Você está na página 1de 4

AVALIAÇÃO BRASIL REPÚBLICA

- Aspectos centrais das principais correntes republicanas

- Problemas da cidadania e suas tendências em meio ao complexo político após a proclamação

- Questões sociais dos primeiros anos da república, de acordo com Nicolau Sevcenko

O período pré-proclamação da república foi um contexto de disparidade e abundância de ideologias


concebidas fora do país, influindo em um amálgama complexo de ideais de progresso e
republicanismo.

Dentre as principais correntes republicanas do período, podemos citar o Deodorismo, centrado na


figura do Marechal Deodoro da Fonseca, veterano da Guerra do Paraguai (1864-1870), que concebia
um plano de manutenção de poder aos militares como mérito à participação desta guerra, em sua
república militar. Seu ideal de república se caracterizava militar e corporativo, sendo contrário à
acepção de civis no meio político, enfatizando a “solução definitiva” de eliminar a elite bacharelesca
que considerava desrespeitosa ao setor militar, deste qual provinham sua extensão de apoiadores.
Colocava a república como a salvação do exército brasileiro, sem uma visão elaborada da república.

Além deste houve a participação do ideário positivista, representado por Benjamin Constant, que
imaginara uma república sociocrática, caracterizado pela ditadura da república, onde um republicano
ascende ao poder e lá se mantém até a morte, apontando um sucessor. Sua ideologia desprendia-se
do militarismo, admitindo-o a um instrumento a ser utilizado, e, a contraparte do deodorismo,
caracterizava a república como uma salvação da pátria. Defendia a organização do estado por uma
equipe especializada e erudita, promovendo a secularização das instituições sociais (ideal que
inclusive influenciou em decisões políticas dos primeiros anos da república). Em sua participação há a
monumentalização positivista das principais figuras dos primeiros anos da república, dentre estas
Benjamin. Enquanto Deodoro figurava uma figura de herói militar da proclamação, Benjamin era tido
como “o doutrinador”, “educador”, e cumpria o papel do teórico nas formulações ideológicas da
proclamação.

Ainda houve a figura de Quintino Bocaiúva, eleito chefe do partido republicano brasileiro em maio de
1889, a quem imaginara uma república liberal, defendendo a participação do exército na proclamação.
No entanto, o partido republicano nas principais cidades do país era desorganizado, sendo motivo de
controvérsias a seu respeito. Apesar da defesa do exército na proclamação, Quintino defendia-o como
um instrumento da instauração da república, e não como uma peça fundamental na articulação
política republicana. Seu papel fundamental foi garantir a participação dos ideais de perspectiva
liberais na república e a posição dos civis na proclamação.

Nos primeiros anos da república, uma antidemocratização presente do voto eleitoral se encontrava
presente. Com uma larga parte da população em condições precárias de educação, a constituição de
1891 não permitia se exigir da república o papel de condicionador das capacidades ao voto, sendo
resistente aos esforços de democratização. Também se encontrava em retrocesso a partir da
constituição imperial anterior, a exemplo da tentativa de proibição de greves e coligações operárias
de acordo com o princípio da liberdade de contrato do trabalho, deixado de lado pelas ameaças de
greve por parte da população.
Em parte por causa do contato positivista nas camadas da sociedade, o setor militar teve bastante voz
e organização política em meio às camadas populares no contexto da república. Uma associação do
soldado ao povo brasileiro era construída, e com isso fundida, havendo uma grande cooperação entre
operários e militares, desde sua presença nas camadas políticas à transmissão de ideais nos principais
veículos de comunicação. Dentre os operários, as reinvindicações já nos primeiros meses de república
foram presentes, havendo mesmo a proposta de fundação do partido operário em 1890, que articulou
a resistência à proibição de greves e coligações operárias.

Neste contexto, nos primeiros anos da república houveram diversas tentativas e experiências de
partidos associados ao socialismo e à causa operária, a exemplo do Partido Operário do Brasil, porém
diversos destes partidos tiveram vida efêmera e não renderam participações significativas nos rumos
da república. Esta situação polarizou as possibilidades frente ao desânimo para com a então recém-
fundada república. Segundo o Manifesto do Centro Socialista aos Operários e Proletários, a
possibilidade de construção de uma sociedade ficaria a rigor das duas possibilidades políticas de então
– o estadismo do socialismo reformador ou o anarquismo revolucionário, que atraiu a participação
de camadas da sociedade que se encontravam marginalizadas e buscavam sua inserção no meio social
brasileiro, propagado em grande parte pelo jornal O Despertar, que trazia como arma do povo a Greve
Geral, destinada a abolir o Estado. Eram duas as vertentes anarquistas presentes no ideológico do povo
– a que seguia a linha de pensamento de Kropotkin e a que seguia os pensamentos de Max Stirner.

O principal desânimo com a república foi sua resistência em ampliar a cidadania, um caráter já
expresso de antidemocratização. Na primeira década do século XX, crescia, em meio às ideologias
anarquistas, um forte antimilitarismo em protesto ao conceito de pátria contrastado com a
cidadania, intensificado pela lei Adolfo Gordo, que proibia a presença de militantes estrangeiros nos
meios populares brasileiros.

Dessa maneira, separa-se quatro correntes principais da política na primeira república:

- Os liberais que concebiam o conceito antidemocrático de cidadania e manutenção da ordem vigente;

- Os positivistas que eram adeptos à inserção do povo nas decisões nacionais, de maneira democrática,
mas que rejeitavam os meios de ação política para a conquista do poder;

- Os anarquistas, divididos entre si e contrários à concepção do estado e, portanto, de cidadania,


somente à fraternidade universal, negando legitimidade a qualquer ordem política;

- Por fim, restavam os socialistas democráticos, propondo ampliação dos direitos políticos e sociais
dentro de premissas liberais.

QUESTÕES SOCIAIS

- Imposição de modos sociais e trabalhistas capitalistas na sociedade do século XIX ao XX, demanda
constante de substâncias estimulantes, proporcionando aumento da produção cafeeira, que por sua
vez causou a influência política dos grandes produtores destinados à manutenção dos privilégios de
produção e lucro.

- Oligarquias liberais no intuito de seguir esta ordem produtiva e exploradora das camadas mais
pobres, ideal positivista de ordem e progresso, causando a criação da necessidade de modernização
do meio social brasileiro, e imposição das estruturas sociais capitalistas.

- Guerra dos canudos (reduto tradicionalista sertanejo, combate contra ondas militares representantes
da imposição oligárquica à velha sociedade tradicional herdeira do colonialismo, com suas crenças e
meios de vida inadaptáveis, conflito com o novo sistema político republicano).
- Larga migração de ex-escravos e seus descendentes à capital da República em busca de ofertas de
trabalho no setor portuário, que então era o 3º maior da América, aliado à massiva imigração em
direção ao país de diversas partes do mundo.

- Concentração das classes baixas da sociedade em casarões do século XIX em regiões portuárias, em
que se alugavam cubículos destinados à vivência de famílias inteiras. Estes casarões passaram a ser
moradias em condições precárias e sub-humanas, o que por sua vez proporcionou problemas de
higienização e alastramento de epidemias.

- As camadas pobres da sociedade agregadas em casarões no centro da capital da república


prejudicavam o ideal de progresso e anseio à superioridade humana positivista, além de as epidemias
serem prejudiciais a estrangeiros visitando a cidade.

- Criação do projeto Regeneração, que dava liberdade, a qualquer custo, para que se proporcionasse
a imposição da modernidade na capital, através de reformas do porto do Rio de Janeiro, obsoleto às
necessidades do século XX, saneamento da cidade destinado a erradicar epidemias e a reforma urbana
do Rio. Os três responsáveis por cada projeto viraram-se imediatamente aos casarões,
desapropriando-os e demolindo sem indenização às famílias que ali moravam para que houvesse a
integração de caminhos urbanos na cidade. Feito isso, as famílias desapropriadas passaram a viver nos
hotéis baratos ou pensões, que então foram evacuados e demolidos novamente sem indenização em
razão da presença de epidemias, resultado de suas condições precárias de vivência. Desta forma os
que foram desapropriados começaram a juntar peças de madeira das encomendas portuárias e montar
casas improvisadas nos morros da capital, dando origem às atuais favelas.

- Esse clima de tensão e repressão da cultura, sociedade e vida das camadas mais pobres culminou na
revolta das vacinas, de 1904, quando foram forçadas estas mesmas famílias a serem vacinadas contra
a varíola, havendo inspeção, desapropriação e vacinação forçada às populações, gerando indignação
a um povo já demasiado amargurado pelas condições precárias de tratamento social e ostracização
política. Foram necessários grandes esforços para conter a revolta visto que cada vez mais ganhou
mais adeptos do grosso da população do Brasil. Os que eram capturados passaram a ser exilados na
Ilha das Cobras, a pretexto de servir de mão de obra de extração de borracha, quando na realidade
eram largados para morrer.

- Através dessa eugenia social, a capital da República tornara-se uma Paris americana, aos olhos de sua
elite contemporânea. Somente através da repressão, exílio e perseguição de camadas pobres de
origem escravista e africana foi possível se chegar à aparente europeização e elitização da capital, que
passou a ter seu centro fiscalizado e barrado a pessoas não suficientemente bem vestidas, havendo
mesmo a supressão de manifestações populares como o carnaval e o samba popular.

- Essa tentativa eugenizadora dos primeiros anos da república devia-se a um anseio do positivismo
ordeiro de assemelhar a capital da república aos grandes polos culturais europeus, em especial a
França, sem levar em conta as condições históricas que proporcionaram suas próprias estruturas
sociais e culturais. Nesse processo, as consequências foram dramáticas e causaram muito sofrimento
e morte, além de uma contínua alienação de toda uma camada social que chega aos dias de hoje,
reflexos do passado. Através de costumes particulares, essas camadas se apropriam de discursos
singulares e meios de comunicação específicos, criando subterfúgios e métodos de resistência
passivos, sendo sua própria permanência um exemplo de sobrevivência a um conturbado período do
país, e de um rumo global imparável.

- A principal inconsequência dessa ideologia ordeira era não perceber as condições históricas de
formação de cada nação. Enquanto nos polos culturais europeus suas permanências criam raízes de
tradição e construção identitária, o passado colonial escravista constituiu-se como algo a ser
esquecido, e, como nesse caso, apagado a qualquer modo necessário, gerando ressentimento,
alienação e precariedade de vida nessas almas republicanas.