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CUMULAÇÃO DE JUÍZES NA AÇÃO RESCISÓRIA

CUMULAÇÃO DE JUÍZES NA AÇÃO RESCISÓRIA


Revista de Processo | vol. 43/1986 | p. 31 - 51 | Jul - Set / 1986
DTR\1986\126

Moacyr Lobo da Costa

Área do Direito: Processual


Sumário:

1. Instituído o duplo grau de jurisdição como meio para assegurar melhor distribuição de
justiça, mediante o reexame da causa por um órgão colegiado em posição hierárquica
superior ao juiz que a julgou, composto por magistrados mais antigos e experientes o
que gera a presunção do acerto de suas decisões - o que nem sempre acontece, pois já
o dissera Ulpiano neque enin utique melius pronuntiat, qui novíssimus sententiam
laturus est (D. 49.1.1) - a sentença, após exaustão dos recursos cabíveis, utilizados ou
preclusos, termina por transitar em julgado e adquire autoridade de res iudicata que no
dizer de Scaccia, não se sabe se reverente ou irônico, faz do branco preto e do quadrado
redondo.

Sem embargo de haver passado pelo crivo do reexame nas instâncias superiores, a
sentença, tornada imutável, pode ter sido prolatada com violação das normas do direito
objetivo, ou conter em si vícios tão graves que a tornem, como disse Chiovenda,
intoleravelmente injusta.

O respeito à autoridade da coisa julgada, fundamento da estabilidade da ordem jurídica,


não se compadece com a existência de sentenças que tenham atentado contra essa
mesma ordem, que aos juízes incumbe tutelar e não violar.

De onde o reconhecimento, desde o Direito Romano, da possibilidade de revogação de


semelhantes sentenças, mediante o emprego de remédios processuais adequados postos
à disposição do litigante vencido, os quais, na medida em que desconstituem a eficácia
da sentença viciada, contribuem, por outro lado, para fortalecer o instituto que alguns
processualistas espanhóis chegam a chamar de "santidade da coisa julgada".

Quando uma sentença é revogada, por ter sido proferida com violação das normas
positivas do ordenamento jurídico vigente, no mesmo passo está sendo prestado,
implicitamente, o tributo de respeito a todas as outras que se incorporaram no
patrimônio jurídico do País, por se terem tornado imutáveis.

Nos sistemas processuais contemporâneos a sentença, depois de transitar em julgado,


só pode ser revogada nos casos taxativamente enunciados em lei.

Os meios prescritos para esse fim são de duas espécies: ação ou recurso. Ambos
considerados de natureza especial em razão de sua finalidade, que transcende à dos
recursos comuns e supera a da generalidade das ações.

E o que se encontra estabelecido nas leis processuais da Alemanha, Áustria e Itália, que
consagram uma ação de revisão e de revogação da sentença, e na França, Espanha e
Portugal que disciplinam um recurso de revisão da sentença.

Ação ou recurso sua finalidade é uma só, a desconstituição da eficácia da sentença


transitada em julgado, em razão da ocorrência de qualquer dos motivos capitulados na
lei respectiva.

2. No Brasil, o remédio admitido para a revisão da sentença transitada em julgado, nos


dois exclusivos casos de injustiça notória ou nulidade manifesta, era o Recurso de
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Revista, de longeva tradição lusitana, que a legislação do Império adaptou e


nacionalizou, e esteve em vigor até o advento da República.

Com a revogação da Constituição do Império, de 1824, e da Lei de 18.9.1828 que criou


o Supremo Tribunal de Justiça e declarou suas atribuições - entre as quais a de
"conceder ou de negar revistas", art. 5.º - o velho Recurso de Revista foi abolido. A
Constituição republicana, de 1891, e o Dec. 848, de 11.10.1890 que criou o STF como
órgão de cúpula da Justiça Federal, em substituição ao Supremo Tribunal de Justiça do
Império, não cuidam daquele recurso.

Por esse motivo, a revogação da sentença civil transitada em julgado passou a ser feita
mediante a ação rescisória, prevista no art. 681, § 4.º, do Regulamento Comercial 737,
de 25.11.1850, que o Decreto do Governo Provisório 763, de 19.9.1890, mandou fosse
observado no processo das causas cíveis em geral.

O sistema adotado no Regulamento 737, de 1850, para a anulação da sentença por meio
da ação rescisória, foi inspirado nas leis portuguesas de 19.5.1832 e de 19.12.1843. A
introdução desse sistema no Direito Positivo brasileiro deve-se à iniciativa do notável
jurista Francisco Ignácio de Carvalho Moreira, que teve destacada atuação na Comissão
encarregada de elaborar aquele Regulamento, tendo sido seu redator único.

A ação rescisória, como prescreve o Regulamento, é uma ação ordinária, que se propõe
no foro do domicílio do réu (arts. 60 e 65) com a finalidade de anular a sentença nos
casos enumerados no art. 680.

O § 4.º do art. 681, estabelecia, expressamente, o não cabimento da ação rescisória


contra sentença proferida em grau de revista, o que importava em colocar fora do
alcance dessa ação as decisões proferidas pelo Supremo Tribunal de Justiça no
julgamento do Recurso de Revista, que era de sua competência privativa. Mas, abolido
esse recurso na República, o dispositivo perdeu seu objeto.

Todavia, instituído o STF como órgão de cúpula do sistema judiciário federativo, e,


criado pelo Dec. 848, de 1890, um recurso especial para esse Tribunal, depois
denominado recurso extraordinário, nos moldes do Writ of error do judiciary Act
norte-americano, de 24.9.1789, os acórdãos proferidos pelo Supremo Tribunal nos
julgamentos desse recurso extraordinário, poderiam ser objeto de ação rescisória de
acordo com as normas do Regulamento 737, em pleno vigor?

Sem dúvida que o podiam, em face das disposições da Consolidação das Leis referentes
à Justiça Federal, aprovada pelo Dec. 3.084, de 5.11.1898 que mandaram observar na
Justiça Federal as normas do Regulamento 737 (Dec. 3.084, parte terceira, arts. 100 e
102) e dos princípios constitucionais estabelecidos na Lei Magna de 1891.

Além dos acórdãos proferidos nos julgamentos de recurso extraordinário, podiam ser
atacados pela ação rescisória, também, os demais acórdãos proferidos pelo mesmo
Tribunal na decisão dos recursos ordinários de sua competência.

Em conformidade com as regras processuais e princípios constitucionais, a ação


rescisória contra acórdão do Supremo Tribunal era uma ação ordinária, da competência
da Justiça Federal, que devia ser proposta no Juízo Federal Seccional do Estado onde o
réu tinha domicílio, e era julgada pelo respectivo Juiz Federal, de cuja sentença cabia
recurso ordinário (apelação) para o STF. (CF de 1891, arts. 59, II, e 60, "a",
Regulamento 737, arts. 60 e 65).

No âmbito da Justiça dos Estados, no regime federativo implantado no País, destaca-se a


disciplina que o Código de Processo de São Paulo estabeleceu para a ação rescisória,
consagrando-lhe, de maneira superior na legislação nacional, um capítulo especial com
nove artigos, de 359 a 367. O Código de São Paulo não foi o único a dedicar um capítulo
especial à ação rescisória; o do Paraná, p. ex., também, tinha um com sete artigos, de
933 a 939, mas de menor importância legislativa por seus defeitos de fundo e de forma.
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Como informa Câmara Leal, os dispositivos do Código paulista sobre a ação rescisória
não encontram correspondentes nos demais Códigos estaduais. (A. L. da Câmara Leal,
Comentários ao Código do Processo Civil e Comercial do Estado de São Paulo, Saraiva,
São Paulo, 1930, v. II/346 e ss.).

É que os Códigos estaduais, nesse particular, seguiram na esteira do Regulamento 737,


cujos dispositivos reproduziram, de modo geral, salvo quanto ao andamento do
processo, que alguns Códigos prescreveram fosse sumário, enquanto no Regulamento
era ordinário.

As mais importantes regras do Código paulista para o processo da ação rescisória foram
as seguintes:

- a ação devia ser proposta e julgada no mesmo juízo da sentença rescindenda, art.
360;

- quando a sentença rescindenda tivesse sido proferida ou confirmada em segunda


instância, a esse juízo serão os autos remetidos para julgamento, depois das razões
finais, art. 361. A rescisória seria, nesse caso, proposta, processada, instruída e
arrazoada em 1.ª instância e julgada, em 2.ª instância, pela Câmara do Tribunal de
Justiça prolatora da decisão rescindenda, art. 361, parágrafo único;

- o processo da ação, em regra, seguia o curso sumário, ou o sumaríssimo, quando a


ação da sentença rescindenda tivesse tido processo sumaríssimo, art. 366; - quando a
ação tiver sido ordinária e o autor da rescisória acumular ao pedido de rescisão o de
novo julgamento da causa, a que se refere o art. 364, o processo da rescisória seguia,
então, o curso ordinário, art. 366, II;

- não era permitido reproduzir na ação rescisória matéria já argüida e julgada na


execução, em grau de embargos no Tribunal de Justiça, e em recurso extraordinário pelo
STF, art. 365.

O enquadramento do processo da ação rescisória no Código de São Paulo revelou, de


forma inegável, o alto nível da cultura jurídica de seus autores, em consonância com os
postulados da ciência processual da época.

3. O STF durante vários anos, em sucessivas decisões, se pronunciou sobre a validade


do sistema instituído para o processo e julgamento da ação rescisória na Justiça Federal,
conhecendo e decidindo os recursos ordinários interpostos das sentenças proferidas
pelos Juízes Federais Seccionais, segundo o disposto no art. 59, II, da CF (LGL\1988\3).

Em seus comentários a esse artigo da Constituição, o Min. João Barbalho esclarece que
"entre as questões de que, em grau de recurso, segundo o presente artigo, no n. II, o
STF toma conhecimento, compreendem-se as ações rescisórias, de que tratam o
Regulamento 737, de 25.11.1850 (art. 681), mandado observar pelo Dec. 3.084, de
5.11.1898 (parte terceira, arts. 100 e 102). Assim o tem decidido o referido Tribunal,
Acórdãos 494, de 25.10.1899, e 329, de 4.11 do mesmo ano. No segundo deles lê-se o
seguinte:

... "Isto posto, e considerando que, não havendo lei que obste atualmente a ação
rescisória contra julgados deste Tribunal, deve ela ser admitida nos casos previstos na
legislação em vigor no fora federal (Consolidação das Leis da Justiça Federal, Dec.
3.084, de 5.11.1898, parte terceira, arts. 100, "c", e 102).

"Considerando que, por tratar-se, na espécie vertente, de uma ação rescisória que visa à
anulação de um acórdão deste Tribunal não pode o feito deixar de correr perante a
Justiça Federal, máxime em face da terminante disposição de art. 62 da CF
(LGL\1988\3), que veda às Justiças dos Estados anular sentenças dos Tribunais
Federais;

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"Considerando que, em falta de lei vigente no foro federal estabelecendo processo


especial para a ação rescisória, deve ela, como qualquer outra ação ordinária, seguir os
trâmites do processo comum, e, portanto, transitar pelas duas instâncias; não sendo
admissível intentá-la diretamente perante este Tribunal, embora tenha sido proferida por
ele a sentença rescindenda, por ser sua competência para processar e julgar
originariamente restrita aos casos taxativamente expressos no art. 59, I, da CF
(LGL\1988\3), entre os quais não se compreende a ação rescisória contra seus próprios
julgados "Considerando que, por acórdão 494, de 25.10 último, já este Tribunal
pronunciou-se sobre a admissibilidade da ação rescisória contra suas sentenças,
firmando ao mesmo tempo o princípio de que ela está sujeita ao curso de qualquer ação
ordinária; etc." (João Barbalho, Comentários à Constituição Federal (LGL\1988\3), Rio
de Janeiro, 1902, p. 239).

O acórdão assentou, de maneira clara e explícita, que a ação rescisória, como qualquer
outra ação ordinária, devia seguir os trâmites do processo comum e, portanto, transitar
pelas duas instâncias, repelindo frontalmente a possibilidade de ser a ação intentada
diretamente perante o Tribunal sob o fundamento de que sua competência para julgar
originariamente era restrita aos casos taxativamente enumerados no art. 59, I, da CF
(LGL\1988\3), entre os quais não se compreende a ação rescisória contra seus próprios
julgados.

Em julho de 1913, por maioria de votos, o STF aprovou uma emenda ao seu Regimento,
proposta pelo Procurador Geral da República, Edmundo Muniz Barreto, no sentido de que
as ações rescisórias, que tiverem por fim a anulação de seus acórdãos, se processam na
primeira instância da Justiça Federal, mas devem ser remetidas ao Supremo Tribunal
para serem por ele julgadas. (V. o resumo da discussão da emenda no STF transcrito no
livro de Jorge Americano, Ação Rescisória, 3.ª ed. Saraiva, São Paulo, 1936, p. 77, nota
11, e as observações de Pontes de Miranda a respeito da adoção dessa emenda, em
Tratado da Ação Rescisória das Sentenças e' outras Decisões, 3.ª ed., Borsói, Rio de
Janeiro, 1957, pp. 266 a 271).

Os Ministros Pedro Lessa, Espírito Santo e Amara Cavalcanti votaram contra.

Pedro Lessa sustentou em livro, posteriormente, os motivos de sua divergência.

Segundo ele, "alterar a competência do juízo para o processo e julgamento das ações
rescisórias, por meio de disposições insertas no regimento de um tribunal, importa em:
1.º) estatuir num regimento de tribunal de 2.ª instância matéria estranha e descabida;
pois, o regimento de um tribunal só pode conter normas concernentes à sua economia
interna, além da transcrição de leis e regulamentos que o tribunal julgue conveniente
reproduzir no regimento, o qual nunca deve encerrar preceitos formulados pelo tribunal,
para o fim de regerem a primeira instância, (grifado no original) isto é, destinados a
vigorar fora do tribunal; 2.º) violar o princípio de Direito judiciário que serve de
fundamento à instituição das duas instâncias, princípio que constitui uma garantia para
os direitos das partes; a eliminação da primeira instância é o cerceamento manifesto
dessa garantia, que a Constituição do Império consagrava em um dos seus artigos; 3.º)
finalmente, infringir a Constituição Federal (LGL\1988\3), que no art. 59 enumera os
casos em que o tribunal julga originária e privativamente, preceituando que nos demais
decidirá em segunda instância."... "Bem sabemos que repugna muito seja um sentença
de segunda instância reformada por um juiz de primeira. Mas, muito mais repugnante é
eliminar por meio de um regimento de um tribunal uma das instâncias judiciárias,
suprimindo-se por esse modo uma preciosa garantia dos direitos das partes, ao mesmo
passo que se viola um preceito constitucional" (Pedro Lessa, Do Poder Judiciário,
Francisco Alves, Rio de Janeiro, 1915, p. 84).

Os argumentos do grande jurista eram convincentes e irrespondíveis. Contra a emenda


manifestou-se outro abalizado jurista e, também, Juiz Federal Seccional, que,
abundando em considerações de ordem jurídica e moral, asseverou: "sob o
ponto-de-vista moral, a decisão de um Tribunal que julga sem recurso da ação rescisória
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de um seu próprio julgado, é, teoricamente, suspeita de reincidência no mesmo erro, na


mesma falsa apreciação em que laborou na decisão atacada" (Manuel Ignácio Carvalho
de Mendonça, Da Ação Rescisória das Sentenças e Julgados, 2.ª ed., Freitas Bastos, Rio
de Janeiro, 1940, p. 305).

A despeito das críticas a emenda aprovada deitou raízes e frutificou.

O TJSP, seguindo o exemplo do STF, modificou, também, em 1920, seu Regimento, nele
inserindo um dispositivo, a letra "d" do art. 18, 1, com teor igual ao da emenda do
Regimento do STF.

A supressão de uma instância no julgamento da ação rescisória contra julgados da 2.ª


instância, que essas duas emendas regimentais introduziram, foi severamente
combatida por Jorge Americano com fundada argumentação. (Ação Rescisória, cit., pp.
76 a 87).

A emenda ao Regimento do TJSP acabou sendo acolhida no Código de Processo estadual,


que a reproduziu no seu art. 361.

O autor da emenda foi o então Desembargador daquele Tribunal Manoel Costa Manso
(cf. seu livro O Processo na Segunda Instância, Saraiva, São Paulo, 1923, p. 22) que foi,
também, o redator do Projeto Revisto do Código de Processo do Estado de São Paulo, no
qual foi introduzido o capítulo sobre a ação rescisória (cf. Projeto do Código de Processo
Civil (LGL\1973\5) e Comercial do Estado de São Paulo, publicação oficial, 1927, 6.º v.,
Revisão, pp. 157 a 159).

A regra sobre a competência do órgão judicial, que proferiu a decisão rescindenda, para
julgar a ação de revisão proposta contra essa decisão, está expressa no § 584, do ZPO
da Alemanha e no § 532, do ZPO da Áustria, e poderia ser invocada como paradigma no
Direito Comparado.

A emenda ao Regimento do STF, argüida de inconstitucionalidade em face da


Constituição de 1891, foi agasalhada na Constituição de 1934, que estabeleceu ser da
competência da Suprema Corte julgar as ações rescisórias dos seus acórdãos, art. 76, 2,
I. Elevada à condição de norma constitucional, foi reproduzida nas constituições
posteriores: de 1937, art. 101, II, 1; de 1946, art. 101, I, "k"; de 1967, art. 114; I,
"m"; Ementa 1/69, art. 119, I, "m".

4. O Código de Processo Civil (LGL\1973\5) brasileiro, promulgado em 1939, assentou o


princípio do julgamento da ação rescisória pelo Tribunal, em instância única, mas
formulou a regra sobre competência de maneira inusitada. Em vez de fixar, desde logo,
a competência do Tribunal, delegou essa atribuição à Lei de Organização Judiciária, art.
801: "a ação rescisória será julgada em instância única pelo Tribunal competente,
segundo a Lei de Organização Judiciária" etc. (redação dada pela Lei 1.661, de 19.8.52.
O texto revogado era o seguinte, art. 801, "a ação rescisória será julgada em única
instância pelas Câmaras Civis Reunidas do Tribunal de Apelação, se houver mais de
uma, e processada da seguinte forma" etc.).

Ao tratar da competência no Livro I, Título X, o Código estabeleceu duas regras


específicas a respeito da ação rescisória: a competência originária do STF para processar
e julgar as ações rescisórias de seus acórdãos, art. 144, IV, e a competência dos
Tribunais de Apelação para processar e julgar originariamente as ações rescisórias de
sentenças, ressalvado o disposto no artigo anterior n. IV. (art. 145, I).

Com a fixação dessas regras sobre competência (arts. 144, IV, 145, I e 801) o Código
suprimiu, radicalmente, o duplo grau de jurisdição para a ação rescisória, que passou a
ser processada e julgada, em instância única, pelos órgãos de instância superior, o STF e
os Tribunais de Apelação.

O Código dispôs sobre o processo da ação rescisória no Livro VI, que trata "dos
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processos da competência originária dos Tribunais", cujo Título III é dedicado à "ação
rescisória de sentença", com quatro artigos, 798 a 801.

O art. 798 prescreve que "será nula a sentença", nos. casos indicados no n. I, "a", "b",
"c" e no n. II.

A referência à sentença nula revela a sobrevivência de um conceito jurídico tradicional


no direito processual brasileiro, que sempre se traduziu por essa expressão
(Regulamento 737, art. 680; Código de Processo de São Paulo, art. 348), embora
inadequado em relação ao caso indicado no n. II, que é manifestamente de
rescindibilidade e não de nulidade da sentença.

Pela forma em que foi disciplinado o processo da ação rescisória e indicados os casos
taxativos de sua admissibilidade, seu escopo se identifica muito mais com a "querela
nullitatis" do que com a restitutio in integrum.

Porque a decisão que julgar procedente a ação rescisória revoga, mas não substitui a
sentença rescindida, salvo no caso exclusivo do n. II do art. 798.

O Código não contém norma a respeito da possibilidade de cumulação dos pedidos de


rescisão e de novo julgamento da causa, como o permitia o Código de São Paulo, art.
364 .

No plano doutrinário, a possibilidade de cumulação dos dois juízos, o rescindente e o


rescisório, no julgamento da ação rescisória, foi sustentada por vários autores de
nomeada.

Escrevendo ao tempo' da vigência do Regulamento 737, Pedro Lessa com apoio nos
ensinamentos de Gluck, no Codice di Procedura Italiano, de 1865, art. 508, e num
vetusto julgado português, referido por Pegas, sustentou que os dois juízos, rescindens e
rescissorium, podem ser cumulados no julgamento da ação rescisória. (cf, "A ação
rescisória", in "Dissertações e Polêmicas", Rio de Janeiro, 1909, p. 183).

M. J. Carvalho de Mendonça, depois de lembrar que "em nosso Direito foi sempre
permitida a cumulação das ações e jamais a contrariou a nossa jurisprudência", invoca a
doutrina de autores estrangeiros, bem como a opinião de Pedro Lessa e conclui que o
rescindens e o rescissorium são, pois, inseparáveis (Da Ação Rescisória, cit. p. 329).

De igual modo Jorge Americano, em sua monografia escrita na vigência do Código de


São Paulo continha regra expressa a respeito, defendeu a possibilidade de cumulação
dos dois pedidos e conseqüente reunião dos dois juízos. No seu entender, a rescisória
abrange dois judicia conexos mas distintos: o judicium rescindens e o iudicium
rescissorium (Ação rescisória, cit. pp. 13 e 207).

Levando ao extremo a implicação dessa doutrina, Nestor Diógenes desenvolveu hábil


argumentação para negar a dicotomia dos juízos, sustentando ser o rescisório
inseparável do rescindente, formando um só julgamento (cf. "Da Ação Rescisória,
Saraiva, São Paulo, 1938, p. 109 e ss.).

De acordo com o entendimento de Nestor Diógenes manifestou-se Ávio Brasil (cf.


Rescisória de Julgados, 2.ª ed., Rio de Janeiro, 1949, p. 224).

Mais abrangente é o magistério de Pontes de Miranda sobre o tema, no sentido de


apontar diferentes soluções para a questão da cumulação dos dois juízos. Em seu livro
sobre a ação rescisória, escrito no período de vigência dos Códigos de Processo
estaduais, que foi justamente considerado como o marco inicial da renovação dos
estudos processuais entre nós, o eminente autor esclareceu que "na ação rescisória
podem cumular-se com o pedido rescindente o pedido rescisório. Não quer isso dizer que
exista princípio a priori. Às leis é dado adotar outro critério: subordiná-los à condição de
terem o mesmo rito, como se um remédio é sumário e o outro também; só os admitir
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CUMULAÇÃO DE JUÍZES NA AÇÃO RESCISÓRIA

separadamente; permitir acumulação, mas, julgado o pedido rescindente iudicium


rescindens) remeter-se ao juiz ordinário o pedido rescisório iudicium rescissorium); só os
admitir juntos, ou, até subentender que foram cumulados". Mais adiante faz esta
oportuna e pertinente observação: "Em todo caso, cumpre advertir em que o
rescissorium cumulado só terá proveito se vencedor o pedido rescindente, puder ser
restaurada a relação jurídica processual." E encerra suas considerações asseverando que
"no momento em que o juiz ou juízes do iudicium rescindens julgam procedente a ação,
rescindida está a sentença e restabelecida a relação processual; quem entregará a
prestação jurisdicional, uma vez que a outra foi retirada, o Direito processual respectivo
responderá. Juridicamente, o julgamento pode ser pelo Tribunal do iudicium rescindens
ou pelo juiz ordinário. O problema é de política jurídica e o Direito processual brasileiro
considera mais sábio aplicar o princípio de economia processual." (A ação rescisória, Rio
de Janeiro, 1934, pp. 138 e 139).

5. Na ocasião em que foi elaborado Q Código unificado de 1939, eram conhecidas estas
manifestações doutrinárias, bem como o precedente legislativo do Código de São Paulo,
art. 364.

O Código, entretanto, silenciou a respeito; não prevê a possibilidade da cumulação dos


dois juízos, nem a proíbe.

Como acontece sempre que a lei é omissa, a doutrina dividiu-se. De um lado, Jorge
Americano, Carvalho Santos, Carneiro de Lacerda, De Plácido e Silva e Pedro Batista
Martins sustentam a permissibilidade da cumulação.

Jorge Americano reproduziu nos comentários ao Código os mesmos argumentos


doutrinários desenvolvidos em sua monografia ( Comentários ao Código do Processo
Civil do Brasil, ed. Saraiva, São Paulo, 1942, v. 3.º, pp. 322 e ss.).

Carvalho Santos se apóia na lição de Jorge Americano e assevera que "hoje,


efetivamente, não há mais dúvida de que a ação rescisória abrange dois iudicia conexos,
embora distintos: o primeiro em que o julgador conhece e rescinde a sentença nula; o
segundo, conseqüência lógica do primeiro, em que o juiz pode conhecer da espécie e,
mediante ampla apreciação dos fatos, proferir nova decisão sobre o objeto da
controvérsia."

Em outro passo de seus comentários, entretanto, esclarece que "não há, evidentemente,
obrigatoriedade nessa cumulação, que visa apenas o interesse das partes". "Em outros
casos, ainda, nem sempre será possível admitir-se a cumulação que não teria
fundamento. Por exemplo, se é pedida a rescisão da sentença por ofender a coisa
julgada... não caberia lugar para o juízo rescissorium". De igual modo, "sempre que a
rescisão da sentença importe em anulação do processo, deste nada subsistindo. Há a
observar ainda que o juiz do juízo rescindens não fica obrigado, sempre, a atuar no juízo
rescissorium" (Código de Processo Civil (LGL\1973\5) interpretado, Rio de Janeiro, 1941,
vol. IX, pp. 120 e 137).

João Manoel Carneiro de Lacerda sustenta, também, em consonância com o


ensinamento de Jorge Americano, que "hoje não há mais dúvida que a ação rescisória
abrange dois juízos conexos, embora nitidamente distintos" ( Código de Processo Civil
(LGL\1973\5) Brasileiro, Saraiva, São Paulo, 1941, vol. 4.º, p. 405).

Para De Plácido e Silva, "por sua própria natureza a ação rescisória implica na
necessidade de um duplo pedido, ou como tecnicamente se diz, nela existem,
simultaneamente, dois judicia: o iudicium rescindens e o judicium rescissorium. E que
tanto nela se pede a anulação da sentença, a fim de que seja declarada insubsistente,
como se insiste em novo julgamento da espécie com o objetivo de se modificar o
decisório constante da sentença rescindenda. Ê teoria que se firmou amparada pela
autoridade dos maiores juristas como Carvalho de Mendonça, Dernburg e Mortara"
(Comentários ao Código de Processo Civil (LGL\1973\5), 3.ª ed., Curitiba, s/d., v. 3.º, p.
1.428).
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CUMULAÇÃO DE JUÍZES NA AÇÃO RESCISÓRIA

E o autor do Projeto do Código, em livro de publicação póstuma, depois de contestar a


opinião dos que negam a possibilidade de cumulação, naqueles casos em que não ocorra
identidade de juízo competente para ambos os pedidos, conclui: "Em qualquer das
hipóteses, será sempre possível a cumulação dos dois iudicia, o rescindens e o
rescissorium, porque a apreciação de ambos é da competência originária do Tribunal de
Justiça" (Pedro Batista Martins, Recursos e Processos da Competência Originária dos
Tribunais, Forense, Rio de Janeiro, 1957, p. 80).

Em sentido contrário, Borges da Rosa, Câmara Leal, Odilon de Andrade, Lopes da Costa
e Luiz Eulálio Vidigal, negam a possibilidade da cumulação de dois iudicia.

Borges da Rosa entende que, "pelo sistema adotado no Código de Processo de 1939, a
rescisória só tem o judicium rescindens,e não mais o judicium rescissorium, a parte
interessada na causa, se quiser obter novo julgamento da espécie, terá que propor a
ação novamente" (Inocêncio Borges da Rosa, Processo Civil e Comercial Brasileiro,
Globo, Porto Alegre 1941, v. IV, p. 373).

Em trabalho de comentário a um acórdão do Tribunal de Apelação do Estado do Rio de


Janeiro, Câmara Leal invocou a regra geral do art. 155 do CPC (LGL\1973\5), sobre a
cumulação de ações, como motivo a obstar a cumulação dos dois iudicia na ação
rescisória, em razão da competência.

O fundamento da objeção apresentada por Câmara Leal era pertinente e foi endossado
por outros autores, que escreveram contra a possibilidade de cumulação dos dois Juízos.

Por sua importância e pela repercussão que alcançou na doutrina, merece ser transcrito
em seus tópicos principais. Ei-los:

"No que concerne à admissibilidade, ou não, da cumulação dos dois pedidos - o da


rescisão do julgado e o da nova decisão sobre a matéria da sentença rescindida - somos
de opinião que essa cumulação não é hoje permitida.

"Não tendo o Código, na parte especial relativa à ação rescisória, cogitado da espécie,
nada dispondo a esse respeito, é o assunto regido pelas regras gerais do processo. Ora o
art. 155 do CPC (LGL\1973\5) só permite a cumulação de ações cujos pedidos forem
entre si conexos ou conseqüentes, quando concorram as seguintes circunstâncias: a)
identidade de competência do juiz; b) identidade de forma processual. Quanto a esta
segunda condição, é fácil praticar-se acumulação dando-se às duas ações a forma
ordinária ou comum.

"Mas a identidade de competência de juízo é todo o embaraço para a cumulação,

"Hoje, as rescisórias são da competência originária dos Tribunais de Apelação (CPC


(LGL\1973\5), art. 145, I) no entanto, a matéria da sentença rescindida é da
competência da justiça de primeira instância, não havendo qualquer preceito do Código
conferindo-a originariamente ao Tribunal Superior.

"Este não poderá manifestar-se sobre matéria que lhe compete decidir em segunda
instância, em grau de recurso.

"Não há, pois identidade de competência para as duas ações, a rescisória compete ao
Tribunal de Apelação e a da matéria rescindida compete à justiça comum de primeira
instância.

"Não nos parece, portanto, lícita a cumulação, pelo critério da regra geral do art. 155."
(in RF 89/526).

Odilon de Andrade acentua que só permitindo o art. 155 a cumulação de ações que
competirem ao mesmo juiz - "é isso obstáculo invencível à cumulação dos dois judicia."
A seu ver, "quem tem razão é, pois, Câmara Leal", cujo parecer transcreve em seguida,
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CUMULAÇÃO DE JUÍZES NA AÇÃO RESCISÓRIA

declarando "concordar com a opinião de Câmara Leal, com a ressalva de que há alguns
casos em que é possível a cumulação dos dois judicia;" e indica as hipóteses em que o
acórdão rescindendo tiver sido proferido pelo próprio Tribunal que irá julgar a rescisória.
"Em todos esses casos é idêntica a competência para a ação rescisória e para a ação em
que foi proferido o acórdão rescindendo, podendo, portanto, ser ambas cumuladas"
(Comentários ao Código de Processo Civil (LGL\1973\5), v. IX/69 a 71, Forense, Rio,
1946).

Lopes da Costa, tendo em vista a regra geral da competência para a cumulação das
ações, prescrita no art. 155, é de parecer "que o art. 145 somente confere ao Tribunal
de Apelação competência para processar e julgar o rescindem" (Direito Processual Civil
Brasileiro, 2.ª ed., Konfino Editor, Rio de Janeiro, 1948, v. III/233).

Na nova edição de seu livro, revista aumentada e atualizada, ele reexaminou


detidamente a questão da competência dos Tribunais para o julgamento da ação
rescisória que é inquestionável em relação ao juízo rescindem, mas, quanto ao
rescisório, em se tratando de sentença rescindenda de juiz de l .ª instância, a
competência do Tribunal é só para o juízo rescindens: "O Tribunal de Justiça cassa a
decisão e remete os autos à instância inferior" (Direito Processual Civil Brasileiro.
Forense. Rio, 1959, v. III/455 a 458).

Em abono de seu entendimento Lopes da Costa cita as opiniões de Câmara Leal e de


Odilon de Andrade, cuja doutrina perfilhou, e refuta a opinião contrária de Batista
Martins.

Para o professor Luiz Eulálio B. Vidigal, a cumulação do rescindens com o rescissorium é


outra questão que, tendo dado margem para grandes controvérsias, ficou
completamente esclareci da pelo Código de Processo Civil (LGL\1973\5) brasileiro. Em
face do seu art. 155, que somente permite a cumulação de pedidos quando competirem
ao mesmo juiz e for idêntica a forma dos respectivos processos, é claro que os dois
juízos têm de ser separados (Da Ação Rescisória dos Julgados, Saraiva, São Paulo, 1948,
p. 104).

Em face da controvérsia doutrinária o eminente Pontes de Miranda não se definiu, não


tomou o partido de qualquer das duas correntes antagônicas, mas, no plano teórico,
manteve o entendimento anteriormente manifestado, certamente por lhe parecer que
ambas, em seu radicalismo, não ofereciam solução adequada para a questão, embora,
não tenha feito referência às divergências sobre o tema.

Na 3.ª edição de seu livro, agora denominado Tratado da Ação Rescisória, posta em dia
com o Código de 1939, ele reproduz o que escrevera na l .ª edição, que "na ação
rescisória pode cumular-se com o pedido rescindente o pedido rescisório. Não quer isso
dizer que exista princípio a priori. Às leis é dado adotar outro critério etc." (p. 54).

Ao explicitar o conceito de ação rescisória, ele acentua que, ao desconstituir a decisão


rescindenda a ação rescisória abre a relação jurídica processual. "Abrindo-a, o juízo
rescindente penetra no processo em que se proferiu a decisão rescindida e instaura o
iudicium rescissorium, que é nova cognição do mérito. Pode ser, porém, que a abra, sem
ter de instaurar esse novo juízo, ou porque nada reste do processo, ou porque não seja
o caso de se pronunciar sobre o mérito. A duplicidade de juízo não se dá sempre" (p.
45).

Mais adiante, ele insiste no ponto fundamental de sua tese, escrevendo que "a ação
rescisória do sistema luso-brasileiro mantém o iudicium rescindens, talvez exauriente, e
o iudicium rescissorium, se é de abrir-se, sem quebra dos princípios fundamentais do
processo" (p. 53).

E, noutro passo, que "a discussão sobre ser um só ou duplo juízo, no Direito hodierno, é
sem pertinência: não há solução a priori; a rescisão do julgado pode bastar; se não
basta, tem-se de provocar outro juízo" (p. 54) - (Tratado da Ação Rescisória, 3.ª ed.,
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CUMULAÇÃO DE JUÍZES NA AÇÃO RESCISÓRIA

1957).

Na 2.ª edição dos monumentais Comentários ao Código de 1939, tendo incorporado ao


volume em que trata da ação rescisória o essencial da monografia, Pontes de Miranda
discorreu longamente sobre a questão dos dois juízos, e, em diferentes passagens da
exposição, formulou algumas considerações de grande pertinência para a sua adequada
solução.

Ante a imensa dificuldade de apresentar um resumo fiel da doutrina do emérito jurista,


não restou outra alternativa, para a exposição de seu pensamento, que a transcrição de
suas palavras.

"Exerci da a pretensão à rescisão e rescindida a sentença, ultima-se o juízo rescindente.


O julgamento do juízo rescisório, cujo processo de regra se abriu simultaneamente,
porém não sempre, nada tem com essa pretensão à rescisão: já o julgamento encontra
desfeita a sentença, e julga no processo que antes se fizera, ou, em certos casos, o
refaz. O pedido contém, de ordinário, dois pedidos, o de rescindir a sentença e o de
rejulgar; mas nada obsta a que se separem. O autor não está inibido de pedir somente o
ofício rescindente; posto se haja de supor, na dúvida, que pediu os dois" (t, X/128).

"A sentença na ação rescisória, quanto ao juízo rescindente, rompe, cinde a sentença:
havia sentença; não há mais. Toda a eficácia, que não depende de novas decisões, se
opera. O que depende de nova decisão é do juízo rescisório" (idem p. 128).

"Por vezes, o juízo rescindente é exaustivo", omissis. "Se a rescisão não exaure a
relação jurídica processual, tem-se de julgar o processo em que se. proferiu a 'sentença
rescindenda" (p. 129).

"Esse é ponto extremamente importante. ajuízo rescindente e o juízo rescisório são


distintos, conceptualmente, porque tal distinção resulta da natureza das coisas, dos
fatos. Qualquer exame não superficial do que é, na realidade processual, a ação
rescisória mostra, crucialmente, que rescindir a sentença não é decidir a matéria que
fora por ela julgada" (p. 132).

"A ação rescisória do sistema luso-brasileiro mantém o iudicium rescindens, talvez


exauriente, e o iudicium rescissorium, se é de abrir-se sem quebra dos princípios
fundamentais do processo" (p. 157).

"A discussão sobre ser um só ou duplo o juízo, no Direito hodierno, é sem pertinência:
não há solução a priori; a rescisão do julgado pode bastar; se não basta, tem-se de ter
provocado ou de provocar outro juízo." "Se a rescisão apanha o processo (não só a
sentença) e do rescindido dependeu a sentença, todo o rescindido se há de completar,
ou, tratando-se de defeito inicial, não há mais processo, ou relação jurídica processual,
reserva to iure apte agendi. Daí baixar o feito, para que, recomposto o rescindido, o juiz
dê a sentença e haja os recursos. O juiz, ou o tribunal, se só se atingiu o processo em
superior instância, inclusive a revisional e a do recurso extraordinário. Aqui, convém
retificar a regra (falsa) de que a ação rescisória "devolvit negotium ad cognitionem
iudicis superiores ad instar appellationis". Isso só seria possível quanto às querelas
recursais de nulidade, posto que, ainda quanto à querela nullitatis, não fosse de
admitir-se (a respeito, P. Calamandrei, La Cassazione Civile, I, 177)" (p. 158).

"Rescindido o acórdão, a sorte do julgado anterior é dependente do que se pôs ou deixou


no lugar. Se o acórdão concernia à prestação jurisdicional, entra no lugar dele o que se
decidir (rescisão e rescisório). Aliter, se apenas dizia respeito à terminação do processo
sem julgamento do mérito: e a rescisão exaure o que se julgara, ou se apanha tudo que
se decidiu depois, tem de ser decidido o mérito, e não se pode fazer tábua rasa das
regras jurídicas sobre competência" (p. 288; todo esse texto está repetido à p. 321).

"Ora, o que se dá é que os dois se podem cumular, sem que iudícíum rescindens precise
de ser seguido daquele, ou o prepare. Basta pensar-se na sentença condenatória, que,
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CUMULAÇÃO DE JUÍZES NA AÇÃO RESCISÓRIA

sendo rescindida, é suficiente para as conseqüências que da rescisão espera o


proponente do remédio" (p. 305).

"Os nossos tempos permitem a cumulação dos dois juízos, em princípio. Por tanto, nem
é preciso que se cumulem, nem se forcem os casos em que o cumulá-los seria absurdo
ou danoso para a Justiça" omissis. "Só se concede cumulação das duas questões,
quando o estado da controvérsia, rescindida a sentença, processualmente o permita.
Assim, se houve incompetência ratione materiae, cuja sentença se rescinde, não pode
ser cumulado o rescisório, porquanto nada se salvaria do processo anulado" (pp. 305 e
306).

"B sem rescisoriedade a sentença rescindente e não deixa margem, sequer, ao


rescisório, se negou a pretensão à tutela jurídica, ou a pretensão processual (exercício
daquela), ou afirmou o impedimento ou a peita do juiz (ab initio) ou a sua incompetência
ratione materiae, ou a falsidade do documento ou da prova cuja falta não pode ser
suprida por outra, ou a nulidade ab initio do processo" (p. 307).

"Na ação rescisória pode cumular-se como pedido rescindente o pedido rescisório. Não
quer isso dizer que exista princípio a priori. Às leis é dado adotar outro critério" etc. (p.
311).

Ainda que extensas e, em grande número, as transcrições eram indispensáveis para se


ter conhecimento da opinião do notável Comentarista sobre a questão que motivou a
controvérsia doutrinária, que vem sendo analisada.

5.1 O tema da cumulação dos dois juízos, todavia, carece de ser repensado numa
reflexão crítica, à luz dos princípios do Direito Processual Civil.

Bem pesados os argumentos apresentados pelos processualistas que se empenharam no


importante debate, a conclusão a que se chega é a de não assistir razão nem aos que
sustentam a possibilidade da cumulação, com o fundamento de a ação rescisória
abranger os dois juízos, nem aos que negam essa possibilidade em todos os casos, em
razão da regra geral sobre competência.

A rigor, a solução adequada, por mais conforme aos princípios, é a que admite a
cumulação, em determinadas hipóteses, excluindo-a das demais.

A ação rescisória provoca, em regra, mas não necessariamente, a instauração de dois


juízos, o rescindente e o rescisório, que são conexos, mas distintos.

O primeiro destina-se a rescindir a decisão transitada em julgado, argüida de vício


capitulado na lei como motivo de sua insubsistência.

O julgamento a ser proferido nesse juízo constitui o escopo da ação rescisória.

O segundo juízo tem a finalidade de promover novo julgamento da causa, uma vez
rescindida a decisão.

O juízo rescisório, contudo, nem sempre é de ser instaurado, por falta de fundamento.
Figure-se o caso de ação rescisória contra decisão que violou a coisa julgada; o juízo
rescisório não teria cabimento. Do mesmo modo na hipótese de incompetência ratione
materiae do órgão prolator da decisão rescindenda: v. g. juiz de direito da Justiça
estadual que julgou ação de competência da Justiça Federal e vice-versa; acórdão do
TFR em causa da competência do Tribunal de Justiça do Estado e vice-versa: acórdão do
Tribunal de Alçada em causa da competência do Tribunal de Justiça e vice-versa, Em tais
casos é incabível o juízo rescisório. O objetivo colimado com a ação rescisória é atingido
no juízo rescindente. Se o órgão judicial não tinha competência para julgar a causa, não
na tem para julgá-la de novo.

Em face das regras sobre competência para o julgamento da ação rescisória, assentadas
nos arts. 144, IV, 145, I, e 801 do CPC (LGL\1973\5), é insuscetível de dúvida que o
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CUMULAÇÃO DE JUÍZES NA AÇÃO RESCISÓRIA

órgão judicial de l.ª instância não tem competência para esse julgamento, que é
privativo dos tribunais.

A competência originária do tribunal, porém, restringe-se ao julgamento no juízo


rescindente. Somente o tribunal pode rescindir o julgado.

Quanto ao julgamento no juízo rescisório, quando for admissível sua instauração, é


preciso distinguir se o vício, que serve de motivo para a ação rescisória, ocorre na
sentença de l.ª instância, ou no acórdão do tribunal proferido na causa.

Assim, se impedido ou peitado é o juiz, ou se foi a sentença proferida contra "literal


disposição de lei", ou, então, se impedido ou peitado é um dos desembargadores que
participou do julgamento e subscreveu o acórdão, ou se este é que foi proferido contra
"literal disposição de lei".

No primeiro caso, quando os vícios são da sentença, não obstante tenha sido confirmada
pelo Tribunal em grau de recurso, não há lugar para a instauração do juízo rescisório,
porque o Tribunal não tem competência para proferir novo julgamento da causa, no
lugar do juiz impedido ou peitado, cuja sentença foi rescindida. A ação rescisória não é
um recurso com efeito devolutivo e não dá competência ao Tribunal para se substituir ao
juízo de 1.ª instância.

A imparcialidade do juiz é requisito de validade do processo.

A doutrina considera-a como pressuposto da constituição válida da relação jurídica


processual. A quebra da imparcialidade, pelo impedimento ou pela peita do juiz, torna
inválida a relação.

Nesse caso, o juízo rescindente basta para satisfazer a finalidade da ação rescisória. A
rescisão da sentença atinge a própria relação processual, que não mais subsiste.
Desfeita a relação processual, não pode o Tribunal julgar novamente o mérito da ação,
cujo processo foi invalidado.

Da mesma maneira, se a sentença afrontou a "literal disposição de lei". Como a ação


rescisória não devolve ao Tribunal o conhecimento pleno da causa, a exemplo da
apelação, mas, apenas, submete ao seu julgamento o motivo de rescindibilidade da
decisão, proferido o julgamento no juízo rescindente e rescindida a sentença, o objetivo
da ação rescisória foi alcançado.

Não compete ao Tribunal se substituir ao juiz de l.ª instância e proferir outra sentença
que não seja contra a letra da lei, o que só pode fazer dentro de sua competência
recursal.

A competência originária do Tribunal para o juízo rescindente só abrange o juízo


rescisório naquelas hipóteses em que a decisão rescindida era da competência do próprio
Tribunal.

O tribunal rescinde a sua decisão e profere outra em seu lugar.

Assim, quando o vício ocorre no acórdão, em relação a um desembargador, ou à decisão


contra a lei, então, não há dúvida que à rescisão do acórdão segue-se o juízo rescisório
para novo julgamento da espécie, sem a participação do desembargador incriminado, ou
para a conformidade do julgado com a letra da lei, porque o novo julgamento é da
competência do Tribunal, como o era o que foi rescindido.

A cumulação dos juízos só é permitida quando o Tribunal tiver competência para julgar,
também, no rescisório, porquanto deve ser observada a regra geral sobre cumulação de
pedidos do art. 155. Como disse Pontes de Miranda, "não se pode fazer tábua rasa das
regras jurídicas sobre competência".

Quando o motivo invocado for a falsidade da prova, ao juízo rescindente segue-se,


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CUMULAÇÃO DE JUÍZES NA AÇÃO RESCISÓRIA

necessariamente o juízo rescisório, em que o Tribunal deverá julgar novamente a causa


em face das demais provas válidas, remanescentes do processo da ação cuja decisão foi
rescindida, e que tenham sido trazidas para o processo da rescisória, ou que tenham
sido produzidas neste processo.

No caso de inexistirem outras provas válidas, o Tribunal, com a rescisão do julgado pelo
motivo da falsidade da prova, pronunciará, também, no juízo rescisório, a improcedência
da ação, por falta de prova.

Nesse caso o Tribunal é competente para os dois juízos, cuja cumulação pode ser
pedida.

Quando a sentença houver transitado em julgado em l.ª instância, pela não


interpretação, ou pela preclusão do recurso cabível, o julgamento da ação rescisória que
for proposta contra ela, por ter sido proferida contra "literal disposição de lei", se
restringe, no Tribunal, ao juízo rescindente; para o rescisório a competência é do juiz
que proferiu a sentença rescindida, uma vez que a relação jurídica processual
permaneceu íntegra.

Segundo o magistério pontual de Pontes de Miranda, "se foi rescindida a sentença de


juiz. de que não houvera recurso, ou dele não se conheceu, o Tribunal de Justiça pode
julgar ou ordenar que o juiz julgue, conforme a espécie. Somente julga se a rescisão
afirma que não há ação, ou está prescrita a pretensão, ou a ação, ou que se terminara,
sem julgamento do mérito, o feito. Fora daí, é o juiz que tem de julgar" ( Comentários,
2.ª ed. t. X/289).

As presentes considerações, desenvolvidas em torno do tema da cumulação dos dois


juízos, com vistas a uma adequada solução no regime do revogado Código de 1939, por
serem pertinentes, também, em relação às normas do Código de 1973, vão ser
reiteradas para facilitar o enquadramento da questão no âmbito do Direito Positivo
vigente.

6. O Código de Processo Civil (LGL\1973\5), de 1973, contém dois dispositivos destina


dos a suprir a omissão de que se ressentia o Código de 1939, com respeito à cumulação
dos juízos rescindente e rescisório, e que tantas dúvidas suscitou entre os
doutrinadores: são os arts. 488, I, e 494.

É conhecida a história de seus textos.

O professor Alfredo Buzaid, com a visível intenção de pôr termo à controvérsia e resolver
a dúvida, redigiu os arts. 537 e 543, do Anteprojeto, que se converteram nos arts. 492 e
498, do Projeto, de modo a tornar obrigatória a cumulação dos juízos. Com efeito,
segundo o estatuído nesses artigos, o autor da ação rescisória deverá cumular ao pedido
de rescisão o de novo julgamento da causa; e o Tribunal, sempre que julgar procedente
a ação, revogará a sentença rescindenda e proferirá novo julgamento.

O pedido de cumulação era um dever do autor e o novo julgamento uma obrigação do


Tribunal, em todos os casos, sem exceção.

Ao que tudo indica, o eminente Autor do Anteprojeto e do Projeto participava do


entendimento da corrente doutrinária que sustentava ser sempre possível a cumulação
dos dois juízos, "em qualquer das hipóteses", como escreveu Pedro Batista Martins, no
livro de publicação póstuma, que, por sinal, foi atualizado e prefaciado pelo professor
Alfredo Buzaid.

A obrigatoriedade da cumulação era uma flagrante demasia.

Bastava pensar-se na rescisória por ofensa à coisa julgada, que não pode comportar
juízo rescisório para novo julgamento, como lembrou o saudoso prof. Rodolfo de Araújo
Júnior, da Faculdade de Direito do Recife, no Congresso que se realizou em Campos do
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CUMULAÇÃO DE JUÍZES NA AÇÃO RESCISÓRIA

Jordão para o exame do Anteprojeto.

A Comissão Revisora, por proposta de Luis Antônio de Andrade, sugeriu a inclusão,


nesses dois artigos do Projeto, da ressalva "se for o caso", (Luís Antônio de Andrade,
Aspectos e Inovações do Código de Processo Civil (LGL\1973\5), Francisco Alves, Rio de
Janeiro, 1974, p. 218).

Por ocasião da discussão, na Câmara dos Deputados, do Projeto de Lei 810/72 (CPC
(LGL\1973\5)), o deputado Célio Borja, acolhendo a sugestão do Des. Luis Antônio de
Andrade, apresentou duas emendas para a inclusão da ressalva "se for o caso" nos dois
artigos do Projeto, mas a Câmara só aprovou a emenda relativa ao artigo sobre o
julgamento no Tribunal.

No Senado Federal, quando da discussão do Projeto de Lei 41/72 (CPC (LGL\1973\5)


com as emendas aprovadas na Câmara) o senador Nelson Carneiro apresentou emenda,
renovando a proposta formulada pelo deputado Célio Borja, com a mesma justificação, a
qual foi aprovada, resultando na inclusão da ressalva nos textos dos arts. 488, I, e 494,
do Código como foi promulgado (cf. Alexandre de Paula, Código de Processo Civil
(LGL\1973\5) Anotado, Ed. RT, São Paulo, 1976, v. 11/461 e 469; Código de Processo
Civil (LGL\1973\5), trabalhos legislativos, Senado Federal, 1974, vol. II, t. 11/101).

Com esses dois dispositivos o Código sufragou a boa doutrina, que considera o juízo
rescindente como o escopo da ação rescisória, e o juízo rescisório como complemento,
naqueles casos em que for admissível sua instauração, sem quebra dos princípios
processuais.

A ação rescisória não provoca, necessariamente, a instauração dos dois juízos, porque o
rescindente, em alguns casos, é exaustivo, tomando-se sem cabimento o rescisório.

É de se lamentar, entretanto, a timidez da emenda.

Conquanto plenamente justificada, em razão de seu alto significado jurídico, de muito


maior alcance teria sido se, corajosamente, a emenda houvesse indicado, de modo
taxativo, os casos em que não é admitido o pedido de cumulação, nem permitido o
julgamento rescisório,

A expressão "se for o caso", por sua indeterminação, confia ao subjetivismo do autor,
por um lado, e ao critério arbitrário do Tribunal, por outro, a indicação e a resolução de
ser, ou não, caso de cumulação dos pedidos e dos juízos.

O Tribunal não fica adstrito ao pedido do autor para resolver se é, ou não, cabível o
rescisório, salvo, evidentemente, se o autor não tiver formulado pedido nesse sentido,
quando, então, não poderá julgar novamente a causa, para não pro ferir um julgamento
ultra petita, pois, a falta de pedido expresso deve ser entendida, no sistema do Código,
como exercício de pretensão limitada ao juízo rescindente.

Se o autor pretende, apenas, a rescisão do julgado, não compete ao Tribunal ir além e


proferir nova decisão no feito.

A propositura da ação rescisória promove a atuação da tutela jurisdicional de dois


interesses: um interesse público e um interesse privado. O interesse público predomina
no juízo rescindente, destinado à tutela da autoridade da coisa julgada, que é o
fundamento da estabilidade da ordem jurídica. No juízo rescisório, ao contrário,
predomina o interesse privado do autor da ação rescisória, de ter sua causa julgada
novamente, após a rescisão do julgado.

Assim, mesmo quando possível a instauração do juízo rescisório, sem quebra dos
princípios processuais, o autor da ação rescisória pode não ter interesse em novo
julgamento da causa, bastando a rescisão do julgado para satisfazer sua pretensão.
Pense-se na ação rescisória proposta pelo réu que foi condenado pela decisão
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CUMULAÇÃO DE JUÍZES NA AÇÃO RESCISÓRIA

rescindenda. Seu único interesse é a rescisão dessa decisão.

Como, no juízo rescisório o Tribunal vai proceder ao julgamento da causa e proferir outra
decisão, em substituição à que foi rescindida, seu procedimento é balizado,
rigorosamente, por dois postulados fundamentais do Direito Processual Civil: Ne
procedat iudex ex oiiicio e ne eat iudex ultra petita partium.

Sem o pedido expresso do autor, o julgamento no juízo rescisório seria procedimento ex


officio do Tribunal.

Nem há que se falar em pedido implícito, como escreveu Pontes de Miranda nos
Comentários ao Código de 1939, e repetiu inadvertidamente nos Comentários ao Código
vigente, e, no livro de doutrina na sua última edição (Tratado da Ação Rescisória, 5.ª
ed., Forense, 1976, pp. 132 e 133), uma vez que o Código determina que o pedido de
cumulação dos juízos seja expresso. O eminente Tratadista esqueceu-se da prescrição
do art. 488, I, do novo Código.

Em vista da literalidade do texto do dispositivo ("devendo o autor cumular ao pedido de


rescisão, se for o caso, o de novo julgamento da causa"), entendem alguns autores que
a cumulação é obrigatória e sua inobservância acarretará a decretação da inépcia da
inicial (José Carlos Barbosa Moreira, Comentários ao Código de Processo Civil
(LGL\1973\5), 5.ª ed. Forense, 1985, v. V /178; Sérgio Rizzi, Ação Rescisória, Ed. RT,
1979, p. 7; José Frederico Marques, Manual de Direito Processual Civil, Saraiva, 1975,
vol. 111/266; Rogério L. Tucci, Da. Ação e do Processo Civil na Teoria e na Prática,
Saraiva, 1978, p. 45 reproduzido no verbo "Ação Rescisória" da Enciclopédia Saraiva de
Direito, v 3/508 e 509).

Na verdade, a dicção do texto é fruto do autoritarismo do Anteprojeto e do Projeto, que


o Código acolheu sem maiores exames.

O dever, assim, imposto ao autor, se traduz, juridicamente, como um poder, em razão


do princípio fundamental da dogmática do Processo Civil, que ninguém pode ser
obrigado a demandar: nemo invictus agere cogatur (cf. Robert Wynes Millar, Los
Principios Formativos del Procedimiento Civil, trad. castelhano ed. Ediar, Buenos Aires,
s/d, p. 65).

A ação é um direito público subjetivo que o autor exerce livremente, na medida de seu
interesse.

Em consonância com essa regra jurídica, o Código editou a norma do art. 2.º, segundo a
qual "nenhum juiz prestará a tutela jurisdicional senão quando a parte ou o interessado
a requerer, nos casos e formas legais".

Trata-se do princípio da demanda, que significa, no dizer do Prof. Celso Agrícola Barbi,
"que a invocação da tutela jurisdicional é um direito estritamente individual e que a
defesa dos interesses próprios fica à livre iniciativa do seu titular" (Comentários ao
Código de Processo Civil (LGL\1973\5), 2.ª ed., Forense, 1981, p. 21).

A liberdade de agir, assegurada ao autor pelo princípio da demanda, em relação ao


pedido, prevalece, também, com respeito à cumulação de pedidos, que o Código declara,
no art. 292, ser permitida.

A cumulação de pedidos é um poder processual, garantido ao autor, e não um dever


processual. A norma estabelecida no art. 294 confirma a regra. A omissão de pedido,
que era lícito fazer, impede sua apreciação naquele processo, mas não torna inepta a
inicial.

O poder processual de cumular pedidos é uma modalidade do direito de ação, que o


autor exerce, também, na medida do seu interesse.

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CUMULAÇÃO DE JUÍZES NA AÇÃO RESCISÓRIA

Não há fundamento jurídico para torná-lo obrigatório na ação rescisória, se não for do
interesse do autor.

7. Ante a indeterminação do Código, incumbe à doutrina a árdua tarefa de tentar


especificar, de maneira sistemática, em que casos pode ocorrer a cumulação dos juízos,
sem que importe em violação dos princípios processuais, e, em que casos não terá lugar
a acumulação.

Segundo o Prof. Luiz Eulálio B. Vidigal, "não é possível estabelecer regras fixas a
respeito de quais os casos em que o julgamento da rescisória deverá ser seguido de
novo julgamento da ação em que foi proferida a sentença rescindida" {Comentários ao
Código de Processo Civil (LGL\1973\5), Ed. RT, 1974, v. VI/194).

A tentativa de estabelecer alguns princípios normativos a respeito dessa questão, para


orientar a identificação e seleção dos casos, embora sem o caráter de regras fixas, é
empreendimento difícil mas não impossível.

B verdade que o ilustre Autor parte do pressuposto de que as regras gerais sobre
competência não se aplicam à ação rescisória, por ser da competência originária do
Tribunal de 2.ª instância, "tendo o legislador resolvido expressamente a questão, não só
permitindo como recomendando a cumulação." A seu ver, a ressalva "se for o caso"
significa "se for necessário novo julgamento da causa e não, se ocorrerem os
pressupostos a que a lei subordina a possibilidade de cumulação. Estes, como já
esclarecemos, nunca ocorreriam na rescisória" (ob. cit. p. 193).

Em que pese à autoridade do eminente Mestre, a lição não convence, por seu
radicalismo, pois, na expressiva advertência de Pontes de Miranda, "não se pode fazer
tábua rasa das regras jurídicas sobre competência" (Comentários, Forense, 1975, t.
VI/448).

A competência originária dos tribunais de 2.ª instância, para o processo e julgamento da


ação rescisória, prevista na Constituição e nas leis estaduais de organização judiciária,
diz respeito ao juízo rescindente, que é o escopo da ação, porém, não abrange,
necessariamente, o julgamento no juízo rescisório.

Para a Prof." Ada Pellegrini Grinover, "embora fugindo talvez ao sentido literal que o
legislador quis emprestar à expressão "se for o caso", parece-nos que a única solução
será interpretar a locução, no art. 488, I (atinente ao pedido), como "se for o caso de
ressuscitar-se a antiga relação jurídico-processual e ainda se não houver, com a
cumulação, supressão do duplo grau de jurisdição" (é o caso, v.g. do erro de fato - art.
485, IX - ou da falsidade de prova - art. 485, VI). A mesma expressão, no art. 494
(atinente ao julgamento decorrente da cumulação de pedidos) será interpretada em
idêntico sentido" (Os Princípios Constitucionais e o Código de Processo Civil
(LGL\1973\5), J. Bushatsky, 1975, p. 157).

A ressalva "se for o caso" concerne, não só à necessidade de novo julgamento, como,
também, à ocorrência dos pressupostos processuais da cumulação de pedidos previstos
no art. 292.

A norma do art. 488, I, não é incompatível com a regra geral sobre cumulação de
pedidos, do art. 292, nem constitui uma exceção, em razão da competência originária do
Tribunal.

Um primeiro princípio normativo poderia, então, ser formulado nos seguintes termos: a
competência do Tribunal, para o julgamento no juízo rescisório deve ser aferida segundo
o critério distintivo da decisão rescindenda, em que ocorreu o vício que serve de motivo
para a ação rescisória.

Quando verificar que o vício ocorre no acórdão, que proferiu na causa, o Tribunal,
rescindindo-o, deve proferir outro em seu lugar, exceto nos dois casos, de incompetência
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CUMULAÇÃO DE JUÍZES NA AÇÃO RESCISÓRIA

absoluta do próprio Tribunal e de ofensa à coisa julgada, em que não poderá haver novo
julgamento.

Se o vício disser respeito à pessoa de um desembargador, que subscreveu o acórdão


rescindido, ele não poderá participar do julgamento da ação rescisória.

A competência originária para o rescisório é do mesmo Tribunal, que proferiu o


julgamento anterior, que foi rescindido.

Todavia, quando se verificar que o vício ocorreu na sentença de 1.ª instância, mesmo
que tenha sido confirmada pelo Tribunal, a situação é diferente porque, em vários casos,
a ação rescisória irá promover a instauração, apenas, do juízo rescindente, com a função
de querela nullitatis.

A indicação desses casos é, sem dúvida, trabalhosa e polêmica.

Sempre que a rescisão da sentença importar desfazimento da relação jurídica processual


- casos de crime funcional, prevaricação, concussão ou corrupção, do juiz que a proferiu,
ou de seu impedimento - a ação rescisória deve ser julgada somente no juízo
rescindente. Não compete ao Tribunal se substituir ao juiz de 1.ª instância para proferir,
em seu lugar, uma nova sentença na causa, se a relação processual subjacente foi
desfeita em um de seus pólos.

No caso de incompetência absoluta do juiz, o Tribunal, rescindindo a sentença,


determina a remessa do processo, no qual foi proferida a sentença rescindida, ao juiz
competente, de acordo com o disposto no art. 113, § 2.º. A regra contida nesse
dispositivo é geral, e não há por que deixar de ser aplicada à declaração de
incompetência proclamada pelo Tribunal no juízo rescindente. A incompetência absoluta
do juiz torna nula a sua sentença, não competindo ao Tribunal julgar novamente a
causa, no rescisório, sem o prévio pronunciamento do juiz competente de l.ª instância,
com 'injustificada supressão do 1.º grau de jurisdição.

Nos dois casos em que a ação rescisória pode ser proposta pelo Ministério Público, art.
487, III, "a" e "b", o julgamento do Tribunal é restrito ao juízo rescindente. Na hipótese
da letra "a", uma vez rescindida a sentença, o Tribunal, segundo a regra do art. 246 e
parágrafo único, deve declarar nulo o processo, a partir do momento em que o órgão do
Ministério Público devia ter sido intimado, e determinar que o feito seja processado
novamente em l.ª instância, com a audiência daquele órgão. Na hipótese da letra "b", a
colusão das partes, a fim de fraudar a lei, sendo declarada no juízo rescindente, atinge,
não apenas, a sentença rescindida, mas acarreta nulidade de todo o processo, tornando
inviável o juízo rescisório: fraus omnia corrumpit.

Do mesmo modo nas duas hipóteses do n. III do art. 485. Se a sentença resultou de
dolo da parte vencedora em detrimento da parte vencida, ou de colusão entre as partes,
a fim de fraudar a lei, a rescisão da sentença, no juízo rescindente, é quanto basta para
tolher ao dolo e à fraude a vitória no processo. Um processo doloso, ou fraudulento, não
pode ensejar novo julgamento da causa.

Finalmente, se a sentença ofendeu a coisa julgada, o Tribunal limita-se a rescindi-Ia.


Não teria sentido o novo julgamento.

Em todos esses casos a ação rescisória tem, rigorosamente, a função de querela


nullitatis e promove a instauração, tão-somente, do iudicium rescindens, em que se
exaure a atividade jurisdicional do Tribunal, porque o escopo da ação rescisória já foi
atingido com a rescisão da sentença, não se instaurando o juízo rescisório, por falta de
objeto, mesmo que o autor o tenha pedido inadvertidamente.

Ao contrário, os demais motivos para a rescisão da sentença, capitulados no art. 485, V,


VI, VII, VIII e IX, ensejam o pedido de cumulação dos juízos para novo julgamento da
causa pelo Tribunal.
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CUMULAÇÃO DE JUÍZES NA AÇÃO RESCISÓRIA

A atividade do Tribunal, no juízo rescisório, se exerce em função de sua competência


originária para processar e julgar a ação rescisória que, relativamente a qualquer um
dos motivos enumerados nos citados itens do art. 485, visa a obter a tutela jurisdicional
em ambos os juízos, rescindente e rescisório.

Nesses casos o Tribunal irá julgar, novamente, o mérito da causa, que já foi decidido,
em l .ª instância, pela sentença rescindida, o que não acontece naquelas hipóteses,
anteriormente examinadas, dos ns. I, II, III do art. 485 e letras "a" e "b" do art. 487,
em que o motivo de rescisão da sentença não diz respeito ao mérito da causa, mas,
apenas, ao processo e, por isso, não enseja o juízo rescisório.

É a existência de matéria, que constitua objeto próprio do julgamento no rescisório, que


justifica a cumulação dos juízos e faz com que a competência do Tribunal não importe
supressão do 1.º grau de jurisdição.

Quando o Tribunal, no rescisório, corrigindo o vício da sentença, rescindida, atinente ao


mérito da causa, profere um novo julgamento expurgado; ele está atuando no âmbito de
sua competência originária e a ação rescisória, no caso, produzindo o efeito peculiar da
restitutio in integrum.

Quanto ao motivo da descoberta de documento novo, do art. 485, VII, que sustentamos,
em escrito anterior, não comportar julgamento no juízo rescisório (cf. "Rescisória por
descoberta de documento novo", in Estudos de Direito Processual em Homenagem a
José Frederico Marques, Saraiva, 1982, p. 298) reflexão posterior levou-nos a modificar
aquele entendimento, por se tratar de um motivo que é relacionado com o julgamento
do mérito da causa.

As observações a propósito dos casos que possibilitam novo julgamento, no juízo


rescisório, concorrem para a elaboração do segundo princípio normativo, fundado na
distinção entre os motivos de rescisão da sentença que dizem respeito ao processo e os
que concernem ao mérito: somente os motivos de rescisão atinentes ao mérito da causa
autorizam a cumulação dos juízos.

O terceiro princípio normativo procede da distinção entre as duas espécies de


competência do Tribunal: a originária e a recursal.

Como a rescisória não é um recurso com efeito devolutivo, a exemplo da apelação, mas
uma ação com a finalidade de submeter ao julgamento do Tribunal o motivo de
rescindibilidade argüido contra a decisão rescindenda, é preciso afastar-se a falsa regra
de que "devolvit negotium ad cognitionem iudicis superiores ad instar appellationes",
consoante a sábia advertência de Pontes de Miranda (Comentários, Forense, 1975, t.
VI/246 e 493).

Falsa regra que teria levado o Prof. José Frederico Marques a escrever que, "além de
anular o julgamento rescindendo, esse órgão judiciário ainda revê a sentença ali
proferida, tal como no recurso de devolução plena sobre ,o thema decidendum" (Manual
cit., v. 3/266).

O efeito devolutivo, como acentua Sergio Bermudes, é conseqüência natural da


apelação. "É esse efeito que realiza, em sua plenitude, o princípio do duplo grau de
jurisdição, de vantagens evidentíssimas" (Comentários ao Código de Pro cesso Civil, Ed.
RT, 2.ª ed., 1979, v. VII/133).

Não é com a competência recursal, de órgão do 2.º grau de jurisdição, que o Tribunal irá
julgar novamente a causa, mediante a devolução do seu conhecimento, mas com a
competência originária de órgão de instância única. Diferentes em sua natureza, as duas
competências do mesmo órgão não se confundem: a originária, para o julgamento de
uma ação, em instância única; a recursal, para a realização do princípio do duplo grau
de jurisdição.

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CUMULAÇÃO DE JUÍZES NA AÇÃO RESCISÓRIA

O quarto princípio normativo refere-se aos dois pressupostos da instauração do juízo


rescisório: primeiro, que o autor da ação tenha feito pedido expresso de novo
julgamento da causa; segundo, que o Tribunal, em razão do motivo de rescindibilidade
argüido contra a sentença, tenha competência para julgar, novamente, a matéria sobre
que versou a decisão rescindida de l.ª instância.

Se o autor da ação não tem interesse em novo julgamento da causa e, por isso, não o
pediu expressamente, ou o motivo argüido contra a sentença é atinente ao processo, o
Tribunal não passa para o rescisório, que é restrito à apreciação do mérito da causa.

Sem a verificação desses dois pressupostos o juízo rescisório não se instaura


validamente.

8. A elaboração dos denominados "princípios normativos", que emergem da análise


circunstanciada da estrutura do julgamento da ação rescisória, apresenta-se despida de
qualquer veleidade doutrinária, uma vez que sua confessada finalidade prática é de
orientar a identificação e seleção dos casos em que é possível a cumulação dos juízos,
não obstante possa aspirar ao reconhecimento de sua primazia, em face dos parcos
pronunciamentos conhecidos sobre essa tormentosa questão.

Além da hipótese da rescisória por ofensa à coisa julgada, que é indicada pela
generalidade dos autores como exemplo de caso em que não pode ocorrer a cumulação
dos juízos, poucos outros exemplos foram lembrados, de maneira esparsa, pelos
doutrinadores.

O Prof. Luiz Eulálio B. Vidigal estabeleceu, como regra geral, que, "nas ações meramente
declaratórias não há necessidade de nova sentença quando rescindida a sentença
declaratória. Igualmente, nas ações constitutivas em que o autor foi vencedor", Segundo
o mestre, "o novo julgamento é necessário nas ações condenatórias e constitutivas em
que o autor, vencido, obtém ganho de causa na rescisória" (Comentários cit., p. 194).

A opinião do Prof. Vidigal foi reproduzi da, sem qualquer aditamento, ou explicação, pelo
professor Marcos Afonso Borges ( Comentários ao Código de Processo Civil (LGL\1973\5)
, Universitária de Direito, São Paulo, 1975, v. 2/202) e pelo Prof. Rogério L. Tucci (Da
Ação e do Processo Civil, cit., pp. 45 e 46)

O Prof. José Frederico Marques, lembrando que casos há em que basta a anulação da
sentença passada em julgado, para que tudo se resolva, cita como exemplo a rescisão
de sentença proferida em ação declaratória, "pois anulada a decisão, desaparece,
incontinente, sua eficácia como preceito" ( Manual cit., p. 266).

A lição do Prof. José Frederico Marques foi acolhida por Modestino Martins Netto (Da
Ação Rescisória Cível e Trabalhista, ed. Trabalhistas, Rio de Janeiro, 1976, p. 148).

Para Sérgio Rizzi, "vezes há em que não cabe o juízo rescisório, como quando há
rescisória com fundamento na colusão das partes para fraudar a lei, art. 485, III, 2.ª
parte" ( Ação Rescisória cit., p. 7).

Discorrendo sobre a cumulação de juízos, Manoel Alceu Afonso Ferreira acentua que
"pode haver ocasiões em que tal acumulação seja totalmente impossível. Veja-se o caso
da ação rescisória fundada na incompetência absoluta do juiz que prolatou a sentença"
(conferência in Estudos sobre o novo Código de Processo Civil (LGL\1973\5), Resenha
Tributária, s/d, p. 168 e O Processo Civil, coletânea de conferências, Associação dos
Advogados de São Paulo, 2.ª ed., 1974, p. 101).

Coqueijo Costa, em sua monografia, repetiu esses mesmos três exemplos:

"Nunca se dá acumulação, p. ex., se o fundamento da rescisória é a ofensa à coisa


julgada, pois o corte restabelece automaticamente a decisão anterior agredida; se o
fundamento é a incompetência absoluta, porque se remeterão os autos ao órgão
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CUMULAÇÃO DE JUÍZES NA AÇÃO RESCISÓRIA

competente; se a sentença é meramente declaratória, ou constitutiva a favor do autor


na ação antecedente, pois o réu, autor na rescisória, procura simplesmente
desconstituí-la" ( Ação Rescisória, ed. Litr. e EDUSP, São Paulo, 1981, p. 88).

Segundo o Prof. José Carlos Barbosa Moreira, "a ressalva "se for o caso" atende a que,
por exceção, em certas hipóteses, ou a) basta o pedido de rescisão da sentença - v.g. se
o fundamento é a ofensa à autoritas rei iudicataede sentença anterior sobre a mesma
lide; ou b) à rescisão não se há de seguir, incontinenti, o rejulgamento da causa pelo
próprio tribunal, tornando-se necessária, em vez disso, a remessa a outro órgão, v.g. se
o fundamento é a incompetência absoluta do que proferira a sentença", a menos que
competente fosse o órgão mesmo que funcionou no iudicium rescindens (Comentários
cit., p. 178).

Humberto Theodoro Júnior, tendo ensinado que, "aliás, só há uma hipótese em que a
cumulação não ocorrerá, e que é a de ofensa à coisa julgada (art. 485, IV) onde a ação
rescisória apenas desconstituirá a sentença impugnada" (Lições de Direito Processual
Civil, Rio Grande, Uberaba, 1975, p. 248, repetido em Curso de Processo Civil, ed. Rio,
2.ª ed., 1976, p. 183) posteriormente reviu seu ensinamento e ampliou a lição,
escrevendo que, "aliás, na prática, só há três hipóteses em que a cumulação não
ocorrerá: a) a de ofensa à coisa julgada (art. 485, IV) onde a ação rescisória apenas
desconstituirá a sentença impugnada; b) a de juiz peitado (art. 485, 1); e c) a de juiz
impedido ou absolutamente incompetente (art. 485, 11); porque, nos dois últimos
casos, toda a instrução do processo será anulada e o feito terá que ser renovado em 1.ª
instância" (Processo de Conhecimento, Forense, 1981, t. 11/816, repetido em Curso de
Direito Processual Civil, Forense, 1985, v. 1/695).

Pontes de Miranda, nos Comentários ao Código de 1973 reproduziu as passagens dos


Comentários ao Código de 1939, a propósito da questão da cumulação dos juízos, para
reafirmar seu entendimento, o que fez, também, na última edição de sua monografia (cf.
Comentários, 2.ª ed. 1960, t. X/129, 132, 157, 158, 288 e 321, 305, 306, 307, 311;
Comentários, 1975, t. VI/244 e 493, 246 e 493, 397,398,399,403,448).

Ao se referir aos casos em que ao juízo rescindente não se segue o rescisório, limitou-se
o grande comentador a repetir o que escrevera anteriormente, sem inovar nem apontar
qualquer outro exemplo: "É sem rescisoriedade a sentença rescindente e não deixa
margem, sequer ao rescisório, se negou a pretensão à tutela jurídica, ou a pretensão
processual (exercício daquela); ou afirmou o impedimento ou a prevaricação, concussão
ou corrupção do juiz, ou a sua incompetência ratione materiae, ou a falsidade do
documento ou da prova cuja falta não pode ser suprida por outra, ou a nulidade ab initio
do processo" (Comentários, 1960, t. X/307; Comentários, 1975, t. VI/399; Tratado da
Ação Rescisória, 5.ª ed., p. 541).

Em dois escritos posteriores sobre a ação rescisória, o saudoso jurista não tratou da
questão da cumulação dos juízos (cf. Tratado das Ações, Ed. RT, 1973, t. IV /499 a 602;
verbo "Ação Rescisória" in Digesto do Processo, Forense, 1980, V. 1/266 a 277).

Para outros autores a questão da cumulação dos juízos, bem ou mal, foi resolvida pelo
Código, "que pôs fim à interminável discussão doutrinária, que se deixava lastrear na
omissão da codificação revogada", de sorte que, atualmente, "a discussão é meramente
acadêmica" (cf. Rogério L. Tucci, Curso de Direito Processual - Processo Civil de
Conhecimento, J. Bushatsky, s/d, p. 198; Sérgio Sahione Fadel, Código de Processo Civil
(LGL\1973\5) Comentado, 5.ª ed., Forense, 1985, V. 11/105; Antônio Macedo de
Campos, Ação Rescisória de Sentença, Sugestões Literárias, 1976, p. 138).

Como a ressalva "se for o caso" não resolveu a questão, porque deixou em aberto, para
ser solucionado pela doutrina, o problema da identificação de quais são esses casos, a
discussão a respeito está longe de ser meramente acadêmica, em razão de seu inegável
alcance prático.

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CUMULAÇÃO DE JUÍZES NA AÇÃO RESCISÓRIA

Ao que tudo indica, apesar do reconhecimento da importância da questão, os


doutrinadores não se animaram a proceder a uma investigação mais ampla,
possivelmente imbuídos de ceticismo quanto a possibilidade de resultados satisfatórios,
a exemplo do Prof. Vidigal, Contentaram-se com respigar uns poucos exemplos sem o
menor critério seletivo.

Diante da inexpressiva contribuição da doutrina, para o esclarecimento das sérias


dúvidas resultantes da indeterminação do Código, quanto aos casos em que é possível
ocorrer a cumulação dos juízos, o presente trabalho inscreve-se na linha pioneira da
pesquisa original.

Fruto de amadurecida reflexão sobre os aspectos fundamentais do relevante problema


processual, é, contudo, como já foi dito, uma simples tentativa de formulação de alguns
princípios de cunho normativo, que sirvam para orientar a identificação e seleção desses
casos. Nada mais.

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