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NTONIO ALBERTO MACHADO ENSINO JURIDICO E MUDANGA SOCIAL APLICAGAO publicogio otlor wwwillditoraAtlas.com.br 7 A ¥ormagio Académica dos Atores Juridicos: Limites e Possibilidades de Atuagio num Contexto de Legalidade Democratica 1 A formagio do jurista e a praxis jurfdica ais, caracterizadas por desenvolvimento continuo & istes sociais decorrentes do abrupto deslocamen- W populares do campo para a cidade, as clivagens e os con- ymaram formas agudas e tém revelado um crescente despre- 0. ldria, e de outras instancias de aplicacdo do direito, para ‘.solucho de embites.que.nlio se enquadram mais no esquema individualista do {iberalismo.do século XIX, nem apresentam apenas uma dimensao exclusivamen- ‘te Juridica; de um lado porque os direitos passaram a ser deduzidos em agdes de ‘cari mals. coletivo.¢ com ede outro porque tais demandas comecaram ‘a veleular relvindicagbes de contetidos acentuadamente sociais e econémicos. Conforme lembra José Eduardo Faria, 0 avanco da industrializagao, urba- nizagllo @ buroeratizaglo provocou a emergéncia de novos confrontos nao mais is. A recorréncia de conflitos de grupos e setores sociais ica para o diteito positive na sociedade industrial ig6es socioecondmicas emergentes ¢ assume tarefas com ignoradas pelo legslador liberal, mas dara as quais tem de ‘ho individualista dos oddigos tradicionais por abrangentes ou perde sua fungio social de controle, de redutor de le seguranca’” Tal significa dizer que a efetividade do uumento de controle seja como mecanismo de mudanca, mediata adaptagao aos novos tempos, marcados por demandas € lo. acolo juris: exe do drei ep pole, p73 nt ‘A ormagta headed Aor Juleen, 148 reivindicagées de caréter néo meramente juridico, mas também politico, econd- ‘ico € social Numa sociedade capitalista, 6 rec segundo um modelo dependente de advindos da mobilizagao de massas do campo para as cidades, 0s urbanos estivessem convenientemente estruturados para a absorgh populagdes - que acabaram se aglomerando nas cidades em verdad sées" de miséria (favelas, corticos e habitagdes populares) -, 0 di perdendo sua capacidade de institucionalizago dos conflitos & profissional do direito passa a ser confrontada por novos desafios, Uma primeira conclusio que dat decorre é 0 fato de que, em tal contexto, para a obtengiio de algum padrio de reconhecimento e legitimidade, os profissions sitam produzir cada vez mais decisdes.com,certo contetido de juskica social, esta titima representada, fundamentalmente, pelo resgate.de.alguns-dos direitos. bé- sicos das classes marginalizadas. esse sentido, a luta pela concretizagfo dos direitos humanos ~ que at ‘mente ineluem no apenas os direitos c 08 gerados no século X ‘mas também 0s direitos sociais, econé 5, concebidos a consolidagdo da prépria democra vo, na medida em que a efetivagiio damentais do homem, em boa medic transformacéo social pela oposigio q ‘truturas sociopoliticas e econémicas vi , compreendendo, port educagio, trabalho etc., para a efetivagio de sistema juridico que se pretenda socialmente legitimo e justo. Logo, a busca da legitimidade pelo jurista moderno, em contextos sociais marcados por profundas desigualdades, c se no desafio de promover um con: sequente acesso 8 ordem juridiea materialmente igualitéria endo apenas a uma ordem juridica formal. & por 1 questo do efetivo acesso & justica ~ este tikimo entendido ‘como acesso a decisées socialmente justas — passa a ser encarada néo apenas como mero problema institucional, ligado exclusivamente as deficiéncias do sistema ju- dicidrio, mas, sobretudo, como problema social, politico, econdmico e cultural te em paises cujos contextos sociopoliticos sao excludentes e injus- ra de Souza Santos chegou a qualificar 0 direito de acesso a justi- ito charneira” (eixo), do qual dependeria a efetivacio de todos 7 "CORRES, Gocar Ls derechos humanoe subversion Rete de Disco Aleratv, m2. 17 ato 6 a... ‘04 demas direitos, econdmicos e sociais, consagrados pelas constituigdes como garantiag minima prdprias de um Estado de bem: », a final, encarados ‘como © “minimo étieo” ou “fundamento de soci importiineld pari A sobrevivencia das democracias em regides consideradas de ‘Tercelro Mundo, iante de uma realidade social extremamente injusta, e por isso mesmo ex- & simples correcio dos defeitos da maquina judici causas estruturais que estdo por trds dos conflitos dos agentes sociais em litigio (sujeitos de di eondigées socioeconémicas, enquanto integrantes de: ‘com 0 fim de propiciar a entrega de uma prestagio jurisdicio- it, acesso d justiga & comumente entendida sob varios aspectos. Em todos eles hi uma variante comum representada pela ideia de que no se trata ‘apenas dé acesso a uma institui¢io judicial pretensamente célere e eficaz, mas, todos; (b) proclugio de resultados individual e socialmente justos.* ‘Todavia, sho inimeros os obstéculos apontados como fatores que dificultam ‘¢,no mais das vezes, impedem o consumo da justiga pelas classes populares. Boa- , por exemplo, anota que investigacées sociolégicas acer- lajustiga revelam pelo menos trés tipos de obstéculos que se obstdculos econémicos, sociais e culturais? sgéncias formais, tomar insuportavelmente penosa a demanda aquele que nilo ret- ne folego financeiro para custear a marcha processual até o seu resultado final, 0s cidaddios de parcos recursos, integrantes das camadas sociais inferior das, frequentemente ignoram os prdprios direitos e so incapazes de equacionar de solugi - 1no, o contato direto com profissionais da advocacia que eventualmente pudessem fomecer- 5€s 5&0 08 tipicos obstdculos sociais de acesso & justiga, Vale salientar ainda que a situago socioecondmica das pessoas de baixa ren: rel cultural, avulta as dificuldades que encontram na defesa de seus direitos, especialmente pelos virtuais problemas encontrados no relacio ‘mento com autoridades em que o juis se apresenta como alguém inalcan¢s ‘0 promotor muitas vezes aparece-Ihe ainda com o friso do algoz acusador, 0 vogado surge como o prafissional de altos custos e, por fim, as repartigGes admi- nistrativas, encarregadas da expedi¢ao de documentos necessérios as demandas (certidées, laudos, alvards ete.), nem sempre dispensam a atencao e a solicitude adequadas aos interesses das pessoas humildes que ali comparecem. [A dizer que, em tema ge acesso 8 justica, hé uma indiscutivel discriminagio das classes populares. Estas, por fatores vérios, se veem exciudas do consumo da atividade jurisdicional do Estado. Sao as camadas sociais aonde a justiganéio che ga. Assim, a ideia de “acesso & justica” se abre a variadas formas de questées a serem enfrentadas, como: (a) possibilidade de consumo da justiga por todas as camaclas socials; (b) acesso a solugées socialmente justas;(c) provimentos juris- dicionais céleres e eficazes; (4) participacio popular na administracio da justiga; e (e) operadores do direito aptos # canalizar as demandas socais etc Esta tltima questdo, relativa & aptidao dos operadores jurfdicos para canali- zat a demanda e resolver conflitos com conteiido sociopolitico, é a que nos inte- ressa mais de perto, justamente pela sua {ntima ligagzo com o problema da for- ‘magao académica dos operadores do direito, pert indagar entao sobre se ‘0s mesmos, em razo de suas forages tecnicistas ¢ digdes de identificar a fungi politica do Poder Ju bn: o cardter ideoldpico do direlto e a eventual exclusto social que preduz; a fungio social do seu saber/fazer; 0 papel que exerce de mediador de relagées sociais numa sociedade em transformacio; e, por fim, a capacidade que retine para entender a sua atuacGo e se posicionar em meio aos conflitos de classe, de modo que pudesse atuar como canal de acesso a justiga numa sociedade pro- fundamente estratificada. Na verdade, os operadores jurfdicos, em razo da cultura normativista ¢ positivista que ostentam, excessivamente apegados aos ritos procedimentais formalmente previstos nas leis e nos cédigos, parecem ter pouca sensibilidade para com as questées sociais. Assim, apresentam uma resisténcia muito grande