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Atividade 1

Disciplina: Fundamentos históricos, filosóficos e sociológicos da educação

1) Disserte sobre a herança socrática no pensamento platônico.

Dica: O ponto central dessa análise sobre o pensamento platônico refere-se à tentativa
de encontrar uma solução para o problema do conhecimento. A filosofia platônica se
delineia a partir da tentativa de encontrar solução para o problema do conhecimento.

Platão, ao se tornar discípulo de Sócrates, passa a questionar a formação


aristocrática que recebeu e a problematizar os princípios em que se assentavam a
vida política de seu tempo. A conivência com Sócrates marcou a vida e o pensamento
de Platão de forma profunda, tanto que o pensamento socrático se confunde com a
sua própria obra.
A questão principal que perpassa o labor filosófico de Sócrates refere-se a
como e para que educar o homem para a vida na polis (cidade) e, portanto, para o
convívio social harmônico e democrático. Sócrates faz da filosofia uma pedagogia da
razão, como condição primordial para o retorno ao interior.
Os exemplos que evidenciam os elementos pertinentes à pedagogia socrática
estão nos diálogos socráticos de Platão. O diálogo socrático é o método do logos
(palavra) que conduz a uma conduta reta, isto é, os conceitos que designariam o que
somos enquanto seres humanos e os valores nos quais sustentaríamos a nossa ação
para a virtude. Com sua filosofia, Sócrates cria a ciência (epistéme) que objetiva
encontrar as definições universais e necessárias das coisas; esse conceito só poderia
ser alcançado pela razão.
Sob a influência do pensamento socrático, posteriormente Platão desenvolve
em sua filosofia a tentativa de encontrar uma solução para o problema do
conhecimento. Em outras palavras, a origem do conhecimento e a forma como as
Ideias relacionam-se com os objetos ocuparão suas investigações em larga escala.
Um dos problemas mais graves que Platão vivencia em seu tempo diz respeito à
decadência da política, dos costumes e da educação (Paideia) gregos. Assim como
Sócrates, Platão também vê na ausência da ciência, da virtude (areté) e da justiça as
causas da degradação da cidade.
Diante disso, Platão argumenta que se dedica à verdadeira filosofia e defende
que os filósofos devem chegar ao poder ou que os governantes devem começar a
filosofar. Platão aspira a uma Paideia justa que seja capaz de corrigir as distorções
produzidas por poetas e sofistas e de colocar os cidadãos no caminho reto. No
pensamento platônico, a Paideia deve formar o homem prezando pelo governo da
razão sobre as esferas inferiores da alma humana.
Estas reflexões relacionadas ao tanto ao problema do conhecimento, quanto
aos problemas filosóficos, éticos e políticos desse contexto filosófico e histórico
aparecem em A República. Nessa obra, é possível compreender como Platão concebe
a filosofia e idealiza o filósofo como educador do Estado e dos cidadãos e confere a
ele um papel central no funcionamento da cidade ideal. Desse modo, Platão amplia os
ensinamentos que recebeu de Sócrates e constrói as bases de um pensamento e de
uma pedagogia próprios.
2) Como Platão concebe os ideais do homem virtuoso e de Estado justo? Quais
as implicações desses ideais para o problema do conhecimento?

Dica: Trata-se de comentar sobre a teoria da alma (psyché), na qual a pedagogia se


fundamenta, e o ideal de homem vigoroso a ser almejado por ela, a reforma moral e
política de Atenas, que requer uma redefinição de Justiça e, por fim, os desafios éticos
e políticos. Um ponto a se destacar é que a justiça, para Platão, precisa ter o olhar
reeducado para o Bem, o Bom, o Belo e o Justo. Outro ponto é a ideia de Estado
justo, que precisa da reforma da cultura e educação de seu tempo.

Platão expõe, na obra A República, a teoria da alma (psyché), na qual sua


pedagogia se fundamenta, e o ideal de homem virtuoso. É por meio desse ideal que o
filósofo tece uma ética a ser perseguida pela educação e pela filosofia. Essa ética se
assenta no domínio da alma apetitiva ou concupiscente pela razão como modo de
tornar moderados os apetites e os desejos provenientes do corpo e de adquirir uma
virtude denominada de temperança (sophrosýne). Dominar a alma irascível ou colérica
por meio da razão, para distinguir o que seria bom ou mau para o corpo, seria
imprescindível para desenvolver outras duas virtudes denominadas de coragem
(thimós) ou a prudência (phrónesis).
O predomínio da alma racional em relação às suas esferas inferiores seria a
condição para que o homem se tornasse virtuoso e a sua virtude fosse um
conhecimento de si. Essa proposição representa também uma vinculação à política,
pois cada uma das virtudes alcançadas pelo homem virtuoso seria importante para a
constituição do Estado justo e uma qualidade a ser desenvolvida por cada um dos
setores constitutivos da cidade ideal: artesãos, guardiões e governantes.
Nesse sentido, a partir da ideia de homem virtuoso e do ideal de cidade justa,
Platão define sua ideia de Justiça: alcançar o reconhecimento do que seja o Bom, o
Bem, o Belo e o Justo pela reeducação do olhar. O filósofo acredita que a reforma
moral e política de Atenas passa por essa redefinição da Justiça, a qual deve ser
intrínseca à alma em sua essência.
Além disso, Platão expõe a necessidade de reformar a cultura e a educação
para se alcançar a ideia de Paideia (educação) justa. A proposição da Paideia justa é
imprescindível para a formação do homem virtuoso que viverá na cidade ou no Estado
justos. Para isso, o filósofo retoma e reorganiza os conteúdos ou os bens culturais a
fazerem parte da reforma educativa baseados agora em critérios estritamente
racionais, justificados por sua filosofia: seriam validados apenas os conteúdos que
contribuíssem para a formação da moderação, da coragem ou prudência e,
principalmente, da sabedoria no desenvolvimento das potencialidades dos jovens, das
mulheres e dos cidadãos. Esses conteúdos seriam ofertados conforme a natureza ou
as aptidões individuais de acordo com as funções da estratificação do Estado ideal,
concebendo assim uma Paideia orientada à formação do bom governo.
3) Estabeleça algumas relações entre a alegoria da caverna e o programa
educativo platônico. Dê um exemplo de como a alegoria da caverna poderia
estar presente em algumas situações educativas nos dias de hoje.

Dica: Tal alegoria se inicia com a descrição de prisioneiros em uma caverna. Presos
totalmente, só enxergam as suas sombras projetadas. Se os prisioneiros saíssem e
experimentassem, por exemplo, olhar de outras maneiras e levantar hipóteses, seria o
olhar do pensamento do mundo. A alegoria também associa a sua teoria do
conhecimento e pressupõe a formação interior compreendida pelo ideal de Paideia
justa. Pode-se dar como exemplo as possibilidades de novas metodologias que
estimulam o pensar, o conhecimento e a resolução de problemas.

A alegoria da caverna, proposta por Platão, ilustra a situação de prisioneiros


em uma caverna, de forma que só conseguem olhar sombras produzidas por objetos
que passam pela frente de uma fogueira e que são projetadas na parede. Essa visão
limitada faz com que os prisioneiros acreditem que estas sombras se referiram a
cópias fiéis da realidade. A partir dessa situação dada, Platão descreve a libertação de
um desses prisioneiros, seu contato visual direto com os objetos e com a fogueira que
produz as sombras, a constatação do erro em que estava imerso e o conhecimento
dos objetos sensíveis que agora passam a se apresentar.
O processo de conhecimento vivenciado pelo prisioneiro liberto é gradativo:
levado para fora da caverna, ele vê os objetos reais sem ofuscação e, com um tempo
de adaptação, se certifica da artificialidade das sombras que vira na caverna. Pouco a
pouco, esse prisioneiro começa a raciocinar, a experimentar hipóteses e a se
perguntar sobre o astro que permitiu aos seus sentidos perceberem os objetos reais.
Com isso, ao direcionar o olhar de seu pensamento, encontra no sol a fonte última da
razão, algo que está para além de si mesmo e do mundo em que vive, mas que o
conduz em direção ao conhecimento e à verdade acerca das coisas mesmas. Nesse
processo, o ex-prisioneiro conquista a sua liberdade pelo conhecimento e pelo
pensamento, em uma formação interior de sua alma, que se verifica na possibilidade
de conhecer a verdade das coisas por olhá-las pelo pensamento. Essa é a sua
principal virtude, impressa como uma segunda natureza.
Esta alegoria pode ser associada à teoria do conhecimento, pois o processo de
libertação do prisioneiro (com a saída de seu estado de ignorância e do mundo da
opinião para o estado de sabedoria e o mundo inteligível) se equipara com a ascese
em direção à contemplação das ideias verdadeiras, inerente aos sábios. Esse
processo de libertação, que pressupõe uma formação interior defendida pelo ideal de
Paideia justa, representa a ascese da alma na busca de suas faculdades superiores e
o domínio de seus apetites e de suas paixões.
Transpondo para os dias atuais, é possível dizer que essa reorientação do
olhar que a alegoria da caverna propõe pode ser reconhecida em metodologias de
ensino que induzem o aluno / indivíduo a racionar, a ser proativo na busca da
ampliação do próprio conhecimento e nas soluções de problemas. Assim, como o
prisioneiro liberto reorienta o seu olhar e reativa sua capacidade de contemplar o
supra-sensível, é possível despertar, a partir desse modelo de metodologia, a
autonomia na construção do conhecimento colocando em funcionamento, como
sugere Jaeger (2001, p.888), o órgão por meio do qual se aprende e se compreende.
4) Qual a provável diferença entre o pensamento platônico e o pensamento
socrático no que se refere às suas concepções pedagógicas? Explique.

Dica: O pensamento platônico prescrevia preparar a percepção das crianças e dos


jovens para que acompanhassem o raciocínio científico e o conhecimento matemático
e das ciências. Sócrates não se coloca como professor que ensina um conhecimento
pronto e acabado, mas aparece com mundo interior, enquanto uma pedagogia da
razão. Seria esse um dos pontos que poderia ser explorado.

A pedagogia que nasce do pensamento platônico se fundamenta em um


sistema filosófico justificado por uma ética que consiste na libertação dos vícios, da
intemperança e da irracionalidade, nas quais os homens estão imersos quando se
deixam conduzir pelos seus apetites, desejos e paixões, sem a mediação da faculdade
da razão.
Para atingir estes objetivos, Platão atribui ao Estado a incumbência do cuidado
das crianças e dos jovens após o nascimento, e não às famílias, a fim de evitar as
prováveis distorções. Além disso, o ponto alto dessa educação racional seria a
transmissão das ciências e dos conhecimentos matemáticos (geometria, trigonometria
e aritmética). Esses conteúdos ensinados aos jovens exigiriam que os mesmos
aspirassem ao raciocínio necessário ao conhecimento dos objetos abstratos e,
também, se dedicassem à elaboração de teoremas que visassem cada vez mais a
aproximação aos princípios racionais, às formas lógicas do pensar e às ideias
contempladas pelo pensamento reflexivo.
Já o pensamento socrático se sustenta em bases um pouco diferentes.
Sócrates não se coloca na posição de ensinar um conhecimento pronto e acabado,
mas opta pela indagação, ou seja, introduz o diálogo como forma de busca da
verdade. É por essa forma que o filósofo estabelece uma pedagogia da razão como
condição essencial para o retorno ao interior e para a compreensão do cotidiano de
ações e pensamentos.
No pensamento socrático aparece esse novo elemento que é o mundo interior,
a areté (virtude) de que ele fala é um valor espiritual. Por essa via se desenvolve a
ética como expressão da natureza humana, que por meio dos dotes racionais torna o
ethos (caráter pessoal) possível. O intuito do pensamento socrático, enquanto uma
pedagogia da razão, é a formação da alma neste ethos, como caminho que dará
acesso à harmonia com a natureza do universo, à eudemonia (felicidade / bem estar).
Sócrates crê que o homem pode alcançar esta harmonia do ser pelo domínio completo
sobre si próprio, de acordo com a lei que ele descobriu no exame da sua própria alma,
dessa forma, a virtude e a felicidade deslocaram-se para o interior do homem.