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Eu precisava sair dali, meus pensamentos estavam consumindo minha alma, tudo o que

eu desejava era sumir do mundo. Até aquele momento eu nunca pensei em tirar a minha vida,
mas alguma coisa mudou. Decidi dar uma volta antes que fizesse besteira.
O dia estava gelado, o frio entrava na minha carne congelando meus ossos e pensamentos.
Isso era bom, afinal meus pensamentos não estavam sendo legais comigo, deixá-los de lado
tirava um peso dos meus ombros. Uns minutos de caminhada ajudaram a aquecer o meu
corpo e a minha mente começou a borbulhar de novo, os pensamentos sombrios estavam de
volta. Tentei me concentrar na paisagem ao meu redor, ajudaria se houvesse pessoas na rua,
mas era muito cedo, por onda passava não cruzava com ninguém.

Estava caminhando naquela madrugada fazia um bom tempo, o frio aliviava meu cansaço
e a caminhada mantinha meu corpo aquecido, a única coisa que a caminhada não conseguia
aquecer era meu coração. Fazia um tempo que ele estava desse jeito, frio, gelado, sem vida, e
mesmo que a temperatura estivesse diferente naquele dia ele permaneceria desse jeito.
O que você precisa entender é que o fato do meu coração ser frio não fazia os meus
pensamentos serem sombrios, a maior parte do tempo meus pensamentos eram neutros, nem
alegres, nem tristes. Mas naquela manhã em especial ele estava sombrio. Foi quando resolvi
parar de andar e sentar em um banco para ver o que estava acontecendo com eles, nunca
havia sido assim, achava que a caminhada estava ajudando a tirá-los da minha cabeça, mas
uma hora ou outra teria que bater de frente com eles, melhor que fosse naquele momento.
Encontrei um banco para sentar e enfrentar o que estava sentindo.
Quando sentei e comecei a pensar no que estava acontecendo senti que alguém estava me
observando, não sabia onde ele estava, nem por quanto tempo me observava, mas meus
sentidos me diziam que ele estava me observando desde quando comecei a ter os
pensamentos sombrios, claro que era só um sentimento, não o havia notado antes, e mesmo
agora não podia vê-lo. Comecei a olhar em todas as direções disfarçadamente, como se não
soubesse que ele estava ali, não queria que ele percebesse que o havia sentido.
Procurei por todos os lados e não o encontrei, talvez ele tivesse percebido que eu o estava
procurando e decidido se esconder. Naquele momento não sabia o que me incomodava mais,
os meus pensamentos ou essa presença que sentia me observar. Resolvi voltar a enfrentar os
meus pensamentos, já que onde estava sentado, podia ver se alguém se aproximasse de mim
seja de qual direção. Mas assim que os pensamentos sombrios voltaram a ocupar toda a
minha atenção, a sensação de que ele voltou a me observar ficou mais forte, parecia que ele
estava mais perto. Resolvi o encontrar de outra maneira, não com os olhos, já que dá última
vez não havia dado em nada, mas com o meu instinto, já que até agora não o tinha visto só
sentido sua presença, usaria essa sensação a meu favor, ela me diria onde ele estava.
Parecia que quanto mais eu me concentrava na sua presença, mais longe e escondido ele
ficava e quando voltava a me concentrar nos meus pensamentos sombrios mais perto eu o
sentia. Fiquei alternado entre me concentrar nele e deixar meus pensamentos sombrios me
dominarem. Quando abri o olho o vi do outro lado da rua. Como posso descrevê-lo, parecia
alguém que eu conhecia, mas assim que a imagem da pessoa que eu conhecia me vinha a
mente seu rosto mudava, é difícil de explicar, o seu rosto continuava do mesmo jeito, mas me
trazia a lembrança de outra pessoas, e assim que a lembrança vinha na minha mente já
parecia que ele era outra pessoa. Isso me deixou atordoado por um tempo, pois as lembranças
de várias pessoas conhecidas vieram a minha mente, muito rápido, uma atrás da outra.
Ele tinha um jeito ameaçador, mas não sentia que ele ia me atacar. Estava vestido todo de
preto, mas o que chamava a atenção era um pendente que estava usando, era um símbolo que
nunca tinha visto antes, parecia ser poderoso e emanava uma energia muito grande. Naquele
momento, percebi que seja quem fosse aquele estranho, ele não era humano, mas se fosse
humano, não era como eu, ou você. Quando me dei conta, ele estava sentado do meu lado,
olhando pra frente, eu não tive a coragem de encará-lo e também fiquei olhando pra frente.
- Você sabe por que estou aqui? – sua voz era diferente, grave, sem emoção.
- Eu não sei nem quem é você, muito menos por que estaria aqui, conversando comigo -
falei, tentando não transmitir o pavor que estava sentindo naquele momento.
- Não precisa ter medo, não vou te fazer mal, bom, pelo menos não hoje – como se isso fosse
me deixar mais tranquilo, e o que ele quis dizer que não me faria mal, mas amanhã, poderia
fazer?
- Quer dizer que amanhã você pode vir a me machucar? – saiu da minha boca o que estava
pensando..
- Se eu fizer mal pra você amanhã, ou outro dia, vai ser por sua escolha! – pronto, o que
estava esquisito ficou ainda mais estranho. Me senti enjoado e como se tivesse levado um
bom murro no estômago.
- Porque você não me diz logo o que quer, porque está aqui? – queria acabar logo com aquilo,
não me sentia confortável naquela situação.
Ele ficou em silêncio, parecia apreensivo com alguma coisa. O outro lado da rua ficou
diferente, era como se uma sombra tomasse conta do lugar, apesar de ser madrugada e estar
escuro. Ele levantou da cadeira.
- Me dê sua mão e comece a caminhar comigo, feche os olhos, eu vou te guiar – tá bom
que eu ia sair andando de olhos vendados com esse lunático que poderia vir a me machucar,
claro, só se eu pedisse.
- Eu pensei que nós teríamos um pouco mais de tempo, pelo menos para conversar. Nós
precisamos sair agora daqui agora! – nisso ele segurou forte na minha mão, naquele momento
todo o meu pavor foi embora, uma sensação de tranquilidade como só sentia quando era
criança tomou conta do meu corpo.
Fechei os olhos. Levantamos do banco e comecei a andar, deixando aquele estranho me
guiar naquela madrugada fria e até agora muito estranha. Assim que começamos a andar ouvi
um som que estremeceu o meu corpo e me tirou da sensação de tranquilidade que estava
sentindo. Se existisse um inferno, já que não acredita nisso, e lá houvesse um milhão de
almas gritando de dor, esse seria o som que melhor descreveria o que estava ouvindo. Pensei
em abri os olhos e ver da onde vinha e o que estava fazendo esse som, como se lesse o meu
pensamento ele apertou a minha mão com mais força e gritou:
- Seja lá o que faça não abra os olhos ou não vou poder garantir a sua segurança, só me
siga mais um pouco.
No momento seguinte tudo ficou em silêncio absoluto, não podia ouvir nem os nossos
passos. A sensação de tranquilidade voltou e com ela veio a paz interior, tudo aquilo que
estava sentindo antes de encontrar esse desconhecido sumiu. De novo pensei em abrir os
olhos, mas ele lendo o meu pensamento de novo disse que ainda não era hora, que apesar da
calmaria ainda corria perigo. A sensação de tranquilidade e paz naquele momento era tão
grande que nem quis saber por que estava correndo algum tipo de perigo.
Andamos mais um pouco naquela tranquilidade, parecia que estava flutuando, no passo
seguinte senti de novo o peso nos meus pés e ouvi o barulho da rua, alguns carros passavam,
ouvi uma sirene ao longe. Paramos de caminhar.
- Pode abrir seus olhos – abri os olhos e soltei a minha mão. Estávamos em uma avenida
perto de casa, mas longe do lugar onde começamos a caminhada. Não era fisicamente
possível termos andado essa distância com a caminhada que fizemos.
- Não pareceu que andamos tudo isso pra chegar aqui – indaguei.
- Tomamos um atalho – foi sua resposta, achei melhor deixar pra lá, na verdade estava
mais curioso sobre o que tinha acabado de acontecer, o barulho que ouvi, a tranquilidade que
senti quando seguramos mãos, a pergunta que ele tinha feito, se eu sabia por que ele estava
ali e ainda sobre o me machucar se eu pedisse, essa parte era a que mais me preocupava.
- Percebo que você está com um monte de questões na cabeça – mais uma pergunta para
fazer, como ele lia meus pensamentos – algumas eu não vou poder te revelar agora.
- Você poderia começar me dizendo quem é você?

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