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“O islamismo tem uma outra linguagem universal que comunica através da sua arte” – O Jornal Económico 14/11/2017, 22)38

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“O islamismo tem uma outra


linguagem universal que comunica
através da sua arte”
Redação
16 Jan 2015

A artista plástica Margarida Sardinha expõe “Symmetry’s Portal” no Centro Ismaili


de Lisboa até 15 de fevereiro. Na mostra, constituída por um núcleo de 30
trabalhos e um filme, a criadora dá a conhecer a sua visão do Islão.

Como nasceu a exposição “Symmetry’s Portal”?


Há muito que estudo e investigo a geometria sagrada e as suas divinas
proporções. Quando visitei o Alhambra, em 2011, fiquei absolutamente fascinada
com a arte islâmica e com os palácios e jardins, onde tudo é pensado de forma
geométrica – pois estas são as formas associadas a deus, ao absoluto. Foi desta
arte anicónica que surgiu a exposição. Fotografei o local e voltei para o estúdio
com milhares de imagens que trabalhei digitalmente, dando-lhes dimensões
fractais e hiperdimensionais. Surgiram, então, trabalhos que são metade
bidimensionais, metade tridimensionais. Os poliedros acoplados às fotografias dão
uma ilusão de três ou mais dimensões, criando estruturas multidimensionais
estáticas.
Como surgiu a oportunidade de expor no Centro Ismaili de Lisboa?
Gosto que o meu trabalho tenha um cariz “site specific”. Quando concluí esta série
de trabalhos, procurei sítios onde eles pudessem, potencialmente, ser expostos.
Locais que exaltassem, de certa forma, o seu lado espiritual e o seu conceito
religioso islâmico. Um amigo sugeriu-me o Centro Ismaili e enviei de imediato uma
proposta, que foi muito bem recebida. Houve também uma coincidência engraçada:
a construção do Centro Ismaili, da autoria de Raj Rewal e de Frederico Valsassina,
teve como base as tradições de arquitetura no contexto islâmico e no contexto da
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teve como base as tradições de arquitetura no contexto islâmico e no contexto da


Península Ibérica. Por isso, o Centro assimila três estilos arquitetónicos
representativos de regiões e períodos históricos diferentes. O primeiro reflete a
herança tradicional portuguesa manifestada através da construção em pedra de
lioz e granito. O segundo expressa os valores islâmicos através da constante
utilização da geometria nos rendilhados geométricos que revestem as fachadas. E
a terceira influência é manifestada pela utilização do estilo andaluz, presente
através dos pátios, jardins interiores, exteriores e claustros. Portanto, sendo o
Alhambra uma das inspirações, que é aliás bastante visível a quem visita o Centro,
fazia todo o sentido que a exposição tivesse lugar no Salão de Exposições do
Centro Ismaili.
“Symmetry’s Portal” já esteve exposto, em 2014, na Casa de Cultura Jaime
Lobo e Silva, na Ericeira. Foram adicionadas ou retiradas obras à mostra para
o Centro Ismaili?
A exposição é a mesma. Foram vendidas obras na Casa de Cultura da Ericeira,
mas os colecionadores que as compraram tiveram a amabilidade de cedê-las para
esta exposição.
Em que consiste a mostra?
Consiste num entrelace multidimensional que se encontra tanto nos trabalhos
fotográficos tridimensionais de grande formato como no filme experimental. Os 30
trabalhos e o filme “Symmetry’s Portal” foram concebidos sob as descrições
geométrico-matemáticas do arquiteto Keith Critchlow (cujo estudo resulta da
análise dos padrões à luz dos princípios metafísicos e cosmológicos islâmicos), do
matemático britânico Marcus du Sautoy e do físico e matemático Roger Penrose.
As teorias de Critchlow, du Sautoy e de Penrose vêem, nos padrões
islâmicos, princípios metafísicos e cosmológicos que ajudam a estruturar o
mundo. Também entende o mundo desta maneira?
Sim, senão nada faria sentido para mim.
As obras que apresenta têm uma relação direta com o islamismo?
O meu trabalho debruça-se sobre religião comparativa. Interessa-me essa
linguagem universal do amor, sabedoria e paz, que todas as religiões transmitem
pelos seus profetas, a quem Karen Armstrong chama de “axial people”. O
islamismo tem uma outra linguagem universal que comunica através da sua arte
anicónica – a da geometria e da matemática – sobre a qual o meu trabalho também
é coincidente. Há, dentro do universo espiritual islâmico, uma dimensão que se
pode chamar de “Pitagorismo Abraâmico”, uma perspetiva de pensar os números e
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“O islamismo tem uma outra linguagem universal que comunica através da sua arte” – O Jornal Económico 14/11/2017, 22)38

pode chamar de “Pitagorismo Abraâmico”, uma perspetiva de pensar os números e


figuras como chaves para a estrutura do cosmos e como símbolos do mundo
arquétipo. É esta possibilidade do universo intelectual islâmico, com poucas ou
nenhumas influências externas, que permitiu que o Islão desenvolvesse uma
filosofia matemática semelhante à da tradição Pitagórico-Platónica da Antiguidade,
mas com uma particularidade totalmente sagrada. É também este elemento inato
da estrutura do Islão que originou a criação de uma arte sagrada de natureza
essencialmente geométrica. A arte islâmica é essencialmente uma maneira de
enobrecer a matéria geometricamente unida por formas caligráficas que
incorporam a palavra de deus como revelada no santo livro Alcorão.
O vídeo que apresenta a cadência de formas geométricas é acompanhado
pelo poema “Symmetry’s Portal”, da sua autoria. Neste poema, reclama, para
a arte, o papel de “guia visível para inteligibilidade do universo de cada um”.
O que quer dizer?
Para mim, a arte é um veículo do intangível e do inteligível. No meu trabalho, tento
criar continuuns simbólicos geométrico-abstratos, nos quais recorro a imagens
arquetípicas, inatas em cada ser humano. Estas imagens são arte, no seu mais
puro sentido, e são visíveis. Todos temos a capacidade de compreendê-las e
apreciá-las individualmente.
Tem outras exposições previstas para 2015?
Não, mas tenho, ainda este mês, dois dos meus filmes a serem mostrados em Los
Angeles e já estou a preparar a próxima exposição, intitulada “Hyperbolic
Hyparxis”.
A Margarida viveu, estudou e trabalhou em Londres durante dez anos. Pensa
voltar?
Talvez um dia, sim. Gostava muito de poder voltar. Logo se vê as voltas que a vida
dá.
O cenário da arte contemporânea no Reino Unido é muito diferente do de
Portugal?
Sim, muito. É mais alargado, há mais oportunidades, mas também mais
competitividade. Existe uma grande comunidade artística que tem muito peso na
sociedade, o que não existe em Portugal.

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