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ano XIII número 148 julho 2009

R$ 9,90

FUNK CARIOCA, O PERSEGUIDO

AGRONEGÓCIO
QUER ACABAR COM A

AMAZÔNIA
ENTREVISTA EXCLUSIVA COM
MARINA SILVA
DÍVIDA
PÚBLICA
A FARRA DOS
ESPECULADORES

POR QUE A DIREITA ATACA A


PETROBRAS
PRISÃO-HOSPÍCIO LUIZ MOTT:
ESCONDE JOVENS INFRATORES “AQUI É ONDE SE MATA
MAIS HOMOSSEXUAIS”
GUTO LACAZ MARILENE FELINTO GLAUCO MATTOSO ANA MIRANDA JOSÉ ARBEX JR. GILBERTO VASCONCELLOS
MARCOS BAGNO JOÃO PEDRO STEDILE RENATO POMPEU TATIANA MERLINO EDUARDO SUPLICY HAMILTON
OCTAVIO DE SOUZA CESAR CARDOSO JOEL RUFINO DOS SANTOS CAMILA MARTINS BRUNA BUZZO FREI BETTO
GERSHON KNISPEL DANIELA BAUDOUIN ANA MARIA STRAUBE FIDEL CASTRO EMIR SADER MARCELO SALLES
PLINIO TEODORO MARCOS ZIBORDI MC LEONARDO GUILHERME SCALZILLI LUCIA RODRIGUES LATUFF CLAUDIUS

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sumário
CAROS AMIGOS ANO XIII 148 julhO 2009
Foto de capa
Roberto JaYme

07 Marilene Felinto comemora o golpe de mestre da comunicação da Petrobras.

08 Glauco Mattoso Porca Miséria.

Gilberto Vasconcellos desvenda Silva Mello, o Karl Marx da medicina.

EDITORA CASA AMARELA


09 José Arbex Jr. mostra como os brasileiros pagam pela falência da General Motors.

10
­ evistas • Livros • Serviços Editoriais
R
fundador: Sérgio de Souza (1934-2008)
Diretor Geral: Wagner Nabuco de Araújo Marcos Bagno Falar Brasileiro.

Mc Leonardo fala da expansão das favelas e do Brasil politicamente incorreto.

A defesa do Brasil 12
16
Entrevista Maria Lucia Fattorelli Dívida Pública faz a farra dos especuladores.

Ivan Valente defende a instalação imediata da CPI da Dívida na Câmara Federal.


Reunimos nesta edição da Caros Amigos algumas matérias que têm
o mesmo denominador comum: a defesa dos recursos e do patrimô- 17 Renato Pompeu e suas memórias de um jornalista não investigativo.
nio do povo brasileiro.
Reconhecida internacionalmente por sua luta em defesa da Ama- Ana Miranda conta a história de um menino piloto que distribui cestas básicas.
zônia, a senadora Marina Silva (PT-AC), ex-ministra do Meio Ambien-
te, analisa o atual processo de desmonte dos instrumentos de prote- 18 João Pedro Stedile fala sobre a crise e a ofensiva do capital internacional.
ção ambiental e os ataques mais recentes dos predadores de sempre, Eduardo Suplicy comenta os filmes Garapa e Ave Poesia do Patativa do Assaré.
que ela denomina de setores do agronegócio.
O crescimento econômico a qualquer preço, a realização de obras 19 Hamilton Octavio de Souza Entrelinhas – A mídia como ela é.
e atividades voltadas para a exportação (usinas hidrelétricas para
empresas de extração mineral, extração da madeira, criação de gado Cesar Cardoso lembra que a mente temporária apaga a memória a cada momento.
e expansão de monoculturas da soja e da cana), estão acelerando 20 Entrevista Luiz Mott O Brasil é o país onde mais se mata homossexuais.
a destruição da Amazônia, ao mesmo tempo em que proporcionam
maior concentração da riqueza nas mãos de grupos empresariais na- 22 Joel Rufino dos Santos critica o poder da televisão para eliminar o contraditório.
cionais e estrangeiros.
A auditora federal Maria Lúcia Fattorelli – representante brasileira Guilherme Scalzilli analisa a guinada da política internacional dos Estados Unidos.
na auditoria da dívida pública do Equador - desvenda os vários me-
canismos de transferência de recursos públicos para o setor privado,
23 Gershon Knispel prevê um Estado de Israel binacional com mais apartheid.
os esquemas de especulação financeira que elevaram a dívida públi- 24 Ensaio Fotográfico Latuff Visita aos campos de palestinos na Jordânia e Líbano.
ca a cifras astronômicas, não apenas no Brasil, mas também em ou-
tros países da América Latina. 26 Entrevista Marina Silva Crítica ao agronegócio pela destruição da Amazônia.
A denúncia da auditora é seríssima. Ela deixa claro como o assalto
aos cofres públicos tem sido praticado com a conivência das autorida-
31 Plínio Teodoro Desmatamento acelerado nas fazendas de Daniel Dantas no Pará.
des brasileiras e de grupos econômicos que manipulam os poderes da 32 Frei Betto chama a atenção para a absolutização dos sistemas ideológicos.
República em benefício próprio. A evasão provocada pela dívida pú-
blica está diretamente relacionada com o baixo investimento em edu- Fidel Castro comenta o caso do casal de aposentados acusados de espionagem.
cação, saúde e nas demais áreas sociais.
Outra matéria da maior relevância procura esclarecer o que está
33 Daniela Baudouin analisa a ingerência da França no conflito do Sudão.
por trás e quais são os reais interesses dos grupos de direita que pro- 34 Ana Maria Straube O que está na pauta da Conferência Nacional de Comunicação.
movem novos ataques a Petrobras. De olho nos lucros que a explo-
ração do petróleo do pré-sal deverá proporcionar, o capital privado 36 Camila Martins A polêmica internação de menores infratores em unidade especial.
nacional e internacional procura fustigar a maior empresa estatal
brasileira, certamente com a ajuda de parlamentares e da grande
38 Lucia Rodrigues A direita parlamentar e a mídia neoliberal atacam a Petrobras.
mídia neoliberal. 41 Bruna Buzzo Documentário mostra a trajetória poética de Patativa do Assaré.
A revista oferece também aos leitores e leitoras reportagens sobre
o assassinato de homossexuais no Brasil, a perseguição ao movimento 42 Marcelo Salles Movimento funk do Rio de Janeiro: perseguição e resistência.
funk do Rio de Janeiro, a mobilização para a Conferência Nacional de
Comunicação, a prisão-hospício que São Paulo construiu para jovens 44 Renato Pompeu Idéias de Botequim.
infratores e o conjunto de artigos e colunas do nosso time de colabo- 45 Emir Sader critica a falta de ética e a mercantilização da publicidade.
radores. Enfim, um conteúdo diferenciado, instigante, o contraponto
necessário ao discurso da mídia grande neoliberal. Não deixe de ler. 46 Claudius

EDITOR: hamilton octavio de souza EDITORa adjunta: Tatiana Merlino EDITORes ESPECIAis: José Arbex Jr e Renato Pompeu editora DE ARTE: Lucia Tavares assistente DE ARTE: Henrique Koblitz Essinger editor de FOTOGRAFIA: Walter
Firmo REPÓRTER especial: Marcos Zibordi REPÓRTERes: Camila Martins, Felipe Larsen, Fernando Lavieri, Luana Schabib ESTAGIÁRIOS: Bruna Buzzo e Carolina Rossetti CORRESPONDENTES: Marcelo Salles (Rio de Janeiro), Bosco Martins
(Mato Grosso do Sul), Maurício Macedo (Rio Grande do Sul) e Anelise Sanchez (Roma) revisora: Lucia Rodrigues SECRETÁRIA Da REDAÇÃO: Simone Alves DIRETOR DE MARKETING: André Herrmann PUBLICIDADE: Melissa Rigo CIRCULAÇÃO:
Pedro Nabuco de Araújo Relações Institucionais: Cecília Figueira de Mello ADMINISTRATIVO E FINANCEIRO: Ingrid Hentschel, Elisângela Santana CONTROLE E PROCESSOS: Wanderley Alves, Elys Regina LIVROS CASA AMARELA: Clarice
Alvon Sítio: Paula Paschoalick APOIO: Maura Carvalho, Douglas Jerônimo e Neidivaldo dos Anjos ATENDIMENTO AO LEITOR: Lília Martins Alves, Zélia Coelho ASSESSORIA JURÍDICA: Marco Túlio Bottino, Aton Fon Filho, Juvelino Strozake, Luis
F. X. Soares de Mello, Eduardo Gutierrez e Susana Paim Figueiredo REPRESENTANTE DE PUBLICIDADE: BRASÍLIA: Joaquim Barroncas (61) 9972-0741.


JORNALISTA RESPONSÁVEL: hamilton octavio de souza (MTB 11.242)
diretor geral: wagner nabuco de araújo

2009 caros amigos


CAROS AMIGOS, ano XIIi, nº 148, é uma publicação mensal da Editora Casa Amarela Ltda. Registro nº 7372, no 8º Cartório de Registro de Títulos e Documentos da Comarca de São Paulo, de acordo com a Lei de maio
Distribuída com exclusividade no Brasil pela DINAP S/A - Distribuidora Nacional de Publicações, São Paulo. Impressão: Bangraf
Imprensa.
5
Redação e administração: rua Paris, 856, CEP 01257-040, São Paulo, SP
Caros leitores

Mulheres do milhares de pessoas sem habilitações mínimas conceitos babacas escaparem juntos, falô merrr-
Aproveito para parabenizá-los pela edição de para exercer a profissão docente: inicia-se ain- mão? Senão você acaba perdendo a razão.
junho e pelas matérias impressionantes sobre o da em 2009 a Universidade Virtual do Estado de Fernando Miller
tráfico e a violência contra as mulheres. Também São Paulo – UNIVESP – que pretende formar 35
gostei muito de ver o trabalho do pessoal do NPC mil professores através de cursos de licenciatu- Caros Amigos
em destaque. Tive o prazer de assistir uma pales- ra ministrados pela Internet! Esse programa tra- Ao contrário do que pensa Ismael Santos Tei-
tra de Vito Giannotti em 2007, e entendo que os ta-se de um grande exemplo de como as classes xeira (carta publicada na edição 146) sobre a re-
jovens do Arraial do Cabo tenham se apaixonado dirigentes brasileiras tiram o máximo proveito vista Caros Amigos, sou fã da maneira juvenil
pelo curso, pois os projetos que o Núcleo desen- do abismo social de nosso país, valendo-se desse que a revista trata as questões, das bandeiras e
volve são, de fato, fascinantes. contexto por elas sustentado, para atingir o com- camisas juvenis que apóia. Considero uma revis-
Francine de Almeida, São José do Rio Preto/ SP pleto sucateamento da educação brasileira. ta que se propõe de esquerda sem cair no autismo
Daniela Perre intelectual das academias, sem cair no intelectua-
Brizola Neto lismo excessivo. Continua e sempre continuará
Parabéns pela excelente entrevista do Deputa- Marilene Felinto apoiando seus ídolos Che, Fidel, Marighela, La-
do Federal Brizola Neto. É bom saber que ainda Gostaria de ressaltar que o seu artigo sobre a marca e outros mais. É a única que se mantém
existe deputado com postura ética e leitura de um situação dos professores no Estado de São Pau- firme naquele sonho adolescente de mudança do
Brasil soberano, no meio de um Congresso com lo retratou muito bem a perversidade do tucana- mundo, que mantém vivo os verdadeiros ídolos

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“alguns pilantras”, como no passado, afirmou o to no Brasil. Sou professora de história na cidade da esquerda. A única que não deixa esse sonho
presidente Lula. de Contagem (Grande BH) em Minas Gerais. Nes- cair na armadilha de uma análise mais “madura”
Bruno Calderaro, Nova Friburgo/ RJ te Estado a situação é a mesma, pois desde 2001 dos fatos, de se adaptar aos novos tempos. Que
trabalho como contratada. Com o governo de Aé- novos tempos? Os tempos continuam os mes-
Maria Rita Kehl cio Neves [a situação] tornou-se pior, pois foram mos, guerras, fome, injustiças, capitalismo selva-
Realmente excelente a entrevista de Maria criadas várias resoluções em que os professores gem, mundo da mercadoria, tudo isso em qual-
Rita Kehl no número de maio de 2009. Algumas são quase que obrigados a passar alunos que não quer canto do mundo. Se mudou, mudou apenas
pequenas observações. Com o crescente compro- conseguem aprender ou que possuem muita difi- na aparência, adquiriu um formato diferente do
misso da Organização Mundial da Saúde com a culdade no aprendizado. O governador se recusa mesmo conteúdo. Ser juvenil é tudo. Se amadu-
indústria farmacêutica, a expectativa que esta a fornecer o novo piso salarial e ainda cobra de- recer significar a perda do caráter juvenil, então
organização faz de que a depressão será a se- masiadamente de todos os professores por favor, não amadureçam nunca.
gunda maior causa de comorbidade não é exa- Monica Valeska Felipe Telles
tamente um exercício de previsão, mas sim uma
estratégia para que isto se torne realidade. Sen- José Arbex errata
do mais claro, a OMS está trabalhando para que Só gostaria de saber se o sr. José Arbex Jr. tem Em atendimento ao Ofício GABPR46-ASFM/
esta meta seja alcançada, o que representará um alguma justificativa decente para tachar a justi- SP – 011629/2009, da procuradora da Repúbli-
aumento fabuloso no consumo de antidepressi- ficativa canhestra da justiça eleitoral para ca- ca Adriana Scordamaglia, referente à reportagem
vos. E como isto pode acontecer? A própria Ma- çar Jackson Lago de “ishhperrrta” (assim, nessa A Protogênese da Operação Satiagraha, publicada
ria Rita responde, ao demonstrar que as pesso- grafia de fonética carioca)? Sei, sei... ele quis di- na edição 138, de setembro de 2008, informamos
as tendem a se identificar com as enfermidades zer que foi uma atitude marota, metida a malan- que ocorreu um equívoco no fechamento da ma-
mentais, isto é, que elas podem ser produzidas dra, mas bastante vagabunda, né? Imagino que téria e que, em momento algum, obtivemos qual-
socialmente e incrementadas. ao imitar nosso sotaque, seja exatamente essa a quer informação de que o juiz Alexandre Cassetari
Paulo Amarante, Doutor em Ciências da Saúde mensagem que passou no texto... Não quero ban- estivesse implicado com o vazamento da chama-
car o babaca politicamente correto, mas acre- da Operação Satiagraha. Por isso, pedimos des-
Marcos Bagno dito que não sairia de seu texto nenhuma refe- culpas ao magistrado, ao advogado Nélio Macha-
Na edição de maio da Caros Amigos, o lin- rência a alguma atitude ridiculamente pilantra e do, também referido na reportagem, e aos nossos
güista Marcos Bagno mencionou, de maneira ad- arrogante, tipicamente “paulizta”, tá me “entein- leitores.
mirável, a tristeza de se viver num país emergen- deindo”, meu? Tá “enteindeindo” porque eu não
te com uma educação submersa. Eu não pude achei graça na citação? Dá próxima vez que qui- A entrevista com o ator Wagner Moura (edição
deixar de escrever com a intenção de acrescen- ser soltar os cachorros em outro (justificadíssi- 147) foi realizada na FR Produções, no bairro da
tar uma grande indignação no que diz respei- mo) ataque de fúria contra a injustiça do mundo, Gávea, Rio de Janeiro e não na produtora do ator,
to aos cursos de licenciatura que vem forman- vê se toma mais cuidado pra não deixar seus pre- como foi publicado.

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6 caros amigos julho 2009


Marilene Felinto

Ferida de morte,
imprensa golpista ganiu

Pela primeira vez os procedimentos do Es- de escândalos, toda ela imprensa de sensacionalismo Paulo que questionava a redistribuição da verba, é la-

Ilustração: Gil Brito


tado foram mais rápidos do que o ingresso da mídia no e distorção, há tempos já não é de interesse público, pidar: “(...) os anúncios da Secretaria de Comunicação
acontecimento ou no fato. A inversão é histórica, até não informa ao cidadão e nem, muito menos, substi- Social da Presidência da República (Secom), até 2003
porque aconteceu no âmbito do esclarecimento públi- tui o debate público. concentrados em apenas 499 veículos e 182 municípios,
co, da chamada transparência na divulgação da infor- A imprensa desacreditada, dos jor- em 2008 alcançaram 5.297 órgãos de comunicação em
mação, no oposto mesmo da censura. nalões, por exemplo, que hoje em dia não escrevem se- 1.149 municípios – um aumento da ordem de 961%. As
Foi o que ocorreu quando do lançamen- não para si próprios, amarga ainda a queda vertiginosa verbas publicitárias de todos os órgãos ligados ao gover-
to de um blog criado pela Petrobras (http://petrobras- nas vendas. O jornalão que mais vende não atinge nem no federal permaneceram no mesmo patamar do gover-
fatosedados.wordpress.com/) em junho para divulgar mesmo 1% da população do país. A análise abaixo des- no anterior, em torno de R$ 1 bilhão ao ano. Não hou-
em tempo real, o tempo da verdade (e não no tempo trincha bem os números da derrocada: “Os últimos da- ve aumento de verbas. O que mudou foi a política. Em
da manipulação e da mentira dos jornalões, das revis- dos sobre a circulação média de jornais divulgados pelo vez de concentrar anúncios num punhado de jornais, rá-
tonas e dos telejornais), e na íntegra, tudo o que era Instituto Verificador de Circulação (IVC) para o mês de dios e televisões, a publicidade do governo federal al-
perguntado à empresa pelos jornalistas entrevistadores abril revelam que a Folha de S.Paulo, O Globo e O Es- cança agora o maior número possível de veículos. Pelo
e tudo o que era respondido a eles. Golpe de mestre da tado de S. Paulo perderam, respectivamente, 10,84%, mesmo custo, está falando melhor e mais diretamente
comunicação da Petrobras: a divulgação das pergun- 7,75% e 16,93% de circulação média diária em abril de com mais brasileiros. Acompanhando a diversificação
tas e respostas saía antes da publicação ou veiculação 2009, se comparada aos números de abril de 2008. Ne- que está ocorrendo nos meios de comunicação.”
nos órgãos de imprensa. A imprensa desesperada ga- nhum deles atinge a circulação de 300 mil exemplares Pela primeira vez, em duas décadas, vi jor-
niu, ferida de morte. Soltou editoriais coléricos. Tudo diários. Os números arredondados são, respectivamente, nalistas exaltarem, enfim, a ocupação corriqueiramen-
inútil. A lição estava dada. Ainda que a Petrobras te- 289 mil, 259 mil e 214 mil exemplares. Se supusermos te patética de ficar escrevendo o que (e como) o dono
nha desistido depois de sair na frente da imprensa gol- que cada exemplar é lido, em média, por quatro (?) pes- do jornalão manda. Eis o que disse um deles: “Obriga-
pista. Viva o Estado (não por acaso petista), viva a Pe- soas, o maior jornalão brasileiro teria hoje cerca de um do. Poucas vezes em 32 anos de profissão pude sen-
trobras e a democracia na internet. milhão, 156 mil leitores/dia. Isto significa atingir poten- tir o orgulho que estou sentindo hoje por ser jornalis-
Os comentários de apoio à ação da Pe- cialmente cerca de 0,604% do total estimado da popu- ta, graças à iluminada idéia e a coragem de realizar o
trobras explodiram em numerosos sítios, blogs e lis- lação brasileira, que é de 191.231.246 habitantes (...).” blog da Petrobras. Esse é um pequeno grande exemplo
tas de esquerda: “Também são publicadas no blog as (Venício de Lima, Observatório da Imprensa). O comen- da força do caminho da democracia, da transparência,
cartas enviadas aos jornais pela Petrobras, corrigin- tarista lembra ainda que, no ano 2000, a Folha tinha da liberdade da informação, do compromisso com os
do informações erradas, interpretações equivocadas uma circulação média de 429.476 exemplares/dia. fatos e as informações corretas. O duro é que isso ain-
e acusações sem fundamento. Utilizando-se de toda A imprensa da avacalhação, que, por da hoje no Brasil é profundamente subversivo. É duro
a potencialidade da Internet, o blog esfarelou quase nostalgia, ainda chama a si mesma de “grande impren- mas é bom: bastou um simples blog para esfarelar uma
instantaneamente uma parte do poder de manipula- sa”, amofinou-se também diante do corajoso ato do parte do poder dos oligopólios da mídia. Agora é espe-
ção e falsificação de informações, prática comum aos governo Lula de desconcentrar as verbas publicitárias, rar a reação, porque eles são brutos e não sabem per-
jornais, revistas e redes de TV, especialmente nos úl- as quais, em governos anteriores, só se destinavam às der. Parabéns.” (Sérgio Alli)
timos anos e contra o governo Lula e o PT”. grandes corporações de mídia. A resposta de Franklin
A imprensa que se enxovalha a si Martins, ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Marilene Felinto é escritora.
mesma cada dia mais, toda ela sinônimo de imprensa Social da Presidência da República, a um jornalão de São marilenefelinto@carosamigos.com.br

Novo sítio: www.carosamigos.com.br junho 2009 caros amigos


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porca miséria! Gilberto Felisberto Vasconcellos
Glauco Mattoso
Se você comesse bosta
seria melhor
Soneto para um De Rolim, tarimbado inteligente da editora Insu-
regimen dictatorial lar, SC, me vem a notícia de que o meu livro sobre o mé-
dico-filósofo Silva Mello está vindo a lume. O titulo é
(1781) montagem da poesia de Oswald de Andrade com o sam-
ba de Nelson Cavaquinho. Eis o título do livro que escre-
vi durante quinze anos: Nossa Vida De Cada Dia Entre O
“Balança mentirosa!”, a gorda exclama. Supermercado e a Drogaria.
“Só pode estar desregulada, a joça!” Você come uma comida envenenada do super-
Amigas, condoidas de seu drama, mercado e vai se curar na drogaria com o remédio que
não cura. Silva Mello ( 1886-1973) é o Karl Marx da me-
lhe dão, para comer, o que inda possa... dicina, embora não fosse marxista nem comunista. É que
fez (e denunciou na prática médica) a anatomia da mer-
Cortado o sal, ja quasi nada adoça. cadoria na medicina. A formação do médico manipula-
do pelo monopólio do fármaco. É a saúde publicitária, na
Temperos reduziu e, a cada gramma
qual se coisifica a pessoa e personifica a coisa. É o que
a mais no prato, alguem se espanta: “Nossa!” Marx chamava de fetichismo da mercadoria. Silva Mello
Patrulham a coitada até na cama... dirigiu durante 40 anos a Revista Brasileira de Medicina
e não permitiu que nela houvesse anúncio.
Quem produz a comida é a mesma multinacio-
Se queixa o namorado, outro gordão, nal que produz o remédio. A comida é desnaturalizada,
que ja nem sobra espaço no colchão transgênica, produzida com agrotóxico, baseada no pe-
e que ella ronca feito uma leitoa... tróleo. O mais louco é que as empresas alimentárias e
Ilustração: Gustavo Aoyagi

farmacológicas são as que fabricam armas para o impe-


rialismo, como a Monsanto que fabricava Napalm para
“Assim não dá! Me chamam de baleia despejar nos vietcongues. São as mesmas que financia-
e, emquanto não estão de pança cheia, ram a derrubada de governos progressistas na América
mais alto é o ronco que, la dentro, echoa...” Latina como João Goulart e Salvador Allende.
Silva Mello mostrou, no corpo humano, os efei-
tos deletérios da aliança entre a drogaria e o supermerca-
do, incluindo igreja e faculdade de medicina. É difícil achar
um professor de medicina que tenha ouvido falar do siste-
Si até o Obama se rendeu ao charis- frictava os bolinhos de chuva, é a Bia, uma gor- mão. Trata-se de um marginal específico no Brasil. Oswald
ma do Lula, não serei eu, que não tenho olho duchesima judia de olhos azues. Para as gordu-
de Andrade teve uma vida conturbada, ficou pobre. Glau-
azul nem visão, quem irá fazer cu doce: acho chas fiz todo um cyclo de sonetos, coisa que não
que, crises à parte, melhor um terceiro man- faria para as esqueleticas estrellas das passarellas. ber Rocha, nasceu pobre, na periferia de Vitória da Con-
dato delle que qualquer outra hypothese. Concluo que, na politica como no cardapio, quan- quista. Silva Mello era médico, formado em Berlim, clini-
Mas Obama fez o que eu faria: ao invés de con- to menos dictatorial o regimen, mais tem a nossa cou na Suíça, onde um de seus pacientes foi Rockefeller.
siderar a cor da pelle ou dos olhos, apertou-lhe cara. E só não sou tão gorducho nem tão sympa- Fez a maior clinica de gente rica do Rio. Seu automóvel
a mão e a barriguinha para chegar a tal obser- thico quanto o Lula ou a Bia por causa do sangue era um Buick de oito mil quilos. Passava os fins de semana
vação. Reconheçamos, pois, aquillo que nin- ruim, pois, alem de cego, soffro duma prisão de em uma datcha luxuosíssima em Petrópolis, onde escre-
guem mais nega: barriga faz parte da boa pin- ventre que prejudica minha capacidade de des- veu seus livros. Alguns foram traduzidos em alemão e in-
ta, e não apenas num presidente charismatico. fructar plenamente dessas liberdades democra-
glês. Em 1960 entrou para a Academia Brasileira de Letras.
Emquanto enxerguei e tive alguma attrac- ticas e gastronomicas. O que não me impede de
ção pelas mulheres, eram as gordinhas que me applaudir os bolinhos de chuva, nem de concor- Antes foi procurado por Einstein em sua casa em Laranjei-
captivavam. Antes de me assumir como gay, dar que o Lula, como diz o Obama, é mesmo o ras, onde mais tarde morou Roberto Marinho. Na feijoada,
só consegui namorar uma hipponga magra cara... Nossa lingua é muito expressiva: a pala- Einstein encheu a cara de caipirinha, depois quis sentar a
que nem a Joni Mitchell, mas meu sonho era vra “enfezado” allude a alguem que não caga di- uma rede boliviana de dormir, quase caiu. Silva Mello re-
namorar uma gorda que nem a Mama Cass. reito. Emfim, não basta poder, nem saber comer, parou: o cientista da relatividade não conseguiu se equili-
Sempre tive tesão pelas doceiras e quitutei- nem gostar da comida: quem não caga livremen- brar na mecânica primitiva da rede.
ras rechonchudas, tanto quanto tenho appe- te só pode se soltar mesmo no verso.
tite pelas guloseimas que ellas preparam. Mi- Gilberto Felisberto Vasconcellos é sociólogo,
nha melhor amiga na cegueira, aquella que me Glauco Mattoso é poeta, letrista e ensaísta. jornalista e escritor.

8 caros amigos julho 2009


José Arbex Jr.

Nem a morte de Golias


acorda o Brasil
Entre tantas e intermináveis crises, Para além de seu lugar na produção propria- lisadas pelos “especialistas” da mídia brasileira.
o 1º de junho será para sempre marcado como o fim de mente dita, a indústria automobilística também é asso- Já Obama não é o novo Roosevelt. Nem pode-
uma era do capitalismo: nesse dia, a General Motors de- ciada aos sistemas de crédito que financiam e subsidiam ria ser. Em primeiro lugar, Roosevelt foi “estimulado” a
clarou-se quebrada. É um fato de imensa amplitude his- o comércio do automóvel. Os maiores bancos do mun- promover o New Deal, nos anos 30, pela vitória da Re-
tórica, absolutamente subestimada pelos meios de co- do – associados a fundos de pensão, a empreiteiras, aos volução de 1917 e pelo grande prestígio do socialis-
municação brasileiros. Por ignorância, má-fé ou – o que “fundos de derivativos” (os hedge funds, responsáveis mo entre os trabalhadores dos Estados Unidos. Havia
é mais provável – uma mistura de ambos, a mídia dos pela orgia especulativa que levou o sistema ao desas- o risco concreto de construção de um importante mo-
patrões preferiu abordar a nova queda de Golias como tre) – empataram seus capitais nesse comércio. Estimu- vimento revolucionário nas terras de Tio Sam. Hoje, o
um mero desdobramento, na esfera industrial, da crise lados por campanhas publicitárias multibilionárias, que movimento sindical estadunidense ainda é controlado
econômica mundial, ou como algo anedótico, inspirador prometem a felicidade aos compradores de determina- por máfias associadas ao Partido Democrata, que acei-
de nostalgia. Foi muito mais do que isso: a falência da da marca ou modelo, clientes assumem dívidas a serem tam a diminuição de garantias e de direitos trabalhis-
GM assinala, simbolicamente, a ruína um modelo intei- pagas em 70, 80 ou 90 meses, a taxas de juros que, no tas (impostos pelo “pacote de salvação” de Obama), em
ro, sobre o qual estava ancorado o “american dream”, o Brasil, ultrapassam os limites da mais desavergonhada nome da preservação do emprego. Além disso, à épo-
fantástico motor que estruturou o mercado consumidor agiotagem. Os modelos são, deliberadamente, fabrica- ca do New Deal, o capital financeiro não tinha adqui-
estadunidense e que estava na base do desenvolvimen- dos para rapidamente ficarem “velhos”, assim estimu- rido a absoluta predominância que tem hoje: a indús-
to do capitalismo em escala planetária. lando novas compras e o empilhamento de sucata. tria era o setor de maior importância e poder político. O
Como contrapartida ao desastre da GM, Pois bem, foi esse modelo, em seu con- dólar não era a moeda de troca universal (passou a sê-
os meios de comunicação também tentaram criar uma junto, envolvendo todos os circuitos industriais e eco- lo em 1944), o que atribui a Obama muito maior po-
imagem “salvacionista” do presidente Barack Obama: nômicos mencionados (petróleo, siderurgia, informática, der de jogar com a economia mundial. Nem os Estados
ele seria uma reedição de Franklin Delano Roosevelt, publicidade, especulação e agiotagem institucionaliza- Unidos eram a potência com a incontrastável hegemo-
um estadista capaz de apontar a saída da crise median- da) que deu sinal de esgotamento, com a falência da nia militar que é hoje.
te a valorização do mundo do trabalho, em oposição ao GM. Há, em todo o planeta, uma crise imensa de super- Os analistas da mídia ignoram estas pe-
capital financeiro. Assim, a estatização da GM (60% de produção de automóveis, num quadro em que as famí- quenas particularidades históricas. Fingem que infor-
suas ações passaram ao controle do Estado) assinalaria lias de classe média e de trabalhadores, em todo o mun- mam, quando desinformam. Pouco ou nenhum desta-
um novo período na história mundial do capitalismo, do, já atingiram um teto de endividamento que não lhes que foi dado, por exemplo, ao curioso fato de que o
cujo sentido seria definido por uma estratégia supos- permite mais participar da orgia do consumo. BNDES (entre outros bancos estatais) é um dos princi-
tamente neokeynesiana, de investimentos na produção, “Tomemos o exemplo do automóvel na pais financiadores da GM do Brasil (sob condições bem
controle do mercado especulativo e benefícios assegu- Alemanha, país que com a Suécia é o mais dependente mais “amenas” do que as praticadas nos Estados Unidos,
rados aos trabalhadores. Nada mais falso, irreal. de seu uso. O retrocesso no setor de produção do auto- segundo os próprios dirigentes da GM brasileira). Ora,
Ao longo do século 20, a indústria au- móvel na Alemanha participou com 0,8% da contração na medida em que a GM torna-se propriedade dos Es-
tomobilística moveu a economia mundial. Basta pen- do PIB alemão no quarto trimestre de 2008. Deve-se so- tados Unidos, isso significa que nós, contribuintes, pas-
sar no circuito do petróleo (combustíveis, pavimenta- mar 0,1%, com a inclusão da compressão dos serviços samos a financiar, via bancos estatais, ninguém menos
ção de vias, a vasta indústria de material plástico). Ou ligados à venda: as concessionárias. O cálculo é simples: que o governo dos Estados Unidos. É mole? E os “espe-
na siderurgia, com todos os setores associados (autope- isso equivale a 33% da queda do PIB no último trimestre cialistas” tampouco informam que a sobrevida da GM e
ças, funilaria). Ou, ainda, no setor da informática, com na Alemanha”, nota o economista Charles-André Udry. de outras montadoras no Brasil deve-se à renúncia fis-
motores cada vez mais regulados por chips e microcom- O tamanho da encrenca pode ser entendido quando se cal, que significa subtrair fundos para obras públicas,
putadores (os bilhões gastos nas disputas de Fórmula 1 considera que a Alemanha enfrenta hoje sua pior reces- educação e saúde, além de o governo permitir a orgia
têm pelo menos uma utilidade concreta: servem para são desde o final dos anos 40, e que a indústria do au- de endividamento descontrolado de uma classe média
projetar e testar equipamentos cada vez mais sofistica- tomóvel emprega cerca de 860 mil trabalhadores (2,6 que sentirá o baque nos próximos meses.
dos, com futuro emprego na fabricação de automóveis milhões, considerando também os empregos indiretos). Em resumo, a falência da GM anuncia a falência do
comerciais). A indústria automobilística também mobi- Nos Estados Unidos são 710 mil empregos diretos e “american dream” e do modelo a ele associado. Enquan-
liza as mais avançadas tecnologias empregadas nas li- 256 mil na França. Quando se leva em consideração a to isso, embalado pelo canto de sereia de uma mídia
nhas de montagem, em total sintonia com a robótica e proliferação das montadoras na “periferia” do capita- mentirosa, incompetente e comprometida até o pesco-
a indústria bélica. Em 1941, logo após a entrada dos Es- lismo e o impacto da economia do automóvel nesses ço com o capital internacional, o Brasil permanece dei-
tados Unidos da Segunda Guerra, a GM mobilizou toda países (entre os quais, Brasil, México e Argentina, para tado em berço esplêndido.
a sua linha de produção para a fabricação de tanques ficar só na América Latina), a coisa toda adquire pro-
de guerra, blindados e peças para aviões. porções ainda mais catastróficas, nem de longe ana- José Arbex Jr. é jornalista.

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9
falar brasileiro Mc Leonardo
Marcos Bagno

Brasil,
Deixem o meu politicamente
óculos em paz! incorreto - Parte I
É mesmo uma pena que nossos melhores di-
cionários de referência, o Aurélio e o Houaiss, os- No final dos anos 60, já assassinavam
cilem entre a tentativa de preservação das pres- muita gente nas favelas. Existiam os assaltantes,
crições tradicionais e a vontade de incorporar e os jogadores de ronda, e os ladrões de varal, e a
abonar as formas inovadoras já consagradas no maioria dos comerciantes tinha uma garrucha pra
uso do português brasileiro. Digo isso porque, se defender. As favelas estavam crescendo e os po-
ao tratar do substantivo óculo(s), ambos os di-
deres eram disputados a bala ou a facada, todo dia
cionários assumem o tom mais prescritivista e
tinha gente morrendo. Crimes passionais, vingan-
autoritário possível, em franca contradição com
as análises mais bem feitas que encontramos em ça, ou disputa de terra, levaram a vida de muita
outros verbetes: gente. Comparando com os dias de hoje em que a
Aurélio Século XXI: “No Brasil, pelo menos, população favelada é bem maior, posso dizer que
diz-se, erroneamente, o óculos, este óculos, meu proporcionalmente morria o mesmo número que
óculos” (verbete óculos). morre hoje.
Houaiss: “A palavra óculos é pluralia tan- A imprensa estava censurada,
tum* ... sendo, portanto, erro a discordância de os que morriam, muitas vezes nem documento ti-
número (um óculos) que se tem vulgarizado no
nham, a polícia estava atrás dos comunistas, es-
português coloquial do Brasil (formas corretas:
uns óculos, meus óculos, um par de óculos)” condiam tudo, e ninguém que vivia fora da favela
(verbete óculo). sabia o que se passava ali. Além do governo norte-
*Pluralia tantum são as palavras que só são usa- americano, quem financiava a polícia para capturar
das no plural como bodas, anais, costas, férias. e torturar os tais comunistas eram os empresários,
Como diria nosso herói Macunaíma: “Ai, que uns porque queriam aquele regime de total loucu-
preguiça!” Por que essa insistência em achar que do sing[ular] nos mesmos casos: uma tesoura, ra dos militares, e outros diziam não ter escolha,
esse importante dispositivo para melhorar a vi- uma tenaz, a minha calça, a cueca. pois seriam perseguidos e chamados de subversi-
são (que eu uso há quarenta anos!) tem que ser É uma pena que não se tenha mencionado
vos, mas a maioria pagava por interesses pessoais,
considerado como um par? Por que não chamá- também o “quase geral emprego do singular” no
lo então de binóculo, já que também existe o caso de óculos. A razão do nosso uso de ócu- licitações, contratos etc... Tudo estava em jogo, era
monóculo? los no singular está nessas palavras do verbete: melhor financiar aquela loucura ou teriam diversos
O que aconteceu com óculos foi o mesmo que “substantivos cuja forma é um plural morfoló- problemas em suas empresas.
aconteceu com tesouras, cuecas, calças, cerou- gico, mas que semanticamente podem denotar Até então nas favelas se comen-
las, tenazes, listados pelo dicionário Houaiss no uma única unidade”. tava que “Fulano” fumava uma droga, que “Si-
verbete pluralia tantum. Nesse verbete, a análi- Pronto, gente, é só isso: é semântica! A se- crano” tinha um revólver e vendia a tal droga, era
se, felizmente, não recorre à imposição do que mântica estuda a relação entre as palavras e as o mercado de venda varejista de drogas que esta-
é “correto” e à condenação do “erro”, sendo, coisas do mundo que elas designam. Se nós con-
va chegando com um poder que ninguém tinha ali
ao contrário, isenta desses preconceitos: plura- cebemos o óculos como uma coisa só, nossa ló-
lia tantum. gica linguística vai querer corresponder à nos- dentro: o poder financeiro.
Rubrica: gramática. Expressão latina com que sa lógica de percepção da realidade: se o objeto Para os comerciantes foi um grande
são referidos os substantivos de uma língua cuja é considerado como uma unidade, a palavra que negócio: ninguém mata ninguém, ninguém rouba
forma é um plural morfológico, mas que seman- o designa só pode estar no singular! ninguém, ninguém estupra ninguém, enfim, quem
ticamente podem denotar uma única unidade; Vamos parar com essa insistência boboca, decidia era o comércio da droga. “Temos nossas re-
Ilustração: Debora Borba/deboraborba@gmail.com
trata-se sempre de referentes formados de partes deixar todo mundo usar seu óculos em paz e cui- gras e quem não quiser cumprir pode ir embora ou
simetricamente duplicadas (p.ex.: tesouras, cue- dar de coisas mais importantes? Por exemplo: so- vai morrer”, diziam os vendedores de drogas.
cas, calças, óculos, ceroulas, tenazes). mente 8% das escolas com as melhores médias
Uso. Embora o emprego do pl[ural] para in- do ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio) em
Alguns demoraram pra enten-
dicar uma só parelha seja normal no portu- 2009 eram públicas. Não é perdendo tempo ten- der, tentaram resistir, e acabaram morrendo.
guês, registra-se uma dicotomia de tendência: tando convencer os alunos de que a palavra ócu- (Continua)
de um lado, para obviar possíveis ambiguida- los só pode ser usada no plural que nosso ensino
des e explicitar a unidade, o locutor refere- público vai sair do fundo do poço! MC Leonardo é compositor, autor, com seu irmão
se a um par de tesouras, de alicates, de pinças MC Junior, de funks de protesto, como o Rap das
etc.; de outro, esp[ecialmente] no port[uguês] Marcos Bagno é linguista e escritor. Armas. mcleonardo@carosamigos.com.br - http://
do Brasil, consuma-se o quase geral emprego www.marcosbagno.com.br mcjunioreleonardo.wordpress.com

10 caros amigos julho 2009


entrevista MARIA LUCIA FATTORELLI

DÍVIDA PÚBLICA
faz a farra dos especuladores
A auditora da Receita Federal mostra como funcionam os
mecanismos que colocaram o Brasil e outros países da América
Latina reféns do capital financeiro Max Gimenes | Fotos Roberto Jayme

e m entrevista exclusiva, a auditora da Receita


Federal e coordenadora da Auditoria Cidadã
da Dívida, Maria Lucia Fattorelli, conta como
foi sua participação, a convite do presidente Rafa-
el Correa, na comissão oficial de auditoria da dívida
Maria Lucia Fattorelli: A realização da audito-
ria oficial da dívida pública equatoriana foi um dos
principais fatos políticos da história da América La-
tina, pois significa um importante passo no sentido
de nossa verdadeira independência e retomada de
foi subdividida em subcomissões que se dedicaram
especificamente a cada tipo de endividamento: mul-
tilateral (dívida externa contratada com FMI, Ban-
co Mundial, Corporación Andina de Fomento e ou-
tros organismos multilaterais); bilateral (dívida entre
do Equador, em 2008. Presidentes de outros países, nossa soberania. Sem dúvida foi uma imensa honra o Equador e outros países ou bancos públicos de ou-
como Bolívia, Venezuela e Paraguai, demonstram a ter sido designada pelo presidente Rafael Correa Del- tros países); comercial (dívida contratada com ban-
intenção de seguir o exemplo equatoriano. Para Ma- gado para a comissão da auditoria da dívida equa- cos privados internacionais) e interna.
ria Lucia, é preciso que o Brasil cumpra a Constitui- toriana, CAIC, para realizar a auditoria integral de
ção Federal, que prevê a auditoria, para que a socie- sua dívida pública interna e externa, visando à bus- O que foi apontado pela auditoria?
dade pare de pagar a conta à custa da privação de ca da verdade sobre o endividamento público. Esse O resultado de todas as subcomissões apontou
direitos sociais elementares, conta esta que a atual trabalho representou um desafio imenso, pois o de- impressionantes ilegalidades e ilegitimidades veri-
crise tende a tornar ainda mais cara. creto presidencial determinou a realização de uma ficadas em processos que sempre beneficiaram o
auditoria dos últimos 30 anos do processo de endivi- setor financeiro privado, as grandes corporações e
Caros Amigos: Como se sentiu ao participar damento, envolvendo a investigação de aspectos fi- empresas privadas, em detrimento do Estado equa-
da auditoria da dívida do Equador, enquanto o nanceiros, contábeis, jurídicos e também seus impac- toriano e de seu povo, carente de tantos serviços
Brasil continua a pagar, todos os anos, milhões tos sociais e ambientais. Considerando que teríamos públicos e de condições de vida digna, apesar das
de reais como juros de sua dívida? apenas um ano para realizar essa tarefa, a comissão riquezas nacionais, como o petróleo. A sangria pro-

12 caros amigos julho 2009


vocada pela dívida não permitiu que esses recursos O que é e como funciona na prática a auditoria auditoriacidada.org.br. Essa experiência histórica
servissem ao povo equatoriano. Uma das consta- de uma dívida? pode ser considerada vitoriosa, pois além de já es-
tações mais importantes da comissão foi a incrível Auditoria da dívida, em resumo, significa a inves- tar inspirando outras nações, está permitindo ati-
semelhança do processo de endividamento equato- tigação de todos os processos de contratação, rene- tudes soberanas por parte do governo equatoriano,
riano com o brasileiro e o dos demais países lati- gociação, troca e rolagem de dívida pública – inter- como a suspensão do pagamento dos juros dos bô-
no-americanos. No caso da dívida externa comer- na ou externa. A auditoria se dá com base na análise nos Global, representação atual da dívida externa
cial - com bancos privados internacionais de cuja de documentos oficiais (contratos, títulos e corres- com bancos privados internacionais, fruto de con-
investigação participei, a dívida atual representada pondências oficiais, por exemplo) e registros existen- tínuas ilegalidades e até indícios veementes de prá-
por títulos Bonos Global é resultado do endivida- tes em livros de escrituração contábil, além de dados ticas fraudulentas.
mento agressivo iniciado no final da década de 70, estatísticos e outras publicações existentes. A audi-
durante a ditadura militar, majorado pela influência toria da dívida envolve também a análise de cifras Como a auditoria pode auxiliar na reversão da
da elevação unilateral das taxas de juros pelo Fede- (valores contratados/pagos; comparações entre o va- dolarização do Equador?
ral Reserve a partir de 1979, por onerosas renego- lor renegociado e o valor de mercado, comissões di- De fato, a política econômica do Equador ficou
ciações ocorridas na década de 80, quando o Esta- versas, taxas de juros), estudo e análise da legislação muito restrita a partir da dolarização e da perda de
do equatoriano assumiu inclusive dívidas privadas; de regência e outras questões jurídicas aplicáveis e, sua própria moeda, o que afetou muito a sobera-
seguido de renúncia à prescrição dessa dívida em adicionalmente, visa à identificação dos participan- nia do país, embora ainda cumpra importante papel
1992 e sua transformação em títulos negociáveis, tes nos diversos processos relevantes. na execução de políticas e instrumentos econômi-
denominados Bonos Brady em 1995, emissões de co-financeiros. A realização da auditoria da dívi-
Eurobonos e nova transformação em Bonos Global Quais são os objetivos de uma auditoria? da equatoriana foi um importante passo no sentido
em 2000. A dívida externa comercial equatoriana A auditoria deve abranger um período estabe- de retomar a soberania financeira, mas para reaver
atual é fruto de sucessivas conversões equivocadas lecido e ter objetivos claros. No caso equatoriano, sua moeda o país ainda terá que dar muitos outros
de uma mesma dívida que foi crescendo em função o prazo estabelecido foi de trinta anos – 1976 a passos. Historicamente o Equador teve uma classe
da alta de juros internacionais, assunção de dívidas 2006 – e os principais objetivos foram os seguintes: dirigente que governou o país para interesses ex-
pelo Estado, por seu valor nominal integral, inclu- 1) Efetuar uma auditoria integral dirigida a exami- ternos e não para povo equatoriano, por isso che-
sive, dívidas privadas, processo que no Equador se nar e avaliar o processo de endividamento público garam a comprometer gravemente a soberania do
denominou “Sucretización”. com a finalidade de determinar sua legitimidade, le- país, como se verifica no caso da moeda, do endi-
galidade, transparência, qualidade, eficácia e efici- vidamento ilegítimo e das negociações do petróleo,
Qual a relação com a dívida brasileira? ência, além dos impactos econômicos e sociais. 2) sua principal matéria-prima. Creio que a questão
O endividamento externo comercial do Brasil se- Efetuar periodicamente relatórios nos quais cons- da moeda deverá ser enfrentada, até por conta da
guiu passos idênticos, verificando-se a coincidência tem os avanços obtidos, com as recomendações e atual crise financeira mundial e seu impacto sobre
de datas, nomes dos convênios e dos títulos da dí- sugestões que considerem pertinentes, e um rela- o dólar. A sociedade deverá participar desse deba-
vida, termos e condições estabelecidas nos diversos tório final com conclusões, determinando as res- te, pois grande parte da população guarda recorda-
contratos, além de interferência expressa do FMI; pectivas responsabilidades. 3) Propor normas e po- ções traumáticas do período em que o sucre (mo-
enfim, quando analisava os documentos do endivi- líticas públicas orientadas a fortalecer a auditoria eda equatoriana) passou por forte desvalorização,
damento equatoriano parecia que estava lendo os sobre os créditos públicos como função permanen- em virtude de inflação galopante, e por isso acredi-
mesmos documentos aos quais já tivemos acesso no te do Estado. ta que estaria mais segura com o dólar, o que não
Brasil durante os trabalhos da Auditoria Cidadã da é bem verdade.
Dívida. Diante de tantas semelhanças, o ideal é que Como foi feita a apuração da dívida
os demais países também realizem auditoria de suas do Equador? O jornal O Globo a acusou de ter participado de
dívidas públicas, pois o endividamento tem sido um Com a finalidade de cumprir a delegação enco- uma comissão que estava ajudando “a preparar
mecanismo contínuo, utilizado para sugar nossas mendada pelo presidente do Equador, a CAIC rea- a tese do calote” contra o Brasil. Depois houve
riquezas e travar o desenvolvimento do nosso con- lizou exames de livros e documentos contábeis no um desentendimento entre Equador e Brasil
tinente. Várias iniciativas estão se conformando a Ministério de Finanças, Banco Central do Equador sobre uma obra da construtora Odebrecht.
partir do primeiro passo dado pelo presidente Rafa- e outros registros e documentos disponíveis na Pro- Afinal, quem devia ao BNDES: o governo do
el Correa: o Paraguai já está realizando uma inves- curadoria Geral do Estado, Controladoria Geral da Equador ou a Odebrecht?
tigação oficial sobre sua dívida externa, e na últi- Nação e Congresso Nacional. Ante as graves defici- Com relação a esse fato, é interessante resga-
ma reunião da ALBA (Alternativa Bolivariana para ências de controle interno, a CAIC investigou tam- tar trecho de matéria publicada pelo jornal Folha
os Povos de Nossa América), em novembro de 2008, bém outros registros históricos existentes em livros, de S.Paulo na qual a ministra Dilma Rousseff re-
Venezuela e Bolívia também anunciaram a inten- publicações e páginas da web, com o objetivo de pete afirmação do presidente Lula de que o BN-
ção de fazer a auditoria integral de suas dívidas. buscar evidências de vinculações, conjunturas, si- DES não fez empréstimo ao Equador: “O presiden-
O Brasil poderia estar em outro patamar de justiça tuação de firmas e entidades financeiras envolvi- te Luiz Inácio Lula da Silva já disse que o BNDES
social e desenvolvimento econômico se a auditoria das nas negociações da dívida externa equatoriana. não tem relação com o Equador, o banco não em-
da dívida prevista na Constituição Federal de 1988 O resumo executivo do relatório da CAIC e outros prestou o dinheiro para o Equador, mas para a em-
tivesse sido realizada. É uma lástima que nenhum documentos sobre o processo histórico desenvolvi- presa. Não vamos complicar mais a situação”. Essa
dos governos, nesses 20 anos, tenha respeitado esse do no Equador estão disponíveis na página da Au- mesma afirmação da ministra foi publicada também
preceito fundamental. ditoria Cidadã da Dívida no endereço www.divida- no site da BBC Brasil. Conforme amplamente divul-
gado pela imprensa equatoriana, a obra questiona-
da custou mais que o dobro do previsto, e a usina
hidrelétrica funcionou poucos meses e parou, ten-
“O acúmulo de reservas cambiais não significou o “fim” do apresentado sérios problemas técnicos e ambien-
da dívida externa, mas a troca de dívida externa por tais. Matéria irresponsável veiculada pelo jornal O
Globo dá uma versão totalmente distorcida dos fa-
dívida interna a juros altíssimos e prazos muito curtos”. tos, vinculando a realização da auditoria à prepara-
ção de um calote contra o Brasil que nunca existiu,
pois, embora não tenha recebido os recursos e este-

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13
ja efetivamente enfrentando uma disputa comercial
em corte de arbitragem internacional, o governo do
Equador efetuou o pagamento da parcela vencida
em dezembro de 2008, de US$ 28,1 milhões ao BN-
DES. Além disso, a matéria distorce totalmente o
trabalho que realizei no Equador, restrito à subco-
missão de dívida comercial e relacionado com a in-
vestigação de dívida externa com bancos privados
internacionais. A investigação relacionada ao caso
Odebrecht foi objeto da subcomissão de dívida bi-
lateral, da qual não participei.

O presidente do Paraguai, Fernando Lugo, já


anunciou que pretende auditar a dívida do seu
país. A alegação do novo governo é a de que
a dívida contraída com a construção de Itaipu
é ilegítima. O que é uma dívida ilegítima?
Existem várias definições sobre ilegitimidade
da dívida, porém os diferentes enfoques coincidem
quanto à determinação da ilegitimidade das dívidas
odiosas (contraídas por ditaduras militares). Em re-
sumo, a jurisprudência existente sobre o tema con-
sidera ilegítimas as dívidas marcadas por fraude e
corrupção na origem da dívida; termos e cláusu-
las abusivas nos contratos de empréstimos; contra-
tação por governos ilegítimos ou por meio de pro-
cedimentos irregulares; ausência de benefícios ou
contrapartida positiva para a população. Segundo o
cientista social inglês Joseph Hanlon, por exemplo,
quatro condições caracterizam uma dívida como
ilegítima: um empréstimo concedido para reforçar
um regime ditatorial (empréstimo inaceitável), um
empréstimo contraído com juros elevados que po-
dem ser caracterizados como usura (condições ina-
ceitáveis), um empréstimo concedido a um país de
que se conhece a escassa capacidade de reembolso rente à construção da usina. Essa dívida de Itaipu do orçamento federal brasileiro foi destinado ao pa-
(empréstimo inadequado) e, por último, um emprés- possui muitas ilegitimidades, que devem ser inves- gamento da dívida, enquanto os gastos com saúde
timo repleto de condições impostas pelo FMI, que tigadas pela auditoria. A primeira delas refere-se ao foram de 4,81%, com educação, 2,57%, e com re-
geram uma situação econômica que aumente as di- imenso sobrepreço da obra, inicialmente orçada em forma agrária, 0,27%.
ficuldades de reembolso (condições inadequadas). US$ 2 bilhões e que acabou custando US$ 20 bilhões,
Com relação ao Paraguai, de fato, recentemente o ou seja, 10 vezes mais. Outra ilegitimidade é a alta É correto afirmar que a questão da dívida é
governo anunciou sua intenção de também realizar taxa de juros e a atualização monetária que incidiu uma luta política em vez de econômica?
auditoria de sua dívida externa, composta princi- por décadas sobre o estoque dessa dívida: 7,5% ao Além de política e econômica, é também uma
palmente do endividamento com o Brasil, referente ano mais a inflação norte-americana. Como resulta- luta jurídica. De acordo com o artigo 62 da Con-
à construção da usina hidrelétrica de Itaipu. O mais do disso, até hoje Itaipu pagou de serviço desta dívi- venção de Viena sobre o Direito dos Tratados, é
importante com relação a esse fato é que essa au- da US$ 25 bilhões, ou seja, 12 vezes seu custo orça- permitido a qualquer país questionar um contra-
ditoria deverá beneficiar também o Brasil, pois os do inicial, e ainda assim a dívida hoje está em quase to, caso as condições vigentes quando de sua assi-
dois países estão sendo sacrificados por um meca- US$ 20 bilhões! Caso não se altere esta situação, Itai- natura sofram alterações significativas. Mais ain-
nismo que favorece somente os rentistas. pu pagará ao todo US$ 63 bilhões por uma obra que da quando essa alteração nas condições parte de
deveria ter custado US$ 2 bilhões! uma iniciativa dos próprios credores, que eleva-
Qual é a situação da usina de Itaipu? ram as taxas de juros de 5% ao ano (em meados
Itaipu é uma empresa binacional composta de O que deve ser feito sobre a dívida de Itaipu? dos anos 70) para até 20,5% ao ano, no início dos
50% de participação da empresa ANDE (do Para- A grande parte da imprensa brasileira que de- anos 80. Essa alta unilateral das taxas de juros
guai) e 50% da Eletrobrás (Brasil), e tinha uma dívi- fende interesses financeiros diz que no caso de uma provocou a multiplicação da dívida por ela mes-
da de US$ 19,5 bilhões, ao final de 2007. Destes US$ eventual anulação da dívida de Itaipu com a Ele- ma, provocando aumento absurdo no volume do
19,5 bilhões, 57,3% são devidos ao Tesouro Brasilei- trobrás e o Tesouro brasileiro, “o povo brasileiro serviço da dívida externa de todos os países que
ro, 42,5% à Eletrobrás e 0,2% a outros emprestado- vai pagar pela dívida do Paraguai”. Esse argumen- caíram na armadilha do endividamento “barato”
res. Portanto, na prática, o Paraguai – por meio de to é equivocado, pois os recursos pagos por Itaipu dos anos 70, denominado “endividamento agressi-
sua participação de 50% da empresa Itaipu – possui ao Brasil são destinados, principalmente, para o pa- vo” dado o volume de empréstimos registrados no
uma dívida com o Brasil. Esta dívida tem sido paga, gamento da dívida interna e externa do Brasil, até período. Portanto, é perfeitamente legítimo e le-
em última instância, pela sociedade paraguaia e bra- hoje não auditada, como determina a Constituição gal o questionamento dessa dívida. Caso o Federal
sileira, quando quita a conta de luz, cujos recursos Federal de 1988. Portanto, a dívida de Itaipu tem Reserve dos EUA (cuja administração é composta
são destinados a cobrir o custo de geração de ener- sido um mecanismo que alimenta o endividamen- dos principais bancos privados norte-americanos)
gia de Itaipu. E o principal componente desse cus- to e que em nada beneficia o povo, mas os rentistas não tivesse promovido essa multiplicação dos ju-
to é o pagamento da dívida junto ao Brasil, refe- nacionais e internacionais. Em 2008, mais de 30% ros, tanto a dívida brasileira como a equatoriana

14 caros amigos julho 2009


já estariam pagas, e o que pagamos a mais nos da- precariedade do sistema monetário
ria um crédito maior que a dívida atual, reclamada internacional. Poderiam ser identificadas
pelos bancos privados internacionais. relações diretas entre a crise financeira e o
processo de endividamento? Como a auditoria
O governo Lula anunciou o fim do pode ajudar neste momento de crise?
endividamento externo do Brasil, mas ocorreu A primeira relação direta que pode ser feita en-
um brutal crescimento do endividamento tre a crise financeira e o processo de endividamento
público. Como se deu esse processo de é que ambos tiveram como principais protagonistas
“internalização” da dívida e o que significa os mesmos grandes bancos privados internacionais.
de fato o Brasil ter se tornado “credor A investigação que realizei no Equador, na subco-
internacional”? missão de auditoria da dívida externa com ban-
Em primeiro lugar, é preciso ressaltar que os da- cos privados internacionais, comprovou que nos 30
dos divulgados pelo governo e pela grande mídia anos analisados os bancos privados responsáveis
costumam ser manipulados, excluindo parcelas im- pelas sucessivas renegociações eivadas de ilegitimi-
portantes das dívidas externa e interna. Ao final dades e ilegalidades se concentraram em seis gran-
de 2008, a dívida interna atingiu a cifra de R$ 1,6 des instituições norte-americanas e inglesas que,
trilhão, enquanto a dívida externa alcançou US$ com o tempo, devido a fusões entre elas, hoje se re-

useacuca.com.br
267 bilhões, números bem maiores que os divulga- sumem a apenas três! Além disso, o ponto de parti-
dos pelo governo. O governo recentemente alegou da do endividamento com esses bancos se originou
que o país se tornou “credor externo” pelo fato de ainda na década de 70, durante a ditadura militar,
o volume das reservas cambiais ter superado o es- quando se emitiram grandes quantidades de papéis
toque da dívida externa pública. O que o governo sem lastro e extremamente desvalorizados no mer-
não divulga é que tais reservas foram acumuladas cado secundário (“pagares”). Em 1983 esses papéis
ao mesmo tempo em que a dívida interna cresceu foram assumidos pelo Banco Central equatoriano
aceleradamente. Isso ocorreu porque durante o pe- por seu valor de face integral, criando uma amar-
ríodo em que o dólar se desvalorizava fortemente ra que impediu o desenvolvimento do país desde
frente ao real, o governo brasileiro permitiu a en- então. A principal causa da atual crise financei-
trada indiscriminada de dólares no país para a com- ra é também a emissão de grandes quantidades de
pra de títulos da dívida interna. Os especuladores papéis sem lastro, carinhosamente chamados pela C

buscavam, além da proteção contra a desvaloriza- grande imprensa de “ativos tóxicos”, que uma vez M

ção do dólar, a maior remuneração por meio das mais estão sendo assumidos pelo Estado para “sal- Y

taxas de juros mais elevadas do mundo, com isen- var” as instituições financeiras desse prejuízo. CM

ção de impostos para estrangeiros e total liberdade


E como se dá essa relação no Brasil?
MY

de movimentação. Essa combinação de fatores ex-


tremamente danosos à economia do Brasil, mas al- No Brasil, essa prática pode ser evidenciada por CY

tamente rentáveis para os especuladores, provocou meio da recente Medida Provisória nº. 442, que per- CMY

uma avalanche de dólares ao Brasil. Rapidamente mitiu que os bancos privados passassem a depositar K

acumulamos US$ 200 bilhões de reservas interna- garantias podres em troca de empréstimos concedi-
cionais e a dívida interna explodiu, tendo crescido dos pelo Banco Central, o que na verdade significa
50% nos últimos três anos! a transferência de prejuízos privados ao setor públi-
co, que ao final serão arcadas por todos nós. Isso re-
Qual o custo dessa política para o Brasil? presenta uma infâmia, pois nos últimos anos os lu-
Esse acúmulo de reservas internacionais repre- cros do setor financeiro privado, no Brasil, atingiram
sentou um custo altíssimo para o país, que ficou níveis espantosos, e tais lucros nunca foram sociali-
com grande quantidade de dólares (em queda!), que zados. Por um lado, o governo salva bancos e gran-
foram direcionados pelo Banco Central para as re- des construtoras (MPs 443 e 445, além da 442 e 450),
servas internacionais, que são, em sua maioria, re- beneficia os rentistas estrangeiros (com isenção de IR
vertidas na compra de títulos do tesouro norte-ame- desde 2006) e os grandes aplicadores nacionais (re-
ricano, que não remuneram quase nada. Por outro dução de IR sobre aplicações de renda fixa) e decla-
lado, só em 2007 os especuladores ganharam 30% ra que “é chique emprestar ao FMI”. Por outro lado, o
livre de impostos em suas aplicações em títulos da governo anunciou que passará a tributar rendimentos
dívida interna brasileira! Desta forma, o acúmulo de de poupança acima de R$ 50 mil; tem reduzido os re-
reservas cambiais não significou o “fim” da dívi- passes a Estados e municípios, provocando o sucatea-
da externa, mas a troca de dívida externa por dívi- mento ainda maior dos serviços de saúde e educação,
da interna a juros altíssimos e prazos muito curtos, entre outros; e sua base aliada no Congresso tem adia-
além de um forte endividamento externo dos bancos do continuamente a análise do veto presidencial ao
e empresas nacionais, que especularam com o dólar reajuste dos aposentados. Enfim, declarou que “não é
e compraram títulos da dívida interna. Longe de ter hora de trabalhador pedir aumento”. Verifica-se, por-
virado “credor”, o país está, na realidade, proporcio- tanto, que os trabalhadores estão pagando a conta da
nando um negócio altamente rentável para os espe- crise e os bancos protagonistas dela estão sendo sal-
culadores, ao mesmo tempo em que sacrifica a socie- vos e ainda levando vantagem, devido à estreita rela-
dade brasileira com a subtração da maior parte dos ção entre a atuação dos bancos e a contínua rolagem
recursos orçamentários que têm sido destinados a fi- da dívida interna brasileira. A auditoria da dívida po-
nanciar essa verdadeira “farra”! deria prestar um grande serviço neste momento, reve-
A atual crise econômica escancara a lando toda a verdade sobre esse questionável proces-

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15
so de endividamento que tem servido de justificativa Ivan Valente
para medidas oficiais que beneficiam unicamente os

O gargalo
bancos e as grandes corporações, em detrimento do
conjunto da sociedade brasileira, que tem pago alto
preço por essa política econômica equivocada, tradu-
zida em desemprego, violência, sucateamento de ser-
viços públicos e elevada carga tributária.

Recentemente o Ministério da Fazenda


anunciou a redução da meta de superávit
primário, para 2009, a fim de conter os
do desenvolvimento no Brasil
efeitos da crise. Isso pode significar alguma
possibilidade de aumento dos gastos sociais?
O governo anunciou a redução da meta de su- Em fevereiro de 2008, apresentamos Esse quadro é esclarecedor para se entender o
perávit primário para 2009, de 3,8% para 2,5% do à Câmara Federal o pedido de Comissão Parlamen- impacto dessa lógica na política econômica que se-
Produto Interno Bruto, sugerindo que haveria R$ 40 tar de Inquérito (CPI) para investigar a dívida pú- guiu o receituário do FMI. Para atender às exigên-
bilhões a mais para gastar neste ano. Porém, na prá- blica da União, Estados e municípios. Em dezem- cias crescentes dos compromissos com o pagamen-
tica, tal mudança não significa que o gasto social bro do ano passado, finalmente ela foi autorizada, to da dívida, o superávit já chegou a atingir 6%
será aumentado, muito menos que os gastos com a e só agora líderes partidários começam a indicar os do PIB em um ano. Dentro dessa lógica, o país vive
dívida serão reduzidos. O que ocorrerá, na prática, nomes de parlamentares para seu funcionamento, comprando credibilidade junto ao setor financei-
é que o governo utilizará outras fontes de recursos ro, acenando com mais privatizações, isenções es-
num processo lento, que parece desconhecer a ur-
para pagar a dívida, tais como a emissão de mais tí-
gência e relevância da iniciativa ou tem a intenção drúxulas e nenhum controle sobre o fluxo de capi-
tulos ou o lucro do Banco Central de 2008. Ou seja:
quando o Banco Central tem prejuízo, este é cober- de boicotá-la. A centralidade política desta ques- tais. Ao mesmo tempo, os governos incorporam a
to pelo Tesouro. E quando tem lucro, o dinheiro vai tão, que já era clara, agora ficou superevidenciada lógica do encolhimento de recursos para a área so-
para o pagamento da dívida. Na realidade haverá a com a impactante crise econômica que vivemos. cial, sucateamento dos serviços públicos e enxuga-
manutenção dos gastos sociais programados, já re- A dependência financeira de crédito num siste- mento da máquina pública. Pagar a dívida, mesmo
duzidos pelos cortes orçamentários de R$ 21 bilhões ma interconectado tem como pedra angular a dí- que ilegal, ilegítima e imoral, tornou-se algo reli-
feitos anteriormente. Por outro lado, os gastos com a vida pública. É por ela que o Brasil sofre uma he- gioso, sem questionamentos.
dívida continuarão intocáveis, mesmo já tendo con- Agora, com a crise, os lobbies econômicos parti-
morragia brutal nas suas finanças públicas, com o
sumido, em 2009 mais de R$ 207 bilhões somen-
pagamento de juros, amortizações e rolagem da dí- ram para um ataque aos recursos públicos. São pe-
te até 4 de abril (incluindo a chamada “rolagem”), o
que representa cinco vezes os gastos com servido- vida com recursos orçamentários e a emissão de tí- didos de refinanciamento de dívidas, empréstimos
res, 18 vezes o gasto com a saúde, 40 vezes os gas- tulos públicos. Trata-se de um sistema que se re- subsidiados, financiamento de exportação, isenções
tos com a educação ou 1.210 vezes o gasto com re- troalimenta e inviabiliza qualquer desenvolvimento fiscais etc. Para fazer frente à demanda por recur-
forma agrária. O próprio Banco Central admite que soberano, sustentável e com justiça social. sos, o governo ao invés de aplicar mecanismos que
o governo conseguirá cumprir a meta de superávit Tomando como referência apenas os governos estanquem o sangramento do pagamento da dívi-
primário anterior, de 3,8% do PIB, no primeiro qua- dos dois últimos presidentes brasileiros, a dívida da, edita medidas provisórias liberando a emissão
drimestre de 2009. interna aumentou 17 vezes. No começo do governo de títulos públicos.
FHC (janeiro de 95), a dívida interna era de R$ 61,8 A instalação imediata da CPI da Dívida Pública
Em dezembro do ano passado foi criada a
bilhões. Em dezembro de 2002, estava em R$ 687,3 será, portanto, um poderoso instrumento de escla-
CPI da Dívida, por iniciativa do deputado
federal Ivan Valente, do PSOL-SP. A CPI pode bilhões. Em janeiro deste ano, no governo Lula, ela recimento, denúncia e propostas para superar esse
esclarecer a situação da dívida? atingiu a cifra de R$ 1 trilhão seiscentos e oiten- modelo perverso. Permitirá desmistificar tabus como
A criação da CPI ainda não significa o cumpri- ta e dois bilhões de reais. No tocante à dívida ex- a necessidade de uma auditoria da dívida, como pre-
mento da Constituição, mas representa um impor- terna acumulada ao longo dos anos, irregularidades vê a Constituição Federal. Por outro lado, vai mos-
tante passo na investigação do processo de endi- e uma postura submissa tornam grande parte des- trar a ilegalidade cometida e os responsáveis por ta-
vidamento. Por isso, iniciamos a mobilização pela sa dívida ilegal. Em janeiro de 2009, seu total era manha iniqüidade contra o povo brasileiro.
efetiva instalação da CPI da Dívida desde o Fórum A CPI vem no trilho do plebiscito feito nas ruas
de US$ 262,93 bilhões, incluindo a dívida privada
Social Mundial de 2009, em Belém, num seminário
(uma vez que a oferta de dólares para o seu paga- no ano 2000, pelos movimentos sociais, igreja,
que contou com a participação de mais de 500 pes-
soas. Para que essa CPI tenha êxito, será necessá- mento é de responsabilidade do governo). MST e partidos de esquerda, em que quase seis mi-
rio que a sociedade exija dos parlamentares de cada Estes são os números brutos da dívida. Mas neste lhões de brasileiros se pronunciaram e mais de 90%
partido a imediata indicação dos membros para sua mesmo período o governo federal gastou R$ 906 bi- apoiaram a suspensão do pagamento da dívida. Es-
efetiva instalação. Em seguida, que acompanhem de lhões com juros e R$ 879 bilhões com amortizações. peramos que o funcionamento CPI seja um gancho
perto este processo, participando das reuniões da CPI Nesses monumentais montantes não estão incluídos para mobilizações que transformem em conquis-
e cobrando dos parlamentares a utilização de todas R$ 3,77 trilhões de refinanciamento ou rolagem da ta dos trabalhadores e do povo brasileiro o en-
as suas prerrogativas de acesso a qualquer informa- frentamento desta questão. A auditoria da dívi-
dívida através da emissão de títulos públicos. Mes-
ção acerca do endividamento e de envio à Justiça
mo com todos estes pagamentos e apesar do masca- da externa do Equador é um exemplo de como um
das denúncias referentes às ilegalidades encontra-
das. O povo brasileiro, que está pagando muito caro ramento da dívida externa pelo aumento das reser- país pode exercer sua soberania, com total apoio
por essa dívida, tem o direito à verdade sobre esse vas internacionais do país, a dívida interna explodiu dos movimentos populares. É hora de o Brasil fa-
processo e, para isso, terá que se mobilizar. e a dívida externa continua crescendo. Somente em zer o mesmo.
2008, o país desembolsou 30,57% de seu orçamen-
Max Gimenes é estudante de Ciências Sociais. to com juros e amortizações. Ivan Valente é deputado federal do PSOL-SP.

16 caros amigos julho 2009


Memórias De um jornalista
não-investigativo Ana Miranda
Renato Pompeu

O pequeno
“Eu sou do tempo que piloto
a escritora e jornalista
Patrícia Galvão (Pagu) Um menino de dez anos, a coisa mais
ditava suas matérias linda, olhar meigo e inteligente, cabelinhos espe-
a um datilógrafo, na tados, roupa de piloto de carro e capacete ao lado,
aparece numa foto do jornal daqui, no meio de
Agência France-Presse, caixotes de papelão da CBA Alimentos. São ces-
porque naquela época tas básicas. Ele é Anderson Lima, piloto de kart
competitivo, atual líder do circuito local. No ano
não era obrigatório que
passado foi o vice-campeão, mesmo tendo a idade
o jornalista soubesse mínima da sua categoria, que é de dez a 14 anos.
escrever a máquina.” Sabendo que a maioria das crianças não tem as
mesmas oportunidades, sonhou abrir o autódro-
mo para que todas pudessem acompanhar as cor-
ridas, ou seja, queria dividir com as crianças aqui-
lo de que ele mais gosta. As crianças iriam adorar.
Mas não deu certo. Porém Anderson não desistiu,
Suriname: visita e talvez orientado por seus maravilhosos educa-

ou intervenção? dores, talvez movido por algum exemplo fami-


liar, talvez por simplesmente ter nascido com essa
Em 1982-1983 trabalhei na Agência Uni- alma generosa e boa, comovido pelas cenas de
ted Press International, a falecida UPI. A cer- crianças de rua, crianças com fome, Anderson teve
ta altura, a mídia em geral no Brasil publicou a ideia de ajudar com alimentos. E cada ponto que
que uma missão militar do comando brasilei-
ele ganha em campeonato se converte numa ces-
ro da Amazônia estava visitando o Suriname. Por coincidência, alguns anos depois, fui
No entanto, a UPI distribuía no Brasil, para o fazer ginástica numa academia em São Pau- ta básica. Numa das etapas ganhou onze pontos,
Diário Popular de São Paulo (hoje Diário de lo, e o instrutor, ao saber que eu era jornalis- e mandou onze cestas para os refugiados das en-
São Paulo) e para um jornal de Curitiba, a co- ta, me procurou e me contou que tinha servi- chentes. Antes, foram nove pontos e nove ces-
luna do jornalista americano Jack Anderson, do o Exército na Amazônia e que participara tas para crianças em um hospital. Mais onze ces-
Washington Merry Go-Round (“O Carrossel de de uma intervenção de tropas brasileiras no tas para um lar de idosos. Vencedor nato, dotado
Washington”), publicada numa cadeia de jor- Suriname, segundo ele a pedido do governo de um raro espírito público, ele declarou: “que-
nais, o principal deles o The Washington Post. do país, para combater guerrilheiros surina- ro vencer mais para ajudar mais. Vou sempre fa-
Certo dia, numa curta nota, Anderson comu- meses antigovernamentais. Contou ainda mais
zer as doações. Queria que as outras pessoas tam-
nicou que tropas brasileiras tinham intervindo que tinham morrido uns 30 brasileiros nesses
no Suriname e cercado a capital, Paramaribo. combates, e como a operação era secreta, os bém ajudassem.”
Não trazia mais detalhes, mas, além de enviar caixões foram enviados às famílias com a in- Em meio a toda essa meninada
a coluna aos dois jornais que eram seus clien- formação de que cada militar tinha morrido em valente do esporte, Anderson já viajou
tes, também comuniquei o fato a colegas dos acidentes em manobras em diferentes regiões pelo Brasil disputando campeonatos, já enviou re-
grandes jornais de São Paulo e do Rio, para da Amazônia. portagem sobre o circuito de Caruaru, muito bem
que buscassem apurar o assunto. Não tive ne- O dono da academia, entretanto, não queria escrita, nem parece que foi ele. E já protagonizou
nhum retorno. aparecer em público e eu fiquei desconfiado de um brilhante duelo na pista. Meu Deus, imagino o
Pouco depois, um correspondente da Rádio que ele era um provocador. Comuniquei tudo à Ilustração: Debora Borba/deboraborba@gmail.com
meu netinho de nove anos, pilotando, uma crian-
da Holanda (o Suriname é a antiga Guiana Ho- minha chefia na Folha de São Paulo, onde en-
ça! Mas, pensando bem, esses meninos devem di-
landesa), visitou várias redações em São Pau- tão eu trabalhava, de 1983 a 1985. Como um
lo para saber se havia informações sobre a in- jornalista da cúpula da Folha ia para Washing- rigir muito melhor do que eu....
tervenção de tropas brasileiras no Suriname. ton, ficou de verificar com o Washington Post.
Quando ele foi à UPI, eu o informei a respeito Voltou dizendo que não encontrara nada, nem
da nota de Jack Anderson. A coisa, que eu sai- a nota do Jack Anderson. Ana Miranda é escritora, autora de Boca do Inferno,
ba, ficou por aí. Voltei a falar com vários cole- O que será que aconteceu? Desmundo, Dias & Dias, e outros romances, editados
gas, já que eu mesmo, como jornalista não-in- pela Companhia das Letras. Suas crônicas estão reu-
vestigativo, não saberia como fazer a apuração Renato Pompeu é jornalista e escritor. nidas no volume Deus-dará, da Editora Casa Amarela.
de um caso desses. rrpompeu@uol.com.br amliteratura@hotmail.com

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João Pedro Stedile Eduardo Matarazzo Suplicy

A crise, a agricultura A Ave Poesia


e a ofensiva do do Patativa do Assaré
capital internacional e Garapa
O mundo está vivendo mais uma crise sistêmica do Os filmes A Ave Poesia do Patativa do Assaré, de Rosemberg Ariry,
capitalismo. É a terceira, desde o surgimento do capitalismo industrial. e Garapa, de José Padilha, são duas produções que levam o espectador a
Houve uma grande crise nas décadas de 1870-1890 que atingiu ape- uma reflexão mais profunda sobre a pobreza e a liberdade de expressão.
nas a Europa capitalista. Depois, a segunda em 1929-45, que atingiu O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, aos sete anos, deixou Garanhuns com
todo o hemisfério norte. E agora, estamos diante da terceira, que re- destino ao Guarujá em São Paulo, numa típica situação observada por um po-
cém se inicia e atinge a todos os países do mundo, na fase do capita- eta que tão bem captou a sina dos nordestinos. Um dia, o sertanejo Luiz Gon-
lismo globalizado. zaga ouviu no rádio, no interior da Paraíba, uma canção que achou muito bo-
As crises sistêmicas, que abrangem todo sistema são mais nita. Resolveu ir até Assaré, no Ceará, conversar com seu autor, Patativa:
prolongadas e profundas do que as crises cíclicas, que afetam separa- - “Você quer me vender essa música?”
damente as economias nacionais ou determinado ramo da produção. O - “Meu mundo é a minha poesia, minha família e eu não vendo direi-
Brasil viveu várias crises cíclicas ao longo do século XX, a ultima foi no to autoral por preço nenhum. Mas se você quiser cantá-la vou ficar mui-
segundo mandato do Governo FHC. Todas foram curtas e atingiam com to honrado”.
mais força alguns setores da economia. E faz parte da lógica das crises A partir, daí Luiz Gonzaga passou a cantar Triste Partida:
prolongadas que elas afetem de maneira diferenciada cada economia.
Alguns paises enfrentam depressão, que é a queda brusca dos níveis de “Eu vendo meu burro
produção. Outros enfrentam a recessão, que é a queda paulatina duran- Meu jegue, meu cavalo.
te anos, dos níveis de produção. E há outros que enfrentam a estagna- Nós vamos a São Paulo
ção. Que é um movimento ondular de pequenas quedas, retomadas de Viver ou morrer
crescimento e novas quedas. Parece ser o caso da economia brasileira, e Pois logo aparece
também das outras grandes economias da Rússia, Índia, e China. Feliz fazendeiro
É nos períodos de crise, que os capitalistas voltam a de- Por pouco dinheiro
fender o papel do estado. Sempre usam o estado como poder para reu- Lhe compra o que tem
nir os recursos de toda população e repassar a eles. Por isso, os perío- Meu Deus, meu Deus.
dos de crise são também de grande reconcentração da riqueza. Faz pena o nortista,
No caso brasileiro, a produção do agronegócio subordinado Tão forte e tão bravo,
às transnacionais, a taxa de lucro no campo, as vendas e os preços no Viver como escravo,
mercado externo, o preço das terras agrícolas - tudo caiu. Os agrocapi- No norte ou no sul”.
talistas intensificaram as pressões para que o estado brasileiro liberas-
se recursos. A produção pro mercado externo é totalmente dependente As músicas cantadas pelos jovens das grandes me-
de crédito, do capital financeiro. Para produzir um PIB agrícola ao re- trópoles brasileiras, a exemplo do rap O Homem na Estrada, de Mano Bro-
dor de 120 bilhões de reais, pediram e levaram ao redor de 97 bilhões wn e dos Racionais, indicam que, mesmo meio século depois, o grau de li-
de reais do governo, em financiamento. A agricultura familiar produz berdade dos seres humanos, para muitos, é ainda limitado.
quase 80 bilhões, mas vai levar apenas 9 bilhões de crédito. O filme Garapa, de José Padilha, mostra uma realidade que in-
As transnacionais, mais agressivas, conhecem a teoria de felizmente ainda perdura em nosso país: o quotidiano de três famílias po-
Rosa Luxemburg, de que, com pouco trabalho humano, os recursos natu- bres no Ceará. Todas lutam, em sua batalha diária, para conseguir como se
rais, mercadorias de alto preço, rendem altas taxas de lucro na retomada alimentar diante de extrema escassez.
do ciclo. Aumentaram a pressão para controlar as sementes transgêni- “A fome é um ronco no estômago, uma correria para
cas e as fontes de água, a energia e os rios nas hidrelétricas, as reser- esquentar o leite que resta para três crianças que choram, uma casa sem
vas do pré-sal (e a CPI da Petrobras é um teatrinho para isso). As fazen- móveis, é uma roupa puída, um chinelo gasto, uma parede para pintar, são
das compradas pelo Banco Opportunity, do testa-de-ferro estadunidense crianças sem escola”, como diz Padilha que, em 2005, por um mês filmou
Daniel Dantas, com seus 600 mil hectares, estão todas em cima de re- a vida destas famílias. Quando a criança acorda na rede, a mãe lhe traz a
servas minerais. Aumentaram a pressão sobre a propriedade das terras da mamadeira que, em vez de leite, tem garapa quente (água com açúcar).
Amazônia, com a MP 458, e o controle sobre usinas de álcool e expor- Depois de assistir ao filme, temos que concordar com Jo-
tação do etanol. sué de Castro, o autor de Geografia da Fome e de Geopolítica da Fome, dos
Oxalá o povo brasileiro desperte. anos 40 e 50. Erradicar a fome e a pobreza absoluta está inteiramente em
nossas mãos. Precisamos nos empenhar muito mais para conseguir.
João Pedro Stedile, membro da coordenação nacional do MST e da via
campesina Brasil. Eduardo Matarazzo Suplicy é senador.

18 caros amigos julho 2009


entrelinhas
a mídia como ela é Cesar Cardoso
Hamilton Octavio de Souza

Temporariamentes
Lição da Petrobras Eu sabia por que se chama ca-
Constantemente atacada pela direita, em es- rioca da gema quem nasce no Rio, sabia a es-
pecial pela grande imprensa neoliberal, a Petro- calação de Fluminense e Bangu na final de 64,
bras reagiu com inteligência: construiu um blog e sabia o que quer dizer blue moon. Mas pela ma-
passou a veicular na Internet o conteúdo integral nhã ao acordar fui acertar o relógio, os pontei-
– perguntas e respostas – das entrevistas feitas ros me acertaram primeiro e esqueci tudo isso.
com seus diretores e funcionários. Em princípio
Do que ainda lembro? Da emoção do primeiro
uma medida de transparência e sentido público,
que ao mesmo tempo serve para desmascarar as caderno encapado com papel de seda azul. Ah,
manipulações sorrateiras dos principais jornais e sim! Me lembro que o homem aprendeu a voar
revistas. Claro, as empresas jornalísticas caíram com Santos Dumont e a mulher com Fred Astai-
de pau na Petrobras com os argumentos mais es- re. Ou terá sido ao contrário? O muro de Ber-
tapafúrdios do mundo. A estatal recuou, mas dei- lim, o império romano, as torres gêmeas, Teresi-
xou sinalizado o que mais assusta o oligopólio nha de Jesus. Quem desses reconheceu a queda
da distorção. e não desanimou? Quem levantou, sacudiu a po-
eira e deu a volta por cima? Que praga destruiu
LUTA PELA TERRA
Os jornalistas do Coletivo Catarse, de Por- a primavera de Praga?
to Alegre, produziram uma excelente reporta- Tudo tão difícil. A memória vem do la-
gem cinematográfica sobre os 25 anos do Mo- tim, sim, mas vai para onde? Quantas vezes por
vimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra dia é preciso morrer pra continuar vivo? Quantas
(MST), comemorados em Sarandi, no Rio Gran- memórias precisamos perder? Em que tempo?
de do Sul, onde os assentamentos da Fazenda Um ano, por exemplo. O intervalo de tem-
Anoni se transformaram em modelos produtivos po correspondente a uma revolução da terra em
da reforma agrária. Quem tiver interesse no do-
torno do sol. Ou bissexto ou letivo ou lunar. Tal-
cumentário é só entrar em contato com catar- INVERSÃO DOS FATOS
vez o tempo de gestação das girafas, de se fechar
se@coletivocatarse.com.br ou pelo telefone (51) A Polícia Militar foi chamada pela reitoria da
3012-5509. Vale a pena ver. USP, invadiu o campus da Cidade Universitária e balancetes, de se parir e embalar Mateus.
reprimiu com violência uma manifestação legí- Mas em alguma dobra da me-
FLAGRANTE DELITO tima e democrática de estudantes, professores e mória, que é o nosso tempo, existe um certo
O jornal Campus, da Universidade de Brasília, funcionários da universidade. Os principais jor- ano-luz sem nenhuma ciência que lhe dê conta.
deu manchete de capa: o presidente do Supremo nais, revistas e emissoras de rádio e TV deram Uma revolução - não da terra – marítima, com
Tribunal Federal, ministro Gilmar Mendes, cos- os fatos como sendo um “conflito” ou um “con- seu ritmo que nenhum piano alcança, incabível -
tuma estacionar seu carro na vaga destinada a fronto” entre manifestantes e PM. Poucos jorna- e como dança! E lá talvez esteja tudo que preci-
deficientes físicos – nos dias em que leciona Di- listas se deram ao trabalho de perguntar por que
samos de preciso e impreciso: ligar o rádio, bus-
reito Constitucional naquela instituição. Os estu- não existe diálogo dentro da instituição, todas as
dantes de jornalismo Sacha Brasil e Maria Sco- reivindicações da comunidade são tratadas com car a sintonia, o que vai ficando nos álbuns do
deler, que flagraram a delinquência, procuraram violência. A mídia não deveria questionar o des- olhar, tatuagens que não se vê, lã de vidro na
a assessoria do STF e foram informados que o preparo da gestão pública? ampulheta sem tampo nem fundo, escorre nos
ministro abriu sindicância administrativa contra corpos - tão macia...
seu motorista. A VELHA GLOBO NO AR Quanto tempo terá levado até
Uma equipe de reportagem da TV Globo re- que o primeiro homem fizesse o primeiro armá-
“LA COSA BERLUSCONI” viveu, nos episódios da USP, os tempos em que rio e deixasse aberta a primeira gaveta à esquer-
O primeiro parágrafo do artigo de José Sara- a emissora apoiava a Ditadura Militar: foi ex-
da onde se encontra - quem sabe? - um bilhete Ilustração: Debora Borba/deboraborba@gmail.com
mago, no jornal El País, diz tudo: “não vejo que pulsa de uma assembléia dentro da universi-
outro nome lhe poderia dar. Uma coisa perigo- esquecido dizendo bom dia?
dade. Coincidentemente voltou a circular na
samente parecida a um ser humano, uma coi- Internet a gravação do direito de resposta do Ventar e inventar folhinhas, memórias. O ca-
sa que dá festas, organiza orgias e manda em governador do Rio de Janeiro, Leonel Brizo- lendário vai pras calendas. Os relógios partem e
um país chamado Itália. Esta coisa, esta enfer- la, levado ao ar no dia 15 de março de 1994. se partem. Estamos com a corda toda, desper-
midade, este vírus ameaça ser a causa da mor- É sempre um prazer ver o Cid Moreira fazendo tamos a madrugada e anunciamos aos galos: o
te moral do país de Verdi se um vômito profun- críticas ao concessionário Roberto Marinho. O ano domini!
do não consegue arrancá-lo da consciência dos povo não é bobo... E o tempo segue nos dominando.
italianos antes que o veneno acabe corroendo as
veias e destroçando o coração de uma das mais Hamilton Octavio de Souza é jornalista.
ricas culturas européias”. hamilton@uol.com.br Cesar Cardoso perde tempo escrevendo.

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entrevista lUIZ MOTT

Entre o cor de
rosa e o vermelho
sangue
Fundador do Grupo Gay da
Bahia, Luiz Mott denuncia os
crimes de homofobia no país
da maior parada gay do mundo
Tatiana Merlino | Fotos Marcelo Cerqueira

o Brasil é o país onde mais se mata homossexuais. Em 2008, foram regis-


trados 190 assassinatos, um a cada dois dias. Os números superam as
estatísticas de 2007, quando houve 122 homicídios dessa natureza. Os
dados, apresentados pela pesquisa do Grupo Gay da Bahia, indicam que o Bra-
sil é o campeão mundial em crimes de homofobia, seguido pelo México – que
lado do assunto: participou da Conferência Nacional LGBT em Brasília, publi-
cou o programa Brasil Sem Homofobia, propôs ações para a comunidade ho-
mossexual, mas, infelizmente, é muita palavra e pouca ação efetiva. Das ações
afirmativas propostas pelo Brasil Sem Homofobia, nem 5% saiu do papel. O que
a gente espera é o que presidente Lula pressione mais essa base aliada em fa-
apresenta média de 35 crimes por ano – e Estados Unidos – com 25. vor dos dez projetos que estão no Congresso Nacional sobre direitos humanos
As estatísticas são no mínimo estranhas para um país que sedia a maior pa- LGBT, para que o país deixe essa infeliz condição de campeão mundial de as-
rada gay do mundo. Em sua ultima edição, a manifestação realizada anualmen- sassinatos de homossexuais.
te em São Paulo reuniu cerca de três milhões de pessoas.
Para o antropólogo Luiz Mott, fundador do Grupo Gay da Bahia, entidade Recentemente, o governo federal lançou o Plano Nacional da Cidadania
mais antiga de defesa dos direitos dos homossexuais no país, “apesar do Bra- dos Direitos Humanos LGBT, primeira vez que um governo se compromete
sil proclamar através de suas lideranças que teve a primeira conferencia GLBT com políticas específicas para combater a homofobia. Quais são
do globo e o primeiro presidente a apresentar um programa nacional para os suas expectativas em relação ao Plano? É possível que ele resulte em
gays, estamos na rabeira de outros países que possuem menos organização em ações concretas?
termos de parada”. Pode ser que seja o primeiro, como foi o primeiro país no planeta a convocar
Ou seja, apesar da grandiosidade da parada gay brasileira, os números de as- uma Conferência Nacional, mas o que vale são ações efetivas. Depende muito da
sassinatos de homossexuais vêm crescendo ano a ano. Para Mott, um dos moti- boa vontade do próprio Lula, da sua base aliada e da pressão dos homossexuais
vos é o fato de ainda não termos uma legislação que garanta o reconhecimen- e dos simpatizantes aliados para que tantas boas intenções saiam do papel.
to da homofobia como crime.
A despeito de iniciativas positivas apresentadas pelo governo Lula, como o pro- Para que essas medidas sejam colocadas em prática não é preciso esperar
grama Brasil Sem Homofobia, de 2004, e o recente Plano Nacional da Cidadania dos a aprovação de leis no Congresso?
Direitos Humanos LGBT, de maio deste ano, “infelizmente, é muita palavra e pou- No Brasil, o poder mais simpatizante e aliado dos direitos humanos dos ho-
ca ação efetiva”. Para combater a violência, o antropólogo defende a aprovação do mossexuais é o Judiciário, concedendo diversas garantias, seja no nível da fa-
projeto de lei que equipara a homofobia ao racismo [PLC 122/2006]. mília, seja na mudança de nome para transexuais, na adoção, no reconhecimen-
O levantamento anual dos assassinatos de homossexuais teve inicio em to de viúvos à herança. O Executivo tem manifestado boas intenções através do
1980, quando o Grupo Gay da Bahia foi criado. Desde então, até 2008, foram Programa Nacional de Direitos Humanos, o Brasil sem Homofobia etc. O Legis-
documentados 2.998 assassinatos de gays, travestis e lésbicas no Brasil, con- lativo é que tem sido o mais conservador e o mais inerte, empurrando as nos-
centrando-se 18% deles na década de 80, 45% nos anos 90 e 35% (1.168 casos) sas demandas com a barriga. Isso reflete o medo que os deputados e senadores
a partir de 2000. Quando divulgou os dados de 2008, Mott classificou o con- têm de se envolver com uma causa tão tabu.
junto de crimes como um verdadeiro “homocausto”.  
O plano pode ajudar na aprovação do projeto de união civil da Marta
Caros Amigos - Como você avalia o governo Lula no combate Suplicy, que é de 1995?
à homofobia. Houve avanços? Esse projeto foi considerado por ela própria [Marta Suplicy] como caduco.
Luiz Mott - O primeiro presidente da República a falar a palavra homossexual Ele está muito aquém das conquistas já efetivadas pelo Judiciário, como o re-
foi o Fernando Henrique Cardoso, em 2002, e a primeira vez que um documen- conhecimento da família e o direito à adoção. Na verdade, embora há mais de
to oficial do governo federal citou os homossexuais foi o Programa Nacional dez anos o movimento homossexual brasileiro lute pela aprovação desse pro-
de Direitos Humanos, em 1996. O Lula tem sido o presidente que mais tem fa- jeto, eu considero que o mais importante é a aprovação do projeto de lei que

20 caros amigos julho 2009


equipara a homofobia ao racismo para assim diminuir o sofrimento e a morte Infelizmente, o fundamentalismo religioso no Brasil ofusca e limita as pró-
de tantos gays como resultado da ideologia machista e homofóbica que ainda prias aspirações dos militantes homossexuais. A Espanha é um bom exemplo de
vê o homossexual como pecador, marginal, que merece pena de morte. país com tradição católica extremamente forte, mas que abandonou o projeto
  de parceria civil ou de pacto de solidariedade, como existe na França, para par-
Como está a relação do movimento gay com as religiões? A bancada tir diretamente para o casamento, que foi aprovado sem nenhuma restrição em
dos católicos é o maior entrave para a aprovação das reivindicações comparação aos casamentos heterossexuais. Na época em que a Marta Suplicy
do movimento gay, não é? elaborou o projeto de parceria civil, ela e o movimento gay que a ajudou acre-
Infelizmente. As igrejas cristãs – católicas e protestantes, sobretudo as neo- ditaram que haveria uma resistência total por parte dos deputados caso fosse
pentecostais – têm as mãos sujas de sangue. Através da pregação homofóbica, imediatamente proposto o casamento. Por isso, foi apresentado um projeto que
intolerante, preconceituosa que pastores e padres fazem nos cultos, eles forne- são migalhas aos homossexuais. A união não é um casamento, não se consti-
cem argumentos para homofóbicos que matam os homossexuais. Há a exce- tui família, não se pode adotar. E acho que temos que partir para o confronto
ção do candomblé e de uma ala do espiritismo, que têm sido mais simpatizan- total. Queremos que o Brasil se equipare ao que acontece de mais moderno em
tes aos direitos humanos. As igrejas têm que se modernizar e acompanhar o que termos de legislação de direitos humanos na Holanda, na Bélgica, em Portugal,
acontece na Europa e nos Estados Unidos, onde bispos são assumidamente gays, na Espanha. A parceria civil é um arremedo de casamento.
onde há até casamentos abençoados por denominações religiosas. Essas igrejas
fundamentalistas cristãs do Brasil agem como se fossem muçulmanas, que são Estamos atrasados em relação aos países da América Latina?
as mais intolerantes com os homossexuais no mundo inteiro. O Uruguai já tem união civil e agora o governo quer o casamento.
O Equador já tem união civil.
Como pode se explicar a contradição do Brasil ter a maior parada gay do Apesar do Brasil proclamar e arrotar através de suas lideranças que teve a
mundo e ser campeão em crimes de homofobia? primeira conferencia GLBT do globo e que teve o primeiro presidente a apre-
Esse é um grande dilema que o movimento homossexual brasileiro tem de sentar um programa nacional, o Brasil está na rabeira de outros países que
enfrentar com apoio dos cientistas sociais e experts em cultura brasileira. O possuem menos organização em termos de parada. A parada de Buenos Aires,
Brasil tem esse lado cor-de-rosa, a maior parada gay do mundo, a maior asso- por exemplo, não chega a ter 20 mil pessoas. Esses países conseguiram vitórias
ciação de gays, lésbicas e transgêneros da América do Sul. E tem o lado ver- mais importantes, como a Colômbia e o Equador, que tinha uma Constituição
melho-sangue: a cada dois dias, um gay é assassinado. No Brasil, a legislação que criminalizava a sodomia e a substituiu pela segunda Constituição do mun-
ainda não garante o reconhecimento da homofobia como crime. Essa contradi- do, depois da África do Sul, a incluir a proibição de discriminar por orientação
ção tem que ser superada a partir de quatro medidas fundamentais: a aprova- sexual. Embora a Argentina tenha uma Igreja Católica mais conservadora que
ção de leis que garantam a sobrevivência dos homossexuais do mesmo modo a do Brasil, tendo uma participação durante a ditadura militar, lá houve con-
como o racismo é penalizado como crime inafiançável; que a polícia e a Justi- quistas que os católicos espernearam mas tiveram que engolir.
ça sejam ágeis e severas para punir e investigar criminosos que discriminam e  
violentam homossexuais; educação sexual obrigatória em todos os níveis esco- Pesquisa recente realizada pela Fundação Perseu Abramo revela que há
lares, desde o pré-primário até os níveis de pós-graduação, para que as pessoas altos índices de homofobia no país. Isso também influencia na dificuldade
entendam mais sobre a diversidade sexual; e um apelo à própria comunidade de aprovar leis?
homossexual LGBT para que se assumam, que saiam do armário. Na verdade, as estatísticas quanto ao nível de homofobia no Bra-
  sil são extremamente variáveis e contraditórias. Ainda se ouve
“O Brasil tem esse lado cor-de-rosa, a maior parada coisas como “viado tem mais é que morrer”, ou “prefiro ter um
filho ladrão do que um filho gay”, e também “prefiro ter uma fi-
gay do mundo, a maior associação de gays, lésbicas e lha puta do que sapatão”. Seria mais prático e econômico atingir
19 milhões de homossexuais [estima-se que pelo menos 10% da
transgêneros da América do Sul. E tem o lado vermelho- população brasileira seja homossexual] com campanhas voltadas
para a população vitima de espancamento, por meio de outdoors
sangue: a cada dois dias, um gay é assassinado.” com mensagens diretas, do que mudar a cabeça de 189 milhões
de brasileiros potencialmente homofóbicos, As estatísticas de nú-
A única pesquisa existente no país sobre crimes de homofobia é a do meros de crimes de homofobia desconcertam qualquer tipo de previsão socio-
Grupo Gay da Bahia, que mostra que somos campeões mundiais em lógica, porque variam enormemente de ano para ano no mesmo Estado. A úni-
crimes homofóbicos. Esses números vêm aumentando ano a ano. A ca regularidade é que todo ano, mais de 100 homossexuais são assassinados:
ausência de políticas públicas é um estímulo para que isso aconteça? mais gays que travestis, uma média de 70% de gays, 25% a 27% de travestis, e
A pesquisa de assassinatos de homossexuais no Brasil, coletados pelo Gru- 3% de lésbicas. Mas há Estados que em um ano se mata mais travesti e no ou-
po Gay da Bahia, teve início em 1980, e é o maior acervo sobre assassinatos de tro se mata mais gay. O Nordeste continua sendo a região mais afetada, e Per-
gays, travestis e lésbicas do mundo, de modo que nenhum outro grupo dispõe de nambuco continua sendo um dos Estados mais violentos.
informações tão preciosas. Esse cadastro está sendo digitalizado por meio de um  
financiamento do Ministério da Saúde e estará disponível ainda este ano para E o perfil das vítimas, qual é?
que seja consultado. Essas informações deveriam ser divulgadas, consultadas e São travestis assassinadas nas ruas, com armas de fogo. Os gays são assassi-
interpretadas pelo governo para propor políticas que erradiquem esses crimes. nados dentro de suas casas, com armas de fogo, faca de cozinha, enforcados em
Temos consciência que somos os primeiros, apesar da limitação e incompletu- fios de telefone. Isso inclui todas as classes sociais, predominando profissionais
de desses dados. Mesmo tendo uma rede importante de informantes por todo o do sexo e cabeleireiros, que são as categorias mais vulneráveis, e muitos profis-
Brasil, muitos crimes ou são escondidos pela família, ou não se chega a revelar sionais liberais, professores, médicos, incluindo padres e pais-de-santo.
a verdadeira identidade da vitima. Portanto, essa avaliação de que há um as-  
sassinato a cada dois dias certamente é inferior aos números reais. No mínimo, Quais são os direitos dos homossexuais que são negados?
deve haver um assassinato por dia no Brasil tendo o homossexual como vitima Uma pesquisa realizada nacionalmente listou 37 direitos dos homossexuais
da homofobia, do machismo. que são negados, como o direito a se casar, adotar crianças, declarar impos-
  to de renda juntos, restrições de acesso à igreja, ao exército, discriminação nos
Por que o movimento brasileiro luta por união civil se em muitos planos de saúde...
outros países se pede o direito ao casamento? Por exemplo, recentemente
a Suécia, que já tinha união civil, aprovou o casamento. Tatiana Merlino é jornalista.

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21
amigos de papel Guilherme Scalzilli
Joel Rufino dos Santos
O império
derrotado
Realidade Parece consensual que a política

brasileira externa de Barack Obama representa uma gui-


nada positiva em relação ao espírito interven-
Há alguns anos, resolvi juntar numa estante cionista dos governos Bush. Mesmo a frustração
livros sobre a realidade brasileira, uma idéia- parcial das enormes expectativas iniciais é cre-
sentimento de grande circulação entre 1930 e ditada ao gradualismo exigido por algumas radi-
1960, mais ou menos. Idéia por ser uma re-
cais promessas da campanha democrata.
presentação ideológica dos problemas do país
(o atraso, a pobreza, a exploração estrangei- Mas a benevolência da opinião
ra etc.), sentimento por ser um modo social de pública internacional omite a nature-
sofrer aqueles problemas. Além de valer por si za pragmática da festejada mudança de rumo.
mesma, RB inspirou sucessivas estratégias de O próprio Obama admitiu que os interesses dos
luta pelo poder, desde a Revolução de Trinta EUA no restante do planeta são ameaçados pelo
até o petismo dos anos 80. fracasso de sua própria diplomacia agressiva e
RB foi uma poderosa invenção ideológica intransigente. Considerando que o presidente
que deu aos seus inventores a ilusão de ver-
questionava (e atualmente modifica) os pilares
dade única. Parte insignificante da população,
capaz de publicar livros, escrever em jornais e históricos do predomínio norte-americano, tra-
revistas, compor músicas, fazer filmes e peças ta-se de uma pungente confissão de derrota.
de teatro apresentou a sua idéia-sentimento do E o cenário internacional demonstra
país como verdadeira; e esse fato – esse tru- que ele está certo: a potência chinesa, o predomí-
que – se tornou, ele próprio, um fato histórico, nio regional russo (sob os desmandos de um grupo
capaz de gerar e guiar, até hoje, outros fatos. oriundo da KGB), o Irã dos aiatolás, a resistência
Realidade brasileira era parcial, embora ver- cubana, a Líbia do eterno Kadafi, a desafiadora Co-
dadeira; ou verdadeira, embora parcial. Toda
réia do Norte. As regiões dominadas militarmen-
verdade é histórica e, mesmo enquanto dura,
te pelos EUA sofrem com marionetes ditatoriais ou
disputa e/ou convive com outras idéias-senti-
mentos da realidade social. RB foi apenas “a viraram palco de massacres injustificáveis, destrui-
Ilustração: HKE>>>/subis.blogspot.com

melhor fórmula da Revolução de 1930” (Gra- ção generalizada e revolta popular.


ciliano Ramos). O antiamericanismo prolifera
Até que ponto uma ideologia, um método também nas populações sob regimes democrá-
sociológico ou uma simples proposição sobre ticos e liberais, como em boa parte da Europa e
a realidade revela ou esconde a realidade? Que da América Latina – vitrines das pretensões es-
seria da economia se os economistas se per- tadunidenses desde o início do século passado.
guntassem a cada análise de mercado pelo sig-
Ademais, quase todos os governantes em exer-
nificado universal do dinheiro? Como escrever
história sem perguntar, a cada passo, pelo grau cício no continente americano já foram com-
de verdade da ideologia que estamos narran- batidos pela Casa Branca, individual ou coleti-
do? Tomando o subjetivo, o imaginário, o fan- vamente, durante algum processo eleitoral ou
tasiado, o suposto, como fato objetivo. ou deixe-o e tantas outras – tiveram contradi- revolucionário.
Sendo realidade brasileira uma fórmula para tórios, mesmo quando se esconderam sob lu- São reveses sérios demais para
explicar o Brasil e orientar a luta organizada gares comuns como “nossa história”, “minha tratarmos a moderação apaziguadora dos EUA
contra seus males históricos (o atraso, a pobre- geração”, “meu tempo”, “minha época” e tan-
como uma novidade inofensiva. Porém, ainda
za, o latifúndio, a exploração estrangeira), foi ela tos outros. O poder atual da publicidade-televi-
que a estratégia reformulada apenas esconda a
própria um fato histórico: nasceu, viveu e mor- são parece eliminar esses contraditórios, subs-
reu. Ao falar “Brasil” o que dizemos é diferente tituindo a história pelo presente contínuo e a essência intocada do paradigma geopolítico, ela
em cada período histórico, embora algo perma- experiência de pensar e sentir pelo gozo supre- demonstra uma ruptura em relação às suas pre-
neça sob a passagem do tempo: o de Brandônio mo de ver sem ser visto. Nesse êxtase bigbró- tensões hegemônicas originais.
não é o dos conjurados baianos de 1798, o de dico se entretém o telespectador – sem gosto
Castro Alves, o de Jorge Amado, o do Chacrinha próprio, idéia própria, desígnio próprio. O de-
ou o do Jornal Nacional. sejo de representar toda a sociedade para toda
Nenhuma idéia-sentimento conseguira se a sociedade através de uma realidade audiovi-
tornar totalitária, até hoje. Todas – o alian- sual, parece agora saciado. Está? Guilherme Scalzilli, historiador e escritor. Autor do
cismo, o integralismo, o populismo, o desen- romance Crisálida (editora Casa Amarela). www.gui-
volvimentismo, o terceiro-mundismo, o ame-o Joel Rufino é historiador e escritor. lhermescalzilli.blogspot.com

22 caros amigos julho 2009


Gershon Knispel

Acabar com as
fronteiras geográficas?

“Definitivamente é preciso acabar No início do século 21, estamos en- do presidente Obama na Universidade do Cairo.
com as fronteiras geográficas. Elas somente elas so- frentando uma situação bem contrária. O funda- Pela primeira vez, um presidente ame-
brevivem a separar a humanidade”. mentalismo muçulmano extremista pegou a idéia ricano usava as mesmas palavras nossas para des-
“Creio que o melhor para palesti- marxista do mundo sem fronteiras para transfor- crever o caráter terrível da ocupação por Israel dos
nos e israelenses seria a existência de um Estado má-la na revolução islâmica mundial, bem além do territórios palestinos. Contra ele se juntaram os
único laico e democrático, onde todos possam con- mundo hoje muçulmano. Em Israel, a idéia dos fun- fundamentalistas nacionalistas israelenses lidera-
tinuar harmoniosamente” (Georges Bourdoukan), damentalistas messiânicos se tornou um consenso dos pelo primeiro-ministro Bibi Netanyahu e por
Caros Amigos 145 e 146. nacional, com a tendência de expandir o país bem Avigdor Lieberman e a liderança do Hamas, os dois
No início do século 20, ou seja, com a além das fronteiras de 1967, por meio do roubo das lados querendo tirar da mesa o projeto de dois Es-
Revolução de Outubro, começou a se realizar não só terras palestinas da Cisjordânia, que estavam des- tados para dois povos.
o seu sonho, Georges, mas também o meu sonho, e de tinadas a cumprir os direitos dos palestinos a um Essa tendência perigosa do atual
muitos outros seres humanos, de acabar com as fron- país próprio deles, em resultado das resoluções da governo de Israel e a divisão provocada pelo Hamas
teiras entre os povos, sob a palavra de ordem “Prole- ONU de 1947. Os cristãos fundamentalistas não fi- na liderança palestina deram uma grande margem
tários de todo o mundo, uni-vos”. E que destino teve caram atrás. de manobra para a utilização da escalada em man-
esse projeto tão grandioso? A queda da maior das Os milhares de colonos judeus se ter vivo o círculo vicioso. No encontro que tive no
revoluções, a União Soviética, que provocou também instalaram para derrubar a idéia de um Estado pa- fim de abril último em Ramallah, com a liderança
a queda dos “países socialistas” da Europa Oriental lestino legítimo, ao lado de Israel. A provocação do da OLP, o sr. Nidal, que substituiu o sr. Jased Abed
em pedaços quebrados; a própria União Soviética foi 11 de setembro pela Al Qaida deu legitimação a Ge- Rabo como chefe do Comitê Palestino pela Paz, me
quebrada em partes como a Ucrânia, Estônia, Letô- orge W. Bush e a seu governo que sofria de fun- disse que a tendência é por na geladeira os dirigen-
nia, Lituânia, Geórgia, Azerbaijão... damentalismo evangélico para abrir uma cruzada tes que estiveram à frente dos entendimentos de
A Tchecoslováquia foi dividida na contra o mundo muçulmano. Os resultados catas- Oslo e trocá-los por outros.
República Tcheca e Eslováquia. A Iugoslávia se divi- tróficos dessa cruzada não foram só deixar o Iraque O sr. Nidal deixou claro que, apesar dos lí-
diu em seis: Sérvia, Croácia, Eslovênia, Bósnia, Ma- em ruínas, mas renovaram o pacto entre os xiitas deres europeus e da OLP que ainda aderem aos dois
cedônia e Montenegro. Romênia, Bulgária, Polônia, que hoje dominam o Iraque e os xiitas do Irã, dan- Estados para dois povos, o entorpecimento das ne-
Hungria, Albânia concorrem entre si sobre quem vai do ajuda financeira e moral para o Hamas, que con- gociações que chegou ao auge com a subida ao go-
ser recebido primeiro com todos os direitos na União seguiu expulsar o aparelho de governo da OLP em verno de Bibi Netanyahu vai resultar, enfim, num
Européia. Receberão, em seus territórios não mais Gaza, em meio ao processo de paz com os entendi- Estado binacional, em que uma nação vai pregar o
soberanos, os mísseis de longo alcance. mentos de Oslo em 1993 e o acordo de Camp Da- apartheid contra a outra.
Em vez de acabar com as fronteiras, elas vid de 1994, dois anátemas para o Hamas e para a Num artigo passado, citei o pensador
dobram e triplicam. E não foi o Hamas que ergueu Frente da Negação de Israel. Os primeiros querem Meiron Benbenischti, que num debate em Tel Aviv,
uma fronteira entre Gaza e a Cisjordânia? Em 31 de importar a revolução islâmica total para a Palesti- uma semana antes do início da guerra de Gaza, dis-
maio de 2009, o jornal O Estado de S. Paulo publi- na e os últimos querem a Israel total, por enquanto se que já estamos de fato num Estado binacional,
cou a notícia: “Direita deverá crescer no Parlamento entre o Mar Mediterrâneo e o rio Jordão. que enfim vai se tornar um Estado em que os ju-
Europeu. A maior crise econômica desde a Segunda Quero lembrar que, ainda em junho de deus serão uma minoria, em 10 ou 15 anos. Várias
Guerra favorece discurso nacionalista e favorece a 2002, foi apoiado pela direção da Caros Amigos o vezes me perguntaram: o que vai acontecer quan-
divisão entre os países europeus de novo”. primeiro Projeto Portas Abertas – Dois Estados para do os judeus ficarem em minoria? Respondi: “O re-
Depois das eleições do Parlamento Eu- Dois Povos, e vários eventos, como a grande exposi- lacionamento de uma maioria árabe com a minoria
ropeu, a realidade é pior: em todos os países euro- ção de 35 artistas plásticos judeus israelenses con- judaica vai ser o mesmo que a maioria judaica tem
peus a extrema direita nacionalista se fortaleceu. Isso tra a ocupação e 35 artistas plásticos brasileiros dos com a minoria árabe em Israel”.
vai com certeza tornar a União Européia um episódio mais renomados, foram realizados, como o álbum À pergunta de Bourdoukan: “será tão difí-
fugaz. E a fala de Marx, de que “a religião é o ópio feito por Oscar Niemeyer e por mim contra a ocu- cil” um Estado binacional laico e democrático, res-
do povo”, que foi realmente a grande esperança que pação. Esse princípio de dois Estados para dois po- pondo: “é muito difícil, quase impossível”.
deu asas para a imaginação humana de libertação das vos já foi adotado como um consenso internacional
religiões, qual foi o seu resultado? e foi o tema principal do histórico discurso recente Gershon Knispel é artista plástico.

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23
ensaio carlos latuff

A imposição de um estado judeu na Palestina em


1948 produziu um contingente colossal de refugiados (a ONU estima
atualmente em mais de 4 milhões e meio). As famílias palestinas que
não foram simplesmente assassinadas pelo terrorismo sionista de gru-
pos como Irgun e Haganah tiveram de fugir para países limítrofes como
Jordânia, Síria e Líbano, onde vivem até hoje em campos de refugiados.
No ano do 61º aniversário do que os palestinos acertadamente cha-
mam de A Catástrofe, estive no Oriente Médio, a convite da al-Hanou-
neh Society for Popular Culture, e visitei três destes campos: Marka/
Shnillar e al-Baq’a na Jordânia, e al-Badawi no Líbano. Neles encontrei
um povo marginalizado, sobrevivendo em condições muitas vezes pre-
cárias, semelhantes às favelas brasileiras, esquecido pelo Ocidente e por
vezes, como no Líbano, correndo o risco de ser massacrado por milicias
hostis ou mesmo pelo governo, como aconteceu no campo de Nahr al-
Bared em 2007. Esta população sequer pode regressar a sua terra na-
tal, já que seu direito de retorno é sistematicamente negado por Israel.
Este ensaio é um tributo aos palestinos da diáspora.
entrevista Marina Silva

"o setor
mais atrasado
do agronegócio
quer mudar a
legislação ambiental"
A senadora Marina Silva conta
porque que vive um dos piores
momentos de sua vida, período em
que o país enfrenta uma “operação
desmonte da legislação ambiental”,
encabeçada pelos ruralistas
Marcos Zibordi e Tatiana Merlino | Fotos Roberto Jayme

m ulher, negra, pobre. Alfabetizada aos 16 anos. Do interior do


Acre ao planalto central. De seringueira a ministra do Meio
Ambiente. As muitas lutas de Marina Silva ao longo de sua vida
parecem ser pequenas se comparadas à que trava atualmente: impedir que
a mentalidade predatória de desenvolvimento que dita as regras no Brasil e
Marcos Zibordi: Fora essas lembranças mais tenras, por volta de dez,
doze anos, o que você já estava fazendo? O primeiro namorado?
Na verdade, essa ideia de namorado veio surgir muito depois, pois desde cedo
eu queria ser freira. Aprendi sobre o cristianismo com a minha avó Júlia, que era
analfabeta. Foi ela quem me ensinou rudimentos do cristianismo. Ela tinha um
no mundo não termine por destruir de vez o planeta Terra. A hoje senadora catecismo para analfabetos, com ilustrações da Capela Sistina. Desde aquela épo-
pelo PT define a recente investida ruralista para flexibilizar a legislação am- ca eu dizia à minha avó que eu queria ser freira, e ela dizia: “minha filha, freira
biental do Brasil como um “conjunto de mudanças que representam um re- não pode ser analfabeta”. Então, para ser freira, eu tinha que estudar.
trocesso. Está se armando uma bomba de efeito retardado que não poderá ser
contida na hora em que o país voltar a crescer”. Como principal exemplo, a Tatiana Merlino: A família toda morava junto?
Medida Provisória 458, que pretende regularizar áreas de até 1500 hectares Eu morava na casa da minha avó. Minha irmã morava com os meus pais.
na Amazônia. Segundo Marina, a medida premiará a grilagem. “É um pro-
cesso de privatização de 67 milhões de hectares de floresta”. Tatiana Merlino: Por que a senhora morava com a sua avó e não
com os seus pais?
Marcos Zibordi: Sempre começamos as nossas entrevistas pedindo ao Minha avó fez meu parto, em 1958, e se apegou muito a mim. Foi se criando
entrevistado que conte suas lembranças mais remotas de infância. um vínculo muito forte entre eu, minha avó e a minha tia que morava com ela.
Marina Silva: Tenho muitas lembranças, guardei muitas coisas de uma ida- Eu passava o dia com ela, e às quatro, cinco horas da tarde, ela me trazia para
de muito tenra. Uma lembrança muito boa é da minha coleção de bonecas de dormir em casa com a minha mãe. Depois eu comecei a querer ficar dormindo
pano, que a minha avó fazia. Eu tinha doze bonecas de pano, lembro o nome lá e a insistir para a minha avó pedir para que eu fosse morar com ela. Até que
de algumas delas: tinha a Estefânia, que era uma boneca mais ousada, usava um dia ela tomou coragem e foi falar com a minha mãe. E a minha mãe falou
umas roupas menos tímidas. Tinha a Hilda, que era a matriarca do conjunto que iria falar com meu pai, e é lógico que ela queria um período para tentar me
das bonecas, porque eu sou de uma família de matriarcas, do lado da minha persuadir. Mas uma hora eu disse: “quero morar com a minha avó”. Só nos se-
mãe e do lado do meu pai. E a minha avó, quando fez as bonecas, já disse paramos quando eu fui morar na cidade, aos 16 anos.
que a Hilda era quem comandava o clã. Tinha o Jacinto, que era um meni-
no bem levado, e o Catifum, que era um bonequinho aleijado, e tinha todos Tatiana Merlino: E como era o trabalho no seringal?
os cuidados especiais. Fui uma criança amplamente estimulada desde a mais Era pesado, difícil, tinha que andar 14 quilômetros por dia, de segunda a
tenra idade até a adolescência. sexta. Meu pai trabalhava nessa atividade, e nós começamos, eu e minha irmã

26 caros amigos julho 2009


mais velha, quando eu tinha dez ou onze anos, a ajudá-lo a cortar seringa. No Tatiana Merlino: A senhora se alfabetizou aos dezesseis anos mesmo?
nosso caso, era uma mistura de trabalho, mas também com muita diversão, por- Na verdade, aos dezesseis anos e meio. Fui para Rio Branco estudar em se-
que nossos pais eram muito cuidadosos. A gente não trabalhava além daquilo tembro de 1975. A primeira coisa que eu procurei foi onde tinha uma igreja e
que agüentava. E se enquanto a gente roçava, o sol começava a ficar quente, e uma escola. A igreja para ver se eu fazia algum contato com alguma freira para
as abelhas e os mosquitos começavam a apavorar, a gente tinha toda liberdade já me encaminhar para os meus objetivos estratégicos de ser freira, e a escola
de ir para debaixo de uma moita, buscar uma água fresquinha. Então, a gente porque era a barreira que teria que ser vencida para poder ser freira. E eu fui
nadava no igarapé, ficava lá tomando banho e voltava. Mas a gente também nessa escola chamada Natalino da Silveira Brito, que foi onde fiz o Mobral. O
tinha disciplina, eu e minha irmã. curso tinha começado em fevereiro e isso era em setembro. Quando cheguei na
sala de aula, a professora já estava ensinando os sons das letras, os fonemas, os
Tatiana Merlino: Então eram quantas horas de trabalho por dia? dígrafos. Então eu fiz um cálculo matemático na minha cabeça, que b mais a
Cortando a seringa, a gente começava geralmente às cinco da manhã, meu é “ba”. Foi uma conta de somar mesmo, n mais a, “na”, então, banana. Isso eu
pai saía mais cedo, por volta de quatro, quatro e meia. Nós saíamos por volta consegui como se fosse uma coisa mágica. Eu pensei “É só você aprender as le-
de cinco horas, porque a gente tinha medo de onça. E fechávamos o corte por tras, o som das letras e somar o som das letras”. Aí eu fui para casa determina-
volta de uma hora da tarde. Aí, geralmente, ficávamos liberados para ir no iga- da a aprender as letras e o som das letras, e somar era comigo mesma. Em quin-
rapé, tomar banho, lavar roupa, trazer água para casa. ze dias, eu já conseguia ler as coisas que estivessem em letra de forma. Como
eu sabia muito bem as quatro operações, a professora achou que eu deveria ser
Tatiana Merlino: Foram cinco, seis anos nesse trabalho? Foi aos 16 anos transferida para uma outra sala, que era de educação integral, equivalente aos
que a senhora foi para Rio Branco? quatro anos do primário. Na primeira vez que eu entrei na sala de aula, tinha
Até os 16 anos, mas durante as férias, eu voltava e trabalhava igualmente uma folha de papel, que era a chamada, mas a professora botou meu nome em
com minhas irmãs, no roçado e na extração da borracha. O povo era muito ri- cima do cabeçalho, e chamou: “Marina Osmarina”. Eu levantei e fui até a mesa
goroso, queria ver se eu não estava metida a besta. Então, não podia nem re- dela, porque na minha turma anterior nem tinha chamada, e ela perguntou: “o
clamar que tinha feito calo na mão (Risos). que você está fazendo aqui, menina? Quando a gente chama, responda presen-
te, você é abestada?” E todo mundo deu boas risadas, eu fiquei muito envergo-
Tatiana Merlino: Mas como é que foi a ida para a capital? nhada e sai dali pensando: “será que eu volto para estudar de novo?” No ou-
A ida para a capital foi um processo de muita maturação. tro dia, decidi que sim, porque se eu não voltasse iam me chamar de abestada
para o resto da vida. E eu trinquei os dentes, entrei na sala de aula, fui lá para a
Marcos Zibordi: Traumático? última carteira, e ela chamou “Marina Osmarina”, e eu falei “presente”. E todo
Não, não foi traumático. Mas antecedendo tudo isso, teve muita dor. Com mundo falou “Ah, agora já aprendeu, e deram nova risada”. Então, no final do
certeza uma dor muito traumática que depois precisou ser muito bem elabora- ano, eu fiz um provão e, dos 46 alunos, passaram três, e eu era uma das três.
da e transformada em passado, porque durante muito tempo ela ficou presente Com isso, eu conclui o primário e me matriculei na quinta série já morando na
em minha vida. Teve um surto de malária muito grande naquela região, não só casa da Madre Eliza, no Instituto Imaculada Conceição.
no nosso seringal. Também teve um surto de sarampo. Morreram minhas duas
irmãs mais novas, uma de seis meses e uma com um ano e seis meses, quinze Tatiana Merlino: Senadora, e a militância política, quando começou? Foi
dias de uma para outra. Morreu a minha mãe, seis meses depois, não de malá- nessa época?
ria e sarampo, mas de aneurisma. Morreu meu tio, de malária e sarampo tam- Foi. Na verdade, a militância política começou quando eu conheci o Chico
bém, e meu primo e minha avó materna. Então, foi uma coisa muito, muito di- Mendes e o Clodovis Boff.
fícil. Quando minha mãe morreu, eu estava com quatorze anos. Minha irmã já
estava adulta, a mais velha, e um ano depois ela se casou e eu fiquei à fren- Tatiana Merlino: Como foi?
te da casa. Só que eu peguei uma hepatite, fiquei muito doente, não conseguia Eu morava, como eu disse na casa da Madre Eliza, que era uma casa onde se
mais me alimentar direito, perdi muito peso, aí não consegui mais trabalhar. E fazia um pré-noviciado. Lá, tinha uma divisão. As irmãs madres conservado-
fui ficando muito triste. A gente dizia que era tristeza, mas na verdade eu es- ras, que eram pessoas muito boas, dedicadas, mas não de se envolver com po-
tava deprimida, porque como eu não tinha saúde, não conseguia mais fazer as lítica, nem com movimentos sociais, e as progressistas, entre essas, a irmã Bea-
coisas. Eu era uma adolescente muito ativa e, digamos assim, eu tinha muito triz, e as outras às vezes falavam: “poxa, a Beatriz fica se envolvendo com esse
orgulho das coisas que eu fazia, eu sabia cortar, sabia cuidar do roçado. Come- pessoal aí, com esse bispo comunista”. Era o Moacir Greck, que dava suporte e
cei a pensar: “acho que agora é o momento para eu ir para a cidade cuidar da amparo ao trabalho que era feito pela Contag, pelo Chico Mendes, pelos movi-
minha a saúde e estudar para ser freira”. mentos que lutavam defendendo os direitos dos seringueiros e dos índios con-
tra a invasão dos fazendeiros. E aquilo era um dilema na minha cabeça, porque
Marcos Zibordi: Essa vontade de estudar era uma opção intelectual sua eu sabia que o Dom Moacir defendia os seringueiros que estavam sendo expul-
somente, ou era uma coisa de estudar para a igreja, estudar para ser freira? sos, mas ele era chamado de bispo comunista de uma forma pejorativa. E eu
Eu tinha uma vontade de conhecimento e era uma criança considerada es- pensava: “meu Deus, por que ele defender a gente é ser uma coisa ruim, é ser
tranha. Havia perguntas que a maioria das crianças faz, mas eu fazia com mais comunista? Por que ser comunista é uma coisa ruim se o que ele está fazendo
persistência, tipo “o que é que está depois do azul do céu?” Isso deixava a mi- é bom?”. Aí, um dia, tinha um cartaz bem tímido numa cartolina azul escrito
nha avó impaciente, minha mãe já dava um corte. Então, havia essas pergun- de vermelho na porta da sacristia, “Curso de Liderança Sindical Rural”, algu-
tas todas, mas com certeza eu tinha um objetivo, freira não podia ser analfabe- ma coisa assim, com a participação de Clodovis Boff e Chico Mendes. Eu olhei
ta, então tinha que vencer uma etapa, estudar para vencer. É claro que eu estou para aquilo e pensei: “agora é que eu vou entender esse negócio de curso co-
elaborando isso hoje, mas era como eu sentia. Eu sabia que as pessoas que não munista”. Aí, me inscrevi.
tinham conhecimento tinham uma desvantagem, porque o meu pai sabia ler e
escrever e ele era muito bom de matemática. Tatiana Merlino: A senhora já sabia quem eles eram?
Eu sabia quem eles eram, mas não tinha proximidade. Na época tinha 17
Marcos Zibordi: Não passavam ele para trás na hora de acertar? para 18 anos. Aí, quando eu vi o cartaz, pensei: “agora eu vou entender isso”.
É, não passavam. Então, as pessoas, os seringueiros, que 99% eram analfabe- E me inscrevi. Quando chegamos em casa, eu falei para a madre que eu que-
tos, geralmente aos sábados iam lá até a casa do meu pai, que fazia as contas para ria o sábado e parte do domingo para fazer o curso. E ela perguntou que curso
ver se eles iam tirar saldo. E eu sentia que como aquelas pessoas não sabiam ler era esse. Respondi que era um que o padre queria que a gente fizesse. Obvia-
e fazer contas, elas eram enganadas. E eu aprendi matemática muito cedo para mente, ele não disse que queria que eu fizesse, mas imaginei que, como ele bo-
poder vender a borracha quando meu pai não estava, para não ser enganada no tou a cartolina ali, ele queria que a gente fizesse (Risos). Então, ela disse: “En-
preço da borracha. Mas não sabia ler, escrever e não sabia a hora de relógio. tão está bom, você faz as suas coisas na sexta-feira, adianta o trabalho que tem

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para fazer e pode fazer o curso”. E foi assim que eu conheci o Chico
Mendes e o Clodovis. E aí me apaixonei pela Teologia da Libertação. “As pessoas querem mudanças. E aí eles
Comecei a receber o jornal que o Chico Mendes mandava para mim,
e me interessar pela literatura que a irmã Beatriz tinha. Então, entrei me tomam como símbolo e me colocam como
em conflito, sem saber se eu queria mesmo ir para o Rio de Janei-
ro ser freira, uma proposta mais conservadora, recolhida, ou se que-
candidata a presidente da República para dizer
ria me envolver mesmo com o movimento das comunidades de base.
Porque ai eu já conhecia o trabalho que tinham os leigos, as pessoas
‘esse tema é importante’”
que não necessariamente precisavam ser freiras ou padres, e come-
cei a me encantar com aquilo tudo. Quando a irmã me chamou e disse que eu política econômica. E para a política ambiental, era um grupo bem menor, por-
iria para o Rio de Janeiro, depois de um período pedi para sair. E fui trabalhar que tanto o PT quanto os demais partidos não têm um acúmulo na questão só-
como empregada doméstica. cio-ambiental. Então era mais um grupo de pessoas que tinha muita dificuldade
de transitar dentro do partido. Então, na questão ambiental, não nos eram dadas
Tatiana Merlino: Isso simultâneo à militância? muitas escolhas. Porque boa parte das questões ligadas a um marco regulatório
Isso, aí eu já estava completamente envolvida, aí eu fui para a Estação Ex- já haviam sido feitas, porque temos avanços significativos em todos os gover-
perimental e comecei a trabalhar nos grupos de comunidade de base. Em me- nos. E qual era o passo de qualidade a ser dado pelo governo do presidente Lula
nos de um ano eu já tinha sido eleita coordenadora da paróquia do Cristo Res- com o respaldo social que vinha das urnas e de uma proposta com uma base po-
suscitado, e em 79 eu ia fazer o vestibular, só que fiquei com hepatite de novo pular muito forte? No meu entendimento, a implementação da legislação. E isso
e perdi. A essas alturas já tinha conhecido uma pessoa no trabalho da igreja, não era fácil. Então, a gente se perguntou: o que pode unir o mundo, o que pode
que foi meu primeiro marido, pai dos meus dois filhos mais velhos. No final de unir a sociedade, os empresários? Ninguém vai ser contra que se tenha contro-
80 fiz o vestibular e passei. Terminei a faculdade em 84. le e participação social, ninguém vai ser contra o desenvolvimento sustentável,
ninguém vai ser contra o fortalecimento do sistema nacional de meio Ambiente
Tatiana Merlino: A senhora poderia falar um pouquinho sobre o período e ninguém vai ser contra que a política ambiental perpasse os diferentes setores
da militância junto ao Chico Mendes, fundação da CUT...? das políticas públicas. Isso se configurou de uma forma mais delineada no plano
Era uma militância muito intensa, porque eu fazia o movimento estudantil, de combate ao desmatamento da Amazônia. Tivemos todo um esforço de políti-
e ainda tinha alguma relação com a comunidade de base. Já conhecia o Chico cas públicas estruturantes, políticas públicas que não são apenas anúncios, coi-
Mendes, já estava envolvida com a luta dos seringueiros e, ao mesmo tempo, sas que efetivamente você pode medir, verificar, que fazem a diferença. Criar 24
era professora na escola que estudei. Ai me envolvi com o movimento dos pro- milhões de hectares de unidades de conservação na frente da expansão predató-
fessores, porque nós éramos do movimento pró-CUT, mas o PC do B, que era a ria é algo que fez a diferença para a diminuição do desmatamento. Aprovar no
direção do sindicato, era contra a criação da CUT. Então eu era da oposição sin- Congresso Nacional uma lei que estabeleceu que qualquer área que esteja sendo
dical, e me dividia entre isso e ir acompanhar parte das coisas que aconteciam degradada poderia ser interditada por um ato do governo por seis meses, prorro-
na organização que fazia parte já, um partido clandestino, chamado PRC, que gado por mais seis meses até que se fizesse os estudos para se decidir o que se fa-
atuava um pedaço dentro do PT e um pedaço dentro do PMDB. Quando veio ria com aquela área, isso é algo muito objetivo. Aprovar uma lei de florestas pú-
o processo de criação da CUT e teve o congresso da CUT estadual, foi eleito o blicas num país que há 400 anos explora as florestas e que nunca teve uma lei
Chico Mendes coordenador e eu a vice-coordenadora. para dizer como é que se explora essas florestas, isso dá muito trabalho. Criar o
Instituto Florestal Brasileiro, criar o Instituto Chico Mendes, fazer licenciamentos
Tatiana Merlino: E a iniciação na vida política, no PT? complexos, como foi o caso do Madeira, do São Francisco. Estabelecer um pro-
A ligação com o PT começou desde cedo, em 80, porque estava ligado a essa grama junto com o Ministério da Defesa e o Ministério da Justiça para enfren-
coisa do Chico Mendes e das comunidades de base. Desde o início nós nos con- tar as quadrilhas organizadas e, com isso, conseguir botar 750 pessoas na cadeia,
siderávamos fundadores do PT, mas eu só fui me filiar ao PT em 85, por causa apreender 1 milhão de metros cúbicos de madeira, aplicar 4 bilhões em multas,
do Chico Mendes. Ele ia sair candidato, e articulamos que eu sairia candidata a desconstituir mil e quinhentas empresas criminosas. Isso são coisas estruturais e
deputada federal para ajudar o Chico na zona urbana, puxar voto para ele ser isso mexe com o interesse. Seria praticamente impossível fazer isso se você não
deputado estadual, e fazer o debate da Constituinte em 88. tivesse o suporte do próprio governo. Não foi uma pessoa que fez isso tudo, o
presidente Lula chancelou e fez tudo isso juntamente comigo e minha equipe. O
Tatiana Merlino: Vamos dar um salto aí. Como foi a chegada ao problema é que chegou o momento em que os tensionamentos que iam sendo ge-
Ministério do Meio Ambiente? rados, no meu entendimento, chegaram a uma situação limite.
A chegada ao Ministério do Meio ambiente é parte e fruto dessa trajetória
de quase trinta anos de luta social, sócio-ambiental, em que eu sai de uma atu- Tatiana Merlino: Com quem foram os principais embates?
ação local, quando fui eleita em 95 para o Senado, e comecei a ter uma atua- O principal embate foi, em primeiro lugar, com a visão de desenvolvimen-
ção nacional. Mas um nacional que não perdia essa raiz com as causas com as to que se tem para o mundo e para o Brasil. Existe o paradigma de desenvolvi-
quais eu havia militado a vida toda, dos direitos humanos das populações tra- mento que está estabelecido até hoje e não foi quebrado. É a ideia da infinitude,
dicionais das florestas, da preservação da Amazônia e como isso podia transi- do não-limite dos recursos naturais, como se fossem ilimitados e como se nós
tar da minha realidade no Acre para a realidade de uma Amazônia mais am- pudéssemos extrair o quanto quisermos, do jeito que quisermos, para nos de-
pla. Teve um acolhimento muito grande por parte dos senadores. Nunca sofri senvolvermos numa perspectiva linear. Isso talvez seja o maior inimigo dessas
aqui nenhum tipo de preconceito, fui recebida com muito respeito, e eu tam- políticas públicas que nós estamos falando, e isso se materializa nos nossos fa-
bém não gosto desse negócio de me vitimizar. Acho que muitas vezes os emba- zeres, dentro da visão empresarial de alguns setores, dentro da visão de gestão
tes são por causa das minhas ideias, por aquilo que eu faço, por aquilo que eu pública de um e de outro e até mesmo da de formadores de opinião, que advo-
digo, por aquilo que eu sou, por minha visão de mundo. gam também esses modelos. Então, do ponto de vista prático e objetivo, isso se
confrontava muito com a visão de como fazer a infraestrutura logística no Bra-
Marcos Zibordi:E não foi esse o problema justamente da sua atuação no sil, na área de transportes. Sobretudo, se confrontava com como suprir o país
Ministério, o peso institucional que isso tomou? com a necessária produção de energia. O Brasil precisa de energia, precisa cres-
cer, precisa gerar emprego. Mas como suprir o Brasil de energia, sem que isso
Ah sim. No Ministério, essa bagagem toda enfrentou três problemas. Um de- signifique continuar o modelo insustentável de fazer hidrelétricas, ou a forma
les: nós éramos um partido que no plano nacional não tinha a experiência de in- insegura de ficar apostando em produção de energia nuclear? Do ponto de vis-
tegrar as visões e as propostas do que a gente pensava para o Brasil. Então, al- ta de outras ações, como o Ministério da Agricultura, os tensionamentos que
guns elaboravam a educação do PT. Outros elaboravam o que seria a saúde, a existiam com esses setores não são diferentes dos que nós temos na sociedade.

28 caros amigos julho 2009


Podemos sim fazer uma transição do modelo predatório para o sustentável. Da
visão desenvolvimentista para uma visão sustentabilista de desenvolvimento.

Tatiana Merlino: Essa visão desenvolvimentista prevaleceu, então?


Eu não digo que ela prevaleceu, infelizmente ela está prevalecendo no mun-
do inteiro. Se você verificar o que está acontecendo na Europa, Índia, Estados
Unidos, China, Japão, não vai ser diferente.

Tatiana Merlino: Mas eu digo dentro do governo Lula. Houve uma opção
ao se dar o Ministério do Meio Ambiente e o do Desenvolvimento Agrário
para a esquerda e a agricultura para a direita...
Mas vamos pegar a coisa de uma maneira menos simples. Isso é algo que
está colocado no mundo. Seria muito idealismo achar que o governo Lula seria
algo puro como eu estou dizendo. Inclusive porque, como eu disse, esse acúmu-
lo não estava dentro de nenhum partido, nem do PT. Para aquele desafio, con-
seguimos colocar estacas muito poderosas. Sabemos que essas estacas foram
fincadas e que esse é o desafio deste século. Será que vamos ter a capacidade,
não só como governo, mas como sociedade, de fazer esse transito? Foi esse o
esforço que eu e minha equipe fizemos durante esse tempo. É paradoxal: tem
que crescer, tem que ter energia, agricultura, mas tem que preservar.

Marcos Zibordi: É evidente que esse modelo que o PT adotou é diferente


do modelo que você pensaria em muitos pontos, e isso me faz perguntar o
seguinte: se a senadora Marina Silva quiser continuar na sua luta, ela vai
ter que ser candidata à presidência fora do PT?
A mudança que precisamos fazer tem que considerar três coisas: a visão, o
processo e a estrutura. Uma visão que seja capaz de perceber uma solução para
algo que está comprometendo em 30% a capacidade de regeneração do plane-
ta, que seja generosa sobretudo com aqueles que ainda não nasceram. Em se-
gundo lugar, um processo que seja acolhedor dos diferentes olhares, que tenha
capacidade de escuta apurada para ver de onde vem os sussurros da mudança.
Hoje, o desenvolvimentismo berra nos nossos ouvidos. Mas a mudança para
a sustentabilidade são apenas sussurros. Como transformar esses sussurros em
palavras? É preciso uma escuta muito apurada. É um processo horizontal e tem
que ser generoso, capaz de acolher a visão dos empresários, dos militantes dos
movimentos sociais, da academia, das ONGs, da juventude...

Marcos Zibordi: Mas a senhora vai ser candidata ou não?


Isso não está colocado para mim. Existe um movimento de alguns jovens na possa vetar, até porque conhece como ninguém o que acontece na Amazônia. Nin-
internet que eu entendo muito mais como simbólico, e que tem a ver com o que guém pode dizer que esses 67 milhões de hectares são apenas para aqueles que fo-
eu estou dizendo. As pessoas querem mudanças, querem ver que isso é impor- ram estimulados por políticas publicas no passado. Existe um processo de ocupação
tante dentro dos processos decisórios. E aí eles me tomam como símbolo e me ilegal e criminosa nos últimos 15, 20 anos, desde que o Brasil tem uma legislação
colocam como candidata a presidente da República para dizer “esse tema é im- que proíbe essa forma de ocupação. Estou na expectativa que seja vetado, embora
portante” para ser tratado na mais alta esfera de decisão. Mas quero continuar não resolva a natureza dos problemas que já havia na origem. Mas vai ser um ate-
o meu raciocínio. A estrutura deve contar também com o apoio de todo mun- nuante. Para as pessoas sentirem que não se está simplesmente anistiando aqueles
do, mas ela deve ter também uma certa plasticidade para poder ser capaz de fa- que desrespeitaram a lei, usaram de violência e que até seifaram vidas.
zer as adaptações necessárias, corrigir os rumos. O leito que está aí do desen-
volvimentismo predatório nós não queremos. Temos que corrigir esse desvio da Marcos Zibordi: Queria que a senhora descrevesse esse desmonte dessas
sustentabilidade econômica, social, cultural, ambiental. E no Brasil nós temos leis, quais são os principais problemas que estão acontecendo, quais são
a benção de ter um conjunto de forças sociais que querem isso. A pesquisa do os principais ataques à Amazônia.
datafolha diz que 94% das pessoas preferem pagar mais pelo grão e pela carne
do que ver a Amazônia sendo destruída. No Brasil, está se desperdiçando essa Tatiana Merlino: Uma avaliação da ofensiva ruralista, a flexibilização
força e energia para ficar refém de uma mentalidade que com certeza não será das leis ambientais, tanto a MP 458, como mudanças no código florestal,
boa para o Brasil e muito pior para o planeta. licenciamento de obras em rodovias federais, como a BR 319...
Essa operação desmonte da legislação ambiental é, no meu entendimento, fruto
Tatiana Merlino: Senadora, caso o presidente Lula não vete os três de uma visão equivocada com a qual o teste de implementar a legislação se deparou.
artigos da MP 458 que a senhora e muitos outras pessoas da sociedade Em vez das pessoas fazerem um esforço para passar no teste, elas o estão alteran-
civil querem, a senhora cogita sair do PT e ir para o PV? do. Em relação à regularização fundiária. Em relação à questão da proteção das ca-
Eu estou muito apreensiva com essa medida 458. Eu disse que ela é a terceira vernas. Na regulamentação da proteção das florestas de crimes ambientais. E, ago-
pior coisa que aconteceu na minha vida. Esse processo de privatização de 67 mi- ra, vem a tentativa máxima de criar um código ambiental para o país, mexendo na
lhões de hectares de floresta na Amazônia, o equivalente a um patrimônio do povo lei de crimes ambientais, no sistema nacional de unidades de conservação, na polí-
brasileiro de 70 bilhões de reais, se não forem tomados todos os cuidados, é como tica nacional de meio ambiente, nas competências do Conama, tornando-o apenas
se fosse uma bomba de efeito retardado. Quando o país voltar a crescer, talvez não um conselho consultivo. É um conjunto de mudanças que representa um retroces-
haja como controlar o peso de tudo isso. Ela [MP 458] já veio com problemas na so. Está se armando uma bomba de efeito retardado que não poderá ser contida na
sua origem. Está se pedindo que se faça três vetos, inclusive o que possibilite a vis- hora que o país voltar a crescer. Está se transferindo 60 milhões de hectares de uni-
toria para separar o joio do trigo. E eu estou na expectativa de que o presidente Lula dades de conservação. Se isso prosperar, será avassalador para os próximos anos da

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política ambiental do país. Isso é assustador, particularmente
essa mudança no código ambiental, porque existe um setor
que agora se sente tão à vontade que não bastava ter conse-
“[Na gestão Minc] temos um tensionamento político em
guido algo que eles vem tentando nos últimos 20 anos, que
é a transferência dessa quantidade de áreas de terra. Agora
palavras, mas na prática temos uma situação dramática,
eles querem mudar toda a legislação ambiental. de muitas perdas para a questão ambiental”
Tatiana Merlino: Que setor é esse, senadora?
O setor mais atrasado, ligado ao agronegócio. Eu nunca gosto de generali- que estão dentro dessas áreas aí há 20, 30, 40, 50 anos. Como elas vão fazer para
zar como sendo o agronegócio inteiro. Mas existe uma parte que tem uma visão ganhar uma disputa com quem pode advogar na perspectiva de que essa terra vai
atrasada e que não consegue perceber que o melhor para a agricultura é transi- ser dele, e que daqui a três anos ele vai poder vendê-la?
tar do modelo insustentável para o modelo sustentável, o que pressupõe o res-
peito à reserva legal, à área de preservação permanente, o uso de forma inten- Tatiana Merlino: Os movimentos levantaram a possibilidade de, caso a
siva das áreas que foram abertas, uso de novas tecnologias. Existe um custo, MP seja sancionada, entrarem com uma Ação de Inconstitucionalidade. O
mas ele está sendo depositado na conta da natureza. Daqui um tempo, ele será que a senhora acha disso?
devolvido com menos chuva, menos possibilidade de polinização, e uma série É um dos caminhos, buscar uma regulamentação correta apelando inclusive
de prejuízos. E, daqui a pouco, talvez seja tarde demais. para o centro de justiça e comprometimento que o presidente Lula tem com essa
agenda de combate à violência e à grilagem. É em nome disso que se espera que
Tatiana Merlino: E como fica o presidente Lula diante desse cenário? haja o veto e um processo de regulamentação que corrija esses problemas.
Recentemente ele declarou que as ONGs estavam mentindo, não estavam
dizendo a verdade que a MP 458 ia abrir as portas da grilagem da Marcos Zibordi: A sensação é que sua saída ocorreu porque não havia
Amazônia. Como ele fica diante desse cenário, dessa investida? mais condição, e que o Minc seria mais flexível. Mas ele também esta
As ONGs e eu mesma dizemos que essa medida provisória, se não tiverem os entrando em embates corriqueiros.
cuidados necessários, vai favorecer a grilagem. Ela favorece a grilagem quan- Essa MP [458], assim que foi aprovada na Câmara dos Deputados, o ministro
do não assegura a questão da vistoria acima de 100 hectares, até os 4 módulos Carlos Minc deu uma declaração dizendo que tinha sido uma vitória dos
fiscais. Porque existem também os laranjas para os 400 hectares. Ela favoreceu ambientalistas. Deu um trabalho danado pra que se pudesse dizer que não
a grilagem quando não fez o recorte para regularizar as posses até 4 módulos foi vitória nenhuma e que tínhamos uma coisa grave. Depois ele percebeu
fiscais. Se tivesse feito esse recorte, beneficiaria 81,1% das posses e utilizaria e passou a trabalhar também pelos vetos. [Na gestão Minc] temos um
uma área de terra de cerca de 7 milhões de hectares. Por ter ido até os médios tensionamento político em termos de palavras, mas na prática temos uma
e grandes é que ela vai para 67 milhões de hectares. situação muito dramática, de muitas perdas para a questão ambiental.

Marcos Zibordi: Esses 20% fizeram crescer em 10 vezes o tamanho... Marcos Zibordi: Em que mundo que seus netos vão viver?
Exatamente. Em nome dos pequenos, se favorece os grandes. Quando o rela- Eu quero muito que o mundo seja melhor do que ele é hoje, que a Amazônia
tor coloca lá as emendas que dizem que os que têm ocupação indireta e o que são continue a Amazônia, o Cerrado, a Mata Atlântica, que não haja um derretimen-
pessoa jurídica também podem regularizar, ela descumpre o preceito constitucio- to do gelo no ártico tão violento. Mas meu compromisso não é apenas com o meu
nal que diz que terras públicas só podem ser alienadas por relevante interesse so- neto, tem que ser com todos aqueles que ainda não nasceram, os filhos dos filhos
cial. E quando foi estabelecido que os grandes poderão vender essas terras, a maior dos filhos. Se ficarmos pensando apenas no nosso filho e no nosso neto, isso foi o
parte depois de três anos, isso é para dar liquidez rápida a esses que se apropriaram que nossos pais pensaram e deu no que deu. Temos que pensar além deles e a con-
de terras publicas. Com a MP, é possível regularizar como pessoa física e em nome tribuição tem que ser dada agora, por cada um de nós, porque estamos diante de
de quantas empresas precisar. Primeiro é só um frigorífico, depois tem uma madei- uma esquina civilizatória, que é também uma esquina ética.
reira, uma agropecuária, vai pegando 1500 em nome de cada um desses entes jurí-
Anunciodicos e de seu nome próprio.
18:26:34 Então, quando se diz que favorece a grilagem é algo Alguns dias após a entrevista, o presidente Lula decidiu vetar apenas uma
Anuncio Raul_caros amigos.pdf 25/6/2009 18:26:34
Raul_caros amigos.pdf 25/6/2009
objetivo. E, para desconstruir isso, é preciso que se seja objetivo, que haja veto nes- parte do artigo 7º da medida provisória 458, que permitiria a transferência de
ses artigos que foram propostos, que se faça vistoria. Até porque existem pessoas terras da União para empresas

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Especial
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Raul
Raul Seixas
Seixas
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Plínio Teodoro

Desmatamento acelerado
nas fazendas de Daniel Dantas
A Agropecuária Santa Bárbara, do Grupo Opportunity anunciou em 2008
a venda de mais de 100 cabeças de gado.

a ntes de começar a ler este artigo, respire


profundamente. Considerada o pulmão do
mundo, a região amazônica passa por mais
um sufocamento iminente: o de ver cerca de 12%
de seu território cair, agora oficialmente, nas mãos
vultosas quantias de recursos de origem duvidosa
em paraísos fiscais - entre outros crimes – e conde-
nado a 10 anos de cadeia por tentar corromper um
delegado federal durante a fase investigatória.
Durante o prazo de anuência concedido aos
devastadores da floresta, grandes grupos adqui-
riram as terras griladas da região para expan-
dir a pecuária. Coincidência ou não, esta também
foi a decisão do grupo Opportunity, que fundou
dos latifundiários de rapina da pecuária de corte. a Agropecuária Santa Bárbara, atualmente dona
O fato não é novo. Três meses antes de seu suspi- Das teles às terras de uma área de 510 mil hectares na região ama-
ro final, o seringueiro Chico Mendes já alertara, em Claramente beneficiado no processo de desesta- zônica, o que corresponde a três vezes o tamanho
entrevista durante o terceiro congresso nacional da tização das teles pelo então ministro das Comunica- do município de São Paulo.
Central Única dos Trabalhadores (CUT), em 9 de se- ções, Luiz Carlos Mendonça de Barros, e pelo pró- Os negócios de Daniel Dantas na região vão
tembro de 1988: “Essa força nova (dos defensores prio presidente Fernando Henrique Cardoso – que bem. E quem diz o obrigado é o ex-cunhado e só-
da floresta) que cresceu, serviu pra deixar os gran- chegou a declarar em escuta telefônica que iria in- cio – inclusive de cela durante a Operação Satia-
des latifundiários cada vez mais preocupados. Hoje, terferir junto ao Banco do Brasil para que a Previ, graha - do banqueiro, Carlos Rodenburg. Em re-
a UDR (União Democrática Ruralista) se preocupa o fundo de pensão dos funcionários da instituição, portagem na edição de 15 de janeiro de 2008 do
muito em tentar se estruturar na Amazônia”. associa-se ao grupo Opportunity – o controverso jornal Valor Econômico – que pertence ao grupo
A aprovação da Medida Provisória 458 – que trata banqueiro baiano é acusado pela Polícia Federal de Folha e à Rede Globo – Rodenburg orgulha-se de
da “regulamentação” fundiária na Amazônia – pela remeter a paraísos fiscais até 2 bilhões de reais. Há dizer que ele e o sócio pretendiam faturar R$ 110
Câmara dos Deputados e a entrega da MP para a re- suspeitas de que parte destes recursos seja oriundo milhões com a venda de mais de 100 mil cabeças
latoria da senadora Kátia Abreu (DEM-TO), presidente do processo de privatização do sistema Telebrás, la- de gado no ano.
da Confederação Nacional da Agricultura (CNA), es- vados por meio do Opportunity Fund, o fundo de Quanto às irregularidades, comuns na região,
trangularam as ações de ambientalistas e dos povos investimentos criado por Dantas. o sócio de Dantas brada à mídia gorda: “Invasões
que lutam pela sobrevida – por meio do extrativismo Enquanto o banqueiro se digladiava com ex- e conflitos estão ligados à grilagem. Não senta-
– da maior floresta tropical do mundo. sócios para assumir o controle do sistema de te- mos nem para conversar se tiver alguma ilegali-
Um levantamento minucioso da organização não lecomunicações do país, a trupe “desenvolvimen- dade com a propriedade pretendida. Já a questão
governamental Greenpeace – que é mantida interi- tista” de FHC agia, em outra frente, para anular do trabalho escravo é uma realidade, mas temos
namente com recursos de pessoas físicas – estima os crimes cometidos pelos latifundiários na der- rigor absoluto com as normas que regulamentam
que entre 80 e 120 bilhões de toneladas de carbono rubada da Floresta Amazônica. as leis trabalhistas do setor”.
estejam estocados na Amazônia. Se destruída, a flo- Menos de um mês após a privatização do sis- Na visão do Ministério Público Federal, no en-
resta liberaria o equivalente a 50 vezes as emissões tema Telebrás, em 10 de agosto de 1998, Fer- tanto, a ética do império da pecuária de Daniel Dan-
anuais de gases do efeito-estufa produzidas pelos nando Henrique sancionou a Medida Provisória tas segue à risca o que o banqueiro já havia de-
Estados Unidos, sufocando, de vez, o planeta. 1.710, que entraria para a história da legislação monstrado em outros ramos de negócios, como o
Desenvolvido ao longo de três anos, o estudo brasileira como um dos atos do Executivo mais financeiro e de telecomunicações.
mostra que, segundo dados do próprio governo inconsequentes na área ambiental. A MP deu a No dia 01 de junho de 2009, promotores fede-
brasileiro, “a pecuária é responsável por cerca de possibilidade aos devastadores da floresta firma- rais pediram o indiciamento de dez fazendas per-
80% de todo o desmatamento” na região. Isto signi- rem “termos de compromisso” com os órgãos do tencentes à Agropecuária Santa Bárbara por des-
fica que a cada 18 segundos, um hectare de floresta Sisnama (secretarias e órgãos ambientais muni- matamento ilegal. Uma das indiciadas, a Fazenda
Amazônica, em média, é convertido em pasto. cipais, estaduais e federal) nos quais se compro- Rio Tigre, também é conhecida por figurar na lis-
O relatório revela ainda que os tentáculos de metiam a recuperar a área degradada em até 10 ta suja do trabalho escravo. Em julho de 2004, a
uma conturbada figura, que firmou seu império anos, ficando impunes por todo o período. propriedade, localizada em Santana do Araguaia,
durante o – no mínimo - duvidoso processo de A decisão acirrou a corrida ao novo “Eldora- no sul do Pará, recebeu a visita do grupo móvel
privatização conduzido durante o governo Fer- do” da pecuária brasileira, levando grandes empre- de fiscalização do Ministério do Trabalho e Em-
nando Henrique Cardoso, é o principal ponto de sários do setor a investirem na grilagem de terras prego, que libertou 78 trabalhadores que viviam
estrangulamento do planeta. devolutas, que pertencem à União, mesmo estan- em condições análogas à da escravidão.
Segundo dados obtidos pelo Greenpeace em do ocupadas. Estas áreas são adquiridas por meio Além da restauração dos danos ambientais, o
fontes oficiais do poder público, nada menos que de camponeses usados como laranjas, que assinam Ministério Público solicitou a emissão de multas
as cinco maiores áreas devastadas na Amazônia es- procurações e documentos falsos que possibilitam que ultrapassam o valor de R$ 680 milhões pelas ir-
tão em fazendas que pertencem à empresa Agrope- aos “patrões” a compra de várias propriedades vi- regularidades causadas pelo braço pecuário do im-
cuária Santa Bárbara, do grupo Opportunity. Sim, zinhas, como se fosse um grande loteamento. Po-
pério de Daniel Dantas.
dele, Daniel Dantas, preso durante a Operação Sa- rém, na verdade, estas várias propriedades unidas
tiagraha, da Polícia Federal, acusado de lavagem de formam um grande latifúndio.
Plínio Teodoro é jornalista.

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31
Frei Betto Fidel Castro

DEMOCRACIA Resposta ridícula


CULTURAL a uma derrota

O homem e a mulher são os únicos seres vivos que se Chegaram notícias das agências com a estranha infor-
contrapõem à natureza. Os demais são todos determinados pela natu- mação de que duas pessoas aposentadas, com mais de 70 anos, foram pre-
reza. Esse distanciamento humano frente ao mundo natural faz a rea- sas acusadas de ter espionado durante 30 anos para o governo de Cuba.
lidade revestir-se de simbolismo e produz a emergência transcenden- São Walter Kendall Myers e sua esposa, Gwendolyn Stein-
tal do imaginário. graber Myers. Acrescenta-se que o primeiro trabalhou como especialista
Voltada sobre si mesma, a consciência humana sabe que de assuntos europeus e que em 1995, vieram a Cuba e foram recebidos por
sabe, enquanto os animais sabem, mas ignoram a reflexão. Através do sím- mim. Durante esse tempo, reuni-me com milhares de norte-americanos,
bolo e do significado, o ser humano se relaciona com a natureza, consigo individualmente ou em grupos, às vezes de várias centenas, como os es-
mesmo, com os semelhantes e com Deus. tudantes do Projeto Semestre no Mar. Assim, mal poderia lembrar de uma
Nasce a cultura. A vida social ganha contornos definidos e ex- reunião com duas pessoas. A acusação especifica que o casal recebeu con-
plicações categóricas. Do domínio das forças arbitrárias da natureza chega- decorações, mas que nunca procurou dinheiro ou benefícios.
se às armas que permitem a imposição de um grupo cultural sobre o outro. Posso assegurar que, por uma questão de princípios, jamais
Porém, cultura é identidade e, portanto, resistência. Mesmo assim, a abso- torturamos nem pagamos a ninguém para obter informação alguma. Aque-
lutização de sistemas ideológicos oferece o paraíso, induzindo o dominado les que, de alguma maneira, contribuíram para a proteção da vida de cuba-
a sentir-se excluído por não pensar pela cabeça alheia. nos, diante dos planos terroristas de governos dos Estados Unidos, o fize-
No Brasil colônia, os métodos de catequese cristã introduziam ram por imperativos de suas próprias consciências.
entre os indígenas o vírus da desagregação e, hoje, os donos dos garimpos, O que mais chama a atenção é que essa notícia foi divul-
das madeireiras e o governo perguntam perplexos por que os povos indí- gada 24 horas depois da derrota sofrida pela diplomacia dos Estados Uni-
genas necessitam de tanta terra se nada produzem. Os pentecostais ata- dos na Assembleia Geral da OEA. Se essas pessoas estavam sob controle,
cam os umbandistas e certos setores da Igreja cristã olham com solene des- pois agentes do FBI as enganaram fingindo ser espiões cubanos, por que
prezo o candomblé. não foram presas antes?
A queda dos governos dos países socialistas do Agora começará o jogo da pretensa justiça contra duas pes-
Leste Europeu assinala, não o fim do socialismo, como propaga a mídia ca- soas trituradas moralmente de antemão com acusações que predeterminam
pitalista, mas sim da absolutização de sistemas ideológicos. Desabam, com a conduta do júri, que deverá decidir se são culpadas ou inocentes. Com
a herança estalinista, todas as estratégias de hegemonização da cultura, e certeza, não receberão o tratamento amável dado aos terroristas recruta-
a própria idéia de “evolução cultural”. Não há culturas superiores, há cul- dos pelo governo dos EUA para destruírem o avião da Cubana com todos
turas distintas. Agonizam as versões totalizadoras em todos os terrenos da os que viajavam nele e cometerem horrendos crimes contra o nosso povo,
produção de sentido - político, econômico e religioso. os quais, inclusive, violaram as leis dos Estados Unidos cometendo no seu
Quem pretender ignorar os sinais dos tempos terá próprio território numerosos atos terroristas execráveis.
de apelar ao autoritarismo para infundir temor. A mais de 500 anos da Já lançaram a campanha contra o casal. Foram apresenta-
chegada de Colombo às Américas - uma invasão genocida que alguns cha- dos como traidores que podem ser condenados a 35 anos de prisão, e per-
mam de “encontro de culturas” - convém relembrar esses conceitos an- manecerão no cárcere até terem mais de 100 anos. Os promotores pode-
tropológicos. E agora a democracia impregna também a cultura. Cada ho- rão fazer suas habituais manobras com fins políticos.
mem e mulher, grupo étnico ou racial, descobre que pode ser produtor do Armaram toda esta tramoia depois que Obama tomou
próprio sentido de sua vida. O difícil é respeitar isso como valor, sobretu- posse da presidência dos Estados Unidos. Talvez tenham influído na deten-
do nós, cristãos, que ainda não sabemos distinguir Jesus Cristo do arca- ção não apenas o tremendo fracasso sofrido em San Pedro Sula, mas tam-
bouço judaico e greco-romano que o reveste e tanto favorece o eurocen- bém as notícias de contatos entre os governos dos Estados Unidos e Cuba
trismo eclesiástico. sobre assuntos importantes de interesse comum.
Felizmente, o próprio Jesus nos ensina a diferença entre Uma notícia da ANSA já informou que Walter Kendall Myers
imposição e revelação. Impõe-se pervertendo a natureza do poder (Ma- declarou que tentou ser “muito prudente” na hora de obter e transmitir
teus 23, 1-12). Mas revelação significa “tirar o véu”: ser capaz de captar segredos para Cuba.
os fragmentos culturais de cada povo e reconhecer as primícias evangéli- Outras publicações se referem a um diário confiscado de
cas aí contidas, como afirmou o Concílio Vaticano II. Gwendolyn. Se tudo isso for verdade, não deixarei de admirar sua condu-
Aliás, Deus não fala latim. Prefere a linguagem do amor e da ta desinteressada e valente em relação a Cuba.
justiça. E esse dialeto toda cultura incorpora e entende. Não acham bem ridícula essa história da espionagem
cubana?
Frei Betto é escritor, autor de Diário de Fernando – nos cárceres da di-
tadura militar brasileira (Rocco), entre outros livros. Fidel Castro Ruz

32 caros amigos julho 2009


Daniela Baudouin

Ingerência da França no
conflito do Sudão
Vários programas europeus mantêm mais de seis mil soldados
naquela região, que é rica em petróleo e vive clima de guerra civil

D esde 1983, o conflito entre os rebeldes devido ao embargo imposto, em 1996, ao país. de caça e helicópteros no quadro de um outro
do sul do Sudão com as forças regu- Assim, Paris mantém a ilusão de participar dispositivo militar, a força Epervier.
lares do país matou aproximadamente das grandes disputas mundiais no único conti- Outro programa criado pela França que ope-
1,5 milhão de pessoas até 2005, data da assi- nente onde ainda tem certa influência. ra na África há aproximadamente dez anos é o
natura de um precário acordo de paz. A partir O Ocidente empreende então uma ação com- Recamp (Reforço das Capacidades Africanas de
de 2003 entra em cena uma nova guerrilha na posta na região, que não exclui rivalidades, Manutenção da Paz), dirigido com o propósito de
parte ocidental do território, Darfur, onde tam- como o caso da França e EUA, destinada a res- associar terceiros (África, Europa, ONU) às suas
bém o controle dos benefícios econômicos ad- tringir o poder da China, favorecendo a seces- incursões militares e de dividir custos e responsa-
vindos do petróleo está na base das reivindica- são das distintas províncias, a destruição do Es- bilidades conservando o controle das operações.
ções autonomistas. Esta última etapa provocou tado e a instalação de um caos onde o poder O governo francês não conseguiu, ainda, com
mais de dois milhões de refugiados e 300 mil seria ditado por bandos armados que se benefi- que seu projeto de corredor humanitário, que
mortes, causados pela fome, doenças e pelos ciariam das exportações, como acontece com o partiria do Chade e adentraria o território suda-
constantes ataques de milícias como os jan- ópio no Afeganistão. nês em direção a Darfur, triunfe. Uma vez que
jaweed, grupo supostamente apoiado pelo go- O conflito se expande aos países vizinhos do seria necessária uma força armada para prote-
verno central do Sudão. Sudão, 200 mil pessoas se refugiam no Chade ger as agências humanitárias, tal ajuda seria tão
O Ocidente alega que há um genocídio sendo e as fronteiras porosas permitem incursões ar- somente uma desculpa enganosa para uma ver-
perpetrado por árabes brancos e muçulmanos madas de um lado ao outro. O presidente desse dadeira invasão militar.
alinhados ao poder em Cartum contra comuni- país, Idriss Débry, no poder desde o golpe mi- Mas, na verdade, desde que Colin Powell, em
dades negras, cristãs e animistas em Darfur. litar de 1990, patrocina os rebeldes de Darfur, 2004, lançou a campanha política contra o Su-
Mas outros interesses, que não propriamen- principalmente o JEM, e enfrenta no seu terri- dão acusando-o de genocídio e incluindo-o na
te humanitários, podem estar em jogo por trás tório um grupo apoiado por Cartum. lista dos “países perigosos”, o projeto de inter-
dessas manifestações de repúdio e indignação e A França (ex-potência colonial do Chade) que venção militar-humanitária estava instaurado
das resoluções que vem sendo tomadas. dá apoio logístico ao exército do ditador chadia- de modo inquestionável e oficial.
O maior país da África é rico em petróleo, no como parte de um acordo de cooperação mi- O novo humanitarismo seletivo (“humanis-
tem um governo de predomínio muçulmano e litar com o país (acordos que remontam a 1976) é mo armado“ nas palavras de Noam Chomsky)
encontra-se em um cenário de rivalidades en- acusada pelo Sudão de enviar armas aos rebeldes das potências mundiais, que fustigam o Sudão,
tre potências e compromissos neocoloniais da de Darfur através desse país fronteiriço. mas recompensam regimes autoritários como o
França, do Reino Unido e dos EUA. O regime do Chade também recebe financia- do chadiano Idriss Débry, se mostra pouco con-
O que diferencia a política deste governo da mentos da União Europeia. Um dos emprésti- sistente perante o peso da China, que proporcio-
de seus vizinhos, que também utilizam a violên- mos, obtido junto ao BEI (Banco Europeu de In- na investimentos abundantes sem uma contra-
cia contra civis para deter forças desestabiliza- vestimentos) que seria utilizado para financiar partida política.
doras, é que este tenta manter-se numa posição projetos de infraestrutura e de proteção ao meio O denominado “direito de ingerência“, que
mais independente nas negociações pela explo- ambiente, foi destinado pelo presidente ao or- já gozou de prestígio entre políticos e intelec-
ração de seus recursos naturais e ambiciona ser çamento militar. tuais, é atualmente muito criticado por diversos
uma potência petroleira. Aspiração que hoje só é Há diversas forças de paz da União Euro- governos, e as ONGs que operam em regiões de
possível pela diversificação dos investimentos no peia com grande contingente de soldados fran- conflito estão sendo consideradas como a van-
país e em particular pela incursão da China. ceses atuando ali. O corpo expedicionário eu- guarda de uma nova era de recolonização.
A crescente influência do gigante asiático é ropeu, Eufor, instaurado em 2008, com 3,7 mil Por isso não surpreende que perante a decisão
provavelmente a principal razão para que a União soldados (dos quais 1.650 franceses), foi envia- inédita do Tribunal Penal Internacional de emi-
Européia e os EUA trabalhem juntos na África. do ao Chade para proteger os refugiados vin- tir um mandado de captura contra o presidente
Se por um lado o imperialismo francês per- dos do Sudão e responde tanto a considerações do Sudão, Omar Al-Bashir, por crimes de guerra
deu quase todas as batalhas contra os EUA e humanitárias como à preocupação dos ociden- e crimes contra a humanidade, o chefe de estado
viu-se obrigado a capitular, por outro a Total tais de criar uma fortaleza estratégica no cen- sudanês tenha decidido dar ordem de expulsão a
Fina ELF (grupo petrolífero francês) é pratica- tro da África. diversas agências de ajuda humanitária.
mente o único concorrente dos chineses no Su- As tropas não são consideradas isentas no
dão. As companhias norte-americanas não po- conflito com o Sudão já que a França tinha um Daniela Baudouin é editora da Casa das Áfricas.
dem participar dos novos contratos petrolíferos contingente de dois mil homens e de aparelhos www.casadasafricas.org.br

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33
Ana Maria Straube

O que esperar
da Conferência Nacional de Comunicação
A primeira conferência do setor começa a sair do papel enfrentando
problemas como a presença maciça de empresários na organização
e desinteresse do governo federal

o ficializada por decreto presidencial em 16


de abril, a 1ª Conferência Nacional de Co-
municação tornou-se realidade, principal-
mente a partir da pressão de movimentos e organi-
zações sociais ligadas à pauta da democratização da
construção de direitos e de cidadania na era digi-
tal, será realizada no período de 01 a 03 de dezem-
bro de 2009, em Brasília. As etapas preparatórias,
chamadas de conferências livres, têm caráter mo-
bilizador e devem acontecer até 31 de agosto. Já as
soras Públicas, Educativas e Culturais (ABEPEC),
pela Central Única dos Trabalhadores (CUT), pelo
Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação So-
cial, pelo Fórum Nacional pela Democratização da
Comunicação (FNDC), Associação Brasileira de Ca-
comunicação. Mas, apesar de simbolizar uma con- municipais e estaduais, são eletivas e devem ser re- nais Comunitários (ABCCOM), Associação Brasilei-
quista, a Confecom nasce marcada por particulari- alizadas até 31 de outubro. ra de Radiodifusão Comunitária (ABRAÇO), Federa-
dades que podem comprometer avanços reais em “A Conferência de Comunicação vai ser a úni- ção Nacional dos Jornalistas (FENAJ) e Federação
um campo que ainda carece de regulamentação e ca construída em seis meses. Como a sociedade já Interestadual dos Trabalhadores de Empresas de Ra-
de políticas democratizantes. está fazendo debate, achamos que vamos conse- diodifusão e Televisão (FITERT).
As diferenças em relação a setores que reali- guir participar de forma tranqüila, mas todas as ou- A composição da Comissão Organizadora Nacio-
zam conferências há mais tempo são significativas, tras questões de infra-estrutura, material e recursos nal causou polêmicas entre os movimentos e orga-
como a grande presença de empresários na comis- podem atrasar esse processo”, diz Carolina Ribei- nizações da sociedade civil envolvidos no debate,
são organizadora, a demora do governo em com- ro, do Intervozes – Coletivo Brasil de Comunica- pois além da representação empresarial exagerada
por suas instâncias organizativas e colocá-las para ção Social. – o setor tem peso semelhante, ou maior, do que a
funcionar, e mais recentemente, um corte drástico A Comissão Organizadora, definida em 20 de representação social (considerando que as entida-
em seu orçamento. abril pelo Ministério das Comunicações, é compos- des como ABEPEC e ABCCOM não são exatamente
Outro desafio é mobilizar a sociedade para a dis- ta por 28 membros, sendo 12 do poder público, com sociedade civil organizada), falta em sua composi-
cussão de uma pauta que parece naturalizada, em oito indicados pelo Executivo e quatro pelo Con- ção entidades que não tenham a comunicação como
um setor que não possui organização popular con- gresso Nacional, e 16 da sociedade. pauta prioritária (somente a CUT não trabalha dire-
solidada como as áreas de saúde e educação. As O Executivo está representado pela Casa Civil e tamente com o tema), entidades ligadas à academia
Conferências de Saúde, por exemplo, que têm peso ministérios das Comunicações, Ciência e Tecnolo- ou mesmo representação estudantil.
político maior que o próprio Ministério. Em 1986, gia, Cultura, Educação e Justiça, pela Secretaria de Além disso, o Ministério ignorou a proposta de
sua 8ª edição construiu um conjunto de políticas Comunicação Social e pela Secretaria-Geral da Pre- composição apresentada ao governo pela Comissão
que desembocou na criação do Sistema Único de sidência da República. Enquanto cada órgão do go- Nacional Pró-Conferência (CNPC), espaço constru-
Saúde, o SUS, referência mundial. Realizadas de verno indicará um membro, Câmara e Senado po- ído por 30 entidades da sociedade civil em 2008,
quatro em quatro anos, têm caráter vinculativo, ou derão indicar dois cada um. para debater e pressionar pela realização da ativi-
seja, suas deliberações guiam a implantação de po- Das 16 vagas de representantes da sociedade, dade. Em janeiro, durante o Fórum Social Mundial
líticas públicas, além de contar com uma porcenta- oito foram ocupadas por entidades representativas de Belém, o presidente Lula declarou que a Confe-
gem muito menor de empresários em suas instân- do empresariado: Associação Brasileira de Emisso- com seria realizada ainda em 2009. A partir disso, a
cias organizativas, cerca de 25%. Nos anos em que ras de Rádio e Televisão (ABERT), Associação Bra- Comissão Nacional Pró-Conferência debateu inter-
não ocorrem, os conselhos não deixam de atuar. sileira de Radiodifusores (ABRA), Associação Brasi- namente uma proposta de composição da Comissão
leira de Provedores Internet (ABRANET), Associação Organizadora, também referendada pelas comissões
Incertezas Brasileira de TV por Assinatura (ABTA), Associação que se formaram nos estados. Um processo de inter-
Ainda há muita incerteza cercando a 1ª Confe- dos Jornais e Revistas do Interior do Brasil (ADJORI locução com a CNPC foi criado pelo governo, mas
com. Quase três meses após o decreto que a institu, BRASIL), Associação Nacional de Editores de Revis- não chegou a ser concluído.
a Comissão Organizadora se reuniu poucas vezes e tas (ANER), Associação Nacional de Jornais (ANJ) Para Carolina, do Intervozes, há uma super re-
somente em junho o calendário foi definido. Ques- e Associação Brasileira de Telecomunicações (TE- presentação do setor empresarial enquanto a so-
tões como regimento interno, temário e eleição de LEBRASIL). ciedade civil não está bem representada, não há
delegados ainda estão pendentes. As outras oito cadeiras serão preenchidas por mulheres ou negros, por exemplo. “O Intervozes
De concreto, está definido que a Conferência uma entidade ligada às emissoras públicas edu- saudou o decreto, mas criticou a composição e a
Nacional, cujo tema é Comunicação: meios para a cativas estatais, Associação Brasileira das Emis- forma de definição dos nomes. Nossa proposta era

34 caros amigos julho 2009


de 33% para o poder público, 16%, para o setor em- nicações. Para isso, considera positiva a inclusão Mobilização
presarial, 6,5% para mídia pública, 3% para acade- de empresários na construção da Conferência. Para A partir de uma correlação de forças desfavorá-
mia e sociedade civil com o resto, cerca de 40%. A ele, é necessário atualizar a legislação voltada para vel, resta à sociedade civil organizada tentar mobi-
proposta final excluiu a academia e empresários fi- o tema, que é antiga e não contempla as novas tec- lizar seus pares para interferir nas etapas municipais
caram em maioria”, afirma. nologias. “Apesar de isso ter sido feito por meio de e estaduais da Conferência. Schröder acredita que o
Houve problemas também com as escolhas dos políticas públicas em outros setores, na comunica- peso dos empresários não deve ser tão sentido nas
representantes do Legislativo. A Câmara indicou ção o país não conseguiu implementar políticas de- etapas eletivas, que serão marcadas por diversidade
apenas um titular, o deputado Paulo Bornhausen mocratizadoras, como aconteceu em outros luga- e pluralidade de vozes e participação. Além disso, ele
(DEM-SC), quando podia ter indicado dois, fazendo res”, diz. Schröder cita o caso dos Estados Unidos, defende que os principais debates não devem ser fei-
com que a deputada Luiza Erundina (PSB-SP), que onde a propriedade cruzada dos meios e a criação tos dentro da CO, mas nas Conferências em si. “Não
fez parte das articulações ao lado dos movimentos das cadeias é controlada. “Para o FNDC é importan- podemos transformar a CO na Conferência sob o ris-
sociais e da CNPC desde seu início, fosse preterida te superar os diagnósticos e elencar os dissensos en- co de empobrecer o debate, a comissão serve apenas
e colocada como suplente junto com Milton Mon- tre sociedade civil e empresariado”. para viabilizar o evento”, coloca. Com uma visão não
ti (PR-SP), Cida Diogo (PT-RJ) e Eduardo Valverde Tanto Carolina como Schröeder concordam que tão otimista, João Brant, do Intervozes, coloca que
(PT-RO). O Senado é representado por Wellington a questão da convergência tecnológica impõe de- é necessário ampliar o número de atores para tentar
Salgado (PMDB-MG) e Flexa Ribeiro (PSDB-PA) ti- safios para os empresários do setor e apontam para diminuir o espaço do mercado, mas pondera que é
tulares, e Lobão Filho (PMDB-MA) e ACM Júnior uma necessidade de regulamentação. O termo con- inocência achar que existe a possibilidade de cons-
(DEM-BA) como suplentes. vergência diz respeito às novas tecnologias que fa- truir acordos com os empresários, pois “há confli-
Outra surpresa foi a questão do orçamento. O zem com que a produção e distribuição de conteú- to no modelo”.
Governo Federal decretou, em 11 de maio, um cor- do não seja mais monopólio da radiodifusão. Com Em relação ao governo, os movimentos enxergam
te de 82% no orçamento previsto para a realização a implantação da interatividade proporcionada pela resistência e ambigüidade. Não se sabe ainda qual po-
da Confecom. A verba prevista era de R$ 8,2 mi- TV digital e com a possibilidade de difusão de in- sição será tomada em relação às divisões entre os em-
lhões e caiu para R$ 1,6 milhão. Segundo a depu- formação por telefones celulares, os meios tradicio- presários, mas essa dúvida sobre como fazer a media-
tada Luiza Erundina, em entrevista ao Observatório nais tendem a se transformar. ção torna o momento interessante para a realização da
do Direito à Comunicação, “o valor definido na Lei Eduardo Parajo, presidente da Associação Brasi- Conferência. Para a deputada Luiza Erundina “há uma
Orçamentária de 2009 já era resultado de uma re- leira de Provedores de Internet (ABRANET), não vê enorme má vontade e uma indisposição para a reali-
dução em relação à emenda proposta pela Comis- necessidade de mudança na legislação atual, mas zação da Conferência. O atraso na convocação e a fal-
são de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Infor- considera importante que o setor que representa ta de esforços para agilizar o processo nos estados já é
mática da Câmara (CCTCI). Inicialmente eram R$ 10 participe da Conferência e acompanhe o processo. um fator muito negativo, agora esse corte pode com-
milhões. Nas discussões, reduziram para R$ 8,2 mi- “Precisamos ter voz para ver se as mudanças pro- prometer as expectativas da sociedade civil.”
lhões, com uma verba complementar aí de R$ 300 postas serão favoráveis. Já há legislação e contra- Para Brant “é preciso mapear o quanto consegui-
mil, totalizando R$ 8,5 milhões”. Marcelo Bechara, tos estabelecidos, temos de ser cautelosos”, afirma. remos intervir, mas fica claro que não devemos con-
consultor jurídico do Ministério das Comunicações, Decidido, afirma que a entidade pretende verificar centrar essa discussão apenas entre especialistas. Esse
afirma, na mesma matéria do Observatório, que há como o processo vai se comportar, para defender os é exatamente o intuito da Comissão Nacional Pró-
possibilidade de recomposição do orçamento. “Não interesses do setor. “Precisamos preservar o merca- Conferência, se consolidar como o espaço da socieda-
acredito que este corte vá se manter. É uma deci- do de internet, que foi construído por anos”. de civil para interferir no processo e aglutinar a maior
são do presidente Lula realizar a Conferência, que Já Frederico Nogueira, vice-presidente da Asso- quantidade de movimentos e organizações.”
só ocorrerá se assegurado o montante suficiente de ciação Brasileira de Radiodifusores (ABRA), que re- Outro papel da CNPC é centralizar e estimular o
recursos por parte do governo federal”, afirma. úne a TV Bandeirantes e Rede TV, diz estar aberto diálogo com os estados que realizarão Conferências.
à todas as possibilidades. “Damos total apoio à re- Até agora, há comissões organizadas em 23 estados
Interesses conflitantes alização da Conferência e ao diálogo com a socie- e propostas como a da Comissão Paulista, que pre-
Como era de se esperar, muitos interesses e visões dade civil. Espero que seja um grande debate e não tende montar uma caravana de formação sobre o
conflitantes estão colocados para a realização da 1ª um bate-boca”, afirma. Segundo ele, o objetivo da tema para percorrer o interior do estado estimulan-
Confecom, principalmente no que tange à disputa de ABRA é a defesa dos interesses nacionais e a discus- do a construção das atividades municipais.
posições entre empresários e sociedade civil. são à restrição ao conteúdo estrangeiro: “Só brasi- Para Schröder, está claro que a 1ª edição da Con-
Para Carolina, do Intervozes, seria importante leiros podem produzir conteúdo”, coloca. fecom não conseguirá discutir todos os temas e atin-
que a Conferência se debruçasse sobre os meios (TV, A restrição ao conteúdo estrangeiro é um dos pon- gir todos os objetivos do movimento de comunica-
rádio, internet, jornal, cinema) e suas questões es- tos de atrito entre teles e radiodifusores, assim como o ção, mas será um passo interessante ao significar a
pecificas que precisam ser regulamentadas e sobre financiamento e participação de capital internacional. construção de uma agenda que aponte para deba-
questões transversais, não específicas dos meios, Flávio Cavalcanti Júnior, diretor de relações com as- tes futuros. “A pauta não se esgota com essa Confe-
mas que precisam ser contempladas como conces- sociados e entidades da Associação Brasileira de Rádio rência. Trata-se da primeira edição e deve ser vista
sões, espectro, agência reguladoras, propriedade e Televisão (ABERT), vai no mesmo sentido. Para ele, como tal. O processo será enriquecedor em si mesmo.
intelectual, direito autoral, propriedade dos meios, é necessário que a Conferência discuta alguma forma Vamos ter agendas legais e regulamentação no que
universalização, políticas de fomento e acesso. “Há de proteção ao conteúdo nacional. “Gostaria que fos- for possível e debates futuros para próximas agen-
também a necessidade de discutir a cadeia produti- se discutido igualdade de direitos e deveres, isonomia das”. Para Brant, não é o caso de deslegitimar o espa-
va, que aponta para o debate de convergência. No para produção e distribuição de conteúdo. A TV aber- ço ao constatar que a correlação de forças não é fa-
futuro, não vai existir TV como é hoje, vai haver ta tem restrições, a TV a cabo não vai ter? Qual é a vorável aos setores mais progressistas. Segundo ele,
conteúdo, produção, recepção e isso necessita de re- diferença do conteúdo gerado em telefone e TV aber- “o caminho oficial é um ponto do processo, a cons-
gulamentação”, coloca. ta? Nós somos submetidos à classificação indicativa. trução de uma plataforma comum não é só para a
Celso Schröder, coordenador-geral do Fórum E o conteúdo distribuído por celular? Essas coisas es- Conferência”, diz, apontando um caminho que pode
Nacional pela Democratização da Comunicação tão iguais e o quadro precisa ser rediscutido”, apon- significar o tão necessário fortalecimento do movi-
(FNDC) e representante da Federação Nacional dos ta. Segundo Cavalcanti, a ABERT defende que haja mento nacional pela democratização e pelo direito à
Jornalistas (FENAJ) na Comissão Organizadora, somente capital nacional na radiodifusão. Para ele, a comunicação.
considera importante que os debates não fiquem concorrência com o capital estrangeiro nas teles pode
restritos a fazer um diagnóstico do setor das comu- ameaçar a produção nacional. Ana Maria Straube é jornalista.

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35
Camila Martins

Unidade misteriosa esconde


jovens infratores

Criada em 2006, a prisão-hospício é um depósito do Judiciário onde


estão internados os casos considerados perigosos devido ao diagnóstico
de “transtorno antissocial”. Foto Jesus Carlos/Imagemlatina

s e Roberto Aparecido Alves Cardoso não


fosse interno da Unidade Experimental de
Saúde (UES), no Belém, em São Paulo, qua-
se nada se saberia do lugar. Digitando o nome da
instituição no Google, 1.022 ocorrências aparecem,
nados - além dos já citados participaram do estupro
Antônio Caetano, Antônio Matias e Agnaldo Pires.
Champinha, na época com 16 anos, foi levado para
a Febem, hoje Fundação Casa, para cumprir os três
anos previsto pelo ECA, Estatuto da Criança e do
concordou. Com isso a parceria foi quebrada”, con-
ta Fernanda Lavarello, conselheira do Conselho Re-
gional de Psicologia de São Paulo.
Com a parceria desfeita, e a obra concluída, a
UES ficou seis meses vazia.
a maioria sobre o dia em que o jovem foi encami- Adolescente, em medida socioeducativa.
nhado para lá. Um dos poucos links que aparecem no Google, Champinha e a UES
Roberto Alves Aparecido Cardoso, mais conheci- e não ligam Champinha à UES, é do próprio site da Pouco antes de Champinha completar três anos
do como Champinha, foi um dos acusados pelo as- Fundação Casa. O conteúdo, do ano de 2006, infor- da medida socioeducativa, e ser colocado em liber-
sassinato do casal Liana Friedenbach e Felipe Caffé, ma sobre a construção da Unidade. A proposta era dade, o Ministério Público entrou com o processo
na cidade de Embu Guaçu, em São Paulo, no ano de criar na cidade de São Paulo um sistema de refe- para converter a medida socioeducativa em medida
2003. Os jovens, que eram estudantes do São Luiz, rência no tratamento de jovens que cumprem medi- protetiva de tratamento psiquiátrico com conten-
colégio da burguesia paulistana, namoravam e fo- da socioeducativa e apresentam distúrbios psicoló- ção, o que garantiria sua permanecia na Fundação
ram acampar durante o feriado sem que suas famí- gicos, através da parceria entre Fundação Casa (na Casa até os 21 anos.
lias soubessem. época FEBEM), a ONG Santa Fé e a Universidade Na iminência da segunda medida se extinguir, o
Em um primeiro momento foram dados como de- Federal de São Paulo, que se responsabilizaria pelo Estado entrou com pedido de interdição civil cumu-
saparecidos, mas dias depois o mistério se revelou: o tratamento psiquiátrico. Era um terreno com cinco lada com internação hospitalar compulsória no Fó-
casal foi sequestrado por moradores da região. Felipe casas, abrigando até oito jovens cada. rum de Embu Guaçu. A juíza expede uma liminar
foi morto com um tiro de espingarda disparado por “O que a gente escuta nos bastidores é que o Dr. favorável ao Estado, pedindo a transferência de
Paulo César da Silva Marques, o Pernambuco. Lia- Raul Gorayebe, professor de psiquiatria da Unifesp Champinha para a Casa de Custódia de Taubaté.
na foi mantida em cárcere privado sendo estuprada e idealizador do projeto, queria escolher tanto os A internação hospitalar compulsória, modalida-
e torturada, até ser morta a facadas por Champinha. profissionais quanto os jovens que iriam ser enca- de mais grave prevista pela lei 10.216/2001 da Re-
Todos que fizeram parte do crime foram conde- minhados para a Unidade, e a Fundação Casa não forma Psiquiátrica, não deriva de um crime, mas de

36 caros amigos julho 2009


um laudo médico que constate a necessidade do in- identificar a dimensão mais íntima do sujeito capaz A juíza Paukoaski rebate a crítica, “Se existe uma
ternamento, independe da vontade da própria pes- de emergir a qualquer momento. “Depois da Segunda anomalia psíquica, e a área médica aponta isso, não
soa, ou de sua família. Guerra Mundial profissionais dos diversos campos se podemos devolvê-los à sociedade sem o acompa-
“Para esse tipo de internação, o artigo sexto da juntaram para fazer a desconstrução dessa ideia, res- nhamento de uma equipe multidisciplinar.”
lei diz que é necessário fazer um laudo médico cir- paldados por estudos epidemiológicos e estatísticos Mas há outras irregularidades. Daniel Adolpho
cunstanciado (naquela oportunidade), e isso não que mostram que não existe proporcionalmente um conta que não existe um regimento interno da Uni-
aconteceu, eles usaram os laudos feitos na ocasião número maior de pessoas com transtorno mental que dade, pois quem é internado não tem previsão do
da medida socioeducativa”, diz Daniel Adolpho As- cometem atos infracionais, assim os loucos cometem tempo de pena que irá cumprir, e que nenhum trata-
sis, do Centro de Defesa dos Direitos da Criança e tantos crimes como os ditos normais.” mento psíquico acontece no local. “O que o Rober-
do Adolescente (CEDACA Interlagos), e advogado Em uma pesquisa feita entre os anos de 2005 e to me conta é que mais ou menos a cada 15 dias vai
do jovem. Outra inconsistência que Daniel aponta 2006, antes da inauguração da UES, a professora um psicólogo lá, conversa um pouco com ele, per-
na liminar, é que Champinha não poderia ser en- apontava para o fenômeno de psiquiatrização do jo- gunta se precisa de algum remédio, e só. Nem o jo-
caminhado para a Casa de Custódia de Taubaté por vem autor de ato infracional, um modo de gestão que vem, nem o seu defensor público, podem ter aces-
ele ainda estar sob respaldo do ECA, além de que a usa o transtorno mental para provocar mecanismos so ao prontuário médico, violando mais uma vez a
Casa de Custódia só recebe adultos que cometeram de segregação e ampliação do tempo de internação. lei 10.216.”
crimes e apresentam transtorno mental. Outro fator identificado é a volta do diagnóstico de “Mesmo quem se diz defensor dos direitos hu-
Nesse meio tempo, Champinha foge da Funda- transtorno de personalidade antissocial. “Foi o caso do manos torce o nariz quando se fala sobre o caso do
ção Casa, logo é pego e levado para a UES. Roberto (Champinha) que trouxe isso, pois a mídia e a Roberto, mas é importante saber que quando ele
opinião pública fizeram uma pressão tão grande que, fosse liberado não ia simplesmente sair da Funda-
A refundação da UES ou se revia a maioridade penal, ou aumentaria o tem- ção Casa. As psicólogas que acompanharam todo o
Depois de seis meses vazia, a UES recebe seu in- po de internação, que é um projeto em andamento. processo dele já estavam articulando uma rede em
terno mais famoso em maio de 2007. Em novembro Mas, como nada saiu do papel, utilizar os mecanismos outro Estado pro qual ele e toda a sua família mu-
desse mesmo ano o governador de São Paulo, José de internação psiquiátrica, foi o jeitinho que eles de- dariam. Eles entrariam no serviço de proteção a tes-
Serra, expede o decreto 52.419/2007, transferindo o ram para driblar a lei”, explica Maria Cristina. temunha, se necessário até mudariam de nome, com
imóvel da UES para a Secretaria de Saúde. Um Ter- isso ele continuaria tendo um acompanhamento ju-
mo de Cooperação Técnica entre Saúde, Administra- Transtorno antissocial dicial”, explica Fernanda Lavarello.
ção Penitenciária, e Fundação Casa firmava que a Entre os transtornos de personalidade identifica-
UES abrigaria adolescentes e jovens, autores de atos dos pelo Imesc está a personalidade antissocial, “na Ninguém sabe, ninguém viu.
infracionais que cumpriram medida socioeducativa, maioria dos casos não havia diagnóstico fechado, A assessoria de imprensa da Secretaria da Saú-
e tiveram sua medida revertida em protetiva, já que mas que o jovem apresentava traços de tal perso- de foi procurada pela reportagem para falar sobre o
apresentam diagnóstico de transtorno de personali- nalidade”, conta a juíza Mônica Paukoaski. assunto. A resposta: “O que temos a informar é que
dade antissocial, e/ou alta periculosidade. O diagnóstico de transtorno de personalidade a decisão sobre a internação das pessoas atendidas
Segundo a juíza corregedora do DEIJ, Departa- antissocial é questionado por algumas áreas da psi- na Unidade Experimental de Saúde é feita pela Jus-
mento das Execuções da Infância e da Juventude, cologia, apesar de constar na Classificação Interna- tiça. A Secretaria de Estado da Saúde mantêm esta
Mônica Paukoaski, a saúde mental é um dos fatores cional de Doenças Mentais. estrutura para atender pacientes encaminhados por
importantes que fazem parte da trajetória de recu- Segundo Fernanda Lavarello, é a análise de um decisão judicial.”
peração dos adolescentes autores de atos infracio- comportamento que foi externalizado a partir de Tanto os laudos periciais que encaminharam os
nais, já que esses problemas interferem diretamente um ato de transgressão, negando toda a historici- seis jovens para a UES, quanto o tratamento psiqui-
no resultado do processo sócio-educativo. “Os lau- dade do sujeito e o fato de o crime ser produto de átrico daqueles que cumprem medida socioeducati-
dos do Imesc, Instituto de Medicina Social e Crimi- vulnerabilidade social. “O cometimento de um ato va na Fundação Casa são feitos pelo Nufor, Núcleo de
nologia, apresentaram ao Judiciário a necessidade infracional não implica no cometimento de trans- Psiquiatria Forense do Hospital das Clínicas. O coor-
do jovem portador de transtorno mental (os mais gressões futuras, ninguém tem bola de cristal para denador do núcleo, Daniel Martins de Barros, respon-
comuns eram deficiência mental, esquizofrenia, e prever o que vai acontecer.” deu por email:
transtorno de personalidade) ser acompanhado em Depois do Termo de Cooperação Técnica assina- “O Nufor vem prestando assistência psiquiátrica
local adequado sob contenção”, completa. do, mais cinco jovens foram encaminhados para a apenas aos internos da Fundação Casa em unidades
“Essa nova Unidade vai na contramão de todas Unidade Experimental de Saúde, todos com o mes- regulares da capital. A Unidade Experimental de Saú-
as conquistas da luta antimanicomial e do ECA. O mo diagnóstico: transtorno de personalidade antis- de não está sob responsabilidade da Fundação Casa,
que eles fizeram foi um manicômio judicial para jo- social e alto grau de periculosidade. não fazendo parte do nosso escopo de assistência.”
vens”, diz Fernanda Lavarello, que também faz par- E a juíza Mônica Paukoaski alerta: “Apesar de se Também procuramos Vitor Manuel da Silva Mon-
te do Grupo Interinstitucional, que debate questões tratar de questão polêmica, não foi o Judiciário que teiro, diretor da UES, mas um funcionário da adminis-
sobre criança, adolescente, justiça, e saúde mental. preconizou a necessidade de atendimento sob con- tração informou que ele estava de férias fora do Brasil
A luta antimanicomial é travada no Brasil des- tenção, mas sim os médicos de órgão oficial do Es- e não havia ninguém ocupando seu cargo nesse perío-
de a década de 1980, e sua principal conquista foi a tado. Além disso os jovens que se encontram hoje do, além de que nenhum funcionário estaria capacita-
aprovação da lei 10.216/2001, que garante ao por- na UES não estão internados por determinação do do nem autorizado para falar com a imprensa.
tador de transtorno mental que a internação só será DEIJ, mas foram interditados pela justiça comum.” “A Unidade Experimental de Saúde desvirtuou-se
indicada depois que todos os recursos extra-hospi- No caso específico de Champinha, “ele foi pego do seu caminho e não está funcionando da forma pro-
talares de tratamento se esgotarem. como bode expiatório para inaugurar essa instância posta pelo Judiciário, jamais uma unidade de saúde
Segundo Maria Cristina Vicentin, professora do arbitrária e de exceção que a Justiça está utilizando. mental deve assumir feições de manicômio judiciário.
programa de pós-graduação em Psicologia Social da Todos os jovens que estão lá cometeram crimes con- O transtorno de personalidade antissocial é um diag-
PUC-SP, a cidade de São Paulo colocou diversos im- tra pessoas da classe média e alta em suas cidades nóstico sério que precisa ser enfrentado com respon-
passes durante o processo de construção da reforma de origem, que ganharam grande repercussão na mí- sabilidade. Jovens que contam com esse diagnóstico
de saúde mental, como o lobby dos hospitais psiqui- dia”, diz Daniel Adolpho. Este completa sua denún- precisam de uma atenção especial, a idéia não é segre-
átricos que visam interesses mercadológicos na saú- cia: “ninguém tem coragem de cumprir a lei e assi- gar, mas acompanhar o jovem até que se obtenha al-
de. Para ela, a relação entre periculosidade e loucura nar pela libertação do Roberto porque ninguém quer gum avanço”, finaliza a juíza Mônica Paukoaski.
é construída no começo do século 19, por psiquiatras enfrentar a opinião pública e o pai da Liana, que tem
que entendiam a sua ciência como aquela capaz de bastante influência financeira e política..” Camila Martins é repórter.

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37
Lúcia Rodrigues

Petrobras resiste
ao ataque da direita
Em defesa dos interesses privados e de olho nos lucros do pré-sal,
parlamentares conservadores e a mídia neoliberal fustigam a estatal.
Ilustração Latuff

a maior empresa do país em valor de mercado


resiste a mais um ataque das forças conserva-
doras. No centro de uma investigação, desen-
cadeada por senadores do PSDB e Democratas, a Pe-
trobras parece não se preocupar com os resultados dos
rá em velocidade de cruzeiro no final de 2010.
“Até 2020 vamos aumentar a produção do pré-sal
em 1,8 bilhão de barris”, revela, em entrevista exclu-
siva à Caros Amigos, o presidente da Petrobras, José
Sérgio Gabrielli de Azevedo. Para ele, as áreas do
leira tem despertado a cobiça dos Estados Unidos e
do cartel das sete irmãs (principais companhias pe-
trolíferas mundiais) sobre o ouro negro nacional.
As reservas norte-americanas estão secando. Os
reservatórios estadunidenses possuem apenas 29 bi-
desdobramentos da CPI proposta pelo senador tucano pré-sal são “quase bilhetes premiados”. E, por isso, lhões de barris para ser prospectados. Se mantido o
Álvaro Dias, e mantém o ritmo de trabalho. devem continuar a ser exploradas pela estatal. atual ritmo no padrão de consumo, em torno de 10
Os investimentos projetados para os próximos “Estaremos, com certeza, entre as maiores empre- bilhões de barris ao ano, as reservas estarão extintas
quatro anos atingem a casa dos US$ 174,4 bilhões. sas de petróleo do mundo.Vamos sair da produção de em menos de três anos. “Os norte-americanos estão
Só o pré-sal (petróleo extraído abaixo da lâmina de 2,4 bilhões de barris/dia e chegar em 2020 produzin- em apuros, desesperados atrás de petróleo. Por isso,
água e do sal do fundo do mar), receberá um aporte do 5,7 bilhões de barris/dia”, frisa. invadiram o Iraque, o Afeganistão”, ressalta o presi-
de US$ 111,4 bilhões nesse período. A produção em A potencialidade gerada pela descoberta das re- dente da Aepet (Associação dos Engenheiros da Pe-
escala comercial do carro-chefe da companhia entra- servas de petróleo da camada pré-sal na costa brasi- trobras), Fernando Siqueira.

38 caros amigos julho 2009


A situação das sete irmãs também é delicadíssi- da empresa pode sofrer desgastes em função de “ila- “Vão construir um palco político, para a disputa
ma. Da cômoda posição de detentora de aproxima- ções e de uma onda de denuncismo” contra a estatal eleitoral de 2010”, afirma.
damente 90% das reservas mundiais, despencou a motivada pela CPI. “Acaba minando a reputação da O sindicalista teme que a empresa também volte
um patamar de 3%. Por isso, os lobbies que repre- companhia. Isso é muito ruim”, lamenta. a ser objeto de ataques privatistas, apesar de o sena-
sentam esses interesses atuam de maneira voraz, O representante dos engenheiros da Petrobras dor Álvaro Dias, autor do requerimento que permitiu
em Brasília, para tentar reverter a situação extre- considera que ao propor uma CPI para investigar a a instalação da CPI garantir que esse não é o obje-
mamente desfavorável que atravessam. O pré-sal é empresa, o principal objetivo do PSDB é quebrar o tivo da proposição. “Esse pessoal (tucanos e demo-
encarado como a tábua de salvação de que necessi- prestígio da companhia. “Querem enfraquecê-la para cratas) têm a privatização no sangue, está no DNA”,
tam para se livrar de seus infortúnios. justificar a vinda de empresas estrangeiras”, afirma, ressalta Moraes.
Os prognósticos geológicos mais conservadores ao se referir aos parlamentares e ao lobby que atua O temor do dirigente sindical também é compar-
para o petróleo extraído da camada pré-sal apontam em defesa dos interesses capital estrangeiro. tilhado pelo representante da Aepet. “O PSDB fez de
reservas da ordem de 90 bilhões de barris, quase sete De acordo com ele, entre os lobbistas que atu- tudo para desnacionalizar a Petrobras. Chegou até a
vezes superior à atual reserva brasileira, confirmada am na defesa desses interesses, está o diretor-geral mudar o nome da empresa para Petrobrax”, relembra
em 14 bilhões de barris de óleo equivalente. Mantido o da ANP (Agência Nacional de Petróleo), deputa- Fernando Siqueira. “Queriam dividi-la em unidades
padrão de consumo nacional, de um bilhão de barris/ do Haroldo Lima (PC do B - BA). Lima nega qual- de negócios, transformando-as em subsidiárias, para
dia, teríamos assegurado 90 anos de tranqüilidade. quer envolvimento com lobbistas. “É uma afirma- preparar a privatização”, acrescenta.
Para Siqueira, a Petrobras descobriu um “Iraque na ção irresponsável.” As duas entidades (FUP e Aepet) estão envolvidas
América Latina”. Os números projetam o país, como A ANP é o órgão responsável pela realização dos na organização da sociedade civil com vistas à cons-
a quarta reserva mundial de petróleo, atrás apenas da leilões de blocos petrolíferos, abertos à participação da trução de um novo marco regulatório para o setor. A
Arábia Saudita, que possui 260 bilhões de barris em iniciativa privada. Com a quebra do monopólio esta- FUP também pretende apresentar ao Congresso Na-
reservas, do Irã, com 140 e Iraque, com 115. tal do petróleo em 1995 e com a lei 9.478/97, sancio- cional um projeto de lei de iniciativa popular. “Esta-
O banco de investimento Goldman Sachs também nada pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, mos recolhendo um milhão de assinaturas. O projeto
aponta a Petrobras entre as dez empresas mais viá- foi concedido à iniciativa privada, inclusive, ao capital do governo (Lula) não contempla nossas reivindica-
veis do mundo. Ainda de acordo com o Goldman, a internacional, o direito de operar na prospecção de pe- ções”, comenta Moraes.
viabilidade da estatal brasileira a coloca na vanguar- tróleo em território nacional. Até o momento, a ANP Inúmeras manifestações de rua estão sendo rea-
da das demais petroleiras mundiais. já realizou 10 rodadas de licitação. Todas as etapas fo- lizadas no país, em defesa da Companhia, como as
Em setembro do ano passado, a companhia estava ram abertas à participação da iniciativa privada. que ocorreram em São Paulo e no Rio de Janeiro. No
avaliada em R$ 344 bilhões, segundo valor de merca- Lima critica aqueles que defendem o retorno do Rio, os manifestantes deram, inclusive, um abraço ao
do. Em 2008, a Petrobras desembolsou sozinha, R$ 60 monopólio estatal do petróleo. “Os leilões estão dando edifício-sede da estatal.
bilhões para o pagamento de impostos, taxas e contri- certo. Não existe monopólio estatal do petróleo em ne- Neste mês é a vez de Brasília receber os manifes-
buições sociais ao governo. O valor é superior ao or- nhum país. É uma miopia política insistir nisso.” tantes. Os sindicalistas aproveitam a realização do
çamento de vários Estados brasileiros. O pagamento 51º Congresso da UNE, que acontece na capital fe-
de royalties e participações governamentais por parte DNA privatista deral, e organizam um ato em defesa de uma Petro-
da companhia atingiram os R$ 23 bilhões. Para o coordenador da FUP (Federação Única bras pública e por uma nova lei de petróleo. Segun-
Os números indicam uma empresa sólida e robus- dos Petroleiros), João Antônio de Moraes, o obje- do o dirigente petroleiro, 10 mil estudantes devem
tecida. Mas segundo o presidente Gabrielli, a imagem tivo da CPI “não é fazer uma investigação séria”. comparecer à manifestação.

Oposição de esquerda ao governo Lula não assina CPI


O senador José Nery (Psol-PA) não assinou o requerimento do PSDB turamento de obras, aditivos irregulares. Existem
requerimento do tucano Álvaro Dias (PSDB-PR), Segundo o senador Álvaro Dias, o objetivo da CPI ainda, de acordo com o senador, questionamen-
para a instalação da CPI da Petrobras. Ele consi- que investigará a Petrobras será o de “responsabilizar tos do Ministério Público referentes ao pagamen-
dera que as denúncias que pesam contra a com- civil e criminalmente os envolvidos em desmandos to de usineiros e à transferência de recursos para
panhia já estão sob a investigação do Ministério na administração da empresa”. O requerimento para ONGs.
Público Federal, Tribunal de Contas da União e da a instalação da CPI conseguiu a adesão de 30 parla- “São escândalos gigantescos. Nós não estamos
Polícia Federal. “As três instituições podem ado- mentares, eram necessárias 27 assinaturas para que a nos referindo a migalhas. Trata-se de bilhões de
tar as providências legais caso seja detectado al- Comissão fosse aprovada. Os senadores têm um pra- reais que supostamente foram desviados em fun-
gum problema”, afirma. zo de 180 dias para concluírem os trabalhos. ção do loteamento político da empresa”, critica.
Para Nery, a instalação da Comissão Parla- Pela proposta do tucano, as investigações que os
mentar de Inquérito pode estar associada à dispu- senadores irão realizar vão se concentrar na admi- Petrobras
ta eleitoral do ano que vem. Além disso, o sena- nistração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O presidente da Petrobras, José Sérgio Gra-
dor também quer evitar que as empresas privadas, “Não há nenhuma denúncia em relação aos governos brielli de Azevedo, conta que procurou os se-
que têm interesse nas áreas do pré-sal, capitali- anteriores. Mas como no Brasil um escândalo suce- nadores do PSDB Arthur Virgílio (AM), Sérgio
zem em cima do desgaste imposto à imagem da de ao outro, e como são tantos os escândalos da ad- Guerra (PE) e Tasso Jereissati (CE) antes da ins-
companhia estatal. ministração da Petrobras, seria impossível buscar es- talação da Comissão Parlamentar de Inquérito,
“Neste momento a Petrobras tem o desafio de cândalos antigos”, conclui. para afirmar que a Petrobras está à disposição,
explorar a camada pré-sal. É preciso garantir credi- Para propor a CPI, Dias pautou-se em denúncias para prestar os esclarecimentos que o Senado
bilidade e respeitabilidade, para que continue sendo publicadas na imprensa. “Soubemos das denúncias, considerar necessários.
a empresa mais importante do país”, afirma. como o povo brasileiro, que tem a oportunidade de Para ele, a CPI é um instrumento legítimo do
O senador do Psol lembra que foi o governo de ler os grandes jornais e revistas”, conta. Congresso Nacional. Gabrielli considera que as
Fernando Henrique Cardoso quem derrubou o mo- As denúncias que serão investigadas, segundo investigações têm de ser focadas. “Nesse perío-
nopólio estatal do petróleo, em 1995. Dias, vão se concentrar em três operações da Po- do há milhares de contratos”, ressalta.
Nery defende a ideia de que as parcelas da lícia Federal: Castelo de Areia, Águas Profunda e Ele também conta que a companhia está cola-
companhia que passaram para as mãos de parti- Royalties, além de auditorias do Tribunal de Con- borando com as investigações da Polícia Federal
culares sejam reestatizadas. tas da União, que segundo ele, comprovam superfa- e com o Tribunal de Contas da União.

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Diversificação da matriz energética os NÚmeros DA GiGANte
A Petrobras também aposta na diversificação da matriz Plataformas - 113
energética. Além do pré-sal, a estatal investe em outras Poços - 14 mil
fontes de energia, como o biodiesel. Trinta e sete mil famílias Refinarias -16
ligadas à agricultura familiar vendem sua produção para a Capacidade instalada de refino - 2,2 milhões de barris/dia
companhia, que processa as oleaginosas em três refinarias, Terminais - 66
para a obtenção do combustível ecológico. Para a área de Malha dutoviária - 25 mil quilometros
biocombustíveis e etanol, os planos, até 2013, projetam um Sondas de perfuração (terra e mar) - 63
investimento de U$ 2,8 bilhões. Navios petroleiros próprios - 54
A companhia também pretende construir cinco refinarias até Navios petroleiros afretados -135
2017. Hoje, a empresa possui 16 plantas para o refino, 11 Termelétricas -15
no Brasil e cinco no exterior. As novas refinarias vão ampliar Produção média diária de óleo e gás* - 2,5 milhões
a capacidade de refino instalada em 1,3 bilhão de barris/dia. Produção diária de gás natural** - 67 milhões
As unidades serão voltadas para a produção de diesel
Valor de mercado*** - R$ 344 bilhões
e querosene de aviação. O Brasil é exportador de gasolina.
Receita operacional bruta - R$ 285 bilhões
Segundo o presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli
Receita operacional líquida - R$ 232 bilhões
de Azevedo, a geração de empregos diretos e indiretos
Lucro líquido - 33 bilhões
motivados pelos novos investimentos deve girar em torno
Investimento total – R$ 53 bilhões
de 900 mil a um milhão de postos de trabalho. A exploração
Investimento total **** – R$ 174,4 bilhões
e produção do petróleo da camada pré-sal irá absorver a
Custo de extração por barril - US$ 9,6
maioria desses trabalhadores. Hoje a Petrobras possui 74.240
Pagamento de royalties e participações governamentais - R$ 23 bilhões
empregados diretos.
Pagamento de impostos, taxas e contribuições sociais – R$ 60 bilhões
Para Gabrielli, o petróleo produzido na camada pré-sal
Número de empregados – 74.240
é viável mesmo com o preço do barril abaixo de US$ 45.
Os dados referem-se
O custo de extração de um barril de petróleo fora do * em barris de óleo equivalente às atividades da companhia
ambiente pré-sal era, em setembro do ano passado, U$ 9,6. ** em metros cúbicos no Brasil e exterior,
*** em setembro de 2008 em 2008
Lúcia Rodrigues é jornalista. **** de 2009 a 2013 Fonte: Petrobras

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40 caros amigos julho 2009


Bruna Buzzo

Patativa é do povo
O poeta popular Patativa do Assaré foi
agricultor durante toda sua vida. Homem
muito querido, difundiu poesia e cultura ao
povo pobre do Nordeste. Foto Emerson Monteiro

n o ano do centenário de seu nascimento, o


poeta Antônio Gonçalves da Silva, o Pata-
tiva do Assaré, foi homenageado em livro,
filme e também no Senado, onde o senador Inácio
Arruda (PCdoB-CE) lançou oficialmente o Ano Cul-
em documentário. “O que existia era a
vida, Patativa era meu compadre e par-
ticipei junto com ele de muitas ativida-
des culturais e políticas. Simplesmente
documentei esses momentos impor-
tural Patativa do Assaré, agora em junho. Autodi- tantes. Depois da sua morte, em 8 de
data, Patativa freqüentou a escola por pouco tempo julho de 2002, resolvi prestar uma ho-
e, nas palavras de Rosemberg Cariry, amigo e dire- menagem ao grande mestre, fazendo o
tor do filme Patativa do Assaré – Ave Poesia, “ven- filme”, conta o diretor.
ceu o analfabetismo, o preconceito e se fez o grande Patativa do Assaré – Ave Poesia é
poeta e a grande consciência social deste país”. fruto de um desejo do diretor de devol-
Nascido no dia 5 de março de 1909, em Serra de ver Patativa ao povo. “Eu quis fazer este filme por- incentivo do filósofo José Arraes de Alencar. Livro
Santana, no interior do Ceará, região do Cariri, a 18 que a nação brasileira precisava saber de forma mais pronto e viola nas costas, Patativa andou por todo
quilômetros da cidade de Assaré, Patativa era o se- profunda quem foi Patativa do Assaré.” Cariry come- o Ceará fazendo suas cantorias e vendendo seu li-
gundo dos cinco filhos dos agricultores Pedro Gon- çou a edição das 100 horas de material fazendo um vro, para pagar a dívida que contraíra com o edi-
çalves da Silva e Maria Pereira da Silva. Aos nove filme de cinco horas, relatando a vida do poeta e os tor. Depois vieram Inspiração Nordestina: Cantos do
anos, perdeu o pai e, ao lado de sua família, preci- principais acontecimentos do Brasil, que eram revis- Patativa (1967), edição ampliada do primeiro livro,
sou enfrentar a vida de agricultor pobre no diminu- tos a partir da poesia e da vida de Patativa. Cante Lá que Eu Canto Cá (1978), que lhe rendeu
to terreno deixado como herança paterna. O filme destaca o lado político. “Um homem e reconhecimento do meio acadêmico e da imprensa,
Aos 12 anos, Patativa frequentou uma escola no poeta de muitas facetas”, afirma Cariry, que diz ter Ispinho e Fulô (1988), Balceiro. Patativa e Outros
mesmo campo onde sempre viveu, em Serra de San- sido sua vivência com Patativa o que o levou a op- Poetas de Assaré (1991), Cordéis (1993), Aqui Tem
tana. Ali passou seis meses e aprendeu apenas a ler: tar pelo retrato deste lado específico. “Passei mais Coisa (1994), Biblioteca de Cordel: Patativa do As-
“sem vírgula, sem ponto, sem nada”, como conta no tempo ao seu lado no final da década de 70 e em saré (2000), Balceiro 2. Patativa e Outros Poetas de
filme. Suas maiores distrações eram a poesia e a lei- toda a década de 80. Testemunhei e cheguei a parti- Assaré (2001) e Ao pé da mesa (2001).
tura. “Quando eu tinha tempo, chegava da roça, ao cipar ao seu lado de todas as lutas por justiça e pela Considerado comunista por seus atos em defe-
meio-dia ou à noite, e minha distração era ler, ler e redemocratização do país.” sa do povo pobre, o poeta se declarava “comunista
ouvir outro ler para mim, o meu irmão mais velho, Cariry conheceu o poeta na década de 60, quan- de coração” e em poemas como “Eu Quero”, “Tris-
José. Ele lia sempre os folhetos de cordel e foi daí de do o cineasta ainda era menino. Seu pai era dono te Partida” (que mais tarde seria musicada por Luiz
onde surgiu a minha inspiração para fazer poesia. Eu de uma bodega e seu avô do Bar Tupy. “Esses locais Gonzaga) e “O Brasil de baixo e o Brasil de cima”,
comecei a fazer verso com 12 anos de idade.”, conta eram pontos de encontro de muitos artistas popu- dentre outros, defende os direitos e cobra melhorias
o poeta no filme de Rosemberg Cariry. lares que vinham para a feira do Crato, também de para a vida do povo nordestino, debatendo assun-
E continua: “Já com 20 anos começaram a me operários e boêmios, que ficavam à noite discutindo tos como seca, fome e reforma agrária.
chamar Patativa [que é uma ave típica da região]. política e as notícias que ouviam no rádio de ondas Nas palavras do amigo cineasta, “Patativa do As-
Posso dizer que foi José Carvalho de Brito que pôs tropicais que meu avô mantinha no seu estabeleci- saré figura entre os grandes nomes da poesia do Bra-
esse apelido que o povo hoje conhece, esta alcunha. mento. Ali conheci grandes artistas do Cariri. Entre sil por ter conseguido, com arte e beleza, unir de­
Patativa do Assaré.” eles, Patativa do Assaré.” núncia social com lirismo, consciência política com
Esses relatos foram contados pelo poeta ao ami- profunda percepção humana. Quem lê a poesia de
go Cariry, em entrevista concedida em 1979. Os 84 Ave poesia Patativa pensa, se emociona e se transforma, porque
minutos da película contêm ainda outras histórias Ainda em vida, Patativa do Assaré conseguiu “o nela estão todas as lutas e esperanças do homem, es-
da vida em Assaré: a infância, as primeiras letras, reconhecimento, o carinho e o amor do seu povo”, tão as palavras que se erguem contra todas as formas
o começo na poesia e as lutas durante o período da conta Cariry. Ele fazia poesia social, era um poeta de obscurantismo e opressão.”
ditadura militar. O filme se constrói tendo esta en- do povo, sua luta era mais do que contra a ditadura, Para Cariry, “Patativa é uma reserva ética e esté-
trevista como base e acrescenta imagens de pesqui- era contra a opressão que aflige o povo nordestino tica do povo brasileiro. Se o Brasil não tem ainda o
sadores, depoimentos de parentes e cenas gravadas até hoje. “Não só o intelectual, mas também o artis- seu poeta-nacional, que simbolize e expresse o sen-
do poeta cuidando de sua plantação de algodão, ta capaz de transformar aquele mal-estar em maté- timento de nação, como Pablo Neruda no Chile ou
quando ainda não era famoso. ria poética”, lembra o professor e escritor Gilmar de Camões em Portugal, o Nordeste brasileiro, popular
Admirador do trabalho de Patativa, Cariry não Carvalho, no filme de Rosemberg Cariry. e rebelado, tem o seu: Patativa do Assaré.”
filmou o amigo tendo em mente um projeto para Ao todo, Patativa publicou dez livros. O primei-
transformar as imagens colhidas de 1979 a 2006 ro, Inspiração Nordestina, publicado em 1956, com Bruna Buzzo é estudante de Jornalismo.

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41
Marcelo Salles

Funk carioca
O batidão entre a perseguição e a resistência Foto Fernanda Chaves

u m ano após a lei estadual 5.265, que dificulta a realização de bailes funk,
profissionais denunciam a repressão policial a cantores, compositores e
até a quem simplesmente gosta de ouvir o ritmo popularizado nas favelas
do Rio de Janeiro. Na outra ponta, surge a Associação dos Profissionais e Ami-
gos do Funk, cujo objetivo é unificar e politizar a categoria que leva para as pis-
tem a força, só precisa descobrir / se eles lá não fazem nada, faremos tudo da-
qui” – verdadeiro hino da classe trabalhadora –, escrita por Kátia e Julinho Ras-
ta e popularizada pelos MCs Cidinho e Doca. Neste domingo, por insistência da
Associação de Profissionais e Amigos do Funk (Apafunk), o comando da PM au-
torizou a realização de uma roda de funk, prestigiada por gente de todas as ida-
tas centenas de milhares de jovens todos os fins de semana. des, incluindo meu parceiro de altinha.
Cidade de Deus, domingo, 14 de junho. Chego à rua GG, que na verdade é um A Lei 5.265, de junho de 2008, encerrou – direta ou indiretamente – bailes em
espaço vazio, de terra batida, entre cinco ou seis edifícios. Circundado por ba- pelo menos 60 casas no Estado, segundo Tojão, dono da equipe de som Espião
res e mercearias, o lugar deve ter o tamanho de uma quadra poliesportiva, tal- Shock de Monstro. Isso dificulta muito a vida de quem vive do funk – cerca de 10
vez um pouco maior. São três da tarde, faz sol e as crianças se divertem. Brincam mil pessoas no Rio de Janeiro, segundo as contas da Apafunk. São DJs, MCs, dan-
de pula-pula e de bola. Não resisto e acabo jogando altinha com eles. De repen- çarinos, compositores e empresários, mas também técnicos de som, motoristas, au-
te, a bola cai na lama, suja pouco, quase nada. Mesmo assim um pequeno a toma xiliares e toda uma gama de trabalhadores que, na década de 80, segundo o antro-
pela mão e diz: “peraí, tio”. O menino, magrinho, uns 12 anos, esfrega a bola no pólogo Hermano Vianna em seu livro O mundo funk carioca, mobilizavam mais de
meio-fio e completa: “pra não sujar sua calça”. um milhão de jovens (cerca de 20% da população da capital fluminense) em 700
Olho pra trás e vejo um policial militar se aproximando. Daí a dez minutos bailes todos os finais de semana em torno dessa mistura de soul (música negra es-
aparece uma blazer da PM, que promove um escândalo inominável: com fuzis – tadunidense, cujo maior representante foi James Brown), miami bass (batida ele-
que são armas de guerra - apontados para fora, o carro faz uma ronda passando trônica) e percussão africana. O resultado é o batidão que hoje está entranhado na
por vezes muito perto das crianças que ali brincavam. cultura do Rio de Janeiro, sobretudo nos espaços populares.
Enquanto isso a turma montava a aparelhagem de som no final da rua. Ainda A professora Adriana Facina, do Departamento de História da UFF, acom-
era dia quando o sargento Alcântara foi até o DJ e afirmou: “dez horas tem que panhou de perto o funk carioca durante um ano e meio para sua pesquisa de
acabar”. Com um fuzil semiautomático a tira-colo, ele fazia cumprir a ordem do pós-doutorado. Entrevistou mais de cem pessoas, esteve em duas dezenas de
comando da polícia, que se baseia numa lei (ver quadro) que na prática inviabili- favelas e foi a bailes da zona sul à zona norte. Após todo esse trabalho de
za a realização de bailes funk – a autoria é do ex-chefe de Polícia Civil e ex-de- campo, ela acredita que o que existe é uma perseguição à população afrodes-
putado estadual Álvaro Lins (PMDB-RJ), cassado e preso sob acusações de forma- cendente. “Os que hoje querem proibir o funk são herdeiros históricos daque-
ção de quadrilha, facilitação de contrabando e lavagem de dinheiro. les que, no passado, quiseram calar os batuques que vinham das senzalas”. A
Na verdade, o DJ nem ficou tão aborrecido com o policial. Este era o primei- propósito, o brasão da Polícia Militar do RJ ainda ostenta os ramos de cana
ro evento de funk realizado na CDD, berço desse ritmo no Brasil, desde a ocupa- e café, produtos que sustentaram a economia brasileira – movida a trabalho
ção policial, em novembro do ano passado. Aqui nasceram letras como “O povo escravo – num passado não muito distante.

42 caros amigos julho 2009


“Como é comum acontecer numa sociedade de herança de três séculos de Marlboro, que segundo as contas da Apafunk controlam mais de 90% do mercado.
escravidão, a música diaspórica, elemento fundamental de identidade negra, Os dois possuem as maiores produtoras, editoras e equipes de som. E mais: man-
forma comunicacional principal dos modos de vida, dos valores e de denún- têm programas em rádios (FM O Dia e 98 FM, respectivamente) onde, segundo Le-
cia da população afrodescendente é vista com grande desconfiança pelas eli- onardo, só divulgam seus próprios artistas. “Usam concessão pública em benefício
tes”, complementa Adriana. próprio”, acusa. O MC também critica o modelo de contrato feito com os artistas.
Além da dificuldade para a realização de bailes, o que termina por concen- “Pagam 150 reais ao garoto e mais nada”. E pra aumentar o volume do batidão,
trar os eventos nas grandes casas de show ou por marginalizar os pequenos dispara: “estão sempre ao lado dos governos, fazem campanha, fizeram campanha
produtores, a perseguição ao funk extrapolou para a violência contra o cidadão para o [governador] Sérgio Cabral (PMDB)”.
favelado. Naquele domingo, na Cidade de Deus, ouvi denúncias como a proibi- Rômulo Costa não respondeu ao recado deixado em seu telefone celular. DJ
ção de jovens pintarem o cabelo de determinada cor ou de ouvirem funk den- Marlboro se defende: “meu contrato artístico é igual ao de todas as editoras no
tro de suas próprias casas. mundo. O autoral é 75% do autor e 25% da editora. O artístico, que não exige
Um cantor e compositor com quem estive, e que prefere não se identificar obrigatoriedade, varia de 4% a 10%. Na produção, eu pego o garoto que recebe
por medo de represália, contou que um dia estava reunido com amigos numa R$ 50 na favela pra fazer a montagem com um computador e levo para o estú-
esquina da favela, chegou uma guarnição da polícia e perguntou o que esta- dio, dou oportunidade a ele de aprender com equipamento profissional, coloco o
vam fazendo. “Compondo”, respondeu. “Então eles mandaram a gente disper- nome dele no direito conexo e ainda pago R$ 150, três vezes mais do que ele re-
sar e tomaram o CD com a batida de fundo”, disse, entre irritado e envergonha- cebe na favela. Agora, tem produtores que são mais caros, a gente vive no capi-
do pela humilhação sofrida. talismo, cada um recebe de acordo com o retorno que dá. A música é um negó-
O tenente-coronel Luigi Gatto, comandante do 18º Batalhão de Polícia Mi- cio”, diz. Marlboro também discorda da existência de um duopólio. “Ninguém é
litar, afirma que desconhece a proibição sobre a tinta no cabelo. Em relação obrigado a assinar contrato comigo ou com o Rômulo. Tem vários meios, o cara
à música dentro das casas, diz que a polícia atua baseada na lei do silêncio e pode ir pro meio da praça, para a internet... Agora, eu não vou colocar no meu
quando algum vizinho reclama. Quanto à proibição dos bailes, declara: “não programa de rádio artista de outras gravadoras, ninguém faz isso. Monopólio é
conheço baile funk em comunidade que não tenha tráfico de drogas, porte ile- quando não tem escolha. A gente não proíbe ninguém de ter iniciativa”. Sobre as
gal de armas, corrupção de menores e apologia ao crime”, mas afirma que se o idéias dos MCs Júnior e Leonardo, ele declara: “eles acham que tem que ser co-
evento for realizado dentro da lei 5.265, ele não se opõe. munismo, que todo mundo tem que ganhar igual. Querem o funk socialista”.
O comandante da PM faz uma avaliação positiva da ocupação da favela: Talvez isso explique por que o Rap da Igualdade tenha sido declinado por
“hoje a Cidade de Deus já está inserida no bairro de Jacarepaguá, os serviços Marlboro, que, segundo Leonardo, não quis divulgá-lo com o seguinte argu-
públicos (luz, dragagem, coleta de lixo) estão funcionando, o espaço público foi mento: “Não é a hora de malhar a elite”.
devolvido para as pessoas que moram ali. Isso tudo era domínio do tráfico. Hoje
em dia não há mais estado de exceção, a ordem pública foi restaurada”. Eu só imploro a igualdade pra viver, doutor
No meu Brasil (que o negro construiu)
Organização do movimento funkeiro Eu só imploro a igualdade pra viver, doutor
Foi com o objetivo de enfrentar as dificuldades que MC Leonardo decidiu fun- No meu Brasil
dar a Associação dos Profissionais e Amigos do Funk. O compositor, nascido e
criado na Rocinha, ganhou projeção nacional ao lado de seu irmão, MC Júnior, A injustiça vem do asfalto pra favela
com letras como Rap das Armas e Endereço dos Bailes. “O funk é uma das poucas Há discriminação à vera
diversões com preços acessíveis, criada dentro da favela, pelos favelados. O funk Chegam em cartão postal
está sendo proibido de tocar no Rio de Janeiro!”, denuncia Leonardo. Em outdoor a burguesia nos revela
Além de criticar muito a lei 5.265, o cantor relata outras formas de perse- Que o pobre da favela tem instinto marginal
guição a quem gosta de ouvir o ritmo. “No interior do Rio a polícia está pe- E o meu povo quando desce pro trabalho
gando e quebrando CDs de quem escuta funk”. Leonardo também rebate as Pede a Deus que o proteja
acusações de que o ritmo é pornográfico. “O mercado pornográfico é o que Dessa gente ilegal, doutor
mais cresce no mundo, dizer que o funk é o responsável por isso é no míni- Que nos maltrata e que finge não saber
mo estranho. Uma parte do funk é o reflexo disso, não o espelho”. Mr. Catra, Que a guerra na favela é um problema social
que tem feito até cinco shows por dia no Rio de Janeiro mas segue invisível
aos olhos das corporações de mídia, também respondeu a estas acusações con- (Trecho do Rap da Igualdade, MC Dolores)
tra o funk no documentário Sou feia, mas tô na
moda. “Sacanagem é o coroa comendo a crian-
cinha na novela das oito.” Burocracia do preconceito
O MC da Rocinha defende a unificação do
movimento em torno da conscientização políti- A lei estadual 5.265, de junho de 2008, de Bombeiros e do Juizado de Menores.
ca. “Eu cobro dos artistas que eles usem a sua determina que festas rave e bailes funk devem ser Além disso, o pedido de autorização deve informar
arte como ferramenta de mudança contra as in- informadas com 30 dias de antecedência a expectativa de público, o número de ingressos
justiças que eles sofrem. O funk é preto, favela- à Secretaria de Segurança Pública mediante postos à venda, o nome do responsável pelo
do, discriminado e, por isso, deveria ter um dis- a apresentação dos seguintes documentos: evento, a capacidade da área de estacionamento
curso mais engajado que todas as outras artes”, contrato social; CNPJ; comprovante de tratamento e previsão de horário de início e término do
afirma. Muitas vezes as pessoas julgam o funk por acústico; anotação de responsabilidade técnica evento, que não poderá exceder 12 horas.
aquilo que ouvem na mídia comercial, sem saber
das instalações de infraestrutura do evento, Banheiros deverão ser disponibilizados na
que ali prevalece o funk comercial, despolitizado,
expedida por autoridade municipal; contrato da proporção de dois (um masculino e um feminino)
do jeito que o sistema capitalista gosta. Leonardo
tem corrido os gabinetes da Assembleia Legisla- empresa de segurança autorizada pela Polícia para cada grupo de cinqüenta pessoas.
tiva em busca de apoio para revogar a Lei 5.265 Federal; comprovante de instalação de detectores São exigências que tornam alto demais
e aprovar um novo texto que reconheça e valori- de metal e câmeras; comprovante de previsão de o custo de realização de um baile e impõem
ze o caráter cultural do funk. atendimento médico e nada a opor da Delegacia uma burocracia que inviabiliza o trabalho dos
Outro nó apontado por Leonardo é o duopó- Policial, do Batalhão de Polícia Militar, do Corpo pequenos produtores.
lio exercido pelos empresários Rômulo Costa e DJ

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IDÉIAS DE BOTEQUIM
Renato Pompeu

TEMAS DO POVÃO:
grafitos, Igreja Universal, hinduísmo,
credibilidade dos jornais, fome...
O livro mais bonito do mês é “Comunicação popular escri- Emir Sader, colaborador de “Ca-
ta”, do professor da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São ros Amigos”, a educadora Car-
Paulo, Américo Pellegrino Filho, publicado pela Edusp. Do cordel brasileiro men Lozzo, que foi durante 20
a um cartaz antifiado manuscrito num bar italiano, passando por um “sinal anos coordenadora pedagógica
de trânsito” que avisa que “não há cangurus na Áustria”, o livro, em gran- da Infoglobo, discute a utiliza-
de formato e de capa dura, com quase 700 páginas, apresenta e discute ção dos jornais como fontes de
mais de 14 mil grafitos, de 107 países. Acompanha um CD. Está dividido trabalhos escolares e de discus-
em 22 classes (avulsos, brochuras populares, cartas a Papai Noel e à Velha sões durante as aulas. Diz Emir
Befana, epitáfios populares, fórmulas de fiado, etc.) e 40 temas e subte- Sader: “um livro para professo-
mas. Adverte o autor: “É de se esperar que a leitura das análises, neste li- res, para alunos, para cidadãos, para gente comum, que se espanta diante da
vro, não seja leve, descontraída, relaxada. Requer atenção, interesse, caneta imprensa ou desconfia profundamente dela”. Ele conclui: “Sem uma leitu-
para anotações (críticas?) e disposição para curtir as maravilhosas mensa- ra crítica que analise, selecione, relacione e complemente o sentido do vo-
gens que os povos escrevem”. lume de informações da mídia escrita, a escola, como instrumento educati-
Ainda de temática popular, e também de interesse geral, é vo e transformador, deixa de existir”.
“A Igreja Universal e seus demônios – um estudo etnográfico”, do profes- O mais famoso livro de ficção sobre a fome, o romance li-
sor da Universidade de Campinas Ronaldo de Almeida, lançado pela Editora teralmente chamado “Fome”, do escritor norueguês Knut Hamsun (1859-
Terceiro Nome. Diz na apresentação a famosa antropóloga Alba Zaluar: “A 1952), Prêmio Nobel de 1920, foi relançado, na também famosa tradução do
reconstituição histórica do crescimento espetacular das igrejas neopente- grande poeta Carlos Drummond de Andrade, pela Geração Editorial. Passado
costais no Brasil é acompanhada por uma cuidadosa etnografia baseada na na segunda metade do século 19, Hamsun se baseou em sua própria experi-
observação feita por ele em cultos realizados dentro dos templos da Igre- ência de vida, de escritor nascido em família pobre, que passava fome quan-
ja Universal do Reino de Deus. A centralidade do exorcismo e a associação do não conseguia realizar pequenos serviços, seja como trabalhador braçal,
entre o diabo e as divindades cultuadas pelos adeptos das religiões afro- seja como articulista ocasional da imprensa de Cristiânia, nome que tinha
brasileiras adquirem uma visão ao mesmo tempo religiosa e política”. Uma na época a capital da Noruega, depois rebatizada como Oslo.
leitura imprescindível para quem quer conhecer a mentalidade de amplos Esse lançamento, além de sua pungência clássica e da descri-
setores das camadas urbanas da sociedade brasileira. ção comovente e chocante de o que é passar fome, experiência de tantos
Igualmente sobre religião, no caso o hinduísmo populariza- brasileiros e de tantas pessoas no mundo ainda hoje, é tanto mais opor-
do pela telenovela “Caminho das Índias”, temos, em tradução do sânscri- tuno na atual situação de renascimento do fascismo em meio a uma nova
to pelo professor de Letras da USP, Carlos Alberto Fonseca, a “Canção do crise econômica estrutural do capitalismo internacional. Pois a vida de Ha-
Venerável”, publicada pela Editora Globo, ou seja, o famoso “Bhagavadgi- msun, com toda a sua visão de verdadeiro proletário, é uma advertência:
ta”, hino composto na Índia a partir do século 10 a.C., há três mil anos, e sua solidariedade aos pobres e aos desempregados dos anos 1930 o levou
que constitui uma espécie de catecismo introdutório à religião hindu. Um a aderir ao nazismo e a saudar a ocupação de seu país pela Alemanha de
deus explica a um soldado que é preciso com- Hitler. Ele morreu em 1952, sem se ter ar-
bater o egoísmo, o individualismo e a ganância, rependido, mesmo depois de ter sido preso
mas que é também necessário agir para cumprir e dado como louco no pós-guerra. Afinal o
o dever, no caso do soldado o dever de combater fascismo está renascendo hoje na Europa,
os inimigos e mesmo matá-los, ainda que se- em especial nos países ex-comunistas – e é
jam parentes próximos. Afinal, os mortos terão preciso levar muito a sério o seu apelo po-
a oportunidade de voltarem mais puros e mais pular, como solução bárbara para situações
felizes numa próxima reencarnação. de barbarismo.
Outro tema popular: há os que acreditam
em tudo que lêem nos jornalões e há os que Renato Pompeu é jornalista e escritor, autor
não acreditam em nada que neles é publicado. do romance-ensaio O Mundo como Obra de
Para todos esses é importante a leitura do li- Arte Criada pelo Brasil, Editora Casa Amarela,
vro “Escritos sobre jornal e educação – olhares e editor-especial de Caros Amigos. Envio de li-
de longe e de perto”, editado pela Global e ALB. vros para a revista, rua Paris, 856, cep 01257-
Com prefácio do cientista político e jornalista 040, São Paulo-SP.

44 caros amigos julho 2009


Emir Sader

ÉTICA CONTRA A
PUBLICIDADE

As novas regras de publicidade impedem que pessoas consideradas cele-


bridades façam propaganda de remédios vendidos sem receita. É o mínimo de defesa
dos cidadãos que se pode estabelecer. Se coloca em questão, pela primeira vez, uma
das expressões mais instrumentalizadoras de personagens tornados famosos pela mí-
dia, para vender qualquer tipo de produto.
Me lembro perfeitamente das publicidades milionárias do governo FHC
para privatizar a Vale do Rio Doce, feitas por Raul Cortez. Um artista que conquis-
tou fama por seu meritório trabalho no teatro e por um muito menos em telenovelas
da Globo, se valia da empatia com sua imagem, para vender a privatização da maior
empresa do seu ramo no mundo, com argumentos que se revelaram totalmente fa-
lazes com o passar do tempo.
Da mesma forma outros artistas ou esportistas vendem, a preço de
ouro, suas imagens, para promover a comercialização de mortadelas, apartamentos,
carros, bancos, cervejas, entre tantas outras mercadorias. O que tem a ver a imagem
de cada um deles com os produtos que anunciam? Não são nem sequer suas prefe-
rências pessoais. Veja-se como Zeca Pagodinho anunciou uma cerveja que se conhecia
não ser da sua preferência, mas que lhe pagou mais. Depois voltou àquela que prefe-
re, não por ter mudado de marca, mas por uma oferta publicitária maior. C

Em vários países escandinavos é proibida qualquer publicidade nos M

horários prioritários das crianças verem televisão, por se considerar que elas são ex- Y

cessivamente frágeis, indefesas, diante da agressividade das ofertas das mercadorias CM

que lhes são oferecidas pela televisão. Enquanto que o mercado deita e rola em cima
MY

das crianças, um nicho de mercado bombardeado com comidas, roupas, celulares, en-
CY

tre tantas outras coisas.


A mercantilização da vida se propaga através da publicidade, veicula- CMY

da de forma privilegiada pela televisão. Vale tudo para vender. Um conhecido publi-
K

citário brasileiro disse, com toda sinceridade, que a publicidade não tem ética. Dê-
em-me um produto e eu encontrarei a fórmula de dizer que é bom para as pessoas,
que vale a pena comprá-lo. O sucesso de vendas de um produto não está na aceita-
ção das pessoas, no reconhecimento das suas qualidades, mas no mérito das campa-
nhas que o promovem. Da mesma forma que se diz que um processo na Justiça não
é ganho por quem é inocente, mas por quem dispõe do melhor advogado. Isso se es-
tende às eleições, em que os marqueteiros passaram a ser mais importantes do que
as plataformas que os candidatos defendem.
O marketing, a publicidade, são expressões da concepção de mundo que
buscar mercantilizar a tudo, que trata de que tudo tenha preço, tudo se venda, tudo
se compre, da visão da sociedade como uma espécie de shopping-center, da vitória
do mercado contra o direito. Democratizar é desmercantilizar, é afirmar direitos e es-
fera pública contra o reino do mercado e do marketing.

Emir Sader é cientista político.

sugestões de leitura
FORÇA DE TRABALHO E TECNOLOGIA NO BRASIL
Marcio Pochmann
Editora Revan
O VOO DE MINERVA
Antonio Carlos Mazzeo
Boitempo Editorial
OS DESAFIOS DAS EMANCIPAÇÕES EM
UM CONTEXTO MILITARIZADO
Ana Esther Ceceña (org.)
Editora Expressão Popular
junho 2009 caros amigos
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SAC CAIXA
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0800 726 0101
Para pessoas com deficiência auditiva
0800 726 2492

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Ocupação dos Espaços - CAIXA Cultural

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