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ÍNDICE

Prefácio ............................................................................................................ 02
Prefácio às edições francesa e alemã ............................................................. 03
I – A concentração da produção dos monopólios ............................................ 07
II – Os Bancos e a sua nova função ................................................................ 17
III – O capital financeiro e a oligarquia financeira ............................................ 29
IV – A exportação de capitais .......................................................................... 39
V – A partilha do mundo entre os grupos capitalistas ...................................... 42
VI – A partilha do mundo entre as grandes potências ..................................... 49
VII – O imperialismo, fase particular do capitalismo ........................................ 57
VIII – O parasitismo e a decomposição do capitalismo ................................... 65
IX – A crítica do imperialismo .......................................................................... 72
X – O lugar do imperialismo na História .......................................................... 82
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PREFÁCIO

A brochura que apresentamos ao leitor foi escrita, em Zurique, durante a


primavera de 1916. Dadas as condições de trabalho em que ali me encontrava,
naturalmente, carecia um pouco de publicações francesas e inglesas e muito de
publicações russas. Todavia, utilizei a principal obra inglesa sobre o imperialismo
– o livro de J. A. Hobson, com toda a atenção que, em minha opinião, tal obra
merece.
Esta brochura foi escrita tendo em consideração a censura tzarista. Daí que
tivesse de limitar-me estritamente não só a uma análise teórica, principalmente
econômica, mas também, e, além disso, a formular as poucas, mas
indispensáveis, observações políticas com a maior prudência, servindo-me de
alusões, nessa maldita língua de Esopo, a que o tzarismo constrangia todos os
revolucionários sempre que pegavam na pena para escreverem uma obra “legal”.
Atualmente, nestes dias de liberdade, é penoso reler estas passagens
mutiladas, comprimidas, apertadas, como em um torno de ferro devido à censura
tzarista. Para explicar que o imperialismo é o prelúdio da revolução socialista, que
o social-chauvinismo (socialismo em palavras, chauvinismo nos fatos) é uma
traição completa ao socialismo, um compromisso total com a burguesia, que esta
cisão do movimento operário está ligada às condições objetivas do imperialismo,
etc., tive de utilizar uma linguagem de “escravo”; hoje, devo remeter o leitor, a
quem esta questão interesse, para a reedição dos artigos que escrevi no
estrangeiro, de 1914 a 1917, e que, brevemente, vai reaparecer.
No texto que se segue, note-se, sobretudo, uma passagem em que, tendo
em vista fazer compreender ao leitor, de forma aceitável pela censura, a cínica
mentira dos capitalistas, assim como dos social-chauvinistas que se passaram
para o seu campo (e que Kautsky tão incoerentemente combate), relativa à
questão das anexações, a forma desavergonhada como encobrem as anexações
dos seus capitalistas, fui obrigado a citar a título de exemplo... o Japão! O leitor
atento facilmente substituirá o Japão pela Rússia, a Coréia pela Finlândia, pela
Polônia, pela Curlândia, Ucrânia, Bucara, Quiva, Estônia e outras regiões
povoadas por não-Grandes-Russos.
Me atrevo a ter esperança de que a minha brochura ajudará a compreensão
de um problema econômico fundamental, sem o estudo do qual nada é possível
compreender acerca do que é a guerra e a política dos nossos dias; pretendo falar
da natureza econômica do imperialismo.
Petrogrado, 26, Abril de 1917.

O Autor
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PREFÁCIO ÀS EDIÇÕES FRANCESA E ALEMÃ

Este livro foi escrito em 1916 tendo em conta a censura tzarista como se
refere no prefácio à edição russa. Não me é possível, atualmente, refazer todo o
texto, o que de resto não teria qualquer utilidade, porquanto o papel fundamental
deste livro foi, e continua ainda sendo o de mostrar, partindo dos dados de
conjunto das indiscutíveis estatísticas burguesas de todos os países, qual era, no
começo do séc. XX, em vésperas da primeira guerra imperialista mundial, o
quadro de conjunto da economia capitalista em suas relações internacionais.
A tal respeito, aliás, ele não será de todo inútil para muitos comunistas dos
países avançados se, através do exemplo deste livro, “legal” do ponto de vista da
censura tzarista, eles se derem conta da possibilidade – e da necessidade – de
utilizarem mesmo os pequenos vestígios de legalidade de que ainda possam
beneficiar, nomeadamente, na América contemporânea ou em França após as
recentes prisões da sua quase totalidade, para explicarem toda a falsidade dos
pontos de vista dos social-pacifistas e das suas esperanças numa “democracia
mundial”. Quanto aos complementos mais indispensáveis a este livro censurado,
tentarei apresentá-los neste prefácio.

II

Este livro mostra que a guerra de 1914-18 foi, de ambos os lados, uma
guerra imperialista (isto é, uma guerra de conquista, de pilhagem, de pirataria),
uma guerra pela partilha do mundo, pela distribuição e redistribuição das colônias,
das “zonas de influência” do capital financeiro, etc...
Com efeito, a prova do verdadeiro caráter social ou, de forma mais exata,
do verdadeiro caráter de classe da guerra não se encontra, evidentemente, na sua
história diplomática, mas na análise da situação objetiva das classes governantes
de todas as potências beligerantes. Para ilustrar esta situação objetiva, é preciso
considerar não exemplos dados isolados (a extrema complexidade dos fenômenos
da vida social permite sempre encontrar tantos exemplos ou dados isolados
quantos se queiram sustentar seja que hipótese for), mas todo o conjunto de
dados relativos aos fundamentos da vida econômica de todas as potências
beligerantes e do mundo inteiro.
Foram exatamente estes dados de conjunto, inteiramente irrefutáveis, que
apresentei nos quadros relativos à partilha do mundo, em 1876 e 1914, e à
partilha das estradas de ferro do mundo inteiro, em 1870 e 1913. As estradas de
ferro nos dão o balanço dos ramos chaves da indústria capitalista, da indústria
hulhífera e siderúrgica, o balanço e os índices mais significativos do
desenvolvimento do comércio mundial e da civilização democrática burguesa.
Como se ligam as estradas de ferro à grande produção, aos monopólios, aos
sindicatos patronais, aos cartéis, aos trustes, aos bancos, à oligarquia financeira
eis o que os capítulos precedentes do livro nos mostram. A desigual repartição da
rede ferroviária, a desigualdade do seu desenvolvimento constitui, à escala
mundial, o balanço do moderno capitalismo monopolista. E este balanço mostra
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que, com tal base econômica, as guerras imperialistas são absolutamente


inevitáveis durante e enquanto existir a propriedade privada dos meios de
produção.
A construção das estradas de ferro parece ser um empreendimento
simples, natural, democrático, cultural, civilizador: assim surge aos olhos não só
dos professores burgueses, pagos para dissimular a horrorosa escravatura
capitalista, como aos olhos dos filisteus pequeno-burgueses. Na realidade, os
laços capitalistas que, através de milhares de canais vinculam estas empresas à
propriedade privada dos meios de produção em geral, fizeram desta construção
um instrumento de opressão para um bilhão de homens (colonizados e
semicolonizados), ou seja, para mais de metade da população do globo, nos
países dependentes, e para os escravos assalariados do capital, nos países
“civilizados”.
Propriedade privada baseada no trabalho do pequeno empresário, livre
concorrência, democracia: todos estes slogans que os capitalistas e a sua
imprensa utilizam para enganar os operários e os camponeses estão há muito
tempo ultrapassados. O capitalismo se transformou num sistema universal de
opressão colonial e de asfixia financeira da imensa maioria da população do globo
por um punhado de países “avançados”. E a partilha desde “saque” faz-se entre
duas ou três aves de rapina, com importância mundial, armadas até aos dentes
(América, Inglaterra, Japão) que arrastam consigo toda a Terra na sua guerra pela
partilha de seu saque.

III

A paz de Brest-Litovsk, ditada pela Alemanha monárquica, e,


posteriormente, a par de Versalhes, bem mais feroz e odiosa, ditada pelas
repúblicas “democráticas” – Estados Unidos e França – assim como pela “livre”
Inglaterra, prestaram um serviço eminentemente útil à humanidade,
desmascarando os “coolies da pena” contratados pelo imperialismo, assim como
os pequeno-burgueses reacionários que, embora se intitulando pacifistas e
socialistas, cantavam louvores ao “wilsonismo” e demonstravam que, mesmo em
regime imperialista, a paz e as reformas eram possíveis.
As dezenas de milhões de cadáveres e de mutilados, legados por uma
guerra feita com o fim de determinar que grupo de salteadores financeiros – inglês
ou alemão – obteria a maior parte do saque e, além disto, aqueles dois “tratados
de paz” abriram, com uma rapidez sem precedentes, os olhos a milhões e
dezenas de milhões de homens oprimidos, esmagados, enganados, iludidos pela
burguesia. Como conseqüência da ruína universal engendrada pela guerra vê-se,
assim, crescer uma crise revolucionária mundial que, por muito longas e penosas
que venham a ser as suas peripécias, não poderá terminar de outra forma que não
seja a revolução proletária e a sua vitória.
O Manifesto de Basiléia da II Internacional que, a partir de 1912, incluía
uma apreciação precisamente acerca da guerra que devia rebentar em 1914, e
não acerca da guerra em geral (há espécies diferentes de guerra e existem
também de revolucionários), ficou como um monumento que denuncia toda a
vergonhosa falência, todo o renegar dos heróis da II Internacional.
5

Eis porque reproduzo este manifesto em anexo a esta edição, chamando


uma vez mais a atenção dos leitores para o fato de os heróis da II Internacional
evitarem, cuidadosamente, as passagens do manifesto em que, com precisão, de
maneira clara e explícita, se fala precisamente da ligação entre esta guerra
eminente e a revolução proletária, para o fato de eles evitarem essas passagens
com cuidado igual ao de um ladrão quando evita o local do furto.

IV

Neste livro se dá particular atenção à crítica do “Kautskismo”, corrente


ideológica internacional representada, em todos os países do mundo, por
“eminentes teóricos”, chefes da II Internacional (na Áustria, Otto Bauer e C.ª; em
Inglaterra, Ramsay Macdonnald e outros; em França, Albert Thomas, etc., etc.) e
por uma multidão de socialistas, de reformistas, de pacifistas, de democratas
burgueses e de padres.
Esta corrente ideológica é, por um lado, a resultante da decomposição, da
putrefação da II Internacional e, por outro lado, o fruto inevitável da ideologia dos
pequeno-burgueses, a quem o ambiente, no seu todo, torna prisioneiros dos
preconceitos burgueses e democráticos.
Semelhantes concepções de Kautsky e seus congêneres traduzem e
renegar total dos fundamentos revolucionários do marxismo, que aquele autor
defendeu durante dezenas de anos, mais particularmente na luta contra o
oportunismo socialista (de Bernstein, de Millerand, de Hyndman, de Jompers,
etc.). Também não foi por acaso que, no mundo inteiro, os “kautskistas” se uniram,
no plano da política prática, aos ultra-oportunistas (através da II Internacional ou
Internacional amarela) e aos governos burgueses (pelo meio híbrido dos governos
burgueses de coalizão, com participação socialista).
O movimento proletário revolucionário, em geral, e o movimento comunista,
em particular, que crescem no mundo inteiro, não podem deixar de analisar e
denunciar os erros teóricos do “kautskismo”. E isto, tanto mais, quanto o pacifismo
e o “democratismo” em geral – que, de forma alguma aspiram ao marxismo, mas
que, tal como Kautsky e C.ª, dissimulam a profundidade das contradições do
imperialismo e o caráter inevitável da crise revolucionária que ele engendra –
ainda estão extremamente disseminados pelo mundo inteiro. A luta contra estas
correntes é uma necessidade para o partido do proletariado que deve arrancar à
burguesia os pequenos empresários iludidos por ela assim como os milhões de
trabalhadores colocado sem condições de vida mais ou menos pequeno-
burguesas.

Impõe-se dizer algumas palavras acerca do capítulo III: “O Parasitismo e a


Putrefação do Capitalismo”. Como já se notou no texto do livro, Hilferding, antigo
“marxista”, atualmente companheiro de armas de Kautsky e um dos principais
representantes da política burguesa reformista do “Partido social-democrata
independente da Alemanha”, deu, nesta questão, um passo atrás em confronto
com o inglês Hobson, pacifista e reformista confesso. A ruptura internacional no
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conjunto do movimento operário já se manifestou inteiramente nos nossos dias (II


e III Internacional). A luta armada e a guerra civil entre as duas correntes é
igualmente um fato assente: na Rússia, o apoio dado a Koltchak e a Dénikine
pelos mencheviques e pelos “socialistas revolucionários” contra os bolcheviques;
na Alemanha, os partidários de Scheidermann, assim como Nosk e C.ª ao lado da
burguesia contra os spartaquistas; idêntico quadro na Finlândia, na Polônia, na
Hungria, etc. Onde se situa, pois, a base econômica deste fenômeno histórico
universal?
Precisamente no parasitismo e na putrefação que caracterizam a fase
superior do capitalismo, isto é, o imperialismo. Como se mostra neste livro, o
capitalismo assegurou uma situação privilegiada a um punhado (menos de um
décimo da população do globo ou, numa estimativa mais “ampla” e mais
exagerada, menos de um quinto) de Estados particularmente ricos e poderosos,
que pilham o mundo inteiro com um simples “corte dos cupões de títulos”. A
exportação de capitais obtinha um rendimento anual de 8 a 10 bilhões de francos,
segundo os preços e as estatísticas burguesas de antes da guerra. Hoje, a cifra é,
naturalmente, muito maior.
Compreendem-se que este gigantesco superlucro (porque obtido além do
lucro extorquido pelos capitalistas aos operários do “seu” país) permita corromper
os chefes operários e a camada superior da aristocracia operária. E os capitalistas
dos países “avançados” a corrompem efetivamente: corrompem-na por mil
processos, diretos e indiretos, abertos e camuflados.
Esta camada de operários aburguesados, ou da “aristocracia operária”,
inteiramente pequeno-burgueses pelo seu modo de vida, pelos seus salários, por
toda a sua concepção do mundo, é o principal apoio da II Internacional e, nos
nossos dias, o principal apoio social (não militar) da burguesia. Com efeito, eles
são verdadeiros agentes da burguesia no seio do movimento operário, capatazes-
operários a serviço da classe dos capitalistas (“labor lieutenants of the capitalist
class”), verdadeiros propagandistas do reformismo e do chauvinismo. Na guerra
civil entre proletariado e burguesia, um apreciável número de entre eles se coloca,
inevitavelmente, ao lado da burguesia, ao lado dos “partidários de Versalhes”
contra os “partidários da Comuna”.
Sem se compreender a origem econômica deste fenômeno, sem se medir a
sua importância política e social, é impossível avançar um passo que seja na
realização das tarefas práticas do movimento comunista e da revolução social do
futuro.
O imperialismo é o prelúdio da revolução social do proletariado. após 1917,
isto ficou confirmado à escala mundial.
6 de Julho de 1920.

N. Lênin

Nestes últimos 15 ou 20 anos, principalmente desde a guerra hispano-


americana (1898) e anglo-boer (1899-1902), a literatura econômica, e também
política, do Velho e do Novo Mundo insiste, cada vez com maior freqüência, na
noção de “imperialismo” para caracterizar a época em que vivemos. Em 1902, o
7

economista inglês J. A. Hobson publicou, em Londres e em Nova Iorque, uma


obra intitulada O Imperialismo. Professando inteiramente um ponto de vista social-
reformista, burguês e pacifista, substancialmente idêntico à posição atual do ex-
marxista K. Kautsky, o autor nos deu aí uma descrição excelente e detalhada das
principais características econômicas e políticas do imperialismo. Em 1910,
apareceu, em Viena, uma obra do marxista austríaco Rudolf Hilferding: O Capital
Financeiro. Apesar do erro do autor quanto à teoria do dinheiro e uma certa
tendência para conciliar o marxismo com o oportunismo, esta obra constitui uma
análise teórica, eminentemente preciosa, da “mais recente fase do
desenvolvimento do capitalismo”, tal como especifica o subtítulo do livro de
Hilferding.
O que, nestes últimos anos, se disse do imperialismo – nomeadamente em
inúmeros artigos dos jornais e de revistas assim como nas resoluções, por
exemplo, dos Congressos de Chemnitz e de Basiléia, no outono de 1912 – foi,
fundamentalmente, quase tudo extraído do círculo das idéias expostas, ou mais
exatamente, resumidas, pelos dois citados autores.
Vamos tentar expor sumariamente, o mais simplesmente possível, os laços
e as relações existentes entre as características econômicas fundamentais do
imperialismo. Não nos deteremos sobre o aspecto não-econômico da questão,
embora tal o merecesse. Quanto às referências bibliográficas e outras notas, que
poderiam não interessar a todos os leitores, da-las-emos no final da brochura (1).

(1) Nota do tradutor – as notas de Lênin são, na presente edição, dadas em rodapé de
cada página.

I – A CONCENTRAÇÃO DA PRODUÇÃO DOS MONOPÓLIOS

O enorme desenvolvimento da indústria, e o processo de concentração


extremamente rápido da produção, em empresas cada vez mais importantes,
constituem uma das características mais marcantes do capitalismo. As estatísticas
industriais contemporâneas fornecem, acerca deste processo, os mais completos
e mais precisos ensinamentos.
Na Alemanha, por exemplo, em cada mil empresas industriais, três, em
1882, seis, em 1895, e nove, em 1907, eram empresas importantes, isto é,
empregavam mais de 50 empregados assalariados. A percentagem de lucro que
obtinham por cem operários era, respectivamente, de 22, 30 e 37. Além disso, a
concentração da produção é muito mais intensa do que a da mão-de-obra, sendo
o trabalho nas grandes empresas muito mais produtivo. É o que mostram os
números relativos às máquinas a vapor e aos motores elétricos. Se considerarmos
o que na Alemanha se chama indústria no sentido amplo do termo, isto é,
incluindo nela o comércio, os transportes, etc... obteremos o seguinte quadro: De
um total de 3.265.263 empresas o número das grandes empresas é de 30.588, ou
seja, somente 0,9%. Elas empregam 5,7 milhões de operários num total de 14,4
milhões, ou seja, 39,4%; elas consomem 6,6 milhões de cavalos-vapor num total
de 8,8 milhões, isto é, 75,3%, e 1,2 milhões de kilowatts de eletricidade para um
total de 1,5 milhões, ou seja, 77,2%.
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Menos da centésima parte das empresas utilizam mais de ¾ do total da


força-vapor e da energia elétrica! 2,97 milhões de pequenas empresas (até 5
operários assalariados), constituindo 91% do total das empresas, utilizaram
apenas 7% da força motriz, da eletricidade e do vapor! Dezenas de milhares de
grandes empresas são tudo; milhões de pequenas não são nada.
Em 1907, as empresas empregando 1000 ou mais operários eram, na
Alemanha, em número de 586. Elas empregavam perto da décima parte (1,38
milhões) da totalidade dos operários e cerca de um terço (32%) da energia a vapor
e da energia elétrica (1), tomadas em conjunto. Como veremos, o capital-dinheiro
e os bancos tornam esta superioridade de um punhado de enormes empresas
ainda mais esmagadora, e isto no sentido mais literal da palavra, ou seja, no
sentido de que milhões de “patrões”, pequenos, médios, e até de uma parte dos
grandes, são, de fato, inteiramente dominados por algumas centenas de
financistas milionários.
Em outro país avançado do moderno capitalismo, os Estados Unidos, a
concentração da produção é ainda mais intensa. Aí, a estatística considera à parte
a indústria, no sentido restrito do termo e agrupa as empresas segundo o valor da
produção anual. Em 1904, havia aí 1900 grandes empresas (em 216.180, ou seja,
0,9%) produzindo, cada uma, o valor de um milhão de dólares ou mais! Estas
empresas empregavam 1,4 milhões de operários (em 5,5 milhões, ou seja, 25,6%)
e tinham um volume de produção de 5,6 bilhões (em 14,8 bilhões, ou seja, 38%).
Cinco anos mais tarde, em 1909, os números correspondentes eram: 3060
empresas (em 268.491, ou seja, 1,1%) empregavam 2 milhões de operários (em
6,6, ou seja, 30,5%) e tinham um volume de produção de 9 bilhões (em 20,7
bilhões, ou seja, 43,8%). (2)
Cerca de metade da produção total do país é fornecida pela centésima
parte do total das empresas! E estas três mil empresas gigantescas abarcam 258
ramos da indústria. Por aqui se pode ver que a concentração, atingido um certo
grau do seu desenvolvimento, conduz, por ela própria, permita-se a expressão,
diretamente ao monopólio. Com efeito, algumas dezenas de empresas
gigantescas têm possibilidade de crescerem facilmente e, por outro lado, a
dificuldade de concorrência e a tendência para o monopólio nascem, exatamente,
da grandeza das empresas. Esta transformação da concorrência em monopólio é
um dos fenômenos mais importantes – senão o mais importante – da economia do
capitalismo moderno. Deste modo, convém analisá-lo detalhadamente. Mas, antes
disso, afastemos um possível mal-entendido.

(1) Segundo o Annalen des Deutschen Reichs, 1911, Zahn.


(2) Statistical Abstract of the United States, 1972, pág. 202.

A estatística americana informa: 3000 empresas gigantescas por 250 ramos


industriais. Ora, isto parece que daria apenas uma meia dúzia de empresas
gigantescas por indústria.
Mas tal não é o caso. Nem todas as indústrias possuem grandes empresas;
por outro lado, uma particularidade extremamente importante do capitalismo,
atingida a fase superior do seu desenvolvimento, é a que se designa por
integração, isto é, a reunião em uma única empresa de diversos ramos da
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indústria que possam abranger as sucessivas fases de tratamento da matéria-


prima (por exemplo, a produção de uma obra de ferro fundido a partir do minério
de ferro e a transformação do ferro fundido em aço e talvez, também, a fabricação
de diversos produtos acabados de aço) ou então que possam desempenhar, umas
em relação às outras, o papel de auxiliares (por exemplo, a utilização de resíduos
ou subprodutos; a fabricação do material de embalagem, etc.).
“A integração”, escreve Hilferding, “elimina as diferenças de conjuntura e
assegura, também, à empresa integrada uma taxa de lucro mais estável. Em
segundo lugar, a integração elimina o intermediário. Em terceiro lugar, possibilita
aperfeiçoamentos técnicos e, por conseguinte, a obtenção de lucros
suplementares por confronto com os da empresa ‘simples’ (isto é, não integrada).
Em quarto lugar, na luta de concorrência que se desencadeia no momento de uma
forte depressão (diminuição dos negócios, crise), quando a baixa dos preços das
matérias-primas não acompanha a baixa dos produtos manufaturados, ela
fortalece a posição da empresa integrada em confronto com a da empresa
‘simples’” (3).

(3) O Capital Financeiro, págs. 286-287 (ed. russa).

O economista burguês, alemão, Heymann que consagrou uma obra à


descrição das empresas “mistas”, isto é, integradas, na siderurgia alemã, diz: “as
empresas simples perecem, esmagadas entre os preços elevados das matérias-
primas e os baixos preços dos produtos manufaturados”, o que conduz ao
seguinte quadro: “por um lado, mantêm-se as grandes companhias hulhíferas com
uma produção que atinge vários milhões de toneladas, fortemente organizadas no
seu sindicato patronal do carvão; e depois, estreitamente ligadas a estas
companhias hulhíferas, as grandes fundições de aço, com o seu sindicato do aço.
Estas empresas gigantescas que produzem 400.000 toneladas de aço por ano e
extraem quantidades formidáveis de minério e de hulha, que fabricam produtos
acabados de aço, que empregam 10000 operários alojados em casernas de
cidades-operárias, e que, por vezes, possuem as suas próprias estradas de ferro e
os seus portos, constituem os típicos representantes da siderurgia alemã. E a
concentração prossegue avançando: Certas empresas se tornam cada vez mais
importantes; dentre elas um número sempre cada vez maior, pertencente ao
mesmo ramo ou a ramos diferentes se agrupa em empresas gigantes apoiadas e
dirigidas por uma meia dúzia de grandes bancos de Berlim. A correção da doutrina
de Karl Marx acerca da concentração resulta exatamente demonstrada, no que
respeita à indústria mineira alemã; também é verdade que se trata de um país
onde a indústria é protegida por direitos alfandegários e direitos de transporte. A
indústria mineira alemã está madura para a expropriação” (4).
Tal a conclusão a que deveria chegar um economista burguês
consciencioso, o que, aliás, constitui uma exceção. Note-se que ele parece
considerar a Alemanha um caso particular em virtude de sua indústria ser
protegida por altas tarifas alfandegárias. Mas tal circunstância apenas permitiu
acelerar a concentração e a formação de uniões monopolistas de patrões: cartéis,
sindicatos, etc. É especialmente importante constatar que, na Inglaterra, país do
livre-câmbio, a concentração também conduziu ao monopólio ainda que um pouco
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mais tarde e talvez sob outra forma. Eis o que, de acordo com os dados
respeitantes ao desenvolvimento econômico da Grã-Bretanha é a grandeza das
empresas e o alto nível da sua técnica que originam a tendência para o
monopólio. Por um lado, a concentração implica a necessidade de investir em
cada empresa somas enormes; e, além disso, a criação de novas empresas
depara com o obstáculo de exigências cada vez maiores em matéria de
investimentos, o que torna a sua constituição mais difícil. Por outro lado (e isso
nos parece ser o ponto mais importante), qualquer nova empresa que se queira
elevar ao nível das empresas gigantes criadas pela concentração deve fornecer
uma tal quantidade excedente de produtos, que a sua venda vantajosa só pode ter
lugar sob condição de se verificar um extraordinário aumento da procura, pois de
outra forma este excedente de produção fará baixar os preços numa proporção
tão desastrosa para a nova fábrica, como para as associações monopolísticas”.
Na Inglaterra, as associações monopolísticas de empresários – cartéis e trustes –
não surgem, a maior parte das vezes, - diferentemente do que sucede nos outros
países onde os direitos protetores facilitam a cartelização – senão quando o
número das empresas concorrentes se reduz “no máximo a duas dúzias”. “Na
grande indústria, a influência do movimento de concentração sobre a organização
dos monopólios mostra-se aqui com uma clareza cristalina” (5)

(4) Hans G. Heymann: Die gemischten Werke im Stuttgart, 1904, págs. 256, 278-279.
(5) Hermann Levy: Monopólio, Cartel e Truste, 1909, págs. 286, 290 e 298.

Há meio século, quando Marx escrevia o seu O Capital, a livre concorrência


aparecia à imensa maioria dos economistas como uma “lei da natureza”. A ciência
oficial tentou aniquilar, pela conspiração do silêncio, a obra de Marx, a qual
demonstrava, através de uma análise teórica e histórica do capitalismo, que a livre
concorrência gera a concentração da produção, a qual, atingindo um certo grau de
desenvolvimento, conduz ao monopólio. Atualmente, o monopólio se tornou um
fato. Os economistas acumulam montanhas de livros para descrever as suas
diversas manifestações, continuando, contudo, a declarar em coro que “o
marxismo está refutado”. Mas, como diz o provérbio inglês, os fatos são teimosos
e, quer o queiramos ou não, precisamos tê-los em conta. Os fatos mostram que as
diferenças existentes entre os países capitalistas, por exemplo, em matéria de
protecionismo ou de livre-câmbio, apenas determinam variações insignificantes na
forma dos monopólios, ou na data do seu aparecimento, enquanto que o
nascimento dos monopólios, como conseqüência da concentração da produção, é
uma lei geral e essencial do atual estádio de evolução do capitalismo.
No que se refere à Europa, pode se estabelecer com bastante precisão o
momento em que o antigo capitalismo foi substituído definitivamente pelo novo:
esse momento é o início do séc. XX. Acerca da história da “formação dos
monopólios”, lê-se em um dos mais recentes trabalhos de compilação:
“A época anterior a 1860 pode dar-nos alguns exemplos de monopólios
capitalistas; aí podem descobrir-se os embriões das formas, desde então tão
familiares; porém, tudo isso pertence inegavelmente à pré-história dos cartéis. O
verdadeiro nascimento dos modernos monopólios situa-se, o mais cedo, por volta
dos anos 1860-1870. O primeiro período importante do seu desenvolvimento
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começa com a depressão industrial internacional dos anos 1870-1880 e vai até
aos princípios do ano de 1890”. “Examinando a questão à escala européia, o
desenvolvimento da livre concorrência atinge o seu apogeu entre 1860 e 1880. A
Inglaterra tinha acabado de construir a sua organização capitalista de estilo antigo.
Na Alemanha, esta organização investia poderosamente contra o artesanato e a
indústria no domicílio e começava a criar as suas próprias formas de existência”.
“A grande viragem começa com o ‘crack’ de 1873, ou mais exatamente,
com a depressão que se lhe seguiu e que – com uma interrupção, dificilmente
perceptível, imediatamente após 1880 e com uma expansão extremamente
vigorosa, mas curta, por volta de 1889 – preenche vinte e dois anos de história
econômica da Europa”. Durante o curto período de expansão, em 1889, se
utilizou, numa medida notável, o sistema dos cartéis para explorar a conjuntura.
Uma política irrefletida fez subir os preços ainda com mais rapidez e violência do
que aquele que teria se verificado na ausência de cartéis; estes últimos,
lamentavelmente, afundaram-se quase todos, desmantelaram-se “no fosso do
crack”. Seguiram-se cinco anos de maus negócios e baixos preços, mas na
indústria o estado de espírito já não era o mesmo. Já não se considerava a
depressão como algo que marcha por si, mas antes se via nela tão só uma pausa
antecedendo uma nova conjuntura favorável.
“A formação dos cartéis entrou assim em sua segunda fase. Os cartéis, de
fenômeno passageiro que eram, se tornam em uma das bases de toda a vida
econômica. Eles conquistam setor após setor e, em primeiro lugar, o da
transformação das matérias primas. No começo do período de 1890-1900, ao
constituírem o sindicato do coque, que serviu de modelo, à organização do carvão,
eles já haviam elaborado uma técnica dos cartéis que, no fundo, não foi
ultrapassada. O grande progresso do fim do séc. XIX e a crise de 1900-1903 –
pelo menos na indústria mineira e siderúrgica – se desenvolveram pela primeira
vez inteiramente sob o signo dos cartéis. E se, na época, isso aparecia ainda
como qualquer coisa de novo, atualmente, o fato de, em regra, importantes
setores da vida econômica escaparem à livre concorrência se torna uma verdade
evidente para a opinião pública (6).
Assim, as principais fases da história dos monopólios podem se resumir do
seguinte modo:
1) Anos 1860-1880: ponto culminante do desenvolvimento da livre
concorrência. Os monopólios não são mais do que embriões dificilmente
perceptíveis;
2) Após a crise de 1873: período de grande desenvolvimento dos cartéis; no
entanto, eles ainda aparecem apenas a título excepcional. Carecem ainda de
estabilidade. Têm ainda um caráter transitório;
3) Expansão do fim do séc. XIX e crise de 1900-1903: os cartéis tornam-se
uma das bases de toda a vida econômica. O capitalismo se transformou em
imperialismo.
Os cartéis estabelecem entre si acordos sobre as condições de venda, as
trocas, etc. Repartem os mercados entre si. Determinam a quantidade dos
produtos a fabricar. Fixam os preços. Repartem os lucros entre as diversas
empresas, etc.
12

Na Alemanha, o número de cartéis estava calculado em 250, por volta de


1896, e em 385, em 1905, englobando perto de 12.000 empresas (7). Mas todos
são unânimes em reconhecer que estes números são inferiores à realidade. Os
dados já referidos da estatística industrial alemã de 1907 mostram também que
estas 12.000 grandes empresas concentram certamente mais de metade da força
motriz, do vapor, e da eletricidade do país. Nos Estados Unidos da América do
Norte, em 1900, o número dos trustes estava calculado em 185 e, em 1907, em
250. A estatística americana divide o conjunto das empresas industriais em
empresas pertencentes a particulares, a firmas e a companhias. Estas últimas, em
1904, possuíam 23,6%, e em 1909 25,9% ou seja, mais de um quarto da
totalidade dos estabelecimentos industriais. Elas empregavam em 1904 70,6% e
em 1909 75,6% ou seja, três quartos do total dos operários. A sua produção
elevava-se, respectivamente, a 10,9 e 16,3 bilhões de dólares, ou seja, 73,7% e
79% da soma total.

(6) Th. Vogelstein: Die finanzialle Organisation der Kapitalistischen Industrie und die
Monopolbidungen, in Grundriss der Sozialökonomik, VI Abt, 1914. Ver do mesmo autor
Organisationsformen der Eisenindustrie und der Textilindustrie in England und Amerika, T. I
Leipzig, 1910.
(7) Dr. Riesser: Die deutschen Grossbanken und ihre Konzentration im Zusammenhange
mit der Entwicklung der Gesamtwistschaft in Deutschland, 4ª edição, 1912, pág. 19; R. Liefman:
Kartelle und Trusts und die Weiterbildung der volkswirtschaftichen Organisation, 2ª ed., 1910, pág.
25.

Não é raro ver cartéis e trustes deterem 7 ou 8 décimos da produção total


de um certo ramo da indústria. O sindicato da Renânia-Vestfália do carvão,
quando da sua fundação, em 1893, detinha 86,7% da produção hulhífera da
região e, em 1910, já 95,4% (8). O monopólio, assim criado, assegura enormes
benefícios e conduz à formação de unidades industriais de dimensão formidável.
O famoso truste do petróleo dos Estados Unidos (Standart Oil Company) foi
fundado em 1900. “O seu capital elevava-se a 150 milhões de dólares. Ele foi
emitido através de ações ordinárias no valor de 100 milhões de dólares e de ações
privilegiadas no valor de 106 milhões. A estas últimas, de 1900 a 1907, foram
pagos dividendos de 48, 48, 45, 44, 36, 40, 40 e 40%, ou seja, no total 367
milhões de dólares. De 1882 a 1907 inclusive, de 889 milhões de dólares de lucros
líquidos, 606 milhões foram distribuídos em dividendos e o restante afetado à
reserva de reserva” (9). “O conjunto das empresas do truste do aço (United States
Steel Corporation) empregava, em 1907, pelo menos, 210.180 operários e
empregados. A mais importante empresa da indústria mineira alemã – a
Sociedade Mineira de Gelsenkirchen (Gelsenkirchen Bergweksgesellschaft),
empregava, em 1908, 46.048 operários e empregados” (10). A partir de 1902, o
truste do aço produzia nove milhões de toneladas de aço (11). A sua produção
total de aço dos Estados Unidos (12). Durante os mesmos anos, a sua
percentagem na extração de minérios elevava-se a 43,9% e 46,3%.

(8) Dr. Fritz Kestner: Der Organisationszwang. Eine... 1912, pág. 11.
(9) R. Liefmann: Beteiligungs und Finanzierungsgesellschaften. Eine Studie... 1ª ed., Iena,
1909, pág. 212.
13

(10) Ibid., pág. 218.


(11) Dr. S. Tshcierschky: Kartell und Trust, Göttingen, 103, pág. 13.
(12) Th. Vogelstein, Organisationsformen, pág. 275.

O relatório da comissão governamental americana sobre os trustes declara:


“A superioridade dos trustes sobre os seus concorrentes reside na grande
dimensão das suas empresas e no seu notável equipamento técnico. O truste do
tabaco, desde o dia da sua fundação, consagrou todos os esforços no sentido de
substituir, em largas proporções, o trabalho manual pelo trabalho mecânico. Nesse
sentido, comprou todas as patentes que tivessem qualquer relação com a
preparação do tabaco tendo, para tal fim, despendido somas enormes. Muitos
destes inventos, inutilizáveis no seu estado primitivo, tiveram de ser postos em
condições de funcionar pelos engenheiros dos trustes. No fim de 1906, foram
criadas duas sociedades filiais tendo como fim, unicamente, a compra de
patentes. Foi com este mesmo fim que o truste fez construir as suas próprias
fundições, as suas fábricas de máquinas e as suas oficinas de reparações. Um
destes estabelecimentos, o de Brooklyn, emprega, em média, 300 operários; aí se
experimentam e se aperfeiçoam, sendo necessário, as invenções respeitantes ao
fabrico de cigarros, de cigarrilhas, de rapé, de folhas de estanho para embalagens,
caixas, etc”(13). “Outros trustes empregam os ‘developping engineers’
(engenheiros encarregados do desenvolvimento técnico), cuja tarefa consiste em
inventar novos processos de fabrico e em experimentar as novidades técnicas. O
truste do aço concede a estes engenheiros e aos seus operários prêmios elevados
por toda a invenção suscetível de aperfeiçoar a técnica ou reduzir os encargos de
produção” (14).
O aperfeiçoamento técnico da grande indústria alemã está organizado da
mesma forma, nomeadamente, na indústria química que, nas últimas décadas,
alcançou um desenvolvimento prodigioso. A partir de 1908, o processo de
concentração da produção fez surgir, nesta indústria, dois “grupos” principais
tendendo, cada um ao seu modo, para o monopólio. Inicialmente, estes grupos
foram “duplas alianças” de dois pares de grandes fábricas tendo cada uma delas
um capital de 20 a 21 milhões de marcos: por um lado, as antigas fábricas Meister,
em Höchst, e Cassela, em Frankfurt-sur-le-Maine; por outro lado, a fábrica de
anilina e de soda de Ludwigshafen e a antiga fábrica Bauer, de Elberfeld. Depois,
em 1905, um destes grupos, e, em 1908, outro, concluíram, cada qual, um acordo
com uma outra grande fábrica. Daí resultaram duas “alianças triplas”,
representando cada uma um capital de 40 a 50 milhões de marcos, que
começaram a “aproximar-se” e a “entender-se” sobre preços, etc. (15)

(13) Report of the commissioner of Corporations on the Tobacco Industry, Washington,


1909, p. 266; citado do livro do Dr. P. Taffel, Die nordamerikanischen Trusts und... Stuttgart, 1913,
pág. 48.
(14) Ibid., pág. 49.
(15) Riesser, obra citada, págs. 547 e ss., 3ª. edição. Os jornais anunciam (Junho de 1916)
a criação de um novo truste, colossal, que se estende a toda a indústria química da Alemanha.
14

A concorrência transforma-se em monopólio. Daí resulta um imenso


progresso na socialização da produção. E, particularmente, no domínio dos
aperfeiçoamentos e inovações técnicas.
Já não se trata, de modo algum, da antiga livre concorrência entre
empresários dispersos que não se conheciam uns aos outros e que produziam
para um mercado desconhecido. A concentração chega a um ponto em que torna-
se possível fazer um inventário aproximado de todas as fontes de matérias-primas
(tais como jazidas de minério de ferro) de um país e mesmo, como veremos, de
vários países e até do mundo inteiro. E não só se procede a tal inventário como
até todas estas fontes são aproximadamente a capacidade de consumo dos
mercados que esses grupos “partilham entre si” por contrato. O monopólio da
mão-de-obra especializada, os melhores engenheiros; apodera-se das vias e
meios de comunicação, das estradas de ferro da América, das sociedades de
navegação na Europa e na América. O capitalismo, chegado à sua fase
imperialista, conduz à beira da socialização integral da produção; ele arrasta os
capitalistas, seja como for, independentemente da sua vontade e sem que eles
tenham consciência disso, para uma nova ordem social, intermédia entre a livre
concorrência e a socialização integral.
A produção torna-se social, mas a apropriação continua privada. Os meios
de produção sociais permanecem propriedade privada de um pequeno número de
indivíduos. O quadro geral da livre concorrência, que se reconhece nominalmente,
subsiste e o jugo exercido por um punhado de monopolistas sobre a restante
população torna-se cem vezes mais pesado, mais sensível, mais intolerável.
O economista alemão Kestner consagrou toda uma obra à “luta entre os
cartéis e os outsiders”, ou seja, os industriais que de modo algum fazem parte
destes últimos. Ele intitulou-a: “Da coação à organização” ainda que, bem
entendido, tivesse sido obrigado, para não exaltar o capitalismo, a falar no
constrangimento em submeter-se às associações de monopolistas. É edificante
lançar uma simples olhada sobre os processos a que as uniões de monopolistas
recorrem nesta luta atual, moderna, civilizada, pela “organização”:
1) privação de matérias-primas (... “um dos processos essenciais para
impor a adesão ao cartel”);
2) privação de mão-de-obra por meio de “alianças” (isto é, de acordo entre
os capitalistas e os sindicatos operários, nos termos dos quais estes últimos não
aceitam trabalhar senão em empresas cartelizadas);
3) privação dos meios de transportes;
4) encerramento de mercados;
5) acordos com os compradores pelos quais estes se comprometem a
manter relações apenas com os cartéis;
6) baixa sistemática dos preços (para arruinar os “ousiders”, isto é, as
empresas independentes do monopólio, despendem-se milhões, a fim de vender
durante certo tempo abaixo do preço de revenda: na indústria dos derivados do
petróleo houve casos em que os preços caíram de 40 a 22 marcos, ou seja, uma
baixa de quase metade!);
7) privação de créditos;
8) boicote.
15

Já não se trata, de modo algum, de luta de concorrência entre pequenas e


grandes fábricas, entre empresas tecnicamente atrasadas e empresas
tecnicamente avançadas. Trata-se sim do aniquilamento pelos monopólios
daqueles que não se submetem ao seu jugo, ao seu arbítrio. Eis como este
processo se reflete no espírito de um economista burguês:
“Mesmo na atividade puramente econômica, escreve Kestner, assiste-se a
uma mutação da atividade comercial, tomada a expressão no seu antigo
significado, no sentido da especulação organizada. O maior êxito pertence não ao
negociante cuja experiência técnica e comercial o coloca em situação de prever de
forma ótima as necessidades dos clientes e, por assim dizer, de ‘descobrir’ a
procura latente, mas ao gênio (?!) da especulação que sabe calcular
antecipadamente ou pelo menos pressentir o desenvolvimento orgânico e as
possibilidades de certas ligações entre as diferentes empresas e os bancos”.
Dito de forma clara, isto significa que o desenvolvimento do capitalismo
atingiu um ponto em que a produção de mercadorias, se bem que continue
“reinando” e a ser considerada como a base de toda a economia, se encontra
desacreditada de fato e em que o grosso dos lucros cabe aos “gênios” das
maquinações financeiras. Na base destas maquinações e destas trapaças,
encontra-se a socialização da produção; mas o imenso progresso da humanidade,
a qual se elevou até esta socialização, beneficia... os especuladores. A propósito
desta base veremos mais adiante como a reacionária crítica pequeno-burguesa do
imperialismo capitalista sonha com um “retorno”, à “livre concorrência”, “pacífica”,
“honesta”.
“A contínua subida dos preços, conseqüência da formação dos cartéis, diz
Kestner, verificou-se até agora apenas relativamente aos principais meios de
produção, nomeadamente à hulha, ao ferro, à potassa, e, nunca pelo contrário,
relativamente aos produtos acabados. O aumento de rendimentos que daí deriva,
limitou-se, igualmente, à indústria dos meios de produção. A esta observação é
preciso acrescentar que a indústria de transformação de matérias-primas (e não a
de produtos semi-acabados) através da constituição de cartéis obteve vantagens
não só sob forma de elevados lucros, e isto em detrimento da indústria de
transformação dos produtos semi-acabados, como também adquiriu um certo
domínio sobre esta última que não existia ao tempo da livre concorrência”.
A palavra que sublinhamos mostra o fundo da questão que os economistas
burgueses tão raramente e de tão má vontade reconhecem e que os atuais
defensores do oportunismo, encabeçados por K. Kautsky, tão obstinadamente se
esforçam por evitar e por dela se desembaraçarem. As relações de domínio e a
violência que elas implicam, eis o que é típico da “fase mais recente do
desenvolvimento do capitalismo”, eis o que necessariamente deveria resultar, e
que efetivamente resultou, da formação de monopólios econômicos todo-
poderosos.
Citemos mais um exemplo do domínio exercido pelos cartéis. Onde seja
possível a apropriação da totalidade, ou da maior parte das fontes de matérias-
primas, aí será particularmente fácil a criação de cartéis e a constituição de
monopólios. Mas seria totalmente errado pensar que os monopólios não surgem,
também, nos outros ramos industriais, onde a apropriação das fontes de matérias-
primas é impossível. A indústria do cimento obtém as suas matérias-primas em
16

qualquer parte. Apesar disso, na Alemanha, também esta indústria se encontra


fortemente cartelizada. As fábricas agrupam-se em sindicatos regionais: o da
Alemanha meridional, o da Renânia-Vestfália, etc. Os preços são os de
monopólio: 230 e 280 marcos o vagão relativamente a um preço de revenda de
180 marcos! As empresas pagam 12% a 16% de dividendos; e não se esqueça
que os “gênios” da moderna especulação sabem embolsar lucros importantes
além dos que são distribuídos a título de dividendos. Para suprimir a concorrência
numa indústria tão lucrativa os monopolistas usam mesmo de artimanhas: eles
espalham boatos falsos sobre a má situação da sua indústria, publicam anúncios
não assinados nos jornais: “capitalistas, evitais colocar os vossos fundos na
indústria do cimento”; finalmente, resgatam as fábricas dos “outsiders” (isto é, dos
industriais que não fazem parte dos cartéis) pagando-lhes “indenizações de 60, 80
ou 150 mil marcos” (16). O monopólio abre caminho em todas as direções e por
todos os meios, desde o pagamento de uma “modesta” indenização até ao
“recurso”, à maneira americana, à dinamitagem do concorrente.
Que os cartéis suprimam as crises, eis uma fábula dos economistas
burgueses que se propõe embelezar o capitalismo. Pelo contrário, o monopólio,
criado em certas indústrias, aumenta e agrava o caos inerente ao conjunto da
produção capitalista. A desproporção entre o desenvolvimento da agricultura e o
da indústria, característica do capitalismo em geral, acentua-se ainda mais. “A
situação privilegiada da mais cartelizada das indústrias, aquela a que se chama
indústria pesada, sobretudo a do carvão e a do ferro, gera, nos outros ramos
industriais, uma ausência de sistema ainda mais flagrante”, como o reconhece
Jeidels, autor de uma das melhores obras sobre as “relações entre os grandes
bancos alemães e a indústria”.
“Quanto mais uma economia nacional se encontra desenvolvida, escreve
Liefmann, defensor encarniçado do capitalismo, mais ela se volta para os
empreendimentos arriscados ou que se situam no estrangeiro, para aqueles que
para se desenvolverem têm necessidade de um grande lapso de tempo ou,
finalmente, para aqueles que têm apenas uma importância local” (17). O aumento
do risco implica, decididamente, o aumento prodigioso do capital que, de qualquer
forma, sai para lá das fronteiras, que se escoa para o estrangeiro, etc. Ao mesmo
tempo, o progresso extremamente rápido da técnica engendra, cada vez mais,
numerosos fatores de desproporção entre os diversos aspectos da economia
nacional, fatores de confusão, de crises. Este mesmo Liefmann é obrigado a fazer
a seguinte confissão: “Provavelmente, uma vez mais, importantes revoluções no
domínio técnico, esperam a humanidade num futuro próximo; elas terão, também,
um efeito sobre a organização da economia nacional”... eletricidade, aviação...
“Normalmente, e como regra geral, nestes períodos de profundas transformações
econômicas, assiste-se ao desenvolvimento de uma especulação intensiva...” (18).

(16) L. Eschwege: “Zement”, na Die Bank, T. I. 1909, págs. 115 e 55.


(17) Jeidels: Das Verhältnis der deutschen Grossbanken zur Industrie, mit besonderer
Berücksichtigung der Eisenindustrie, Leipzig, 1905, pág. 271.
(18) Liefmann: Beteiligungs, etc., pág. 434.
17

E, por seu turno, as crises (de toda a espécie, mais freqüentemente


econômicas embora não exclusivamente) aumentam, em fortes proporções, a
tendência para a concentração e para o monopólio. Eis algumas reflexões,
extremamente significativas, de Jeidels acerca da importância da crise de 1900, a
qual, como se sabe, marcou uma viragem na história dos monopólios modernos:
“No momento em que se iniciou a crise de 1900, existiam ao lado de
empresas gigantescas das indústrias principais, numerosas empresas de
organização antiquada, segundo as atuais concepções, empresas “simples” (isto
é, não integradas) “que a vaga de progresso industrial tinha conduzido à
prosperidade”. A queda dos preços e a diminuição da procura colocaram estas
empresas “simples” em apuros, apuros em que de modo algum se colocaram as
empresas gigantescas integradas ou que as afetaram apenas num período de
tempo muito curto. Esta a razão pela qual a crise de 1900 provocou uma
concentração industrial infinitamente mais forte do que a que foi gerada pela crise
de 1873: esta última operara também uma certa seleção entre as melhores
empresas mas, sendo dado o nível técnico da época, esta relação não pôde
assegurar o monopólio às empresas que dela tinham saído vitoriosas.
E é precisamente este monopólio verdadeiro que as empresas gigantescas
das atuais indústrias siderúrgica e elétrica detém em elevado grau graças à sua
técnica muito complexa, à sua organização muito extensa e ao poder do seu
capital e que as empresas de construção, mecânicas, de certos ramos da
metalurgia, das vias de comunicação etc. detém em grau menor (19).
Monopólio, eis a última palavra da “mais recente fase do desenvolvimento
do capitalismo”. Mas, se não tomarmos em conta a função dos bancos, então,
apenas teremos uma noção extremamente insuficiente, incompleta, limitada do
efetivo poderio e do papel dos monopólios.

(19) Jeidels, op. cit., pág. 108.

II – OS BANCOS E A SUA NOVA FUNÇÃO

A função essencial e inicial dos bancos é a de intermediários nos


pagamentos. Realizando-a, eles transformam o capital-dinheiro inativo em capital
ativo, isto é, criador de lucro, e, reunindo os diversos rendimentos em espécie,
eles colocam-nos à disposição da classe dos capitalistas.
À medida que os lucros aumentam e os bancos se concentram em um
pequeno número de estabelecimentos, estes deixam de ser modestos
intermediários para se tornarem monopólios todo-poderosos, dispondo da quase-
totalidade do capital-dinheiro do conjunto dos capitalistas e dos pequenos
empresários, assim como da maior parte dos meios de produção e das fontes de
matérias-primas de um dado país ou de toda uma série de países. Esta
transformação de uma massa de modestos intermediários em um punhado de
monopolistas constitui um dos processos essenciais da transformação do
capitalismo em imperialismo capitalista. Deste modo, se impõe que, antes de tudo,
nos detenhamos na concentração dos bancos.
Em 1907-1908 os depósitos de todas as sociedades anônimas, bancárias,
da Alemanha, dispondo de um capital de mais de um milhão de marcos elevava-
18

se a 7 bilhões de marcos; em 1912-1913, atingiam 9,8 bilhões. Em cinco anos,


portanto, aumentaram 2 bilhões e 800 milhões, ou seja, 40%. Desta soma, 2
bilhões e 750 milhões estavam repartidos entre 57 bancos, tendo, cada um, um
capital de mais de 10 milhões de marcos. A repartição dos depósitos entre
grandes e pequenos bancos era a seguinte (1):

PERCENTAGEM DE DEPÓSITOS

Nos 48 outros
Nos 115 bancos Nos pequenos
Nos nove grandes bancos com um
com um capital bancos (com
Anos bancos capital de mais de
de 1 a 10 um capital de
berlinenses 10 milhões de
milhões um milhão)
marcos
1907-1908 47 32,5 16,5 4
1912-1913 49 36 12 3

Os pequenos bancos são esmagados pelos grandes, dos quais nove


concentram quase metade da totalidade dos depósitos. E aqui não tomamos em
consideração muitos elementos, nomeadamente, a transformação de toda uma
série de pequenos bancos em verdadeiras filiais dos grandes, etc. Disso falaremos
mais adiante.

(1) Alfred Lansburgh: Fünf Jahre deutsches Bankwesen, in Die Bank, 1913, n. 8, pág. 728.

No fim de 1913, Schulze-Gaevernitz avaliava os depósitos dos nove


grandes bancos berlinenses em 5,1 bilhões de marcos, num total de cerca de 10
bilhões. Considerando não somente os depósitos, mas o total do capital bancário,
o mesmo autor escrevia: “No fim de 1909, os nove grandes bancos berlinenses
administravam, juntamente com os bancos que lhes estavam ligados, 11,3 bilhões
de marcos, ou seja, cerca de 83% do total do capital bancário alemão. O
“Deutsche Bank” que, juntamente com os bancos que lhe estão ligados, administra
perto de 3 bilhões de marcos, constitui tal como na Rússia a Direção da rede
ferroviária do Estado, a mais importante acumulação de capitais e também a mais
descentralizada organização do velho mundo” (2).
Sublinhamos a referência aos bancos “ligados” porque tal constitui uma das
características mais importantes da moderna concentração capitalista. As grandes
empresas, sobretudo os bancos, não se limitam a absorver as pequenas que se
“ligam” e submetem a elas, incorporam-nas no “seu” agrupamento ou, para
empregar o termo técnico, no seu “consórcio”, graças à “participação” no seu
capital, à compra ou troca de ações, ao sistema de créditos, etc., etc. O professor
Liefmann consagrou toda uma enorme “obra” de 500 páginas à descrição das
modernas “sociedades de participação e de financiamento”; infelizmente,
acrescenta reflexões “teóricas” de qualidade inferior a uma documentação, com
bastante freqüência, difícil de digerir. Ao que conduz no domínio da concentração,
este sistema de “participação”, eis o que, melhor do que ninguém, mostra Riesser,
“personalidade” do mundo bancário, no seu livro acerca dos grandes bancos
19

alemães. Mas, antes de examinarmos os seus dados, daremos um exemplo


concreto do sistema das “participações”.

(2 Schulze-Gaevernitz: Die deutsche Kreditbank, in Grundriss der Socialökonomik,


Tübingen, 1915, págs. 12 e 137.

O “grupo” do “Deutsche Bank” é um dos mais importantes, senão o mais


importante, de todos os grupos de grandes bancos. Para abarcar de relance os
principais fios que ligam entre si todos os bancos deste grupo é necessário
distinguir as “participações” em primeiro, segundo e terceiro graus, ou, o que dá
na mesma, a dependência (dos bancos de menor importância face ao “Deutsche
Bank”) em primeiro, segundo e terceiro graus. Isto dá-nos o seguinte quadro (3):

Dependência Dependência Dependência do


do 1º. Grau do 2º. Grau 3º. Grau
Dos quais 9 Dos quais 4
Permanentemente Em 17 bancos participam participam
O noutros 34 noutros 7
<<Deutsche Por um tempo
5 - -
Bank>> indeterminado
participa Dos quais 5 Dos quais 2
Eventualmente 8 participam participam
noutros 48 noutros 2
Dos quais 14 Dos quais 6
TOTAL Em 30 bancos participam participam
noutros 48 noutros 9

Entre os oito bancos “dependentes do primeiro grau” e “ocasionalmente” do


“Deutsche Bank”, três são estrangeiros: um austríaco (o “Bankverein” de Viena) e
dois russos (o “Banco Comercial da Sibéria” e o “Banco russo para o comércio
externo”). No total, o grupo do “Deutsche Bank” compreende, direta ou
indiretamente, total ou parcialmente, 87 bancos e o montante de capitais de que
dispõe, quer capital próprio quer capital em depósito, pode avaliar-se em 2 ou 3
bilhões de marcos.

(3) Alfred Lansburgh: Das Beteiligungssystem im deutschen Bankwesen, in Die Bank.


1910, I, pág. 500.

É evidente que um banco, colocado à cabeça de tal grupo, e celebrando


com uma meia dúzia de outros bancos quase tão importantes como ele acordos
com vista a operações financeiras particularmente importantes e lucrativas, tais
como empréstimos ao Estado, superou o seu papel de “intermediário” e
transformou-se em união de um punhado de monopolistas.
A rapidez com que no fim do séc. XIX e no início do séc. XX, se efetuou, na
Alemanha, a concentração bancária, patenteia-se nos seguintes dados que,
sintetizando, extraímos de Riesser:
20

Seis grandes bancos berlinenses tinham


Participação
Caixas de Constante em
Sucursais na Depósitos e Sociedades Total de
Anos
Alemanha Agências de Anônimas Estabelecimentos
Câmbios Bancárias
Alemãs
1895 16 14 1 42
1900 21 40 8 80
1911 104 276 63 450

Vê-se a rapidez com que se estendeu a apertada rede de canais que


envolve todo o país e que centraliza todos os capitais e rendimentos,
transformando milhares e milhares de empresas dispersas num único organismo
capitalista, primeiro nacional e depois mundial. A “descentralização” a que na
passagem supracitada Schulze-Gaevernitz se referia, considerando a economia
política burguesa dos nossos dias, consiste, de fato, na subordinação a um único
centro de um número sempre crescente de unidades que eram antes
relativamente “independentes” ou, de forma mais exata, da importância
estritamente local. Deste modo, o que na realidade existe é centralização,
acentuação do papel, da importância, do poderio dos monopólios gigantes.
Esta “rede bancária” é ainda mais densa nos países capitalistas mais
antigos. Na Inglaterra, incluída a Irlanda, existiam, em 1910, 7.151 sucursais para
o total dos bancos. Quatro grandes bancos possuíam, cada um deles, mais de 400
(de 447 a 689), 4 outros tinham mais de 200 e 11 mais de 100.
Na França, três importantes bancos: o “Crédit Lyonnais”, o “Comptoir
National d’Escompte” e a “Societé Général” desenvolveram as suas operações e a
rede das suas sucursais da forma seguinte (4):

Capitais (em milhões de


Número de sucursais e de caixas de depósito
francos)
Pertencente
Anos Província Paris Total Em depósito
aos bancos
1870 47 17 64 200 427
1890 192 66 258 265 1.245
1909 1.033 196 1.229 887 4.363

Para caracterizar as “relações” de um grande banco moderno, Riesser


indica o número de cartas que envia e recebe a Sociedade de Desconto
(“Disconto-Gesellschaft”), um dos mais poderosos bancos da Alemanha e do
mundo (cujo capital, em 1914, atingia 300 milhões de marcos):
21

Número de Cartas
Anos
Recebidas Expedidas
1852 6.135 6.292
1870 85.800 87.513
1900 533.102 626.043

No grande banco parisiense do “Crédit Lyonnais”, o número de contas


correntes passou de 28.535, em 1875, para 633.539, em 1912 (5).
Estes simples números, talvez melhor do que longos raciocínios, mostram
como a concentração de capitais e o aumento das operações bancárias modificam
radicalmente o papel desempenhado pelos bancos. Os capitalistas dispersos
acabam por constituir apenas um único capitalista coletivo. Se atendermos à conta
corrente de alguns capitalistas então parecerá que o banco se dedica apenas a
operações puramente técnicas, unicamente subsidiárias. Porém, quando estas
operações tomam uma extensão formidável, daí resulta que um punhado de
monopolistas subordina a si as operações comerciais e industriais da sociedade
capitalista em bloco: antes de mais, graças às ligações bancárias, graças às
contas correntes e outras operações bancárias eles podem conhecer exatamente
a situação de tal ou tais capitalistas e, em seguida, controlá-los, agir sobre eles,
alargando-lhes ou restringindo-lhes, facilitando-lhes ou entravando-lhes o crédito
e, finalmente, determinar inteiramente a sua sorte, determinar os rendimentos das
suas empresas, privá-los de capitais, ou permitir-lhes aumentá-los rapidamente
em proporções enormes, etc.

(4) Eugen Kaufmann: Das Französische Bankwesen, Tübingen, 1911, págs. 356 e 362.
(5) Jean Lescure: O aforro em França, Paris, 1914, pág. 52.

Acabamos de mencionar o capital de 300 milhões de marcos da “Disconto-


Gesellschaft” constituiu um dos episódios da luta pela hegemonia entre os dois
maiores bancos berlinenses, o “Deutsche-Bank” e o “Disconto-Gesellschaft”.
Quando, em 1870, o primeiro iniciava a sua atividade tinha um capital tão-só de 15
milhões. Em 1908, o primeiro possuía 200 milhões e o segundo 170 milhões. Em
1914, o primeiro elevava o seu capital para 250 milhões; o segundo, fundindo-se
com outro banco de primeiro plano – o “União de Schaffhausen” – elevava o seu
para 300 milhões. Naturalmente, esta luta pela hegemonia decorre paralelamente
aos “acordos”, cada vez mais freqüentes e duradouros, entre os dois bancos. Eis
as reflexões que este desenvolvimento dos bancos suscita entre os especialistas
da matéria que tratam os problemas econômicos de um ponto de vista que nunca
vai além do mais moderado e escrupuloso espírito de reforma burguês:
“Outros bancos seguirão a mesma via”, escrevia a revista alemã Die Bank,
a propósito do aumento do capital da “Disconto-Gesellschft” para 300 milhões, “e
as 300 pessoas que, atualmente, governam economicamente a Alemanha,
reduzir-se-ão com o tempo a 50 ou 25 ou ainda menos. Não é de esperar que o
movimento de concentração moderno se restrinja aos bancos. As estreitas
relações entre os bancos conduzem naturalmente a aproximá-los dos consórcios
22

industriais que patrocinam... Uma bela manhã, ao despertarmos, ficaremos


espantados por vermos apenas trustes; ficaremos colocados perante a
necessidade de substituir os monopólios privados por monopólios de Estado. E,
no entanto, no fundo, nada teríamos a censurar-nos senão não termos deixado o
desenvolvimento das coisas entregue a um livre curso acelerado um pouco
apenas pela ação” (6).
Eis aqui bem um exemplo da impotência do jornalismo burguês do qual a
ciência burguesa se distingue apenas por uma menor sinceridade e por uma
tendência para ocultar o fundo das coisas, para confundir as árvores com floresta.
“Espantar-se” com as conseqüências da concentração, “deitar as culpas” ao
governo da Alemanha capitalista ou à “sociedade” capitalista (à “nossa”), recear
que o emprego de ações “acelere” a concentração, tal como Tschierschky,
especialista alemão “em matéria de cartéis”, receia os trustes americanos e
“prefere” os cartéis alemães, os quais, segundo pretende, não são capazes de
“acelerar em excesso, como o fazem os trustes, o progresso técnico e econômico”
(7) – não será isto impotência?
Mas os fatos permanecem fatos. Não há trustes na Alemanha, há
“somente” cartéis; mas a Alemanha é “governada”, no máximo, por 300 magnatas
do capital. E este número diminui qualquer que seja a sua legislação bancária, os
bancos reforçam e aceleram consideravelmente o processo de concentração dos
capitais e de formação de monopólios.

(6) A. Lansburgh: “Die Bank mit den 300 Milionen”, Die Bank, 1914, pág. 426.
(7) S. Tschierchky, op. Cit., pág. 128.

“Os bancos criam, à escala social, a forma, mas tão-só a forma, de uma
contabilidade e de uma repartição gerais dos meios de produção”, escrevia Marx
há meio século, no Capital (tradução russa, livro III, 2ª. Parte, pág. 144). Os
números que citamos sobre o crescimento do capital bancário, sobre o aumento
de filiais e sucursais dos grandes bancos e das suas contas correntes, etc.,
mostram-nos, concretamente, esta “contabilidade geral” de toda a classe dos
capitalistas, e até não apenas dos capitalistas, uma vez que os bancos reúnem,
pelo menos durante algum tempo, todas as espécies de rendimentos em dinheiro
provenientes de pequenos patrões, de empregados e da diminuta camada
superior dos operários. A “repartição geral dos meios de produção” eis o que, de
um ponto de vista inteiramente formal, resulta do desenvolvimento dos bancos
modernos, dos quais os mais importantes em número de 3 a 6, na França, e de 6
a 8, na Alemanha, dispõem de bilhões e bilhões. Mas, quanto ao conteúdo, esta
repartição dos meios de produção nada tem de “geral”; ela é privada, isto é,
conforme aos interesses do grande capital – e, em primeiro lugar, ao capital
monopolista, chefe de fila do maior capital – que opera em tais condições que, só
a custo, a massa da população pode satisfazer as suas necessidades e em tais
condições eu, todo o desenvolvimento da agricultura se atrasa irremediavelmente
relativamente ao da indústria, da qual um ramo, o da “indústria pesada”, recebe
um tributo de todos os outros.
As caixas econômicas e as estações de correios começam a concorrer com
os bancos na socialização da economia capitalista. São estabelecimentos mais
23

“descentralizados”, isto é, cuja influência se estende a um maior número de


localidades, a recantos perdidos, a vastos contingentes da população. Uma
comissão americana reuniu, a propósito do desenvolvimento comparado dos
depósitos em bancos e em caixas econômicas, os dados abaixo mencionados (8):

DEPÓSITOS (em bilhões de marcos)


INGLATERRA FRANÇA ALEMANHA
Nas
No Em caixas Em caixas Em caixas
Anos No banco No banco sociedades
banco econômicas econômicas econômicas
de crédito
1880 8,4 1,6 ? 0,9 0,5 2,6 0,4
1888 12,4 2,0 1,5 2,1 1,1 4,5 0,4
1908 23,2 4,2 3,7 4,2 7,1 13,9 2,2

(8) Segundo o National Monetary Commission, american Die Bank, 1910, I, pág. 1.200.

Pagando um juro de 4% a 4,25% pelos depósitos, as caixas econômicas


são obrigadas a procurar para os seus capitais colocações “vantajosas”, a dedicar-
se a operações sobre letras, sobre hipotecas, etc.. A linha de demarcação entre os
bancos e as caixas econômicas “desaparece cada vez mais”. As Câmaras de
comércio de Bochum e de Erfurt, por exemplo, pedem que seja “interdito” às
caixas econômicas dedicarem-se a operações “puramente” bancárias (9), tais
como as de desconto de duplicatas, e exigem a limitação da atividade “bancária”
das estações de correio. Os magnatas da banca parecem temer que o monopólio
do Estado vá encontrar aí uma brecha por onde posa introduzir-se. Mas,
naturalmente, este receio não ultrapassa o âmbito da concorrência a que podem
entregar-se dois chefes de gabinete de uma mesma administração. Com efeito,
por um lado são sempre os mesmos magnatas do capital bancário que, de fato,
dispõem dos milhões confiados às caixas econômicas, e, por outro lado, o
monopólio de Estado, em sociedade capitalista, não é senão um meio de
aumentar e garantir os rendimentos dos milionários à beira da falência em tal ou
tal indústria.
A substituição do velho capitalismo onde reinava a livre-concorrência, por
um novo, onde reina o monopólio, origina, nomeadamente, uma diminuição da
importância da Bolsa. A revista Die Bank escreve: “A Bolsa deixou, há muito
tempo, de ser o indispensável intermediário das trocas que era dantes, quando os
bancos ainda não podiam colocar entre os seus clientes a maior parte dos títulos
emitidos”.
“Todo banco é uma bolsa: este aforismo moderno é tanto mais verdadeiro
quanto mais importante é o banco e quanto maior é o progresso da concentração
nas operações bancárias” (10). “Se dantes, a partir de 1870, a Bolsa, com os seus
excessos de juventude” (alusão “delicada” ao crack bolsista de 1873, aos
escândalos da Grunderzeit, etc.) “tinha inaugurado a época da industrialização na
Alemanha, hoje os bancos, e a indústria, podem encarregar-se, por si, do
24

assunto”. “A supremacia dos novos grandes bancos em relação à Bolsa... não é


mais do que a expressão do Estado industrial alemão plenamente organizado.
Desde logo, se o campo de ação das leis econômicas que atuam
automaticamente se encontra limitado, se o âmbito da regulamentação consciente
pelos bancos se encontra enormemente ampliado, daí resulta que a
responsabilidade, que incumbe a alguns dirigentes, em matéria de economia
nacional, aumenta em vastas proporções”. Isto é escrito pelo professor alemão
Schulze-Gaevernitz (11), esse apologista do imperialismo alemão, considerado
uma autoridade entre os imperialistas de todos os países, e que se dedica a
ocultar um “pormenor”, a saber, que esta “regulamentação consciente” por parte
dos bancos, consiste na espoliação do público por um punhado de monopolistas
“plenamente organizados”. A tarefa do professor burguês não consiste em pôr a
nu todo o mecanismo e em divulgar todas as maquinações dos monopolistas
banqueiros, mas em apresentá-los sob inocentes roupagens.
Do mesmo modo, Riesser, economista e “financista” que possui ainda mais
autoridade, liberta-se da dificuldade com frases respeitantes a fatos que é
impossível negar: “A Bolsa perde, cada vez mais, este caráter absolutamente
indispensável à economia na sua totalidade e à circulação dos valores, caráter
que faz dela não somente o mais preciso dos instrumentos de medida, mas
também um regulador quase automático dos movimentos econômicos que para
ela convergem” (12).
Por outras palavras, o antigo capitalismo, o capitalismo da livre
concorrência, com este regulador absolutamente indispensável que era para ele a
Bolsa, desaparece para sempre. Um novo capitalismo lhe sucede, comportando
manifestos elementos de transição, uma espécie de mistura de livre concorrência
e monopólio. Uma pergunta surge naturalmente: para que tende esta “transição”
que constitui o capitalismo moderno? Porém, os sábios burgueses têm medo de
formular esta pergunta.

(9) Die Bank, 1913, págs. 811 e 1.022; 1014, pág. 713.
(10) Dr. Oscar Stillich: Geld und Bankwesen, Berlim, 1097, pág. 169.
(11) Schulze-Gaevernitz: Die deutsche Kreditbank, in Grundriss der Sozialökonomik,
Tübingen, 1915, pág. 101.
(12) Riesser: op. cit., 4ª. ed., pág. 629.

“Há trinta anos, os empresários emprenhados na livre concorrência


realizavam os 9/10 do esforço econômico que não consistia em trabalho manual
dos ‘operários’. No presente, são funcionários que realizam na economia os 9/10
desde esforço intelectual. Nesta evolução o banco está em primeiro lugar”. Esta
confusão de Schulze-Gaevernitz leva-nos, uma vez mais, a pôr a questão de
saber para que tende este fenômeno transitório que constitui o capitalismo
moderno, chegado à sua fase imperialista.
Os poucos bancos que, graças ao processo de concentração, permanecem
à frente de toda a economia capitalista, tendem, cada vez mais acentuadamente,
para acordos de monopólios, para um truste de bancos. Na América, já não são
nove, mas dois enormes bancos, os dos milionários Rockfeller e Morgan que
reinam sobre um capital de 11 bilhões de marcos. Na Alemanha, a absorção, já
25

assinada por nós, da União de Schaffhausen, pela “Disconto-Gesellschaft”, foi


apreciada pelo Frankfurter Zeitung, órgão a serviço dos interesses da bolsa,
nestes termos:
“O crescente movimento de concentração dos bancos restringe o círculo
dos estabelecimentos aos quais podem, geralmente, dirigir-se as procuras de
crédito, donde resulta uma acentuada dependência da grande indústria face a um
pequeno número de grupos bancários”. A estreita ligação entre a indústria e o
mundo da finança restringe a liberdade de movimentos das sociedades industriais
que têm necessidade de capitais bancários. Também a grande indústria encara
com sentimentos diversos a crescente trustificação (o agrupamento ou a
transformação em trustes); com efeito, podem observar-se freqüentemente
começos de acordos entre consórcios de grandes bancos, acordos tendentes a
limitar a concorrência.
Uma vez mais, a última palavra do desenvolvimento dos bancos é o
monopólio.
No que diz respeito à íntima ligação existente entre os bancos e a indústria
é, talvez neste domínio, que se manifesta com maior evidência o novo papel dos
bancos. Se um banco desconta duplicatas a um industrial, se lhe abre uma conta
corrente, etc., estas operações, enquanto tais, em nada diminuem a
independência deste industrial, e o banco não abandona o seu modesto papel de
intermediário. Porém, se estas operações se multiplicam e ocorrem regularmente,
se o banco reúne, nas suas mãos, enormes capitais, se a escrituração das contas
correntes de uma empresa permite ao banco – e tal é o que sucede – conhecer,
com cada vez maior amplitude e precisão, a situação econômica do cliente, daí
resulta uma dependência, cada vez mais completa, do capitalista industrial em
relação “ao banco”.
Ao mesmo tempo desenvolve-se, por assim dizer, a união pessoal dos
bancos e das grandes empresas industriais e comerciais, a fusão de uns com os
outros, pela compra de ações, pela entrada dos diretores dos bancos nos
conselhos fiscais (ou de administração) das empresas industriais e comerciais e
vice-versa. O economista alemão Jeidels reuniu uma documentação bastante
completa sobre esta forma de concentração dos capitais e das empresas. Os seis
maiores bancos berlinenses estavam representados pelos seus diretores em 344
sociedades industriais e ainda pelos membros dos seus conselhos de
administração em 407, ou seja, num total de 751 sociedades. Em 289 destas
últimas eles tinham ou dois membros nos conselhos fiscais ou a presidência
destes últimos. Estas sociedades estendem-se aos mais diversos domínios do
comércio e da indústria, aos seguros, às vias de comunicação, aos restaurantes,
aos teatros, à produção artística, etc.. Por outro lado, havia (em 1910) nos
conselhos fiscais destes mesmos seis bancos, cinqüenta e um dos maiores
industriais, entre os quais um diretor da firma Krupp, o da grande companhia de
navegação “Hapag” (Hamburgo-América), etc., etc.. De 1895 a 1910 cada um
destes seis bancos participou na emissão de ações e obrigações de centenas de
sociedades industriais, cujo número passou de 281 a 419.
A “união pessoal” dos bancos e das indústrias é completada pela “união
pessoal” de uns e outros com o governo. “Lugares nos conselhos fiscais, escreve
Jeidels, são livremente oferecidos a personalidades do Estado que possam
26

facilitar (!!) consideravelmente as relações com as autoridades”... “Geralmente no


conselho fiscal de um grande banco encontra-se um membro do Parlamento ou
um membro da municipalidade de Berlim”.
Portanto, a estruturação e, por assim dizer, o pôr em marcha dos grandes
monopólios capitalistas, prosseguem a todo o vapor, por todos os meios “naturais”
e “sobrenaturais”. Daí resulta uma divisão sistemática do trabalho entre algumas
centenas de reis de finança da moderna sociedade capitalista:
“Paralelamente a esta expansão do campo de atividade de certos grandes
industriais” (que têm lugar nos conselhos de administração dos bancos, etc.) “e à
atribuição de uma determinada região industrial a diretores provinciais, produz-se
uma espécie de especialização dos diretores dos grandes bancos. Semelhante
especialização só é possível, em geral, nos grandes bancos e, em particular, se
tiverem amplas relações no mundo industrial. Esta divisão do trabalho faz-se em
duas direções: por um lado, todas as relações com a indústria são confiadas à
competência específica de um diretor; por outro lado, cada diretor assume a
fiscalização de empresas particulares, ou de grupos de empresas, cuja produção
ou interesses sejam afins”... (O capitalismo chegou já à fiscalização organizada de
empresas diversas)... “Uns, especializam-se na indústria alemã, às vezes mesmo
unicamente na da Alemanha Ocidental” (a Alemanha Ocidental é aparte mais
industrializada do país); “outros, nas relações com outros Estados e com a
indústria estrangeira, nas informações acerca da personalidade dos industriais,
nas questões relativas à bolsa, etc.. Além disso, a cada diretor de banco é, por
vezes, confiada a gestão de uma região ou de um ramo de indústria; este trabalha
principalmente nos conselhos fiscais das sociedades de eletricidade, aquele outro
nas fábricas químicas, nas fábricas de cerveja ou nas refinarias de açúcar, um
outro, ainda, em algumas empresas que se mantêm isoladas e, ao mesmo tempo,
no conselho fiscal de sociedades de seguros... Numa palavra, é exato que nos
grandes bancos, à medida que aumenta a extensão e a diversidade das suas
operações, se acentua a divisão do trabalho entre os seus diretores com o fim (e
com o resultado) de os instruir, por assim dizer, um pouco para além das
operações meramente bancárias, de os tornar mais aptos a dar pareceres, de os
preparar para atuarem na esfera de influência industrial do banco. Este sistema
dos bancos é completado por uma tendência para eleger para os seus conselhos
fiscais homens que conheçam bem a indústria: industriais, antigos funcionários
escolhidos, principalmente, entre aqueles que serviram na administração da rede
ferroviária, das minas, etc.” (13).
Nos bancos franceses, encontra-se, com pequenas variantes, uma
estrutura administrativa idêntica. O “Crédit Lyonneais”, por exemplo, um dos três
maiores bancos franceses, organizou um serviço especial de estudos financeiros,
que emprega permanentemente mais de cinqüenta engenheiros, especialistas de
estatística, economistas, juristas, etc. e cuja manutenção implica um custo de seis
a sete mil francos por ano. Este serviço, por seu turno, está dividido em oito
seções, das quais está encarregada de recolher informações relativas
especialmente às empresas industriais, estudando a segunda as estatísticas
gerais; a terceira, as companhias ferroviárias e de navegação; a quarta, os fundos;
a quinta, os relatórios financeiros, etc.
27

(13) Jeidels, op. cit., pág. 157.

Daí resulta, por um lado, uma fusão, cada vez mais completa, ou, segundo
a feliz fórmula de N. Boukharine, uma interpretação do capital bancário e do
capital industrial e, por outro lado, a transformação dos bancos em
estabelecimentos que, no sentido mais exato do termo, apresentam “caráter
universal”. Sobre este ponto, julgamos nosso dever citar as próprias palavras de
Jeidels, o autor que melhor estudou a questão:
“O exame das relações industriais, no seu conjunto, permite constatar o
caráter universal dos estabelecimentos financeiros que trabalham para a indústria.
Diferentemente do que sucede com outras formas de bancos, contrariamente às
exigências formuladas algumas vezes por diversos autores, a saber, que os
bancos deveriam especializar-se num domínio, ou numa indústria determinada, a
fim de o terreno não lhes fugir dos pés, os grandes bancos esforçam-se por
multiplicar, o mais possível, as suas relações com as empresas industriais mais
diversas quanto ao lugar e ao gênero de produção, e por fazerem desaparecer,
cada vez mais, as desigualdades na repartição dos capitais entre as diversas
regiões ou ramos da indústria, desigualdades cuja explicação se encontra na
história das diferentes empresas”. “Uma tendência consiste em generalizar a
ligação com a indústria; uma outra em torná-la contínua e intensiva; ambas são
aplicadas senão integralmente pelo menos já em notáveis proporções e em grau
igual pelos seis grandes bancos”.
Ouve-se bastantes vezes os meios industriais e comerciais queixarem-se
do “terrorismo” dos bancos. Será isso de admirar quando os bancos “mandam” da
forma que o exemplo seguinte ilustra? No dia 19 de Novembro de 1901 um dos
bancos D de Berlim (chama-se assim aos quatro grandes bancos cujo nome
começa pela letra D) dirigiu ao Conselho de Administração do Sindicato dos
Cimentos, do Centro-Norte-Oeste alemão, a seguinte carta: “Segundo a nota que
vocês publicaram no dia 18 deste mês em tal jornal, parece que devemos encarar
a eventualidade de ver a próxima assembléia geral do vosso sindicato, marcada
para 30 do corrente, tomar decisões suscetíveis de produzir alterações na vossa
empresa que nós não podemos aceitar. Deste modo, e com grande pesar, vemo-
nos na necessidade de vos recusar, para o futuro, o crédito que vos tinha sido
concedido. Todavia, se esta assembléia geral não tomar decisões para nós
inaceitáveis e se recebermos as desejáveis garantias para o futuro, declaramo-nos
inteiramente dispostos a negociar convosco a abertura de um novo crédito” (14).
Na verdade, surgem-nos aqui, de novo, os queixumes do pequeno capital
oprimido pelo grande, só que desta vez foi todo um sindicato que caiu na categoria
dos “pequenos”! A velha luta entre o pequeno e o grande capital recomeça, mas
num novo grau de desenvolvimento infinitamente superior. É evidente também que
os grandes bancos, dispondo de bilhões, são capazes de acelerar o progresso
técnico através de meios que, de forma alguma, podem comparar-se aos de
outros tempos. Os bancos, por exemplo, fundam sociedades especiais de estudos
técnicos cujos trabalhos beneficiam, bem entendido, apenas as empresas
industriais “amigas”. Entre outras, citemos a “Sociedade para o Estudo das
Ferrovias Elétricas”, o “Gabinete Central de Pesquisas Científicas e Técnicas”,
etc..
28

(14) Dr. Oscar Stillich: Geld und Bankwesen, Berlim, 1907, pág. 148.

Os próprios diretores dos grandes bancos não podem deixar de ver que
novas condições estão em vias de se formarem na economia nacional, mas,
perante elas, mostram-se impotentes:
“Quem”, escreve Jeidels, “ao longo dos últimos anos, observou as
mudanças de pessoas na direção e nos conselhos fiscais dos grandes bancos não
pôde deixar de notar que, pouco a pouco, o poder ia passando para as mãos de
homens que consideram como tarefa indispensável, e casa vez mais premente,
dos grandes bancos, a intervenção ativa no desenvolvimento geral da indústria e
que, entre estes homens e os antigos diretores de bancos surgiam a tal respeito
divergências de ordem profissional e, freqüentemente, também de ordem pessoal.
No fundo, trata-se de saber se os bancos, enquanto estabelecimentos de crédito,
não sofrem um prejuízo ao intervirem no processo da produção industrial, se não
sacrificam os seus sólidos princípios e um lucro certo a uma atividade totalmente
alheia ao seu papel de intermediários do crédito e que os conduz para um terreno
onde ficam ainda mais expostos do que no passado à ação cega da conjuntura
industrial. É o que afirmam numerosos antigos diretores de bancos, mas a maior
parte dos jovens consideram a intervenção ativa nas questões industriais como
uma necessidade, semelhante à que, simultaneamente com o desenvolvimento
atual da grande indústria moderna, suscitou o aparecimento dos grandes bancos e
da empresa bancária industrial atual. As duas partes apenas estão de acordo num
ponto, a saber, que não existem princípios rígidos nem um fim concreto, para a
nova atividade dos grandes bancos” (15).
O antigo capitalismo fez a sua época. O novo constitui uma transição. A
procura de “princípios rígidos e de um fim concreto” com vista a “conciliar” o
“monopólio” e a “livre concorrência” é, evidentemente, uma tentativa votada ao
fracasso. As confissões dos práticos nada se assemelham aos louvores
entusiastas dos apologistas oficiais do capitalismo “organizado”, tais como
Schulze-Gaevernitz, Liefmann e outros “teóricos”.

(15) Jeidels, op. cit., págs. 183-184.

Em que época, exatamente, se impôs, em definitivo, a “nova atividade” dos


grandes bancos? Esta importante questão encontra uma resposta bastante
precisa em Jeidels.
“As ligações das empresas industriais com o seu novo objeto, as suas
novas formas, os seus novos organismos, isto é, com os grandes bancos, tendo
uma organização simultaneamente centralizada e descentralizada, enquanto
fenômeno característico da economia nacional, não são anteriores ao ano de
1890; em certo sentido pode, mesmo, fazer-se remontar este ponto de partida ao
ano de 1897, com as suas grandes ‘fusões’ de empresas que, pela primeira vez e
por razões de política industrial dos bancos, introduzem a nova forma de
organização descentralizada. E pode mesmo fazer-se remontá-lo a uma data
ainda mais recente, pois foi apenas a crise de 1900 que acelerou enormemente o
processo de concentração, tanto da indústria como dos bancos, que lhe garantiu o
29

triunfo definitivo, que pela primeira vez fez desta ligação com a indústria o
verdadeiro monopólio de enormes bancos, que tornou estas ligações
notavelmente mais íntimas e intensivas”.
Deste modo, o séc. XX marca o ponto de partida de viragem em que o
antigo capitalismo deu lugar ao novo, em que o domínio do capital financeiro
substituiu o domínio do capital em geral.

III – O CAPITAL FINANCEIRO E A OLIGARQUIA FINANCEIRA

“Uma parte, sempre crescente, do capital industrial, escreve Hilferding, não


pertence aos industriais que o utilizam. Estes últimos só alcançam a sua
disponibilidade através dos canais do banco que é, para eles, o representante dos
proprietários deste capital. Por outro lado, o banco impõe-se investir na indústria
uma parte, cada vez maior, dos seus capitais. E, assim, o banco torna-se, cada
vez mais, um capitalista industrial. A este capital bancário – isto é, a este capital-
dinheiro – que, assim, se transforma em capital industrial, eu dou o nome de
‘capital financeiro’. O capital financeiro é, portanto, um capital de que os bancos
dispõem e que os industriais utilizam” (1).
Esta definição é incompleta na medida em que silencia um fato da mais alta
importância, a saber, a concentração da produção e do capital, a tal ponto
desenvolvida que ela dá e já deu origem ao monopólio. Porém, toda a exposição
de Hilferding, em geral, e mais particularmente os dois capítulos que precedem
aquele de onde retiramos esta definição, salientam o papel dos monopólios
capitalistas.

(1) R. Hilferding: O Capital Financeiro, Moscou, 1912, págs. 338-339.

Concentração da produção tendo como conseqüência os monopólios;


fusão, ou interpenetração dos bancos com a indústria, eis a história da formação
do capital financeiro e o conteúdo desta noção.
Neste momento impõe-se que, mostremos como, em regime geral de
produção mercantil e de propriedade privada, a “gestão” exercida pelos
monopólios capitalistas fica, inevitavelmente, sob o domínio de uma oligarquia
financeira. Note-se que, os representantes da ciência burguesa alemã – e não
apenas alemã – como Riesse, Schulze-Gaevernitz, Liefmann, etc., são, todos
eles, apologistas do imperialismo e do capital financeiro. Longe de desvendarem o
“mecanismo” da formação desta oligarquia, os seus processos, a grandeza dos
seus rendimentos, “lícitos e ilícitos”, as suas relações com os Parlamentos, etc.,
etc., esforçam-se por ocultá-los e embelezá-los. Iludem-se estas “questões
malditas” por meio de frases tão grandiloqüentes quanto vagas, de apelos ao
“sentido de responsabilidade” dos diretores dos bancos, de elogios ao “sentimento
do dever” dos funcionários prussianos, da análise doutoral das futilidades contidas
nos ridículos projetos de lei de “fiscalização” e de “regulamentação”, por meio de
asneiras teóricas como esta absurda definição “científica” do Professor Liefmann:
“(...) o comércio é uma prática industrial visando reunir os bens, conservá-los e pô-
los à disposição” (2) (os itálicos fortes estão na obra do Professor)... Donde resulta
30

que o comércio existiu entre os homens primitivos, que ainda não praticavam a
troca, e que deve subsistir na sociedade socialista!
Os fatos monstruosos relativos à monstruosa dominação da oligarquia
financeira são, porém, de tal modo patentes que, em todos os países capitalistas,
quer na América, quer em França, quer na Alemanha, apareceu uma literatura
que, embora professando integralmente o ponto de vista burguês, pinta um quadro
aproximadamente exato e formula uma crítica – pequeno-burguesa, é evidente –
da oligarquia financeira.
Na base, encontra-se, primeiramente, o “sistema de participações” acerca
do qual já dissemos algumas palavras. Eis a exposição que dele fez o economista
alemão Heymann que foi um dos primeiros, senão o primeiro, a ocupar-se dele:
“Um diretor controla a sociedade de base (literalmente: “a sociedade-mãe”);
por seu turno aquela reina sobre as sociedades que dependem dela (as
“sociedades-filha”); estas últimas reinam sobre as “sociedades-neta”, etc. É
possível, portanto, dispor da direção principal de imensos domínios da produção
sem possuir um grande capital. Com efeito, se a posse de 50% do capital é
sempre suficiente para controlar uma sociedade por ações, o diretor tem
necessidade apenas de um milhão para poder controlar 8 milhões de capital nas
“sociedades-neta”. E, se este “entrelaçamento” for levado mais longe, é possível
com um milhão controlar dezesseis milhões, trinta e dois milhões etc. (3)

(2) R. Liefmann, op. cit., pág. 476.


(3) Hans Heymann: Die gemischten Werke im deutschen Grosseisengewerke, Stuttgart,
1904, págs. 268-269.

De fato, a experiência mostra que basta possuir 40% das ações para
administrar os negócios de uma sociedade anônima (4), visto que um certo
número de pequenos acionistas disseminados não tem qualquer possibilidade de
participar nas assembléias gerais, etc. A “democratização” da posse das ações, da
qual os sofistas burgueses e os oportunistas pseudo-social-democratas esperam
(ou afiançam que esperam) a “democratização do capital”, a acentuação do papel
e da importância da pequena produção, etc., na realidade não é mais do que um
dos meios de aumentar o poderio da oligarquia financeira. Eis porque, diga-se de
passagem, nos países capitalistas mais evoluídos ou mais antigos e
“experimentados”, o legislador permite a emissão de títulos de reduzido montante.
Na Alemanha, nos termos da lei, uma ação não pode ser de montante inferior a
mil marcos e os magnatas alemães da finança invejam a Inglaterra onde são
permitidas ações de uma libra esterlina (= 20 marcos, cerca de 10 rublos).
Siemens, um dos maiores industriais e “reis da finança” alemães, a 7 de Junho de
1900, afirmava no Reichstag que “a ação de uma livra esterlina constitui a base do
imperialismo britânico” (5). Este negociante tem uma concepção do imperialismo
claramente mais profunda, mais marxista, do que certo autor incongruente, que
passa por fundador do marxismo russo e que julga que o imperialismo constitui
uma tara própria de um determinado povo...

(4) Liefmann: Beteiligungs..., 1ª. ed., pág. 258.


(5) Schulze-Gaevernitz, Grundriss der Sozialökonomik, V, 2, pág. 110.
31

O “sistema de participações”, porém, não serve apenas para aumentar


imensamente o poderio dos monopolistas, mas, além disso, permite levar a cabo
as piores traficâncias e roubar o público impunemente porquanto, sob um ponto de
vista formal, em face da lei, os diretores, dirigentes da “sociedade-mãe”, não são
responsáveis pela filial, considerada como “autônoma” e por intermédio da qual
tudo é possível “fazer desculpar”. Eis um exemplo que retiramos do fascículo, de
Maio de 1914, da revista alemã “Die Bank”:
“A Sociedade Anônima de aço em molas” de Cassel era considerada, ainda
há alguns anos, como uma das empresas alemãs mais rentáveis. Uma má
administração fez com que os seus dividendos baixassem de 15% para zero. A
direção, segundo veio a saber-se, tinha, sem que os acionistas o soubessem, feito
um adiantamento de 6 milhões de marcos a uma das suas sociedades filiais, a
“Hassia” com um capital nominal de apenas algumas centenas de milhares de
marcos. Dos balanços da sociedade-mãe nada constava acerca deste empréstimo
que representava quase o triplo do seu capital-ação. Juridicamente, um tal silêncio
era perfeitamente legal e pôde durar dois anos completos sem que fosse violado
qualquer artigo da legislação comercial. O presidente do Conselho Fiscal que, na
qualidade de responsável, assinava estes balanços falseados, era, e é ainda,
presidente da Câmara de Comércio de Cassel. Os acionistas não tiveram
conhecimento do adiantamento feito à “Hassia” senão muito tempo depois,
quando ele se revelou um erro (o autor teria feito bem se tivesse colocado esta
palavra entre aspas)... e quando as ações do “aço em molas”, após operações de
venda realizadas por aqueles que tinham conhecimento disto sofreram uma baixa
de quase 100% do seu valor...
(...) “Este exemplo, típico dos malabarismos de que são alvo correntemente
os balanços das sociedades por ações mostra-nos a razão por que os seus
conselhos de administração se lançam em negócios arriscados de ânimo muito
mais leve do que os particulares. A técnica moderna dos balanços não só
possibilita ocultar ao acionista médio os riscos assumidos, como permite também
que os principais interessados se furtem às conseqüências de uma experiência
abortada, vendendo a tempo as suas ações; quanto ao empresário privado, esse,
assume a inteira responsabilidade dos seus atos...
Os balanços de numerosas sociedades anônimas lembram esses
palimpsestos da Idade Média, a que era necessário, primeiro, raspar o texto visível
para descobrir, debaixo dele, os sinais que revelavam o texto real do documento”
(um palimpsesto é um pergaminho a que se rasparam os primeiros escritos para
aí se escrever um novo texto).
“O processo mais simples e, por esse fato, freqüentemente mais utilizado
para tornar um balanço indecifrável consiste em dividir uma dada empresa em
várias partes, pela constituição ou fusão de filiais. A vantagem deste sistema em
relação aos fins em vista – legais ou ilegais – é evidente, e de tal modo, que as
sociedades importantes que não o adotam são atualmente casos excepcionais”
(6).
O autor cita, como exemplo, a famosa Sociedade Geral de Eletricidade (a
A.E.G. à qual voltaremos mais adiante), poderosa e monopolista sociedade que,
em larga escala, aplica este sistema. Calcula-se que, em 1912, participava em 175
32

ou 200 outras sociedades que, bem entendido, dominava, abrangendo, no total,


um capital de cerca de 1,5 bilhão de marcos (7).
Todas as regras de controle e de fiscalização, de publicação de balanços,
de fixação de esquemas precisos para estes últimos, etc., tudo isso com que
ocupam a atenção do público os professores e os funcionários bem intencionados
– isto é, tendo a boa intenção de defender e embelezar o capitalismo – perde aqui
todo o seu valor. Com efeito, a propriedade é sagrada, e não se pode impedir
ninguém de comprar, de vender, de trocar ações, de as hipotecar, etc.
Para ajuizarmos do desenvolvimento que o “sistema de participações”
tomou nos grandes bancos russos, basta reportarmo-nos aos dados fornecidos
por E. Agahd que, tendo sido, durante quinze anos, empregado do banco russo-
chinês, publicou, em maio de 1914, uma obra cujo título não é inteiramente exato:
Grandes bancos e mercado mundial (8). O autor divide os grandes bancos russos
em dois grupos principais: a) os que aplicam o “sistema de participações”; b) os
que são “independentes” (embora, arbitrariamente, refira o termo “independência”
aos bancos estrangeiros). O primeiro grupo é subdividido, por ele, em três
subgrupos: 1) com participação alemã; 2) com participação inglesa; 3) com
participação francesa. O que é sinônimo de “participação” e supremacia dos
maiores bancos estrangeiros da nação considerada. Quanto aos capitais dos
bancos, o autor divide-os em capitais para investimento “produtivo” (na indústria e
no comércio) e capitais de “especulação” (consagrados a operações bolsistas e
financeiras), supondo, de acordo com o ponto de vista reformista pequeno-
burguês que lhe é próprio, que é possível, em regime capitalista, distinguir estes
dois tipos de investimento e eliminar o último.
Eis os seus dados:

ATIVO DOS BANCOS (segundo os balanços de Outubro-Novembro de 1913) (milhões em


rublos)
Capitais colocados
Grupos de bancos russos
Produtivamente Especulativamente Total
A1) 4 bancos: Banco Comercial da
Sibéria, Russo, Internacional de
Desconto 413,7 859,1 1272,8
A2) 2 bancos: Industrial e Comercial,
Russo-Inglês 239,3 169,1 408,4
A3) 5 bancos: Russo-Asiático, Privado
de São Petersburgo, Azov-Don, União
de Moscou; Russo-Francês de Comércio 711,8 661,2 1373,0
(11 bancos) Total... a) 1364,8 1689,4 3054,2
b) 8 bancos: do Corpo dos Comerciantes
de Moscou; Volga-Kama, Junker & C.,
Banco de Negócios de São Petersburgo
(ant. Wawelberg), de Moscou (ant.
Riabuchinski), de Desconto de Moscou;
Banco de Negócios de Moscou; e
Privado de Moscou 504,2 391,1 895,3
(19 bancos) Total... 1869,0 2080,5 3949,5

(6) L. Eschwege: Tochtergesellschaften, Die Bank, 1914, I, pág. 545.


33

(7) Kurt Heining: Der Weg des Elektrotrust, Neue Zeit, 1912, 30°. ano, II, pág. 484.
(8) E. Agahd: Grossbanken und Weltmarkt, Berlim, 1914.

Deste modo, e de acordo com estes números, mais de três quartas partes,
dos quase quatro bilhões de rublos que constituem o capital “ativo” dos grandes
bancos, pertencem a bancos que, no fundo, nada mais são do que “filiais” de
bancos estrangeiros, entre os quais, em primeiro lugar, de bancos parisienses.
Exporta os seus capitais, naturalmente, cuida dos seus (do famoso trio: União
Parisiense, Banco de Paris e Países Baixos, Sociedade Geral); berlinenses
(nomeadamente, o Deutsche Bank e o Disconto-Gesellschaft). Dois dos mais
importantes bancos russos, o “Banco Russo” (“Banco Russo para o Comércio
Exterior”) e o “Banco Internacional” (“Banco de S. Petersburgo para o Comércio
Internacional”) de 1906 a 1912, elevaram os seus capitais de 44 para 98 milhões
de rublos e os seus fundos de reservas de 15 para 99 milhões, “trabalhando com
capitais alemães numa proporção de três quartas partes”. A primeira pertence ao
“consórcio berlinense do “Deutsche Bank” e a segunda ao “Disconto-
Gesselschaft”, igualmente berlinense. O excelente Agahd indigna-se,
profundamente, por ver a maioria das ações na detenção de bancos berlinenses, o
que reduz à impotência os acionistas russos. O país que exporta os seus capitais,
naturalmente cuida dos seus interesses. O “Deutsche Bank”, ao introduzir em
Berlim as ações do Banco Comercial da Sibéria, guardou-as em carteira durante
um ano e seguidamente vendeu-as à cotação de 193 por 100, isto é, quase pelo
dobro, “obtendo” assim um benefício de cerca de 6 milhões de rublos a que
Hilferding devia chamar “benefício de fundação”.
O nosso autor avalia em 8.235 milhões de rublos, quase 8,25 milhões, a
“potência” total dos maiores bancos de Petersburgo; quanto à participação” ou, de
forma mais exata, à dominação dos bancos estrangeiros, fixa-a nas seguintes
proporções: bancos franceses, 55%; ingleses, 10%; alemães, 35%. Desta soma
de 8.235 milhões, 3.687 milhões de capitais ativos, ou seja, mais de 40%,
pertencem, segundo os cálculos do autor, aos sindicatos patronais a seguir
mencionados: “Prodougol”, “Prodamet”, sindicatos do petróleo, da metalurgia e
dos cimentos. Graças à formação dos monopólios capitalistas, a fusão do capital
bancário e do capital industrial originou também na Rússia grandes bancos.
O capital financeiro, concentrado em algumas mãos e exercendo um
monopólio de fato, obtém da constituição de firmas, das emissões de títulos, dos
empréstimos ao Estado, etc., enormes lucros, cada vez maiores, consolidando o
domínio das oligarquias financeiras e onerando toda a sociedade com um tributo
em benefício dos monopolistas. Eis um exemplo dos “processos de gestão” dos
trustes americanos, citado por Hilferding, e tomado entre milhares: em 1887, M.
Havemeyer fundava, através da fusão de quinze pequenas sociedades, o truste do
açúcar, cujo capital se elevava a um total de 6,5 milhões de dólares.
Convenientemente “aguado”, segundo a expressão americana, o capital do truste
foi avaliado em 50 milhões de dólares. Esta “recapitalização” levava em conta os
futuros lucros do monopólio, tal como o truste do aço – na América, como sempre
– ao comprar, o mais possível, jazigos de minério, toma em conta os futuros lucros
do monopólio. Ora, o truste do açúcar impôs, efetivamente, os seus preços de
monopólio; isso valeu-lhe um tal lucro que ele pôde pagar 10% de dividendos ao
34

capital sete vezes “aguado”, ou seja, quase 70% do capital efetivamente liberado
quando da fundação do truste! Em 1909, o capital deste truste elevava-se a 90
milhões de dólares. Em vinte e dois anos mais do que decuplicara.
Na França, o reinado da “oligarquia financeira” (Contra a Oligarquia
Financeira, título do famoso livro de Lysis, cuja quinta edição apareceu em 1908)
revestiu uma forma um pouco diferente. No que se refere à emissão de títulos os
quatro maiores bancos dispõem de um monopólio absoluto e não apenas relativo.
Praticamente, constituem um “truste dos grandes bancos”. E o monopólio que
exercem proporciona lucros exorbitantes, quando das emissões. Geralmente, o
país que contrata um empréstimo não recebe mais de 90% do montante deste
último; 10% pertencem aos bancos e aos restantes intermediários. O juro dos
bancos, no empréstimo russo-chinês de 400 milhões de francos, elevou-se a 8%;
no empréstimo russo de 800 milhões, (1904) a 10%; no empréstimo marroquino
de 62.500.000 francos, (1904) a 18.75%. O capitalismo que inaugurou o
desenvolvimento, servindo-se da usura em pequena escala, põe-lhe termo com a
usura em grande escala. “Os franceses, diz Lysis, são os usurários da Europa”.
Todas as condições da vida econômica se modificaram profundamente com esta
transformação do capitalismo. Mesmo que a população se mantenha estacionária,
mesmo que a indústria, o comércio e os transportes marítimos sejam afetados
pela estagnação, o “país” pode enriquecer graças à usura. “Cinqüenta pessoas,
representando um capital de 8 milhões de francos, podem dispor de dois bilhões
colocados em quatro bancos”. O sistema de “participações”, que já conhecemos,
leva ao mesmo resultado: a “Sociedade Geral”, um dos bancos mais poderosos,
emitiu 64.000 obrigações de uma filial – as “Refinarias do Egito”. Sendo o preço de
emissão de 150% o banco ganhou 50 cêntimos por franco. Os dividendos desta
sociedade, porém, revelaram-se fictícios e o “público” perdeu entre 90 a 100
milhões de francos. Um dos diretores da “Sociedade Geral” fazia parte do
Conselho de Administração das “Refinarias do Egito”. Não admira que o autor seja
obrigado a concluir: “A República Francesa é uma monarquia financeira”; “a
onipotência dos novos grandes bancos é absoluta; eles arrastam em sua esteira
os Governos, a imprensa” (9).

(9) Lysis: Contra a Oligarquia Financeira em França, Paris, 1908. 5ª. Ed., págs. 11, 12, 26,
39, 40 e 48.

A excepcional rentabilidade da emissão de títulos, uma das principais


operações do capital financeiro, desempenha um papel muito importante no
desenvolvimento da oligarquia financeira: “Não existe, em todo o país, um único
negócio que dê, sequer aproximadamente, lucros tão elevados como a mediação
para colocação de um empréstimo estrangeiro”, diz a revista alemã Die Bank (10).
“Não existe uma única operação bancária que obtenha lucros tão elevados
como as emissões”. Segundo o “Economista alemão”, os lucros realizados na
emissão de valores industriais foram em média:

- em 1895: 38,6% - em 1898: 67,7%


- em 1896: 36,1% - em 1899: 66,9%
- em 1897: 66,7% - em 1900: 55,2%
35

“Em dez anos, de 1891 a 1900, a emissão de títulos industriais alemães fez
‘ganhar’ mais de um bilhão” (11).
Se, em períodos de expansão industrial, os lucros do capital financeiro são
incomensuráveis, em períodos de depressão as pequenas empresas e as
empresas precárias perecem, e os grandes bancos “participam”, ou na sua
compra por um preço baixo, ou em lucrativos “saneamentos” e “reorganizações”.
No “saneamento” das empresas deficitárias, “o capital-ação é reduzido, o que
significa que os lucros são repartidos por um quantitativo menor de capital e
calculados, conseqüentemente, em conformidade. Ou ainda, se os rendimentos
baixarem a zero, faz-se apelo a novo capital; este, associado ao antigo, que é
menos lucrativo, torna-se desde logo suficientemente rentável. Note-se,
incidentalmente, acrescenta Hilferding, que todos estes saneamentos e
reorganizações têm para os bancos uma dupla importância: primeiro, constituem
uma operação lucrativa e depois uma oportunidade de colocar sob tutela estas
sociedades em apuros” (12).
Um exemplo. A Sociedade Anônima Mineira “União”, de Dortmund, fundada
em 1872 com um capital-ação de aproximadamente 40 milhões de marcos, viu a
cotação das suas ações subir 170% desde que pagou 12% de dividendos no seu
primeiro ano de existência. O capital financeiro zelou pelos seus interesses
ganhando a bagatela de quase 28 milhões de marcos. No ato de fundação desta
sociedade, o papel principal pertencera à “Disconto-Gesselschaft”, aquele mesmo
grande banco alemão que conseguira elevar o seu capitã para 300 milhões de
marcos. Seguidamente, os dividendos da “União” baixaram para zero. Os
acionistas tiveram de consentir na transferência de uma parte dos capitais para
“lucros e perdas”, isto é, tiveram de sacrificar uma parte para não perder o todo. E
foi assim que, em trinta anos, através de uma série de “saneamentos”, mais de 73
milhões de marcos desapareceram dos registros da “União”. Presentemente os
acionistas fundadores desta sociedade têm nas suas mãos apenas 5% do valor
nominal dos seus títulos” (13), mas os bancos não deixaram nunca de “ganhar”
em cada “saneamento”.

(10) Die Bank, 1913, n. 7, pág. 630.


(11) Stilich, op. cit., pág. 143, a W. Sombart: Die deutsche Volkswirtschaft, em 19.
Jährhundert, 2ª. e., 1909, pág. 526, anexo 8.
(12) Hilferding: O Capital Financeiro, pág. 172.
(13) Stillich, op. cit., pág. 138 e Liefmann, pág. 51.

A especulação sobre os terrenos, situados nos arredores das grandes


cidades em pleno desenvolvimento, é também uma operação extremamente
lucrativa para o capital financeiro. Aqui o monopólio dos bancos funde-se com o
da renda predial e o das vias de comunicação, pois a subida do preço dos
terrenos, a possibilidade de os vender vantajosamente por lotes, etc., depende,
sobretudo, da comodidade das comunicações com o centro da cidade, e estas
comunicações estão, precisamente, nas mãos de grandes companhias ligadas a
esses mesmos bancos pelo sistema de participações e pela distribuição dos
lugares de direção. Opera-se aquilo a que o autor alemão L. Eschwege,
36

colaborador da revista Die Bank, o qual estudou, de forma especial, as operações


de venda de terrenos, as hipotecas prediais, etc., chamou o “mar de lama”:
primeiramente, a desenfreada especulação sobre os terrenos suburbanos, as
falências de empresas de construção, tais como a “Boswau & Knauer” de Berlim,
que tinha ganho 100 milhões de marcos por intermédio do “importante e
respeitável” “Deutsche Bank” o qual, atuando, bem entendido, no sistema das
“participações”, isto é, agindo em segredo, na sombra, conseguiu sair do negócio
perdendo “somente” 12 milhões de marcos; seguidamente, a ruína dos pequenos
proprietários e operários que as empresas de construção fictícias deixam sem
pagar; as negociatas fraudulentas com a “leal” polícia e a administração
berlinenses para permitir a saída da municipalidade, de informações respeitantes
a terrenos e autorizações para consumir, etc., etc.. (14)
Os “costumes americanos”, perante os quais os professores europeus e os
burgueses bem-pensantes tão hipocritamente erguem os olhos para o céu,
tornaram-se na época do capital financeiro comuns a toda grande cidade, seja de
que país for.
Em Berlim, no começo de 1914, falava-se da eminente constituição de um
“truste dos transportes”, isto é, de uma “comunidade de interesses” de três
empresas berlinenses de transportes: ferrovia elétrica urbana, sociedade dos
carros elétricos, e sociedade dos ônibus. “Que semelhante intenção existisse,
escrevia-se em Die Bank, nós sabíamos isso desde eu se soube que a maioria
das ações da Sociedade dos Ônibus fora adquirida por outras duas sociedades de
transportes (...). Não poderá pôr-se em dúvida a boa fé dos animadores destes
projetos que esperavam realizar economias, uma parte das quais poderia, em
última análise, beneficiar o público, através de uma regulamentação unificadora
dos transportes. Mas a questão complica-se pelo fato de se encontrarem, por
detrás do truste em formação, bancos que, caso queiram, podem subordinar os
meios de comunicação, que usufruirão em monopólio, aos interesses do seu
comércio de terrenos, para nos convencermos de como tal suposição natural é,
basta recordar que, desde a fundação da Sociedade da Ferrovia Elétrica Urbana,
os interesses do grande banco que a patrocinara achavam-se entrelaçados como
os dela. A saber: os interesses desta empresa de transportes entrelaçam-se com
os interesses do tráfico de terrenos. Com efeito, o traçado desta ferrovia devia
passar pelos terrenos que o banco, uma vez assegurada a construção da linha,
revendeu com um lucro enorme para ele próprio e para certos participantes...”
(15).

(14) Die Bank, 1913, pág. 952, L. Eschwege: Der Sumpf; ibid., 1912, n. 1, pág. 233 e segs.
(15) Verkehrstrust, Die Bank, 1914, I, pág. 89.

O monopólio, logo que tenha se constituído e reúna milhões, penetra


forçosamente em todos os domínios da vida social, independentemente do regime
político e de todas as outras “contingências”. A literatura econômica alemã tem o
hábito de louvar servilmente a integridade dos funcionários prussianos, muito
embora não deixe de fazer alusão ao Panamá francês e à corrupção política
americana. Verdadeiramente, porém, mesmo as publicações burguesas
consagradas aos negócios bancários da Alemanha são obrigadas constantemente
37

a abandonar o domínio das operações puramente bancárias falando, por exemplo,


da “atração exercida pelos bancos” sobre funcionários que, “cada vez com mais
freqüência, passam a servir estes últimos: onde se encontra a integridade dos
funcionários do Estado que, no seu foro íntimo, aspiram a um modesto lugar de
completo repouso na Behrenstrasse?” (16) (rua de Berlim onde se encontra a
sede do “Deutsche Bank”). O editor de Die Bank, Alfred Lansburg, escrevia em
1909 um artigo: “A significação econômica do bizantinismo”, tratando
nomeadamente da viagem de Guilherme II à Palestina e “da sua conseqüência
imediata, a ferrovia de Bagdá”, essa fatal “grande obra do espírito empreendedor
alemão” que fez mais pelo “isolamento” do que todos os nossos pecados políticos
englobados (17) (deve entender-se por “isolamento” a política de Eduardo VII,
tende a isolar a Alemanha por meio do cerco de uma aliança imperialista anti-
alemã). Em 1911, o já mencionado colaborador desta revista, Eschwege,
publicava um artigo intitulado: “A plutocracia e os funcionários” no qual, entre
outros, desmascarava o caso do funcionário alemão Volker que se salientou no
seio da comissão dos cartéis – o Sindicato do Aço. Casos análogos a este, que de
modo algum são produto do acaso, obrigavam o escritor burguês a reconhecer
que “a liberdade econômica garantida pela Constituição alemã, não é já, em
muitos dominós, senão uma frase vazia de sentido” e que, uma vez estabelecida a
dominação de plutocracia nem “mesmo a mais ampla liberdade política poderá
evitar que nos transformemos num povo de homens privados de liberdade” (18).

(16) Der Zug zur Bank Die Bank, 1909, L, pág. 79.
(17) Der Zug zur Bank, Die Bank, cit., pág. 301.
(18) Ibide., 1911, II. Pág. 825; 1913, II, pág. 962.

No que respeita à Rússia, limitar-nos-emos a um único exemplo. Há alguns


anos, correu na imprensa uma notícia dando a público que Davedov, diretor da
Repartição do crédito, abandonava o seu lugar no Estado para entrar ao serviço
de um grande banco; este pagava-lhe salários que, de acordo com o contrato,
deviam em alguns anos elevar-se a mais de um milhão de rublos. A repartição do
crédito é uma instituição cuja tarefa consiste em “coordenar a atividade de todos
os estabelecimentos de crédito do Estado” e que concede aos bancos da capital
subvenções que vão de 800 a 1000 milhões de rublos.
Como era regra geral, o que é próprio do capitalismo é separar a
propriedade do capital da sua utilização na produção; separar o capital-dinheiro do
capital industrial ou produtivo; separar aquele que vive apenas dos rendimentos
obtidos do capital-dinheiro, não só do industrial, como de todos aqueles que
participam diretamente na gestão dos capitais. O imperialismo ou o domínio do
capital financeiro, é aquela fase superior do capitalismo na qual esta separação
atinge vastas proporções. A supremacia do capital financeiro sobre todas as
outras formas do capital significa a hegemonia dos que vivem dos rendimentos e
do oligarca financeiro; significa uma situação privilegiada de um pequeno número
de Estados financeiramente “poderosos” em relação a todos os outros. Pode
avaliar-se a dimensão deste processo através da estatística das emissões, ou
seja, de colocar em circulação títulos de toda a espécie.
38

No Boletim do Instituto Internacional de Estatística, A. Neimarck publicou, a


respeito das emissões de títulos no mundo inteiro, dados muito vastos, completos,
suscetíveis de comparação e freqüentemente reproduzidos fragmentados em
publicações econômicas. Eis os números respeitantes aos últimos quarenta anos:

Total das emissões em bilhões de francos em cada dez anos


- 1871-1880: 76,1 -1891-1900: 100,4
- 1881-1890: 64,5 - 1901-1910: 197,8

Entre 1870 e 1880, o total das emissões aumentou no mundo inteiro


particularmente em conseqüência dos empréstimos resultantes da guerra franco-
prussiana e da “Grunderzeit” que se lhe seguiu na Alemanha. De um modo geral,
durante os últimos trinta anos do séc. XIX as emissões não aumentaram
relativamente muito depressa. No decurso da primeira década do séc. XX, porém,
o aumento progressivo é enorme, quase 100% em dez anos. O começo do séc.
XX marca, deste modo, uma mudança, não só pelo que respeita à extensão dos
monopólios (cartéis, sindicatos, trustes) da qual já falamos, mas também pelo que
respeita ao desenvolvimento do capital financeiro.
Neimarck calcula em cerca de 815 bilhões de francos o total dos valores
emitidos durante 1910 no mundo inteiro. Deduzindo as somas repetidas,
calculadas por estimativa, ele reduz este total à 575 ou 600 bilhões que (supondo-
se o total igual a 600 bilhões) se repartem entre os diversos países como se
segue:

TOTAL DOS VALORES EM 1910


(em bilhões de francos)

Inglaterra 142 Holanda 12,5


Estados Unidos 132 479 Bélgica 7,5
França 110 Espanha 7,5
Alemanha 95 Suíça 6,25
Rússia 31 Dinamarca 3,75
Austro-Hungria 24 Suécia, Noruega,
Itália 14 Romênia, etc. 2,5
Japão 12
TOTAL 600

Estes números, como se vê imediatamente, põem claramente em evidência


os quatro países capitalistas mais ricos, cada um dos quais dispõe de cerca de
100 a 150 bilhões de francos em títulos. Dois destes quatro países – a Inglaterra e
França – são os mais antigos países capitalistas e, tal como veremos, os mais
ricos em colônias; os outros dois – os Estados Unidos e a Alemanha – são os
mais evoluídos pelo rápido desenvolvimento e pelo grau de extensão dos
monopólios capitalistas na produção. No seu conjunto, estes quatro países
possuem 479 bilhões de francos, ou seja, cerca de 80% do capital financeiro
mundial. Quase todo o resto do mundo é, de uma forma ou de outra, devedor e
39

contribuinte destes países, que são os quatro pilares do capital financeiro mundial,
verdadeiramente banqueiros internacionais.
Importa, particularmente, examinar o papel que a exportação de capitais
desempenha na expansão da rede internacional de dependências e relações do
capital financeiro.

IV – A EXPORTAÇÃO DE CAPITAIS

O que caracterizada o antigo capitalismo, onde reinava a livre concorrência,


era a exportação de mercadorias. O que caracteriza o capitalismo atual, onde
reinam os monopólios, é a exportação de capitais.
O capitalismo é produção de mercadorias no grau mais elevado do seu
desenvolvimento, onde a própria força de trabalho se torna mercadoria. O
aumento das trocas, tanto nacionais como, sobretudo, internacionais, é um traço
distintivo, característico do capitalismo. O desenvolvimento desigual, e por saltos,
das diferentes empresas, das diferentes indústrias e dos diferentes países é
inevitável em regime capitalista. A Inglaterra, uma vez tornada capitalista, e tendo
adotado o livre-câmbio, por volta dos meados do séc. XIX, pretendeu
desempenhar o papel de “oficina do mundo inteiro”, de fornecedora de artigos
manufaturados de todos os países que deviam, em troca, abastecê-la de matérias-
primas. Porém, a Inglaterra, a partir do último quartel deste século, começou a
perder este monopólio. Outros países, que se haviam defendido graças a direitos
alfandegários “protetores” tornaram-se, por seu turno, Estados capitalistas
independentes. No limiar do séc. XX, assistiu-se à constituição de um outro
gênero de monopólios: primeiro, associações monopolistas em todos os países de
capitalismo evoluído; em seguida, a situação de monopólio de alguns países muito
ricos, onde a acumulação de capitais atingia enormes proporções. Nos países
avançados formou-se um enorme “excedente de capitais”.
Certamente, não deveria levantar-se a questão do excedente de capitais se
o capitalismo pudesse desenvolver a agricultura, que, atualmente, se atrasa por
toda parte em relação à indústria, se ele pudesse elevar o nível de vida das
massas populares que, a despeito de um vertiginoso progresso técnico,
permanecem por toda a parte oneradas pela subalimentação e pela indigência.
Os críticos pequeno-burgueses do capitalismo utilizam este “argumento” a
propósito de tudo. Mas, se assim fosse o capitalismo não seria capitalismo, porque
a irregularidade do seu desenvolvimento e a subalimentação das massas são
condições e premissas fundamentais, inevitáveis deste modo de produção.
Enquanto o capitalismo continuar capitalismo, o excedente de capitais será
afetado, não para elevar o nível de vida das massas de um dado país pois daí
resultaria uma diminuição de lucros para os capitalistas, mas para aumentar estes
lucros, mediante exportação de capitais para o estrangeiro, para os países
subdesenvolvidos. Aí normalmente os lucros são elevados porquanto escasseiam
os capitais, são relativamente baixos o preço da terra e de igual modo os salários,
e as mercadorias têm também um preço baixo. As possibilidades de exportação
de capital resultam de um certo número de países atrasados serem, desde agora,
arrastados na engrenagem do capitalismo mundial, de aí terem sido construídas
ou estarem em vias de construção grandes ferrovias, de aí se encontrarem
40

reunidas as condições elementares do desenvolvimento industrial, etc.. A


necessidade de exportação dos capitais resulta da “maturidade excessiva” do
capitalismo em certos países, onde (sendo a agricultura atrasada e as massas
miseráveis) o capital carece de colocações “vantajosas”.
Eis os dados aproximados relativos à importância dos capitais colocados
pelos três principais países no estrangeiro:

CAPITAIS INVESTIDOS NO ESTRANGEIRO


(em bilhões de francos)
Anos Pela Inglaterra Pela França Pela Alemanha
1862 3,6 - -
1872 15 10 (1869) -
1882 22 15 (1880) ?
1893 42 20 (1890) ?
1902 62 27-37 12,5
1914 75-100 60 44

Daqui se vê que a exportação de capitais só no início do séc. XX atingiu um


desenvolvimento prodigioso. Antes da guerra, os capitais investidos no estrangeiro
pelos três principais países orçavam entre 175 e 200 bilhões de francos. A uma
taxa de juro, modesta, de 5% deviam render 8 a 10 bilhões de francos por ano.
Sólida base para a opressão e a exploração imperialista da maior parte dos países
e dos povos do mundo, para o parasitismo capitalista de um punhado de Estados
opulentos!
Como se distribuem, entre os diferentes países, estes capitais colocados no
estrangeiro? Para onde vão eles? A esta pergunta só pode dar-se uma resposta
aproximada que, no entanto, é suscetível de tornar patentes certas relações e
vínculos gerais do moderno imperialismo.

CONTINENTES ENTRE OS QUAIS SE REPARTIAM (APROXIMADAMENTE) OS


CAPITAIS INVESTIDOS NO ESTRANGEIRO (POR VOLTA DE 1910)
(em bilhões de marcos)
Inglaterra França Alemanha TOTAL
EUROPA
4 23 18 45
AMÉRICA 37 4 10 51
ÁSIA, ÁFRICA e
AUSTRÁLIA 29 8 7 44

TOTAL 70 35 35 140

Quanto à Inglaterra, estão em primeiro lugar as suas possessões coloniais,


muito grandes, não só na Ásia, mas também na América (por exemplo, o Canadá).
41

Aqui as imensas exportações de capitais estão, antes de mais, estreitamente


ligadas às imensas colônias, de cuja importância para o imperialismo falaremos
mais adiante. Quanto à França as coisas passaram-se de modo diferente. Aqui, os
capitais colocados no estrangeiro são-no, sobretudo na Europa e nomeadamente
na Rússia (10 bilhões de francos pelos menos). Trata-se, principalmente, de
capitais de empréstimo, empréstimos de Estado, e não de capitais investidos em
empresas industriais. Diferentemente do imperialismo colonialista inglês, o
imperialismo francês pode ser qualificado de usurário. A Alemanha oferece-nos
uma terceira variante: as suas colônias são pouco importantes e os seus capitais
colocados no estrangeiro são os que se distribuem pela Europa e pela América de
modo mais igual.
As exportações de capitais influem, acelerando-o poderosamente, no
desenvolvimento do capitalismo nos países para onde são canalizadas. Se,
portanto, até certo ponto, estas exportações são suscetíveis de terem como efeito
um afrouxamento da evolução dos países exportadores isso só sucede desde que
não se desenvolva em profundidade e extensão o capitalismo no mundo inteiro.
Os países exportadores de capitais têm quase sempre a possibilidade de
obter certas “vantagens” cuja natureza revela claramente a originalidade da época
do capital financeiro e dos monopólios. Eis, por exemplo, o que, em Outubro de
1913, se lia na revista berlinense Die Bank:
“De há algum tempo que, no mercado financeiro internacional, se
representa uma comédia digna de um Aristófanes. Numerosos Estados
estrangeiros, desde a Espanha aos Bálcãs, da Rússia à Argentina, do Brasil à
China apresentam nos mercados financeiros não é atualmente nada favorável e
as perspectivas políticas não são radiosas. E, no entanto, nenhum dos mercados
financeiros ousa recusar os empréstimos estrangeiros, temendo que o vizinho,
consentindo o empréstimo, se antecipe e assegure, assim, serviços em troca de
serviços. Com efeito, em operações internacionais deste gênero o mutuante
obtém, quase sempre, qualquer coisa: uma vantagem quando da conclusão de um
tratado de comércio, uma mina de carvão, a construção de um porto, uma
lucrativa concessão, uma encomenda de canhões” (1).
O capital financeiro criou os monopólios. Ora os monopólios introduzem os
seus métodos em toda a parte: no mercado publico a concorrência é substituída
pela utilização de “relações” com vista à obtenção de transações vantajosas.
Antes da concessão de um empréstimo, é vulgar exigir que ele seja utilizado, em
parte, na compra de produtos ao país mutuante, sobretudo em encomendas de
armamentos, de barcos, etc. A França, no decurso destes últimos vinte anos
(1890-1910) recorreu freqüentemente a este processo. Deste modo, a exportação
de capitais torna-se um meio de fomentar a exportação de mercadorias. Nestas
circunstâncias, as transações, particularmente entre empresas importantes,
revestem um caráter tal que, empregando o eufemismo de Schilder (2) “elas
confinam com a corrupção”. Krupp, na Alemanha, Schneider na França, dão-nos
exemplos destas empresas intimamente ligadas a bancos gigantes e ao governo,
não sendo fácil quando se contrai um empréstimo “passar sem elas”.

(1) Die Bank, 1913, n. 2, pág. 1.024.


42

Quando do Tratado de Comércio de 16 de Setembro de 1905 a França,


credora da Rússia, “fez pressão” sobre ela, conseguindo obter certas vantagens
até 1917. Ela procedeu da mesma forma por ocasião do tratado de comércio que
assinou com o Japão em 19 de Agosto de 1911. A guerra aduaneira entre a
Áustria e a Sérvia que durou, salvo uma interrupção de sete meses, de 1906 a
1911, fora, em parte, provocada pela concorrência entre a Áustria e a França para
o fornecimento de material de guerra à Sérvia. Em Janeiro de 1912, Paul
Deschanel declarava na Câmara que as firmas francesas tinham fornecido à
Sérvia, de 1908 a 1911, material de guerra no valor de 45 milhões de francos.
Um relatório do cônsul austro-húngaro em São Paulo (Brasil) diz: “A
construção das ferrovias brasileiras é realizada principalmente com capitais
franceses, belgas, britânicos e alemães. Os países interessados, no decurso das
operações financeiras, ligadas à construção das vias férreas, asseguram-se de
encomendas de materiais de construção”.
Deste modo, o capital financeiro lança, permita-se a expressão, as suas
redes a todos os países do mundo. Os bancos que se constituem nas colônias e
as suas sucursais desempenham, na ocorrência, um importante papel. Os
imperialistas alemães vêem com inveja os “velhos” países colonizadores que, a
este respeito, têm o seu futuro assegurado de maneira particularmente
“vantajosa”: em 1904, a Inglaterra tinha 50 bancos coloniais com 2279 sucursais
(em 1910, tinha 72 com 5449 sucursais); a França tinha 20 com 136 sucursais; a
Holanda 16, com 68 sucursais; enquanto que a Alemanha não tinha “ao todo e por
toda a parte” senão 13 com 70 sucursais (3). Os capitalistas americanos, por seu
turno, invejam seus confrades ingleses e alemães: “Na América do Sul, escreviam
eles profundamente magoados em 1915, cinco bancos alemães têm 40 sucursais
e 5 bancos ingleses têm 70... A Inglaterra e a Alemanha ao longo dos últimos vinte
e cinco anos investiram cerca de 4 bilhões de dólares na Argentina, no Brasil e no
Uruguai, o que fez com que eles beneficiem de 46% do total do comércio destes
três países” (4).
Os países exploradores de capitais partilharam (no sentido figurado da
palavra) o mundo entre si. Mas o capital financeiro conduziu também à partilha
direta do globo.

(2) Schilder, op. cit., págs. 346, 350 e 371.


(3) Riesser, op. Cit., 4ª. ed., pág. 375 e Diouritch, op. Cit., pág. 283.
(4) The Annals of the American Academy of Political and Social Science, vol. LIX, Maio,
1915, pág. 301.
Nesta mesma publicação, na pág. 331, lemos que no primeiro fascículo da revista
financeira Statist, o famoso especialista em estatística Paish calcula a soma do capital exportado
pela Inglaterra, pela Alemanha, França, Bélgica e a Holanda em 40 bilhões de dólares, ou seja,
200 bilhões de francos.

V – A PARTILHA DO MUNDO ENTRE OS GRUPOS CAPITALISTAS

Antes de mais, os grupos de monopólios capitalistas-cartéis, sindicatos,


trustes – partilham o mercado interno entre si, assegurando-se da posse, mais ou
menos absoluta, de toda a produção do seu país. Porém, em regime capitalista, o
mercado interno liga-se necessariamente ao mercado externo. Há muito que o
43

capitalismo criou um mercado mundial.E, à medida que aumentava a exportação


de capitais e se ampliavam, por todas as formas, as relações com o estrangeiro e
com as colônias, assim como as “zonas de influência” dos maiores grupos
monopolistas, as coisas encaminhavam-se “naturalmente” para um acordo
universal entre estes últimos, para a formação de cartéis internacionais.
Este novo grau de concentração, à escala de todo o mundo, do capital e da
produção é infinitamente mais elevado do que o de períodos anteriores. Vejamos
como se forma este super-monopólio.
A indústria de eletricidade caracteriza melhor do que qualquer outra os
modernos progressos da técnica, o capitalismo do fim do século XIX e o do
começo do século XX. Ela desenvolveu-se, sobretudo, nos dois, mais evoluídos,
novos países capitalistas: os Estados Unidos e a Alemanha. Na Alemanha, a
concentração foi, neste setor, particularmente acelerada pela crise de 1900. Nesta
época, os bancos, já bastante ligados à indústria, precipitaram e acentuaram, no
mais elevado grau, a ruína das empresas relativamente pouco importantes e a sua
absorção pelas grandes empresas. “Recusando todo auxílio às empresas que
tinham, precisamente, mais necessidade de capitais, os bancos, escreve Jeidels,
provocaram, primeiro, uma expansão prodigiosa, depois a lamentável falência das
sociedades que não se encontravam intimamente ligadas a eles” (1).
Resultado: a partir de 1900, a concentração progrediu a passos de gigante.
Até 1900, na indústria de eletricidade tinham existido 7 ou 8 “grupos”, cada um dos
quais era constituído por várias sociedades (um total de 28) e era apoiado por
bancos em número de 2 a 11. Por volta de 1908-1912 todos estes grupos se
tinham fundido, vindo a constituir apenas dois, e até um só. Eis como:

Grupos na indústria de eletricidade


União
Schuckert e Cª

A. E. G. Bergmann Kummer
Guilhaume

Siemens e

Até 1900
Lahmeyer
Felten e

Halske

Felten A. E. G. Siemens e Bergmann Faliu


e Sociedade Geral Halske- em 1900
Lahmeyer de Eletricidade - Sehuckert

A. E. G. (Sociedade Geral Siemens e Halske-


de Eletricidade) - Sehuckert

Cerca de 1912
[<<Cooperação>> íntima a partir de 1908]

No termo deste desenvolvimento, a famosa A. E. G. (Sociedade Geral de


Eletricidade) controla 175 a 200 sociedades (de acordo com o sistema de
“participações”) e dispõe ao todo de um capital de cerca de 1,5 bilhão de marcos.
As suas representações diretas no estrangeiro, só por si, são em mais de 10
países em número de 34, das quais 12 sociedades por ações. Os capitais
44

investidos pela indústria alemã de eletricidade desde 1904 no estrangeiro eram


avaliados em 233 milhões de marcos, dos quais 62 milhões na Rússia. Inútil será
dizer que a “Sociedade Geral de Eletricidade” é uma imensa empresa “integrada”
(só as suas sociedades industriais são em número de 16) produzindo os mais
variados artigos desde cabos isoladores até automóveis e aparelhos voadores.

(1) Jeidels, op. cit., pág. 232.

Mas a concentração operada na Europa constituiu também parte integrante


do processo de concentração da América. Eis como isso se fez:

Companhia Geral de Eletricidade (General Eletric Co.)

Estados Unidos: A Companhia Thompson A Companhia Edison cria para a


- Houston cria uma firma para a Europa Europa a Sociedade francesa
Edison, que cede as suas patentes
Alemanha: à firma alemã
Cª. União de Eletricidade Sociedade Geral de Eletricidade
(A. E. G.)

SOCIEDADE GERAL DE ELETRICIDADE (A.E.G.)

Assim se constituíram duas “potências” da indústria de eletricidade. “No


mundo não existem outras sociedades de eletricidade que sejam inteiramente
independentes delas”, escreve Heinig no seu artigo “Os caminho do truste da
eletricidade”. Os números seguintes dão-nos uma idéia, ainda que muito
incompleta, do volume dos negócios e da importância das empresas dos dois
trustes:

Volume de Negócios Número de pessoas Lucros líquidos (em


(em milhões de empregadas milhões de marcos)
marcos)
Estados Unidos:
General Eletric C°
(G.E.C.) 1907 252 28.000 35,4
1910 298 32.000 45,6
Alemanha:
Sociedade Geral
de Eletricidade
(A.E.G.) 1907 216 30.700 14,5
1911 362 60.800 21,7
45

E eis que, em 1907, os trustes americano e alemão celebram um acordo


para partilha do mundo. A concorrência entre eles cessa. A G.E.C. “recebe” os
Estados Unidos e o Canadá; a A.E.G. “obtém” a Alemanha, a Áustria, a Rússia, a
Holanda, a Dinamarca, a Suíça, a Turquia, e os Bálcãs. Acordos especiais,
secretos, naturalmente, regulam a atividade das filiais, que penetram nos novos
ramos da indústria e nos países “novos” que, formalmente, ainda não estão
abrangidos pela partilha. Institui-se uma troca de experiências e invenções (2).
Compreende-se toda a dificuldade da concorrência perante este truste,
praticamente único e mundial, que dispõe de um capital de vários bilhões e tem
“sucursais”, representações, agências, relações, etc. em todas as partes do globo.
Contudo, esta partilha do globo entre dois poderosos trustes não exclui
certamente uma nova partilha, no caso da relação de forças vir a modificar-se (em
conseqüência de uma desigualdade no desenvolvimento, de guerras, de falências,
etc.).
A indústria do petróleo dá-nos um exemplo significativo de uma tentativa de
nova partilha deste gênero, de luta por esta nova partilha.
“O mercado mundial do petróleo, escrevia em 1905 Jeidels, ainda hoje está
repartido entre dois grandes grupos financeiros: a “Standard Oil Company”, de
Rockefeller, e os senhores do petróleo russo de Baku: Rothschild e Nobel. Os dois
grupos estão certamente ligados; mas, o seu monopólio está, desde há vários
anos, ameaçado por cinco “inimigos” (3): 1) o esgotamento dos recursos
petrolíferos norte-americanos; 2) a concorrência da firma Mantashév, de Baku; 3)
as fontes de petróleo da Áustria e 4) as da Romênia; 5) as fontes de petróleo do
ultramar, nomeadamente, as das colônias holandesas (as riquíssimas firmas
“Samuel” e “Shell”, ligadas também ao capital inglês). Os três últimos grupos de
empresas estão ligados aos grandes bancos alemães, tendo à frente o poderoso
“Deutsche Bank”. Estes bancos financiam, sistemática e automaticamente a
indústria do petróleo, por exemplo, na Romênia, visando obter “o seu próprio”
ponto de apoio. Em 1907, a soma dos capitais estrangeiros investidos na indústria
romena do petróleo elevava-se a 185 milhões de francos, dos quais 74 milhões
eram provenientes da Alemanha (4).
Viu-se começar, então, o que na literatura econômica se chama uma luta
pela “partilha do mundo”. De um lado, a “Standard Oil” de Rockefeller, querendo
possuir tudo, fundou, na própria Holanda, uma sociedade filial, adquirindo as
fontes petrolíferas das Índias Holandesas e procurando, assim, atingir o seu
inimigo principal – o truste anglo-holandês da “Shell”. Por seu turno, o “Deutsche
Bank” e os outros bancos berlinenses procuraram, contra Rockefeller, “guardar” a
Romênia e associá-la à Rússia. Este último dispunha de capitais infinitamente
superiores e de uma excelente organização para o transporte do petróleo e para a
sua entrega aos consumidores. A luta tinha de terminar e terminou efetivamente,
em 1907, pela derrota total do “Deutsche Bank” que se viu colocado perante a
alternativa: ou liquidar os seus “interesses petrolíferos” perdendo milhões, ou
submeter-se. Foi esta última solução que adotou; um contrato bastante
desvantajoso para o “Deutsche Bank” foi concluído coma “Standard Oil” pelo qual
aquele se obrigava “a nada empreender que pudesse prejudicar os interesses
americanos”; contudo, uma cláusula previa a anulação do contrato no caso de a
Alemanha adotar, por via legislativa, o monopólio de Estado sobre o petróleo.
46

(2) Riesser, op. cit.; Diouritch, op. cit., pág. 239; Kurt Heinig, artigo cit.
(3) Jeidels, pág. 193.
(4) Diouritch, op. Cit., pág. 245.

Começa, então, a “comédia” do “petróleo”. Um dos reis da finança, Von


Gwinner, diretor do “Deutsche Bank”, desencadeia, por intermédio do seu
secretário particular Stauss, uma campanha a favor do monopólio dos petróleos. A
formidável máquina do grande banco de Berlim, com as suas vastas “relações” é
posta em marcha; a imprensa, delirante, redobra de clamores “patrióticos” contra o
“jugo” do truste americano, e, a 15 de Março de 1911, o Reichstag aprova, quase
por unanimidade, uma moção, convidando o Governo a apresentar um projeto de
monopólio do petróleo. O Governo apropria-se desta idéia “popular” e o “Deutsche
Bank”, que queria lograr o seu associado americano e melhorar a sua situação
graças ao monopólio de Estado, parecia ganhar a partida. Os magnatas alemães
do petróleo sonhavam antecipadamente já com lucros fabulosos que em nada
deviam ser inferiores aos dos magnatas russos do açúcar... Porém, em primeiro
lugar, os grandes bancos alemães desentenderam-se quanto à partilha deste bolo,
e a “Discont-Gesellschaft” desvendou os fins interessados do “Deutsche Bank”;
em seguida, o Governo teve medo, ante a idéia de travar luta contra Rockefeller,
pois era bastante duvidoso que a Alemanha pudesse chegar a obter petróleo sem
contar com este último (dado que a produção romena era pouco importante).
Finalmente (1913) foi concedido o crédito de um bilhão destinado aos preparativos
de guerra na Alemanha e o projeto de monopólio ficou abandonado. A “Standard
Oil” de Rockefeller saía, momentaneamente, vitoriosa da luta.
A revista berlinense Die Bank dizia, a este respeito, que a Alemanha só
poderia combater a “Standard Oil”, criando o monopólio da energia elétrica e
transformando a força hidráulica em eletricidade a baixo preço. Porém,
acrescentava o autor do artigo, “o monopólio da eletricidade surgirá no momento
em que os produtores tenham necessidade dele, isto é, quando a indústria de
eletricidade estiver à beira de uma nova grande falência; no momento em que as
gigantescas, e tão custosas centrais elétricas, atualmente construídas por toda a
parte por ‘consórcios’ privados da indústria de eletricidade e em virtude do que tais
‘consórcios’ vêem desde agora serem-lhes concedidos pelas cidades, pelo
Estado, etc., certos monopólios, não mais possam trabalhar em condições
lucrativas. Desde logo, é preciso ter acesso às forças hidráulicas. Porém, à custa
do Estado, não será possível transformá-las em eletricidade a baixo preço; uma
vez mais será preciso confiá-las a um ‘monopólio privado controlado pelo Estado’,
dado que a indústria privada já concluiu uma série de acordos e obteve
importantes privilégios... Assim sucedeu com o monopólio da potassa; assim
sucede com o do petróleo; assim sucederá da mesma forma com o monopólio da
eletricidade. Os nossos socialistas de Estado, que se deixam cegar por belos
princípios, deviam compreender finalmente que na Alemanha, os monopólios
jamais tiveram por fim ou por resultado proporcionar vantagens aos consumidores
ou mesmo deixar ao Estado uma parte dos lucros da empresa, mas serviram
sempre para sanear, às custas do Estado, a indústria privada cuja falência
estivesse iminente” (5).
47

Eis as preciosas confissões que os economistas burgueses da Alemanha


se vêem obrigados a fazer. Elas mostram claramente que, na época do capital
financeiro, os monopólios privados e os monopólios do Estado, se interpenetram,
não sendo mais do que elos da luta imperialista entre os maiores monopólios pela
partilha do mundo.
Na marinha mercante, o desenvolvimento prodigioso da concentração
igualmente levou à partilha do mundo. Na Alemanha, vêem-se, em primeiro plano,
duas poderosas sociedades: a “Hamburg-America” e a Nord-Deutsche-Lloyd”
tendo cada uma delas um capital de 200 milhões de marcos (ações e obrigações)
e possuindo barcos a vapor num valor de 185 a 189 milhões de marcos. Por outro
lado, na América, no dia 1 de Janeiro de 1903, formou-se um truste de Morgan, a
“Companhia Internacional do Comércio Marítimo” que reuniu nove companhias de
navegação americanas e inglesas e dispunha de um capital de 120 milhões de
dólares (480 milhões de marcos). A partir de 1903, os colossos alemães e este
truste anglo-americano concluíram um acordo para partilha do mundo em
conformidade com a partilha dos lucros. As sociedades alemãs renunciavam a
fazer concorrência ao seu rival nos transportes entre a Inglaterra e a América.
Nele especificava-se a quem seria “atribuído” tal ou tal porto, criava-se um comitê
misto de controle, etc. O contrato era celebrado por vinte anos, com esta
cautelosa reserva, a de que, em caso de guerra, perderia a validade (6).

(5) Die Bank, 1912, n. 1, pág. 1.036; 1912, n. 2, pág. 629; 1913, n. 1, pág. 388.
(6) Riesser, op. Cit., pág. 125.

Extremamente significativa é igualmente a história da criação do cartel


internacional de carris de ferro. Foi em 1884, no momento de uma grave
depressão industrial, que as fábricas de carris inglesas e alemães fizeram uma
primeira tentativa para constituir este cartel. Elas acordaram em não concorrerem
no mercado interno dos países abrangidos pelo acordo e partilharam o mercado
interno dos países abrangidos pelo acordo e partilharam o mercado externo, como
se segue: Inglaterra – 66%; Alemanha – 27%; Bélgica – 7%. A Índia foi atribuída
toda ela à Inglaterra. Tendo uma firma inglesa ficado fora do cartel, travou-se
contra ela uma luta comum cujas despesas foram cobertas por uma percentagem
deduzida antecipadamente do total das vendas efetuadas. Mas, em 1886, quando
duas firmas inglesas saíram do cartel, este naufragou. Fato característico: o
entendimento não pôde subsistir nos períodos posteriores à expansão industrial.
No começo de 1904, é fundado na Alemanha um sindicato do aço. Em
Novembro de 1904, o cartel internacional dos caris reconstituiu-se como se segue:
Inglaterra, 53,5%; Alemanha, 28,83%; Bélgica, 17,67%. Seguidamente, a França
aderiu a ele com 4,8%, 5,8% e 6,4%, para além de 100%, ou seja, para um total
de 104,8%, etc., respectivamente no primeiro, segundo e terceiro anos.
Por seu turno, em 1905, a “Steel Corporation” americana aderia a ele e,
seguidamente, a Áustria e a Espanha. “No momento atual, escrevia, em 1910,
Vogelstein, a partilha do mundo está terminada, e os grandes consumidores, em
primeiro lugar a rede ferroviária do Estado, pode, uma vez que o mundo está já
partilhado e que não se tomaram em conta os seus interesses, habitar, como o
poeta, nos céus de Júpiter” (7).
48

Mencionemos ainda o sindicato internacional do zinco, fundado em 1909,


que, justamente, partilhou o volume da produção entre cinco grupos de fábricas:
alemães, belgas, francesas, espanholas, inglesas; depois, o truste internacional de
pólvoras, acerca do qual Liefmann diz que constitui “uma estreita aliança,
perfeitamente moderna, entre todas as fábricas alemãs de explosivos, que, com
as fábricas francesas e americanas de dinamite, organizadas da mesma maneira,
partilharam, por assim dizer, o mundo inteiro” (8).
Ao todo, Liefmann, em 1907, inventariava cerca de quarenta cartéis
internacionais em eu a Alemanha participava e por volta de 1910 cerca de uma
centena.

(7) Vogelstein: Organisationsformern, pág., 100.


(8) Liefmann: Kartelle und Trusts, 2ª. Ed., pág. 161.

Certos autores burgueses (aos quais acaba de juntar-se K. Kautsky, que


renegou completamente a sua posição marxista, nomeadamente a de 1909)
exprimiram a opinião de que os cartéis internacionais, uma das mais acentuadas
expressões da internacionalização do capital, permitiram ter a esperança de que a
paz há de reinar entre os povos em regime capitalista. Do ponto de vista teórico,
esta opinião é inteiramente absurda; e do ponto de vista prático, é um sofisma e
um meio de defesa desonesto, do pior oportunismo. Os cartéis internacionais
mostram até que ponto se desenvolveram atualmente, os monopólios capitalistas.
Este último ponto é essencial. Só ele nos revela o sentido histórico e econômico
dos acontecimentos, pois, enquanto as formas de luta podem mudar e mudam
constantemente por diversas razões, relativamente temporárias e particulares, a
essência da luta, o seu conteúdo de classe não poderá verdadeiramente mudar
enquanto existirem classes. Compreende-se que interesse, por exemplo, à
burguesia alemã, à qual Kautsky aderiu finalmente através dos seus
desenvolvimentos teóricos (voltaremos a este assunto mais adiante), camuflar o
conteúdo da atual luta econômica (a partilha do mundo) e salientar ora uma, ora
outra, destas formas de luta. Kautsky comete o mesmo erro. E, evidentemente, o
que está em jogo não é a burguesia alemã mas a burguesia mundial. Se os
capitalistas partilham o mundo, tal sucede não em virtude de sua particular
maldade, mas porque o grau de concentração já atingido os obriga a
comprometerem-se nesta via a fim de obterem lucros; e partilham-no
“proporcionalmente aos capitais”, “segundo as forças de cada um, porque em
regime de produção mercantil e de capitalismo, não poderia existir qualquer outro
modo de partilha. Ora, as forças mudam com o desenvolvimento econômico e
político; para a compreensão dos acontecimentos é necessário saber que
problemas são equacionados pela alteração da relação de forças; quanto a saber
se estas alterações são “puramente” econômicas ou extra-econômicas (militares,
por exemplo) eis aí uma questão secundária, que em nada pode modificar o ponto
de vista fundamental acerca da moderna época do capitalismo. Substituir a
questão do conteúdo das lutas e transações entre grupos capitalistas pela questão
da forma destas lutas e destas transações (hoje pacífica, amanhã não pacífica,
depois de amanhã de novo não pacífica) é rebaixar-se à tarefa de sofista.
49

A época do capitalismo moderno mostra-nos que entre os grupos


capitalistas se estabelecem certas relações baseadas sobre a partilha econômica
do mundo e que, paralela e conseqüentemente, se estabeleceram entre os grupos
políticos, entre os Estados, relações baseadas na partilha territorial do mundo, na
luta pelas colônias, na “luta pelos territórios econômicos”.

VI – A PARTILHA DO MUNDO ENTRE AS GRANDES POTÊNCIAS

No seu livro, A extensão territorial das colônias européias, o geógrafo A.


Supan (1) dá um rápido resumo desta extensão pelos fins do séc. XIX:

Percentagem dos territórios pertencentes às potências colonizadoras européias e


aos Estados Unidos
1876 1900 Diferença
ÁFRICA 10,8% 90,4% + 79,6%
POLINÉSIA 56,8% 98,9% + 42,1%
ÁSIA 51,5% 56,6% + 5,1%
AUSTRÁLIA 100,0% 100,0% -
AMÉRICA 27,5% 27,2% - 0,3%

“O traço característico deste período, conclui ele, é, portanto, a partilha da


África e da Polinésia”. Como já não existem na Ásia e na América mais territórios
desocupados, isto é, não pertencentes a qualquer Estado, torna-se necessário
ampliar a conclusão de Supan, dizendo que o traço característico do período
considerado é a partilha definitiva do globo, definitiva não no sentido de que seja
impossível uma nova partilha – sendo pelo contrário possíveis e inevitáveis novas
partilhas – mas no sentido de que a política colonial dos países capitalistas pôs
termo à conquista dos territórios desocupados do nosso planeta. Pela primeira
vez, o mundo se encontra inteiramente partilhado de tal modo que, no futuro,
unicamente se poderá pôr a questão de novas partilhas, isto é, da transmissão de
um “possuidor” para outro e não da “tomada de posse” de territórios sem dono.

(1) A. Supan: Die territoriale Entwickung der auropaischen Kolonien, 1906, pág. 254.

Atravessamos, assim, um período original da política colonial mundial


intimamente ligada à “mais recente fase do desenvolvimento capitalista”, a do
capital financeiro. Para bem compreendermos a situação atual e aquilo que
individualiza esta época sem precedentes importa também e antes de tudo,
dedicarmo-nos a um estudo aprofundado dos dados de fato. Primeiramente, duas
questões práticas: na época do capital financeiro verificar-se-á, precisamente, uma
acentuação da política colonial, um agravamento da luta pelas colônias? E de que
modo, precisamente, se encontra, sob este aspecto, partilhado o mundo
atualmente?
50

Na sua História da Colonização, o autor americano Morris (2) tenta


comparar os dados referentes à extensão das possessões coloniais da Inglaterra,
da França, e da Alemanha nos diversos períodos do séc. XIX. Eis,
resumidamente, os resultados que obtém:

POSSESSÕES COLONIAIS

Inglaterra França Alemanha

População (em

População (em

População (em
Superfície (em

Superfície (em

Superfície (em
quadradas)

quadradas)

quadradas)
milhões de

milhões de

milhões de
milhões)

milhões)

milhões)
milhas

milhas

milhas
1815 – 1830 ? 126,4 0,02 0,5 - -
1860 2,5 145,1 0,2 3,4 - -
1880 7,7 267,9 0,7 7,5 - -
1889 9,3 309,0 3,7 56,4 1,0 14,7

Para a Inglaterra, o período de prodigiosa expansão das conquistas


coloniais situa-se entre 1860 e 1890, sendo ainda muito intensa nos últimos vinte
anos do séc. XIX. Para a França e Alemanha são, sobretudo, estes vinte anos que
contam. Vimos, anteriormente, que o capitalismo pré-monopolista, o capitalismo
em que predomina a livre concorrência atingiu o limite do seu desenvolvimento
entre 1860 e 1880; ora, agora vemos que é precisamente após este período que
se inicia “o esforço” prodigioso das conquistas coloniais, que se torna infinitamente
mais acerba a luta pela partilha territorial do mundo. É, pois, indubitável que a
passagem do capitalismo ao seu estádio monopolista, ao do capital financeiro, se
encontra relacionada com o agravamento da luta pela partilha do mundo.

(2) Henry c. Morris: The History of Colonisation, Nova York, 1900, Vol. II, pág. 88; vol. I,
pág. 419; vol. II, pág. 304.

Na sua obra sobre o imperialismo Hobson caracteriza o período entre 1884


e 1900 como o de uma intensa “expansão” dos principais Estados europeus.
Segundo os seus cálculos, a Inglaterra durante este período adquiriu um território
de 3,7 milhões de milhas quadradas com uma população de 57 milhões de
habitantes; a França, 3,6 milhões de milhar quadradas com 14,7 milhões de
habitantes; a Bélgica, 900.000 milhar quadradas com 30 milhões de habitantes;
Portugal, 800.000 milhas quadradas com 9 milhões de habitantes. A caça às
colônias empreendida por todos os Estados capitalistas, no fim do séc. XIX, e,
sobretudo, a partir de 1880, é um fato universalmente conhecido na história da
diplomacia e da política externa.
51

Na Inglaterra, entre 1840 e 1870, em pleno apogeu da livre concorrência, os


dirigentes políticos burgueses do país eram contra a política colonial,
considerando a emancipação das colônias, a sua completa separação da
Inglaterra, como algo útil e inevitável. Num artigo sobre o “Imperialismo Britânico
Contemporâneo” (3), publicado em 1898, M. Beer informa que um homem de
Estado, como Disraeli, tão inclinado, para mais não dizermos, à realização de uma
política imperialista, declarava em 1852: “As colônias são mós dependuradas ao
nosso pescoço”. Porém, no fim do séc. XIX, os homens do dia na Grã-Bretanha
era Cecil Rhodes e Joseph Chamberlain que claramente propagandeavam o
imperialismo e que, com o maior cinismo, punham em prática a sua política!

(3) Die Neue Zeit, XVI ano, n. 1, 1898, pág. 304.

Não deixa de ter interesse constatar que estes dirigentes políticos da


burguesia inglesa viam desde essa época claramente a relação existente entre,
por assim dizer, as raízes puramente econômicas e as raízes sociais e políticas do
imperialismo contemporâneo. Chamberlain pregava o imperialismo como uma
“política autêntica, sábia e parcimoniosa” insistindo, sobretudo, sobre a
concorrência que a Alemanha, a América, e a Bélgica faziam à Inglaterra, no
mercado mundial. A salvação está nos monopólios, diziam os capitalistas,
fundando cartéis, sindicatos e trustes. A salvação está no monopólios, repetiam os
chefes políticos da burguesia, apressando-se a apoderar-se das partes do mundo
ainda não partilhadas. O jornalista Stead, amigo íntimo de Cecil Rhodes, conta
que aquele lhe dizia, em 1895, a propósito das suas concepções imperialistas:
“Ontem estive em East-End (bairro operário de Londres) e assisti a uma reunião
de desempregados. Ouvi discursos inflamados. Tudo se resumia num grito: ‘Pão!
Pão!’. Ao reentrar em casa e revivendo toda a cena senti-me, mais do que dantes,
convencido da importância do imperialismo... A idéia que mais me acode ao
espírito é a solução do problema social, a saber: ‘nós, os colonizadores, devemos,
para salvar os quarenta milhões de habitantes do Reino Unido de uma mortífera
guerra civil, conquistar novas terras a fim de aí instalarmos o excedente da nossa
população, de aí encontrarmos novos mercados para os produtos das nossas
fábricas, e das nossas minas. Se quereis evitar a guerra civil é necessário que vos
torneis imperialistas’” (4).
Assim falava, em 1895, Cecil Rhodes, milionário, rei da finança, o principal
responsável da guerra anglo-boer. Porém, se é certo, que a sua defesa do
imperialismo era um pouco grosseira, cínica, a verdade é que, quanto ao fundo,
ela não se distingue da teoria de M. M. Marlov, Sudekum, Potressov, David, do
fundador do marxismo russo, etc., etc.. Cecil Rhodes era muito simplesmente um
social-chauvinista um pouco mais honesto...
Para dar um quadro tão preciso quanto possível da partilha territorial do
mundo e das alterações operadas em tal domínio durante estas últimas décadas
nos beneficiaremos dos dados fornecidos por Supan, na já citada obra acerca das
possessões coloniais de todas as potências do mundo. Supan considera os anos
de 1876 e 1900. Nós tomamos como termos de comparação os anos de 1876,
escolhido de forma bastante feliz, pois é por esta época que na Europa Ocidental
se pode considerar finalmente como acabado o desenvolvimento do capitalismo
52

pré-monopolista, e o de 1914, substituindo os números de Supan, por aqueles


mais recentes que constam dos Quadros de geografia e estatística de Hubner.
Supan estuda apenas as colônias; nós julgamos útil, para que seja completo o
quadro da partilha do mundo, acrescentar-lhe informações sumárias acerca,
também, dos países não coloniais e dos países semi-coloniais, entre os quais
incluímos a Pérsia, a China e a Turquia. Presentemente, a Pérsia é, quase
inteiramente, uma colônia; a China e a Turquia estão em vias de o ser.
Eis os resultados que obtemos:

POSSESSÕES COLONIAIS DAS GRANDES POTÊNCIAS


(em milhões de km² e milhões de habitantes)

Colônias
1876 1914
km² Hab. km² Hab.
INGLATERRA 22,5 251,9 33,5 393,5
RÚSSIA 17,0 15,9 17,4 33,2
FRANÇA 0,9 6,0 10,6 55,5
ALEMANHA - - 2,9 12,3
ESTADOS UNIDOS - - 0,3 9,7
JAPÃO - - 0,3 19,2
TOTAL para as 6
grandes potências 40,4 273,8 65,0 523,4

METRÓPOLES TOTAL
1914 1914
km² Hab. km² Hab.
INGLATERRA 0,3 46,5 33,8 440,0
RÚSSIA 5,4 136,2 22,8 169,4
FRANÇA 0,5 39,6 11,1 95,1
ALEMANHA 0,5 64,9 3,4 72,2
ESTADOS UNIDOS 9,4 97,0 9,7 106,7
JAPÃO 0,4 53,0 0,7 72,2
TOTAL para as 6
grandes potências 16,5 437,2 81,5 960,6

km² Hab.
Colônias de outras potências
9,9 45,3
(Bélgica, Holanda, etc.)
Semi-colônias 14,5 361,2
Outros países 28,0 289,9
TOTAL DO GLOBO 133,9 1651,0
53

Este quadro mostra-nos, claramente, que, no limiar do século XIX estava


“terminada” a partilha do mundo. A partir de 1876 as possessões coloniais
aumentaram em proporções gigantescas: elas passaram de 40 a 65 milhões de
quilômetros quadrados, o que significa que para as seis maiores potências se
tornaram vez e meia mais importantes. O aumento é de 25 milhões de quilômetros
quadrados o que significa que excede em metade a superfície das metrópoles
(16,5 milhões). Em 1876 três potências não tinham qualquer colônia, e uma
quarta, a França, quase não possuía colônias. Por volta de 1914, estas quatro
potências readquiriram 14,1 milhões de quilômetros quadrados de colônias, ou
seja, uma superfície quase vez e meia maior que a da Europa, com uma
população aproximadamente de 100 milhões de habitantes. A desigualdade da
expansão colonial é muito grande. Se compararmos, por exemplo, a França, a
Alemanha e o Japão, países cuja superfície e população não diferem de forma
muito sensível, verifica-se que o primeiro destes países adquiriu quase três vezes
mais colônias (quanto à superfície) do que os outros dois tomados em conjunto.
Porém, a França, no período considerado, era, atendendo também ao capital
financeiro, talvez várias vezes mais rica do que a Alemanha e o Japão em
conjunto. As condições estritamente econômicas não são as únicas que
influenciam o aumento das possessões coloniais; também as condições
geográficas e outras desempenham o seu papel. Por muito importante que, ao
longo das últimas décadas, tenha sido o nivelamento do mundo, a equiparação
das condições e do nível de vida que se produziram nos diferentes países sob a
pressão da grande indústria, das trocas e do capital financeiro não é menos certo
que subsistem notáveis diferenças e que, entre os seis países supracitados, se
vêem, por um lado, jovens Estados capitalistas (América, Alemanha, Japão) que
progridem com extrema rapidez e, por outro lado, velhos países capitalistas
(França, Inglaterra) que, nos últimos tempos, se desenvolvem muito mais
lentamente do que os precedentes; finalmente, um país que, sob o ponto de vista
econômico, é dos mais atrasados (Rússia) e onde o imperialismo capitalista
moderno está, por assim dizer, envolvido por uma malha particularmente apertada
de relações pré-capitalistas.
Ao lado das possessões coloniais das grandes potências colocamos as
colônias de fraca extensão dos pequenos Estados, as quais, poderia dizer-se, são
o próximo objetivo de uma possível e provável “nova partilha” das colônias. A
maior parte destes pequenos Estados conserva as suas colônias graças apenas
às oposições de interesses, às fricções, etc., entre as grandes potências que
impedem que cheguem a acordo quanto à partilha do bolo. No que respeita aos
Estados “semi-coloniais”, eles nos oferecem um exemplo das formas transitórias
que se encontram em todos os domínios da natureza e da sociedade. O capital
financeiro é um fator, poderíamos dizer, tão poderoso, tão decisivo, em todas as
relações econômicas e internacionais que é capaz de subordinar, e subordina
efetivamente, até mesmo Estados que gozam de uma completa independência
política. Em breve, veremos exemplos disto. Porém, naturalmente aquilo que dá
ao capital financeiro as maiores “comodidades” e as maiores vantagens é uma
submissão tal, que implica, para os países e povos em causa a perda da sua
independência política. A este respeito, os países semi-coloniais constituem casos
típicos, na medida em que são uma solução “intermédia”. Compreende-se que a
54

luta em torno destes países semi-subjugados se agravasse particularmente na


época do capital financeiro, quando o resto do mundo já estava partilhado.
A política colonial e o imperialismo já existiam antes da fase contemporânea
do capitalismo e mesmo antes do capitalismo. Roma, alicerçada na escravatura,
levava a cabo uma política colonial e praticava o imperialismo. Mas os raciocínios
“de ordem geral” sobre o imperialismo que negligenciam ou relegam para segundo
plano a diferença essencial entre as formações econômicas e sociais, degeneram,
infalivelmente, em banalidades ocas ou em jactâncias, como a comparação entre
a “Grande Roma e a Grã-Bretanha” (5). A própria política colonial do capitalismo,
nas fases anteriores a ele, distingue-se funcionalmente da política colonial do
capital financeiro.
O que caracteriza particularmente o capitalismo atual é o domínio dos
grupos monopolistas constituídos por grandes empresários. Estes monopólios
tornam-se sólidos, sobretudo, quando reúnem apenas em suas mãos todas as
fontes de matérias-primas e nós vimos com que ardor os grupos monopolistas
internacionais dirigem os seus esforços no sentido de arrancarem ao adversário
toda a possibilidade de concorrência, de se apoderarem, por exemplo, das jazidas
de ferro ou de petróleo, etc. Somente a posse de colônias dá ao monopólio
completas garantias de sucesso face a todas as eventualidades da luta contra os
seus rivais, mesmo na hipótese de estes últimos ousarem defender-se com uma
lei que estabeleça o monopólio de Estado. Quanto mais o capitalismo se
desenvolve, mais se faz sentir a falta de matérias-primas, mais dura se torna a
concorrência e a procura de fontes de matérias-primas no mundo inteiro e mais
brutal é a luta pela posse de colônias.

(5) C. P. Lucas: Greater Rome and Greater Britain, Oxford, 1912 ou Earl of Cromer:
Ancient and modern imperalism, Londres, 1910.

“Podemos mesmo arriscar, escreve Schilder, a afirmação de que a ninguém


parecerá paradoxal, que por exemplo, o aumento da população urbana e
industrial, num futuro mais ou menos próximo, possa ser entravado muito mais
pela falta de matérias-primas industriais do que pela falta de produtos
alimentares”. E é assim que cada vez mais se faz sentir a falta de madeira, cujo
preço sobe sem cessar, a falta de couro, a falta das matérias-primas necessárias
para a indústria têxtil. “Os grupos industriais esforçam-se por equilibrar a
agricultura e a indústria no quadro da economia mundial; a título de exemplo, pode
referir-se, a União Internacional das Associações dos Fabricantes de Tecidos de
Algodão existente desde 1904 em várias grandes indústrias, e a União Européia
das Associações dos Fabricantes de Tecidos de Linho, fundada sobre o mesmo
modelo em 1910” (6).
Naturalmente, os reformistas burgueses e, entre eles, sobretudo os
kautskistas dos nossos dias, tentam atenuar a importância destes fatos, dizendo
que “seria possível”, sem política colonial, “dispendiosa e perigosa”, procurar
matérias-primas no mercado livre, e que “seria possível” aumentar em proporções
gigantescas a oferta de matérias-primas, graças a uma “simples” melhoria das
condições da agricultura em geral. Estas declarações, porém redundam na
apologia do imperialismo, na sua idealização, pois silenciam a particularidade
55

essencial do capitalismo contemporâneo: os monopólios. O mercado livre cada


vez mais se distancia no passado; os sindicatos e os trustes monopolistas limitam-
no a cada dia que passa. E, a “simples” melhoria nas condições da agricultura
reduz-se à melhoria da situação das massas, à alta dos salários e à diminuição
dos lucros. Mas existirão, para lá da imaginação dos suaves reformistas, trustes
capazes de se preocuparem com a situação das massas em vez de pensarem na
conquista de colônias?

(6) Schilder, op. Cit., págs. 38 a 42.

O capital financeiro não se interessa apenas pelas fontes de matérias-


primas já conhecidas. Ele interessa-se igualmente pelas fontes possíveis; com
efeito, nos nossos dias, a técnica desenvolve-se com uma rapidez incrível e os
territórios hoje inutilizados, podem amanhã tornar-se utilizáveis graças a novos
processos (para tal efeito, um grande banco pode organizar uma expedição
especial de engenheiros, de agrônomos, etc.) graças ao investimento de capitais
importantes. O mesmo sucede com a prospecção de riquezas minerais, com os
novos processos de tratamento e utilização de tais ou tais matérias-primas, etc.,
etc. Donde a inevitável tendência do capital financeiro para alargar o seu território
econômico e até o seu território em geral. Tal como os trustes capitalizam o seu
ativo avaliando-o duas ou três vezes acima de seu valor, contabilizando as suas
“possíveis” valorizações no futuro (e não as suas valorizações atuais), tendo em
conta os posteriores resultados do monopólio, assim também o capital financeiro
tem geralmente tendência para controlar o maior número possível de terras sejam
elas quais forem e estejam elas onde estiverem e sejam quais forem os meios,
esperando descobrir aí fontes de matérias-primas e receando ficar para trás na
encarniçada luta pela partilha das últimas parcelas ainda não partilhadas ou pela
“nova partilha” das parcelas já partilhadas.
Os capitalistas ingleses na sua colônia do Egito, põem tudo em ação, para
desenvolver a cultura do algodão que, em 1904, ocupava já 0,6 milhões de 2,3
milhões de hectares cultivados, ou seja, mais de um quarto. Os russos fazem o
mesmo na sua colônia do Turquestão. Com efeito, uns e outros podem assim
vencer mais facilmente os seus concorrentes estrangeiros, alcançar mais
facilmente a monopolização das fontes de matérias-primas, a criação de um truste
têxtil de produção integrada, mais econômico e mais vantajoso, que controlaria ele
só todas as fases da produção e tratamento do algodão.
A exportação de capitais também tem interesse na conquista de colônias,
pois no mercado colonial (por vezes, é mesmo o único terreno onde tal coisa é
possível) é mais fácil eliminar um concorrente pelos processos monopolísticos,
garantir uma encomenda, consolidar as necessárias “relações”, etc.
A superestrutura extra-econômica que se ergue, alicerçada no capital
financeiro, assim como a política, a ideologia deste último, reforçam a tendência
para as conquistas coloniais. “O capital financeiro quer, não a liberdade, mas o
domínio” diz muito corretamente Hilferding. E, desenvolvendo e completando de
algum modo os ideais de Cecil Rhodes, que já referimos, um autor burguês
francês escreve que às causas econômicas da política colonial dos nossos dias,
se torna necessário acrescentar causas sociais: “As crescentes dificuldades da
56

vida que pesam não só sobre as multidões operárias, como também sobre as
classes médias, fazem acumular, em todos os países da velha civilização,
impaciências, rancores, ódios, ameaçadores para a paz pública; energias que
importa canalizar, desviando-as do seu meio social, empregando-as em qualquer
grande obra no seu meio social, empregando-as em qualquer grande obra no
exterior (7) se quisermos impedir que expludam no interior”.
Desde o momento em que, na época do imperialismo capitalista, se põe a
questão da política colonial, deve notar-se que o capital financeiro e a política
internacional que com ele se conforma e que se reduz à luta pela partilha
econômica e política do mundo entre as grandes potências, criam entre os
Estados diversas formas transitórias de dependência. Esta época não se
caracteriza apenas pelos dois principais grupos de países: possuidores de
colônias e colonizados, mas ainda por variadas formas de países dependentes
que, gozando nominalmente de independência política, na realidade, estão presos
nas redes de uma dependência financeira e diplomática. Já indicamos uma destas
formas: as semi-colônias. Eis uma outra da qual por exemplo, a Argentina, nos
oferece o modelo.

(7) Wahl: A França nas Colônias; cit. Por H. Russier: A Partilha da Oceania, Paris, 1905,
pág. 165.

“A América do Sul e nomeadamente a Argentina, escreve Schulze-


Gaevernitz, na sua obra sobre o imperialismo britânico, está perante Londres
numa tal dependência financeira que quase poderíamos chamar-lhe colônia
comercial na Inglaterra” (8). Os capitais colocados pela Grã-Bretanha na Argentina
eram calculados por Schilder, segundo as informações do cônsul austro-húngaro
em Buenos Aires, para 1909, em 8 bilhões e 750 milhões de francos. Sem custo
se imagina como isso assegura ao capital financeiro – e à sua fiel “amiga”, a
diplomacia – da Inglaterra sólidas relações com a burguesia da Argentina com os
meios dirigentes de toda a vida econômica e política deste país.

(8) Schulze-Gaevernitz: Britischer Imperialism und englischer Freihandel zu Beginn dês 20-
ten Jahrhunderts, Leipzig, 1906, pág. 318. Sartorius von Waltershausen utiliza a mesma linguagem
no seu livro: Das volkswirtschafliche System der Kapitalangage im Auslande, Berlim, 1907, pág. 46.

Portugal dá-nos um exemplo, de uma forma um pouco diferente, de


dependência financeira e diplomática, associada à independência política.
Portugal é um Estado soberano, independente, mas, de fato, desde há mais de
duzentos anos, desde a Guerra da Sucessão da Espanha (1701/1714) que se
encontra sob protetorado britânico. A Inglaterra defendeu Portugal e as suas
possessões coloniais visando fortalecer as suas próprias posições na luta contra
os seus adversários – a Espanha e a França. Em troca, recebeu vantagens
comerciais, privilégios para as suas exportações de mercadorias e, sobretudo, de
capitais para Portugal e as suas colônias, o direito de utilizar os portos e as ilhas
de Portugal, os seus cabos telegráficos, etc., etc. (9). Relações deste tipo entre
pequenos e grandes Estados sempre existiram, mas, na época do imperialismo
capitalista, tornam-se um sistema geral, fazem parte integrante do conjunto das
57

relações que regem a “partilha do mundo”, formam elos da cadeia de operações


do capital financeiro mundial.
Para pôr termo à questão da partilha do mundo falta-nos observar ainda o
seguinte. A literatura americana nos dias que se seguiram à guerra hispano-
americana, e a literatura inglesa após a guerra anglo-boer não foram as únicas a
pôr muito clara e abertamente a questão da partilha do mundo, justamente no fim
do séc. XIX e no começo do séc. XX. E a literatura alemã que tão “invejosamente”
observou de perto “o imperialismo britânico” não foi também a única a formular,
acerca deste fato, um julgamento sistemático. Igualmente, na literatura burguesa
francesa, a questão é posta de uma maneira suficientemente clara e ampla, pelo
menos, tanto quanto isso é possível fazer-se, partindo de um ponto de vista
burguês. Referimo-nos ao historiador Driault que, no seu livro Problemas políticos
e sociais do fim do séc. XIX, no capítulo relativo às grandes potências e à partilha
do mundo, se exprimiu nestes termos: “Nestes últimos anos, ressalvando a China,
todos os lugares vagos no globo foram aprisionados pelas potências da Europa ou
da América do Norte: produziram-se alguns conflitos e alguns deslocamentos de
influências, precursores das mais terríveis e próximas convulsões. Com efeito, é
preciso andar depressa: as nações que estão abastecidas arriscam-se a jamais o
estar e a não tomar parte na gigantesca exploração do globo que será um dos
fatos essenciais do próximo século – o séc. XX. Eis porque toda a Europa e a
América foram recentemente agitadas pela febre da expansão colonial, do
‘imperialismo’ que é a característica mais notável do fim do séc. XIX”. E o autor
acrescentava: “Nesta partilha do mundo, nesta ardente corrida aos territórios e aos
grandes mercados da terra a importância relativa dos Impérios fundados neste
século – século XX – não está de modo algum em proporção com o lugar que as
nações que o fundaram ocupam na Europa. As potências que preponderam na
Europa, que presidem aos seus destinos, não são preponderantes de igual modo
no mundo. E como a grandeza colonial, promessa de riqueza ainda não avaliadas
se repercutirá, evidentemente, sobre a importância relativa dos Estados europeus,
a questão colonial, ou preferindo-se, o ‘imperialismo’ modificou já e modificará
cada vez mais as condições políticas da própria Europa” (10).

(9) Schilder, op. Cit., págs. 160-161.


(10) J. E. Driault: Problèmes politiques et sociaux, Paris, 1907, pág. 299.

VII – O IMPERIALISMO, FASE PARTICULAR DO CAPITALISMO

Neste momento, precisamos tentar fazer um balanço, de dar a síntese


daquilo que dissemos antes acerca do imperialismo. O imperialismo surgiu como
desenvolvimento e seqüência direta das propriedades essenciais do capitalismo
em geral. Simplesmente, o capitalismo só se transformou no imperialismo
capitalista num dado momento, muito elevado, do seu desenvolvimento, quando
certas características fundamentais do capitalismo começaram a transformar-se
nos seus contrários, quando se formaram e se revelaram plenamente os traços de
uma época de transição do capitalismo para um regime econômico, existe de
essencial neste processo é a substituição da livre concorrência capitalista pelos
monopólios capitalistas. A livre concorrência constitui o traço essencial do
58

capitalismo e da produção mercantil em geral; o monopólio é exatamente o


contrário da livre concorrência; mas nós vimos esta última converter-se, sob os
nossos olhos, em monopólio, criando nela a grande produção, eliminando dela a
pequena, substituindo a grande por uma ainda maior, levando a concentração da
produção e do capital a um ponto tal que fez e faz surgir os monopólios: os cartéis,
os sindicatos patronais, os trustes, e fundindo-se com eles, os capitais de uma
dezena de bancos que reúnem bilhões. Ao mesmo tempo, os monopólios não
eliminam a livre concorrência de que nasceram: eles existem acima e ao lado
dela, implicando assim contradições, fricções, conflitos particularmente agudos e
violentos. O monopólio constitui a passagem do capitalismo a um regime superior.
Se tivéssemos de definir o imperialismo da forma mais breve possível,
diríamos que ele é a fase monopolista do capitalismo. Esta definição englobaria o
essencial, porque, por um lado, o capital financeiro é o resultado da fusão do
capital de alguns grandes bancos monopolistas com o capital de grupos
monopolistas de industriais; e, por outro lado, porque a partilha do mundo é a
transição da política colonial que se estende sem obstáculos ás regiões ainda não
apropriadas por qualquer potência capitalista, para a política colonial da posse
monopolizada de territórios de um globo inteiramente partilhado.
Porém, as definições muito breves, ainda que cômodas porque resumem o
essencial, são, no entanto, insuficientes quando se pretendem salientar nelas
traços bastante importantes do fenômeno que queremos definir. Sem
esquecermos também o que há de convencional e relativo em todas as definições
genéricas, que nunca podem abarcar os múltiplos aspectos de um fenômeno na
totalidade do seu desenvolvimento, então devemos dar uma definição do
imperialismo que englobe os seguintes cinco caracteres fundamentais:
1) concentração da produção e do capital atingindo um grau de
desenvolvimento tão elevado que origina os monopólios cujo papel é decisivo na
vida econômica;
2) fusão do capital bancário e do capital industrial, e criação, com base
nesse “capital financeiro”, de uma oligarquia financeira;
3) diferentemente da exportação de mercadorias, a exportação de capitais
assume uma importância muito particular;
4) a formação de uniões internacionais monopolistas de capitalistas que
partilham o mundo entre si;
5) termo da partilha territorial do globo entre as maiores potências
capitalistas.
O imperialismo é o capitalismo chegado a uma fase de desenvolvimento
onde se afirma a dominação nos monopólios e do capital financeiro, onde a
exportação dos capitais adquiriu uma importância de primeiro plano, onde
começou a partilha do mundo entre os trustes internacionais e onde se pôs termo
à partilha de todo o território do globo, entre as maiores potências capitalistas.
Veremos mais adiante outra definição do imperialismo que se pode e deve
dar, se tivermos em vista não apenas as noções fundamentais de natureza
puramente econômica (às quais se limita a definição dada), mas também o lugar
histórico que, em relação ao capitalismo em geral, ocupa a sua atual fase, ou
ainda a relação existente entre o imperialismo e as duas tendências essenciais do
movimento operário. O que, desde já, se impõe salientar é que o imperialismo,
59

compreendido no sentido indicado, representa inegavelmente uma fase particular


do desenvolvimento do capitalismo. A fim de que o leitor fizesse uma idéia
suficientemente fundamentada do imperialismo, preocupamo-nos em citar, o mais
freqüentemente possível, a opinião de economistas burgueses obrigados a
reconhecer fatos assentes, absolutamente indiscutíveis, da economia capitalista
moderna. Foi com o mesmo fim que fornecemos estatísticas detalhadas que
permitem ver até que preciso ponto se desenvolveu o capital bancário, etc., em
que se traduziu, exatamente, a transformação da quantidade em qualidade, a
passagem do capitalismo evoluído ao imperialismo. Evidentemente, seria inútil
dizer que todos os limites são, na natureza e na sociedade, convencionais e
móveis; seria absurdo discutir, por exemplo, a questão de saber em que ano ou
em que década se situa a “definitiva” instauração do imperialismo.
Mas, a propósito da definição de imperialismo o que importa, sobretudo é
discutir com K. Kautsky, o principal teórico marxista da época, conhecida por II
Internacional, ou seja, dos vinte e cinco anos compreendidos entre 1889 e 1914.
Kautsky, em 1915, e até mesmo desde Novembro de 1914, ergueu-se
resolutamente contra as idéias fundamentais contidas na nossa definição de
imperialismo, declarando que por imperialismo é preciso não entender uma “fase”
ou um degrau da economia, mas uma política, uma política determinada, mas
precisamente a que “prefere” o capital financeiro, e, precisando, que não poderá
“identificar” o imperialismo com o “capitalismo contemporâneo”, que, se é
necessário entender por imperialismo “todos os fenômenos do capitalismo
contemporâneo” – cartéis, protecionismo, supremacia dos financistas, política
colonial – então a questão da necessidade do imperialismo para o capitalismo
reduzir-se-á à “mais completa tautologia” pois, então, “resulta por si que o
imperialismo é uma necessidade vital para o capitalismo”, etc.. Nós não
poderíamos exprimir melhor o pensamento de Kautsky do que citando a sua
definição de imperialismo dirigida em linha reta contra a essência das idéias que
expusemos (já que as objeções provenientes do campo dos marxistas alemães
que professaram este gênero de idéias durante toda uma série de anos são,
desde há muito, conhecidas de Kautsky como objeções, de uma determinada
corrente, ao marxismo).
A definição de Kautsky é a seguinte:
“O imperialismo é um produto do capitalismo industrial altamente evoluído.
Ele consiste na tendência que tem cada nação capitalista industrial para anexar ou
submeter regiões agrárias sempre maiores (o itálico é de Kautsky), quaisquer que
sejam os povos que as povoam” (1).
Esta definição não vale absolutamente nada, pois ela põe em destaque
unilateralmente, isto é, arbitrariamente apenas a questão nacional (aliás altamente
importante em si mesma e em suas relações com o imperialismo), relacionando-a,
de maneira arbitrária e inexata e arbitrária, a anexação das regiões agrárias.
O imperialismo é uma tendência para anexações: eis ao que se reduz a
parte política da definição de Kautsky. Ela é correta, mas muito incompleta,
porque, politicamente, o imperialismo tende, de uma maneira geral, para a
violência e a reação. Porém, o que nos interessa aqui é o aspecto econômico da
questão, aquele aspecto que o próprio Kautsky introduz na sua definição. As
inexatidões de Kautsky saltam á vista. O que é característico do imperialismo não
60

é de modo algum o capital industrial, mas justamente o capital financeiro. Não é


por acaso que, na França, o desenvolvimento particularmente rápido do capital
financeiro, coincidente com o enfraquecimento do capital industrial, tem, desde os
anos de 1880-1890, acentuado consideravelmente a política anexionista (colonial).
O imperialismo caracteriza-se justamente por uma tendência para anexar não
apenas as regiões agrárias, mas até as regiões mais industriais (a Bélgica é
cobiçada pela Alemanha; a Lorena pela França), em primeiro lugar porque,
estando terminada a partilha do mundo, uma nova partilha obriga a lançar mão de
não importa que territórios; em segundo lugar, porque o constitui a própria
essência do imperialismo é a rivalidade entre várias grandes potências com vista à
hegemonia, isto é, à conquista de territórios – não tanto por eles próprios como
para enfraquecer o adversário e minar a sua hegemonia (a Bélgica é necessária,
sobretudo à Alemanha como ponto de apoio contra a Inglaterra; a Inglaterra tem
necessidade, sobretudo de Bagdá como ponto de apoio contra a Alemanha, etc.).

(1) Die Neue Zeit, 1914, II (32º. Ano), pág. 909, 11-Setembro-1914. Ver igualmente, 1915,
II, págs. 107 e segs.

Kautsky cita mais particularmente e em repetições freqüentes os ingleses


que, segundo parece, formularam o sentido puramente político da palavra
“imperialismo” no sentido em que Kautsky a emprega. Consideremos a obra do
inglês Hobson, O Imperialismo, aparecida em 1902:
“O novo imperialismo distingue-se do antigo, em primeiro lugar, porque
substitui as tendências de um único Império em expansão pela teoria e prática de
impérios rivais cada um dos quais orientando-se por idênticas aspirações no
sentido da expansão política e do lucro comercial; em segundo lugar, porque
acentua a preponderância dos interesses financeiros, ou respeitantes aos
investimentos de capitais, em relação aos interesses comerciais (2)”.
Deste modo, vê-se que, no plano dos fatos, Kautsky não tem qualquer
razão quando invoca a opinião dos ingleses em geral (a menos que se queira
referir aos imperialistas vulgares ou aos apologistas diretos do imperialismo). Vê-
se que Kautsky, ao pretender continuar a defender o marxismo, na realidade dá
um passo atrás em relação ao social-liberal Hobson o qual, de forma mais exata,
toma em consideração duas particularidades “histórico-concretas” (Kautsky na sua
definição zomba precisamente do caráter histórico-concreto!) do moderno
imperialismo: 1) a concorrência de vários imperialismos; e 2) a supremacia do
financista sobre o comerciante. Ora, atribuindo um papel essencial à anexação
dos países agrários pelos países industriais atribui-se o papel predominante ao
comerciante.
A definição de Kautsky é não só falsa como não-marxista. Como se verá
mais adiante ela serve de base a um sistema geral de pontos de vista que
rompem, em toda a linha, com a teoria marxista e com a prática marxista. Kautsky
levanta uma questão de palavras inteiramente fútil: a nova fase do capitalismo
deve designar-se como imperialismo ou como fase do capital financeiro? Chame-
se-lhe como se quiser: isso não tem importância. O essencial é que Kautsky
separa, no imperialismo, a política da economia, pretendendo que as anexações
são a política uma outra política burguesa, pretensamente possível, baseada
61

sempre no capital financeiro. Daí resulta que os monopólios são compatíveis


economicamente com um comportamento político que eliminaria o monopólio, a
violência e a conquista. Daí resulta que a partilha territorial do mundo, concluída
precisamente na época do capital financeiro, e que constitui a base das atuais e
originais formas de rivalidades entre os maiores Estados capitalistas, é compatível
com uma política não imperialista. Isto leva a ocultar, a tornar menos perceptíveis
as contradições da atual fase do capitalismo em vez de lhes desvendar a
profundidade. Em vez de marxismo chega-se assim ao reformismo burguês.

(2) Hobson: Imperialismo, Londres, 1902, pág. 324.

Kautsky discute com Cunow, apologista alemão do imperialismo e das


anexações, cujo raciocínio, tão cínico quanto vulgar, é o seguinte: o imperialismo é
o capitalismo contemporâneo; o desenvolvimento do capitalismo é inevitável e
progressivo; logo, o imperialismo é progressivo; logo, é necessário nos curvarmos
diante dele e glorificá-lo! É qualquer coisa no gênero da caricatura que os
populistas faziam dos marxistas russos nos anos de 1894-1895: se os marxistas,
diziam eles, consideram o capitalismo na Rússia como um fenômeno inevitável e
um fator de progresso abram-lhe um estabelecimento de bebidas e tratem de
implantar o capitalismo. Kautsky objeta a Cunow: não, o imperialismo não é o
capitalismo contemporâneo; ele é somente uma das formas da sua política; e nós
podemos e devemos combater esta política, combater o imperialismo, as
anexações, etc..
A réplica parece perfeitamente plausível. Mas, de fato, ela equivale a uma
propaganda mais sutil, melhor disfarçada (e, portanto, mais perigosa) tendente à
conciliação com o imperialismo; com efeito, se a “luta” contra a política dos trustes
e dos bancos não atingir as suas bases econômicas ela reduzir-se-á a um
reformismo e a um pacifismo burguês, a piedosos e inofensivos desejos. Iludir as
contradições existentes, esquecer as mais essenciais em vez de lhes desvendar
toda a profundidade, eis ao que conduz a teoria de Kautsky que nada tem de
comum com o marxismo. Compreende-se que uma tal “teoria” sirva apenas para
defender a unidade com os Cunow!
“Do ponto de vista puramente econômico, escreve Kautsky, não é
impossível que o capitalismo venha a atravessar ainda uma nova fase onde a
política dos cartéis seja alargada à política externa, uma fase de ultra-
imperialismo” (3) isto é, de super-imperialismo, de união, e não de luta entre os
imperialismos do mundo inteiro, uma fase sem guerras em regime capitalista, uma
fase “de exploração em comum do universo pelo capital financeiro associado à
escala internacional” (4).

(3) Die Neue Zeit, 1914, II, (32º. Ano), pág. 921, de 11-Set.-1914. Ver igualmente 1915, II,
págs. 107 e segs.

Mais adiante, teremos de deter-nos nesta “teoria do ultra-imperialismo” para


mostrarmos detalhadamente até que ponto ela rompe, resoluta e definitivamente
com o marxismo. Neste momento e de acordo com o plano geral desta exposição,
impõe-se que lancemos uma olhada sobre os dados econômicos exatos, relativos
62

a esta questão. “Do ponto de vista puramente econômico” o “ultra-imperialismo”


será possível ou será antes uma ultra-tolice?
Se, por ponto de vista puramente econômico, se entende uma “pura”
abstração, então tudo o que se poderá dizer relaciona-se com a seguinte tese: o
desenvolvimento atua no sentido dos monopólios e, conseqüentemente, no
sentido de um monopólio universal, de um único truste mundial. Isso constitui um
fato incontestável, mas também uma afirmação absolutamente carecida de
conteúdo, tal como o seria a que consistisse em afirmar que “o desenvolvimento
se faz no sentido” da produção de gêneros alimentícios em laboratório. Neste
sentido, a “teoria” do “ultra-imperialismo” é um absurdo, semelhante ao que seria
uma “teoria da ultra-agricultura”.
Mas, se, ao falar das condições “puramente econômicas” da época do
capital financeiro, se fala de uma época histórico-concreta da economia mundial
contemporânea. Os conceitos absolutamente vazios de Kautsky, nomeadamente a
respeito do ultra-imperialismo, favorecem esta idéia, profundamente errada, e que
“leva água ao moinho” dos apologistas do imperialismo, segundo a qual a
supremacia do capital financeiro atenuaria as desigualdades e as contradições da
economia mundial quando, na realidade, as reforça.
R. Calwer tentou, no opúsculo intitulado Introdução à Economia Mundial (5),
resumir o essencial dos dados puramente econômicos que permitem fazer uma
idéia precisa dos mercados internos da economia mundial, na transição do séc.
XIX para o séc. XXI. Ele divide o mundo em cinco “regiões econômicas principais”:
1ª. – Europa Central (Europa menos a Rússia e a Inglaterra); 2ª. – Grã-Bretanha;
3ª. – Rússia; 4ª. – Ásia Central; 5ª. – América. Feito isto, inclui as colônias nas
“regiões” dos Estados a que pertencem, e “deixa de lado” um pequeno número de
países não partilhados por regiões, como por exemplo, a Pérsia, o Afeganistão e a
Arábia, na Ásia, Marrocos e Abissínia, na África, etc..

(4) Ibid., 30-Abril-1915, I, pág. 14.


(5) R. Calwer: Einführung in die Weltwirtschft, Berlim, 1906.

Eis, em síntese, os dados econômicos que ele fornece acerca destas


regiões:

Vias de
comunicação Comércio Indústria
População (em milhões de
Superfície (em milhões de

(em

milhares de milhões de

Fundação (em milhões


Marinha mercante (em
milhões de toneladas)

Hulha (em milhões de

Principais
Fusos na indústria

regiões
exportações (em
milhares de km)
férreas

algodoeira (em

econômicas
Importações e

de toneladas)

do mundo
habitantes)

toneladas)

milhões)
marcos)
km²)

Vias
63

1) Europa 27,6 388


Central [23,6] (*) [146] 204 8 41 251 15 26

2) Grã- 28,9 398


Bretanha [28,6] [355] 140 11 25 249 9 51

3) Rússia 22 131 63 1 3 16 3 7

4) Ásia 12 389 8 1 2 8 0,02 2


Oriental

5) América 30 148 379 6 14 245 14 19

Por aqui se vê que existem três regiões de capitalismo altamente evoluído


(alto desenvolvimento das vias de comunicação, do comércio e da indústria): a
Europa Central, a Grã-Bretanha e a América. Dentro delas, três Estados
dominando o mundo: a Alemanha, a Inglaterra e os Estados Unidos. A sua
rivalidade imperialista e a luta que travam revestem uma acuidade extrema pelo
fato de a Alemanha dispor de uma região insignificante e poucas colônias; a
criação de uma “Europa Central” é ainda uma questão do futuro e vai-se
elaborando através de uma luta a todo o transe. De momento, o sinal distintivo de
toda a Europa é o fracionamento político. Pelo contrário, nas regiões britânicas e
americana a concentração política é muito forte, mas a desproporção entre as
imensas colônias da primeira e as insignificantes colônias da segunda é enorme.
Ora, o capitalismo apenas começa a expandir-se nas colônias. A luta pela América
do Sul torna-se cada vez mais acerba.

(6) Os números entre parênteses referem-se, respectivamente, à superfície e à população


das colônias.

Nas outras duas regiões – Rússia e Ásia Oriental – o capitalismo está


pouco desenvolvido. A densidade da população é extremamente fraca na primeira,
extremamente forte na segunda; na primeira, a concentração política é grande; na
segunda, não existe. A partilha da China começa a custo e a luta, por este país,
travada entre o Japão, os Estados Unidos, etc. vai-se intensificando. Comparem a
fábula de Kautsky, acerca do “ultra-imperialismo” pacífico, com esta realidade,
coma prodigiosa variedade das condições econômicas e políticas, com a extrema
desproporção na rapidez do desenvolvimento dos diferentes países, coma
encarniçada luta a que se entregam os Estados imperialistas, etc.. Não haverá aí
uma tentativa reacionária de um pequeno-burguês assustado procurando
desembaraçar-se da realidade ameaçadora? Os cartéis internacionais, nos quais
Kautsky vê o embrião do “ultra-imperialismo”, (tal como a fabricação de chocolate
no laboratório “pode” ser proclamada o embrião da ultra-agricultura), não nos
oferecerão, justamente, exemplos de partilhas e de novas partilhas do mundo, da
passagem da partilha pacífica à partilha não pacífica, e inversamente? Por
exemplo, o capital financeiro da América e de outros países que, com a
participação da Alemanha, partilhava calmamente o mundo inteiro, através do
sindicato internacional de carris ou do truste internacional da marinha mercante,
64

não procede agora a uma nova partilha com base em novas relações de forças
que se alteram de forma inteiramente não pacífica?
O capital financeiro e os trustes não enfraquecem, antes reforçam, as
disparidades entre o ritmo de desenvolvimento dos diversos componentes da
economia mundial. Ora, modificando-se as relações de forças onde encontrar em
regime capitalista a solução das contradições se não na força? As estatísticas das
ferrovias (7) oferecem dados de notável precisão acerca dos diferentes ritmos de
desenvolvimento do capitalismo e do capital financeiro no conjunto da economia
mundial. Eis as alterações que, no decurso das últimas décadas, se operaram no
desenvolvimento imperialista da rede ferroviária:

Vias férreas
(em milhares de quilômetros)

Diferenças para
1890 1913
mais

Europa ................... 224 346 122


Estados Unidos da
América .................. 268 411 143
Conjunto das
colônias .................. 82 210 128
Estados
independentes ou 125 347 222
semi-independentes
da Ásia e América .. 43 137 94

Total 617 1104 487

(7) Statistisches Jahrbuch für das deutsches Reich, 1915, Archiv für Eisenbahnwesen,
1892. Para o ano de 1870 tivemos de contentar-nos com aproximações no que respeita à
repartição das vias férreas entre as colônias dos diferentes países.

O desenvolvimento das vias férreas foi, portanto, mais rápido nas colônias e
Estados independentes (ou semi-independentes da Ásia e da América). Sabe-se
que o capital financeiro de quatro ou cinco grandes Estados capitalistas reina e
manda, aqui, como dono. Duzentos mil quilômetros de novas vias férreas nas
colônias e noutros países da Ásia e da América representam mais de 40 bilhões
de marcos de capitais investidos de novo, em condições particularmente
vantajosas com especiais garantias de rendimentos, de lucrativas encomendas às
fundições de aço, etc., etc.
É nas colônias e países ultramarinos que o capitalismo cresce com maior
rapidez. Aí surgem novas potências imperialistas (Japão). A luta dos imperialistas
mundiais agrava-se. Aumenta o tributo que o capital financeiro recebe dos,
65

particularmente vantajosos, empreendimentos coloniais e ultramarinos. Quando da


partilha deste “saque”, uma parcela, excepcionalmente ampla, cai nas mãos de
países que nem sempre ocupam o primeiro lugar no ritmo do desenvolvimento das
forças produtivas. A extensão total das vias férreas nos países mais importantes
(incluídas as suas colônias) era:

1890 1913
POTÊNCIAS
(em milhares de quilômetros) +
Estados Unidos 268 413 + 145
Império Britânico 107 208 + 101
Rússia 32 78 + 46
Alemanha 43 68 + 25
França 41 63 + 22
TOTAL relativo às
5 potências 491 830 + 339

Deste modo, cerca de 80% das vias férreas existentes estão concentradas
no território das cinco maiores potências. Porém, a concentração da propriedade
destas ferrovias, a concentração do capital financeiro é ainda infinitamente maior,
sendo, por exemplo, os milionários ingleses e franceses, possuidores de uma
enorme quantidade de ações e obrigações das ferrovias americanas, russas e
outras.
Graças às suas colônias a Inglaterra aumentou a sua rede férrea de
100.000 quilômetros, ou seja, quatro vezes mais do que a Alemanha. Ora, é fato
notório que o desenvolvimento das forças produtivas, e nomeadamente as de
produção de hulha e de ferro, foi durante este período, incomparavelmente mais
rápido na Alemanha do que na Inglaterra e, por maioria de razão, do que na
França e na Rússia. Em 1892, a Alemanha produzia 4,9 milhões de toneladas de
ferro fundido contra 6,8 na Inglaterra; em 1912, já produzia 17,6 contra 9 milhões,
o que significa que ela tinha uma superioridade gigantesca sobre a Inglaterra!
Será necessário perguntar se haveria aí, no terreno do capitalismo, outro
meio que não a guerra para remediar a desproporção entre, por um lado, o
desenvolvimento das forças produtivas e a acumulação de capitais e, por outro
lado, a partilha das colônias e das “zonas de influência” do capital financeiro?

(8) Ou igualmente Edgard Crammond: The Economic Relations of the British and German
Empires, no Journal of the Royal Statistical Society, Julho, 1914, págs. 777 e segs.

VIII – O PARASITISMO E A DECOMPOSIÇÃO DO CAPITALISMO

Resta-nos ainda examinar um outro aspecto essencial do imperialismo, ao


qual, na maior parte dos julgamentos que sobre eles incidem, se atribui,
geralmente, enorme importância. Um dos defeitos do marxista Hilderding consiste
66

em ter dado, a este propósito, um passo atrás em relação ao não-marxista


Hobson. Queremos referir-nos ao parasitismo próprio do imperialismo.
Como vimos, a principal base econômica do imperialista é o monopólio.
Este monopólio é capitalista, isto é, nasceu do capitalismo; e, nas condições
gerais do capitalismo, da produção mercantil, da concorrência, ele está em
contradição permanente e inevitável com estas condições gerais. Entretanto,
como monopólio que é, gera inevitavelmente uma tendência para a estagnação e
a decomposição. Na medida em que se estabelecem, ainda que
momentaneamente, preços de monopólio, isso fará desaparecer até certo ponto
os estímulos do progresso técnico e, por conseqüência, de qualquer outro
progresso; e então, torna-se possível, no plano econômico, travar artificialmente o
progresso técnico. Um exemplo na América, um certo Owens inventa uma
máquina que deve revolucionar o fabrico de garrafas. O cartel alemão dos
fabricantes de garrafas apodera-se das patentes de Owens e guarda-as em suas
gavetas, retardando a sua utilização. Certamente que, em regime capitalista, um
monopólio nunca pode eliminar completamente, e por muito tempo, a concorrência
no mercado mundial (eis aí, entre outras coisas, uma das razões que torna
patente o absurdo da teoria do ultra-imperialismo). É evidente que a possibilidade
de reduzir os encargos de produção e de aumentar os lucros, introduzindo
melhorias técnicas, obriga a transformações. Porém, a tendência, própria do
monopólio, para a estagnação e a decomposição contínua a agir por si, em certos
ramos da indústria, e em certos países, sucedendo que toma temporariamente a
dianteira.
O monopólio da posse de colônias, particularmente das mais vastas, ricas
ou vantajosamente situadas, atua no mesmo sentido.
Continuemos. O imperialismo é uma imensa acumulação de capital-dinheiro
num pequeno número de países, acumulação que atinge, como vimos, 100 a 150
bilhões de francos em títulos. Donde, o extraordinário desenvolvimento da classe
ou, de forma mais exata, da camada dos rentistas (1), isto é, das pessoas que
vivem do “corte de cupões de títulos”, que são completamente estranhas à
participação em qualquer ato de produção e cuja única profissão é a ociosidade. A
exportação de capitais, uma das bases econômicas essenciais do imperialismo,
aumenta também o alheamento total, perante a produção, da camada dos
rentistas e dá à totalidade do país, que vive da exploração do trabalho de alguns
países e das colônias do ultramar, um cunho de parasitismo.
“Em 1893, escreve Hobson, o capital britânico colocado no estrangeiro
elevava-se a cerca de 15% da riqueza total do Reino-Unido” (2). Lembremo-nos
que, por volta de 1915, este capital era já cerca de duas vezes e meia mais
elevado. “O imperialismo agressivo, prossegue Hobson, que tão caro custa aos
contribuintes e que representa tão pouco para o industrial e o negociante... é uma
fonte de grandes lucros para o capitalista que procura coloca ro seu capital”... (em
inglês, esta noção exprime-se numa só palavra: investor = “o que coloca dinheiro
a render”, o rentista)... “O rendimento anual total, que a Grã-Bretanha retira do seu
comércio externo e colonial, importações e exportações, é calculado pelo
estatístico Giffen em 18 milhões de libras esterlinas (cerca de 170 milhões de
rublos), em 1899, tendo sido calculado à razão de 2,5% sobre um volume de
negócios total de 800 milhões de libras esterlinas”. Por muito grande que seja esta
67

soma, ela não basta para explicar a agressividade do imperialismo britânico. O


que a explica é a soma de 90 a 100 milhões de libras esterlinas que representa o
rendimento do capital “colocado”, o rendimento da camada dos rentistas.

(1) N. T. – Rentista, empregamos esta palavra no sentido de pessoa que vive de


rendimentos.
(2) Hobson, op. cit., págs. 59 e 60.

O rendimento dos rentistas é cinco vezes mais elevado do que aquele que
provém do comércio externo e isso no país mais “comerciante” do mundo! Tal é a
essência do imperialismo e do parasitismo imperialista.
Também a noção de “Estado-rentista” (Rentnerstaat) ou “Estado-usurário”
se torna de uso corrente na literatura econômica que versa sobre o imperialismo.
O mundo encontra-se dividido entre um punhado de Estados-usurários e uma
imensa maioria de Estados-devedores. “Entre as colocações de capitais no
estrangeiro, escreve Schulze-Gaevernitz, situam-se em primeiro lugar, os
investimentos nos países politicamente dependentes ou aliados: a Inglaterra
empresta ao Egito, ao Japão, à China, à América do Sul. Em caso de
necessidade, a sua marinha de guerra desempenhará a função de oficial de
diligências. O poderio político da Inglaterra preserva-a da revolta dos seus
devedores” (3). A sua obra O Sistema Econômico da Colocação de Capitais no
Estrangeiro, Sartorius Von Waltershausen toma como modelo de “Estado-rentista”
a Holanda e mostra que a Inglaterra e a França estão prestes, também elas, a sê-
lo (4).
Schilder considera como “países-credores claramente manifestados” cinco
Estados industriais: a Inglaterra, a França, a Alemanha, a Bélgica e a Suíça. Nesta
lista não inclui a Holanda, unicamente porque ela é “pouco industrial” (5). Os
Estados Unidos são credores apenas perante a América.

(3) Schulze-Gaevernitz: Britischer Imperialismus, pág. 320.


(4) Sartorius von Waltershausen: Das Volkwistschaftliche System, Berlim, 1907, vol. IV.
(5) Schilder, op. Cit., pág. 393.

“A Inglaterra, escreve Schulze-Gaevernitz, transforma-se, pouco a pouco,


de Estado-industrial em Estado-credor. Não obstante o aumento absoluto da
produção e da exportação industriais assiste-se ao aumento da importância
relativa dos rendimentos provenientes de juros, dividendos, emissões, comissões
e especulações no conjunto da economia nacional. Na minha opinião, é
precisamente este fato que constitui a base econômica da expansão imperialista.
O credor liga-se mais solidamente ao devedor do que o vendedor ao comprador“
(6).
Relativamente à Alemanha, o editor da revista berlinense Die Bank, A.
Lansburgh, escrevia em 1911, num artigo intitulado A Alemanha, Esatdo-rentista:
“Na Alemanha, zomba-se de bom grado da tendência que os franceses têm para
viverem dos rendimentos. Porém, esquece-se que, em relação à burguesia, a
situação na Alemanha se torna cada vez mais análoga à da França” (7).
68

O Estado-rentista é um Estado de capitalismo parasitário, decomposto; e tal


não pode deixar de ter influência sobre as condições sociais e política do país, em
geral, e sobre as duas tendências do movimento operário, em particular. Para
melhor o mostrar, concedemos a palavra a Hobson, o mais “seguro” dos
testemunhos, uma vez que não se poderá acusá-lo de partidos testemunhos, uma
vez que não se poderá acusá-lo de partidarismo face à “ortodoxia-marxista”; por
outro lado, sendo inglês ele conhece bem a situação dos negócios no país mais
rico em colônias, em capital financeiro e em experiência imperialista.
Hobson, sob a impressão ainda muito fresca da guerra anglo-boer, ao
descrever o conluio entre o imperialismo e os interesses dos “financistas”, os
lucros crescentes que estes retiram dos contratos, dos fornecimentos de guerra,
etc... escrevia: “Aqueles que orientam esta política nitidamente parasitária são os
capitalistas; mas as mesmas causas atuam, também, sobre categorias especiais
de operários. Em numerosas cidades, as mais importantes indústrias dependem
de encomendas do Governo; o imperialismo dos centros da metalurgia e das
construções navais é, em larga medida, conseqüência deste fato”. Segundo o
mesmo autor, dois tipos de circunstâncias enfraqueciam o poderio dos antigos
Impérios: 1) o “parasitismo econômico”; e 2) o recrutamento de um exército entre
os povos dependentes. “A primeira é o costume do parasitismo econômico, em
virtude do qual o Estado dominante explora as suas províncias, as suas colônias e
os países dependentes com o fim de enriquecer a sua classe governante e de
corromper as suas classes inferiores para que se mantenham tranqüilas”. Por
nossa parte, acrescentaremos que só os elevados lucros de monopólio tornam
economicamente possível semelhante corrupção, qualquer que seja a sua forma.

(6) Schulze-Gaevernitz: Britischer Imperialismus, pág. 122.


(7) Die Bank, I, págs. 10/11.

Quanto à segunda circunstância, escreve Hobson: “Um dos sintomas mais


singulares da cegueira do imperialismo é a indiferente com que a Grã-Bretanha, a
França e outras nações imperialistas se lançam nesta via. A Grã-Bretanha foi mais
longe que todas as outras. A maior parte das batalhas com as quais conquistamos
o nosso Império das Índias foram travadas pelas nossas tropas integradas por
indígenas. Na Índia, como também, mais recentemente, no Egito, numerosos
exércitos permanentes são colocados sob comando dos britânicos; quase todas
as nossas guerras de conquista em África, excetuada a África do Sul, foram feitas
por indígenas agindo por nossa conta”.
A perspectiva da partilha da China sugere a Hobson a seguinte apreciação
econômica: “Uma grande parte da Europa Ocidental poderia tomar, então o
aspecto e o caráter que atualmente apresentam certas parcelas dos países que a
compõem: o sul da Inglaterra, a Riviera, as regiões da Itália e da Suíça mais
freqüentadas por turistas e povoadas por pessoas ricas – a saber, pequenos
grupos de ricos aristocratas, recebendo dividendos e pensões do longínquo
Oriente, um grupo um pouco mais numeroso de empregados profissionais e de
comerciantes e, um grupo mais importante, de criados e de operários ocupados
nos transportes e na indústria, trabalhando no acabamento de produtos
manufaturados. Quanto aos principais ramos da indústria eles desapareceriam e a
69

grande massa dos produtos alimentares e semi-acabados afluiria da Ásia e da


África como um tributo”. “Tais são as perspectivas que nos oferece uma aliança
mais ampla dos Estados do Ocidente. Uma federação européia de grandes
potências – longe de fazer progredir a civilização universal, poderia significar um
imenso perigo de parasitismo ocidental conduzindo à constituição de um grupo à
parte de nações industriais evoluídas, cujas classes superiores receberiam um
enorme tributo da Ásia e da África e sustentariam, com a ajuda deste tributo,
grandes massas de criados, de empregados e de servidores ocupados não já na
produção de grandes quantidades de produtos agrícolas e industriais, mas
prestando serviços privados ou realizando, sob o controle da nova aristocracia
financeira, trabalhos industriais de segunda ordem. Que aqueles que estão
prontos a voltar as costas a esta teoria” (seria melhor dizer: a esta perspectiva)
“como não merecendo ser examinada, meditem sobre as condições econômicas e
sociais das regiões da atual Inglaterra meridional que já atingiram esta situação.
Que eles reflitam sobre a extensão considerável que este sistema poderia tomar
se a China fosse submetida ao controle econômico de semelhantes grupos
financeiros, dos ‘que colocam capitais’ (rentistas), dos seus funcionários políticos e
dos seus empregados de comércio e de indústria que drenariam os lucros do
maior reservatório potencial que o mundo jamais conheceu, a fim de os consumir
na Europa. Certamente, a situação é bastante complexa e o jogo das forças
mundiais bastante difícil de antever para que seja possível considerar como mais
provável a enunciada ou outra qualquer previsão do futuro numa única direção.
Porém, as influências que, atualmente, regem o imperialismo da Europa ocidental
orientam-se nesta direção e se não encontrarem resistência, se não forem
desviadas noutro sentido, é nesse sentido que atuarão” (8).
O autor tem inteira razão: se as forças do imperialismo não encontrarem
resistência, conduzirão precisamente a este resultado. A significação dos “Estados
Unidos da Europa”, na atual situação imperialista, foi caracterizada aqui muito
corretamente. Impõe-se acrescentar somente que, no interior do movimento
operário, igualmente os oportunistas, momentaneamente vitoriosos na maior parte
dos países, “atuam”, sistemática e persistentemente, justamente neste sentido. O
imperialismo, significando a partilha do mundo e uma exploração que não se
estende apenas à China e que procura obter elevados lucros de monopólio para
um punhado de países muito ricos, cria a possibilidade econômica de corromper
as camadas superiores do proletariado; e, por isso mesmo, alimenta o
oportunismo, dá-lhe corpo e consolida-o. Mas o que é preciso não esquecer são
as forças que se dirigem contra o imperialismo em geral e o oportunismo em
particular, forças que o social-liberal Hobson não está, evidentemente, em
situação de discernir.
O oportunista alemão Gerhard Hildebrand que, no seu tempo, foi excluído
do Partido por ter defendido o imperialismo e que hoje poderia ser o chefe do
Partido alemão, dito “social-democrata”, quando preconiza a formação dos
“Estados Unidos da Europa Ocidental” (sem a Rússia) com vista a ações
“comuns”... contra os negros da África, contra o “grande movimento islâmico”,
quando preconiza a manutenção de “um exército e de uma frota poderosa” contra
a “coalizão sino-japonesa” (9), etc., completa bastante bem Hobson.
70

A descrição do “imperialismo britânico” feita por Schulze-Gaevernitz revela-


nos os mesmos traços do parasitismo. O rendimento nacional da Inglaterra quase
duplicou, de 1865 a 1898, enquanto que no mesmo período, o rendimento
“proveniente do estrangeiro, aumentou nove vezes”. Se o “mérito” do imperialismo
consiste em “habituar o Negro ao trabalho” (não se poderia prescindir do
constrangimento...) o “perigo” do imperialismo consiste em que “a Europa confiará
o trabalho manual – em primeiro lugar o trabalho da terra e das minas e depois o
trabalho industrial mais grosseiro – aos homens de cor, limitando-se, no que diz
respeito, ao papel de rentista, assim, preparando, talvez, a emancipação
econômica, depois política, das raças de cor”.

(8) Hobson, págs. 103, 205, 144, 335 e 386.


(9) Gerhard Hildebrand: Die Erschütterung der Industrieberrschaft und des
Industriesozialismus, 1910, págs. 229 e segs.

Na Inglaterra, uma quantidade de terras sempre crescente, é subtraída à


agricultura para ser afetada ao desporto, ao divertimento dos ricos. Quanto à
Escócia, o mais aristocrático dos países em matéria de caça e desportos, diz-se
que “ela vive do seu passado e de M. Carnegie” (um milionário americano). A
Inglaterra despende anualmente apenas para corridas e caça à raposa, 14
milhões de libras esterlinas (cerca de 130 milhões de rublos). Neste país, o
número dos rentistas eleva-se a cerca de um milhão. A proporção dos produtores
é aí decrescente:

População de Inglaterra
Operários das principais Percentagem em
Anos (em milhões de
indústrias (em milhões) relação à população
habitantes)
1851 17,9 4,1 23%
1901 32,5 4,9 15%

O investigador burguês do “imperialismo dos começos do séc XX”, ao falar


da classe operária inglesa, é obrigado a estabelecer sistematicamente uma
diferença entre a camada superior dos operários e a camada inferior proletária
propriamente dita. A primeira fornece a massa dos colaboradores e dos
sindicalizados, dos membros das sociedades desportivas e de numerosas seitas
religiosas. Foi a este nível que se adaptou o direito de voto o qual, na Inglaterra,
está ainda suficientemente limitado ao fim de excluir dele a camada inferior
proletária propriamente dita!! Geralmente, para mostrar a uma luz mais favorável,
a condição da classe operária inglesa, fala-se tão-só desta camada superior que
constitui tão-só uma minoria do proletariado: por exemplo, “a questão do
desemprego interessa, sobretudo, a Londres e à camada inferior proletária, da
qual os homens políticos fazem pouco caso” (10).
Entre as características do imperialismo, relacionadas com o grupo de
fenômenos de que falamos, é preciso mencionar a diminuição da emigração
proveniente dos países capitalistas e o aumento da emigração, para estes países,
de operários vindos dos países mais atrasados onde os salários são mais baixos.
71

A emigração inglesa, nota Hobson, cai a partir de 1884: ela atingia neste ano
242.000 pessoas em 1900, 169.000. A emigração alemã atingiu o seu máximo
entre 1881 e 1890; 1.453.000 emigrantes; no decurso das duas décadas
seguintes: ela caiu respectivamente para 544.000 e 341.000, enquanto, na
Alemanha, aumentava o número de operários oriundos da Áustria, da Itália, da
Rússia, etc. Segundo o recenseamento de 1907, havia na Alemanha 1.342.294
estrangeiros, dos quais 440.800 operários industriais e 257.329 trabalhadores
agrícolas (11). Na França, os trabalhadores da indústria mineira são “em grande
parte” estrangeiros: poloneses, italianos, espanhóis (12). Nos Estados Unidos, os
emigrantes da Europa Oriental e Meridional ocupam os empregos mais mal pagos,
enquanto os operários americanos fornecem a mais forte percentagem dos
capatazes e dos operários que executam os trabalhos melhor remunerados (13).
O imperialismo tende também a criar entre os operários categorias privilegiadas e
a separá-los da grande massa do operariado.

(10) Schulze-Gaevernitz, Britischer Imperialismus, pág. 301.


(11) Statistik des deutschen Reichs, T. 211.
(12) Henger: Die Kapitalsanlage der Franzosen, Stuttgart, 1913.
(13) Hourvich: Immigration and Labour, Nova Iorque, 1913.

Note-se que, na Inglaterra, a tendência do imperialismo para dividir os


operários, para reforçar entre eles o oportunismo, para provocar o fracionamento
momentâneo do movimento operário surgiu muito antes do fim do séc. XIX e
princípios do séc. XX. Com efeito, dois traços essenciais distintivos do
imperialismo – a posse de vastas colônias e o monopólio do mercado mundial –
manifestaram-se aí desde a segunda metade do séc. XIX. Durante dezenas de
anos, metodicamente, Marx e Engels observaram de perto, no movimento
operário, esta ligação do oportunismo com as particularidades imperialistas do
capitalismo inglês. Assim, Engels escrevia a Marx em 7 de Outubro de 1858: “Na
realidade o proletariado inglês emburguesa-se cada vez mais e bem parece que
esta nação, burguesa entre as demais, quer possuir, ao lado da sua burguesia,
uma aristocracia burguesa e um proletariado burguês. Evidentemente que, da
parte de uma nação que explora o universo inteiro, isso é até certo ponto lógico”.
Cerca de um quarto de século mais tarde, numa carta datada de 11 de Agosto de
1881, ele fala dos “piores trade-unionistas ingleses que se deixam dirigir por
homens que a burguesia comprou ou que, pelo menos, sustenta”. Numa carta a
Kautsky (12 de setembro de 1882) Engels escrevia: “Pergunta-me o que pensam
os operários ingleses da política colonial. O mesmo que pensam da política em
geral. Aqui nada de partidos operários; apenas radicais conservadores e liberais:
quanto aos operários, gozam tranqüilamente do monopólio colonial da Inglaterra e
do seu monopólio no mercado mundial” (14) (Engels expôs a mesma tese no seu
prefácio à segunda edição de A Situação das classes trabalhadoras em Inglaterra,
1892).

(14) Briefwechsel von Marx und Engels, T. II, pág. 290; T. IV, pág. 453. K. Kautsky:
Socialismus und Kolonialpolitik, pág. 79, Berlim, 1907 – brochura escrita em tempos infinitamente
longínquos, quando Kautsky ainda era marxista.
72

Eis, pois, claramente indicadas as causas e as conseqüências. As causas:


1) a exploração do mundo pela Inglaterra; 2) o colonial. As conseqüências: 1)
aburguesamento de uma parte do proletariado inglês; 2) uma parte deste
proletariado deixa dirigir-se por homens que a burguesia comprou ou que, pelo
menos, sustenta. O imperialismo do princípio do séc. XX pôs termo à partilha do
globo entre um punhado de Estados, dos quais, atualmente, cada um explora (no
sentido de que obtém um sobrelucro) uma parte do mundo inteiro pouco menor do
que aquela que a Inglaterra explorava em 1858; cada um deles, graças aos
trustes, aos cartéis, ao capital financeiro, às suas relações credor-devedor, ocupa
uma situação de monopólio no mercado mundial; cada um deles em certa medida
goza de um monopólio colonial (nós vimos que, em 75 milhões de quilômetros
quadrados – superfície de todas as colônias do mundo – 65 milhões, ou seja,
86%, estão concentrados nas mãos de seis grandes potências; 61 milhões de
quilômetros quadrados, ou seja, 81%, são possuídos por três potências).
O que caracteriza a situação atual é a existência de condições econômicas
e políticas que não podiam deixar de tornar o oportunismo ainda mais
incompatível com os interesses gerais e vitais do movimento operário: de embrião,
o imperialismo tornou-se o sistema predominante; os monopólios capitalistas
ocuparam o primeiro lugar na economia e na política; a partilha do mundo foi
levada a cabo; por outro lado, em vez do monopólio não partilhado da Inglaterra,
assiste-se agora à luta de um pequeno número de potências imperialistas pela
participação no monopólio, luta que caracteriza todo o início do séc. XX.
Atualmente o oportunismo já não pode triunfar completamente, por dezenas e
dezenas de anos, no seio do movimento operário de qualquer país, como o fez na
Inglaterra na segunda metade do século XIX. Porém, ele atingiu em toda uma
série de países, a sua plena maturidade, ultrapassou-a e decompôs-se, fundindo-
se completamente, sob a forma de social-chauvinismo, com a política burguesa
(15).

(15) O social-chauvinismo russo dos Potressov, dos Tchkhenkéli, dos Maslov, etc., tanto
sob a sua forma aberta como sob a sua forma velada (MM. Tchkheídze, Skobélev, Axelrod, Martov,
etc.) derivou igualmente de uma variedade russa do oportunismo, nomeadamente da corrente
liquidacionista.

IX – A CRÍTICA DO IMPERIALISMO

Entendemos a crítica do imperialismo em sentido lato, como a atitude que


as diversas classes sociais, partindo da ideologia geral de cada uma delas,
assumem perante a política do imperialismo.
Por um lado, a dimensão gigantesca do capital financeiro, concentrando-se
em poucas mãos e criando uma rede extraordinariamente vasta e apertada de
vínculos e de relações, por intermédio da qual submete ao seu poder a massa não
apenas dos médios e pequenos, mas até dos muitos pequenos capitalistas e
patrões, e, por outro lado, a luta aguda travada pela partilha do mundo e pela
dominação dos outros países contra os outros agrupamentos nacionais de
financistas – tudo isso faz com que as classes possuidoras se passem em bloco
73

para o campo do imperialismo. Entusiasmo “geral” pelas perspectivas do


imperialismo, defesa encarniçada deste, tendência para o embelezar por todas as
formas – isto não é um sinal dos tempos. A ideologia imperialista penetra também
na classe operária, que não está separada das outras classes por uma muralha da
China. Se os chefes do atual partido alemão, dito “social-democrata”, são
justamente apelidados de “social-imperialistas”, isto é, de socialistas verbais e de
imperialistas de fato, convém dizer que, já em 1902, Hobson assinalava a
existência, na Inglaterra, dos “imperialistas fabianos” pertencentes à oportunista
“Sociedade dos fabianos”.
Os mestres e os publicistas burgueses defendem geralmente o
imperialismo sob uma forma um pouco velada; dissimulam nele a dominação total
e as suas profundas raízes; esforçam-se por colocar em primeiro plano
particularidades, detalhes secundários, aplicando-se em desviar a atenção do
essencial através de fúteis projetos de “reformas”, tais como a fiscalização policial
dos trustes e dos bancos, etc. Os imperialistas confessos, cínicos, que têm a
coragem de confessar como é absurdo o querer reformar os traços essenciais do
imperialismo, esses são mais raros.
Um exemplo. Nos Arquivos de Economia Mundial, os imperialistas alemães
dedicam-se a acompanhar os movimentos de libertação nacional nas colônias,
sobretudo, como facilmente se compreende, nas colônias não-alemãs. Eles
assinalam a efervescência e os protestos que se manifestam na Índia, os
movimentos do Natal (África do Sul), na Índia Holandesa, etc. Um deles, numa
nota a propósito de uma publicação inglesa, dando conta da Conferência das
Nações e Raças Submetidas, que teve lugar de 28 a 30 de junho de 1910, e que
reuniu os representantes de diversos povos da Ásia, da África e da Europa, que
suportam uma dominação estrangeira, emite o seguinte julgamento acerca dos
discursos pronunciados nesta conferência: “Dizem-nos que é preciso combater o
imperialismo; que os Estados dominantes devem reconhecer aos povos
subjugados o direito à independência; que um tribunal internacional deve fiscalizar
a execução dos tratados celebrados entre as grandes potências e os povos fracos.
A Conferência não vai além destes desejos inocentes. Não se descobre aí
qualquer vestígio da compreensão desta verdade – a de que o imperialismo está
indissoluvelmente ligado ao capitalismo na sua forma atual e que,
conseqüentemente (!!!), a luta direta contra o imperialismo carece de esperança a
menos que não se limite tão-só a combater certos excessos particularmente
revoltantes” (1). Denunciando que a emenda reformista das bases do imperialismo
constitui um logro, um “desejo ingênuo”, e que os representantes burgueses das
nações oprimidas, avançando, não vão “mais longe”, recuando em direção a uma
adulação servil do imperialismo, dissimulada sob pretensiosismos “científicos”.
Bela “lógica”, na verdade!
Será possível modificar, através de reformas, as bases do imperialismo?
Será preciso avançar para salientar e aprofundar os antagonismos gerados por ele
ou recuar para atenuá-los? Tais são as questões fundamentais da crítica do
imperialismo. Dado que as particularidades políticas do imperialismo são a reação
em toda a linha e o revigoramento da opressão nacional, em conseqüência do
jugo da oligarquia financeira e da eliminação da livre concorrência, o imperialismo,
desde o início do séc. XX, vê voltar-se contra ele, mais ou menos em todos os
74

países imperialistas, uma oposição democrática pequeno-burguesa. a ruptura de


Kautsky, e da vasta corrente internacional kautskista, com o marxismo consiste
precisamente no fato de Kautsky, longe de ter querido e sabido tomar o caminho
oposto a esta oposição pequeno-burguesa reformista, substancialmente
reacionária no plano econômico, se ter, pelo contrário, praticamente fundido com
ela.

(1) Weltwirtschaftliches Archiv, Vol. II, pág. 193.

Nos Estados Unidos, a guerra imperialista de 1898 contra a Espanha


suscitou a oposição dos “antiimperialistas”, esses últimos moicanos da democracia
burguesa, que qualificavam esta guerra de “criminosa”, que consideravam a
anexação de territórios estrangeiros como uma violação da Constituição, que
denunciavam a “deslealdade dos chauvinistas” para com o chefe dos indígenas
das Filipinas, Aguinaldo, (ao qual os Americanos prometeram, primeiro, a
independência do seu país para, em seguida, desembarcarem aí tropas
americanas e anexarem as Filipinas) e citavam as palavras de Lincoln: “Quando
um branco se governa a si mesmo e, ao mesmo tempo, governa os outros, isto já
não é autonomia, mas despotismo” (2). Porém, toda esta crítica, alimentando
esperanças, receava admitir a ligação indissolúvel que se estabelece entre o
imperialismo e os trustes, e, conseqüentemente, os fundamentos do capitalismo.
Receava, por outro lado, unir-se às forças geradas pelo grande capitalismo e pelo
seu desenvolvimento; ela permanecia, assim, um “ingênuo desejo”.

(2) J. Patouillet: O Imperialismo Americano, Dijon, 1904, pág. 272.

Tal é, também, a posição fundamental de Hobson na sua crítica do


imperialismo. Hobson antecipou-se às teses de Kautsky insurgindo-se contra a
“inevitabilidade do imperialismo” e invocando a necessidade de “aumentar a
capacidade de consumo” da população (em regime capitalista!). É também o
ponto de vista pequeno-burguês que, na sua crítica do imperialismo, da
onipotência dos bancos, da oligarquia financeira, etc., adotam os autores, muitas
vezes citados por nós, tais como Agahd, A. Lansburgh e L. Eschwege e, entre os
franceses, V. Bérard, autor de um livro superficial, A Inglaterra e o Imperialismo,
aparecido em 1900. Sem pretenderem, por nada deste mundo, fazer obra de
marxistas todos eles opõem ao imperialismo a livre concorrência e a democracia,
condenam o projeto da ferrovia de Bagdá, que conduz a conflitos e à guerra, e
formulam “desejos inocentes”, de paz, etc. Sucede que até mesmo o estatístico
das emissões internacionais A. Neymarck, somando as centenas de bilhões de
francos representados pelos títulos “internacionais”, exclamava em 1912: “Como é
possível admitir que a paz possa ser quebrada?... que, em presença destes
enormes números, haja quem se arrisque a provocar uma guerra!” (3).
Da parte dos economistas burgueses uma tal ingenuidade não é de
espantar; além do mais, é-lhes vantajoso simular ingenuidade e falar “seriamente”
de paz na época do imperialismo. Porém, quando Kautsky, logo em 1914, 1915 e
1916 adota o mesmo ponto de vista dos reformistas burgueses e afirmam que,
quanto à paz, “toda a gente está de acordo” (imperialistas, pseudo-socialistas e
75

social-pacifistas) – que restará, então, do seu marxismo? Em vez de analisar e pôr


a claro as profundas contradições imperialistas, ele formula o “desejo piedoso”,
reformista, de as evitar e iludir.
Eis uma amostra de crítica econômica do imperialismo feita por Kautsky.
Examinando as estatísticas de 1872 e 1912 sobre as importações e exportações
inglesas, provenientes e destinadas ao Egito, constata que elas se desenvolveram
mais fracamente do que o conjunto das exportações e importações da Inglaterra.
E Kautsky conclui: “Não existe qualquer razão que nos faça pensar que o
comércio da Inglaterra com o Egito, sem a sua ocupação militar e pelo simples
peso dos fatores econômicos, ainda teria aumentado menos”. “É através da
democracia pacífica, e não dos violentos métodos do imperialismo, que as
tendências do capital para a expansão melhor podem ser favorecidas” (4).
Este raciocínio de Kautsky, repetido em todos os tons por M. Spectator, seu
arauto de armas na Rússia (e defensor russo dos “social-chauvinistas”) constitui a
essência da crítica kautskista do imperialismo, merecendo, por isso, um exame
mais detalhado. Comecemos por uma citação de Hilferding, acerca de quem
Kautsky disse, freqüentes vezes e, nomeadamente, em abril de 1915, que as suas
conclusões eram “unanimemente perfilhadas por todos os teóricos socialistas”:

(3) Boletim do Institut International de Statistique, t. XIX, livro II, p. 225.


(4) Kautsky: Nationalstaat, imperialistischer Staat und Staatenbund, Nuremberg, 1915,
págs. 70/72.

“Opor a ultrapassada política da época do livre-câmbio e da hostilidade


contra o Estado, escreve Hilferding, à política mais progressista do capitalismo,
não constitui a tarefa do proletariado. a resposta do proletariado à política
econômica do capital financeiro não pode ser o livre-câmbio, mas tão só o
socialismo. Não é o restabelecimento da livre concorrência, tornado ideal
reacionário, que, atualmente, pode servir de fim à política proletária, mas
unicamente a abolição completa da concorrência pela supressão do capitalismo”
(5).
Defendendo, na época do capital financeiro, um “ideal reacionário”, a
“democracia pacífica” e “o simples peso dos fatores econômicos”, Kautsky rompeu
com o marxismo, pois tal ideal mais não significa, objetivamente, do que um recuo
retrógrado do capitalismo monopolista para o capitalismo não-monopolista,
constituindo um logro reformista.
O comércio com o Egito (ou com qualquer outra colônia ou semicolônia)
sem ocupação militar, sem imperialismo, sem capital financeiro “teria aumentado
bastante”. Que se pretende dizer com isto? Que o capitalismo se desenvolveria
mais rapidamente se a livre concorrência não tivesse limitada nem pelos
monopólios em geral nem pelas “relações” ou jugo do capital financeiro, (isto é, e
ainda pelo monopólio), nem pela posse monopolística de colônias por certos
países?
Os raciocínios de Kautsky não poderão ter outro sentido: mas este “sentido”
é um contra-senso. Com efeito, admitamos que a livre concorrência, sem
monopólios de qualquer espécie, pudesse desenvolver mais rapidamente o
capitalismo e o comércio. Porém, quanto mais rápido é o desenvolvimento do
76

comércio e do capitalismo mais forte é a concentração da produção e do capital, a


qual gera o monopólio. Ora, os monopólios já nasceram – e nasceram
precisamente da livre concorrência! Aliás, se em nossos dias os monopólios se
puseram a frear o desenvolvimento isso, porém, não constituirá um argumento a
favor da livre concorrência, a qual não é mais possível a partir do momento em
que gerou os monopólios.
Por mais voltas que se dê aos raciocínios de Kautsky nada mais se
encontrará neles do que espírito reacionário, reformista, burguês.

(5) Hilferding: O Capital Financeiro, pág. 567.

Se, corrigindo este raciocínio, dissermos com Spectator: o comércio das


colônias inglesas com a metrópole aumenta atualmente mais lentamente do que
com os outros países, nem por isso Kautsky ficará desobrigado. Porque o que cria
dificuldades à Inglaterra é também o monopólio, é também o imperialismo, mas o
monopólio e o imperialismo dos outros países (América, Alemanha). Sabe-se que
os cartéis tiveram como conseqüência a criação de tarifas protecionistas de um
tipo novo, e original: como já o notara Engels, no Livro III, de O Capital, protegem-
se precisamente os produtos suscetíveis de serem exportados. Também sabemos
que os cartéis e o capital financeiro dispõem de um sistema que lhes é próprio – o
“da exportação a preço vil”, o do “dumping”, como dizem os ingleses: no interior do
país o cartel vende os seus produtos a preço elevado, fixado pelo monopólio; no
estrangeiro, vende-os a um preço irrisório visando arruinar um concorrente,
expandir ao máximo a sua produção, etc. Se a Alemanha aumenta o seu comércio
com as colônias inglesas mais rapidamente do que a própria Inglaterra isso
apenas prova uma coisa: que o imperialismo alemão é mais forte, melhor
organizado do que o imperialismo inglês, que lhe é superior; mas isso, não prova,
de forma alguma, a “supremacia” do comércio livre. E isto porque essa luta não
opõe o comércio livre ao protecionismo, à dependência colonial, mas opõe entre si
dois imperialismos rivais, dois monopólios, dois grupos do capital financeiro. A
supremacia do imperialismo alemão sobre o imperialismo inglês é mais forte do
que a muralha das fronteiras coloniais ou a das tarifas aduaneiras protetoras; tirar
daí argumentos a favor da liberdade do comércio e da “democracia pacífica” é
divulgar asneiras, é esquecer os traços e os caracteres essenciais do
imperialismo, é substituir o marxismo pelo reformismo pequeno-burguês.
É interessante notar que até o economista burguês A. Lansburgh, cuja
crítica do imperialismo é tão pequeno-burguesa como a de Kautsky, no entanto,
estudou mais cientificamente do que este último os dados da estatística comercial.
A sua comparação não incide apenas sobre um país tomado ao acaso e uma
colônia, por um lado, e, os restantes países, por outro lado, mas sobre as
exportações de um país imperialista 1) para os países que lhe pedem dinheiro de
empréstimo e que são, financeiramente, dependentes dele; e 2) para os países
que são, financeiramente, independentes dele. Eis o quadro que obteve:

EXPORTAÇÕES DA ALEMANHA (em milhões de marcos)

Para os países financeiramente dependentes da Alemanha


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Países 1889 1908 Aumento em %

Romênia 48,2 70,8 + 47%


Portugal 19,0 32,8 + 73%
Argentina 60,7 147,0 + 143%
Brasil 48,7 84,5 + 73%
Chile 28,3 52,4 + 85%
Turquia 29,9 64,0 + 114%
TOTAL 234,8 451,5 + 92%

Para os países financeiramente independentes da Alemanha

Grã-Bretanha 651,8 997,4 + 53%


França 210,2 437,9 + 108%
Bélgica 137,2 322,8 + 135%
Suíça 177,4 401,1 + 127%
Austrália 21,2 64,5 + 205%
Índias Holandesas 8,8 40,7 + 363%
TOTAL 1206,6 2264,4 + 87%

Lansburgh não extraiu conclusões e daí que, por uma singular distração,
não tivesse reparado que se estes números provam alguma coisa é apenas contra
ele, porquanto as exportações, para países financeiramente dependentes
desenvolveram-se, apesar disso, um pouco mais rapidamente do que as que se
dirigiram para países financeiramente independentes (nós sublinhamos o nosso
“se” porque a estatística de Lansburgh está longe de ser completa).
Estabelecendo a ligação existente entre as exportações e os empréstimos,
Lansburgh escreve:
“Em 1890-91, foi contraído um empréstimo romeno por intermédio dos
bancos alemães, que nos anos precedentes, tinham já consentido adiantamentos
sobre este empréstimo. Ele foi aplicado principalmente na compra de material
ferroviário à Alemanha. Em 1891, as exportações alemãs para a Romênia
elevaram-se a 55 milhões de marcos. No ano seguinte elas caíam a 39,4 milhões
e foram descendo gradualmente até 25,4 milhões em 1900. Nestes últimos anos
elas só voltaram a atingir o nível de 1891, graças a dois novos empréstimos.
As exportações alemãs para Portugal elevaram-se, em conseqüência dos
empréstimos de 1888-89, a 21,1 milhões de marcos (1890), para nos dois anos
78

seguintes voltarem a cair para 16,2 e 7,4 milhões; só em 1903 voltaram a subir ao
seu nível antigo.
Os números relativos ao comércio da Alemanha com a Argentina são ainda
mais significativos. Como conseqüência dos empréstimos de 1888 e 1890 as
exportações para a Argentina atingiram, em 1889, 60,7 milhões de marcos. Dois
anos mais tarde, não atingiram mais de 18,6 milhões, ou seja, quase um terço do
número precedente. Só em 1901 atingiram e ultrapassaram o seu nível de 1889
graças não só a novos empréstimos contraídos pelo Estado, e pelas cidades, na
Alemanha, como também a adiantamentos de fundos para a construção de
barragens para produção de energia elétrica e outras operações de crédito.
Em conseqüência do empréstimo de 1889 as exportações para o Chile
elevaram-se a 45,2 milhões (1892); um ano mais tarde voltaram a cair para 22,5
milhões. Após um novo empréstimo, contraído por intermédio dos bancos
alemães, em 1906, as exportações subiram para 84,7 milhões em 1907, para, em
1908, voltarem a cair para 52,4 milhões” (6).
Destes fatos, Lansburgh extrai esta divertida moralidade pequeno-
burguesa: as exportações ligadas aos empréstimos são instáveis e irregulares,
sendo lamentável que, em vez de se desenvolver, “naturalmente” e
“harmoniosamente”, a indústria nacional, se exportem capitais para o estrangeiro,
sendo lamentável que as “luvas” distribuídas por ocasião dos empréstimos
estrangeiros, cifrando-se em milhões, custem “caro” à firma Krupp, etc.. Porém, os
fatos comprovam claramente que o aumento das exportações está justamente
ligado às fraudulentas maquinações do capital financeiro, o qual, preocupando-se
pouco com a moral burguesa, esfola duas vezes o mesmo boi: em primeiro lugar,
os juros dos empréstimos; em seguida, os lucros resultantes deste mesmo
empréstimo quando ele é empregado na compra de produtos Krupp ou de material
ferroviário do Sindicato do aço, etc.

(6) Die Bank, 1909, II, págs. 819 e segs.

Repetimos que, de modo algum, consideramos perfeita a estatística de


Lansburgh. Porém, era absolutamente necessário reproduzi-la porquanto ela é
mais científica do que a de Kautsky e a de Spectator, na medida em que
Lansburgh oferece o bom critério de enunciar o problema. Para analisar o papel
do capital financeiro em matéria de exportação, etc., é preciso saber discernir a
relação particular e exclusiva existente, entre a exportação e as traficâncias dos
financistas, entre a exportação e o escoamento dos produtos dos cartéis, etc.
Comparar simplesmente em geral as colônias às não-colônias, um imperialismo a
outro, uma semicolônia ou uma colônia (Egito) a todos os outros países é
contornar o problema e dissimular o que, de fato, constitui justamente o essencial.
Se a crítica teórica de Kautsky ao imperialismo nada tem de comum com o
marxismo, se ela pode servir tão só de suporte à propaganda da paz e da unidade
com os oportunistas e os social-chauvinistas é precisamente porque ela dissimula
e oculta as mais profundas contradições, as contradições mais fundamentais do
imperialismo: contradição entre os monopólios e a livre concorrência que se
manifesta ao lado deles, contradição entre as formidáveis “operações” (e os
formidáveis lucros) do capital financeiro e o comércio “honesto” no mercado livre,
79

contradição entre, por um lado, os cartéis e os trustes e a indústria não-


cartelizada, por outro, etc.
A famosa teoria do “ultra-imperialismo”, inventada por Kautsky, reveste
também um caráter inteiramente reacionário. Compare-se o raciocínio que ele fez
acerca deste assunto, em 1915, e aquele que Hobson desenvolveu em 1902:
Kautsky: “(...) Não poderá a atual política imperialista ser suplantada por
uma nova política, ultra-imperialista, que substitua a luta entre os capitais
financeiros pela exploração em comum do universo através do capital financeiro
associado à escala internacional? Esta nova fase do capitalismo é de algum modo
concebível. Será ela realizável? Ainda não existem as premissas indispensáveis
que nos permitam resolver a questão” (7).
Hobson: “O cristianismo que se radicou solidamente num pequeno número
de grandes impérios federais, cada um deles possuindo uma série de colônias não
civilizadas, e de países dependentes, revela-se acentuadamente como o mais
lógico desenvolvimento das tendências modernas, desenvolvimento que permitiria
alimentar a maior esperança numa paz duradoura assente na sólida base de um
inter-imperialismo”.

(7) Neue Zeit, 30 de Abril de 1915, pág. 144.

Kautsky chama ultra-imperialismo ao que, treze anos antes, Hobson


chamava inter-imperialismo. Para além da invenção de um novo e sapientíssimo
vocábulo, através da substituição de uma partícula latina por outra, a evolução do
pensamento “científico” de Kautsky reduz-se a querer fazer passar por marxismo
aquilo que Hobson apresenta substancialmente como hipocrisia dos padres
ingleses. Era bastante natural que, após a guerra anglo bôer, esta casta,
altamente respeitável, orientasse os seus esforços ingleses, que tinham perdido
muitos dos seus nas batalhas sul-africanas e que viam lhes ser afligida uma
sobrecarga de impostos para garantir mais elevados lucros aos financistas
ingleses. Poderia ele consolá-los melhor do que fazendo-lhes crer que o
imperialismo não era assim tão mau, que ele estava próximo do inter (ou ultra)
imperialismo suscetível de assegurar uma paz permanente? Quaisquer que sejam
as boas intenções dos padres ingleses ou do mavioso Kautsky, a significação
social objetiva, isto é, real da sua “teoria” é, e só pode ser, a de consolar as
massas, num espírito eminentemente reacionário, com a esperança de uma paz
permanente em regime capitalista, desviando assim a sua atenção dos agudos
antagonismos e dos grandes problemas da atualidade e orientando-a para as
mentirosas perspectivas de não se sabe que futuro “ultra-imperialismo”
pretensamente novo. Na teoria de Kautsky não existe absolutamente nada que
não se traduza em mistificação das massas.
Com efeito, basta confrontar fatos claramente notórios, indiscutíveis, para
nos convencermos da falsidade das perspectivas que Kautsky se esforça por fazer
entrever aos operários da Alemanha (e aos operários de todos os países).
Consideremos a Índia, a Indochina e a China. Sabe-se que estes três países
coloniais e semicoloniais, com uma população total de 600 a 700 milhões de
habitantes, são explorados pelo capital financeiro de várias potências
imperialistas: Inglaterra, França, Japão, Estados Unidos, etc.. Suponhamos que
80

estes países imperialistas celebram alianças uns com os outros a fim de salva-
guardar ou dilatar as suas possessões, os seus interesses e as suas “zonas de
influência” nos mencionados países asiáticos. Aí teríamos alianças “inter-
imperialistas” ou “ultra-imperialistas”. Suponhamos que todas as potências
imperialistas concluíam uma aliança tendo em vista uma partilha “pacífica” destes
países asiáticos: poderíamos então falar do “capital financeiro associado à escala
internacional”. Existem exemplos deste gênero de alianças no decurso do século
XX, nas relações entre as potências e a China por exemplo. Subsistindo o regime
capitalista (condição que justamente Kautsky supõe) será “concebível” supor que
tais alianças não sejam de curta duração e que eliminem todas as possíveis e
imagináveis formas de fricções, de conflitos e de luta?
Basta enunciar, de forma clara, a questão par ases ver que a resposta só
pode ser negativa. Com efeito, em regime capitalista, é inconcebível supor que a
partilha das zonas de influência, dos interesses, das colônias, etc., assente sobre
algo que não seja a força daqueles que participam na partilha das zonas de
influência, dos interesses, das colônias, etc., assente sobre algo que não seja a
força daqueles que participam na partilha – a força econômica, financeira, militar,
etc. Ora, as respectivas forças destes participantes na partilha, variam de modo
diverso, pois, em regime capitalista, não pode existir desenvolvimento uniforme
das empresas, dos trustes, das indústrias, dos países. A Alemanha, há cerca de
meio século, comparado o seu poder capitalista com o da Inglaterra d e então,
representava um valor insignificante; o mesmo sucedia com o Japão em
comparação com a Rússia. Será “concebível” supor que daqui a uma dezena ou
vintena de anos, a relação de forças entre as potências imperialistas se manterá
imutável? É absolutamente inconcebível. Do mesmo modo, as alianças “inter-
imperialistas” ou “ultra-imperialistas”, quaisquer que sejam as suas formas, quer
se trate de uma coligação imperialista opondo-se a outra, quer de uma união
geral, englobando todas as potências imperialistas, nos surgem inevitavelmente,
não na ridícula fantasia pequeno-burguesa dos padres ingleses ou do “marxista”
alemão Kautsky, mas sim na realidade capitalista, apenas como “tréguas” entre
guerras. As alianças pacíficas preparam as guerras e nascem, por seu turno, das
guerras; condicionam-se entre si, originando alternativas de luta pacífica e de luta
não-pacífica, a partir de uma única e mesma base – a dos vínculos e das relações
imperialistas da economia e da política mundiais. Ora, o extra-lúcido Kautsky,
tendo em vista tranqüilizar os operários e reconciliá-los com os social-
chauvinistas, que se passaram para o lado da burguesia, separa os dois elos
desta única e mesma cadeia; separa a atual união pacífica (e ultra-imperialista (8))
de todas as potências, com vista à “pacificação” da China (recorde-se a repressão
da revolta dos Boxers) do conflito não pacífico de amanhã, o qual preparará para
depois de amanhã uma nova aliança “pacífica”, com vista, por exemplo, à partilha
da Turquia, etc., etc. Kautsky, em vez de mostrar aos operários a relação viva
entre os períodos de paz imperialista e os períodos de guerra imperialista,
oferece-lhes uma abstração sofisticada, tendente a reconciliá-los com os seus
degenerados chefes.
O americano Hill, no prefácio à sua História da Diplomacia no
Desenvolvimento Internacional da Europa, divide a História Diplomática
contemporânea em três períodos: 1) a era da Revolução; 2) o movimento
81

constitucional; 3) a era do “imperialismo comercial” contemporâneo. Um outro


autor divide a História da “Política Mundial” da Grã-Bretanha, a partir de 1870, em
quatro períodos: 1) o primeiro período asiático (luta contra a expansão da Rússia
em direção à Índia na Ásia Central); 2) período africano (aproximadamente entre
1885 e 1902) – luta contra a França com vista à partilha da África (“Fachoda”,
1898, torna-se um cavalo de batalha contra a França); 3) o segundo período
asiático (tratado com o Japão contra a Rússia); e 4) o período “europeu”
caracterizado, sobretudo, pela luta contra a Alemanha. “As escaramuças dos
postos avançados ocorrem no terreno financeiro”, escrevia, já em 1905, Riesser,
“personalidade” do mundo bancário, que mostrava como o capital financeiro
francês, operando na Itália, ia preparando a aliança política entre os dois países;
como decorria, a luta pela Pérsia, entre a Alemanha e a Inglaterra, assim como a
luta, pela concessão de empréstimos à China, entre os capitais europeus, etc. Eis
a viva realidade das pacíficas alianças “ultra-imperialistas” revelando-se na sua
indissolúvel ligação com os conflitos puramente imperialistas.
A atenuação feita por Kautsky às mais profundas contradições do
imperialismo é uma atenuação que igualmente vai influenciar a crítica que este
autor faz às suas características políticas. O imperialismo é a época do capital
financeiro e dos monopólios os quais provocam por toda a parte o aparecimento
de tendências não para a liberdade, mas para a dominação. Reação em toda a
linha, qualquer que seja o regime político, agravamento extremo dos
antagonismos: tal o resultado dessas tendências. De igual modo a opressão
nacional e a tendência para as anexações, isto é, para a violação da
independência nacional (pois a anexação mais não é do que uma violação do
direito das nações de disporem de si próprias) é particularmente agravada. Muito
corretamente, Hilferding nota a ligação entre o imperialismo e o agravamento da
opressão nacional. “No que se refere aos países recentemente descobertos,
escreve ele, o capital importado intensifica aí as contradições e dá origem à
crescente resistência dos povos, despertados para a consciência nacional, contra
os intrusos; esta resistência pode redundar facilmente em perigosas medidas,
dirigidas contra o capital estrangeiro. As antigas relações sociais sofrem uma
revolução radical; o milenário particularismo agrário das ‘nações situadas à
margem da história” é abalado; elas deixam-se arrastar pelo turbilhão capitalista. É
o próprio capitalismo que pouco a pouco sugere as vias de emancipação dos
povos dominados. E a criação de um Estado nacional unificado que, em outros
tempos, como instrumento de liberdade econômica e cultural, foi fim supremo das
nações européias torna-se também para elas um fim. Este movimento de
independência ameaça o capital europeu nos seus mais precisos domínios de
exploração, naqueles que lhe oferecem mais ricas perspectivas; e ele não pode
conservar a sua dominação senão multiplicando sem cessar as suas forças
militares” (9).

(8) David J. Hill: A History of Diplomacy in the international development of Europe.


(9) Hilferding: O Capital Financeiro, pág. 487.

A isto é preciso acrescentar que não é apenas nos países recentemente


descobertos, mas também nos antigos que o capitalismo conduz ao agravamento
82

do jugo nacional e, portanto, à exasperação da resistência. Erguendo-se contra o


agravamento da reação política por parte do imperialismo, Kautsky deixa, porém,
na sombra uma questão particularmente escaldante – a da impossibilidade de, em
período imperialista, se realizar a unidade com os oportunistas. Erguendo-se
contra as anexações, dá, porém, aos seus protestos a forma mais inofensiva e
mais facilmente aceitável pelos oportunistas. Dirige-se diretamente a um auditório
alemão, mas nem por isso deixa de lhe ocultar o que é justamente mais
importante e atual, nomeadamente o fato de a Alsácia-Lorena ser uma anexação
da Alemanha. Para bem avaliarmos o sentido deste “desvio intelectual” de
Kautsky, consideremos um exemplo. Suponha-se que um japonês condena a
anexação das Filipinas pelos americanos. Haverá muita gente capaz de acreditar
que ele não seja movido pelo desejo de anexar, ele próprio, as Filipinas, mas pela
sua hostilidade às anexações em geral? E não será que só quando igualmente ele
se volte contra a anexação da Coréia pelo Japão e quando reclame a sua
liberdade de se separar do Japão, é que se poderá considerar sincera e leal a sua
condenação?
A análise teórica assim como a crítica econômica e política do imperialismo
feita por Kautsky estão, inteiramente, impregnadas de uma tendência que é
absolutamente incompatível com o marxismo e que consiste em ocultar e atenuar
as contradições mais essenciais e em manter, a todo o custo, no seio do
movimento operário europeu, uma unidade comprometida como oportunismo.

X – O LUGAR DO IMPERIALISMO NA HISTÓRIA

Vimos que, atendendo à sua essência econômica, o imperialismo é o


capitalismo monopolista. Basta isto para definir o lugar do imperialismo na história,
pois, tendo nascido no terreno e a partir da livre concorrência, o monopólio marca
a transição do regime capitalista para uma ordem econômica e social superior. É
necessário destacar quatro aspectos principais dos monopólios, ou manifestações
essenciais do capitalismo monopolista, característicos da época que estudamos.
Em primeiro lugar, o monopólio nasceu da concentração da produção,
tendo ela atingido um elevado grau de desenvolvimento. Surgem então grupos
monopolistas de capitalistas – os cartéis, os sindicatos patronais, os trustes.
Vimos o imenso papel que eles desempenham na vida econômica dos nossos
dias. No começo do séc. XX, eles adquiriram uma supremacia total nos países
evoluídos e, se os primeiros passos na via da cartelização foram dados, em
primeiro lugar, pelos países com tarifas protecionistas muito elevadas (Alemanha,
América), a verdade é que esses países em pouco excederam a Inglaterra a qual,
com o seu sistema de liberdade do comércio, demonstrou o mesmo fato
fundamental, ou seja, que os monopólios são gerados pela concentração da
produção.
Em segundo lugar, os monopólios conduziram ao controle, cada vez maior,
das principais fontes de matérias-primas, sobretudo, na indústria fundamental e
mais cartelizada da sociedade capitalista: a da hulha e do ferro. O monopólio das
principais fontes de matérias-primas aumentou enormemente o poder do grande
capital e agravou a contradição entre a indústria cartelizada e a indústria não
cartelizada.
83

Em terceiro lugar, os monopólios desenvolveram-se através dos bancos.


Em tempos, modestos intermediários, detêm hoje o monopólio do capital
financeiro. Em qualquer que seja dos países capitalistas mais evoluídos, três a
cinco bancos alcançaram a “união pessoal” do capital industrial e do capital
bancário, e concentraram nas suas mãos bilhões e bilhões que representam a
maior parte dos capitais e dos rendimentos em dinheiro de todo o país. Uma
oligarquia financeira que sem exceção, envolve, numa apertada rede de relações
de dependência, todas as instituições econômicas e políticas da sociedade
burguesa dos nossos dias: tal é a manifestação mais saliente deste monopólio.
Em quarto lugar, os monopólios resultaram da política colonial. O capital
financeiro acrescentou aos numerosos “velhos” motivos da política colonial o da
luta pelas fontes de matérias-primas, pela exportação de capitais, pelas “zonas de
influência” – isto é, pelas zonas de vantajosas transações, de concessões, de
lucros de monopólio, etc. – e, finalmente, pelo território econômico em geral.
Quando, como por exemplo, sucedia em 1876, as colônias das potências
européias representavam apenas a décima parte da África, a política colonial
podia desenvolver-se de um modo não-monopolístico, sendo os territórios
ocupados segundo o princípio, permita-se a expressão, da “conquista livre”. Mas
quando (cerca de 1900) foram ocupados os 9/10 da África e quando o mundo
inteiro se encontrou partilhado, então começou necessariamente a era da posse
monopolística das colônias, e, portanto, a era de uma luta particularmente
encarniçada pela partilha e “repartilha” do globo.
Ninguém ignora como foram agravadas as contradições do capitalismo pelo
capitalismo monopolista. Basta ter presente a subida do custo de vida e o
despotismo dos cartéis. Este agravamento das contradições é a mais potente
força motriz do período histórico de transição que se inaugurou com a vitória
definitiva do capital financeiro mundial.
Monopólios, oligarquias, tendências para o domínio em vez de tendências
para a liberdade, exploração de um número sempre crescente de nações
pequenas e fracas por um punhado de nações extremamente ricas ou poderosas:
tudo isso originou os traços específicos do imperialismo que permitem caracterizá-
lo como um capitalismo parasitário ou decomposto. É cada vez com maior relevo
que se manifesta uma das tendências do imperialismo: a criação de um “Estado-
Rentista”, de um Estado usurário, cuja burguesia vive, cada vez mais, da
exportação dos seus capitais e do “corte de cupões de títulos”. Mas seria um erro
pensar que esta tendência para a decomposição impede o rápido crescimento do
capitalismo; não. Certos ramos da indústria, certas camadas da burguesia, certos
países revelam, na época de imperialismos, com maior ou menor força, ora uma
ora outra destas tendências.
O capitalismo, no seu conjunto, desenvolve-se muito mais rapidamente do
que dantes, mas tal desenvolvimento surge geralmente de forma desigual
manifestando-se essa desigualdade de desenvolvimento principalmente através
da decadência dos países ricos em capital (Inglaterra).
A propósito do rápido desenvolvimento econômico da Alemanha, Riesser,
autor de um estudo acerca dos grandes bancos alemães, escreve: “A expansão,
ainda que mais rápida, da época anterior (1848-1870) está para a rapidez do
desenvolvimento de toda a economia alemã e, nomeadamente, dos seus bancos,
84

nesta época, (1870-1905), um pouco como uma carruagem dos bons velhos
tempos está para o moderno automóvel, cuja velocidade, por vezes, se torna um
perigo, tanto para o peão imprevidente como para os ocupantes do carro”. Por seu
turno, este capital financeiro, que cresceu extraordinariamente depressa, mas não
desejaria, precisamente por essa razão, do que usufruir, “calmamente”, a posse
de colônias, de que ele carece de apoderar-se por meios nem sempre
exclusivamente pacíficos e a cargo nas nações mais ricas. Nestas últimas
décadas, o desenvolvimento econômico dos Estados Unidos foi ainda mais rápido
do que o da Alemanha. E é justamente “graças” a isso que os traços de
parasitismo do moderno capitalismo americano se manifestam de forma mais
saliente. Por outro lado, o confronto entre, por exemplo, a burguesia republicana
dos Estados Unidos e a burguesia monárquica do Japão ou da Alemanha mostra
que em período imperialista as maiores diferenças políticas se atenuam
consideravelmente, não porque, em geral, sejam de todo insignificantes, mas
porque, em todos os casos, se trata de uma burguesia que manifesta claramente
características parasitárias.
Os elevados lucros que os capitalistas de um entre muitos outros ramos da
indústria de um, entre muitos outros países, etc. ..., obtêm do monopólio, dão-lhes
a possibilidade econômica de corromperem certas camadas de operários e até,
momentaneamente, uma minoria operária bastante importante, atraindo-a para a
causa da burguesia que pertence ao respectivo ramo industrial ou à nação
considerada e jogando-as umas contra as outras. E o antagonismo cada vez maior
que as nações imperialistas revelam perante as ocupações de partilha do mundo
reforça esta tendência. Assim nasce a ligação entre o imperialismo e o
oportunismo, ligação que se manifestou mais cedo e com maior relevo na
Inglaterra do que em qualquer outra parte, pelo fato de as características
imperialistas próprias do desenvolvimento terem aí surgido muito mais cedo do
que nos restantes países. Há autores, por exemplo, L. Martov, que se comprazem
em negar – não obstante ela saltar à vista atualmente – a ligação existente no seio
do movimento operário, entre o imperialismo e o oportunismo, recorrendo a
raciocínios de um “otimismo simulado” (à maneira de Kautsky e de Huysmans) tais
como: a causa dos adversários do capitalismo seria uma coisa perdida se o
capitalismo evoluído conduzisse ao reforço do oportunismo, ou se os operários
mais bem pagos se mostrassem inclinados para o oportunismo, etc.. É preciso
não nos iludirmos acerca do valor deste “otimismo”; é um otimismo idêntico a
oportunismo; um otimismo que serve para dissimular o oportunismo. Na realidade,
a particular rapidez e o caráter particularmente odioso do desenvolvimento do
oportunismo, não constituem de modo algum uma garantia da sua vitória
duradoura, do mesmo modo que o rápido desenvolvimento de um abscesso
maligno num organismo sadio apenas pode acelerar a sua maturação, a sua
eliminação e a cura do organismo. A tal respeito, as pessoas mais perigosas são
as que não querem compreender que a luta contra o imperialismo, quando não se
liga indissoluvelmente à luta contra o oportunismo, se reduz a uma frase oca e
mentirosa.
De tudo o que deixamos dito acerca da natureza econômica do
imperialismo, resulta que devemos caracterizá-lo como um capitalismo de
transição, ou mais exatamente, como um capitalismo agonizante. A tal respeito é
85

extremamente elucidativo constatar que os economistas burgueses, ao


descreverem o capitalismo moderno, empregam freqüentemente termos, tais
como: “entrelaçamento”, “ausência de isolamento”, etc.; os bancos são “empresas
que, pelas suas tarefas e pelo seu desenvolvimento, não têm um caráter
econômico estritamente privado e escapam cada vez mais à esfera da
regulamentação econômica estritamente privada”. Porém, este mesmo Riesser, a
quem pertencem estas palavras, proclama, muito a sério, que a “previsão” dos
marxistas respeitante à “socialização” “não se realizou”!
Que quer dizer, no entanto esta palavra “entrelaçamento”? Ela traduz
simplesmente o traço mais saliente do processo que se desenrola sob os nossos
olhos. Ela mostra que o observador fala das árvores, mas não vê a floresta. Ele
copia servilmente o que é exterior, fortuito, caótico. Ela denuncia no observador
um homem esmagado pelos materiais em bruto e totalmente incapaz de extrair
deles o sentido e o valor. Posse de ações e relações entre proprietários privados
“entrelaçando-se acidentalmente”. Mas o que está por detrás deste
entrelaçamento, o que constitui a sua base são as relações sociais de produção e
a sua perpétua mutação. Quando uma grande empresa se torna uma empresa
gigante e quando tendo exatamente em consideração uma multidão de
informações, organiza metodicamente a canalização de dois ou de três quartos
das matérias-primas básicas necessárias a dezenas de milhões de homens;
quando ela organiza sistematicamente o transporte destas matérias-primas até os
locais de produção mais apropriados que, por vezes, se encontram a centenas e
milhares de léguas; quando um único centro detém a direção principal de todas as
fases sucessivas do tratamento de matérias-primas, e até inclusive da fabricação
de toda uma vasta gama de produtos acabados; quando, se distribuem estes
produtos segundo um plano único entre dezenas de milhões de consumidores
(venda do petróleo na América e na Alemanha pela “Standard Oil” americana),
então, torna-se evidente que estamos em presença de uma socialização da
produção e não, de modo algum, em face de um simples “entrelaçamento” e que
as relações reveladoras de economia privada e propriedade privada constituem
um invólucro cuja medida diverge do seu conteúdo, o qual necessariamente
começará a apodrecer se procurar retardar-se artificialmente a eliminação daquilo
que, muito embora possa continuar e apodrecer durante um lapso de tempo
relativamente longo (se no pior dos casos o tumor oportunista tardar a rebentar),
nem por isso deixará de ser inevitavelmente eliminado.
Schulze-Gaevernitz, admirador entusiasta do imperialismo alemão,
exclama:
“Se, em última análise, a direção dos bancos alemães se encontra nas
mãos de uma dúzia de pessoas, a atividade destas últimas é, no entanto, mais
importante para o bem público do que a da maioria dos ministros” (é melhor
esquecer aqui o “entrelaçamento” dos homens dos bancos, dos ministros, dos
industriais, dos rentistas...) “Imaginemos que as tendências que salientamos
chegam ao termo da sua evolução: o capital-dinheiro da nação está concentrado
nos bancos; estes ligam-se entre si no seio de um cartel; o capital de
investimentos da nação tomou a forma de títulos. Então, concretizar-se-iam as
geniais palavras de Saint-Simon: ‘A atual anarquia da produção proveniente do
86

fato de as relações econômicas se desenvolverem sem regulamentação uniforme,


deve dar lugar à organização da produção.
A produção não mais será dirigida por empresários isolados, independentes
uns dos outros e ignorando as necessidades econômicas humanas, mas sim por
uma instituição social. A autoridade administrativa central capaz de, a partir de um
ponto de vista mais elevado, tomar em consideração o vasto domínio da economia
social, irá regulamentá-la de uma maneira que seja útil ao conjunto da sociedade,
colocará os meios de produção em mãos qualificadas e velará, nomeadamente,
por uma constante harmonia entre a produção e o consumo. Há estabelecimentos
que, entre suas tarefas, incluíram uma certa organização da obra econômica: são
os bancos’. Nós ainda estamos longe da concretização destas palavras de Saint-
Simon, mas para aí caminhamos; trata-se de marxismo apenas na forma,
diversamente do modo como Marx o concebia” (1).
Excelente refutação de Marx que, no que se refere à sua exata análise
científica, dá um passo atrás no sentido da adivinhação de Saint-Simon, sem
dúvida genial, mas, que, no entanto, não deixa de ser uma adivinhação.

(1) Grundriss der Sozialökonomik, pág. 146.