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INCERTEZA VIVA

O bienalsão paulo
FUNDAÇÃO BIENAL DE SÃO PAULO

Francisco Matarazzo Sobrinho


Geyze Marchesi Diniz
1898—1977• presidente perpétuo
Heitor Martins
Horácio Lafer Piva
CONSELHO DE ADMINISTRAÇÃO
Jackson Schneider
Tito Enrique da Silva Neto • Presidente
Jean-Marc Robert Nogueira Baptista Etlin
Alfredo Egydio Setubal • vice-presidente
João Carlos de Figueiredo Ferraz
Joaquim de Arruda Falcão Neto
MEMBROSVITALíClOS José Olympio da Veiga Pereira
Adolpho Leirner
Kelly Pinto de Amorim
Alex Periscinoto
Lucio Gomes Machado
Álvaro Augusto Vidigal
Marcelo Araujo • licenciado
Beno Suchodolski
Marcelo Eduardo Martins
Carlos Bratke Marcelo Pereira Lopes de Medeiros
Carlos Francisco Bandeira Lins Maria Ignez Corrêa da Costa Barbosa
Cesar Giobbi Marisa Moreira Salles
Jens Olesen Meyer Nigri • licenciado
Julio Landmann Miguel Wady Chaia
Marcos Arbaitman Neide Helena de Moraes
Pedro Aranha Corrêa do Lago Paula Regina Depieri
Pedro Franco Piva Paulo Sérgio Coutinho Galvão
Pedro Paulo de Sena Madureira Ronaldo Cezar Coelho
Roberto Muylaert Sérgio Spinelli Silva Jr.
Rubens José Mattos Cunha Lima Susana Leirner Steinbruch
Tito Enrique da Silva Neto
MEMBROS Tufi Duek
Alberto Emmanuel Whitaker
Alfredo Egydio Setubal CONSELHOFISCAL
Ana Helena Godoy de Almeida Pires Carlos Alberto Frederico
Andrea Matarazzo • licenciado Carlos Francisco Bandeira Lins
Antonio Bias Bueno Guillon Claudio Thomas Lobo Sonder
Antonio Bonchristiano Pedro Aranha Corrêa do Lago
Antonio Henrique Cunha Bueno
Beatriz Pimenta Camargo
Cacilda Teixeira da Costa
Carlos Alberto Frederico
Carlos Augusto Calil
Carlos Jereissati Filho
Claudio Thomas Lobo Sonder
Danilo Santos de Miranda
Eduardo Saron
Elizabeth Machado
Emanoel Alves de Araújo
Evelyn loschpe
Fábio Magalhães
Fersen Lamas Lambranho

Naufus Ramírez-Figueroa, Corazón del espantapájaros [Coração do espantalho), 2016. Performance


realizada na 32a Bienal.

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FUNDAÇÃO BIENAL DE SÃO PAULO

DIRETORIA
Luis Terepins • presidente
Andreas Ernst Mirow
Flavia Buarque de Almeida
João Livi
Justo Werlang
Lidia Goldenstein
Renata Mei Hsu Guimarães
Rodrigo Bresser Pereira
Salo Kibrit

CONSULTOR
Emilio Kalil

instalação na 32aBienal.
Alicia Barney, Valle de Alicia [Vale de Alicia], 2016. Vista da

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Nlinistério da Cultura, Bienale Itaú apresentam

3?BlENAL DE SÃO PAULO

INCERTEZA VIVA
7 - li dez 2016

DIAS DE ESTUDO
Pesquisas para a 32a Bienal em
Santiago, Chile
Acra, Gana
Lamas, Peru
Cuiabá
São Paulo

bienal são paulo


estimular a reflexão e 0 espirito critico, Com grande sensibili-
quo estimulam nosso desenvolvimento emocional e sensorial,
e engrandecimento como experiência civilizatória,

novos olhares sobre o mundo em transformaçao e as incertezas dela


0 o Matarago ao longo dos três meses de Bienalterá a oportunidade
por attistas de 33 países,

0 de Sào Paulo reforça a diversidade de pensamento,


e os discursos de ódio, A dinâmica das «curtidas",
dos "omojis• e dos autorretra-
com o outro e com a própria forma do lor 0 mundo. Ao mesmo tempo em
buscamos no universo analógico do livro impresso, do caderno de anotação,
e outros suportes tisicos certa segurança e alento,

0 pessoal com a história da Fundaçáo Bienal de São Paulo, Quando


e estudei muito a respeito da importância dos símbolos gráficos e de seu papel
Estive sobre a obra do designer e artista gráfico pernambucano AloisioMagalhães,
do IVCentenário do Rio de Janeiro, que reunia quatro algarismos quatro
Seu traço preciso inspirou o concurso público para a seleçào do simbolo dos
Rio A genialidade deste pernambucano, que foi Secretário Nacionalde Cultura, está impressa
que e ainda parte da vida de milhóesde brasileiros, entre elas a da própria

A a Bienal habita a memória afetiva de todos os admiradores das artes plásticas


o desta tundaçáo, que, ao lado de tantas outras, compoe uma rede nacional de
o desenvolvimento da cultura e das artes no Brasil, Quetodos os visitantes possam
a de Sáo Paulo conta total apoio do Ministérioda Cultura, que, por meio da Lei
esse evento do calendário cultural brasileiro,

a No pata

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SUMÁRIO

35 A incerteza como guia Jochen Volz

47 Corpo terra - Tempo lua: Reflexões sobre o


chão e a incerteza entre os auéchua-lamas da Alta Amazônia peruana Luisa Elvira Belaunde
54 Na forma de nós mesmos Rita Ponce de León com
Yaxkin Melchy, Tilsa Otta e Peter Webb
71 Povos do Xingu: O resgate da ancestralidade na
reconstrução da resistência Ana Laide Soares Barbosa
78 Um pescador sem rio Élio Alves da Silva

81 Do equilibrio com os movimentos Mauricio de Ia Puente

86 Sem título Nancy La Rosa

91 Desaprender, perguntar-se, escutar: Uma pedagogia da incerteza? Sofía Olascoaga

101 Ao redor do fogo Álvaro Tukano

105 A fome como professora Carolina Caycedo

123 Imaginações do Mato Júlia Rebouças

129 Monarks atravessam o Apa Joca Reiners Terron

135 Quase um prólogo: Da máquina de roubar almas à máquina de registrar memórias Naine Terena

139 Neocriacionismo revisitado: Repatriação e ontologias rapanui Jacinta Arthur

150 Esboço 1, 2,3 Dineo Seshee Bopape

151 Me ver pobre, preso ou morto já é cultural Thiago de Paula Souza

161 Tecnologias para a organização: Engajando modos de vida e ativismo Ben Vickers, entrevista por Isabella Rjeille

169 As alianças afetivas - Entrevista com Ailton Krenak, por Pedro Cesarino

189 Cosmologias de inícios e fins (e meios também): Notas sobre Dias de Estudo - Santiago Lars Bang Larsen

197 Imaginário baraditiano: Figurações do sujeito, da história e da tecnologia na obra de Jorge Baradit Macarena Areco Morales

211 Constelacional Yann Chateigné

220 Sobre os autores

224 Participantes: Dias de estudo

227 Créditos

232 Agradecimentos

240/ cartaz Overspill: Universal Map [Transbordamento: Mapa universal] Rikke Luther
Corpo terra - Tempo lua:
Reflexões sobre o chão e a incerteza entre os
auéchua-lamas da Alta Amazônia peruana

Luisa Elvira Belaunde

A primeira vez que eu vi Ailton Krenak foi em um vídeo. Ele falava da arte
indígena de caminhar pela vida sem deixar no chão rastros de nossa pas-
sagem. Nos Dias de Estudo —São Paulo, o vi pessoalmente e o escutei falar
novamente sobre o chão; porém, sobre terremotos e incertezas de quando
a terra treme e afunda sob nossos pés. Foi uma feliz coincidência, pois eu
também havia preparado uma reflexão sobre o chão.
Na apresentação que fiz nos Dias de Estudo e neste texto há algumas
fotografias e comentários sobre os fazeres e a filosofia da pacha, palavra
que significa tempo, espaço e mundo entre o povo Quéchua-lamas da Alta
Amazônia peruana, no sopé andino. Esse foi um trabalho realizado com
os membros da Waman Wasi, organização sem fins lucrativos que acom-
panha as comunidades da região da província peruana de Lamas, desde
2002, e que, em abril de 2016, organizou a visita dos Dias de Estudo —
Lamas, Peru.
Enquanto preparava as fotos para a apresentação, apareceu em minha
página do Facebook uma caricatura assinada pelo pensador colombiano
Enrique González Ayerbe. O desenho mostra um camponês olhando com
desgosto para suas unhas, e nele está escrito: "Neste país a terra está nas
mãos dos que odeiam tê-la nas unhas". Então, decidi seguir o fio dessa
ironia e começar sinalizando os nossos paradoxos.
Nas comunidades quéchua-lamas que visitamos em abril, vive-se a
contraexemplo desses proprietários fundiários e de nós mesmos, habitantes
das cidades, que consideramos suja a proximidade com o chão e insistimos
em nos distanciar dele, lavando vigorosamente as unhas, nos sentando em

passa por Wayrapurina a caminho da


ACIMA: Emilio Tapullima carrega sal da mina de Tiraco e
Crianças da comunidade de Alto Pucalpillo Shanao fazem seus
comunidade de Shucshuyaku. ABAIXO:
deveres escolares.
mesas. Logo, proponho pensar a ideia de incerteu
cadeiras e comendo em
trilha dos povos cuja terra age na intimidade do corpo a corpo.
viva na
Casa do Falcão Real e é o nome da montanha
Waman Wasi significa
Escalera da paisagem de Lamas. Essa geografia
que domina a cordilheira é
de habitação dos ancestrais e o
também uma casa, o lugar depositáriodo
suas pedras e cachoeiras. A conjunção das noções
tempo e da memória em
termo pacha, da filosofia da paisagem quéchua-la
de tempo e espaço no
ideia de que o espaço é uma forma de guardaro
traz por consequência a
tempo é uma maneira de modelar o espaço.
tempo e, inversamente, que o
movimentar e trabalhar na terra para adquirir
Assim, é necessário olhar, se
guardado nela; principalmente o conhecimento
o conhecimento do passado
ancestrais que se imortalizaram naquela
dos eventos violentos vividos pelos
as
região. Essa violência feita pedra e nascentes são bases e os guardiões
do chão fértil, chamado allpa, no qual, hoje, os humanos constroemsuas
casas e fazem roçados. Por sua vez, o barro que fica sob as unhas fazas
mãos se tornarem instrumentos da fertilidade do chão. Em abril de 2016,
quando visitamos as roças de Lamas, vimos que, após semear uma estacade
macaxeira, os agricultores pressionavam a terra com as mãos abertas.Desse
modo, a planta era capaz de dar muitos tubérculos, eles disseram, "comoos
dedos das mãos". Cultivar é a arte de devolver a fertilidade do chão aochão
por meio do trabalho das mãos e dos braços, que transferem sua formapara
a estaca de macaxeira, fazendo que dela brotem dedos.
As imagens que acompanham este texto são fotos do dia a dia dasfamí-
lias: os trabalhos, o descanso, a aprendizagem, as festas e as comidas,em
a proximidade com o chão é sempre evidente. O chão é o outro maisfamiliar
que existe para essas comunidades. Antes de se relacionarem com alguém
ou com algo, um animal ou uma planta, as pessoas relacionam-secomo
chão. Pisam no chão, se sentam no chão, aprendem no chão, deitamnochão,
comem no chão. Fazem crescer plantas e filhos no chão. E as mulheres,sen-
tadas no chão, também transformam o barro da terra em panelas e cerâmxa
para conter e servir comida e bebida. A arte da cerâmica, uma técnicaaar:ga
em Lamas, é um processo de transformação
da terra em artefatos, que,_por
sua vez, transformam os produtos da
roça, da floresta e do rio para torná-bs
comestíveise nutrir os corpos dos parentes.
A argila modelada pelasmãos
se torna um ventre que cozinha
e fermenta os alimentos, pois a chichade
milho, uma bebida fermentada, é
o complemento diário das refeiçõese 0
ingredienteindispensáveldas
festividades. Para cada grande festa do ciclo
anual, as mulheres fazem
novas panelas e louça para atender os con
Especialmente para a festa de Santa Rosa, no fim
de agosto, que congrega
jovense anciões das comunidades da região para beber, comer e dançar nos
largosde terra batida do bairro de Wayku, em Lamas, o coração do territó-
rioquéchua-lamas.Depois da festa, a louça é usada até se quebrar e retornar
aochão.Os pedaços dessa cerâmica serão moídos em pó e misturados à
argila,e reutilizados pelas mulheres para compor novas panelas e louças das
festaspor vir.
Os movimentosdas pessoas que vivem nessa intimidade com o chão
estãoarticulados a uma postura corporal impressionante, muito diferente
da nossanas cidades, que mal nos permite ficar de cócoras ou sentados com
as pernasesticadas e as costas retas por poucos minutos sem sentir dor. A
posturacentrada, e ao mesmo tempo flexível, é um elemento vital para com-
preendera maneira como os homens e as mulheres encaram as incertezas
de sua existência, pois ela possibilita esse relacionamento carinhoso com o
chão,essa aceitação da conexão física com a terra que sustenta a percepção
sensívele intelectual das mudanças que acontecem ao redor. A horizonta-
lidadedo chão é um campo de comunicação com o outro. A postura física
nosleva a prestar atenção nos pequenos detalhes. Perto do chão é possível
observaros efeitosdas mudanças do clima na umidade da terra, na presença
devermes,fungos e insetos, na cor das folhas caídas e nos resíduos e semen-
tes deixadas pelas aves.
Sentadasno chão, as mulheres preparam a comida e conversam. Fazendo
umalevepressão com as unhas, elas extraem o feijão verde das vagens
trazidasda roça. Esse parto cotidiano das sementes é uma ação que revela
os sentidosdaquilo que os Quéchua-lamas chamam Ilullo, o terno, o que re-
quercuidado e paciência. Essas famílias cultivam mais de quarenta varieda-
desde feijãoherdados de seus antepassados ou coletados durante viagens. O
manejodas sementes é uma tecnologia ancestral imprescindívelpara encarar
asincertezasda existência, pois, na ternura das sementes, repousa a possi-
bilidadedos alimentos futuros e da continuação das gerações e do tempo. A
lua,querege seu calendário agrícola, também nasce terna e delicada, como
umasemente.Costuma-se dizer que Ilullu killa, a lua crescente, está repleta
deágua e chora facilmente, como um recém-nascido. Quando ela se torna
minguante,seca até desaparecer, porque a lua é água e suas fases governam
asenchentese as secas da seiva das plantas e dos rios Cumbaza e Mayo, que
percorremas florestas de Lamas. A lua é, na verdade, o que realmente man-
da nessaregião. "Para mim, só as fases da lua e as estrelas me governam"
medissecom uma piscadela um agricultor, que afirmava não se submeter às

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ordensde nenhum político, mas obedecer
fielmenteaos astros. Uma planta
semeadaou uma árvore cortada na fase lunar
errada não produz nada útil
para os seres humanos. Por isso, aprender a
ler as fases da lua e os ciclos
de suas águas é fundamental para entender os
sinais do tempo, planejar e
pensar alternativas diante das incertezas e das
mudanças.
A incerteza, porém, não é algo novo em Lamas.
"Sempre houve in-
certezas",nos disseram. A questão é saber se movimentar
para lidar com
elas, pois a resposta à ansiedade gerada pela incerteza está
justamente na
possibilidadede circular e acionar as redes de parentesco
que se estendem
pelo território. As sementes, por exemplo, precisam se movimentar,
passar
de mão em mão para não estancarem. As mulheres também, elas saem de
casa levando suas sementes para criar filhos e plantas em outro lugar. O
casamento quéchua-lamas se baseia no que nós, antropólogos,chamamos
virilocalidade, isto é, depois de se casar, a mulher vai viver na comunidade
do marido. Desse modo, o matrimônio opera uma redistribuição constante
das pessoas e possibilita estabelecer os laços de ajuda e de fluxos de troca
que o atravessam. Como a região é montanhosa, ela abarca diversospisos
ecológicosque se situam entre os 500 e 2.500 metros de altitude. Algumas
comunidadesse encontram na parte baixa, na beira dos rios; outras, na
ladeira; e outras, ainda, bem acima. Então, o casamento faz se articularem
os diversos pisos ecológicos entre si. As mulheres que cresceram nas zonas
baixas e têm conhecimento dos cultivos, dos peixes, das aves, dos animais
vão viver nas alturas. Aquelas que foram criadas nas alturas, vão viver na
ladeira, e assim sucessivamente. Por meio desse deslocamentodas mulheres,
a região torna-se um território vivo.
Quando nas ladeiras não chove o suficientee os brotos de uma variedade
de feijãomorrem no chão, as famílias têm outras variedades mais resistentes
à seca que as salvam da fome. A diversidade é a chave para lidar com as
incertezas do dia a dia. E quando a situação piora e, apesar do uso de alter-
nativas, as plantas morrem, as famílias são salvas da fome por seus parentes
chove mais e há
que vivem em outros pisos ecológicos. Nas alturas, sempre
por
reservasde alimentos para sustentar os parentes nas áreas mais baixas
e serviçospossa
algum tempo, até que o clima mude e a troca de alimentos
continuar.
limitam aos momentos da cri-
Mas esses movimentos de alimentos não se
Sempre que alguém visita os
se climática. Acontecem de maneira corriqueira.
casa e volta para casa trazen-
parentes em outro lugar, leva para eles algo de
variadas e muito sofisticadas.
do alguma coisa de lá. Assim, as refeições são

trabalham choba
comunidade de Alto Pucalpillo
ACIMA: Feijão fava habitas. ABAIXO:Crianças da
choba, na horta escolar.

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09 e

tocjo%00 gt'À0(lcg
d'Oba j
rog;a, os
para prodi//ir cerAmica, (Joi( e 09 é pois
e brioca(lcirau o" ,Ji/lit$it' os
é ta tobé/ï) incertei/,a (je
se reéoem os e vi'/,injjog,
pesados e ajudar qucm prcciga cogn facilidade, tctnpo curto,
corporal que vivejjj pcrto do "tentog not' da terra,
joa c das oc traduz, portanto, social de gititonia o
outro de troca e da e do territôfio,
os tatnbém sintonia e
força masculina principalmcn(c, jnateriaig duroge
intensos, como o trabÀjho de cargo e a cong(ruçÀocorn madcira,
os bomcng que os de rnadcira e os
utilizados pelas para carrep,ar e cortot', jnocr e
NO diz respeito à força das dog
retsigtência
especiajmetite, dos tccid0f4 de (l(iC ge (IcgfA/,cjnfacilmctitc
c para arnnrrar coigag e pcsgoas. Scotodas no chat),
cimm chumbes que os
ao redor do
cm cima do utnbi?/), l)izcrn que a
que carrcga /Jj(litopeso
proteçâo do cbumbe coloca a
cm rigco, poig vértcbras e
internos poderiam gai/ do jugar,
fi,a força da fcita de
das que tcce os laços e os circuitos
de cotnunicaçÀo que
o tempo e jnantém os
corpos e o territôrio
Uma semente é o início do tempo, como a
terna lua crescente, mas contém
também todas as incertezas, pois não se sabe
sc cla germinará, se ela criará
raízes no chão onde será semeada. Foram muitas as
violênciasdo passado
que se encarnaram nas formas da paisagem dc
Lamas, desde a época dos
relatosmíticos aos séculos da colonização europeia
e os subsequentesbooms
económicosda seringueira, da madeira, das drogas, do
petróleo e do garim-
PC).Apesar de tantas incertezas, indissociáveisda própria
temporalidade,
as mulheres e os homens quéchua-lamas lograram exorcizar as ameaças
constantes em sua história graças à sua admirável sintonia com o chão e o
que há ao redor. Hoje, a pior ameaça que eles enfrentam não é a mudança
e a imprevisibilidadedo clima, mas a imposição de uma fixidezque os con-
denaria a abrir mão dos fluxos de seu território. Porque a maioria das terras
indígenasainda não está oficialmente demarcada e, portanto, elas estão
sendoinvadidas, desmatadas, vendidas ou doadas em concessão pelo Estado
peruano, que, em tese, deveria protegê-las. Porque o fomento do agronegó-
cio na região, especialmente da palma africana, tem devorado a agrodiver-
sidadee deixado as famílias totalmente dependentes do mercado agrícola.
Os rios também são postos em concessão, e não é mais permitido pescar. As
montanhas da cordilheira Escalera agora pertencem a um parque de con-
servaçãoonde a caça, a pesca e a coleta de sal não estão autorizadas, e os
caminhantes à procura do conhecimento e da força espiritual guardada nas
pedras e nas cachoeiras da paisagem não podem mais circular livremente.
As incertezas de hoje residem na imposição da certeza do confinamento:não
mais fazer trocas de alimentos, nem entretecer os cabelos no choba choba,
nem juntar os casais nas grandes festas para que as mulheres possam levar
suas bagagens e seus conhecimentos de um piso ecológico a outro. A pacha
está sendo compartimentalizada, dividida por cercas, barragens e calendá-
rios que pouco têm que ver com o governo da luna terna. A pior incerteza
—aquela que não é viva, mas fixa —é a certeza de saber que, ao seguir assim,
não será mais possível colocar o chão e as sementes em movimento.

Agradeçoàs mulheres e aos homens quéchua-lamas e a todos os membros


especialmente,a
de Waman Wasi pelo trabalho compartilhado. Agradeço,
Luis Orlando Romero,
GladysFaiffer, Girvan Tuanama, Gregório Sangama,
Jorge Rengifo e Grimaldo Rengifo por sua hospitalidade.

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@ Copyright da publicação: Fundação Bienal de São Paulo. Todos os
direitos reservados.

As imagens e os textos reproduzidos nesta publicação foram cedidos


por artistas, fotógrafos, escritores ou representantes legais e são
protegidos por leis e contratos de direitos autorais. Todo e qualquer
uso é proibido e condicionado à expressa autorização da Bienal de
São Paulo, dos artistas e dos fotógrafos.

Todos os esforços foram feitos para localizar os detentores de


direitos das obras reproduzidas, mas nem sempre isso foi possível.
Corrigiremos prontamente quaisquer omissões, caso nos sejam
comunicadas.

Este livro foi publicado por ocasião da mostra 32a Bienal de


São Paulo —INCERTEZA VIVA,realizada entre 7 de setembro
e 11 de dezembro de 2016, no Pavilhão Ciccillo Matarazzo,
Parque Ibirapuera, São Paulo.

www.bienal.org.br

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação - (CIP)

32a Bienal de São Paulo : Incerteza Viva : Dias de Estudo. Pesquisas para
a 32a Bienal em Santiago, Chile; Acra, Gana; Lamas, Peru; Cuiabá e
São Paulo/ Organizado por Jochen Volz e Isabella Rjeille. — São Paulo :
Fundação Bienal de São Paulo, 2016.
240 pp.

Curadores: Jochen Volz, Gabi Ngcobo, Júlia Rebouças, Lars Bang Larsen,
Sofía Olascoaga.

ISBN: 978-85-85298-56-2

1. Arte —Exposições —Catálogos. l. Volz, Jochen. II. Ngcobo, Gabi.


III. Rebouças, Júlia. IV. Larsen, Lars Bang. V. Olascoaga, Sofía.
Vl. Rjeille, Isabella.

CDD-700.74

índice para catálogo sistemático:


1. Arte : Exposições : Guias 700.74

Fontes: Sabon (Linotype), e Knockout (Hoefler & co.)


Papéis: Cartão Super 6 Plus 240g/m 2 e Off Set 90 g/m2
Pré-impressão e impressão: Ipsis
Tiragem: 2.000

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