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MARIA CLARA SOUTO FERRAZ

O SERTANEJO NORDESTINO – representações culturais brasileiras


de resistência e de fé

UBERLÂNDIA-MG
2004
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MARIA CLARA SOUTO FERRAZ

O SERTANEJO NORDESTINO – representações culturais brasileiras


de resistência e de fé

Dissertação apresentada ao Instituto de


História da Universidade Federal de
Uberlândia como exigência parcial para
obtenção do título de Mestre em História
sob orientação da Profa. Dra. Christina
da Silva Roquette Lopreato.

UBERLÂNDIA - MG
2004
FICHA CATALOGRÁFICA
Elaborado pelo sistema de Biblioteca da UFU / Setor de
Catalogação e Classificação / mg

F381s Ferraz, Maria Clara Souto.


O Sertanejo nordestino : representações culturais brasileiras de
resistência e de fé / Maria Clara Souto Ferraz. – Uberlândia,
2004.
116f : il.
Orientador: Christina da Silva Roquette Lopreato.
Dissertação (mestrado) - Universidade Federal de Uberlân-
dia, Programa de Pós-Graduação em História.
Inclui bibliografia.
1. História social – Teses. 2. Religião e cultura – Brasil, Nor-
deste – Teses. 3. Cultura popular – Brasil, Nordeste – Teses. I. Lo-
preato, Christina da Silva Roquette. II. Universidade Federal de
Uberlândia. Programa de Pós-Graduação em História. III. Título.

CDU: 930.2:316 (041.3)


MARIA CLARA SOUTO FERRAZ

O SERTANEJO NORDESTINO – representações culturais brasileiras


de resistência e de fé

Este Exemplar corresponde à redação final


da dissertação defendida e aprovada pela
Banca Examinadora em 24 de junho de
2004.

_______________________________________________
Profa. Dra. Christina da Silva Roquette Lopreato - UFU

_______________________________________________
Profa. Dra. Jacy Alves de Seixas - UFU

_______________________________________________
Profa. Dra Márcia Regina C. Naxara – UNESP/Franca

Uberlândia
2004
Agradeço

À Christina da Silva Roquette Lopreato sinceros agradecimentos pela grande ajuda.

À Jacy Alves de Seixas com quem pude dialogar sobre representações.

Aos professores: Antônio de Almeida, Vera Puga, Karla Bessa, Darli de Oliveira.

Aos meus colegas da IV turma de Mestrado da Linha Política e Imaginário.

Aos amigos: Selma, Miriam, Idelfonso, Cristiane, Marileusa, Mírian, Vicente, Cibele,
Terezinha, Gilson, Delí, Murilo e Sírley.

Aos meus filhos: Maurício, Ana Maria e Gabriela que compartilharam comigo muitos
momentos...

Ao companheiro Wagner pelo apoio no percurso deste trabalho.


Às crianças sertanejas.
Resumo

Esta dissertação de Mestrado analisa um conjunto de representações culturais


brasileiras, elaboradas nas Artes Literárias e Plásticas que buscam revelar o sujeito do
contexto sertanejo-nordestino nas suas práticas socioculturais. Elegi as constelações da
forte religiosidade e da resistência de vida como elementos característicos expressivos
do sertanejo nordestino e que formam a base para a criação das representações
históricas. Razão e sensibilidade se entrecruzam nesta pesquisa.

Palavras-chave: sertanejo, sertão, imagem, representações, práticas socioculturais,


povo brasileiro, sensibilidade.
Résumen

Esta disertación de Maestria analizar um conjunto de representaciones culturales


brasilenãs, elaboradas em las Artes Literarias y Plásticas que buscan revelar el sujeto del
contexto sertanejo-nordestino em sus prácticas socioculturales. Elegí las constelaciones
de la fuerte religisiocidad y de la resistencia de vida como elementos característicos
expresivos del “sertanejo” nordestino y que forman la base para la creación de las
representaciones históricas. Razón y sensibilidad se entrecruzan en esta investigación.

Palabras-claves: “sertanejo”, “sertão”, imágen, representaciones, prácticas


socioculturales, población brasilenã, sensibilidad.
Sumário

Resumo

Lista de Imagens: fotografias e figuras

Introdução

Uma Trajetória Imagética .................................................................................................................... 11

PARTE I

O Sertanejo Nordestino: o homem regional – práticas religiosas e de (sobre)vida. 28

PARTE II

Representações sertanejas nas Artes Literárias e Plásticas brasileiras .......................... 64

Considerações finais ............................................................................................................................. 101

Referências bibliográficas e materiais usados ..................................................................... 105


Lista de imagens: fotografias e figuras

Introdução: Uma Trajetória Imagética ....................................................................................... 11

Figuras 1, 2 – Mapas geográficos – Complexo Regional Nordestino ........................... 15


Foto 1 – Feira pública – Taiobeiras – Norte de MG ............................................................. 16
Foto 2 – Feira pública – Taiobeiras – Norte de MG ............................................................. 17
Foto 3 – Festa popular de Folia de Reis – Taiobeiras – MG ............................................ 17
Foto 4 – Trabalhador Rural – André Fernandes – MG ....................................................... 18
Foto 5 – Santo Cruzeiro dos Martírios – Taiobeiras – MG ............................................... 19
Foto 6 – Imagem de Nossa Senhora de Fátima – Taiobeiras – MG .............................. 19
Figura 3 – Gravura em Metal (Água-Forte e Água-Tinta) – Mistério............................ 21
Figura 4 – Gravura em Metal (Água-Forte e Água-Tinta) – Oração sertaneja ....... 21
Figura 5 – Gravura em Metal (Água-Forte e Água-Tinta) – Devoção ......................... 22
Figura 6 – Gravura em Metal (Água-Forte e Água-Tinta) – Procissão ....................... 22
Figura 7 – Gravura em Metal (Água-Forte e Água-Tinta) – Prece ................................ 22
Figura 8 – Gravura em Metal (Água-Forte e Água-Tinta) – Prece do viandante ... 23

PARTE I: O Sertanejo Nordestino: o homem regional – práticas religiosas e de


(sobre) vida .......................................................................................................................... 28

Foto 1 – sertão nordestino em época de seca – Palmas do Monte Alto – BA .......... 33


Foto 2 – sertão nordestino em época de seca – Palmas do Monte Alto – BA .......... 33
Foto 3 – sertão nordestino em época de seca – Paraíba ...................................................... 33
Foto 4 – Represa de Sobradinho – Pilão Arcado – BA ........................................................ 34
Fotos 5, 6 – na estrada – BR 242 – sertão da Bahia .............................................................. 35
Foto 7 – na estrada – BR 242 – sertão da Bahia ..................................................................... 35
Foto 8 – Criança sertaneja – Contendas do Sincorá – BA ................................................. 36
Foto 9 – Três irmãos – Contendas do Sincorá – BA .............................................................. 36
Foto 10 – Sertaneja no Açude – Pilão Arcado – BA .............................................................. 37
Foto 11 – Rendição de conselheristas – Canudos – BA (1897) ....................................... 37
Foto 12 – Vaqueiro/jagunço – Canudos – BA (1897) .......................................................... 38
Foto 13 – Crianças no chão (detalhe) – Vale do Jequitinhonha – MG ........................ 38
Foto 14 – Retirantes em 1963 – sertão da Paraíba .................................................................. 39
Foto 15 – O andarilho – Barra da Estiva – BA ........................................................................ 40
Foto 16 – O vaqueiro das caatingas – Curaçá – BA ............................................................. 40
Foto 17 – O artesão – Itinga – MG ................................................................................................. 42
Foto 18 – Festa de vaquejada (detalhe) – Curaçá – BA ...................................................... 48
Foto 19 – Adriana e família – Ibitiara – BA .............................................................................. 48
Foto 20 – Romeiros no culto a Padre Cícero (det.) – Juazeiro do Norte – CE ........ 51
Foto 21 – Canudos incendiada (1897) – Canudos – BA ..................................................... 51
Foto 22 – Igreja de Bom Jesus destruída em 1897 – Canudos – BA ............................ 52
Foto 23 – Caminhão de romeiros – Bom Jesus da Lapa – BA ......................................... 53
Foto 24 – Romeiro – Bom Jesus da Lapa – BA ........................................................................ 54
Foto 25 – Banca de artigos religiosos – Bom Jesus da Lapa – BA ............................... 54
Foto 26 – Entrada do Santuário – Bom Jesus da Lapa – BA ........................................... 55
Foto 27 – Interior do Santuário – Bom Jesus da Lapa – BA ............................................ 55
Foto 28 – Imagem de Bom Jesus Morto – Bom Jesus da Lapa – BA ............................ 56
Foto 29 – Ex-votos – Bom Jesus da Lapa – BA ....................................................................... 57
Foto 30 – Ex-votos – Bom Jesus da Lapa – BA ....................................................................... 57
Foto 31 – O toque – Bom Jesus da Lapa – BA ......................................................................... 58
Foto 32 – Rezas, orações e luz – Bom Jesus da Lapa – BA ............................................... 58
Foto 33 – Cemitério público – Taiobeiras – MG .................................................................... 59
Foto 34 – Cemitério público – região de Suçuarana – BA ................................................. 59
Foto 35 – Imagem sacra – Mucujê – BA ..................................................................................... 60

PARTE II – Representações sertanejas nas Artes Literárias e Plásticas


Brasileiras ................................................................................................................ 64

Figura 1 – Delenga Canudos! – óleo sobre tela – Trípoli Gaudenzi ............................. 66


Figura 2 – Enterro na Rede – óleo sobre tela – Cândido Torquato Portinari .......... 84
Figura 3 – marca d´água e expressão gráfica sobre a pintura Enterro na Rede de
Cândido Torquato Portinari ...................................................................................... 85
Figura 4 – Menino Morto – óleo sobre tela – Cândido Torquato Portinari .............. 86
Figura 5 – Família de Retirantes – óleo sobre madeira – Cândido T. Portinari ..... 87
Figura 6 – Mater Dolorosa ou Pietá – escultura gótica do século XIV – Bona –
Alemanha ............................................................................................................................. 88
INTRODUÇÃO

Uma Trajetória Imagética


12

Uma Trajetória Imagética

Em 1999, defendi Monografia em Artes plásticas na UFU – Universidade


Federal de Uberlândia apresentando um trabalho intitulado A Expressividade na Cultura
Religiosa do Sertanejo – uma visão na gravura em metal, que priorizava as relações
entre percepções e linguagem plástica. A pesquisa teórico-prática teve como objetivo a
elaboração de imagens, na linguagem artística da gravura em metal ou gravura
calcográfica (Água-Forte e Água-Tinta), a partir de algumas observações e de estudos
nas artes literárias e plásticas sobre o universo religioso/cultural do homem sertanejo
nordestino – especificamente delimitado nos sertões do Ceará ao norte de Minas Gerais,
região denominada geograficamente como Complexo Regional Nordestino, onde
presenciei cenas que me marcaram profundamente.
Sertão. Interior nordestino com suas características marcantes e costumes em
comum: forte religiosidade (intensidade religiosa regional brasileira com base no
catolicismo popular), tradições dos ofícios e dificuldades diárias de vida dos homens.
Imagens que não me distraem a atenção das experiências sociais coletivas. Esclareço
que, no estudo sobre o sertão/sertanejos iniciado para o trabalho plástico e que se
estende aos dias atuais, busco um conceito concreto que se abre na análise das relações
humanas, percebendo as manifestações dos ritos religiosos, das formas de expressão
perante a vida, dos gestos e das falas do sertanejo. Procuro perceber os costumes e as
práticas sertanejos associados e arraigados à realidade sócio/material da vida nas suas
ações significativas regionais, porém unidas sob a égide de uma mesma sociedade
nacional.
Após a aquisição de conhecimentos sobre o processo de criação plástica foi
preciso, também, desenvolver pesquisa bibliográfica e imagética sobre a religiosidade e
a resistência do homem sertanejo, no sentido não teológico, mas cultural e artístico, cujo
foco para a pesquisa foi a expressividade religiosa como elemento para a representação
plástica.
13

Alguns autores foram essenciais para a fundamentação teórica da Monografia: os


brasileiros literatos Euclides da Cunha (1902), Graciliano Ramos (1938) e Francisco
Dantas (1995), artistas plásticos Trípoli Gaudenzi (1997) e Cândido Torquato Portinari
(1944) foram relevantes para a formulação do texto monográfico juntamente com a
complementação bibliográfica de referências imagéticas que trabalharam o tema
político-social do homem brasileiro. Representações que se cruzam e me permitem
juntar os olhares das múltiplas figuras sertanejas de um quadro sócio-estético no Brasil.
Esclareço que as obras de Darcy Ribeiro e a convivência direta com o antropólogo em
Montes Claros – MG colocaram-me, questionamentos sobre o povo brasileiro e que,
ainda hoje, encontro na obra O Povo Brasileiro – 1995 a diversidade de situações
regionais que pode representar os vários Brasis e os variados contingentes humanos
existentes. Comunidades que se projetaram nos variados grupos constitutivos das áreas
socioculturais brasileiras, do litoral como zona açucareira e o interior com os currais de
gado até os núcleos mineiros do centro do Brasil, o extrativismo da Amazônia e os
pastoris do sul com características de vigor e flexibilidade, associada aos ajustamentos
locais e às variações ecológicas regionais. Núcleos regionais que se mantém aglutinado
numa só nação, como povo-nação englobados numa unidade cívica e política1. Ribeiro
pontua o Brasil-sertanejo marcado por sua especialização ao pastoreio, pela dispersão
espacial e aridez, com traços característicos identificáveis no modo de vida. Brasil
sertanejo, região do vaqueiro, do jagunço, do retirante que se encontra pelas estradas
com a presença sombria de sua miséria2 e do homem de fé centralizados nos cemitérios
e igrejas dispersos pela região.
Considerando que a religiosidade e a resistência estão presentes no sertão
nordestino brasileiro e no sertanejo, busquei aprofundar este tema tão rico em conteúdo
de expressão partindo deste universo de grande sincretismo religioso, imagético e social
que, por vezes, surpreende com manifestações relevantes, passíveis de um estudo mais
sistematizado e de possíveis registros gráficos e poéticos. Materializando a percepção,
criando a memória, transmitindo e sistematizando construí imagens a partir da
observação das práticas e da mediação entre homens e mundo. As 16 imagens
produzidas tiveram como tema o homem, a sua luta e a sua fé religiosa registrados
graficamente para eternizar o efêmero das emoções contidas nos rituais religiosos

1
- RIBEIRO, Darcy - O Povo Brasileiro – a formação e o sentido do Brasil, 2ª ed. 18ª imp., São Paulo:
Cia. das Letras, 1995, p.269.
2
- idem, p. 348.
14

observados nesta região do Complexo Regional Nordestino – região sertaneja


caracterizada por uma comunidade profundamente religiosa e de um poder de
resistência singular sintetizada no sertanejo nordestino.
Foi a partir do universo sociocultural do sertanejo que pude mergulhar em um
repertório visual, fazendo florescer imagens revestidas de expressão. A percepção e a
compreensão da religiosidade vivida do sertanejo deram o fundamento da consciência
crítica que se tornou necessária para a elaboração da pesquisa nas artes plásticas.
Através da sensibilidade artística, tentei conhecer a gente, os costumes religiosos, a vida
do homem no seu contexto cultural-religioso, traduzindo sempre questões internas e
pessoais refletidas e configuradas por meio de uma linguagem plástica, pois, a luta da
comunidade sertaneja contra a fome, a decadência das atividades tradicionais do açúcar
e do algodão, a destruição, as secas prolongadas têm raízes profundas e históricas. Na
longa estiagem, parte dos sertões funciona como semi-deserto. O fator climático afeta
drasticamente quase toda a região sertaneja, excetuando somente algumas áreas de
chapada, como exemplo – a Chapada Diamantina. A seca atinge 11 milhões de
moradores, metade deles tenta sobreviver de uma agricultura básica de subsistência
como a mandioca, o feijão e o milho. Com suas práticas e seus costumes e pela
aceitação da vontade de Deus, o sertanejo promove ações que o ajudam a (sobre)viver.
A fé não é apenas uma esperança. É uma certeza da alma, visível nos olhares,
ritos e manifestações religiosas. A religiosidade e a resistência do sertanejo se estendem,
portanto, para um mundo social, expressivo e normativo na região do sertão nordestino
com inserção religiosa e práticas de vida inseparáveis da cultura regional. As
manifestações de vida sociocultural passam a ser compreendidas como fatos, com
características próprias, associada à vida e à capacidade de criar e recriar o próprio
cotidiano com elementos presentes na tradição e no universo social.
A religiosidade é um dos fenômenos mais significativos do catolicismo,
geograficamente delimitado na região dos sertões. A região, como já indiquei acima,
denominada geograficamente Complexo Regional Nordestino – “Polígono das Secas” -
Figuras 1 e 2 – constituída pelo Meio-Norte típico, Zona da Mata, Agreste e pelos
sertões do Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Alagoas, Sergipe,
Bahia, Pernambuco e norte de Minas Gerais passa a ser analisada como categoria
arraigada na cultura como realidade histórica, incluindo a categoria sertão e o sertanejo.
Haveria, assim, na região de que se ocupa essa dissertação sobre o sertão, uma gradação
15

de aspectos climáticos e de vegetação e, por conseqüência, de atividades econômicas e


culturais com alguns traços em comum.

Figs. 1e 23 – Mapas geográficos - Complexo Regional Nordestino (Polígono das Secas)

A região do sertão nordestino é de vegetação de caatinga – “mata-branca”, de


origem tupi, devido à luz que nela penetra4. É um ambiente natural exclusivamente
brasileiro. Ocupa 10% do território brasileiro com clima semi-árido com concentração
de chuva somente em poucos meses, com duas estações: a seca de março a outubro e a
chuvosa de novembro a março, com temperatura de até 40° graus. O sertão é o espaço
onde se desenvolvem atividades econômicas tradicionais como a pecuária extensiva de
corte. Os rios são intermitentes - com exceção do Rio São Francisco - e a distribuição
de terras se concentra nas mãos de poucos.
As condições geográficas facilitaram o povoamento por meio de currais de
criação, em toda a região sertaneja: o relevo unido se desdobrando em chapadas
imensas; a vegetação esparsa da caatinga permitiu a ocupação de terras sem muito
esforço de desbastamento, com presença de afloramentos salinos para o gado.
Capistrano de Abreu5 (1954) fala da Civilização do Couro e percebe, de uma
perspectiva sensível, os costumes dos sertanejos no vestuário – o gibão, o chapéu, as

3
- Fonte dos Mapas: VESENTINI, J. William e VLACH, Vânia – Geografia Crítica – o espaço social e
o espaço brasileiro, 7ª ed. São Paulo: Ática, 1996, pp.115 e 117.
4
- Informações in loco da Equipe de pesquisadores da Fundação Zôo-Botânica da Prefeitura de Belo
Horizonte – MG – outubro de 2003 em Pedra Azul – MG.
5
- ABREU, Capistrano de - Capítulos de História Colonial (1500-1800), Rio de Janeiro: Ed. Da Soc.
Capistrano de Abreu, 1954.
16

botas, as alpercatas; na alimentação – o leite e carne, na habitação – o rude leito


aplicado ao chão duro ou em catres.
Quem caminha pela vastidão da região, descobre-se no cenário de um espetáculo
de fé: romarias, cânticos, cruzes, santuários, festas de santos. Celebrações rituais onde
há uma fusão dos elementos da cultura européia, índia e africana.
A energia contida nas ações físicas, nas preces, na simbologia, nos costumes, nas
lutas de vida fizeram-me atentar para as práticas socioculturais que circundam este
contexto regional, absorvidas e filtradas através da percepção e do olhar. Descobri
novos saberes em gestos que configuram uma relação com o sertão e sertanejos em
complementos e revelações. Flagrados no seu cotidiano, pude observar, ao longo dos
anos, a importância religiosa-cultural nos sertões, pois a integração de ação real seja ela
nas feiras públicas, nas festas populares, nos espaços sagrados e na luta de vida no
ambiente árido se constituíram como força imagética geradora de emoção pessoal.
As fotos6 a seguir registram alguns aspectos da vida cotidiana nos sertões. Fotos
1 e 2- Feirantes aos sábados se reúnem em praça pública onde vendem seus produtos
fabricados ou produzidos nas roças como a farinha de mandioca, o feijão ou o
artesanato de palha, madeira, couro ou cerâmica. Objetos cujos elementos têm uma
integração com a natureza. O espaço público da feira também é local de encontros de
preces e cânticos ou de receitas caseiras de culinária ou de curas para as doenças e
esperança na prática da medicina popular.

Foto 17 – Feira Pública- Taiobeiras


norte de MG - 1996

6
- As fotografias de minha autoria serão identificadas, ao longo dessa dissertação, nas notas de rodapé
como acervo pessoal, identificadas com local e data. De igual maneira, as fotos e figuras de outros autores
serão registradas pelo nome do autor e referência bibliográfica, também, nas notas.
7
- Acervo pessoal – Taiobeiras –MG - 1996
17

Foto 28 – Feira pública - Taiobeiras


norte de MG - 1996

Nas Festas de Folia de Reis – Foto 3 – os tocadores de viola (enfeitada com fitas
coloridas que representam as cores da santa) entram de casa em casa representando a
chegada dos Três Reis Magos em visita à Nossa Senhora pelo nascimento de seu filho
Jesus e cantam:

Nós não são rico,


Mas não podemos
esquecer daquela glória
que Ele mandou para nós...9

Foto 310 – Festa Popular de Folia de Reis – Taiobeiras –


norte de MG – 06 de janeiro de 1993.

8
- Acervo pessoal – Taiobeiras – MG - 1996
9
- Cântico elaborado no grupo de Folia “Reiseiros de Taiô”, em 06 de Janeiro de 1993, Taiobeiras – MG.
10
- Acervo pessoal – Taiobeiras – MG - 1993
18

A luta diária do agricultor – Foto 4 - se expressa na lavoura com a expectativa


do dia santo da chuva – dia de São José (19 de março), quando o sertanejo oscila entre o
sertão seco e o sertão chuvoso. Rupturas que representam dramas para os pequenos
sitiantes e camponeses.

Foto 411 – Trabalhador rural


André Fernandes – norte de MG – 1996

Em Taiobeiras (MG), o marco histórico da cidade: o cruzeiro – Foto 5 – que foi


levantado, no século XIX, como marco de penitência religiosa quando os devotos
faziam longas caminhadas carregando as imagens de Santo Antônio e de Nossa Senhora
do Perpétuo Socorro, pedras, sacos de areia e potes com água para deixá-los em um
pequiseiro onde rezavam e pediam chuva. No local, foi erguido o Santo Cruzeiro dos
Martírios, em 1897, pelo Padre Esperidião Gonçalves dos Santos de Rio Pardo – MG.
Com instrumentos relacionados com o martírio de Jesus Cristo confeccionados em
madeira: a figura do galo, que cantou depois de Pedro ter negado a Cristo por três vezes,
os cravos que o pregaram na cruz, a coroa de espinhos, a toalha de Verônica, a escada
que foi usada para descer Jesus, o crânio da morte... A tradição continua nos dias de
hoje com missa anual no dia de Todos os Santos que reúne devotos de toda a região.

11
- Acervo pessoal – André Fernandes – MG – 1996.
19

Foto 512 – Santo Cruzeiro dos Martírios


Taiobeiras – norte de MG – 1996

Na igreja, que permanece aberta durante todo o ano, destaca-se a imagem de


Nossa Senhora de Fátima. A festa religiosa tradicional acontece no mês de maio. As
velas constantemente acessas, revelam a presença dos devotos – Foto 6.

Foto 613 – Imagem de N. Sra. de Fátima


Taiobeiras – MG – 1996

12
- Acervo pessoal – Taiobeiras – MG – 1996.
13
- idem – Taiobeiras – MG – 1996.
20

As gravuras em metal, enquanto arte, pela composição, pela proporção, pela


combinação de meios tons e linha gráfica e a proposta do tema sobre o homem regional
e seus costumes religiosos compõem uma narrativa imagética em que se percebe o
universo sertanejo pela ótica realista na possibilidade intimista (que gera aproximações)
da gravura. Com preocupações sobre as práticas socioculturais do sertanejo, procurei
registrar nas gravuras que se seguem (Figuras de 3 a 8) os costumes religiosos do sujeito
histórico-social dos sertões expressando sofrimento, miséria ou esperança na formação
das representações.
O ambiente sertanejo inspira reverência e faz sentir a grandeza de uma
religiosidade resistente e vivida quando a comunidade sertaneja se integra aos
conteúdos da fé (nas reflexões sobre o céu, inferno e o pecado mortal); às condutas da fé
(procissões, festas devocionais, que se referem a estes conteúdos da fé; às normas
tradicionais (passadas de geração em geração) e aos meios concretos (votos, novenas,
crucifixos, estátuas, manipulação de medalhas, culto às almas); às práticas
socioculturais do catolicismo popular, nas formas sintéticas, nas quais os ritos e as
manifestações se expressam por sentimentos).
A religiosidade expressiva e normativa do contexto histórico sertanejo é
percebida no comportamento cotidiano, nas igrejas e nos símbolos devocionais
reforçando a crença e a fé do homem. O valor das manifestações de vida sertaneja
revela, dessa maneira, a importância e a coexistência entre as práticas socioculturais e a
arte usada na produção das gravuras, expressadas graficamente de forma a recortar
alguns momentos representativos do tema com abordagem na técnica da Água-Tinta ou
Água-Forte – recursos da gravura calcográfica. Técnica que se constitui a partir de uma
placa de metal (cobre) na qual é registrada a linha gráfica do desenho por meio de uma
“ponta-seca” (instrumento pontiagudo de metal) e mergulhada em ácido para corrosão.
Após entintamento, a placa composta com a expressividade imagética é colocada sobre
papel e comprimida em prensa especial.
Considerando que a religiosidade regional é um fato vivo e presente contida nas
ações, no semblante, no equilíbrio emocional entre o homem e o divino, as gravuras
representam o sincretismo religioso e o mundo iconográfico sociocultural do sertanejo.
Práticas absorvidas e registradas nos valores tonais – do branco ao negro da tinta talho-
doce, contraste de tratamento que contribui para o conteúdo expressivo que
proporcionou à gravura um clima denso, profundo. A incidência do elemento luz, os
crucifixos e velas expressam a esperança como intimidade ligada ao homem. Na
21

totalidade da imagem, o fenômeno do avanço-recuo formaram as vibrações e pulsações


que abrangeram aspectos trágico ou silencioso. A confluência do insight com a
materialidade permitiu a representação do contexto religioso sertanejo.
A seguir, alguns exemplos da produção das gravuras em 1998/99.

Figura 3 – Mistério
Água-Forte e Água-Tinta
0,23m x 0,19m

Figura 4 - Oração sertaneja


Água-Forte e Água-Tinta
0,17m x 0,25m
22

Figura 5 – Devoção
Água-Forte e Água-Tinta
0,16m x 0,15m

Figura 6 – Procissão Figura 7 - Prece


Água-Forte e Água-Tinta Água-Forte e Água-Tinta
0,09m x 0,12m 0,10m x 0,14m
23

Figura 8 - Prece do viandante


Água-Forte e Água-Tinta
0,13m x 0,12m

A produção, a defesa da Monografia nas Artes Plásticas e as exposições em


Uberlândia, Goiânia e Viçosa (veiculadas em redes de televisão, jornais, livro e museus
de arte) apontaram a persistência de algumas questões sobre o povo brasileiro, ainda a
serem enfrentadas. O tratamento dado à linguagem plástica permitiu-me o
estabelecimento de alguns vínculos com a História Social. Com muitos
questionamentos sobre a imagem e após cursos14 no Instituto de História da UFU
percebi que a arte das representações sobre o sertanejo não estava estanque em figuras
ilustrativas. Como imagens - fotográficas ou artísticas estava compondo o acervo visual
sobre o povo brasileiro como fonte e com elementos para a história? Utilizando a
análise de Gilson Goulart Carrijo (2002): trata-se, também, de observar no registro
fotográfico não somente aquilo que é visível, mas o que está fora da moldura15, no caso,
o detalhe, a figura, as ações na expectativa de historicizar a expressividade que se junta
à procura de indícios sobre as ações do sertanejo nordestino, ou seja, o objeto de
pesquisa. Nesta perspectiva, a percepção de novos elementos ampliaram o leque de

14
- Elenco aqui as disciplinas: Historiografia, História do Brasil I e II (onde percebi a utilização imagética
das artes plásticas e literárias como fonte historiográfica), História da América I e II, História Moderna II,
Antropologia Cultural II, Memória e História, Negros, Nação e Cidadania no Brasil além da participação
nos Seminários do NEPHISPO – Núcleo de Pesquisa em História Política.
15
- CARRIJO, Gilson Goulart - Fotografia e a Invenção do Espaço Urbano: considerações sobre a
relação entre estética e política, Dissertação de Mestrado em História – UFU – MG, 2002, p. 19.
24

interpretações das gravuras elaboradas nas artes plásticas juntamente com a constante
recorrência de personagens sertanejos que estariam, também, na História do Brasil
registradas nas Artes Literárias e Plásticas, na interlocução entre imagem e palavra.
A necessidade contínua de aprofundar a análise sobre o homem regional dos
sertões me levou a cursar o Mestrado em História, no qual pude dedicar-me a novas
perspectivas teóricas/metodológicas ligadas à minha pesquisa. A observação das
práticas de vida religiosa e a resistência do sertanejo em relação ao contexto regional se
tornam instigantes pelos aspectos efetivos na história brasileira entre diferentes
narrativas que foram capazes de dar conta da construção de representações. Tendo como
contraponto as teorias de Roger Chartier [1989] - O Mundo como Representação16 –
passei a pensar na possibilidade de articulação de um saber histórico baseado nas
noções de apropriação. O enfoque no campo das representações onde são constituídas as
imagens, voltado às vertentes de análise da busca de identidade brasileira, me permitiu o
contato com a área da linha de pesquisa Política e Imaginário que veio ao encontro de
uma percepção da forte presença de representações sertanejas em torno do conceito de
Brasil Moderno.
O contato com os estudos sobre a construção cultural da identidade brasileira,
em um processo histórico que se encontra em curso17, segundo Maria Stella Bresciani
(2002), possibilitou-me uma reflexão sobre a produção dessas mesmas representações
buscando articular minhas preocupações de pesquisa para a Dissertação à problemática
levantada quanto o conceito de Imagens. Esclareço que foi na produção e repercussão
das gravuras e estudos para a Monografia em 1999 – A Expressividade na Cultura
Religiosa do Sertanejo – uma visão na gravura em metal que deu-se o momento
importante para o desenvolvimento atual da pesquisa, imbricada no surgimento de
muitos questionamentos. Entre eles, destaca-se: estariam as múltiplas imagens do
sertanejo, existentes na cultura brasileira, fragmentadas e desconectadas do real? Neste
caso, a leitura das imagens produziria um deslocamento perturbador: seria mera
materialidade técnica, metodológica e epistemológica. Em função da necessidade de
uma análise sobre a produção pessoal e outras representações registradas nas artes
literárias e plásticas me aproximei, cada vez mais, do contexto regional sertanejo através
de reportagens de jornais, revistas, televisão, fotografias documentais (pensadas como

16
- CHARTIER, Roger - O Mundo como Representação, [1989], Estudos Avançados, 11 (5), 1991,
pp.173-191.
17
- BRESCIANI, Maria Stella - O Charme da Ciência e a Sedução da Objetividade – Oliveira Viana
interpreta o Brasil, Tese de Titular, IFCH/Universidade Estadual de Campinas, 2002.
25

elemento de revelação imagética) e em pesquisa de campo pelos sertões revisitados,


onde pude registrar e entrevistar homens, mulheres, crianças e acompanhar suas práticas
de vida, com diálogos na troca de experiências, pois, um rosto, um gesto ou uma
expressão verbal pôde revelar uma história. História que está também nos símbolos
presentes da religiosidade como cruzes, velas, luz e santuários que revelam uma cultura
onde meu olhar se funde ao sentimento na dialética do sentir e do pensar. Aproximei,
também, dos já citados autores literatos e artistas plásticos para entender a articulação
entre diferentes percepções de criação de identidades do sertanejo nas diferentes
linguagens.
Desta maneira, na primeira parte do trabalho – Parte I: O Sertanejo Nordestino:
o homem regional – práticas religiosas e de (sobre)vida... analiso aspectos das
manifestações e efeitos das práticas socioculturais nas constelações de resistência e de
religiosidade tradicionais do homem dos sertões. Elementos que (res)surgem como base
expressiva para as representações culturais. Abordadas na formação da historicidade e
nas relações das percepções no tempo e linguagens (literárias e plásticas), as
construções permitem o diálogo com a tradição de um fundo-comum18 sobre o tema
regional, cujo ponto central é a busca de identidade do povo brasileiro retomando
questões do imaginário.
A segunda parte – Parte II: Representações sertanejas nas Artes Literárias e
Plásticas Brasileiras enfoca as construções de representações temporais materializadas
na cultura – escrita ou imagética. A abordagem procura perceber os anseios
questionadores como dimensão crítica necessária e possível no momento específico da
contemporaneidade retroagindo aos finais do século XIX e elegendo as constelações da
religiosidade com elementos simbólicos como cruzes, rezas, ícones do catolicismo e da
resistência num ambiente insólito com o espírito de luta – tragédia, guerra, relações
com a natureza. Estes elementos socioculturais agregam valores às representações. O
enunciado se relaciona ao poder das imagens e confere aos trabalhos qualidades
estéticas no ritmo essencial que rege uma narrativa. Evocando uma situação que se
desdobra numa projeção identitária, esse prolongamento dinâmico de percepções traz à

18
- idem p. 59 – Maria Stella Bresciani utiliza o conceito fundo-comum de Myriam R. D’Allones em seu
recente trabalho O Charme da Ciência...de 2002 quando reabilita Oliveira Viana como intérprete pioneiro
do Brasil. A autora, neste trabalho, revisita a tríade Gilberto Freyre, Sérgio Buarque e Caio Prado
ampliando a gama de intérpretes do Brasil, além de inserir nas interpretações de identidade uma questão
sensível que une razão e sensibilidade na análise dos usos e costumes. Para esta pesquisa, utilizo o
conceito de fundo-comum aplicando-o às Artes Literárias e Plásticas brasileiras.
26

tona discussões sobre a revelação do sujeito social: o silêncio seria um gesto político por
si só.
A partir do enfoque das práticas socioculturais do sertanejo nas relações das
construções imagéticas culturais busco pensar as representações brasileiras através dos
meus trabalhos plásticos da gravura em metal e nas obras contemporâneas de Francisco
Dantas – Os Desvalidos de 1997, Euclides da Cunha – Os Sertões - obra híbrida que
envolve ciências sociais e literatura de 1902, Graciliano Ramos – Vidas Secas –
literatura de 1938, Trípoli Gaudenzi – Delenga Canudos! – pintura de 1997 e Cândido
Torquato Portinari – Os Retirantes - pintura de 1944. Autores escolhidos por permitirem
articulações com o tema proposto: representações do homem regional dos sertões.
Buscando pensar a continuidade de perspectivas adotadas por mim, sobretudo a
explanação contemporânea, do presente para o passado, enfocando cruzamentos e
possibilidades dialéticas entre as práticas socioculturais e as representações tenho a
vasta possibilidade de trabalho nas intersecções de diferentes linguagens cujo recorte
temático da cultura brasileira indica seu papel na constituição de nossa identidade – na
diversidade cultural brasileira encontra-se o regional. Com pontos comuns, as obras
travam relações com a História e a Arte, pois utilizam-se dos recursos materiais e
psicológicos do homem sertanejo e representam a luta de (sobre)vida na resistência do
homem nos períodos da seca como o retirante descrito por Graciliano Ramos (1938) e
pintado por Portinari (1944), o vaqueiro como o jagunço forte e guerreiro que
relaciona com o seu meio de Cunha (1902) cuja representação reaparece em Gaudenzi
(1997) e o andarilho-artesão solitário de Dantas (1995). O sertanejo nordestino surge,
portanto, na interseção entre arte e outros campos do conhecimento.
A expressão gráfica pessoal que elaborei nas gravuras em metal com o tema
sobre o homem regional nordestino juntamente com a aproximação das obras da cultura
brasileira que trabalharam as construções identitárias permitem, portanto, refletir como
os elementos de expressão religiosa e a resistência de vida do sertanejo estão imbricados
no desdobramento das narrativas, na compreensão da sociedade sertaneja, na idéia de
uma história nacional. Analiso o processo histórico tomando por base o diálogo entre a
percepção e a imagem, na observação e compreensão da mobilidade das práticas, na
dinâmica das construções dentro das perspectivas expressivas históricas mais livres -
fotografia, literatura, gravuras, pintura - geográficas e culturais que foram necessárias à
inteligibilidade das relações. Ao enfocar as relações entre arte e outros campos do
conhecimento, a dissertação assume abertamente um aspecto social, pois, procura-se
27

apoiar de maneira não fragmentária nas práticas de vida do sertanejo, na análise de


como a produção das narrativas se integra com a história, em um momento no qual a
colocação do trabalho imagético está sendo proposto pelas novas abordagens
historiográficas.
A conclusão apresenta-se como resposta para esta fase dos meus
questionamentos que enfocam as relações das percepções, práticas socioculturais
sertanejas e as formas figurativas das representações culturais históricas.
Após meses de trabalho debruçada sobre fotografias, livros, revistas, pinturas,
gravuras e a expressão do homem dos sertões, o texto assume um caráter imagético sem
menosprezar a análise dos questionamentos propostos e de não se fragmentar. Não é um
término de pesquisa. É uma trajetória que se abre para novas análises.
28

PARTE I

O Sertanejo Nordestino: o homem regional – práticas religiosas e de


(sobre)vida...
29

O Sertanejo Nordestino: o homem regional – práticas religiosas e de (sobre)vida...

A percepção de uma dimensão imagética, na qual o processo de identidade de


povo brasileiro se desenrola, marca a compreensão da história como condição para o
nascimento das narrativas cujos limites são os fatos da vida, que não se opõem ao
sentido das representações. As imagens, portanto, não tratam de uma maquinação
(re)produzindo fatos religiosos ou resistências do homem sertanejo, impedindo a crítica
através da cristalização repetitiva, o que poderia significar uma falta de ação: o sertanejo
nordestino estaria amarrado somente no eterno “passado” da história brasileira.
Com base na reflexão sobre os efeitos dessa observação social na documentação
trabalhada, retomo o diálogo iniciado na Monografia em Artes com as imagens
construídas a partir das práticas socioculturais baseadas, principalmente, na busca de
variantes no nível imagético. A partir da confluência entre práticas socioculturais e
narrativas trato como construções as manifestações e condutas cotidianos – partindo
fundamentalmente do pressuposto de que é impossível para as representações, nas
diferentes linguagens, um deslocamento do real. Consideração que diz respeito ao tipo
de relação possível de ser construída entre elas.
Amparadas na observação, muitas vezes direta, e na compreensão das fronteiras
regionais, o homem sertanejo se torna elemento de construção no percurso de busca de
afirmação de povo brasileiro. As práticas de vida do sertanejo assumem, assim, papel
importante, abrindo portas que conduzem à figuração fundamental nas linguagens,
sejam elas nas artes literárias ou plásticas. Neste particular, a figuração realçada nas
formas permite penetrar na intimidade do real estabelecendo a ligação entre o mundo
objetivo e a percepção, entre o universo individual e o universo sociocultural e responde
a uma série de transformações do Brasil moderno e contemporâneo, em que afloram
30

questões importantes para a compreensão da sociedade. Se é certo que houve sintomas


desviantes dos conceitos sociais, estes não passaram de manifestações efêmeras e
isoladas ao considerar a visão das representações como expressão ilustrativa do
elemento regional onde se desenvolve o sui generis e, portanto, o distanciamento.
Quando pensadas meramente em abstrato, as práticas socioculturais são vistas como
descrição sem sentido da vida, em contraste com o sentido miúdo, cotidiano e brutal dos
gestos concretos do dia-a-dia. Como construções de sentidos, segundo Roger Chartier
(1988): é preciso compreender as práticas complexas que constroem o mundo como
representação [que]...tem por objeto identificar o modo como em diferentes lugares e
momentos uma determinada realidade social é construída, pensada, dada a ler19.
A noção de apropriação, nas palavras de Chartier: tal como a entendemos tem
por objetivo uma história social das interpretações, remetidas para as suas
determinações fundamentais (que são sociais, institucionais, culturais) e inscritas nas
práticas específicas que as produzem20, propõe circulações entre o mundo das
representações e o social, pois as concepções estéticas do homem regional se fixam nas
práticas, na luta diária do sertanejo. Como formas carregam o conteúdo, o sentido, as
condutas, os sentimentos e os afetos na construção da historicidade. Elas não se diluem,
pois quebram hierarquias de um sistema global e expandem a definição territorial.
As representações dos tipos brasileiros não surgiram por acaso no Brasil pós-
independência. Surgiram de motivações profundas no contexto histórico em que foram
produzidas. Representam, em sua origem, equivalências no plano expressivo e no plano
político de identidade destacando a seguinte construção: o movimento das práticas
socioculturais e o sentido das representações elaboradas a partir da procura de
identificação das nossas raízes brasileiras. Localizadas na dimensão dos quadros
culturais foram demonstradas como dados sensíveis, em nome de uma realidade que
pôde ser interpretada como fonte de expressividade imagética. Os traços materiais e
psicológicos regionais, no Brasil, emprestam significação às narrativas e adquirem
relevância social no desdobramento das representações. O sertanejo nordestino surge,
desta maneira, não como “estampa” ilustrativa, mas sim nas questões das condições
sociais que revelam a dor e a vida e não em meros contornos descritivos de fatos
regionais.

19
- CHARTIER, op. cit, pp. 28 e 19.
20
- idem, p. 26.
31

Trilhar esse caminho é seguir, nos seus detalhes, o trabalho de seleção e


percepção das práticas, dos eventos e fatos cotidianos socioculturais regionais, com suas
idas e vindas até a construção de representações do sertanejo de fé, do homem
resistente. Homens brasileiros que nas ações das práticas de vida identificam-se no
contexto sociocultural dos sertões. Figuras reproduzidas nas artes plásticas, nas artes
literárias, cinema, televisão e representação de resistência no imaginário social
brasileiro. Como característica do imaginário, a análise se apóia nos conceitos de
Jacques Le Goff (1994): de nele haver imagens, não só reais, mas também imagens
mentais...que alimenta o homem [e o faz agir]...é um fenômeno coletivo, social e
histórico21 que propaga sensibilidades quando o imaginário incorpora elementos para a
imagem e faz criações que não se tornam “perfumarias”. Neste caso, as obras que
construíram a figura do sertanejo não podem ser transformadas em ilustrações
epistemológicas. Essa incorporação de elementos sensíveis faz os homens agirem e
confirma o que Roger Chartier define no conceito de representação quando retira a
dicotomia entre real e representação, contrapondo às ideologias.
Na observação do interesse temático pela paisagem, pela gente e seus costumes,
que se tornam nacionais, explica-se o fenômeno de integração cultural na configuração
estética de contemplação do grandioso, oferecendo o sentimento do sublime. Natureza e
pessoas representadas no Brasil que mexe com as paixões na idéia do desconhecido, que
causa assombro, segundo análise das teorias de Edmund Burke (1757): o desconhecido
que pode ser associado à idéia de respeito, admiração, assombro, reverência, medo e
dor22. Como elemento de uma observação estética surge uma nova sensibilidade que
torna possível suportar estímulos provocados por tudo que é inédito e surge como,
segundo Maria Stella Bresciani (1992):

...filtro, capaz de oferecer uma base emocional


para absorver o que de alguma maneira parece
terrível, que causa as sensações de perplexidade,
de infinitude, de privação, de extremo poder, de
magnificência, de tudo enfim que desencadeasse
uma reação de impacto emocional violento23.

21
- LE GOFF, Jacques - O Imaginário Medieval, Portugal: Ed. Estampa, 1994, p. 16.
22
- BURKE, Edmund - Uma Investigação Filosófica sobre a Origem de Nossas Idéias de Belo e do
Sublime,1757, Trad. Enid Abreu Dobránsky, Campinas: Papirus: Ed. da Universidade de Campinas,
1993.
23
- BRESCIANI, Maria Stella - A Cidade das Multidões, a Cidade Aterrorizada, Rio de
Janeiro:IPPUR-UFRJ, 1992, p. 24.
32

O grande sertão, como categoria com interlocução que ajuda a construir o Brasil
é o lugar onde se localiza o homem situado entre o campo e a cidade24, fornece
exemplo a ser analisado no plano espacial e também no plano das relações
homem/natureza, pois, o sertanejo não está deslocado do ambiente regional na análise
de Márcia R. C. Naxara (1999). Surge, assim, as concepções estéticas como referência
e não lei.
O sertão e os sertanejos passam a ter, na unidade Brasil, uma referência
geográfica e histórica por suas lutas armadas como a Guerra de Canudos - BA (1897),
por suas práticas de (sobre)vida e religiosidade transcendental e mística. Espaço onde
se situa o sertanejo de fé que luta contra um problema inercial brasileiro: a miséria e as
baixas condições econômicas. Problema criado ao longo da história do país que se
avoluma ano a ano. Divide o Brasil em Norte – atrelado à economia rural, sujeita a
intempéries como a seca, e o Sul – de economia industrial. É interessante observar o
papel de resistência representado pelos habitantes do sertão: o homem sertanejo, no seu
contexto cultural, econômico e social constrói a própria resistência, morando em
habitações precárias e rústicas, de palha e barro, sem trabalho fixo, vivendo como
agentes de sua própria vida no enfrentamento com a seca e com os problemas sociais e
políticos que castigam a região.
Dando continuidade aos meus questionamentos, pisando o chão sertanejo, em
outubro de 2003, e admitindo a fotografia – com um acervo particular e, também, de
outros autores - como registro documental pude registrar e perceber a paisagem que
remete uma desolação. O sertão e seus moradores foram registrados em espaços
solitários e áridos, estradas, individual ou em coletivo e em espaços religiosos onde o
contexto não se dissolve em granulações de puro abstracionismo. Nas Fotos 1, 2 e 3
tem-se uma vista parcial do sertão da Bahia e da Paraíba, onde o enquadramento
privilegia a paisagem seca e o chão árido na representação do cenário que encena os
dramas da vida na caatinga: o cenário quase morto, de árvores ressequidas e casas
abandonadas. O sertanejo, que enfrenta longos períodos de seca, vê o seu gado morrer
por falta de comida e água.

24
- NAXARA, Márcia Regina Capelari - Sobre Campo e Cidade – olhar, sensibilidade e imaginário:
em busca de um sentido explicativo para o Brasil no século XIX, Campinas: IFCH/História –
Unicamp,1999.
33

Foto 125 – sertão nordestino em época de seca


Palmas do Monte Alto - BA

Foto 226 – sertão nordestino em época de seca


Palmas do Monte Alto – BA

Foto 327 – sertão nordestino em época de seca – PB

25
- Acervo pessoal, Palmas do Monte Alto – BA, outubro de 2003.
26
- idem, Palmas do Monte Alto – BA, outubro de 2003.
27
- Foto de: COUTINHO, Leonardo in Revista VEJA – Duas Secas em Uma/Correio da Paraíba/ Ag. O
Globo Parceiro, São Paulo: Abril, 06 de junho de 2001, p.133.
34

As secas foram sempre os tristes marcos que assinalaram as etapas da própria


história da região provocando notável emigração, temporária ou não, de moradores para
os seringais da Amazônia, para a construção civil em São Paulo e para as lavouras de
Minas Gerais e São Paulo.
É o nordeste das caatingas – em grande parte semi-árido – com rios quase
sempre temporários. Com construções de açudes numerosos ou impraticáveis por
defeito de fabricação ou falta de conservação, sob inspeção do Departamento Nacional
de Obras Contra a Seca – DNOCS, criado em 1909, ou seria o que Antônio Callado
(1960) descreve em sua obra: “Os Industriais da Seca?28” A Foto 4 nos traz a
representação da represa de Sobradinho (BA) em 2001 com o nível do reservatório
baixo.

Foto 429–Represa de Sobradinho–Pilão Arcado/BA

Neste contexto, encontro-me com muitos sertanejos (homens, mulheres e


crianças) sem trabalho e sem comida - Fotos 5, 6 e 7 - vivendo de tapar buracos na
estrada que um dia foi asfaltada, em troca de algum dinheiro (ou buscando água em
pequenos açudes). Eles esperam as chuvas chamadas “do caju” para voltar para as
lavouras, que podem ser sua ou de terceiros. Se caso a chuva não cair, confiam nas de
fevereiro ou março, que são as de Santa Luzia. Antes ou depois das chuvas, muitos
sertanejos expressam a sua religiosidade com pagamentos de promessas locais ou se
deslocam a santuários, igrejas ou cemitérios.

28
- CALLADO, Os Industriais da Seca e os ``Galileus`` de Pernambuco, Rio de Janeiro:Civ.
Brasileira, 1960.
29
- Foto de:VIVAS, Fernando - in Revista VEJA - Duas Secas em Uma, Leonardo Coutinho, São Paulo:
Abril, 06 de junho de 2001, p. 134.
35

Fotos 5 e 630 – na estrada – BR 242 – sertão da Bahia

Foto 731 - na estrada – BR 242


Sertão da Bahia

As expressões dos elementos de resistência e a religiosidade na constituição


cotidiana se faz presente como sentimentos perceptíveis gerando sensações de
intimidade do homem com a natureza e o santo. Representa um código sociocultural
localizado historicamente que se interpenetram reciprocamente porque as práticas de
vida do sertanejo não se desvinculam das representações sociais. As fotos, como
representações imagéticas registram a expressão da resistência e a religiosidade do
contexto regional. A Foto 8 nos traz a representação, nos elementos que a compõem,
nas mãos de criança que seguram o arame farpado que cerca o pequeno sítio da família
e o olhar de Laura, algo considerado representações das dificuldades da criança sem

30
- Acervo pessoal – Na estrada – BR 242, sertão da Bahia – outubro de 2003.
31
- Idem.
36

escola e da dona de casa que ela é. Sob sua responsabilidade tem-se dois irmãos
pequenos – Foto 9 - e a sua pequena casa de adobe erguida no chão seco do sertão.

Foto 832 – Criança sertaneja – Contendas do Sincorá - BA

Foto 933 – Três Irmãos


Contendas do Sincorá -BA

32
- Acervo pessoal – Criança sertaneja – Contendas do Sincorá – outubro de 2003 - BA
33
- idem – Contendas do Sincorá – outubro de 2003 - BA
37

As dificuldades são expressas pela sertaneja da Bahia na busca de água


insuficiente, em um açude barrento – Foto 10.

Foto 1034 – Sertaneja no açude


Pilão Arcado – BA

As Fotos 11 e 12 – da Guerra de Canudos – Bahia - captadas por Flávio de


Barros, em 2 de outubro de 1897, trazem a imagem integrada ao contexto que a
produziu. O grupo de prisioneiros retratados – Foto 11 - é constituído por velhos,
mulheres, crianças e doentes na rendição dos conselheristas, seguidores de Antônio
Conselheiro, após meses de luta sangrenta entre sertanejos e o exército brasileiro.

Foto 1135 - Rendição de Conselheristas


Canudos– BA – 1897

34
- Foto de: COUTINHO, Op. cit. p. 134.
35
- Foto de: BARROS, Flávio de - in – Canudos: Imagens da Guerra, [org] Cícero A. F. de Almeida,
Rio de Janeiro: Museu da República/Lacerda Editores, 1997, p. 73.
38

Na foto 12, tem-se a figura de um sertanejo prisioneiro da Guerra de Canudos -


Bahia e representa o homem “que não se deixa vencer” sendo apresentado ao
comandante Artur Oscar da 4ª Expedição. Os soldados representam o 28º Batalhão de
Infantaria.

Foto 1236 - Vaqueiro/jagunço


Canudos – BA – 1897

A expressão de vida sofrida do sertanejo nunca deixou de acontecer no Brasil,


do século XIX à contemporaneidade. No paupérrimo Vale do Jequitinhomha, em Minas
Gerais – Foto 13 - a imagem das condições precárias na representação das crianças
dormindo em um entrelaçado de capim, registrada por Pedro Martinelli em 2002.

Foto 1337- Crianças no chão (detalhe)


Vale do Jequitinhonha - MG

36
- idem, p. 75.
37
- Foto de: MARTINELLI, Pedro in Revista Veja, O Paradoxo da Miséria, Ricardo Mendonça, São
Paulo: Ed. Abril, nº 1735, p. 87.
39

Constituem as secas, a feição dolorosa da existência de grande parte dos


sertanejos. Desde que escasseiam os pastos, os homens assam na brasa o bicho do mato
que encontrar pela frente e devoram o miolo das árvores resistentes como o umbuzeiro e
as palmas. Cavam sempre uma cacimba que lhes mata a sede temporariamente. Junto ao
gado bebem a água barrenta dos açudes, com lama, com detritos...Na vida seca da
planície avermelhada do sertão de Alagoas, o Sr. José Adílson Silva (2003) – vaqueiro –
se expressa em rede nacional de televisão: pego essa lenha aqui pra cozinhar um
preazinho38 – seca de 2003.
Na seca brava, quando seca até mesmo as cacimbas, o sertanejo pratica o êxodo
– movimentam-se os retirantes. Abandona tudo e deserta, e se Deus ajudar quando a
chuva voltar, agarra o pedaço de terra para plantar e faz planos para o futuro.
Periodicamente sucedem secas drásticas que impõem impacto ao meio ambiente, às
populações humanas e à biodiversidade regional. Migra-se a família com pequenos
pertences e animais de estimação ou sozinhos. Na Foto 14 - a representação da família
de sertanejos retirantes, na seca em 1963, que se faz presente na imagem de Maurício
Ritter:

Foto 14 39– Retirantes em 1963 – sertão da Paraíba

Registro nos sertões da Bahia (2003), o andarilho solitário pelas estradas


desoladas onde o céu límpido encontra a paisagem árida que está na Foto 15. Ela
registra a expressão de solidão que atinge muitos sertanejos. Andam de uma cidade à
outra em busca de soluções para a vida cotidiana, prática que se pode perceber
constantemente na região.

38
- Depoimento registrado em 28 de outubro de 2003 no Jornal Nacional - Rede Globo de Televisão - na
cobertura sobre os dramas da seca que afligiu parte dos sertões neste mesmo ano.
39
- Foto de: RITTER, Maurício in Revista Veja, O Paradoxo da Miséria, Ricardo Mendonça, São Paulo:
Ed. Abril, nº 1735, p. 93.
40

Foto 1540 – o andarilho – Barra da Estiva - BA

A figura do sertanejo se expressa na imagem do vaqueiro com suas vestes


características de couro, história de lutas e costumes onde se pode perceber a integração
homem/natureza – Foto 16. Como trabalhador, representa a responsabilidade pela
economia e a resistência perante as adversidades locais. Este conceito sobre o
trabalhador rural aplicado à paisagem dos sertões permite a existência de algo mais
complexo porque sugere uma dinâmica humana de (sobre)vida desde tempos coloniais
balizada por realidades como a alternância entre um período seco e uma estação
chuvosa. Fator importante no desbravamento sertão adentro.

Foto 16 41- o vaqueiro das caatingas – Curaçá – BA

40
- Acervo pessoal – Barra da Estiva, sertão da Bahia, outubro de 2003.
41
- Foto de: MEYER, Claus in Caatinga: Sertão, Sertanejos [coord.] Salvador Monteiro e Leonel Kaz,
Rio de Janeiro:Ed. Alumbramento, Livroarte Editora, 1994-95, p. 162.
41

Os vaqueiros, na vastidão dos sertões, segundo Darcy Ribeiro (1995):


configuram-se...modos de vida que são adaptações locais e funcionais... muitos
conservaram os traços arcaicos42. Nas relações sociais do sertão, os vaqueiros
desenvolveram, também, formas de expressão com base na resistência e nas
adversidades dos conflitos regionais como o cangaço43. Nas formas de expressão dos
costumes ritualísticos ou festivos, como regras a serem cumpridas na esperança de vida,
ensejaram cooperações como as vaquejadas que se transformaram em festas regionais
com culto aos santos padroeiros e festividades do calendário religioso centralizados nos
cemitérios e igrejas dispersos pela região. As atividades pastoris, nas expressões das
condições regionais dos sertões com suas secas periódicas, conformaram na obra O
Povo Brasileiro (1995), não só a vida, mas a própria figura do homem que segundo
Ribeiro:

...vaqueiros ossudos e secos de carne penetravam


sertão adentro durante três séculos – marchando
de pouso em pouso...depois todo o Nordeste
pastoril começou a dedicar-se a atividades
ancilares...desse modo, o elemento humano, mais
vigoroso, mais eficiente e mais combativo é
roubado à região.44

As relações com o meio se estendem ao barro, ao couro, às fibras naturais. O


rapaz - Foto 17 - de pés nus que se expressa diante de suas peças de cerâmica tem na
terra sertaneja um lugar de identidade. Retratado no Vale do Jequitinhonha – Itinga, no
norte de Minas Gerais nos mostra a representação do homem que constrói a vida com o
trabalho manual. São potes, panelas, vasos utilitários e, também, figuras decorativas que
retratam sertanejas com as mãos que afagam o ventre ou que convivem com os bichos
selvagens como cobras. Os ofícios tradicionais dos trabalhadores são percebidos na
região e constituem fonte de renda para as famílias. A prática envolve, portanto,
crianças, jovens e adultos na troca de experiências cotidianas.

42
- RIBEIRO, op.cit, p. 354.
43
- Termo cangaço: segundo HOLANDA FERREIRA, Aurélio Buarque – Novo Dic. da Língua
Portuguesa , Rio de Janeiro:Ed. Nova Fronteira S.A, 1ªed. [s.d.]: o gênero de vida dos cangaceiros.
Termo cangaceiro: [De cangaço + - eiro.] S.m. Bras.: Bandido do sertão nordestino brasileiro, que anda
sempre armado.
44
- RIBEIRO, op. cit., p.34.
42

Foto 17 45 - o artesão - Itinga - MG

Dentro da formação histórica, no sertão adusto (ressequido) de árvores quase


mortas é comum encontrar pelos caminhos as expressões do retirante, do vaqueiro
levando a boiada, do andarilho. Aspectos característicos da região que refletem nas
construções das representações culturais – a tragédia da seca, os costumes religiosos, as
relações com o meio.
Moradores de um ambiente seco, árido, de economia pastoril (o boi sempre foi a
maior riqueza econômica dos sertões, desde tempos coloniais) de subsistência e
enormes problemas sociais, os traços psicológicos e condutas do homem regional
nordestino caracterizam o tipo sertanejo miscigenado, tradicional, praticante de um
sincretismo religioso singular que faz a fusão de elementos culturais diferentes, ou até
antagônicos, em um só elemento continuando perceptíveis alguns sinais originários.
Representa o homem rústico e resistente considerado um redefinidor da nossa
nacionalidade. Rachel de Queiroz em crônica Sertão, sertanejos - Não me deixes
Quixadá (1994) afirma que:

45
- Acervo pessoal – Itinga – norte de Minas Gerais, outubro de 2003.
43

... o sertanejo também continua a ter em comum


com os bichos da caatinga a capacidade de
sobreviver: a gente não consegue entender como
uns e outros escapam, durante os meses e meses
de tempo ruim. E, chegado o inverno, dá-se o
milagre: na terra renovada, verde, só se vê, tantos
uns como outros, sertanejos e bichos, andando
pelas veredas, assobiando, animados, fazendo as
ninhadas, e dando ruidosamente graças a Deus
por terem nascido naquela terra
abençoada...Apesar do crescente progresso
urbano, a vida no sertão ainda é muito rústica...O
sertanejo nordestino parece seco...sofrido. Nos
vários anos sucessivos de seca, muitas vezes o
sertanejo é obrigado a alistar-se nas frentes de
trabalho do governo – esmola mal disfarçada
sequer, antes muito alegada pelos políticos,
ambiciosos por obras importantes e que não se
conformam em ver tanto dinheiro, todo a fundo
perdido, matando a fome de flagelado.46

O sertanejo ligado à figura do homem que transita entre o campo e a cidade se


configura, portanto, no universo ligado à tradição dos costumes nas práticas
emergenciais de vida cotidiana. A resistência e a religiosidade sertaneja serão tratadas,
nesta pesquisa, pela história que se retém ali, pois, não podem ser medidas ou
quantificadas, mas sim, onde um saber se completa e se revela - o que lhe dá um
estatuto diferenciado e expressivo.
Do critério regional de caracterização em expressões estéticas dentro de uma
identidade brasileira, o sertanejo passa a ser um dos elementos instituintes da construção
do ser brasileiro através de suas representações assim, como os gaúchos do sul – o peão
de estância, e os matutos pertencentes às matas ou roças do centro-sul. Os homens e
mulheres sertanejos, desta maneira, sublinham o poder de contraste regional dentro do
território nacional.
A observação do quadro geográfico e práticas, como base territorial que não é
amorfa47, oferecem condições para as representações. O regional passa a ter, nesta
análise, elementos significativos para a compreensão do homem. Desse fenômeno
característico, para elaboração narrativa, as representações se apropriam de valores do
âmbito local que transcendem as novas perspectivas sociais através das imagens. Com

46
- QUEIROZ, Rachel de, in Caatinga: Sertão, Sertanejos [coord] Salvador Monteiro e Leonel Kaz,
Rio de Janeiro/Edições Alumbramento, Livroarte Editora, 1994, pp. 57, 58 e 62.
47
-Termo amorfo: sem forma definida in HOLANDA FERREIRA, A. B. de –Novo Dicionário da
Língua Portuguesa : RJ: Nova Fronteira, 1ª ed. [s.d.].
44

efeito, é possível encontrar indícios de situações do cotidiano, na descrição imagética,


que não se separa dos fatos, dos detalhes regionais não marginais à história
contemporânea. Deste modo, acabo por procurar nas práticas socioculturais regionais
aqueles valores que são estabelecidos tendo como base os caracteres para as
representações produzidas nas artes literárias ou plásticas. Elas se abrem para o social
na retransmissão ampliada da circulação das experiências diversas, nas relações
prolongadas no tempo, nas implicações recíprocas para nos indicar que não se trata de
relações entre valores abstratos, mas de referências mútuas atuantes nas imbricações
históricas e diferenciadas do ético e do estético.
Do presente e do passado desse contexto regional nordestino, que são os sertões
e os sertanejos, acredito que as percepções apresentam (e sempre apresentaram)
considerações importantes sobre as abordagens expressivas nas relações estéticas que
trazem traços fundamentais da realidade histórica brasileira.
As singularidades que constroem as constelações dos elementos escolhidos para
a pesquisa atual, da resistência e religiosidade regional sertaneja, revelam, portanto,
identidade sociocultural traduzida por dimensões de sensibilidade e de subjetividades.
As expressões das práticas socioculturais do sertanejo, das mais diversas, como
costumes nas relações com a terra – do vaqueiro, do artesão, do lavrador, do retirante,
do velho, da criança à religiosidade demonstrada nos gestos e símbolos constituem a
ampliação dos sentidos de expressão da realidade. Concordando com Lucien Febvre
(1930) quando fala do adjetivo social que é capaz de romper com as “muralhas do
conhecimento” abre-se o diálogo com áreas como a sociologia, a economia, a
antropologia e as artes literárias e plásticas ancorando discussões metodológicas e
fontes documentais. Propostas na compreensão do sujeito sertanejo inserido em seu
contexto e pensado por meio das relações tramadas no social, penso que, a partir das
experiências de vida dos sujeitos históricos ao elaborarem suas próprias relações sociais,
eles produzem práticas e representações culturais e políticas.
Neste sentido, pensando os elementos da vida cotidiana do homem nas relações
sociais da resistência e da religiosidade, enquanto uma teia de complexas relações,
busco compreender as imbricações e as relações tecidas entre racionalidades e
sensibilidades, aspectos que vêm (re)instituindo o campo da política que se abre para a
percepção do indivíduo/sociedade.
As ações do sujeito social dos sertões, enquanto prática de vida abrange
projeções expressivas da sociabilidade, dos valores das condutas, que são expressos nas
45

suas manifestações e efeitos. Dados que não podem ser esquecidos. As práticas como
características regionais promovem sensações expressivas que ampliam a percepção. Na
interelação de projeção e percepção, a resistência do sertanejo mescla-se a elementos de
fé. Assim, as práticas concretas do sertanejo representam uma abertura para as criações.
Com variedade de expressões cotidianas, apego às tradições, as práticas são as próprias
representações da vida do sertanejo. Considerações tecidas sobre as práticas
socioculturais serão necessárias, nesta análise, quando se apresentam como elementos
apropriados às construções das imagens no diálogo entre razão e sensibilidade.
O sertão das caatingas ásperas que enfrenta a diversidade de poucas chuvas, do
gado, dos aboios (cantos sem palavras) e das vaquejadas (festas de destreza), do homem
que se relaciona com a natureza rural, que ri, que chora e reza fornece o fenômeno da
resistência/religiosidade nas práticas expressivas que surgem como elementos na
composição das narrativas.
A opção de envolver-me abertamente com a proposta da dissertação, da
observação da vida dos sertões funciona como suporte para a percepção social, pois o
homem sertanejo vinculado às suas representações se expressam por gestos, condutas,
falas originando o relacionamento entre práticas socioculturais e construções. E o ponto
em comum são os elementos das práticas religiosas que sustentam a resistência do
homem na familiaridade das experiências cotidianas com base na tradição dos costumes.
As questões problematizadas quanto à existência humana com o contexto, que
fazem parte dessa análise, se tornam relevantes nas revelações de conformação das
representações na aproximação quanto o caráter de pesquisa que surge numa
complexidade inscrita no universo sertanejo.
Com as práticas de culto aos ícones religiosos do contexto regional percebe-se
que elas estão penetradas pelas sensações de transcendências e da eterna procura de
aproximação com Deus, como forma ativa de evangelização e de vida que pode
congregar multidões. O sertanejo não se silencia nas suas ações, ele as expressa, através
de promessas - pedidos e pagamentos, romarias, rezas, cantos, ladainhas, cruzes, velas
acessas – a luz, toques, fitas, olhares, santuários, bilhetes para os santos. Expressam a
sua religiosidade na representação da esperança da chuva, pela chuva, pelos filhos que
se foram para os “céus” ou outros estados do Brasil. Rezam pelos doentes, velhos e
crianças. Rezam, também, por eles mesmos, pelos amores perdidos ou não
conquistados.
46

As práticas socioculturais são as ações dos homens sertanejos e, embora pareça


provável que realmente seja um ser humano de muita religiosidade, sua manifestação
perante o sacro não é submetida a artifícios. Com o mesmo ímpeto expressivo, a fé é
empregada neste contexto regional com efeito prático, por acreditar que o
desdobramento da realidade tenha aí a sua origem – à Deus entrega todo o sofrimento e
dor. O que acontece na realidade religiosa é facilmente percebido como imagens
projetadas aos olhos de todos e objetivamente captadas como verdade natural,
invariavelmente deixando entrever intercâmbios entre o mundo visível e invisível, entre
o imediato das sensações e seu eco contemplativo, interior.
A análise das práticas socioculturais nos leva, assim, aos limites do campo
cultural no diálogo entre percepções e transdiciplinaridades nas artes literárias e
plásticas e a história. Posições de análise que, antes de tudo, torna possível novos
questionamentos. Uma pesquisa que se define com imagens deve, portanto, tratar de
colher justamente a estes questionamentos e acompanhar ações de vida no contexto
regional entre homens e práticas, o que requer não só razão, mas também sensibilidade.
Neste caso, a dissertação assume a posição de não explicar, mas ter uma reflexão
participativa que institui elementos como as sensações na leitura do mundo que trazem a
dor, a religiosidade, a natureza como partes constitutivas da vida.
As ações públicas do sertanejo expressam o fervor a Deus na prática das
manifestações que fortalecem os homens. Perceber estas práticas é identificar o
sertanejo.
No diálogo transdisciplinar, a percepção participa de um processo de
apropriação das práticas do cotidiano do homem regional dos sertões. O que, neste
trabalho, parece exigente em termos de revelações das linguagens. Na relação
perceptiva e na compreensão das práticas de vida do contexto sociocultural do ambiente
sertanejo revela-se o sentido das representações: a visão do conjunto regional que
envolve as constelações da religiosidade e a resistência.
A imensidão territorial dos sertões – o geográfico, a terra e o homem – tudo isso
significa valores não restritivos, mas sim que transmitem conteúdos expressivos
humanos nas considerações sobre os elementos característicos que dão identidade na
formação de povo brasileiro. A religiosidade e a resistência fazem parte da luta diária
como positivação para a própria vida na escassez dos sertões brasileiros. As expressões
de familiaridade nas concepções religiosas, percebidas através das experiências de vida
do próprio homem, demonstram o limite que se relaciona ao conjunto de regras de
47

condutas consideradas como válidas como a morte/vida, o finito/infinito e céu/inferno


que mantém a resistência. Ele se identifica com o catolicismo tradicional e popular que
faz mover o mundo social, cultural e econômico.
As práticas socioculturais com substância expressiva traduzem a vida do
sertanejo e podem ser compreendidas e percebidas nos elementos simbólicos e nas
ações e orientar as construções das imagens.
Os cultos, rituais religiosos, relações de convivência com o ambiente seco e
expressões verbais fazem parte da resistência de vida quando os homens sertanejos
procuram, por meio das práticas que interagem símbolos e afetos, se integrar ao mundo
e aceitá-lo mesmo nas condições cujo fator interferente mais grave reside nas
irregularidades climáticas periódicas que afligem o espaço social. Na resistência do já
citado vaqueiro sertanejo, o cavaleiro das caatingas, trabalhador rural que exibe proezas
ao romper com as perneiras e o gibão de couro pelo xique-xique e palmas atrás do boi,
participante das vaquejadas traz em si o santo protetor. O ritual sagrado da celebração
da vaquejada faz da Missa, como sacramento católico, a benção final.
Tendo como exemplo o sertão de Pernambuco, em Caruaru e da Bahia em
Curaçá, a prática anual da “Festa do Vaqueiro” se torna missão importante para os
sertanejos. Temos nas palavras do vaqueiro Janduhy Finizola da Cunha (1976) a
expressão:

Depois de criar o canto, o verso, a rima, a poesia e as


rezas de sol da missa do vaqueiro, sou também
vaqueiro montado na beleza e na grandeza dessa gente,
ativado num calor de vaquejada, cavalgando por seus
cantos e seus recantos, recolhendo no chão, no ar e no
céu do sertão a emoção e vertigem dessa vivência...48

Em nova expressão, práticas de vida do vaqueiro – Foto 18 - aparece em


fotografia registrada por Claus Meyer: nas cenas da vaquejada, os sertanejos
representam a coletividade da festa.

48
- CUNHA, Janduhy Finizola da, in CD Quinteto Violado (encarte), [prod.] Sérgio Carvalho, Estúdio
PHONOGRAN, 1976.
48

Foto 18 49 – Festa da Vaquejada (detalhe) - Curaçá – BA

Na Foto 19, a família de lavradores no chão seco das caatingas, em Ibitiara –


sertão da Bahia expressa as condições de resistência – à seca, à fome. Na luta pela
sobrevivência, a sertaneja Adriana Santos com suas crianças sem palavras diz: Coloque
aí no seu trabalho que a gente está sofrendo aqui...o que nós plantamos está tudo
seco...só Deus mesmo para proteger50.

Foto 19 51 – Adriana e família – Ibitiara - BA

49
- Foto de: MEYER, Claus in Caatinga: Sertão, sertanejos,[coord.] Salvador Monteiro e Leonel Kaz,
Rio de Janeiro/Edições Alumbramento, Livroarte, 1994-95, p.162.
50
- SANTOS, Adriana – informação in loco – Ibitiara – BA, outubro de 2003.
51
- Acervo pessoal – Ibitiara – sertão da BA, outubro de 2003.
49

Misturado às velhas tradições do catolicismo, o sertanejo liga o hoje com o


passado, através de suas práticas socioculturais em expressões impostas pelas ações
cotidianas incluindo nas práticas os espaços sagrados dos santuários, romarias, festas
cíclicas, cruzes, velas, imagens e estátuas bentas. O sertanejo se envolve socialmente
através das práticas engajadas na continuidade do tempo. São representações do ciclo da
vida e do ano, são gestos humanos e religiosos da memória dolorida e da subjetividade
que formam um universo social e cultural que têm mobilidade temporal e alcança
expressão na identidade coletiva dos atos de culto devocional onde existe o santo, o
sentimento e o mistério. Através da fé, o sertanejo se expressa em busca de um protetor
que pode ser uma alma de defunto, Deus, um santo ou um messias.
Assim, as práticas vívidas do sertanejo se abrem para o diálogo de percepções e
de aprendizagem onde se apresenta a alteridade e faz movimentar representações
culturais na aproximação de elementos dotados de sentido, passando do olhar superficial
para a visão que apreende o real. As visões das manifestações, nas práticas existentes na
realidade, não são estranhas ao mundo e mudar as expressões nas linguagens das Artes
Literárias e Plásticas significaria mudar os conceitos. Deste modo, é possível evitar a
estreiteza de uma apropriação meramente abstrata. Na transdisciplinaridade surge o
diálogo que corresponde à projeção das práticas socioculturais do objeto. Portanto,
dessa maneira, completam-se a compreensão e o sentido das práticas do contexto
regional e a formalização estética.
As ações das constelações de resistência e da religiosidade do homem dos
sertões se estendem para o plano social e cultural, projetando o plano expressivo que
abre questões permitindo percepções muito mais diferenciadas do que seria possível
numa visão simplista. Encontra-se um potencial de possibilidades expressivas que
demonstram as ações do homem regional.
Em lugar do esquema causa-efeito, as noções de práticas religiosas e a
resistência se tornam centrais para esta análise. A forte religiosidade é expressa na
comunidade sertaneja onde há a relação com os santos: São Jorge, São José, São Bento,
São Sebastião entre outros através dos festejos (festas do padroeiro que representam o
momento das orações coletivas) e graças pelas curas de doenças, pelo casamento,
salvação da vida de pessoas ou animais e pela chuva. Em cidades como Patos (PB) e
Pombal (PB) o sertanejo se expressa na manifestação da sua religião no culto a Nossa
Senhora da Guia e Nossa Senhora do Rosário. Em Monte Santo (BA), a 100Km de
Canudos encontra-se no fim de uma escalada como a “via-sacra” a Igreja de Santa Cruz.
50

Construída no século XVIII e com o caminho pontilhado de inúmeras capelinhas onde


os sertanejos expressam, nas suas orações, a sua fé durante todo o ano. Maria Isaura
Pereira de Queiroz52 (1965) elabora uma significação dos movimentos messiânicos no
Brasil como fatos religiosos e sociais, identificado no ambiente católico rural garantido
por uma economia tradicional, sem sacerdotes. O movimento messiânico faz culto a um
beato ou a um Padre considerados santos, intermediário entre os homens e Deus, que
pregava temas da bíblia ou o êxodo (A Terra Prometida). Na prática dos ritos com
procissões, novenas e preces, envolvem-se multidões que cultuam, pós-morte as suas
almas. Como na adoração a Padre Cícero Romão Batista – “Padrinho Cícero” e
“Antônio Conselheiro” nos sertões nordestinos. Como exemplo de duas experiências
messiânicas.
Nos sertões do Ceará, em Juazeiro do Norte – Foto 20 - o sertanejo se apega aos
rituais de culto ao “Padim Ciço” (1844-1934) nas celebrações anuais que engloba a
economia, cultura e imaginário quando dividem a dor da paixão de Cristo na
homenagem ao padre. Em anos de seca, fome e desemprego, uma multidão de fiéis
peregrinos se reúne na cidade-santuário para rezar pelo padroeiro considerado ícone
religioso do Nordeste e responsável por milagres. O padre, homem de baixa estatura e
modos autoritários, em 1889, dava a comunhão sagrada a Maria de Araújo, quando esta
foi tomada de uma espécie de transe e viu na sua hóstia o “sangue precioso de Jesus”.
Episódio que se repetiu por dois anos, segundo os documentos da igreja. A notícia se
esparramou por todo o sertão e Juazeiro do Norte se transformou em um centro de
romarias como a Terra Santa. A igreja de Nossa Senhora das Dores, local atribuído aos
milagres, tornou-se templo sagrado, cenário de devoção que representa a esperança,
juntamente cultuado com a memória de Maria Araújo – a beata. A devota Maria da
Conceição se expressa, no dia 24 de março de 2004, para matéria jornalística em rede de
televisão na comemoração dos 160 anos do padre: a gente ama muito Padim Ciço... e
canta:

a promessa é
para meu Padim Ciço,
que com seu sacrifício,
ele vai me entender.53

52
- PEREIRA DE QUEIROZ Maria Isaura, O Messianismo no Brasil e no Mundo, São Paulo:Dominus
Editora/Edusp, 1965.
53
- Cobertura jornalística do Jornal Nacional – Rede Globo de Televisão – 24 de março de 2004.
51

Foto 20 (detalhe) 54 – Romeiros no culto a


Padre Cícero - Juazeiro do Norte - CE

Nos registros da Guerra de Canudos (1897), tem-se o beato Antônio Vicente


Mendes Maciel (1830-1897) – “Antônio Conselheiro” que fundou a “cidade-santa” de
Canudos no sertão da Bahia onde rezava, ajudava os necessitados, construía igrejas e
cemitérios e dava conselhos. Sendo o guia dos seus adeptos, o beato Conselheiro
organizou uma cidade independente das estruturas de um Brasil que lutava para a
concretização da República. Acusados pelo Estado Brasileiro de conservadores
monarquistas e de serem perigosos para a nação, os seguidores de Conselheiro (que se
constituía de homens, mulheres e crianças de todos os ofícios como o vaqueiro,
lavradores, alguns homens formados na escola do cangaço) resistiram às investidas
repressivas do Exército. Somente na quarta expedição foram dizimados e a cidade de
Canudos incendiada, reduzida a escombros, sangue, mortos e cinzas. Como nos revela a
Fotos 21 e 22.

Foto 2155 – Canudos incendiada (1897) – Canudos - BA

54
- Foto de: ARCOSSI, Fabiano in Revista Época, A Santa do Agreste, Eduardo Junqueira, 08 de nov.
1999.
55
- Foto de: BARROS, Flávio de in Canudos: Imagens da Guerra, [org.] Cícero A. F. de Almeida, Rio
de Janeiro:Museu da República/Lacerda Editores, 1997, p. 71.
52

Foto 2256–Igreja do Bom Jesus destruída em 1897


Canudos - BA

A fé no messias Antônio Conselheiro foi uma expressão de religiosidade latente


que se transformou numa força ativa dos sertanejos e palco de um dos episódios mais
trágicos da nação brasileira. Canudos foi, e continua sendo, uma forte representação da
resistência do homem dos sertões no imaginário brasileiro. O sofrimento social, o
mistério e a religiosidade foram expressos pelos próprios homens durante a luta de
sobrevivência. O sertanejo lutou para defender a sua casa e os seus costumes, nos quais
fatores externos de modernidade, no caso, busca de um Brasil Moderno, não teve
influência. De acordo com Manuel Ciríaco em 1947 – ex-conselherista, em entrevista
ao jornalista Odorico Tavares sobre o arraial no pós-guerra:

...era de fazer medo. A podridão fedia a léguas de


distância, os bichos a gente via correndo pelos
cadáveres e urubu fazia nuvem. Tudo
abandonado, ninguém ficou enterrado. Foi
quando Ângelo dos Reis, por sua própria
caridade, trouxe uns homens e enterrou ali a
jagunçada morta. Todas as essas colinas que o
senhor vê estão cheias de ossos de jagunços.
Acabou-se Canudos...57

56
- idem, p. 61.
57
- CIRÍACO, Manuel in Revista Veja, O Legado do Conselheiro, Roberto Pompeu de Toledo, São
Paulo: Ed. Abril, ed. 1511, 03 de setembro de 1997, p. 71.
53

Hoje, a região de Canudos está submersa pela represa do Rio Vaza-Barris , mas
a 10 Km do local da guerra, em Alto Alegre – BA existe uma escultura do Conselheiro,
em madeira, além de duas cruzes, também, de madeira onde os sertanejos se encontram
para as suas orações.
Desta maneira, as implicações dinâmicas socioculturais dos movimentos
messiânicos procuram eleger os beatos e messias como líderes religiosos que auxiliam a
superar dificuldades cotidianas, substituindo a figura dos coronéis – latifundiários -
locais como “o patrão” pelo messias. Nas palavras de José Siqueira Santos – Seu Ioiô
da Professora, filho de conselherista, na cidade de Euclides da Cunha – BA, em 1997: o
povo [em 1897] não queria mais obedecer os coronéis. Até para emprego, era com o
Conselheiro58.
As práticas de devoção no Santuário de Bom Jesus da Lapa, no sertão da Bahia
reúne ações pelas quais o devoto se relaciona intimamente com o santo. Bom Jesus é a
imagem sacra cultuada em uma formação rochosa natural onde recebe sinais
expressivos de respeito. Práticas que envolvem romeiros que chegam de todos os
lugares em caminhões, carro-de-boi, a pé, ou em carroças – Fotos 23 e 24 - e faz mover
a economia, o social e o cultural da cidade de Bom Jesus da Lapa – Foto 25.

Foto 2359 – Caminhão de Romeiros – Bom Jesus da Lapa - BA

58
- SANTOS, José Siqueira, in Revista Veja, O Legado do Conselheiro, Roberto Pompeu de Toledo, São
Paulo:Ed. Abril, ed. 1511, 03 de setembro de 1997, p. 71.
59
- Acervo pessoal - Bom Jesus da Lapa - BA, outubro de 2003.
54

Foto 2460 – Romeiro


Bom Jesus da Lapa - BA

Foto 2561 – Banca de artigos religiosos


Bom Jesus da Lapa – BA

A expressão da entrada do Santuário e o interior da gruta – Foto 26 e 27 – é a


representação da continuação da prática de devoção no local onde morou Francisco de
Mendonça Mar, em 1691, quando chega com uma imagem do Senhor Bom Jesus
crucificado e uma de Nossa Senhora – Mãe da Soledade. O eremita, vivendo às margens
do Rio São Francisco, construiu asilo e hospital na porta da gruta. Protetor do povo
sofrido do sertão fez um trabalho social e pastoral. Ordenado, em Salvador – BA: Padre
Francisco da Soledade do Santuário do Bom Jesus da Lapa. Surge, assim, a cidade de
Bom Jesus da Lapa com seu templo de peregrinações.

60
- Acervo pessoal - Bom Jesus da Lapa – BA, outubro de 2003.
61
- idem - Bom Jesus da Lapa – BA, outubro de 2003.
55

Foto 2662
Entrada do Santuário de Bom Jesus da Lapa
Bom Jesus da Lapa - BA

Foto 2763
Interior do Santuário de Bom Jesus da Lapa
Bom Jesus da Lapa – BA

62
- Acervo pessoal, Bom Jesus da Lapa – BA, outubro de 2003.
63
- idem, Bom Jesus da Lapa – BA, outubro de 2003.
56

O local do Santuário de Bom Jesus da Lapa é representado pelo portal e


escadarias, como o calvário de Cristo, com seus guardiões com qualidade escultórica e
uma presença quase humana, perfilando-se como estátuas colossais que vigiam as
relíquias santas como Bom Jesus Morto – Foto 28 – representado por uma imagem
guardada em uma urna de vidro e madeira nobre onde os devotos jogam retratos e
amarram fitas coloridas que representam as graças/pedidos aflitos.

Foto 2864 – Imagem do Bom Jesus Morto


Bom Jesus da Lapa – BA

O sertanejo materializa a fé nos ex-votos em formas de cabeças, braços, pernas,


pés de madeira, parafina, metal, cerâmica e em fotografias e cartas assinadas que são as
expressões de representações humanas nos pedidos ou pagamentos de graças alcançadas
na cura de doenças e superação das dificuldades da vida – Fotos 29 e 30. Nos registros
do calendário religioso do Santuário: “Romaria da Terra e das Águas” (04, 05, 06 de
julho de 2003) e festa de Nossa Senhora da Soledade (15 de setembro de 2003).

64
- Acervo pessoal, Bom Jesus da Lapa – BA, outubro de 2003.
57

Foto 2965 – Ex-votos – Bom Jesus da Lapa - BA

Foto 3066 – Ex-votos


Bom Jesus da Lapa - BA

Expressando suas ações nas práticas das constelações da religiosidade e da


resistência vivida, a fé do sertanejo está impressa nos seus costumes nas relações de
transcendência cósmica. Assim, o sertanejo reza, cultua e se manifesta por festas pela
cura, pelo infortúnio, pela chuva que não cai, nas relações onde existem valores
socializados. Demonstram gestos que podem ter traços pessoais onde há a comunicação
com o sagrado. Tocam-se estátuas sagradas como personificação corporal de um santo

65
- Acervo pessoal – Bom Jesus da Lapa – BA, outubro de 2003.
66
- idem – Bom Jesus da Lapa – BA, outubro de 2003.
58

nas ações de aproximação/confiança representadas através das fitas amarradas (com


inscrição gráfica), retratos como representação pessoal, água benta, medalhas e
milagres. Nas ações rituais há um apoderar-se sem palavras ou, às vezes, em ladainha e
cantos – Foto 31.

Foto67 31 – o toque – Bom Jesus da Lapa – BA

Nas constelações da religiosidade e da resistência encontramos os elementos


expressivos que se abrem para as representações: como a luz incidida sobre o crente no
contraste da escuridão na expressão de união do homem com o sagrado – Foto 32.

Foto 3268 – Rezas, orações e luz


Bom Jesus da Lapa - BA

67
- Acervo pessoal - Bom Jesus da Lapa – BA, outubro de 2003.
68
- idem - Bom Jesus da Lapa – BA, outubro de 2003.
59

A representação da cruz de Cristo presente no próprio corpo – bentinhos,


crucifixos, em cemitérios expostos, em igrejas e na profusão de imagens sacras – Fotos
33, 34 e 35.

Fotos 3369- Cemitério Público


Taiobeiras – MG

Foto 3470 – Cemitério Público – região de Suçuarana – BA

69
- Acervo pessoal - Taiobeiras – MG, 1999.
70
- idem - Suçuarana – BA, outubro de 2003.
60

Foto 3571 – Imagem sacra – Mucujê - BA

Através dos gestos e das falas, as devoções e esperanças com base na proteção
divina ocupam um lugar central e constante que o sertanejo, seja ele o vaqueiro, o
lavrador, o retirante, o artesão, a criança ou a mulher, realiza por meio de ícones, de
imagens, ritos de fé, de toque de mãos em restos de santos, de oráculos (gestos que
remetem aos gregos). Na tradição da religiosidade católica, recordam vidas de pessoas
ou de Cristo, Nossa Senhora e milagres. Nas ações das práticas dinâmicas que unem o
universo social e a cultura o sertanejo, por meio de procissões que envolve a multidão,
desloca o ícone sagrado. Por meio das romarias coloca-se diante do santo, por meio dos
sacramentos – missa, batismo, comunhão e expressões espontâneas. Trata-se, portanto,
de fatores socioculturais de expressões integrados ao contexto concreto, nos quais as
constelações de resistência e da religiosidade se tornam evidentes. Representações que
não podem ser excluídas para esta pesquisa.
Deste modo, as percepções dos dados empíricos, propostos pelo ambiente
sertanejo, não são indiferentes tornam-se, agora, um estudo que localiza as constelações
de significados expressivos e integrados entre linguagens. Com efeito, os dois

71
- Acervo pessoal - Mucujê – BA, outubro de 2003.
61

elementos das constelações – a religião e a resistência do sertanejo dão o seguinte


quadro: a integração só pode ser medida nos elementos que estão disponíveis, e
finalmente ainda se deve perguntar até que ponto cada uma das constelações
mencionadas pode ser percebida porque se trata de comportamentos
concretos/dinâmicos na afirmação da existência humana.
Ali, nas práticas, há a expressão que representa a proteção e defesa do homem
sertanejo, presentes nos sacramentos ou ritos, na devoção aos santos, nas expressões
verbais, nos costumes cotidianos, nos ofícios de trabalho e nos cantos das
ladainhas...Assim, o conceito de imagens, que incorpora os dois elementos –
religiosidade e resistência, torna-se evidente para as representações construídas na
história do Brasil, desde o século XIX, com os sujeitos históricos da realidade brasileira
onde entra em cena uma relação entre o sentido do mundo e o sentido das
representações. Partindo desta nova proposta, torna-se possível sair do conformismo
abstrato casual ou da ótica determinista na construção das representações.
As duas constelações escolhidas representam as seguintes características:

- tradição (continuação do mistério e santo) na fé e no cotidiano


- valores expressivos socioculturais históricos das constelações da resistência e
da religiosidade
- identidade brasileira
- representação histórica, vistas à luz da percepção da realidade que pode ser
avaliada nas concepções das relações com a cultura, história e afetos.

Na análise das práticas do homem sertanejo, detive-me em aspectos das


constelações da resistência e da religiosidade percebidas a partir da contemporaneidade
e entrosadas entre si. Disso resulta uma relação, muitas vezes, intimista entre o
pesquisador e o objeto de pesquisa. Partindo da revisão analítica dos resultados obtidos
e da percepção das práticas socioculturais expostas, o elemento que se refere à forma
não se detém apenas em uma identidade parcial ou só semelhança imagética. Quanto à
imagem do homem sertanejo, isto significa que, para sua construção, cada vez se pode
partir das práticas: do sentido das lutas e derrotas, das esperanças e das frustrações que a
constituíram historicamente como parte das experiências de cultura e da vida.
Compreender significa ver os fenômenos no seu contexto onde circulam os sertanejos e
as práticas. E o que se torna visível são as condições de resistência /religiosidade, nas
62

expressões e nas condutas como os homens encontram a vida e a Deus (e ao santo).


Sendo que as mesmas têm de ser percebidas à luz de unidades significativas do processo
de comunicação, pode-se recorrer às expressões narrativas (e visuais) das artes literárias
e plásticas.
Nas observações das práticas socioculturais, o sertanejo manifesta os seus
sentimentos por gestos, falas e silêncio. Se as práticas das constelações de resistência e
da religiosidade se tornam elas mesmas objeto de percepções pelas suas próprias
representações, a função estética tem como ponto central uma mensagem nas relações
especiais para com o contexto (comunicativamente). Na forma estética das
representações, temos a relação para com o emissor. Disto resulta o fenômeno – que não
se pode deixar de lado – da comunicação figurada quanto ao conteúdo expressivo onde
aparece o diverso e não a regularidade do sujeito social. Por isso, uma representação
cultural, que trata do contexto sertanejo, não pode ser constatada no espaço “vácuo” e
sim na área da percepção – aqui por meio da comunicação – do ambiente sertanejo, do
homem e suas práticas como ações de religiosidade e de vida. Em última análise, assim
queremos identificar as aproximações estéticas profundas que produzem e aprovam
perspectivas históricas na representação de povo brasileiro.
As representações culturais resultam da conexão do aspecto de expressão das
condutas de vida do sertanejo. O eixo para as construções está concretizado nas
combinações pelas quais é regulamentado o uso dos elementos dos agentes em
expressão. Fornece, também, ações estabelecendo uma concordância entre o sentido das
práticas, o sentido das representações e o sentido do mundo.
As representações culturais têm uma relação sensível para com o objeto – o
sertanejo e seu contexto, posto de maneira não arbitrária, pois há o lugar do sertanejo, o
lugar do sertão, o lugar da fome e o da religiosidade. Entra em andamento uma cadeia
de diálogo entre práticas socioculturais e representações culturais. As práticas
socioculturais como comunicação dos documentos como oração, ritos, cantos,
expressões verbais e ofícios se tornam o impulso de novas comunicações sobre essas
práticas/homens nas formas das representações culturais como perspectiva da imagem.
Na apropriação das práticas de resistência e da religiosidade do homem sertanejo
se institui o real. Portanto, as representações culturais não tratam da fixação estática de
um processo singular ilustrativo de comunicação. Com isto, pode-se mostrar a
percepção que resulta da comunicação das práticas dos sertanejos, que se abre para um
novo diálogo.
63

A clareza de sentidos, desta maneira, não condiciona a redução da imagem e a


fixação de possibilidades reduzidas do objeto. Elas são o que dá suporte ao seu lado
visível. Trata-se de um processo do Brasil Moderno, que faz o imaginário cultural com
substância e com valores das práticas socioculturais do contexto sertanejo. Não tanto
para mostrar em que instante estão as práticas, mas como são usados os elementos das
constelações de vida. A religiosidade e a resistência, sob o seu aspecto de comunicação
do homem sertanejo, fornecem os critérios para a avaliação na busca de povo brasileiro
que mantém acesos os sentidos e o desejo da revelação.
Em relação às representações culturais, as constelações da resistência e da
religiosidade do sertanejo estão presentes nas imagens instituídas de um real móvel que
nos cabe perceber. Percepções numa paisagem dinâmica que não cessam e que levam
sempre a um eterno retornar. Lugar onde a identidade brasileira se revela no resultado
das linguagens, sem que com isso defendamos um determinismo entre as práticas
socioculturais e a realidade regional. Que deve ser definido como lugar de encontros
expressivos em um processo recíproco criativo de integração. Com isto, elas se tornam
revelações através da imagem por estarem entrelaçadas.
Se os ritos, a devoção, a resistência já estão em um contexto social com
dificuldades, as práticas religiosas e de resistência expressam a vida. Precisamente disto
resulta que as representações do homem sertanejo só podem falar de modo socialmente
relevante se, também, na estética assumem uma função crítica, trazendo ao debate os
questionamentos propostos. As representações culturais deverão chamar atenção ao fato
de que à imagem, que a princípio é necessária para a construção de uma afirmação de
povo brasileiro, corresponde o real e se faz parte de um conjunto significante.
A estética, como consciência crítica na construção de representações históricas
brasileiras, não poderá simplesmente ser “essencial” e sem referências. Ela formulará o
conteúdo das ações e as condutas das práticas e das experiências. As representações
configuram a função plástico-social entre a expressão estética das criações culturais e a
dinâmica das práticas socioculturais, porta de entrada a ser (re)aberta a cada novo
encontro entre as construções e a história.
64

PARTE II

Representações sertanejas nas artes literárias e plásticas brasileiras


65

Representações sertanejas nas artes literárias e plásticas brasileiras.

As construções de formas figurativas expressivas, que têm por base as ações das
práticas socioculturais do homem sertanejo, envolvem a própria natureza da Arte
Literária e Plástica e revelam a sensibilidade do artista/escritor. São formas dinâmicas
das Artes em que se pode conceber a vitalidade e a emoção das constelações da
religiosidade e da resistência vistas no capítulo anterior: O Sertanejo Nordestino: o
homem regional – práticas religiosas e de (sobre)vida...
A estratégia básica, nesta pesquisa, se dá na reunião de trabalhos produzidos ao
longo da história brasileira cujo mapeamento propõe um conjunto de representações em
que diferentes gerações de autores das Artes Literárias e Plásticas foram fundamentais
para a configuração das representações culturais sobre o homem regional dos sertões,
tendo por base as práticas socioculturais. Isto me leva à questão da importância das
representações no Brasil, pois, a Arte está apta a representar a cultura, não de maneira
somente técnica, mas, também, como fonte de referências onde se pode ter o universo
expressivo dos elementos de identidade. Como elemento propulsor encontram-se as
linguagens – literárias e plásticas que buscam compreender o sentido da vida humana. A
arte/história, portanto, possui as figuras sensíveis do homem sertanejo brasileiro. Nas
representações culturais brasileiras, encontra-se o sertão, o homem, as suas práticas, a
relação com a natureza, a dor.
As representações culturais do povo brasileiro fornecem os indícios de uma nova
maneira de análise que sugere, também, outra matéria para reflexão da questão
imagética – na dialética das relações que criam as imagens surge a força propulsora das
construções. As criações colhem um motivo da realidade expressa na religiosidade e na
resistência do sertanejo, e impregnam de vitalidade a Imagem. Faz com que o
66

movimento da vida sertaneja se manifeste e se revele através das múltiplas imagens


formadas e analisadas alternadamente na literatura e na pintura dos autores escolhidos.
Não posso deixar de mencionar, nesta análise que forma a segunda parte deste
trabalho, as construções das representações que estão em um presente e em um passado
de lutas do sertanejo que se faz revelar entre o final do século XX – 1997 e este novo
século XXI, nas obras do pintor baiano Trípoli Gaudenzi. A obra desse autor, cujo título
já nos indica a representação sertaneja – Delenga Canudos! – Figura 1 - foi foco das
atenções nas comemorações do Centenário da Guerra de Canudos em 1997 e nos traz a
representação dos sertanejos guerreiros da luta sangrenta com o Exército Brasileiro em
Canudos - BA, fato ocorrido no século XIX.

Figura 172 – Delenga Canudos! – óleo sobre tela – 1997

À obra foram dedicadas análises abordando sua gênese enquanto imagem


pictórica como narrativa histórica sobre a saga da guerra que, ao mesmo tempo, propõe
novas interpretações e indicam o quanto o contexto e as práticas socioculturais do
homem sertanejo continuam a ser lembrados nas representações culturais brasileiras,
onde o presente se torna momento de ligação entre o que foi e o que está sendo.

72
- Obra de: GAUDENZI, Trípole – In Estado de Minas - Canudos faz cem anos, Déa
Januzzi/Reprodução, (caderno Espetáculo), 07 de fevereiro de 1997.
67

Interessa-me, aqui, a leitura do trabalho que provoca indagações, sobretudo se


penso na sua caracterização expressiva. Tomando pelo prisma da imagem que se revela,
posso sintetizá-la nos seguintes termos: num primeiro momento, leio os acontecimentos
no sentido de (re)estabelecer um ponto de reflexão sobre o povo brasileiro – um apelo
ao passado que não é negado pela história, e que continua em um presente. No diálogo
entre representação/práticas socioculturais aparecem concepções de identificação do
homem sertanejo: a luta que faz parte do seu cotidiano, como possibilidade ou
realidade. Fatos analisados desde o início dessa dissertação.
Delenga Canudos! é uma obra tematizando a vida sertaneja, questão corriqueira
na cultura brasileira, articulada à uma representação da luta como momento político
brasileiro. A obra de Gaudenzi em 1997 é a representação de um tempo cíclico – um
presente que se recoloca e perpetua a partir da percepção e da expressão que se
relaciona com os sertões/sertanejos. Lançada em 1997 assume, assim, contornos de
Memória da Guerra de Canudos (1897), na lembrança ressentida de quando o Brasil
lutou consigo mesmo. O autor, neste caso, percebe o tempo como algo cujo limite
encontra-se no indivíduo sertanejo e tende ao estabelecimento de um presente, enquanto
parte de um processo mais amplo, que produz identidades e compreensões. Percebido
no cotidiano das práticas, o sertanejo se encontra vinculado às construções das
representações como, por exemplo, a compreensão da existência do que se (re)passa no
contexto regional sertanejo, no qual ocorrem as mais importantes ações enquanto
dimensão do vivido, articulado historicamente.
Para o pintor Gaudenzi, por trás desse conflito representado da guerra em
Canudos existe a defesa de vida pelos sertanejos, na qual são centrais a presença
coletiva da multidão com armas de fogo e elementos de devoção. A representação, se
me aproprio do conceito de Chartier73, coloca para a história questões nas suas relações
com o real. Não se trata de maquinação, mas sim, na análise, agora, de como a
percepção penetra na historiografia (re)produzindo um fato ocorrido. Há, nesta obra,
uma crítica social e, também, um desejo de buscar na história sua credibilidade.
Revelam-se ações: atrelada a uma determinada relação entre contexto sertanejo e
construções onde o fazer não se torna pura repetição.
É patente que tal operação permitiu um profundo relacionamento da linguagem
plástica - pintura que visou, sobretudo, enfatizar aspectos sociais e políticos dos sertões

73
- CHARTIER, Roger – O Mundo como Representação – [1989], Estudos Avançados, 11 (5), 1991,
pp. 173-191.
68

nordestinos e conselheristas. A obra Delenga Canudos! analisa as práticas de luta, cuja


mensagem é precisa – a discussão e representação das constelações de religiosidade que
é assumida na figura que acolhe e expressa o ser cristão centrada sobretudo na matriz
católica. No lado esquerdo da obra, temos a cruz elevada aos céus ao lado do sertanejo
de expressão aflita, e no peito da figura com um cajado que representa um ancião,
amparado nos braços da mulher de olhar assustado, que carrega uma criança pequena e
desnutrida ao colo. A figura central nos traz o vaqueiro encourado, líder de proteção
para a multidão em pânico, junto ao seu cavalo e, também, o seu crucifixo. Com o dedo
que aponta para uma solução do momento de crise há, aqui, a constelação da resistência
integrada na representação do arraial em chamas que sufoca a multidão e a igreja. As
cores usadas na construção da obra são, por si mesmas, associadas ao passado de
maneira não ambígua. Elas se constituem do vermelho que representa o fogo e as
labaredas, do marrom que representa o couro das vestimentas e acessórios – chapéu,
gibão e armas, os cinzas - da fumaça que se confunde com os azuis do algodão das
vestes e o preto do horizonte - na representação das tensões. Esses elementos,
juntamente com as formas figurativas do homem e dos materiais, lembram o passado da
guerra e compõem a representação. As imagens denotam um momento do sentido
trágico da vida como cicatrizes de um sertão dolorido que ainda existe.

***

O percurso de análise da obra Delenga Canudos! reafirma a perspectiva que


Euclides da Cunha em Os Sertões – 1902 já pontuava. A mesma concepção encontrada
na pintura de Gaudenzi está presente na obra literária de Euclides. Trata-se de
representações das personagens sertanejas, importantes em um determinado contexto,
onde se pode observar a sua recolocação como parte do processo histórico. No caso
específico de Os Sertões, está-se diante de uma representação que abrange a terra, o
homem, a luta. É neste ponto que o autor irá se expressar, com uma leitura bastante
detalhista sobre os sertões, estabelecendo vínculos históricos entre a sua obra e a
percepção das ações dos homens que lutaram em Canudos, no conflito de 1897.
Penso ser útil analisar alguns aspectos dessa relação. Se, por um lado, existe a
preocupação de Euclides em documentar a guerra in loco e, de outro, o contato com os
costumes e as práticas socioculturais, há um terceiro ponto a ser enfocado: a concepção
69

de história das pessoas. Estamos diante de um campo aberto das expressões como fonte
imagética para a reflexão aprofundada sobre a História do e sobre o presente.
Ciente de que cada obra apresenta as suas características, enquanto gênero
literário e pictorial, centralizo a discussão em trabalhos que abordam o tema regional
dos sertões nordestinos e seus elementos das constelações escolhidas para a pesquisa.
No que se refere à tese de Euclides, o viés escolhido para a análise é sua leitura
considerando o ponto enfocado por este autor: a consideração da percepção sobre o
ambiente histórico e as relações desses com a construção das representações, duas
questões intrinsecamente ligadas. Fazendo uma observação da maneira como Euclides
propõe analisar a luta sertaneja enquanto fato, temos o autor na região de conflito em
1897, na cobertura jornalística da 4ª Expedição do Exército, para o Estado de São Paulo
na comunidade de Canudos – BA. Na região desconhecida, compreendendo o homem
em seu tempo e compreendendo o que era incompreendido (e que, ainda hoje, na
contemporaneidade, as criações buscam compreender e revelar como identidade de
povo brasileiro, sua gente e seus costumes) dos sertões diz Euclides em sua obra:

Quem vê a família sertaneja, ao cair da noite, ante


o oratório tosco ou registro paupérrimo, à meia-
luz das candeias de azeite, orando pelas almas dos
mortos queridos, ou procurando alentos à vida
tormentosa, encanta-se. O culto dos mortos é
impressionador. Nos lugares remotos, longe dos
povoados, inumam-nos à beira das estradas, para
que não fiquem de todo em abandono, para que os
rodeiem sempre as preces dos viandantes, para
que nos ângulos da cruz deponham estes, sempre,
uma flor, um ramo, uma recordação fugaz mas
renovada sempre. E o vaqueiro que segue
arrebatadamente, estaca, prestes, o cavalo, ante o
humilde monumento – uma cruz sobre pedras
arrumadas – e, a cabeça descoberta, passa
vagaroso, rezando pela salvação de quem ele
nunca viu talvez, talvez de um inimigo.74

Euclides, na sua expressão sobre os sertões, exalta os campos gerais, os


chapadões característicos, a comunidade dos vaqueiros e os moradores. O autor exalta a
forte e enigmática conduta religiosa do sertanejo que, ainda hoje, é percebida nos
espaços sagrados reservados a orações e no próprio cotidiano dos sertões. Há sempre
nas moradias um oratório ou imagens de santos, as portas abertas de igrejas são

74
- CUNHA, Euclides da – Os Sertões: campanha de Canudos, 39ª ed. Rio de Janeiro:Francisco Alves;
Publifolha, 2000, p. 120.
70

constantes e pelas estradas cruzes que são de madeira ornada com flores na expressão
do não abandono da alma que repousa naquele túmulo. Práticas que envolve o coletivo e
a tradição dos costumes. No registro perceptível do contexto sertanejo, Euclides projeta
a imagem do homem de fé e sua cultura regional. O autor revela “ao futuro” a idéia do
encantamento perante as condutas religiosas praticadas pelo sertanejo. As rezas, as
cruzes e o culto aos mortos, mesmo que seja talvez um inimigo nos indica as práticas
socioculturais e imaginário perante os mortos, que alcançam o que Guimarães Rosa
expressa em suas obras – em especial Grande Sertão Veredas de 1956: as pessoas não
morrem, ficam encantadas...Neste estágio, a sociedade mistifica a alma perpetuando a
união da presença humana com o divino através dos símbolos e gestos do catolicismo
popular. Em Rosa: se tem alma, e tem, ela é de Deus estabelecida, nem que a pessoa
queira ou não queira. E não é vendível75. Não é vendível ao demônio em vida e na
morte há o compromisso de cumplicidade social de proteção e entrega do defunto a
Deus. O existir da alma é a reza segundo Rosa76.
A obra Os Sertões revela o contexto sertanejo com seus verões queimados e
invernos torrenciais como: aqueles serros aspérrimos rebrilham estonteadoramente-
ofuscantes, num irradiar ardentíssimo...77 Descreve a flora, o ciclo das chuvas, o sertão
seco – um deserto, e o sertão úmido – mutação fantástica, o caboclo – o sertanejo,
combatente anônimo, terrivelmente obscuro, afogado na solidão das chapadas, [que] a
natureza não o abandona de todo78. Tendo como elemento de fusão o sangue das três
raças – branca, indígena e negra promovida pelas Bandeiras que investiam na terra,
buscando escravos indígenas, escravos negros fugidos e ouro.
O bandeirante, o jesuíta e o honrado vaqueiro sertanejo são representados por
Euclides como trabalhadores responsáveis pelas grandes propriedades e fazendas de
criação de gado. Sendo que o vaqueiro merece destaque na formação da nossa gente79,
sendo caracterizado como bravo e destemido, resignado e tenaz, responsável pela
fixação ao solo do sertão com seu ofício pastoril. Na narrativa de Os Sertões, temos o
sertanejo e a sua representação:

75
- ROSA, João Guimarães – Grande Sertão:Veredas, 35ª ed., Rio de Janeiro:Nova Fronteira, 1986, p.
17.
76
- idem, p. 535.
77
- CUNHA, op. cit., p. 18.
78
- idem, p. 48.
79
- idem, p.84.
71

O meio atraí-o e guardava-os...aquela rude


sociedade, incompreendida e olvidada era o cerne
vigoroso de nossa nacionalidade...Os primeiros
sertanistas que a criaram, tendo suplantado em
toda a linha o selvagem, depois de o dominarem
escravizaram-no e captaram-no... Veio
subseqüentemente o cruzamento inevitável. E
despontou logo a raça de curibocas puros quase
sem mescla de sangue africano, facilmente
denunciada, hoje, pelo tipo normal daqueles
sertanejos. Nasciam de um amplexo feroz de
vitoriosos e vencidos. Criaram-se numa sociedade
revolta e aventurosa sobre a terra farta; e tiveram
ampliando os seus atributos ancestrais, uma rude
escola de força e de coragem naqueles gerais
amplíssimos...Fora longo traçar-lhes a evolução
do caráter. Caldeadas a índole aventureira do
colono e a impulsividade do indígena tiveram,
ulteriormente, o cultivo do próprio meio que lhes
propiciou, pelo insulamento, a conservação dos
atributos e hábitos avoengos, ligeiramente
modificados apenas consoante as novas
exigências da vida. – E ali estão com suas vestes
características, os seus hábitos antigos, o seu
estranho aferro às tradições mais remotas, o seu
sentimento religioso levado ao fanatismo, e o seu
exagerado ponto de honra, e o seu folclore
belíssimo de rimas de três séculos...80

O homem sertanejo, na representação de Euclides revela quase os mesmos


caracteres físicos, a mesma tez...cabelo corredio e duro ou levemente ondeado; a
mesma envergadura, e os mesmos caracteres morais traduzindo-se nas mesmas
supertições, nos mesmos vícios, e nas mesmas virtudes81. A intimidade com o meio
físico reflete na sua índole e nos seus costumes e faz surgir a figura acobreada e
potente82 que enfrenta a seca e o ambiente de terríveis episódios com suas crenças e
esperanças de vida. Os vaqueiros encourados nas lidas com o gado, com cantorias e
festas de vaquejadas, ágil e corajoso na tradição mourama das cavalhadas ou mesmo,
nos momentos de crise, quando a roupa do vaqueiro se faz a armadura flexível do
jagunço83, nos trabalhos de serviço alugado à coronéis latifundiários ou como membros
da comunidade de Canudos – BA. Crentes e fiéis do líder messiânico Antônio
Conselheiro, diretamente ligados às promessas de perdão e proteção para a ordem da
comunidade.

80
- idem, p.87.
81
- idem, p.93.
82
- idem, p. 100.
83
- idem, p. 88.
72

Na expressividade de Euclides, temos o conceito retomado das virtudes


“medievais” como características perceptíveis no contexto sertanejo como o aferro às
tradições, no caso, tradições do Brasil colonial formado na fusão dos elementos
socioculturais europeus, índios e africanos que trazem a honradez como atributo
fundamental e moral do amor, da honestidade, da palavra oral de compromisso, da
fidelidade social que se estende à religiosidade. Expressões sertanejas que são
fundamentais nas ações da dinâmica humana que não se tornam elaborações pitorescas
de vida.
Como nas palavras de Euclides, posso analisar, na elaboração imagética de Os
Sertões as ações do campeador, nas quais subjaz uma noção, também medieval, da
honra quando o sertanejo emprega as práticas do se fazer respeitar e de não se entregar
perante as adversidades da vida nos sertões:

O seu aspecto recorda, vagamente, à primeira vista,


o do guerreiro antigo exausto da refrega. As vestes
são uma armadura. Envolto no gibão de couro
curtido, de bode ou de vaqueta; apertado no colete
também de couro; calçando as perneiras, de couro
curtido ainda, muito justas, cosidas as pernas e
subindo até as virilhas, articuladas em joelheiras de
sola; e resguardados os pés e as mãos pelas luvas e
guarda-pés de pele de veado – é como forma
grosseira de um campeador medieval desgarrado de
nosso tempo. Esta armadura, porém de um
vermelho-pardo, como se fosse bronze flexível, não
tem cintilações, não rebrilha ferida pelo sol. É tosca
e poenta. Envolve ao combatente de uma batalha
sem vitórias...É o batalhador perenemente
combalido e exausto, perenemente audacioso e forte
preparando-se sempre para um recontro que não
vence e em que se não deixa vencer...84

O vaqueiro como campeador audacioso e forte e em que se não deixa vencer


revela as representações do homem regional dos sertões. Essa idéia, juntamente com o
conceito de honra e respeitabilidade remete a Schopenhauer85 na expressão: a arte de se
fazer respeitar.
A Guerra de Canudos, percebida por Euclides, matou cerca de 15 mil pessoas
entre civis e militares em um terrível episódio social da história brasileira. A percepção

84
- idem, pp. 102-103.
85
- SCHOPENHAUER, Arthur – A arte de se fazer respeitar ou Tratado sobre a honra, 1ª ed., São
Paulo:Martins Fontes, 2003.
73

euclidiana das características dos costumes dos sertões nos termos deterministas,
inerentes à época do autor, mas que, segundo Luiz Costa e Lima (1997) com ornamento
literário86 não só deu conta da violência do massacre, como também, revelou ao país o
universo da realidade dos sertanejos, sua religiosidade e costumes cotidianos, a
iconografia religiosa, santos, medalhas, romarias, ladainhas: ressoando pelas
montanhas, o toque da Ave-Maria...os soldados escutavam, então misteriosa e vaga,
coada pelas paredes do templo meio em ruínas, a cadência melancólica das rezas...87 e
a sensação das experiências no permanente intercâmbio material e espiritual das
expressões de fé sertaneja. Práticas da longa tradição, como diz Euclides na sua obra
híbrida que envolve literatura e ciências sociais, sobre o acervo encontrado em
Canudos:

...rosários de toda a espécie, dos mais simples, de


contas policrônicas de vidro, aos mais
caprichados, feitos de ouricuris; e igualmente
inúmeras rocas e fusos, usança avoenga
tenazmente conservada, como tantas outras, pelas
mulheres sertanejas. Sobretudo aquilo,
incontáveis, esparsos pelo solo, apisoados,
rasgados – registros, cartas santas, benditos em
caderninhos costurados, doutrinas cristãs
belíssimas, imagens amarfanhadas de santos
milagreiros, verônicas encardidas, crucifixos
partidos; e figas, e cruzes, e bentinhos imundos...88

O homem dos sertões que enfrenta a seca com a placabilidade superior dos
fortes, encara de fito a fatalidade incoercível, e reage89 na vida e na guerra, como
caráter excepcional de luta em Canudos, onde um exército vai contra os homens de um
arraial degolando-os, fuzilando-os...
Da difícil estratégia de guerra, com perda de oficiais e quase desmoralização
política, a Campanha do Exército Brasileiro contra Canudos encontra o homem
sertanejo com toda a sua índole guerreira (coragem e perseverança) – o jagunço em Os
Sertões, insulado no tempo e no espaço...ali estava indomável90 na representação de
Euclides da Cunha.

86
- LIMA, Luiz Costa – Terra Ignota: a construção de ‘Os Sertões’, Rio de Janeiro:Civilização
Brasileira, 1997.
87
- CUNHA, op. cit. p. 371.
88
- idem, p. 490.
89
- idem, p. 114.
90
- idem, pp. 308, 388.
74

Numa postura mais abrangente no que diz respeito às representações euclidianas,


revela-se a mulher sertaneja que assim como os homens também ousam, ou seja, não se
submetem:

...algumas valiam como homens...velhas megeras


de tez baça, faces murchas, olhares afuzilando
faúlhas, cabelos corredios e soltos, arremetiam
com os invasores num delírio de fúrias...não
fraqueavam, morriam num estertor de feras,
cuspindo-lhes em cima um esconjuro doloroso e
trágico...sobre tudo isto um pensamento, não
boqueado se quer mas igual dominador, latente
em todos os espíritos: a admiração pela ousadia
dos sertanejos incultos...91

Unindo ciência e sensibilidade, construindo representações com base nas


práticas das constelações da resistência e da religiosidade do sertanejo na guerra,
Euclides projeta a antológica e emblemática frase: o sertanejo é, antes de tudo, um
forte92. Temos o homem sertanejo, as características e a tipificação regional
esteticamente relacionado em seus elementos históricos do contexto, das rezas e da
própria resistência, que são articulados nas construções, não perdendo de vista a
necessidade historiográfica do sentido de compreensão da experiência humana. São
representações que não se fecham no espaço das incertezas, que se abrem para novas
questões e produzem possibilidades históricas; porque as representações culturais não
estão fechadas em si mesmas.
As citações de Euclides da Cunha e, também, dos autores literatos que analiso
no seguimento dessa pesquisa, não se limitam a definir a linguagem literária, mas, sim,
a projetar representações que provocam reflexões sobre a forma imagética que
caracteriza o sertanejo na própria definição de historicidade. Trata-se, portanto, em Os
Sertões de um problema profundo: a experiência de luta armada da comunidade de
sertanejos, localizados na Bahia nos fins do século XIX. Na percepção dos costumes,
vestimentas, habitação, condutas e estratégia de luta Euclides revela representações do
sertanejo para as identidades do Brasil trabalhadas nos quadros de uma História Social
com um apelo para a liberdade literária que provoca uma tomada de consciência sobre a
própria conduta política do Estado nas ações da guerra.

91
- idem, pp. 387, 406.
92
- idem, p. 99.
75

Das passagens expressivas de Os Sertões – 1902 é (re)conhecida a imagem de


Canudos e seus moradores no passado da Guerra de 1897, em uma reflexão crítica nos
cenários realistas, na reprodução do saber histórico, tendo o diálogo expressivo no
desdobramento da realidade que tende a construir um sentido temporal. Temos, assim, a
arte que não se torna uma metáfora. Temos a arte com o poder de figuração do material
sensível, dentro dela, a representação.
A abordagem, para esta pesquisa, amplia a questão das Artes Literárias e
Plásticas por considerar que as representações não estão interessadas na tarefa de
ilustração pitoresca e sim, na reflexão sobre a experiência humana da realidade
brasileira. Fatos que configuram momentos históricos sem cortar o sentido da
consideração humana em formas vívidas que continuam atuais.

***

Continuando a abordagem para esta dissertação e pensando as representações


culturais articuladas ao cotidiano da vida regional dos sertões, analiso a obra literária de
Graciliano Ramos93 – Vidas Secas - 1938 no propósito de estabelecer vínculos
estéticos/sociais elaborados nas representações do livro. A primeira referência que
encontro nas questões das relações expressivas é do próprio autor que não deixa
excluída a memória de Amaro Vaqueiro e de José Baía cujo contato se deu na fazenda
em Buíque – PE onde ali a seca matou o gado94, segundo Ramos.
A narrativa literária em Vidas Secas começa a ser esboçado na publicação de
contos de Graciliano Ramos para o jornal argentino La Prensa com o texto Baleia. Esse
texto veio a ser parte da edição do livro Vidas Secas, em 1938, em que Ramos
(re)afirma a representação do contexto regional dos sertões nordestinos no Brasil ao
descrever a longa trajetória das personagens na paisagem árida. Todas estas indicações,
fortemente marcadas pela questão nacional, não passam ao largo das preocupações de
Ramos, cujo campo de representações se realiza a partir da inserção da imagem do
sertanejo no embate com a seca nordestina.
As personagens da obra, o vaqueiro Fabiano, Sinhá Vitória, sua mulher, os dois
filhos sem nome e a cachorra Baleia são retirantes, famintos e errantes pelo sertão.
Graciliano relaciona as suas personagens ao da paisagem e tenta compreender o mundo

93
- RAMOS, Graciliano – Vidas Secas, 91ª ed, Rio de Janeiro:Record, 2003.
94
- RAMOS, op. cit. – notas da editora na orelha esquerda desta edição.
76

interior, isto é, no mutismo das personagens, o sentido da vida nas constelações da


resistência e da religiosidade. Com preocupações quanto a injustiça social faz a
expressão das representações nas páginas de um realismo crítico.
No texto de Ramos, encontramos as passagens e personagens sertanejos. A ação
ocorre na planície avermelhada95. Aqui há uma vastidão avermelhada pelo sol e pelos
tons da terra seca da caatinga (representação que nos remete ao calor e fogo como em
Euclides) salpicada de ossadas e de urubus onde:

...os infelizes tinham caminhado o dia inteiro,


estavam cansados e famintos. Ordinariamente
andavam pouco, mas como haviam repousado
bastante na areia do rio seco [imagem do rio
temporário dos sertões], a viagem progredira bem
três léguas. Fazia horas que procuravam uma
sombra. A folhagem dos juazeiros apareceu longe,
através dos galhos pelados da catinga
rala...Arrastaram-se para lá, devagar, sinhá
Vitória com o filho mais novo escanchado no
quarto e o baú de folha na cabeça, Fabiano
sombrio, cambaio, o aió a tiracolo, a cuia
pendurada numa correia presa ao cinturão, a
espingarda de pederneira no ombro. O menino
mais velho e a cachorra Baleia iam atrás.
...Tinham deixado os caminhos, cheios de espinho
e seixos, fazia horas que pisavam a margem do
rio, a lama seca e rachada que escaldava os
pés...e a viagem prosseguiu, mais lenta, mais
arrastada, num silêncio grande.96

O local é explicitamente descrito por Ramos – sua paisagem de caatinga e sua


gente sofrida marcadas pelos sertões nordestinos brasileiros. Desta maneira, o autor não
se afasta da tradição que já vinha ocorrendo no Brasil, desde século XIX, com o
cearense José de Alencar97 em O Sertanejo – 1875. Ramos, em 1938, encontra a
continuação da expressão/percepção nas qualidades estéticas, ou seja, a representação
imagética. Além desse diálogo, existe a historização da resistência e religiosidade do
sertanejo. Tendência que faz sempre uma retomada da imagem do homem dos sertões, o
que possibilita, relacionar-se com experiências de vida como a trajetória de defesa do
retirante no enfrentamento das adversidades climáticas e sociais.

95
- RAMOS, op. cit. p. 9.
96
- idem, pp. 9-10-11.
97
- ALENCAR, José de – O Sertanejo, Fortaleza, CE:ABC Editora, 2001.
77

No campo das artes literárias e plásticas, tal tradição manifesta-se de várias


maneiras complementares representando aspectos da comunidade sertaneja, que traz à
tona a experiência religiosa fundamental com seus elementos vinculados à tradição dos
costumes e aos espaços ligados ao sagrado, como representa Ramos:

Sinhá Vitória...as mãos cruzadas segurando os


joelhos ossudos, pensava em acontecimentos
antigos que não se relacionavam: festas de
casamento, vaquejadas, novenas, tudo numa
confusão. Despertara-a um grito áspero, vira de
perto a realidade e o papagaio...Resolvera de
supetão aproveitá-lo como alimento...98

Como vaqueiro, a personagem Fabiano tinha de lidar com o ofício de olhar o


gado e a tratá-lo, quando sumia alguma rés cruzava dois gravetos no chão e rezava
cumprindo reza forte através da tradição dos costumes. Em Vidas Secas, o autor revela a
representação do vaqueiro e sua família vinculados a espaços tradicionais ligados ao
sagrado articulada ao atendimento de necessidades imediatas – a seca, fome, miséria,
solidão. Embora esse catolicismo tenha resistido como representações tradicionais da fé,
é ele que dá suporte ao aspecto social perceptível. Esta incorporação de elementos
religiosos-visuais torna-se matriz para o tema na obra. Nesse momento, as relações com
o sagrado, a partir das expressões das práticas socioculturais, aparecem vinculadas a
preocupações sociais explícitas e imediatas do autor.
Nesse caso, posso pensar a representação do sertanejo em Vidas Secas nas
conciliações entre cotidiano e fé vividas pelo sertanejo. Paralelamente a essa reflexão,
aparecem outros aspectos que não diluem a resistência e a religiosidade. A história
social se insere na obra de Graciliano Ramos, no campo das representações, caso de um
“Fabiano e família” que vem a confirmar essa análise.
Temas vinculados às práticas socioculturais serviram de elementos religiosos e
de resistência da região sertaneja para a construção de imagens de representação no
Brasil. Dialogando com o regional, Fabiano aparece associado à região seca e árida em
luta de resistência ao abandonar a fazenda onde trabalhava pelas dificuldades que a seca
lhe impunha. Articulado à questão de sobrevivência, ele não perde seu referencial
cultural e não se fragmenta enquanto personagem. Na leitura da obra de Ramos,

98
- RAMOS, op. cit. p. 11.
78

encontra-se a articulação do real com as construções. A personagem do vaqueiro


Fabiano tem uma presença explícita na representação de Ramos:

- Anda, excomungado.
O pirralho não se mexeu, e Fabiano desejou matá-
lo. Tinha o coração grosso, queria responsabilizar
alguém pela sua desgraça. A seca aparecia-lhe
como um fato necessário – e a obstinação da
criança irritava-o. Certamente esse obstáculo
miúdo, não era culpado, mas dificultava a marcha, e
o vaqueiro precisava chegar, não sabia
onde...Impossível abandonar o anjinho aos bichos
do mato. Entregou a espingarda a sinhá Vitória, pôs
o filho no cangote, levantou-se, agarrou os
bracinhos que lhe caíram sobre o peito, moles, finos
como cambitos...99

Mas a cena não para: como imagens, perdidos no deserto, os fugitivos da seca
que somam às suas desgraças, e como se expressa Graciliano: o coração de Fabiano
bateu junto do coração de sinha Vitória, um abraço cansado aproximou os farrapos
que os cobria. Resistiram à fraqueza...receavam perder as suas esperanças. E Fabiano
queria viver100. Na penosa caminhada pela sobrevivência, Fabiano encontrou um
bebedouro de animais com lama, raspou o chão com as unhas, a água apareceu, ele
bebeu e saciou a sua sede. A cachorra Baleia encontra um preá que mata
temporariamente a fome do grupo de retirantes. Fabiano pensava: A catinga ficaria
verde101.
O vaqueiro das caatingas encontra uma fazenda abandonada. Chegara com a
família comendo raízes, mas como vaqueiro guardava as coisas do patrão (do dono da
terra). Viveria em terra alheia até que a seca o empurrasse novamente para o mundo. Ao
ser contratado, recebe o gibão, o guarda-peito de couro e o cavalo. Que não eram seus,
pois ele teria de devolvê-los quando fosse substituído. Fabiano lembrava da sua
infância:

...viu-se miúdo, enfezado, a camisinha encardida e


rota, acompanhando o pai no serviço do
campo...Olhou a catinga amarela, que o poente
avermelhava. Se a seca chegasse, não ficaria
planta verde. Arrepiou-se. Chegaria

99
- idem, pp. 10, 11.
100
- idem, p. 14.
101
- idem, p. 16.
79

naturalmente...A desgraça estava a caminho,


talvez andasse perto...Virou o rosto para fugir à
curiosidade dos filhos, benzeu-se. Não queria
morrer.102

Essa representação de Graciliano Ramos em Vidas Secas constitui-se a partir de


procedimentos de integração: a presença das constelações da resistência e da
religiosidade e a equivalência entre temas contrários, vida/morte, riqueza/pobreza e
céu/inferno. A expressão do autor articula a compreensão da realidade dos sertões e a
ação das personagens abrange significados estéticos sociais presentes na obra.
No conjunto da narrativa, em Vidas Secas a representação do sertão sugere uma
perspectiva para as ações das personagens. Dessa maneira, a cena continua. Fabiano vai
à feira da cidade para adquirir mantimentos como farinha de mandioca, sal, rapadura,
feijão, garrafa de querosene e um corte de chita. Decidiu beber e jogar baralho. Quando
a polícia chega xinga a mãe do soldado e é preso. Na cadeia apanha. Ele, Fabiano
acostumara-se a todas as violências, a todas as injustiças...Mas agora rangia os dentes,
soprava. Merecia castigo?- An!...Só queria voltar para junto de sinhá Vitória, deitar-se
na cama de varas103.
A caracterização do sertanejo em Ramos tem por referência a sertaneja sinhá
Vitória e seus costumes cotidianos:

... uma nuvem de cinza voou dos tições e cobriu-


lhe a cara, a fumaça inundou-lhe os olhos, o
rosário de contas brancas e azuis desprendeu-se
do cabeção e bateu na panela. Sinhá Vitória
limpou as lágrimas com as costas das mãos,
encarquilhou as pálpebras, meteu o rosário no
seio e continuou a soprar com vontade, enchendo
muito as bochechas.104

Em outra seqüência, sinhá Vitória olha os filhos no barreiro, fabricando bois de


barro, que secavam ao sol e pensa em adquirir uma cama de lastro de couro. Sentiu um
mormaço e recorda a seca...rezou baixinho uma ave-maria105. Sentiu sede e foi beber
com um caneco a água salobra – Ixe!...Mas iam vivendo, na Graça de Deus, o patrão
confiava neles – e eram quase felizes106.

102
- idem, pp. 20, 24.
103
- idem, p. 33.
104
- idem, p. 39.
105
- idem, p. 42.
106
- idem, pp. 42, 45.
80

Além da representação de Fabiano e sinhá Vitória, Ramos descreve as crianças


nas relações com os elementos da terra – o chão de pedras onde se atirava cobras
mortas, o rebanho de cabras que olhavam, as roupas de vaqueiro do pai que os
fascinavam, enxergavam viventes no céu e consideravam protegidos. Convencia-se [o
menino mais novo] de que forças misteriosas iam ampará-lo. Boiaria no ar, como um
periquito...Aí o bode se avizinhou e meteu o focinho na água. O menino despenhou-se
da ribanceira, escanchou-se no espinhaço dele107. A trajetória dos meninos na
aproximação com a natureza traz a representação das tradições e misticismo quando
surge nas relações com seres cósmicos. Sua caracterização é complementada no capítulo
do O Menino mais Velho sobre o que seria o inferno, onde sinhá Vitória aludiu
vagamente a certo lugar ruim demais...108 com espetos e fogueiras: A Senhora viu?Aí
sinhá Vitória se zangou, achou-o insolente e aplicou-lhe um cocorote...a culpa recai
sobre sinhá Terta, que curou com reza a espinha de Fabiano quando soltara uma
palavra esquisita109. O menino então explicou isto à cachorrinha Baleia com
abundância de gritos e gestos110. A descrição do inferno condensa várias referências:
catolicismo resistente, medo, separação de imagens - de um lado o céu, de outro o
inferno que indicam a possibilidade de expressão do compromisso com a igreja católica,
quanto à própria vida cotidiana.
Pela ação das personagens infantis ecoa a seqüência de vida de Fabiano, sua
mulher e o contexto sertanejo. Nestes, é marcante a recorrente representação dos
costumes e expressões como vestimentas para os ofícios e crenças religiosas ligadas ao
catolicismo popular. Assumindo as características sertanejas, Ramos descreve o sertão
no inverno quando diz: E Fabiano esfregava as mãos. Não havia o perigo da seca
imediata, que aterrorizara a família durante meses...o trovão roncara perto...111 A
chuva cai e sinha Vitória preocupa-se com a enchente: Deus não permitiria que
sucedesse tal desgraça112.
Essa seqüência religiosa está inserida no contexto que atravessa toda a obra e
caracteriza as ações dos sertanejos nas dificuldades das oscilações climáticas, ou seja,
nas secas ou nas chuvas intensas. No conjunto das representações gracilianas aparece a

107
- idem, p. 51.
108
- idem, p. 55.
109
- idem, pp. 56, 60.
110
- idem, p. 60.
111
- idem, p. 65.
112
- idem, p. 66.
81

caracterização da igreja quando Fabiano e família vão à festa de Natal na cidade.


Quando os meninos conhecem os altares e os objetos:

...que deviam ser preciosos...As luzes e os cantos


extasiavam-nos...e Fabiano estava silencioso,
olhando as imagens e as velas acesas...A multidão
apertava-o mais que a roupa [o terno de festa],
embaraçava-o. De perneiras, gibão e guarda-
peito andava metido numa caixa, como um tatu,
mas saltava no lombo de um bicho e voava na
catinga.113

Fabiano seguia a tradição da religião – ia à igreja onde fazia a novena. Dessa


maneira, Ramos não indica abandono da referência das práticas socioculturais do sertão
entendida como espaço das ações expressivas da cultura e do social. A representação do
sertanejo não se torna impotente.
Situando Fabiano e sua família em relação ao sertão, temos a ordenação das
seqüências finais onde a personagem se torna ainda mais operante e culmina com
sacrifício na resistência de vida. A cachorra Baleia se tornara um animal doente que
Fabiano teve de sacrificar. Logo Baleia que era como gente, juntava o gado para o
vaqueiro, caçava preás na seca brava para a família de Fabiano. Sinhá Vitória ouvindo o
tiro e os latidos...pegou-se à Virgem Maria e os meninos rolaram na cama, chorando
alto114. Baleia morre. Na seqüência da narrativa, chega o dia do acerto de contas com o
patrão. Na partilha (forma de pagamento usada nas relações entre trabalhadores e
patrão115), Fabiano recebia a quarta parte dos bezerros e a terça dos cabritos. Limitava-
se a plantar um pouco de feijão e milho, forjara planos116, mas práticas, assim, não
espichava seus recursos minguados. E pouco a pouco o ferro do proprietário queimava
os bichos de Fabiano117 proveniente dos “juros”. E Fabiano: não podia dizer em voz
alta que aquilo era um furto, mas era118. Lembrou-se que havia escapado, por
milagre119 daquela viagem penosa.

113
- idem, pp. 74, 75.
114
- idem, p. 88.
115
- ADAS, Melhem – Geografia 2 – o Brasil e suas regiões geoeconômicas, 3ª ed. São Paulo:Moderna,
1984-1994, p.87.
116
- RAMOS , op. cit, p. 93
117
- idem, p.94..
118
- idem, p. 95.
119
- idem, p. 96.
82

O céu límpido e as arribações (aves), que bebiam no bebedouro, anunciavam


mau sinal, provavelmente o sertão ia pegar fogo120 pensava Fabiano. Sentia-se como se
ela já tivesse chegado, experimentava adiantadamente a fome, a sede, as feridas
imensas das retiradas121.
A expressão bíblica de presságio – mau sinal passa por um processo de angústia
através da manutenção da forma imagética, seja na descrição, seja na representação do
imaginário da personagem que traz o mundo trágico vivido nos períodos de seca.
Articulando as duas, temos o capítulo final da construção da representação de
Graciliano Ramos. No capítulo Fuga, Ramos descreve:

...a vida na fazenda se tornara difícil. Sinhá


Vitória benzia-se tremendo, manejava o rosário,
mexia os beiços rezando rezas
desesperadas...Fabiano espiava a catinga
amarela, onde as folhas secas se pulverizavam,
trituradas pelos redemoinhos, e os garranchos se
torciam, negros, torrados...E Fabiano resistia,
pedindo a Deus um milagre...Saíram de
madrugada ...deixaram para trás o carro de boi, o
juazeiro...122

Das seqüências dos capítulos em Vidas Secas, os sertanejos – o homem, a


mulher ou a criança - estão presentes em todos, sendo caracterizados com elementos
regionais, já explicitados e incluídos nos espaços trágicos por onde circulam os animais,
a natureza, a relação cósmica através dos costumes religiosos e a possibilidade do eterno
renascer.
A caracterização do sertanejo na cultura brasileira, temática e plasticamente,
varia entre a expressão dos ofícios, dos modos e das condutas das manifestações e
apresenta ações no processo de construções das representações porque elas revelam.
Nas palavras de Graciliano Ramos: A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como
ouro falso; a palavra foi feita para dizer123 e nos indica a concretização da própria vida.
Dessa maneira, as imagens não se cristalizam em ícones ufanistas estáticos e
ilustrativos. Elas se movimentam. Esse elemento que propõe mobilidade é reforçado e
se concentra nas formas sensíveis que assumem características onde se situa a
(re)elaboração nos planos da representação: o histórico com cenas da vida, lutas e
120
- idem, p. 110.
121
- idem, p. 113.
122
- idem, p.117.
123
- RAMOS, op. cit., notas da editora – contracapa desta edição.
83

comportamentos expressivos e o estético que pressupõe o uso de elementos regionais do


sertão dos quais se pode perceber a problemática do homem estabelecendo relações com
a sociedade como um todo.

***

Dando continuidade na análise das representações culturais dos autores/artistas


escolhidos, tenho os elementos presentes na caracterização das representações do
sertanejo. Retomo, nesta pesquisa, a perspectiva pictórica – óleo sobre tela e óleo sobre
madeira. Do sertanejo retirante visto em Ramos tenho, também, a representação na
pintura de Cândido Torquato Portinari (1903-1962). Temos a família de retirantes – o
coletivo, o enfrentamento com a seca, o gesto ritual de súplica aos céus em tradições
desesperadas do sertanejo. Tais personagens aparecem na década de 40, quando
Portinari percebe os flagelados da seca.
Nas três obras seguintes da série Os Retirantes, de 1944, Portinari revela os
dramas do homem sertanejo tal como compreendemos. Essas representações articulam
uma série de figuras humanas, graves e compenetradas, ligadas ao sertão seco com
personagens esquálidos e famintos de olhos semi-ocultos (representação do homem que
não vê) onde há a representação da dor e do desalento. A dinâmica expressiva do pintor
produzirá obras sensíveis dentro do movimento engajado na arte expressionista/realista
de cunho social com objetivo de uma tomada de consciência nacional.
As obras da série de 1944, que pertencem ao Museu de Arte de São Paulo –
MASP, representam o espaço geográfico sertanejo que se mostra pelos planos áridos de
cores que se definem pelas características da terra seca – ocre, vermelho terra, azul
nebuloso, cinzas e preto. Com densas pinceladas, o autor representa figuras sertanejas
que revelam a identificação na disposição que passam a ocupar cenas da vida nas
características da expressão da migração, dos rostos cansados e gestos dramáticos. Tem-
se o mundo visível das questões sociais brasileiras, pois, as figuras sertanejas
representam as ações humanas do homem de fé que resiste à seca, os seus usos e
costumes e práticas de (sobre)vida. Quando a série Os Retirantes foi expostas em Paris,
em 1946, o Duque de Windsor examinou um a um os quadros e perguntou ao próprio
autor das obras se “o senhor não teria algumas flores?” Ao qual responde Portinari
ressentido: “Flores, não, só miséria”.
84

Registrando o movimento trágico da constelação da resistência, temos a


representação de Portinari no óleo sobre tela intitulado Enterro na Rede – 1944 –
Figura 2 - O desenho de características como sulcos profundos de linhas marcantes,
toma a forma expressiva articulada a uma ação, que não se perde, do contexto sertanejo
e se manifesta como esperança de um tempo melhor. A configuração construída
exprime uma resistência tenaz. Apesar da representação permanecer no horizonte da
aridez trata-se, aqui, de expressar uma ação dos perseguidos pela seca inscrita num
futuro incerto, ao qual a fé levaria ao encontro de um porto seguro.
Como já indiquei acima, temos as figuras que fazem a imagem da obra Enterro
na Rede articulada a um universo das práticas socioculturais. O que permite o
(re)surgimento de temáticas vinculadas à construção das representações culturais
brasileiras.

Figura 2124 -Enterro na Rede - série Os Retirantes/1944 (óleo s/ tela – 1,80m x 2,20m)

Paralelamente a essa inscrição, temos os integrantes da obra de Portinari: o


grupo de sertanejos retirantes. Eles não demonstram um fator estático; o enterro “passa”
pela dimensão horizontal do plano bidimensional. A representação da morte se faz

124
- Obra de:PORTINARI, Cândido Torquato in Gênios da Pintura – Portinari 6 [coord.] Luís Carta,
São Paulo:Abril Cultural Ltda., 1967, p. IX.
85

presente no embrulho da rede que é carregada por dois homens – figuras laterais - com
roupas remendadas. Eles demonstram os punhos fechados – o da esquerda e o outro que
segura o suporte de madeira da rede na caracterização da resistência de vida perante a
morte. A cena repete velho costume sertanejo de enterrar os mortos. Os pés dos homens
estão em quase sincronia e andam pesadamente, ao fundo a sertaneja ajoelhada expressa
as suas orações – uma figura com manto (características das verônicas – véus) que chora
com as mãos postas aos olhos numa expressão sob o conceito de tristeza. Ao fundo, a
paisagem que se confunde com pedras (uma gruta?) e representa juntamente com o
caminho, também de pedras, as dificuldades da vida e cenários regionais.
A figura central ocupa quase toda a cena sendo delimitada por traços marcantes
nos gestos significativos de súplica. Gestos que são analisados integrados ao contexto
da obra onde se pode perceber a representação da cruz – a figura central, em vertical, se
encontra ao madeiramento da rede onde está o morto, em horizontal (ver marca d’água)
– Figura 3. Esta figura central é formada por uma silhueta feminina de costas para o
espectador. Essa forma nos traz, pelos seus gestos expressivos, os joelhos cravados no
chão, os pés nus em destaque e as mãos como que a clamar aos céus uma ação de
testemunha diante daquela avassaladora cena humana. É a representação da própria dor.

Figura 3125 – marca d’água e expressão gráfica sobre pintura


Enterro na Rede de Cândido Torquato Portinari

125
- Elaboração gráfica, de minha autoria, feita sobre a obra de Cândido Torquato Portinari , fonte:
Gênios da Pintura – Portinari 6, (coord.) Luís Carta, São Paulo:Abril Cultural., 1967, p. IX.
86

Pela postura e situação, a representação de Portinari apresenta o realismo que se


confirma no grotesco das vestimentas e faces tristes das figuras. A cor cinza evoca,
nesta obra, um cenário pesado e triste acentuando os contrastes dos gestos expressivos.
O diálogo com discussões que encaminham para as mazelas sociais está presente. Duas
observações nesta construção: a permanência das práticas de (sobre)vida do sertanejo e
a religiosidade.
As figuras seguintes inscritas no Menino Morto – Figura 4 - óleo sobre tela de
1944 e Família de Retirantes – Figura 5 – óleo sobre madeira de 1944 apresentam,
também, o tema da morte que ronda a vida do sertanejo e que lhe institui a vida. O tema
trágico da morte nas estradas secas e campos estéreis catalisa certos elementos do
contexto sertanejo em época de seca que Portinari expressa na série dos anos 40.

Figura 4126 - Menino Morto (óleo sobre tela – 1944 – 1,79m x 1,90m)

126
- Obra de: PORTINARI, op. cit. p. VII.
87

Figura 5127 – Família de Retirantes


óleo s/ madeira – 1944 – 1,92m x 1,81m

O pintor descreve, nas suas obras, as situações que afligem o sertanejo com
preocupações de denúncia e integração social. Portinari revela a imagem das retiradas
sertanejas. Neste particular, ele registra o que percebe e demonstra estar suficientemente
perto das mazelas sociais que trazem as angústias do povo brasileiro. Não há risco e
confusão enganosa nos trabalhos desse pintor. Há, nas obras, uma integração aos
dramas humanos de perspectiva sentimental onde se pode perceber o sertanejo nas suas
ações de resistência perante a vida. Unindo afetos e razões, o trabalho pictórico ganha,
então, uma dimensão nacional que fala do homem regional ambientado num sertão seco
cuja geografia e atmosfera são descritos em detalhes. À medida que Portinari expressa
os fatos regionais vai revelando a vitalidade imagética que traz a caracterização
avassaladora do fenômeno migratório. Tais elementos revelam os sujeitos e o que
ocorre no sertão: os sertanejos estão junto das suas práticas socioculturais de fuga e
sobrevivência; a fragilidade dos corpos expressa nas figuras contrapõe-se à fortaleza da
religiosidade e da própria resistência. O pintor revela, neste caso, o fenômeno de uma
massa, caracterizado na série Os Retirantes como várias famílias agrupadas que,
também, somam as suas misérias, na idéia do coletivo e revelam ações constantes dos
sertanejos nos períodos de seca violenta na representação do tempo cíclico. Nos
acontecimentos cotidianos, temos a expressão de súplica a que são submetidos os
retirantes que põem em movimento uma busca de soluções de (sobre)vida que

127
- idem, p. VIII.
88

configuram o êxodo social rural. A imagem que se forma é de uma multiplicidade de


“almas penadas” em busca de melhor sorte na sua solidão.
A representação de famílias distintas ocupam as cenas centrais dos dois últimos
quadros: a pele curtida pelo sol, os pés nus doídos de vagar pelos caminhos tortuosos na
travessia do deserto. Pobre é a terra em que pisam. Pobres as famílias numerosas de
sertanejos que são caracterizados com suas vestes rotas, com pequenos pertences como
o baú de madeira e trouxas de roupas que resumem os bens e utensílios; o campo árido
perdido na vastidão do horizonte contrasta com os olhares incógnitos sem direção.
Homens, terra, contexto e ações são revelados pelos planos da obra de Portinari
– ao fundo o deserto integrado às figuras que vagam ou choram no ambiente semi-
escuro do anoitecer. A ação revela crianças maltrapilhas esquálidas, doentes ou mortas.
Velho, também esquálido amparado por cajado. A figura central de Menino Morto
revela os gestos de amparo maternal à pequena criança morta. A expressão de Portinari
remete aos elementos expressivos da Mater Dolorosa ou Pietá (palavra italiana
derivada do latim pietas, étimo de piedade) da escultura gótica em madeira (alt. 0,88m),
princípios do século XIV, do Provinzialmuseum de Bona – Alemanha e representa a
Virgem Maria com o Cristo morto no colo - Figura 6. Na expressão dolorida da mãe que
perde o filho, a ação nos traz uma intensidade dramática profunda.

Figura 6128- Mater Dolorosa ou Pietá


Bona – Alemanha – séc. XIV

128
- Fonte: JANSON, H. W. História da Arte, 5ª ed. Trad. J. A. Ferreira de Almeida e M. R. Santos, São
Paulo:Martins Fontes, 1992, p. 333.
89

As figuras laterais da obra de Portinari em Menino Morto representam a água


que jorra dos corações na forma expressiva do “rio-de-lágrimas” da violência da vida
com características que abrangem o social brasileiro.
A análise das obras de Portinari amplia a percepção para um horizonte árido
com ossadas e pedras, sem plantas, um céu sem nuvens e ao anoitecer, morcegos. As
sombras das figuras se tornam fantasmas delas mesmas. As figuras centrais representam
mães com filhos mortos ou vivos ao colo na expressão da tragédia/continuidade da vida.
Os olhares perdidos das figuras indicam sofrimento físico e psicológico intensos. Estes
quadros, juntamente com o Enterro na Rede, remetem à expressão que dá nome à série
das retiradas das secas dos anos 30/40, de Portinari como que denunciando a ocorrência
de fatos conhecidos no Brasil das migrações inter-regionais quando famílias inteiras
saíam pelos sertões ou pelo Brasil em busca de empregos e na luta pela própria
sobrevivência. Abrirei, aqui, um parêntese: famílias de moradores de todo o Nordeste,
incluindo sertanejos chegavam em Montes Claros – MG nos anos 60/70 e em Fortaleza
– CE nos anos 80. Fatos presenciados por mim e que, hoje, fazem parte da minha
memória. Muitos ficavam, muitos seguiam viagem e, também, muitos voltavam.
As representações de Portinari constituídas de velhos, mulher grávida, homens e
crianças são todas revelações de um grave problema social brasileiro. As ações do
próprio sertanejo, nas expressões emergenciais de vida, são percebidas pelo pintor.
Portinari trabalha com imagens bastante fortes, a partir de uma relação dupla: a
sensibilidade das expressões e a preocupação social direta que asseguram o sentido da
representação como fonte de revelações. O pintor busca uma cumplicidade com o
referente na situação de resistência às questões que lhe são impostas, partilhando com o
sertanejo uma noção do tempo presente.

***

A interpretação realista das obras, já analisadas nesta pesquisa, sublinham


tensões de um passado que ainda não se findou no país. Embora permaneça com
algumas repetições, as obras tendem a uma variação acentuada com base nas próprias
expressões do contexto regional nordestino e revelam as muitas ações do homem.
Indicando a possibilidade de construção a partir do que está posto no contexto
sertanejo, retorno à literatura com a obra Os Desvalidos do sergipano Francisco
90

Dantas129 – 1995 que é acompanhada por personagens sertanejos, aos quais são
acrescentados ofícios tradicionais do artesão-andarilho e representam certas ações que
sublinham o traço de completude do primeiro capítulo dessa dissertação. A obra literária
traz as imagens dos sertanejos com seus elementos de resistência e religiosidade. Na
construção de Dantas, tal efeito é alcançado pela ação da personagem Coriolano que
representa a relação homem/contexto/práticas socioculturais.
Coriolano, colocado entre um passado dos anos 1920/30 e a morte de Lampião –
1938 (“O Rei do Cangaço”) é caracterizado por uma interelação com fatos oriundos no
sertão com práticas de banditismo social caracterizado pelo cangaço. Caracterizado
como sujeito sem poder financeiro, a personagem de Dantas revela, através da sua
representação, a rusticidade, a simplicidade, o medo e o viver no ambiente de eterna
tensão entre coronéis latifundiários e cangaceiros de serviço alugado. Assim, a
representação revela para a história brasileira as ações das condições humanas, portanto,
sensíveis. A ação construtiva da figura do sertanejo e suas expressões mantém relações
com a tradição dos eventos sociais da natureza dos ofícios, religiosidade e misticismo
dos sertões. Nas vezes que Dantas descreve as ações das personagens são produzidas
imagens cuja ligação com a história é marcante porque ele traz a figura do sertanejo na
matéria do sertanejo nordestino. As ações humanas das expressões nas práticas
socioculturais se tornam importantes para a construção da representação na obra.
Nas construções até agora trabalhadas, o sertanejo nordestino define-se a partir
da própria ação que se expressa na natureza, nos lugares ligados ao catolicismo, na luta
da vida cotidiana. Em Os Desvalidos revela-se, também, a experiência vivida no sertão
nordestino. A frase inicial é de impacto - Lampiãããão morreeeeu!130.Esta frase que ecoa
pela cidade de Rio-das-Paridas, marca uma virada na vida da personagem Coriolano,
que, definitivamente, abandona o medo que o perseguia anos a fio das imagens dos
cangaceiros e que, agora, podia-se consagrar como um ser humano com direito de viver
em paz. Certamente, estamos em um universo cujo centro é o problema das tensões
sociais nas questões do latifúndio regional. Lampião é um emaranhado de referências
regionais sertanejas. Caracterizado por alguns como “herói dos pobres”, por tirar dos
ricos e proteger os pobres ou pelo Estado Brasileiro como “bandido sanguinário”
perseguido pela polícia até sua morte em 1938, a mando do Presidente Getúlio Vargas,
na luta do Estado pela extinção do monopólio de terras que caracterizava o latifúndio,

129
- DANTAS, Francisco J. C. – Os Desvalidos, São Paulo:Cia das Letras, 1993.
130
- idem, p. 11.
91

segundo Frederico Pernambucano de Mello131. O bando de Lampião sobreviveu por


mais de 20 anos nos sertões e era composto por sertanejos pobres que aderiam às
guerras entre coronéis e atuavam, também, na proteção ao líder do bando.
As referências sobre o cangaço são encaminhadas no sentido de construir a
representação de Coriolano – o sertanejo artesão. Estamos próximos de duas práticas
socioculturais que se colocam na construção da personagem principal e registram um
movimento das ações localizadas no tempo e no espaço. Através da citação de Dantas,
temos:

Apanhado de susto, no papoco da notícia que


acaba de atroar, Coriolano estremece de coração
em rebates pegando a boca do peito. Freme-lhe o
couro, esbarra a costura da chinela, apura as
ouças de faro aguçado, espichando o pescoço
para fora da cacunda. Será, meu Pai do Céu, que
o Herodes, enfim, desencarnou? Não, não pode
ser. Na certa isto é capricho da idade!...morreu o
peste cego! Ouvira bem? Trafega-lhe no corpo um
arrepio...Coriolano larga a linha para uma
banda, e pula do banquinho a rosnar vitoriado:
- Toma lá, satana dos infernos!132

Remetendo à personagem de Dantas, de volta à análise sobre as práticas


socioculturais, estamos diante do sertanejo em um momento de angústia no
enfrentamento com as dificuldades das relações sociais. O ambiente se tornara
tensional, e era preciso viver. Existe uma reação eufórica em relação a um determinado
fato – a morte do líder cangaceiro com suas roupas de couro enfeitadas com ilhoses e
costuras, a vida pelos sertões afora, polícia, coronéis, (sobre)vida. Acontecimento que se
credita algo novo – a liberdade para Coriolano. A referência a Lampião, neste contexto,
reforça as ações da vida: para Coriolano, o retorno ao seu passado financeiramente
glorioso que havia conhecido como dono de um boticário, mas, incapaz de enfrentar os
cangaceiros. Acontecimentos que mudam o rumo da vida da personagem. Posso
novamente, como indício para pensar nas práticas do universo sertanejo, analisar a obra
de Dantas, ao tratar da referência dos ofícios tradicionais.
A notícia chegou sobre a morte daquele que ainda trasantontem era gabado por
ter o corpo fechado!133 e a vida em Rio-das-Paridas agora ia voltar ao normal enfim

131
- Depoimento de Frederico Pernambucano de Mello em documentário sobre o cangaço nordestino,
Rede de Televisão/TV Cultura, 20 de outubro de 2003.
132
- DANTAS, op. cit. p.11.
92

desobrigada do zarolho rei enfuriado que cobrava suas justiças acima da lei dos
homens, e também da lei de Deus!134 pensava Coriolano. Em uma trajetória tensional,
Lampião atravessa a vida da personagem atrapalhando a sua vida no sertão. Essa
trajetória, descrita por Dantas, torna-se porta-voz na descrição dos costumes e
comportamentos sertanejos na discussão em torno da sobrevivência em tempos difíceis.
A prática de fuga de Coriolano torna-se ação que forma a expressão de vida da
personagem e é capaz de dar conta dos questionamentos da presente dissertação.
A expressão usada no título Os Desvalidos traz uma confirmação que nos remete
à miserabilidade histórica que ocorre com sertanejos - nas práticas do andar à procura
de algo exercem um ofício; como o artesanato em couro, caso de um Coriolano de
Dantas. A prática sertaneja dos ofícios recobre, pela representação de Coriolano, as
tradições compondo-se como velho ofício e pertencente ao campo da visualidade
expressiva dos sertões. Neste aspecto, entram em ação as outras referências
características: a religiosidade e a resistência. Embora a representação de Coriolano
condense resistência, religiosidade e ofícios, as razões de sua presença na obra ficarão
mais claras se forem tratadas separadamente. A referência mais recorrente é Coriolano
ser um andarilho artesão onde existe um jogo de sentimentos como medos, revolta e
esperança. Essa posição enfatiza as práticas socioculturais nas relações dos homens que
procuram por uma segurança neste mundo. Estamos assim fechando uma análise: as
expressões regionais que se projetam permitem a visualidade para a forma imagética das
representações culturais desdobradas em razões e sentimentos. Não há um corte, há a
aproximação social que engloba cores, tintas, imaginário, arte e história; daí, a
necessidade de uma compreensão que não venha só das luzes, mas também dos afetos.
Os Desvalidos rediscute as práticas sociais e culturais do sertanejo colocando o
trabalho artesanal como ação humana. Este é revestido de características de identidade
regional – tradição, rusticidade e expressão, como diz Dantas na passagem de como se
encontra Coriolano quando este recebe a notícia da morte do seu maior inimigo. O autor
expressa a miséria da personagem:

[a notícia]...foi chegando e já varre Rio-das-Paridas


correndo de boca em boca, a ponto de o burburinho
alcançar a rua do Tanque e se meter numa minúscula
casinha, que não passa de um biombo de duas águas sem

133
- idem, p. 12.
134
- idem, p. 12.
93

um só canudo de biqueira, onde Coriolano se entocou


amedrontado cerca de ano e meio, a enxugar os olhos
sarando um monte de perdas, e a ganhar o sustento no
fabrico de tamancos, ou de algum eventual remendo de
meia-sola em chinelas, alpercatas e rolós.135

Sarando um monte de perdas e a ganhar o sustento no fabrico, rediscute as


práticas. Recolocando a seqüência, temos uma construção humana. Paralelamente à
perda dos seus bens, Coriolano articula-se um fazer, objeto de ação, tratado como
ofício. Na seqüência da obra, a invocação do trabalho artesanal aparece, não apenas com
função apelativa, mas, também, reiterando a percussão que acompanha a economia dos
sertões, reproduzindo o martelar no couro do boi ou de cabra.
Esta busca de relações homem/trabalho evoca tradições de rituais populares que
não suspendem a distinção entre o homem e o meio, além de permitir pensar a
experiência humana. O ofício, dessa forma, aparece ritualístico – o couro que tem que
ser batido, a agulha, o tamborete, chinelas, selas ou arreios com seus ilhoses e colas que
é humanizado pela ação de sobrevida. Se o ofício revela a condição da personagem, a
análise sobre ele não é inscrita na distância.
A expressão:

...só o diabo do tamanco é que nunca se acaba de


aturativo, e há mais de ano que não sobe de
preço! Isto é lá ofício de homem! Tem quem se
equilibre numa desgraça desta?Hem? Me digam
se tem!...as mãos [ de Coriolano] se desgovernam,
arrepanham os apetrechos, a ferramenta, e sacode
a trenzada no pé da parede. Então... foi para isto
que aprendi arte de couro com o afamado mestre
Isaías?...Viva Deus, que enfim posso outra vez,
enfrentar o meu destino!136

Coriolano ia voltar para a sua árida cidade de Aribé após a morte de Virgulino
Lampião e agradece ao Pai do Céu essa graça. Existe aqui a continuidade do ofício de
mestre/arte do couro que não é abandonada na descrição da personagem. Em Dantas,
não existe uma recusa à tradição e esta soa como um recurso que pode ser usado na
situação de necessidade básica que se torna pública na condição do fazer.
Embora atuando sobre a tradição corriqueira dos saberes populares, a
personagem Coriolano de Dantas faz uso do universo do catolicismo no repertório de

135
- idem, p. 13.
136
- idem, pp. 16, 17.
94

expressões que formam a construção da imagem sem a banalização dos símbolos


místico-religiosos tradicionais e do devir de esperanças na resistência da vida. Agora,
depois da morte de Lampião, Coriolano precisava voltar para Aribé, mas, antes, tinha de
entregar as encomendas, que ele não era homem de não cumprir palavra. Marcado pelo
sofrimento que teve de agüentar fugindo das dificuldades da vida e do bando de
cangaceiros por anos e anos padecia mais que Jesus Cristo137 e lembrava dos amigos
que se foram.
Coriolano, a personagem sertaneja de Dantas, era um solitário, arrastava a perna
doente e esperava, em vão, as cartas do irmão. Ainda criança, perdera a mãe, e o pai,
severo e ressentido assumira a sua criação. Quando adulto, sai de Aribé e anda sem
achar colocação até ir para a casa do tio noveneiro, que vivia da igreja para a botica. O
tio, ao morrer, deixa-lhe a botica de remédios de herança: Aí mesmo, deu viva a Deus, e
passou a se enfronhar...com o forno, cubas, medidinhas, ampolas...138 e a promessa de
não usar medicamento de fábrica.
Os negócios da botica fracassaram e, no relato de Dantas, Coriolano se volta no
fabrico de bom-bom de mel de abelha. Negócio atrapalhado por Robertão do coronel
Horísio com a sua rapadura barata, pois a cana chegava em carro-de-boi...
O filho do sertão, em Dantas, é uma reposição desesperançosa do passado que
luta para um devir. Coriolano vai ser seleiro começando por botar remendo em sela,
alforge, bruaca e meio-de-sola. Aperta a mão do mestre e sai atontado para remir a
vida...Ah! Os seus tempos de botica!139. Mal começa a trabalhar, aparece na cidade um
pessoal comerciante vindo de Jequié com selas e arreios coloridos que encanta o pessoal
citadino. Coriolano não agüenta a concorrência dos negócios e vira artesão ambulante
pelas estradas do sertão. Ele encontra a seca, as fazendas dos coronéis, o pernoitar no
sereno e os cangaceiros.
Em Dantas, a representação do sertanejo enfrenta as asperezas do mundo e é
difícil não lembrar do contexto regional. A relação entre personagem literário e
processo histórico é direta, com referência às condições climáticas, aos latifúndios, às
dificuldades financeiras e aos bandos organizados.
Como parte do diálogo imagético da obra com o real, posso encontrar não
apenas a inserção da representação da personagem do sertanejo mas, também, os fatores

137
- idem, p. 20.
138
- idem, p. 27.
139
- idem, pp. 33, 34.
95

que caracterizam a região e a representam. Além disso, a personagem de Dantas pontua


a representação com interpretações apresentadas sob a forma de lições: Já se vê que
nessa condição, ganhar sustento por aqui é tarefa penosa140 ou se vai para a enxada,
para o cangaço, pedir esmola ou para a proteção de algum coronel.
As expressões que se relacionam com o cotidiano funcionam como marcas
indicativas de representação e lugar, a partir da qual a história está sendo narrada. No
texto, encontra-se expressões como formas de aproximação com o universo social. Os
Desvalidos articula-se a partir de pessoas-fazeres-lugares e tempo porque reproduz o
mundo real. Dentro do texto, as marcas do tempo, espaço e representação nos permitem
reconhecer e representar o Brasil.
Tais marcas nos indicam práticas cotidianas e no universo sertanejo acompanho
a representação de Coriolano: a personagem refere-se, a partir das condições de
trabalho, a luta de sobrevida, além de apresentar uma necessidade e uma rebeldia
presente em sua condição de artesão andarilho. Coriolano tem o sofrimento, a carência e
a condição de fazedor de ofício/andarilho como referência. As atribulações do andar à
procura de vinténs o conduzem a uma esperança demorada e tardia e expressa a
trajetória do enfrentamento com os problemas locais. Ainda jovem, Coriolano se apega
ao outro tio – Filipe, famoso montador de cavalos e sonhador em ser um caixeiro-
viajante com sua tropa de mulas e suas miudezas como anéis, gargantilhas, sedas e
fitas...Fitas de todas as cores para a noite de São João e cavalhadas! 141. A personagem
de Tio Filipe é representada vindo de uma família de valentões142 onde os parentes
viviam atravancados em armas, mas ele, só tinha um canivete de latão e dizia: Só Deus é
quem regula a batida do destino!143. As duas referências, uma tensional, é a alusão às
guerras de família que, por décadas, aconteceram nos sertões na repetição alternada de
mortes de um membro das famílias envolvidas nas questões de rixas particulares. A
outra, constituída por expressões diretamente de origem religiosa marcada pela tradição
e respeito ao divino. A expressão sobre a destreza de Filipe como amansador de cavalos
ganha tons de grandiloqüência no público que o assiste: - É montador de nascença! – É
144
me ver um entendedor! – O homem é um envenenado! . Há uma aproximação com a
natureza na situação de relações com os animais – o cavalo está inserido neste universo,

140
- idem, p. 35.
141
- idem, p. 38.
142
- idem, p. 39.
143
- idem, p. 40.
144
- idem, p. 43.
96

e a caracterização das práticas socioculturais dessa segunda personagem. Mas ele,


Filipe, era encafifado com metais. O dinheiro que ganhava gastava com objetos de prata
e cobres, latão e alpaca que vivia sempre a polir. Essa personagem de fama e garbo não
dava esperança a nenhuma mulher, até que surge Maria Melona, de cabelão cacheado,
cheia de vida no pagode e cantoria de viola. Esta postura de Filipe de não se ligar a
mulheres muda-lhe a vida e ele se casa com Maria, que vira dona-de-casa zelosa. Boatos
maldosos sobre Maria e Filipe se espalham e esta quase manifesta a encomendar
despachos e procurar rezadores pra cair a língua dos algozes do marido. Raça de
Satanás...Olhos-de-seca-pimenta!145. Os negócios de amansar cavalos dão para trás e
Filipe se vê para dentro de si mesmo areando a niquelaria. Compra três mulas mineiras,
boas mercadorias, três caixões, cangalha e vira caixeiro-viajante pelos sertões. Vira
tropeiro viajante de praças e povoados com andar bem comportado e alinhado com o
linforme de brim, botas de carneiro e chapéu-de-sol. Só uma coisa o preocupa: os
cangaceiros a empapar de sangue as areias do caminho!146.
A personagem de Filipe é caracterizada, agora, como a representação do tropeiro
e posso pensá-la no movimento econômico-socio-cultural do troperismo que ocorreu na
formação do Brasil. Dias e dias viajando, era o sertanejo caixeiro-viajante um elemento
de comunicação nas relações dos sertões inóspitos; facetas não excluídas que
conviveram no corpo social de maneira tradicional e prática.
Já com a inclusão da personagem de Maria Melona, Dantas a caracteriza como a
sertaneja determinada que recebe o marido após a longa viagem, e que sai, pela porta
dos fundos, ao ser acusada injustamente de manchar a honra de Filipe. Fato confirmado
por Coriolano nos seus 17 anos. Filipe sai pelos sertões... Maria é encontrada em um
grupo de cangaço, anos depois, por Coriolano que estava cheio de remorsos. Estava de
punhal, calça e fuzil, era agora mulher franzina com roupas de jagunço, enegrecida pelo
sol, com uma cicatriz enorme no rosto e com o nome Zé Queixada. Vivia no bando com
um comerzinho chorado: carne-seca, farinha, café, rapadura e sede constante. De muito,
só munição nos embornais e a fama de valentões. Fazia parte do bando de Virgulino
Lampião, onde Coriolano costurava alpercatas, cinturão, cartucheira em serviço
temporário.
Coriolano, na descrição de Dantas, cansa de pedir a Deus juízo e paciência para
aturar os dias sem trabalho nos tempos de andarilho-artesão quando fazia serviços a

145
- idem, p. 70.
146
- idem, p. 76.
97

troco de meias (uma galinha, um almoço ou cacho de bananas...) até se expressar nas
relações com a seca: neste sertão de Sergipe, este Coriolano perdeu a empáfia de
boticário, quebrou os dentes em raiz de umbu, mastigou caroço de mucunã e miolo de
sapucaia, encostou os beiços na lama ensangüentados pelo sol, assou carne de
cachorro, e acabou com a geração de toda a vencidade de ovo de anum. Tempo
brabo!147. A terra rachava e o tempo se transformou em pioras para todo vivente da
caatinga. A personagem encontra a gente de Lampião; ameaçaram-no com punhal em
riste. Com medo, segue com um cavalo magro para a beira do Rio São Francisco. Ah!
Andarilho largado a correr trechos... um vira-mundo sim senhor... sem pertences nem
coragem de um dia retornar à praça que fora sua...por cabeluda vergonha de olhar fixo
na cara das criaturas que ficaram...148
Este conflito de Coriolano atravessa toda a obra Os Desvalidos. Dialogando com
as tensões, as personagens apresentam, pelas suas ações, elementos localizados
socialmente e como somatória – o sertanejo que se faz presente. Na continuação da
análise, Coriolano pensava se não era melhor ir lavrar a sua terra em Aribé onde se revia
menino, no dia de S. José, naquela chuva fininha a semear o milho onde atirava seis
caroços de cada vez e arrastava o pé direito cobrindo as covas abertas pelo pai, que
puxava a dianteira arquejando meio de borco, agarrado ao enxadão, deixando para
trás a trilha de sangue reconvertida em suores, para o exemplo do filho que não queria
perdido149. Representando ofícios, mulher, sertão e homens, a obra de Dantas revela o
percurso de vida entre o desencanto, o medo, a luta cotidiana. Essa sequência descrita
representa o ofício do lavrador com a plantação de subsistência e dão parâmetros
expressivos que indicam uma ação física de resistência percebidos, ainda hoje, nos
sertões. Todas essas ações acontecem na sequência de Dantas. A luta da vida, portanto,
não está descartada e é proporcional à capacidade e disposição de resistência das
personagens.
Após saber notícias de Filipe, Coriolano junto ao seu cavalo, tenta encontrá-lo
nas bandas de Alagoas passando cancelas e capoeiras.
Na segunda parte da narrativa de Os Desvalidos que se intitula Jornada dos
Pares no Aribé, a mesma estrutura é repetida, a partir das percepções das tensões
regionais, de características tradicionais dos costumes e práticas. Coriolano está em

147
- idem, p. 92.
148
- idem, p. 93.
149
- idem, p. 95.
98

Aribé onde faz da velha casa de seu pai uma estalagem junto ao amigo Zerramo, onde
mantinha sua lavourinha. Prosperava, mas tem receio dos mata-cachorro da tropa
volante do governo que enterram vivos os suspeitos de coiteiros e, também, dos bandos
de cangaço que semeavam o terror. Na estalagem, chega o desaparecido tio Filipe com
sua tropa de mulas que, na apreensão quanto ao ataque dos cangaceiros, vai aos pés da
estampa de Padre Cícero Romão Baptista, entronizado lá em cima da parede, onde as
velas de cera de arapuá se empilham do gargalo das garrafas, falando da devoção dos
viajantes por esse filho do Crato, que é Deus do Vale do Cariri150 . Filipe percebe que o
rancho está a perigo devido ao cangaço e a seca prolongada, devastadora da lavoura e
dos viventes pertinentes da estiagem entupida de asperezas cumpridas a rigor de
flagelo e castigo151 apesar das rezas, dos clamores e das simpatias (seis pedrinhas de sal
atiradas para trás). Lembra da seca de 1932 quando uma multidão de retirantes famintos
enchia as estradas, onde muita gente maltrapilha morria de fome e alguns seguiam um
decurião barbudo. Sair!152 diz Coriolano, depois de tantas andanças, - é tudo que sobrou
pra mim!153.
Essas expressões traduzem e revelam as angústias, indicando uma necessidade
de reflexão e continuidade da resistência sobre os poucos bens conseguidos. Ações que
remetem à luta cotidiana que se une à religiosidade – Padre Cícero entronizado na
parede. Após essa intervenção de Filipe, as personagens decidem não sair em fuga, mas
permanecer na casa. Mais uma vez, é a mistura de elementos das práticas que surge na
referência à defesa da vida, dos sertanejos desvalidos, relatado por Dantas. É preciso
estar de olhos bem abertos. Um novo ataque de Lampião – guardado a poder de rezas,
patuás, benditos, orações e “afilhado” de Padre Cícero acontece na vida de Coriolano,
porém, marcada pelo espírito de saque lá se vem o diabo deste entalo pior do que
seiscentas estiagens!154. Proteção: Só mesmo o bondoso Pai do Céu!155.
Aquele zarolho Lampião, amante de Maria Bonita era, também, um desvalido
para Dantas: Ah! Quem me dera um mundo diferente, sem cerca e sem traição, sem
cancela e sem persiga!156.

150
- idem. p. 132.
151
- idem, p. 163.
152
- idem, p. 135.
153
- idem, p. 136.
154
- idem, p. 143.
155
- idem, p. 165.
156
- idem, p. 186.
99

Diante daquela figura famosa, Coriolano é reconhecido como o seleiro


temporário. - Era, inhô sim, meu capitão157. Zerramo, uma criatura sozinha fica cara a
cara com a morte por tentar proteger Filipe das ofensas de Lampião. Filipe (desinteirado
de si) é salvo pelo cangaceiro Zé Queixada (Maria Melona) e Coriolano foge de novo
para Rio-das-Paridas onde volta a ser o fazedor do ofício em couro. Agora, procura
novamente por Filipe e com a morte de Lampião pensa em voltar para Aribé. Sente-se
velho e cansado, com a perna em erisipela e os negócios de mal a pior. Filipe aparece
anos depois numa indigência e doido; havia sido torturado pela força volante em
Salvador. Maria morre como cangaceira guerreira tentando defender Filipe.
Após a expressão de Dantas, posso analisar a reafirmação das características de
comportamentos e da exposição de ação que se interagem com o contexto sertanejo.
Ao final, a obra coloca no horizonte várias formas imagéticas que compõem a
figura do artesão, do tropeiro, do lavrador, do cangaceiro, do andarilho e sobretudo, se
pensarmos, não por acaso, a solidão. Afinal, a obra mantém intocável a representação
dos homens e suas ações nas constelações de resistência e religiosidade. Os Desvalidos
revela uma compreensão do mundo e propõe reflexões, inseridas na tradição de pensar o
povo brasileiro; ao mesmo tempo se torna objeto de ação. Há, aqui, uma articulação
entre o universo das práticas socioculturais percebidas na região sertaneja e o autor. Em
um sentido na linguagem imagética temos aqui os sujeitos sertanejos.
Nesta pesquisa, tive acesso ao tema das representações do Povo Brasileiro cuja
quantidade de (re)leituras e retomadas indica uma importância central para a
constituição da cultura. Detive-me nas constelações do homem sertanejo cujas relações
com a identidade cultural são, possivelmente, as mais visíveis – a da resistência de vida
– e outro, bastante reiterado e de importância explicitada – a religiosidade.
No que se refere à resistência/religiosidade do sertanejo tenho representações
reais que descortinam possibilidades históricas. As representações culturais agem: a
ação não é situada na descrição de atributos e em decorrência, sua transformação em
símbolos ilustrativos passíveis de serem utilizados em diferentes contextos. Elas são a
realidade do sertanejo no seu cotidiano.
A análise das constelações, que são as ações do homem sertanejo, permite-me
pensar aproximações entre Artes Literárias e Plásticas que constitui apropriações da
vida concreta como fundamento que se afirma na unidade representacional histórica.

157
- idem, p. 196.
100

A escolha sobre as representações do sertanejo nordestino não é, portanto,


fortuita. Abrindo e fechando as perspectivas de questionamentos após 1999: assino
novamente o meu próprio trabalho plástico onde a estética da imagem é inerente à
forma onde existem os elementos em elos de identidade como a linha, a composição
gráfica, a expressão, as cores, o sensorial e o sujeito sertanejo e suas ações integrados
com o presente, com o passado e que se projeta ao futuro de uma sociedade como um
todo onde a arte não está perdida em labirintos.
101

Considerações finais
102

Considerações finais

Nesta dissertação preferi ater-me a uma reflexão sobre as representações


culturais brasileiras presentes nas Artes Literárias e Plásticas sem tomá-las no sentido
teórico e abstrato, isto é, como ilustrações de povo brasileiro. Isto significaria confiná-
las a cristalizações epistemológicas estáticas e insensíveis e a análise recorreria à
especificidade técnica do fazer artístico. Tratar da figuração que retrata o homem
regional dos sertões nordestinos brasileiros é discorrer sobre representações históricas.
Com o conceito de representações temos a estética, que é noção formulada para a
definição da forma figurativa que contém o estilo, a linha, as emoções, o imaginário, a
razão e se exprime em imagens e em temas. Imagens construídas que se movimentam
revelando as relações com o sujeito. Preferi constatar a complexidade, que parte do real,
do universo sertanejo nas constelações da religiosidade e da resistência – e respeitá-las.
Um trabalho de dissertação de Mestrado, portanto, não se faz em meses.
Constrói-se em anos. Tem-se a vivência, as experiências e envolve questões de
diferentes áreas de atuações. Anos se passaram e anos se passarão nos meus muitos
questionamentos sociais e técnicos. Das muitas tintas e oficinas, grafites, gravuras e
fotografias, memória e percepção há sempre a imagem integrada à história. Elementos
muito novos nos relacionamentos das profissões, porém questionados e que hoje se abre
a uma multiplicidade de análises para expressar o sujeito sertanejo brasileiro. Assim
como nas Artes Literárias e Plásticas, razão e sensibilidades podem se estender aos
poemas e à música em trabalhos futuros que concentrem, também, representações
históricas brasileiras onde não há uma carência de vitalidade imagética. Como no
poema de João Cabral de Melo Neto – Morte e vida Severina (muitas são as vidas
severinas no sertão):
103

O meu nome é Severino


Não tenho outro de pia.
Como há muitos Severinos,
que é santo de romaria
deram de me chamar
Severino de Maria
(....)
Somos muitos Severinos
iguais em tudo e na sina:
a de abrandar estas pedras
suando-se muito em cima
a de tentar despertar
terra sempre mais extinta
a de querer arrancar
algum roçado na cinza.
Mas para que me conheçam
melhor Vossas Senhorias
e melhor possam seguir
a história de minha vida,
passo a ser o Severino
que em vossa presença emigra.158

O poema expressa uma dada compreensão do contexto sertanejo. Existe, ao


longo do texto, uma luta do sertanejo no sentido de garantir a ação que move a história:
a obra busca claramente as práticas socioculturais para o entendimento do presente que
não mitifica a imagem, pois constitui-se em um universo articulado.
Quatro mil quilômetros percorridos em outubro de 2003 trouxeram-me partes do
cotidiano, do imaginário e do materialismo das constelações da religiosidade e
resistência dos sertões. Isso foi continuar abrindo um anel de saberes, foi perceber o real
que trouxe o homem/ação como elemento básico da condição humana pensados nas
aproximações das relações no diálogo entre percepções, práticas socioculturais e formas
figurativas.
Temos, dessa maneira, através das representações culturais históricas, a resposta
de revelações das nossas situações brasileiras que envolvem a busca de afirmação de
povo brasileiro e o social no entrelaçamento do presente e do passado que se projeta.
No entanto, para pesquisas futuras, além dos poemas pontuo a minha
aproximação com o contexto sertanejo que se tornou instigante no contato com o
Santuário de Bom Jesus da Lapa – BA. Perspectiva de pesquisa que não abandona a
análise e a busca da compreensão do processo histórico de devoção, portanto, da

158
- MELO NETO, João Cabral de – Morte e vida Severina, in Serial e antes, Rio de Janeiro:Nova
Fronteira, 1997, p. 143-180.
104

religiosidade sertaneja que se constitui através do espaço de preces e símbolos. As


lágrimas e os cânticos dos devotos repercute através das paredes de pedras da gruta o
que Euclides da Cunha em Os Sertões (1902) pontuava: o mistério que pode ser tomado
tendo por base o diálogo entre historiografia e imagens.
105

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Baile Perfumado – Direção Paulo Caldas e Lívio Ferreira, Prod. Sagres/Rio


Filmes/Globo, Brasil, 93 min.
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Guerra de Canudos – Direção de Sérgio Rezende, Prod. Morena Filmes, dist.


Columbia Tristar, Brasil, 170 min.

O Auto da Compadecida – Direção Guell Arraes, [hist] Ariano Suassuna, Prod. Globo
Filmes (Columbia Tristar), Brasil, 2000, 104 min.

O Pagador de Promessas – Direção e produção de Anselmo Duarte e Oswaldo


Massaini [hist.] de Dias Gomes, Estúdio Gravason GS Ltda. (SP)/Rex Filmes S/A,
Brasil,1962, 91,3 min.

Entrevista in loco – Pedra Azul (MG) com os pesquisadores da Fundação Zôo-Botânica


da Prefeitura de Belo Horizonte (pesquisa sobre a caatinga) – outubro de 2003.

Endereço Santuário de Bom Jesus da Lapa (BA) – disponível em


<www.bomjesusdalapa.org.br> – acesso dia 17-12-03.

Jornal Nacional - Rede Globo de Televisão

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- Cobertura jornalística sobre os 160 anos do Padre Cícero, Juazeiro

do Norte – CE, 24 de março 2004.


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