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Governo do Estado do Maranhão

Secretaria de Estado da Ciência, Tecnologia,


Ensino Superior e Desenvolvimento Tecnológico
Universidade Estadual do Maranhão - UEMA
Núcleo de Tecnologias para Educação - UemaNet

Maria Odete Vieira Tenreiro


Maria Virgínia Bernardi Berger
Neiva de Oliveira Moro
Priscila Larocca
(professoras da UEPG - Universidade Estadual de Ponta Grossa - PR)

PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO

São Luís
2010
Governadora do Estado do Maranhão Edição:
Roseana Sarney Murad Universidade Estadual do Maranhão - UEMA
Núcleo de Tecnologias para Educação - UemaNet
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Universidade Estadual do Maranhão


Núcleo de Tecnologias para Educação - UemaNet
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O conteúdo deste fascículo foi cedido à Universidade


Estadual do Maranhão - UEMA pela Universidade Estadual
de Ponta Grossa - PR que autorizou sua reprodução
com atualizações: revisão de linguagem, capa, cores e
diagramação de uso exclusivo do Núcleo de Tecnologias
para Educação - UemaNet.
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Colaborador Financeiro
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Colaboradora de Planejamento Todos direitos reservados ao Ministério da Educação


Silviane Buss Tupich Sistema Universidade Aberta do Brasil.

Colaboradores em EAD Tenreiro, Maria Odete Vieira


Dênia Falcão de Bittencourt Psicologia da educação. / Maria Odete Vieira
Jucimara Roesler Tenreiro e outros.
Ponta Grossa: Ed.UEPG, 2009.
239 p. il.
Licenciatura em Educação Física, Geografia,
História, Letras - Português/Espanhol, Matemática,
Pedagogia e outros.
Educação a distância.
1. Educação - psicologia. 2. Educação - aprendizagem
- concepções. 3. Educação - inclusão. 4. Educação -
adolescência. I. Berger, Maria Virgínia Bernardi. II.
Moro, Neiva de Oliveira. III. Larocca, Priscila. IV. T.

CDD : 370.15

UNIVERSIDADE ESTADUAL DE PONTA GROSSA


Núcleo de Tecnologia e Educação Aberta e a Distância - NUTEAD
Av. Gal. Carlos Cavalcanti, 4748 - CEP 84030-900 - Ponta Grossa - PR
Tel.: (42) 3220-3163
www.nutead.uepg.br
2010
SUMÁRIO
APRESENTAÇÃO

UNIDADE 1

A RELAÇÃO PSICOLOGIA E EDUCAÇÃO: aspectos históricos, campos


de contribuição e a diversidade de enfoques ..................... 23

Aspectos históricos da construção da Psicologia e de sua


relação com a Educação ....................................... 27

Campos de contribuição da Psicologia na Educação ....... 37

A diversidade de enfoques da Psicologia na Educação e o uso


do critério epistemológico para sua análise ................ 43

UNIDADE 2

O DESENVOLVIMENTO E A APRENDIZAGEM: teorias que enfatizam o


sujeito e teorias que enfatizam o objeto ............................. 51

O comportamentalismo na Psicologia, sua ênfase no mundo


exterior ao sujeito e suas implicações educacionais ...... 53

A Psicologia humanista de Carl Rogers: uma concepção


idealista do sujeito e suas implicações educacionais ...... 63

A ênfase nos fatores biológicos: o inatismo na Psicologia e


suas implicações educacionais .............................. 71
PLANO DE ENSINO

DISCIPLINA: Psicologia da Educação


Carga horária: 60 horas

EMENTA

Conceito e objetivos da Educação. Psicologia: conceito atual.


Aspectos constitutivos do desenvolvimento humano. Concepções
teóricas em psicologia do desenvolvimento na infância e na
adolescência: físico, emocional, cognitivo, moral e social.
Principais abordagens teóricas em psicologia do desenvolvimento
e da educação e respectivas implicações na atuação do professor.
A aprendizagem: fatores intervenientes. Educação inclusiva.
Adolescência: desenvolvimento físico, cognitivo, afetivo e social.
O adolescente e as questões relativas à busca de identidade e
autonomia, sexualidade, escolha profissional e drogas.

OBJETIVOS

¡ compreender a evolução histórica da Psicologia, os campos de



contribuição da Psicologia da Educação, as diversas teorias e a
necessidade do uso do critério epistemológico para analisá-las;
¡ identificar os principais conceitos e implicações das teorias
comportamental, humanista e inatista;

¡ explicitar e diferenciar as principais contribuições sobre



desenvolvimento e aprendizagem na perspectiva de Piaget,
Vygotsky e Wallon;

¡ ampliar a compreensão sobre a educação inclusiva a partir das



contribuições teóricas de Piaget e Vygotsky;

¡ compreender o significado evolutivo da adolescência e seus



aspectos psicossociais e culturais;

¡ caracterizar as mudanças físicas, cognitivas, afetivas e sociais



que ocorrem nessa fase;

¡ refletir sobre o seu papel de educador face à problemática



do adolescente quanto à sexualidade, escolha profissional e
drogas.
íCONES

Orientação para estudo


Ao longo desta apostila, serão encontrados alguns ícones utilizados
para facilitar a comunicação com você.

Saiba o que cada um significa.

PENSE ATIVIDADES SUGESTÃO DE SITES

ATENÇÃO GLOSSÁRIO SUGESTÃO DE LEITURA

FILMES SAIBA MAIS


APRESENTAÇÃO

Prezado(a) estudante,

Inicialmente queremos dar-lhe as boas-vindas à nossa instituição e


ao curso que escolheu.

Agora, você é um acadêmico da Universidade Estadual de Ponta


Grossa (UEPG), uma renomada instituição de ensino superior que
tem mais de cinquenta anos de história no Estado do Paraná, e
participa de um amplo sistema de formação superior criado pelo
Ministério da Educação (MEC) em 2005, denominado Universidade
Aberta do Brasil (UAB).

O Sistema Universidade Aberta do Brasil (UAB)


não propõe a criação de uma nova instituição
de ensino superior, mas sim, a articulação das
instituições públicas já existentes, possibilitando
levar ensino superior público de qualidade aos
municípios brasileiros que não possuem cursos de
formação superior ou cujos cursos ofertados não
são suficientes para atender a todos os cidadãos.

Sensível à necessidade de democratizar, com qualidade, os cursos


superiores em nosso país, a Universidade Estadual de Ponta Grossa
participou do Edital de Seleção UAB nº 01/2006-SEED/MEC/2006/2007
e foi contemplada para desenvolver seis cursos de graduação e quatro
cursos de pós-graduação na modalidade a distância.
Isso se tornou possível graças à parceria estabelecida entre o MEC,
a CAPES e as universidades brasileiras, bem como porque a UEPG,
ao longo de sua trajetória, vem acumulando uma rica tradição de
ensino, pesquisa e extensão e se destacando também na educação
a distância.

A UEPG é credenciada pelo MEC, conforme Portaria nº 652, de 16


de março de 2004, para ministrar cursos superiores (de graduação,
sequenciais, extensão e pós-graduação lato sensu) na modalidade
a distância.

Os nossos programas e cursos de EaD apresentam elevado padrão de


qualidade e têm contribuído, efetivamente, para a democratização
do saber universitário, destacando-se o trabalho que desenvolvemos
na formação inicial e continuada de professores. Este curso não
será diferente dos demais, pois a qualidade é um compromisso da
Instituição em todas as suas iniciativas.

Os cursos que ofertamos, no Sistema UAB, utilizam metodologias,


materiais e mídias próprios da educação a distância que, além de
facilitarem o aprendizado, permitirão constante interação entre
alunos, tutores, professores e coordenação.

Este curso foi elaborado pensando na formação de um professor


competente, no seu saber, no seu saber fazer e no seu fazer saber.
Também foram contemplados aspectos éticos e políticos essenciais
à formação dos profissionais da educação.

Esperamos que você aproveite todos os recursos que oferecemos


para facilitar o seu processo de aprendizagem e que tenha muito
sucesso na trajetória que ora inicia.

Mas, lembre-se: você não está sozinho nessa jornada, pois fará
parte de uma ampla rede colaborativa e poderá interagir conosco
sempre que desejar, acessando nossa Plataforma Virtual de
Aprendizagem (MOODLE) ou utilizando as demais mídias disponíveis
para nossos alunos e professores.

Nossa equipe terá o maior prazer em atendê-lo, pois a sua


aprendizagem é o nosso principal objetivo.

EQUIPE DA UAB/UEPG
APRESENTAÇÃO
Prezado(a) estudante,

Temos o prazer de apresentar-lhe, com grandes expectativas,


a disciplina Psicologia da Educação como uma das áreas do
conhecimento muito atraente, pela contribuição que oferece ao
docente em relação aos conhecimentos científicos, os quais são
favoráveis à compreensão do ser humano no processo de ensino-
aprendizagem e também por oportunizar a reflexão sobre o
processo ensino-aprendizagem, abordando conteúdos necessários
ao exercício crítico, consciente e autônomo da docência. Esta
disciplina volta-se para o estudo científico proporcionado pela
Psicologia aplicada à educação e seu papel na formação do
professor, bem como focaliza as correntes psicológicas que
abordam a evolução da Psicologia e da Educação.

Contamos com a participação da equipe de professores: Maria


Odete Vieira Tenreiro, Maria Virgínia Bernardi Berger, Neiva de
Oliveira Moro, Priscila Larocca da Universidade Estadual de Ponta
Grossa (UEPG) e do professor especialista da UEMA responsável
pela mediação da disciplina.

A disciplina possibilitará, através dos conteúdos apresentados


no fascículo e nos materiais de pesquisa, o estudo e a reflexão
sobre os fundamentos teóricos e as metodologias de investigação
subjacentes à prática pedagógica de modo a proporcionar uma
plena integração dos aspectos pertinentes ao desenvolvimento da
educação.

Nas unidades de ensino focalizamos os aspectos históricos da


psicologia e sua relação com a educação, o desenvolvimento
da aprendizagem e as perspectivas das teorias que enfatizam
o objeto de estudo e das teorias que focalizam o sujeito.
Apresentamos conceitos e proposições pertinentes às concepções
teóricas presentes nas práticas pedagógicas, ressaltando as
concepções interacionistas. Ainda ressaltamos aspectos peculiares
do desenvolvimento humano na adolescência com o propósito de
refletir sobre o sujeito da educação e sua identidade como pessoa.

Lembramos que você não está sozinho nesta caminhada, pois uma
ampla rede de profissionais estará a disposição para interagir com
você.

Desejamos sucesso e bons momentos de estudo!

Equipe UemaNet
PALAVRAS DAS PROFESSORAS

Prezado(a) estudante,

Organizamos este livro com a preocupação de oferecer a


você, futuro professor, os subsídios mais relevantes da área de
conhecimento da Psicologia da Educação, compreendendo que
estes devem possibilitar a você uma adequada compreensão
dos referenciais teóricos desta importante área da formação de
professores, bem como uma leitura competente e crítica de suas
implicações para a prática pedagógica.

Contudo, é preciso ter em mente que o estudo que você fará


deste livro não esgota todas as possibilidades de interpretação e
compreensão da realidade fornecidas pela área da Psicologia da
Educação. Esta é uma área muito densa e bastante diversificada
em termos de suas contribuições, deste modo estamos conscientes
de que as leituras aqui apresentadas não esgotam as necessidades
de uma formação docente com qualidade. Assim, você deverá
complementar seus estudos por meio de outras leituras que
procuramos apontar logo após os textos e nas referências
bibliográficas.
Prezado(a) estudante,

Organizamos este livro com a preocupação de oferecer a


você, futuro professor, os subsídios mais relevantes da área de
conhecimento da Psicologia da Educação, compreendendo que
estes devem possibilitar a você uma adequada compreensão
dos referenciais teóricos desta importante área da formação de
professores, bem como uma leitura competente e crítica de suas
implicações para a prática pedagógica.

Contudo, é preciso ter em mente que o estudo que você fará


deste livro não esgota todas as possibilidades de interpretação e
compreensão da realidade fornecidas pela área da Psicologia da
Educação. Esta é uma área muito densa e bastante diversificada
em termos de suas contribuições, deste modo estamos conscientes
de que as leituras aqui apresentadas não esgotam as necessidades
de uma formação docente com qualidade. Assim, você deverá
complementar seus estudos por meio de outras leituras que
procuramos apontar logo após os textos e nas referências
bibliográficas.

Este livro foi concebido segundo um eixo em que posicionamos


as diferentes perspectivas teóricas da Psicologia da Educação a
partir de um critério epistemológico: contribuições que enfatizam
o sujeito, contribuições que enfatizam o objeto do conhecimento
e contribuições que veem sujeito e objeto de modo interativo.
Após desenvolvermos essas contribuições, dedicamos uma especial
atenção ao estudo da inclusão e da adolescência, uma vez que seus
alunos no ensino fundamental e médio serão adolescentes e jovens
que certamente retratarão a diversidade cultural, individual e
social que temos em nosso contexto.

Com este modo de organizar os conteúdos sugerimos a necessidade


de superar a visão dicotômica e parcelada da Psicologia da
Educação, tantas vezes criticada pelos estudos educacionais.

Trazemos neste livro sete unidades de estudo.


Na Unidade I tratamos de aspectos históricos da Psicologia, da sua
relação com a Educação e da diversidade de correntes teóricas
que fundamentam o conhecimento hoje existente, bem como da
utilização do critério epistemológico para a sua análise.

Na Unidade II tratamos do desenvolvimento e da aprendizagem


na perspectiva das teorias que enfatizam o objeto
(Comportamentalismo) e das teorias que enfatizam o sujeito
(Humanismo e Inatismo).

Nas Unidades III, IV, e V apresentamos os conceitos e proposições


das concepções interacionistas, através das contribuições teóricas
de Piaget, Vygotsky e Wallon.

A Unidade VI aborda o tema da inclusão e como Piaget e Vygotsky


se posicionam a esse respeito. A Unidade VII dedica-se ao estudo
da adolescência, fase peculiar do desenvolvimento humano e na
qual se encontram os alunos dos anos finais do Ensino Fundamental
e Ensino Médio.

Com o propósito de refletir sobre a educação que temos e


consubstanciar intervenções de qualidade na prática educacional,
convidamos você a adotar uma atitude positiva para construir um
caminho que o leve não só a atingir os objetivos que propomos,
mas a compreender que para ser educador é preciso estar atento
a tudo o que acontece ao ser humano em seus processos de
desenvolvimento e de aprendizagem.

Desejamos que o estudo deste livro fortaleça o seu propósito de


tornar-se professor, amplie sua visão do ser humano e seja um
alicerce para a sua compreensão da educação e da necessidade de
transformá-la.

Bom proveito!

Maria Odete Vieira Tenreiro


Maria Virgínia Bernardi Berger
Neiva de Oliveira Moro
Priscila Larocca
unidade

1
ObjetivoS dESTA unidade:

A Relação Psicologia e Educação: Compreender a construção


histórica da Psicologia,
sua relação com os
aspectos históricos, campos de contribuição questionamentos sobre
a constituição humana e

e a diversidade de enfoques suas contribuições para a


Educação;
Reconhecer que o estatuto
científico da Psicologia
depende da contínua
investigação de seu objeto

ROTEIRO DE ESTUDOS de estudo, da elaboração


e aperfeiçoamento de
métodos e técnicas de
pesquisa, bem como
de raciocínios teóricos
próprios;
• Aspectos históricos da construção da Psicologia e de sua Identificar a consciência
relação com a Educação. como objeto de estudo da
ciência psicológica;
Explicar a diversidade de
• Campos de contribuição da Psicologia na Educação. teorias psicológicas a partir
da relação sujeito/
objeto na construção do
• A diversidade de enfoques da Psicologia na Educação e o conhecimento psicológico;
uso do critério epistemológico para sua análise. Analisar a Psicologia da
Educação como área que
contribui para as
práticas pedagógicas a
partir dos conhecimentos
sobre desenvolvimento e
aprendizagem;
Identificar na prática
pedagógica docente
as principais correntes
teóricas da Psicologia;
Compreender a diversidade
teórica como constitutiva
da Psicologia da Educação.
pAra início de conversa

Prezado cursista,

Desde o final do Século XIX até os dias atuais, a área de


conhecimento denominada Psicologia da Educação vem se
construindo progressivamente a fim de responder à necessidade de
fazer um elo entre conhecimentos advindos da ciência psicológica
e a teoria e a prática educacionais.

Ao longo desse processo construtivo, diferentes tentativas se


sucederam: pesquisas foram realizadas, teorias elaboradas e
práticas repensadas, tendo em vista contribuir para as necessidades
formativas de professores e educadores, para que estes venham,
ao atuarem na educação, melhor compreender e intervir em
situações complexas com as quais se deparam dia após dia.

Contudo, ao nos confrontarmos com as questões educacionais, não


devemos imaginar que a Psicologia da Educação possa assegurar
respostas prontas ou soluções imediatas para o campo da prática
educativa. A ação educacional é de natureza interdisciplinar, o
que supõe que a Psicologia da Educação nunca estará sozinha na
compreensão da Educação, pois partilha responsabilidades com
outras áreas de conhecimento, como, por exemplo, a Sociologia,
a História, a Economia, a Filosofia, a Política, a Didática, a
Metodologia, entre outras.

Além disso, a Psicologia da Educação abrange um amplo campo


de contribuições teóricas sobre diferentes objetos de estudo,
que ora convergem, ora divergem, exigindo o estudo constante,
a reflexão aprofundada e o desenvolvimento de uma condição
crítica que respeite as diferentes perspectivas e esteja atenta
para as alternativas disponíveis, indagando, investigando conflitos,
procurando respostas e perguntando sempre sobre as possibilidades
de melhorar o que já existe.

24 FILOSOFIA
É com esse intuito que, ao iniciarmos o estudo desta unidade –
A relação Psicologia e Educação: aspectos históricos, campos
de contribuição e a diversidade de enfoques - visamos trazer a
você, futuro professor, conteúdos importantes para seus estudos
e reflexões.

PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO | unidade 1 25


Aspectos históricos da construção
da Psicologia e de sua relação com
a Educação

A
psicologia começou a ser construída a partir de perguntas
que os homens começaram a fazer acerca de si próprios:
Como nos constituímos humanos? Recebemos nossas
características humanas ao nascer? Ou as adquirimos mediante
nossas experiências? O que nos difere dos animais? Por que algumas
pessoas se comportam desta maneira e outras daquela?

Essas e muitas outras perguntas ilustram questões vitais que os


homens desde a antiguidade já se faziam e que estão na base do
conhecimento de psicologia que temos hoje.

Os conteúdos que desenvolveremos a seguir pretendem mostrar


a você como se construiu a ciência Psicologia e como, nesse
processo, foram colocadas pelos pensadores e pesquisadores
importantes indagações sobre a constituição do ser humano.

PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO | unidade 1 27


A Psicologia na Filosofia

Podemos dizer que o interesse pela Psicologia remonta aos primeiros


espíritos questionadores, pois os homens sempre se mostraram
fascinados por compreender a conduta e a natureza humana. Isso
explica as razões pelas quais muitas das perguntas que fazemos
hoje já eram feitas há muitos séculos atrás, demonstrando haver
uma continuidade do objeto de estudo da Psicologia entre o nosso
passado e o nosso presente:

Já no século V a.C., Platão, Aristóteles e outros


sábios gregos se viam às voltas com muitos dos
mesmos problemas que hoje ocupam os psicólogos:
a memória, a aprendizagem, a motivação, a
percepção, a atividade onírica e o comportamento
anormal (SCHULTZ; SCHULTZ, 1998, p.17).

Até o final do Século XIX, as questões sobre a conduta e a natureza


humana eram colocadas e estudadas por filósofos mediante
especulações, intuições e generalizações que partiam de suas
próprias experiências. Desse modo, os precursores intelectuais da
Psicologia careciam de métodos e abordagens que permitissem ao
Apesar da antiguidade do
seu objeto, a Psicologia conhecimento reduzido ser considerado científico. Para você ter
somente se constituiu como
estudo científico no final do uma ideia sobre isso, apresentamos a seguir algumas das principais
Século XIX, em 1889, com
Wilhelm Wundt, em Leipzig, influências dos filósofos na construção da Psicologia.
na Alemanha. Por causa
disso, Wundt foi considerado
o fundador da Psicologia
Moderna.

Contribuições de Descartes

Um importante filósofo que teve influência marcante para o


desenvolvimento da Psicologia foi o francês René Descartes
(1596-1650) com sua teoria sobre o dualismo mente-corpo. Antes
de Descartes as pessoas acreditavam que a mente influenciava
fortemente o corpo, mas este não influenciava a mente. Na Idade
Média, por exemplo, supunha-se que a mente coordenava funções
reprodutivas, perceptivas e locomotoras.

Descartes considerava que a função da mente é a capacidade de


pensar, enquanto os outros processos seriam funções do corpo.

28 FILOSOFIA
Embora entendesse que a mente influenciava o corpo e o corpo
influenciava a mente, Descartes abriu caminho para a dualidade
entre o mundo físico e o mundo psicológico, o que veio a permitir
estudos de um e de outro que passaram, pouco a pouco, a se apoiar
em observações objetivas e não mais nas especulações metafísicas
e abstratas.

Descartes fazia uma interpretação física e mecânica do corpo (cujo


funcionamento ele entendia como uma máquina). Esta interpretação
foi a base precursora dos estudos da Fisiologia, que abriram as
portas da psicologia comportamental do estímulo e da resposta.

Contribuições dos filósofos empiristas

Os empiristas também contribuíram para a construção da


Psicologia. Eles eram um grupo de filósofos que se voltavam para
a compreensão do modo como a mente adquire conhecimento.
No pensamento dos empiristas, o desenvolvimento da mente se
dá por meio do acúmulo progressivo de experiências sensoriais
captadas do mundo exterior.

John Locke (1632-1704), um dos mais


conhecidos empiristas, entendia que,
ao nascer, a mente da criança está
vazia, como se fosse uma página de
papel em branco. As ideias teriam,
então, origem no mundo exterior,
sendo captadas por meio dos sentidos
(FILHO, 2002).

Locke não admitia a existência de ideias inatas, pois, para ele,


todo conhecimento tem base empírica, ou seja, é adquirido por
meio da experiência. Ele distinguia dois tipos de experiências:
uma derivada da sensação e outra da reflexão. O primeiro tipo
– a sensação - vem da estimulação direta causada pelos objetos
exteriores, que causam impressões sensoriais simples. O segundo
tipo – a reflexão – supõe que a mente também age sobre as
sensações que recebe, gerando ideias. Todavia, para Locke a

PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO | unidade 1 29


reflexão depende sempre de ideias já experimentadas através dos
sentidos.

Locke também fazia distinção entre ideias simples e complexas. As


ideias simples podem se originar nas sensações ou nas reflexões,
mas serão sempre recebidas de maneira passiva pela mente. As
ideias complexas são formadas pela combinação das ideias simples
e podem ser decompostas em unidades menores para serem
analisadas.

Tais contribuições de Locke viriam, mais tarde, a compor a base


das teorias associacionistas da Psicologia. Segundo Schultz; Schultz
(1998, p.46):

A associação é um nome mais antigo para o


processo que viria a ser chamado de aprendizagem.
A redução, ou análise da vida mental a elementos
ou ideias simples, e a associação desses elementos
para compor ideias complexas formaram o núcleo
da nova psicologia científica.

Ao supor que a mente é vazia e será preenchida por ideias simples


e complexas advindas da experiência sensorial, a aprendizagem,
na concepção de Locke, é um processo totalmente passivo, que se
dá mediante os estímulos originados no mundo exterior.

Contribuições dos filósofos racionalistas

Os racionalistas tinham uma posição contrária à dos empiristas.


O ponto de vista do racionalismo é o de que o conhecimento
se baseia essencialmente na razão e não na experiência. Sendo
assim, os racionalistas defendiam que a mente humana gera
ideias independentemente dos estímulos externos, pois possui
capacidades inatas, ou faculdades, para isso.

O pensamento do filósofo alemão Kant (1724-1804) é um exemplo


desta posição. Kant supunha que a mente surge já com categorias
a priori (pré-formadas). Para ele tais categorias, como as noções
de tempo e espaço, impõem-se à experiência pela própria mente
sob a forma de intuições.

30 FILOSOFIA
Estas contribuições viriam influenciar a
Psicologia, particularmente aquelas formulações
teóricas que partiram do pressuposto de que o
ser humano ao nascer já traz certas capacidades
inatas.

A ciência psicológica

Como vimos, os filósofos influenciaram marcadamente a construção


da Psicologia, porém de modo não-científico.

O nascimento da Psicologia como ciência somente veio a acontecer


na medida em que os pesquisadores passaram a estudar a mente
humana utilizando procedimentos cuidadosamente controlados de
observação e experimentação. A partir daí, a Psicologia iniciou
a construção de uma identidade própria como ciência que a
distinguiria, sobremaneira, das suas raízes na Filosofia.

Os primórdios da Psicologia Experimental

A Psicologia Experimental nasceu na Alemanha no século XIX,


com Wundt, embora outros países europeus, como Inglaterra e
França, também apresentassem progressos significativos rumo ao
pensamento científico.

A Alemanha foi o país que ofereceu maiores e melhores


oportunidades para praticar novas técnicas científicas. Seu grande
número de universidades, com laboratórios bem equipados, a
liberdade dada aos docentes para a pesquisa, uma concepção de
ciência que extrapolava o interesse exclusivo pela física e química
estendendo-se para outras áreas como a biologia, a linguística,
a história, entre outras, fizeram da Alemanha o terreno profícuo
para o nascimento e desenvolvimento da Psicologia (SCHULTZ;
SCHULTZ, 1998).

PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO | unidade 1 31


É neste cenário que Wundt voltou-se para a fundação da nova
ciência que viria a ser a Psicologia.

Wilhelm Wundt (1832-1920)

Wundt é considerado o fundador da Psicologia como uma disciplina


acadêmica formal. Para estudar cientificamente os processos
mentais, ele criou o primeiro laboratório de Psicologia Experimental
na Universidade de Leipzig, Alemanha. Influenciado pelas ideias dos
empiristas, e também pelo trabalho dos fisiologistas e dos físicos,
Wundt dedicou-se aos estudos sobre a experiência consciente e
seus elementos.

Wundt deu ênfase à percepção sensorial, seguiu


mais os empiristas que os racionalistas, estudou
as sensações e imagens até chegar às percepções
mais complexas, acreditava estudar os princípios
de associação, nos quais os elementos mentais se
combinavam para formar experiências complexas.
Pensava que os órgãos dos sentidos tinham seus
processos fisiológicos. Nesse sentido, a psicologia
experimental foi o sucedâneo mais próximo e com
mais profundidade da psicologia empirista (FILHO,
2002, p. 18).

Uma vez iniciada, por Wundt, a construção de uma identidade própria


para a Psicologia, a evolução do conhecimento na área passou a
depender do desenvolvimento de maneiras cada vez mais precisas e
Wundt definiu a rigorosas para tratar do seu objeto de estudo. A partir daí, a Psicologia
consciência como
objeto de estudo da caminhou no sentido de desenvolver cada vez mais métodos e técnicas
Psicologia.
de pesquisa, bem como raciocínios teóricos próprios.
Para estudá-la
utilizou-se do método
da introspecção,
em que os sujeitos
participantes dos
experimentos
descreviam suas
A Psicologia e a constituição do sujeito
experiências
interiores. Um de seus
alunos em Leipzig,
Titchener (1867-1927),
viria a desenvolver Conforme já vimos, a Psicologia, desde os seus primeiros momentos,
pesquisas nessa
mesma direção nos
sempre procurou entender o que faz o homem ser o que ele é. Em
Estados Unidos.

32 FILOSOFIA
outras palavras, a pergunta básica que guiou a elaboração de todo
o pensamento na Psicologia reside na questão.

Como nos constituímos sujeitos? “Na Índia, onde os casos


de meninos-lobos foram
relativamente numerosos,
descobriram-se, em 1920,
duas crianças, Amala e
Kamala, vivendo no meio
Foi na tentativa de responder a essa pergunta básica que os estudiosos de uma família de lobos.
A primeira tinha um ano e
de Psicologia construíram hipóteses, formularam teorias, criaram meio e veio a morrer um
ano mais tarde. Kamala,
métodos e técnicas de investigação. Alguns levantaram suposições de oito anos de idade,
de que é a nossa natureza que oferece as possibilidades para a viveu até 1929. Não tinham
nada de humano, e o
constituição do sujeito, passando a pesquisar e formular teorias que seu comportamento era
exatamente semelhante
colocaram a ênfase em fatores internos como a hereditariedade e àquele dos seus irmãos lobos.
Elas caminhavam de quatro,
a maturação biológica. Outros argumentavam que a natureza não é apoiando-se sobre os joelhos
e cotovelos para os pequenos
suficiente e procuraram explicar como se constitui o sujeito a partir trajetos e sobre as mãos e os
pés para os trajetos longos
da influência cultural, ou seja, de fatores que são externos ao sujeito e rápidos. Eram incapazes
de permanecer em pé. Só se
e situados no ambiente que o cerca. alimentavam de carne crua
ou podre, comiam e bebiam
como os animais, lançando
Outros ainda compreenderam que nem a natureza nem a cultura a cabeça para a frente e
lambendo os líquidos. Na
isoladamente são capazes de explicar a constituição do sujeito. instituição onde foram
Com essa compreensão formularam explicações que enfatizam a recolhidas, passavam o dia
acabrunhadas e prostradas
interação natureza-cultura no processo constitutivo do sujeito. numa sombra; eram ativas
e ruidosas durante a noite,
Desse modo, podemos dizer que foi perguntando acerca da procurando fugir e uivando
como lobos. Nunca choravam
constituição do sujeito que toda a Psicologia se desenvolveu. A ou riam. Kamala viveu oito
anos na instituição que a
polêmica em torno da separação natureza e cultura no processo acolheu, humanizando-se
lentamente. Ela necessitou
de constituição humana foi, portanto, superada pelas concepções de seis anos para aprender
a andar e pouco antes
dos interacionistas. Para compreender melhor essa concepção, de morrer só tinha um
vocabulário de 50 palavras.
analisemos o famoso caso das meninas-lobo Amala e Kamala. Atitudes afetivas foram
aparecendo aos poucos.
Ela chorou pela primeira
vez por ocasião da morte
de Amala e se apegou
lentamente às pessoas que
cuidaram dela e às outras
com as quais conviveu.
A sua inteligência permitiu-
lhe comunicar-se com outros
por gestos, inicialmente, e
depois por palavras de um
vocabulário rudimentar,
aprendendo a executar
ordens simples” (Texto
extraído de DAVIS; OLIVEIRA,
1990, p.16).

PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO | unidade 1 33


Este caso verídico nos remete à importância da interação entre
natureza e cultura para a constituição do humano. As meninas
Amala e Kamala, embora humanas pela sua natureza, ao
viverem com os lobos e privadas do convívio cultural com os seus
semelhantes, na verdade não conseguiram se humanizar; ou seja,
não se constituíram sujeitos humanos. Quando foram encontradas,
apresentavam comportamentos típicos dos lobos, animais com os
quais conviviam até então, e ao voltarem a integrar o convívio
social tiveram grandes dificuldades para se ajustar a ele, uma vez
que não desenvolveram comportamentos tipicamente humanos,
como a comunicação pela linguagem, o uso de utensílios para
comer e beber e o pensamento lógico.
Nem só a natureza,
nem somente o O relato sobre Amala e Kamala nos leva a refletir que a condição
meio cultural, mas a
interação natureza- humana não é um atributo dado pela natureza, mas é constituída
cultura!
a partir da interação natureza-cultura.

Assim, não nos constituímos como humanos simplesmente porque


temos uma natureza que nos dá um aparato biológico para tal.

É necessária a interação. Somos, portanto, extremamente


dependentes das possibilidades concretas dadas pela vida em
sociedade. É o convívio social que possibilitará, ou não, interações
entre o sujeito e os objetos de conhecimento, entre o sujeito e os
outros sujeitos da vida social.
Os interacionistas
destacam que o
organismo e o
Sabemos que, ao vir ao mundo, o bebê humano é extremamente
meio exercem ação frágil e dependente. Diferentemente de outras espécies animais,
recíproca. Um
influencia o outro cujos filhotes ao nascer já são capazes de buscar o próprio alimento
e essa interação
acarreta mudanças e sobreviver por conta própria, o bebê humano não sobrevive
sobre o indivíduo. É,
pois, na interação da sozinho, tendo, inclusive, uma infância bastante prolongada
criança com o mundo
físico e social que que paulatinamente vai prepará-lo para a independência. Nesse
as características e
peculiaridades desse percurso de desenvolvimento ele necessitará da interação com
mundo vão sendo
conhecidas. Para cada outras pessoas, não só para satisfazer as suas necessidades de
criança, a construção
desse conhecimento
sobrevivência, mas para aprender sobre o que existe no mundo,
exige elaboração, tornar-se consciente, e direcionar suas ações dentro dele.
ou seja, uma ação
sobre o mundo (DAVIS;
OLIVEIRA, 1990, p.36). A Psicologia, como uma ciência da consciência, tem o papel de
ORGANISMO MEIO investigar as mudanças que ocorrem no sujeito em sua interação
NATUREZA CULTURA

34 FILOSOFIA
com o mundo (mudanças cognitivas, afetivas, comportamentais,
sociais, morais etc.). Para dar conta de conhecer o sujeito e
seu processo constitutivo, desenvolveu campos de investigação
específicos, com objetos de estudo mais delimitados, como é o
caso da Psicologia da Educação.

Após a leitura da Seção 1, faça as seguintes atividades


no espaço reservado para as suas anotações:

Responda:
a) Podemos dizer que a Psicologia remonta aos antigos
filósofos? Por quê?
b) Quando, como e onde a Psicologia se constituiu como
um estudo de caráter científico?
c) Que tipo de perguntas os homens fizeram desde os
seus primórdios e que estão na base do conhecimento
de psicologia?
d) Wundt é considerado o fundador da Psicologia
Científica. Faça uma síntese sobre ele e suas ideias.

No quadro abaixo, complete com as ideias centrais dos


filósofos que influenciaram o nascimento da Psicologia:

DESCARTES LOCKE KANT

PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO | unidade 1 35


Faça um relato do caso de Amala e Kamala com suas
palavras, explicando a importância do convívio social
para os seres humanos.

36 FILOSOFIA
Campos de contribuição
da Psicologia na Educação

N
inguém nega a presença das variáveis psicológicas no fenômeno
educativo. Para constatá-las, basta observarmos que muitos
fenômenos educacionais são, ao mesmo tempo, fenômenos
interacionais/relacionais, pois supõem sempre interações/relações
entre sujeitos e entre sujeito e objeto do conhecimento. Aí está,
portanto, a dimensão psicológica da Educação.

DIMENSÃO PSICOLÓGICA DA EDUCAÇÃO

SUJEITO SUJEITO
SUJEITO OBJETO DO CONHECIMENTO

A área de conhecimento que busca relações entre práticas


educativas e Psicologia é chamada Psicologia da Educação. Nessa
área, os instrumentos analíticos provêm das teorias, métodos e
técnicas construídos pela ciência psicológica, enquanto o campo da
prática situa-se no polo da Educação, prática social multifacetada.

PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO | unidade 1 37


No cotidiano das escolas, e perante a tarefa de ensinar, os
professores se deparam, constantemente, com temas para os quais
a Psicologia se apresenta como um dos mais valiosos instrumentos
reflexivos.

Não há educador que não se depare com o dilema desenvolvimento


x aprendizagem, pensamento x linguagem. Como ser professor sem
conhecer como o ser humano forma seus conceitos sobre o mundo
que o cerca? Como ensinar a criança sem se deter em sua mais
importante atividade: o brincar? Como favorecer sua alfabetização
sem compreender como ela se relaciona com a escrita e sobre qual
o papel do erro no desenvolvimento cognitivo? O que isto tudo tem
a ver com o fracasso das crianças na escola e em como superar
as dificuldades de aprendizagem? Afinal, pode a afetividade nos
ajudar a ser um professor melhor?

Estas e muitas outras perguntas ilustram problematizações


inerentes à prática educativa. Buscar interpretá-las, com a ajuda
da Psicologia, sugere esforços de compreensão acerca do sujeito
para o qual a prática pedagógica se dirige - o aluno; acerca da
relação que esse sujeito aluno tem com os objetos de conhecimento
e com os outros sujeitos de sua cultura; como também acerca do
papel do sujeito que a conduz – o professor.

Dizemos que a Educação é uma prática social multifacetada porque


a prática educacional é um espaço contraditório, atravessado por
condicionantes históricos, sociais, culturais, políticos, individuais.
Sendo assim, situamos a Psicologia como um recurso para nossas
reflexões e tomadas de decisões. Isso requer que ultrapassemos
a visão simplista que acredita ser possível aplicar linearmente
teorias e técnicas emanadas da ciência psicológica na prática
educacional cotidiana como se isso, por si só, garantisse o alcance
de determinados resultados.

38 FILOSOFIA
Podemos, então, definir Psicologia da Educação, tal como Goulart
(1987, p.14):
Em se tratando da Psicologia da Educação, os
campos de maior interesse que nos auxiliam na
compreensão dos problemas relacionados às pessoas
sob a ação educativa são os conhecimentos sobre
“A Psicologia da Educação
os processos de desenvolvimento e aprendizagem. compreende, pois, a
utilização de conclusões
obtidas em diversas áreas
Segundo Coll Salvador (1999, p.13): da ciência psicológica sobre
assuntos que interessam
especificamente à educação
A psicologia da educação está situada em um espaço e à investigação de
problemas relacionados
intermediário, por um lado, entre as exigências às pessoas sob a ação
epistemológicas da psicologia científica, com suas educativa.”
coordenadas teóricas, conceituais e metodológicas,
e por outro, entre as exigências de uma ação
prática, inserida em algumas coordenadas sociais,
políticas, econômicas e culturais que lhe dão
sentido.

A seguir, trataremos desses dois temas: desenvolvimento e


aprendizagem.

Compreendendo o processo de desenvolvimento

Todos nós sabemos que as pessoas mudam com o decorrer do tempo.


Mudanças físicas são facilmente notadas quando comparamos
uma criança com um adulto. O próprio processo de crescimento
biológico se encarrega de nos mostrar que há diferenças marcantes
entre um e outro, que podem ir desde a estatura física até a ação
hormonal, que explicam porque uma criança é pequena, por
exemplo, e um adulto maior e com pelos em determinadas regiões
do corpo.

Do ponto de vista psicológico, há também mudanças significativas


durante o ciclo vital das pessoas. A fase da infância mostra-se
como um período que inicia com uma completa indiferenciação
da criança em relação ao mundo que a rodeia, culminando com
intensas descobertas sobre as coisas existentes nesse mundo; já
a adolescência, em geral, é vivida com grande emotividade e
coloca a necessidade de definições para o futuro que começam

PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO | unidade 1 39


a ser esboçadas pelo sujeito; o período adulto caracteriza-se
pela maturidade produtiva, constituição de uma família e maior
autonomia.

Estes exemplos de mudanças são evidências do processo de


desenvolvimento humano experimentado por cada indivíduo ao
longo do seu ciclo vital. Neste caso, trata-se de um desenvolvimento
ontogenético, que ocorre desde a concepção do ser humano até a
sua morte.

Como pudemos perceber, quando tratamos de desenvolvimento


Há, também, o nos referimos às mudanças evolutivas das pessoas. Mas, se
desenvolvimento
filogenético, que se tratamos do desenvolvimento sob o ponto de vista psíquico,
refere à evolução das
espécies desde sua devemos entender que as mudanças psicológicas (cognitivas,
origem até a espécie
atual, com todas as comportamentais, afetivas, sociais) não ocorrem espontaneamente,
suas características.
pois o fator biológico maturacional é apenas um dos aspectos do
desenvolvimento humano, mas não o seu todo.

Como seres culturais que somos dependemos da interação social


para nos tornarmos efetivamente humanos. Lembra-se de Amala
e Kamala, cujo caso estudamos na Seção 1? Vejamos, agora, uma
A Psicologia do conceituação de Psicologia do Desenvolvimento.
Desenvolvimento pretende
estudar como nascem e
como se desenvolvem as Sendo assim, uma questão fundamental interessa aos educadores e
funções psicológicas que
distinguem o homem de pode ser traduzida na seguinte pergunta: Como podemos favorecer,
outras espécies. Ela estuda
a evolução da capacidade por meio da nossa ação educativa, o processo de desenvolvimento
perceptual e motora,
das funções intelectuais, de funções psicológicas superiores?
da sociabilidade e da
afetividade do ser humano.
Ao formularmos esta questão, compreendemos que o processo de
Descreve como essas
capacidades se modificam desenvolvimento humano está fortemente inter-relacionado com
e busca explicar tais
modificações. Por os processos educativos.
intermédio da Psicologia
do Desenvolvimento é
possível constatar que as Como diz Coll Salvador (1999, p.81):
manifestações complexas
das atividades psíquicas no
adulto são frutos de uma Os conhecimentos e habilidades adquiridos graças
longa caminhada (DAVIS; à participação em situações de interação com os
OLIVEIRA, 1990, p.20) outros, e especialmente em situações educativas,
levariam a níveis mais altos de evolução e de
desenvolvimento; o desenvolvimento das pessoas
seria, ao menos em boa parte, o produto da
influência de fatores externos, entre os quais as
suas experiências educativas.

40 FILOSOFIA
Esta visão do desenvolvimento difere substancialmente de uma
visão centrada exclusivamente na sequência biológica, que entende
que as mudanças que ocorrem nos sujeitos seriam universais e
pré-programáveis do ponto de vista orgânico. Pelo contrário,
compreendemos o desenvolvimento como um processo mediado
social e culturalmente, o qual possui componentes biológicos,
mas inclui uma dinâmica e processos que se realizam de fora para
dentro, vinculando-se à interação e à atividade conjunta com
outras pessoas (COLL SALVADOR, 1999).

É, portanto, no contexto da interação social que a ação educativa


ganha importância como fator capaz de promover ou não o
desenvolvimento humano.

Compreendendo o processo de aprendizagem

Quando consideramos o papel da educação, especialmente da


educação escolar, temos como objetivo a construção de práticas
educativas que garantam às crianças e aos jovens um processo de
aprendizagem significativo. Afinal, em nossa sociedade, a escola é
a instituição que foi criada com a finalidade de transmitir às novas
gerações o conhecimento acumulado culturalmente, daí porque
o processo de ensinar só tem sentido se pensado conjuntamente
com o processo de aprender.

O processo de aprendizagem é um processo ativo de apropriação,


pelo sujeito, do mundo em que vive. Segundo Davis e Oliveira
(1990, p. 20-21):
Nas inúmeras interações em que se envolve desde
o nascimento, a criança vai gradativamente
ampliando suas formas de lidar com o mundo e vai
construindo significados para as suas ações e para
as experiências que vive.

É através da interação, portanto, que a criança se apropria dos


objetos de conhecimento e dos conceitos que seu grupo cultural
partilha.

No processo interativo, os adultos ou as crianças mais experientes


orientam a criança por meio de pistas, apoios, modelos, auxílios,
sugestões, de modo que ela vai se apropriando dos significados

PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO | unidade 1 41


das coisas que existem no mundo e dos modos de ação sobre essas
mesmas coisas.

Esse processo é mediado pela linguagem, a qual, aos poucos, vai se


interiorizando, integrando-se ao pensamento da criança e formando
a base sobre a qual se dará o seu funcionamento intelectual. Sendo
assim, todas as operações intelectuais necessárias ao processo de
A Psicologia da
Aprendizagem estuda o
conhecer são ativamente construídas na interação com outras pessoas.
complexo processo pelo qual
as formas de pensar e os
conhecimentos existentes
A partir das contribuições da Psicologia da Aprendizagem é
numa sociedade são
apropriados pela criança.
possível compreender que o papel do professor ao ensinar consiste,
Para que se possa entender sobretudo, em propiciar condições para que a relação pedagógica
esse processo é necessário
reconhecer a natureza social na sala de aula e na escola conduza o sujeito à apropriação do
da aprendizagem (DAVIS;
OLIVEIRA, 1990, p.21). conhecimento.

Após a leitura da Seção 2, faça as seguintes atividades:

Escreva um texto de 10 a 15 linhas tratando da


importância da Psicologia na Educação.

Complete o quadro abaixo, com os conceitos de:

PSICOLOGIA DO PSICOLOGIA DA
PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO APRENDIZAGEM DESENVOLVIMENTO
DESENVOLVIMENTO APRENDIZAGEM

42 FILOSOFIA
A diversidade de enfoques da Psicologia
na Educação e o uso do critério
epistemológico para sua análise

A
Psicologia não se constitui um campo de conhecimento
homogêneo e unificado. Pelo contrário, é uma área
caracterizada pela multiplicidade de enfoques teóricos
e por diferentes ângulos na maneira de olhar o humano, sendo
necessário refletir um pouco mais detidamente sobre essa questão,
a fim de evitarmos modismos e/ou estereótipos que frequentemente
circulam em meio a propostas educacionais e entre os professores.

O que ocorre é que, muitas vezes, em nosso país, esta ou aquela


contribuição teórica acaba por ser absolutizada no âmbito de
certas propostas pedagógicas, passando a figurar como se fosse
a única ou a última palavra dita sobre determinado aspecto da
psicologia humana. Desse modo, não pretendemos dizer aqui que
o construtivismo piagetiano é melhor para os professores que a
abordagem histórico-cultural de Vygotsky, ou que a psicologia
humanista de Rogers traz mais subsídios que o comportamentalismo
de Skinner, ao analisarmos suas contribuições sobre o que acontece
na dinâmica de uma sala de aula. A questão não é essa.

PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO | unidade 1 43


Conforme Larocca (1999, p.22):

A Psicologia da Educação ao se voltar para a


formação de professores não pode correr o risco
de flutuar segundo modismos que, na maior parte
das vezes, acabam por distorcer os pressupostos
teóricos originais e apresentarem-se como soluções
redentoras para os problemas na Educação.

Para não correr esse risco, posicionamo-nos pelo acesso aos


vários enfoques teóricos produzidos pela Psicologia da Educação,
salientando a importância de compreendermos que cada um deles
se situa dentro de determinados paradigmas que os orientaram em
Conforme Figueiredo meio a forças sociais e culturais presentes no cenário histórico que
(1991), a pluralidade
teórica instalou-se
lhes deu origem.
no seio da psicologia
desde o momento de
seu nascimento.

A diversidade teórica da Psicologia na Educação

A diversidade teórica caracteriza a psicologia e faz parte do seu


processo de construção histórica. Tanto é que Gabby Jr (1986)
afirma que não temos psicologia, mas psicologias, pois cada teoria
constituiu um objeto de estudo de maneira diferenciada.

Ao refletirmos sobre as razões da diversidade teórica encontrada


na Psicologia, devemos considerar que as teorias se amparam em
determinadas visões de mundo, de homem e da relação homem-
sociedade. Essas visões são seus pressupostos filosóficos e tanto
podem diferir de uma teoria para outra, como podem convergir,
Enquanto Skinner
estava preocupado em ainda que seus objetos sejam diferenciados.
estudar as condições
que mantêm certos
comportamentos
observáveis dos
indivíduos, Piaget
tinha como objeto
Assim, uma teoria poderá ser chamada de humanista,
estudar como se passa se em sua base conceitual filosófica há uma valorização
de um conhecimento
menos elaborado para
do homem, como entidade incomensurável. Nesse
um conhecimento mais sentido, a teoria de Rogers sobre a aprendizagem
elaborado. Portanto,
não podemos significativa e a teoria de Wallon sobre o papel
contrapor uma teoria do outro no processo de desenvolvimento, são,
à outra, pois cada
teórico recortou um ambas, teorias humanistas, embora seus objetos
dado objeto para seu
estudo.

44 FILOSOFIA
de estudo sejam diferentes. Da mesma maneira,
Wallon e Vygotsky comungam da base filosófica do
Materialismo Histórico, enquanto Skinner apresenta
uma teoria empirista e positivista, ao supor que o
ambiente modela o homem por meio da experiência.
Já Piaget produziu uma teoria construtivista, pois
defende que nem o ambiente nem o organismo
sozinhos promovem o desenvolvimento humano, mas
sim um processo construtivo em que se faz constante
a inter-relação entre organismo e meio.

Alguns estudiosos designam as teorias de acordo com as dimensões


do humano com as quais as teorias operam. Por exemplo, teorias
cognitivistas são aquelas teorias cujo objeto situa-se no âmbito da
cognição (intelecto); teorias comportamentalistas possuem obje-
tos de estudo situados na dimensão do comportamento humano.

Então, podemos utilizar variadas maneiras para designar as teorias


psicológicas. Cada uma dessas maneiras representa um critério
que foi tomado por alguém para classificá-las. Neste fascículo, to-
mamos o critério epistemológico e das relações homem-sociedade
para proceder a uma classificação das teorias que mais adiante
você vai estudar. Passemos, agora, a tentar compreender este tipo
de critério.

O critério epistemológico e das relações homem-sociedade na


Psicologia da Educação

A relação fundamental estudada pela Epistemologia é a relação


sujeito cognoscente – objeto de conhecimento.

A Psicologia, enquanto uma ciência humana, ao longo de sua


história, construiu teorias que ora enfatizam o sujeito cognoscente
(aquele que conhece), ora o objeto do conhecimento, sendo essa

PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO | unidade 1 45


separação sujeito objeto mais evidenciada quando tratamos de
fatores internos do sujeito e fatores externos a ele. Sendo assim,
temos teorias que enfatizam os fatores situados no sujeito, razão
pela qual são denominadas de teorias subjetivistas, enquanto
outras privilegiam os fatores externos, os quais correspondem ao
polo do objeto e são, por isso, denominadas objetivistas. Há, ainda,
uma terceira posição, superadora das demais, que entende haver
influências recíprocas entre sujeito e objeto, fatores internos e
fatores externos. Estas são chamadas de teorias interacionistas.
Observe, com bastante atenção, os esquemas que se seguem:

RELAÇÃO EPISTEMOLÓGICA

S O
Sujeito congnoscente Objeto do conhecimento
Fatores internos Fatores externos

TEORIA SUBJETIVISTA TEORIA OBJETIVISTA


S O S O

TEORIA INTERACIONISTA
S O

O critério epistemológico para a análise das teorias da Psicologia


da Educação vincula-se a certos modos de compreender os
determinantes das relações entre o homem e a sociedade
(FERREIRA, 1986).

As teorias que enfatizam os fatores internos do sujeito (concepções


subjetivistas) conferem ao próprio sujeito um papel preponderante,
pois a realidade (objeto) está submetida a ele. Assim, essas
teorias ou concepções enfatizam o universo individual, seja por
qualificarem o homem como um ser essencialmente bom, livre de
determinações ou limitações sociais e culturais, ou por afirmarem
a existência de estruturas orgânicas prévias determinantes do ato
de conhecimento, que seriam universais para todos os sujeitos.

46 FILOSOFIA
As teorias que enfatizam fatores externos ao sujeito (concepções
objetivistas) consideram o primado do objeto (realidade) sobre o
sujeito. Nessas teorias ou concepções o homem é visto como um ser
determinado pelas condições ambientais, modelado totalmente
pelo meio, um ser passivo cujas condutas são condicionadas pelas
Na Psicologia da Educação
suas experiências. temos duas vertentes
subjetivistas.
Notamos, então, que no subjetivismo há sempre a prioridade Uma tem caráter mais
filosófico, idealista, e se
dos fatores internos, enquanto no objetivismo, centralidade funda no Humanismo e na
Fenomenologia, entendendo
nos externos. o homem como fonte de
todos os atos, cuja liberdade
está na sua consciência.
As teorias interacionistas partem do pressuposto de que os
A outra é inatista e tem
fatores internos ao sujeito e a realidade do objeto, tanto como o duas origens:
homem e a sociedade, se influenciam mutuamente. Essa interação a)na Teologia, que entende
traz mudanças para ambos. O interacionismo diverge então do que o homem, ao nascer, já
traz uma forma definitiva
subjetivismo porque este não considera o papel do ambiente determinada pelo Criador;

sobre o sujeito. Da mesma maneira diverge do objetivismo pela b)na Embriologia, cujas
descobertas revelaram
desconsideração deste quanto ao papel do sujeito e de suas sequências invariáveis no
desenvolvimento humano.
estruturas biológicas.

Para os interacionistas, aprendizagem e desenvolvimento são


processos construídos durante toda a vida. Isso supõe que nenhum
indivíduo está pronto ao nascer, ou seja, totalmente submisso às
pressões externas exercidas pelo meio. É por isso que dizemos que
a postura interacionista se apresenta como superação das demais,
No objetivismo, há uma
especialmente se considerarmos que estas concepções trazem abstração da sociedade. O
homem é produto de um
implicações para o modo como vemos e assumimos a prática meio ambiente natural,
pedagógica. visto como totalmente
independente das condições
históricas e culturais que
o produziram (FERREIRA,
1986).

SÍNTESE
Nesta unidade, você estudou a respeito da construção da Psicologia
e suas relações com a Educação. Constatou que mesmo antes de
a Psicologia se constituir como ciência, os filósofos já faziam
questionamentos acerca da natureza e da conduta humana.
Mas, somente no Século XIX, Wundt possibilitou à Psicologia ser
reconhecida como ciência. Para isso, foi necessária a formulação
de teorias e de métodos de investigação científicos.

PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO | unidade 1 47


A Psicologia evoluiu como a ciência da consciência humana, sempre
procurando entender o que faz o homem ser o que ele é. Para
responder a essa questão, formulou diferentes explicações que
ora se situavam na natureza humana, ora na cultura, evoluindo
progressivamente para uma perspectiva de interação entre
natureza e cultura, sujeito e objeto, homem e sociedade.

Em seu processo construtivo, a Psicologia formulou uma pluralidade


de teorias, cada qual se debruçando sobre dado objeto de estudo
para entender o humano.

As teorias da Psicologia são imprescindíveis para compreender a


Educação, uma vez que a prática educativa vivenciada no complexo
cotidiano das escolas não pode abrir mão das contribuições da
Psicologia para compreender as relações sujeito-sujeito e sujeito-
objeto do conhecimento. Nesse sentido, ganham importância os
conhecimentos sobre Aprendizagem e Desenvolvimento.

Aprendemos juntos, portanto, que a Psicologia da Educação é uma


área de conhecimento que utiliza conclusões obtidas pela ciência
psicológica em assuntos que interessam à intervenção e à pesquisa
de questões relacionadas às pessoas em situações educativas.

Após a leitura da Seção 3, faça as seguintes atividades:

Analise se a afirmação abaixo está certa ou errada.


Em seguida, traga argumentos que justifiquem sua
resposta:

“A Psicologia da Educação é um campo homogêneo de


conhecimentos, caracterizado pela unidade teórica”.

48 FILOSOFIA
Tomando por base o critério epistemológico e das
relações homem-sociedade, responda qual a ideia
principal que caracteriza:
a) as concepções subjetivistas;
b) as concepções objetivistas;
c) as concepções interacionistas.

PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO | unidade 1 49


unidade

2
O Desenvolvimento e a Objetivos dESTA unidade:
Caracterizar
Aprendizagem: teorias que enfatizam o as implicações
pedagógicas da teoria
sujeito e teorias que enfatizam o objeto comportamentalista no
trabalho docente;

Explicitar os principais
conceitos teóricos da
Psicologia Humanista na
relação professor/aluno;

ROTEIRO DE ESTUDOS Compreender as


concepções de aluno
e de aprendizagem
decorrentes da
• O Comportamentalismo na Psicologia, sua ênfase no mundo abordagem inatista.
exterior ao sujeito e suas implicações educacionais.

• A Psicologia Humanista de Carl Rogers: uma concepção


idealista do sujeito e suas implicações educacionais.

• A ênfase nos fatores biológicos: o inatismo na Psicologia e


suas implicações educacionais.
pAra início de conversa

Nesta unidade você estudará o desenvolvimento e a aprendizagem


em termos de teorias que enfatizam o sujeito e teorias que enfatizam
o objeto. Em cada uma delas, você encontrará determinados
modos de compreensão do homem (sujeito) e do mundo que o
rodeia (objeto), razão pela qual a análise epistemológica de cada
uma delas nos possibilita compreender melhor as relações dessas
teorias com a educação.

Pretendendo contribuir para que você, professor ou estudante,


possa situar a multiplicidade de enfoques teóricos a partir de um
eixo de análise, organizamos esta unidade de estudo que tratará
de abordagens da Psicologia da Educação que ora privilegiam o
polo do objeto (Comportamentalismo) e ora privilegiam o polo do
sujeito (Psicologia Humanista e Inatismo em Psicologia).

Na Seção 1 trazemos - O Comportamentalismo na Psicologia,


sua ênfase no mundo exterior ao sujeito e suas implicações
educacionais.

Na Seção 2 apresentamos e fundamentamos a análise da vertente


idealista do Subjetivismo Psicológico, através da Psicologia
Humanista de Carl Rogers.

Na Seção 3 discutimos a ênfase nos fatores biológicos, desenvolvendo


a abordagem inatista da Psicologia e suas implicações educacionais.

Sugerimos que você realize uma leitura criteriosa dessas


abordagens, analisando cada uma delas de maneira crítica e
fundamentada.

Esperamos que você faça uma boa leitura das seções que se
seguem.

52 FILOSOFIA
O Comportamentalismo na
Psicologia, sua ênfase no mundo
exterior ao sujeito e suas
IMPLICAÇÕES EDUCACIONAIS

N
esta seção trazemos a você as principais ideias do
Comportamentalismo. As teorias comportamentais
constituem o que chamamos de Objetivismo em Psicologia da
Educação. Essas teorias partem do pressuposto geral condutivista
de que o ambiente determina o comportamento humano. Esse
pressuposto é bem claro nas palavras de Watson, pioneiro do
comportamentalismo norte-americano:

Deem-me uma dúzia de crianças saudáveis, bem


formadas, e o mundo que eu especificar para criá-
las, e garanto poder tomar qualquer uma ao acaso
e treiná-la para ser o especialista que se escolher –
médico, advogado, artista, gerente comercial e até
mesmo mendigo ou ladrão, independentemente de
seus talentos, inclinações, tendências, habilidades,
vocações e da raça de seus ancestrais (HEIDBREDER,
1981, p. 218).

PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO | unidade 2 53


Além da crença no poder do meio ambiente em modificar os indivíduos,
o sistema behaviorista em Psicologia, fundado sob bases empiristas
e positivistas, apresenta como principais características teóricas:
uma inclinação pragmática; o interesse pelos comportamentos
observáveis e mensuráveis; a rejeição à introspecção; e a adesão a
BEHAVIOR =
COMPORTAMENTO uma psicologia associacionista e hedonista.

As experiências determinam o comportamento?


Os ambientalistas enfatizam o papel e a importância dos fatores
externos no comportamento. Então, é importante lembrar que,
para eles, não existem aptidões e capacidades intelectuais inatas
que possam gerar determinadas respostas frente a determinados
estímulos. Sem negar a existência de processos internos no
desenvolvimento do indivíduo, consideram que esses processos não
podem ser observados e, por isso, não podem ser comprovados.
Desse modo, ignora-se no behaviorismo tudo o que não possa ser
comparado, testado, confrontado e experimentado sob a luz da
ciência natural.

O que determina o comportamento do indivíduo é o repertório


de experiências e aprendizagens que ele tem durante a sua vida.
O meio tem o poder de modelar a conduta humana e animal,
através de processos de condicionamento, em que, para todo
estímulo apresentado, o organismo produz uma resposta (S-R), e
esta pode ser mantida (ou excluída) por intermédio do controle de
contingências que estão no meio (FONTANA; CRUZ, 1998).

Você entendeu o que determina o comportamento das pessoas


segundo a concepção objetivista?

Skinner é o mais importante behaviorista. Doutor em Psicologia,


em Harvard, criou a Teoria do Condicionamento Operante, a qual
considera que “a aprendizagem se dá [...] apoiando-se [...] em
comportamentos emitidos pelo próprio organismo que são seguidos
de alguma consequência” (FONTANA; CRUZ, 1998, p. 27).

54 FILOSOFIA
Na verdade, Skinner baseou-se inicialmente nos experimentos
do russo Pavlov com animais, que explicou o processo de
condicionamento respondente, em que a aprendizagem se dá pela
associação de um reflexo do organismo a um estímulo neutro, cuja
repetição evoca a mesma resposta do organismo.

A teoria do Condicionamento Reflexo ou Condicionamento


Clássico de Pavlov

Pavlov foi um grande fisiologista que se dedicou especialmente


à pesquisa científica. Graças ao seu trabalho sobre glândulas
digestivas, foi agraciado, em 1904, com o Prêmio Nobel e veio a
contribuir sobremaneira para a história da Psicologia estudando os
reflexos condicionados em animais.

Pavlov notou que havia um processo de salivação natural diante do


alimento em um cão. Essa salivação natural é uma resposta reflexa
(incondicionada), ou seja, uma reação inata, não-aprendida pelo
cão diante da presença de alimentos. Após fazer uma intervenção
cirúrgica no cão para recolher seu fluxo de saliva, Pavlov passou a
apresentar o alimento acompanhado do som de uma campainha,
ou seja, cada vez que a comida era apresentada, a campainha
tocava. Após várias repetições dessa apresentação conjunta
do alimento e campainha, Pavlov observou que a saliva do cão
escorria simplesmente quando este ouvia o som da campainha,
verificando-se, portanto, que o som substituiu o efeito do estímulo
natural (comida), tornando-se capaz de produzir a salivação, que
passou a ser, então, uma resposta condicionada.

PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO | unidade 2 55


Podemos definir condicionamento reflexo como aquele que
abrange reações naturais do organismo frente a estímulos
específicos; ou seja, respostas são provocadas frente a
determinados estímulos.

Os fatores que influem para o condicionamento reflexo são a


simultaneidade (do estímulo natural e estímulo artificial) e a
repetição dessa apresentação. As respostas que passarão a ser
dadas diante do estímulo artificial são as respostas condicionadas.

Na perspectiva do Condicionamento Reflexo, a aprendizagem é a


“aquisição de uma reação pela substituição de estímulos naturais por
estímulos neutros, que se tornam condicionados pela sua ocorrência
simultânea ou contígua aos primeiros (CAMPOS, 1986, p.187).

Embora entendida como aprendizagem pelos behavioristas, e


estendida da psicologia animal para a psicologia humana, podemos
notar que a aquisição da reação reflexa condicionada nada mais é
que uma forma cega de mudança de comportamento, que difere
substancialmente de uma aprendizagem voluntária que se dá
mediante a atividade mental do aprendiz.

Contudo, percebemos que, em nossa vida cotidiana, adquirimos


muitos condicionamentos. Por exemplo: uma criança toma uma
injeção dolorosa dada por uma enfermeira vestida de branco e
passa a chorar sempre que vê alguém vestido de branco. A criança
que ouve a mãe dizer “não” quando se aproxima do fogão tende
a evitar aproximar-se do mesmo. De igual maneira, muitas das
nossas atitudes, gostos, repugnâncias, hábitos e sentimentos
que vivenciamos como adultos são adquiridos pela via do
condicionamento reflexo.

Teoria do Condicionamento Operante

A partir de Pavlov e Watson, outra teoria com base na associação


estímulo-resposta viria a se desenvolver e ocupar lugar
proeminente a Psicologia. Esta teoria foi a do Condicionamento

56 FILOSOFIA
Operante, desenvolvida por Skinner (1904-1990), um professor da
Universidade de Harvard.

Skinner é o mais importante dos behavioristas e, tal como seus


antecessores, também concebeu o homem como um ser neutro
e passivo perante os estímulos ambientais. Para Skinner, o
comportamento se reduz apenas ao que é observável e possível
de ser mensurado. Por isso, não lhe interessava estudar eventos
ou fenômenos internos que não podiam ser observados, razão pela
qual não levou em consideração o que ocorre dentro da mente dos
indivíduos durante o processo de aprendizagem.

Os experimentos de Skinner foram realizados, em sua maioria,


com animais, especialmente ratos e pombos, dos quais fez
extrapolações para o comportamento humano.

O experimento básico que permitiu explicar o condicionamento


operante foi feito colocando-se um rato com fome dentro de uma
caixa à prova de luz e som exteriores (havia na caixa um orifício
para receber água, uma bandeja para alimento, uma barra horizontal
ligada a um depósito de alimentos que deixava cair certa quantidade
cada vez que a barra era pressionada). Após explorar aleatoriamente
o interior da caixa, o rato batia na barra que deixava cair o alimento.
O que Skinner observou foi que cada vez que o rato era colocado
novamente dentro da caixa não mais fazia movimentos exploratórios
aleatórios, indo de imediato acionar o dispositivo que lhe traria o
alimento. Ou seja, o comportamento de pressionar a barra foi
adquirido em função da recompensa que adveio à resposta.

A partir desse experimento básico, Skinner concluiu que: “O


comportamento é controlado por suas consequências” (MOREIRA,
1983, p.12).

Tais consequências nada mais são do que estímulos que se seguem


a uma resposta. Esses estímulos ou eventos tendem a aumentar a
probabilidade de a resposta dada se repetir outras vezes, tal como
acontece com uma criança que frequentemente faz seus deveres
de casa, sem que ninguém a pressione para isso, porque recebeu
um elogio significativo da sua professora, numa dada ocasião em
que fez os deveres solicitados.

PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO | unidade 2 57


Ou seja, o elogio foi um estímulo posterior à resposta de fazer os
deveres e aumentou a probabilidade de essa criança fazê-los. Esse
estímulo posterior à resposta foi chamado por Skinner de reforço.

Sendo assim, o condicionamento operante é o processo através do


Podemos, então,
conceituar reforço qual uma resposta se torna mais provável ou mais frequente.
como: evento que
segue à resposta
e aumenta a Skinner entendia que há duas espécies de reforço: os positivos e
probabilidade de sua
ocorrência. os negativos.

Os Reforços Positivos são aqueles que aumentam a frequência


de uma resposta pelo acréscimo de algo na situação; ou seja, um
reforço positivo consiste em adicionar alguma coisa ao ambiente
do indivíduo, por exemplo: água, um sorriso do professor, um
alimento.

Outras formas Os Reforços Negativos aumentam a frequência da resposta pela


de conceituar o
condicionamento retirada ou cessação de alguma coisa da situação. Como exemplos
operante são:
- aumento de podemos citar: a retirada da carranca do professor, a cessação
frequência de uma
resposta quando de um som alto ou de um choque elétrico. Nesses casos, embora
esta for seguida de
estímulo reforçador; algo seja retirado da situação, esta retirada resulta satisfatória,
-fortalecimento
de respostas pela advindo, então, o aumento da probabilidade da resposta.
apresentação ou
supressão de estímulos
consequentes Os reforços também se diferenciam quanto às suas origens.
(reforço).

São chamados de Reforços Primários ou Incondicionados aqueles


que se ligam à sobrevivência do indivíduo como, por exemplo, a
água, o alimento, o repouso.

Já os Reforços Secundários são aqueles cuja propriedade


reforçadora foi adquirida na vida social. Exemplos: prestígio,
dinheiro, fama, poder, atenção, aprovação etc.

Quando não mais existe a ocorrência de um reforço, a resposta


tende a se tornar cada vez menos frequente. Esse processo
denomina-se extinção. Uma vez que determinada resposta já
tenha sido reforçada, a extinção corresponde ao abandono dessa
mesma resposta (Pesquisas indicam que, no início, a extinção
provoca agressividade).

58 FILOSOFIA
Assim, na perspectiva ambientalista a aprendizagem é a modificação
do comportamento observável em função da experiência,
considerando-se importante analisar rigorosamente a relação
entre os estímulos presentes e as contingências do meio sobre a
conduta humana, de modo a permitir a previsão e o controle do
comportamento (GUERRA, 1998).
Na perspectiva do
condicionamento operante,
Implicações educacionais a aprendizagem é definida
como uma mudança no
comportamento observável,
A abordagem skinneriana do ensino compreende uma tecnologia ou seja, uma modificação
nas respostas dadas pelo
educacional condizente e com objetivos comportamentais indivíduo.

claramente definidos.

Do ponto de vista do processo educacional, tal concepção leva a


uma grande valorização dos aspectos técnicos no planejamento,
organização e avaliação do ensino e, também, do papel diretivo
do professor. Nesse sentido, o processo de ensino implica o
arranjo de contingências de reforço, pelo professor, eficazes para Contingência - relação
entre o comportamento e os
controlar as respostas a serem dadas pelos estudantes, levando- acontecimentos ambientais
que influenciam esse
os a exercitar ou treinar as habilidades desejadas e a excluir as comportamento.

indesejadas, através de uma programação minuciosa de atividades


educacionais.

Uma das formas de aplicação do condicionamento operante nas


práticas escolares que teve grande repercussão em nossa educação
é a Instrução Programada.

Veja, a seguir, o que diz Campos (1986, p.197) sobre a Instrução


Programada:

A instrução programada é um sistema de ensino e


aprendizagem, no qual a matéria preestabelecida
é subdividida em etapas reduzidas, discretas e
cuidadosamente organizadas em uma sequência
lógica, que pode ser prontamente aprendida
pelos estudantes. Cada etapa organiza-se,
deliberadamente, baseada na que a precedeu.
O aprendiz pode evoluir através da sequência
de etapas, em seu ritmo peculiar, e é reforçado,
imediatamente, depois de cada etapa; ou se lhe
oferece a resposta correta ou se lhe permite
avançar para a etapa seguinte, depois de registrar
a resposta correta.

PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO | unidade 2 59


Moreira (1983, p.17) esclarece acerca dos princípios básicos que
regem a tecnologia da Instrução Programada. Estes princípios são
os seguintes:

1. Pequenas etapas: a informação é apresentada através de um


grande número de pequenas e fáceis etapas. O uso de peque-
nas etapas facilita a emissão de respostas a serem reforçadas
e diminui a probabilidade de cometer erros (segundo Skinner,
o erro cometido é aprendido e, portanto, os erros devem ser
minimizados e os acertos maximizados).
2. Resposta ativa: o aluno aprende melhor se participa ativamente
da aprendizagem.
3. Verificação imediata: o aluno apreende melhor quando verifica
sua resposta imediatamente.
4. Ritmo próprio: cada aluno pode trabalhar tão rápida ou
lentamente quanto desejar.
5. Testagem do programa: testagem através da atuação do aluno.
Se a apresentação de algum quadro (frame) não estiver clara,
isto se refletirá nas respostas do estudante.

Os princípios do condicionamento operante tiveram e ainda têm


grande influência nas práticas educacionais, especialmente nas
escolas.

O que observamos é que os professores utilizam os princípios do


condicionamento operante mesmo sem ter consciência deles, o
que nos leva a concluir que o condicionamento é uma realidade no
interior de nossas salas de aula.

Críticas ao Behaviorismo na Educação

O Behaviorismo é, provavelmente, a teoria da Psicologia que mais


críticas recebe na área educacional. A análise crítica de autores
como Ferreira (1986), Patto (1987), Guerra (1998) sobre a relação
entre Comportamentalismo e Educação enfatiza o individualismo e
a concepção mecânica de aprendizagem, assim como a passividade
a que está sujeito o aluno num processo que não leva em conta sua
atividade cognitiva.

60 FILOSOFIA
Você conhece as críticas ao Comportamentalismo na Educação?

Guerra (1998, p.37) traduz isso da seguinte forma:

Psicólogos e educadores, produzindo ou aplicando conhecimentos


com essa representação, procuravam tornar-se modificadores de
comportamento, buscando a adaptação dos indivíduos numa so-
ciedade a-histórica. Essa adaptação deveria se dar nos termos dos
padrões de conduta considerados adequados. [...] A escola cum-
priu, dessa maneira, a função de transmissão da cultura, através
das modificações de comportamento que são consideradas desejá-
veis para a sociedade. [...] Como a sociedade requeria indivíduos
habilidosos, tecnicamente capazes, obedientes e passivos às suas
determinações, a escola se esmerou em traduzir na sua prática
cotidiana tais expectativas.

Ferreira (1986) diz que a concepção objetivista representa,


na prática, uma das formas convenientes para que o sistema
capitalista treine e discipline a mão-de-obra que lhe é necessária
para o acúmulo do capital.

Embora o Comportamentalismo tenha contribuído para a prática


pedagógica como um alerta sobre a importância de os professores
elaborarem seus planos de ação e evidenciarem seus objetivos
educacionais, propondo-os com clareza e esclarecendo a sua
operacionalização, não podemos desconhecer os riscos que a
adesão a essa concepção de desenvolvimento e aprendizagem
traz, se for transposta para a educação de maneira acrítica.

Leia com atenção este pequeno texto de Francisco Filho (2002,


p.20) sobre o Behaviorismo.

“O Behaviorismo surge nos Estados Unidos com J. B. Watson (1878-


1959), considerado fundador dessa Escola. Propôs abandonar o
método introspectivo e dar ênfase ao conteúdo da consciência;

PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO | unidade 2 61


[...]. A preocupação agora passou a ser o comportamento e não os
fenômenos mentais. Os cinco sentidos voltaram a ter importância
e os dados observáveis também ficaram em posição privilegiada.
O comportamento podia ser condicionado, criando hábito,
através de reforços, para fixar o que era esperado. Até o uso da
linguagem foi considerado susceptível de ser condicionado e todos
os dados podiam ser mensurados. A ideia principal era modelar
o comportamento, começando por animais em laboratórios até
chegar ao homem.

Do outro lado do mundo, o russo Ivan Pavlov (1849-1936) realizava


experiências semelhantes e suas teorias acabaram sendo a palavra
de ordem durante longo período do stalinismo. Pavlov havia sido
agraciado com o prêmio Nobel em 1904 pelos seus trabalhos
sobre a fisiologia da digestão. Depois passou a pesquisar reflexos
condicionados. A tarefa de condicionar comportamentos pelos
estímulos deu origem ao chamado Condicionamento Clássico.

Enquanto isso, nos EUA, Skinner realizava semelhante trabalho


de condicionamento, que ficou conhecido por Condicionamento
Operante.

No Brasil, o Behaviorismo chegou para ficar durante os governos


militares (1964-1985); através de convênios, os técnicos da USAID
aqui estiveram para pregar e implantar a nova teoria. Nestas
terras, a nova teoria foi chamada de tecnicista e as descobertas
de Skinner e de Pavlov tornaram-se a palavra oficial do Ministério
da Educação, influenciando, inclusive, as principais leis sobre a
educação brasileira. Lei 5.540/68 para o ensino superior e Lei
5.692/71 para os antigos 1º e 2º. graus.”

Leia também: CAMARA ZACHARIAS, Vera Lúcia. Skinner e o


behaviorismo. Centro de Referência Educacional [online] Disponível
em: http://www.centrorefeducacional.com.br

Acessado em 23/09/2008.

62 FILOSOFIA
A Psicologia Humanista de Carl
Rogers: uma concepção idealista do sujeito
e suas implicações educacionais

A
abordagem humanista na Psicologia tem vários
representantes: Neill, Maslow, Erich Fromm, entre outros.
Contudo, estudaremos aqui a abordagem não-diretiva de
Carl Rogers, em face da grande repercussão que sua psicologia
teve na educação brasileira a partir dos anos de 1960, cujo ideário
pedagógico buscava combater a pedagogia tradicional, tendo
contribuído para deslocar o eixo de uma educação centrada no
professor para uma educação centrada no aluno.

Rogers transferiu sua experiência de psicoterapeuta para a


educação, propondo práticas educativas caracterizadas como
não diretivas. Para ele, toda pessoa possui uma tendência natural
para se autodesenvolver. Essa tendência leva o nome de tendência
atualizante e é o sistema motor da personalidade humana. O eu
(self) é integrador das experiências que se exprimirão sob a forma
de certos comportamentos. “A crença, a fé e a confiança (termos
de Rogers) na capacidade da pessoa em seu próprio crescimento
constituem o pressuposto básico da teoria rogeriana” (LA PUENTE,

PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO | unidade 2 63


1980, p.111, ênfases do autor). Em função desse pressuposto, a
sua teoria da aprendizagem significativa implica que o interesse e
os motivos para aprender sejam os do próprio aluno.

Rogers supôs que


não podemos ensinar A aprendizagem significativa na visão rogeriana
algo diretamente a
alguém, podemos
apenas facilitar-lhe A teoria da aprendizagem significativa, tal como proposta por
a aprendizagem
mediante condições Rogers, implica que o processo educacional seja todo centrado
e recursos externos.
A aprendizagem,
no aluno, do qual deverão partir o interesse e os motivos para
então, é um processo aprender.
autoapropriado,
que se dá mediante
experiências Como o centro do processo educativo é o aluno, o professor tem o
significativas,
pessoais, que papel de ser um facilitador da aprendizagem.
não podem ser
comunicadas aos A aprendizagem será significativa se atender às seguintes condições:
outros. Para Rogers, o
homem é o arquiteto
de si (LA PUENTE, - o contato com a realidade, através do qual o aluno vincula
1980)
sua aprendizagem com suas experiências e motivações;

- a autenticidade ou congruência do facilitador, que permite


ao professor-facilitador apresentar-se aos alunos como pessoa
unificada, sem “fachadas”.

- a aceitação positiva incondicional, através da qual o professor-


facilitador aceita o aluno como ele é e não como gostaria que
Congruência - que
está harmoniosamante fosse;
unido ou relacionado

- a compreensão empática, sentimento pelo qual o professor


pode captar o mundo íntimo do aluno como se fosse seu pró-
prio mundo (FARIA, 1987).

Para Rogers, a compreensão empática requer a atitude de se


colocar na posição do outro, de encantar o mundo através dos
olhos do outro, de modo que:

Quando o professor tem a capacidade de


compreender internamente as reações do
estudante, tem uma consciência sensível da
maneira pela qual o processo de educação e
aprendizagem se apresenta ao estudante, então,
mais uma vez, aumentam as probabilidades de uma
aprendizagem significativa (ROGERS, 1986, p.131).

Uma grande premissa que norteia a não-diretividade na educação


reside no respeito do professor à atividade estruturante do aluno.

64 FILOSOFIA
Esse respeito provém da confiança na pessoa, retratada nas
seguintes orientações rogerianas enumeradas por Faria (1987,
p.15-16):

• O professor apenas propõe ao aluno estruturas de trabalho em


termos de métodos de estudo, esquemas cognitivos, orientação
de trabalho etc.

• Essas propostas são apresentadas, porém, como algo falível,


possibilitando uma atividade mais autêntica do aluno.

• O aluno pode solicitar, aceitar, transformar ou recusar as


estruturas indicadas pelo professor.

• O professor ajudará o aluno a encontrar, na sua própria


experiência, o significado do que lhe foi apresentado.

As consequências metodológicas que derivam dessa perspectiva


partem do princípio de que métodos e técnicas educacionais
devem ser pensados em favor do mundo pessoal de cada aluno,
sem imposições e dispondo de variedade e riqueza de recursos
materiais como livros, mapas, laboratórios, oficinas e outros, a
serem colocados à disposição dos estudantes.

O uso de técnicas não

Algumas técnicas não-diretivas são bastante importantes para os


professores quando se visa ao desenvolvimento da responsabilidade
pessoal e da iniciativa do aluno perante seu processo de
aprendizagem.

Vejamos algumas:

O uso de contratos

O sistema de trabalho por contratos é uma das mais importantes


implicações educacionais da visão rogeriana. O contrato nada
mais é que uma “combinação” entre os alunos e o professor
acerca do trabalho pedagógico a ser desenvolvido e dos níveis de
aproveitamento pretendidos. Para Faria (1987, p.16), o contrato
é “uma técnica estruturante da atividade do aluno, na qual este
e o professor entram em um acordo sobre os conteúdos a serem
estudados, o método de trabalho e o sistema de avaliação”.

PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO | unidade 2 65


A autoavaliação

A autoavaliação é indicada para desenvolver o sentido de


responsabilidade no aluno perante o seu aproveitamento na
aprendizagem.

Ela supõe que o próprio aluno avalie até que ponto alcançou os
objetivos que foram estabelecidos no contrato de trabalho com o
professor e se houve, realmente, uma aprendizagem significativa.
Os critérios para a autoavaliação podem ser variados, mas é
importante que sejam decididos em conjunto, na classe, e façam
parte do contrato de trabalho. Essa estratégia vai ao encontro do
que se denomina, no campo da Didática, de avaliação formativa.

A divisão da classe em grupos

A classe pode ser dividida em pequenos grupos, para desenvolver


certas atividades. Dentro dos grupos, os alunos têm liberdade para
decidir o andamento da aprendizagem. Se desejarem, poderão
solicitar a ajuda ou orientação do professor.

A formação dos grupos facilitadores

Estes grupos podem ter em torno de 7 a 10 alunos. Um dos alunos


preside o grupo, enquanto outro é responsável pelos relatos
das atividades e sessões do grupo. O professor só atuará se for
convidado pelos alunos e sua função é a de um consultor. Os grupos
organizam periodicamente suas sessões de estudo em torno de um
ou mais temas. Esses grupos podem funcionar por um semestre,
por exemplo, e mudar no outro. Visa-se com os grupos facilitadores
desenvolver a autonomia responsável dos alunos e a cooperação
entre eles.

66 FILOSOFIA
O método de investigação de Suchman

A aplicação do método de Suchman foi recomendada por Rogers


com o objetivo de desenvolver nos alunos o espírito da pesquisa.
Segundo Rogers (1977, p.140), “... o professor estabelece o quadro
de pesquisa mediante a colocação de um problema. A criação de um
ambiente receptivo para o estudante, a assistência aos educandos
no ato de investigar.” A ideia é que eles se tornem “cientistas por
si mesmos” e descubram a satisfação da descoberta.

A simulação de sistemas sociais

Essa técnica consiste na simulação de situações sociais por um


tempo determinado, como se fosse um sistema social em miniatura.
Os estudantes organizam-se para dramatizar e sentir mais de perto
processos de tomada de decisão, recebimento de informações,
dificuldades de comunicação, relações interpessoais etc.

A instrução programada

Essa técnica tem suas bases no Behaviorismo, porém Rogers


admitia utilizar as instruções programadas para atender a
interesses restritos como, por exemplo, para aprender a utilizar um
equipamento. Nos casos de aprendizagens que exigem criatividade
e maior elaboração do pensamento, Rogers não recomendava o
uso da instrução programada.

Outras técnicas como jogos humanistas e treinamentos de


sensibilidade também eram recomendadas por Rogers para facilitar
a aprendizagem.

Métodos não empregados

A psicologia educacional rogeriana tende a refutar os métodos que


não levam em conta os desejos e interesses dos alunos. Assim, um
método tradicional, como é o caso da realização de provas, só
será aceito se os alunos o desejarem. Rogers (1971), citado por
Faria (1987), exemplificou os seguintes métodos comumente não
empregados em sua visão educacional. São eles:

PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO | unidade 2 67


• tarefas de casa;

• aulas expositivas sem solicitação espontânea do grupo de


alunos;

• avaliações ou críticas a menos que o aluno o deseje;

• realização de provas obrigatórias;

• responsabilidade exclusiva do professor pela nota do aluno.

Méritos e críticas à abordagem rogeriana na Educação

A proposta pedagógica centrada no aluno teve o mérito de


colocar em questão a dominação dos alunos pelos professores e
a necessidade de relações interpessoais mais democráticas no
interior da escola, num momento em que a pedagogia tradicional
ainda tinha a figura do professor como fonte inquestionável de
verdades e valores. Veio a contribuir dessa forma para a renovação
do processo pedagógico. Todavia, a não diretividade do facilitador
acabou por atribuir ao professor um papel secundário na relação
pedagógica.

Guerra (1998) é uma das autoras que trata a respeito das


consequências da não-diretividade em nossa educação. Vejamos
o que ela diz:

Como difundia uma concepção extremamente


positiva dos alunos, determinava certo rigor na
postura facilitadora dos educadores, que permitisse
liberdade aos educandos na autodescoberta do
conhecimento. As dificuldades de aprendizagem
tendiam, então, a ser atribuídas aos métodos de
ensino. Houve um deslocamento das causas dos
problemas de aprendizagem para o interior da
escola, onde geralmente os professores eram
responsabilizados pela falta de autenticidade e
aceitação dos alunos, bem como pela ausência
de condições favoráveis à aprendizagem. Quando
os alunos passaram a ser vistos positivamente,
os professores, como figuras menos importantes,
foram considerados responsáveis pelas situações
desfavoráveis (GUERRA, 1998, p.40).

Uma outra crítica ao não-diretivismo refere-se à inconsistência de


sua abordagem social, pois ignora as diferenças de classe, ocultando
a relação real entre o indivíduo e a sociedade. São ausentes, na

68 FILOSOFIA
concepção rogeriana, a pessoa como entidade social e o momento
histórico vivenciado. Dessa forma, podemos notar que Rogers não
levou em conta que a interação professor-aluno dá-se sempre no
interior de um contexto mais amplo e não pode ser vista de modo
descolado da realidade social.

Ao defender a ideia de que o homem caminha espontaneamente


para a autorrealização, Rogers não analisou criticamente as razões
concretas que impedem as pessoas de serem bem sucedidas. Entendeu,
portanto, que o próprio indivíduo estaria capacitado a resolver todos
os problemas, bastando para isso sua abertura à experiência, como se
tudo pudesse ser resolvido através da vontade individual.

Veja o que diz Faria (1987, p.19):

Acreditam esses não-diretivistas que a base psicológica fornece a


explicação da natureza humana e das relações entre os homens. A
alma individual é espontaneamente boa, tendendo a realizar o bem
desde que libertada de certos entraves. Desconhecem as dificuldades
de sobrevivência das classes trabalhadoras, que acarretam inúmeros
problemas psicológicos e fisiológicos nas crianças pobres. O sentimento
de medo, proveniente das dificuldades e fracassos, a ausência de
motivação dessas crianças, têm explicações mais profundas que estão
além do psiquismo e da vontade das mesmas.
Leia a obra “Liberdade
para aprender”, que é,
provavelmente, a mais
difundida obra de Rogers
Mediante esta análise da concepção rogeriana, você pode no Brasil. ROGERS, C. R.
Liberdade para aprender.
compreender a necessidade de superar seus pressupostos Belo Horizonte: Interlivros,
educacionais. 1972.

Para conhecer uma biografia


de Carl Rogers:
Todavia, não devemos cair no erro de ignorar sua contribuição,
• Acesse http://www.
principalmente em referência à recondução para o centro do rogeriana.com/biografia.
htm publicado na Revista
processo educativo de quem, verdadeiramente, deve ocupar este de Estudos Rogerianos “A
lugar: o aluno. Pessoa como Centro”, nº. 3,
Primavera-Maio 1999.

• Em 2004 foi publicado na


Revista Escola um artigo
interessante sobre Carl
Rogers e a Educação. Acesse:
http://revistaescola.abril.
com.br/edicoes/0172/
aberto/mt_87186.shtml

PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO | unidade 2 69


Mediante as questões apresentadas sobre Rogers,
explique qual a atitude do professor rogeriano.

70 FILOSOFIA
A ênfase nos fatores biológicos:
o inatismo na psicologia e suas implicações
educacionais

A
s teorias que colocam a ênfase nos fatores internos biológicos
constituem concepções inatistas e são a segunda vertente
do subjetivismo em Psicologia. Nestas concepções, fatores
biológicos, como a hereditariedade e a maturação orgânica, são os
principais responsáveis pela aprendizagem e pelo desenvolvimento
das capacidades humanas.

Mas, como podemos conceituar hereditariedade e maturação?

Chamamos hereditariedade o conjunto de caracteres transmitidos


através dos genes a um indivíduo, por seus progenitores, de modo
que determinadas características se fixam no sujeito antes mesmo
do seu nascimento, com a fusão do óvulo e do espermatozóide,
como, por exemplo, a cor da pele, o tipo de cabelo, a altura etc.

A maturação, por sua vez, implica a existência de padrões de


mudanças comuns à espécie humana, que se podem observar
durante a vida dos indivíduos. Por isso, supõe uma sequência

PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO | unidade 2 71


invariável de transformações que são esperadas em determinadas
faixas etárias e não dependem da influência de fatores externos.
Exemplos de eventos maturacionais da criança pequena são
engatinhar, ficar em pé, conquistar a capacidade de andar.

Entre os teóricos da Psicologia Inatista que


tiveram grande repercussão sobre a educação,
destaca-se Binet, que juntamente com Simon,
seu colaborador, desenvolveu na França a
primeira escala métrica de inteligência para
crianças.

Para Binet, a inteligência é uma capacidade geral,


biologicamente determinada, que possibilita
o julgamento, a compreensão e o raciocínio. Tal capacidade pode
ser mensurada através de testes, que
avaliam o desempenho do sujeito em
certas tarefas cujas resoluções são
esperadas para certas idades.

Segundo Fontana e Cruz (1998), verificamos a Idade Mental (IM)


pelo número de tarefas de um teste que o sujeito consegue fazer.
Há tarefas atribuídas, por exemplo, às crianças que têm dez
anos. Quando uma criança consegue resolvê-las todas, diz-se que
tem IM de dez anos, independentemente da verdadeira idade.
A obtenção do Quociente de Inteligência (QI) se dá pela divisão
entre IM multiplicada por 100 e Idade Cronológica (IC). Quando a
IM for igual à IC o resultado será sempre 100. Deste modo, 100 é o
número que faz o limite entre um QI abaixo da média (menor que
100) e um QI acima da média (maior que 100).

A perspectiva de Binet centrou sua preocupação na avaliação da


capacidade de um indivíduo de realizar tarefas na idade adequada.

72 FILOSOFIA
A partir dos testes de inteligência, a psicologia métrica difundiu-se,
passando a avaliar outras dimensões humanas. Proliferaram-se
testes de personalidade, aptidões verbais, prontidão, ajustamento
social, entre outros. Com os testes era possível ter um critério
objetivo e numérico para classificar as pessoas.

Análise crítica do inatismo

Do ponto de vista crítico, podemos dizer que o cálculo da


idade mental e do quociente de inteligência, através de testes
psicológicos, propiciou o entendimento equivocado de que a
inteligência era um atributo fixo, geneticamente determinado.
Com isso, restava à educação pouco ou nada a fazer, diante
do que já estava dado biologicamente ao sujeito. À Psicologia
caberia quantificar e classificar os indivíduos de acordo com esses
atributos inatos. A educação, em decorrência, devia ser oferecida
de modo condizente às capacidades mentais e aptidões naturais
de cada indivíduo. Diz Guerra (1998, p. 34): “Como se acreditava
na predestinação das capacidades, entendia-se que pouco ou nada
poderia ser modificado pela ação educativa”.

Patto (1987) dirigiu algumas críticas a essa psicologia, explicando


que o sucesso obtido, em virtude da mensuração das capacidades
humanas, não foi casual, pois realizava o sonho da sociedade
industrial capitalista de selecionar os mais aptos, distinguindo-
os dos menos aptos, em relação às necessidades produtivas dessa
mesma sociedade. A psicologia, sob essas premissas, converteu-se
em ideologia, pois propiciou o aval científico capaz de explicar
o sucesso de uns e o fracasso de outros, no interior de uma
sociedade que se ergueu com base na premissa da igualdade de
oportunidades.

Guerra (1998, p.34) explica que:

O ideal liberal democrático da educação era possi-


bilitar a inserção social segundo os méritos indivi-
duais, diante da igualdade de oportunidades ofe-
recidas pela sociedade. Cada indivíduo ocuparia
seu lugar segundo suas competências, mantendo a
ordem social.

PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO | unidade 2 73


Com o reforço dessa ideologia do dom, segundo a qual cada
indivíduo possui um lugar “natural” na sociedade, que deriva de
seus dotes inatos, também se reforça a aceitação da sociedade
dividida em classes, de modo que, como diz Guerra (1998, p.35):

Esse modelo individualista da psicologia nunca


trouxe contribuições significativas para a melhoria
da educação, principalmente porque não conseguia
estabelecer relações com o contexto social mais
amplo. Dessa forma, não oportunizou a utilização
dos conhecimentos da psicologia normativa e
outras ciências para a compreensão e melhoria da
realidade educacional. Assim, não trouxe também
a possibilidade de transformação social.

Nesse modelo, tanto competências como dificuldades e


problemas são sempre analisados do ponto de vista individual.
Consequentemente, a educação, os professores e as instituições
educativas possuem pouco valor, cabendo-lhes aceitar e dar curso
às diferenças individuais preestabelecidas, encaminhando para
os psicólogos os indivíduos que se encontram fora dos padrões
esperados, sem que a sociedade seja questionada em suas
contribuições para os problemas e dificuldades que se apresentam.

SÍNTESE
Nesta unidade você estudou as concepções objetivistas, que
enfatizam o objeto (realidade), por entenderem que o indivíduo é
determinado pelo meio ambiente, e que são representadas pelas
teorias comportamentais, cujo expoente foi Skinner.

Também estudou concepções subjetivistas, aquelas que priorizam o


sujeito e que podem apresentar-se com um caráter mais idealista,
mais filosófico, como na teoria de Carl Rogers, ou com um caráter
inatista, como é o caso da perspectiva de Binet.

Ao fazer uma análise crítica dessas duas tendências epistemológicas


(subjetivista e objetivista), compreendemos que ambas promovem
abstrações, ora isolando o sujeito do mundo exterior, ora priorizando
o mundo exterior como se o sujeito em nada contribuísse para a
sua constituição.

74 FILOSOFIA
É necessário, contudo, que você compreenda que essas abordagens
são produtos sociais, historicamente determinados, sendo
importante superá-las, mas não ignorá-las, uma vez que estão
enraizadas nos ideários e práticas pedagógicas, bem como nas
representações dos educadores sobre o aluno, o meio e o papel
que cabe à escola e à educação.

Caro aluno, com base no que você estudou, diga qual o


papel da educação na perspectiva inatista.

Organize um quadro e destaque as contribuições e


críticas da abordagem rogeriana na educação.

CONTRIBUIÇÕES CRÍTICAS

Enumere três características do ambientalismo que


podem auxiliar o processo educativo.

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