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Patrimônio geológico mineiro: a urgência de


sua evidenciação como forma de proteção da
memória do garimpo

Conference Paper · September 2015

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1 author:

Liziane Peres Mangili


Federal University of São João del-Rei
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Available from: Liziane Peres Mangili


Retrieved on: 26 October 2016
Lençóis – Chapada Diamantina/Bahia
08 a 13 de setembro de 2015
Exemplares desta publicação podem ser adquiridos na:

CACD–PPGM/UEFS: COMISSÃO ORGANIZADORA DO III SIMPÓSIO BRASILEIRO DE


PATRIMÔNIO GEOLÓGICO

CACD: Praça Horácio de Matos, 854, Lençóis-BA.

PPGM: Av. Transnordestina, s/n – Novo Horizonte, Cep: 44031-460 – Feira de Santana- BA.

E-mail: 3geobrheritage@uefs.br

1ª edição
Os trabalhos contidos nesta publicação são de exclusiva e de inteira responsabilidade dos
autores, não exprimindo, necessariamente, o ponto de vista da CACD-PPGM/UEFS.
Todos os direitos reservados

A reprodução não autorizada desta publicação, no todo ou em parte, constitui violação dos
direitos autorais (Lei no 9.610).
Anais: III Simpósio Brasileiro De Patrimônio Geológico - IIIGeoBRheritage. 583p.

Lencóis – Chapada Diamantina (BA), 08 a 13 de setembro 2015.


Todos os trabalhos foram recebidos em PDF e organizados neste documento.
1 CD

Pedro Silvestre Pascoal Junior


Marjorie Cseko Nolasco
Editores Técnicos

Comissão Científica do IIII GeoBRheritage

Antonio Dourado – CPRM-BA

Antonio Liccardo – UEPG

Carlos Schobbenhaus – CPRM

Eliane Aparecida Del Lama – USP

Flavia Lima – Geoparque Araripe

Gil Piekarz – MINEROPAR

Gilson Burigo Guimarães – UEPG

Ismar de Souza Carvalho – IGEO – UFRJ

Marcos Antonio Leite do Nascimento – UFRN

Paulo Boggiani – USP

Rogério Ribeiro – IG-SP

Úrsula Ruchkys de Azevedo – UFMG

Virginio Mantesso Neto – Consultor/CMG-SP

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PATRIMÔNIO GEOLÓGICO MINEIRO: A URGÊNCIA DE SUA EVIDENCIAÇÃO
COMO FORMA DE PROTEÇÃO DA MEMÓRIA DO GARIMPO

1
Liziane Peres Mangili
1
Doutora em arquitetura e urbanismo pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de
São Paulo, especialista em preservação do patrimônio histórico, e-mail limangili@hotmail.com

Resumo
Esse trabalho analisa as nuances das reivindicações pela preservação da memória do garimpo
ocorridas na cidade de Lençóis/BA a partir da década de 1990, período em que já estavam
consolidadas na cidade várias formas de preservação do patrimônio arquitetônico e natural, porém
nenhuma que explicitasse a produção dessas paisagens pela atividade da mineração de diamantes.
Mostra-se a urgência de se evidenciar o patrimônio geológico produzido pela atividade mineira na
região, como forma de proteger a memória do garimpo e garantir a representatividade do maior
número de grupos sociais no rol do patrimônio histórico e cultural.

Palavras-chave: Patrimônio geológico mineiro; Patrimônio cultural; Memória do garimpo; Lençóis


(BA).

1. Introdução
Lençóis, na Chapada Diamantina, Bahia, é uma cidade que teve origem com a atividade de
mineração de diamantes, a partir da metade do século XIX. Após sucessivas crises
enfrentadas ao longo de sua história, vinculadas às secas, baixas dos preços das pedras,
guerras e outros fatores, iniciaram-se, na década de 1970, movimentos preservacionistas
objetivando implantar o turismo como alternativa econômica no município. O tombamento do
conjunto arquitetônico e paisagístico de Lençóis, pelo Instituto do Patrimônio Histórico e
Artístico Nacional (IPHAN) em 1973, e a criação do Parque Nacional da Chapada Diamantina,
em 1985, pelo Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal (atual Instituto Chico Mendes
da Conservação da Biodiversidade – ICMBio) são consideradas as principais ações de
preservação que desencadearam as atividades turísticas no município e na região. Essas
iniciativas foram encabeçadas e batalhadas por moradores da cidade, nativos e não nativos;
porém, são constantemente confundidas como as causas do esvaziamento da cultura
garimpeira no município.
Mostramos nesse trabalho que tal crise é advinda da transformação do espaço produzido pelo
garimpo, em mercadoria, em um produto turístico para comercialização, dentro de um
programa levado a cabo primeiramente pelo Governo do Estado da Bahia, e posteriormente
inserido na política federal de turismo. Ao ser transformado em produto, esse espaço é
dissociado em urbano e natural, enquanto paisagem. Dessa forma, também o garimpeiro,
agente produtor dessa paisagem, é desvinculado da sua produção, sendo esse o motivo
principal que gera a resistência cultural.

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2. Metodologia
O trabalho foi elaborado com o uso de fontes primárias e secundárias. As fontes primárias
possibilitaram a identificação das diversas visões acerca do turismo em Lençóis, bem
como das demandas por espaços representativos da memória dos garimpeiros da cidade.
Foram consultados: a coleção do jornal O Avante, publicado entre 1995 e 2007 pela
associação de mesmo nome; os documentos produzidos pela Sociedade União dos
Mineiros (SUM 1998 e 2005); documentos do Programa Monumenta, como o relatório da
Oficina de Planejamento Participativo (Brasil, 2001), o Perfil do Projeto (Brasil 2002) e a
Revisão do Perfil do Projeto (Brasil 2004), e documentos do arquivo do IPHAN em
Salvador.
As fontes secundárias, principalmente os estudos sobre Lençóis das áreas de antropologia,
geografia, turismo e geologia, possibilitaram compreender uma série de questões, como a
prevalência da história do coronelato sobre outras narrativas de Lençóis, em detrimento da
história dos garimpeiros, e as ações do Governo do Estado da Bahia no desenvolvimento
turístico da Chapada Diamantina.

3. Resultados e discussão
As reivindicações pela continuidade da cultura garimpeira, esta entendida como o conjunto de
artefatos, saberes e manifestações religiosas e folclóricas produzidas pelos garimpeiros da
região das Lavras Diamantinas (compreendida pelos municípios de Lençóis, Andaraí, Mucugê
e Palmeiras), deram-se na cidade de Lençóis após a proibição da atividade manual de
extração de diamantes na região, em 1998. A atividade mecanizada havia sido proibida em
1992. Buscando defender a continuidade desse ofício, garimpeiros de serra e pessoas
vinculadas à causa reivindicaram a abertura de um diálogo com os órgãos de preservação
ambiental e usaram como principal argumento o fato de ter sido essa atividade a geradora e
preservadora da paisagem que havia sido protegida pela instância federal (IPHAN e IBDF) e
que possibilitou a instalação do turismo na região. (SUM, 1998 e 2005)
De fato, o estudo de Marjorie Nolasco (2002) mostra que a atividade econômica da mineração
de diamantes deve ser considerada como um fator geológico que modificou a paisagem.
Assim, podemos afirmar que o garimpeiro foi um agente geológico na produção dessa
paisagem.
De forma simplista, tende-se a atribuir a instalação da atividade turística em Lençóis e na
Chapada Diamantina, ao tombamento do conjunto arquitetônico da cidade e à criação do
Parque Nacional da Chapada Diamantina. Assim, os problemas sociais trazidos pelo turismo
são também diretamente vinculados a esses bens.
Nas fontes pesquisadas, o turismo foi apontado, por moradores de Lençóis, como prejudicial
ao município em alguns aspectos, a saber: priorização de investimentos em prol do turismo e

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desfavor das necessidades básicas da população, aumento da desigualdade econômica, e
gerador de problemas sociais, como a prostituição, o uso de drogas e a gravidez na
adolescência. Também revelou-se que o morador sente certo incômodo ao não ter
reconhecida sua cultura pelos turistas, que usam a cidade predominantemente como ponto de
apoio para as atividades dentro do Parque Nacional.
No entanto, a instalação do turismo em Lençóis e na Chapada Diamantina deveu-se muito
mais à iniciativa do governo do estado da Bahia que propriamente ao tombamento de Lençóis
ou à criação do Parque Nacional da Chapada Diamantina (MANGILI, 2015). Visando
transformar o turismo em um dos “carros-chefes” da economia baiana, a partir do segundo
mandato de Antônio Carlos Magalhães foram intensificadas as ações de interiorização do
turismo que já haviam sido iniciadas na década de 1970. Os bens protegidos foram usados
como um diferencial, um atrativo capaz de suprir a demanda por um nicho de mercado voltado
para o ecoturismo. Para tanto, a Empresa de Turismo da Bahia S.A. (Bahiatursa) empreendeu
uma forte campanha de marketing e divulgação do “produto Chapada”, vinculando a ela os
atributos de “natureza mágica”, “intocada”, “paraíso ecoturístico” (LÉDA, 1995). Dessa forma,
essa paisagem, produzida pelo garimpeiro, ao ser comercializada como um produto com
essas características, é desvinculada dos processos e dos agentes que a produziram.
O sentimento de não possuírem algo material que represente a memória dos garimpeiros de
serra foi percebido também ao se analisar as ações de preservação empreendidas ao longo
do tempo em Lençóis. Embora um “museu do garimpo” ou “do garimpeiro” tenha sido
constantemente reivindicado, ele não foi contemplado pelas ações de preservação, como o
Programa de Cidades Históricas (1979-1982) e pelo Programa Monumenta (2001-2011), e
nem criado pelo poder público. A iniciativa recente de um ex-garimpeiro, o Seu Cori, que criou
em sua casa o Rancho do Garimpeiro, reforça a conclusão de que há uma importante
demanda na cidade pela criação de espaços representativos desse grupo social, os
garimpeiros.

4. Conclusões
Apesar da grande quantidade de bens tombados na Chapada Diamantina e, principalmente,
no município de Lençóis, produzidos pela atividade da extração de diamantes, os espaços
materiais representativos da memória dos garimpeiros são escassos. A imagem que se
associa às paisagens do Parque Nacional da Chapada Diamantina são a de uma natureza
mágica e intocada, o que desvincula o garimpeiro como o principal agente produtor dessa
paisagem. Tal dissociação gera sentimentos de que todo esse patrimônio – o conjunto
arquitetônico e paisagístico de Lençóis, o Parque Nacional e o Parque Municipal da Muritiba
– não é representativo dos garimpeiros. A reversão desse quadro pode ser feita através da
divulgação do patrimônio geológico mineiro, vinculando o conceito de que essas paisagens

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foram produzidas pelas mãos desses agentes, bem como criando espaços museológicos
nos quais o garimpeiro seja o principal protagonista.

5. Referências Bibliográficas

BRASIL. Ministério da Cultura. Programa Monumenta. BID. Oficina de Planejamento


Participativo Município Lençóis/BA: Lençóis, relatório da oficina. Lençóis: Ministério da
Cultura, Programa Monumenta, fev. 2001.
BRASIL. Ministério da Cultura. Programa Monumenta. BID. Projeto Lençóis/BA: Perfil do
Projeto. Brasília: Ministério da Cultura, Programa Monumenta, jun. 2002.
BRASIL. Ministério da Cultura. Programa Monumenta. BID. Projeto Lençóis/BA: Revisão
do Perfil do Projeto. Salvador, v. 1, caderno principal, p. 42, nov. 2004.
LÉDA, R. L. M. A sedução da paisagem: a Chapada Diamantina e o turismo ecológico.
1995. 235 f. Dissertação (Mestrado em Geografia Humana) – Faculdade de Filosofia, Letras
e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 1995.
MANGILI, Liziane Peres. Anseios, dissonâncias, enfrentamentos: o lugar e a trajetória da
preservação em Lençóis, Bahia. Tese (Doutorado em Arquitetura e Urbanismo) – Faculdade de
Arquitetura e Urbanismo, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2015.
NOLASCO, M. C. Registros geológicos gerados pelo garimpo, Lavras Diamantina –
Bahia. 2002. 363 f. Tese (Doutorado em Geociências) – Instituto de Geociências,
Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2002.
SOCIEDADE UNIÃO DOS MINEIROS – SUM (Bahia). Carta de Intenções do Garimpeiro de
Serra. Lençóis, 1998.
SOCIEDADE UNIÃO DOS MINEIROS – SUM (Bahia). Em defesa do diálogo democrático
para a gestão do Parque Nacional da Chapada Diamantina. Uma manifestação pública da
Sociedade União dos Mineiros (SUM). Lençóis, 2005.

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