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Francisco Salgueiro

O FIM DA INOCÊNCIA
II

Diário Secreto de Um Adolescente Português


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Estou em frente ao ecrã do computador. Não sei como


vim aqui parar. A última coisa de que me recordo foi estar
a foder. Muito. Com força. Ela pedia que lhe apertasse o
pescoço. Acho que o fiz. Não me lembro. Não me lembro de
muito. Não me lembro de nada. Tenho a ideia de antes ter
estado numa loja de drogas legais.
Ela era mais velha. Que idade eu tenho? 17? Parece que
sim. O meu cérebro não está a funcionar bem.
Comecei a sentir-me muito mal depois de me ter vindo.
Enquanto ela gemia, eu percebi que a minha cabeça e o meu
corpo não estavam a funcionar ao mesmo tempo. Pensei que
estivesse a ficar com gripe.
Ela deu um berro enorme.Veio-se. O corpo começou a
balançar. Parecia que tinha levado um choque. Eu tinha de ir
à casa de banho vomitar. O cheiro que vinha dela agoniava-
-me. Tentei levantar-me, mas ela não quis que eu saísse dali.
Abraçava-me com força. Eu estava dentro da prisão perpétua
de uma mulher com idade para ser minha mãe.
Sentia-me cada vez mais maldisposto. O quarto andava
à roda. Não sabia porquê. Sabia, sim. Havia momentos de
lucidez em que eu percebia que devia ser um dos efeitos
da droga que tinha consumido. Chamava-se Trip E? Kick?

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Gorby Mix? Não sei. Na embalagem, estava escrito que


era um fertilizante de plantas. Encontrava-se à venda numa
smartshop, aberta a qualquer pessoa que queira consumir.
Eu fui lá, como habitualmente. Comprei aquela marca pela
primeira vez.
Estava na casa de banho. Olhei-me ao espelho.
Encontrava-me branco. Um branco de morte. Quis vomitar,
mas não consegui.
Ao longe, ouvi a voz da Teresa a chamar-me. Acho que
é esse o nome dela. Queria que eu fosse fodê-la. De novo.
Comecei a vomitar. Se calhar a causa da minha agonia não
tinha a ver com drogas mas com aquilo que fazia. Prostituto.
Continuei a vomitar.
Frio, muito frio. A minha cara estava junto ao mármore
do chão da casa de banho. Não me lembro de ter caído. Caí.
O meu corpo tremia todo. Tinha convulsões. Sentia-me a
apodrecer.
Precisava de sair dali. Se me afastasse daquele ambiente
iria ficar bem. Apenas necessitava de voltar para casa, para as
minhas coisas. Tinha de largar tudo aquilo que começou uns
anos antes.
O meu corpo foi abanado por alguém que chamava
por mim. Imaginei que fosse a minha mãe, quando eu era
pequeno. Precisava de me sentir seguro. Tentei chamar pelos
meus pais. Alto. Não consegui. Da minha boca apenas saiu
uma leve corrente de ar. Nada mais. Abri os olhos e percebi
que estava a ser fodido.
Em cima de mim, a Teresa fodia-me de olhos fechados
e agarrava na minha mão direita para que eu lhe tocasse no
clitóris, ao mesmo tempo que ela se afundava com força
no meu caralho. A cara de prazer dela deu-me nojo. Dela,

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de mim. Daquilo que eu fazia. Não sabia onde estava. Não


conseguia pensar.
«Fode-me, fode-me com força.»
Eram estas as palavras que eu ouvia.
Eu acordava e desmaiava. Ela não dava por nada. Tudo
aquilo era nojento. Eu só me queria ir embora. Tentei sair
debaixo dela. Ela achou que eu estava a brincar, que estava a
fazer role playing para a excitar.
«Queres sair, não é? Não te vou deixar. Portaste-te mal e
agora vais ser castigado.»
Eu não tinha forças para sair. Ela gemia cada vez mais
alto. Tive várias tentativas de vómito. Nem isso eu consegui.
Senti o meu corpo a desligar. Olhei para o lado da cama e vi
o saco da droga que acabara de consumir. Senti espasmos nas
pernas. Eram contracções involuntárias dos músculos.
«Isso! Estás a gostar, não estás?»
Desliguei. Deixei-me ficar ali deitado. Carne para ser
fodida. Apenas senti uma lágrima a escorrer dos meus olhos.
Senti que podia estar a morrer por causa de drogas legais.
Pela minha cabeça, passaram imagens das várias notícias sobre
pessoas que tinham morrido por causa delas.
Eu não tinha tomado uma grande quantidade. Tentava
convencer-me disso. A fuga estava em prática. Abri a porta
do apartamento da Teresa e olhei angustiado, à minha frente,
para um corredor que não acabava.
«O que estás a fazer aqui?»
À minha frente, dois sapatos. Pretos. Envernizados.
Cheiravam a novos. Não me consegui conter e vomitei para
cima deles. Ouvi gritos. Alguém tentava pontapear-me. Devo
ter adormecido no elevador. Tinha ficado exausto com o
sprint no corredor. Não sei como, mas saí de casa dela.

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Andei. Corri. Só parei quando estava dentro do táxi.


Disse a minha morada. Devo ter dito, senão não estava aqui.
Estou à frente do computador. Tenho várias janelas
abertas. Mefedrona. Efeitos secundários: suores frios, sede,
visão deturpada, aceleração, desmaios, alucinações, paranóia.
Morte. Morte? Morte!
Levanto-me da cadeira e começo a correr muito
depressa à volta da cama. Se correr vou expulsar isto de
dentro do meu corpo.
Estou de novo em frente ao computador, não me lembro
de ter parado de correr, ou se calhar nem sequer comecei.
No ecrã vejo o meu perfil no Facebook. Há uma gigantesca
janela com notificações. O número vai aumentando
exponencialmente 10... 20... 30... Passa-se qualquer coisa.
Cada vez que este aumenta, eu conto até 100 na minha
cabeça. Depressa. Não consigo parar, é uma coisa compulsiva.
Porque estarei a receber tantas notificações?
Joana. Filipa. Leonor. Nomes. De mulheres. Vão-se
multiplicando.
São emails que chegam.
«Quero foder-te.»
«A Alice disse para eu te contactar.»
«Sou a Leonor, a Teresa disse-me que tu e uns amigos
fodem bem. Entra em contacto comigo.»
Ver aqueles nomes todos dá-me uma agonia cada vez
maior. Lembro-me de tudo o que tenho andado a fazer.
Tenho vergonha. Sinto-me mal. Preciso de ir para o hospital.
Quero ligar. Não posso ligar. Os meus pais estão a dormir
no quarto ao lado. E se eu for para a rua e chamar uma
ambulância? Assim eles nunca o saberão.
A cabeça deixou de pensar. Está tudo escuro à minha
volta e eu não sei onde estou. Vejo dois quadros lá no alto.
Talvez esteja no corredor. Estou deitado no chão, a tentar

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rastejar com os cotovelos. Fiquei sem força nas pernas. Arrasto


o meu corpo. Devo estar a ir na direcção do quarto dos meus
pais.
Tento gritar. Não consigo. Preciso de ir rapidamente
para o hospital. O meu coração bate depressa como eu nunca
o senti. Suo. Um suor gelado. Cada gota que escorre pela
minha cara paralisa os músculos.
«Gonçalo, o que é que te aconteceu?»
Ouço esta frase repetida por várias vezes. A voz é-me
familiar. Lembro-me das férias na neve com os meus pais. Em
Baqueira, quando era mais novo. Sorrio. Sinto que adormeci
na sala e que o meu pai me leva ao colo até ao quarto. O
cheiro da lareira reconforta-me. Agora sei que tudo vai ficar
bem.
Abro os olhos, e a minha mãe observa-me horrorizada.
Ao longe, oiço a voz do meu pai. Posso deixar-me ir. Sei que
eles agora vão finalmente tomar conta de mim.
«Abre os olhos, Gonçalo, abre os olhos!»
«Não adormeças! Não adormeças!»
Não consigo cumprir as ordens do meu pai. Tenho sono.
Quero dormir. Nunca adormeci com o coração a bater assim
tão depressa. Será uma experiência nova. Vou experimentar.
Preciso de descansar. Preciso de esquecer tudo o que eu tenho
feito nos últimos anos. Sinto o meu corpo começar a desligar.
«Não adormeças!»
Sinto um estalo na cara. Talvez eles estejam a bater-me
para eu não adormecer.
Ao longe, ouço a minha irmã com a voz muito alta a
perguntar o que se passa.
Não te preocupes, Constança, tudo vai ficar bem. Eu
agora só preciso de adormecer. Tudo vai ficar bem.

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Cada vez tenho menos noção do que se está a passar


à minha volta. Cada vez estou menos em contacto com a
realidade.
Vejo homens, com enormes casacões amarelos, em cima
de mim. A minha mãe e a minha irmã choram.
Já não consigo pensar que tudo vai ficar bem. Talvez o
que me esteja a acontecer não seja sono. Talvez seja mais do
que isso. E se eu estiver a morrer? E se o meu corpo está a
reagir ao comprimido que tomei?
Comprimido? Terei tomado mais do que um? Sim,
acho que sim. Vários.
Sinto um choque a percorrer o meu corpo. Uma
pulsação eléctrica que se espalha e que me empurra pelo ar.
«Afastem-se!»
Novo choque eléctrico a percorrer-me o corpo. Sinto-
-me a flutuar. O meu corpo está leve, como eu nunca o senti.
Estou a flutuar. Não oiço nada à minha volta. Talvez tudo
tenha acabado. Talvez eu tenha morrido.
Sou demasiado novo para morrer. Tenho apenas 17
anos.
Não vi nenhuma luz branca ao fundo de um túnel,
mas deixei de sentir a realidade. Está tudo escuro à minha
volta. Não tenho mais dores ou mal-estar. É uma sensação
de não-existência, de morte. É apenas esta a palavra que me
vem à cabeça. Todas as diferenças entre a vida e a morte
desapareceram. Não sinto o meu corpo. Não sei o que estou
a sentir.
Talvez esteja morto. Talvez apenas em coma.
Nunca senti nada assim.
Esta é a minha história.

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Sou alto. Os meus pés e a minha cabeça estão em códigos


postais diferentes. Se eu tivesse nascido nos Estados Unidos
provavelmente seria jogador de basquetebol e viveria numa
mansão com 143 quartos e dois fusos horários diferentes. Em
vez de ter cães, teria leões, dos raros, e tigres, dos albinos.
Era baixo, e normal. Quando me olhava ao espelho,
via-me um anão. Até que de repente, aumentei de tamanho.
Durante os primeiros tempos, era muito desajeitado a andar.
Não sabia o que fazer com pernas e braços tão grandes. Sentia
que o centro de gravidade da Terra estava sempre a gozar
comigo e, muitas vezes, tropeçava sem saber bem porquê.
Tinha, na altura, 13 anos. Andava num dos melhores colégios
de Lisboa e passei a ser o aluno mais alto da minha turma. E o
mais popular. Até esse momento, eu era apenas mais um, mas,
desde então a minha altura, pelos vistos, era um atractivo.
A minha mochila começou a parecer um marco dos
correios, porque eram lá depositadas dezenas de papéis.
«Queres namorar comigo?»
De rapaz normal passei a patrão, porque todas as raparigas
do colégio queriam namorar comigo, não só as que tinham a
minha idade como também as mais velhas, as de 15 anos.

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Além dos 3 quilos a mais que a minha mochila passou


a pesar diariamente, com tantos papéis, em casa, eu recebia
mensagens através do Facebook e do telemóvel (mais tarde,
descobri que o meu número estava visível no Facebook sem
eu o saber).
As mensagens dividiam-se sempre entre dois géneros
diferentes:
1) directas;
2) hardcore.
As mensagens directas tinham poucos caracteres e diziam
apenas: «Queres namorar comigo?»
As mensagens hardcore... bem, eram isso mesmo.
Fotografias, às vezes vídeos delas nuas, delas a fingirem que se
masturbavam ou a beijarem a melhor amiga na boca. Muitas
eram montagens, outras eram mesmo reais. Os textos que
acompanhavam as mensagens eram também muito directos:
«Queres foder?», «Quero fazer-te um broche», «Quero que me
comas.» Sim, as raparigas tinham entre os 12 e os 15 anos. Isto
é normal hoje em dia, e uma aberração no tempo dos nossos
pais.
No período pré-gigante, tinha apenas 100 amigos no
Facebook. Hoje, a popularidade mede-se pelo número de
amigos que se tem no Facebook. As roupas ou os carros dos
pais já não interessam tanto. Quantos mais amigos, mais likes.
E nós sentimo-nos populares pelo número de likes. Não somos
ninguém, até alguém falar de nós, até gostarem, em massa, do
que dizemos ou fazemos.
Nessa altura, olhava com alguma inveja para amigos
que tinham entre os 700 e os 1000 amigos. Esse sim, era o
grande objectivo: 1000 amigos. Sei que era uma estupidez, que

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eles não podiam conhecer aquelas pessoas todas, mas aquilo


fazia-me sentir um pouco inseguro. Inferiorizado. Eles eram
melhores do que eu.
Até que o número de amigos no Facebook foi
acompanhando o meu crescimento. Cada milímetro a mais
correspondia a 10 novos pedidos de amizade. O meu perfil
passou de 100 amigos para 200, depois para 300 e, ao fim
de algum tempo, eu já tinha mais de 500 amigos. Comecei a
sentir-me bem mais confiante.
Ao andar pelos corredores do colégio, passei a sentir
a admiração. Era uma coisa perfeitamente irracional. Eu,
Gonçalo, o ex-desengonçado, o ex-anão, era um patrão.
Foi assim que me passaram a chamar no colégio. Eu
era um patrão, um gajo com pinta e que as pessoas acham
extraordinário. Não sei bem o que fiz a não ser ter crescido
em altura.
«És tão giro!», diziam-me, entre suspiros, dos meus olhos
verdes, do meu cabelo grande, dos meus músculos. Não sei de
que músculos falavam elas. Eu não ia ao ginásio.
No Facebook apareceu uma página dedicada a mim,
na qual se postavam fotografias minhas à espera do autocarro,
a andar nos corredores, a comer. Em cima delas, escreviam:
«Amo-te», «Casa comigo» ou «Comia-te».
Como viria a acontecer a outros amigos meus, a partir
daquele momento era-me fácil ir para a cama com qualquer
rapariga que eu quisesse. Só que...
«Olá!»
Esta foi a primeira palavra que eu lhe disse, ou que gostava
de lhe ter dito. O meu cérebro engasgou-se e eu limitei-me
a olhar.

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A Madalena acabara de ser transferida para o colégio. O


pai era diplomata na Ásia e eles tinham regressado a Portugal.
Ela foi para a minha turma e não se dava praticamente
com ninguém. Todos os rapazes, excepto eu, achavam-na
tímida, e as raparigas sentiam uma forte rivalidade em relação
à novata.
«Deve ser uma grande vaca!»
«Ouvi dizer que veio para Portugal, porque os pais a
apanharam a fazer um bico. Puta!»
«Tem ar de engolir.»
Estas foram algumas das frases que eu vi escritas no
Facebook sobre a Madalena. Senti logo uma vontade de a
proteger.Apesar de nunca ter aproveitado a minha popularidade
para a foder, como alguns amigos meus faziam, eu sabia que, se
ela fosse vista comigo, estes ataques poderiam diminuir.
Na tarde em que a vi pela primeira vez, e mal cheguei a
casa, fiz o que qualquer adolescente faz quando está apaixonado.
Vai para o Facebook e faz um pedido de amizade.
Liguei o computador e escrevi o nome dela. Procurar.
Apareceram-me 24 pessoas. Em 4.º lugar nas sugestões, via-
-se a fotografia dela. Morena, de olhos verdes, sorridente, ar
inocente, tímida, tal como eu me lembrava dela nessa tarde.
Ela aceitou. É normal aceitarmos convites de amizade
vindos de estranhos.
Via-a nas aulas todos os dias, queria falar com ela mas
tinha vergonha, apesar de nós sermos amigos no Facebook.
Era-me estranho, verem-me como um popular e eu ainda me
sentir um tímido.
Até que tivemos de fazer, para as aulas de Português,
um trabalho de grupo a pares e que deveria ser entregue na
semana seguinte. Eu e a Madalena ficámos juntos.

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O FIM DA INOCÊNCIA II

Ela tinha ar de ser querida. Isso atraía-me. Durante as


aulas, sentia-me um turista a admirar para um monumento.
Passava o tempo todo a olhar para ela.
Por causa do trabalho de Português, eu e a Madalena
fomos estando cada vez mais juntos. Ficámos inseparáveis:
um do outro, e ela dos meus amigos.
Diogo, o meu melhor amigo, conhecíamo-nos desde
sempre. Os nossos pais já eram amigos e meteram-nos no
mesmo colégio. Estava sempre disposto a experimentar
qualquer coisa.
João, era da nossa turma. Obcecado com râguebi e com
motas, além de ser fanático pelo Benfica. Ia com o pai a todos
os jogos. Os dois tinham ficado muito próximos desde que a
mãe morrera, há três anos, de cancro.
Isabel, divertida e muito esperta. Foi a primeira
namorada do João. Quase perdeu a virgindade com ele.
«Era o homem da minha vida. Estava tão apaixonada.» Não
funcionou, e ficámos todos amigos. Loura, chamava muito a
atenção. No Facebook, das 700 fotografias suas, 600 eram em
biquíni na praia.
Sara, gostava de se vestir de forma provocadora. Era
muito sexy, o que levava os gajos a apaixonarem-se facilmente
por ela. Era uma teaser1 e estava sempre a receber presentes,
normalmente chocolates. Dava-no-los. Tinha medo de
engordar. Viciada em moda, lia todas as revistas e blogues
sobre o assunto. Era alta. O seu sonho? Ser modelo. Enquanto
isto não acontecia, ela tinha um blogue de moda com mais
de dois mil seguidores habituais.

1 Provocadora.

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Ao fim de algumas semanas, a Madalena encontrava-se


perfeitamente integrada no meu grupo. Estávamos sempre
juntos. Os ataques no Facebook diminuíram.
Um dia, já perto do final do ano lectivo, olhei para a
Madalena e vi que ela estava diferente. Durante os primeiros
minutos, não consegui perceber o que era. Talvez tivesse
cortado o cabelo, talvez tivesse aumentado 40 centímetros de
altura. Tal como fizera nos primeiros dias em que a vi, fiquei
a olhar para ela, nas aulas, a tentar descobrir o que se estava a
passar.
Minissaia, soutien, um decote aberto, e havia qualquer
coisa na cara. Aquela não era a cor normal da pele dela, e nos
lábios havia também um tom diferente. Só quando cheguei
a casa e vi a minha mãe é que percebi: aos quase 13 anos, a
Madalena já estava a usar maquilhagem. Não tão intensa como
a da minha mãe, mas o suficiente para eu perceber que ela se
tinha pintado.
Durante esse ano lectivo, o nosso grupo só se encontrava
fora do colégio nos fins-de-semana, e de vez em quando. Nas
férias de Verão, 9 meses depois de termos acolhido a Madalena,
começámos a ir muito para a casa uns dos outros. Onde não
houvesse nenhuma empregada ou familiar, era para aí que
íamos. E havia sempre uma casa vazia.
Ouvíamos música, sobretudo elas. Jogávamos PlaySta-
tion3, sobretudo nós.
Numa dessas tardes, eu, o Diogo e o João, como sempre,
jogávamos FIFA. Quem perdia, dava a vez a outro.
Como música de fundo, ouvia-se a Shakira. Eu estava
com a bola nos pés, mas conseguia perceber que havia alguma
coisa a passar-se na sala que exigia a minha atenção.

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– Remata! Remata! – gritou o Diogo que, naquele


momento, era espectador do jogo.
– Ah! Ah! Ah!
Ouvi um riso intenso. À minha frente, no ecrã de
televisão gigante da sala da Madalena, vi uma bola de futebol
a passar por cima da baliza, como se eu estivesse num jogo de
râguebi. Fora um remate estúpido.
Estava tão concentrado a ver o que elas faziam que,
mesmo que estivesse a um milímetro da baliza, eu teria falhado.
Num canto da sala, a Madalena, a Isabel e a Sara estavam
a dançar, muito juntas, ao som de músicas da Shakira e da
Beyoncé. Elas não dançavam apenas como se fossem amigas
numa discoteca. Elas transmitiam sexo. Elas roçavam-se umas
nas outras, imitando os videoclips das músicas que passavam
sem parar no You Tube. Riam-se num misto de ingenuidade
e de sexualidade. Havia um sentimento de descoberta e de
afirmação sexual.
Aquela cena ficou gravada na minha cabeça durante
vários dias. Nessa tarde, quando cheguei a casa, fui para a casa
de banho. Na minha cabeça, vi a Madalena a dançar com elas
e a roçarem-se umas nas outras. Imaginei-a a roçar-se em mim.
Vim-me muito rapidamente.
A partir desse dia, as minhas tardes nunca mais foram as
mesmas. Eu era campeão absoluto do FIFA e, de repente, passei
a perder todos os jogos. Nenhum dos meus dois amigos queria
jogar contra mim, porque diziam que eu jogava tão mal que
parecia estar no nível ultrafácil. Era impossível concentrar-me
vendo-as a dançar na sala, a cada dia que passava de forma mais
provocadora. Sempre ao som da Shakira, da Lady Gaga, da
Rihanna, da Beyoncé ou da Katy Perry, elas tentavam imitar

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FRANCISCO SALGUEIRO

o que viam nos vídeos bastante sexuais, como se aquilo fosse


a coisa mais natural. Eu deixei de querer jogar com eles e
passei a ficar no sofá a fingir que lia revistas. Ao princípio,
eles não perceberam o porquê do meu súbito interesse em
economia.
– Andas bem? – perguntou-me o Diogo.
– Sim, porquê? – respondi-lhe.
– És gay?
– Hã?
– Já não gostas de futebol? – começou o João a dizer. –
Será que estás a ficar paneleiro?
Deu-me vontade de rir. Queria contar-lhe que vê-las
a dançar me excitava e que eu me masturbava todos os dias,
várias vezes, ao pensar nisso.
Foi o que aconteceu uns dias mais tarde.
– Até tenho vontade de voltar a andar com a Isabel –
disse o João numa das longas tardes desse Verão.
– Masturbei-me esta noite a pensar na Sara – disse o
Diogo.
A partir dessa tarde, as nossas conversas passaram do
FIFA para as miúdas. Ao jogarmos, apenas fingíamos. Era
uma desculpa para as podermos ver a dançar, sem elas darem
por nada.
Eu acho que elas se apercebiam disso, mas fingiam que
não.
Ao mesmo tempo, e quando não havia vídeos no
You Tube ou PS3, nós os seis discutíamos coisas muito
importantes. Ao fim de quanto tempo, depois de se começar
uma relação, é que se deve mudar o estado no Facebook?
Quando se acaba um namoro deve-se desamigar essa pessoa

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no Facebook, bloqueá-la ou deixar tudo na mesma? As


discussões eram acesas mas engraçadas.
No final do Verão, as danças delas, de desajeitadas,
passaram a movimentos corporais perfeitamente sincronizados
com os dos videoclips, e acabaram em danças sexualmente
provocadoras.
Sempre que o faziam, riam-se. Primeiro, começaram por
tocar nos rabos umas das outras, depois por dar festas nas caras
e, um dia, tocaram ao de leve nas mamas: primeiro nas suas,
depois nas das outras.
«Somos strippers, bitches!2»
Risinhos. Para elas era, aparentemente, tudo inocente.
Para nós, os três, aquilo levou a uma explosão de hormonas e
a uma maratona de punhetas.
Foi a partir dessa altura que eu comecei a aperceber-
-me de que, à nossa volta, tudo aquilo que consumíamos tinha
uma enorme energia sexual. Os videoclips com cantoras quase
despidas passavam repetidamente na televisão ou estavam
disponíveis a qualquer hora e para qualquer pessoa no You
Tube. Na televisão e no cinema, as séries e os filmes para a
nossa idade tinham sempre referências a sexo. Até em certos
jogos havia mulheres nuas e sexo. Nas revistas, espalhadas
por todos os lados, existiam dicas sobre orgasmos e posições
sexuais.
Há muitos anos que andávamos a consumir sexo, sem
termos consciência disso.
Para os nossos pais, estávamos apenas a apreender aquilo
que naturalmente eles viveram quando tiveram a nossa idade:

2 Palavra complexa com diversas interpretações. Neste contexto, significa “desavergonhadas”, mas
sem tom depreciativo.

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música, entretenimento e jogos. Só que talvez eles não se


apercebessem de que, para onde quer que nós olhássemos,
havia sexo em quantidades brutais. E isso dava-nos cada vez
mais vontade de o fazer.
E esse dia não estava muito longe.
– Amanhã, à tarde, vamos ver filmes pornográficos em
minha casa? – perguntou o Diogo.
Corei. Não me vi ao espelho naquele momento, mas
tenho a certeza de isso ter acontecido. Não pela pergunta,
pois eu e o João íamos com muita frequência para a casa do
Diogo ver filmes pornográficos na Internet. Era assim que
aprendíamos o que se devia fazer. Aquele era o único escape
que tínhamos por não fodermos. Os filmes eram gratuitos e
estavam à distância de um clique.
Em minha casa, eu não podia ver pornografia, porque os
meus pais tinham ouvido um psicólogo muito conceituado na
televisão a dizer que o computador devia estar sempre na sala
para os pais poderem controlar aquilo que os filhos faziam na
Internet. Isso até era mais ou menos verdade dentro de casa,
mas acho que ninguém deverá ter avisado o psicólogo que
há amigos que têm computadores nos quartos e que, nestas
idades, passamos a vida em casa uns dos outros.
Corei, porque o Diogo fez aquela pergunta à frente da
Madalena, da Isabel e da Sara.
– Sim – disseram as três em conjunto, a rirem-se de
forma muito nervosa.
Ele olhou para mim com um ar de “estás a vez como eu
tinha razão?”
– Alguma de vocês já viu pornografia? – perguntou
novamente.

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Elas olharam umas para as outras e começaram a rir-


-se, uma vez mais com aquele risinho que faziam sempre que
havia referências sexuais.
– Não, claro que não – disseram em coro.
– Sim, claro que sim – disse o João, quando foi ter comigo,
no dia seguinte, para irmos para a casa do Diogo.
– Achas? – perguntei desconfiado.
– Onde é que pensas que aquelas miúdas que põem os
papéis na tua mochila ou que te mandam SMS vão buscar as
ideias para o que escrevem? São poucas as raparigas do colégio
que a partir dos 12 anos nunca viram pornografia. E se elas
não viram pornografia, viram uma versão mais suave numa
série sacada da Internet. Qual a série que hoje em dia não tem
cenas de sexo? E o que é que nós vemos todos? Séries, muitas.
Filmes, imensos.
Quando chegámos à casa do Diogo, elas já lá estavam.
Havia um ambiente de excitação. Pela primeira vez, íamos ver
filmes pornográficos com raparigas, e elas, com rapazes, o que
dava quase tanta pica como perder a virgindade.
Sentámo-nos à volta do computador do Diogo. Ele vi-
rou-se para nós e com um ar confiante fez-nos uma pergunta:
– Algum de vocês já viu filmes pornográficos com ani-
mais?

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