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O psicólogo assistente técnico é o graduado em Psicologia,

com registro no seu Conselho Regional de Psicologia, que,


em virtude do reconhecimento de sua capacidade técnica, é
escolhido pela parte, principalmente, para avaliar o laudo
do psicólogo perito (auxiliar do juiz).

O assistente técnico é o profissional capacitado para


questionar tecnicamente a análise e as conclusões
realizadas pelo psicólogo perito. Deve restringir sua análise
ao estudo psicológico resultante da perícia, elaborando
quesitos que venham a esclarecer pontos não
contemplados ou contraditórios, identificados a partir de
criteriosa análise. (Resolução CFP nº 008/2010, artigo 8º).

O assistente pode ir muito além da atividade de avaliação


dos documentos técnicos de outro psicólogo, auxiliando,
por exemplo, na criação de perguntas judiciais (quesitos),
orientando o advogado sobre temas que envolvem a
relação entre Psicologia e Direito, avaliação do litigante,
entre várias outras atividades. Assim, é um grande
equívoco dizer que o assistente faz unicamente a análise do
laudo do “perito oficial”.

Vale lembrar que o psicólogo assistente técnico também é


chamado de “perito parcial”, “assessor da parte”, “perito
particular”, “perito contraditório” ou “parecerista”. Mas, a
expressão mais corrente ainda é a de “psicólogo assistente
técnico”. O assistente, que é da confiança das partes em
litígio, deve ser escolhido no prazo de 5 dias após a
nomeação do psicólogo perito. A lei não impõe a presença
do assistente técnico, sua atuação é uma opção das partes.

De modo geral, o assistente técnico é o psicólogo que irá


gerar comentários (divergências e concordâncias) que
serão agrupados no documento que leva o nome de
“parecer crítico”. Ou seja, não deve gerar outro laudo, mas
sim uma crítica ao laudo do perito oficial. Em virtude disso,
o assistente técnico também é chamado de psicólogo
“parecerista”.

O psicólogo assistente faz a análise técnica do laudo


pericial, discutindo no seu parecer crítico os procedimentos
usados e os resultados encontrados pelo perito do juiz.
(CAIRES, 2003). O assistente técnico é um profissional da
confiança da parte que busca assessorá-la e garantir o
direito ao contraditório. Em virtude disso, o assistente não é
sujeito a impedimento ou suspeição legal. (Resolução CFP
nº 008/2010).

O perito é um cidadão qualquer com curso superior na área em que se desenrolar aperícia. Ele é de confiança da
justiça e escreverá um laudo que será uma prova no processo. O assistente técnico é contratado e pago pela parte
para representá-la na perícia, sendo de confiança dela e podendo ser também qualquer um.

São atores da perícia judicial, o perito e o assistente técnico. O perito é um auxiliar da justiça, enquanto
o assistente técnico é de confiança da parte envolvida no processo, sendo indicado e pago diretamente por ela. ...
O peritoescreve o laudo e o assistente técnico, o parecer.31 de mai de 2017

O papel do especialista em Psicodiagnóstico

Levando-se em conta especialmente o problema da "contaminação", já levantado


na seção anterior sobre o Diagnóstico Situacional, pode-se apreender a
indispensabilidade do(s) especialista(s) em psicodiagnóstico numa perícia. Mas a
auto-suficiência, no sentido de prescindir do trabalho de outrem, poderá levar o
perito a interpretações descabidas em termos de Diagnóstico Situacional. Isso pode
vir a ocorrer, quando se considera que o psicólogo na sua formação básica recebe
de um a dois anos de aprendizado em Rorschach e outras técnicas projetivas. Tal
fato o habilita, quando muito, a aplicá-las em seus próprios clientes, pois quaisquer
erros diagnósticos poderão ser facilmente corrigidos durante o processo
terapêutico.

Entre as muitas peculiaridades de uma perícia, encontramos ainda situações


específicas que exigem uma intervenção técnica, segura e imediata, que possa
levar a soluções confiáveis. Nessas condições, os psicodiagnósticos precários
conduzirão, sem qualquer sombra de dúvida, um trabalho pericial a conclusões
errôneas. O problema agravar-se-á consideravelmente se o instrumento utilizado
for o Rorschach,por sua complexidade e pela peculiaridade em termos de aplicação,
avaliação e riqueza diagnostica. Contudo, em mãos experientes e competentes, a
prova de Rorschach tem-se mostrado, na prática, como um profícuo instrumental
único para o diagnóstico de adultos.

De fato, o Rorschach revela aspectos psíquicos não passíveis de observação direta,


mesmo a psicanalítica. Nos muitos casos em que tive a oportunidade de atuar com
a profa. Lília de Muzio Piccinelli, comprovou-se sua eficácia, no Diagnóstico
Situacional; o que também foi confirmado por Tarules (1982). Apesar da linguagem
e do método, na concepção de Silveira (1961), serem baseados em pressupostos
positivistas, os dados aferidos podem ser compreendidos, manejados e traduzidos
tanto em orientação positivista quanto fenomemológica.

Não se deve esquecer que os psico-diagnósticos constituir-se-ão em anexos do


laudo e, mesmo as folhas de respostas embora não sejam acrescentadas ao
relatório, ficarão à disposição dos assistentes técnicos para possível verificação e
conferência da classificação das respostas.
Se é viável e mesmo profícuo prescindir de outros instrumentos de avaliação, com
exceção do Rorschach, no psicodiagnóstico de adultos, a mesma coisa não ocorrerá
em relação aos menores. É fato consabido que as crianças possuem vocabulário
limitado e dificuldades para o estabelecimento de associações livres, dado
constatado e apontado por Anna Freud e Melanie Klein, entre outros autores. Isto
não significa dizer que o Rorschach não deva fazer parte de qualquer "bateria de
testes" selecionada para o psicodiagnóstico de crianças. Em certos casos, é também
de grande valia a utilização do ludodiagnóstico, dependendo da faixa etária e/ou
dos bloqueios verificados.

É de se levar em conta, ainda, que existem casos em que os litigantes negam-se a


se submeter ao psicodiagnóstico. Nesses casos, o perito-psicólogo deverá trabalhar
com esse dado analisando, no contexto específico, considerando-se: (1) a recusa
sugere uma forma de "proteção" do sujeito, ou seja, de não se expor
psicologicamente; (2) ou se por impossibilidade real de arcar com as despesas do
profissional que procederá aos exames psicológicos. Mesmo quando não se realiza o
psicodiagnóstico, os demais elementos de análise, especialmente as entrevistas e
os dados de anamne-se, se forem profundamente esmiuçados, fornecerão subsídios
suficientes para instruir o Diagnóstico Situacional. Todavia, as alegações
processuais deverão ser deixadas pelo técnico "entre parênteses" para que possa,
tanto quanto possível, evitar a "contaminação".

A função do assistente técnico

No que diz respeito à perícia psicológica, verifica-se (felizmente) na prática que


existe uma interpretação quase unânime de que os assistentes técnicos devem
aguardar a juntada do laudo do perito oficial (nomeado pelo Juiz), para então
elaborarem seu laudo crítico, verificando se as conclusões do perito oficial foram
adequadas do ponto de vista metodológico, técnico, teórico e prático, e levando em
conta o caso objetivo em questão.

Se houver divergências conclusivas no caso em que o estudo realizado é


considerado inadequado ou insuficiente, o assistente técnico pode solicitar que os
litigantes se submetam não apenas a novas entrevistas, como também aplicar ou
encaminhá-los para que especialistas apliquem e avaliem outros testes que não
sejam conflitantes com aqueles já utilizados. Contudo, só se justificarão
reaplicações de testes e/ou aplicação de novas provas se muitíssimo bem
fundamentada esta pretensão pelo assistente técnico. Não seria demais lembrar
que o psicodiagnóstico é estressante, uma vez que obtém dados dos examinados
sem lhes dar o devido retorno.

Deve-se lembrar que existem provas psicológicas que demandam um prazo mínimo
para sua reaplicação no mesmo sujeito. Esse procedimento deve ser respeitado, se
o profissional busca resultados fidedignos e corretos. No caso do Rorschach,
Piccinelli (em um Parecer que permanece inédito) informa que um prazo de três a
quatro meses, mediando entre duas aplicações, é mais do que suficiente para a
reaplicação. Mesmo que os examinados se lembrassem dos perpectos, ou seja, das
respostas dadas anteriormente, estas já viriam transformadas pela memória e
também acrescidas de novas associações. Esse procedimento ampliaria o campo de
pesquisa, enriquecendo, portanto, a análise, e assim poderia redundar em benefício
para os litigantes.

E também prática usual, lícita e profícua — quando por algum motivo relevante não
se puder reaplicar o Rorschach — solicitar os dados técnicos da prova já aplicada
por outro profissional a fim de realizar a conferência da classificação das respostas
ou mesmo para reavaliação.

No caso de menor (es), procuro tanto quanto possível poupá-los de novo (s)
psicodiagnóstico (s), reexaminando os já existentes no (s) laudo (s) anterior (s) e
buscando nos estudos realizados por outro (s) profissional (is) novas interpretações
teóricas e implicações práticas. Em muitas ocasiões, chego a diferentes ilações que
poderão ter passado despercebidas ao perito oficial e, não raras vezes, concluo
diferentemente do laudo oficial.

Em recente painel sobre a qualidade das perícias, realizada pela Ordem dos
Advogados do Brasil/Seção de São Paulo, ponderava-se muito oportunamente que
a primeira função do assistente técnico seria, além da leitura do processo, a de
aconselhar ou desaconselhar a solicitação da perícia.

Tenho por norma profissional, ao assumir uma assistência técnica, proceder a


prévio e minucioso exame da parte que busca minha assessoria profissional. Este
exame inclui entrevista (s) e aplicação do Rorschach, realizada, como sempre,'às
cegas" por especialista que desconheça os dados processuais. A respeito desse
assunto, Piccinelli (em seu Parecer) afirmou: "Cabe lembrar que a análise será
realizada 'às cegas', ou seja, o especialista do Rorschach deverá interpretar os
psicogramas, que é como Silveira (1964) denomina os elementos já estudados nos
índices e comparações, sem saber da história, ou da patologia ou problema,de vida
do examinando. Importa é sabermos idade, sexo, escolaridade, profissão e,
evidentemente, o contexto da prova ou a que se destina o exame" (Parecer
elaborado para fundamentar trabalho pericial, p.4).

Tendo garantido o procedimento descrito acima, o assistido e o seu patrono estarão


também cientes, desde o início de seu contato comigo, de que só contarão com a
minha assistência se estiverem perfeitamente convencidos da posição que
assumirei. Em caso contrário, pedirei minha substituição no processo.

Aceita a tarefa, o profissional na condição de assessor pericial deverá conscientizar-


se de que lhe cabe prestar todo tipo de auxílio ao cliente e ao advogado no que
concerne à psicologia. Inclusive orientará e mesmo se responsabilizará pelos
quesitos necessários para a elaboração do Diagnóstico Situacional.

O Psicólogo e a justiça

A perícia psicológica não difere das demais perícias, em termos gerais. Assim, os
prazos processuais serão rigorosamente cumpridos e, apenas, quando muito bem
justificada a impossibilidade de cumpri-los, poderá o perito solicitar a prorrogação a
ser aceita ou não, segundo o critério do Meretíssimo Juiz, conforme observou
Altavilla (1982). Dessa forma, o perito-psicólogo deverá dispor de tempo para
priorizar o trabalho pericial, levando em conta a necessária agilização da Justiça,
imposta por situações aflitivas.

Todavia, existem os procedimentos preconizados pelos Artigos 429 a 431 do Código


de Processo Civil, que não apenas previu, como também regulamentou a forma de
realização das perícias, de modo geral, referentes a objetos materiais, engenharia,
agrimensura etc. Embora preconizados em lei para outras áreas profissionais, tais
procedimentos não podem ser literalmente cumpridos na perícia psicológica, pois o
legislador não levou em conta que a Psicologia possui também suas próprias
normas técnicas e princípios éticos, que não podem ser desconsiderados na
realização das perícias.

Levando em consideração as normas citadas, a perícia psicológica deveria ser


realizada em conjunto ou individualmente, mas todos os peritos poderiam — se
assim o desejassem — instruir seu laudo com os mesmos referenciais, ou seja, com
os mesmos testes. Nestes termos, seria possível proceder a psicodiagnósticos
simultâneos com o mesmo sujeito e realizados por dois ou mais peritos diferentes.
Mesmo o iniciante em Psicologia perceberia o absurdo que significaria realizar uma
entrevista ou um teste concomitantemente com o mesmo sujeito por dois ou mais
profissionais de Psicologia e/ou áreas afins.

Em certas oportunidades, exige-se que estas normas preconizadas por lei sejam
seguidas. Tais exigências, por vezes bem-intencionadas, demonstram apenas o zelo
desejoso das partes litigantes, manifestado através de seus patronos, de que a lei
seja cumprida com todo rigor. Entretanto, demonstram também, através destas
exigências sem fundamentação, o desconhecimento dos limites técnicos e éticos da
Psicologia.

Vale também lembrar que tais exigências atendem, por vezes, a situações em que
os causídicos, visando à defesa de seus clientes, se utilizam desse estratagema
tumultuário e protelatório. Embora este seja um recurso legalmente aceito, traz
somente prejuízos psicológicos e outros, especialmente aos menores envolvidos nos
litígios.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALTAVILLA, Enrico. Psicologia Judiciária 3ª ed. Coimbra, Armênio Amado Editor,


v II, 1982. [ Links ]

CALDAS AULETE. Dicionário Contemporâneo de Língua Portuguesa. 2ª ed, Rio


de Janeiro v. IV, 1964. [ Links ]

FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir. Petrópolis, Editora Vozes, 1983. [ Links ]

LANDRY, Michel. O Psiquiatra no Tribunal. São Paulo, Editora Pioneira/


EDUSP,1981. [ Links ]

PICCINELLI, Lília de Muzio. Parecer Elaborado para Fundamentar Trabalho


Pericial. Trabalho inédito [ Links ]

SILVEIRA, AnibaL. O Método de Rorschach: Terminologia e Critério. Separatas dos


Arquivos de Assistência aos Psicopatas de São Paulo, 1961, v. XXVII.
[ Links ]

SILVEIRA, Anibal. Parecer sobre Psico-diagnóstico de Rorschach: Elaboração do


Psicograma. São Paulo, 1964. [ Links ]

TARULES, Olepnilda Mary. O Psicodiagnóstico de Rorschach e suaContribuição a)


Estudo Médico-Social e Criminológico. Revista do IMESC. São Paulo, 1982., v
(3):35 e 36. [ Links ]
* Este artigo resultou da adaptação de um trabalho apresentado no VI Congresso
Latino americano de Rorschach e Outras Técnicas Projetivas, em julho de 1985, em
São Paulo.

PROCESSO FAMILIAR

Importância do psicólogo nas perícias é reconhecida pelo


Código de Processo Civil
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10 de julho de 2016, 10h34
Por Giselle Câmara Groeninga

Um dos efeitos da interdisciplinaridade deve ser o fortalecimento da identidade de cada disciplina. O encontro com
outras áreas do conhecimento deve marcar os limites, diferenças e possibilidades de atuação profissional.

Mas este ainda é um cenário um tanto distante. No momento atual, a riqueza da descoberta da complexidade dos conflitos, e
a busca de formas de abordá-los, tem trazido também uma certa confusão. Importante diferenciar os conflitos que se
transformam em impasses, e que chegam ao Judiciário, daqueles que fazem parte da vida de relações e que se transformam e
evoluem, quer naturalmente ou com intervenção de outros agentes ou de profissionais — conflitos não judicializados.

Os conflitos são gênero, inerentes à nossa condição humana, enquanto que os impasses e litígios são espécies. Ao tomar os
conflitos em geral como se fossem ameaças ao ideal de paz, acabamos por incrementar, indevidamente, a judicialização da
sociedade, ampliando o escopo da intervenção do Estado e mesmo a confusão entre a função de cada profissional.

Nesta dinâmica de conflitos cada vez mais indevidamente judicializados, os operadores do Direito e os operadores da Saúde
que atuam na área da Justiça passam por uma verdadeira “crise de identidade”, e pode-se dizer o mesmo em relação a um
assoberbado Judiciário.

Neste cenário, é saudado, não sem algumas ressalvas, o novo Código de Processo Civil. Deve ser brindada sua ênfase na
colaboração e na autocomposição — dinâmicas que têm mobilizado a todos os profissionais quanto à forma e ao escopo de
suas atuações.

A importância dada à mediação e à conciliação, ainda em processo de definição de suas diferenças, representa um desafio a
ser enfrentado por todos os profissionais e que, de uma forma ou de outra, passou a atravessar suas práticas.

Mas não somente em relação a estes dois institutos encontram-se os desafios.

Especificamente, no caso da atuação dos psicólogos na área da justiça, o Código de Processo Civil traz importantes questões
que, felizmente, têm mobilizado discussões nos órgãos da classe.

Como inovação temos o artigo 156 que diz que o juiz será, e enfatizo —será —, assistido por perito quando a prova ou fato
depender de conhecimento técnico ou científico. Uma devida valorização do conhecimento próprio ao psicólogo nas
demandas que envolvem questões de família. Podem ser nomeados peritos os profissionais legalmente habilitados e, como
inovação, os órgãos técnicos ou científicos devidamente inscritos em cadastro mantido pelo tribunal ao qual o juiz está
vinculado. Caberá aos tribunais a avaliação para manutenção do cadastro. Avaliação cujos critérios, acredito, devam
necessariamente ser objeto de discussão com as respectivas categorias profissionais.

O artigo 464 define a prova pericial como exame, vistoria ou avaliação. Ademais desta função, é preciso dizer que o trabalho
realizado pelos psicólogos muitas vezes tem, além da perícia, um caráter de intervenção. Esta guarda uma relação, mas que
não se confunde, com a mediação e a conciliação. Institutos que têm enquadramentos específicos e profissionais não
necessariamente formados em psicologia.

Assim, no âmbito das perícias podem ocorrer intervenções com o uso de técnicas próprias à psicologia, e que em muito
contribuem para a elaboração dos conflitos e solução dos litígios. Para citar algumas: a conscientização do significado e das
consequências das disputas, sobretudo, para os filhos; mediação das relações com o fortalecimento dos vínculos; a
prevenção de transtornos psíquicos ou de seu agravamento; acompanhamento da situação objeto do litígio; recomendação de
psicoterapias específicas às situações analisadas.

No parágrafo 2º consta que o juiz poderá determinar a produção de prova técnica simplificada, com a inquirição de
especialista, quando o ponto controvertido for de menor complexidade. Uma inovação cuja definição a priori é um tanto
difícil quando se tratam de questões inerentes à avaliação psicológica, uma vez que, em geral, é no curso da perícia que a
complexidade pode ser avaliada. Mas a prática o dirá. Como também a experiência indicará, acredito, a necessidade da
presença de assistente técnico na inquirição de especialista.

Mas é o artigo 466 que traz importante controvérsia quanto ao concurso do assistente técnico no campo da psicologia. Diz o
parágrafo 2º: “O perito deve assegurar aos assistentes das partes o acesso e o acompanhamento das diligências e dos exames
que realizar, com prévia comunicação, comprovada nos autos, com antecedência mínima de cinco dias”.

Já a resolução 008/2010 do Conselho Federal de Psicologia que trata a respeito da atuação do psicólogo como perito e
assistente técnico no Poder Judiciário, aponta que os assistentes técnicos são de confiança da parte para assessorá-la e,
sublinho, garantir o direito ao contraditório. No entanto, observo que no Capítulo I – Realização da Perícia, o artigo 1º diz
que “o psicólogo perito e o psicólogo assistente técnico devem evitar qualquer tipo de interferência durante a avaliação que
possa prejudicar o princípio da autonomia teórico-técnica e ético-profissional, e que possa constranger o periciando durante
o atendimento”. E diz o artigo 2º: “O psicólogo assistente técnico não deve estar presente durante a realização dos
procedimentos metodológicos que norteiam o atendimento do psicólogo perito e vice-versa, para que não haja interferência
na dinâmica e qualidade do serviço realizado” (grifos meus).

Certo é que não há de se questionar a hierarquia das normas. No entanto, cabem algumas considerações e, quiçá, a
ponderação de princípios para que a diferença entre o CPC e a referida resolução seja devidamente sopesada. Minha
experiência como perita e como assistente técnica recomendam cautela e amadurecimento quanto a esta questão, e que deve
ser considerada caso a caso. E com este caráter faço as considerações a seguir.

Há uma característica da avaliação psicológica que implica na exploração de questões da intimidade, e a exposição de
aspectos muitas vezes desconhecidos e mesmo negados, inclusive inconscientemente. Cuida-se aqui da preservação da
intimidade e mesmo de questões de dignidade.

O vínculo com o perito, sem a presença de assistentes técnicos, poderia gerar uma relação de maior confiança, menor
constrangimento e também terreno fértil para uma possível intervenção do perito e resolução do litígio. E é certo que pode
ser mais constrangedor que a avaliação se dê na presença de assistentes técnicos. Estas são algumas razões pelas quais as
perícias psicológicas não deveriam ser acompanhadas pelos assistentes técnicos.

Mas, por outro lado, a presença dos assistentes também poderia, por exemplo, trazer maior segurança pessoal aos assistidos,
inibir a tentativa de manipulação do perito, efetivamente colaborar com este na avaliação de questões prenhes de
subjetividade, além de possibilidade de acompanhar e, se for o caso, criticar a produção da prova.

Pondero que, neste último aspecto, o novo código traz algumas salvaguardas, especificando no artigo 473 o que o laudo
pericial deverá conter, garantindo-lhes melhor qualidade e possibilidade de crítica (exposição do objeto da perícia; análise
técnica ou científica realizada pelo perito; indicação do método utilizado, esclarecendo-o e demonstrando ser
predominantemente aceito pelos especialistas da área do conhecimento da qual se originou; resposta conclusiva a todos os
quesitos).

Mas é certo que sem o acesso às entrevistas, o trabalho do assistente técnico é dificultado e muitas vezes chega a ser
cerceado pela falta de acesso às partes, ficando muitas vezes sua credibilidade diminuída. Do meu ponto de vista, tal
situação corrobora para que, muitas vezes, os laudos críticos se assemelhem mais a uma defesa das partes, com
considerações indevidas e coibidas pela ética dos psicólogos, em vez de serem trabalhos de compreensão da dinâmica
psicológica que se encontra em jogo no litígio em exame.

O resultado pode ser, então, uma descabida parcialidade, do ponto de vista da psicologia. Aponto a indevida parcialidade
porque no campo de análise da psicologia as relações devem ser vistas como necessariamente complementares, envolvendo
aspectos conscientes e inconscientes. Ou seja, não cabe uma visão maniqueísta e excludente de certo ou errado, ou mesmo
de são ou doente, assim como não cabe a mera defesa de uma parte em detrimento da outra. Tal postura de assistentes
técnicos pode trazer sérios prejuízos à dinâmica familiar e resolução dos litígios.

E, finalmente, quanto ao acompanhamento das entrevistas, quase desnecessário seria dizer que todo o cuidado é pouco
quando se cuidam de avaliações que envolvam crianças e adolescentes, vulneráveis que são aos traumas e sua repetição que
pode se dar com as avaliações.

Finalmente, como inovações expressas, temos ainda, o artigo 471 parágrafo 3º, segundo o qual “a perícia consensual
substitui, para todos os efeitos, a que seria realizada por perito nomeado pelo juiz”. E no artigo 472 consta que: “O juiz
poderá dispensar prova pericial quando as partes, na inicial e na contestação, apresentarem sobre as questões de fato,
pareceres técnicos ou documentos elucidativos que considerar suficientes”. Assim, ganham valor a escolha consensual e
também os pareceres e laudos prévios.

As questões, confusões e discussões estão apenas em seu início, mas acredito ser um cenário promissor, com a valorização e
o reconhecimento da importância do operador da saúde, caminhando ao lado da eficácia que deve pautar sua atuação,
segundo a ética profissional, e em consonância com o novo Código de Processo Civil

O que é um parecer crítico?


Senso crítico significa a capacidade de questionar e analisar de forma racional e inteligente. Através do senso crítico,
o homem aprende a buscar a verdade questionando e refletindo profundamente sobre cada assunto. A palavra “crítica”
vem do Grego “kritikos”, que significa “a capacidade de fazer julgamentos”.

Como se faz uma análise crítica?


Não há, na verdade, uma «chave» para um texto que se quer «crítico». O que sepretende, no caso de uma análise
crítica, é uma abordagem a um tema, onde seapresente um conjunto bem estruturado de opiniões fundamentadas.
Deve procurar-se explorar todas as questões e ideias principais levantadas pelo objecto da análise.

Como elaborar uma resenha?


Na resenha acadêmica crítica, os oito passos a seguir formam um guia ideal para uma produção completa:

1. Identifique a obra: coloque os dados bibliográficos essenciais do livro ou artigo que você vai resenhar;
2. Apresente a obra: situe o leitor descrevendo em poucas linhas todo o conteúdo do texto a ser resenhado;
Concurseiro reprovado na avaliação psicológica. Dá para reverter? SIM!

Inúmeros são os casos de concurseiros eliminados na avaliação psicológica ou teste


psicotécnico nos concursos públicos por todo o Brasil.

O procedimento muitas vezes simplificado ou realizado de forma subjetiva, torna a avaliação


psicológica inválida, caracterizando abuso de poder da administração pública que realiza o concurso.

O concurseiro prejudicado na maioria das vezes não tem conhecimento para reverter a
situação e se manter no concurso público.

A boa notícia é que dicas simples podem ajudar o concurseiro a identificar se a


avaliação psicológica estaria passível de anulação. E consequentemente, reverter sua eliminação
do concurso público com ajuda de um advogado especialista em concursos públicos.

Agora, de olho nas dicas!

Com a avaliação psicológica em mãos, o concurseiro deve observar o seguinte:

A) Avaliação psicológica estará correta se:

 O psicólogo fundamentou a recusa do candidato para o cargo de forma técnica e objetiva.

 O resultado dos testes de equipamentos estão dentro dos parâmetros do edital e está de acordo
com o parecer do psicólogo.

 Existe previsão no edital do concurso e existe lei que exiga avaliação psicológica para o cargo.

B) Avaliação psicológica estará passível de anulação se:

 No relatório o psicólogo simplesmente informa: “candidato inapto”

 A fundamentação do psicólogo tem indícios de uma avaliação subjetiva.

 O resultado dos testes de equipamentos aponta que o candidato estaria apto, mas o parecer do
psicólogo determina que o candidato estaria inapto.

 O parecer do psicólogo parece traçar um perfil de candidato esperado para o cargo.

 Não existe previsão no edital do concurso e não existe lei que exiga avaliação psicológica para o
cargo.
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publico Concurso Público – Reprovação na avaliação psicológica / psicotécnico

concurso publico liminar concurso publico mandado de seguranca 27/08/2018

Concurso Público – Reprovação


na avaliação psicológica /
psicotécnico

Concurseiro reprovado na avaliação psicológica. Dá


para reverter? SIM!
Inúmeros são os casos de concurseiros eliminados na avaliação psicológica ou teste psicotécnico nos concursos públicos por todo
o Brasil.
O procedimento muitas vezes simplificado ou realizado de forma subjetiva, torna a avaliação psicológica inválida, caracterizando
abuso de poder da administração pública que realiza o concurso.

O concurseiro prejudicado na maioria das vezes não tem conhecimento para reverter a situação e se manter no concurso público.

A boa notícia é que dicas simples podem ajudar o concurseiro a identificar se a avaliação psicológica estaria passível de
anulação. E consequentemente, reverter sua eliminação do concurso público com ajuda de um advogado especialista em concursos
públicos.
Agora, de olho nas dicas!
Com a avaliação psicológica em mãos, o concurseiro deve observar o seguinte:

A) Avaliação psicológica estará correta se:


 O psicólogo fundamentou a recusa do candidato para o cargo de forma técnica e objetiva.

 O resultado dos testes de equipamentos estão dentro dos parâmetros do edital e está de acordo com o parecer do
psicólogo.

 Existe previsão no edital do concurso e existe lei que exiga avaliação psicológica para o cargo.

B) Avaliação psicológica estará passível de anulação se:


 No relatório o psicólogo simplesmente informa: “candidato inapto”

 A fundamentação do psicólogo tem indícios de uma avaliação subjetiva.


 O resultado dos testes de equipamentos aponta que o candidato estaria apto, mas o parecer do psicólogo determina
que o candidato estaria inapto.

 O parecer do psicólogo parece traçar um perfil de candidato esperado para o cargo.

 Não existe previsão no edital do concurso e não existe lei que exiga avaliação psicológica para o cargo.

Todas essas dicas estão de acordo com o entendimento do Superior Tribunal de Justiça – STJ sobre o assunto. Vejamos abaixo:
“A realização de exames psicotécnicos em concursos públicos é legítima, desde que (i)
haja previsão legal e editalícia para tanto, (ii) os critérios adotados para a avaliação
sejam objetivos e (iii) caiba a interposição de recurso contra o resultado, que deve ser,
pois, público.”
Desta forma, o concurseiro que for eliminado na avaliação psicológica, deve requerer nova avaliação. O próprio edital do
concurso deve informar todos os procedimentos administrativos para o concurseiro realizar a nova avaliação psicológica. Neste
ponto, fique atento aos prazos do edital.
Caso na segunda avaliação seja novamente considerado inapto e eliminado do concurso, então o concurseiro deverá partir para um
processo judicial com ajuda de um advogado especialista em concursos, para tentar reverter a situação e continuar participando do
concurso público

]
Testes psicológicos nos concursos públicos: dilemas e reflexões entre Direito e
Psicologia
Rodrigo Valgas dos Santos

Resumo: O presente texto trata dos testes psicológicos nos concursos públicos. Da pesquisa realizada conclui-use que acesso a cargo ou emprego público
está exclusivamente condicionado à realização de provas ou prova e títulos (art. 37, II, da CR), sendo que a utilização dos testes psicológicos – desde que
previstos em lei – jamais poderá ser ter cunho eliminatório, como verdadeira etapa do concurso público, mas apenas em sede de exames admissionais. Outro
ponto relevante é que ante a total lacuna normativa a regrar a incidência dos testes psicológicos no Brasil, e por não dispormos de regulamentação legal
quanto ao tema, de todo razoável a opinião dos administrativistas que os testes apenas poderão ser utilizados para mensurar a higidez psíquica dos
candidatos; Concluiu-se que a aplicação de testes psicológicos quando precedidos de provas (relativas ao conteúdo programático do concurso) que mensuram
habilidades e aptidões a exemplo de raciocínio abstrato ou inteligência, deve considerá-las para fins de avaliação psicológica. Também partimos da premissa
que nem todos os cargos ou empregos públicos estão sujeitos à testagem psicológica. Apenas àqueles que colocam em risco a sociedade ou a vida é que
podem estar sujeitos a testes psicológicos e sempre na fase admissional. Quanto a exigência do perfil profissiográfico, verificamos que não pode ser
determinada para qualquer cargo ou emprego público, mas apenas àqueles cuja exigência de certo grau de habilidades e equilíbrio emocional seja
totalmente indispensável para seu efetivo desempenho, não podendo realizar eugenia psíquica, distorcendo o ingresso na Administração Pública ao impor
requisitos irrazoáveis. Consoante o que reiteradamente tem decidido o STF, é indispensável a previsão em Lei formal para que se possa exigir testes
psicológicos, não suprindo tal requisito mera previsão no edital do concurso público. A necessidade de lei formal incide tanto para cargos como empregos
públicos. Com efeito é indispensável a minudente previsão editalícia de todos os critérios de avaliação do s candidatos (nunca a posteriori), a exemplo do
tempo de duração dos testes, quantos serão aplicados, o percentil de corte, o índice mínimo a ser obtido em cada teste, como serão calculadas as médias
etc., sob pena de nulidade do teste psicológico. Por fim, os testes psicológicos devem ser aplicados em condições ambientais adequadas sob pena de
comprometimento da precisão e fidedignidade do teste, nos termos exigidos no artigo 1º, §2º, da Resolução CFP nº 01/2002.

Sumário: 1. Introdução. 2. Considerações acerca da natureza dos testes psicológicos e sua interconexão com o Direito. 3. O acesso a cargo ou emprego
público está condicionado à realização de provas ou provas e títulos (37, II, da CR), não podendo os testes psicológicos ter cunho eliminatório, mas apenas
serem exigidos nos exames admissionais. 4. Na ausência de Lei a regulamentar os testes psicológico no Brasil, sua finalidade é apenas a de mensurar a
higidez psíquica dos candidatos. 5. Os testes psicológicos devem levar em conta os resultados das provas aplicadas nos concursos públicos quando existirem
coincidência de aptidões a serem mensuradas. 6. A realização de testes psicológicos nos concursos deve considerar o tipo de função a ser desenvolvida não
sendo razoável a invasão da esfera psíquica e dos direitos da personalidade nas atividades que não sejam periculosas ou que intrinsecamente não exijam tais
testes. 7. A exigência de perfil profissiográfico nos editais de concursos. Considerações sobre o Decreto Federal n° 6.944/2009 e as alterações promovidas
pelo Decreto n° 7.308/2010. 8. Necessidade de Lei formal para exigir-se testes psicológicos tanto na Administração direta como na indireta: a Súmula 686 do
Supremo Tribunal Federal. 9. Necessidade de previsão editalícia dos critérios de avaliação dos candidatos com vistas a aferir nível intelectual e as aptidões
específicas sob pena de nulidade do teste psicológico. 10. Necessidade de aplicação dos exames psicológicos em condições ambientais próprias e adequadas
– artigo 4º, V, da Resolução CFP nº 002/2003. Necessidade de grau mínimo de precisão e fidedignidade dos testes - artigo 1º, §2º, da Resolução CFP nº
01/2002. 11. Considerações Finais. 12. Referências bibliográficas.

1.Introdução

O que nos levou a escrever estas reflexões acerca dos testes psicológicos é tão ou mais relevante que os argumentos adiante expostos. As razões “jurídico-
psicológicas” que impulsionam nosso agir teve por mote duas premissas:

A primeira, a frequência[1] com que candidatos aprovados e classificados em concurso público são reprovados nos exames psicológicos; não raro, sem que
saibam com clareza as razões da sua reprovação e por vezes alijados definitivamente de promissora carreira no serviço público; tudo isso agravado pela falta
de condições econômicas de arcar com os custos de adequada defesa junto ao Poder Judiciário.

A segunda, é que os testes psicológicos carecem de adequada reflexão jurídica, e a linguagem da Psicologia – destinada aos seus iniciados – não se preocupa
em fazer a ponte com o Direito (ou vice-versa), dificultando o acesso aos testes pelos profissionais do Direito, transformando-os em verdadeiras caixas-
pretas que precisam ser juridicamente desvendadas sob pena de se amesquinhar direitos e garantias fundamentais.

O tema é fascinante e, em certa medida, nos remete à novela O Alienista, do genial Bruxo do Cosme Velho. Afinal, a missão de dizer quem é normal e quem
é louco sempre desafiou o ser humano tanto na literatura como no Direito. Guardadas as (in) devidas proporções, os testes psicológicos nos concursos
públicos visam justamente dizer quem está apto (normal) e quem está inapto (louco) para ingressar no serviço público brasileiro.

Para o candidato eliminado, pior que a reprovação em si mesma considerada e a desclassificação do certame, é saber que sua eliminação deu-se não por
suposta falta de capacidade ou de estudo, mas porque não está apto psicologicamente para trabalhar, porque refoge aos padrões de normalidade exigidos,
porque algo dentro do seu ser não está como deveria ser.

Paradoxalmente, quanto mais o candidato se insurge contra os testes ou mesmo quanto à inadequação das condições ambientais relativas à sua aplicação - o
que naturalmente o destaca dentre a massa amorfa de candidatos - mais estará sujeito a ver seu grau de “agressividade” exacerbado pelos avaliadores, na
clássica situação onde quanto mais o paciente nega sua condição de louco, mais a afirma perante seus médicos.
Diante desse contexto kafkaniano enfrentado pelos candidatos quando rejeitados nos exames psicológicos, nos imbuímos do propósito de sistematizar o tema
trazendo questões ainda não tratadas adequadamente pela doutrina e jurisprudência[2], abordando ainda outros aspectos onde já existe certo grau de
consenso.

2.Considerações acerca da natureza dos testes psicológicos e sua interconexão com o Direito.

Com o intuito de dialogar juridicamente com os limites e possibilidades da exigência de exames psicológicos nos concursos públicos para cargos ou empregos
públicos, é fundamental saber qual a finalidade e pertinência jurídica de tais testes. Indispensável ainda levar em conta o arcabouço constitucional
brasileiro para ingresso na Administração Pública.

Dado os limites da nossa abordagem não pretendemos discutir a estrutura interna dos testes, sua formulação e experimentação. Também não tencionamos
debater se os exames psicológicos concretamente aplicados no Brasil são adequados (sob o ângulo da psicologia) as exigências do Conselho Federal de
Psicologia – CFP para registro dos testes psicológicos, ou mesmo se a Psicologia é ou não é ciência cujo estágio evolutivo permitiria aferir, com precisão, a
intimidade psíquica dos indivíduos, através de técnicas psicométricas[3].

As questões acima são muito mais adequadas para psicólogos que para juristas, ainda que seja forçoso reconhecer que tais aspectos quando objeto de
discussão em concursos públicos, possam ser levados ao Poder Judiciário, tendo em conta a ampla sindicabilidade dos atos administrativos[4].

Apesar de não tratarmos diretamente da estrutura interna e elaboração dos testes psicológicos - o que em última análise implica em aferir ou não sua
eficácia - é evidente que em sede de ação ordinária, é perfeitamente possível a realização de perícias sobre os testes aplicados em concursos públicos, com
laudos especializados, para aferir a consistência do construto, não podendo o Poder Judiciário quedar limitado ao simples reconhecimento da validade dos
testes pelo Conselho Federal de Psicologia.

O foco de nossa análise serão outras questões jurídicas que têm reflexo direto nos testes psicológicos e que defluem da nossa Constituição, permitindo
realizar uma abordagem constitucional no sentido de saber o que é permitido e o que é vedado considerando-se os princípios e regras plasmados na Lei
Maior.

Em primeiro lugar, insta saber para quê servem os testes psicológicos? A premissa – aparentemente pueril – dimana diversas questões jurídicas relevantes e
impõem o diálogo interdisciplinar entre Direito e Psicologia. Como dito acima, tendo em conta os limites e objetivos deste artigo, não intentamos
aprofundar o assunto, mas apresentar concisamente algumas considerações sobre o tema para delas tirar algumas conclusões.

Resumidamente, podemos dizer que um teste psicológico se propõe a descrever ou mensurar as características e processos psicológicos envolvendo
a emoção/afeto, cognição/inteligência, motivação, personalidade, atenção, memória, etc. (cf. art. 1°, parágrafo único da Res. 002/2003 do Conselho
Federal de Psicologia - CFP). Em última análise o teste psicológico busca obter uma amostra comportamental objetiva e padronizada.

Seu propósito, tendo em conta a Resolução do Conselho Federal de Psicologia n° 002/2003 é fazer classificação diagnóstica, descrição, predição,
planejamento de intervenções e acompanhamento.

Com efeito, os testes psicológicos não estão circunscritos unicamente a fazer a diagnose de um candidato, ou seja, de aferir se certo indivíduo detém
aptidão psíquica suficiente para ocupar certa função pública. Os testes psicológicos ambicionam e são utilizados para muito mais. Há grande variedade de
testes, a saber:

i) testes de realização, que visam mensurar certas habilidades como leitura, matemática e línguas;

ii) testes de personalidade que visam mensurar aspectos como depressão, transtornos alimentares entre outras características da personalidade;

iii) técnicas projetivas, onde espera-se que o examinando, sem dar-se conta disso, revele algo da sua personalidade[5];

iv) testes vocacionais e ainda os testes neuropsicológicos, que visam fornecer informações sobre o funcionamento do sistema nervoso central.[6]

Também é sabido que a avaliação de tais testes nunca são definitivas, pois retratam determinado momento na linha do tempo, considerando as
subjetividades do testador e do testado, as circunstâncias ambientais (barulho, calor excessivo, roupa do avaliador, etc...), de maneira que qualquer
avaliação psicológica jamais terá caráter permanente. Numa singela comparação, um teste psicológico é como uma fotografia de um indivíduo num
determinado tempo e lugar, cujo rol de variantes pode fazer que no minuto seguinte, seja obtida uma imagem completamente diferente da primeira.

Atualmente, o Conselho Federal de Psicologia - CFP reconhece por válidos cerca de 121 testes psicológicos[7]. Muitos são desenvolvidos no exterior
(especialmente nos EUA) e devem ser adaptados à realidade brasileira, para tanto cumprindo certos requisitos estabelecidos na Res. CFP 002/2003.

O CFP, enquanto legítimo defensor da classe dos psicólogos e do seu mercado de trabalho apóia a utilização de testes psicológicos por empresas privadas e
na Administração Pública, atestando sua aptidão para mensurar as habilidades dos candidatos, o que gera emprego e renda para muitos psicólogos que
defendem a aplicação dos testes nos processos seletivos ou em concursos públicos.

Por certo, o incentivo do CFP à realização dos testes, não transforma os psicólogos que os elaboram ou aplicam em espécie de Simão Bacamarte (de novo
Machado!) com a finalidade de levar os candidatos à Casa Verde...

Em princípio, nada de errado em criar campo de trabalho aos psicólogos e aplicar os testes. O problema é quando tais testes ficam à margem da análise de
qualquer outro profissional que não da psicologia que queira acessar e entender seu conteúdo, enfrentando extrema dificuldade de obtê-los (para não dizer
impossibilidade). Igualmente grave é a falsa premissa que isso é assunto para psicólogos e ninguém mais, sob o débil argumento que ao descobrir-se o
segredo da “caixa-preta” os testes perderiam sua eficácia.[8]

O perigo de uma abordagem exclusivamente psicológica do universo desses testes é de ignorar aspectos jurídicos indispensáveis para que o testes possam ser
válidos, evidentemente não no sentido da validade do construto[9]em medir resultados, mas no sentido de validade em relação às normas jurídicas que
norteiam sua elaboração, aplicação e avaliação.

O que se pretende discutir nos tópicos abaixo arrolados, é que o acesso a cargos e empregos públicos (cf. art. 37, II da CR) não pode ser limitado, de modo
irrestrito e sem parâmetros pelos testes psicológicos. Vamos ao desenvolvimento dos aspectos que nos parecem juridicamente mais relevantes.
3. O acesso a cargo ou emprego público está condicionado à realização de provas ou provas e títulos (37, II, da CR), não podendo os testes psicológicos
ter cunho eliminatório, mas apenas serem exigidos nos exames admissionais.

A Constituição, ao prescrever no artigo 37, II que a investidura far-se-á mediante concurso de “provas” certamente não está a abranger os testes
psicológicos. Testes psicológicos não são “prova” na estrita acepção do termo; não visam a aprovação ou reprovação de acordo com a natureza e
complexidade da função pública.

A finalidade dos testes é muito mais ampla e diversificada, por vezes objetivando mesurar ou descrever as características psíquicas do indivíduo, e não para
verificar o domínio de conteúdo programático pelo candidatopara acessar o serviço público.

De fato, o exame psicológico não serve de parâmetro para selecionar os que mais preparados nas matérias objeto do concurso, e seu objeto não é classificá-
los de acordo com seus méritos tendo em conta o conteúdo do programa que irá avaliar seus conhecimentos. Para chegar-se aos mais qualificados realiza-se
a seleção mediante provas ou provas e títulos (37, II, da CR), tendo quedada silente a constituição à necessidade do preenchimento de um tertius
genus chamado: teste psicológico.

Nada impede, porém, desde que previsto em lei, que o exame psicológico seja utilizado para verificar a sanidade psíquica do candidato, após o resultado do
concurso. Como corolário do aqui desenvolvido, nos parece absolutamente ilegal e inconstitucional (violação ao conteúdo do artigo 37, II da CR e ao
princípio da razoabilidade) que o teste psicológico tenha cunho eliminatório, como parte integrante do próprio concurso.

Reforçamos que quando da investidura do servidor para ingressar na Administração pública e dentro dos testes médicos admissionais seja realizada a
testagem psicológica, para se verificar a sanidade psíquica e mesmo avaliar quais as atividades em que melhor irá adaptar-se o servidor recém nomeado,
tudo para bem atender ao interesse público. Esta é a opinião de Adilson Abreu DALLARI, verbis:

“Por isso mesmo, preferimos manter o entendimento já esposado no sentido de que o exame psicotécnico não deve figurar como parte do concurso
público, mas, sim, como requisito para investidura no cargo ou emprego, da mesma forma que o exame médico, do qual seria um dos elementos, de cujo
conjunto, resultaria uma avaliação da aptidão física e mental.” [10]

De fato o teste psicológico não pode servir de parâmetro para avaliar as qualidades e competência dos candidatos, completando Adilson DALLARI:

“O exame psicológico pode revelar uma condição pessoal de cada candidato, concluindo por sua aptidão ou inaptidão, mas não serve para a disputa entre
interessados, destinada a evidenciar os melhores, que é uma característica elementar do concurso público de ingresso.” [11]

Por fim, outra questão relevante deve ser abordada. É que não basta que os testes psicológicos tenham sido previstos em Lei, ou que efetivamente sejam
capazes de mensurar certas habilidades ou características humanas com razoável precisão, ou mesmo que preencham as condições de registro impostas pelo
Conselho Federal de Psicologia - CFP para fins de selecionar candidatos a determinado emprego.

Muito mais que isto, em matéria de acesso a função pública, deve ficar demonstrado que o construto seja capaz de mensurar validamente a aptidão de
certo indivíduo para acessar a cargo ou emprego público, especialmente para demonstrar que o teste é válido para selecionar indivíduos para tais cargos
ou empregos. Inobstante tal exigência, há questões que sequer são discutidas em nosso País, a exemplo do chamado impacto adverso.[12]

No Brasil ainda não enfrentamos muitas das calorosas discussões jurídicas ínsitas aos testes psicológicos, em grande parte importados dos EUA. Pior: não
temos qualquer tratamento normativo consistente a colocar tais testes no seu devido lugar face nosso sistema jurídico. Nos Estados Unidos da América,
há mais de cinquenta anos se discutem as consequencias jurídicas, políticas e sociológicas destes testes tão pacificamente aplicados no Brasil. Diga-se que as
resoluções do CFP são insuficientes para tratar do tema e não vinculam a Administração Pública por não dimanarem de lei formal.

Assim, relevantes questões que exigem deliberação legiferante do Congresso Nacional passam absolutamente ao largo do parlamento, diante do total hiato
normativo da matéria.

Apenas para dar um exemplo da relevância constitucional do tema, servimo-nos do precedente da Suprema Corte Americana: Griggs v. Duke Power,
de 1971, onde estava em discussão que um teste psicológico aplicado por uma empresa estava aprovando um universo maior de candidatos brancos em
detrimento dos candidatos negros, o que levou a alegação que tal empresa aplicava testes psicológicos com caráter discriminatório.[13]

Causa espanto saber que os EUA possuem inúmeras leis que regram a incidência dos testes psicológicos[14] (e.g. a Equal Employment Opportunity - EEOC),
que estabelecem uma série de normas quanto à proibição de discriminação e como deve ser realizada a seleção envolvendo testes psicológicos.

Pergunta-se: onde no Brasil está regrado por Lei como devem ser aplicados os testes psicológicos quanto sua validade e fidedignidade, inclusive sua aptidão
para fins de ingresso em emprego? Até onde pesquisamos, não existe tal lei. No máximo, para certos cargos a Lei prevê que os testes psicológicos podem ser
aplicados, sem qualquer consideração de que maneiras e dentro de quais limites legais. Quando muito, a nível federal, temos o Decreto n° 6.944/09, que
trata de aspectos que extrapolam seu âmbito normativo (novamente ausência de lei formal), que ademais, é insuficiente para abordar exaustivamente a
matéria.

Uma vez demonstrado o paupérrimo debate brasileiro acerca do tema, razão assiste à doutrina administrativista nacional em limitar tais testes psicológicos
apenas para aferir as condições mínimas de higidez mental para o acesso a cargo ou emprego público, pois enquanto a comunidade jurídica não conhecer
nem acessar os critérios de testagem psicológica e enquanto não se impuser por lei formal os limites e condições de tais testes, bem como a proibição de
sua utilização para fazer espécie de eugenia psíquica nos indivíduos, o máximo que se pode atribuir a tais testes é realmente detectar casos evidentes de
inaptidão intelectual e emocional – o que veremos logo adiante – sempre na fase pré admissional do candidato, sob pena de atentar-se contra a Constituição
e seu núcleo de direitos fundamentais.

4. Na ausência de Lei a regulamentar os testes psicológico no Brasil, sua finalidade é apenas a de mensurar a higidez psíquica dos candidatos.

Como já explicitado, ao nos enveredarmos pelo estudo dos testes psicológicos, não queremos esvaziar-lhe ou diminuir-lhe a relevância, mas colocá-los em
harmonia com a ordem constitucional vigente.

Como dito acima, a melhor doutrina administrativista acertadamente tem restringido os testes psicológicos apenas para aferir-se a sanidade psíquica do
candidato, sendo defeso que pequenas variações de personalidade sejam relevantes a ponto de obstar o ingresso de qualquer cidadão ao serviço
público, sob pena de malferir-se o princípio do concurso.

Com efeito, se um candidato não possui um raciocínio verbal nos moldes desejados por um determinado teste psicológico, isto não torna indivíduo incapaz
de desempenhar sua função com zelo e competência. O mesmo vale para raciocínio abstrato ou inteligência.
Aliás, nunca devemos esquecer que a personalidade humana é um projeto em permanente construção. O homem – felizmente – não nasce feito. Constrói-se
e é construído ao longo da existência. Em decorrência de tal assertiva, qualquer sistema de seleção que procure enquadrar o candidato a certo perfil pré-
estabelecido, sem considerar até que ponto tal característica é efetivamente incompatível com o desempenho do cargo ou emprego, viola a
constituição e seu núcleo de direitos fundamentais, reduz a personalidade a obscuros percentis[15].

Desse modo, um candidato que não tenha atingido nos testes psicológicos o percentil desejado para alguma habilidade (e.g.: raciocínio verbal), não
significa que ao longo de sua vida e no efetivo exercício do emprego, que estará impossibilitado de desenvolver suas habilidades, afinal, a
personalidade é algo em mutação, em construção permanente. Porém, em hipótese alguma isto significa que o não atingimento de certos percentis de
acerto tornem o indivíduo incapacitado de exercer sua função!

Não por acaso os psicólogos que adotam as correntes humanista e psicanalista vêem nos testes psicológicos um caráter reducionista da personalidade.

Para que efetivamente excluam o indivíduo do acesso aos cargos e empregos públicos, os testes devem demonstrar que tal indivíduo está absoluta e
cabalmente impossibilitado de acessar o almejado cargo ou emprego. Interpretar diferentemente é não compreender o papel dos testes psicológicos,
atribuindo-lhes perigosa ditadura, cujas “regras do jogo” (BOBBIO) por vezes não são claras nem acessíveis.[16]

Exemplo da doutrina que limita os testes psicológicos a aferir a sanidade psíquica dos candidatos é a capitaneada por Celso Antônio BANDEIRA DE MELLO,
assim prelecionando:

“Exames psicológicos só podem ser feitos como meros exames de saúde, na qual se inclui a higidez mental dos candidatos, ou, no máximo – e, ainda assim,
apenas no caso de certos cargos ou empregos -, para identificar e inabilitar pessoas cujas características psicológicas revelem traços de personalidade
incompatíveis com o desempenho de determinadas funções.”[17] (grifo nosso).

O acerto da doutrina acima deixa claro os limites dos testes psicológicos no Brasil, que diante dos problemas acima narrados, e de acordo com a melhor
doutrina nacional, não podem exorbitar da verificação da higidez psíquica do candidato na fase admissional.

5. Os testes psicológicos devem levar em conta os resultados das provas aplicadas nos concursos públicos quando existirem coincidência de aptidões a
serem mensuradas.

Iniciamos este tópico fazendo distinção na utilização de testes psicológicos no âmbito da iniciativa privada e dentro da Administração Pública. É que mesmo
se utilizando de um teste homologado pelo Conselho Federal de Psicologia - CFP na iniciativa privada, realmente se pretende aferir a inteligência, memória,
atenção etc., através do próprio teste psicológico, ainda que faça entrevista posterior para confirmar a aptidão do pretendente ao emprego.

Na esfera privada é sabido que certas empresas por vezes se utilizam de testes psicológicos duvidosos, que perguntam os maiores impropérios
(v.g. “avaliação 360º”), tudo para sabatinar e oprimir abusivamente os pretendentes à vaga, e testar até que ponto estão dispostos a “doar-se” em prol da
corporação.[18]

De fato, muito se tem discutido acerca da abusividade de tais testes, especialmente porque pretendem escolher perfil mais “pró-ativo” dos candidatos, em
franca desvantagens dos mais tímidos, mas igualmente valorosos e estudiosos. Aliás, é sabido que na iniciativa privada até quesitos como altura e beleza
contam no ingresso para o novo cargo.

Na Administração Pública não apenas os expansivos têm vez. Os tímidos (mas estudiosos); os introvertidos (mas persistentes); os feios (mas inteligentes);
desde que suplantem os falastrões em estudo, conhecimento e mérito, sagrar-se-ão vencedores.

Além de todo o núcleo principiológico decorrente do regime jurídico administrativo, na Administração Pública a seleção do candidato é realizada através das
provas de conhecimento objetiva ou subjetiva, justamente para aferir sua inteligência, memória, atenção etc. no conteúdo específico para o cargo que
deseja ocupar, sendo claro que tais quesitos por vezes se confundem com as aptidões que os testes psicológicos pretendem mensurar.

Desse modo, como dizer que um engenheiro que tirou excepcional nota em matemática ou física nas provas realizadas no concurso, possa ser reprovado nos
testes psicológicos por, supostamente, não atender aos quesitos de “raciocínio abstrato”? É evidente que em tais casos há coincidência de aptidões que os
testes não podem mensurar com exclusividade, devendo ser considerado o resultado das provas de conhecimento que demonstraram a qualificação
dos candidatos.

Porventura alguém em “sã consciência” há de concordar que os melhores classificados em concurso público são os menos aptos; que tenham o QI mais baixo;
que sejam menos estudiosos e capacitados que os demais; ou mesmo que estejam tais indivíduos abaixo da média intelectual das pessoas numa sociedade?
Certamente que não!

Não se ignora que alguém possa ser muito inteligente detendo enorme conhecimento em sua área do saber, mas não portar as condições psíquicas mínimas
para acessar a cargo ou emprego público. Mas isto é problema que em nosso entender e na linha dos administrativistas supracitados está mais relacionado à
sanidade física e mental dos exames admissionais, do que propriamente à eliminação de concurso público, cuja finalidade precípua é escolher os mais aptos
para contribuírem com a Administração Pública, sem qualquer espécie de discriminação.

Destarte, o concurso público serve precipuamente para escolher-se os mais qualificados, sem apadrinhamentos, sem desvios de finalidade, sendo por
isso mesmo o melhor método de seleção atualmente concebido, mormente para o quadro permanente da Administração, como assevera Romeu Felipe
BACELLAR FILHO:

“Se o concurso público não é, segundo alguns pensam, a melhor forma de recrutamento de pessoal para a Administração Pública, representa, seguramente,
a melhor opção até agora concebida, possibilitando, seu democrático procedimento, a todos que reúnam as condições exigidas ampla participação na
competição.”[19]

Diante destas considerações, é patente que a realização das provas do concurso público anteriores à testagem psicológica, pode cumprir o papel de aferir os
quesitos envolvendo raciocínio abstrato, inteligência e mesmo raciocínio verbal, de modo que os testes psicológicos deveriam cotejar o desempenho do
candidato nas provas que o antecederam porque já mensuradas, ainda que parcialmente, tais habilidades, sendo inadmissível que certas habilidades sejam
julgadas exclusivamente com base nos testes psicológicos.

6.A realização de testes psicológicos nos concursos deve considerar o tipo de função a ser desenvolvida não sendo razoável a invasão da esfera
psíquica e dos direitos da personalidade nas atividades que não sejam periculosas ou que intrinsecamente não exijam tais testes.

Há certo consenso que para determinadas funções os testes psicológicos adquirem especial relevância dado o grau de periculosidade que envolverá a futura
atividade. Exemplo disso é a categoria dos policiais que terão porte de arma e enfrentarão nossos elevados índices de violência, bem como a
dos motoristas que irão dirigir nas tensas e difíceis estradas brasileiras, ou mesmo em relação aos controladores de vôo, que tais atividades sejam avaliadas
à luz dos testes psicológicos.

Então pergunta-se: Será que é toda e qualquer atividade que exige tamanha invasão da esfera psíquica? Será que há sentido em realizar uma prova
psicológica de cunho eliminatório funções como administrador, contador e advogado? Pensamos que não. Neste caso há clara violação do princípio da
proporcionalidade em seu trinômio, i) adequação, ii) necessidade e iii) proporcionalidade em sentido estrito.[20]

As funções que demandam rigorosa testagem psicológica são aquelas que colocam em risco a sociedade ou a vida, como destaca Francisco Lobello de
Oliveira ROCHA:

“Além disso, é preciso muita cautela na escolha de critérios eliminatórios. Só podem ter caráter eliminatório as características ou traços psicológicos
absolutamente incompatíveis com o exercício do cargo, pois a exigência de qualquer requisito desnecessário viola o princípio da razoabilidade. Exemplo
clássico é o nível acentuado de agressividade, impulsividade ou instabilidade emocional vedadas nas carreiras policiais. Tais características, considerando-se
as atribuições e instrumentos utilizados pelos policiais poderiam colocar em risco a sociedade e a vida de cidadãos inocentes” [21]

O magistério de Celso Antônio BANDEIRA DE MELLO ao aduzir que apenas certas funções é que admitiriam a incidência de testes psicológicos endossa a tese,
exemplificando:

“Compreende-se, por exemplo, que um teor muito alto de agressividade não se coadunaria com os encargos próprios de quem deva tratar ou cuidar de
crianças em creches ou escolas maternais.” [22]

Ora, se para os policiais faz-se necessário perquirir os níveis de agressão, dominância, exibição, ordem, etc., porque o seria para cargos como de
administrador ou contador? Porventura tais funções colocam a sociedade em risco? Acaso colocará em risco a vida de inocentes sentado em seu gabinete de
trabalho e tratando do dia-a-dia da Administração? Absolutamente, não!

Acerca do ponto, calham as observações de Luciano Augusto de Toledo COELHO:

“(...) Ao especificar a forma de violação do direito à reserva do direito à vida privada, [Monta Pinto] traz menção de que questionários e testes relativos a
aspectos incluídos na vida privada do trabalhador devem ser limitados aos casos em que seja necessária a proteção de segurança de terceiros o do próprio
trabalhador, ou de outro interesse público relevante.

Levando-se em conta essa última observação, estabelece-se um permissivo para a aplicação dos testes, cria, ao mesmo tempo, um limite ao empregador,
assim, em tese, poderia haver justificativa para a aplicação de um teste específico de personalidade em candidatos para determinadas funções que
pudessem oferecer perigo, como, por exemplo, motoristas (um motorista agressivo demais, por exemplo, poderia ser recusado...) Já no caso de
contratação de uma secretária, de uma auxiliar administrativo, de um advogado... a questão da personalidade não tem relevância a ponto de
justificar a invasão da esfera psíquica, além dos aspectos profissiográficos específicos do cargo ou de uma eventual situação específica da
contratante.

(...) Parece-nos fora de dúvida que testes de personalidade ou projetivos invadem a esfera psíquica do indivíduo e que, se existe um direito psíquico
derivado da personalidade, que é irrenunciável não se justifica, juridicamente, hoje, em todas as situações, a aplicação de testes aos candidatos a
emprego, mesmo que por profissional qualificado.”[23](grifo nosso)

Diante destas considerações, indevida a utilização de testes psicológicos para cargos como de administrador, contador, advogado, engenheiro, etc., eis que
desnecessários tendo em conta a função a ser exercida, pois não estão em risco nem a sociedade nem a vida daqueles submetidos a atuação deste tipo de
profissional, o que nos leva a conclusão que mesmo que o edital exija teste psicológico para certos cargos ou empregos, isto não quer dizer que seja
proporcional e razoável tal exigência editalícia. Tudo dependerá o exame concreto da função a ser exercida.

7. A exigência de perfil profissiográfico nos editais de concursos. Considerações sobre o Decreto Federal n° 6.944/2009 e as alterações promovidas
pelo Decreto n° 7.308/2010

Considerando os aspectos traçados no item anterior, importante ainda traçarmos algumas observações acerca da exigência dos editais do chamado perfil
profissiográfico, em especial quando direcionados a selecionar dentre os candidatos àqueles cuja personalidade esteja mais “afinada” aos duvidosos
padrões de personalidade exigidos a qualquer cargo ou emprego público.

O perfil profissiográfico nada mais é forma pomposa de designar o perfil profissional e aspectos da personalidade desejadas do candidato para o cargo ou
emprego que almeja. Sua elaboração ou exigência comporta duas questões relevantes:

i) inexistência do perfil nos editais, o que em ultima análise invalida o teste porque não esclarecido qual o perfil procurado pela Administração e

ii) saber até que ponto é constitucional alijar candidatos que não estejam adequados aos padrões de personalidade eleitos para certos cargos.

Quanto ao primeiro aspecto, o que está em questão é saber se o edital minudenciou o perfil profissiográfico aplicado ao candidato, pois se não o fez, relega
a critérios desconhecidos e obscuros a fixação a posteriori destes critérios o que impossibilita a utilização do teste para eliminar o candidato por ausência de
critérios objetivos previamente conhecidos.

O segundo aspecto tira parte da importância do primeiro, pois se reconhecermos que o edital não pode exigir o perfil profissiográfico - tendo em conta que
a Constituição não exige tal requisito para o acesso a cargo ou emprego públicos - não seria possível a declaração de aptidão ou inaptidão do candidato com
base nos nestes perfis.

A questão dimana certa reflexão, pois como visto no item anterior é certo que determinados cargos ou funções públicas não exigem (e mesmo repudiam)
qualquer seleção profissiográfica, visto que a Administração não pode exigir certos padrões de personalidade de candidatos em relação ao futuro
desempenho de função pública

Doutra banda, parece-nos correto que certas atividades demandam maior atenção quanto aos traços da sua personalidade que eventualmente inviabilizem o
exercício da função (ex: policiais, motoristas, controladores de tráfego aéreo etc.) e, para ser coerente com o aqui postulado, que tal perfil seja
apurado após o concurso e antes da nomeação do candidato, portanto, nos exames médicos que antecedem o provimento.
Importante aqui não confundir exigência de perfil profissiográfico que tenha por finalidade apurar os candidatos manifestamente inaptos para o exercício da
função, com outros perfis ditos “profissiográficos”, mas que em verdade pretendam fazer uma seleção de personalidade exigindo critérios que não
afetem nem inviabilizem o exercício de cargo ou emprego público.

Nessa linha, importante o julgado do TRF da 1ª Região, Rel. Maria Isabel GALLOTTI:

“EMENTA:CONCURSO PÚBLICO. POLÍCIA FEDERAL. EXAME PSICOTÉCNICO. LEGALIDADE. 1.Segundo o enunciado 239 da Súmula do TFR "é legítima a
exigência de exame psicotécnico em concurso público para ingresso na Academia Nacional de Polícia", em razão de expressa previsão constitucional e legal
(Lei nº. 4.878/65 e Decreto-Lei nº. 2.320/87). 2.Viola, contudo, a Constituição a realização de psicotécnico cujo escopo não é apenas aferir a existência
de traço de personalidade que prejudique o regular exercício do cargo, mas a adequação do candidato a “perfil profissiográfico” considerado ideal
pela Administração, mas não previsto em lei. 3. Agravo de instrumento a que se dá provimento.” (TRF1, AG 200701000340107/DF, MARIA ISABEL GALLOTTI
RODRIGUES, Sexta Turma, DJ de 01/09/2008)

Ainda sobre a questão do perfil profissiográfico, importante tratarmos brevemente do Decreto Federal n° 6.944/2009.

É que acertadamente o artigo 14 do Decreto n° 6.944/2009 limitava tanto o exame psicotécnico à detecção de problemas psicológicos que comprometessem
as atividades do cargo ou emprego, como vedava a realização de exame psicológico para aferição de perfil profissiográfico, avaliação vocacional ou
avaliação de quociente de inteligência, a saber:

“Art. 14. A realização de exame psicotécnico está condicionada à existência de previsão legal expressa específica e deverá estar prevista no edital.

§1o O exame psicotécnico limitar-se-á à detecção de problemas psicológicos que possam vir a comprometer o exercício das atividades inerentes ao cargo ou
emprego disputado no concurso.

§2o É vedada a realização de exame psicotécnico em concurso público para aferição de perfil profissiográfico, avaliação vocacional ou avaliação de
quociente de inteligência.”

Inobstante o acerto do Decreto n° 6.944/99, começaram a pulular em todo o País inúmeras decisões judiciais que invalidavam concursos que exigiam perfil
profissiográfico, justamente com base no aludido Decreto, o que certamente deve ter motivado o Governo Federal a editar o Decreto n° 7.308/2010[24] que
eliminou a redação anterior, trazendo uma série de novas normas a respeito dos testes psicológicos no âmbito da União.

A nova redação ainda que tenha apontado importantes requisitos quanto à publicidade de critérios de seleção por teste psicológico, incorre em graves
problemas, em especial:

“i) não especifica como deverá a Administração motivar, através de estudos científicos, quais as habilidades e características pessoais necessárias para o
cargo (admitindo perfil profissiográfico), inclusive para fins de questionamento do edital do concurso (art. 14, § 3°);

ii) apesar de exigir que o edital explicite os requisitos psicológicos a serem avaliados (art. 14, § 5°), não exige que o edital esclareça como tais requisitos
serão utilizados para correção dos testes (v.g. notas e percentis de corte dos candidatos);

iii) não limita os testes psicológicos aos problemas que comprometam as atividades inerentes ao cargo ou emprego;”

Apesar disso, é evidente que o novo regramento da matéria pela via infra legal (afinal, o referido Decreto não pode ocupar o espaço de Lei formal para
regrar testes psicológicos em concursos públicos) não invalida todo o avanço jurisprudencial e doutrinário acerca do tema, porquanto é claro que a
Administração não pode estabelecer perfil profissiográfico para todo e qualquer cargo ou emprego, à exceção de certas atividades cujos traços da
personalidade sejam absolutamente incompatíveis com o exercício da função pública; tampouco pode omitir quais os critérios e notas de corte de
candidatos nos testes psicológicos e mais do que simplesmente estabelecer o perfil profissiográfico é fundamental motivar porque tal cargo ou emprego
exigem certo perfil profissional e de personalidade.