alta, enquanto ele ocupava a sua
cama. A única frustração era ter de saltar constantemente capítulos inteiros por muitas das páginas
estarem coladas. O livro não secara bem. Mesmo assim, ela lá se foi debatendo, até chegar ao ponto
em que se achava com perto de três quartos concluídos. O livro tinha trezentas e noventa e seis
páginas.
No mundo exterior, Liesel todos os dias se apressava a regressar da escola na esperança de que Max
se sentisse melhor. — Ele acordou? Comeu?
— Volta lá para fora — pediu-lhe a mãe. — Estás a cavar-me um buraco no estômago com todo
esse falatório. Anda lá. Vai lá para fora jogar futebol, pelo amor de Deus.
— Sim, mãe. — Já ia a abrir a porta. — Mas vai-me lá chamar se ele acordar, não vai? Invente
qualquer coisa. Grite como se eu tivesse feito um disparate qualquer. Comece a insultar-me. Toda a
gente acredita, não se preocupe.

274

Até Rosa se viu obrigada a sorrir. Apoiou os nós dos dedos nas ancas e explicou a Liesel que ela
ainda não tinha idade suficiente para escapar a uma Watschen por falar assim. — E marca um golo
— ameaçou ela
— ou não voltes sequer para casa.
— Certo, mãe.
— Muda lá isso para dois golos, Saumensch!
— Sim, mãe.
— E pára de me responder!
Liesel ainda ponderou o assunto, mas correu para fora a fim de se opor a Rudy na rua escorregadia
de lama.
— Já não era sem tempo, lorpa. — Saudou-a da forma habitual enquanto lutavam pela posse da
bola. — Por onde é que andaste?
Meia hora depois, a bola foi esmagada pela rara passagem de um carro na Rua Himmel, e Liesel
encontrara o seu primeiro presente para Max Vandenburg. Tendo-a considerado irreparável, todos
os garotos regressaram a casa aborrecidos, deixando a bola crispada na rua gelada e esburacada.
Liesel e Rudy permaneceram debruçados sobre a carcaça. Havia um buraco aberto de lado, como se
fosse uma boca.
— Quere-la? — perguntou Liesel.
Rudy encolheu os ombros. — Para que é que eu quero este monte de merda amassado? Já não há
hipótese de lhe meter ar, pois não?
— Quere-la ou não?
— Não, obrigado. — Rudy tocou-lhe cautelosamente com o pé, como se a bola fosse um animal
morto. Ou um animal que poderia estar morto.
Enquanto ele se dirigia para casa, Liesel pegou na bola e meteu-a debaixo do braço. Ouviu-o gritar-
lhe: — Eh, Saumensch. — Esperou.
— Saumensch! Cedeu. — Que é?
— Também aqui tenho uma bicicleta sem rodas, se quiseres.
— Sabes onde a podes enfiar.
Ainda na rua, a última coisa que ela ouviu foi a gargalhada daquele Saukerl, Rudy Steiner.

Dentro de casa, encaminhou-se para o quarto. Levou a bola a Max e pousou-a aos pés da cama.
— Lamento — começou Liesel —, não é grande coisa. Mas quando acordares, conto-te tudo
acerca dela. Conto-te que estava a tarde mais cinzenta que possas imaginar, e que aquele carro sem
luzes passou a direito por cima da bola.

275

Depois o homem saiu e gritou connosco. E depois perguntou-nos o caminho. A lata do tipo...
Acorda!, apetecia-lhe gritar.
Ou abaná-lo.
Mas não o fez.
A única coisa que Liesel podia fazer era olhar a bola com a sua pele pisada e lascada. Foi o
primeiro de muitos presentes.

PRESENTES #2-#5
Uma fita, uma pinha.
Um botão, uma pedrinha.

A bola de futebol dera-lhe uma ideia.


Sempre que ia e vinha da escola, Liesel mantinha agora os olhos bem abertos para peças rejeitadas
que pudessem ser valiosas para um homem moribundo. Ao princípio perguntara-se se isso teria
assim tanta importância. Como poderia uma coisa tão aparentemente insignificante trazer conforto
a alguém? Uma fita na sarjeta. Uma pinha na rua. Um botão displicentemente encostado a uma
parede da aula. Uma pedra chata e redonda do rio. Quanto mais não fosse, mostravam que ela se
preocupava, e poderia proporcionar-lhes assunto de conversa depois de Max acordar.
Quando estava sozinha, entabulava essas conversas.
— Então o que é isto tudo? — perguntaria Max. — O que é todo este lixo?
— Lixo? — Mentalmente, ela estava sentada na beira da cama. — Isto não é lixo, Max. Isto foi o
que te fez acordar.

PRESENTES #6-#9
Uma pena, dois jornais.
O papel de um rebuçado. Uma nuvem.

A pena era encantadora e ficara presa numa das dobradiças da porta da igreja da Rua de Munique.
Espreitava vergada e Liesel apressou-se a socorrê-la. As fibras achavam-se achatadas do lado
esquerdo, mas o direito era formado por delicadas bordas e secções de triângulos recortados. Não
havia outra maneira de a descrever.
Os jornais saíram das profundezas gélidas de um caixote de lixo (está tudo dito), e o papel de
rebuçado estava liso e desbotado. Encontrou-o perto da escola e segurou-o contra a luz. Continha
um decalque de uma imagem de sapatos.

276

Depois a nuvem
Como é que se dá a alguém um pedaço de céu?
Em finais de Fevereiro, estava ela na Rua de Munique a observar uma nuvem gigantesca
aproximar-se das colinas como um monstro branco. Trepou pelos montes. O Sol foi eclipsado, e em
seu lugar uma fera branca de coração cinzento observava a cidade.
— Olhe só para isto! — disse ela ao papá.
Hans inclinou a cabeça e declarou aquilo que sentia ser óbvio. — Devias oferecê-la a Max, Liesel.
Vê se a podes deixar na mesa-de-cabeceira, com todas as outras coisas.
Liesel fitou-o como se ele tivesse enlouquecido. — Mas como?
Ele tocou-lhe levemente com os nós dos dedos na cabeça. — Memoriza. Depois, descreve-a por
escrito.
— ...Era como uma enorme fera branca — começou ela na sua vigília seguinte, junto à cama de
Max — e vinha de cima das montanhas.
Após ter concluído a frase com vários acertos e adições diferentes, Liesel sentiu que completara a
tarefa. Imaginou a visão da nuvem a passar da sua mão para a dele, através dos cobertores, e
escreveu-a num bocado de papel, colocando-lhe a pedra em cima.

PRESENTES #10-#13
Um soldadinho de brincar.
Uma folha milagrosa.
Um assobiador acabado.
Uma placa de dor.

O soldado jazia enterrado na terra, não muito longe da casa de Tommy Miiller. Estava riscado e
espezinhado e isso, para Liesel, era o mais importante. Mesmo danificado, continuava a aguentar-se
de pé.
A folha era de ácer e encontrou-a no armário das vassouras da escola, no meio dos baldes e dos
espanadores. A porta ficara entreaberta. A folha estava seca e rija, como pão torrado, e havia vales e
montanhas por toda a sua textura. Fosse como fosse, a folha abrira caminho até ao vestíbulo da
escola e àquele armário. Como meia estrela com caule. Liesel esticou-se e revirou-a entre os dedos.
Ao contrário das outras coisas, não colocou a folha na mesa-de-cabeceira. Pregou-a nos cortinados
corridos, antes de ler as trinta e quatro páginas finais de O Assobiador.

277

Nessa tarde não jantou nem foi à casa de banho. Não bebeu. Durante todo o dia, na escola,
prometera a si mesma que acabaria de ler o livro hoje, e que Max Vandenburg ia ouvir. Ele ia
acordar.
O papá estava sentado no chão, ao canto, sem trabalho como de costume. Felizmente, em breve
partiria para o Knoller com o seu acordeão. De queixo apoiado nos joelhos, ouvia a rapariga a
quem ensinara o alfabeto com grande esforço. Lendo orgulhosamente, ela descarregou as últimas
palavras assustadoras do livro sobre Max Vandenburg.

OS ÚLTIMOS RESTOS DE O ASSOBIADOR


O ar de Viena embaciava as janelas do comboio nessa
manhã, e enquanto as pessoas se dirigiam, despreocupadas,
para os seus empregos, um assassino assobiava a sua alegre
melodia. Comprou o seu bilhete. Houve cumprimentos
delicados a outros passageiros e ao condutor. Ele cedeu
mesmo o seu lugar a uma senhora idosa e entabulou
conversa com um apostador que discorreu sobre cavalos
americanos. Afinal de contas, o assobiador adorava falar.
Falava com as pessoas e iludia-as, levando-as a gostar dele e
a confiar nele. Falava com elas enquanto as matava, a
torturá-las e a rodar a faca. Só quando já não havia ninguém com quem falar é que ele assobiava,
razão pela qual o fazia depois de um crime...
— Então acha que a pista favorece o número sete, é isso?
— Claro. — O apostador fez um trejeito sorridente.
A confiança já lá estava. — Ele vai surgir de trás e apagar
os outros todos! — gritou a frase acima do ruído do comboio.
— Se insiste. — O assobiador sorriu com afectação, e
interrogou-se calmamente sobre quando é que eles iriam
encontrar o corpo do inspector naquele BMW novinho em
folha.

— Jesus, Maria e José. — Hans não conseguiu evitar o tom incrédulo. — E foi uma freira que te
deu isso? — Levantou-se, aproximou-se dela e depositou-lhe um beijo na testa. — Adeus, Liesel, o
Knoller espera-me.
— Adeus, papá.
— Liesel!
Ela ignorou o chamamento.

278

— Anda comer qualquer coisa!


Agora respondeu. — Já vou, mãe. — Na realidade, as palavras foram ditas para Max, quando se
aproximou e pousou o livro acabado na mesa-de-cabeceira, junto do resto todo. Debruçada sobre
ele, não conseguiu dominar-se. — Vá lá, Max — sussurrou ela, e nem o som da chegada da mãe
atrás de si a impediu de chorar silenciosamente. Não a impediu de soltar um pedaço de água
salgada do seu olho e derramá-lo no rosto de Max Vandenburg.
A mãe abraçou-a.
Os seus braços engoliram-na.
— Eu sei — disse ela.
Ela sabia.

279

AR FRESCO, UM VELHO PESADELO, E O QUE FAZER COM UM


CADÁVER JUDEU

Encontravam-se na margem do rio Amper e Liesel acabara de dizer a Rudy que estava interessada
em obter outro livro de casa do presidente da câmara. Em substituição de O Assobiador, ela lera 0
Homem Debruçado diversas vezes à cabeceira de Max. O que proporcionava apenas alguns
minutos de leitura em cada uma delas. Experimentara também O Encolher de Ombros, até mesmo 0
Manual do Coveiro, mas nenhum lhe parecera adequado. Quero qualquer coisa nova, pensou ela.
— Chegaste ao menos a ler o último?
— Claro que sim.
Rudy atirou uma pedra ao rio. — Prestava para alguma coisa?
— Claro que sim.
— Claro que sim, claro que sim. — Tentou arrancar outra pedra do solo mas cortou o dedo.
— É para aprenderes.
— Saumensch.
Quando a última resposta de uma pessoa era Saumensch ou Saukerl ou Arschloch, já se sabia que
fora derrotada.

Em termos de roubo, as condições eram perfeitas. Estava uma tarde sombria do início de Março e
apenas alguns graus acima de zero, o que é sempre mais desconfortável do que dez graus negativos.
Eram raras as pessoas nas ruas. A chuva caía como aparas de lápis cinzento.
— Vamos?
— Bicicletas — sugeriu Rudy. — Podes usar uma das nossas.

Nessa ocasião, Rudy mostrou-se consideravelmente mais entusiasta quanto a ser ele a entrar. —
Hoje é a minha vez — declarou ele enquanto os dedos lhe gelavam nos guiadores das bicicletas.
280

Liesel pensou rapidamente. — Talvez não devesses, Rudy. Há tralha lá por toda a parte. E está
escuro. Um idiota como tu vai forçosamente tropeçar ou chocar em alguma coisa.
— Muito obrigado. — Com aquele humor, era difícil conter Rudy.
— E há também a queda. É mais alta do que pensas.
— Queres dizer que achas que eu não sou capaz? Liesel ergueu-se nos pedais. — Nada disso.
Atravessaram a ponte e subiram a colina a serpentear até Grande Strasse. A janela estava aberta.

Tal como da última vez, examinaram a casa. Conseguiam ver vagamente lá para dentro, onde havia
uma luz acesa, provavelmente na cozinha. Uma sombra movia-se de um lado para o outro.
— Vamos dar umas voltas ao quarteirão — alvitrou Rudy. — Felizmente trouxemos as bicicletas,
hem?
— Vê lá mas é se te lembras de levar a tua quando voltares para casa.
— Muito engraçado, Saumensch. É um bocadinho maior do que os teus sapatos fedorentos.

Pedalaram aí uns quinze minutos, e a mulher do presidente da câmara continuava no andar de


baixo, um bocadinho perto de mais para se sentirem seguros. Como é que ela se atrevia a ocupar a
cozinha com tal vigilância! Para Rudy, a cozinha era, indiscutivelmente, o verdadeiro objectivo. Ele
teria entrado, roubado a maior quantidade de comida que lhe fosse fisicamente possível, e depois se
(e só se) tivesse um último momento disponível, enfiaria um livro nas calças a caminho da saída.
Qualquer livro serviria.
O ponto fraco de Rudy, no entanto, era a impaciência. — Está a fazer-se tarde — disse ele,
começando a afastar-se. — Vens?
Liesel não foi.
Não havia qualquer decisão a tomar. Ela arrastara aquela bicicleta ferrugenta todo o caminho até lá
acima e não se iria embora sem um livro. Pousou o guiador na sarjeta, perscrutou a vizinhança, e
dirigiu--se à janela. Caminhava depressa, mas sem correr. Descalçou os sapatos com os pés,
empurrando nos tornozelos com os dedos.
Apertou com força a madeira e içou-se para dentro.
Dessa vez, sentiu-se mais à vontade, ainda que apenas ligeiramente. Durante alguns minutos
preciosos deu a volta à sala, procurando um título que a seduzisse. Em três ou quatro ocasiões,
quase estendeu a mão.

281

Chegou mesmo a considerar a hipótese de tirar mais do que um, mas não quis abusar daquilo que
era uma espécie de sistema. Por agora, apenas necessitava de um livro. Examinou as prateleiras e
esperou.
Pela janela, atrás de si, trepou um pouco mais de escuridão. Ao fundo pairava o cheiro a pó e a
roubo, e então ela viu-o.
O livro era vermelho, com letras pretas na lombada. Der Traumträger, O Portador de Sonhos.
Pensou em Max Vandenburg e nos seus sonhos. De culpa. Sobreviver. Abandonar a família. Lutar
com o Führer. Pensou também nos seus próprios sonhos: o irmão, morto no comboio, e na sua
aparição nos degraus justamente ao virar da esquina daquela mesma sala. A rapariga que roubava
livros contemplou-lhe o joelho ensanguentado pela pá que ela própria empunhava.
Tirou o livro da prateleira, enfiou-o debaixo do braço, trepou ao peitoril da janela, e saltou para
fora, tudo num só movimento.
Rudy tinha os sapatos dela. Tinha a bicicleta dela preparada. Assim que calçou os sapatos, partiram.
— Jesus, Maria e José, Meminger. — Nunca lhe tinha chamado Meminger. — És uma lunática
completa. Sabias?
Liesel concordou, pedalando furiosamente. — Sabia.
Na ponte, Rudy resumiu os acontecimentos da tarde. — Aquela gente ou é totalmente maluca, ou
gosta muito de ar fresco.

UMA PEQUENA SUGESTÃO


Ou talvez houvesse uma mulher na
Grande Strasse que mantivesse agora
a sua janela da biblioteca aberta por outra
razão — mas isto sou só eu a mostrar-me
cínica, ou optimista. Ou ambas as coisas.

Liesel meteu 0 Portador de Sonhos por baixo do casaco e começou a lê-lo no instante em que
regressou a casa. Na cadeira de madeira ao lado da cama, abriu o livro e murmurou: — Este é novo,
Max. Só para ti. — Começou a ler. — «Capítulo um: Era muito apropriado que a cidade inteira
dormisse quando o portador de sonhos nasceu...»
Todos os dias, Liesel lia dois capítulos do livro. Um de manhã, antes de ir para a escola, e outro
logo que chegava a casa. Em certas noites, quando não conseguia dormir, lia igualmente metade de
um terceiro capítulo. Às vezes, adormecia toda dobrada para diante na beira da cama.
Aquilo transformou-se na sua missão.
Ela dava O Portador de Sonhos a Max como se só as palavras pudessem alimentá-lo. Numa terça-
feira julgou ver movimento. Seria capaz de jurar que os seus olhos se tinham aberto.

282

Se tinham, fora apenas momentâneo, e o mais provável era ter sido apenas a sua imaginação e a
muita vontade.
Em meados de Março, começaram a surgir as rachas.
Uma tarde, na cozinha, Rosa Hubermann — a mulher boa numa crise — achava-se prestes a atingir
o seu ponto de ruptura. Levantou a voz, e depois baixou-a de imediato. Liesel parou de ler e
dirigiu-se silenciosamente para o vestíbulo. Embora estivesse muito perto, mal conseguia distinguir
as palavras da mãe. Quando conseguiu ouvir, desejou não o ter feito, porque o que ouviu era
horrível. Era a realidade.

O CONTEÚDO DA VOZ DA MÃE


«E se ele não acorda?
E se ele morre aqui, Hansi?
Diz-me lá. O que diabo vamos nós
fazer ao corpo? Não o podemos
deixar aqui, o fedor
dá cabo de nós... e também não o podemos
levar lá para fora e arrastá-lo
rua acima. Não podemos dizer simplesmente,
"Vocês nem imaginam o que
encontrámos na nossa cave esta manhã..."
Eles prendem-nos para o resto da vida.»

Tinha toda a razão.


Um cadáver judeu era um problema grave. Os Hubermann precisavam de reanimar Max
Vandenburg não só para seu bem, como deles próprios. Até o papá, que tinha sempre uma
influência calmante definitiva, sentia a pressão.
— Olha. — Falava em voz baixa mas pesada. — Se isso acontecer... se ele morrer... vamos ter de
descobrir uma maneira. — Liesel era capaz de jurar que o ouvira engolir em seco. Um esforço
semelhante a um murro na traqueia. — O meu carrinho de mão das pinturas, alguns lençóis-de-
pingos...
Liesel entrou na cozinha.
— Agora não, Liesel. — Quem falou foi o papá, embora não olhasse para ela. Estava a contemplar
a sua face distorcida numa colher virada ao contrário e tinha os cotovelos enterrados na mesa.
A rapariga que roubava livros não se retirou. Deu mais alguns passos e sentou-se. As mãos frias
agarraram as mangas e da sua boca tombou uma frase. — Ele ainda não está morto. — As palavras
aterraram na mesa e foram posicionar-se ao meio.

283

As três pessoas fitaram-nas. As meias-esperanças não ousaram elevar-se mais. Ele ainda não está
morto. Ele ainda não está morto. A próxima a falar foi Rosa.
— Quem é que tem fome?

Possivelmente a única altura em que a doença de Max não doía, era ao jantar. Isso era inegável
quando os três se sentavam à mesa da cozinha com o seu pão suplementar ou a sopa suplementar ou
as batatas. Todos pensavam o mesmo, mas ninguém o dizia.

Durante a noite, apenas algumas horas mais tarde, Liesel acordou e interrogou-se sobre a altura do
seu coração. (Aprendera essa expressão em O Portador de Sonhos, que era essencialmente a
antítese total de O Assobiador — um livro acerca de uma criança abandonada que queria ser padre.)
Sentou-se e sorveu profundamente o ar nocturno.
— Liesel? — O papá virou-se na cama. — O que é?
— Nada, papá, está tudo bem. — Mas no preciso momento em que concluiu a frase, viu
exactamente o que acontecera no seu sonho.

UMA PEQUENA IMAGEM


Na generalidade, é tudo idêntico.
O comboio move-se à mesma velocidade.
O irmão dela tosse, copiosamente.
Desta vez, contudo, Liesel não consegue ver-lhe
o rosto a contemplar o chão. Devagar,
ela inclina-se. A sua mão soergue-o
docemente, pelo queixo, e ali
diante dela está o rosto de olhos
arregalados de Max Vandenburg. Ele fita-a.
Uma pena cai ao chão. O corpo
agora é maior, condizente com o
tamanho do rosto. O comboio grita.

— Liesel?
— Eu disse que estava tudo bem.
A tremer, saiu do colchão. Estúpida de medo, atravessou o vestíbulo até Max. Após vários minutos
a seu lado, quando tudo abrandou, tentou interpretar o sonho. Seria uma premonição da morte de
Max? Ou era apenas uma reacção à conversa dessa tarde, na cozinha? Teria Max substituído agora
o seu irmão? E se assim era, como podia ela libertar-se da sua própria carne e sangue dessa
maneira? Talvez fosse mesmo um desejo profundamente enterrado de que Max morresse.

284

Afinal de contas, se fora suficientemente bom para Werner, era suficientemente bom para este
judeu.
— É isso que tu pensas? — sussurrou ela, debruçada sobre a cama. — Não. — Não podia
acreditar. Viu a sua resposta confirmada à medida que a impenetrabilidade da escuridão diminuía e
recortava as diferentes formas, grandes e pequenas, pousadas na mesa-de-cabeceira. Os presentes.
— Acorda — insistiu ela. Max não acordou. Durante oito dias mais.

Na escola, ouviu-se um bater de dedos na porta.


— Entre — disse Frau Olendrich.
A porta abriu-se e a aula inteira olhou surpreendida para Rosa Hubermann parada à entrada. Uma
ou duas crianças sustiveram a respiração: uma mulher baixa com a constituição de um roupeiro, um
sorriso escarninho borrado de batom e olhos deslavados. Isto. Era a lenda. Vestia a sua melhor
roupa, mas o cabelo estava em desordem, e era uma toalha de madeixas elásticas cinzentas.
A professora mostrava-se obviamente receosa. — Frau Hubermann... — Os seus movimentos eram
desencontrados. Perscrutou a sala. — Liesel?
Liesel olhou para Rudy, levantou-se e dirigiu-se rapidamente para a porta a fim de acabar com
aquela vergonha o mais depressa possível. Esta fechou-se atrás de si, e ela ficou sozinha com Rosa
no corredor.
Rosa olhou para o outro lado.
— O que foi, mãe?
Ela virou-se. — Não me venhas cá com «mães», minha grande Saumensch! — Liesel sentiu-se
cilindrada pela rapidez daquilo. — A minha escova do cabelo! — Uma réstia de risos escapou-se
por baixo da porta, mas foi imediatamente abafada.
— Mãe?
A cara era severa, mas estava sorridente. — O que diabo fizeste tu da minha escova do cabelo,
minha estúpida Saumensch, minha ladrazita? Já te disse cem vezes para não mexeres nela, e tu
obedeces? Claro que não!
A tirada prolongou-se talvez por mais um minuto, com Liesel a fazer uma ou duas sugestões
desesperadas acerca da possível localização da dita escova. Terminou abruptamente, e Rosa puxou
Liesel mais para si, apenas durante alguns segundos. O seu murmúrio foi quase inaudível, mesmo
de tão perto. — Tu disseste-me para gritar contigo. Disseste que todos acreditariam. — Olhou para
a esquerda e para a direita, a voz semelhante a uma agulha enfiada. — Ele acordou, Liesel. Ele está
acordado.

285

— Tirou do bolso o soldadinho riscado. — Ele disse-me para te dar isto. Era o seu preferido. —
Entregou-o, apertou-lhe os braços com força, e sorriu. Antes de Liesel ter oportunidade de
responder, rematou. — Então? Responde-me! Tens mais alguma ideia de onde a possas ter
deixado? Ele está vivo, pensou Liesel. — ...Não, mãe. Desculpe, mãe, eu...
— Bem, então para que é que tu prestas? — Largou-a, acenou-lhe e afastou-se.
Durante alguns instantes Liesel ficou ali, imóvel. O corredor era enorme. Examinou o soldadinho
na palma da sua mão. O instinto dizia-lhe que corresse imediatamente para casa, mas o bom senso
não o permitiu. Meteu o maltratado soldado no bolso e regressou à aula.
Todos esperavam.
— Vaca estúpida — murmurou ela.
Os garotos riram de novo. Frau Olendrich não.
— O que é que disseste?
Liesel estava num tal estado de euforia que se sentia indestrutível.
— Eu disse — e sorriu — vaca estúpida — e não teve de esperar um só instante para a mão da
professora a esbofetear.
— Não fales assim da tua mãe — repreendeu ela, mas com pouco efeito. A rapariga limitou-se a
continuar ali, tentando manter o sorriso. Afinal, ela era capaz de aguentar uma Watscben como os
melhores. — Agora vai para o teu lugar.
— Sim, Frau Olendrich.
A seu lado, Rudy atreveu-se a falar.
— Jesus, Maria e José — segredou ele —, tens a mão dela espalmada na cara. Uma enorme mão
vermelha. Cinco dedos!
— Belo — comentou Liesel, porque Max estava vivo.

Quando chegou a casa nessa tarde, ele estava sentado na cama com a bola de futebol esvaziada no
colo. A barba fazia-lhe comichão e os seus olhos nublados lutavam por se manter abertos. Ao lado
dos presentes fora pousada uma tigela de sopa vazia.
Não disseram olá.
Foi uma coisa mais hesitante.
A porta rangeu, a rapariga entrou e ficou diante dele, a olhar para a tigela. — A mãe enfiou-ta pela
garganta abaixo?
Ele acenou afirmativamente, satisfeito, fatigado. — Mas estava muito boa.
— A sopa da mãe? A sério?
O que ele lhe ofereceu não foi um sorriso. — Obrigado pelos presentes. — Foi um levíssimo rasgão
da boca. — Obrigado pela nuvem. O teu papá explicou-me esse um pouco mais demoradamente.

286

Ao cabo de uma hora, Liesel tentou também a verdade. — Nós não sabíamos o que havíamos de
fazer se tu morresses, Max. Nós... Ele foi rápido. — Queres dizer, como se livrarem de mim?
— Desculpa.
— Não. — Não estava ofendido. — Tinham razão. — Brincou debilmente com a bola. — Tinham
razão em pensar assim. Na vossa situação, um judeu morto é tão perigoso como um vivo, ou mais
ainda.
— Também tive um sonho. — Explicou-lhe pormenorizadamente, com o soldadinho bem apertado
na mão. Preparava-se para se desculpar de novo, mas Max interveio.
— Liesel. — Obrigou-a a olhar para ele. — Nunca me peças desculpa. Eu é que devia pedir-te
desculpa a ti. — Olhou para tudo o que ela lhe levara. — Olha para isto tudo. Estes presentes. —
Segurou no botão. — E Rosa disse que todos os dias lias para mim duas vezes, às vezes três. —
Fitava agora os cortinados como se pudesse ver para lá deles. Sentou-se um pouco mais direito e
fez uma pausa correspondente a uma dúzia de frases silenciosas. O seu rosto espelhava agitação e
ele confessou uma coisa à rapariga. — Liesel? — Deslocou-se ligeiramente para a direita. — Tenho
medo de voltar a adormecer.
Liesel mostrou-se resoluta. — Então eu vou ler para ti. E dou-te uma bofetada se começares a
dormitar. Fecho o livro e abano-te até tu acordares.
Nessa tarde, e pela noite dentro, Liesel leu para Max Vandenburg. Ele sentou-se na cama e
absorveu as palavras, desta vez acordado, até pouco depois das dez horas. Quando Liesel fez uma
breve pausa em O Portador de Sonhos, olhou por cima do livro e Max dormia. Nervosa, ela deu-lhe
uma cotovelada com o livro. Ele acordou.
Adormeceu mais três vezes. Mais duas ela o acordou.
Durante os quatro dias seguintes, ele acordou todas as manhãs na cama de Liesel, depois junto à
lareira, e finalmente, em meados de Abril, na cave. A sua saúde melhorara, a barba desaparecera, e
pequenos farrapos de peso tinham voltado.
No mundo interior de Liesel, havia nessa altura um enorme alívio. No exterior, as coisas
começavam a ficar tremidas. Em finais de Março, um local chamado Lübeck foi fustigado por
bombas. Seguir-se-ia Colónia, e em breve muitas mais cidades alemãs, incluindo Munique.
Sim, o chefe estava debruçado sobre o meu ombro.
Despacha-te, despacha-te.

As bombas aproximavam-se — e eu também.

287

O DIÁRIO DA MORTE: COLÓNIA

As horas caídas de 30 de Maio.


Tenho a certeza de que Liesel Meminger dormia profundamente quando mais de mil bombardeiros
voaram rumo a um local conhecido por Köln. Para mim, o resultado foram quinhentas pessoas ou
perto disso. Cinquenta mil outras vagueavam desalojadas por entre os terríveis montes de entulho,
tentando perceber onde é que estavam e que soalhos de lar destruído pertenciam a quem.
Quinhentas almas.
Transportava-as nos dedos, como malas. Ou atirava-as para cima do ombro. Eram apenas as
crianças que eu transportava nos braços.
Quando terminei, o céu estava amarelo, como papel de jornal a arder. Se olhasse com atenção,
podia ver as palavras, citando títulos, comentando o progresso da guerra e assim por diante. Como
teria gostado de puxar tudo aquilo para baixo, de amarrotar o céu de jornal e deitá-lo fora. Doíam-
me os braços e não podia deixar queimar as pontas dos dedos. Havia ainda tanto trabalho a fazer.
Como calcularão, muita gente morreu instantaneamente. Outros demoraram um pouco mais. Eu
tinha vários outros lugares aonde ir, céus para encontrar e almas para recolher, e ao regressar mais
tarde a Colónia, não muito depois dos últimos aviões, pude presenciar uma coisa absolutamente
única.
Transportava a alma carbonizada de uma adolescente quando olhei gravemente para o que era agora
um céu sulfúrico. Perro, encontrava-se um grupo de garotas de dez anos. Uma delas gritou:
— O que é aquilo?
Estendeu o braço e apontou com o dedo o objecto preto que caía lentamente lá de cima. Começou
como uma pena preta, a tombar, a flutuar.

288

Ou um pedaço de cinza. Depois aumentou. A mesma rapariga, uma ruiva sardenta, falou
novamente, desta vez com mais ênfase. — O que ê aquilo?
— É um corpo — sugeriu outra rapariga. Cabelo negro, rabichos, e uma risca torta ao meio.
— É outra bomba!
Era demasiado lento para ser uma bomba.
Com o espírito da adolescente ainda a arder-me levemente nos braços, avancei algumas dezenas de
metros com elas. Tal como as garotas, concentrei-me no céu. A última coisa que eu queria era olhar
para baixo, para a cara retorcida da minha adolescente. Uma bonita rapariga. Tinha agora a morte
inteira à sua frente.
Tal como as garotas, sobressaltei-me ao ouvir uma voz gritar. Era um pai irritado, chamando os
filhos para dentro. A ruiva reagiu. As sardas alongaram-se, transformando-se em vírgulas. — Mas,
papá, olhe.
O homem deu vários pequenos passos e depressa percebeu o que aquilo era. — É o combustível —
disse ele.
— O que quer isso dizer?
— O combustível — repetiu ele. — O bidão. — Era um homem careca com roupa de dormir
amarrotada. — Usaram todo o combustível desse e descartaram-se do recipiente vazio. Vejam, vem
além outro.
— E além!
Sendo as crianças, crianças, nessa altura começaram todas a procurar freneticamente, tentando
encontrar um bidão vazio a flutuar para o solo.
O primeiro aterrou com um baque oco.
— Podemos guardá-lo, papá?
— Não. — Fora bombardeado e encontrava-se em choque, aquele papá, e a sua disposição não era,
obviamente, boa. — Não podemos guardá-lo.
— Por que não?
— Vou perguntar ao meu papá se eu posso ficar com ele — disse outra das raparigas.
— Eu também.

Logo após a derrocada de Colónia, um grupo de garotas recolhia bidãos de combustível vazios,
largados pelos seus inimigos. Como de costume, eu recolhia humanos. Estava cansada. E o ano
ainda nem sequer ia a meio.

289

O VISITANTE
Fora encontrada uma nova bola para o futebol da Rua Himmel. Isso eram as boas notícias. A notícia
algo perturbadora era que uma divisão do NSDAP se dirigia para lá.
Tinham avançado através de Molching, rua a rua, casa a casa, e agora encontravam-se na loja de
Frau Diller, a fumar rapidamente um cigarro antes de prosseguirem com a sua tarefa.
Já havia um conhecimento superficial de abrigos antiaéreos em Molching mas, pouco depois do
bombardeamento de Colónia, foi decidido que mais alguns não seriam prejudiciais. O NSDAP
andava a inspeccionar todas as casas para ver se as suas caves se podiam candidatar.
De longe, as crianças observavam.
Viam o fumo a elevar-se do grupo.
Liesel acabara de sair lá para fora e dirigiu-se a Rudy e Tommy. Harald Mollenhauer estava de
posse da bola. — O que é que se passa além?
Rudy meteu as mãos nos bolsos. — É o partido. — Observou os progressos do amigo com a bola
junto à sebe da entrada de Frau Holtzapfel. — Andam a examinar todas as casas e edifícios de
apartamentos.
O interior da boca de Liesel secou instantaneamente. — Para quê?
— Não sabes nada? Diz-lhe, Tommy. Tommy ficou perplexo. — Bem, eu não sei.
— Vocês os dois são um desespero. Eles precisam de mais abrigos antiaéreos.
— O quê... caves?
— Não, sótãos. É claro que são caves. Céus, Liesel, és mesmo obtusa, não és?
A bola voltara.
290

— Rudy!
Ele apanhou-a e Liesel continuou imóvel. Como é que ela poderia voltar para dentro sem parecer
demasiado suspeito? O fumo diante da loja de Frau Diller estava a desaparecer e o grupo de
homens começava a dispersar. Gerou-se pânico daquela maneira horrível. Garganta e boca. O ar
transformou-se em areia. Pensa, pensou ela. Vá lá, Liesel, pensa, pensa.
Rudy marcou golo.
Vozes distantes felicitaram-no.
Pensa, Liesel...
Achou.
E isso, decidiu ela, mas tem de parecer real.

À medida que os nazis avançavam rua abaixo, pintando as letras LSR em algumas portas, a bola foi
passada pelo ar para um dos garotos maiores, Klaus Behrig.

LSR
Luft Schutz Raum:
Abrigo Antiaéreo

O rapaz virou-se com a bola precisamente quando Liesel avançou, e colidiram com tanta força que
o jogo parou automaticamente. Enquanto a bola rolava para fora, os jogadores corriam para dentro.
Liesel agarrou no joelho esfolado com uma das mãos e na cabeça com a outra. Klaus Behrig
agarrava apenas a canela direita, a fazer caretas e a praguejar. — Onde é que ela está? — cuspiu
ele. — Eu mato-a!
Não haveria mortes.
Era pior.
Um simpático membro do partido vira o incidente e trotou zelosamente para o grupo. — O que
aconteceu? — indagou ele.
— Bem, ela é maníaca. — Klaus apontou para Liesel, levando o homem a ajudá-la a levantar-se. O
seu bafo de tabaco formou uma colina de areia fumegante diante da cara dela.
— Não creio que estejas em condições de continuar a jogar, minha pequena — comentou ele. —
Onde é que moras?
— Eu estou bem — respondeu ela —, palavra, aguento-me sozinha. — Mas larga-me, larga-me!
Foi nessa altura que Rudy, o eterno interveniente, interveio. — Eu ajudo-te a ir para casa — disse
ele. Por que é que Rudy não se metia na vida dele para variar?

291

— Francamente! — exclamou Liesel. — Continua lá a jogar, Rudy.


Eu consigo.
— Não, não. — Ele não se deixava desviar. Que teimoso! — Levo apenas um ou dois minutos.
De novo ela teve de pensar, e de novo, foi capaz. Com Rudy a aguentá-la, deixou-se cair outra vez
ao chão, de costas. — O meu papá — pediu Liesel. O céu estava completamente azul, notou ela.
Nem sequer a sugestão de uma nuvem. — Es capaz de o ir chamar, Rudy?
— Fica aqui. — Deu um grito para a sua direita: — Tommy, toma conta dela, sim? Não a deixes
mexer-se.
Tommy pôs-se prontamente em acção. — Eu tomo conta dela, Rudy. — Ficou de pé ao lado de
Liesel, cheio de tiques e tentando não sorrir, enquanto Liesel não perdia de vista o homem do
partido.
Passado um minuto, Hans Hubermann achava-se calmamente debruçado sobre ela.
— Olá, papá.
Um sorriso desapontado surgiu nos lábios dele. — Já tinha perguntado a mim mesmo quando é que
isto ia acontecer.
Ergueu-a e ajudou-a a ir para casa. O jogo prosseguiu, e o nazi estava já à entrada de uma casa
algumas portas acima. Ninguém atendeu. Rudy gritou outra vez:
— Precisa de ajuda, Herr Hubermann?
— Não, não, continue a jogar, Herr Steiner. — Herr Steiner. Era impossível não gostar do papá de
Liesel.

Uma vez lá dentro, Liesel deu-lhe a informação. Tentou encontrar um meio termo entre o silêncio e
o desespero. — Papá.
— Não fales.
— O partido — sussurrou ela. O papá estacou. Dominou o impulso de abrir a porta e olhar para a
rua. — Eles andam a examinar caves
para fazer abrigos.
Hans sentou-a. — Rapariga esperta! — exclamou e depois chamou por Rosa.

Tinham um minuto para arranjar um plano. Um burburinho de pensamentos.


— Vamos pô-lo no quarto de Liesel — foi a sugestão da mãe. — Debaixo da cama.
— Só isso? E se eles resolvem revistar também os nossos quartos?
— Tens um plano melhor? Correcção: eles não tinham um minuto.

292

Uma pancada vigorosa foi desferida na porta do número 33 da Rua Himmel, e era demasiado tarde
para mudar quem quer que fosse para onde quer que fosse.
A voz.
— Abram!
As batidas dos seus corações competiram entre si, numa confusão de ritmos. Liesel tentou engolir o
dela. O sabor do coração não era muito agradável.
Rosa sussurrou: —Jesus, Maria...
Nesse dia, foi o papá quem esteve à altura da ocasião. Correu para a porta da cave e atirou um aviso
escada abaixo. No regresso, falou rápida e fluentemente. — Ouçam, não há tempo para truques.
Nós poderíamos distraí-lo de variadíssimas maneiras, mas só há uma solução. — Fitou a porta e
concluiu. — Nada.
Não era aquela a resposta que Rosa desejava. Arregalou os olhos.
— Nada? Estás louco? Bateram novamente. O papá foi firme. — Nada. Nem sequer lá vamos
abaixo... não temos a menor preocupação. Tudo abrandou. Rosa aceitou. Tensa de angústia, abanou
a cabeça e foi abrir a porta.
— Liesel. — A voz do papá perfurou-a. — Fica calma, verstehst?
— Sim, papá.
Procurou concentrar-se na perna ensanguentada.

— Aha!
À porta, Rosa ainda estava a perguntar o que significava aquela interrupção quando o simpático
homem do partido reparou em Liesel.
— A jogadora de futebol maníaca! — Sorriu. — Como está o joelho? — Geralmente, não se
imaginam os nazis a serem muito joviais, mas este homem era-o sem dúvida. Entrou e agachou-se
para observar o ferimento.
Ele saberá?, pensou Liesel. Conseguirá cheirar que estamos a esconder um judeu?
O papá veio do lava-louça com um pano molhado e pousou-o no joelho de Liesel. — Arde? — Os
seus olhos de prata mostravam-se ternos e calmos. O sobressalto que exibiam podia confundir-se
facilmente com preocupação pelo ferimento.
Rosa declarou do outro lado da cozinha: — Não arde o suficiente.
Talvez ela aprenda a lição.

293

O homem do partido endireitou-se e riu. — Não creio que esta garota vá aprender nenhuma lição lá
fora, Frau...?
— Hubermann. — O rosto contorceu-se.
— ...Frau Hubermann. Acho que ela dá lições. — Dirigiu um sorriso a Liesel. — A todos aqueles
rapazes. Tenho razão, minha pequena?
O papá raspou a ferida com o pano e Liesel encolheu-se em vez de responder. Foi Hans quem falou.
Um sereno «lamento», dirigido à rapariga.
Seguiu-se um silêncio desconfortável e o homem do partido recordou-se do seu objectivo. — Se
não se importam — explicou ele —, preciso de inspeccionar a vossa cave, apenas um ou dois
minutos, para ver se é adequada para um abrigo.
O papá deu uma palmadinha final ao joelho de Liesel. — Vais ficar aí com uma linda ferida, Liesel.
— Descontraído, respondeu ao homem acima deles. — Com certeza. Primeira porta à direita. Por
favor, desculpe a barafunda.
— Não se preocupe... não pode estar pior do que algumas das outras que já vi hoje... Esta?
— Exacto.

OS TRÊS MINUTOS MAIS LONGOS NA HISTÓRIA DE HUBERMANN


O papá sentou-se à mesa. Rosa rezava ao canto,
articulando as palavras. Liesel estava a arder: o joelho,
o peito, os músculos dos braços. Duvido que algum
deles tenha tido a audácia de considerar o que
fariam se a cave fosse designada para abrigo.
Primeiro havia que sobreviver à inspecção.

Escutaram os passos do nazi na cave. Ouviu-se o som de uma fita métrica. Liesel não conseguia
afastar o pensamento de Max sentado debaixo dos degraus, dobrado sobre o seu caderno de
esboços, apertando-o contra o peito.
O papá levantou-se. Outra ideia.
Encaminhou-se para o vestíbulo e gritou: — Tudo bem aí em baixo?
A resposta subiu os degraus, por cima de Max Vandenburg. — Mais um minuto, talvez!
— Quer um café, ou um chá?
— Não, obrigado!

294

De volta à cozinha, o papá mandou Liesel buscar um livro e Rosa começar a cozinhar. Achou que a
última coisa que deviam fazer era ficarem ali especados com ar preocupado. — Vá, anda lá — disse
ele em voz alta —, mexe-te, Liesel. Não me interessa que te doa o joelho. Tens de acabar esse livro,
como disseste.
Liesel esforçou-se por não fraquejar. — Sim, papá.
— Então de que é que estás à espera? — Teve de fazer um grande esforço para lhe piscar o olho,
ela bem percebeu.
No corredor, quase chocou com o homem do partido.
— Problemas com o teu papá, hem? Deixa lá. Eu também sou assim com os meus filhos.
Seguiram os seus caminhos opostos, e ao chegar ao quarto, Liesel fechou a porta e caiu de joelhos,
apesar do acréscimo de dor. Escutou primeiro a declaração de que a cave era demasiado baixa,
depois as despedidas, uma das quais foi atirada para o corredor. — Adeus, jogadora de futebol
maníaca!
Ela controlou-se. — Auf Wiedersehen! Adeus!
O Portador de Sonhos escaldava-lhe as mãos.

Segundo o papá, Rosa derreteu-se ao lado do fogão no instante em que o homem do partido saiu.
Foram buscar Liesel e dirigiram-se para a cave, afastando os lençóis-de-pingos e as latas de tinta
cuidadosamente colocados. Max Vandenburg estava sentado por baixo dos degraus, empunhando a
sua tesoura ferrugenta como uma faca. Tinha os sovacos encharcados e as palavras tombaram da
sua boca como feridas.
— Eu não a teria usado — disse ele, baixinho. — Eu... — Segurou as lâminas ferrugentas abertas
contra a testa. — Eu lamento tanto fazê-los passar por isto.
O papá acendeu um cigarro. Rosa pegou na tesoura.
— Estás vivo — disse ela. — Estamos todos.
Agora já era demasiado tarde para pedidos de desculpas.

295

O SCHMUNZELER

Minutos depois, ouviu-se outra pancada na porta.


— Valha-me Deus, mais um!
A preocupação reinstalou-se imediatamente.
Max foi tapado.
Rosa arrastou-se pelos degraus acima mas, desta vez, ao abrir a porta, não eram os nazis. Era nem
mais nem menos que Rudy Steiner. Ficou ali parado, de cabelo amarelo e cheio de boas intenções.
— Vim só ver como está a Liesel.
Ouvindo-lhe a voz, Liesel começou a subir a escada da cave. — Com este sei eu lidar.
— É o namorado dela. — O papá fez um gesto em direcção às latas de tinta. Expeliu mais uma
baforada.
— Ele não é meu namorado — contrapôs Liesel, mas não se mostrou irritada. Era impossível
depois de terem escapado por um triz. — Só vou para cima porque a mãe está a gritar por mim não
tarda nada.
— Liesel!
Ela ia no quinto degrau. — Viram?
Quando ela chegou à porta, Rudy apoiou-se ora num pé ora no outro. — Vim só ver... —
Interrompeu-se. — Que cheiro é este? — Fungou. — Estiveste a fumar aqui?
— Oh. Estive aqui sentada com o papá.
— Tens cigarros? Talvez possamos vender alguns.
Liesel não se sentia com disposição para aquilo. Falou em voz suficientemente baixa para a mãe
não ouvir. — Eu não roubo ao meu papá.
— Mas roubas certos outros lugares.
— Fala um bocadinho mais alto, já agora.
Rudy schmunzelou. — Estás a ver no que dá roubar? Estás aí toda preocupada.
296

— Como se tu nunca tivesses roubado nada.


— Sim, mas tu fede a isso. — Rudy começava a aquecer. — Talvez afinal não seja fumo de cigarro.
— Inclinou-se mais e sorriu. — Cheira--me é a uma criminosa. Devias tomar um banho. — Gritou
para Tommy Müller. — Eh, Tommy, devias vir até aqui cheirar isto!
— O que é que disseste? — O Tommy de sempre. — Não te ouço! Rudy abanou a cabeça na
direcção de Liesel. — É inútil.
Ela começou a fechar a porta. — Raspa-te, Saukerl, és a última coisa
de que preciso agora.
Muito satisfeito consigo próprio, Rudy dirigiu-se de novo para a rua. Ao chegar à caixa do correio,
pareceu lembrar-se do que fora saber. Voltou atrás alguns passos. — Alles gut, Saumensch? Refiro-
me à ferida.
Estava-se em Junho. Estava-se na Alemanha.
As coisas estavam à beira do declínio.
Liesel desconhecia isso. No que lhe dizia respeito, o judeu da sua cave não fora exposto. Os seus
pais adoptivos não tinham sido levados, e ela própria contribuíra grandemente para ambos esses
feitos.
— Tudo bem — respondeu ela, e não se referia a nenhuma ferida de futebol.
Ela estava óptima.

297

O DIÁRIO DA MORTE: OS PARISIENSES

Chegou o Verão.
Para a rapariga que roubava livros, tudo corria lindamente.
Para mim, o céu era da cor de judeus.
Quando os seus corpos acabavam de procurar fendas na porta, as suas almas elevavam-se. Quando
as suas unhas tinham raspado a madeira e em alguns casos ficavam pregadas nela pela simples
força do desespero, os seus espíritos vinham até mim, até aos meus braços, e nós ascendíamos para
fora dessas salas de duches, para o telhado e mais acima, para o bafo certo da eternidade. Eles
alimentavam-me ininterruptamente. Minuto após minuto. Duche após duche.
Nunca esquecerei o primeiro dia em Auschwitz, a primeira vez em Mauthausen. Nesse segundo
sítio, à medida que o tempo passava, recolhia--os igualmente do fundo da grande ravina, quando as
suas fugas corriam terrivelmente mal. Havia corpos partidos e doces corações mortos. Ainda assim,
era melhor do que o gás. Alguns apanhei-os iam apenas a meio da queda. Salvei-te, pensava eu,
segurando-lhes a alma em pleno ar enquanto o resto do seu ser — as suas carapaças físicas — se
precipitavam para o solo. Todos eles eram leves, como cascas de nozes vazias. Um céu de fumo
nesses sítios. O cheiro semelhante a um forno, mas tanto frio mesmo assim.
Arrepio-me sempre que me lembro, e tento abstrair-me.
Sopro ar quente para as mãos, para as aquecer.
Mas é difícil mantê-las quentes quando as almas continuam a tremer de frio.
Deus.
Digo sempre esse nome quando penso naquilo.
Deus.
Pronuncio-o duas vezes.
Digo o Seu nome numa tentativa vã de compreender. «Mas o teu trabalho não é compreender.» Sou
eu mesma que respondo.
298

Deus nunca diz nada. Pensam que são os únicos a quem ele nunca responde? «O teu trabalho é...» E
deixo de me ouvir, porque, para falar francamente, eu canso-me a mim própria. Quando começo a
pensar assim fico tão exausta, e não me posso dar ao luxo de ceder à fadiga. Sou obrigada a
continuar porque, embora isso não seja verdade para toda a gente na terra, é verdade para a grande
maioria — a morte não espera por ninguém — e se o faz, em geral não espera muito tempo.

Em 23 de Junho de 1942 havia um grupo de judeus franceses numa prisão alemã, em solo polaco. A
primeira pessoa que levei estava perto da porta, a sua mente cavalgava, depois reduziu para passo,
depois abrandou, abrandou...

Por favor, acreditem-me quando lhes digo que nesse dia peguei em cada alma como se fosse recém-
nascida. Beijei mesmo algumas faces abatidas, envenenadas. Escutei os seus derradeiros gritos
sufocados. As suas palavras evanescentes. Contemplei as suas visões de amor e libertei--os do seu
medo.
Levei-os a todos, e se houve uma altura em que eu precisei de distracção, foi essa. Totalmente
desolada, olhei para o mundo lá em cima. Contemplei o céu enquanto ele passava de prateado a
cinzento e à cor da chuva. Até as nuvens estavam a tentar escapar.
As vezes, imaginava que aspecto teria tudo acima dessas nuvens, sabendo sem qualquer dúvida que
o sol era louro, e a atmosfera interminável era um gigantesco olho azul.

Eles eram franceses, eram judeus, e eram vocês.

299

<Página em branco>

PARTE SETE
the complete duden dictionary and thesaurus (Nota)
apresentando:
champanhe e acordeões — uma trilogia — algumas sirenes — um surripiador de céus — uma
proposta — a longa marcha para dachau — paz — um idiota e alguns homens de casaco

Nota - Dicionário da língua alemã, publicado pela primeira vez por Konrad Duden, e actualizado
periodicamente. (NT)

CHAMPANHE E ACORDEÕES

No Verão de 1942 a cidade de Molching preparava-se para o inevitável. Ainda havia pessoas que se
recusavam a acreditar que aquela pequena cidade nos arredores de Munique pudesse ser um alvo,
mas a maioria da população achava-se bem ciente de que não era uma questão de se, mas de
quando. Os abrigos foram mais claramente assinalados, as janelas eram escurecidas para a noite, e
toda a gente sabia onde ficava a cave ou adega mais próxima.
Para Hans Hubermann, este desagradável desenvolvimento representou na realidade um leve
desafogo. Numa época infeliz, a sorte, de certo modo, abrira caminho até ao seu negócio de pintor.
As pessoas que tinham persianas achavam-se suficientemente desesperadas para contratar os seus
serviços a fim de as pintar. O problema dele era a tinta preta ser em geral mais usada em misturas,
para escurecer outras cores, e depressa se ter esgotado e tornado difícil de encontrar. Mas Hans
tinha queda para o negócio, e um bom negociante tem muitos truques. Arranjou pó de carvão e
misturou-o às tintas, e trabalhava barato. Houve muitas casas, em todas as zonas de Molching, em
que ele confiscou a luz das janelas de olhos inimigos.
Em alguns dos seus dias de trabalho, Liesel acompanhava-o.
Atravessavam a cidade empurrando o carrinho de mão, cheirando a fome em algumas ruas e
abanando as cabeças à abastança de outras. Muitas vezes, no regresso a casa, mulheres que não
tinham mais nada senão filhos e miséria, saíam de casa a correr suplicando que lhes pintasse as
persianas.
— Frau Hallah, lamento, não me sobrou tinta preta — dizia ele. Mas um pouco mais abaixo, cedia
sempre. Havia o homem alto e a rua longa. — Amanhã — prometia Hans —, bem cedo —, e ao
romper da madrugada seguinte, lá estava ele, a pintar aquelas persianas a troco de nada, ou de uma
bolacha ou uma chávena de chá quente. Na noite

303

anterior, teria descoberto outra maneira de transformar azul ou verde ou bege em preto. Nunca lhes
disse para taparem as janelas com cobertores, pois sabia que estes lhes seriam precisos quando o
Inverno chegasse. Soube-se mesmo que chegou a pintar persianas por meio cigarro, sentado no
degrau da entrada de uma casa, a partilhar umas baforadas com o ocupante. Riso e fumo elevavam-
se da conversa antes de ele prosseguir para o trabalho seguinte.

Quando chegou a altura de escrever, lembro-me perfeitamente do que Liesel Meminger teve a dizer
acerca desse Verão. Muitas das palavras desvaneceram-se ao longo de décadas. O papel sofreu a
fricção do movimento no meu bolso, mas mesmo assim muitas das suas frases foram impossíveis
de esquecer.

UM PEQUENO EXEMPLO DE ALGUMAS PALAVRAS ESCRITAS POR UMA RAPARIGA


Esse Verão foi um novo começo, um novo fim.
Olhando para trás, recordo as minhas mãos escorregadias
de tinta e o som dos pés do papá na
Rua de Munique, e sei que uma pequena
parte do Verão de 1942 pertenceu apenas
a um homem. Quem mais faria pinturas
pelo preço de meio cigarro? Era assim o papá,
era típico dele, e eu amava-o.

Todos os dias em que trabalhavam juntos, ele contava as suas histórias a Liesel. Havia a Grande
Guerra e a maneira como a sua deplorável letra ajudara a salvar-lhe a vida, e o dia em que
conhecera a mãe. Disse que ela fora bela em tempos, e na realidade muito serena a falar. — Custa a
acreditar, eu sei, mas é absolutamente verdade. — Todos os dias havia uma história, e Liesel
perdoava-lhe se ele contasse a mesma mais do que uma vez.
Noutras ocasiões, quando ela estava a sonhar acordada, o papá pincelava-a ao de leve mesmo entre
os olhos. Se calculava mal e o pincel levava demasiada tinta, um pequeno fio escorria-lhe pelo lado
do nariz. Ela ria-se e tentava retribuir o favor, mas Hans Hubermann era um homem difícil de
apanhar no seu trabalho. Era aí que se sentia mais vivo.
Sempre que faziam uma pausa, para comer ou beber, ele tocava acordeão, e era isso que Liesel
melhor recordava. Todas as manhãs, enquanto o papá empurrava ou puxava o carrinho das tintas,
Liesel transportava o instrumento.
304

«Antes deixarmos ficar as tintas», dissera-lhe Hans, «do que esquecermo-nos algum dia da
música». Quando paravam para comer, ele cortava o pão, besuntando-o com algum pedacinho de
compota que tivesse restado da última senha de racionamento. Ou punha-lhe em cima uma pequena
fatia de carne. Comiam juntos, sentados nas suas latas de tinta, e com a última dentada ainda em
fase de mastigação, já o papá estava a limpar os dedos e a abrir o estojo do acordeão.
Migalhas de pão alojavam-se nas pregas do seu fato-macaco. Mãos manchadas de tinta percorriam
os botões e exploravam as teclas, sustendo alguma nota durante mais um bocado. Os seus braços
manejavam os foles, proporcionando ao instrumento o ar de que necessitava para respirar.
Liesel sentava-se todos os dias com as mãos entre os joelhos, nas longas pernas da claridade diurna.
Não queria que nenhum desses dias acabasse, e sentia-se sempre desapontada ao observar a
escuridão a avançar.

No que se referia à pintura em si, provavelmente o aspecto mais interessante para Liesel era a
mistura. Tal como a maioria das pessoas, ela partia do princípio de que o seu papá se limitava a
chegar com o carrinho à loja das tintas ou ao armazém, pedia a cor certa, e lá ia ele. Desconhecia
que a maior parte da tinta se encontrava em pedaços, do feitio de tijolos. Depois era espalmada com
uma garrafa de champanhe vazia. (As garrafas de champanhe, explicara Hans, eram ideais para o
serviço, por o seu vidro ser levemente mais grosso do que o de uma vulgar garrafa de vinho.) Uma
vez concluído isso, seguia-se a adição de água, cré e goma, para já não falar das complexidades de
obter a cor certa.
A ciência do negócio do papá trouxe-lhe um nível de respeito ainda mais elevado. Era muito bonito
partilhar o pão e a música, mas Liesel achava agradável saber que ele era igualmente mais do que
eficiente na sua ocupação. A competência era atraente.

Alguns dias após a explicação do papá sobre as misturas, estavam a trabalhar numa das casas mais
abastadas a leste da Rua de Munique. O papá chamou Liesel para dentro ao princípio da tarde.
Preparavam-se para seguir para outro serviço quando ela ouviu o desusado volume da sua voz.
Uma vez lá dentro, foi conduzida à cozinha, onde duas mulheres e um homem mais velhos se
achavam sentados em delicadas cadeiras, altamente civilizadas. As mulheres estavam bem vestidas.

305

O homem tinha o cabelo branco e suíças cerradas. Em cima da mesa havia copos altos. Cheios de
um líquido borbulhante.
— Bem — disse o homem —, cá vai.
Pegou no copo, incitando os outros a imitarem-no.
A tarde fora quente. Liesel ficou levemente desconcertada com a frescura do seu copo. Olhou para
o papá em busca de aprovação. Ele sorriu e exclamou: — Prost, Mädel — à tua, pequena. — Os
copos tocaram-se e no instante em que Liesel levou o seu à boca, sentiu a picada do sabor
fervilhante e tremendamente doce do champanhe. O reflexo levou-a a cuspi-lo em cheio no fato-
macaco do papá, vendo--o espumar e escorrer. Seguiu-se uma explosão de risos de todos eles, e
Hans encorajou-a a tentar de novo. Da segunda vez, conseguiu engolir, e apreciar o sabor de uma
gloriosa regra desrespeitada. Era fantástico. As borbulhas mordiscavam-lhe a língua. Provocavam-
lhe formigueiros no estômago. Já a caminho do trabalho seguinte, ela ainda sentia o calor das
picadas dentro de si.
Arrastando o carrinho, o papá disse-lhe que aquelas pessoas haviam afirmado não ter dinheiro.
— Portanto pediu-lhes champanhe?
— Por que não? — Fitou-a e nunca os seus olhos se tinham assemelhado mais a prata. — Não quis
que pensasses que as garrafas de champanhe só são usadas para alisar tinta. — E avisou-a: — Mas
não contes à Mãe. Ouviste?
— Posso contar ao Max?
— Claro, podes contar ao Max.

Na cave, quando escreveu acerca da sua vida, Liesel jurou nunca mais voltar a beber champanhe,
porque nunca lhe saberia tão bem como naquela quente tarde de Julho.
Com os acordeões passava-se o mesmo.
Muitas vezes ela desejara perguntar ao papá se a ensinava a tocar, mas fosse por que fosse, alguma
coisa a detinha sempre. Talvez uma intuição ignorada lhe dissesse que ela nunca seria capaz de
tocar como Hans Hubermann. Seguramente, nem os maiores acordeonistas do mundo poderiam
comparar-se a ele. Nunca poderiam igualar a concentração despreocupada do rosto do papá. Ou não
haveria um cigarro-trocado-por-pinturas enfiado nos lábios do tocador. E nunca poderiam ter um
pequeno engano, soltando uma risada em três notas ao aperceberem-se disso. Não como ele o fazia.
Às vezes, naquela cave, ela acordava saboreando o som do acordeão nos ouvidos. Sentia na língua
a queimadura doce do champanhe.

306

Por vezes, encostava-se à parede desejando veementemente que o tépido dedo de tinta lhe
escorresse só mais uma vez pelo lado do nariz, ou poder contemplar a textura semelhante a lixa das
mãos do papá.
Se ao menos pudesse experimentar de novo esse alheamento, sentir tanto amor sem o saber,
confundindo-o com riso e pão besuntado apenas com o cheiro de compota.
Foi a melhor época da sua vida.

Mas era tapete para bombas.


Não se iludam.

Ousada e luminosa, uma trilogia de felicidade prosseguiria durante todo o Verão e entrada do
Outono. Chegaria então abruptamente ao fim, pois a luminosidade mostrara o caminho ao
sofrimento.
Os tempos difíceis aproximavam-se.
Como uma parada.

SIGNIFICADO #1 DO DUDEN DICTIONARY


Zufriedenheit — Felicidade:
Vem de feliz — desfrutar
prazer e satisfação.
Palavras relacionadas: alegria, regozijo,
sentir-se afortunado ou próspero.

307

A TRILOGIA

Enquanto Liesel trabalhava, Rudy corria.


Dava voltas à pista no Hubert Oval, corria em redor do quarteirão, e desafiava quase toda a gente
para uma corrida desde o fim da Rua Himmel até à loja de Frau Diller, concedendo diversas
vantagens.
Em algumas ocasiões, quando Liesel estava a ajudar a mãe na cozinha, Rosa olhava pela janela e
exclamava: — O que anda aquele pequeno Saukerl a tramar desta vez? Todas aquelas corridas lá
por fora.
Liesel aproximava-se da janela. — Pelo menos não voltou a pintar--se de preto.
— Bem, já é qualquer coisa, não?

AS RAZÕES DE RUDY
Em meados de Agosto, ia realizar-se um festival
da Juventude Hitleriana, e Rudy estava
decidido a vencer quatro provas: os mil e quinhentos
metros, os quatrocentos, os duzentos e, é claro, os cem.
Gostava dos seus novos líderes da Juventude Hitleriana e
queria agradar-lhes, e queria mostrar ao seu velho
amigo Franz Deutscher uma ou duas coisas.

— Quatro medalhas de ouro — disse ele para Liesel uma tarde em que ela andava a correr com ele
na pista do Hubert Oval. — Como o Jessie Owens em 36.
— Não continuas obcecado por ele, pois não?
Os pés de Rudy acompanhavam o ritmo da sua respiração. — Não verdadeiramente, mas era bom,
não era? Dava uma lição a todos os sacanas que disseram que eu era maluco. Iam ver que afinal eu
não era assim tão estúpido.

308

— Mas consegues mesmo vencer as quatro provas?


Abrandaram para parar no fim da pista, e Rudy apoiou as mãos nas ancas. — Tem de ser.

Durante seis semanas ele treinou, e chegado o dia do festival, em meados de Agosto, o céu
apresentava-se limpo e com sol. A relva estava coberta de jovens hitlerianos, pais, e uma pletora de
líderes de camisa castanha. Rudy Steiner mostrava-se em óptima forma.
— Olha — apontou ele. — Está ali o Deutscher.
Para lá dos magotes de multidão, o epítome louro dos padrões da Juventude Hitleriana dava
instruções a dois membros da sua divisão. Estes acenavam e de vez em quando faziam
alongamentos. Um deles protegeu os olhos do sol como numa saudação.
— Queres ir cumprimentar? — perguntou Liesel.
— Não, obrigado. Faço isso depois. Quando tiver vencido.
As palavras não foram proferidas, mas encontravam-se definitivamente lá, algures entre os olhos
azuis de Rudy e as mãos agitadas de Deutscher.

Houve a obrigatória marcha em volta do campo.


O hino.
Heil Hitler.
Só depois puderam começar.

Quando o grupo etário de Rudy foi chamado para os 1500 metros, Liesel desejou-lhe sorte de uma
maneira tipicamente alemã.
— Hals und Beinbruch, Saukerl.
Dissera-lhe para partir o pescoço e uma perna.

Os rapazes juntaram-se no extremo mais distante do campo circular. Alguns faziam alongamentos,
outros concentravam-se, e o resto estava ali porque tinha de lá estar.
Ao lado de Liesel sentara-se Barbara, a mãe de Rudy, com os filhos mais novos. Um cobertor fino
transbordava de garotos e relva arrancada. — Conseguem ver o Rudy? — perguntou-lhes ela. — E
o da ponta de lá. — Barbara Steiner era uma mulher bondosa cujo cabelo parecia sempre acabado
de escovar.
— Onde? — indagou uma das garotas. Provavelmente Bettina, a mais nova. — Eu não consigo vê-
lo.
— Aquele último. Não, não é aí. Ali.

309

Ainda continuavam no processo de identificação quando a pistola do juiz de partida expeliu o seu
fumo e som. Os pequenos Steiner correram para a cerca.
Durante a primeira volta, liderou um grupo de sete rapazes. Na segunda, desceu para cinco, e na
seguinte, para quatro. Rudy foi o quarto corredor em todas as voltas até à última. Um homem à
direita estava a dizer que o rapaz que vinha em segundo lhe parecia o melhor. Era o mais alto. —
Espera só — afirmou ele à esposa perplexa. — Quando faltarem duzentos ele vai destacar-se. — O
homem estava enganado.
Um gargantuesco oficial de camisa castanha informou o grupo de que faltava uma volta. Aquele,
seguramente, não sofria com o sistema de racionamento. Gritou à passagem do molhe da frente
pela linha, e quem acelerou não foi o segundo rapaz, mas sim o quarto. E fê-lo duzentos metros
adiantado.
Rudy corria.
Não olhou para trás em fase alguma.
Semelhante a uma corda elástica, acelerou a passada até que qualquer pensamento de ser outro a
vencer a corrida se desvaneceu. Devorou a pista enquanto os três corredores atrás de si lutavam uns
com os outros pelos restos. Na recta final, não havia mais nada senão cabelo louro e espaço, e
depois de atravessar a linha, ele não parou. Não ergueu o braço. Não houve sequer uma curvatura
de alívio. Limitou-se a percorrer mais vinte metros e a olhar eventualmente por cima do ombro para
ver os outros cruzarem a linha.
Ao voltar para junto da família, encontrou primeiro os seus líderes e depois Franz Deutscher.
Ambos acenaram.
— Steiner.
— Deutscher.
— Parece que todas aquelas voltas que te mandei fazer compensaram, hem?
— Parece que sim.
Não sorriria até ter vencido as quatro.

UM PONTO PARA FUTURA REFERÊNCIA


Rudy era agora reconhecido não só como um bom
aluno. Ele era igualmente um atleta dotado.

Para Liesel, houve os quatrocentos. Terminou em sétimo, e depois em quarto na eliminatória dos
duzentos. A única coisa que conseguia ver diante de si eram os jarretes e os rabos-de-cavalo das
raparigas da frente.

310
No salto em comprimento, apreciou a areia amontoada em redor dos pés mais do que qualquer
distância, e o lançamento de peso também não foi o seu melhor momento. Este dia, apercebia-se,
era de Rudy. Na final dos quatrocentos, ele liderou desde a partida até ao fim, e venceu os duzentos
à tangente.
— Estás a ficar cansado? — perguntou-lhe Liesel. Encontravam-se no começo da tarde.
— Claro que não. — Respirava profundamente, exercitando as barrigas das pernas. — O que é que
queres dizer, Saumensch? Que raio sabes tu disto?
Ao chamarem para as eliminatórias dos cem metros, ele pôs-se lentamente de pé e seguiu a fila de
adolescentes em direcção à pista. Liesel correu atrás dele. — Eh, Rudy. — Puxou-lhe a manga da
camisola. — Felicidades.
— Eu não estou cansado — repetiu ele.
— Eu sei.
Rudy piscou-lhe o olho. Estava cansado.

Na sua eliminatória, Rudy abrandou para terminar em segundo, e após dez minutos de outras
corridas, chamaram para a final. Dois outros rapazes tinham um aspecto temível, e Liesel sentia no
estômago a sensação de que Rudy não ia vencer aquela. Tommy Miiller, que terminara a sua
eliminatória em segundo a contar do fim, estava ao pé dela na cerca. — Ele vai ganhar —
informou-a ele.
— Eu sei.
Não, não vai.
Quando os finalistas chegaram à linha de partida, Rudy ajoelhou--se e começou a cavar buracos
com as mãos. Um camisa castanha careca não perdeu tempo a aproximar-se para lhe dizer que
parasse com aquilo. Liesel observou o dedo adulto a apontar, e viu a terra a cair ao chão enquanto
Rudy esfregava as mãos.
Quando foram chamados à frente, Liesel apertou a cerca com mais força. Um dos rapazes teve uma
falsa partida; a pistola disparou duas vezes. Fora Rudy. De novo o oficial trocou palavras com ele e
o rapaz acenou afirmativamente. Mais uma e saía.
Preparados pela segunda vez, Liesel observou atentamente, e durante os primeiros segundos não
queria acreditar no que via. Assinalaram outra falsa partida e fora do mesmo atleta. Diante de si, ela
recriou uma corrida perfeita, em que Rudy se atrasava mas conseguia vencer nos últimos dez
metros. Contudo, aquilo que realmente viu foi a desqualificação de Rudy.

311

Foi escoltado até à beira da pista e obrigado a ficar ali, sozinho, enquanto os restantes rapazes
avançavam.
Alinharam-se e correram.
Um rapaz de cabelo castanho-avermelhado e passada larga ganhou por pelo menos cinco metros.
Rudy ficou.
Mais tarde, quando o dia terminou e o sol foi levado da Rua Himmel, Liesel sentou-se com o amigo
no passeio.
Falaram de tudo o mais, desde a cara de Franz Deutscher depois dos mil e quinhentos metros até à
birra de uma garota de onze anos por ter perdido ao disco.
Antes de seguirem para as suas respectivas casas, a voz de Rudy ergueu-se e ofereceu a verdade a
Liesel. Por instantes, ficou-lhe pousada no ombro mas, alguns pensamentos mais tarde, abriu
caminho até ao seu ouvido.

A VOZ DE RUDY
«Fiz de propósito.»

Após assimilar a confissão, Liesel fez a única pergunta possível.


— Mas porquê, Rudy? Por que é que fizeste isso?
Ele estava de pé, com a mão na cintura, e não respondeu. Não houve mais do que um sorriso
entendido e um passo lento que o levou a casa. Nunca mais voltaram a falar disso.
Liesel, por seu lado, perguntava-se frequentemente qual teria sido a resposta de Rudy se ela tivesse
insistido. Talvez três medalhas tivessem mostrado aquilo que ele queria mostrar, ou talvez tivesse
medo de perder aquela corrida final. Por fim, a única explicação que ela se permitiu ouvir foi uma
voz interior adolescente.
— Porque ele não é o Jesse Owens.
Só ao levantar-se para partir é que reparou nas três medalhas de imitação de ouro pousadas a seu
lado. Bateu à porta dos Steiner e estendeu-lhas. — Esqueceste-te delas.
— Não, não esqueci. — Fechou a porta e Liesel levou as medalhas para casa. Desceu com elas à
cave e falou a Max do seu amigo Rudy Steiner.
— Ele é mesmo estúpido — concluiu ela.
— Claramente — concordou Max, mas duvido que se tenha deixado iludir.
Depois começaram ambos a trabalhar, Max no seu livro de esboços, Liesel em 0 Portador de
Sonhos. Encontrava-se na última fase do romance, em que o jovem padre duvidava da sua fé após
ter conhecido uma mulher estranha e elegante.

312

Vendo-a pousá-lo no colo virado para baixo, Max perguntou-lhe quando pensava tê-lo acabado.
— Alguns dias, no máximo.
— E depois um novo?
A rapariga que roubava livros fitou o tecto da cave. — Talvez, Max. — Fechou o livro e encostou-
se para trás. — Se tiver sorte.

O LIVRO SEGUINTE
Não é o Duden Dictionary and Thesaurus, como poderiam estar à espera.

Não, o dicionário vem no fim desta pequena trilogia, e este é apenas o segundo fascículo. Esta é a
parte em que Liesel acaba O Portador de Sonhos e rouba uma história chamada Uma Canção no
Escuro. Como sempre, foi tirado de casa do presidente da câmara. A única diferença é que ela se
dirigiu sozinha à zona alta da cidade. Nesse dia não houve Rudy.
Estava uma manhã simultaneamente rica em sol e nuvens diáfanas.
Liesel encontrou-se na biblioteca do presidente da câmara com cobiça nos dedos e títulos de livros
nos lábios. Nessa altura, sentiu-se suficientemente à vontade para passar os dedos pelas prateleiras
— uma pequena repetição da sua visita original àquela sala — e sussurrou muitos dos títulos à
medida que avançava.
Sob a Macieira.
O Décimo Tenente.
Caracteristicamente, muitos títulos a tentavam, mas após um ou dois minutos bem contados na sala,
decidiu-se por Uma Canção no Escuro, muito provavelmente por o livro ser verde, e ela ainda não
possuir um livro dessa cor. As letras gravadas na capa eram brancas, e tinha uma pequena insígnia
com uma flauta entre o título e o nome do autor. Trepou a janela com ele na mão, dizendo obrigada
à saída.
Sem Rudy, sentia um elevado grau de ausência mas, nessa manhã específica, por qualquer motivo,
a rapariga que roubava livros estava mais feliz sozinha. Deitou-se ao trabalho e leu o livro junto ao
rio Amper, suficientemente longe da sede ocasional de Viktor Chemmel e do anterior bando de
Arthur Berg. Não apareceu ninguém, ninguém a interrompeu, e Liesel leu quatro dos curtíssimos
capítulos de Uma Canção no Escuro, e sentiu-se feliz.
Era o prazer e a satisfação.

313

De um bom roubo.

Uma semana depois, a trilogia da felicidade ficou completa.


Nos últimos dias de Agosto, chegou um presente, ou melhor, foi notado.
A tarde aproximava-se do fim. Liesel observava Kristina Müller a saltar à corda na Rua Himmel.
Rudy Steiner travou em derrapagem diante dela na bicicleta do irmão. — Tens tempo livre? —
perguntou ele.
Ela encolheu os ombros. — Para quê?
— Acho que é melhor vires daí. — Deitou a bicicleta e foi buscar a outra a casa. Diante dela,
Liesel via os pedais girar.

Pedalaram até Grande Strasse, onde Rudy parou e esperou.


— Então — perguntou Liesel —, o que é? Rudy apontou. — Olha bem.
Gradualmente, pedalaram até uma posição melhor, atrás de um espruce azul. Através dos ramos
espinhosos, Liesel avistou a janela fechada, e depois o objecto encostado ao vidro.
— Aquilo é...?
Rudy acenou afirmativamente.

Debateram a questão durante vários minutos antes de concordarem em que aquilo tinha de ser feito.
Era óbvio que o objecto fora colocado ali intencionalmente, e se era uma ratoeira, valia a pena.
Por entre os poeirentos ramos azuis, Liesel disse: — Um ladrão de livros fá-lo-ia.
Largou a bicicleta, examinou a rua e atravessou o pátio. Havia sombras de nuvens enterradas no
meio da relva sombria. Eram buracos onde cair, ou manchas de escuridão adicionais para ela se
poder esconder? A sua imaginação lançou-a a escorregar por um desses buracos abaixo até às garras
pérfidas do presidente da câmara em pessoa. Quanto mais não fosse, tais pensamentos distraíam-na
e encontrou-se junto da janela ainda mais depressa do que esperara.
Foi a repetição do que acontecera com O Assobiador.
Os nervos lambiam-lhe as palmas das mãos.
Pequenos regatos de suor serpenteavam-lhe debaixo dos braços.
Levantando a cabeça, conseguiu ler o título. The Complete Duden Dictionary and Thesaurus.
Virou-se rapidamente para Rudy e articulou as palavras: é um dicionário. Ele encolheu os ombros e
abriu os braços.
Trabalhou metodicamente, fazendo deslizar a janela para cima e interrogando-se que aspecto teria
tudo aquilo visto do interior da casa.

314

Imaginou a visão da sua mão larápia a estender-se, obrigando a janela a subir até o livro tombar.
Este pareceu render-se lentamente, como uma árvore a cair.
Apanhei-o.
Quase não houve agitação ou som.
O livro inclinou-se simplesmente para ela e ela agarrou-o com a mão livre. Fechou mesmo a janela,
impecavelmente, e depois voltou-se e regressou através dos buracos de nuvens.
— Belo — elogiou Rudy entregando-lhe a bicicleta.
— Obrigada.
Pedalaram em direcção à esquina, onde a importância do dia os atingiu. Liesel soube. Era outra vez
aquela sensação de ser observada. Uma voz pedalava dentro dela. Duas voltas.
Olha para a janela. Olha para a janela.
Sentiu-se compelida.
Tal como uma comichão que exige uma unha, ela sentiu um forte desejo de parar.
Pousou os pés no chão e virou-se a fim de ficar de frente para a casa do presidente da câmara e a
janela, e então viu. Decerto Liesel devia estar ciente de que aquilo podia acontecer, mas não
conseguiu ocultar o choque que flanava no seu íntimo ao avistar a mulher do presidente da câmara,
de pé atrás do vidro. Ela era transparente, mas estava lá. O seu cabelo lanugento tinha o aspecto de
sempre, e os seus olhos e boca e expressão magoados estavam erguidos, para serem vistos.
Muito devagar, ela levantou a mão para a rapariga que roubava livros, parada na rua. Um aceno
imóvel.
No seu estado de choque, Liesel não disse nada, nem a Rudy nem a si própria. Apenas se endireitou
e levantou a mão num reconhecimento da mulher do presidente da câmara, à janela.

SIGNIFICADO #2 DO DUDEN DICTIONARY


Verzeihung — Perdão:
Deixar de sentir cólera,
animosidade, ou ressentimento.
Palavras relacionadas: absolvição,
libertação, clemência.

A caminho de casa, pararam na ponte e inspeccionaram o pesado livro preto. Ao folheá-lo, Rudy
encontrou uma carta. Pegou-lhe e olhou lentamente para a rapariga que roubava livros. — Tem o
teu nome.

315

O rio deslizava.
Liesel pegou no papel.

A CARTA
Querida Liesel,
Sei que me achas patética e repulsiva (procura essa palavra no dicionário se não a conheces), mas
devo dizer-te que não sou tão estúpida que não veja as tuas pegadas na biblioteca. Ao dar pela falta
do primeiro livro, pensei apenas que o arrumara mal, mas depois vi marcas de pés no soalho em
algumas manchas de luz.
Provocaram-me um sorriso.
Fiquei satisfeita por teres levado o que já era teu por direito. Depois cometi o erro de pensar que
aquilo acabaria ali.
Quando voltaste, devia ter ficado zangada, mas não fiquei. Da última vez ouvi-te, mas decidi
deixar-te em paz. Tu levas sempre apenas um livro, e seriam precisas mil visitas até todos eles
desaparecerem. A minha única esperança é que um dia tu batas à porta da frente e entres na
biblioteca de maneira civilizada.
Uma vez mais, lamento que não tenhamos podido conservar os serviços da tua mãe.
Por fim, espero que aches este dicionário e thesaurus útil para a leitura dos teus livros roubados.
Sinceramente,
Ilsa Hermann
— É melhor voltarmos para casa — sugeriu Rudy, mas Liesel não se mexeu.
— És capaz de esperar aqui dez minutos?
— Claro.

Liesel pedalou esforçadamente de volta ao 8 da Grande Strasse e parou no território familiar da


entrada da casa. O livro ficara com Rudy, mas ela tinha a carta e passou os dedos pelo papel
dobrado à medida que os seus passos se iam tornando mais pesados. Quatro vezes tentou bater na
carne intimidante da porta, mas não foi capaz. O mais que conseguiu, foi pousar suavemente os nós
dos dedos na tepidez da madeira.
Uma vez mais, o irmão veio ao seu encontro.
316
Do fundo dos degraus, o joelho a sarar lindamente, disse: — Vá lá, Liesel, bate.

Ao fugir pela segunda vez, em breve avistou a figura distante de Rudy na ponte. O vento entrava-
lhe pelos cabelos. Os seus pés giravam com os pedais.
Liesel Meminger era uma criminosa.
Mas não por ter roubado uma mão-cheia de livros através de uma janela aberta.
Devias ter batido, pensou ela, e apesar de uma boa porção de culpa, havia ali também o rasto de um
riso juvenil.
Enquanto pedalava, tentava dizer uma coisa a si mesma.
Não mereces ser tão feliz, Liesel. Realmente não.
Poderá uma pessoa roubar felicidade? Ou isso é apenas outro infernal truque interior humano?
Liesel encolheu os ombros, afastando os seus próprios pensamentos. Atravessou a ponte e disse a
Rudy para se despachar e não esquecer o livro.
Pedalaram até casa em bicicletas ferrugentas.
Pedalaram até casa um par de quilómetros, do Verão ao Outono, e de uma noite serena ao bafo
atroador do bombardeamento de Munique.

317

O SOM DE SIRENES

Com o pequeno pecúlio de moedas que ganhara no Verão, Hans comprou lá para casa um rádio em
segunda mão. — Assim — disse ele —, podemos ouvir quando se aproximam os ataques ainda
antes de as sirenes começarem a tocar. Eles emitem o som cucu e depois anunciam as regiões em
perigo.
Pousou-o na mesa da cozinha e ligou-o. Tentaram igualmente que ele trabalhasse na cave, para
Max, mas aí não havia senão estática e vozes truncadas nos altifalantes.
Em Setembro, eles dormiam e não o ouviram.
Ou o rádio já estava semiavariado, ou foi imediatamente abafado pelo som clamoroso das sirenes.

Uma mão abanou docemente o ombro de Liesel adormecida. Seguiu-se a voz do papá, apreensiva.
— Liesel, acorda. Temos de ir.
Além da desorientação devida ao sono interrompido, Liesel mal conseguia distinguir os contornos
da cara do papá. A única coisa verdadeiramente visível era a sua voz.

No vestíbulo, detiveram-se.
— Esperem — disse Rosa.
Por entre a escuridão, correram para a cave.
O candeeiro estava aceso.
Max esgueirou-se detrás das latas de tinta e dos lençóis-de-pingos. Tinha o rosto fatigado e enfiou
nervosamente os polegares nas calças. — Hora de ir, hem?
Hans aproximou-se dele. — Sim, hora de ir. — Apertou-lhe a mão e deu-lhe uma palmada no
braço. — Vemos-te quando voltarmos, certo?

318

— Claro.
Rosa abraçou-o, e Liesel também.
— Adeus, Max.

Semanas antes, tinham discutido se deveriam ficar todos juntos na sua própria cave ou se eles três
deviam ir para o fundo da rua, para casa de uma família chamada Fiedler. Foi Max quem os
convenceu. — Eles disseram que a profundidade aqui não é suficiente. Já vos coloquei em perigo
suficiente.
Hans acenara. — E lamentável que não te possamos levar connosco. É vergonhoso.
— É como é.

Lá fora, as sirenes uivavam às casas, e as pessoas chegavam correndo, coxeando e recuando ao


abandonarem os seus lares. A noite observava. Algumas pessoas observavam-na por sua vez,
tentando descobrir os aviões do tamanho de latas de conserva a cruzarem o céu.
A Rua Himmel era uma procissão de pessoas enredadas, todas a debaterem-se com os seus bens
mais preciosos. Em alguns casos, era um bebé. Noutros, uma pilha de álbuns de fotografias ou uma
caixa de madeira. Liesel levava os seus livros, entre o braço e as costelas. Frau Holtzapfel
carregava uma mala, avançando penosamente com olhos bulbosos e pequenos passos.
O papá, que se esquecera de tudo, até do seu acordeão, correu para ela e libertou a mala da mão que
a apertava. — Jesus, Maria e José, o que é que traz aqui dentro? — perguntou ele. — Uma bigorna?
Frau Holtzapfel caminhava a seu lado. — As coisas essenciais.

Os Fiedler viviam seis casas mais abaixo. Eram uma família de quatro, todos com cabelo cor de
trigo e bons olhos alemães. Mais importante ainda, tinham uma bela cave funda. Nela se
amontoaram vinte e duas pessoas, incluindo a família Steiner, Frau Holtzapfel, Pfiffikus, um jovem,
e uma família de apelido Jenson. No interesse de um ambiente civilizado, Rosa Hubermann e Frau
Holtzapfel foram mantidas separadas, embora certas coisas estivessem acima de disputas
mesquinhas.
Havia uma lâmpada pendurada no tecto e a divisão estava húmida e fria. Paredes irregulares
sobressaíam e acotovelavam as pessoas nas costas enquanto elas, de pé, falavam umas com as
outras. O som abafado das sirenes infiltrava-se de algures. O que ouviam era uma versão distorcida
que, de alguma forma, descobrira caminho lá para dentro. Apesar de isso provocar considerável
apreensão quanto à qualidade do abrigo, pelo menos podiam ouvir as três sirenes que assinalariam
o fim do ataque e a segurança.

319

Não precisavam de um Luftschutzwart — um supervisor de ataques aéreos.


Rudy não tardou a descobrir Liesel e a encontrar-se a seu lado. O cabelo dele apontava para
qualquer coisa no tecto. — Não é formidável?
Ela não conseguiu resistir a um certo sarcasmo. — E encantador.
— Ah, anda lá, Liesel, não sejas assim. O que pode acontecer de pior, além de sermos todos
achatados ou fritos ou lá o que é que as bombas fazem?
Liesel olhou em volta, observando as caras. Começou a compilar uma lista de quem sentia mais
medo.

A LISTA DOS TOPS


1. Frau Holtzapfel
2. Mr. Fiedler
3. O jovem
4. Rosa Hubermann

Os olhos de Frau Holtzapfel mantinham-se esbugalhados. A sua figura angulosa estava inclinada
para diante e a boca era um círculo. Herr Fiedler atarefava-se a perguntar às pessoas, por vezes
repetidamente, como se sentiam. O jovem, Rolf Schultz, mantinha-se isolado num canto, falando
silenciosamente para o ar que o rodeava, numa repreensão. Tinha as mãos cimentadas nos bolsos.
Rosa balouçava-se para a frente e para trás, muito suavemente. — Liesel — murmurou ela —, anda
cá. — Abraçou a rapariga pelas costas, com força. Entoou uma canção, mas tão baixo que Liesel
não a percebia. As notas nasciam-lhe no bafo e morriam-lhe nos lábios. Ao lado delas, o papá
permanecia calado e imóvel. A certa altura, pousou a mão na cabeça fresca de Liesel. Vais viver,
dizia ela, e tinha razão.
A sua esquerda, achavam-se Alex e Barbara Steiner com as filhas mais novas, Emma e Bettina. As
duas raparigas agarravam-se à perna direita da mãe. O rapaz mais velho, Kurt, olhava em frente
numa perfeita pose Juventude Hitleriana, segurando a mão de Karin, que era minúscula, mesmo
para os seus sete anos. Anna-Marie, de dez, brincava com a superfície rugosa da parede de cimento.
Do outro lado dos Steiner estavam Pfiffikus e a família Jenson.
Pfiffikus abstinha-se de assobiar.
O barbudo Sr. Jenson abraçava com força a esposa, e os seus dois filhos remetiam-se a um silêncio
ocasionalmente quebrado. De vez em quando, provocavam-se mutuamente, mas controlavam-se ao
chegar à beira de uma discussão a sério.

320

Após cerca de dez minutos, o que mais sobressaía na cave era uma espécie de não-movimento. Os
corpos estavam soldados entre si e apenas os pés mudavam de posição ou peso. A imobilidade
cravara-se nos rostos. Observavam-se uns aos outros e esperavam.

SIGNIFICADO #3 DO DUDEN DICTIONARY


Angst — Medo:
Uma emoção desagradável, frequentemente
violenta, causada pela antecipação
ou consciência de perigo.
Palavras relacionadas: terror, horror,
pânico, pavor, alarme.

De outros abrigos, houve histórias de cantarem «Deutschland über Alles» ou de pessoas a


discutirem no meio do seu próprio bafo bolorento. Coisas dessas não aconteceram no abrigo dos
Fiedler. Nesse sítio, houve apenas medo e apreensão, e a canção morta nos lábios enrugados de
Rosa Hubermann.
Pouco antes de as sirenes assinalarem o fim, Alex Steiner, o homem da impassível cara de madeira,
convenceu as pequenas a largarem a perna da mulher. Conseguiu esticar-se e procurar a mão livre
do filho. Kurt, ainda estóico e de olhar fixo, agarrou-a e apertou um pouco mais a mão da irmã. Em
breve, todas as pessoas naquela cave estavam de mãos dadas, e o grupo de alemães formava um
círculo irregular. As mãos frias fundiram-se nas quentes e, em alguns casos, transmitia-se a
sensação de outro pulso humano. Atravessava camadas de pele pálida e tensa. Alguns fecharam os
olhos, aguardando a sua extinção definitiva, ou esperando um sinal de que o ataque terminara
finalmente.
Mereceriam melhor sorte, aquelas pessoas?
Quantas tinham perseguido outras activamente, lançadas no rasto do olhar de Hitler, repetindo as
suas frases, os seus parágrafos, a sua obra? Seria Rosa Hubermann responsável? Ela que escondera
um judeu? Ou Hans? Mereceriam todos eles morrer? As crianças?
A resposta a cada uma destas perguntas interessa-me muito, embora não possa permitir que elas me
seduzam. Sei apenas que todas aquelas pessoas me terão pressentido nessa noite, exceptuando as
crianças mais novas. Eu era a sugestão. Eu era a advertência, os meus pés imaginários a entrarem
na cozinha e a percorrerem o corredor.
Como acontece frequentemente com os humanos, ao ler esses relatos nas palavras da rapariga que
roubava livros, senti pena deles, embora não tanta como tive dos que ergui de diversos campos
nessa época.

321

Os alemães nas caves eram lastimáveis, sem dúvida mas, pelo menos, tinham uma hipótese. Aquela
cave não era uma casa de banho. Eles não eram enviados para ali para tomarem duche. Para essas
pessoas, a vida ainda era alcançável.

No círculo irregular, os minutos passavam encharcados.


Liesel segurava a mão de Rudy e a da mãe.
Apenas um pensamento a entristecia.
Max.
Como sobreviveria Max se as bombas chegassem à Rua Himmel?
Olhando em volta, examinou a cave dos Fiedler. Era muito mais forte e consideravelmente mais
funda do que a do 33 da Rua Himmel.
Silenciosamente, interrogou o papá.
Também está a pensar nele?
Quer a pergunta silenciosa tenha sido apreendida quer não, ele fez um curto aceno à rapariga. A que
se seguiram, alguns minutos depois, as três sirenes da paz temporária.
As pessoas no 45 da Rua Himmel abateram-se de alívio.
Algumas cerraram fortemente os olhos e voltaram a abri-los.
Um cigarro foi passado em volta.
Mesmo quando ia a chegar aos lábios de Rudy Steiner, foi-lhe arrebatado pelo pai. — Tu não, Jesse
Owens.
As crianças abraçaram os pais, e todos levaram vários minutos a tomar plena consciência de que se
encontravam vivos, e que iam ficar vivos. Só então os seus pés subiram as escadas, até à cozinha de
Herbert Fiedler.
Lá fora, uma procissão de gente caminhou silenciosa ao longo da rua. Muitos olharam para cima e
agradeceram a Deus ter-lhes poupado as vidas.

Chegados a casa, os Hubermann dirigiram-se directamente para a cave, mas parecia que Max lá se
não encontrava. O candeeiro emitia uma ténue luz alaranjada e eles não o viram nem ouviram
resposta.
— Max?
— Desapareceu.
— Max, estás aí?

— Estou aqui.
A princípio, pensaram que as palavras vinham detrás dos lençóis-de-pingos e das latas de tinta, mas
Liesel foi a primeira a vê-lo, mesmo diante deles. O seu rosto esgotado encontrava-se camuflado
entre os materiais de pinturas. Estava ali sentado, de c lhos e lábios atordoados.

322

Ao dirigirem-se para lá, Max falou de novo.


— Não consegui evitar — disse ele. A réplica veio de Rosa. Agachou-se para ficar ao nível dele.
que é que estás a falar, Max?
— Eu... — Debateu-se para responder. — Quando ficou tudo silencioso, subi até ao corredor e o
cortinado da sala tinha só uma nesga aberta... eu conseguia ver lá para fora. Fiquei a observar,
apenas alguns segundos. — Há vinte e dois meses que ele não via o mundo exterior.
Não houve cólera nem censuras. O papá falou.
— O que te pareceu?
Max levantou a cabeça, com imensa tristeza e imenso assombro. Havia estrelas — disse ele. —
Queimaram-me os olhos.

Quatro pessoas.
Duas de pé. As outras duas permaneceram sentadas.
Todas tinham visto muito nessa noite.
Aquele sítio era a cave real. Aquele era o medo real. Max recompôs--se e levantou-se a fim de
voltar para trás dos lençóis. Desejou-lhes boa-noite, mas não chegou a enfiar-se debaixo das
escadas. Com autorização da mãe, Liesel fez-lhe companhia até de madrugada, a ler Uma Canção
no Escuro enquanto ele desenhava e escrevia no seu livro.
De uma janela da Rua Himmel, escreveu ele, as estrelas incendiaram os meus olhos.

323

O SURRIPIADOR DE CÉUS

O primeiro ataque, afinal de contas, não fora ataque nenhum. Se as pessoas tivessem ficado à
espera para ver os aviões, teriam ficado ali toda a noite. Isso explicava o facto de não se ter ouvido
cuco nenhum na rádio. O Molching Express relatou que um certo operador de uma bateria antiaérea
se achava levemente sobreexcitado. Jurara que ouvia o ruído dos aviões e os avistava no horizonte.
Passara a palavra.
— Ele pode ter feito de propósito — sugeriu Hans Hubermann. — Quem é que quereria ficar
sentado numa bateria antiaérea, a disparar contra aviões que trazem bombas?
E de facto, quando Max prosseguiu a leitura do artigo na cave, lá vinha a notícia de que o homem
de imaginação extravagante fora retirado do seu posto original. O seu destino seria, muito
provavelmente, outro tipo de serviço qualquer noutro lado.
— Felicidades para ele — disse Max. Pareceu compreender, e passou às palavras cruzadas.

O ataque seguinte foi real.


Na noite de 19 de Setembro, o cuco soou na rádio, e foi seguido de uma voz informativa grave.
Dava Molching como possível alvo.
Uma vez mais, a Rua Himmel ficou uma esteira de gente e, uma vez mais, o papá deixou o seu
acordeão. Rosa lembrou-lhe para o levar, mas ele recusou. — Não o levei da última vez — explicou
ele — e nós vivemos. — Era óbvio que a guerra esfumava a distinção entre lógica e superstição.
Um ar estranho seguiu-os até à cave dos Fiedler. — Penso que esta noite é real — declarou o Sr.
Fiedler, e as crianças depressa perceberam que os pais estavam ainda com mais medo desta vez.
Reagindo da única maneira que sabiam, os mais novos começaram a chorar e a gemer enquanto a
sala parecia oscilar.

324

Mesmo na cave, conseguiam ouvir vagamente a sinfonia das bombas. A pressão do ar baixava,
comprimindo-os como um tecto, como se quisesse esmagar a terra. As ruas vazias de Molching
levaram uma dentada.

Rosa agarrava-se furiosamente à mão de Liesel.


O som do choro das crianças atingia-os como murros e pontapés.

Até Rudy se mantinha completamente erecto, simulando descontracção, contraindo-se para evitar
contrair-se. Braços e cotovelos lutavam por espaço. Alguns adultos tentavam acalmar as crianças.
Outros fracassavam em se acalmar a si próprios.
— Calem essa criança! — clamou Frau Holtzapfel, mas a sua frase foi apenas mais uma voz
desditosa no caos quente do abrigo. Dos olhos das crianças soltavam-se lágrimas encardidas, e o
cheiro do bafo nocturno, do suor de axilas e da roupa demasiado usada confundia-se e misturava-se
no que era agora um caldeirão repleto de humanos.
Embora estivessem mesmo ao lado uma da outra, Liesel viu-se obrigada a gritar: — Mãe? — E de
novo: — Mãe, está a esmagar a minha mão!
— O quê?
— A minha mão!
Rosa soltou-a e, como conforto, para banir o tumulto da cave, Liesel abriu um dos seus livros e
começou a ler. O livro do cimo da pilha era 0 Assobiador e ela falou alto para se ajudar a
concentrar. Os seus ouvidos foram insensíveis ao parágrafo de abertura.
— O que é que disseste? — trovejou a mãe, mas Liesel ignorou-a. Manteve-se focada na primeira
página.
Quando virou para a página dois, foi Rudy que notou. Prestou atenção ao que Liesel estava a ler, e
deu uma cotovelada ao irmão e às irmãs, incitando-os a fazerem o mesmo. Hans Hubermann
aproximou--se e soltou um grito, e em breve o silêncio começou a sangrar através da cave
apinhada. Na página três, todos se haviam calado menos Liesel.
Ela não se atrevia a levantar a cabeça, mas sentia-lhes os olhos assustados pendentes de si enquanto
ia içando as palavras e as expelia. Dentro de si uma voz tocava as notas. Isto, dizia, é o teu
acordeão.
O som da página a virar cortava-os ao meio.
Liesel continuava a ler.
Durante pelo menos vinte minutos, ela entregou a história. A sua voz acalmou os garotos mais
novos, e todos os outros tiveram visões do assobiador a fugir da cena do crime.

325

Liesel não. A rapariga que roubava livros via apenas a mecânica das palavras — os seus corpos
encalhados no papel, abatidos para ela passar por cima. Algures, nas fendas entre um parágrafo e a
maiúscula seguinte, havia igualmente Max. Ela recordava as alturas em que lera para ele durante a
sua doença. Estará na cave, interrogava-se? Ou estará novamente a surripiar um relance de céu?

UM PENSAMENTO AGRADÁVEL
Um era uma rapariga que roubava livros.
O outro roubava o céu.

Toda a gente esperava que o chão tremesse.


Isso permanecia um facto imutável, mas ao menos agora estavam distraídos pela rapariga do livro.
Um dos rapazitos mais novos pensou em voltar a chorar, mas Liesel parou nesse instante e imitou o
seu papá, ou até mesmo Rudy. Piscou-lhe o olho e retomou a leitura.
Só quando as sirenes voltaram a derramar-se pela cave é que alguém a interrompeu. — Já é seguro
— disse o Sr. Jenson. — Chiuu! — ordenou Frau Holtzapfel.
Liesel ergueu os olhos. — Só faltam dois parágrafos para o fim do capítulo — informou ela,
continuando a ler sem dar mais ênfase nem apressar a voz. Apenas as palavras.

SIGNIFICADO #4 DO DUDEN DICTIONARY


Wort — Palavra:
Unidade de linguagem com um
significado/uma promessa/
/uma curta observação, declaração,
ou conversação.
Palavras relacionadas: termo,
nome, expressão.

Os adultos, por respeito, mantiveram toda a gente calada, e Liesel terminou o capítulo um de O
Assobiador.
Na subida das escadas, as crianças ultrapassaram-na a correr, mas muitos adultos — até Frau
Holtzapfel, até Pfiffikus (que adequado, considerando o título do que ela lera) — agradeceram à
rapariga a sua distracção. Fizeram-no ao passar por ela, apressando-se a sair de casa para ver se a
Rua Himmel sofrera alguns estragos.
A Rua Himmel estava incólume.

326

O único sinal de guerra era uma nuvem de pó que migrava de leste para oeste. Espreitava pelas
janelas, tentando descobrir uma entrada, e à medida que simultaneamente se adensava e espalhava,
transformava a fila de humanos em aparições.
Já não havia gente na rua.
Eram rumores transportando sacos.

Em casa, o papá contou tudo isso a Max. — Há nevoeiro e cinzas, penso que nos deixaram sair
demasiado cedo. — Olhou para Rosa.
— Achas que vá lá para fora? Ver se precisam de ajuda nos sítios em que as bombas caíram?
Rosa não se mostrou impressionada. — Não sejas tão parvo — disse ela. — Ias sufocar com o pó.
Não, não, Saukerl, tu ficas aqui.
— Ocorreu-lhe um pensamento. Fitou Hans, muito séria agora. De facto, a sua cara espelhava
orgulho. — Fica aqui e conta-lhe da pequena. — Ergueu a voz, apenas ligeiramente. — Do livro.
Max prestou mais atenção.
— O Assobiador — informou-o Rosa. — Capítulo um. — E explicou-lhe exactamente o que
acontecera no abrigo.
Enquanto Liesel se mantinha num canto da cave, Max observou-a, passando a mão pelo queixo.
Pessoalmente, acho que foi nesse instante que ele concebeu a estrutura do trabalho seguinte para o
seu livro de esboços.
A Sacudidora de Palavras.
Imaginou a rapariga a ler no abrigo. Deve tê-la observado a entregar literalmente as palavras. No
entanto, como sempre, deve ter também visto a sombra de Hitler. Provavelmente conseguia já
ouvir-lhe os passos a aproximarem-se da Rua Himmel e da cave, para mais tarde.
Após uma longa pausa, pareceu prestes a falar, mas Liesel ganhou-lhe.
— Viste o céu esta noite?
— Não. — Max olhou para a parede e apontou. Todos aí viram as palavras e o desenho que ele lá
pintara há mais de um ano: a corda e o sol gotejante. — Esta noite, só isso — e depois não se falou
mais. Apenas pensamentos.
De Max, Hans e Rosa não posso eu dizer nada, mas sei que Liesel Meminger estava a pensar que,
se as bombas alguma vez aterrassem na Rua Himmel, não só Max tinha menos hipóteses de
sobreviver do que todos os outros, como morreria completamente sozinho.

327

A PROPOSTA DE FRAU HOLTZAPFEL

De manhã foram inspeccionados os estragos. Não morrera ninguém, mas dois blocos de
apartamentos tinham ficado reduzidos a pirâmides de entulho, e o campo da Juventude Hitleriana
preferido de Rudy vira-lhe retirada uma enorme tigela. Meia cidade aglomerou-se em redor da sua
circunferência. As pessoas calculavam-lhe a profundidade para a comparar com a dos seus abrigos.
Vários rapazes e raparigas cuspiram lá para dentro.
Rudy encontrava-se ao lado de Liesel. — Parece que eles vão precisar de o adubar outra vez.
Como as semanas seguintes não trouxeram ataques aéreos, a vida quase voltou ao normal. No
entanto, aproximavam-se dois momentos significativos.

OS ACONTECIMENTOS DUPLOS DE OUTUBRO


As mãos de Frau Holtzapfel.
A parada de judeus.

As suas rugas assemelhavam-se a injúrias. A sua voz parecia uma sova de bengala.
De facto, foi uma sorte terem visto Frau Holtzapfel chegar da janela da sala, pois os seus nós dos
dedos bateram na porta áspera e decididamente. Não estavam a brincar.
Liesel ouviu as palavras que temia.
— Vai lá tu abrir — disse a mãe, e a rapariga, sabendo o que era bom para si, fez o que lhe
mandavam.
— A tua mãe está em casa? — indagou Frau Holtzapfel.

328

Construída de arame cinquentenário, parara no degrau da entrada, olhando de vez em quando para
trás a fim de inspeccionar a rua. — Aquela porca da tua mãe está cá hoje?
Liesel voltou-se e chamou.

SIGNIFICADO #5 DO DUDEN DICTIONARY


Gelegenheit — Oportunidade:
Uma possibilidade de avanço ou progresso.
Palavras relacionadas:
probabilidade, aberta, ocasião.

Rosa surgiu por trás dela. — O que é que tu queres daqui? Agora queres cuspir também no chão da
minha cozinha?
Frau Holtzapfel não se mostrou minimamente perturbada. — É assim que recebes todos os que te
aparecem à porta da entrada? Que G’sindel.
Liesel observava. Tinha a infelicidade de se encontrar ensanduichada entre elas. Rosa afastou-a do
caminho. — Então, vais dizer-me por que estás aqui ou não?
Frau Holtzapfel olhou uma vez mais para a rua. — Tenho uma proposta para ti.
A mãe mudou de posição. — Palavra?
— Não, não é para ti — desprezou Rosa com um encolher de ombros verbal e concentrou-se em
Liesel. — Para ti.
— Então por que é que perguntaste por mim?
— Bem, preciso pelo menos da tua autorização.
Oh, Maria, pensou Liesel, não me faltava mais nada. Que diabo pode a Holtzapfel querer de mim?
— Gostei daquele livro que tu leste no abrigo.
Não. Não vais conseguir ficar com ele. Liesel estava convencida disso. — Sim?
— Esperava ouvir o resto no abrigo, mas parece que, por agora, estamos seguros. — Rolou os
ombros, endireitando o arame das costas. — Portanto quero que venhas a minha casa ler para mim.
— Tens cá uma lata, Holtzapfel. — Rosa ainda não decidira se havia de ficar furiosa ou não. — Se
tu pensas...
— Eu deixo de cuspir na tua porta — interrompeu-a ela. — E dou-te a minha ração de café.
Rosa decidiu-se por não ficar furiosa. — E um bocado de farinha?
— O quê, és algum judeu? Só o café. Podes trocar o café por farinha com outra pessoa.
Fora decidido.
Por todos, menos a rapariga.

329

— Bom, então está combinado.


— Mãe?
— Calada, Saumensch. Vai lá buscar o livro. — A mãe fitou de novo Frau Holtzapfel. — Que dias
te convêm?
— Segundas e sextas, às quatro horas. E hoje, já de seguida.

Liesel seguiu os passos militarizados até à morada de Frau Holtzapfel, na casa ao lado, a imagem
no espelho da dos Hubermann. Quando muito, seria um pouco maior.
Instalou-se à mesa da cozinha e Frau Holtzapfel sentou-se directamente à sua frente, mas virada
para a janela. — Lê — ordenou ela.
— O capítulo dois?
— Não, o capítulo oito. Claro que é o capítulo dois! Agora começa a ler antes que eu te ponha na
rua.
— Sim, Frau Holtzapfel.
— Deixa lá os «sim, Frau Holtzapfel». Abre mas é o livro. Não temos o dia todo.
Valha-me Deus, pensou Liesel. Isto é o meu castigo por todos aqueles roubos. Apanhou-me
finalmente.
Leu durante quarenta e cinco minutos e quando o capítulo acabou, foi depositado em cima da mesa
um saco com café.
— Obrigada — disse a mulher. — É uma boa história. — Virou-se para o fogão e começou a
arranjar umas batatas. Sem olhar para trás, exclamou: — Ainda aí estás?
Liesel tomou aquilo como a sua deixa para partir. — Danke schön, Frau Holtzapfel. — Junto à
porta, vendo as fotografias emolduradas de dois jovens fardados, atirou também um «heil Hitler»,
de braço estendido para a cozinha.
— Sim. — Frau Holtzapfel sentia orgulho e medo. Dois filhos na Rússia. — Heil Hitler. — Pôs a
água ao lume e conseguiu mesmo reunir a delicadeza necessária para acompanhar Liesel nos
poucos passos até à porta de entrada. — Bis morgen?
O dia seguinte era sexta-feira. — Sim, Frau Holtzapfel. Até amanhã.

Liesel calculou que houvera mais quatro daquelas sessões de leitura com Frau Holtzapfel antes de a
marcha dos judeus ter atravessado Molching.
Iam para Dachau, para se concentrarem.
O que faz duas semanas, escreveria ela mais tarde, na cave. Duas semanas para mudar o mundo, e
catorze dias para o destruir.

330

A LONGA MARCHA PARA DACHAU


Algumas pessoas disseram que o camião se avariara, mas eu posso testemunhar pessoalmente que
não foi esse o caso. Eu estava lá.
O que acontecera era um céu oceânico, com nuvens de boné branco.
Além disso, havia mais do que apenas esse veículo. Três camiões não se avariam todos ao mesmo
tempo.
Quando os soldados encostaram para partilhar um pouco de comida e cigarros e espicaçar o fardo
de judeus, um dos prisioneiros desmaiou de fome e doença. Não faço ideia de onde vinha o
comboio, mas estava talvez a uns seis quilómetros de Molching, e a muitos mais passos do campo
de concentração em Dachau.
Entrei pelo pára-brisas do camião, encontrei o homem doente, e saltei pela retaguarda. A sua alma
estava descarnada. A barba era uma grilheta e uma bola. Os meus pés aterraram pesadamente no
cascalho, embora nem um som fosse ouvido por soldados ou prisioneiros. Mas todos eles me
sentiam o cheiro.
A memória diz-me que havia muitos anseios na parte de trás desse camião. Vozes interiores
chamavam-me.
Porquê ele e não eu?
Graças a Deus não sou eu.
Os soldados, por outro lado, estavam ocupados com uma discussão diferente. O líder esmagou o
cigarro e fez aos outros uma pergunta nebulosa. — Quando foi a última vez que levámos estes ratos
a apanhar ar fresco?
O seu primeiro tenente abafou uma tossidela. — Não há dúvida de que eles estão a precisar disso,
não é?
— Bem, então que tal? Nós temos tempo, não temos?
— Nós temos sempre tempo.
— E está um dia perfeito para uma parada, não achas?
— Sem dúvida.

331
— Então por que esperas?

Liesel estava a jogar futebol na altura em que o ruído chegou à Rua Himmel. Dois rapazes
disputavam a bola a meio-campo quando tudo parou. Até Tommy Müller ouviu. — O que ê isto? —
perguntou ele da sua posição na baliza.
Toda a gente se virou na direcção do arrastar de pés e vozes militares
que se aproximavam.
— Será uma manada de vacas? — sugeriu Rudy. — Não pode ser.
Nunca tem este som, pois não?
Devagar a princípio, a rua de crianças encaminhou-se na direcção do magnético som, na direcção
da loja de Frau Diller. De vez em quando, ouvia-se um grito com mais ênfase.
Num bloco de apartamentos mesmo ao virar da esquina, na Rua de Munique, uma senhora idosa de
voz agourenta decifrou para todos a fonte exacta da agitação. Lá no alto, à janela, a sua cara
apareceu como uma bandeira branca com olhos húmidos e uma boca rasgada. A sua voz,
semelhante a um suicídio, aterrou com um baque aos pés de
Liesel.
Tinha cabelo grisalho.
Os olhos eram azuis muito, muito escuros.
— Die Juden — disse ela. — Os judeus.

SIGNIFICADO #6 DO DUDEN DICTIONARY


Elend — Desgraça:
Grande sofrimento,
infortúnio e aflição.
Palavras relacionadas:
angústia, tormento, desespero,
infelicidade, desolação.

Mais pessoas surgiram na rua, para onde uma série de judeus e outros criminosos já haviam sido
empurrados. Talvez os campos da morte fossem mantidos em segredo mas, de vez em quando,
mostrava-se às pessoas a glória de um campo de trabalho como Dachau.
Mais acima, do outro lado, Liesel avistou o homem com o seu carrinho de tintas. Passava a mão
pelo cabelo com ar constrangido.
— Além — apontou ela a Rudy. — O meu papá. Atravessaram ambos e subiram até Hans
Hubermann, que tentou primeiro levá-los dali. — Liesel — começou ele. — Talvez...

332

Todavia, percebeu que a rapariga estava decidida a ficar, e talvez fosse algo que e la devesse ver.
Sob a brisa outonal, manteve-se a seu lado. Sem falar.

Na Rua de Munique, observaram.


Outros se foram aproximando, em volta deles e à sua frente.
Observaram os judeus a descer a rua como um catálogo de cores. Não foi assim que a rapariga que
roubava livros os descreveu, mas eu posso dizer-lhes que era exactamente isso que eles eram, pois
muitos iam morrer. Cada um deles me saudaria como o seu último amigo verdadeiro, com ossos
semelhantes a fumo e arrastando as almas atrás de si.

Quando chegaram em força, o ruído dos seus pés vibrava no cimo da rua. Os olhos sobressaíam
enormes nos crânios descarnados. E o pó. O pó estava plasmado neles. As suas pernas vacilavam ao
serem empurrados pelas mãos dos soldados — alguns passos cambaleantes de corrida forçada antes
do lento regresso a uma caminhada subnutrida.
Hans observava-os por cima das cabeças da assistência aglomerada. Tenho a certeza de que os seus
olhos estavam prateados e tensos. Liesel olhava pelas abertas ou por cima de ombros.
Os rostos sofredores de homens e mulheres depauperados estendiam--se para eles, implorando não
tanto ajuda — já haviam ultrapassado isso — mas uma explicação. Apenas algo para mitigar aquela
perplexidade.
Os seus pés mal conseguiam erguer-se acima do solo.
Traziam estrelas de David presas nas camisas, e a desgraça colada a si como se lhes tivesse sido
prescrita. «Não se esqueçam da vossa desgraça...» Em alguns casos, enroscava-se neles como uma
trepadeira.
A seu lado, os soldados passaram igualmente, mandando-os apressar e deixar os lamentos. Alguns
desses soldados era apenas rapazes. Tinham o Fuhrer nos olhos.
Observando tudo isto, Liesel teve a certeza de que aqueles eram os mais miseráveis seres vivos. Foi
isso que escreveu acerca deles. As suas caras macilentas achavam-se retesadas de angústia. A fome
devorava-os enquanto eles prosseguiam, alguns de olhos no chão para evitar as pessoas à beira da
estrada. Uns fitavam suplicantes aqueles que tinham vindo observar a sua humilhação, esse
prelúdio às suas mortes. Outros imploravam a alguém, não importava quem, que avançasse e os
apanhasse nos seus braços.
Ninguém avançou.
Quer observassem essa parada com orgulho, temor ou vergonha, ninguém avançou para a
interromper. Por enquanto.

333

De vez em quando, um homem ou uma mulher — não, eles não eram homens e mulheres; eram
judeus — descobria o rosto de Liesel no meio da multidão. Confrontavam-na com a sua derrota, e a
rapariga que roubava livros não podia fazer nada senão devolver-lhes o olhar durante um longo e
irremediável momento antes de eles desaparecerem de novo. Apenas podia ter esperança de que
eles soubessem ler na sua cara a intensidade da dor, reconhecê-la como algo autêntico que não se
desvaneceria.
Tenho um de vocês na minha cave!, desejava ela gritar. Fizemos juntos um boneco de neve! Dei-lhe
treze presentes quando ele esteve doente!
Mas Liesel não disse nada.
De que adiantaria?
Compreendeu que era totalmente inútil para aquela gente. Eles não podiam ser salvos e, daí a
alguns minutos, ela ia ver o que acontecia àqueles que tentassem ajudá-los.

Numa pequena abertura da fila, ia um homem, mais velho do que os outros.


Tinha barba e a roupa rasgada.
Os seus olhos eram da cor da agonia, e apesar da sua ausência de peso, era demasiado pesado para
as pernas o suportarem.
Caiu por diversas vezes.
O lado da cara ficou achatado contra a rua.
Numa dessas ocasiões, um soldado parou junto dele. — Stetiauf — gritou ele para baixo. —
Levanta-te.
O homem ajoelhou-se e lutou para se erguer. Prosseguiu.
Sempre que alcançava o fim da fila, não tardava a perder o impulso e tropeçava, voltando a cair.
Vinham mais atrás dele, um bom camião completo, e ameaçavam alcançá-lo e pisá-lo.
Era insuportável ver a dor dos seus braços que tremiam, tentando erguer o corpo. Cederam ainda
uma vez antes de ele se erguer e dar mais uma série de passos.
Estava morto.
O homem estava morto.
Dêem-lhe mais cinco minutos e ele cairia seguramente na valeta alemã e morreria. E todos eles
deixariam, e todos eles ficariam a ver.

Então, um humano.
Hans Hubermann.

334

Aconteceu tão depressa.


A mão que apertava tão fortemente a de Liesel deixou-a cair no instante em que o homem se
aproximou a debater-se. Ela sentiu a palma bater-lhe na anca.
O papá inclinou-se para o carrinho das tintas e tirou de lá qualquer coisa. Abriu caminho por entre
as pessoas, até à rua.
O judeu encontrava-se diante dele, esperando nova dose de escárnio, mas viu, como todas as outras
pessoas, Hans Hubermann estender a mão e apresentar um bocado de pão, como se fosse magia.
Quando ele mudou de mãos, o judeu abateu-se. Tombou de joelhos e segurou-se às canelas do papá.
Enterrou a cara no meio delas e agradeceu-lhe.
Liesel observava.
De lágrimas nos olhos, viu o homem escorregar mais para diante, levando o papá a recuar para
chorar sobre os seus tornozelos.
Outros judeus foram passando, todos contemplando aquele pequeno milagre inútil. Deslizavam por
eles, como água humana. Nesse dia, alguns alcançariam o oceano. Receberiam um boné branco.
Avançando através da torrente, um soldado depressa chegou à cena do crime. Analisou o homem
ajoelhado e o papá, e olhou para a multidão. Após pensar mais um pouco, tirou o chicote do cinto e
começou.
O judeu foi chicoteado seis vezes. Nas costas, na cabeça, e nas pernas. — Escória! Porco! — Do
ouvido escorria-lhe agora sangue.
Depois foi a vez do papá.
Uma nova mão segurava agora a de Liesel, que ao olhar horrorizada para o lado viu Rudy Steiner
engoliu em seco vendo Hans Hubermann a ser chicoteado na rua. O som provocou-lhe náuseas e
ela esperou ver surgir rachas no corpo do seu papá. Foi golpeado quatro vezes antes de, também
ele, cair ao chão.
Quando o judeu idoso se ergueu dolorosamente pela última vez e prosseguiu, olhou um instante
para trás. Deitou um derradeiro relance pesaroso ao homem que estava agora ele próprio ajoelhado,
as costas queimadas por quatro linhas de fogo, os joelhos doendo contra o solo. Quanto mais não
fosse, o velho morreria como humano. Ou, pelo menos, com o pensamento de que era humano.
Eu?
Eu não tenho tanta certeza de que isso seja assim tão bom.

Quando Liesel e Rudy conseguiram passar e ajudar Hans a erguer-se, ouviam-se muitas vozes.
Palavras e luz solar. Foi assim que ela recordou aquilo.

335

A luz faiscando na rua e as palavras semelhantes a ondas, quebrando-se nas suas costas. Só ao
afastarem-se notaram o pão desprezado, caído na rua.
Vendo Rudy tentar apanhá-lo, um judeu que passava arrebatou-lho da mão e outros dois
disputaram-lho enquanto prosseguiam o seu caminho para Dachau.

Os olhos de prata foram então apedrejados.


Um carrinho foi virado e a tinta escorreu pela rua.
Chamaram-lhe amigo dos judeus.
Outros conservaram-se calados, ajudando-o a regressar à segurança.

Hans Hubermann curvou-se para diante, os braços esticados contra a parede de uma casa. Sentiu-se
de súbito esmagado pelo que acabara
de acontecer.
Teve uma visão, rápida e escaldante.
A cave do 33 da Rua Himmel.
Pensamentos de pânico ficavam presos entre os seus esforços para respirar.
Eles virão agora. Eles virão.
Oh, Cristo, oh, Cristo crucificado.
Fitou a rapariga e fechou os olhos.
— Está ferido, papá?
Em vez de uma resposta recebeu perguntas.
— No que estava eu a pensar? — Cerrou os olhos com mais força e voltou a abri-los. Tinha o fato-
macaco amarrotado. Nas suas mãos havia tinta e sangue. E migalhas de pão. Que diferente do pão
do Verão. — Oh, meu Deus, Liesel, o que é que eu fiz?

Sim.
Tenho de concordar.

O que fizera o papá?

336

PAZ

Pouco depois das onze dessa mesma noite, Max Vandenburg subiu a Rua Himmel com uma mala
cheia de comida e roupa quente. Nos seus pulmões, ar alemão. As estrelas amarelas resplandeciam.
Ao chegar à loja de Frau Diller, olhou uma derradeira vez para trás, para o número trinta e três. Não
conseguiu ver a figura à janela da cozinha, mas ela conseguiu vê-lo. Acenou-lhe e ele não
correspondeu.
Liesel ainda sentia a boca dele na sua testa. Sentia o cheiro do seu bafo de despedida.
— Deixei uma coisa para ti — disse ele —, mas só a receberás quando estiveres preparada.
Saiu.
— Max?
Mas ele não voltou.
Saíra do quarto dela, fechando silenciosamente a porta.
O vestíbulo sussurrou.
Ele partira.
Ao chegar à cozinha, encontrou a mãe e o papá de corpos vergados e rostos petrificados. Estavam
assim há trinta segundos de uma eternidade.

SIGNIFICADO #7 DO DUDEN DICTIONARY


Schweigen — Silêncio:
ausência de som ou ruído.
Palavras relacionadas:
sossego, calma, paz.

Que maravilha.
Paz.

337

Algures, perto de Munique, um judeu alemão caminhava nas trevas. Fora combinado que se
encontraria com Hans Hubermann daí a quatro dias (quer dizer, se eles não o levassem). Era num
sítio ao longo do Amper, onde uma ponte quebrada se debruçava entre o rio e as árvores.
Ele chegaria lá, mas deter-se-ia apenas alguns minutos.
A única coisa que lá se encontrava quatro dias mais tarde, quando o papá compareceu ao encontro,
era uma nota debaixo de uma pedra, na base de uma árvore. Não estava dirigida a ninguém e
continha apenas uma frase.

AS DERRADEIRAS PALAVRAS DE MAX VANDENBURG


Já fizeram que chegue.

Agora, mais do que nunca, o 33 da Rua Himmel era um local de silêncio, e não passou
despercebido que o Duden Dictionary estava profunda e totalmente enganado, principalmente nas
suas palavras relacionadas.
Silêncio não era sossego nem calma, e não era definitivamente paz.

338

O IDIOTA E OS HOMENS DE GABARDINA

Na noite da parada, o idiota ficou sentado na cozinha, bebendo grandes goladas de café Holtzapfel
e ansiando por um cigarro. Esperou pela Gestapo, os soldados, a polícia — por alguém — que
viesse buscá-lo, como sentia que merecia. Rosa mandou-o para a cama. A rapariga atardava-se à
entrada. Mandou-as ambas embora e passou as horas até de madrugada com a cabeça enterrada nas
mãos, à espera.
Não veio nada.
Cada unidade de tempo transportava consigo o ruído esperado de uma pancada na porta e palavras
ameaçadoras.
Que não vieram.
O único som provinha dele.
— O que é que eu fiz? — murmurou ele de novo.
— Céus, muito gostava de um cigarro — respondeu ele. Estava exausto.
Liesel ouviu as frases repetidas várias vezes, e foi-lhe precisa muita contenção para ficar à porta.
Teria gostado de o consolar, mas nunca vira um homem tão devastado. Não havia consolo nessa
noite. Max partira e o culpado era Hans Hubermann.
Os armários da cozinha tinham o formato da culpa, e as palmas das suas mãos humedeciam-se à
recordação daquilo que fizera. Têm de estar suadas, pensou Liesel, pois as suas próprias mãos
achavam-se ensopadas até aos pulsos.

No seu quarto, ela rezou.


De joelhos, braços apoiados ao colchão.
— Por favor, meu Deus, por favor deixai que Max sobreviva. Por favor, meu Deus, por favor...
Os seus joelhos sofredores. Os seus pés doridos.

339

Ao despontar da primeira claridade, Liesel acordou e dirigiu-se à cozinha. O papá dormia, a cabeça
paralela ao tampo da mesa, e tinha vestígios de saliva ao canto da boca. O cheiro a café dominava
tudo, e a visão da estúpida bondade de Hans Hubermann permanecia no ar. Era como um número
ou uma morada. Se se repete vezes suficientes, fixa-se.
A sua primeira tentativa para o despertar passou despercebida, mas o segundo apertão no ombro
levou-o a levantar a cabeça da mesa com um choque.
— Eles chegaram?
— Não, papá, sou eu.
Hans acabou o resto de café cediço da caneca. A sua maçã-de-adão subia e descia. — Eles já
deviam ter vindo. Por que é que eles não vieram, Liesel?
Era um insulto.
Eles já deviam ter vindo e vasculhado a casa, procurando qualquer prova de amizade aos judeus ou
de traição, mas parecia que Max partira sem motivo. Podia estar a dormir na cave ou a desenhar no
seu livro.
— O papá não podia saber que eles não viriam.
— Mas devia saber que não podia dar pão ao homem. Não pensei.
— Papá, não fez nada de mal.
— Não acredito.
Ergueu-se e saiu pela porta da cozinha, deixando-a escancarada. Para piorar ainda mais as coisas, ia
pôr-se uma manhã radiosa.

Passados quatro dias, o papá percorreu uma grande distância ao longo do Amper. Trouxe de volta
uma pequena nota que pousou em cima da mesa da cozinha.

Decorreu mais uma semana, e ainda assim Hans Hubermann continuava à espera da sua punição.
Os vergões das costas estavam a transformar-se em cicatrizes, e ele passava a maior parte do tempo
a caminhar por Molching. Frau Diller cuspia-lhe aos pés. Frau Holtzapfel, fiel à sua palavra,
deixara de cuspir na porta dos Hubermann, mas tinha ali uma boa substituta. — Eu sabia —
insultava-o a lojista. — Seu porco amigo de judeus.
Ele prosseguia, distraído, e Liesel apanhava-o frequentemente na ponte sobre o rio Amper. Apoiava
os braços no parapeito e inclinava o tronco para lá da borda. Passavam por ele miúdos de bicicleta
ou a correr, com vozes sonoras e o bater de pés na madeira. Nada disso o perturbava minimamente.

340

SIGNIFICADO #8 DO DUDEN DICTIONARY


Nachtrauern — Pesar:
tristeza com uma mescla de ânsia,
desapontamento, ou perda.
Palavras relacionadas: arrependimento,
contrição, lamento, mágoa.

— Estás a vê-lo? — perguntou ele uma tarde, quando ela se debruçou também. — Além na água?
O rio não corria muito depressa. Nos remoinhos lentos, Liesel via os contornos da face de Max
Vandenburg. Via-lhe o cabelo como penas e o resto do corpo. — Ele costumava lutar com o Fuhrer
na nossa cave.
— Jesus, Maria e José. — As mãos do papá apertaram com mais força a madeira lascada. — Sou
um idiota.
Não, papá.
É apenas um homem.
As palavras ocorreram-lhe mais de um ano depois, a escrever, na cave. Desejou ter-se lembrado
delas na altura.
— Sou estúpido — afirmou Hans Hubermann para a sua filha adoptiva. — E bondoso. O que
resulta no maior idiota do mundo. A questão é que eu quero que eles me venham buscar. Tudo é
melhor do que esta espera.
Hans Hubermann precisava de justificação. Precisava de saber que Max Vandenburg saíra de sua
casa por uma boa razão.
Finalmente, após quase três semanas de espera, pensou que o seu momento chegara.

Era tarde.
Liesel regressava de casa de Frau Holtzapfel e viu os dois homens com as suas compridas
gabardinas pretas; correu para dentro.
— Papá, papá! — Quase derrubava a mesa da cozinha. — Papá, eles chegaram!
Veio primeiro a mãe. — Porquê é esta gritaria toda, Saumensch? Quem é que chegou?
— A Gestapo.
— Hansi!
Mas já ele surgira e saía de casa para ir ao encontro deles. Liesel quis acompanhá-lo, mas Rosa
reteve-a e ficaram a ver da janela.
O papá estava parado ao portão. Apenas os dedos traíam a sua agitação.
A mãe apertou com mais força os braços de Liesel.

341

Os homens passaram adiante.

O papá olhou para trás, para a janela, alarmado. Depois saiu pelo portão. Chamou-os. — Eh! Estou
aqui. É a mim que querem. Eu vivo nesta.
Os homens de gabardina detiveram-se apenas momentaneamente e consultaram os seus blocos de
apontamentos. — Não, não — responderam eles. As vozes eram profundas e encorpadas. —
Infelizmente, você é um bocado velho de mais para o que nós queremos.
Continuaram a andar, mas não foram longe; estacaram no número trinta e cinco e transpuseram o
portão escancarado.
— Frau Steiner? — indagaram eles quando a porta se abriu.
— Sim, exactamente.
— Viemos falar-lhe sobre um assunto.
Os homens de gabardina mantinham-se semelhantes a colunas engravatadas à entrada da pequena
casa dos Steiner. Por qualquer razão, tinham vindo pelo rapaz. Os homens de gabardina queriam
Rudy.

342

PARTE OITO
a sacudidora de palavras
apresentando:
dominós e trevas — o pensamento de rudy nu — punição — a mulher de um cumpridor de
promessas — um colector — os comedores de pão — uma vela nas árvores — um caderno de
esboços escondido — e a colecção de fatos do anarquista

<Página em branco>

DOMINÓS E TREVAS

Segundo as palavras das irmãs mais novas de Rudy, havia dois monstros sentados na cozinha. As
suas vozes batiam metodicamente na porta enquanto três dos garotos Steiner jogavam dominó do
outro lado. Os restantes três ouviam rádio no quarto, alheios a tudo. Rudy esperava que aquilo não
tivesse nada a ver com o que acontecera na escola na semana anterior. Era algo que recusara contar
a Liesel e de que não falara em casa.

UMA TARDE CINZENTA,


UM PEQUENO GABINETE NA ESCOLA
Havia três rapazes em fila. As suas fichas e
os seus corpos foram minuciosamente examinados.

Terminando o quarto jogo de dominó, Rudy começou a pôr as peças de pé em fileiras, criando
desenhos que serpenteavam pelo soalho da sala de estar. Tal como era seu hábito, deixou
igualmente alguns espaços, não fosse o dedo brejeiro de algum irmão interferir, o que em geral
acontecia.
— Posso deitá-los abaixo, Rudy?
— Não.
— E eu?
— Não. Vamos todos deitá-los abaixo.
Fez três formações separadas, todas conduzindo à mesma torre de dominós no meio. Juntos,
observariam tudo o que fora tão cuidadosamente planeado ruir, e todos eles sorririam da beleza da
destruição.
As vozes na cozinha começavam agora a ficar mais altas, cada uma delas a elevar-se acima das
outras para ser ouvida. Diferentes frases disputaram as atenções até que uma pessoa, anteriormente
calada, se interpôs entre elas.

345

— Não — disse ela. E repetiu. «Não.» Mesmo quando os restantes retomaram a sua discussão,
voltaram a ser silenciados pela mesma voz, que adquirira agora ênfase. — Por favor — suplicou-
lhes Barbara Steiner. — O meu rapazinho não.

— Podemos acender uma vela, Rudy?


Era algo que o pai fazia frequentemente com eles. Apagava a luz e ficavam a ver os dominós
tombarem à luz da vela. De certa forma, tornava o acontecimento mais grandioso, um espectáculo
melhor.
Para todos os efeitos, já lhe doíam as pernas. — Deixa-me ir buscar um fósforo.

O interruptor da luz ficava junto à porta.


Silenciosamente, dirigiu-se para lá com a caixa de fósforos numa das mãos e a vela na outra.
Do outro lado, os três homens e uma mulher encarniçavam-se.
— As melhores notas da turma — disse um dos monstros. Que profundidade e secura. — Para não
falar das suas capacidades atléticas.
— Raios, por que é que ele havia de ter ganho todas aquelas corridas no festival?
Deutscher.
Diabos levassem aquele Franz Deutscher!
Mas depois compreendeu.
O culpado daquilo não era Franz Deutscher, mas sim ele próprio. Quisera mostrar ao seu antigo
atormentador do que era capaz, mas quisera igualmente afirmar-se perante toda a gente. Agora toda
a gente estava na cozinha.

Acendeu a vela e apagou a luz.


— Prontos?
— Mas eu ouvi falar no que acontece lá. — Aquela era a inconfundível voz de carvalho do pai.
— Anda lá, Rudy, despacha-te.
— Sim, mas tem de compreender, Herr Steiner, que tudo isto visa um objectivo grandioso. Pense
nas oportunidades que o seu filho pode ter. Isto é na realidade um privilégio.
— Rudy, a vela está a pingar.
Ele fez-lhes um gesto impaciente, esperando outra vez por Alex Steiner. Ele veio.
— Privilégios? Tal como correr descalço, na neve? Tal como saltar de plataformas de dez metros
para menos de um metro de água?

346

Rudy estava agora de ouvido colado à porta. A cera da vela escorria--lhe para a mão.
— Boatos. — A voz árida, baixa e desprendida tinha resposta para tudo. — A nossa escola é uma
das melhores alguma vez fundadas. É melhor do que as melhores do mundo. Estamos a criar um
grupo de elite de cidadãos alemães em nome do Führer...

Rudy não conseguiu ouvir mais.


Raspou a cera da mão e afastou-se da nesga de luz que passava através da fenda da porta. Quando
se sentou, a chama apagou-se. Demasiado movimento. As trevas instalaram-se. A única claridade
existente era um traço rectangular, com o feitio da porta da cozinha.
Riscou outro fósforo e voltou a acender a vela. O cheiro ameno de lume e carvão.
Rudy e as irmãs deram cada um uma pancada num dominó diferente e ficaram a vê-los tombar até a
torre do meio ser derrubada. As raparigas aplaudiram.
Kurt, o irmão mais velho, entrou na sala.
— Parecem corpos mortos — comentou ele.
— O quê?
Rudy perscrutou o rosto obscurecido, mas Kurt não respondeu. Dera pela discussão na cozinha. —
O que é que se passa ali?
Foi uma das raparigas que respondeu. A mais nova, Bettina. De cinco anos. — Estão lá dois
monstros — disse ela. — Vieram buscar o Rudy.
De novo, a criança humana. Muito mais perspicaz.

Mais tarde, depois de os homens de gabardina terem partido, os dois rapazes, um de dezassete e
outro de catorze, arranjaram coragem para enfrentar a cozinha.
Pararam na ombreira da porta. A luz castigava-lhes os olhos.
Quem falou foi Kurt. — Eles vão levá-lo?
Os braços da mãe assentavam flácidos na mesa, com as palmas das mãos viradas para cima.
Alex Steiner levantou a cabeça.
Estava pesada.
A sua expressão era cortante e definida, recentemente esculpida.
Uma mão de madeira limpou as lascas da sua franja, e ele fez várias tentativas para falar.
— Papá?
Mas Rudy não se dirigiu para o pai.

347

Sentou-se à mesa da cozinha e pegou nas mãos da mãe.


Alex e Barbara Steiner não revelaram o que fora dito enquanto os dominós tombavam como corpos
mortos na sala. Se ao menos Rudy tivesse ficado a escutar à porta apenas mais alguns minutos...
Nas semanas que se seguiram, ele disse a si próprio, ou melhor, suplicou a si próprio, que se tivesse
ouvido o resto da conversa nessa noite, teria entrado na cozinha muito mais cedo. «Eu vou», teria
ele dito. «Por favor, levem-me, estou pronto.»
Se ele tivesse interferido, talvez isso tivesse mudado tudo.

TRÊS POSSIBILIDADES
1. Alex Steiner não teria sofrido
a mesma punição de Hans Hubermann.
2. Rudy teria partido para a escola.
3. E talvez tivesse vivido.

A crueldade do destino, contudo, não permitiu que Rudy Steiner entrasse na cozinha no momento
oportuno. Ele voltara às irmãs e aos dominós. Sentara-se. Rudy Steiner não ia a lado algum.

348

O PENSAMENTO DE RUDY NU

Estava lá uma mulher.


De pé ao canto.
Tinha a trança mais grossa que ele já vira. Caía-lhe pelas costas, e ocasionalmente, quando ela a
passava sobre o ombro, debruçava-se sobre o seu peito colossal como um animal de estimação
sobrealimentado. De facto, tudo nela era ampliado. Os lábios, as pernas, os dentes ladrilhados. A
voz era ampla, directa. Sem tempo a perder. — Komm — ordenou-lhes ela. — Venham. Ponham-se
ali.
O médico, em comparação, assemelhava-se a um roedor calvo. Era baixo e ágil, percorrendo o
gabinete da escola com os seus movimentos e maneirismos maníacos mas eficientes. E estava
constipado.
Dos três rapazes, era difícil decidir qual foi o mais relutante em despir a roupa quando assim lho
ordenaram. O primeiro olhou de umas pessoas para as outras, do professor de meia-idade para a
enfermeira gargantuesca para o médico minúsculo. O do meio fitava apenas os seus próprios pés, e
o da ponta dava graças a Deus por se encontrar no gabinete da escola e não numa viela sombria. A
enfermeira, decidiu Rudy, era um susto.
— Quem é o primeiro? — perguntou ela.
Respondeu-lhe o professor, Herr Heckenstaller. Era mais um fato escuro do que um homem. A cara
era um bigode. Examinou os rapazes, e escolheu rapidamente.
— Schwarz.
O infeliz Júrgen Schwarz desabotoou a farda, tremendamente constrangido. Ficou apenas de
sapatos e roupa interior. No seu rosto alemão espelhou-se uma súplica infeliz.
— E? — incitou Herr Heckenstaller. — Os sapatos? Ele descalçou os dois sapatos, as duas peúgas.
— Und die Unterbosen — ordenou a enfermeira. — E as cuecas.

349

Tanto Rudy como o outro rapaz, Olaf Spiegel, haviam igualmente começado já a despir-se, mas não
se achavam sequer próximo da perigosa situação de Jiirgen Schwarz. O rapaz tremia. Era um ano
mais novo do que os outros dois, mas mais alto. Deixando cair as cuecas, foi com a mais abjecta
humilhação que ficou ali imóvel, no pequeno gabinete gélido. O seu respeito próprio encontrava-se
em volta dos tornozelos.
A enfermeira observava-o atentamente, os braços cruzados sobre o peito arrasador.
Heckenstaller mandou os outros dois despacharem-se.
O médico coçou a calva e tossiu. A constipação estava a dar cabo dele.

Os três rapazes nus foram examinados, um de cada vez, no soalho frio.


Seguravam os órgãos genitais com as mãos e tremiam como o futuro.

Por entre a tosse e os arquejos do médico, foram postos à prova.


— Inspira. — Fungadela.
— Expira. — Segunda fungadela.
— Agora de braços esticados. — Tossidela. — Eu disse braços esticados. — Um terrível ataque de
tosse.
Como é característico dos humanos, os rapazes olhavam constantemente uns para os outros em
busca de um sinal de simpatia mútua. Que não havia ali. Todos três tiraram com dificuldade as
mãos dos pénis e esticaram os braços. Rudy não se sentiu parte de uma raça superior.

— Estamos a conseguir gradualmente criar um novo futuro — ia a enfermeira informando o


professor. — Será uma nova classe de alemães, física e mentalmente avançados. Uma classe de
oficiais.
Infelizmente, o seu sermão foi interrompido quando o médico se dobrou ao meio e tossiu com força
sobre a roupa abandonada. As lágrimas subiram-lhe aos olhos e Rudy não pôde deixar de se
interrogar.
Um novo futuro? Como ele?
Sensatamente, não disse nada.
O exame terminou e ele conseguiu executar o seu primeiro «heil Hitler» nu. Com uma certa
perversidade, admitiu que não fora assim tão mau.

Despojados da sua dignidade, os rapazes foram autorizados a vestir--se novamente, e ao


abandonarem o gabinete puderam já ouvir a discussão travada em sua honra nas suas costas

350

— São um pouco mais velhos do que o usual — comentou o médico —, mas penso que, pelo
menos, dois deles.
A enfermeira concordou. — O primeiro e o terceiro.

Estavam três rapazes lá fora. Primeiro e terceiro.


— O primeiro foste tu, Schwarz — disse Rudy. Depois interrogou Olaf Spiegel. — Quem foi o
terceiro?
Spiegel efectuou alguns cálculos. Ela quereria dizer o terceiro da fila ou o terceiro a ser examinado?
Não interessava. Ele sabia o que queria acreditar. — Foste tu, acho eu.
— Uma ova, Spiegel, foste tu.

UMA PEQUENA GARANTIA


Os homens de gabardina sabiam quem fora o terceiro.

No dia seguinte à visita deles à Rua Himmel, Rudy sentou-se no degrau da frente com Liesel e
relatou-lhe toda a saga, nos mais pequenos pormenores. Cedeu e confessou o que acontecera
naquele dia na escola em que o tinham ido buscar à sala de aula. Houve até alguns risos à custa da
colossal enfermeira e da expressão da cara de Jurgen Schwarz. Em termos gerais, contudo, foi uma
história de ansiedade, principalmente quando chegou às vozes na cozinha e aos dominós corpos-
mortos.
Durante dias, Liesel não conseguiu afastar da cabeça um pensamento.
Era o exame dos três rapazes, ou se quisesse ser franca, era Rudy.
Ficava deitada, com saudades de Max, perguntando-se onde estaria ele, rezando para que estivesse
vivo, mas algures, de pé no meio de tudo isso, estava Rudy.
Resplandecia no escuro, completamente nu.
Havia nessa visão algo de temível, especialmente no momento em que ele era forçado a afastar as
mãos. Era desconcertante, no mínimo, mas fosse lá por que fosse, ela não conseguia deixar de
pensar nisso.

351

PUNIÇÃO

Nas senhas de racionamento da Alemanha nazi não havia uma linha para punição, mas toda a gente
tinha de receber a sua porção. Para alguns, foi a morte num país estranho durante a guerra. Para
outros, foi a pobreza e a culpa quando a guerra terminou, quando se fizeram seis milhões de
descobertas através da Europa. Muita gente deve ter visto aproximar-se a sua punição, mas apenas
uma pequena percentagem a recebeu de braços abertos. Uma dessas pessoas foi Hans Hubermann.
Não se ajudam judeus na rua.
Não se esconde um judeu na cave.
A princípio, a sua punição foi a consciência. A forma desatenta como desentocara Max Vandenburg
afligia-o. Liesel via-a sentada junto ao seu prato sempre que ele ignorava o jantar, ou de pé a seu
lado na ponte sobre o Amper. Deixara de tocar acordeão. O seu optimismo de olhos prateados
encontrava-se ferido e imóvel. Isso já era suficientemente mau, mas era apenas o princípio.
Uma quarta-feira no início de Novembro, a sua verdadeira punição chegou à caixa do correio. À
superfície, pareciam ser boas notícias.

PAPEL NA COZINHA
Temos o maior prazer em o informar de
que o seu pedido de filiação no NSDAP
foi aprovado...

— O Partido Nazi? — indagou Rosa. — Pensei que eles não te queriam.


— E não queriam.
O papá sentou-se e leu a carta outra vez
352

Não estava a ser julgado por traição ou por ajudar judeus ou por algo do género. Hans Hubermann
estava a ser recompensado, pelo menos na opinião de certas pessoas. Como era aquilo possível?
— Tem de haver mais qualquer coisa.

Havia.
Na sexta-feira, chegou um documento dizendo que Hans Hubermann ia ser mobilizado para o
exército alemão. Um membro do partido sentir-se-ia feliz por desempenhar o seu papel no esforço
de guerra, concluía. Se não sentisse, haveria certamente consequências.
Liesel acabava de chegar da leitura a Frau Holtzapfel. O ar da cozinha estava pesado de vapor da
sopa e dos rostos vazios de Hans e Rosa Hubermann. O papá estava sentado. A mãe encontrava-se
de pé, junto dele, e a sopa começava a queimar-se.
— Meu Deus, por favor, não me mandes para a Rússia — pediu o papá.
— Mãe, a sopa está-se a queimar.
— O quê?
Liesel atravessou rapidamente e tirou-a do fogão. — A sopa. — Depois de a ter salvado, virou-se e
encarou os pais adoptivos. Rostos semelhantes a cidades fantasmas. — Papá, o que foi?
Ele estendeu-lhe a carta e as mãos de Liesel começaram a tremer enquanto a percorria. As palavras
haviam sido tecladas com força no papel.

O TEOR DA IMAGINAÇÃO DE LIESEL MEMINGER


Na cozinha traumatizada, algures perto do
fogão, há uma imagem de uma máquina de escrever
solitária e sobrecarregada. Está numa sala distante e
quase vazia. As teclas estão gastas e uma folha em branco
aguarda pacientemente esticada na posição assumida.
Oscila levemente com a brisa oriunda da janela.
A pausa para o café está quase a acabar. Junto à porta,
uma pilha de papel da altura de um humano. Podia
perfeitamente estar a fumegar.

Para falar verdade, Liesel só viu a máquina de escrever mais tarde, quando escreveu. Perguntou-se
quantas cartas como aquela teriam sido enviadas como punição aos Hans Hubermanns e Alex
Steiners da Alemanha — aos que ajudavam os impotentes, e aos que recusavam deixar partir os
seus filhos.

353

Era um sinal do desespero crescente do exército alemão.


Estavam a perder na Rússia.
As suas cidades estavam a ser bombardeadas.
Era preciso mais gente, bem como formas de a obter e, na maior parte dos casos, as piores tarefas
possíveis seriam confiadas às piores pessoas possíveis.

Enquanto os seus olhos perscrutavam o papel, Liesel via a mesa de madeira através dos buracos das
letras perfuradas. Palavras como obrigatório e dever achavam-se cravadas na página. A saliva
disparou. Era a vontade de vomitar. — O que é isto?
A resposta do papá foi calma. — Pensei que te tinha ensinado a ler, minha pequena. — Não falou
com raiva nem com sarcasmo. Era uma voz apática, para condizer com a cara. Liesel fitava agora a
mãe.
Rosa tinha um pequeno rasgão sob o olho direito, e no minuto seguinte a sua face engelhada
rompeu-se. Não ao centro, mas pela direita. Descia-lhe pela face descrevendo um arco, e terminava
no queixo.

VINTE MINUTOS DEPOIS:


UMA RAPARIGA NA RUA HIMMEL
Ela olha para cima. Fala num murmúrio.
«O céu hoje está sereno, Max. As nuvens
estão tão serenas e tristes, e...» Desvia
o olhar e cruza os braços. Pensa
no seu papá a ir para a guerra e agarra o
casaco de ambos os lados do corpo.
«E está frio, Max. Está tanto frio...»

Cinco dias depois, ao prosseguir o seu hábito de ver o tempo, não teve oportunidade de observar o
céu.
Na porta ao lado, Barbara Steiner viera sentar-se no degrau da frente com o seu cabelo
impecavelmente penteado. Estava a fumar um cigarro e tremia. Liesel dirigiu-se para lá, mas
deteve-se ao avistar Kurt. Ele saiu e sentou-se ao pé da mãe. Vendo a rapariga parar, chamou-a.
— Anda cá, Liesel. O Rudy não tarda aí.
Após uma breve pausa, ela continuou a andar em direcção ao degrau.
Barbara fumava.
Um círculo de cinza oscilava na ponta do cigarro. Kurt pegou-lhe,
sacudiu a cinza, inspirou e devolveu-o.

354

Acabado o cigarro, a mãe de Rudy ergueu os olhos. Passou a mão pelas impecáveis madeixas de
cabelo.
— O nosso papá também vai — informou Kurt. Silêncio.
Lá em cima, junto à loja de Frau Diller, um grupo de miúdos dava pontapés numa bola.
— Quando eles vêm pedir-nos um dos nossos filhos — explicou Barbara Steiner, sem se dirigir a
ninguém especial — é suposto dizermos que sim.

355

A MULHER DO CUMPRIDOR DE PROMESSAS

A CAVE, 9h00
Seis horas até às despedidas:
«Eu toquei um acordeão, Liesel. Que pertencia a outro.»
Fechou os olhos. «Isso deitou a casa abaixo.»

Excluindo o copo de champanhe do Verão anterior, Hans Hubermann não tocava numa gota de
álcool há uma década. Então chegou a noite anterior à sua partida para os treinos.
Durante a tarde, dirigiu-se com Alex Steiner para o Knoller, e ficou até noite dentro. Ignorando os
avisos das mulheres, ambos os homens se embebedaram para esquecer. E o facto de o proprietário
do Knoller, Dieter Westheimer, lhes oferecer as bebidas, não ajudou nada.
Aparentemente, quando ainda se achava sóbrio, Hans Hubermann foi convidado a subir ao palco
para tocar acordeão. Apropriadamente, tocou o célebre «Gloomy Sunday» — o cântico de suicídio
da Hungria — e apesar de ter despertado toda a tristeza por que a canção era famosa, deitou a casa
abaixo. Liesel imaginou a cena e o som. As bocas cheias. Os copos de cerveja vazios sulcados de
espuma. Os foles suspiraram e a canção terminou. As pessoas aplaudiram. As suas bocas cheias de
cerveja ovacionaram-no até voltar ao bar.
Lá conseguiram encontrar o caminho para casa, mas Hans não foi capaz de enfiar a chave na
fechadura. Por isso bateu. Repetidamente.
— Rosa!
Era a porta errada.
Frau Holtzapfel não se mostrou propriamente eufórica.
— Schwein! Estás na casa errada. — Martelou as palavras através do buraco da fechadura. — É a
porta ao lado, estúpido Saukerl.
— Obrigado, Frau Holtzapfel.

356

— Sabes o que podes fazer aos teus agradecimentos, meu bardamerdas.


— Perdão?
— Vai mas, é para casa.
— Obrigado, Frau Holtzapfel.
— Não te disse já o que podias fazer aos teus agradecimentos?
— Disse?
(E espantoso o que se pode reconstituir a partir de uma conversa de cave e uma sessão de leitura na
cozinha de uma velha antipática.)
— Desanda daqui!

Quando finalmente chegou a casa, o papá não se dirigiu à cama, mas sim ao quarto de Liesel. Ficou
à entrada da porta, embriagado, vendo-a dormir. Ela acordou e pensou imediatamente que se tratava
de Max.
— És tu? — perguntou ela.
— Não — respondeu ele. Sabia exactamente o que Liesel estava a pensar. — É o papá.
Recuou e ela ouviu-lhe os passos a descerem para a cave. Na sala, Rosa ressonava
entusiasticamente.

Cerca das nove horas da manhã seguinte, na cozinha, Liesel recebeu uma ordem de Rosa. — Dá-
me dali aquele balde.
Encheu-o de água fria e dirigiu-se com ele para a cave. Liesel seguiu-a, na tentativa vã de a deter.
— Mãe, não pode fazer isso!
— Não? — Virou-se brevemente para ela, já na escada. — Escapou-me alguma coisa, Saumensch?
Agora és tu quem dá as ordens aqui?
Estavam ambas completamente imóveis. A rapariga não respondeu.
— Também me pareceu que não.
Prosseguiram e encontraram-no de costas, no meio de uma cama de lençóis-de-pingos. Sentira que
não merecia o colchão de Max.
— Agora, vamos lá a ver — Rosa ergueu o balde — se ele está vivo.
— Jesus, Maria e José!
A água deixou uma marca oval, desde o meio do peito dele até à cabeça. O cabelo ficou colado a
um dos lados e até as pestanas pingavam. — Por que foi isso?
— Seu velho bêbado!
— Jesus...
Havia vapor a erguer-se da sua roupa de uma maneira estranha. A ressaca era visível. Içara-se para
cima dos seus ombros e assentara ali como uma saca de cimento húmido.

357

Rosa passou o balde da mão esquerda para a direita. — Tens sorte em ir para a guerra — declarou
ela. Espetou o dedo no ar e não receou agitá-lo. — Senão era eu mesma que te matava. Sabes isso,
não sabes?
O papá limpou um fio de água da garganta. — Precisavas de fazer isto?
— Precisava, sim. — Começou a subir a escada. — Se não estiveres lá em cima dentro de cinco
minutos, levas com outro balde cheio.
Liesel ficou na cave com o papá e atarefou-se a limpar o excesso de água com alguns lençóis.
Depois o papá falou. Com a mão húmida, deteve a rapariga. Segurou-lhe o braço. — Liesel? —
Tinha o rosto pregado nela. — Achas que ele está vivo?
Liesel sentou-se.
Cruzou as pernas.
O lençol molhado ensopou-lhe o joelho.
— Espero que sim, papá.
Sentia que dizer aquilo era uma coisa tão estúpida, tão óbvia, mas não parecia haver alternativas.
Para dizer pelo menos alguma coisa de valor, e para os distrair de pensamentos acerca de Max,
Liesel agachou-se e meteu o dedo numa pequena poça de água do chão. — Guten Morgen, papá.
Em resposta, Hans piscou-lhe o olho.
Mas não foi a piscadela habitual. Esta era mais pesada, mais desajeitada. A versão pós-Max, a
versão de ressaca. Ele sentou-se e falou-lhe do acordeão na noite anterior, e de Frau Holtzapfel.

A COZINHA: 13h00 Duas horas até às despedidas: «Não vá, papá. Por favor.»
A mão que empunha as colheres de pau treme.
«Primeiro, perdemos o Max. Não posso perdê-lo agora a
si também.» Em resposta, o homem ressacado espeta os
cotovelos na mesa e cobre o olho direito.
«Liesel, tu agora já és meia mulher.» Deseja sucumbir
mas controla-se. Ultrapassa o desejo. «Olha pela mãe,
está bem?» A rapariga só consegue fazer um meio aceno
de concordância. «Sim, papá.»

Abandonou a Rua Himmel envergando a sua ressaca e um fato completo.


Alex Steiner só partiria daí a quatro dias. Apareceu uma hora antes de saírem para a estação,
desejando as maiores felicidades a Hans. Viera a família Steiner completa.

358

Todos lhe apertaram a mão. Barbara abraçou-o e beijou-o de ambos os lados. — Volta vivo.
— Sim, Barbara. — E a maneira como disse aquilo transpirava confiança. — Claro que volto. —
Conseguiu mesmo rir-se. — É apenas uma guerra, sabes. Já sobrevivi a outra antes.
Quando iam a subir a Rua Himmel, a mulher de arame que vivia na porta ao lado saiu de casa e
parou no passeio.
— Adeus, Frau Holtzapfel. As minhas desculpas por ontem à noite.
— Adeus, Hans, meu Saukerl bêbedo. — Mas também lhe concedeu uma nota de amizade. —
Volta depressa.
— Sim, Frau Holtzapfel. Obrigado.
Ela brincou mesmo um bocadinho. — Sabes o que podes fazer aos teus agradecimentos.
À esquina, Frau Diller, na defensiva, observava pela montra, e Liesel pegou na mão do papá.
Segurou-a durante todo o percurso ao longo da Rua de Munique e até à Bahnhof. O comboio já lá
estava.
Pararam na plataforma.
Rosa abraçou-o primeiro.
Sem palavras.
Enterrou a cabeça fortemente no seu peito e afastou-se.
Depois a rapariga.

— Papá?
Nada.
Não vá, papá. Não vá. Eles que o venham buscar se ficar. Mas não vá, por favor não vá.
— Papá?

A ESTAÇÃO, 15h00
Nem horas, nem minutos até às despedidas:
Ele abraça-a. Para dizer alguma coisa, para dizer qualquer
coisa, fala por cima do ombro dela. «Es capaz de tomar
conta do meu acordeão, Liesel? Resolvi não o levar.»
Agora encontra uma coisa que realmente sente. «E se
houver mais ataques aéreos, continua a ler no abrigo.»
A rapariga sente o sinal emitido pelo seu peito levemente
desenvolvido. Dói quando toca na base das costelas dele.
«Sim, papá.» Fita atentamente o tecido do fato dele,
a um milímetro dos seus olhos. Fala para dentro dele.
«Toca-nos qualquer coisa quando vier para casa?»

359

Nessa altura Hans Hubermann sorriu para a filha e o comboio estava pronto a partir. Inclinou-se e
segurou-lhe docemente o rosto nas mãos. — Prometo — disse ele, e dirigiu-se para a carruagem.
Fitaram-se enquanto o comboio se afastava.
Liesel e Rosa acenaram.
Hans Hubermann foi ficando cada vez mais pequeno, e a sua mão agora segurava apenas ar.
Na plataforma, as pessoas foram desaparecendo em volta delas até não restar mais ninguém. Havia
apenas a mulher com a constituição de um guarda-roupa e a rapariga de treze anos.

Durante as semanas seguintes, enquanto Hans Hubermann e Alex Steiner se atarefavam nos seus
diferentes campos de treino intensivo, a Rua Himmel inchou. Rudy não era o mesmo — não falava.
A mãe não era a mesma — não ralhava. Também Liesel sofria os efeitos. Não sentia o menor desejo
de roubar um livro, por muito que tentasse convencer-se de que isso a animaria.
Após doze dias de ausência de Alex Steiner, Rudy decidiu que já chegava. Passou apressado o
portão e bateu à porta de Liesel.
— Kommst?
— Ja.

Não lhe interessava onde é que ele ia nem o que ele planeava, mas não iria sem ela. Subiram a
Himmel, percorreram a Rua de Munique e saíram de Molching. Só ao fim de cerca de uma hora é
que Liesel fez a pergunta vital. Até aí, apenas relanceara olhares ao rosto determinado de Rudy, ou
examinara os braços hirtos e as mãos cerradas nos bolsos.
— Onde é que vamos?
— Não é óbvio?
Ela esforçou-se por o acompanhar. — Bom, para ser franca... não.
— Vou procurá-lo.
— Ao teu papá?
— Sim. — Considerou o assunto. — Vendo bem, não. Acho que vou antes procurar o Führer.
Passadas mais rápidas. — Porquê?
Rudy estacou. — Porque quero matá-lo. — Virou-se até, ali mesmo, para o resto do mundo. —
Ouviram isto, seus sacanas? — gritou ele. — Eu quero matar o Führer!
Retomaram a marcha e continuaram por mais alguns quilómetros. Foi então que Liesel sentiu o
impulso de voltar para trás. — Não tarda a ficar escuro, Rudy.

360

Ele prosseguiu. — E então?


— Eu vou voltar para trás.
Rudy estacou e olhou-a como se ela o estivesse a trair. — Isso mesmo, larápia de livros. Abandona-
me agora. Aposto que se houvesse a porcaria de um livro no fim desta estrada, tu continuavas a
andar. Não continuavas?
Por instantes, nenhum deles falou, mas Liesel depressa se recompôs.
— Julgas que és o único, Saukerl? — Virou costas. — E tu só perdeste o teu pai...
— Que quer isso dizer?
Liesel deteve-se um momento a contar,
A mãe. O irmão. Max Vandenburg. Hans Hubermann. Todos tinham partido. E ela nem sequer
tivera nunca um pai verdadeiro.
— Quer dizer que eu vou para casa — respondeu ela.
Durante um quarto de hora caminhou sozinha, e mesmo quando Rudy chegou a seu lado com
respiração de ter corrido e cara transpirada, não proferiram palavra durante mais de uma hora.
Limitaram--se a caminhar juntos para casa, de pés doridos e corações cansados.
Havia um capítulo intitulado «Corações cansados» em Uma Canção no Escuro. Uma rapariga
romântica prometera-se a um jovem, mas parecia que ele fugira com a melhor amiga dela. Liesel
tinha a certeza de que era o capítulo treze. «O meu coração está tão cansado», dissera a rapariga.
Estava sentada numa capela, a escrever no seu diário.
Não, pensou Liesel continuando a andar. O meu coração é que está cansado. Um coração de treze
anos não devia sentir-se assim.
Ao chegarem ao perímetro de Molching, Liesel atirou-lhe algumas palavras. Avistava-se Hubert
Oval. — Lembras-te quando corremos ali, Rudy?
— Claro. Vinha precisamente a pensar nisso, na maneira como ambos caímos.
— Tu disseste que estavas coberto de merda.
— Era só lama. — Agora já não escondia que se estava a divertir.
— Eu fiquei coberto de merda foi na Juventude Hitleriana. Estás a ficar baralhada, Saumensch.
— Não estou nada baralhada. Estou apenas a repetir o que tu disseste. O que uma pessoa diz e o
que aconteceu são em geral duas coisas diferentes, Rudy, especialmente quando se trata de ti.
Assim era melhor.
Quando desceram de novo a Rua de Munique, Rudy parou e olhou para a montra da loja do pai.

361

Antes de Alex partir, ele e Barbara tinham discutido se ela deveria mantê-la a funcionar durante a
sua ausência. Decidiram-se contra, tendo em conta que, de qualquer maneira, o trabalho
ultimamente já escasseava, e que havia pelo menos uma ameaça parcial de membros do partido
fazerem sentir a sua presença. O negócio nunca corria bem a agitadores. O soldo do exército teria
de chegar.
Havia fatos pendurados nos expositores e os manequins mantinham as suas poses ridículas. —
Acho que aquela gosta de ti — comentou Liesel após um bocado. Era a sua maneira de lhe dizer
que eram horas de continuarem.
Na Rua Himmel, avistaram Rosa Hubermann e Barbara Steiner juntas no passeio.
— Oh, Maria! — exclamou Liesel. — Elas parecem preocupadas?
— Parecem furiosas.
Foram fustigados com imensas perguntas à chegada, principalmente do género «Mas por onde
diabo é que vocês dois andaram?», mas a zanga depressa cedeu lugar ao alívio.
Barbara, contudo, insistiu nas perguntas. — Então, Rudy?
Liesel respondeu pelo rapaz. — Ele esteve a matar o Fiibrer — disse ela, e Rudy pareceu
genuinamente feliz durante um momento suficientemente longo para ela ficar satisfeita.
— Adeus, Liesel.

Várias horas mais tarde, houve um ruído na sala. Foi-se estendendo em direcção à cama de Liesel.
Ela acordou e ficou imóvel, pensando em fantasmas e no papá, em assaltantes e em Max. Ouviu-se
o som de algo a abrir e um arrastado, e depois seguiu-se um silêncio impreciso. O silêncio era
sempre a maior tentação.

Não te mexas.
Pensou isso imensas vezes, mas não as suficientes.

Os seus pés tocaram o chão.


O ar entrou-lhe pelas mangas do pijama.
Liesel caminhou pela escuridão do corredor rumo ao silêncio que em tempos fora ruidoso, rumo ao
fio de luar que riscava a sala. Estacou, sentindo a nudez dos tornozelos e dos dedos dos pés.
Observou.
Os seus olhos levaram mais tempo do que ela esperara a adaptar-se e, quando o conseguiram, era
inegável que Rosa Hubermann se encontrava sentada na beira da cama com o acordeão do marido
preso ao peito. Os seus dedos pairavam por cima das teclas. Ela não se movia. Nem sequer parecia
respirar.

362

Essa visão foi catapultada para a rapariga de pé no vestíbulo.

UMA IMAGEM PINTADA


Rosa com Acordeão.
Luar sobre Escuridão.
5'1" x Instrumento x Silêncio
Liesel ficou a observar.
Gotejaram vários minutos. O desejo que a rapariga que roubava livros sentia de ouvir uma nota era
esgotante, mas ela não chegava. As teclas não eram premidas. Os foles não respiravam. Havia
apenas o luar, como um longo fio de cabelo no cortinado, e havia Rosa.
O acordeão continuava preso ao seu peito. Quando ela curvou a cabeça, descaiu-lhe para o colo.
Liesel observava. Sabia que durante os dias seguintes a mãe traria a marca de um acordeão
impressa no corpo. Teve igualmente a percepção de que havia grande beleza naquilo que estava a
presenciar, e ela optou por não a perturbar.
Voltou para a cama e adormeceu com a visão da mãe e da música silenciosa. Mais tarde, ao acordar
do seu sonho habitual, voltou a percorrer silenciosamente o corredor; Rosa ainda lá estava, assim
como o acordeão.
Puxava-a para a frente, como uma âncora. O seu corpo afundava-se. Parecia morta.
Ela não pode conseguir respirar naquela posição, pensou Liesel, mas, aproximando-se, ouviu.
A mãe estava outra vez a ressonar.
Quem precisa de foles, pensou a rapariga, com um par de pulmões assim?

Quando, por fim, Liesel voltou de novo para a cama, a imagem de Rosa Hubermann e do acordeão
não a abandonou. Os olhos da rapariga que roubava livros permaneciam abertos. Aguardou a
asfixia do sono.

363

O COLECTOR

Nem Hans Hubermann nem Alex Steiner foram mandados combater. Alex foi enviado para a
Áustria, para um hospital do exército nos arredores de Viena. Dada a sua formação de alfaiate, foi-
lhe atribuída uma tarefa que, pelo menos, se assemelhava à sua profissão. Todas as semanas
chegavam carradas de fardas, meias e camisas, e ele consertava o que precisava de ser consertado,
ainda que apenas pudesse ser usado como roupa interior para os soldados que sofriam na Rússia.
Hans foi enviado primeiro, ironicamente, para Stuttgart, e depois para Essen. Foi-lhe confiada uma
das mais indesejáveis posições da frente interna. A LSE.

UMA EXPLICAÇÃO NECESSÁRIA


LSE
Luftwaffe Sondereinheit — Unidade Especial de Ataques Aéreos

O trabalho da LSE era permanecer à superfície durante os ataques aéreos e apagar incêndios,
escorar as paredes dos edifícios e salvar alguém que tivesse ficado preso durante o ataque. Como
Hans depressa descobriu, havia também uma definição alternativa para o acrónimo. No seu
primeiro dia, os homens da unidade explicaram-lhe que aquilo significava realmente
Leichensammler Einheit — Colectores de Corpos Mortos.
Recém-chegado, Hans só podia conjecturar sobre o que teriam aqueles homens feito para
merecerem tal tarefa, e eles, por sua vez, perguntavam-se o mesmo acerca de Hans. O líder, o
sargento Boris Schipper, interrogou-o directamente. Depois de Hans explicar o pão, os judeus e o
chicote, o sargento de cara bolachuda soltou uma curta gargalhada. «Tens sorte em estares vivo.»
Os seus olhos eram igualmente redondos e ele passava a vida a limpá-los.

364
Ou estavam cansados ou cheios de fumo e pó ou faziam-lhe comichão. «Lembra-te só de que o
inimigo aqui não está à nossa frente.»
Hans preparava-se para fazer a pergunta óbvia quando chegou uma voz lá detrás. Atracada a ela
vinha a cara delgada de um homem jovem, de sorriso escarninho. Reinhold Zucker. «Connosco»,
disse ele, «o inimigo não está no topo da colina nem em qualquer direcção específica. Está a toda a
volta.» Voltou a concentrar-se na carta que escrevia. «Tu verás.»
No confuso espaço de poucos meses, Reinhold Zucker teria falecido.
Seria morto pelo lugar de Hans Hubermann.

À medida que a guerra voava para o interior da Alemanha com maior intensidade, Hans aprendia
que todos os seus turnos começavam da mesma maneira. Os homens reuniam-se no camião para
serem informados do que fora atingido durante a sua pausa, do que era mais provável que fosse
atingido a seguir, e de quem estava a trabalhar com quem.
Mesmo quando não havia ataques aéreos a decorrer, havia imenso trabalho a fazer. Percorriam
cidades destruídas, efectuando a limpeza. No camião, iam doze homens curvados, subindo ou
descendo conforme as inconsistências da rua.
Desde o início foi claro que todos eles possuíam um lugar. O de Reinhold Zucker era a meio da fila
da esquerda. O de Hans Hubermann era mesmo ao fundo, onde a luz do dia se espreguiçava.
Depressa aprendeu a estar atento a quaisquer resíduos que fossem atirados de qualquer parte para o
interior do camião. Hans reservava um respeito especial às pontas de cigarros, que passavam a
assobiar ainda acesas.

UMA CARTA COMPLETA PARA CASA


Para as minhas queridas Rosa e Liesel,
Por aqui tudo fino. Espero que estejam as duas bem.
Com todo o carinho, Papá

Em finais de Novembro, sentiu o primeiro gosto a fumo de um verdadeiro bombardeamento. O


camião ficou cercado de entulho e houve muita correria e gritos. Deflagravam incêndios e as
fachadas arruinadas de edifícios empilhavam-se em montes. As estruturas inclinavam-se. As
bombas de fumo erguiam-se do solo como fósforos, inundando os pulmões da cidade.

365

Hans Hubermann encontrava-se num grupo de quatro. Formaram uma fila. O sargento Boris
Schipper ia à frente, os braços a desaparecerem no meio do fumo. Atrás dele ia Kessler, depois
Brunnenweg e depois Hubermann. Enquanto o sargento regava o incêndio, os outros dois homens
regavam o sargento e, para jogar pelo seguro, Hubermann regava-os aos três.
Atrás dele, um edifício gemeu e desmoronou-se.
Caiu de face para baixo, detendo-se a poucos metros dos seus calcanhares. O cimento cheirava a
novo, e a parede de pó precipitou--se sobre eles.
— Gottverdammt, Hubermann! — A voz irrompeu das chamas e foi imediatamente seguida por
três homens. Tinham as gargantas cheias de partículas de cinza. Mesmo depois de virarem a
esquina, afastados do centro dos destroços, a névoa do edifício desmoronado tentou segui--los. Era
quente e branca, e rastejava atrás deles.
Agachados numa segurança temporária, só se ouvia tossir e praguejar. O sargento repetiu os seus
sentimentos de anteriormente. — Raios, Hubermann. — Esfregou os lábios para os descolar. —
Que diabo foi aquilo?
— Desmoronou-se de repente, mesmo atrás de nós.
— Isso já eu sei. A questão é, era muito grande? Devia ter uns dez andares.
— Não senhor, apenas dois, creio eu.
— Jesus. — Um ataque de tosse. — Maria e José. — Raspava agora a pasta de suor e poeira das
órbitas. — Não se podia fazer grande coisa.
Um dos outros homens limpou a cara e disse: — Só por uma vez, gostava de estar por perto quando
eles atingissem um pub. Estou a morrer por uma cerveja.
Todos os homens se inclinaram para trás.
Todos eles lhe sentiram o sabor, apagando o fogo nas suas gargantas e amaciando o fumo. Era um
sonho agradável, e impossível. Todos sabiam que qualquer cerveja que corresse por aquelas ruas
não seria de todo cerveja, mas uma espécie de batido de leite ou papas de aveia.
Os quatro homens estavam cobertos de um aglomerado de pó cinzento e branco. Quando se
ergueram para retomar o trabalho, apenas eram visíveis pequenas nesgas das fardas.
O sargento dirigiu-se a Brunnenweg. Escovou-lhe o peito com força. Várias pancadas. — Assim
está melhor. Tinhas aí um bocado de pó, amigo. — Enquanto Brunnenweg se ria, o sargento virou-
se para o seu mais recente recruta. — Desta vez vais tu primeiro, Hubermann.

366

Extinguiram incêndios durante várias horas, recorrendo a tudo o que encontravam para convencer
um edifício a manter-se de pé. Em alguns casos, as partes laterais estavam danificadas e as arestas
remanescentes pareciam cotovelos espetados. Era esse o ponto forte de Hans Hubermann. Quase
chegava a gostar de descobrir um caibro de telhado fumegante ou uma placa de cimento
desalinhada para escorar aqueles cotovelos, dar-lhes algo a que se apoiarem.
Tinha as mãos a abarrotar de lascas e os dentes empastados de resíduos do desabamento. Sentia os
lábios hirtos de pó húmido que secara, e não havia bolso, fio ou ruga escondida na sua farda que
não estivesse coberta de uma camada deixada pelo ar carregado.
A pior parte do trabalho eram as pessoas.
De vez em quando encontravam uma pessoa a vaguear obstinadamente através do nevoeiro,
normalmente reduzida a uma palavra. Gritavam sempre um nome.
Às vezes era Wolfgang.
— Viu o meu Wolfgang?
As marcas das suas mãos permaneciam no casaco dele.
— Stephanie!
— Hansi!
— Gustel! Gustel! Stoboi!
A medida que a densidade diminuía, a chamada de nomes ia tropeçando pelas ruas destruídas,
terminando por vezes com um abraço pleno de cinzas ou um uivo de dor ajoelhado. Acumulavam-
se, hora a hora, como sonhos doces e amargos, à espera de acontecer.
Os perigos fundiam-se num só. Pó e fumo e as chamas impetuosas. As pessoas danificadas. Tal
como o resto dos homens da unidade, Hans precisaria de aperfeiçoar a arte do esquecimento.
— Como estás tu, Hubermann? — perguntou o sargento a dada altura. O fogo espreitava-lhe por
cima do ombro.
Apreensivo, Hans acenou aos dois.

A meio do turno, depararam com um velho a vacilar, indefeso, pelas ruas. Terminando de
estabilizar um edifício, Hans voltou-se e deu com ele atrás de si, esperando calmamente a sua vez.
Tinha o rosto atravessado por uma mancha de sangue, que escorregava para a garganta e o pescoço.
Vestia uma camisa branca com colarinho vermelho-escuro, e segurava a perna como se ela estivesse
a seu lado. — Pode amparar-me a mim agora, meu jovem?
Hans pegou-lhe ao colo e levou-o para fora da névoa.
367

UMA PEQUENA NOTA TRISTE


Eu visitei a rua dessa pequena cidade
com o homem ainda nos braços
de Hans Hubermann.
O céu estava de um cinzento espumoso.

Somente ao pousá-lo num pedaço de relva revestida a cimento é que Hans percebeu.
— O que é? — perguntou um dos outros homens. Hans só conseguiu apontar.
— Oh. — Foi afastado dali por uma mão. — Habitua-te, Hubermann.

Durante o resto do turno atirou-se ao trabalho. Esforçou-se por ignorar os ecos distantes de pessoas
a chamarem nomes.
Após cerca de duas horas, fugiu apressado de um edifício com o sargento e outros dois homens.
Não ia a olhar para o chão e tropeçou. Só ao dar meia-volta e ver os outros a fitarem, perturbados, o
obstáculo é que percebeu.
O cadáver estava de cara para baixo.
Jazia num cobertor de entulho e pó, e estava agarrado aos ouvidos.

Era um rapaz.
Talvez de uns onze ou doze anos.

Não muito longe dali, ao avançarem pela rua, encontraram uma mulher chamando o nome Rudolf.
Foi atraída para os quatro homens e encontraram-se no meio da névoa. Era de constituição frágil e
vinha curvada de preocupação.
— Viram o meu menino?
— Que idade tem ele? — perguntou o sargento.
— Doze.
Oh, Cristo. Oh, Cristo crucificado.
Todos pensaram o mesmo, mas o sargento não foi capaz de lhe dizer ou de a dirigir para lá.
Enquanto a mulher procurava prosseguir, Boris Schipper reteve-a.
— Nós acabamos de vir dessa rua — garantiu-lhe ele. — Por aí não o encontra.
A mulher curvada agarrava-se ainda a uma esperança. Chamou por cima do ombro, meio a andar,
meio a correr. — Rudy!
Hans Hubermann pensou então noutro Rudy. O da Rua Himmel. Por favor, pediu ele a um céu que
não conseguia avistar, permiti que

368
Rudy esteja são e salvo. Os seus pensamentos passaram naturalmente para Liesel e Rosa e os
Steiner e Max.
Chegados junto dos outros homens, ele deixou-se cair e ficou estendido de costas.
— Como estava aquilo lá para baixo? — perguntou alguém.
O papá tinha os pulmões cheios de céu.

Algumas horas mais tarde, depois de se ter lavado, comido e vomitado, tentou escrever uma carta
pormenorizada para casa. Mas as suas mãos estavam incontroláveis, forçando-o a torná-la curta. Se
fosse capaz, o resto seria contado verbalmente, quando, e se, regressasse a casa.
Para as minhas queridas Rosa e Liesel, começou ele.
Estas sete palavras levaram-lhe largos minutos a escrever.
369

OS COMEDORES DE PÃO

Fora um longo e acidentado ano em Molching, e estava finalmente a aproximar-se do fim.


Liesel passou os últimos meses de 1942 atormentada por pensamentos daquilo a que chamou três
homens desesperados. Perguntava--se onde estariam e o que estariam a fazer.
Uma tarde, tirou o acordeão do estojo e poliu-o com um farrapo. Uma única vez, antes de o voltar a
guardar, deu o passo que a mãe não conseguira. Pousou os dedos numa das teclas e apertou
suavemente os foles. Rosa fizera bem. Aquilo apenas fez o quarto parecer mais vazio.
Sempre que se encontrava com Rudy, perguntava-lhe se tinham tido notícias do pai. Às vezes, ele
descrevia-lhe pormenorizadamente uma das cartas de Alex Steiner. Em comparação, a única carta
que o seu próprio papá lhes enviara revelara-se um desapontamento.
Max, é claro, encontrava-se completamente restringido à sua imaginação.
Era com grande optimismo que ela o via a caminhar sozinho por uma estrada deserta. De vez em
quando, imaginava-o a tombar num nicho de segurança algures, o seu bilhete de identidade
suficiente para iludir a pessoa certa.
Os três homens apareciam-lhe por toda a parte.
Via o papá na janela da escola. Max sentava-se frequentemente junto dela, à lareira. Alex Steiner
chegava quando ela se encontrava com Rudy, e fitava-os do outro lado depois de eles terem atirado
as bicicletas ao chão na Rua de Munique e ficado a olhar para a loja.
— Olha só para aqueles fatos — dizia-lhe Rudy, a cabeça e as mãos comprimidas contra o vidro. —
Vai-se estragar tudo.

Por estranho que pareça, uma das distracções preferidas de Liesel era Frau Holtzapfel.

370

As sessões de leitura incluíam agora também as quartas-feiras; tinham terminado a versão


abreviada pela água de O Assobiador e estava m agora às voltas com O Portador de Sonhos. A
idosa mulher preparava por vezes chá ou oferecia a Liesel uma sopa infinitamente melhor do que a
da mãe. Menos aguada.

Entre Outubro e Dezembro, houvera mais uma parada de judeus, a que se iria seguir outra. Tal
como nas ocasiões anteriores, Liesel correra para a Rua de Munique, dessa vez para ver se Max
Vandenburg se encontrava entre eles. Sentia-se dividida entre a óbvia ansiedade de o ver, de saber
que ele ainda estava vivo, e uma ausência que poderia significar qualquer coisa, sendo uma delas a
liberdade.
Em meados de Dezembro, um pequeno grupo de judeus e outros patifes desceu de novo a Rua de
Munique, a caminho de Dachau. Parada número três.
Rudy marchou decididamente Rua Himmel abaixo e regressou do número trinta e cinco com uma
pequena sacola e duas bicicletas.
— Alinhas, Saumensch?

O CONTEÚDO DA SACOLA DE RUDY


Seis pedaços de pão duro, partidos em quartos.

Pedalaram à frente da parada, na direcção de Dachau, e pararam num trecho de estrada deserta.
Rudy passou a saca a Lisel. — Pega numa mão-cheia.
— Não tenho a certeza de que isto seja muito boa ideia.
Ele pespegou-lhe com algum pão na palma. — O teu papá achava. Como podia ela discutir? Valia
bem umas chicotadas.
— Se nos despacharmos, não somos apanhados. Começou a distribuir o pão. — Portanto mexe-te,
Saumensch.
Liesel não conseguiu conter a réstia de um sorriso que lhe aflorou ao rosto enquanto ela e Rudy
Steiner, o seu melhor amigo, iam dispondo os pedaços de pão na estrada. Quando acabaram,
pegaram nas bicicletas e esconderam-se no meio dos pinheiros de Natal.
A estrada era fria e recta. Em breve chegaram os soldados com os judeus.
A coberto das árvores, Liesel observava o rapaz. Como as coisas tinham mudado — de ladrão de
fruta a doador de pão. O seu cabelo louro, embora começasse a escurecer, assemelhava-se a uma
vela. Ela ouviu o seu estômago refilar; e ele ia dar pão a outros.
Seria aquilo a Alemanha?

371

Seria aquilo a Alemanha nazi?

O primeiro soldado não viu o pão — não tinha fome — mas o primeiro judeu viu.
A sua mão áspera estendeu-se para baixo e apanhou um bocado, que enfiou freneticamente na boca.
Será o Max? Pensou Liesel.
Não conseguia ver bem e avançou para obter uma melhor visão.
— Eh! — Rudy ficara lívido. — Não te mexas. Se eles nos encontram aqui e nos ligam ao pão,
estamos feitos.
Liesel continuou.
Havia mais judeus a curvarem-se e a apanhar pão da estrada, e da orla das árvores, a rapariga que
roubava livros examinava-os a todos. Max Vandenburg não estava lá.
O seu alívio durou pouco.
Agitava-se em volta dela quando um dos soldados reparou num dos prisioneiros a levar a mão ao
chão. Mandaram-nos parar a todos. A estrada foi cuidadosamente examinada. Os prisioneiros
mastigaram o mais depressa e silenciosamente possível. Engoliram, colectivamente.
O soldado apanhou alguns pedaços e observou ambos os lados do caminho. Os prisioneiros
olharam também.
— Ali!
Um dos soldados avançava em grandes passadas para a rapariga junto à arvore mais próxima. A
seguir viu o rapaz. Ambos largaram a correr.
Escolheram direcções diferentes, sob o caibro de ramos e o alto tecto das árvores.
— Corre sem parar, Liesel!
— E as bicicletas?
— Scheiss drauf! Que se lixe, quem é que se rala!
Correram e, após cerca de cem metros, a respiração curvada do soldado aproximou-se. Colocou-se
a par dela e Liesel esperou pela mão que a acompanhava.
Teve sorte.
Recebeu apenas uma bota no rabo e um punhado de palavras. — Continua a correr, rapariguinha,
não tens nada que fazer aqui! — Ela correu e só parou ao fim de quase dois quilómetros. Os ramos
fustigavam-lhe os braços, rolavam-lhe pinhas aos pés e o sabor de agulhas de pinheiro ecoava no
interior dos seus pulmões.

372
Passaram-se uns bons quarenta e cinco minutos até ela regressar. Encontrou Rudy sentado junto das
bicicletas enferrujadas. Tinha apanhado o pão que restava e estava a mascar um pedaço rijo e
mofado.
— Eu bem te disse para não te aproximares de mais — censurou-a ele.
Ela mostrou-lhe o traseiro. — Tenho alguma marca?

373

O CADERNO DE ESBOÇOS ESCONDIDO

Alguns dias antes do Natal houve outro ataque aéreo, embora nada fosse largado na cidade de
Molching. Segundo as notícias do rádio, a maioria das bombas caiu em campo aberto.
O mais importante foi a reacção no abrigo dos Fiedler. Uma vez chegados os últimos ocupantes,
toda a gente se instalou solenemente e aguardou. Olharam para Liesel, expectantes.
A voz do papá chegou-lhe, sonora, aos ouvidos.
«E se houver mais ataques aéreos, continua a ler no abrigo.»
Liesel esperou. Precisava de ter a certeza de que eles queriam isso.
Rudy falou por todos. — Lê, Saumensch.
Ela abriu o livro e, uma vez mais, as palavras abriram caminho até todos os presentes no abrigo.

Em casa, depois de as sirenes terem autorizado toda a gente a voltar à superfície, Liesel sentou-se
na cozinha com a mãe. O rosto de Rosa Hubermann espelhava preocupação, e ela não tardou muito
a pegar numa faca e sair da sala. — Anda comigo.
Dirigiu-se à saleta e levantou o lençol da ponta do colchão. De lado, havia um corte cosido. Se não
se soubesse de antemão que ele ali estava, era quase impossível descobri-lo. Rosa descoseu-o
cuidadosamente e meteu lá a mão, enfiando o comprimento todo do braço. Ao retirá-lo, segurava o
livro de esboços de Max Vandenburg.
— Ele disse-me que te desse isto quando estivesses preparada — elucidou ela. — Eu tinha pensado
nos teus anos. Depois adiantei para o Natal. — Rosa Hubermann endireitou-se e a sua cara
apresentava uma expressão estranha. Não era de orgulho. Talvez fosse o peso, a densidade da
recordação. — Penso que sempre estiveste preparada, Liesel. Desde o momento em que aqui
chegaste, agarrada àquele portão, estavas destinada a receber isto.

374

Rosa entregou-lhe o livro.


A capa era assim:

A SACUDIDORA DE PALAVRAS
Uma Pequena Colecção
de Pensamentos para Liesel Meminger

Liesel pegou-lhe com suavidade. Fitou-o atentamente. — Obrigada, mãe.


Abraçou-a.
Desejou também muito dizer a Rosa Hubermann que a amava. Foi uma pena não o ter feito.

Queria ler o livro na cave, em memória dos velhos tempos, mas a mãe convenceu-a a não o fazer.
— Há razões para o Max ter adoecido lá em baixo — disse ela — e posso garantir-te uma coisa,
pequena, não vou deixar que tu adoeças.
Ela leu na cozinha.
Fendas vermelhas e amarelas no fogão.
A Sacudidora de Palavras.

Foi avançando através dos numerosos esboços e histórias, e desenhos com legendas. Coisas como
Rudy num estrado com três medalhas de ouro penduradas ao pescoço. Cabelo da cor dos limões
estava escrito por baixo. O homem de neve aparecia também, assim como uma lista dos treze
presentes, para já não falar do registo de inúmeras noites na cave ou junto à lareira.
Havia, é claro, muitos pensamentos, esboços e sonhos relacionados com Stuttgart e a Alemanha e o
Führer. Encontravam-se igualmente ali recordações da família de Max. No final, não resistira a
incluí-las. Tivera de o fazer.
Depois chegava a página cento e dezassete.
Era aí que a própria Sacudidora de Palavras fazia a sua aparição.
Era uma fábula ou um conto de fadas. Liesel não tinha a certeza de qual. Mesmo dias mais tarde,
quando foi procurar ambos os termos ao Duden Dictionary, não conseguiu distingui-los.
Na página anterior havia uma pequena nota.

375

PÁGINA 116
Liesel — eu quase risquei esta história. Pensei que talvez já fosses demasiado grande para um
conto destes, mas talvez ninguém seja. Pensei em ti e nos teus livros e palavras, e ocorreu-me esta
estranha história. Espero que encontres nela algo de bom.

Ela virou a página.

376

ERA UMA VEZ um estranho homem baixo. Ele decidiu três importantes pormenores sobre sua
vida:

1 – Faria a risca do cabelo do lado contrário ao de toda a gente.


2 – Deixaria crescer um pequeno bigode estranho.
3 - Um dia governaria o mundo.

O jovem vagueou durante algum tempo, a pensar, a planear, e a calcular exatamente como poderia
tornar o mundo seu. Depois, um dia, sem maus nem menos, ocorreu-lhe: o plano perfeito. Vira uma
mãe a passear com o filho. A dada altura, ela repreendera o garoto até que, finalmente, ele começou
a chorar. Daí a alguns minutos, ela falou-lhe docemente, e então ele acalmou e até sorriu.
O jovem correu para a mulher e abraçou-a. - Palavras! – exclamou ele com uma careta sorridente.
- O quê?
Mas não obteve resposta. Ele já desaparecera.

Sim, o Führer decidiu que governaria o mundo com palavras. «Nunca dispararei uma arma»,
planeou ele. «Não será preciso.» No entanto, não se precipitou. Concedamos-lhe pelo menos isso.
Ele não era de todo um homem estúpido. O seu primeiro plano de ataque foi plantar as palavras no
maior número possível de zonas do seu país.
Plantou-as dia e noite, e tratou-as cuidadosamente.
Viu-as crescer; até que por fim se tinham erguido por toda a Alemanha grandes florestas de
palavras… Era uma nação de pensamentos cultivados.
ENQUANTO as palavras cresciam, o nosso jovem Führer plantou também sementes para criar
símbolos, e também estes estavam prestes a florescer. Era chegada a hora. O Führer estava pronto.
Convidou o seu povo para o seu próprio coração, acenando-lhe com as melhores e mais horríveis
palavras, colhidas nas suas florestas. E o povo foi.
Foram todos colocados num tapete rolante e passados por uma máquina agressiva que lhes deu uma
vida inteira em dez minutos. Foram alimentados com palavras.

377

O tempo desapareceu e eles sabiam agora tudo o que precisavam de saber. Estavam hipnotizados.

A seguir, foram equipados com os seus símbolos, e todos se sentiam felizes.

Em breve a procura dos encantadores símbolos e palavras terríveis aumentou a tal ponto que, à
medida que as florestas cresciam, muita gente era precisa para as manter. Alguns eram utilizados
para trepar às arvores e atirar as palavras aos que estavam em baixo. Estas eram então fornecidas
directamente ao restante povo do Führer, isto sem contar com os que voltavam à procura de mais.

As pessoas que trepavam às arvores chamavam-se sacudidores de palavras.

OS MELHORES sacudidores de palavras eram os que compreendiam o verdadeiro poder das


palavras. Eram esses que conseguiam trepar mais alto. Um desses sacudidores de palavras era uma
rapariga pequena e franzina. Era conhecida como o melhor sacudidor de palavras da sua região
porque sabia como uma pessoa pode ficar impotente SEM palavras.

Era por isso que conseguia subir mais alto do que qualquer outra pessoa. Tinha o desejo. Tinha
fome delas.

Um dia, contudo, conheceu um homem que era desprezado pela pátria dela, embora tivesse nascido
lá. Tornaram-se bons amigos, e quando o homem adoeceu, a sacudidora de palavras permitiu que
uma única lágrima caísse na cara dele. A lágrima era feita de amizade — uma simples palavra — e
secou e transformou-se numa semente, e da próxima vez que a rapariga esteve na floresta plantou
essa semente no meio das outras árvores. Regava-a todos os dias.

378

A princípio, não se via nada, mas uma tarde, quando ela foi verificar após um dia a sacudir
palavras, surgira um pequeno rebento. Ela ficou a olhar para ele durante muito tempo.

A árvore crescia todos os dias, mais depressa do que tudo o resto, até se tornar na árvore mais alta
da floresta. Toda a gente foi vê-la. Todos sussurravam a respeito dela, e esperaram… pelo Führer.

Furioso, ele ordenou imediatamente o abate da árvore. Foi então que a sacudidora de palavras abriu
caminho por entre a multidão. Tombou de joelhos. - Por favor - exclamou ela -, não podem cortá-la.
O Führer, contudo, não se comoveu. Não podia dar-se ao luxo de abrir excepções. Enquanto a
sacudidora de palavras era arrastada dali, virou-se para o homem que era o seu braço direito e fez
um pedido.
- Machado, por favor.
NESSE MOMENTO, a sacudidora de palavras conseguiu libertar-se. Correu. Agarrou-se à árvore e,
enquanto o Führer golpeava o tronco com o seu machado, ela trepou até atingir o ramo mais alto.
As vozes e os golpes de machado prosseguiram abafados. Passavam por ela nuvens, como monstros
brancos de corações cinzentos. Receosa mas obstinada, a sacudidora de palavras permaneceu ali.
Esperou que a árvore caísse.

Mas a árvore não se movia.


Muitas horas decorreram e o machado do Führer continuava a não conseguir tirar nem uma única
lasca do tronco. Em estado de colapso iminente, ele ordenou a outro homem que prosseguisse.

Passaram-se dias.
Depois semanas.
Cento e noventa e seis soldados não conseguiram fazer qualquer impacto na árvore da sacudidora
de palavras.

- Mas, como é que ela come? - perguntavam as pessoas. — Como é que ela dorme?

379

O que elas não sabiam era que outros sacudidores de palavras lhe atiravam mantimentos, e a
rapariga descia aos ramos mais baixos para os ir buscar.

NEVOU. Choveu. As estações sucederam-se. A sacudidora de palavras permaneceu.


Quando o último lenhador desistiu, gritou lá para cima: - Sacudidora de palavras! Já podes descer!
Não há ninguém capaz de derrotar essa árvore!

A sacudidora de palavras, que mal conseguia entender as frases do homem, respondeu com um
murmúrio. Enviou-o através dos ramos. - Não, obrigada - disse, pois sabia que era apenas ela que
estava a manter a árvore de pé.
Ninguém sabia quanto tempo decorrera, mas uma tarde chegou à cidade um novo lenhador. A sua
saca parecia demasiado pesada para ele. Os seus olhos arrastavam-se. Os seus pés desfaleciam de
exaustão. - A árvore — perguntou ele às pessoas. - Onde é a árvore?

Foi seguido por grande assistência e, ao chegar, as nuvens tinham coberto as zonas mais altas dos
ramos. A sacudidora de palavras ouviu as pessoas gritarem que chegara um novo lenhador para pôr
fim à sua vigília.
- Ela não desce por ninguém — declaravam as pessoas.

Não sabiam quem era o lenhador, e não sabiam que ele era inabalável.

Ele abriu o seu saco e tirou de lá algo muito mais pequeno do que um machado.

380

As pessoas riram. Disseram: - Não consegues derrubar uma árvore com um martelo velho!
O jovem não lhes deu ouvidos. Limitou-se a procurar alguns pregos na saca. Meteu três na boca e
tentou pregar um quarto na árvore. Os primeiros ramos encontravam-se agora extremamente altos e
ele calculou que precisaria de quatro pregos para usar como apoios para os pés até lhes chegar.
- Vejam só este idiota – gargalhou um dos homens da assistência. - Ninguém conseguiu deitá-la
abaixo com um machado, e este parvo acha que o pode fazer com...
O homem calou-se.

O PRIMEIRO prego entra na árvore e ficou firme após quatro marteladas. Depois entrou o
segundo, e o jovem começou a subir.

Ao quarto prego atingira os ramos, e prosseguiu o seu caminho. Sentiu-se tentado a chamar, mas
decidiu-se por não o fazer.
A escalada pareceu prolongar-se por quilómetros. Ele demorou muitas horas a chegar aos últimos
ramos, e aí encontrou a sacudidora de palavras adormecida entres os seus cobertores e as nuvens.
Ficou a contemplá-la durante vários minutos.
O calor do sol aquecia o tecto alto de nuvens.
Ele inclinou-se, tocou-lhe no braço, e a sacudidora de palavras acordou.
Esfregou os olhos e, após um longo exame à face dele, falou: - És realmente tu?
Foi da tua face, pensou ela, que eu tirei a semente?
O homem acenou afirmativamente.
O seu coração vacilou e ele agarrou-se com força aos ramos. - Sou.

JUNTOS, ELES permaneceram no topo da árvore Esperaram que as nuvens desaparecessem e,


quando isso aconteceu, conseguiram avistar o resto da floresta.

381

- Não tem parado de crescer - explicou ela.


- Este também não. – O jovem olhou para o ramo em que se apoiava. Tinha razão.

Depois de terem olhado e conversado bastante, voltaram para baixo. Deixaram ficar os cobertores e
o resto da comida.

As pessoas não conseguiam acreditar no que viam e, no instante em que a sacudidora de palavras e
o jovem puseram pé no mundo, a árvore começou finalmente a acusar as marcas do machado.
Surgiram contusões. Abriram-se fendas no tronco e a terra começou a vibrar.

- Vai cair! — gritou uma jovem mulher. - A árvore vai cair! Tinha razão. A árvore da sacudidora de
palavras, com todos os seus quilómetros e quilômetros de altura, começou lentamente inclinar-se.
Gemeu ao ser sugada para o solo. O mundo tremeu e quando, por fim, tudo assentou, a árvore ficou
deitada no meio da floresta. Nunca poderia destruí-la toda, mas pelo menos fora talhado através
dela um caminho de cor diferente.
A sacudidora de palavra e o jovem subiram para o tronco horizontal. Afastaram os ramos e
começaram a andar. Olhando para trás, repararam que a maioria dos observadores começara a
regressar aos seus próprios lugares. Ali. Além. Na floresta
Mas, à medida que iam avançando, detiveram-se várias vezes para escutar. E julgaram ouvir vozes
e palavras atrás deles, na árvore da sacudidora de palavras.

382

Durante muito tempo, Liesel continuou sentada à mesa da cozinha perguntando-se onae estaria
Max Vandenburg, em toda aquela floresta lá fora. A claridade pousou à sua volta. Adormeceu. A
mãe mandou-a para a cama, e ela foi, com o caderno de esboços de Max apertado ao peito.
Só horas mais tarde, ao despertar, é que a resposta à sua pergunta lhe surgiu. — Claro — murmurou
ela. — Claro que sei onde ele está. — E adormeceu novamente.

Sonhou com a árvore.

383

A COLECÇÃO DE FATOS DO ANARQUISTA

RUA HIMMEL 35,


24 DE DEZEMBRO
Na ausência de dois pais,
os Steiner convidaram Rosa
e Trudy Hubermann, e Liesel.
Quando elas chegam, Rudy ainda
está a explicar a sua roupa.
Olha para Liesel e a sua boca abre-se,
mas apenas ligeiramente.

Os dias até ao Natal de 1942 passaram densos e pesados de neve. Liesel percorreu muitas vezes A
Sacudidora de Palavras, desde a história em si até aos muitos comentários e esboços em ambas as
margens. Na véspera de Natal, tomou uma decisão acerca de Rudy. Para o diabo o facto de andar lá
por fora até muito tarde.
Dirigiu-se à casa do lado mesmo antes de anoitecer e disse-lhe que tinha um presente de Natal para
ele.
Rudy olhou para as mãos dela e para ambos os lados dos pés. — Então onde diabo está ele?
— Esquece, pronto.
Mas Rudy sabia. Já a tinha visto assim. Olhos de risco e dedos de grude. O bafo do roubo rodeava-a
completamente e ele sentia-lhe o cheiro. — Esse presente. — arriscou ele. — Ainda não o tens,
pois não?
— Não.
— E também não o vais comprar.
— Claro que não. Achas que tenho algum dinheiro? — A neve continuava a cair. Nas pontas da
erva, o gelo assemelhava-se a vidros partidos. — Tens a chave? — perguntou ela.

384

- A chave de quê? — Mas Rudy não tardou a compreender. Foi lá dentro e regressou pouco depois.
Copiando as palavras de Viktor Chemmel, declarou: — Está na hora de ir às compras.
A claridade desaparecia rapidamente e, exceptuando a igreja, toda a Rua de Munique encerrara para
o Natal. Liesel caminhava apressada para poder acompanhar a passada larga do seu vizinho.
Chegaram à montra pretendida. STEINER — SCHNEIDERMEISTER. O vidro apresentava uma
fina camada de lama e pó que se lhe colara ao longo das semanas. Do lado de lá, os manequins
erguiam-se como testemunhas. Estavam sérios e ridiculamente elegantes. Era difícil afastar a
sensação de que observavam tudo.
Rudy meteu a mão no bolso.
Era véspera de Natal.
O pai estava perto de Viena.
Achava que ele não se importaria que invadissem a sua querida loja. As circunstâncias exigiam-no.
A porta abriu-se com suavidade e eles entraram. O primeiro instinto de Rudy foi carregar no
interruptor da luz, mas a electricidade já havia sido cortada.
- Tens velas?
Rudy sentiu-se desanimar. — Eu trouxe a chave. E além disso, isto foi ideia tua.
A meio da troca de palavras, Liesel tropeçou num ressalto do chão. Um manequim seguiu-a.
Roçou-lhe o braço e desmoronou-se completamente vestido por cima dela. — Tira-me esta coisa de
cima! — Desconjuntara-se em quatro bocados. O tronco e a cabeça, as pernas, e os dois braços
separados. Libertando-se daquilo, Lisel ergueu-se e espirrou. — Jesus, Maria.
Rudy descobriu um dos braços e bateu-lhe no ombro com a respectiva mão. Ela voltou-se,
assustada, e ele estendeu-lha num gesto amigável. — Prazer em conhecer-te.
Durante alguns minutos deslocaram-se lentamente pelos apertados corredores da loja. Rudy
começou a dirigir-se ao balcão. Caiu por cima de uma caixa vazia, ganiu e praguejou, e depois
encaminhou-se de novo para a entrada. — Isto é ridículo! — exclamou ele. — Espera aqui um
minuto. — Liesel sentou-se, empunhando o braço do manequim, até ele voltar com uma lanterna
acesa da igreja.
Um anel de luz cercava-lhe a cara.
— Então onde está esse presente que tens estado a apregoar? É bom que não seja um destes
manequins bizarros.

385

— Traz cá a luz.
Quando ele chegou à secção mais recuada da loja, Liesel pegou na lanterna com uma das mãos e foi
passando os fatos pendurados com a outra. Tirou um, mas logo o substituiu por outro. — Não,
ainda muito grande. — Após mais duas tentativas, segurou um fato azul-escuro diante de Rudy
Steiner. — Isto parece-te o teu tamanho?

Enquanto Liesel ficava sentada no escuro, Rudy experimentou o fato atrás de um dos cortinados.
Havia apenas um pequeno círculo de luz e a sombra a vestir-se.
Ao regressar, Rudy ergueu a lanterna para Liesel ver. Liberta do cortinado, a luz era como um pilar
brilhando sobre o fato elegante. Iluminava igualmente a camisa suja debaixo dele e os puídos
sapatos de Rudy.
— Então? — perguntou ele.
Liesel prosseguiu o seu exame. Deslocou-se em volta dele e encolheu os ombros. — Nada mal.
— Nada mal! Estou melhor do que só nada mal.
— Os sapatos prejudicam-te. E a tua cara.
Rudy pousou a lanterna em cima do balcão e avançou para ela com cólera fingida, e Liesel teve de
admitir que começava a apoderar-se dela um certo nervosismo. Foi simultaneamente com alívio e
desapontamento que o viu tropeçar e cair sobre o manequim desfeito.
No chão, Rudy riu-se.
Depois fechou os olhos, cerrando-os com força.

Liesel correu para ele.


Agachou-se a seu lado.
Beija-o, Liesel, beija-o.
— Estás bem, Rudy? Rudy?

— Tenho saudades dele — disse o rapaz, de lado, para o soalho.


— Frohe Weihnachten — replicou Liesel. Ajudou-o a levantar, endireitando o fato. — Feliz Natal.
386

PARTE NOVE
o último estranho humano
apresentando:
a tentação seguinte — um jogador de cartas — as neves de estalinegrado — um irmão imutável —
um acidente — o sabor amargo das perguntas — uma caixa de ferramentas, um homem
ensanguentado, um urso — um avião destruído e um regresso ao lar

A TENTAÇÃO SEGUINTE

Desta vez havia bolos.


Mas estavam rijos.
Eram Kipferl (Nota) que haviam sobrado do Natal e se encontravam na secretária há, pelo menos,
duas semanas. Quais ferraduras em miniatura com uma cobertura de açúcar, os de baixo estavam
presos ao prato. O resto empilhava-se por cima, formando um monte abatido. Ela sentiu-lhes o
cheiro logo que os seus dedos apertaram o parapeito da janela. A sala sabia a açúcar e massa, e a
milhares de páginas.
Não havia nota alguma, mas Liesel percebeu imediatamente que aquilo era outra vez obra de Usa
Hermann, e não ia certamente correr o risco de os bolos poderem não ser para ela. Voltou à janela e
atirou um sussurro através da abertura. O sussurro chamava-se Rudy.
Nesse dia tinham ido a pé porque a rua estava demasiado escorregadia para as bicicletas. O rapaz
mantinha-se debaixo da janela, de guarda. Quando ela chamou, a cara dele apareceu e ela estendeu-
lhe o prato. Ele não precisou de persuasão para o aceitar.
Os seus olhos regalaram-se nos bolos e fez umas perguntas.
— Mais alguma coisa? Leite?
— O quê?
— Leite — repetiu ele, um pouco mais alto agora. Se reconhecera o tom ofendido da voz de
Liesel, não dava mostras disso.
O rosto da rapariga que roubava livros surgiu novamente por cima dele. — És estúpido? Posso ir
roubar o livro?
— Claro. Eu só digo que...
Liesel dirigiu-se à estante mais ao fundo, por trás da secretária. Encontrou papel e uma caneta na
gaveta de cima e escreveu Obrigada, deixando a nota em cima dela.
Nota - Bolos em forma de crescente, tipo croissant. (NT)

389

À sua direita, um livro sobressaía como um osso. As letras negras do título quase pareciam
cicatrizes na sua palidez. Die Letzte Menschliche Fremde — O Último Estranho Humano. O livro
murmurou suavemente enquanto ela o tirava da prateleira. Caiu pó.
Já à janela, preparando-se justamente para sair, sentiu a porta da biblioteca abrir-se com um
rangido.
Tinha o joelho erguido e a mão que roubava livros contra o caixilho da janela. Ao voltar-se para
enfrentar o ruído, deparou com a mulher do presidente da câmara de roupão e chinelas novas em
folha. No bolso de cima do roupão luzia uma suástica bordada. A propaganda chegava até à casa de
banho.
Entreolharam-se.
Liesel fitou o peito de Ilsa Hermann e levantou o braço. — Heil Hitler.
Ia para sair, mas ocorreu-lhe um pensamento.
Os bolos.
Estavam ali há semanas.
O que significava que, se o presidente da câmara usasse ele próprio a biblioteca, tê-los-ia
forçosamente visto. Ter-se-ia perguntado por que estavam ali. Ou — e assim que tal lhe ocorreu
Liesel sentiu-se invadir por um estranho optimismo — se calhar não era nada a biblioteca do
presidente da câmara; era dela. De Usa Hermann.
Não sabia por que era isso tão importante, mas agradou-lhe o facto de a sala repleta de livros
pertencer à mulher. Fora ela que começara por a apresentar à biblioteca e lhe dera, literalmente, a
primeira janela de oportunidade. Assim era melhor. Tudo parecia ajustar-se.
Recomeçou a mover-se, reunindo tudo e perguntou-lhe: — Esta sala é sua, não é?
A mulher do presidente da câmara endireitou-se. — Eu costumava ler aqui, com o meu filho. Mas
depois...
A mão de Liesel tocou o ar atrás de si. Viu uma mãe a ler no chão com um rapazinho a apontar para
as gravuras e para as palavras. Depois viu uma guerra na janela. — Eu sei.
Vinda lá de fora entrou uma exclamação.
— O que é que disseste?
Liesel falou para trás com um murmúrio áspero. — Calado, Saukerl, e vigia a rua. — Depois
estendeu lentamente as palavras até Usa Hermann. — Então todos estes livros...
— São, na sua maioria, meus. Alguns são do meu marido, alguns eram do meu filho, como sabes.

390

Agora havia um certo embaraço da parte de Liesel. Tinha as faces incendiadas. — Sempre pensei
que esta sala era do presidente da câmara.
— Porquê? — A mulher parecia divertida.
Liesel notou que havia igualmente suásticas no topo das chinelas. — Ele é o presidente da câmara.
Pensei que lesse muito.
A mulher do presidente da câmara enfiou as mãos nos bolsos laterais. — Ultimamente, és tu quem
faz mais uso desta sala.
— Já leu este? — Liesel estendeu O Último Estranho Humano. Ilsa olhou mais atentamente para o
título. — Já, sim.
— É bom?
— Não é mau.
Sentia-se impaciente por partir, mas também a bizarra obrigação de ficar. Tentou falar, mas as
palavras disponíveis eram demasiadas e chegavam demasiado depressa. Fez diversas tentativas para
as agarrar, mas foi a mulher do presidente da câmara que tomou a iniciativa.
Viu a cara de Rudy na janela, ou antes, o seu cabelo iluminado.
— Acho melhor ires embora — disse ela. — Ele está à tua espera.
No caminho para casa, comeram.
— Tens a certeza de que não havia mais nada? — indagou Rudy.
— Devia haver.
— Tivemos muita sorte em conseguir os bolos — Liesel examinou o presente nos braços de Rudy.
— Agora diz a verdade. Comeste algum antes de eu sair?
Rudy mostrou-se indignado. — Eh, aqui quem rouba és tu, não sou eu.
— Não me enroles, Saukerl, eu vi-te um bocadinho de açúcar ao canto dos lábios.
Paranóico, Rudy segurou o prato apenas com uma das mãos e limpou a boca com a outra. — Não
comi nenhum, garanto.
Metade dos bolos já desaparecera antes de chegarem à ponte, e partilharam o resto com Tommy
Müller, na Rua Himmel.
Quando acabaram de comer, houve apenas uma reflexão tardia, e foi Rudy que a expressou.
— Que diabo vamos fazer ao prato?

391

O JOGADOR DE CARTAS

Por volta da hora a que Liesel e Rudy estavam a comer os bolos, os homens da LSE estavam a
descansar, jogando cartas, numa cidade não muito distante de Essen. Tinham completado há pouco
a longa viagem desde Stuttgart e jogavam a cigarros. Reinhold Zucker não era um homem
satisfeito.
— Ele está a fazer batota, garanto — murmurou ele. Encontravam--se num barracão que lhes
servia de quartel e Hans Hubermann acabava de ganhar o seu terceiro jogo consecutivo. Zucker
atirou com as cartas para cima da mesa, irritado, e alisou o cabelo oleoso com três dedos sujos.

ALGUNS FACTOS ACERCA DE REINHOLD ZUCKER


Tinha vinte e quatro anos. Quando ganhava
um jogo, vangloriava-se — levava os
finos cilindros de tabaco ao nariz e
inspirava. «O cheiro da vitória»,
dizia ele. Ah, e mais uma coisa.
Morreria com a boca aberta.

Ao contrário do jovem à sua esquerda, Hans Hubermann não se vangloriava por ganhar. Era até
bastante generoso para voltar a dar a cada um dos colegas um dos seus cigarros e acendê-lo. Todos
aceitaram o convite excepto Reinhold Zucker. Esse arrebatou a oferta e atirou-a de novo para o
meio da caixa virada ao contrário. — Não preciso da tua caridade, velho. — Levantou-se e saiu.
— O que é que lhe deu? — indagou o sargento, mas ninguém ligou o suficiente para responder.
Reinhold Zucker era apenas um rapazote de vinte e quatro anos, incapaz de jogar às cartas em
quaisquer circunstâncias.

392

Se ele não tivesse perdido os seus cigarros para Hans Hubermann, não o teria desprezado Se não o
tivesse desprezado, talvez não tivesse ocupado o lugar dele algumas semanas mais tarde numa
estrada bastante inócua.
Um lugar, dois homens, uma breve discussão, e eu.
Por vezes, a maneira como as pessoas morrem dá cabo de mim.

393

AS NEVES DE ESTALINEGRADO

Em meados de Janeiro de 1943, o corredor da Rua Himmel continuava sombrio e miserável como
sempre. Liesel fechou o portão, dirigiu-se para a porta de Frau Holtzapfel e bateu. Ficou
surpreendida com a resposta.
A sua primeira ideia foi que o homem devia ser um dos filhos, mas ele não se parecia com nenhum
dos irmãos das fotografias emolduradas junto à porta. Parecia demasiado velho, embora fosse
difícil dizer. Tinha a cara salpicada de pêlos e os olhos apresentavam uma expressão dorida e
veemente. Da manga do casaco saía uma mão coberta de ligaduras que deixavam passar cerejas de
sangue.
— Talvez devas voltar mais tarde.
Liesel tentou olhar para além dele. Preparava-se para chamar Frau Holtzapfel, mas o homem
bloqueou o caminho.
— Pequena — repetiu ele. — Volta mais tarde. Eu vou chamar-te. De onde és tu?
Mais de três horas depois, chegou uma pancada à porta do 33 da Rua Himmel e Liesel viu diante de
si o homem. As cerejas de sangue tinham-se transformado em ameixas.
— Agora ela já está pronta para ti.
Lá fora, na indistinta claridade acinzentada, Liesel não conseguiu conter-se e perguntou ao homem
o que acontecera à sua mão. Ele soprou um pouco de ar pelas narinas, uma única sílaba, antes de
responder. — Estalinegrado.
— Como? — Ele olhara para o vento ao falar. — Não ouvi.
Ele respondeu novamente, mais alto, e agora de uma forma completa. — Estalinegrado foi o que
aconteceu à minha mão. Fui atingido por um tiro nas costelas e fiquei sem três dedos.

394

Isto responde à tua pergunta? — Meteu a mão ferida no bolso e estremeceu de desprezo pelo vento
alemão. — Achas que está frio aqui?
Liesel tocou na parede a seu lado. Não podia mentir. — Sim, claro.
O homem riu-se. — Isto não é frio. — Tirou um cigarro e enfiou-o na boca. Só com uma mão,
tentou acender um fósforo. Com aquele tempo lúgubre, já teria sido difícil mesmo com ambas as
mãos, mas apenas com uma, era impossível. Deixou cair a carteira de fósforos e praguejou.
Liesel apanhou-a.
Pegou no cigarro dele e meteu-o na boca. Mas também ela não conseguiu acendê-lo.
— Tens de o chupar — explicou o homem. — Com este tempo, só acende se for chupado.
Verstehst?
Experimentou de novo, tentando recordar como o papá fazia. Dessa vez, a sua boca encheu-se de
fumo, que lhe trepou pelos dentes e arranhou a garganta, mas ela coibiu-se de tossir.
— Muito bem. — Pegando no cigarro, ele aspirou e estendeu a mão sã, a esquerda. — Michael
Holtzapfel.
— Liesel Meminger.
— Vais ler para a minha mãe?
Rosa chegou nessa altura por trás dela, e Liesel sentiu o choque nas suas costas. — Michael? —
perguntou ela. — És tu?
Michael Holtzapfel acenou. — Guten Tag, Frau Hubermann. Há quanto tempo.
— Estás tão...
— Velho?
Rosa continuava em estado de choque, mas procurou recompor-se.
— Queres entrar? Vejo que já conheces a minha filha... — A voz apagou-se ao notar a mão
ensanguentada.
— O meu irmão morreu — proferiu Michael Holtzapfel, e não poderia ter dado o murro com mais
força se tivesse usado o punho incólume. Rosa cambaleou. E certo que guerra significava morte,
mas o chão tremia sempre debaixo dos pés de uma pessoa quando era alguém que em tempos
vivera e respirara muito próximo. Rosa vira crescer os dois rapazes Holtzapfel.
O jovem envelhecido conseguiu arranjar maneira de relatar o sucedido sem se descontrolar. — Eu
estava num dos edifícios que usamos como hospital quando o levaram para lá. Foi uma semana
antes de eu dever vir para casa. Passei três dias dessa semana sentado a seu lado antes de ele
morrer...

395

— Lamento muito. — As palavras não pareciam vir da boca de Rosa. Era outra pessoa que se
encontrava de pé junto a Liesel Meminger nessa tarde, mas ela não se atrevia a olhar.
— Por favor. — Michael interrompeu-a. — Não diga mais nada. Posso levar a pequena para ler?
Duvido que a minha mãe ouça, mas ela disse que a levasse.
— Sim, leva-a.
Iam a meio do caminho de entrada quando Michael Holtzapfel caiu em si e voltou atrás. — Rosa?
— Houve um momento de espera até a mãe reabrir a porta. — Ouvi dizer que o seu filho estava lá.
Na Rússia. Encontrei outras pessoas de Molching e eles disseram-me. Mas decerto a senhora já
sabia.
Rosa procurou evitar que ele partisse. Correu para fora e agarrou--lhe a manga. — Não. Ele saiu
daqui um dia e nunca mais voltou. Tentámos encontrá-lo mas depois aconteceu tanta coisa, houve...
Michael Holtzapfel estava decidido a escapar. A última coisa que queria era ouvir mais uma história
soluçada. Libertou-se e disse: — Tanto quanto sei, ele está vivo. — Foi ter com Liesel ao portão,
mas a rapariga não se dirigiu para a casa ao lado. Observava o rosto de Rosa. Animou-se e anuviou-
se de imediato.
— Mãe?
Rosa ergueu a mão. — Vai. Liesel esperou.
— Eu disse vai.

Quando o alcançou, o soldado regressado esforçou-se por entabular conversa. Devia lamentar o seu
erro verbal com Rosa, e tentou soterrá-lo debaixo de algumas outras palavras. Levantando a mão
enfaixada, comentou: — Não consigo que ela deixe de sangrar. — Liesel sentiu-se satisfeita por
entrar na cozinha dos Holtzapfel. Quanto mais depressa começasse a ler, melhor.
Encontrou Frau Holtzapfel sentada, com regatos metálicos escor-rendo-lhe pela cara.
O seu filho estava morto.
Mas isso era apenas metade.
Ela nunca saberia bem como tal ocorrera, mas posso afirmar-lhes definitivamente que há aqui
alguém que sabe. Parece que eu sei sempre o que aconteceu quando há neve e armas e as várias
confusões da linguagem humana.
Ao imaginar a cozinha de Frau Holtzapfel, a partir das palavras da rapariga que roubava livros, não
vejo o rogão, nem as colheres de pau, nem a bomba de água, aem nada desse género.

396

Pelo menos, não a princípio. Aquilo que eu vejo é o Inverno russo e a neve a cair do tecto, e o
destino do segundo filho de Frau Holtzapfel. Chamava-se Robert, e foi isto que lhe aconteceu.

UMA PEQUENA HISTÓRIA DE GUERRA


As pernas ficaram despedaçadas
pelas canelas e ele morreu, com o
irmão a ver, num hospital
gelado e fétido.
Foi na Rússia, a 5 de Janeiro de 1943, apenas mais um dia gelado. No meio da cidade e da neve,
havia russos e alemães mortos por todo o lado. Os sobreviventes disparavam para páginas em
branco à sua frente. Entrelaçavam-se três línguas. A russa, a das balas, a alemã.
Enquanto eu caminhava por entre as lamas caídas, um dos homens dizia: «Sinto comichão no
estômago.» Repetiu aquilo muitas vezes. Apesar do choque, arrastou-se para diante, até uma figura
escura e desfigurada sentada no chão a escorrer. Quando o soldado do estômago ferido chegou, viu
que era Robert Holtzapfel. Tinha as mãos cobertas de sangue e estava a amontoar neve na área logo
acima das canelas, onde as pernas lhe haviam sido decepadas pela última explosão. Havia mãos
escaldantes e um grito vermelho.
O vapor erguia-se do solo. A visão e o cheiro de neve putrefacta.
— Sou eu — disse-lhe o soldado. — Sou o Pieter. — Aproximou-se mais alguns centímetros, a
arrastar-se.
— Pieter? — indagou Robert em voz sumida. Devia ter-me sentido por perto.
Uma segunda vez. — Pieter?
Por qualquer motivo, os moribundos fazem sempre perguntas de que sabem a resposta. Talvez para
poderem morrer tendo razão.

As vozes soaram subitamente todas iguais.


Robert Holtzapfel tombou para o seu lado direito, para o solo frio e fumegante.
Estou certa de que ele esperava encontrar-se comigo ali e então.
Tal não aconteceu.
Infelizmente para o jovem alemão, eu não o levei nessa tarde. Passei por cima dele com as outras
pobres almas nos braços e voltei para os russos.
Andei de um lado para o outro.

397

Homens desmontados.
Não foi uma viagem de recreio, posso garantir-lhes.

Como Michael contou à mãe, passaram-se três longos dias até eu ir finalmente buscar o soldado
que deixara os pés em Estalinegrado. Apareci por insistências diversas no hospital temporário e
retraí-me ao sentir o cheiro.
Um homem, com uma das mãos enfaixada, dizia ao soldado mudo, de rosto abalado, que ele ia
sobreviver. — Não tarda, estás a ir para casa — garantiu-lhe ele.
Sim, pensei eu, para casa. Para sempre.
— Eu espero por ti — prosseguiu ele. — Ia regressar no final da semana, mas espero.
A meio da frase seguinte do irmão, eu recolhi a alma de Robert Holtzapfel.
Em geral, preciso de me esforçar para ver através do tecto quando estou em interiores, mas naquele
edifício tive sorte. Uma pequena parte do telhado havia sido destruída e eu via a direito. A um
metro de mim, Michael Holtzapfel continuava a falar. Tentei ignorá-lo, observando o buraco lá em
cima. O céu estava branco mas deteriorava-se rapidamente. Como sempre, começava a transformar-
se num imenso lençol manchado. O sangue repassava em fragmentos, e as nuvens estavam sujas,
como pegadas em neve a derreter.
Pegadas?, interrogar-se-ão.
Bom, pergunto-me a quem poderiam pertencer.

Na cozinha de Frau Holtzapfel, Liesel lia. As páginas iam passando penosamente sem serem
escutadas, e pelo que me diz respeito, quando o cenário russo se esbate diante dos meus olhos, a
neve recusa cessar de cair do tecto. Cobre a chaleira, bem como a mesa. Também os humanos
apresentam pedaços de neve nas cabeças e nos ombros.
O irmão estremece.
A mulher chora.
E a rapariga continua a ler, pois é para isso que ali está, e sabe bem servir para alguma coisa no
rescaldo das neves de Estalinegrado.

398

O IRMÃO IMUTÁVEL

Faltavam poucas semanas para Liesel Meminger fazer catorze anos.


O seu papá continuava ausente.
Concluíra mais três sessões de leitura com uma mulher destroçada. Em muitas noites, observava
Rosa a ir sentar-se com o acordeão e rezar com o queixo apoiado aos foles.
Agora, pensou ela, está na altura. Em geral, o que a animava era roubar, mas, nesse dia, seria
devolver uma coisa.
Esticou-se para debaixo da cama e tirou o prato. O mais depressa possível, lavou-o na cozinha e
saiu. Era agradável caminhar por Molching. O ar estava vivo e cortante, como a Watschen de um
professor ou freira sádicos. Os seus sapatos eram o único som na Rua de Munique.

Ao atravessar o rio, sentia-se um rumor de sol por trás das nuvens.


No 8 da Grande Strasse, ela subiu os degraus, deixou o prato à entrada, e bateu, e quando a porta
foi aberta já a rapariga tinha virado a esquina. Liesel não olhou para trás, mas sabia que, se o
fizesse, teria encontrado outra vez o irmão ao fundo dos degraus, com o joelho completamente
sarado. Conseguia mesmo ouvir-lhe a voz.
— Assim está melhor, Liesel.

Assaltou-a uma enorme tristeza ao compreender que o irmão teria eternamente seis anos mas, ao
reter esse pensamento, fez também um esforço para sorrir.
Permaneceu na ponte sobre o rio Amper, onde o papá costumava ficar apoiado.
Sorriu e voltou a sorrir e, depois de ter desabafado tudo, regressou a casa e o irmão nunca mais se
intrometeu no seu sono. Sentiria a falta dele sob vários aspectos, mas nunca poderia sentir a falta
dos seus olhos mortos no chão do comboio ou do som de uma tosse que matava.

399

Nessa noite, a rapariga que roubava livros deitou-se, e o garoto só veio antes de ela fechar os olhos.
Ele fazia parte de um elenco, pois Liesel tinha sempre visitas nesse quarto. O seu papá estava de pé
e chamava-lhe meia mulher. Max escrevia A Sacudidora de Palavras ao canto. Rudy aparecia à
porta, nu. De vez em quando, a mãe surgia numa plataforma de comboio à cabeceira da cama. E
muito longe, no quarto que se estendia como uma ponte até uma cidade anónima, o irmão, Werner,
brincava na neve do cemitério.
Do outro lado do vestíbulo, qual metrónomo para tais visões, Rosa ressonava, e Liesel continuou
desperta e cercada, mas também a recordar uma citação do seu livro mais recente.

O ÚLTIMO ESTRANHO HUMANO, PÁGINA 38


Havia gente por toda a parte na rua da
cidade, mas o estranho não poderia achar-se
mais só se ela estivesse vazia.
Ao romper da madrugada as visões desapareceram e ela ouviu o recital de palavras abafadas na
saleta. Rosa estava sentada com o acordeão, a rezar.
— Fazei-os voltar vivos — repetia ela. — Por favor, Senhor, por favor. Todos eles. — Até as rugas
em volta dos seus olhos estavam de mãos postas.
O acordeão devia magoá-la, mas ela permanecia ali.
Rosa nunca falaria a Hans desses momentos, mas Liesel acreditava que deviam ter sido essas
preces que ajudaram o papá a sobreviver ao acidente do LSE, em Essen. Se não ajudaram, mal não
fizeram com certeza.

400

O ACIDENTE

Estava uma tarde surpreendentemente límpida e os homens iam a subir para o camião. Hans
Hubermann acabava de se sentar no lugar que lhe fora designado. Reinhold Zucker parou a seu
lado.
— Cava daí — disse ele.
— Bitte? Perdão?
Zucker curvava-se sob o tecto do veículo. — Eu disse cava daí, Arschloch. — A selva gordurosa da
sua franja caía-lhe em blocos para a testa. — Vou trocar de lugar contigo.
Hans ficou confuso. O lugar de trás era provavelmente o mais desconfortável de todos. Era o mais
frio, onde se sentiam mais as correntes de ar. — Porquê?
— Que é que isso interessa? — Zucker começava a perder a paciência. — Talvez eu queira ser o
primeiro a sair para ir à casota.
Hans percebeu rapidamente que o resto da unidade já estava a observar aquela deplorável disputa
entre dois homens supostamente adultos. Não desejava perder, mas também não queria ser
mesquinho. Além disso, tinham acabado um turno exaustivo e não se sentia com energia para
continuar com aquilo. Semicurvado, avançou para o lugar vago a meio do camião.
— Por que é que cedeste àquele Scheisskopf? — perguntou o homem a seu lado.
Hans acendeu um fósforo e ofereceu uma passa do seu cigarro. — A corrente de ar lá atrás fura-me
os ouvidos.

O camião verde-azeitona dirigia-se para o acampamento, a cerca de quinze quilómetros.


Brunnenweg ia a contar uma anedota sobre uma criada francesa na altura em que o pneu esquerdo
da frente sofreu um furo e o condutor perdeu o controlo. O veículo rebolou várias vezes e os
homens praguejaram enquanto giravam com o ar, a luz, o lixo e o tabaco.

401

Lá fora, o céu azul passava de tecto a chão enquanto eles


procuravam algo a que se agarrar.
Quando aquilo parou, estavam todos amontoados contra a parede
direita do camião, os rostos amassados na farda imunda a seu lado. Perguntas sobre o estado de
saúde foram sendo transmitidas até que um dos homens, Eddie Alma, começou a gritar: «Tirem este
sacana de cima de mim!» Disse-o três vezes, muito depressa. Tinha diante da cara os olhos fixos de
Reinhold Zucker.

OS ESTRAGOS, ESSEN
Seis homens com queimaduras de cigarro.
Duas mãos partidas.
Diversos dedos partidos.
Uma perna partida para Hans Hubermann.
Um pescoço partido para Reinhold
Zucker, quebrado quase à altura
dos lóbulos das orelhas.

Puxaram-se uns aos outros para fora até restar apenas o cadáver no camião.
O condutor, Helmut Brohmann, estava sentado no chão, a coçar a cabeça. — Foi o pneu que
explodiu — explicou ele. Alguns dos homens sentaram-se junto dele e garantiram-lhe que não
tivera culpa. Outros andavam por ali a fumar, perguntando uns aos outros se achavam que os seus
ferimentos seriam suficientemente graves para serem dispensados do serviço. Um pequeno grupo
reuniu-se na parte de trás do camião a examinar o corpo.
Encostado a uma árvore, Hans Hubermann sentia uma fina faixa de dor intensa começar a rasgar-
lhe a perna. — Devia ter sido eu — observou ele.
— O quê? — gritou o sargento do camião.
— Ele vinha sentado no meu lugar.

Helmut Brohmann dominou-se e subiu para o compartimento do condutor. De lado, tentou fazer
pegar o motor, mas foi inútil. Mandou-se chamar outro camião, e uma ambulância. A ambulância
não apareceu.
— Sabem o que isto significa, não sabem? — comentou Boris Schipper. Sabiam.
402
Ao retomarem a viagem de regresso ao acampamento, todos os homens tentaram não olhar para a
boca de Reinhold Zucker, escancarada num esgar. — Eu bem vos disse que devíamos tê-lo virado
de cara para baixo — referiu alguém. Ocasionalmente, alguns deles esqueciam-se simplesmente e
apoiavam os pés no corpo. A chegada, todos procuraram esquivar-se à tarefa de o puxar para fora.
Terminado o trabalho, Hans Hubermann deu alguns breves passos antes de a dor lhe fracturar a
perna e o derrubar.
Uma hora depois, ao examiná-lo, o médico disse-lhe que ela se encontrava, indiscutivelmente,
partida. O sargento andava por ali, exibindo um meio sorriso.
— Bom, Hubermann. Parece que te safaste, não é? — Estava a abanar a cara redonda e a fumar, e
forneceu uma lista do que aconteceria a seguir. — Tu vais descansar. Eles vão perguntar-me o que
havemos de fazer contigo. Eu digo-lhes que fizeste um trabalho esplêndido. — Expeliu mais uma
baforada. — E acho que lhes vou dizer que tu não estás em condições de continuar no LSE e que
devias ser mandado regressar a Munique para trabalhar num escritório ou no que quer que eles
precisem de limpar por lá. Que tal te parece?
Incapaz de resistir a uma gargalhada mesclada com uma careta de dor, Hans respondeu: —Parece-
me bem, meu sargento.
Boris Schipper acabou o seu cigarro. — Pois claro que te parece bem. Tens a sorte de eu gostar de
ti, Hubermann. Tens a sorte de ser um homem bom, e generoso com os cigarros.
Na sala ao lado estavam a preparar o gesso.

403

O SABOR AMARGO DAS PERGUNTAS

Apenas uma semana após os anos de Liesel, em meados de Fevereiro, ela e Rosa receberam
finalmente uma carta pormenorizada de Hans Hubermann. Liesel correu desde a caixa do correio
para a ir mostrar à mãe. Rosa mandou-a ler alto, e não conseguiram conter a excitação quando
Liesel chegou à perna partida. Ficou tão atordoada que articulou a frase seguinte apenas para si
própria.
— O que foi? — insistiu Rosa. — Saumensch?
Liesel ergueu os olhos da carta, quase a gritar. O sargento cumprira a sua palavra. — Ele vem para
casa, mãe. O papá vem para casa!
Abraçaram-se na cozinha e a carta ficou esmagada entre os seus corpos. Uma perna partida era
indubitavelmente algo para celebrar.
Liesel foi dar a novidade à casa ao lado, e Barbara Steiner ficou extática. Esfregou os braços da
rapariga e chamou o resto da família. Na sua cozinha, o lar dos Steiner parecia encantado com a
notícia de que Hans Hubermann ia regressar a casa. Rudy sorria e ria, e Liesel viu que ele estava
pelo menos a tentar. Contudo, ela sentia igualmente o sabor amargo das perguntas na sua boca.
Porquê ele?
Porquê Hans Hubermann e não Alex Steiner?
Eram perguntas válidas.

404

UMA CAIXA DE FERRAMENTAS, UM HOMEM ENSANGUENTADO, UM URSO

Desde o recrutamento do pai para o exército, no anterior mês de Outubro, a cólera de Rudy tinha
vindo a aumentar a olhos vistos. A notícia do regresso de Hans Hubermann foi a gota de água de
que ele precisava para a levar mais além. Não contou a Liesel. Não valia a pena queixar-se de que
não era justo. A sua decisão foi actuar.
Subiu a Rua Himmel com uma caixa metálica à hora típica para um roubo, o cair do crepúsculo.

A CAIXA DE FERRAMENTAS DE RUDY


Era de um vermelho manchado e do tamanho
de uma cafxa de sapatos demasiado grande.
Continha o seguinte:
Canivete ferrugento x 1
Lanterna pequena x 1
Martelo x 2
(um médio, um pequeno)
Toalha de mãos x 1
Chave de fendas x 3
(tamanhos variados)
Máscara de esqui x 1
Meias lavadas x 1 Urso de pelúcia x 1

Liesel viu-o da janela da cozinha — os passos decididos e o rosto concentrado, exactamente como
no dia em que fora à procura do pai. Agarrava a pega com toda a força, e os seus movimentos eram
hirtos de raiva.
A rapariga que roubava livros deixou cair a toalha que tinha na mão e substituiu-a por um único
pensamento.

405

Ele vai roubar.


Correu para fora ao seu encontro.
Não houve nada que se assemelhasse sequer a um olá.
Rudy continuou simplesmente a andar e falou através do ar frio à sua frente. Junto do bloco de
apartamentos de Tommy Müller começou:
— Sabes uma coisa, Liesel, tenho andado a pensar. Tu não roubas nada — e não lhe deu
oportunidade de replicar. — Aquela mulher deixa-te entrar. Até te deixa ficar bolos, pelo amor de
Deus. Eu não chamo a isso roubar. Roubar é o que faz o exército. Levar o teu pai, e o meu. — Deu
um pontapé numa pedra que foi bater com estrondo num portão. Apressou o passo. — Todos esses
nazis ricos lá em cima, na Grande Strasse, Gelb Strasse, Heide Strasse.
Liesel não conseguia concentrar-se noutra coisa que não fosse acompanhá-lo. Já tinham
ultrapassado a loja de Frau Diller e avançavam pela Rua de Munique. — Rudy...
— Qual é a sensação, diz-me lá?
— Qual é a sensação de quê?
— Quando tiras um daqueles livros?
Nessa altura, ela optou por parar. Se ele queria uma resposta, teria de voltar atrás, e foi o que
aconteceu. — Então? — Mas, mais uma vez, foi Rudy quem respondeu, antes de Liesel conseguir
sequer abrir a boca. — É uma sensação boa, não é? Roubar-lhes também qualquer coisa.
Liesel dirigiu a sua atenção para a caixa de ferramentas, tentando levá-lo a abrandar. — O que tens
tu aí?
Ele curvou-se e abriu-a.
Tudo parecia fazer sentido menos o urso de pelúcia.

Enquanto continuavam a andar, Rudy explicou pormenorizadamente a caixa de ferramentas, e


aquilo que faria com cada uma das peças. Por exemplo, os martelos eram para partir janelas e a
toalha para os envolver, a fim de abafar o som.
— E o urso de pelúcia?
Pertencia a Anna-Marie Steiner e não era maior do que um dos livros de Liesel. O pêlo estava
áspero e puído. Os olhos e as orelhas haviam sido cosidos repetidamente mas, ainda assim, tinha
um ar amigável.
— Isso — respondeu Rudy — é o golpe de génio. É para se entrar um miúdo enquanto eu lá estou
dentro. Dou-lho para o acalmar.
— E o que tencionas tu roubar?
Ele encolheu os ombros. — Dinheiro, comida, jóias. Qualquer coisa a que consiga deitar a mão. —
Parecia bastante simples.

406

Só um quarto de hora mais tarde, observando o súbito silêncio do seu rosto, é que Liesel percebeu
que Rudy Steiner não ia roubar coisa alguma. O empenho desaparecera, e embora ele continuasse a
contemplar a imaginada glória de roubar, ela via que ele agora já não acreditava. Tentava acreditar,
e isso nunca é bom sinal. A sua grandeza criminal desenrolava-se diante dos seus olhos, e à medida
que os passos abrandavam e eles observavam as casas, Liesel sentiu intimamente um alívio puro e
triste.
Estavam na Gelb Strasse.
No geral, as casas apresentavam-se sombrias e imensas.
Rudy descalçou os sapatos e segurou-as com a mão esquerda. Na direita agarrava a caixa de
ferramentas.
Por entre as nuvens, havia lua. Talvez um quilómetro de luz.
— De que estou eu à espera? — perguntou ele, mas Liesel não respondeu. Rudy voltou a abrir a
boca... sem palavras. Pousou a caixa de ferramentas no chão e sentou-se em cima.
As meias começaram a ficar frias e húmidas.
— Felizmente há outro par na caixa — sugeriu Liesel, e viu que ele se esforçava por não rir.

Rudy desviou-se e virou-se para o outro lado, deixando espaço também para Liesel.
A rapariga que roubava livros e o seu melhor amigo estavam sentados, costas contra costas, numa
caixa de ferramentas de um vermelho manchado, no meio da rua. Cada um voltado para seu lado,
permaneceram assim durante um bom bocado. Quando se levantaram para regressar a casa, Rudy
mudou de meias e deixou as anteriores na rua. Um presente para a Gelb Strasse, decidiu ele.

A VERDADE DITA POR RUDY STEINER


«Acho que sou melhor a deixar ficar coisas para trás do que a roubá-las.»

Algumas semanas mais tarde, a caixa de ferramentas acabou sendo útil, pelo menos para uma coisa.
Rudy esvaziou-a de martelos e chaves de parafusos e optou por aí guardar alguns bens dos Steiner
para o próximo ataque aéreo. A única peça que ficou foi o urso de pelúcia.
A 9 de Março, Rudy saiu de casa com ela quando as sirenes voltaram a fazer sentir a sua presença
em Molching.

407

Enquanto os Steiner desciam, apressados, a Rua Himmel, Michael Holtzapfel batia furiosamente à
porta de Rosa Hubermann. Vendo-a aparecer com Liesel, ele explicou-lhes o seu problema. — É a
minha mãe — disse ele, e a sua ligadura continuava com ameixas de sangue.
— Não quer sair. Está sentada à mesa da cozinha.
As semanas passavam, mas Frau Holtzapfel ainda não começara a recuperar. Nos dias em que
Liesel ia ler, a mulher levava a maior parte do tempo a olhar fixamente para a janela. As suas
palavras eram serenas, quase sem gestos. Toda a brutalidade e reprimenda se lhe haviam apagado
da face. Em geral, era Michael que se despedia de Liesel ou lhe entregava o café e lhe agradecia. E
agora aquilo.
Rosa entrou em acção.
Transpôs rapidamente o portão e parou à entrada da porta aberta.
— Holtzapfel! — Só se ouviam as sirenes e Rosa. — Holtzapfel, vem já cá para fora, miserável
sevandija! — O tacto nunca fora o ponto forte de Rosa Hubermann. — Se não vieres, vamos
morrer todos aqui na rua! — Virou-se e encarou as figuras impotentes no caminho.
— Uma sirene cessara de uivar. — E agora?
Michael encolheu os ombros, desorientado, perplexo. Liesel pousou a saca dos livros e fitou-o.
Gritou ao começar a sirene seguinte. — Posso lá ir? — Mas não esperou pela resposta. Correu a
curta distância até à entrada e passou pela mãe.
Frau Holtzapfel continuava à mesa, inamovível.
O que é que eu digo?, pensou Liesel.
Como é que a convenço a mover-se?
Quando as sirenes respiraram de novo, ouviu Rosa chamar. — Deixa--a lá, Liesel, temos de ir! Se
ela quer morrer, é lá com ela. — Mas então as sirenes recomeçaram. Espalharam-se e expulsaram a
voz.
Agora era apenas o ruído, a rapariga e a mulher de arame.
— Frau Holtzapfel, por favor!
A semelhança do que acontecera na conversa com Ilsa Hermann, no dia dos bolos, tinha na ponta
da língua uma profusão de palavras e frases. A diferença é que hoje eram bombas. Hoje era
ligeiramente mais urgente.

AS OPÇÕES
• «Frau Holtzapfel, temos de ir.»
• «Frau Holtzapfel, se ficarmos aqui morremos.»
• «Ainda lhe resta um filho.»
• «Estamos todos à sua espera.»

408

• «As bombas despedaçam-lhe a cabeça.»


• «Se não vem, eu deixo de vir
ler para si, e isso significa que perde a sua única amiga.»

Decidiu-se pela última frase, gritando as palavras directamente através das sirenes. Assentara as
mãos na mesa.
A mulher ergueu os olhos e tomou a sua decisão. Não se moveu. Liesel desistiu. Afastou-se da
mesa e saiu rapidamente de casa.

Rosa segurava o portão aberto e começaram a correr em direcção ao número quarenta e cinco.
Michale Holtzapfel permanecia encalhado na Rua Himmel.
— Anda! — implorou-lhe Rosa, mas o soldado regressado hesitava. Preparava-se para voltar para
dentro quando algo o fez virar. A mão mutilada era a única coisa que o prendia ao portão, e
envergonhado, libertou-se e seguiu-as.
Olharam todos para trás, várias vezes, mas nada de Frau Holtzapfel.
A rua parecia tão ampla, e quando a derradeira sirene se evaporou no
ar, as últimas três pessoas na Rua Himmel entraram na cave dos Fiedler.
— Por que é que demoraram tanto? — perguntou Rudy. Tinha na mão a caixa de ferramentas.
Liesel pousou a saca dos livros no chão e sentou-se em cima. — Estivemos a tentar trazer a Frau
Holtzapfel.
Rudy olhou em redor. — Onde é que ela está?
— Em casa. Na cozinha.

No canto mais afastado do abrigo, Michael tremia todo encolhido.


— Eu devia ter ficado —— murmurava ele —, eu devia ter ficado, eu devia ter ficado... — A voz
era quase inaudível, mas os olhos falavam mais alto do que nunca. Rolavam furiosamente nas
órbitas enquanto ele apertava a mão ferida e o sangue trespassava a ligadura.
Foi Rosa que o deteve.
— Por favor, Michael, tu não tens culpa.
Mas o jovem a quem restavam apenas alguns dedos na mão direita continuava inconsolável.
Anichou-se nos olhos de Rosa.
— Diga-me uma coisa — pediu ele —, porque eu não compreendo... — Tombou para trás e
sentou-se encostado à parede. — Diga--me, Rosa, como pode ela sentar-se ali, pronta a morrer,
enquanto eu ainda quero viver. — O sangue aumentou. — Por que quero eu viver? Não devia
querer, mas quero.

409

O jovem chorou incontrolavelmente durante vários minutos, com a mão de Rosa pousada no
ombro. As outras pessoas observavam. Ele não conseguia parar, nem sequer quando a porta da cave
se abriu e fechou e Frau Holtzapfel entrou no abrigo.
O filho ergueu os olhos.
Rosa afastou-se.
Quando se reuniram, Michael desculpou-se. — Mãe, desculpe, eu devia ter ficado consigo.
Frau Holtzapfel não ouviu. Limitou-se a sentar-se com o filho e a erguer-lhe a mão enfaixada. —
Estás outra vez a sangrar — observou ela, e como todos os outros, aguardou.
Liesel meteu a mão na saca e procurou por entre os livros.

O BOMBARDEAMENTO DE MUNIQUE,
9 E 10 DE MARÇO
A noite foi longa com bombas
e leitura. A rapariga que roubava
livros sentia a boca seca, mas avançou
cinquenta e quatro páginas.

A maioria das crianças dormia e não ouviu as sirenes da segurança renovada. Os pais acordaram-
nas ou levaram-nas ao colo pelas escadas da cave, para o mundo das trevas.
Ao longe grassavam incêndios e eu tinha recolhido um pouco mais de duzentas almas assassinadas.
E ia a caminho de Molching buscar mais uma.

A Rua Himmel estava livre.


As sirenes haviam sido retidas durante muitas horas, para o caso de haver outra ameaça e para
permitir que o fumo se dissipasse na atmosfera.
Foi Bettina Steiner que notou o pequeno incêndio e a réstia de fumo lá mais para baixo, perto do rio
Amper. Erguia-se para o céu e a rapariga espetou o dedo. — Olhem.

Talvez a rapariga o tivesse avistado primeiro, mas quem reagiu foi Rudy. Com a pressa, nem largou
a caixa de ferramentas enquanto disparava Rua Himmel abaixo, tomava por algumas ruas laterais e
alcançava as árvores. Seguiu-se Liesel (tendo entregado os seus livros a Rosa, que protestava
furiosamente), e depois meia dúzia de pessoas de diversos abrigos ao longo do caminho.

410

— Rudy, espera!
Rudy não esperou.
Liesel só conseguia avistar a caixa de ferramentas por certas aberturas entre as árvores à medida
que ele se dirigia para o clarão moribundo e o avião indistinto. Jazia fumegante na clareira junto ao
rio. O piloto tentara aterrar ali.

A uns vinte metros, Rudy estacou.


Estava eu própria a chegar, quando reparei nele ali parado, a recobrar fôlego.
Havia membros de árvores dispersos na escuridão.
Havia ramos e caruma espalhados em volta do avião, como combustível para o incêndio. A
esquerda, três golpes na terra calcinada. O tiquetaque descontrolado de metal a arrefecer acelerava
os minutos e segundos até eles se fixarem ali pelo que parecia há horas. A multidão crescente
reunia-se atrás deles, e Liesel sentia-lhes na nuca o bafo e as frases.
— Bom — propôs Rudy —, vamos dar uma olhadela?
Avançou por entre as restantes árvores até ao local onde o corpo do avião estava fixo ao solo. O
nariz enfiava na água corrente e as asas haviam sido deixadas para trás, retorcidas.
Rudy rodeou-o, lentamente, desde a cauda e passou ao lado direito.
— Há aqui vidros — avisou ele. — O pára-brisas está por toda a parte.
Então viu o corpo.
Rudy Steiner nunca vira uma cara tão lívida.
— Não venhas, Liesel. — Mas Liesel foi.
Avistou o rosto vagamente consciente do piloto inimigo enquanto as altas árvores observavam e o
rio deslizava. O avião soltou mais algumas tossidelas e a cabeça no seu interior inclinou-se da
esquerda para a direita. Disse qualquer coisa que eles, obviamente, não conseguiram compreender.
— Jesus, Maria e José — segredou Rudy. — Ele está vivo.
A caixa de ferramentas embateu no lado do avião e trouxe consigo o som de mais vozes e pés
humanos.
O clarão do incêndio diluíra-se e a madrugada estava serena e escura. Apenas o fumo prosseguia o
seu caminho, mas também ele se desvaneceria depressa.
A parede de árvores manteve afastado o clarão de uma Munique em chamas. Agora, os olhos do
rapaz já se tinham adaptado não só à escuridão, mas ao rosto do piloto.

411

Os olhos dele eram como manchas de café, e havia golpes traçados a direito nas suas faces e
queixo. Uma farda enrugada cobria-lhe, desalinhada, o peito.

Apesar do aviso de Rudy, Liesel aproximou-se ainda mais, e garanto--lhes que nos reconhecemos
uma à outra nesse exacto momento. Eu conheço-te, pensei eu. Havia um comboio e um rapaz que
tossia. Havia neve e uma rapariga transtornada.
Tu cresceste, pensei, mas eu reconheço-te.
Ela não recuou nem tentou resistir-me, mas sei que algo disse à rapariga que eu ali estava.
Conseguiria sentir o cheiro do meu bafo? Conseguiria ouvir o batimento amaldiçoado do meu
coração circular, revolvendo-se como o crime que é no meu peito mortal? Não sei, mas ela
reconheceu-me e olhou-me de frente e não desviou os olhos.
Quando o céu começou a passar de carvão a claridade, ambas nos movemos. Ambas observámos o
rapaz que voltara a pegar na sua caixa de ferramentas e procurava por entre algumas molduras de
fotografias, tirando de lá um pequeno brinquedo amarelo, de pelúcia. Cautelosamente, trepou até ao
homem moribundo. Pousou suavemente o urso sorridente no ombro dt> piloto. A ponta da orelha
ficou a tocar-lhe na garganta.
O moribundo inspirou-o. Falou. Em inglês, disse: «Obrigado.» Os seus golpes abriram ao falar, e
uma pequena gota de sangue rolou-lhe tortuosa pela garganta.
— O quê? — perguntou-lhe Rudy. — Was hast du gesagt? O que é que disse?
Infelizmente, eu ultrapassei-o na recepção da resposta. Chegara a hora e eu estava debruçada sobre
a carlinga. Extraí lentamente a alma do piloto de dentro da sua farda amarrotada e resgatei-o do
avião despedaçado. A assistência manteve-se em silêncio enquanto eu passava. Libertei-me com um
solavanco.
Por cima de mim, o céu eclipsou-se — um derradeiro momento de trevas — e juro que distingui
uma assinatura preta com a forma de uma suástica. Pairou lá em cima, negligente.
— Heil Hitler — disse eu, mas nessa altura já me encontrava bem no meio das árvores. Atrás de
mim, um urso de pelúcia repousava no ombro de um cadáver. Havia uma vela cor de limão de pé,
sob os ramos. A alma do piloto descansava nos meus braços.
Creio ser justo afirmar que, durante todos os anos do domínio de Hitler, ninguém foi capaz de
servir o Führer tão lealmente como eu.

412

Um humano não tem um coração como o meu. O coração humano é uma linha, ao passo que o meu
é um círculo, e eu possuo a interminável capacidade de estar no sítio certo na altura certa.
Consequentemente, estou sempre a encontrar humanos no seu melhor e no seu pior. Vejo a sua
fealdade e a sua beleza, e pergunto-me como pode a mesma coisa ser ambas. Ainda assim, eles têm
uma coisa que eu invejo. Os humanos, quanto mais não seja, têm o bom senso de morrer.
413

REGRESSO AO LAR

Foi um tempo de homens ensanguentados e de aviões despedaçados e de ursos de pelúcia, mas o


primeiro trimestre de 1943 iria terminar numa nota positiva para a rapariga que roubava livros.
No início de Abril, o gesso de Hans Hubermann foi cortado pelo joelho e ele embarcou num
comboio para Munique. Ser-lhe-ia concedida uma semana de descanso e distracção em casa antes
de voltar à cidade para se ir juntar às fileiras de mangas-de-alpaca do exército. Iria ajudar na parte
documental da limpeza das fábricas, casas, igrejas e hospitais de Munique. O tempo diria se ele
voltaria a ser enviado para trabalhos de reparações. Tudo dependia da sua perna e do estado da
cidade.

Estava escuro quando Hans chegou a casa. Era um dia mais tarde do que o esperado, pois o
comboio fora atrasado devido a um alarme de ataque aéreo. Ele parou à porta do 33 da Rua
Himmel e cerrou o punho.
Quatro anos antes, Liesel Meminger fora convencida a passar aquela porta ao chegar ali pela
primeira vez. Max Vandenburg estivera ali parado, com uma chave a queimar-lhe a mão. Agora era
a vez de Hans Hubermann. Bateu quatro vezes e a rapariga que roubava livros foi abrir.
— Papá, papá.
Deve tê-lo repetido cem vezes enquanto o abraçava na cozinha, sem o largar.

Mais tarde, depois de terem comido, sentaram-se à mesa da cozinha pela noite fora e Hans contou
tudo à mulher e a Liesel Meminger. Explicou-lhes o LSE e as ruas cheias de fumo e as pobres
almas vagueando perdidas. E Reinhold Zucker. O pobre e estúpido Reinhold Zucker. Levou horas.

414

À uma da madrugada, Liesel foi deitar-se e o papá sentou-se ao pé dela, como costumava fazer. Ela
acordou diversas vezes para ver se ele ainda lá estava, e ele não a desiludiu.
A noite foi calma.
A cama dela estava quente e macia de satisfação.

Sim, foi uma grande noite para ser Liesel Meminger, e a calma, e o calor, e a macieza
permaneceriam aproximadamente mais três meses.

Mas a história dela prolonga-se por seis.

415

PARTE DEZ
a rapariga que roubava livros
apresentando:
o fim de um mundo — o nonagésimo oitavo dia — um obreiro da guerra — caminho de palavras
— uma rapariga catatónica — confissões — o pequeno livro negro de ilsa hermann - alguns aviões
bojudos — e uma cordilheira de escombros
O FIM DO MUNDO (PARTE I)

Uma vez mais, ofereço-lhes uma visão do fim. Talvez seja para suavizar o golpe mais tarde, ou para
melhor me preparar para o relatar. Seja como for, devo informá-los de que estava a chover na Rua
Himmel quando o mundo acabou para Liesel Meminger.
O céu pingava.
Como uma torneira que uma criança se esforçou ao máximo por fechar mas sem conseguir. As
primeiras gotas eram frias. Senti-as nas mãos ao parar do lado de fora da loja de Frau Diller.

Ouvia-os por cima de mim.


Através do céu toldado, ergui os olhos e vi os aviões como latas de conserva. Observei os seus
estômagos a abrirem-se e as bombas a caírem despreocupadamente. Tinham errado o alvo, é claro.
Erravam muitas vezes o alvo.

UMA PEQUENA ESPERANÇA TRISTE


Ninguém quisera bombardear
a Rua Himmel.
Ninguém bombardearia um
lugar com o nome
de céu, pois não?
Pois não?

As bombas desceram e em breve as nuvens ficariam crestadas e as gotas de chuva transformadas


em cinzas. Flocos de neve escaldantes tombariam no solo.
Em resumo, a Rua Himmel foi arrasada.
Houve casas espalhadas de um lado ao outro da rua. Uma fotografia do Führer, com ar grave, foi
estilhaçada e esmagada no solo esventrado.

419

Ele, contudo, sorria, com aquele seu jeito sério. Ele sabia algo que nós todos não sabíamos. Mas eu
sabia algo que ele não sabia. Tudo isso enquanto as pessoas dormiam.
Rudy Steiner dormia. A mãe e o papá dormiam. Frau Holtzapfel, Frau Diller. Tommy Müller. Todos
a dormir. Todos a morrer.

Apenas uma pessoa sobreviveu.


Ela sobreviveu porque estava sentada numa cave a reler a história da sua própria vida, procurando
erros. Anteriormente, a divisão havia sido declarada demasiado baixa, mas nessa noite, a 7 de
Outubro, foi suficiente. Os resíduos da destruição precipitaram-se lá para baixo, e horas mais tarde,
quando o silêncio estranho e rude se instalou em Molching, o LSE local ouviu qualquer coisa. Um
eco. Lá em baixo, algures, uma rapariga batia numa lata de tinta com um lápis.
Todos estacaram, os corpos e os ouvidos curvados e, voltando a ouvi-lo, começaram a cavar.

PEÇAS PASSADAS DE MÃO EM MÃO


Blocos de cimento e telhas.
Um pedaço de parede pintada com um sol
gotejante. Um acordeão de aspecto
infeliz, a espreitar do seu
estojo corroído.
Foram atirando com tudo para cima.
Ao removerem mais um pedaço de parede partida, um deles avistou o cabelo da rapariga que
roubava livros.
O homem tinha um riso tão bonito. Estava a trazer à luz uma criança recém-nascida. — Não posso
crer... ela está viva!
A alegria foi enorme entre os homens amontoados, numa algazarra, mas eu não podia partilhar
completamente o seu entusiasmo.

Um pouco antes, tinha segurado o papá dela num braço e a mãe no outro. As duas almas eram tão
macias.

Mais longe, os seus corpos jaziam estendidos, como os restantes. Os encantadores olhos de prata do
papá começavam já a enferrujar, e os lábios curtidos da mãe estavam fixos entreabertos, muito
provavelmente do feitio de um ressonar incompleto. Se posso blasfemar como os alemães... Jesus,
Maria e José.

420

As mãos salvadoras puxaram Liesel para fora e sacudiram os pedaços de entulho da sua roupa. —
Rapariguinha — disseram eles —, as sirenes chegaram demasiado tarde. O que estavas tu a fazer na
cave? Como é que soubeste?
No que eles não repararam foi que a rapariga continuava a segurar o livro. A sua resposta foi um
grito. O grito chocante dos vivos.
— Papá!
Segunda vez. O seu rosto franziu-se quando ela atingiu um tom mais elevado, mais apavorado. —
Papá, papá!
Passaram-na para cima enquanto ela gritava, gemia e chorava. Se estava ferida, ainda o não sabia,
pois lutou para se libertar, procurou, e chamou, e chorou um bocado mais.

Continuava a apertar o livro.


Agarrava-se desesperadamente às palavras que lhe haviam salvado a vida.

421

O NONAGÉSIMO OITAVO DIA

Durante os primeiros noventa e sete dias após o regresso de Hans Hubermann, em Abril de 1943,
tudo correu lindamente. Em muitas ocasiões, o pensamento do filho a combater em Estalinegrado
deixava--o melancólico, mas esperava que alguma da sua sorte tivesse passado para o sangue do
rapaz.
Na sua terceira noite em casa, tocou acordeão na cozinha. Uma promessa era uma promessa. Houve
música, sopa e pilhérias, e o riso de uma rapariga de catorze anos.
— Saumensch — avisou-a a mãe —, pára de rir tão alto. As pilhérias dele não têm assim tanta
piada. E além disso são porcas...
Ao fim de uma semana, Hans retomou o serviço, viajando até à cidade para um dos escritórios do
exército. Disse que havia lá uma boa reserva de cigarros e comida, e às vezes conseguia levar para
casa alguns biscoitos ou uma compota suplementar. Era como nos bons velhos tempos. Um ataque
aéreo insignificante em Maio. Um «heil Hitler» aqui e além e tudo corria lindamente.
Até ao nonagésimo oitavo dia.
UMA PEQUENA AFIRMAÇÃO DE UMA MULHER IDOSA
Na Rua de Munique, ela disse: «Jesus,
Maria e José, gostava que eles
não os trouxessem por aqui. Estes
malfadados judeus trazem azar.
São um mau agouro. De cada vez que os vejo,
sei que estamos perdidos.»

Era a mesma senhora idosa que anunciara os judeus da primeira vez que Liesel os vira. Ao nível do
solo, o seu rosto era uma castanha pilada.

422

Os seus olhos eram do azul-escuro de uma veia. E a sua profecia era exacta.

Em pleno Verão, Molching recebeu um sinal de acontecimentos futuros. Surgiu como sempre.
Primeiro, a cabeça levemente inclinada de um soldado e a arma perfurando o ar por cima dele.
Depois, a fila esfarrapada de judeus acorrentados.
A única diferença, dessa vez, foi que eles vinham da direcção oposta. Atravessaram rumo à cidade
vizinha de Nebling para varrer as ruas e executar os trabalhos de limpeza que o exército se recusava
a fazer. Ao fim do dia, desfilaram de volta ao campo, devagar e exaustos, derrotados.
De novo Liesel procurou Max Vandenburg, pensando que ele podia muito bem ter acabado em
Dachau sem ter sido levado através de Molching. Ele não se encontrava lá. Pelo menos nessa
ocasião.
Mas dêem-lhe tempo, pois numa tarde quente de Agosto, Max vai seguramente marchar através da
cidade com os restantes. No entanto, ao contrário dos outros, ele não irá a observar a estrada. Ele
não irá a olhar ao acaso para a tribuna alemã do Führer.

UM FACTO RELATIVO A MAX VANDENBURG


Ele irá perscrutar os rostos na Rua de Munique à procura de uma rapariga que rouba livros.

Nessa ocasião, em Julho, no que Liesel calculou ser o nonagésimo dia após o regresso do papá, ela
parou a observar a pilha movediça de lúgubres judeus — à procura de Max. Quanto mais não fosse,
aliviava-lhe a dor de observar simplesmente.
Que pensamento horroroso, escreveria ela na sua cave da Rua Himmel; mas sabia que era verdade.
A dor de os observar. Então e a dor deles? A dor de sapatos que tropeçam e do tormento e dos
portões do campo que se fecham?

Eles atravessaram Molching duas vezes em dez dias e, pouco depois, provou-se que a mulher
anónima com rosto de castanha pilada, moradora na Rua de Munique, tinha toda a razão. O
sofrimento chegara, indiscutivelmente, e se eles podiam culpar os judeus de serem um aviso ou
prólogo, deviam ter culpado o Führer e a sua demanda da Rússia como causa real, pois quando a
Rua Himmel despertou, em fim de Julho, descobriu-se que um soldado regressado estava morto.

423

Suspenso numa das vigas de uma lavandaria, perto da loja de Frau Diller. Mais um pêndulo
humano. Mais um relógio, parado.
O descuidado proprietário deixara a porta aberta.
24 DE JULHO, 6h03
A lavandaria estava quente,
as vigas eram firmes,
e Michael Holtzapfel
saltou da cadeira
como se ela fosse um penhasco.

Tantas pessoas me perseguiam nessa época, chamando por mim, pedindo-me que as levasse
comigo. Depois havia a pequena percentagem que me chamava casualmente e segredava nas suas
vozes tensas. — Recebe-me — diziam eles, e não era possível detê-los. Estavam assustados, sem
dúvida, mas não tinham medo de mim. Era o receio de fazerem asneira e terem de se enfrentar de
novo a si próprios, e de enfrentar o mundo, e pessoas como vocês. Não havia nada que eu pudesse
fazer.
Conheciam demasiadas maneiras, eram demasiado inventivos — e quando eles o faziam demasiado
bem, fosse qual fosse o método escolhido, eu não me achava em posição de recusar. Michael
Holtzapfel sabia o que estava a fazer. Matou-se por querer viver.

Claro que não vi Liesel Meminger nesse dia. Como acontece em geral, disse a mim própria que
estava demasiado ocupada para me deter na Rua Himmel a escutar os gritos. Já é suficientemente
mau quando as pessoas me apanham em flagrante, por isso tomei a habitual decisão de me escapar,
para o sol cor de pequeno-almoço.
Não ouvi a detonação da voz de um velho que encontrou o corpo suspenso, nem o som de passos a
correr e bocas abertas ao chegarem outras pessoas. Não ouvi um homem magro de bigode
murmurar, «Que vergonha, que grande vergonha...»
Não vi Frau Holtzapfel estendida na Rua Himmel, de braços abertos, a face descomposta num
desespero total. Não, não descobri nada disso até voltar alguns meses depois e ler uma coisa
chamada A Rapariga Que Roubava Livros. Vi aí explicado o que acabou por desgastar Michael
Holtzapfel: não a sua mão arruinada nem qualquer outro ferimento, mas o sentimento de culpa por
viver.

424

No tempo que antecedeu a sua morte, a rapariga percebera que ele não dormia, que cada noite era
como veneno. Eu imagino-o frequentemente estendido, acordado, a suar em lençóis de neve, ou a
ter visões das pernas decepadas do irmão. Liesel escreveu que, por vezes, quase lhe falou do seu
próprio irmão, como fizera a Max, mas parecia-lhe haver uma grande diferença entre uma tosse
distante e duas pernas obliteradas. Como é que se consola um homem que viu tais coisas?
Podíamos dizer-lhe que o Führer se sentia orgulhoso dele, que o Führer o amava por aquilo que ele
fizera em Estalinegrado? Como poderíamos sequer atrever-nos? Só podemos deixá-lo falar a ele. O
dilema, claro, é que essas pessoas guardam as palavras mais importantes para depois, quando os
humanos que as rodeiam têm o azar de as encontrar. Uma nota, uma frase, até mesmo uma
pergunta, ou uma carta, como na Rua Himmel em Julho de 1943.

MICHAEL HOLTZAPFEL — O ÚLTIMO ADEUS


Querida mãe,
Poderá alguma vez perdoar-me?
Não consigo aguentar mais tempo.
Vou ao encontro de Robert. Não me interessa
o que o raio dos católicos dizem sobre isto.
Tem de haver um lugar no céu para
aqueles que estiveram onde eu estive.
Talvez pense que eu não a amo por causa
daquilo que fiz, mas amo.
Do seu Michael

Foi a Hans Hubermann que pediram para dar a notícia a Frau Holtzapfel. Ele parou à entrada da
porta e ela deve tê-lo visto na sua cara. Dois filhos em seis meses.
O céu matinal resplandecia por trás dele enquanto a mulher de arame avançava. Correu a soluçar
para o ajuntamento no cimo da Rua Himmel. Proferiu o nome Michael pelo menos umas vinte
vezes, mas Michael já respondera. Segundo a rapariga que roubava livros, Frau Holtzapfel
manteve-se abraçada ao corpo quase uma hora. Depois, voltou para o sol ofuscante da Rua Himmel
e sentou-se no chão. Não conseguia andar mais.
De longe, as pessoas observavam. Estas coisas são mais fáceis à distância.
Hans Hubermann sentou-se junto dela.
Pousou a mão sobre a sua quando a mulher se deixou cair de costas no solo duro.

425

E deixou que os gritos dela enchessem a rua.

Muito mais tarde, Hans acompanhou-a, com uma solicitude dorida, até ao portão da entrada e para
dentro de casa. E por muito que eu tente ver as coisas de maneira diferente, não consigo...
Sempre que imagino a cena da mulher transtornada e do homem alto de olhos de prata, continua a
nevar na cozinha do 31 da Rua Himmel.

426

O OBREIRO DA GUERRA

Havia o cheiro de um caixão recém-cortado. Fatos pretos. Enormes bolsas debaixo dos olhos.
Liesel estava parada como os outros, de pé na relva. Nessa mesma tarde leu para Frau Holtzapfel O
Portador de Sonhos, o preferido da vizinha.
Foi, na realidade, um dia atarefado para todos.

27 DE JULHO DE 1943
Michael Holtzapfel foi enterrado e a rapariga
que roubava livros leu para a mãe enlutada.
Os aliados bombardearam Hamburgo — e por falar nisso,
é uma sorte que eu seja algo miraculosa. Mais ninguém
conseguiria transportar perto de quarenta e cinco mil
pessoas em tão pouco tempo. Nem num milhão
de anos humanos.

Os alemães estavam a começar a pagar a sério, nessa altura. Os pequenos joelhos cheios de
borbulhas do Führer estavam a começar a tremer.
Ainda assim, dou-lhe crédito numa coisa, a esse Führer.
Possuía, indiscutivelmente, uma vontade de ferro.
Não houve qualquer abrandamento em termos de prossecução da guerra, nem houve qualquer recuo
no extermínio e punição de uma praga judia. Embora a maioria dos campos se encontrasse
espalhada através da Europa, existiam ainda alguns na própria Alemanha.
Nesses campos, muitas pessoas continuavam a ser obrigadas a trabalhar e a caminhar.
Max Vandenburg era um desses judeus.

427

CAMINHO DE PALAVRAS

Aconteceu numa pequena cidade no coração da pátria de Hitler.


O fluxo de sofrimento era perfeitamente bombeado, e chegava agora mais uma pequena porção.
Havia judeus em marcha através dos arredores de Munique, e uma adolescente fez o impensável e
avançou para caminhar com eles. Quando os soldados a puxaram e atiraram ao chão, ela levantou-
se outra vez. Ela continuou.

A manhã estava cálida.


Mais um belo dia para uma parada.

Os soldados e os judeus atravessaram diversas cidades e começavam agora a chegar a Molching. E


possível que houvesse mais trabalho para fazer no campo, ou que vários prisioneiros tivessem
morrido. Fosse qual fosse a razão, uma nova fornada fresca de judeus exaustos estava a ser levada a
pé para Dachau.
Como sempre, Liesel correu para a Rua de Munique com o habitual grupo de espectadores. «Hei/
Hitler!»
Ela ouviu o primeiro soldado lá longe, ao cimo da rua, e dirígiu-se para ele através do aglomerado
para ir ao encontro da procissão. A voz surpreendia-a. Transformava o céu infindável num tecto
logo acima da sua cabeça, e as palavras ricocheteavam, aterrando algures no chão de claudicantes
pés judeus.
Os olhos deles.
Fitavam a rua que se movia, um por um, e quando Liesel encontrou um bom ponto de observação,
parou para os analisar. Percorreu rapidamente as filas, rosto após rosto, tentando fazê-los condizer
com o judeu que escrevera O Homem Debruçado e A Sacudidora de Palavras,

428

Cabelo semelhante a penas, pensou ela.


Não, cabelo semelhante a gravetos. E assim que ele fica quando não foi lavado. Procura cabelo
semelhante a gravetos e olhos nublados e uma barba áspera.

Céus, eram tantos.


Tantos conjuntos de olhos moribundos e pés arrastados.
Liesel perscrutou-os e não foi tanto o reconhecimento de feições que denunciou Max Vandenburg.
Foi a forma de agir da cara — também a examinar a multidão. Com uma concentração fixa. Liesel
deteve-se ao descobrir a única cara que olhava a direito para os espectadores alemães. Analisava-os
com tanta determinação que as pessoas em volta da rapariga que roubava livros repararam e
apontaram-no.
— Para onde é que ele está a olhar? — interrogou-se uma voz masculina ao lado dela.
A rapariga que roubava livros pôs um pé na rua. Nunca o movimento representara tanto esforço.
Nunca o coração estivera tão decidido e grande no seu peito de adolescente.
Ela avançou e respondeu serenamente: — Está à minha procura.

A voz esmoreceu e sumiu-se, no seu íntimo. Teve de voltar a encontrá-la, ir lá muito ao fundo para
aprender a falar outra vez e proferir o nome dele.
Max.

— Estou aqui, Max!


Mais alto.
— Max, estou aqui!

Ele ouviu-a.

MAX VANDENBURG, AGOSTO DE 1943


Havia gravetos de cabelo, tal como
Liesel pensara, e os olhos nublados
avançaram, de ombro em ombro
por cima dos outros judeus. Quando a alcançaram,
desculparam-se. A barba afagava-lhe a cara e a boca
tremeu-lhe ao pronunciar a palavra,
o nome, a rapariga.
Liesel.

429

Liesel libertou-se por completo da multidão e entrou na maré de judeus, avançando por entre eles
até conseguir agarrar-lhe o braço com a sua mão esquerda.
O rosto dele pousou nela.
Esticou-se quando ela tropeçou, e o judeu, o pérfido judeu, ajudou-a a endireitar-se. Precisou de
toda a sua força.
— Estou aqui, Max — repetiu ela. — Estou aqui.
— Não consigo acreditar... — As palavras pingavam da boca de Max Vandenburg. — Vejam só
como tu cresceste. — Havia nos seus olhos uma profunda tristeza. Marejaram-se. — Liesel... eles
apanharam-me há poucos meses. — Era uma voz mutilada mas arrastava-se na direcção dela. — A
meio caminho de Stuttgart.

Por dentro, a corrente de judeus era uma sombria catástrofe de braços e pernas. Fardas
esfarrapadas. Ainda nenhum soldado a vira, e Max avisou-a. — Tens de me largar, Liesel. —
Tentou mesmo empurrada, mas a rapariga era demasiado forte. Os braços famintos de Max não
conseguiram afastá-la, e ela continuou a andar no meio da imundice, da fome e da confusão.
Após uma longa linha de passos, o primeiro soldado reparou.
— Eh! — chamou ele. Apontou com o chicote. — Eh, pequena, o que é que estás a fazer? Fora daí.
Vendo que ela o ignorava completamente, o soldado usou o braço para separar a massa de gente.
Empurrou-os e avançou por entre eles. A sua figura agigantou-se por cima dela enquanto Liesel se
esforçava por prosseguir e notava a estranha expressão da cara de Max Vandenburg. Já o vira com
medo, mas nunca assim.
O soldado pegou nela.
As suas mãos puxaram-lhe brutalmente pela roupa.
Liesel sentia-lhe os ossos e os nós de cada um dos dedos. Rasgavam-lhe a carne. — Eu disse fora!
ordenou ele, e então arrastou a rapariga para o lado e atirou-a contra a muralha de assistentes
alemães. Estava a aquecer. O sol queimava-lhe a face. A rapariga aterrou estatelada e dorida, mas
ergueu-se de novo. Recompôs-se e esperou. Voltou a entrar.
Dessa vez, Liesel abriu caminho a partir de trás.
Lá à frente, conseguia avistar os característicos gravetos de cabelo e voltou a dirigir-se para eles.
Dessa vez, não estendeu a mão, estacou. Algures, dentro de si, encontravam-se as almas das
palavras. Subiram cá para fora e ficaram ao lado dela.

430

— Max — disse Liesel. Ele virou-se e fechou brevemente os olhos enquanto a rapariga prosseguia.
— Em tempos havia um estranho homem baixo — começou ela. Os braços caídos, mas as mãos
punhos cerrados de cada lado. — Mas havia igualmente uma sacudidora de palavras.

Um dos judeus a caminho de Dachau tinha agora parado de andar.


Permanecia absolutamente imóvel enquanto os outros se desviavam taciturnos, deixando-o
completamente isolado. Os seus olhos vacilaram, e foi tão simples. As palavras foram entregues
pela rapariga ao judeu. Escalaram-no.

Quando ela voltou a falar, as perguntas saíam-lhe aos soluços. Lágrimas escaldantes lutavam por
espaço nos seus olhos porque ela não as deixava sair. Era melhor manter-se resoluta e orgulhosa.
Deixar as palavras agirem. — «És realmente tu?, perguntou o jovem» — continuou ela. — «Foi da
tua face que colhi a semente?»

Max Vandenburg permaneceu de pé.


Não caiu de joelhos.
Pessoas e judeus e nuvens, todos pararam. Observavam.
De pé, Max olhou primeiro para a rapariga e depois fitou directamente o céu que estava descoberto
e azul e magnífico. Havia pesados raios — pranchas de sol — tombando aleatoriamente,
maravilhosamente, sobre a rua. As nuvens arquearam os dorsos para olhar para trás ao
recomeçarem a mover-se. — Está um dia tão belo — disse ele, com a voz em pedaços. Um óptimo
dia para morrer. Um óptimo dia para morrer, assim.
Liesel avançou para ele. Teve coragem suficiente para estender a mão e segurar-lhe a face barbuda.
— És realmente tu, Max?
Um dia alemão tão luminoso com a sua multidão atenta.
Ele deixou que a sua boca beijasse a palma dela. — Sim, Liesel, sou eu. — E apertou a mão da
rapariga contra a cara e chorou para os seus dedos. Chorava quando os soldados vieram e um
pequeno grupo de insolentes judeus parou a observar.
De pé, foi chicoteado.
— Max — a rapariga chorava.
Depois silêncio, enquanto ela era arrastada.
Max.
O pugilista judeu.
Intimamente, ela disse tudo aquilo.

431

Maxi Táxi. Era assim que aquele teu amigo te chamava em Stuttgart quando lutavam na rua,
lembras-te? Lembras-te, Max? Tu contaste-me. Eu lembro-me de tudo...
Esse eras tu, o rapaz de punhos rijos, e afirmaste que darias um murro na cara da morte quando ela
viesse buscar-te.
Lembras-te do homem de neve, Max?
Lembras-te?
Na cave?
Lembras-te da nuvem branca com o coração cinzento?
O Führer ainda vai lá abaixo à tua procura às vezes. Tem saudades tuas. Todos temos saudades tuas.
O chicote. O chicote.

Manejado pelo soldado, o chicote continuava. Aterrou na cara de Max. Retalhou-lhe o queixo e
golpeou-lhe a garganta.
Max caiu ao chão e o soldado virou-se então para a rapariga. Abriu a boca. Tinha dentes perfeitos.
Diante dos olhos de Liesel passou um relâmpago súbito. Recordou o dia em que desejara que Usa
Hermann ou pelo menos a fiável Rosa a esbofeteassem, mas nenhuma delas o fizera. Nesta ocasião,
não foi
defraudada.
O chicote fustigou-lhe a clavícula e atingiu-lhe o ombro.
— Liesel!
Ela conhecia essa pessoa.
Quando o soldado ergueu o braço, ela avistou Rudy Steiner, de aspecto transtornado, por entre os
intervalos da multidão. Chamava-a. Ela via-lhe o rosto torturado e o cabelo amarelo. — Liesel, sai
daí!
A rapariga que roubava livros não saiu.
Cerrou os olhos e aguentou o raio escaldante seguinte, e mais outro, até o seu corpo tombar no
pavimento tépido da rua. Aqueceu-lhe a face.
Chegaram mais palavras, desta vez vindas do soldado.
— Steh' auf.
A curta frase não era dirigida à rapariga mas ao judeu. Foi aperfeiçoada. — De pé, escória imunda,
cão judeu, de pé, de pé...

Max içou-se até ficar direito.


Só mais uma elevação, Max.
Só mais uma elevação no solo frio da cave.

Os seus pés moveram-se.


Arrastaram-se e ele prosseguiu.

432

As pernas vacilavam-lhe e as mãos limparam as marcas do chicote, esforçando-se pc r apaziguar o


ardor. Tentou procurar de novo Liesel, mas as mãos do soldado assentaram nos seus ombros
ensanguentados e empurraram.

O rapaz chegou. As suas pernas esgalgadas agacharam-se e ele gritou para a esquerda.
— Tommy, anda cá ajudar-me. Temos de a pôr de pé. Tommy, despacha-te! — Levantou a rapariga
que roubava livros por baixo dos braços. — Anda lá, Liesel, tens de sair da rua.
Quando ela conseguiu erguer-se, fitou os chocados alemães, de rostos petrificados, como que
acabados de sair da embalagem. Permitiu-se desfalecer a seus pés, mas apenas momentaneamente.
Um pedaço de erva riscou-lhe um fósforo na cara, no sítio em que tocou o solo. Deu--lhe um
piparote com o pulso, e queimou ambos os lados.
Muito mais para baixo da estrada, avistou as pernas e os calcanhares esfumados do último judeu
caminhante.

Tinha a cara a arder e uma dor persistente nos braços e nas pernas, um entorpecimento
simultaneamente doloroso e extenuante.
Ergueu-se, uma última vez.
Vacilante, começou a andar e depois a correr pela Rua de Munique abaixo, a reboque dos
derradeiros passos de Max Vandenburg.
— Liesel, o que é que estás a fazer?
Escapou à prisão das palavras de Rudy e ignorou as pessoas que observavam a seu lado. A maior
parte estava muda. Estátuas com corações pulsantes. Talvez assistentes na última etapa de uma
maratona. Liesel voltou a gritar e não foi ouvida. O cabelo caía-lhe sobre os olhos.
— Por favor, Max!
Ao cabo de uns trinta metros, precisamente quando um soldado se voltava, a rapariga foi derrubada.
Mãos agarraram-na fortemente por trás e o rapaz da casa ao lado prostrou-a. Obrigou-a a ajoelhar
na estrada e sofreu o castigo. Aceitou os murros dela como se fossem presentes. As suas mãos e
cotovelos ossudos foram recebidos apenas com alguns leves gemidos. Ele acumulou os sonoros
salpicos de saliva e lágrimas como se fossem carinhos no seu rosto e, o que era mais importante,
conseguiu submetê-la.

Na Rua de Munique, havia um rapaz e uma rapariga entrelaçados. Jaziam contorcidos e


desconfortáveis na estrada. Juntos, viram desaparecer os humanos. Viram-nos dissolver, como
pastilhas móveis no ar húmido.

433

CONFISSÕES
Depois de os judeus desaparecerem, Rudy e Liesel separaram-se e a rapariga que roubava livros
não falou. Não havia respostas para as perguntas de Rudy.
Liesel também não foi para casa. Dirigiu-se, desesperada, para a estação e esperou horas pelo seu
papá. Rudy fez-lhe companhia durante os primeiros vinte minutos, mas dado que Hans só
regressava daí a mais de meio dia, foi buscar Rosa. Pelo caminho, contou-lhe o que acontecera, e
Rosa ao chegar não perguntou nada à rapariga. Já reunira o puzzle e limitou-se a permanecer a seu
lado, acabando por a convencer a sentar-se. Esperaram juntas.
Quando o papá soube, deixou cair a saca, e deu pontapés para o ar na Bahnhof.
Nessa noite nenhum deles comeu. Os dedos do papá profanaram o acordeão, assassinando canção
atrás de canção, por mais que se esforçasse. Tudo deixara de funcionar.

Durante três dias a rapariga que roubava livros ficou de cama. Todas as manhãs e todas as tardes,
Rudy Steiner batia à porta e perguntava se ela continuava doente. A rapariga não estava doente.

No quarto dia, Liesel dirigiu-se à porta da frente do vizinho e perguntou se ele se importava de
voltar até às árvores com ela, ao sítio onde haviam distribuído o pão no ano anterior.
— Eu já te devia ter contado — admitiu ela.

Como prometido, afastaram-se bastante ao longo da estrada que conduzia a Dachau. Pararam nas
árvores. Alongavam-se formas de luz e sombra. Havia pinhas espalhadas como biscoitos.
Obrigada, Rudy.

434
Por tudo. Por me teres ajudado a sair da rua, por me teres impedido...
Liesel não disse nada disto.
Pousou a mão num ramo lascado junto de si. — Rudy, se eu te contar uma coisa, prometes não
dizer nada a ninguém?
— Claro. — Ele sentia a gravidade na cara da rapariga e a opressão na sua voz. Apoiou-se à árvore
ao lado dela. — O que é?
— Promete.
— Já prometi.
— Promete outra vez. Não podes contar à tua mãe, nem ao teu
irmão, nem ao Tommy Müller. A ninguém.
— Prometo. Encostado.
A olhar para o chão.
Ela tentou várias vezes encontrar o sítio certo para começar, lendo frases a seus pés, juntando
palavras às pinhas e pedaços de ramos quebrados.
— Lembras-te de quando eu me magoei a jogar futebol lá na rua?
— perguntou Liesel.
Demorou aproximadamente três quartos de hora a explicar duas guerras, um acordeão, um pugilista
judeu e uma cave. Sem esquecer o que acontecera quatro dias antes, na Rua de Munique.
— Foi por isso que quiseste ir olhar mais de perto — comentou Rudy — naquele dia com o pão.
Para ver se ele lá estava.
— Sim.
— Cristo crucificado.
— Sim.

As árvores eram altas e triangulares. Estavam imóveis.


Liesel tirou A Sacudidora de Palavras da sua saca e mostrou uma das páginas a Rudy. Havia nela
um rapaz com três medalhas penduradas em volta do pescoço.
— «Cabelo da cor de limões» — leu Rudy. Os seus dedos tocaram nas palavras. — Falaste-lhe de
mim?
A princípio, Liesel não conseguiu falar. Talvez fosse a súbita pancada de amor que sentiu por ele.
Ou tê-lo-ia amado sempre? E provável. Impossibilitada de falar, desejou que ele a beijasse. Desejou
que ele lhe pegasse na mão e a puxasse para si. Não interessava onde. Na boca, no pescoço, na face.
A sua pele estava vaga para isso, à espera.

435

Anos antes, quando tinham corrido num campo lamacento, Rudy era um conjunto de ossos
reunidos à pressa, com um sorriso irregular e dentes sólidos. Nessa tarde, nas árvores, era um dador
de pão e ursos de pelúcia. Era um triplo campeão atlético da Juventude Hitleriana. Era o melhor
amigo dela. E era um rapaz a um mês da sua morte.
— É claro que lhe falei de ti — anuiu Liesel.
Estava a dizer-lhe adeus e nem ao menos o sabia.

436

O PEQUENO LIVRO PRETO DE ILSA HERMANN

Em meados de Agosto, ela pensou ir até ao 8 da Grande Strasse à procura do mesmo velho
remédio. Para se animar. Foi o que ela pensou.
O dia estivera quente, mas previam-se aguaceiros para o fim da tarde. Em O Último Estranho
Humano, havia uma citação perto do fim. Liesel recordou-a ao passar pela loja de Frau Diller.

O ÚLTIMO ESTRANHO HUMANO PÁGINA 211


O sol coze a terra. Por todos os lados,
ele coze-nos, como um guisado.

Na altura, Liesel só se lembrou disso por o dia estar tão quente.


Na Rua de Munique, evocou os acontecimentos da semana anterior. Viu os judeus a descerem a rua,
o seu caudal, e os números, e a dor. Decidiu que faltava uma palavra na sua citação.
A palavra é um horrendo guisado, pensou ela.
É tão horrendo que não consigo aguentar.

Liesel atravessou a ponte sobre o rio Amper. A água estava de um glorioso verde-esmeralda
brilhante. Via as pedras do fundo e ouvia a familiar canção da água. O mundo não merecia um tal
rio.
Escalou a colina até à Grande Strasse. As casas eram encantadoras e odiosas. Soube-lhe bem a
pontada de dor nas pernas e nos pulmões. Anda mais depressa, pensou, e começou a subir, como
um monstro a surgir da areia. Cheirou a relva da vizinhança. Era fresca e macia, verde com pontas
amarelas. Atravessou o pátio sem voltar uma única vez a cabeça, nem fazer a mais pequena pausa
de paranóia.

437

A janela.
Mãos no parapeito, golpe de pernas.
Pés a aterrarem.
Livros e páginas e um lugar feliz.

Tirou um livro da prateleira e sentou-se no chão com ele.


Ela estará em casa?, perguntou-se. Mas tanto lhe fazia que Ilsa Hermann estivesse a cortar batatas
na cozinha como na fila dos correios. Ou de pé, como um fantasma debruçado sobre ela, a
examinar o que a rapariga lia.
A rapariga deixara simplesmente de se importar.
Durante muito tempo ficou ali sentada a ver.
Vira o irmão morrer com um olho aberto, e o outro ainda em sonhos. Despedira-se da mãe e
imaginara a sua solitária espera por um comboio de volta a casa e ao esquecimento. Uma mulher de
arame deixara-se cair, com o seu grito a percorrer a rua, até tombar para o lado como uma moeda a
rolar que perdeu o impulso. Um jovem enforcara-se numa corda feita de neve de Estalinegrado.
Vira um piloto de bombardeiro morrer numa caixa metálica. Vira um judeu, que por duas vezes lhe
oferecera as mais belas páginas da sua vida, marchar para um campo de concentração. E no centro
de tudo isso, viu o Führer a gritar as suas palavras e a passá-las em volta.
Essas imagens eram o mundo, que cozia nela a fogo lento enquanto se sentava com os livros
encantadores e os seus títulos esmerados. Fermentava nela enquanto olhava as páginas entulhadas
até às pontas de parágrafos e palavras.
Sacanas, pensou ela.
Adoráveis sacanas.
Não me façam feliz. Por favor, não me saciem nem me deixem pensar que pode sair daqui alguma
coisa de bom. Olhem para as minhas feridas. Olhem para esta esfoladela. Vêem a esfoladela no
meu íntimo? Vêem-na aumentar a olhos vistos, a corroer-me? Não quero ter esperança de mais
nada. Não quero rezar para que Max esteja vivo e a salvo. Nem Alex Steiner.
Porque o mundo não os merece.

Arrancou uma página do livro e rasgou-a ao meio.


Depois um capítulo.
Em breve havia apenas farrapos de palavras espalhados entre as suas pernas e a toda a sua volta. As
palavras. Por que haviam elas de existir? Sem elas não haveria nada disto. Sem palavra o Fuhrer
não era nada.

438

Não haveria prisioneiros a coxear, nem necessidade de consolo ou truques mundanos para nos fazer
sentir melhor.
Para que prestavam as palavras?
Disse-o em voz audível, para a sala banhada numa claridade alaranjada. — Para que prestam as
palavras?

A rapariga que roubava livros ergueu-se e dirigiu-se cautelosamente para a porta da biblioteca. Esta
protestou pouco e sem convicção. O vestíbulo arejado achava-se impregnado de um vazio
inexpressivo.
— Frau Hermann?
A pergunta foi-lhe devolvida e tentou novo surto até à porta da rua. Não passou de meio caminho, e
foi aterrar combalida num gordo par de tábuas de soalho.
— Frau Hermann?
Os chamamentos eram acolhidos apenas pelo silêncio, e Liesel sentiu-se tentada a procurar a
cozinha, por causa de Rudy. Absteve-se. Não lhe assentaria bem roubar comida a uma mulher que
lhe tinha deixado um dicionário encostado a uma janela. Além disso, acabara de destruir um dos
livros dela, página a página, capítulo a capítulo. Já fizera bastantes estragos.
Regressou à biblioteca e abriu uma das gavetas da secretária. Sentou-se.

A ÚLTIMA CARTA
Cara Frau Hermann,
Como pode ver, estive uma vez mais na sua biblioteca e estraguei um dos seus livros. Foi só porque
estava tão zangada e com tanto medo que desejei matar as palavras. Tenho vindo a roubá-la e agora
destruí bens seus. Lamento. Para me castigar, acho que deixarei de cá vir. Ou será que isso não é
castigo? Eu amo e odeio este lugar, porque está cheio de palavras.
A senhora foi minha amiga apesar de eu a ter magoado, apesar de eu ter sido insuportável (uma
palavra que procurei no seu dicionário), e penso que a deixarei em paz agora. Peço desculpa por
tudo.
Mais uma vez, obrigada.
Liesel Meminger

Deixou a nota em cima da secretária e disse um derradeiro adeus à sala, dando três voltas e
passando as mãos pelos títulos. Por muito que os odiasse, não conseguia resistir.

439
Havia flocos de páginas rasgadas espalhados em redor de um livro chamado As Regras de Tommy
Hoffmann. Alguns farrapos ergueram-se e voltaram a cair, soprados pela brisa que chegou da
janela.
A luz continuava alaranjada, mas não tão brilhante como anteriormente. As mãos fecharam-se pela
última vez no caixilho de madeira da janela, e houve o derradeiro mergulho de um estômago e a
pontada de dor nos pés ao aterrar.
Quando chegou à base da colina e atravessou a ponte, a luz alaranjada desaparecera. Amontoavam-
se nuvens.
Ao descer a Rua Himmel sentiu os primeiros pingos de chuva. Nunca mais verei Ilsa Hermann,
pensou ela; mas a rapariga que roubava livros era melhor a ler e a estragar livros do que a fazer
suposições.

TRÊS DIAS DEPOIS


A mulher bateu no número trinta
e três e espera uma resposta.

Liesel achava estranho vê-la sem o roupão. O vestido de Verão era amarelo debruado a vermelho.
Tinha um bolso com uma pequena flor. Nada de suásticas. Sapatos pretos. Ela nunca reparara nas
canelas de Usa Hermann. Tinha pernas de porcelana.
— Frau Hermann, lamento muito... o que fiz da última vez na biblioteca.
A mulher sossegou-a. Procurou na mala e tirou um pequeno livro preto. Lá dentro havia não uma
história, mas papel pautado. — Pensei que, se não vais ler mais nenhum dos meus livros, talvez
gostasses de escrever um. A tua carta era... — Estendeu o livro a Liesel com as duas mãos. —
Sabes seguramente escrever. Escreves bem. — O livro era pesado, a capa tecida como a de 0
Encolher de Ombros. — E, por favor — aconselhou-a Ilsa Hermann —, não te castigues como
disseste que farias. Não sejas como eu, Liesel.
A rapariga abriu o livro e tocou no papel. — Danke schön, Frau Hermann. Posso fazer-lhe café, se
gostar. Não quer entrar? Estou sozinha em casa. A minha mãe foi aqui ao lado, a casa de Frau
Holtzapfel.
— Usamos a porta ou a janela?
Liesel desconfiou que aquele era o sorriso mais rasgado que Ilsa Hermann se permitia desde há
anos. — Acho que vamos usar a porta. E mais fácil.
Sentaram-se na cozinha.

440

Canecas com café e pão com compota. Tiveram de fazer um esforço para falar e Liesel ouviu Ilsa
Hermann engolir em seco, mas apesar disso não se sentiram constrangidas. Foi mesmo agradável
ver a mulher soprar suavemente o café para o arrefecer.
— Se eu chegar a escrever alguma coisa e a terminar — prometeu Liesel — vou lá mostrar-lhe.
— Gostaria muito.

Quando a mulher do presidente da câmara partiu, Liesel ficou a vê-la subir a Rua Himmel. Ficou a
ver o vestido amarelo e os sapatos pretos e as pernas de porcelana.
Da caixa do correio, Rudy perguntou: — Aquela era quem eu penso?
— Era.
— Estás a gozar.
— Deu-me um presente.
Acontece que Ilsa Hermann não deu apenas um livro a Liesel Meminger nesse dia. Deu-lhe
igualmente uma razão para passar tempo na cave, o seu lugar preferido, primeiro com o papá,
depois com Max. Deu-lhe uma razão para escrever as suas próprias palavras, para ver que as
palavras também a tinham feito viver.
«Não te castigues», ouviu-a Liesel dizer de novo. Mas haveria castigo e dor, e haveria também
felicidade. Escrever era isso.

À noite, depois de a mãe e o papá adormecerem, Liesel esgueirou-se para a cave e acendeu o
candeeiro de querosene. Durante a primeira hora, limitou-se a contemplar o lápis e o papel.
Obrigou-se a recordar e, como era seu hábito, não desviou os olhos.
— Schreibe — ordenou ela a si mesma. — Escreve.
Após mais de duas horas, Liesel Meminger começou a escrever, sem saber como iria conseguir
fazer aquilo. Como poderia ela saber que alguém apanharia a sua história e a levaria consigo para
toda a parte?
Ninguém espera estas coisas.
Não são planeadas.

Liesel usou uma lata de tinta pequena como assento, uma grande como mesa, e pousou o lápis na
primeira página. A meio, escreveu o seguinte:

A RAPARIGA QUE ROUBAVA LIVROS


Uma pequena história de Liesel Meminger

441

OS AVIÕES BOJUDOS

Ao chegar à página três sentia a mão dorida.


As palavras eram tão pesadas, pensou ela, mas à medida que a noite foi passando, conseguiu
completar onze páginas.

PÁGINA 1
Esforço-me por o ignorar, mas sei que
tudo isto começou com o comboio e a neve e o
meu irmão a tossir. Roubei o meu primeiro livro nesse
dia. Era um manual para cavar sepulturas e
roubei-o a caminho da Rua Himmel...

Adormeceu lá em baixo, numa cama de lençóis-de-pingos, com o papel a enrolar nas pontas, em
cima da lata de tinta mais alta. De manhã, a mãe debruçou-se sobre ela, uma interrogação nos olhos
deslavados.
— Liesel — perguntou ela —, que raio estás tu a fazer aqui?
— Estou a escrever, mãe.
— Jesus, Maria e José. — Rosa voltou a subir pesadamente os degraus. — Tens cinco minutos para
te pores cá em cima ou apanhas com o tratamento do balde. Verstehst?
— Percebo.

Todas as noites Liesel descia à cave. Conservava permanentemente o livro com ela. Escrevia
durante horas, tentando completar dez páginas da sua vida em cada noite. Havia tanto a considerar,
tantas coisas em risco de ficarem de fora. Sê paciente, disse ela a si mesma, e com o aumentar das
páginas, crescia a firmeza do pulso que escrevia.
Por vezes, ela escrevia acerca do que se estava a passar na cave nessa altura.

442

Acabara de descrever o momento em que o papá a esbofeteara nos degraus da igreja e o «heil
Hitler» que haviam proferido em conjunto. Do outro lado, Hans Hubermann arrumava o acordeão.
Tocara durante meia hora enquanto Liesel escrevia.

PÁGINA 42
O papá fez-me companhia esta noite. Trouxe o
acordeão para baixo e sentou-se perto do sítio onde Max
costumava sentar-se. Olho frequentemente para os dedos e
a cara dele enquanto toca. O acordeão respira.
As faces dele têm vincos. Parecem ter sido desenhados e, nem
eu sei porquê, ao vê-los sinto vontade de chorar. Não é
tristeza nem orgulho. Gosto simplesmente da maneira como
eles se movem e modificam. Às vezes penso que o meu papá é
um acordeão. Quando ele olha para mim e sorri
e respira, eu ouço as notas.

Após dez noites de escrita, Munique foi novamente bombardeada. Liesel ia na página cento e dois e
adormecera na cave. Não ouviu o cuco nem as sirenes, e segurava o livro mesmo a dormir quando o
papá a foi acordar. — Liesel, anda. — Ela pegou em A Rapariga Que Roubava Livros e em todos os
seus outros livros, e foram buscar Frau Holtzapfel.

PÁGINA 175
Um livro flutuava rio Amper abaixo.
Um rapaz saltou lá para dentro, alcançou-o e pegou-lhe
com a mão direita. Fez uma careta sorridente. Estava
mergulhado até à cintura na água gélida de Dezembro.
«Que tal um beijo, Saumensch?», disse ele.

Por altura do ataque seguinte, a 2 de Outubro, ela terminara. Apenas meia dúzia de páginas
permanecia em branco e a rapariga que roubava livros estava já a começar a reler aquilo que
escrevera. O livro achava-se dividido em dez partes, cada uma das quais recebera o título de livros
ou histórias, e descrevia a maneira como estes haviam afectado a sua vida.
Pergunto-me frequentemente em que página iria ela quando eu desci a Rua Himmel Sob a chuva
miudinha, cinco noites mais tarde. Pergunto-me o que estaria ela a ler quando a primeira bomba
caiu do bojo de um avião.
Pessoalmente, gosto de a imaginar lançando um breve olhar à parede, à nuvem esticada de Max
Vandenburg, ao seu sol gotejante, e às figuras que avançam para ele.

443

Depois, ela contempla os tormentosos esforços pintados da sua aprendizagem. Vejo o Führer a
descer os degraus da cave, com as suas luvas de boxe atadas uma à outra e negligentemente
penduradas ao pescoço. E a rapariga que roubava livros lê, relê e volta a reler a sua última frase,
durante muitas horas.
A RAPARIGA QUE ROUBAVA LIVROS
— ÚLTIMA LINHA
Odiei as palavras e
amei-as, e espero tê-las apreendido correctamente.

Lá fora, o mundo assobiava. A chuva caía tingida.

444

O FIM DO MUNDO (PARTE II)

Quase todas as palavras estão agora desvanecidas. O livro preto tem vindo a desintegrar-se sob o
peso das minhas viagens. Essa é outra razão para contar esta história. O que dissemos nós antes?
Digam uma coisa vezes suficientes e nunca a esquecerão. Além disso, eu posso contar-lhes o que
aconteceu depois de as palavras da rapariga que roubava livros terem cessado, e como tive
conhecimento da história dela. Foi assim.

Imaginem-se a descer a Rua Himmel no escuro. Têm o cabelo a ficar húmido e a pressão
atmosférica está prestes a mudar drasticamente. A primeira bomba atinge o bloco de apartamentos
de Tommy Müller. O seu rosto adormecido contrai-se num tique inocente e eu ajoelho junto à cama.
A seguir, a irmã. Os pés de Kristina espreitam debaixo do cobertor. Condizem com as pegadas do
jogo da macaca deixadas na rua. Os dedos pequeninos. A mãe dorme a poucos metros. Há quatro
cigarros desfigurados no seu cinzeiro, e o tecto destelhado é de um vermelho incandescente. A Rua
Himmel está em chamas.

As sirenes começam a uivar.


— Agora é demasiado tarde para esse pequeno exercício — sussurrei eu. Porque todos haviam sido
iludidos, uma e outra vez. Primeiro, os aliados tinham simulado um bombardeamento a Munique a
fim de atacarem em Stuttgart. Mas depois, haviam ficado dez aviões. Oh, houve avisos, claro. A
Molching, estes chegaram juntamente com as bombas.

UMA CHAMADA DE RUAS


Munique, Ellenberg, Johannson, Himmel.
A rua principal + três outras,
na parte mais pobre da cidade.

445

No espaço de poucos minutos, todas elas tinham desaparecido.


Uma igreja arrasada.
A terra ficou destruída onde Max Vandenburg se mantivera de pé.

No 31 da Rua Himmel, Frau Holtzapfel parecia estar à minha espera na cozinha. Havia uma
chávena partida diante dela, e num derradeiro momento de consciência, a sua cara parecia
perguntar por que diabo levara eu tanto tempo.
Em compensação, Frau Diller dormia profundamente. Os seus óculos à prova de bala achavam-se
estilhaçados ao lado da cama. A loja foi obliterada, o balcão aterrou do outro lado da rua, e a
fotografia de Hitler foi arrancada da parede e atirada ao chão. O homem foi positivamente agredido
e espancado até ficar reduzido a uma massa de vidros partidos. Pisei-o a caminho da saída.
Os Fiedler estavam em boa ordem, todos na cama, todos tapados. Pfiffikus estava oculto até ao
nariz.
Em casa dos Steiner, passei os dedos pelo cabelo bem escovado de Barbara, apaguei o ar grave da
grave cara adormecida de Kurt e, um por um, dei um beijo de boas-noites aos mais pequenos.
Depois Rudy.

Oh, Cristo crucificado, Rudy...

Encontrei-o deitado com uma das irmãs. Ela devia ter-lhe dado pontapés ou empurrara-o até ocupar
a maioria do espaço da cama, porque ele ficara mesmo à beirinha, com o braço por cima dela. O
rapaz dormia. O seu cabelo brilhante iluminava o leito, e eu peguei nele e em Bettina com as suas
almas ainda no cobertor. Quanto mais não seja, morreram depressa e estavam quentes. O rapaz do
avião, pensei eu. O do urso de pelúcia. Onde estava o conforto de Rudy? Onde estava alguém que
aliviasse este roubo da sua vida? Quem estava lá para o acalmar quando o tapete da vida lhe foi
puxado de baixo dos pés adormecidos?
Ninguém.
Estava só eu.
E eu não sou lá muito boa nessa coisa de confortar, especialmente porque as minhas mãos são frias
e a cama está quente. Transportei-o suavemente através da rua devastada, com o olhar choroso e o
coração pesado, mortal. Com ele, esforcei-me um pouco mais. Observei por instantes o conteúdo da
sua alma e vi um rapaz pintado de negro gritando o nome Jesse Owens enquanto co ria por um
filme imaginário.

446

Vi-o mergulhado até às ancas em água gelada, perseguindo um livro, e vi um rapaz estendido na
cama, imaginando o sabor de um beijo da sua fantástica vizinha do lado. Ele afecta-me, este rapaz.
De todas as vezes. É a única coisa que há a dizer em seu desabono. Ele pisa-me o coração. Ele faz-
me chorar.

Finalmente, os Hubermann.
Hans.
Papá.
Via-se-lhe a altura mesmo estendido e eu consegui distinguir a prata através das pálpebras. A sua
alma endireitou-se. Veio ao meu encontro. E sempre assim com esse tipo de almas — as melhores.
As que se erguem e dizem: «Sei quem tu és e estou pronta. Não que deseje ir, claro, mas vou.»
Essas almas são sempre leves porque grande parte já foi expelida. Grande parte já encontrou o seu
caminho para outros lugares. Esta saiu com o bafo de um acordeão, o gosto singular de champanhe
no Verão, e a arte de cumprir uma promessa. Ele deitou--se nos meus braços e descansou. Os
pulmões ansiavam por um derradeiro cigarro e havia uma imensa atracção magnética na direcção
da cave, da rapariga que era sua filha e estava lá em baixo a escrever um livro que ele esperara ler
um dia.
Liesel.
A sua alma murmurou o nome enquanto eu o levava. Mas não havia nenhuma Liesel naquela casa.
Para mim, pelo menos.
Para mim, havia apenas uma Rosa, e sim, creio realmente que lhe peguei em pleno ressonar, pois a
sua boca estava aberta e os seus lábios de papiro rosado esboçavam ainda o gesto de se moverem.
Se ela me tivesse visto, estou certa de que me teria chamado Saumensch, embora eu não tivesse
levado a mal. Após a leitura de A Rapariga Que Roubava Livros, descobri que ela chamava isso a
toda a gente. Saukerl. Saumensch. Principalmente às pessoas que amava. Tinha o cabelo elástico
solto. Roçava na almofada e o seu corpo atarracado erguera-se com as batidas do coração. Porque,
não há dúvida, aquela mulher tinha coração. Maior do que poderia pensar-se. Havia lá muita coisa
armazenada, acumulada em quilómetros de prateleiras ocultas. Lembrem-se de que ela era a mulher
do acordeão preso ao corpo durante a longa noite riscada por uma fresta de luar. Era a que
alimentara um judeu sem fazer perguntas durante a primeira noite de um homem em Molching. E
era a que enfiara o braço, bem fundo, num colchão, para entregar um livro de esboços a uma
adolescente.

447

A ULTIMA CASUALIDADE
Andei de rua em rua e voltei
para ir buscar um único homem
chamado Schultz ao fundo da Himmel.

Ele não conseguiu aguentar-se no interior da casa desmoronada, e eu subia a Rua Himmel com a
sua alma quando reparei no homem do LSE aos gritos e a rir.
Havia um pequeno vale na cordilheira de escombros.
O céu escaldante estava rubro e a mudar. Começavam a rodopiar faixas cor de pimenta e eu senti-
me curiosa. Sim, sim, sei o que lhes disse ao princípio. Em geral a curiosidade leva-me a ser
testemunha constrangida de algum protesto humano, mas nesta ocasião, tenho de confessar que,
embora se me partisse o coração, senti-me, e ainda sinto, satisfeita por lá estar.

Quando a puxaram para fora, é verdade que ela começou a chorar e a gritar por Hans Hubermann.
Os homens do LSE tentaram conservá-la nos seus braços poeirentos, mas a rapariga que roubava
livros conseguiu desprender-se. Os humanos desesperados parecem frequentemente capazes de tal.
Ela não sabia para onde corria, pois a Rua Himmel deixara de existir. Era tudo novo e apocalíptico.
Por que estava o céu vermelho? Como podia estar a nevar? E por que era que os flocos de neve lhe
queimavam os braços?
Liesel abrandou para um passo vacilante e concentrou-se no que havia à sua frente.
Onde está a loja de Frau Diller?, pensou ela. Onde está...
Vagueou um pouco mais até o homem que a tinha encontrado lhe pegar no braço e começar a falar.
— Estás em choque, pequena. E apenas o choque; vais ficar bem.
— O que aconteceu? — perguntou Liesel. — Isto ainda é a Rua Himmel?
— Sim. — O homem tinha olhos de desapontamento. O que não vira ele naqueles últimos anos?
— Isto é a Himmel. Foram bombardeados, pequena. Es tut mir leid, Schatzi. Tenho muita pena,
querida.
A boca da rapariga continuou a vaguear, apesar de o corpo se manter agora imóvel. Esquecera os
seus anteriores gritos por Hans Hubermann. Isso fora há muitos anos: um bombardeamento tem
esse efeito. Pediu:
— Temos de ir buscar o meu papá, a minha mãe. Temos de tirar o Max da cave. Se ele lá não
estiver, está no vestíbulo, a espreitar pela janela.

448

Às vezes faz isso quando há um ataque aéreo — não são muitas as vezes em que consegue ver o
céu, percebem. Tenho de lhe dizer como está o tempo agora. Ele nem vai acreditar...
O corpo vergou nessa altura e o homem do LSE segurou-a e sentou-a no chão. — Levamo-la daqui
a um minuto — disse ele para o seu sargento. A rapariga que roubava livros olhou para o que lhe
pesava na mão e a magoava.
O livro.
As palavras.
Tinha os dedos em sangue, tal como no dia em que ali chegara.

O homem do LSE ergueu-a e começou a afastá-la dali. Havia uma colher de pau a arder. Passou por
eles um homem com um estojo de acordeão e Liesel viu o instrumento lá dentro. Viu-lhe os dentes
brancos e as notas pretas intercaladas. Sorriram para ela e despoletaram um alerta para a sua
realidade. Fomos bombardeados, pensou ela, e virando--se para o homem a seu lado, disse: —
Aquilo é o acordeão do meu papá. — E repetiu. — Aquilo é o acordeão do meu papá.
— Não te preocupes, pequena, estás salva; anda só mais um pouco.
Mas Liesel não foi.
Observou para onde o homem levava o acordeão e seguiu-o. Com o céu rubro ainda a derramar as
suas belas cinzas, deteve o trabalhador alto do LSE e sugeriu: — Eu levo isso, se quiser, é do meu
papá. — Docemente, tirou-o das mãos do homem e começou a afastar-se com ele. Foi precisamente
nesse instante que ela avistou o primeiro corpo.
O estojo do acordeão soltou-se do seu pulso. O som de uma explosão.
Frau Holtzapfel jazia dilacerada no solo.

OS DOZE SEGUNDOS SEGUINTES DA VIDA DE LIESEL MEMINGER


Ela dá meia-volta e olha até onde
a sua vista alcança para aquele canal arruinado
que foi em tempos a Rua Himmel. Vê dois
homens a transportar um corpo e segue-os.

Ao ver os outros, Liesel tossiu. Escutou brevemente enquanto um homem contava aos outros que
tinham encontrado um dos corpos em pedaços, num dos aceres.

449

Havia pijamas chocados e rostos desfeitos. Foi o cabelo do rapaz que ela viu primeiro.

Rudy?

Depois fez mais do que articular a palavra. — Rudy?


Jazia com o seu cabelo amarelo e os olhos fechados, e a rapariga que roubava livros correu para ele
e prostrou-se. Deixou cair o livro preto.
— Rudy — soluçou ela —, acorda... — Agarrou-o pela camisa e deu-lhe uma levíssima sacudidela
de incredulidade. — Acorda, Rudy —, e agora, enquanto o céu continuava a aquecer e a derramar
cinzas, Liesel segurava a frente da camisa de Rudy Steiner. — Rudy, por favor. — As lágrimas
disputavam o seu rosto. — Rudy, por favor, acorda, raios, acorda, eu amo-te. Vá lá, Rudy, vá lá,
Jesse Owens, não sabes que eu te amo, acorda, acorda, acorda... Mas nada fazia caso.
O entulho aumentava. Colinas de cimento com bonés vermelhos. Uma bonita rapariga sulcada de
lágrimas, abanando os mortos.
— Vá lá, Jesse Owens... Mas o rapaz não acordava.
Incrédula, Liesel enterrou a cabeça no peito de Rudy. Segurou-lhe o corpo flácido, tentando evitar
que descaísse para trás, até se ver obrigada a devolvê-lo ao solo retalhado. Fê-lo suavemente.
Devagar. Devagar.
— Céus, Rudy...
Debruçou-se e, fitando o rosto exangue, Liesel beijou meigamente os lábios do seu melhor amigo,
Rudy Steiner. Sabia a pó e a doce. Sabia a arrependimento à sombra das árvores e ao fulgor da
colecção de fatos do anarquista. Beijou-o longa e docemente e, quando se afastou, tocou--lhe na
boca com os dedos. Tinha as mãos a tremer, os lábios em carne viva, e inclinou-se de novo, mas
desta vez descontrolou-se e calculou mal. No mundo demolido da Rua Himmel, os seus dentes
colidiram.
Não disse adeus. Foi incapaz, e após mais alguns minutos ao lado dele, conseguiu arrancar-se do
chão. Surpreende-me aquilo de que os humanos são capazes, mesmo quando lhes correm rios pelas
faces e eles avançam cambaleantes, a tossir, a procurar, e a encontrar.

A DESCOBERTA SEGUINTE
Os corpos da mãe e do papá,
ambos jazendo enredados no lençol
de entulho da Rua Himmel.

450

Liesel não correu, não andou, nem sequer se moveu. Os seus olhos tinham esquadrinhado os
humanos e detiveram-se enevoados ao depararem com o homem alto e a mulher baixa e
entroncada. Aquela é a minha mãe. Aquele é o meu papá. As palavras cravaram-se nela.
— Eles não se mexem — murmurou ela. — Eles não se mexem.
Talvez se ela se mantivesse imóvel durante tempo suficiente, fossem eles que se movessem, mas
eles permaneceram estáticos o mesmo tempo que Liesel. Apercebi-me então de que ela não trazia
sapatos. Que coisa estranha para reparar nessa altura. Talvez eu me esforçasse por evitar olhar-lhe
para a cara, pois a rapariga que roubava livros estava realmente uma desgraça irreparável.
Ela deu um passo e eu não queria aguentar mais, mas ela aguentou. Lentamente, Liesel dirigiu-se à
sua mãe e ao seu papá e sentou-se entre eles. Pegou na mão da mãe e começou a falar com ela. —
Lembra-se de quando eu para cá vim, mãe? Agarrei-me ao portão a chorar. Lembra-se do que disse
para todos os que estavam na rua nesse dia?
— Aqui a voz tremeu-lhe. — Disse: «Para onde estão vocês a olhar, seus bardamerdas?» —
Levantou a mão da mãe e tocou-lhe no pulso.
— Mãe, eu sei que... gostei quando veio à escola dizer-me que o Max tinha acordado. Sabia que eu
a vi com o acordeão do papá? — Apertou com mais força a mão que começava a ficar hirta. —
Fiquei a vê-la e estava linda. Raios, era tão linda, mãe.

MUITOS MOMENTOS DE ABSTENÇÃO


O papá. Ela não queria, e não
conseguia, olhar para o papá.
Ainda não. Já não.

O papá era um homem que tinha olhos de prata, não olhos mortos.
O papá era um acordeão!
Mas os seus foles estavam vazios.
Nada entrava e nada saía.

Começou a balouçar-se para trás e para a frente. Havia uma nota estridula, muda, a espalhar-se,
presa algures na sua garganta, até que finalmente ela conseguiu virar-se.
Para o papá.
Nessa altura, eu não consegui resistir. Rodeei-os para a ver melhor, e desde o momento em que
voltei a avistar a sua cara, percebi que este fora quem ela mais amara.

451

A sua expressão acariciou o rosto do homem. Seguiu um dos vincos face abaixo. Ele sentara-se na
casa de banho com ela e ensinara-lhe a enrolar um cigarro. Ele dera pão a um homem morto na Rua
de Munique e dissera à rapariga para continuar a ler no abrigo antiaéreo. Talvez se o não tivesse
feito, ela não tivesse acabado a escrever na cave.
O papá, o acordeonista, e a Rua Himmel.
Um não podia existir sem o outro, porque, para Liesel, ambos eram o lar. Sim, é isso que Hans
Hubermann era para Liesel Meminger. Ela virou-se e dirigiu-se ao LSE.
— Por favor, o acordeão do meu papá — pediu. — Podia ir buscá-lo?
Após alguns minutos de confusão, um membro mais velho trouxe o estojo dentado e Liesel abriu-o.
Retirou o instrumento ferido e pousou-o ao lado do corpo do papá. — Pronto, papá.
E posso garantir-lhes uma coisa, porque foi uma coisa que eu presenciei muitos anos mais tarde —
uma visão na própria rapariga que roubava livros —, é que ao ajoelhar junto de Hans Hubermann,
ela viu-o erguer-se e tocar o acordeão. Ele levantou-se e prendeu-o nos cumes de casas destruídas e
tocou o acordeão com bondosos olhos de prata e mesmo com um cigarro entalado entre os lábios.
Enganou-se até, e soltou uma risada encantadora ao aperceber-se disso. Os foles respiravam e o
homem alto tocou para Liesel Meminger uma última vez enquanto o céu começava lentamente a
sair do forno. Continua a tocar, papá. O papá parou.
Deixou cair o acordeão e os seus olhos de prata continuaram a enferrujar. Agora havia apenas um
corpo, no chão, e Liesel soergueu-o e abraçou-o. E chorou sobre o ombro de Hans Hubermann.
— Adeus, papá, foi o papá que me salvou. Ensinou-me a ler. Ninguém toca como o papá. Eu nunca
beberei champanhe. Ninguém toca como o papá.
Os braços dela retinham-no. Beijou-lhe o ombro — já não conseguia olhar mais para a sua cara —
e pousou-o de novo.
A rapariga que roubava livros chorou até ser suavemente afastada dali.

Mais tarde, eles recordaram-se do acordeão, mas ninguém reparou no livro.


Havia muito trabalho a fazer e, juntamente com uma série de outros materiais, A Rapariga Que
Roubava Livros foi pisado diversas vezes e finalmente apanhado sem um relance sequer e atirado
para um carro de lixo.

452

Mesmo antes de o carro arrancar, eu subi rapidamente e tomei-o na minha mão...


Felizmente, eu estava lá.
Mas também, quem pretendo eu enganar? Eu estou na maioria dos lugares pelo menos uma vez, e
em 1943, estava praticamente em toda a parte.

453

EPILOGO
a última cor
apresentando:
a morte e liesel — algumas lágrimas de madeira — Max — e a restituição
A MORTE E LIESEL

Passaram-se muitos anos desde tudo aquilo, mas continua a haver imenso trabalho. Garanto-lhes
que o mundo é uma fábrica. O sol coze-o, os humanos governam-no. E eu permaneço. Eu levo-os
comigo.
Quanto ao que resta desta história, não vou pôr-me com rodeios, porque estou cansada, estou tão
cansada, e vou contá-la o mais directamente possível.

UM ÚLTIMO FACTO
Devo dizer-lhes que
a rapariga que roubava livros morreu
apenas ontem.

Liesel Meminger viveu até uma idade provecta, muito longe de Molching e da extinção da Rua
Himmel.
Faleceu num subúrbio de Sidney. O número da casa era o quarenta e cinco, o mesmo do abrigo
antiaéreo dos Fiedler, e o céu exibia o melhor azul da tarde. Tal como acontecera com o seu papá, a
sua alma estava sentada.

Nas suas visões finais, ela viu os três filhos, os netos, o marido, e a longa lista de vidas que se
fundiram com a dela. Entre essas, como lanternas acesas, destacavam-se Hans e Rosa Hubermann,
o irmão, e o rapaz cujo cabelo ficou eternamente cor de limões.

Mas houve também algumas outras visões.


Venham comigo que eu conto-lhes uma história.
Mostro-lhes uma coisa.

457

MADEIRA À TARDE

Depois de a Rua Himmel ficar limpa, Liesel Meminger não tinha para onde ir. Ela era a rapariga a
quem as pessoas se referiam como «aquela do acordeão», e foi levada para a polícia, que se debatia
com a decisão sobre o destino a dar-lhe.
Sentou-se numa cadeira muito rija. O acordeão fitava-a através de um buraco do estojo.
Passou três horas na esquadra da polícia até o presidente da câmara e uma mulher de cabelo
lanugento por lá aparecerem. — Toda a gente diz que há uma rapariga que sobreviveu na Rua
Himmel — explicou a senhora.
Um polícia apontou.

Usa Hermann ofereceu-se para levar o estojo, mas Liesel manteve-o firmemente agarrado ao
descerem os degraus da esquadra. Alguns quarteirões mais abaixo, na Rua de Munique, havia uma
linha nítida separando os bombardeados dos afortunados.
O presidente da câmara conduziu.
Usa sentou-se atrás com ela.
A rapariga deixou-a pegar-lhe na mão por cima do estojo do acordeão, que ia pousado entre as
duas.
Teria sido fácil não dizer nada, mas Liesel reagiu de maneira oposta à sua devastação. Sentou-se no
elegante quarto de hóspedes da casa do presidente da câmara e falou, falou — consigo própria —
pela noite dentro. Comeu muito pouco. A única coisa que não fez de todo foi lavar-se.
Durante quatro dias transportou os restos da Rua Himmel pelas carpetes e tábuas do soalho do 8 da
Grande Strasse. Dormiu imenso e não sonhou, e na maioria das vezes lamentava acordar. Quando
estava a dormir tudo desaparecia.

458

No dia dos funerais ainda não tomara banho, e Ilsa Hermann perguntou-lhe, delicadamente, se
gostaria de o fazer. Antes disso, limitara-se a indicar-lhe a casa de banho e a dar-lhe uma toalha.
As pessoas que compareceram ao serviço fúnebre de Hans e Rosa Hubermann falavam sempre da
rapariga que lá estava exibindo um bonito vestido e uma camada de sujidade da Rua Himmel.
Correu também o boato de que, nesse mesmo dia mais tarde, ela entrara completamente vestida
pelo rio Amper e murmurara qualquer coisa muito estranha
Qualquer coisa acerca de um beijo.
Qualquer coisa acerca de uma Saumensch.
Quantas vezes teria ela de dizer adeus?

Depois disso, houve semanas e meses, e muita guerra. Nos piores momentos de tristeza, ela
recordava os seus livros, especialmente os que haviam sido feitos para ela e o que lhe salvara a
vida. Uma manhã, em estado de choque renovado, regressou mesmo à Rua Himmel para os
procurar, mas não restara nada. O que acontecera não deixara qualquer hipótese de recuperação.
Para isso seriam preciso décadas; seria precisa uma longa vida.

Houve duas cerimónias para a família Steiner. A primeira, imediatamente a seguir ao funeral. A
segunda, logo que Alex Steiner regressou, após ter sido dispensado a seguir ao bombardeamento.
Desde que as notícias lhe haviam chegado, Alex vinha gradualmente a ser desbastado.
— Cristo crucificado — exclamara ele —, se ao menos eu tivesse deixado o Rudy ir para a tal
escola. Tem-se alguém. Mata-se esse alguém. Como podia ele saber?
A única coisa que ele sabia realmente era que teria dado tudo para estar nessa noite na Rua Himmel
e ter sido Rudy a sobreviver em vez dele. Isso foi uma coisa que ele disse a Liesel nos degraus do 8
da Grande Strasse, quando para lá se precipitou ao saber que ela sobrevivera.

Nesse dia, nos degraus, Alex Steiner recebeu a última machadada.


Liesel contou-lhe que tinha beijado os lábios de Rudy. Sentia-se embaraçada, mas achou que ele
poderia gostar de saber. Provocou lágrimas de madeira e um sorriso de carvalho. Na visão de
Liesel, o céu que eu observei estava cinzento e brilhante. Uma tarde de prata.

459

MAX

Quando a guerra acabou e Hitler se entregou nos meus braços, Alex Steiner retomou o trabalho na
sua alfaiataria. Aquilo não dava dinheiro, mas ocupava-o durante algumas horas todos os dias, e
Liesel fazia-lhe frequentemente companhia. Passavam muito tempo juntos, dirigindo-se com
frequência a Dachau após a sua libertação, mas os americanos recusavam-lhes sempre a entrada.

Finalmente, em Outubro de 1945, entrou na loja um homem de olhos nublados, cabelo semelhante
a penas, e rosto glabro. Aproximou-se do balcão. — Há aqui alguém chamado Liesel Meminger?
— Sim, está lá atrás — respondeu Alex. Sentiu esperança, mas quis ter a certeza. — Posso saber
quem é que pergunta por ela?

Liesel apareceu.
Abraçaram-se e choraram, e deslizaram para o chão.

460

RESTITUIÇÃO

Sim, eu vi muitas coisas neste mundo. Compareço nos grandes desastres e trabalho para os maiores
canalhas. Mas há também outros momentos.
Há diferentes histórias (apenas uma mão-cheia, como já sugeri anteriormente) que permito me
distraiam enquanto trabalho, tal como acontece com as cores. Recolho-as nos sítios mais
improváveis e miseráveis e certifico-me de que as recordo durante o meu serviço. A Rapariga Que
Roubava Livros é uma dessas histórias.

Quando viajei até Sidney para levar Liesel, pude finalmente fazer algo por que esperava há muito.
Pousei-a e caminhámos ao longo de Anzac Avenue, junto ao campo de futebol, e então eu tirei do
bolso um livro
preto e poeirento.
A idosa senhora ficou atónita. Pegou-lhe e indagou: — É realmente ele?
Eu acenei afirmativamente.
Perturbada, ela abriu A Rapariga Que Roubava Livros e virou as páginas. — Não posso crer... —
Apesar de o texto se achar sumido, ela conseguiu ler as palavras que escrevera. Os dedos da sua
alma tocaram a história há tanto tempo redigida na sua cave da Rua Himmel.
Sentou-se no passeio, e eu fiz-lhe companhia.
— Leste-a? — perguntou ela. Mas não olhou para mim; tinha os olhos fixos nas palavras. Acenei.
— Muitas vezes.
— Conseguiste compreendê-la? Nessa altura houve uma grande pausa.
Passaram alguns carros, em ambos os sentidos. Os condutores eram Hitlers e Hubermanns, e
Maxes, assassinos, Dillers, e Steiners...

461

Eu desejava dizer muitas coisas à rapariga que roubava livros, acerca de beleza e brutalidade. Mas
o que podia eu dizer-lhe acerca dessas coisas que ela não soubesse já? Queria explicar-lhe que estou
constantemente a sobrestimar e a subestimar a raça humana — que raramente me limito apenas a
estimá-la. Queria perguntar-lhe como podia a mesma coisa ser tão horrível e tão gloriosa, e as suas
palavras e histórias tão nefandas e tão brilhantes.
Nada disto, contudo, saiu da minha boca.
Só fui capaz de me virar para Liesel Meminger e contar-lhe a única verdade que verdadeiramente
sei. Disse-a à rapariga que roubava livros e digo-a agora a vós.

UMA NOTA FINAL DO VOSSO NARRADOR


A visão dos humanos persegue-me.

AGRADECIMENTOS
Gostaria de começar por agradecer a Anna McFarlane (que é tão generosa quanto sabedora) e a
Erin Clarke (pela sua presciência, simpatia e por dar sempre o conselho certo na altura certa).
Agradecimentos especiais igualmente para Bri Tunnicliffe por me aturar e tentar acreditar nas
minhas datas de entrega das revisões.
Estou em dívida para com Trudy White pela sua amabilidade e talento. É uma honra ter a sua arte
nestas páginas.
Um enorme obrigado a Melissa Nelson, por ter feito um trabalho difícil parecer fácil. Não passou
despercebido.
Este livro também não teria sido possível sem as seguintes pessoas: Cate Peterson, Nikki Christer,
Jo Jarrah, Anyez Lindop, Jane Novak, Fiona Inglis, e Catherine Drayton. Obrigado por dispensarem
o vosso valioso tempo a esta história, e a mim. Estou muito reconhecido para além de tudo o que
possa dizer.
Os meus agradecimentos também ao Sydney Jewish Museum, ao Australian War Memorial, a Doris
Seider e ao Jewish Museum of Munich, a Andreus Heusler do Munich City Archive, e a Rebecca
Biehler (pelas informações acerca dos hábitos sazonais das macieiras). Estou grato a Dominika
Zusak, Kinga Kovacs e Andrew Janson por todo o encorajamento e paciência.
Finalmente, devo agradecimentos especiais a Lisa e Helmut Zusak — pelas histórias que temos
dificuldade em acreditar, pela boa disposição, e por me mostrarem um outro lado.

463

FIM

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