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RESENHA – DOI: 10.15689/ap.2015.1401.

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Avaliação em Psicologia Positiva


Jeferson Gervasio Pires1
Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis-SC, Brasil

O livro Avaliação em Psicologia Positiva, organizado balanço entre afetos positivos e negativos). Os autores
por Claudio Simon Hutz, apresenta, com pioneirismo, tecem, ainda, alguns questionamentos sobre a sensibili-
uma parte das pesquisas desenvolvida no Laboratório de dade dos instrumentos de autorrelato como medida con-
mensuração da Universidade Federal do Rio Grande do fiável ou suficiente para avaliar o construto bem-estar,
Sul. O livro é composto por 151 páginas, dividido em apresentando um estudo que compara alguns autorrela-
11 capítulos objetivos que apresentam pesquisas envol- tos a relatos de pessoas próximas aos avaliados. Além dis-
vendo a avaliação psicológica voltada para fenômenos ou so, os autores propõem discussões sobre algumas variá-
construtos abordados pela Psicologia Positiva contempo- veis associadas aos respondentes e aos instrumentos que
rânea. São exemplos de construtos o bem-estar subjetivo, podem interferir no autorrelato: a desejabilidade social,
a autoestima, o otimismo, a esperança e a autoeficácia. o humor atual do respondente, as comparações alvo, a
Além de apresentar os principais instrumentos utilizados ordem das perguntas, a questão do “ponto neutro” nas
atualmente para a mensuração desses construtos, o livro escalas, as distorções de memórias, entre outras. Os auto-
propicia interessantes aprendizados, reflexões e questio- res também discorrem sobre formas de aprimoramento
namentos a respeito de alguns componentes relacionados das medidas de autorrelato, e citam outras formas de me-
ao principal objeto da Psicologia Positiva: o bem-estar dida (implícitas, comportamentais e biológicas). Por fim,
subjetivo (BES). concluem que não existe “melhor maneira” para medir o
No primeiro capítulo, intitulado “As origens da construto felicidade, mas que o autorrelato é uma forma
Psicologia Positiva”, as autoras tratam do surgimento apropriada de avaliação desse construto.
da Psicologia Positiva, e, com esse fim, fazem um res- O terceiro capítulo, “Satisfação de vida”, apresen-
gate epistemológico dos estudos envolvendo temas que ta, de forma breve e específica, o aspecto cognitivo do
a Psicologia Positiva também se propôs a estudar, como bem-estar subjetivo, a saber, a satisfação com a vida. Os
por exemplo, a felicidade. Entre esses estudos, são cita- autores discutem a forma como as pessoas avaliam a sua
dos os nomes de autores como William James e também qualidade de vida, e apresentam uma rápida explicação
alguns da Psicologia Humanista, como os de Maslow sobre a influência da genética na percepção de satisfação
e Rogers. Ademais, além de descrever o que seria a de vida. Para a isso, os autores apresentam a ESV (Escala
Psicologia Positiva, as autoras destacam as suas aplicações de Satisfação com a Vida) acompanhada das formas de
e fazem um breve “levantamento sistemático” da produ- levantamento e de interpretação dos dados da Escala.
ção científica brasileira nesse campo. As autoras citam Apresentam, ainda, tabelas normativas para adultos e para
a dificuldade em saber qual seria o primeiro estudo de adolescentes.
Psicologia Positiva publicado no Brasil, considerando Já no quarto capítulo, intitulado “Afetos positivos e
que tenha sido um artigo sobre resiliência e vulnerabili- negativos: definições, avaliações e suas implicações para
dade em crianças. intervenções”, os autores abordam o componente afetivo
No segundo capítulo, chamado “Avaliação da feli- da teoria de BES, a saber, os afetos (positivos e negativos),
cidade subjetiva: para além dos dados de autorrelato”, os relacionando-os à percepção de felicidade. Com esse ob-
autores explicam o conceito de bem- estar subjetivo, e o jetivo, os autores descrevem alguns estudos de associação
contrastam com o conceito de bem-estar eudemônico. de afetos positivos e negativos a traços de personalidade.
Em relação ao primeiro, os autores apresentam e exem- Os autores citam, ainda, algumas escalas de autorrela-
plificam seu conceito tripartite (satisfação com a vida e to que objetivam medir os afetos, a exemplo da Escala

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Endereço para correspondência: Universidade Federal de Santa Catarina, Centro de Filosofia e Ciências Humanas, Departamento de Psicologia, Trindade,
88040-970, Florianópolis-SC. E-mail: jefersongp@gmail.com

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Pires, J. G.

de Afeto Positivo e Negativo para crianças e a Escala de avaliação e das tabelas normativas, separadas por faixas
Afetos. Ademais, são discutidas algumas intervenções re- etárias, para a interpretação dos dados da Escala corrente.
lacionadas à Psicologia Positiva que visam a potencializar Por fim, os autores discorrem, de maneira breve, a ques-
o grau de bem-estar, objetivando, entre outros itens, a tão do desvio padrão apresentado nas tabelas normativas.
satisfação com a vida, o que implica o aumento dos afetos Já no oitavo capítulo, intitulado “Otimismo”, é
positivos e a redução dos afetos negativos. discutido o construto otimismo, apresentado inicial-
Associado ao capítulo anterior, no quinto capítulo, mente a partir de analogias de dois personagens de li-
intitulado “Escalas de Afetos Positivos e Afetos Negativos vros clássicos Pollyanna e Cândido. Na sequência, as
(PANAS)”, os autores apresentam brevemente a Escala autoras conceituam o construto como “expectativas po-
PANAS, bem como sua forma de interpretação. A escala sitivas generalizadas sobre eventos futuros”. Além dis-
é citada como a forma mais usada por pesquisadores para so, apresentam formas de medir o construto em ques-
a avaliação dos afetos positivos e negativos. No que se tão, citando o instrumento LOT (Life Orientation Test).
refere à teoria do BES, os autores descrevem os afetos, Com relação a ele, as autoras fazem algumas criticas de
considerados a dimensão emocional, exemplificando-os sua dimensionalidade e, a partir disso, propõem uma
como a expressão de sentimentos, de emoções e de afetos. versão revisada da escala. As autoras ainda comentam
Os autores reiteram, ainda, que a percepção do balanço sobre os dois estudos de validação e de adaptação para
entre afetos afeta a percepção da alegria e do entusiasmo. o português brasileiro dessa versão revisada. As auto-
Os afetos também são descritos como mutáveis ao ras apresentam a versão brasileira da escala (LOT-R),
longo do tempo, uma vez se relacionam com os aconte- as instruções para sua aplicação, bem como as normas
cimentos cotidianos. Porém, sugere-se uma espécie de para levantamento e para interpretação e duas tabelas
linha basal para a qual o nível retorna após um período de normativas, separadas por faixa etária.
tempo, em consonância com tais acontecimentos cotidia- No capítulo nove, “Instrumentos para avaliação da
nos. São citadas, ainda, associações entre os afetos, fatores esperança: Escala de Esperança Disposicional e Escala
genéticos e traços de personalidade. Adicionalmente, os de Esperança Cognitiva”, apresenta-se o conceito de es-
autores apresentam uma tabela normativa para os afetos perança, citando brevemente o mito de Pandora e, em
positivos de ambos os sexos, e duas tabelas para afetos seguida, discute-se e formula-se uma definição para o
negativos, separadas por sexo. construto, a saber, “cognições voltadas para a obtenção
Dando sequência ao objeto discutido no capítu- de um objetivo”. A esperança é composta por “rotas” e
lo anterior, no capítulo seis, intitulado “Avaliação do “agenciamento” (motivação), advertindo-se para a im-
bem-estar subjetivo em adolescentes”, os autores discu- portância da interação entre ambos. Esse modelo foi usa-
tem, inicialmente, a importância de medidas de BES com do para a construção da escala ADHS (Adult Dispositional
adolescentes. A adolescência é citada como um importan- Hope Scale), adaptada e validada para a população brasilei-
te momento no desenvolvimento humano, e que parece ra. As autoras ainda comentam sobre outros instrumen-
haver um padrão quanto ao BES na população dessa faixa tos que avaliam o construto em questão e, adicionalmen-
etária. A qualidade de vida percebida na vida adulta parece te, apresentam instruções para aplicação, levantamento e
relacionar-se com a qualidade de vida percebida na ado- interpretação da Escala de Esperança Disposicional e da
lescência. Além disso, os autores apresentam as normas Escala de Esperança Cognitiva, bem como suas respecti-
para aplicação, coleta e organização de tabelas normativas vas tabelas normativas.
para a interpretação de algumas escalas do BES voltadas No décimo capítulo, intitulado “Autoeficácia – Yes,
para adolescentes, a saber, a Escala de Afetos Positivos e we can”, os autores discutem, à luz das teorias de Bandura,
Negativos, a Escala Global de Avaliação de Satisfação de o conceito de autoeficácia. Além disso, são feitas exem-
Vida e ainda a Escala Multidimensional de Satisfação de plificações sobre como o construto está relacionado a
Vida. Além disso, os autores referem-se a estudos atuais variáveis como o desempenho acadêmico, intenções de
com populações mais abrangentes, cujos resultados serão comportamentos de saúde, entre outras. Os autores ci-
publicados em breve. tam, ainda, o desenvolvimento da autoeficácia, a sua
No sétimo capítulo, denominado “Escala de generalização para outros domínios da vida, bem como
Autoestima de Rosenberg”, os autores discutem o cons- apresentam características de indivíduos de autoeficácia
truto autoestima e apresentam a versão brasileira da alta e baixa. A Escala de Autoeficácia Geral é apresentada,
Escala de Autoestima de Rosenberg. Com esse objetivo, assim como o seu processo de construção e de validação,
o sucesso na relação com os pares e com pessoas impor- e informa-se a forma de utilização e de levantamento de
tantes na infância, tais como pais e professores, além de escores, além da tabela de normas para a interpretação
traços de personalidade são citados como fatores associa- dos resultados.
dos ao desenvolvimento da autoestima. Ao mesmo tem- No último capítulo, descrito como “Psicologia
po, os autores citam estudos que abordam as diferenças Positiva e avaliação da qualidade de vida”, as autoras ela-
nas fontes de autoestima entre homens e mulheres. Além boram uma discussão sobre diferentes conceitos para
de apresentarem a escala, os autores tratam da forma de a qualidade de vida. Essa diversidade de conceitos é

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comparada a uma “torre que está em eterna construção”. obtidos, separados por facetas. Apresentam também sua
As autoras também indicam brevemente relações entre forma de interpretação, acompanhada da tabela norma-
esses conceitos de qualidade de vida e o conceito de BES, tiva, e, por fim, discutem algumas questões importantes
sugerindo, inclusive, que a qualidade de vida seria o prin- sobre o instrumento em questão.
cipal alvo da Psicologia Positiva. Para finalizar, é importante reiterar o pioneirismo
Em observância a isso, as autoras apresentam, tam- do livro para interessados em Psicologia no Brasil. O li-
bém, um pequeno levantamento dos 11 principais ins- vro apresenta diversos temas da Psicologia Positiva, de
trumentos que visam a medir a qualidade de vida. Dentre maneira bastante breve, podendo ser facilmente com-
eles, as autoras dão informações mais detalhadas sobre o preendida por alunos dos cursos de graduação e de pós-
WHOQOL – 100, apresentando os seus estudos de va- graduação em Psicologia, ou ainda por qualquer pessoa
lidade, os seis domínios que o instrumento se propõe a interessada em Psicologia Positiva na comunidade em
avaliar, a escala, citam o manual de aplicação (disponibi- geral. A obra é, acima de tudo, uma revisão importante
lizado online), bem como comentam a análise dos escores sobre a produção brasileira atual nesse campo.

Referência

Hutz, C. S. (Org.) (2014). Avaliação em Psicologia Positiva. Porto Alegre: Artmed.

Recebido em junho de 2014


Reformulado em agosto de 2014
Aprovado em setembro de 2014

Sobre o autor

Jeferson Gervasio Pires é aluno do Programa de Pós Graduação em Psicologia da Universidade Federal de Santa Catarina
(UFSC), na linha "Avaliação em Saúde e Desenvolvimento", em nível de Mestrado.

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