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(…) a mulher, numa palavra, não é apenas para o artista em geral, e para o Sr. G.

em particular,
a fêmea do homem. É antes uma divindade, um astro, que preside a todas as concepções do
cérebro macho; é um reflexo de todas as graças da natureza condensadas num só ser; é o
objecto da admiração e da curiosidade mais viva que o quadro da vida pode oferecer ao
contemplador. É uma espécie de ídolo estúpido, talvez, mas resplendoroso, encantador, que
detém os destinos e as vontades suspensas pelo seu olhar.

A mulher tem de facto o direito, e cumpre mesmo uma espécie de dever, ao aplicar-se a
parecer mágica e sobrenatural; é preciso que ela espante, que ela encante; como um ídolo,
deve dourar-se para ser adorada. Deve portanto recorrer a todas as artes para obter os meios
de se elevar acima da natureza, para melhor subjugar os corações e tocar os espíritos.

Beleza

A maior parte dos erros relativos ao belo nascem da falsa concepção do século xvm relativa à
moral. A natureza foi tomada nesse tempo como base, fonte e modelo de todo o bem e de
toda a beleza possíveis.

Se consentirmos, contudo, na simples referência aos factos visíveis, à experiência de todas as


idades e à Gazette des Tribunau.x, veremos que a natureza não ensina nada, ou quase nada,
ou seja, que ela constrange o homem a dormir, a beber, a comer, e a assegurar-se, bem ou
mal, contra as hostilidades do meio-ambiente. É ela também que leva o homem a matar o seu
semelhante, a comê-lo, a sequestrá-lo, a torturá-lo;

Assim, para que fique bem compreendido, a pintura do rosto não deve ser utilizada com a
finalidade vulgar, inconfessável, de imitar a bela natureza e de rivalizar com a juventude.

contentar-me-ei em invocar os verdadeiros artistas, assim como as mulheres que receberam


ao nascer uma centelha desse fogo sagrado com que gostariam de se iluminar por inteiro.