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O MITO DO EMPREENDEDOR (GERBER, Michael E., Saraiva, 1990).

O mito do “E” é o mito do empreendedor. Ele está profundamente arraigado neste país com um
toque de heroísmo. Tente imaginar o típico empreendedor, e logo surgem visões hercúleas: um homem ou
uma mulher enfrentando, sozinhos, os elementos hostis, lutando corajosamente contra obstáculos quase
invencíveis, escalando faces de ameaçadores penhascos – tudo apenas para realizar o sonho de criar seu
próprio negócio. A lenda cheira a nobreza, a esforços elevados e sobre-humanos, a compromissos com
ideais quase inatingíveis.
Pois bem, sem dúvida esse tipo de gente existe, mas a experiência me mostrou que é muito raro.
Entre os milhares de empresários com quem tive contato e a oportunidade de trabalhar, pouquíssimos eram
verdadeiros empreendedores quando os conheci. Na maioria deles as visões tinham quase desaparecido. A
vontade de escalar tornou-se fobia de altura. A face do penhasco transformara-se antes em algo onde
agarrar-se do que em um desafio a ser vencido. Havia muito mais esgotamento que animação.
No entanto, em algum momento todos eles devem ter sido empreendedores. Afinal iniciaram seus
próprios empreendimentos. Deve ter havido algum sonho a levá-los a correr este risco. Mas, neste caso,
onde foi parar o sonho? Por que ele sumiu? Onde foi parar o empreendedor que iniciou o negócio?
A resposta é simples: ele existiu apenas por um instante. Um segundo fugaz no tempo, que logo
passou. Na maioria dos casos para sempre. Quando o empreendedor sobreviveu, ele não passava de um
mito surgido do equívoco sobre quem se estabelece e por que motivo. Um equívoco que tem custado caro a
este País – muito mais do que podemos imaginar – em recursos, em oportunidades desperdiçadas e em
vidas arruinadas. É este mito, este equívoco, que chamo de o mito do “E”, o mito do empreendedor.

O ataque de empreendedorismo
Para compreender o mito do “E” e os equívocos que constituem sua base vamos examinar de perto
a pessoa que inicia um negócio. Não depois, mas antes dele começar.
Onde você estava antes de iniciar seu próprio negócio? (caso esteja pensando agora em iniciá-lo, o
que faz atualmente?) Se for igual a 99% das pessoas que conheci, estava trabalhando como empregado de
alguém.
O que fazia? Porventura algum trabalho técnico, igual à grande maioria daqueles que abrem seu
próprio negócio. Você era carpinteiro, mecânico, serralheiro, contador, veterinário, desenhista, cabeleireiro,
barbeiro, programador de computadores, médico, redator técnico, artista gráfico, escriturário, projetista de
interiores, bombeiro, vendedor ou profissional do seguimento supermercadista. Seja qual for a profissão
que exercesse, você estava fazendo algo técnico; provavelmente de excelente qualidade. No entanto,
estava trabalhando para um patrão.
Certo dia, sem motivo aparente, alguma coisa aconteceu. Pode ter sido o tempo, um aniversario, a
formatura do filho. Quem sabe o salário que você recebeu no fim daquele mês, ou uma olhada do patrão
que não gostou, ou talvez ainda a sensação de que ele no fundo não estava dando o devido valor á sua
contribuição para o sucesso da empresa dele.
Pode ter sido qualquer coisa, não importa a razão. O fato é que, um dia, sem qualquer motivo óbvio,
de repente, você foi tomado por um ataque de empreendedorismo.
Daí em diante sua vida nunca mais foi a mesma.
Em sua cabeça isso soava assim: “Para que estou fazendo tudo isso? Por que estou trabalhando
para aquele cara? Por Deus, sei tanto sobre este negócio quanto ele. Se não fosse por mim ele nem teria
esta firma. Qualquer idiota pode dirigir uma empresa. E eu estou trabalhando para um”.
A partir do momento em que você prestou atenção ao que estava pensando e começou a levá-lo a
sério, estava perdido. A ansiedade de cortar o cordão umbilical não o deixava mais. A idéia de
independência perseguia-o sem cessar. A imagem de ser seu próprio patrão, de trabalhar para si próprio, de
cantar sua própria canção, tornava-se maravilhosamente irresistível.
Desde o instante em que foi atingido pelo empreendedorismo não houve mais sossego. Você não
conseguiu livrar-se dele. Tinha simplesmente de começar seu negocio.

A suposição fatal
Vítima do ataque de empreendedorismo, você incorreu na suposição mais desastrosa que uma
pessoa poderia fazer a respeito do inicio de um negocio. Trata-se daquela feita por qualquer técnico que se
estabelece por conta própria, a que traça o curso do negócio – a partir da grandiosa abertura até a
liquidação – o momento em que ele chega a essa conclusão.
A suposição fatal é a seguinte: entendendo o lado técnico de um negócio, você entende a empresa
que lida com essa técnica.
A fatalidade reside no fato de que isso não é verdade. Na realidade, ela é a causa da maioria dos
negócios fracassados.
O lado técnico de um negócio e uma empresa que lida com essa técnica são duas coisas totalmente
diferentes! Porém, o técnico que inicia um negócio próprio não vê essa diferença. Para ele, um negócio não
é um negócio, mas um local de trabalho.
Dessa forma, o carpinteiro transforma-se num empreiteiro. O barbeiro abre uma barbearia. O
redator técnico abre uma editora técnica. O cabeleireiro abre um instituto de beleza. O engenheiro monta
uma indústria de semicondutores. O músico abre uma loja de artigos musicais. Todos eles acreditando que
seu conhecimento sobre o lado técnico de seu negócio os qualificaria perfeitamente para geri-lo.
Errado! Pelo contrário, o conhecimento do lado técnico, em vez de ser uma vantagem, passa a ser
sua maior dificuldade, pois se o técnico não soubesse como executar o trabalho técnico de seu negócio
teria de aprender como mandar fazê-lo. Ele seria forçado a aprender como fazer funcionar o
empreendimento, em vez de executar ao trabalho ele próprio.
Quando o técnico é vitimado pela suposição fatal, o empreendimento que deveria libertá-lo das
limitações de trabalhar para outros passa a escravizá-lo. De repente, aquele trabalho que ele executava tão
bem se transforma em algo que conhece, somado a uma dúzia de outros que tem idéia de como fazer.
Isso porque, embora tivesse sido o ataque de empreendedorismo que iniciou o empreendimento, é
o técnico quem tem de trabalhar. E repentinamente o sonho empresarial transforma-se no pesadelo do
técnico.

O EMPREENDEDOR, O GERENTE E O TÉCNICO

O técnico não é o único problema. A situação complica-se pelo fato de que cada pessoa que inicia
um negócio é na realidade três pessoas em uma: o empreendedor, o gerente e o técnico. Cada um desses
personagens quer ser patrão. Então eles iniciam um negócio juntos, a fim de livrar-se do patrão. Aí começa
o conflito.

O Empreendedor
A personalidade empreendedora transforma a condição mais insignificante numa excepcional
oportunidade. O empreendedor é o visionário dentro de nós. O sonhador. A energia por trás de toda
atividade humana. A imaginação que acende o fogo do futuro. O catalisador das mudanças.
O empreendedor vive no futuro, nunca no passado, raramente no presente. É mais feliz quando livre
para construir imagens de “e se...” e de “e quando...”
Nos negócios, o empreendedor é o inovador, o grande estrategista, o criador de novos métodos
para penetrar ou criar novos mercados, o gigante dominador de mundos – com Sears, Henry Ford, Tom
Watson (IBM) e Ray Kroc (McDonald’s).
O empreendedor é a personalidade criativa; sempre lidando melhor com o desconhecido,
perscrutando o futuro, transformando possibilidades em probabilidades, caos em harmonia.
Toda personalidade fortemente empreendedora tem extrema necessidade de exercer controle.
Quem vive, como ela, no visionário mundo do futuro, precisa ter controle sobre pessoas e eventos atuais, a
fim de poder concentrar-se em sonhos.
Devido a sua necessidade de mudanças, o empreendedor cria muita confusão à sua volta,
previsivelmente perturbadora para as pessoas que o ajudam em seus projetos. Por isso ele muitas vezes
adianta-se demais aos outros. Quanto maior a sua dianteira, mais esforço será necessário para arrastar os
outros com ele. Assim forma-se a visão empreendedora do mundo: um mundo que seria um misto de
abundância de oportunidades e de pessoas arrastando os pés.
A questão é: como ele pode perseguir as oportunidades sem ficar enroscado com os pés que se
arrastam? Sua reação mais comum é de tiranizar, pressionar, criticar, bajular, agradar, ameaçar e, por fim,
quando nada mais resolve, prometer qualquer coisa para manter o projeto andando.
Para o empreendedor, o “homem comum” é sempre um problema que tende a obstruir o sonho.
O Gerente
A personalidade gerencial é pragmática. Sem o gerente não haveria planejamento, nem ordem, tão
pouco previsibilidade.
Ele é aquela parte de nós que vai à Sears e compra pilhas de caixas plásticas, leva-as à garagem e
de forma sistemática guarda cada tamanho de parafusos, porcas e pinos na gaveta devidamente
identificada. Em seguida pendura cada ferramenta na parede, em ordem impecável e, para ter certeza de
que essa ordem não será perturbada, faz o contorno de cada peça na parede, no lugar onde ela deve ficar!
Do mesmo modo que o empreendedor vive no futuro, o gerente vive no passado. Enquanto o
primeiro almeja controle, o segundo almeja ordem. Enquanto o empreendedor prospera nas mudanças, o
gerente se agarra de forma compulsiva ao status quo. Enquanto o empreendedor invariavelmente enxerga
as oportunidades nos acontecimentos, o gerente infalivelmente vê os problemas.
O gerente constrói uma casa e vive nela, para sempre. O empreendedor constrói uma casa e, tão
logo ela esteja pronta, começa a planejar a próxima.
O gerente cria fileiras bem arrumadas de objetos. O empreendedor cria objetos que o gerente
arruma em fileiras. O gerente é aquele que fica correndo atrás do empreendedor para endireitar a confusão.
Sem o empreendedor não haveria confusão para endireitar.
Sem o gerente não poderia haver uma empresa, uma sociedade. Sem o empreendedor não haveria
qualquer inovação, pois é da tensão entre a visão do empreendedor e do pragmatismo do gerente que
nasce a síntese da qual surgem todas as grandes obras.
O Técnico
O técnico é o executor. “Se quiser ver uma coisa bem-feita, faça-a você mesmo”, é seu lema. O
técnico adora mexer. As coisas devem ser desmontadas e remontadas. Não devem apenas ficar no plano
do sonho, elas devem ser postas em prática.
Enquanto o empreendedor vive no futuro e o gerente no passado, o técnico vive no presente. Ele
adora o palpável e o fato de que as coisas podem ser feitas. Enquanto estiver trabalhando, ele é feliz, mas
lidando apenas com uma coisa de cada vez. Sabe que não é possível fazer duas coisas ao mesmo tempo;
só um idiota tentaria. Assim trabalha tranqüilo e fica felicíssimo quando ele mesmo pode controlar o ritmo de
trabalho. Em função disso, o técnico desconfia daqueles para quem trabalha, pois eles querem sempre
obter mais dele do que seria possível ou necessário.
Pensar é, para o técnico, uma ocupação improdutiva, a não ser que se trate de algo para o trabalho
a ser executado. Em conseqüência disso, ele desconfia de idéias grandiosas ou abstrações. Pensar não é
trabalho, interfere no trabalho. Não se interessa por idéias, seu interesse limita-se a como fazê-lo. Qualquer
idéia, para ter algum valor, deve ser reduzida a uma metodologia. E por boas razões. O técnico sabe que,
se não fosse por ele, o mundo seria ainda pior do que já é. Nada seria feito, mas um monte de gente estaria
pensando no caso.
Em outras palavras: o empreendedor sonha, o gerente preocupa-se e o técnico rumina.
O técnico é um individualista, resoluto, firme em sua posição, que produz o pão do dia para comer
no jantar. Ele é a coluna mestra de toda tradição cultural, acima de tudo da nossa. Se ele não o fizesse, não
seria feito nunca.
Todo mundo atrapalha o técnico. O empreendedor está sempre lhe complicando o dia com a criação
de mais uma “grande idéia”. Por outro lado, ele está sempre criando obras novas e interessantes para o
técnico executar, estabelecendo com isso um relacionamento potencialmente simbiótico. Entretanto, isso
raramente ocorre. Já que muitas das idéias empreendedoras não funcionam no mundo real. A experiência
mais comum do técnico é a frustração e a irritação por ter sido interrompido durante uma tarefa
imprescindível para experimentar algo novo que talvez nem precise ser feito.
Também o gerente é um problema para o técnico, devido a sua determinação de impor ordem no
trabalho do técnico, de reduzi-lo a uma parte “do sistema”. Mas este, sendo um grande individualista, não
agüenta ser tratado dessa maneira. Para o técnico “o sistema” é desumano, frio, asséptico e impessoal. Ele
viola sua individualidade. Trabalho é aquilo que uma pessoa executa, e quando deixa de ser assim o
trabalho passa a ser algo estranho. Para o gerente, entretanto, ele é um sistema de resultados, no qual o
técnico nada mais é que um componente.
Assim, para o gerente, o técnico transforma-se num problema a ser administrado. Para o técnico, o
gerente passa a ser um intrometido a ser evitado. Para ambos o empreendedor é aquele que causou toda a
confusão em primeiro lugar!
A verdade é que todos temos um empreendedor, um gerente e um técnico dentro de nós. Se
estivessem bem equilibrados entre si, estaríamos descrevendo uma pessoa muitíssimo competente.
O empreendedor estaria livre para avançar em novas áreas de interesse; o gerente estaria
consolidando a base de operações e o técnico estaria executando o trabalho técnico. Cada um estaria
sentindo-se realizado com o trabalho que sabe fazer melhor, contribuindo para o todo da maneira mais
produtiva. No entanto, a experiência nos mostra que poucas pessoas, que iniciam um negócio são
abençoadas com esse equilíbrio. Pelo contrário, o pequeno empresário típico é apenas l0% empreendedor,
20% gerente e 70% técnico.
O empreendedor se anima com uma idéia. O gerente grita “Ah não!”. E, enquanto os dois estão
brigando, o técnico aproveita a oportunidade para estabelecer-se por conta própria. Não para perseguir o
sonho empreendedor, mas para finalmente tirar dos outros dois o controle sobre seu próprio trabalho.
Para o técnico é esta a realização de seu sonho. O patrão está morto. Entretanto, para a empresa é
um desastre, pois a pessoa errada está no leme. É o técnico quem assumiu o comando!

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