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ARQUITETURAS

DO PORVIR:
TRANSPORTE FLUVIAL
NA REPRESA BILLINGS

PAULO EDUARDO SCHEUER


AGRADECIMENTOS

Ao professor Francisco Petracco


por compartilhar seu conhecimento
e experiência durante o
desenvolvimento do trabalho

Ao professor Luiz Guilherme Castro


pelo rico processo de discussão
e desdobramento de ideias durante
o desenvolvimento do trabalho

Aos professores Júlio Vieira,


Lizete Rubano e Celso Minozzi
por serem portas
para novas leituras da
arquitetura e do urbanismo

Aos familiares e amigos pelo


incentivo e apoio nestes felizes
anos de graduação
UNIVERSIDADE PRESBITERIANA MACKENZIE

FACULDADE DE ARQUITETURA E URBANISMO

TRABALHO FINAL DE GRADUAÇÃO


Paulo Eduardo Scheuer

ORIENTADOR PROJETO
Prof. Dr. Francisco Lucio Mario Petracco

ORIENTADOR MONOGRAFIA
Prof. Dr. Luiz Guilherme Rivera de Castro

TRABALHO DESENVOLVIDO
Terminal fluvial na Represa Billings, São Paulo, SP

São Paulo, SP - 1º semestre - 2015


ÍNDICE

8 ENSAIOS SOBRE O
TERRITÓRIO FRAGMENTADO

14 1. SEGREGAÇÃO SOCIAL
NA PRODUÇÃO DO
ESPAÇO URBANO

27 2. LEGISLAÇÃO AMBIENTAL EM
ÁREAS DE MANANCIAIS:
MUDANÇA DE PARADIGMAS

37 3. A LEITURA DO OCULTO:
COTIDIANO E REDES

54 4. ARQUITETURA ABERTA E
ESPAÇOS SUPORTE

63 5. HIPÓTESE PROJETUAL:
TERMINAL FLUVIAL NA
REPRESA BILLINGS

100 CONSIDERAÇÕES FINAIS


Arquiteturas do porvir: transporte fluvial na represa Billings 6
Fonte : Marcos Costa
Arquiteturas do porvir: transporte fluvial na represa Billings 7
Arquiteturas do porvir: transporte fluvial na represa Billings 8

SOBRE O
ENSAIOS1

TERRITÓRIO
FRAGMENTADO
A busca pela compreensão da arquitetura na contemporaneidade

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- configurada como uma realidade multifacetada - coloca à prova o
leque técnico e conceitual do arquiteto e urbanista ao redesenhar

Arquiteturas do porvir: transporte fluvial na represa Billings


seu papel diante de demandas provenientes de diversos agentes,
numa realidade permeada por situações desiguais de bem estar
social, muitas delas caracterizadas pela extrema pobreza. Um
cenário no qual palavras-chave como complexidade e fragmentação dão
pistas para a elaboração de hipóteses projetuais capazes de incorporar
a legibilidade dos mais diversos tipos de dinâmicas sociais. Neste con-
texto, o município e a região metropolitana de São Paulo encaixam-se
como territórios desafiadores à cartografia de circunstâncias e eventos
alimentadores do partido arquitetônico, a fim de torná-lo um código
aberto, um suporte coerente, mutável e reconhecível aos seus usuários
em meio ao ambiente no qual está implantado.

Deslocar o enunciado da abordagem arquitetônica como uma


suposta instância provedora de soluções para situações problema à
de formuladora de proposições a serem lapidadas e reconfiguradas
ao longo de sua existência colocam este trabalho na posição de ensaio1.
Trabalho resultante do registro e reflexão de referências acumula-
das nos anos de graduação, intenta-se realizar pressupostos cabíveis
entre o consolidado e difundido legado da arquitetura moderna, em
especial no Brasil, e sua atualização diante de quadros desastrosos
no que diz respeito à qualidade de vida da população de camadas de
renda mais baixas, em especial a habitante de regiões periféricas
das grandes cidades.

As áreas de preservação ambiental nas periferias, na maio-


ria localizadas em mananciais junto a sistemas de provisão hídri-
ca - região escolhida para o desenvolvimento do Trabalho Final de
Graduação - são um campo propenso a ação. A opção de trabalhar
1. O termo “ensaio” coloca-se no sentido de ser um exercício de desenvolvimento da
hipótese trabalhada, como resultado de uma experimentação
sobre territórios marcados pela ocupação informal surgiu da pos-
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siblidade destes serem espaços cuja proposta arquitetônica deve


estar atenta à uma morfologia urbana desobediente a regulações
Arquiteturas do porvir: transporte fluvial na represa Billings

urbanísticas e legais preestabelecidas, sendo as regiões de manan-


ciais a principal zona de pressão – produzida majoritariamente
pela iniciativa de grupos organizados pela sociedade civil ou por
loteadores privados. São superfícies cujas categorias tradicionais
do planejamento urbano não são aptas a assimilar em sua integ-
ridade. Conduzem a proposição de estratégias que enxerguem as
microdinâmicas consolidadas por inúmeras redes de relações entre
os que habitam comunidades, bairros e regiões em condições com
pouca oferta de urbanidade. O cotidiano transforma-se num caminho
para o entendimento da cidade real.

A hipótese de projeto desenvolvido é um terminal fluvial de


passageiros associado a um equipamento público de serviços locais,
situado na margem da represa Billings, zona sul do município de
São Paulo. O terreno escolhido tem a sua volta grande densidade
demográfica e condições de ocupação urbana precárias – algumas
em área de risco - devido à baixa oferta de infraestrutura básica
e topografia irregular. Situado no distrito de Grajaú, nos bairros
Residencial Cocaia e Jardim Sipramar, trata-se de um complexo
de edifícios de pequeno porte, cuja programa aborda praça pública,
atracadouro e usos flexíveis, segundo a demanda de cada comu-
nidade. Configura-se, assim, como um equipamento institucional
coletivo com oferta de serviços e transporte em territórios de alta
vulnerabilidade social. Um condensador urbano.

Apesar das dificuldades de acesso à região, a proximidade com
a água transforma-se no grande potencial do projeto, ao entendê-la
como uma efetiva via de ligação entre comunidades lindeiras e o
Fonte: elaboração própria sobre imagem da NASA

REPRESA
GUARAPIRANGA
MARGINAL
PINHEIROS

ÁREA DE
TIETÊ
MARGINAL

INTERVENÇÃO
BILLINGS
REPRESA

PRAÇA DA
RIO
TAMANDUATEÍ

Arquiteturas do porvir: transporte fluvial na represa Billings 11


centro da cidade, a partir de noção capilar de redes hidroviárias
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organizadas por rotas em diversos pontos ao longo das margens de


rios e represas. Programa complementar pode ser interligado por
Arquiteturas do porvir: transporte fluvial na represa Billings

meio da conexão de barcas especializadas de navegação lacustre


em percursos bairro-bairro e bairro-centro, rompendo a organização
radiocêntrica comum ao sistema de transportes metropolitano.

O trabalho desenvolvido percorre definições conceituais sobre
as políticas neoliberais, sob a luz da interpretação de David Harvey
e seu impacto nas cidades de países em desenvolvimento. Neste
cenário, é analisada a existência de uma dualidade urbana entre a
cidade formal e informal (Ermínia Maricato e Flávio Villaça) e a resposta da
regulação ambiental à esta condição urbana nas áreas de preser-
vação ambiental localizadas nas represas Billings e Guarapiranga
(Elisabeth França, José Maria de Azevedo Marcondes e Violeta
Kubusly). A compreensão sociológica e geográfica das dinâmicas
sociais presentes na cidade informal e seus referenciais físicos e
psicológicos (Milton Santos e Guy Debord); e a indagação por uma ar-
quitetura aberta, contestante de modelos preestabelecidos, que atuam
mais como suportes do que objetos programáticos rígidos (Igor Guatelli,
Kevin Lynch e Ignasi de Solà-Morales).

A seleção dos projetos de estudo de caso – garagem 1111 Lin-
coln Road, dos arquitetos suíços Herzog & De Meuron, em Miami,
nos Estados Unidos; Parc de LaVillete, em Paris, França, do francês
Bernard Tschumi, e os Centros Educacionais Unificados CEUs), de
Alexandre Delijaicov, André Takiya e Wanderley Ariza, no município
de São Paulo - têm como denominador comum sua atuação em contextos
urbanos nos quais a heterogeneidade dos agentes sociais e populacionais
são correspondentes a uma realidade urbana resultante dos siste-
mas econômico e informacional contemporâneos, em que a importância
referencial da imagem e a complexidade das condições de uso trans-

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formaram-se em desafios às soluções programáticas propostas pelo
campo da arquitetura e do urbanismo.

Arquiteturas do porvir: transporte fluvial na represa Billings


Junto à análise gráfica formal e dos programas compara-se
sua oposição ao que a historiografia da arquitetura caracterizou
como espaço monofuncional, visão corrente no período de consolida-
ção da arquitetura moderna. Articula-se a esta perspectiva o olhar
sob a produção arquitetônica atual, no que diz respeito ao levanta-
mento de hipóteses para uma ação projetual que saiba compreender
a realidade do local em que está inserida. Ao tratar de localidade, a
pesquisa estende-se ao campo do entendimento macrourbano para
uma articulação entre uso e leitura urbana.
Arquiteturas do porvir: transporte fluvial na represa Billings 14

1.

SOCIAL NA
SEGREGAÇÃO

PRODUÇÃO DO
ESPAÇO URBANO
O quadro de desigualdade social e submoradia da população de

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baixa renda numa faixa envoltória ao “centro nervoso” da cidade
de São Paulo, concentrada no vetor sudoeste, é em boa parte resul-

Arquiteturas do porvir: transporte fluvial na represa Billings


tante da reconfiguração macroeconômica pela qual passa o Brasil
desde os anos 90. Uma nova ordenação urbana, estabelecida nas três
ultimas décadas em razão da reorganização econômica em patamares
globalizados, apresentou questões para as frentes até então prati-
cadas pelo planejamento urbano. Nas metrópoles mundiais, sedes
dos sistemas de mercados e agentes financeiros transnacionais,
reproduzem-se novos padrões urbanos requeridos à operação desta
nova lógica (FRANÇA, 2000). Soma-se o vultoso movimento de mi-
gração da população rural em direção às grandes áreas urbanas nas
décadas de 1970 e 1980, contribuinte da expansão da mancha de ocu-
pação densa e extensiva, motivada pelo aumento do setor produtivo
industrial nestes centros.

Com pouca ou nenhuma oferta de infraestrutura básica, multi-


plicaram-se os loteamentos e invasões a áreas públicas e terrenos de
baixo valor de mercado próximos às represas Billings e Guarapiranga.
Simultaneamente, a política pública nacional para a construção e
financiamento de habitações definhava, a exemplo da extinção do
Sistema Financeiro de Habitação (SFH), em 1988. (KUBRUSLY,
2012 e MARCONDES, 1999).

A passagem para a década de 1990 assinalou o afastamento


ao acesso mínimo a serviços básicos com a emergência de políticas
econômicas neoliberais. A maneira pela qual a produção do espa-
ço social incorporou elementos da nova ordem mundial encon-
tra correspondências com o movimento acentuado de ocupação
urbana no município de São Paulo e sua região metropolitana, em
direção às áreas de mananciais. As mudanças no arranjo das rela-
Arquiteturas do porvir: transporte fluvial na represa Billings 16

Fonte: Marcos Leal


Arquiteturas do porvir: transporte fluvial na represa Billings 17
ções de trabalho, localização dos centros de comando e decisão, e a
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difusão da tecnologia da informação trouxeram às cidades de países


em desenvolvimento novos papeis e significados quanto à posição
Arquiteturas do porvir: transporte fluvial na represa Billings

diante de uma rede de negócios globalizada, pautada pelo setor ter-


ciário superior neoliberal (HARVEY, 1996).

O avanço tecnológico das comunicações inverteu critérios de localização do


parque industrial e administrativo; foram derrubados obstáculos
físicos territoriais entre os centros de decisão e produção, o que re-
forçou a importância das metrópoles como polos de comando trans-
nacionais. Segundo David Harvey

“Com a diminuição dos custos e a consequente diminuição das barreiras


espaciais à circulação dos bens, pessoas e informação, a importância da
qualidade do espaço foi realçada e o vigor da competição interurbana
para o desenvolvimento capitalista (investimento, emprego turismo,
etc.) foi consideravelmente fortalecido. (...) A distância dos mercados ou
matérias-primas tornou-se menos relevante para as decisões locacionais.
(...) Pequenas diferenças na mão-de-obra (quantitativa e qualitativa),
em infraestrutura e recursos, na regulação governamental e taxação, as-
sumem importância muito maior do que quando o alto custo do trans-
porte criava monopólios “naturais” para a produção local em mercados
locais”. (HARVEY, 1996, pgs. 56-57)

Encabeçada pelo advento do pós-fordismo, a agenda de


investimentos do Estado foi redirecionada ao converter-se num
personagem facilitador à flexibilização do capital financeiro, sob
diretrizes do movimento de empresariamento urbano do poder público, a fim
de criar um “bom clima de negócios” (HARVEY, 1996). Catalisar investi-
mentos privados para a renovação do ambiente construído tornou-
se prática prioritária para os administradores públicos em detri-
mento da melhoria de condições de vida da cidade como um todo,
esvaziando a capacidade operativa das ações governamentais.
O corolário de ações baseou-se em medidas pontuais,

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como incentivos fiscais, parcerias público-privadas, entre
outras, restringindo-se muitas vezes ao estímulo à especulação

Arquiteturas do porvir: transporte fluvial na represa Billings


imobiliária sobre determinados territórios para o assentamento do
novo aparato técnico-produtivo que emergia. Segundo Harvey, o
anseio pelo redesenho do espaço urbano está ligado ao acirramento
da lógica de competitividade global.

“A tarefa da administração urbana consiste, em resumo, em atrair para seu
espaço uma produção altamente móvel e flexível e fluxos financeiros e de
consumo. A característica especulativa dos investimentos urbanos deriva
simplesmente da impossibilidade de prever exatamente que “pacote” terá
êxito em um mundo de considerável instabilidade e volatilidade econômica”.
(HARVEY, 1996, p. 56)

Com base nos dizeres de Harvey pode-se verificar que a ideia


de cidade global toma força, pois, alinhada à pauta econômica externa,
influencia fortemente as prioridades e destinações dos montantes
de investimentos estatais. Há um intenso reflexo na produção do espaço
urbano; setoriza-se a participação social no âmbito das políticas públicas
sob o recrudescimento das faixas de menor renda. A ultraespecialização
das cidades na área de serviços e atividades financeiras demanda
mão-obra com alta qualificação, a fim de torná-la atrativa mundi-
almente. Para tanto, uma nova rede de infraestrutura urbana é requis-
itada sobre territórios preexistentes, deslocando centralidades e significa-
dos, criando uma crescente de exclusão aos que habitam a periferia.

O padrão implementado exacerba a sobreposição de reali-
dades distintas frente à reestruturação produtiva, a exemplo da
Região Metropolitana de São Paulo. Parte da construção da cidade
anima-se indiferente à porção omitida aos olhos da regulação oficial
e segrega o território em duas partes: formal e informal. Luminoso, o
ambiente urbano retroalimenta-se de impulsos econômicos concomi-
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tantes aos ditames do que este modelo externo considera moderno


e pujante. A representação da cidade, mais do que sua conjuntura
Arquiteturas do porvir: transporte fluvial na represa Billings

concreta, regra os critérios de atenção em detrimento das zonas


urbanas opacas (SANTOS, 1998). São correntes os esforços para
transformar determinadas regiões em setores de interesse imobil-
iário. Operações urbanas e parcerias com agentes privados avul-
tam montantes de investimentos em busca de um projeto de cidade
que aparente a renovação e inovação. O traço se faz no território por
meio de políticas concentradas em áreas nobres, de cunho rodoviário
e especulativo (MARICATO, 2000).

Este processo externo não apenas contempla um ciclo de baixa
geração de empregos inversamente proporcional aos investimentos
de que demanda como corrobora para a propagação de determinados
padrões de ocupação do solo urbano, ao marcar profundamente as
diferenças entre a porção da cidade formal, privilegiada e regulada
pelo poder público, e outra, periférica e segregada. Ao fomento à
abertura de frentes de atuação do mercado nas cidades, segue-se
a baixa mobilidade social e o consequente agrave das condições de
acesso à terra urbana (MARICATO, 2000).

Milton Santos (1998) identificou como um dos atributos da glo-
balização a existência de ordens verticais e horizontais no território,
sendo as cidades o local principal de confluência. À primeira, estão
associadas forças externas sobrepostas que regimentam o preexis-
tente a partir de estruturações hierárquicas do espaço. Elas alteram
a disposição inicial das relações anteriores em função de novos paradig-
mas que não reconhecem a diversidade de ações e agentes sociais acu-
mulados no processo histórico nos ambientes interferidos. A segunda
ordem, por sua, vez, não é imune às verticalidades, mas consegue
manter certa contiguidade contra a homogeneização do lugar; opera

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de maneira solidária e cooperativa creditando a esta relação uma
maneira de sobrevivência em meio ao que vem de fora.

Arquiteturas do porvir: transporte fluvial na represa Billings



O raciocínio de Santos é válido para compreender a segrega-
ção espacial da cidade contemporânea globalizada, ao discorrer que
as verticalidades

“São vetores de uma racionalidade superior e do discurso pragmático


dos setores hegemônicos, criando um cotidiano obediente e racional dis-
ciplinado. (...) A hierarquia se realiza através de ordens técnicas, finan-
ceiras, políticas, condição de funcionamentos do sistema. A informação,
sobretudo, a serviço das forças hegemônicas define as novas realidades
espaciais. Um incessante processo de entropia desfaz e refaz contornos
e conteúdos dos subespaços, a partir das forças dominantes, impondo
novos mapas ao mesmo território (...) A homogeneização exige uma in-
tegração dependente, referida a um ponto do espaço, dentro ou fora do
mesmo país. Nos outros lugares, a incorporação desse anexos e normas
externas tem um efeitos desintegrador das solidariedades locais então
vigentes, com a perda correlativa da capacidade de gestão da vida social”.
(SANTOS, 1998, pgs. 285 e 286)

É importante ressaltar que a reestruturação econômica do


final da década de 1980 não alterou o passivo habitacional anterior
da metrópole. Em contraponto às ações redistributivas, ela forne-
ceu mais condições para o incremento exponencial da degradação
ambiental na RMSP pela ausência de ação social de governos locais,
pontuados pela não universalização do acesso à moradia, delegando
ao mercado a regulação de preços e oferta do uso e ocupação do solo
de forma restrita e especulativa. (MARCONDES, 1999). Segundo da-
dos censitários do IBGE, o crescimento da população favelada entre 1981 e
1991 foi de 7,07%, considerado o período de maior expansão sobre o tecido
urbano, taxa acima da evolução da população municipal (1,16% ao ano)
(IBGE, 1991).

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O desdobramento de padrões de ocupação precária está dire-


tamente relacionado à maneira pela qual a reprodução da força de
Arquiteturas do porvir: transporte fluvial na represa Billings

trabalho nacional ocorreu: cidadania inconclusa, com participação


popular restrita; aumentos salariais abaixo da inflação, sem custeio
da moradia; carência de financiamento à casa própria em faixas de
habitação popular; aumento do desemprego; desindustrialização; entre
outros fatores. Para a população urbana, estes reveses tiveram maior
peso quando constatada a baixa mobilidade social à época.
(MARICATO, 2000; MARCONDES, 1999).

A especialização de serviços em determinadas porções da cidade


de São Paulo – centro e sudoeste, principalmente ao longo da Marginal
Pinheiros - firmou dicotomias no tecido urbano, na forma de ilhas
de exclusão social. Maria José de Azevedo Marcondes (1999) define
esta dualização econômica e urbana como uma “resultante dos pro-
cessos de globalização da economia como consequência da estrutu-
ração do mercado de trabalho, com o novo tipo de concentração de
funções globais que se apresentou” (op. cit., p. 128).

O reduzido ingresso na formalidade conduziu ao espraiamento


clandestino da metrópole rumo a áreas ambientalmente frágeis,
sem valor de grandeza útil aos olhos dos investidores imobiliários,
amplificando a abertura de loteamentos distantes de equipamentos públicos
e dos bairros centrais, concentradores da maioria das ofertas de emprego. Ao
permitir a coexistência entre duas formas urbanas – legal e ilegal –, a ci-
dade convive com a modernidade incompleta, onde o território sofre con-
tínuo processo de exclusão e segregação. Segundo a Ermínia Maricato, esta
dualidade atinge também a esfera da regulação urbanística.

Fonte: Jornal Folha de São Paulo 14/09/2014

Arquiteturas do porvir: transporte fluvial na represa Billings 23


“(...) a ocupação ilegal da terra urbana é não só permitida como parte do modelo
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de desenvolvimento urbano (...) o descolamento entre as matrizes que fundamenta-


ram o planejamento e a legislação urbanos no Brasil e a realidade socioambiental
Arquiteturas do porvir: transporte fluvial na represa Billings

de nossas cidades, em especial o crescimento da ocupação ilegal e das favelas (...)” .


(MARICATO, 2000, pgs .147 e 148)

Enquanto a legislação aperfeiçoa-se e normatiza as especifi-


cidades da primeira, é incompreensível e generalizada com a se-
gunda, ao não levar em conta complexidade deste tipo de ocupação.
Tal indefinição reverberou na expansão das ocupações informais
nas áreas de massa vegetal remanescente, com tipologias de as-
sentamento que questionaram a abordagem destes territórios do
ponto de vista da regulação urbanística. No dizer de Maria José de
Azevedo Marcondes

“A fragmentação do espaço, a crise econômica, os conflitos gerados pelo uso


do solo, e a proteção de mananciais, colocaram em questão os pressupostos
básicos de legislação de mananciais referentes aos objetivos de controle das
tendências de crescimento e desenvolvimento da metrópole (...)”
(MARCONDES, 1999, p. 130)

Sua morfologia não obedece a nenhum sistema de normas
preestabelecidas e ocorre de maneira fragmentada pela iniciativa de
grupos organizados pela sociedade civil ou produzido por pequenos
indivíduos privados, a exemplo de proprietários de glebas – tendo as
regiões de mananciais como principal zona de pressão.

Dessa forma, a abertura de loteamentos clandestinos con-


stituiu-se como uma alternativa viável ao acesso à moradia pela
maior parte da população de baixa renda, consolidada em sua maio-
ria por processos de autoconstrução, em conjunto a outras práticas,
como as ocupações em áreas vazias e residuais. A sobreposição de
infraestruturas urbanas em áreas já bem atendidas e o interesse do
mercado pelas áreas nobres – localizadas principalmente no vetor sudoeste – também

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são fatores contribuintes para a segregação urbana, ao elevarem o valor da terra.

Arquiteturas do porvir: transporte fluvial na represa Billings


A exclusão urbana traduz-se na ocupação de áreas remanes-
centes, fora do perímetro de interesse do setor imobiliário, seja pela
dificuldade de viabilização de empreendimentos nessas regiões ou
pelo alto índice de normas e leis vigentes. Para Maricato (2000), a
associação da segregação espacial com a ideia de caos do planeja-
mento urbano é falsa, ao justificar que a mudança na “matriz de
planejamento urbano” foi um modelo conscientemente adotado pelo
poder público quando inserido na reorganização macroeconômica
e política da nova ordem mundial (MARICATO, 2000, pgs. 123 e
144). Um quadro revelador da segregação urbana que, segundo Flavio
Villaça, “é um processo necessário à dominação social, econômica e
política por meio do espaço” (VILLAÇA, 1998, p. 150)

A indefinição fundiária e normatização do uso e ocupação do


solo urbano atenderiam, à lógica de interesses privados.

“A ineficácia dessa legislação é, de fato, apenas aparente, pois constitui


um instrumento fundamental para o exercício arbitrário do poder além
de favorecer pequenos interesses corporativos. A ocupação ilegal da terra
urbana é não só permitida, como é parte do modelo de desenvolvimento
urbano no Brasil (...). Ao lado da detalhada legislação urbanística (flexi-
bilizada pela pequena corrupção, na cidade legal), é promovido um total
laissez-faire na cidade ilegal. (...) Tudo depende das circunstâncias e dos
interesses envolvidos. É mais frequente que o plano seja aplicado apenas
às partes mais privilegiadas da cidade. Tal aplicação segue a lógica da
cidadania restrita a alguns”. (MARICATO, 2000, pgs. 147-148).

Neste sentido, cabe mencionar a desconformidade entre con-


ceito e realidade da legislação sobre o espaço construído, mediante
a configuração fundiária irregular estabelecida nas áreas de preser-
vação de recursos naturais. Ainda na década de 1970, o receio do
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comprometimento de abastecimento hídrico da RMSP motivou as


autoridades locais à formulação de regramentos de zoneamento do
Arquiteturas do porvir: transporte fluvial na represa Billings

uso do solo no entorno das áreas de represas e sistemas de provisão


de água, por meio das Leis de Proteção dos Mananciais Metropoli-
tanos de São Paulo (Leis Estaduais 898/75 e 1.172/76), cujos dis-
positivos de planejamento urbano calcavam-se no congelamento e
restrição construtiva a extensas áreas da metrópole sem o devido
diagnóstico sobre as causas do espraiamento urbano ou iniciativas
para suplantar sua expansão.

A incongruência das ações governamentais reside, assim,


na sua limitação ao campo normativo desconsiderando como dado
fundamental o contínuo avanço da mancha urbana. As normati-
vas sobre os espaços habitados pelas faixas mais pobres da popu-
lação acarretaram na desvalorização do valor dos terrenos e gle-
bas originais, dando margem ao desinteresse de seus proprietários
e estimulando a ocupação crescente de loteamentos clandestinos,
transformando-se em regiões residuais, sem qualquer assistência
de infraestrutura urbana. A falha legal consiste, portanto, numa ten-
tativa dúbia de estabilizar a degradação ambiental ao mesmo tempo
que ignora a evolução rumo às áreas avaliadas como imprescindíveis ao
fornecimento de água. (MARCONDES, 1999, pgs. 92-109)
2.

EM ÁREAS
AMBIENTAL
LEGISLAÇÃO

PARADIGMAS
MUDANÇA DE
DE MANANCIAIS:

Arquiteturas do porvir: transporte fluvial na represa Billings 27


A acentuada desconcentração urbana da Região Metropolitana de São
28

Paulo evidenciada nos anos 1970 contribuiu para que os vetores de


pressão se direcionassem às áreas de massa vegetal e reservas hídri-
Arquiteturas do porvir: transporte fluvial na represa Billings

cas ainda intactas. No mesmo período, era crescente a manifestação de


ambientalistas em prol da conscientização pela preservação dos recur-
sos naturais mundiais, simbolizada pela Conferência de Estocolmo, em
1972, na Suécia, organizada pelas Nações Unidas. O evento tratou de
forma mais incisiva o envolvimento mundial em objetivos pautados
pela busca do desenvolvimento econômico e ecológico sustentável,
“incorporando, portanto uma dimensão ambiental às relações políti-
cas e sociais para o gerenciamento dos recursos naturais do planeta”.
(KUBRUSLY, 2000, p. 236)

Foi nesta conjuntura que dois importantes instrumentos de reg-


ulação ambiental foram elaborados na tentativa de conter a expansão
urbana. As Leis de Proteção dos Mananciais Metropolitanos de São
Paulo (Leis Estaduais 898/75 e 1.172/76) designavam ao poder pu-
blico a responsabilidade pelo controle do uso e ocupação do solo e
delimitavam por classificações as faixas de áreas de proteção dos
mananciais, reservatórios de água e cursos d´água existentes.

É importante observar que ambas tratam a produção do espaço
urbano do ponto de vista disciplinar, no qual normas, coeficientes de
zoneamento e a definição de bacias hidrográficas são um corolário
de medidas para a contenção de novas moradias e da deterioração
do meio ambiente. A abordagem técnica sobre estes perímetros no
esforço de salvaguardá-las como uso predominante rural ou dirigido
não foi suficiente para congelar os deslocamentos do crescimento da
população e a consequente desigualdade de oferta acessível de lotes
e unidades habitacionais centrais. Segundo Violeta Saldanha Ku-
brusly, a promulgação das leis dos mananciais
29
“(...) apesar da boa intenção cautelar e preventiva, desvalorizou esses terrenos
no mercado imobiliário, já que postulava justo o contrário do desejado pelos

Arquiteturas do porvir: transporte fluvial na represa Billings


proprietários: quanto mais próximos estes lotes das margens das represas
Guarapiranga e Billings, menos possibilidade de adensamento construtivo
havia”. (KUBRUSLY, 2012, p. 85)

O caráter coercitivo da legislação não reconhece como legítimos


os novos loteamentos na região dos mananciais e impede a instala-
ção sistemas de esgotamento sanitário, coleta de lixo, fornecimento de
energia elétrica, entre outras provisões de infraestrutura urbana. Por não
enfrentar causas estruturais, todo o instrumental de regulação incentivava,
paradoxalmente, aquilo que se propunha conter.

“Surgem, desta combinação perversa de fatores, os loteamentos clandes-


tinos, que parcelam as glebas em lotes urbanos sem nenhuma infraestru-
tura sanitária (proibida pela legislação) e se fixa nesta região estraté-
gica de produção de água para o abastecimento público, uma população
carente, de baixa renda, que constrói suas casas, espraiando a ocupação
urbana sem planejamento e lançando esgotos domésticos diretamente
nos afluentes e reservatórios”. (KUBRUSLY, 2012, p. 85)

Em 1997, aprimorou-se a leitura sobre a proteção dos manan-


ciais, com a publicação da Lei Estadual 9866/97, na qual o planeja-
mento e a gestão da se balizaram pela unidade da bacia hidrográfica.
A lei trouxe mudanças de paradigma ao identificar a necessidade
de tratamentos diferentes para cada região e a inserção da recupe-
ração de áreas urbanas na pauta das políticas públicas, por meio
de um zoneamento ambiental atrelado à realidade socioeconômica
destes territórios. Delimitam-se as Áreas de Proteção e Recuperação
de Mananciais (APRMs), sendo que para cada uma delas era prevista
lei específica. Nela, os instrumentos de gestão e planejamento seriam
definidos por Planos de Desenvolvimento e Proteção Ambiental.
Fonte imagens: Relatório Conceitual - Grupo Metrópole Fluvial
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Arquiteturas do porvir: transporte fluvial na represa Billings

MUNICÍPIOS DA REGIÃO
METROPOLITANA DE SÃO PAULO
BANHADOS PELO HIDROANEL
(ACIMA) E CROQUI
ILUSTRANDO O CONCEITO DE
CIDADE-CANAL, PROPOSTO PELO
GRUPO METRÓPOLE FLUVIAL
(À ESQUERDA)
Fonte: APRM - Billings - Secretaria de Estado do Meio Ambiente do Estado de São Paulo

BACIA HIDROGRÁFICA
LIMITES MUNICIPAIS DA

DO RESERVATÓRIO BILLINGS

Arquiteturas do porvir: transporte fluvial na represa Billings 31


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Arquiteturas do porvir: transporte fluvial na represa Billings

Fonte: Grupo Metrópole Fluvial

T T T

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T

B P

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B P
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P
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P
B
P P
P
ÁREA DE
INTERVENÇÃO P
P

P
P

ESTAÇÕES E LINHAS DE TRANSPORTE


FLUVIAL URBANO DE
PASSAGEIROS DO HIDROANEL
(ACIMA) E ZONEAMENTO
PROPOSTO PELA
REVISÃO DA LEI DE USO E
OCUPAÇÃO DO SOLO DA
CIDADE DE SÃO PAULO (2015)
(À DIREITA)
Fonte: Prefeitura do Muncípio de São Paulo

33
Arquiteturas do porvir: transporte fluvial na represa Billings
SUBPREFEITURA
SOCORRO

mite subprefeitura Limite subprefeitura

unicípio de São Paulo Município de São Paulo


gião metropolitana Região metropolitana

drografia Hidrografia

na Rural Zona Rural

ferência das vias principais


gradouro
Legenda Referência das vias principais
Logradouro

doanel ZPR
Rodoanel

tação de trem existente Estação de trem existente

tação de metrô existente ZER


Estação de metrô existente
rminal de ônibus existente Terminal de ônibus existente

ea de Proteção e Recuperação Ambiental


OU_FariaL_Espraiada_Centro_AguaB
Área de Proteção e Recuperação Ambiental
peração Urbana em Curso Operação Urbana em Curso
er Art. 382 da Lei 16.050/14) OU_FariaL_Espraiada_Centro_AguaB
(ver Art. 382 da Lei 16.050/14)

acroárea de Estruturação Metropolitana Macroárea de Estruturação Metropolitana

Zonas

EPAM ÁREA DE ZEPAM


na Especial de Preservação Ambiental INTERVENÇÃO Zona Especial de Preservação Ambiental
EP ZEP
na Especial de Preservação Zona Especial de Preservação
PDS ZPDS
na de Preservação e Zona de Preservação e
esenvolvimento Sustentável Desenvolvimento Sustentável
RA ZRA
na de Recuperação Ambiental Zona de Recuperação Ambiental
EIS-1 ZEIS-1
na Especial de Interesse Social 1 Zona Especial de Interesse Social 1
EIS-2 ZEIS-2
na Especial de Interesse Social 2 Zona Especial de Interesse Social 2
EIS-3 ZEIS-3
na Especial de Interesse Social 3 Zona Especial de Interesse Social 3
EIS-4 ZEIS-4
na Especial de Interesse Social 4 Zona Especial de Interesse Social 4
EIS-5 ZEIS-5
na Especial de Interesse Social 5
ER
na Exclusivamente Residencial
Legenda Zona Especial de Interesse Social 5
ZER
Zona Exclusivamente Residencial
PR
na Predominantemente Residencial ZPR
ZPR
Zona Predominantemente Residencial
M ZM
na Mista Zona Mista
EPEC
ZER
ZEPEC
na Especial de Preservação Cultural Zona Especial de Preservação Cultural
C
na de Centralidade
OU_FariaL_Espraiada_Centro_Agua
ZC
Zona de Centralidade
Corr ZCorr
na corredor
OE
OU_FariaL_Espraiada_Centro_Agua
Zona corredor
ZOE
na de Ocupação Especial Zona de Ocupação Especial
PI ZPI
na Predominantemente Industrial Zona Predominantemente Industrial
DE ZDE
na de Desenvolvimento Econômico Zona de Desenvolvimento Econômico
EU ZEU
na Eixo de Transformação Urbana Zona Eixo de Transformação Urbana
EUP ZEUP
na Eixo de Transformação Urbana Previsto Zona Eixo de Transformação Urbana Previsto

0 0.50 1 2km N

Base cartográfica: PMSP. Mapa Digital de São Paulo, 2004.


Projeção UTM/23S. Datum horizontal SAD69.
Elaboração: Prefeitura do Município de São Paulo.
Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano.
Arquiteturas do porvir: transporte fluvial na represa Billings 34

Fonte: APRM - Billings - Secretaria de Estado do Meio Ambiente do Estado de São Paulo

ÁREA DE
INTERVENÇÃO

LEI ESPECÍFICA DA APRM - BILLINGS


DE OCUPAÇÃO DIRIGIDA DA
DELIMITAÇÃO DAS SUBÁREAS
Além de diretrizes e normas ambientais e urbanísticas, pre-

35
cisaram-se os limites da APRM, junto à setorização e grau de in-
tervenção sobre o ambiente preservado e construído. O refinamento

Arquiteturas do porvir: transporte fluvial na represa Billings


jurídico e instrumental soube distinguir áreas urbanizáveis e passiveis
de infraestrutura daquelas em situação de risco e, portanto, de inevi-
tável remoção. Entram neste bojo de ação governamental a regulação
fundiária de parte dos loteamentos clandestinos, segundo a catego-
ria de uso e ocupação à qual pertencem e a compensação ambien-
tal como contrapartida à permanência da população local. Segundo
novos parâmetros de zoneamento há nas APRMs Áreas de Ocupação
Dirigida (AOD), com subcategorias e Áreas de Ocupação Restrita (AOR)
e Áreas de Recuperação Ambiental (ARA). (op. cit., 2012, pgs. 85-88).
Nesta última, áreas degradadas poderiam ser objeto intervenções pon-
tuais de recuperação urbana e ambiental, permitindo, por exemplo, a
entrada de profissionais do campo da arquitetura e urbanismo.

De acordo com Kubrusly

“A nova Lei de Proteção aos Mananciais estabeleceu, portanto, as linhas gerais


para assegurar a preservação dos recursos hídricos na região metropolitana de
São Paulo, não se omitindo no que diz respeito ao reconhecimento da realidade da
ocupação irregular, já consolidada, de moradia para mais de 800 mil habitantes”.
(KUBRUSLY, 2000, p. 238)

No final da década de 1990 iniciaram-se os trabalhos para a elabo-


ração da minuta de lei específica da sub-bacia do Guarapiranga, a cargo do
Subcomitê da Bacia Hidrográfica Cotia – Guarapiranga, e promulgada em
2006. A bacia da represa Billings receberia também sua lei especifica, em
2009 (Lei Estadual 13.579/09), sob o nome de APRM – Billings.

A esfera federal também trata da recuperação do meio am-


biente associado ao bem estar da população urbana; a Constituição
Federal de 1988 e o Estatuto das Cidades (Lei Federal nº 10257/2001)
36

obrigam a elaboração por parte do município de Plano Diretor.


Arquiteturas do porvir: transporte fluvial na represa Billings

O histórico do aperfeiçoamento da legislação reforça a importância da


política pública participativa na cidade informal. A construção de parâmet-
ros de ação mais correspondentes com o complexo cenário de atuação
urbanística nos territórios conformados por justaposições de glebas
parceladas clandestinamente ao longo das décadas somou-se ao
desafio da preservação ambiental no meio urbano. A regularização
fundiária associada à instituição em grande escala de serviços e equi-
pamentos públicos foi possível graças a marcos normativos decorrentes
de uma visão mais acurada de cada comunidade. A eficácia do equilí-
brio entre ocupado e preservado passa pela identificação das redes de
relações sociais existentes e a maneira pela qual elas compreendem o
lugar em que elas habitam.
3.

E REDES
A LEITURA

COTIDIANO
DO OCULTO:

Arquiteturas do porvir: transporte fluvial na represa Billings 37


Arquiteturas do porvir: transporte fluvial na represa Billings 38

Fonte imagens: EMEF Frei Damião


Arquiteturas do porvir: transporte fluvial na represa Billings 39
A visão tecnocrata sobre a cidade ilegal relega sua profundidade.
40

O respaldo de suas medidas na produção do espaço urbano tem


nas áreas ambientalmente frágeis, em especial às circunscritas
Arquiteturas do porvir: transporte fluvial na represa Billings

em ocupações nos perímetros das bacias de macrodrenagem, um


reflexo imediato que evidencia o descompasso analítico entre um
modus operandi próprio do território urbano informal e seu trata-
mento por atores externos. É neste interim que a legislação especí-
fica dá em grande medida o grau de aproximação de suas normas
e regulamentos com o espaço sobre o qual atua; o quanto está a
serviço da recuperação de áreas consideradas degradadas para pro-
moção da infraestrutura urbana no intuito de abrir caminho para a
proposição de hipóteses de intervenção.

Passo importante na evolução das políticas públicas sobre o


tema, a Lei dos Mananciais incorporou um arcabouço conceitual so-
bre a cidade real de grande valia. As diferenças entre as leis da déca-
da de 1970 e de 1990 retratam um salto na leitura do território. Para
Marcondes (1999), o primeiro conjunto de normas caracterizava-se
pela “inadequação da legislação com respeito aos dados da realidade
sobre a qual se aplica, que pressupõe uma visão de espaço neutro
com referência à atuação dos diferentes agentes que interagem nos
processos de uso e ocupação do solo”. (MARCONDES, 1999, p. 99)

Este espaço não é isento de dinâmicas sociais complexas. Tratar


delas é compreender o lugar no qual estão entremeadas. Quais são
os significados deste(s) lugar(es) para que cada esfera governamental
saiba operar corretamente em conjunto com a sociedade civil? Milton
Santos aponta no cotidiano uma porta de entrada para o entendi-
mento dos traços de cada comunidade, ressaltando na proximidade
entre os indivíduos de determinado círculo de relações (vizinhança, as-
sociação de moradores, origem, região com pautas em comum, etc.) a
grandeza que revela seus trâmites. A distância deixa de restringir-se

41
a convenções de distância para deslocar-se ao campo da contiguidade
entre indivíduos, vivendo sob “a intensidade de suas inter-relações”

Arquiteturas do porvir: transporte fluvial na represa Billings


(SANTOS, 1998, p. 318).

Sobre o lugar, Santos diz que, nele

“(...) superpõem-se, dialeticamente, o eixo das sucessões, que transmite


os tempos externos das escalas superiores e o eixo dos tempos internos,
que é o eixo das coexistências, onde tudo se funde, enlaçando, definitiva-
mente, as noções e as realidades de espaço e tempo”.
(op. cit., 1998, p. 321)

A vivência local conduz a outra amplitude o nível das rela-


ções, que passam a ser delineadas pelas redes de solidariedade. A
força delas, segundo o Santos, está vinculada a situações-tipo, uma
proveniente de cima, pertencente à economia globalizada e outra,
de baixo, de um setor produtivo oriundo de classes de menor renda.
“Nos dois, a cidade é um grande sistema, produto da superposição
de subsistemas diversos de cooperação, que criam outros tantos
sistemas de solidariedade”. (Ibid., p. 323)

Os laços existentes entre os que habitam a periferia, convivendo


com a falta de urbanidade e acesso restrito à cidadania, convertem-se
em acúmulo de interpretações sobre o território, extrapolando a medida
física para atingir uma nova dimensão geográfica e temporal: o evento.

Ele é um acontecimento que se dá pela interação social entre
atores. Segundo Santos (op. cit., 1998, p. 147) para que o evento
aconteça é necessária uma ação. Cada ato humano é, antes de con-
sumar-se, uma possibilidade de realização. Ocorre no presente, mas
sua duração não é predeterminada. A sucessão de eventos constrói
o tempo do individuo e condiciona a compreensão e vínculo com o
42

espaço vivido. A natureza da cada momento tem matrizes diversas.


Uma lei, uma ideia, a mobilização de uma comunidade, a abertura
Arquiteturas do porvir: transporte fluvial na represa Billings

de um equipamento ou espaço público, um festival de funk; todas


são ações que gestam o evento.

A participação coletiva é matéria inerente à existência do evento.


Há escalas de abrangência e origem, mas a situação vivenciada é um
espaço do porvir, está aberta a experiências sociais sobrepostas, sistêmi-
cas, em fronteiras tênues. Cada situação pode, inclusive, influenciar a
guinada ou término da outra.

A liga entre os participantes dos eventos passa por numerosa


relação de disposições físicas e imateriais entrelaçadas. A distância
entre o emprego e a moradia, a autoconstrução como padrão habita-
cional à maioria da periferia, baixa oferta de equipamentos e ser-
viços são demandas que se confluem com as culturas locais, no que
diz respeito à tradição, origem e visão de mundo de cada comunidade.
Não há um único ponto de partida para o evento, mas a sobreposição
de momentos que resultam numa amálgama de apreensão da totali-
dade do real. As ditas forças de cima e de baixo não são estanques,
entram em colisão continuamente. A cidade global - influenciada pe-
los ajustes neoliberais adotados na década de 1990 - interfere no lo-
cal e recondiciona seu significado a todo o momento, atingindo, prin-
cipalmente, a escala do cotidiano.

A combinação espaço-tempo de tantos elementos pre-


sentes na realidade transforma-a num ambiente fragmentado,
desafiador a uma única maneira de captação. Sobre este âm-
bito fracionado, Santos discorre dos conceitos de horizontali-
dade e verticalidade. A contiguidade dos arranjos espaciais
Fonte imagens: EMEF Frei Damião

NA DÉCADA DE 1990
PITTA À EMEF FREI DAMIÃO,
VISITA DO EX-PREFEITO CELSO

Arquiteturas do porvir: transporte fluvial na represa Billings 43


Fonte imagens: EMEF Frei Damião
44

ENCHENTE E VIA SEM


PAVIMENTAÇÃO NA
REGIÃO DO
JARDIM SIPRAMAR,
NA DÉCADA DE 1990
é justaposta ou coexistente a outra gama de pontos descon-

45
tínuos, porem conectados que “definem um espaço de fluxos
reguladores”. (SANTOS, 1998, p. 284)

Arquiteturas do porvir: transporte fluvial na represa Billings


A diferenciação da qualidade das relações define o vertical e hori-
zontal. No primeiro, a interdependência dos agentes regula o elo entre cada
um numa hierarquia de arranjos organizacionais das cadeias de produção,
distribuição, circulação e consumo. A eficácia de seu funcionamento está
associada a um comando de aspecto homogeneizador, seja ele de ordem
financeira, técnica ou política. “O que temos hoje são solidariedades orga-
nizacionais. As regiões existem porque sobre elas se impões arranjos orga-
nizacionais, criadores de uma coesão organizacional baseada em racionali-
dades de origens distantes, mas que se tornam um dos fundamentos de sua
existência e definição” (Ibid, p. 285)

A respeito de como a gradação de ordenamentos interfere no ter-


ritório habitado, Santos diz que

“A informação, sobretudo a serviço das forças econômicas hegemônicas e a


serviço do Estado, é o grande regedor das ações que definem as novas reali-
dades espaciais. Um incessante processo de entropia desfaz e refaz contor-
nos e conteúdos dos subepaços, a partir das forças dominantes, impondo no-
vos mapas ao mesmo território. E o crescente processo de homogeneização
se dá através de um processo de hierarquização crescente” (Ibid, p. 285)

Se as verticalidades impelem para a configuração uniforme do ter-


ritório, alheia à diversidade local, as horizontalidades são um instrumento
de diagnóstico da multiplicidade de eventos intrínsecos às dinâmicas in-
ternas. Certo bairro, região ou lugar com características socioeconômicas
similares são um exemplo. Isso não quer dizer que elas não estejam sujei-
tas à disciplina das verticalidades, mas as incorporam sem que as forças
externas desintegrem sua organicidade, o vigor do cotidiano.
46

“As horizontalidades são tanto o lugar da finalidade imposta de fora


de longe e de cima, como o da contrafinalidade, localmente gerada.
Arquiteturas do porvir: transporte fluvial na represa Billings

Elas são o teatro de um cotidiano conforme, mas não obrigatoria-


mente conformista e, simultaneamente, o lugar da cegueira e da
descoberta, da complacência e da revolta” (Ibid., p.286)

Santos vê nas cidades o palco maior dos fenômenos espaço


temporais descritos, assimilados pelos seus habitantes na ambiên-
cia cotidiana. O valor da experiência do porvir também foi ressalta-
do pela Internacional Situacionista (IS), movimento de intelectuais
fundado por Guy-Ernest Debord, em 1957, crítico ao urbanismo
moderno funcionalista e à interpretação historicista das cidades,
como um patrimônio a ser congelado na história. No texto Relatório
sobre a construção de situações e sobre as condições de organização e
de ação da tendência situacionista internacional, o grupo manifesta
a importância do indivíduo no processo de significação da cidade ao
valorizar a experiência do porvir e da construção de situações por
meio de seu cotidiano. A esta ideia, conceituou-se o urbanismo uni-
tário, contrário à setorização das funções urbanas, no qual

“(...) opõe-se ao espetáculo passivo, típico de nossa cultura, na qual a


organização do espetáculo se estende de forma tanto mais escandalosa
visto que o homem pode cada vez mais interferir de novas maneiras.
Enquanto hoje as próprias cidades se oferecem como um lamentável es-
petáculo, um anexo de museu para turistas que passeiam em ônibus en-
vidraçados, o UU vê o meio urbano como um terreno de um jogo do qual
se participação”. (DEBORD, 2003, p. 25)

Se Santos identifica nas verticalidades a adoção de ordens hegemôni-


cas e homogeneizadoras, os situacionistas acusavam o urbanismo moder-
no como o responsável pela banalização da arquitetura e das cidades,
através da planificação e racionalidade extremas.
“Se o planejador não pode conhecer as motivações comportamentais

47
daqueles a quem ele vai proporcionar moradia nas melhores condições
de equilíbrio nervoso, mais vale integrar desde já o urbanismo no centro

Arquiteturas do porvir: transporte fluvial na represa Billings


das pesquisas criminológicas”. (op. cit., p. 19)

Os situacionistas também consideravam o cotidiano e a vivência


denominadores comuns para a construção de situações que consoli-
dam a realidade. A validação da participação do habitante da cidade
passava pelo método da psicogeografia, na qual a percepção desloca o
indivíduo, antes passivo, para uma nova posição social, ativa e coletiv-
izada, na legitimação da arquitetura e do urbanismo. A mudança se
daria pela própria reestruturação do cotidiano, salientando o poder da
imagem na representação do urbano para torná-lo algo mais palpável.

“Nossa ideia central é a construção de situações, isto é, a construção de


ambiências momentâneas da vida, e sua transformação em uma quali-
dade passional superior. Devemos elaborar uma intervenção ordenada
sobre os fatores complexos dos dois grandes componentes que interagem
continuamente: o cenário material da vida; e os comportamentos que ele
provoca e que o alteram.” (Ibid, p.21)

Tratando das práticas culturais na sociedade de consumo, Mi-


chel De Certeau aborda a questão do cotidiano como o meio para a
formação de valores do indivíduo. O homem ordinário, segundo o his-
toriador, tem em mãos a possibilidade de inventar seu próprio saber
por meio das artes de fazer, estilos de ação que resinificam o lugar e o
objeto em função das referências culturais que possui. Esta seria sua
maneira de resistir ao imposto por ordens sociais dominantes.

Segundo De Certau, para serem legitimados, os produtos culturais


devem fazer sentido para as pessoas. A não aceitação deles denunciará um
eventual distanciamento entre formuladores e usuário e as politicas culturais
dominantes não corresponderem aos anseios desejados, serão limitadas.
“A uma produção racionalizada, expansionista além de centralizada,
48

barulhenta e espetacular, corresponde outra produção, qualificada de


consumo: esta é astuciosa, é dispersa, mas ao mesmo tempo ela se insi-
Arquiteturas do porvir: transporte fluvial na represa Billings

nua ubiquamente silenciosa e quase invisível, pois não se faz notar com
produtos próprios, mas nas maneiras de empregar os produtos impostos
por uma ordem econômica dominante”.
(DE CERTEAU, 1994, p.39).

A sobreposição de significados pela prática cotidiana das redes


também é notada por De Certau, quando diferencia o lugar do espaço. O
lugar, de caráter estático, é uma ordem, um local físico projetado e con-
struído onde os elementos estão organizados e coexistem sem significado.
“(...) uma configuração instantânea de posições. Implica uma relação de
estabilidade” (1994, p. 173). A apropriação do lugar como um suporte o
emaranhado de significados que ele pode conter ocorre numa espécie de
jogo de percursos intermitentes, dado pelo ato de caminhar, em que os
passos “tecem os lugares” e propiciam a dimensão real do espaço, este sim
um meio animado e suscetível à alterações simbólicas continuas.

“O ato de caminhar está para o sistema urbano como a enunciação (o


speech act) está para a língua ou para os enunciados proferidos. Vendo
as coisas no nível mais elementar, ele tem como efeito uma tríplice função
“enunciativa”: é um processo de apropriação do sistema topográfico pelo
pedestre (assim como o locutor se apropria e assume a língua); é uma re-
alização espacial do lugar (assim como o ato da palavra é uma realização
sonora da língua); enfim, implica relações entre posições diferenciadas,
ou seja, contratos pragmáticos sob a forma de movimentos (assim como
a enunciação verbal é “alocução”, coloca o outro em face do locutor e põe
em jogo contratos entre colocutores). O ato de caminhar parece portanto
encontrar uma primeira definição como espaço de enunciação”.
(DE CERTEAU, 1994, p.177).

Valorar o cotidiano como uma estratégia de leitura da metró-


pole tem grande mérito ao inverter a noção moderna da arquitetura
e do urbanismo como saber responsável pela organização da socie-
Fonte imagens: acervo próprio

DA REGIÃO
EDUCAÇÃO
LOCAIS DE LAZER E
UM DOS PRINCIPAIS
SANTA DOROTÉIA,
CONVIVÊNCIA
CENTRO DE

Arquiteturas do porvir: transporte fluvial na represa Billings 49


Fonte imagens: acervo próprio
50
Arquiteturas do porvir: transporte fluvial na represa Billings

MARGEM DO BRAÇO DO
BORORÉ, ÁREA DE
INTERVENÇÃO DO PROJETO
TRABALHADO, E RUA DANIEL
ALOMIA, UMA DAS VIAS DE
ACESSO AO TERMINAL
FLUVIAL PROPOSTO
dade civil em prol da racionalidade dos fluxos de seus organismos produ-

51
tivos – raciocínio que se revela desatualizado quando confrontado com a
complexidade da cidade informal. É possível traçar paralelo os dizeres de

Arquiteturas do porvir: transporte fluvial na represa Billings


Kevin Lynch, do ponto de vista formal, ao dizer que

A paisagem também desempenha papel social. O ambiente conhecido


por seus nomes e familiar a todos oferece material para as lembranças
e símbolos comuns que unem o grupo e permitem que seus membros se
comuniquem entre si. (LYNCH, 1997, p. 143)

A tangibilidade experimentada no dia a dia das pessoas (pe-


destre, morador, grupo social) fornece informações às instâncias
governamentais e a corpos técnicos que vão além do material dis-
ponível em estatísticas e nas cartografias oficiais. Ao focar a volati-
lidade dos momentos construídos a cada instante pelos habitantes
e a imprevisibilidade da duração deles, pode-se dizer que Santos,
os situacionistas e De Certau mantêm dialogo por manifestarem a
relevância das dinâmicas sociais invisíveis, que fogem aos olhos da
análise da racionalidade técnica.

O invisível e o efêmero são, assim, componentes fragmen-


tados no espaço e tempo propulsores de estratégias projetuais no
campo da intervenção urbana nas extensas áreas de moradia pre-
cária dos mananciais da RMSP. Aliar este refinamento teórico sobre
as preexistências, desde a escala do pedestre até a identificação de
certas relações compartilhadas entre grupos sociais podem aliar-se
na formulação de regulações urbanísticas atentas aos pormenores
da vida cotidiana e também ao projeto de edificações.
Arquiteturas do porvir: transporte fluvial na represa Billings 52

Fonte: Editora Casa da Palavra/Guy Debord

SITUACIONISTA
O PENSAMENTO
ILUSTRANDO
MAPA AFETIVO,
Arquiteturas do porvir: transporte fluvial na represa Billings 53
Arquiteturas do porvir: transporte fluvial na represa Billings 54

4.

ABERTA E
ARQUITETURA

ESPAÇOS SUPORTE
A complexidade das ocupações características ao longo da linha de

55
mananciais das represas Billings e Guarapiranga engloba questões a
respeito da relevância de dinâmicas locais para uma primeira aproxi-

Arquiteturas do porvir: transporte fluvial na represa Billings


mação nestes territórios e as hipóteses de intervenção conseguintes.
O diagnóstico sobre o espaço a ser trabalhado passa por classificações
formais (tipologias, configuração do tecido urbano, uso e ocupação do
solo), assim como pelo levantamento das nuances que delineiam as
identidades e fluxos entre os pontos de interesse dos moradores em
todas as escalas. Josep Maria Montaner (2009)assinala que a combi-
nação destas peças detectadas de uma realidade “caracterizada pela
dispersão e pela diferença, pela soma e pela sobreposição e pelo choque
entre peças” resultarão na legibilidade da linguagem arquitetônica no
entorno. Sobre a fragmentação, Montaner afirma que

“(...) é a forma mais genuína da condição dispersa da pós-modernidade,


e quando se toma essa condição hibrida como ponto de partida quando
se resiste à tentação da unidade, identidade e metafisica, recorre-se a
mecanismos que recompõem certa totalidade, múltipla e fragmentária,
como mosaico, a colagem, a montagem, a ensambladura ou a sobre-
posição; potencializa-se a complexidade geral e a individualização de
cada parte”. (MONTANER, 2009, p. 148)

O caos ou a dispersão, ao mesmo tempo em que enriquece as


características de cada parte, não deixa de estar associado a uma
logica sistêmica que, quando em contato, contribui para o entendi-
mento global do espaço. De que maneira transpor estes fenômenos
mutantes às metodologias da arquitetura aparentemente estáticas
e predefinidas, como programa e partido do edifício?

Alguns projetos emblemáticos da arquitetura contemporânea


indagaram estas convenções realocando-as sob outras operações,
sem que a autoria do desenho e a necessidade de atender demandas
colocadas deixassem de ser funcionais. São hipóteses projetuais e de
análise que permitem redefinições programáticas contínuas em resposta à
56

multiplicidade dos usuários que recebem no decorrer do tempo. Eles têm


como ponto de contato a presença em contextos urbanos heterogêneos em
Arquiteturas do porvir: transporte fluvial na represa Billings

que a importância referencial da imagem e a complexidade das condições


de uso transformaram-se em desafios aos profissionais envolvidos.

Estes projetos admitem a flexibilidade dos ambientes, contêm


simbolismo e materialidade em seus partidos ao designarem às suas
partes constituintes (programa, lajes, circulações, acessos) uma condição
simbólica de referência imagética a quem experimenta suas espaciali-
dades. Subordinam suas soluções construtivas à possibilidade de ser
um suporte para atividades inúmeras.

O Parc de La Villette, maior parque de Paris, construído no 19º


Arrondissement. de autoria de Bernard Tschumi em 1982, destaca-se
pela influência do desconstrutivismo por ter em seus 25 hectares
três equipamentos culturais uma estratégia de ocupação de criação
do território calcada nos princípios filosóficos de Jacques Derrida.
Linhas, superfícies e pontos transformam-se em programas com-
plementares e percursos numa sobreposição abstrata e geométrica
sore o solo existente.

A tensão gerada entre as disjunções e aproximações com o


retrospecto histórico da capital francesa produziu um parque que
pretende representar o século 21. O caráter de suporte se dá prin-
cipalmente nos pontos (chamados de folies), transformando-se em
atrativos que induzem os usuários a ler o que os rodeia de forma
subjetiva e em constante descoberta do espaço. (TSCHUMI, 2010,
pgs. 189-190)


ESTRATÉGIA PROJETUAL DE
BERNARD TSCHUMI PARA O PARC
DE LA VILLETTE, EM PARIS, COM
SOBREPOSIÇÃO DE PROGRAMAS,

57
LINHAS, SUPERFÍCIES E PONTOS

Arquiteturas do porvir: transporte fluvial na represa Billings


Fonte imagens: Bernard Tschumi Architects
A subjetividade pretendida tem correlato com o questionamento sobre a
58

unidade do projeto. Tschumi afirma que, pela lógica pensada, “esse projeto
não tem começo nem fim” e que “a ideia de ordem é permanentemente
Arquiteturas do porvir: transporte fluvial na represa Billings

questionada, desafiada e levada ao extremo”. (op. cit., pgs. 189-190)

“São antes operações, compostas por repetições, distorções, sobre-im-


posições etc. Apesar de possuírem uma logica interna própria – seu plu-
ralismo não é destituído de objetos -, é impossível descrever tais operações
unicamente com relação transformações internas ou sequenciais. (...) os
fatos quase nunca se conectam e as relações de conflito são cuidadosa-
mente preservadas em detrimento da síntese ou da totalidade. O projeto
nunca se realiza, assim como as fronteiras nunca são definidas”. (op. cit.,
2010, pgs. 189-190)

A maneira como estas arquiteturas são ocupadas numa escala


de tempo de variadas dimensões é outro item a ressaltar. O reflexo de
uma cidade em espaços coletivos abertos à ressignificação é caminho
para oscilações de inúmeras matizes. Uma praça, por exemplo, em
sintonia ao partido do suporte tem em sua essência uma espécie de
código aberto à condição urbana. A liquidez dos significados da gara-
gem para veículos Lincoln Road, de Herzog & De Meuron, em Miami,
nos Estados Unidos, é tamanha que em suas lajes é possível verificar
além da utilidade primária do edifício - abrigar veículos – moradias,
eventos, comercialização de produtos, entre outros, como uma espécie
de condensador de atividades.

São estratégias arquitetônicas que situam o espaço não mais como


um processo finito, finalizado em concepção pelos seus autores e dali em
diante subordinante aos que usufruírem do programa pensado. Conteste à
rigidez da relação função-forma, sistemas arquitetônicos que incorporam
a possibilidade do devir como uma via de apreensão e significação possi-
bilitam a extrapolação da vivência do espaço dado a priori para sujeitá-lo
a outras leituras. Até mesmo caráter estético da obra arquitetônica, a
Fonte: Herzog & de Meuron Architects Fonte: Nelson Garrid

HERZOG & DE MEURON


1111 LINCOLN ROAD, PROJETO DE

Arquiteturas do porvir: transporte fluvial na represa Billings 59


princípio a cargo do autor, mas que, quando suplantada, transforma-se
60

num “suporte que permite a expressão artística não apenas de quem a


concebe, mas também a quemrecebe e a usa; o exercício deixa de ser ape-
Arquiteturas do porvir: transporte fluvial na represa Billings

nas visual para transformar-se em fonte fecunda de experimentações”


(GUATELLI, 2013, p. 18)

Igor Guatelli defende que o porvir carrega a força da desestabilidade


das convenções espaciais, ao dizer que

“Ao contrário do modus operandi fundamentado na concepção de um “cor-


reto” espaço regido por prescrições programáticas convencionais e pré-de-
terminações de usos que o garantem como lugar “pronto para-ser-utiliza-
do”, e onde toda a possibilidade de experimentação parece canalizada na
construção de gramaticas formal-compositivas “harmônicas”, a instabili-
dade e indefinição do espaço surgem como via de crítica ao imperativo
categórico do ótico compositivo, à perenidade de formas monumentais e
paradigmáticas e ao desejo de suas invioláveis permanências no tempo”
(op. cit., p. 16)

A congestão que o projeto arquitetônico pode vir a ser tam-


bém é descrita por Saskia Sassen, ao descrever sobre os conceitos de
Ignasi-Solà Morales, no prefácio de seu livro, Territorios, publica-
ção na qual cunha-se o termo arquitetura líquida. Em maior escala,
a cidade é o receptáculo da gama de situações propiciadas pelas
vias de comunicação da economia globalizada, sendo um “evento
que captura la interseccion de lo urbano y lo arquitectónico”.
(SASSEN, 2002, p.10)

A resultante formal e espacial do edifício ampara o entroncamento de


fluxos das redes de pessoas, informações e objetos, sujeitando o sucesso da força
catalisadora do projeto a capacidade de absorver as praticas fragmentarias.
“El domínio de lo construído, por no mencionar el de las interconexio-

61
nes, vá más ajja de la arquitectura. El transporte, las telecomunicacio-
nes, ele almanje, los espacios naturales en el interior de las ciudades,

Arquiteturas do porvir: transporte fluvial na represa Billings


los espacios abertos de entretenimento, todos ejjos son partes centrales
de la experiencia urbana (...)” (op. cit., p. 9)

A eficácia dos sistemas arquitetônicos e de sua relação com o


entorno está condicionada à extrapolação dos aspectos formais e físicos.
Segundo Sassen, a arquitetura líquida é aquela que carrega em sua
gênese a ênfase ao cruzamento de tempos e das trocas, expandindo a
experiência do espaço a interpretações do porvir, desprendidas da rigi-
dez de um programa, por exemplo, para conferir certa liberdade ao seu
usufruto e significação. Ela deve “presentar la ‘experiencia cinestésica’
de los flujos em las dinâmicas metropolitanas em términos no-visuales,
de la deriva que se aparta de la programacion y de la regulacion pre-
estabelecida para experimentar otros eventos, otras representaciones”
(op. cit., p.13)

O contínuo contato entre eventos que os espaços configurados


como suporte realizam, reforça a ideia de que um ambiente propí-
cio à tensão entre seus participantes torna-se um dos papeis funda-
mentais da arquitetura contemporânea. Ao delinear o fragmentado
campo de trabalho ao qual o arquiteto e urbanista está sujeito na
atualidade, pode-se dizer que Montaner, Sassen e Guatelli dissipam
os limites do partido proposto; quanto mais imprevisibilidades forem
capazes de conter, maiores as possibilidades das rotas de colisão en-
tre momentos nos tempos diversos de seus usuários, sendo a arquite-
tura, então, um texto aberto (GUATELLI, 2013) a situações futuras.

“O estudo reflexivo que propomos não parte do sujeito, do homem, contem-
62

porâneo, tampouco do objeto, a arquitetura. Nossa reflexão se concentra


no ponto de contato entre ambos, em um processo de interação-tensão-
Arquiteturas do porvir: transporte fluvial na represa Billings

sujeito-objeto que está além do ótico e em como esta interação-tensão pode


reverberar agenciamentos outros, relativos ao valor do espaço e suas inter-
mináveis finalidade em arquitetura” (GUATELLI, 2013, p. 19)

Diante deste cenário de inversões de padrões, de hipóteses de


desregulamentação normativa, como definir uma metodologia apro-
priada cedente ao desdobramento do porvir? Segundo Igor Guatelli,
o papel do arquiteto “residiria tentativa de promover uma interação-
articulação entre o definido e o indefinido”. (op. cit., p. 33). O palco do
indefinido está situado justamente entre o espaços dados, sendo eles

“(...) catalisadores, motivadores dessas ações dos usuários, desses eventos,
desses acontecimentos inesperados que surgiriam e permaneceriam sem-
pre em processo, transitórios, jamais se firmando como atividade domi-
nante que pudesse se transformar em convecção de uso, e onde o programa
não seria determinado pelo arquiteto, mas mutável, estaria sempre sendo
solicitado e conformado por essas ações. (op. cit., 2013, p. 33)
BILLINGS
PROJETUAL
5. HIPÓTESE

NA REPRESA
TERMINAL FLUVIAL

Arquiteturas do porvir: transporte fluvial na represa Billings 63


Arquiteturas do porvir: transporte fluvial na represa Billings 64
DESENVOLVIDO
TERMINAL FLUVIAL
VISTA GERAL DO

Arquiteturas do porvir: transporte fluvial na represa Billings 65


66
Arquiteturas do porvir: transporte fluvial na represa Billings

Quanto ao projeto arquitetônico desenvolvido – terminal fluvial de


barcas associado à equipamento público -, parte-se da ideia de um
conjunto de proposições que poderia ser aplicado a outras situações
análogas. A aproximação se deu por consulta prévia à legislação,
dados e bases oficiais, complementada pelo contato com a comu-
nidade do entorno, em entrevistas e registros da uma organização
filantrópica local, Centro de Convivência Santa Dorotéia e às es-
colas Municipais de Ensino Eundamental Frei Damião e Infantil
João Cândido, no intuito de transcorrer o processo de trabalho de
maneira horizontal e coletiva, guardadas as limitações de prazo e
abrangência possíveis no universo estudado, e as próprias limita-
ções inerentes a um trabalho de cunho acadêmico.

A ideia deste primeiro diagnóstico era verificar quais hipóteses


poderiam ser levantadas para que o edifício proposto seja legível à popu-
lação que o rodeia. A coleta de informações foi gravada e acompanhada
pelo registro de um mapa afetivo dos entrevistados no qual foram indicados
pontos de encontro e as centralidades pertencentes ao cotidiano da região,
como feiras livres, festas populares, centro comercial, trajetos e também a
própria relação do imaginário dos moradores com a represa Billings.

Destas visitas, partiu-se para a concepção conceitual da rede


de terminais e a distribuição de cada um deles com base no extenso
levantamento realizado pelo Grupo Metrópole Fluvial, que pertence
ao Laboratório de Projeto do Departamento de Projeto da Faculdade
de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo – FAU
USP, coordenado pelos arquitetos Alexandre Delijaicov, André Takiya
e Milton Braga. O trabalho aprofunda propostas para a utilização
da água como meio de transporte de cargas, dejetos e passageiros,

67
aproveitando o imenso potencial hídrico característico o conjunto de
rios e represas da RMSP, orientando-se principalmente pelos eixos

Arquiteturas do porvir: transporte fluvial na represa Billings


das marginais Pinheiros e Tietê, pelo rio Tamanduateí e pelas repre-
sas Guarapiranga e Billings. A proposta, em caráter preliminar,
mas com detalhados estudos de viabilidade para diversos modais
de transporte lacustre indica, em um de seus tópicos, a localização
de terminais para transporte de passageiros por embarcações rasas
para movimentarem-se em trajetos com calado de baixa profundi-
dade, indicando inclusive a tipologia recomendada (GMF, 2011).

O terminal trabalhado encontra-se numa posição comple-
mentar à rede desenhada pelo grupo de pesquisa, por estar situado
num contexto urbano com peculiaridades diversas que passaram a
ser interessantes como desafio projetual e de zoneamento. Situado
no distrito de Grajaú, nos bairro Residencial Cocaia e Jardim Sipra-
mar, no extremo sul de São Paulo, é caracterizado pelo difícil acesso
em razão de sua posição geográfica limítrofe à represa Billings e às
poucas vias de acesso aos bairros centrais, polarizadores da oferta
de emprego na cidade. O território urbano é conformado pela hege-
monia de residências de baixo padrão – algumas em áreas de risco
– e escassez de infraestrutura urbana. O meio de transporte coletivo
mais acessível é o ônibus, em poucas linhas locais e com frequências
pouco favoráveis à população.

O local também sofre com a indefinição fundiária e de atu-


ação de políticas públicas, uma vez que a proximidade com uma
das principais reservas de abastecimento de água potável da capi-
tal paulista impede legalmente que o poder público urbanize por
completo a comunidade. A malha urbana é fruto de loteamento
irregular surgido nas décadas de 1970 e 1980. Próximo à foz de um
Fonte: acervo próprio
MAPA AFETIVO PRODUZIDO
POR MORADORES DA REGIÃO
Arquiteturas do porvir: transporte fluvial na represa Billings 70

BORORÉ
BRAÇO DO

ÁREA DE
INTERVENÇÃO
CORPO
CENTRAL

Fonte: Arquivo de Fotografias Aéreas. Ambos (1 e 2) do Departamento de Geografia. Faculdade de Filosofia Letras e
Ciências Humanas. Universidade de São Paulo / Laboratório de Aerofotogeografia e Sensoriamento Remoto.

DE SÃO PAULO,
DO BORORÉ, NA
REPRESA BILLINGS,
ÁREA DA PENÍNSULA

E EM 2010 (À DIREITA)
EM 1962 (À ESQUERDA),
DO COCAIA E DO BRAÇO

ZONA SUL DO MUNICÍPIO


Fonte: Elaboração própria sobre imagem de satélite de BASE Aerofotogrametria e Projetos S.A.

BORORÉ
BRAÇO DO

ÁREA DE

AV. DONA
INTERVENÇÃO

BELMIRA MARIN
CENTRO
COMERCIAL
DE ENERGIA
LINHA DE TRANSMISSÃO

VIA PRINCIPAL
LINHAS DE ÔNIBUS
CEU
NAVEGANTES
CORPO
CENTRAL

Arquiteturas do porvir: transporte fluvial na represa Billings 71


córrego local que corta o bairro de Jardim Sipramar e das escolas
72

citadas, o equipamento proposto aqui integra um conjunto de estra-


tégias que configuram o plano urbano proposto para esta região.
Arquiteturas do porvir: transporte fluvial na represa Billings

PLANO URBANO E PARQUE LINEAR

Com base na legislação da Lei de Mananciais propõe-se a


utilização de mecanismos do zoneamento ambiental para recuperar
uma grande gleba de massa vegetal de mata Atlântica em relevo
acentuado, atualmente ocupada por pequenas chácaras, para a de-
sapropriação destes lotes seguida pela unificação a fim de criar-se
um parque urbano de pequeno porte, complementado por um centro
de educação ambiental e caminhos por passarelas aéreas que per-
mitam a contemplação da massa arbórea e da paisagem próxima.
Outro recurso sugerido é o da remoção parcial de moradias próxi-
mas ao córrego do loteamento escolhido, sendo retiradas somente
as habitações consideradas de risco ou interferentes na preserva-
ção da nascente deste afluente da represa, que seriam realocadas,
como se verá a seguir.

Quanto à maneira de ler o tecido urbano existente, o pro-


jeto para o parque La Villette, de Bernard Tschumi, foi de grande
valia na abordagem sobre o território preexistente. Bastante frag-
mentado devido à junção do viário de cada loteamento produzido,
pretendeu-se estabelecer uma estratégia de ajustes entre ligações
consideradas importantes tanto do ponto de vista da circulação de
veículos e das linhas de ônibus municipais, como daqueles registra-
dos nos diálogos feitos com a comunidade local. O resultado final foi
a interligação entre três níveis de cotas – parque, várzea, bairro –
por meio da requalificação do passeio público e da unificação entre
estas situações urbanas díspares.
73

Sobre estas ligações, foram distribuídos nos entroncamen-

Arquiteturas do porvir: transporte fluvial na represa Billings


tos e esquinas com a malha atual pavilhões de pequeno porte onde
poderiam ser instalados programas locais, a exemplo de sanitários,
bancas, posto de informações, ponto de ônibus, entre outros. Por
fim, a escala do pedestre foi aprimorada pelo alargamento das
calçadas, inclusão de ciclovias, passarelas para vencer desníveis e
escadarias, além da ampliação da calha do córrego, hoje canalizado
à ceu aberto, até a nascente, próxima às escolas públicas, onde
haveria uma pequena escola de práticas náuticas, como canoagem
e remo. A proposta decorrente destas abordagens pretendeu equili-
brar a manutenção das relações sociais reconhecidas durante a visita
a campo com a preservação ambiental, pontuada por medidas de
caráter emergencial, como a transferência dos moradores em áreas
vulneráveis para unidades habitacionais dentro dos limites do bairro,
prevista em lotes vazios identificados.

TERMINAL FLUVIAL

Inserido neste arranjo urbano, a concepção do projeto do ter-


minal fluvial passa pela adoção de sistemas racionalizados de con-
strução e montagem dos componentes que conformam o conjunto de
edificações, ao pretender generalizar o transporte fluvial aos habi-
tantes da cidade de São Paulo, bem como de sua região metropolita-
na. Neste sentido, a implantação estabelece-se numa lógica flexível,
na qual a disposição de uma malha de modular de 5x5m organiza
as dimensões gerais e facilita o arranjo dos blocos a fim de criar um
espaço público de convívio. Por se tratar de um programa expansível,
ajustável, e até mesmo subtraído, caso não seja necessária a retirada
de algum volume, a concepção estrutural guia-se pela viabilidade
74
Arquiteturas do porvir: transporte fluvial na represa Billings PLANO MACROURBANO | SISTEMA TRANSPORTE POR BALSAS - REPRESA BILLINGS

ESCADAS E PASSARELAS DE
INTERLIGAÇÃO ENTRE O PARQUE
E O CENTRO COMERCIAL DO BAIRRO

EQUIPAMENTOS DE APOIO AO PARQUE


(BAR, SANITÁRIOS, POSTO INFORMAÇÕES)

ESCOLA DE REMO E AMPLIAÇÃO DA


CAPACIDADE DA ESCOLA LOCAL

ACESSOS AO PARQUE CONECTADOS


COM O VIÁRIO LOCAL

1/10
TERMINAL FLUVIAL METROPOLITANO TERMINAL FLUVIAL LOCAL ESTAÇÃO TREM CPTM LINHA ESTRUTURAL LINHA LOCAL

UNIDADES HABITACIONAIS PARA MORADORES


REMOVIDOS DAS ÁREAS DE VÁRZEA

EDIFÍCIOS REMOVIDOS LIGAÇÕES PROPOSTAS

CENTRO DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL

MIRANTE

TERMINAL EQUIPAMENTOS PEDESTRES VEÍCULOS


PLANO REGIONAL TERMINAIS LOCAIS | PENÍNSULA DO COCAIA -GRAJAÚ

75
Arquiteturas do porvir: transporte fluvial na represa Billings
00000 1/5000
CORREDOR ÔNIBUS TERMINAL LINHA ESTRUTURAL LINHA LOCAL LINHA CIRCULAR CORREDOR PDE 2014

DISTRIBUIÇÃO PROGRAMA
DISTRUBUIÇÃO PROGRAMA ÁREAS VERDES E ÁGUA
PLANO URBANO | PARQUE LINEAR COCAIA
76
Arquiteturas do porvir: transporte fluvial na represa Billings

ALARGAMENTO DO CÓRREGO LOCAL E CRIAÇÃO


DE PRAIA URBANA E ESPAÇOS DE LAZER

REPRESA BILLINGS

MIRANTE

TERMINAL HIDROVIÁRIO, DE ÔNIBUS E


EQUIPAMENTOS DE SERVIÇOS PÚBLICOS

CICLOVIA E AMPLIAÇÃO DAS CALÇADAS

PARQUE URBANO E REGENERAÇÃO


VEGETAÇÃO NATIVA EXISTENTE

RECUPERAÇÃO DA MASSA VEGETAL


DAS MARGENS DA REPRESA

ESCALA 1/2000
PLANO

77
Arquiteturas do porvir: transporte fluvial na represa Billings
ESCADAS E PASSARELAS DE
INTERLIGAÇÃO ENTRE O PARQUE
E O CENTRO COMERCIAL DO BAIRRO

EQUIPAMENTOS DE APOIO AO PARQUE


(BAR, SANITÁRIOS, POSTO INFORMAÇÕES)

ESCOLA DE REMO E AMPLIAÇÃO DA


CAPACIDADE DA ESCOLA LOCAL

ACESSOS AO PARQUE CONECTADOS


COM O VIÁRIO LOCAL

UNIDADES HABITACIONAIS PARA MORADORES


REMOVIDOS DAS ÁREAS DE VÁRZEA

EDIFÍC

CENTRO DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL

MIRANTE
TERMINAL EQUIPAMENTOS PEDESTRES VEÍCULOS
MIRANTE
78

TERMINAL HIDROVIÁRIO, DE ÔNIBUS E


PASSARELA
EQUIPAMENTOS DE SERVIÇOS PÚBLICOS
ELEVADOR RUA LOCAL MORADIAS EXISTENTES RUA PARQUE LINEA
METÁLICA AÉREA ACESSO PARQUE PISO PERMEÁVEL PRESERVADAS CICLOVIA, CALÇADA
E PISO PERMEÁVEL
Arquiteturas do porvir: transporte fluvial na represa Billings

CICLOVIA E AMPLIAÇÃO DAS CALÇADAS

PARQUE URBANO E REGENERAÇÃO


VEGETAÇÃO NATIVA EXISTENTE

DRENAGEM
RECUPERAÇÃO DA MASSA VEGETAL
DAS MARGENS DA REPRESA

CORTE URBANO TRECHO CÓRREGO | ESCALA 1/500


CORTE URBANO TRECHO CÓRREGO

ESCALA 1/2000

CICLOVIA VIÁRIO LOCAL PASSARELA AÉREA MIRANTE


MARGEM DO PARQUE

REPRESA BILLINGS

CORTE URBANO | ESCALA 1/750


EQUIPAMENTOS DE APOIO AO PARQUE
(BAR, SANITÁRIOS, POSTO INFORMAÇÕES)

79
AR EQUIPAMENTOS DE ALARGAMENTO PASSARELA ESCADA DE ESCOLA DE REMO E AMPLIAÇÃO DA
EQUIPAMENTOS
CAPACIDADE DA ESCOLA LOCAL
A APOIO E ÁREAS DE CALHA CÓRREGO TRANSPOSIÇÃO ARTICULAÇÃO DE APOIO EM
LAZER PARQUE CÓRREGO ENTRE COTAS PATAMAR

Arquiteturas do porvir: transporte fluvial na represa Billings


ACESSOS AO PARQUE CONECTADOS
COM O VIÁRIO LOCAL

UNIDADES HABITACIONAIS PARA MORADORES


REMOVIDOS DAS ÁREAS DE VÁRZEA

CENTRO DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL

CÓRREGO
MIRANTE

ACESSO PARQUE MORADIAS EXISTENTES VIÁRIO LOCAL E CICLOVIA EQUIPAMENTOS PASSARELA ESCADA
PAQUE LINEAR DE LAZER

CÓRREGO
de execução em larga escala e fácil transporte de seus componentes,
80

sejam eles metálicos, pré-fabricados ou moldados in loco.


Arquiteturas do porvir: transporte fluvial na represa Billings

Apesar das dificuldades de acesso à região, a proximidade


com a água transforma-se no grande potencial do projeto, ao en-
tendê-la como uma efetiva via de ligação entre comunidades lin-
deiras e o centro da cidade, a partir de noção capilar de redes hi-
droviárias organizadas por rotas em diversos pontos ao longo das
margens de rios e represas. Programas complementares podem
ser a interligação por meio da conexão de barcas especializadas
de navegação lacustre em percursos bairro-bairro e bairro-centro,
rompendo a organização radiocêntrica comum ao sistema de trans-
portes metropolitano.

A implantação e a relação entre os volumes estabelecem-se


numa disposição que poderá ser alterada segundo cada condição
topográfica. A fim de condicionar as perspectivas do pedestre em
direção à paisagem de maior interesse - a represa - e, ao mesmo
tempo, encontrar um arranjo que possibilitasse a criação de uma
praça pública e o escoamento dos passageiros, os volumes foram
distribuídos perpendicularmente à margem, obedecendo a retícula
de 5x5m a partir de seu ponto de contato com o viário local. No tra-
jeto oposto, à medida que as barcas aproximam-se das plataformas
de desembarque, o enquadramento criado pelo conjunto valoriza a
massa vegetal preservada existente no bairro.

IMPLANTAÇÃO LINEAR MODULARIDADE E COMBINAÇÃO ENTRE VOLUMES IMPLANTAÇÕES VARIADAS SEGUNDO DEMANDAS LOCAIS
81
Por se tratar de um sistema construtivo que permita expan-

Arquiteturas do porvir: transporte fluvial na represa Billings


são, ajustes e até mesmo a retirada de determinados programas, a
concepção estrutural encontra similaridades com os Centros Edu-
cacionais Unificados (CEUs), implantados a partir de 2003 pela
prefeitura de São Paulo em regiões periféricas como estratégia
para levar equipamentos de ensino, cultura e esporte. Com ressal-
vas à implantação destes complexos – disposição das peças enri-
jecida pelo terreno compromete a relação entre o interior e a malha
urbana – a rapidez com que podem ser construídos em larga escala
é seu maior mérito, além do programa, como política pública.

PROGRAMA

PAVILHÃO

A irregularidade topográfica das margens da represa Bill-


ings e a escassez de vazios para a implantação de novas construções
conduziram à opção por uma edificação que se estruturasse sobre a
água, a partir de poucos pontos de contato com o solo. Outra condi-
cionante foi a necessidade de preservar ao máximo as condições
naturais preexistentes e evitar grandes movimentações de terra.
De caráter pavilhonar, dois pilares de concreto de seção circular
partem do fundo da represa até o primeiro pavimento. Estes dois
elementos de apoio obedecem à modulação de 1,25 metros, consid-
erada adequada à escala do objeto e coerente com o sistema con-
strutivo adotado. Eles distanciam-se em 25m por uma viga metáli-
ca “I” longitudinal, que, por sua vez, sustenta vigas secundárias
dispostas no sistema “espinha de peixe”. Outras duas vigas metáli-
cas geram balanços de 5 metros em cada um dos lados do pavilhão.
A S
MUL

B
82
Arquiteturas do porvir: transporte fluvial na represa Billings

DE

ACESSOS
A
PRAÇA FL

B
PLANTA 2º PAVIMENTO | ESCALA 1/750
PLATAFORMA TERMINAL

CIRCULAÇÃO

PLATAFORMA FLUTUANTE

A
PLANTA 4ºTÉRREO|
PAVIMENTO | ESCALA
ESCALA 1/750 1/750

PROGRAMA

A S
MUL

VISTAS
B A | 1/750
CORTE
SALA CENTRO
A
LTIUSO COMUNITÁRIO

83
D
C

Arquiteturas do porvir: transporte fluvial na represa Billings


ECK

COMÉRCIO A
LUTUANTE PRAÇA ATERRO A
CENTRO
COMUNITÁRIO
ACESSO A
OCAI
PLANTAA D3ºO CPAVIMENTO | ESCALA 1/750 B
TERMINAL ESTRAD P
L
D
C

TERMINAL
ÔNIBUS

A
MIRANTE
D
C

SALA CENTRO
A
LTIUSO COMUNITÁRIO

B
E
ISOMÉTRICA PAVILHÃO MULTIUSO
PLANTA 2º PAVIMENTO | ESCALA 1/750
PLANTA TÉRREO| ESCALA 1/750
84
Arquiteturas do porvir: transporte fluvial na represa Billings

ISOMÉTRICA PAVILHÃO
ISOMÉTRICA MULTIUSO
PAVILHÃO MULTIUSO

CORTE
CORTE CC | ESCALA 1/750 A
A M

CORTE C |CESCALA
CORTE 1/750
| ESCALA 1/750 PLANTA 4º PAVIMENTO |PASSARELA
ESCALA 1/750 ELEVADOR
B METÁLICA AÉREA ACESSO PARQUE

PASSARELA
PASSARELA ELEVADOR
ELEVADO
METÁLICA AÉREA
METÁLICA AÉREA ACESSO PARQUE
ACESSO PARQU

CORTE D| 1/750

CORTE D|D|
CORTE 1/750
1/750 PLANTA
CORTE A2º| PAVIMENTO
1/750 | ESCALA 1/750

BRISE EM TELA METÁLICA


FIXADA NO REQUADRO
MODULAÇÃO 1,25m

RUFO METÁLICO
PARA ARREMATE DA COBERTURA

TELHA TERMOACÚSTICA "SANDUÍCHE"


(TELHA + ISOLANTE + TELHA)

VENEZIANA TRANSLÚCIDA PARA


VENTILAÇÃO CRUZADA
MODULAÇÃO 1,25m

RUFO METÁLICO PARA


VEDAÇÃO DA COBERTURA

CALHA METÁLICA

MONTANTE VERTICAL 4X8cm


PARA APOIO DA TELHA
VIGA METÁLICA "I" GALVANIZADA VAZADA PARA
ESTRUTURAÇÃO DOS FECHAMENTOS
15x30cm
VIGA METÁLICA "I" GALVANIZADA
15x30cm
ESTRUTURA METÁLICA "T" PARA APOIO DAS
VIGAS DA COBERTURA CHUMBADA NO PISO
LAJE ALVEOLAR EM
CONCRETO PRÉ-FABRICADO
MODULAÇÃO 1,25x2,50m
PERFIL METÁLICO "C" PARA
APOIO DA TELHA
VIGA METÁLICA SECUNDÁRIA FIXADA
NO PILAR DE CONCRETO
40X20cm

REVESTIMENTO PISO
EM RESINA EPOXI

CORTE E | 1/750
VIGA METÁLICA "I" SECUNDÁRIA

CORTE URBANO TRECHO CÓRREGO | ESCALA 1/750


FIXADA NA VIGA PRINCIPAL
BRISE EM TELA METÁLICABRISE EM TELA METÁLICA
40X20cm
FIXADA NO REQUADRO FIXADA NO REQUADRO
VIGA METÁLICA "I" PRINCIPAL
MODULAÇÃO 1,25m MODULAÇÃO 1,25m
FIXADA NO PILAR DE CONCRETO
80X20cm
RUFO METÁLICO RUFO METÁLICO

A
PARA ARREMATEPILAR DE SEÇÃO CIRCULAR
DA COBERTURA
PARA ARREMATE DA COBERTURA
Ø80cm
TELHA TERMOACÚSTICA "SANDUÍCHE"
TELHA TERMOACÚSTICA
DESCIDA A.P. EMBUTIDA "SANDUÍCHE"
(TELHA +EM
ISOLANTE + TELHA)
(TELHA
NICHO VERTICAL + ISOLANTE + TELHA)
NO PILAR
VENEZIANA VIGA
TRANSLÚCIDA PARA 15x20cm
"I" GALVANIZADA
VENEZIANA TRANSLÚCIDA PARA
VENTILAÇÃO CRUZADA
PARA FIXAÇÃO DO BRISE E
VENTILAÇÃO CRUZADA
MODULAÇÃO 1,25m DA LAJE
ARREMATE MODULAÇÃO 1,25m
PROJEÇÃO FUNDAÇÃO PILAR
RUFO METÁLICO PARA RUFO METÁLICO PARA
VEDAÇÃO DA COBERTURA
MONTANTEVEDAÇÃO
METÁLICODA COBERTURA
EM PERFIL
CALHARETANGULAR
METÁLICA 5X6cmCALHA METÁLICA
PARA ESTRUTURAÇÃO DO BRISE
MONTANTE VERTICAL 4X8cm
PERFIL "C"MONTANTE VERTICAL 4X8cm
DE FIXAÇÃO

ARQUITETURA E URBANISMO MACKENZIE -PLANTA


TFGII - PAULO EDUARDO SCHEU
PARA APOIO DA TELHA PARA APOIO DA TELHA
DA PLACA CIMENTÍCIA
VIGA METÁLICA "I" GALVANIZADA VAZADA "I"
VIGA METÁLICA PARAGALVANIZADA VAZADA PARA
ESTRUTURAÇÃO DOS FECHAMENTOS
ESTRUTURAÇÃO DOS FECHAMENTOS
15x30cm 15x30cm
VIGA METÁLICA "I" GALVANIZADA
VIGA METÁLICA "I" GALVANIZADA
15x30cm 15x30cm
ESTRUTURA METÁLICA "T"ESTRUTURA
PARA APOIOMETÁLICA
DAS "T" PARA APOIO DAS
VIGAS DA COBERTURA CHUMBADA
VIGAS DA NO PISO
COBERTURA CHUMBADA NO PISO
LAJE ALVEOLAR EM LAJE ALVEOLAR EM
CONCRETO PRÉ-FABRICADO
CONCRETO PRÉ-FABRICADO
MODULAÇÃO 1,25x2,50m MODULAÇÃO 1,25x2,50m
PERFIL METÁLICO "C" PARA
PERFIL METÁLICO "C" PARA
APOIO DA TELHA APOIO DA TELHA
VIGA METÁLICA SECUNDÁRIA
VIGAFIXADA
METÁLICA SECUNDÁRIA FIXADA

4º PAVIMENTO | ESCALA 1/750


NO PILAR DE CONCRETO NO PILAR DE CONCRETO
40X20cm 40X20cm
REVESTIMENTO PISO REVESTIMENTO PISO
EM RESINA EPOXI EM RESINA EPOXI

CORTE E |E1/750
CORTE | 1/750
VIGA METÁLICA "I" SECUNDÁRIA
VIGA METÁLICA "I" SECUNDÁRIA

CORTE URBANO
CORTE TRECHO
URBANO CÓRREGO
TRECHO | ESCALA
CÓRREGO 1/750
| ESCALA 1/7
FIXADA NA VIGA PRINCIPAL FIXADA NA VIGA PRINCIPAL
40X20cm 40X20cm
VIGA METÁLICA "I" PRINCIPAL
VIGA METÁLICA "I" PRINCIPAL
FIXADA NO PILAR DE CONCRETO
FIXADA NO PILAR DE CONCRETO
80X20cm 80X20cm

CORTE B | 1/750
PILAR DE SEÇÃO CIRCULAR PILAR DE SEÇÃO CIRCULAR
Ø80cm Ø80cm
DESCIDA A.P. EMBUTIDA DESCIDA A.P. EMBUTIDA
EM NICHO VERTICAL NO PILAR
EM NICHO VERTICAL NO PILAR
VIGA "I" GALVANIZADA 15x20cm
VIGA "I" GALVANIZADA 15x20cm
PARA FIXAÇÃO DO BRISE E PARA FIXAÇÃO DO BRISE E
ARREMATE DA LAJE ARREMATE DA LAJE
PROJEÇÃO FUNDAÇÃO PILAR PROJEÇÃO FUNDAÇÃO PILAR

CORTE E
MONTANTE METÁLICO

CORTE B
MONTANTE METÁLICO
EM PERFIL RETANGULAR 5X6cm
EM PERFIL RETANGULAR 5X6cm
PARA ESTRUTURAÇÃO DOPARA
BRISE
ESTRUTURAÇÃO DO BRISE
PERFIL "C" DE FIXAÇÃO PERFIL "C" DE FIXAÇÃO

ARQUITETURA
ARQUITETURAE EURBANISMO
URBANISMOMACKENZIE
MACKENZIE- TERMINAL
TFGII
- TFGII- PAULO EDUARDO
- PAULO EDUARDO SCHEU
SCHE
DA PLACA CIMENTÍCIA

FLUVIAL DE PASSAGE
DA PLACA CIMENTÍCIA
A
CENTRO
COMUNITÁRIO
PLANTA 3º PAVIMENTO | ESCALA 1/750

85
DD
CC

EE

Arquiteturas do porvir: transporte fluvial na represa Billings


SALA CENTRO
A
MULTIUSO COMUNITÁRIO A
MIRANTE
B

E
A
CENTRO
COMUNITÁRIO
PLANTA 3º PAVIMENTO | ESCALA 1/750
D
C

A
MIRANTE

EIROS E EQUIPAMENTO PÚBLICO NA REPRESA BILLINGS - FACULDADE DE A


Arquiteturas do porvir: transporte fluvial na represa Billings 86

DETALHE PAVILHÃO MULTIUSO


ISOMÉTRICA PAVILHÃO MULTIUSO

Arquiteturas do porvir: transporte fluvial na represa Billings 87


Fonte: PMSP
88
Arquiteturas do porvir: transporte fluvial na represa Billings

UNIDADES DO CENTRO EDUCACIONAL


UNIFICADO (CEU), CONSTRUÍDO EM
REGIÕES PERIFÉRICAS DA
CIDADE DE SÃO PAULO

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A linha mestra criada pela viga principal ordena o desenho final

Arquiteturas do porvir: transporte fluvial na represa Billings


da planta: simétrica e longitudinal. Alonga-se em direção à represa e
reforça a relação respeitosa com a água. O pano de laje acomoda-se na
espinha por meio de lajes alveolares de concreto pré-fabricado. A es-
truturação geral do bloco no pavimento superior se dá por pórticos me-
tálicos transversais interligados por vigas metálicas no sentido oposto
e travados por cabos tensionados, garantindo a estabilidade geral do
conjunto.

Não há definição rígida do programa e o layout pode ser alterado


de forma livre por divisórias retráteis internas, sem interferência das
instalações hidráulicas, locadas nas duas extremidades. Os fechamen-
tos são constituídos por placas cimentícias e caixilharia piso teto
para permitir o máximo de insolação e ventilação internas – item
que recebe contribuição zenital na cobertura ao longo de todo seu
eixo principal. A proteção contra os raios solares diretos visa ex-
pressar unidade da linguagem do pavilhão com os demais volumes,
configurando-se como uma segunda pele em quebra-sóis em chapa
metálica perfurada, fixadas em estrutura metálica.

EDIFÍCIO DE SERVIÇOS PÚBLICOS

Situado sobre um pequeno aterro em extensão à superfície


da calçada, este bloco constitui-se por lajes de concreto moldadas
in loco e sustentadas por pilares de seção circular, em três pavi-
mentos. Optou-se por adotar uma planta de 150 metros quadrados
- metragem considerada adequada para programas comunitários
em pequena escala (centro de saúde, creche, oficina de capacitação
profissional). A expressão formal segue a linguagem do pavilhão:
caixilharia em vidro e alumínio em todo o pé-direito e proteção solar
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com brises em chapa perfurada. Está situado no eixo longitudinal


do pavilhão e interliga-se com ele por meio de passarelas metáli-
Arquiteturas do porvir: transporte fluvial na represa Billings

cas externas engastadas nas duas edificações externamente, numa


longa barra que também conecta-se com as caixas de circulação, em
estrutura metálica, soltas dos volumes. A verticalidade deste bloco
intenciona criar um referencial na paisagem urbana, além de ser-
vir como suporte para a comunicação visual para a identificação de
cada estação. De certa forma, pode-se entendê-lo como um farol em
meio à represa - um marco, na linguagem de Kevin Lynch (1997).

ESTABELECIMENTOS COMERCIAIS, PLATAFORMA


DE EMBARQUE E VAZIO CENTRAL

O arranjo do conjunto está organizado a partir de um vazio


central, constituído por um pequeno aterro em extensão à calça-
da. O piso térreo logo abaixo da projeção do pavilhão é fixo e está
estruturado nos dois pilares principais, também em madeira, em
sistema similar ao que ocorre no andar superior. Do lado oposto
do pavilhão e do edifício de serviços estão localizados um termi-
nal urbano de pequeno porte para linhas circulares e os acessos ao
embarque e desembarque das barcas. Entendidos como linhas de
passagem, o percurso até a calçada é pontuado por blocos de menor
escala que abrigam programas locais, tais quais bancas de jornal,
feiras livres, entre outros. Da mesma forma, um pequeno pavilhão
horizontal alonga-se a partir do volume de serviços até quase tocar
a rua próxima, a fim de criar ali o ponto de contato do conjunto com
a cidade, numa espécie de esquina. A conexão entre os dois conjun-
tos lineares é realizada por um deque de madeira flutuante. Têm-se
dessa maneira, dois sistemas de piso fixo e um móvel, interligados
a partir do vazio de uma praça pública assentada sobre o aterro.
Cobertura metálica

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A amarração entre os blocos se dá numa estrutura metálica

Arquiteturas do porvir: transporte fluvial na represa Billings


elevada em grelha que percorre transversal e longitudinalmente
os principais eixos do conjunto, como um pergolado, criando áreas
de sombreamento para os usuários dos modais e permanência para
aqueles que utilizam a praça pública. A cobertura apoia-se em
pilares metálicos distanciados pela modulação do grid geral de 5
metros, e configura-se uma estrutura que articula os volumes, sem
tocá-los.

A proposta formal do edifício pretende constituir um elemen-


to referencial aos moradores da região, seja em soluções cromáti-
cas, luminotécnicas ou pela própria intersecção de eventos, um con-
densador urbano de situações.
CICLOVIA VIÁRIO LOCAL PASSARELA AÉREA MIRANTE ACESSO PARQUE MORADIAS EXISTENTES VIÁRIO LOCAL E CICLOVIA EQUIPAMENTOS P
MARGEM DO PARQUE PAQUE LINEAR DE LAZER
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Arquiteturas do porvir: transporte fluvial na represa Billings

CÓRREGO
REPRESA BILLINGS

CORTE URBANO | ESCALA 1/750

TERMINAL FLUVIAL DE PASSAGEIROS E EQUIPAMENTO PÚBLICO NA REPRESA BILLINGS - FACULDADE DE ARQUITETURA E URBANISMO MACKENZIE
TERMINAL EQUIPAMENTOS PEDESTRES VEÍCULOS

PASSARELA ESCADA PASSARELA ELEVADOR RUA LOCAL MORADIAS EXISTENTES RUA PARQUE LINEAR EQUIPAMENTOS DE ALARGAMENTO PASSARELA ESCADA DE EQUIPAMENTOS
METÁLICA AÉREA ACESSO PARQUE PISO PERMEÁVEL PRESERVADAS CICLOVIA, CALÇADA APOIO E ÁREAS DE CALHA CÓRREGO TRANSPOSIÇÃO ARTICULAÇÃO DE APOIO EM
E PISO PERMEÁVEL LAZER PARQUE CÓRREGO ENTRE COTAS PATAMAR

93
Arquiteturas do porvir: transporte fluvial na represa Billings
DRENAGEM

CÓRREGO

CORTE URBANO TRECHO CÓRREGO | ESCALA 1/500

E - TFGII - PAULO EDUARDO SCHEUER - 31007392 - AT2 BANCA DE AVALIAÇÃO - ORIENTADOR: PROF. DR. FRANCISCO PETRACCO
Arquiteturas do porvir: transporte fluvial na represa Billings 94
Arquiteturas do porvir: transporte fluvial na represa Billings 95
Arquiteturas do porvir: transporte fluvial na represa Billings 96

DETALHE EDIFÍCIO SERVIÇOS PÚBLICOS


Fonte: Grupo Metrópole Fluvial

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Arquiteturas do porvir: transporte fluvial na represa Billings
MODELOS DE EMBARCAÇÕES PARA
TRANSPORTE DE PASSAGEIROS
PROPOSTOS PELO
GRUPO METRÓPOLE FLUVIAL

DETALHE TERMINAL ÔNIBUS E COBERTURA PRAÇA


Arquiteturas do porvir: transporte fluvial na represa Billings 98
Arquiteturas do porvir: transporte fluvial na represa Billings 99
Arquiteturas do porvir: transporte fluvial na represa Billings 100

FINAIS
CONSIDERAÇÕES
A hipótese desenvolvida no Trabalho Final de Graduação configura-se como

101
um experimento que busca incorporar o conjunto dos conceitos examinados
na interpretação da cidade, da ação urbanística e do projeto numa realidade

Arquiteturas do porvir: transporte fluvial na represa Billings


múltipla, fragmentada e desafiadora ao olhar do arquiteto e urbanista contemporâneo.
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102

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