Você está na página 1de 9

Participação da sociedade civil e do terceiro setror

nas políticas públicas


Diego Portela
Eurimar Nogueira
Thyago Henrique

1 Participação da sociedade civil nas políticas públicas


1.1 Parte da evolução histórica
No Brasil, as políticas públicas promovidas pelo Estado até o final da década de
setenta (70), estava estruturado pela centralização decisória e financeira na esfera federal, na
qual os Estados e municípios apenas executavam as políticas formuladas (FARAH, 2001).
Quando existia alguma articulação, em uma política específica, entre os governos
estaduais e municipais e o governo federal, esta se dava sobre a forma de troca de favores de
cunho clientelista, onde, segundo Farah (2001, p.326) “as instâncias locais do Poder Público
transformavam-se em agenciadores de recursos federais para o município ou Estado,
procurando garantir a implementação de determinada política pública para sua clientela”.
Cabia ao executivo decidir o que era necessário para o país, formulando ações de
desenvolvimento local, de cima para baixo, sendo quase inexistente a participação da
sociedade civil na definição de investimentos em projetos de desenvolvimento.
A partir dos anos oitenta (80), com a intensificação do processo de democratização e
descentralização, o país começou a modificar sua estrutura, com iniciativas de participação
dos governos locais e da sociedade nos processos decisórios de formulação e implementação
das ações públicas.
A sociedade civil brasileira teve seu surgimento vinculado à manifestação dos
movimentos sociais, e também, a um processo pelos quais muitos atores sociais, que emergem
da sociedade civil, passaram a pressionar o Estado e o sistema político para o estabelecimento
de estruturas democráticas fundamentais propícias à participação popular, buscando que esse
sistema viesse a se adaptar à moderna institucionalidade democrática.
Com as mudanças no campo político-institucionais, o Estado não vê mais os
movimentos sociais da sociedade civil somente como seus adversários, e sim como um
movimento que busca condições para influenciar a dinâmica de funcionamento na formulação
das políticas públicas do Estado.
Sobre a definição, para os autores das correntes mais recentes a sociedade civil pode
ser entendida como movimentos de iniciativas não comprometidos com instituições políticas,
e também como espaço articulado pelas dinâmicas da esfera pública e da ação comunicativa
(HABERMAS, 1997 apud NOGUEIRA 2003).

1.2 Participação da sociedade civil no desenvolvimento regional

A real situação da formulação das políticas regionais no Brasil precisa passar por um
processo de adaptação: à economia globalizada; à necessidade de determinado segmento
local; e a um maior envolvimento de participação, não apenas como representação
minoritária, e sim dos vários grupos sociais que estão mais ligados aos acontecimentos da
população.
Existem algumas linhas de discussão do argumento que relacionam a importância da
participação da sociedade civil e da articulação de atores sociais, em projetos voltados para a
promoção do desenvolvimento, quer seja no âmbito federal, estadual ou municipal. Vejamos
quais são:
O primeiro argumento aponta que somente com a participação daquele segmento da
população, que convive diretamente com os problemas sociais que mostram maiores
dificuldades, é que se podem formular projetos que contemplem a atual necessidade de
políticas públicas da comunidade, com uma grande tendência a ter um aumento significativo
da eficácia das ações governamentais, e de alcançar os objetivos propostos.
Sem a interação dos principais segmentos da sociedade, as políticas pública que forem
implantadas, correm um alto risco de não atender às demandas sociais, por não estarem de
acordo com a realidade social daquela localidade. Isso acarreta falha no alcance dos objetivos,
sendo necessário substituir por um novo projeto (quando às vezes se consegue isso) que pode
se tornar mal planejado, (pelo pouco tempo para replanejar); ter uma demanda maior de
investimento ao mesmo tempo em que se teve um desperdício de recurso do outro projeto que
foi inviabilizado; e também pouca ou nenhuma eficácia em relação à ação pública.
O segundo argumento reforça que a sociedade civil precisa estar atuante em todas as
atividades relacionadas com o desenvolvimento, e que com essa vitalidade de atuação, venha
a gerar boa governância. Governância está voltado para “as estruturas institucionais, as
políticas, os processos decisórios e as regras formais e informais, relacionadas com temas de
interesse público, que determinam como o poder é exercido, como as decisões são tomadas e
como os cidadãos participam do processo decisório” (BANBEIRA, 1999 p.17). Visto isso,
fica o entendimento da importância da necessidade de participação dos vários atores sociais,
juntamente com a forma esclarecida de definir os processos e as propostas de interesse para a
elaboração do desenvolvimento, buscando assegurar a transparência das ações e o combate
eficiente à corrupção no setor público.
O desenvolvimento participativo pode vir a gerar: aumento da sustentabilidade na
formulação de projetos, ou seja, o fornecimento da fundamentação básica para os cidadãos
adquirirem conhecimento; um possível alcance da justiça social por meio do melhoramento da
qualidade da participação dos indivíduos; e também a promoção de desenvolvimento
orientado para a auto-suficiência.
Boa governância tem como uma de suas características, a democratização de suas
ações, orientadas pelo Estado, gerando bases para o desenvolvimento participativo e, à
medida que os processos participativos evoluírem, a boa governâcia também evolui para
apoiar uma participação mais ampla e mais madura.
Apoiados nos conceitos de desenvolvimento participativo e boa governâcia foi que
algumas organizações internacionais constituíram uma análise em um documento, baseada na
temática da participação no contexto da governância de que, para que o envolvimento da
população seja efetivo, é importante que se tenha mecanismos participativos de informação e
de consulta, além do processo eleitoral, para levar aos órgãos que fazem parte da estrutura do
Estado, a informação das preferências da sociedade (BANDEIRA, 1997)
O terceiro argumento comenta a relação da participação com a acumulação de capital
social. No entendimento que, capital social está muito ligado aos fatores culturais
característicos de uma comunidade, como confiança, normas e sistemas que levam a
sociedade a realizar ações conjuntas que resultem em proveito para a coletividade. As
características culturais aqui apresentadas é o sentimento de confiança mútua; a lealdade; e a
colaboração na solução de problemas comuns.
Para a adequada acumulação de capital social, precisa-se de mecanismos participativos
que possibilitem uma interação permanente entre os diferentes segmentos da sociedade civil, e
entre eles e as várias instâncias da administração pública, facilitando os processos de
capacitação e de aprendizado coletivo e constituindo-se em instrumentos potentes para a
formulação de consensos e para a articulação de atores sociais.
Atualmente, ainda é pouco o reconhecimento incorporado ao conceito de capital social
para subsidiar como instrumento para geração de projetos de desenvolvimento da sociedade,
principalmente por parte dos responsáveis pela formulação e implementação dessas ações
públicas.
No quarto, ressalta-se o envolvimento da participação com o fortalecimento da
competitividade sistêmica de um país ou de uma região, na qual competitividade sistêmica
está atrelada tanto a determinantes políticos, no sentido de criar políticas complementar de
intervenção no mercado, quando necessário; de fornecer infra-estrutura adequada; e outros.
Quanto a determinantes econômicos: iniciativas voltadas para a qualificação e treinamento de
mão de obra; estimular a criação de tecnologias e inovação; dissimular a competitividade; e
outros.
A competitividade sistêmica está vinculada a um nível em que o Estado e os atores
sociais deliberadamente criam as condições necessárias para o desenvolvimento industrial
bem sucedido, gerando um modelo participativo com o objetivo de promover o
desenvolvimento econômico e social.
O quinto argumento trata a questão da participação da sociedade no processo de
formação e consolidação das identidades regionais para um maior desenvolvimento social. Os
diversos segmentos da sociedade na discussão dos problemas locais fortalecem a identidade
regional quando procuram constituir consensos básicos para viabilizar a construção de
projetos para a coletividade.
Apesar de uma infinidade de diferenças e divergências de um povo, a identidade
regional está ligada aos interesses comuns, ao sentimento de pertença de uma comunidade a
uma área territorialmente localizada.
São características desta linha de argumentação a formação de consensos básicos e a
integração social. Mesmo não existindo representação política que seja de determinada região
e que defenda os interesses daquela unidade administrativa, só em existir alguma afinidade
socioeconômica ou cultural, já configura certa identidade, que vem a ser fortalecida por meio
da participação, consolidando a identidade regional.

2 O Terceiro Setor
2.1 Evolução Histórica

A caridade e a beneficência humana tem suas raízes nos tempos mais remotos, pois até
por questões de sobrevivência, a organização coletiva é uma preocupação constante. E a
divisão de tarefas e prestação de auxílio mútuo é uma decorrência direta do convívio em
sociedade.

A partir da década de 60 houve rápida evolução da responsabilidade social no universo


empresarial e, hoje, as empresas vem dedicando especial atenção ao fomento da
responsabilidade social. São grandes as mudanças nas relações do cidadão com o governo.
Neste novo contexto social, cresce a conscientização e a educação para a cidadania. Agora o
cidadão não mais depende do Estado para lhe conferir cidadania.

Nesse contexto surgiu o Terceiro Setor, o qual é composto pelas organizações sem
finalidade econômica. Ou seja, aos empreendimentos nos quais o objetivo é essencialmente
social. As entidades do terceiro setor estão vinculadas diretamente às demandas populares e se
constituem em um instrumento eficaz de combate às desigualdades sociais.

O notável crescimento das organizações não governamentais denota o aumento do


compromisso da sociedade com a cidadania e o produto final é um ser humano mais
consciente de seus direitos e responsabilidades como cidadãos.

Portanto, as organizações do terceiro setor permitem o desenvolvimento de atividades


as mais diversas. No entanto, a finalidade é sempre de cunho social.

2.2 Conceito

A definição de Terceiro Setor surgiu na primeira metade do século, nos Estados Unidos. Ele
seria uma mistura dos dois setores econômicos clássicos da sociedade, o público, representado
pelo Estado, e o privado, representado pelo empresariado em geral. Segundo o Professor Luís
Carlos Merege, coordenador do Centro de Estudos do Terceiro Setor da Fundação Getúlio
Vargas de São Paulo, a noção vem do comportamento filantrópico que a maioria das empresas
norte-americana sempre manteve ao longo da história.

Quanto à questão conceitual do Terceiro Setor, não há um consenso por parte daqueles
que pesquisam o assunto, havendo assim diversas definições. Segundo FERNANDES (1994,
p.21), um estudioso do tema, o conceito denota:

...um conjunto de organizações e iniciativas privadas que visam à produção de bens e


serviços públicos. Este é o sentido positivo da expressão. “Bens e serviços públicos”, nesse
caso implicam uma dupla qualificação: não geram lucros e respondem a necessidades
coletivas.

No Brasil, o novo conceito é muito recente. As empresas que admitem suas


responsabilidades sociais ainda são poucas. Cidadãos que trabalham por si próprios, sem
esperar a tutela do Estado, são ainda mais raros. Mas algumas organizações sociais já se
destacam no desenvolvimento de projetos sociais em nosso país.
Para se perceber a importância efetiva do novo segmento econômico no país, só
fazendo um extenso trabalho de pesquisa, como já foi feito nos Estados Unidos. Lá, quando
descobriram o montante de recursos que o Terceiro Setor mobilizava por ano, tomou-se até
um susto. É um volume muito grande de dinheiro, todo voltado para uma área específica, a
social.

O Estado, a iniciativa privada e os cidadãos reunidos em beneficio de causas sociais.


Essa definição aparentemente ingênua representa um dos mais modernos conceitos
econômicos surgidos no Brasil nos últimos anos. O Terceiro Setor. Um setor que movimenta
hoje uma quantia ainda não calculada de dinheiro e tem no Rio de Janeiro um de seus
principais pontos de crescimento.

2.3 Características

Em virtude da atuação ineficiente do Estado, em especial na área social, o Terceiro


Setor vem crescendo e se expandindo em várias áreas, objetivando atender a demanda por
serviços sociais, requisitados por uma quantidade expressiva da população menos favorecida,
em vários sentidos, de que o Estado e os agentes econômicos não têm interesses ou não são
capazes de provê-la. Seu crescimento vem em virtude, também, de práticas cada vez mais
efetivas de políticas neoliberais do capitalismo global, produzindo instabilidade econômica,
política e social, principalmente nos países do terceiro mundo. (GONÇALVES, 2002)

A Primeira Dama, na época, Dona Ruth Cardoso, Presidente do Conselho da


Comunidade Solidária, enfatizou que as razões para o crescimento do Terceiro Setor eram que
o Estado sozinho não poderia confrontar os desafios do desenvolvimento eqüitativo e
sustentável, o crescimento das organizações não-governamentais no campo de projetos sociais
específicos, a quebra da dicotomia tradicional entre as esferas particulares e pública, onde
particulares significavam negócios, e pública significava Estado e Governo, e o esgotamento
dos modelos de controle impessoal do Estado e da Lei do mercado de lucro.

Explicitando o conceito e a abrangência do Terceiro Setor, a Professa Ruth Cardoso


discorreu sobre suas principais características: uma nova esfera pública, não necessariamente
governamental; constituída de iniciativas privadas em beneficio do interesse comum; com
grande participação de organizações não-governamentais; e compreendendo um conjunto de
ações particulares com o foco no bem-estar público.
De acordo com Mario Aquino Alves, pesquisador da Fundação Getúlio Vargas, a
expressão Terceiro Setor nasceu da idéia de que a atividade humana é dividida em três
setores: um primeiro setor (estado), em que agentes públicos executam ações de caráter
público; um segundo setor (mercado), no qual agentes privados agem visando a fins
particulares; e um Terceiro Setor relacionado às atividades que são simultaneamente não-
governamentais e não-lucrativas.

2.4 Influência

Hoje, o Terceiro Setor movimenta recursos equivalentes a 4,7% do PIB mundial.


Somente em 1995, as atividades sem fins lucrativos movimentaram cerca de US$ 1,1 trilhão
em 22 países. Sua presença é maior nos países desenvolvidos, em especial, Estados Unidos,
Inglaterra, Alemanha, Bélgica, Holanda, Suécia e outros. Somente nos Estados Unidos 40 mil
fundações empresariais investem anualmente US$ 400 bilhões em ações sociais.

Uma pesquisa realizada pela empresa de consultoria Kanitz & Associados estimou em
R$ 1,728 bilhão o total de investimentos pelas 400 maiores entidades filantrópicas do Brasil
em projetos sociais. Acredita-se que em nosso país o total de investimentos das empresas
privadas em atividades sociais deva gerar em torno de US$ 300 milhões. Para Augusto de
Franco, conselheiro e membro do comitê executivo da comunidade solidária, “estima-se que
existem hoje no mínimo 250 mil organizações do Terceiro Setor no Brasil”.

As causas que tem levado o Terceiro Setor a um determinado crescimento são várias,
como crescimento das necessidades socioeconômicas; crise do setor público; fracasso das
políticas sociais tradicionais; crescimento dos serviços voluntários; colapso do socialismo na
Europa Central e do Leste; degradação ambiental, que ameaça a saúde humana; crescente
onda de violência que ameaça a segurança das populações; incremento das organizações
religiosas; maior disponibilidade de recursos a serem aplicados em ações sociais; maior
adesão das classes alta e média a iniciativas sociais; maior apoio da mídia; e maior
participação das empresas que buscam a cidadania empresarial.

2.5 Importância da Participação do Terceiro Setor

O terceiro setor funciona como um tipo de alicerce que reforça o primeiro setor (O
Estado) a partir de iniciativas das empresas tentando suprir a ineficiência do mesmo, ou seja,
gerar serviços de caráter público. São as instituições financeiras que financiam o terceiro
setor, fazendo doações às entidades beneficentes. No Brasil, temos também as fundações
mistas que doam para terceiros e ao mesmo tempo executam projetos próprios.

Além de gerar serviços públicos como: saúde, educação, assistência social, o terceiro
setor ainda conta com iniciativas como: preservação ambiental, filantropia, ações
comunitárias entre outras contribuições.

É notável a importância do terceiro setor na sociedade atual, onde o que se visa é o


acumulo de capital pelos mais ricos, deixando de lado o foco na sociedade desfavorecida e
mais necessitada. É cada vez mais importante a participação de iniciativas da sociedade civil
como o Criança Esperança, Instituto Ressoar, AACD, Sociedade Pestalose entre outros
projetos que visam o incentivo a educação, a cultura, o esporte, a assistência familiar, a saúde
e outros, através da construção de hospitais e centros de saúde especializados em doenças
como câncer, paralisia infantil, deficiências físicas e mentais, alem de casas que desenvolvem
atividades de aspecto cultural, esportista e assistencialista.

Apesar de toda a importância dessas entidades que fazem parte do terceiro setor, vale
destacar que no Brasil apenas 20% das grandes empresas estão inseridas entre as que
colaboram com essas iniciativas de cunho assistencialista. No Brasil, a nossa classe média
doa, em média, 23 reais por ano, menos que 28% do total das doações. As fundações doam
40%, o governo repassa 26% e o resto vem de bingos beneficentes, leilões e eventos.

As grandes dificuldades do terceiro setor seriam: a deficiência na captação de recursos,


necessidade de qualificação dos serviços prestados, busca por financiamentos de projetos,
pouca transparência a seus financiadores, entre outros. Mas essas são apenas as dificuldades
financeiras.

Referências
BANDEIRA, Pedro. Participação, articulação de atores sociais e desenvolvimento
regional. Brasília, fev. 1999.
FARAH, M. F. S. Parcerias, novos arranjos institucionais e políticas públicas no nível
local de governo. Revista de Administração Pública. v. 35, n. 1, p. 325-343, jan./fev. 2001
FERNANDES, Rubens C. Privado Porém Público: O terceiro Setor na América Latina. 2.ed.
Rio de Janeiro: Relume – Dumaré, 1994.

GONÇALVES, H. S. O Estado o Terceiro Setor e o Mercado: Uma Tríade Completa.


Disponível em: http://www.rits.org.br/ Acesso em: 20 de Nov. de 2002.
NOGUEIRA, Marco Aurélio. Sociedade civil, entre o político-estatal e o universo
gerencial. Rev. bras. Ci. Soc. 2003, vol.18, n.52, pp. 185-202.